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A Outra Face do Amor “Love`s Vendetta” Stephanie Howard

Um plano de sedução para desmascarar um homem sem escrúpulos! Ângela preparou-se cuidadosamente para a entrevista com Max Fielding: esmerou-se na maquiagem e escolheu uma roupa ousada e provocante. E quando os olhos dele passearam por seu corpo, sem disfarçar o interesse, Ângela teve a certeza de que sua estratégia havia funcionado. Aquele dom-juan iria contratá-la para ser sua secretária, imaginando que facilmente a tornaria em mais uma de suas amantes. Ângela precisava apenas de algumas provas para desmascarar a verdadeira identidade e Max: um vigarista cruel e impiedoso!


Sabrina 754 – A Outra Face do Amor – Stephanie Howard Digitalização e Revisão: Alice Maria

Copyright © 1992 by Stephanie Howard Publicado originalmente em 1992 pela Mills & Boon Ltd., Londres, Inglaterra Todos os direitos reservados, inclusive o direito de reprodução total ou parcial, sob qualquer forma. Esta edição é publicada por acordo com a Mills & Boon Ltd. Todos os personagens desta obra são fictícios. Qualquer semelhança com pessoas vivas ou mortas terá sido mera coincidência.

Título original: Love's Vendetta Tradução: Shirley Gomes Copyright para a língua portuguesa: 1993 — EDITORA NOVA CULTURAL LTDA. Al. Ministro Rocha Azevedo, 346 — CEP 01410-901 — São Paulo - SP — Brasil — Caixa Postal 9442 SERVIÇO DE ATENDIMENTO AO ASSINANTE Telefone: (011) 851-3111 Cartas para: "Central de Atendimento" Al. Ministro Rocha Azevedo, 346 -— 4o andar — CEP 01410-901 — São Paulo Esta obra foi composta na Editora Nova Cultural Ltda. Impressão e acabamento: Gráfica Círculo Foto de capa: RJB

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Sabrina 754 – A Outra Face do Amor – Stephanie Howard

CAPÍTULO I

— Está procurando alguma coisa em particular, srta. Smith, ou pretendia apenas se familiarizar com os objetos do meu escritório? Ao ouvir a voz do homem, vinda da direção da porta, Ângela virou-se abruptamente para encarálo. Sofreu um grande choque. Ele não se ajustava em nada à imagem que dele fizera. Ela lhe deu um sorriso radiante, dissimulando a surpresa. — Ah, sr. Fielding... não percebi a sua chegada. Ângela havia presumido que fosse muito mais velho e gordo, devido aos excessos da boa vida que levava. Mas o homem parado à sua frente exibia um ar saudável e não parecia ter uma única gordurinha sobrando em seu magnífico físico atlético. O terno azul-marinho delineava músculos fortes e bem desenvolvidos. Os cabelos eram lisos e negros e os traços harmoniosos do rosto muito bonitos. Devia ter, no máximo, trinta e poucos anos. Mas não havia dúvida de que era o homem que fora encontrar. Fisicamente podia não ser como havia imaginado Max Fielding, mas o ar arrogante e presunçoso não deixava dúvidas quanto à sua identidade. Odiava esse homem com todas as suas forças. Max Fielding arruinara seu pai financeiramente e sua mãe acabara ficando viúva e sem um vintém. Ele lhe sorria naquele momento, os olhos percorrendo-lhe o corpo com visível interesse, demorando-se na saia curta que ela usava e no pulôver de fio cintilante, colado ao corpo. A roupa provocante havia sido escolhida com a dedo justamente para revelar cada curva de seu corpo. Um traje que não combinava com seu jeito habitual de se vestir, mas que a ajudaria a p ôr em prática um plano elaborado em detalhes. Por falta de palavra melhor, Ângela diria que estava servindo de "isca". E ele a estava mordendo, Ângela percebeu com uma ponta de satisfação quando, sem pressa, os olhos indolentes se fixaram no rosto dela. — Se me permite observar, srta. Smith, parece-me óbvio que não tenha percebido a minha chegada. Do contrário, duvido muito que eu a surpreendesse examinando com tanto interesse as minhas estantes. — Não estava examinando, sr. Fielding. Simplesmente admirava os objetos. Ao rebater a acusação, Ângela esforçou-se por manter o tom suave, reprimindo o impulso de responder à altura a sua sutil hostilidade. Mas não devia hostilizá-lo. Tinha pela frente uma missão importante, e precisava conseguir o emprego temporário de secretária particular. Tudo que planejara dependia disso. — Estava apenas admirando sua coleção — repetiu ela com um sorriso sedutor a iluminar-lhe o

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Sabrina 754 – A Outra Face do Amor – Stephanie Howard rosto. — Tem obras excepcionais nessas estantes. E não é o tipo de coleção comum de se encontrar em um escritório. — É mesmo? Ele continuava parado na porta e sua postura altiva, assim como o físico forte, conseguiram intimidá-la. Mas Ângela respirou fundo, dominando a sensação de ter sido presa numa armadilha. Afinal, a situação tinha de ser inversa. — E o que alguém esperaria encontrar num escritório? Vamos, diga-me, já que parece ser expert no assunto. — Ele lhe lançou um sorriso condescendente e Ângela deu-se conta de que não fora por acaso que havia se sentido uma prisioneira. Mas era exatamente como ele queria que se sentisse. Ela se afastou da estante, dando um passo para o centro da sala, deliberadamente desfazendo essa ilusão. Disfarçou um sorriso. Ah, se ele soubesse! Ele era a presa que logo cairia na armadilha! Com um gesto gracioso, ela deu de ombros e jogou os cabelos castanhos e ondulados para trás. — Oh, não sei. Talvez esperasse encontrar livros sobre negócios. No seu caso, sobre investimentos bancários e operações financeiras... Calou-se, ciente de que o olhar masculino voltava a deslizar por seu corpo, visivelmente interessado. "Consegui!", pensou triunfante. "Ele caiu como um patinho!" Apesar de tentar demonstrar hostilidade, ele estava dominado por um desejo forte quase indisfarçável. Ela tinha avaliara seu gosto por mulheres de maneira perfeita! Novamente sorrindo, ela acrescentou: — Também não é comum se deparar com uma coleção de objetos de arte tão especiais num escritório. — Gosta da minha coleção? — Ele usou um tom ligeiramente insolente. Na verdade, pouco se importava se ela a apreciasse ou não. — Acho-a belíssima. Em especial, aquelas duas peças. — Ela apontou para uma estatueta africana, esculpida em madeira, e para uma magnífica gema com incrustações de pedras preciosas. — É uma peça de Fabergé, não é? — Ângela perguntou com admiração, referindo-se a um famoso ourives russo. — Mas claro, você é um grande especialista no assunto. — É o que dizem. — O elogio pareceu diverti-lo. Max sorriu, encarando-a por um momento. — Mas dizem que sou especialista em muitas outras coisas também. Ela sabia o que Max Fielding queria dizer, e também tinha ouvido falar que era um grande colecionador de mulheres bonitas. Por isso fora até lá, vestida de forma provocante, para tentar aproveitar-se de sua conhecida fraqueza e persuadi-lo a admiti-la como sua assistente temporária. Ainda sorrindo, ele perguntou: — Também é uma especialista, srta. Smith? — Ângela esforçou-se para não corar diante insinuação evidente naquelas palavras. O tipo de mulher que o interessava não corava com facilidade. Atrevida, ela retribuiu o sorriso. — Não diria isso, mas tenho bom gosto para discernir o que é bom. — Nesse caso, temos algo cm comum. Eu também aprecio muito o que é belo. — Ele fez uma pausa e, com os olhos fixos nela, prosseguiu: — E sempre que vejo algo que acho bonito, desejo

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Sabrina 754 – A Outra Face do Amor – Stephanie Howard possuí-lo. Enquanto falava, admirava-o abertamente. De repente, Ângela sentiu uma súbita onda de pânico ao imaginar o que se passava na cabeça dele. Era melhor que tivesse cuidado. Aquele homem estava longe de ser o empresário inepto e grosseiro que imaginara, e que pretendera manipular sem dificuldade. Max Fielding era completamente diferente, uma verdadeira caixinha de surpresas, insinuante e perigoso. Ele a fitava agora com aqueles olhos verdes penetrantes que cada vez que a percorriam lhe provocavam arrepios. — Bem, agora já sabe por que tenho objetos de arte em vez livros em meu escritório. Gosto de me ver rodeado de coisas bonitas. — Seu olhar pairou sobre o rosto dela. — A beleza me inspira. Principalmente, a beleza que brilha, que ousa se exibir. Então, enquanto Ângela procurava ocultar sua perplexidade, ele acrescentou, os lábios ostentando um desdém mal disfarçado: — E, como colecionador, conforme lhe disse, não me contento em apenas admirar o que é belo, prefiro possuí-lo. Tenho mesmo uma compulsão em adquiri-lo e tomá-lo meu. De súbito, ela desejou estar coberta dos pés à cabeça. Ou poder dar-lhe as costas e sair correndo dali. Contudo, tinha de permanecer firme. Engoliu em seco e murmurou com um sorriso forçado: — Bem, eu adoro a sua coleção. — Além disso — continuou ele —, não preciso abarrotar as estantes com livros sobre negócios e investimentos. Já sou muito bem familiarizado com a minha profissão. Mas quanta modéstia! Mesmo assim, Ângela ficou aliviada pela mudança de assunto. — Oh, sei disso. Conheço a sua reputação. — E enquanto lhe lançava um rápido sorriso, odiando-o, desprezando-o, e notando uma vez mais que seu elogio não o afetava, ocorreu-lhe que sob aquela ilimitada arrogância escondia-se um coração de feno. Aquele homem não era duro e inflexível apenas na aparência. A força de seu caráter ao mesmo tempo a impressionava e assustava. Sua missão seria um desafio bem maior do que havia imaginado, admitiu ao dirigir-se a ele sem esconder a ironia: — E é claro, trabalhar para um homem com a sua reputação representa não apenas um privilégio como um prazer... Max deu seu sorriso costumeiro e afastou-se da porta, interrompendo-a com um aceno de mão. — Por favor, sente-se, srta. Smith, e vamos tratar do assunto que nos reuniu hoje aqui. Ele havia gesticulado na direção de uma escrivaninha de mogno, que ficava ao lado de uma ampla janela que dava para uma sacada. Ângela se sentou numa das cadeiras colocadas em semicírculo diante da mesa, por um momento admirando a excelente vista do exterior: a grama que se estendia verde e macia, os canteiros de flores esmeradamente cuidados, os olmos e os plátanos vistosos em pleno outono. Ela foi tomada pela mesma surpresa que a perturbou quando entrou no escritório. Afinal, não esperava encontrar o famigerado Max Fielding num cenário tão bonito, numa sala no andar térreo de sua suntuosa mansão, decorada com objetos de arte e móveis antigos. Um homem de coração tão duro quanto o dele não devia ser suscetível àquele tipo de beleza. Alheio à avaliação dela, ele se sentou numa cadeira giratória de couro esverdeado, do outro

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Sabrina 754 – A Outra Face do Amor – Stephanie Howard lado da mesa. E, quando se voltou por um instante para olhar algo no monitor, Ângela pôde analisar seu perfil: o nariz aquilino, os malares salientes, a boca carnuda capaz de provocar dor e prazer. Ele voltou novamente a atenção para ela. — Como sabe, estou no comando da Solid Gold Investments. Será para mim que trabalhará... se conseguir o emprego. As ultimas palavras foram pronunciadas num tom de desafio. Como a dizer-lhe que, para ser aceita, ela ainda precisaria percorrer um longo caminho. — Espero que consiga, sr. Fielding — Ângela assentiu e seu estômago contraiu-se. Precisava conseguir o emprego. Era absolutamente crucial que conseguisse! Ele encostou-se na cadeira, assumindo de repente um ar profissional. — Portanto, srta. Smith, talvez pudesse me dizer por que acha que eu a admitiria como substituta de minha secretária particular? A resposta de Ângela fora preparada com muito cuidado. — Certamente, sr. Fielding. — Ela sorriu e cruzou as pernas, arrumando a saia curta e justa antes de iniciar um relato formidável sobre sua considerável experiência e habilidades. Concluindo, ela lhe garantiu: — Acho que poderá confirmar todas essas informações através da ficha que a agência preparou. — Disso ela não tinha dúvidas, pois ela mesma preparara a ficha da agência. — Sim, eu li a ficha — Max Fielding assentiu. — Devo dizer que a achei muito satisfatória. Enquanto falava, ele ergueu uma das sobrancelhas, gerando fortes expectativas em Ângela. Um sorriso sádico aflorou-lhe nos lábios. — Em alguns aspectos, muito satisfatória... Mas consideravelmente pouco satisfatória em outros. — Oh! — Ângela conteve o nervosismo. "Apenas tenha em mente que o que esse homem fala não é necessariamente o que ele quer dizer, e que um dos seus maiores prazeres é atormentar os outros ", disse a si mesma. Encarando-o com serenidade, ela continuou: — E que aspectos são esses? Ficaria grata se me dissesse quais os pontos que não o agradam. Tenho certeza que posso lhe dar alguma explicação. — Também tenho certeza que pode. — Max Fielding sorriu outra vez com cinismo. — Mas se sua explicação irá me satisfazer é outra questão totalmente diferente. — Pelo menos me dê uma chance. Posso surpreendê-lo — ela o desafiou, um sorriso amplo iluminando-lhe o rosto. — Quem sabe? É possível, embora me sinta inclinado a duvidar disso. — Max Fielding a fitou por alguns segundos e, então, estreitando os olhos, observou: — Diga-me uma coisa... Fiquei com a impressão de que deseja muito este trabalho. Por quê? Novamente, Ângela experimentou uma ponta de nervosismo. A resposta era fácil. Aquele trabalho lhe daria a oportunidade de fazer justiça, pelo menos era o que esperava. Reaver, em nome da mãe, o dinheiro que Max Fielding roubara de seu pai. Mas ele não poderia saber disso. Não deveria saber nada a seu respeito. Precisava convencê-lo de que aquele era um pedido honesto de trabalho. Encarando-o com seriedade, ela começou a falar: — Preciso de dinheiro. Quando se vive de trabalhos temporários, como eu, um curto período

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Sabrina 754 – A Outra Face do Amor – Stephanie Howard de tempo sem emprego pode ser um desastre. Como todo mundo, tenho contas para pagar. E os empregos temporários estão escassos no momento, aqui em Cambridge. Esta é a única oportunidade que encontrarei nas próximas semanas. Se esperava que ele se comovesse com seu suposto dilema, podia perder as esperanças. Nem um pingo de solidariedade suavizou a expressão severa enquanto a observava impassivelmente de sua escrivaninha. — Por que faz trabalhos temporários? — Ele lhe perguntou sem rodeios. — Por que não procura um trabalho fixo? Com as suas qualificações, isso não seria difícil. — É o que pretendo fazer. Mais tarde. Mas neste momento, o trabalho tempor ário me é mais conveniente. — Compreendo. — Os olhos verdes examinavam-lhe o rosto minuciosamente. — Posso lhe perguntar quando foi seu último trabalho temporário? Ângela estivera rezando para que não lhe fosse feita aquela pergunta. De modo evasivo, respondeu: — A ficha da agência fornece uma relação de todos os meus trabalhos... — Mas sem especificar datas. É isso o que me incomoda. Talvez agora, como prometeu, pudesse me dar uma boa resposta. Teria sido tão fácil mentir ao preencher a ficha que ela própria elaborara, ter acrescentado alguns detalhes inofensivos que não eram verdadeiros. Mas sua natureza honesta e seus escrúpulos não lhe permitiram essa fraude, mesmo sabendo que isso lhe facilitaria a vida. Assim, limitara-se a omitir datas fictícias, na esperança de que ele se contentaria em checar suas referências e não repararia nesse fato. No entanto, Max Fielding, como ela estava descobrindo depressa, era um era um excelente observador. — E então? — Ele a examinava atentamente, esperando por uma resposta. — Acho que já faz algum tempo — Ângela respondeu, mais uma vez evasiva, rezando para não corar e trair seu sentimento de culpa. — E por algum tempo quer dizer semanas ou meses? — Implacável, ele continuava pressionando-a. — Meses. — Quase três anos, se fosse dar uma resposta honesta. E antes que ele lhe pedisse para ser mais clara, ela se apressou em acrescentar: — Mas, nesse meio tempo, esforcei-me para manter em dia minhas habilidades de secretária... — Trabalhando para quem? — Para mim mesma, na verdade. — Nisso, pelo menos, estava sendo honesta. — E por que não continua a trabalhar assim? Ângela deu de ombros, o coração batendo forte no peito. Como poderia livrar-se das perguntas dele sem que tivesse que mentir descaradamente? A última coisa que ele podia descobrir era que ainda estava trabalhando para si mesma, dirigindo a agência de empregos que, supostamente, a mandara para aquela entrevista! Mais uma vez, refugiou-se na evasão. — Você sabe como são as coisas ... Deve ter visto as estatísticas... A maior parte das empresas pequenas não consegue atravessar sequer o primeiro ano. — Ela encolheu os ombros, resignada. — Faz-se o melhor que se pode, mas não se deve ficar surpreso quando os resultados não saem conforme o esperado.

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Sabrina 754 – A Outra Face do Amor – Stephanie Howard — É, tem razão. — Sua voz soou estranhamente sarcástica, e a expressão de seus olhos era indecifrável. Nervosa, ela prendeu a respiração ao perceber que a série de perguntas constrangedoras iria continuar. Mas, para seu alívio, um dos telefones começou a tocar. — Com licença. — Max alcançou o aparelho e girou um pouco na cadeira enquanto falava. Ângela suspirou agradecida por ter escapado naquele momento do que parecia um beco sem saída. Receava que, sob pressão, pudesse trair-se. Observou-o disfarçadamente. Estava diante de um homem astuto, como o havia imaginado, e ela se sentia vulnerável porque mentir e enganar não lhe era natural. Mas o fazia por uma causa justa, Ângela tentou tranqüilizar-se. Portanto, o fim justificaria os meios que devia empregar. E de forma alguma podia desperdiçar aquela preciosa oportunidade. Ela baixou os olhos para a minissaia que deixava à mostra as pernas bem torneadas, alongadas ainda mais com a ajuda de um elegante par de sapatos de salto alto. Reconhecia que o disfarce, que fora obrigada a comprar, já que não possuía nada parecido com aquilo entre suas roupas, e que lhe custara uma pequena fortuna, era mais do que um chamariz. Também a ajudava a manter uma boa distância entre sua verdadeira personalidade e aquela representação. Se se apresentasse despojada de qualquer disfarce, com certeza não se sentiria à vontade, mas vestida daquele jeito ficava muito mais fácil administrar o seu jogo. Afinal, estava apenas representando um papel. Um leve ruído indicou que o telefone foi desligado. Ângela ergueu os olhos, mas Max Fielding continuava na mesma posição. Parecia distante, olhando para fora através da janela. Após alguns instantes, retomou a entrevista. — Então, srta. Smith, a história até aqui é que recentemente deu-se mal em sua empreitada pessoal e decidiu, por enquanto, trabalhar como secretária temporária. Ao terminar a frase, uma luz difusa brilhou na janela e iluminou o rosto dele. Ângela ent ão reparou que cada traço parecia refletir a mesma força selvagem estampada nos olhos verdes, realçados por cílios tão longos que chegavam a surpreender. O cabelo espesso e negro brilhava com intensidade. Vagarosamente, Max Fielding voltou-se para ela. Ângela sentiu o coração disparar. — Afinal de contas, é nesta história que quer que eu acredite? Ângela engoliu em seco. — Por que não deveria acreditar nela? — disse ela tentando sorrir. — Por que eu mentiria? — É, por que mentiria? — Ele moveu um pouco a cadeira com o intuito de encará-la. — Pessoalmente, posso pensar numa série de motivos. Sob a mira daquele olhar intenso, Ângela sentiu-se gelar. Será que ele sabia quem ela era? Teriam seus esforços sido em vão? Com dificuldade, sustentou o olhar penetrante de Max. — Que motivos, por exemplo? Não posso imaginar... — Não pode? Então, deixe-me fazer algumas sugestões. Talvez seja uma ladra que, com a desculpa de. trabalhar para mim, só queira ter livre acesso a minha casa Minha casa, mais que meu escritório, está repleta de objetos cujo valor de venda garantiria seu sustento pelo resto de seus dias. — Mas isso é ridículo! — Uma sensação de alívio tomou conta dela. Graças a Deus ele estava no caminho errado! — Não sou uma ladra! Posso lhe assegurar.

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Sabrina 754 – A Outra Face do Amor – Stephanie Howard — E diria algo diferente se de fato fosse uma ladra? — Provavelmente não. — respondeu Ângela encarando-o. — Mas acredite em mim, não tenho qualquer intenção de roubá-lo. — Por que deveria confiar em sua palavra? Não tem sido honesta comigo. Tenho certeza, srta. Smith, que está escondendo algo. — Enquanto ela corava ligeiramente, Max semicerrou os olhos, perscrutando-lhe o rosto. — Já demonstrou grande interesse por meus objetos de arte. Não os estava examinando quando entrei na sala? — Estava simplesmente admirando-os... — Não há dúvida quanto a isso — disse ele, debruçando-se sobre a escrivaninha para estar mais próximo dela. — Acho que as pessoas que escondem algo tem a consciência pesada. Perguntome, srta. Smith, que culpa secreta carrega? — Não carrego culpa alguma — respondeu ela genuinamente alarmada. Olhou para ele ansiosa. — Não sou uma ladra, sr. Fielding. Por favor, acredite! Não vim para roubá-lo! Devagar, Max levantou-se meneando a cabeça. — Por que deveria acreditar em você? A casa está cheia de tesouros e a história que me contou parece-me muito vaga, para não usar uma palavra mais forte. Ela sentiu que todos seus planos e esperanças escorriam-lhe como areia entre dedos. Havia desperdiçado a oportunidade de levá-lo à justiça — e sua mãe sofreria as conseqüências levando uma vida de quase penúria. Tal pensamento impeliu-a a agir. Assim que ele deu a volta na escrivaninha, Ângela levantou-se de um salto e olhou firme em seus olhos. — Sou uma secretária excelente e preciso desesperadamente do emprego. Minha mãe depende de mim. Por favor, dê-me uma chance! A distância entre eles era tão pequena que ele quase a tocava. Ela pôde sentir o calor da pele dele na sua e o perfume de seu hálito. — Disse que sustenta sua mãe? É mesmo verdade ou apenas mais uma mentira? — É verdade, eu juro! E de fato era. — E ela sofrerá se você não conseguir o emprego? Ângela meneou a cabeça em sinal de afirmação. Era mentira. — Já entendi. — Ele se afastou um pouco como que para observá-la melhor. Então, sorriu, deixando à mostra dentes muito alvos. — Neste caso, não posso agir como uma pessoa desnaturada. Ângela ousou sorrir; na verdade, esboçou um meio-sorriso enquanto ele punha as mãos no bolso. — Desde que cumpra um período de experiência de poucas semanas, passarei por cima da minha intuição e acreditarei em suas palavras. — Obrigada, sr. Fielding. — Sentiu-se aliviada, embora estivesse pouco convencida da demonstração de humanidade que acabara de presenciar. Teve o pressentimento de que, apesar de ele tentar aterrorizá-la de propósito, desde o princípio teve a intenção de contratá-la, na esperança de incorporá-la a sua coleção. Lembrou-se de suas palavras: "E sempre que vejo algo belo, desejo possuí-lo". Lembrou-se também de como ele a olhou no momento que disse tais palavras e a simples lembrança fez seu

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Sabrina 754 – A Outra Face do Amor – Stephanie Howard coração disparar. De uma coisa podia ter certeza, não seria nada fácil trabalhar para ele. Precisaria usar de artifícios de sedução para mantê-lo distraído de suas reais intenções e, ao mesmo tempo, teria de mantê-lo a uma distância segura. No caso de Max Fielding, o desafio parecia quase impossível de enfrentar. Contudo não era o momento para começar a preocupar-se. com o que o futuro lhe reservava. Deveria sentir-se feliz; afinal, havia ganhado a primeira batalha. Decidida, afastou a ansiedade e sorriu para aquele rosto lindo e ao mesmo tempo odioso. — Sou-lhe eternamente grata. — Guarde sua gratidão! — O sorriso havia desaparecido. — Durante as próximas semanas, srta. Smith, vai aprender o que significa ganhar o salário. — Sem se mover, parecia ter-se aproximado um passo dela. — Estarei de olhos bem abertos, observando cada um de seus movimentos. Ângela quis se afastar; a proximidade a oprimia, mas forçou-se a ficar ali de pé, imóvel. — Pode acreditar em mim, estarei observando cada movimento seu. Sem pestanejar, Ângela sustentou o olhar inflexível. "E eu, meu caro Max Fielding, estarei observando até os movimentos que você não fizer", pensou.

CAPÍTULO II

— Parabéns! Sabia que você conseguiria! — Jill levantou o copo de vinho e piscou para Ângela, — Agora que você foi admitida na toca do demônio, só precisa encontrar as evidências contra ele. Ângela franziu a testa. — Espero que sim. Esta história de dar uma de Mata Hari não é o do meu feitio. — Enquanto falava deixou os dedos correrem pelo volumoso cabelo castanho, que caía sedoso e ondulado sobre os ombros. — Tenho certeza de que mais dia, menos dia ele vai descobrir minhas intenções. — É claro que não! Ele não sabe quem é você; pelo menos uma vez na vida agradeça ao sobrenome Smith. Há tantos que ele nunca fará a conexão entre você e seu pai. De qualquer jeito — acrescentou Jill sorrindo —, ele pensa que você está atrás de seus tesouros e será neles que ele vai manter os olhos atentos. Não vai ter tempo de vigiar os arquivos, os únicos tesouros que interessam a você. Isto é, quando ele não estiver ocupado perseguindo-a pelo escritório. — Nova risada, desta vez provocadora. — Não precisa me lembrar disso! — Ângela riu. Acomodou-se com ares afetados ao sofá de Jill, esticando as pernas. Vestia calças pretas e um suéter tricotado. — O homem é um maníaco, do tipo que não pode ver um rabo de saia! Precisava ver o jeito com que me olhava com aqueles olhos de vamos para a carnal — Suspirou. — O disfarce foi uma grande inspiração. É óbvio que ele gosta de mulheres altas, voluptuosas, curvilíneas. Provavelmente eu não conseguiria o emprego se me apresentasse para a entrevista toda discreta. Ela era, de verdade, como estava naquele momento. Sua beleza, embora Ângela jamais se descrevesse como sendo bela, consistia na simplicidade. Usava um mínimo de maquiagem e

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Sabrina 754 – A Outra Face do Amor – Stephanie Howard roupas clássicas. Ela retribuiu o sorriso de Jill, sua sócia, amiga e confidente. — Tenho muito que lhe agradecer por ter chegado até aqui. Se você não fosse amiga da secretária de Fielding, jamais teria sido contemplada com esta oportunidade de ouro. Jill deu de ombros: — Foi tudo pura sorte. Por acaso nos encontramos depois de muito tempo sem nos ver. — Pode até ter sido sorte, mas foi providencial. — Ângela fez a observação antes de sorver mais um gole de vinho. Se Jill não tivesse se encontrado com Sally, secretária de Fielding, e mencionado a agência de empregos que possuíam, a Ace Personnel, sem, é claro, citar o nome de Ângela, Sally jamais teria contatado Jill em busca de uma secretária que a substituísse enquanto ficasse de licença para resolver problemas familiares. E Ângela nunca teria tido a chance de candidatar-se para o posto. Olhou para Jill e ergueu a taça num brinde: — Você e meu primo Denis são os melhores amigos que tenho nesse mundo, numa época em que realmente necessito de bons amigos... — Um nó na garganta a impediu de continuar, e as lágrimas rolaram por seu rosto ao recordar-se da morte recente do pai. Respirando fundo, terminou o que estava dizendo. — Vocês dois são maravilhosos. Valem ouro. Jill inclinou-se para a frente e tocou-lhe delicadamente o braço. — Você tem sofrido muito nos últimos tempos, Ângela. Mas está superando as dificuldades e, no final, vai se sair vitoriosa. — Ela sorriu, encorajando-a. — Eu a conheço muito bem. Mais tarde naquela noite, quando voltava para casa, Ângela pensava na confiança e lealdade da amiga. Só esperava que tanta confiança se justificasse. Max Fielding mostrara ser mais do que um adversário perigoso. Precisaria empenhar-se com determinação para superá-lo. Ela parou em frente ao prédio de apartamentos, nos arredores da cidade histórica de Cambridge, e ficou olhando por alguns momentos para as janelas escuras do apartamento que ocupava no momento. A tristeza a invadiu. Era tão diferente da casa que um dia lhe pertencera! Mas essa casa fora perdida, e graças a Fielding. Suspirando, Ângela saiu do carro e fechou a porta. Parecia-lhe algumas vezes que todos os infortúnios de sua vida estavam de certa forma relacionados com Max Fielding. Com certeza, a ruína financeira de seu pai, revelada com sua morte poucos meses atrás, fora provocada pelas transações desonestas de Fielding. A herança de seu pai resumira-se numa montanha de contas, e não lhe restara outra opção a não ser vender sua própria casa para pagá-las e providenciar um teto para a mãe. Se não fosse a generosidade de seu primo Denis, que a convidara para morar em seu apartamento sem pagar aluguel, ela estaria às voltas com sérios problemas. Os aluguéis eram muito altos, quando se encontrava apartamento para alugar, e ela ainda estava saldando os débitos do pai. Jill lhe oferecera um lugar no minúsculo apartamento que dividia com Eddie, mas teria se sentido uma intrusa se aceitasse o oferecimento. O arranjo temporário que fizera com Denis era diferente. Seu primo raramente ficava em casa, e por semanas a fio Ângela tinha o apartamento só para si. Na calçada, ela se apressou em direção à porta de entrada do edifício. Também fora Denis quem lhe falara sobre Fielding.

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Sabrina 754 – A Outra Face do Amor – Stephanie Howard — Ele é um vigarista — o primo a advertira quando lhe confidenciara sua descoberta. Quando examinara os documentos do pai de Ângela, soube que havia se envolvido em transações financeiras com Fielding na Solid Gold Investments. Denis apontara uma cláusula num dos documentos que ligava Max Fielding a um proeminente corretor da Bolsa, atualmente cm julgamento por enganar seus clientes e levá-los à ruína financeira. — Fielding o mantém o dinheiro de seu pai seguramente guardado numa conta na Suíça. Quanto mais Ângela pensava sobre o assunto, mais concordava com a conclusão de Denis, e mais decidida ficava quanto a desmascarar Max Fielding. Ela respirou fundo ao abrir a porta de seu apartamento. Tinha duas semanas para atingir seu objetivo, a partir do dia seguinte. Pelo bem de sua mãe, não poderia desperdiçar aquela oportunidade! — Vou lhe mostrar o escritório, srta. Smith, e então poderemos começar a trabalhar. Ângela sorriu, curvando sedutoramente os lábios bem pintados. — Como quiser, sr. Fielding. Eu mal posso esperar para começar. — Ótimo. — Ele a mediu dos pés à cabeça pela segunda vez desde que Ângela havia chegado. — Se me permite dizer, está muito bonita hoje. Esse tom de vermelho lhe cai muito bem. — Obrigada. — Ângela corou ao sentir-se devorada pelos olhos verdes. "Olhe muito bem para tudo o que quiser, mas nem pense em me tocar ou será um homem morto!" Novamente, ela pensou que Denis estava certo. Max Fielding tinha realmente uma inclinação para mulheres finas e atraentes. E a julgar pelo corte preciso do temo cinza que estava usando, pela qualidade da gravata de seda púrpura e dos sapatos de couro, era um homem que se preocupava muito com a aparência. Não havia como negar, ele era um homem bonito, capaz de atrair todas as mulheres glamorosas que o rodeavam num piscar de olhos. Com seu ar arrogante e sensual, tudo que precisava fazer era estalar os dedos. Na verdade, concluiu, se não soubesse tanto sobre ele acabaria por achá-lo atraente. A consciência do fato chocou-a um pouco; sentiu-se um tanto desconfortável. De imediato resolveu combater a sensação, dizendo-se que tal suposição era completamente tola. Nem se Max Fielding fosse o único homem na face da Terra se sentiria atraída por tamanho vilão. — Talvez devêssemos começar pelo óbvio — disse ele, debruçando-se num canto da escrivaninha enquanto a olhava com um meio-sorriso sardônico. — Como já deve ter notado, os aposentos que compõem meu escritório são também a parte térrea de minha casa. — Já havia notado — concordou ela. Então franziu o cenho: — Não tem um escritório cm Londres? Seria surpreendente se não tivesse um no seu ramo de negócio. — Não se surpreenda — assegurou ele prontamente. — Tenho um escritório em Londres, mas acredito que com uma boa organização posso controlar os negócios daqui. Comprei esta casa há alguns anos com a intenção de usá-la como refúgio de fim de semana. Fiquei interessado por este lugar desde que estudava aqui, anos atrás. E de tanto gostar de viver na casa, decidi também trabalhar aqui. Ângela o observou com curiosidade e desaprovação. Então, ele se formara em Cambridge! Devia ter imaginado. Ele possuía aquele ar refinado e culto de seus companheiros de universidade. Pena que fosse um salafrário. Que desperdício de educação privilegiada! — Você sempre morou aqui?

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Sabrina 754 – A Outra Face do Amor – Stephanie Howard — A maior parte da minha vida. Meus pais se mudaram para cá quando eu tinha cinco anos. — Ela estivera a ponto de acrescentar "quando meu pai foi escolhido para dirigir uma das lojas no centro da cidade". Mas, felizmente, conseguira se deter. Devia ser mais cuidadosa. Quanto menos Max Fielding soubesse a seu respeito, melhor. Ele se empertigou ligeiramente e continuou: — Bem, como estava dizendo, o resto do prédio abriga os meus aposentos pessoais. Aquela porta define a fronteira entre o escritório e a casa. Por essa razão, srta. Smith, insisto para que considere aquela porta fora de seu alcance. Ângela olhou para a porta indicada, então, voltou-se para ele. Em pensamentos, agradecia-o pelo aviso. Em voz alta, tranqüilizou-o: — Claro, sr. Fielding. Com certeza, respeitarei sua privacidade. — Ótimo. — Os olhos verdes tinham o brilho frio do aço enquanto a examinavam como se procurassem alguma coisa. — Normalmente, deixo aquela porta trancada à chave para minimizar os riscos de entradas acidentais. Mas, às vezes, mesmo eu posso ser negligente. Em tais circunstâncias, espero que não se aproveite de meu esquecimento. Então Max Fielding ainda acreditava que ela estava atrás de suas valiosas aquisições! Ângela reprimiu um sorriso. Ele mal sabia o que o esperava! — Claro que não, sr. Fielding. Jamais pensaria numa coisa dessas. — Amenos, é claro, que eu a convide. — Ele a fitou intensamente. — Nesse caso seria diferente. "Aposto que sim! Mas não se preocupe, nunca passarei por aquela porta. Muito menos se você me convidar!", Ângela pensou. — Siga-me! — Ele disse abruptamente, dirigindo-se para uma porta que ficava ao lado do escritório dele. — Esta é a sala daminha secretária — Max informou, abrindo a porta. — E, portanto, a sala que será sua durante sua curta permanência aqui. Era uma sala agradável, uma versão reduzida da sala dele, a escrivaninha posicionada ao lado da janela que dava para o jardim. — Oh, encantador! — Ângela olhou em volta com interesse. — Talvez pudesse me dizer onde ficam os documentos e o material de trabalho. Assim não teria de ficar procurando entre as coisas de sua secretária e também não perderia tempo. — Claro, mas para ser mais correto, entre as minhas coisas, srta. Smith. Todos os meus arquivos e documentos ficam nesta sala, a não ser os documentos com os quais esteja trabalhando no momento... — Gesticulou indicando as estantes e os arquivos que contornavam as paredes e se permitiu um sorriso ao observar: — Aqui, não irá encontrar nenhum Faberge, mas sim uma grande quantidade de informações vitais. Max deu alguns passos em direção aos armários mais próximos, abriu as portas de mogno que revelavam gavetas cheias de pastas com documentos e pilhas de disquetes de computador. — Neste armário, por exemplo, poderá encontrar informações detalhadas sobre todos os meus clientes. — Fechou o armário e abriu o seguinte. — Neste estão as informações sobre as empresas inglesas com as quais tenho negócios. As companhias estrangeiras estão naquele outro armário. Com Ângela seguindo-o de perto, ele passou por todas as estantes e armários, terminando com o que ficava mais próximo da mesa dela. — O arquivo principal fica aqui. Se se perder e não conseguir encontrar alguma coisa, nestas

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Sabrina 754 – A Outra Face do Amor – Stephanie Howard pastas encontrará indicações de onde encontrá-la. — Fechando a gaveta, ele a encarou. — Gostaria de me fazer alguma pergunta? Na verdade, havia algo que ela gostaria de saber. Dando um passo para a frente, Ângela disse: — Acho que se esqueceu daquele armário. — Não, não esqueci — ele replicou, ríspido. — Vai me desculpar, sr. Fielding, mas tenho certeza de que não mencionou aquele armário. — Repito, não me esqueci. — Max sacudiu enfaticamente a cabeça. — Mas... — Srta. Smith. — Ele ergueu a mão, interrompendo-a. — Não esqueci de mencionar aquele armário. Ao contrário, omiti-o intencionalmente. — um sorriso contido curvou-lhe os lábios. — E o omiti por uma boa razão. Esse armário contém informações sobre as quais somente eu tenho acesso. E por isso, está sempre trancado. Agora compreende, srta. Smith, que esse armário e seu conteúdo ocupam um espaço desta sala que não lhe interessa nem um pouco. — Compreendo. — Espero que sim. — Absolutamente — Ângela assentiu. E, fingindo uma falta de interesse que estava longe de sentir, ela deu as costas ao armário em questão enquanto. Ele olhou para o relógio de pulso, um modelo famoso e em ouro, e observou: — E agora, se não se importa, acho que podemos começar a trabalhar. — Indicando uma pilha de disquetes e documentos sobre a mesa dela, acrescentou: — Aqueles arquivos precisam ser atualizados. Gostaria que cuidasse disso nesta manhã. Quando terminar, me procure. Tenho muita coisa para lhe passar. Fingindo animação, Ângela se sentou e ligou o computador. — Se tiver algum problema, dê um grito. — Sim, sr. Fielding. — Mas espero que não tenha. Preciso resolver vários assuntos ainda esta manhã. Enquanto ele se virava e se dirigia para a porta, Ângela o observava com um sorriso calmo. Mas estava agitada, o coração batendo com ansiedade. Assim que a porta se fechou atrás dele, ela se levantou e aproximou-se do armário "proibido". Como havia sido avisada, a porta estava trancada. Deu um passo para trás e ficou olhando-o fixamente, como se apenas com a força do pensamento fosse capaz de abri-lo. Tinha certeza de que, por trás daquela porta, estavam os mistérios que pretendia desvendar. Apesar da presença ameaçadora de Max Fielding, teria de encontrar uma maneira de abri-lo. E lhe restavam apenas duas semanas. Uma semana depois, Ângela estava muito preocupada. Ainda não tivera acesso aos documentos cruciais. Havia se mantido atenta a cada oportunidade que surgia. Porém, durante o dia, Max aparecia sem aviso em sua sala, indo buscar ou guardar algum papel naquele armário. E cada vez que ele saía da sala, Ângela corria para verificar se não se esquecera de chavear a porta. Afinal, ele mesmo se confessara negligente. Entretanto, era menos atento ao fato de trancar a escrivaninha. Em algumas ocasiões, saíra por breves momentos de seu escritório sem se importar em trancar a

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Sabrina 754 – A Outra Face do Amor – Stephanie Howard mesa c tirar as chaves. Ângela observara a chave balançando tentadoramente na fechadura. E por acaso descobriu que ele guardava a chave do armário secreto na primeira gaveta do lado direito. — Seria tão fácil pegar a chave, abrir o armário e devolver a chave na gaveta sem que ele percebesse — ela confidenciou sua frustração a Jill. — Mas não posso me arriscar. Ele poderia voltar a qualquer momento para pegar ou guardar alguma coisa no armário, e notaria no mesmo instante que estava aberto... e quem mais poderia fazer isso além de mim? Com uma sensação de total impotência, ela deixou escapar um longo suspiro. — Só preciso que ele saia do escritório por algumas horas, então poderia tirar uma xerox dos documentos e copiar os disquetes e analisá-los em casa. E um dia, inesperadamente, chegou a oportunidade que ela tanto esperava. Na terça-feira à tarde, Fielding anunciou: — Irei a Londres amanhã. Tenho uma reunião muito importante na Bolsa de Valores e vou precisar que me acompanhe para fazer anotações. O coração de Ângela disparou. Um dia inteiro fora do escritório! Assim, só lhe restariam quinta e sexta-feira. De repente, o desespero tomou conta dela. Mas de súbito, um pensamento veio em seu auxílio. — Mas e o sr. Burton? — ela o lembrou. — Ele disse que passaria aqui amanhã, por volta das onze horas, para pegar aqueles documentos de que tanto precisa. — Você não pode mandá-los pelo correio? — Ele me pediu para não fazê-lo. Insistiu para pegá-los pessoalmente. Max Fielding franziu a testa e refletiu por um momento. — Nesse caso, terei de ir sem você. Acha que pode tomar conta de tudo sozinha? Ângela precisou fazer um grande esforço para não gritar de alegria. — Sim, claro que posso, sr. Fielding. Continuarei pondo em dia a correspondência atrasada. Naquela noite, Ângela mal conseguiu dormir. Deitada no escuro, tentava pensar numa forma de pegar a chave da escrivaninha dele e abrir o armário secreto. A excitação aumentava quando se via com os documentos nas mãos, pronta para copiá-los. Essa seria a parte mais fácil. O difícil seria decifrar as informações que neles encontraria. Mas felizmente Denis entendia um pouco de questões financeiras e prometera lhe ajudar. E não tinha dúvidas de que iriam descobrir as transações desonestas que arruinaram seu pai, e que mantinham a boa vida de Max Fielding... Sem falar na mansão e no rolls-royce imponente que vira estacionado em frente ao escritório. Ele já estava sentado à mesa quando Ângela chegou ao escritório na manhã seguinte, reunindo os papeis que levaria para a reunião em Londres. — Está parecendo muito animada — Max a saudou logo que a viu. — Deve estar ansiosa para passar um dia sozinha. — Absolutamente. — Estaria seu alvoroço interior tão óbvio? — Sente-se enquanto preparo algumas coisas que gostaria que fizesse hoje. — Apontou para uma das cadeiras em frente a sua mesa. Nervosa, Ângela o obedeceu, prestando pouca atenção na lista de atividades que ele examinava. E o tempo todo, não tirava os olhos da chave que pendia, como uma meia promessa, na fechadura da escrivaninha. — Bem então é isso. — Fielding recolheu alguns papéis e os colocou na gaveta. — Acho que

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Sabrina 754 – A Outra Face do Amor – Stephanie Howard essas tarefas a manterão bem ocupada. Enquanto falava, um sorriso zombeteiro pairou em seus lábios e, para pavor dela, começou a procurar a chave. Se ele trancasse a escrivaninha, Ângela estaria totalmente perdida. Sentindo uma onda de pânico crescer, ela dizia a si mesma que precisava fazer alguma coisa. — Sr. Fielding... — Abruptamente, ela se inclinou para a frente, enquanto sua mente procurava, quase com desespero, encontrar uma forma de distraí-lo. — Pode me dar um número de telefone onde o encontraria? Talvez não seja necessário, mas por precaução... — Acabei de lhe dizer que está na agenda — ele replicou e continuou procurando pela chave. Ângela ficou gelada quando o viu alcançá-la. Então, inesperadamente, ele interrompeu-se e pegou uma caneta, rabiscando um número cm seu bloco de anotações. — Aqui está, caso não consiga encontrá-lo na agenda. Sem saber o que mais poderia fazer, Ângela pegou o papel e se levantou. — Obrigada. — Ela lhe sorriu, fitando-o com intensidade, embora não ousasse olhar o que ele estava prestes a fazer. — Bem, acho que é tudo. Não devo ter me esquecido de nada. Espero que aproveite bem esse seu dia de trabalho longe de mim. — Ele a encarou por um longo momento, fazendo com que a tensão dela se tornasse quase insuportável. Ele então se levantou e acrescentou: — Não sei exatamente a que horas voltarei. Mas se não estiver aqui até a hora de sua saída, por favor, feche tudo por mim. Sabe o que fazer. — Certamente, sr. Fielding. — Mais alguns instantes intermináveis se seguiram enquanto ele apanhava a pasta. Por fim, afastou-se da escrivaninha e dirigiu-se para a porta. No mesmo momento que suas preces foram atendidas, Ângela se deu conta da magnitude do que estava planejando. E também sabia, com uma certeza assombrosa, que se ele descobrisse seus planos não hesitaria em destruí-la completamente, c ainda sentiria prazer por fazê-lo. Durante cerca de vinte minutos depois da saída dele do escritório, Ângela ficou imóvel em sua mesa, apenas olhando para o tal armário. Nunca bisbilhotara a vida de ninguém e, de repente, começou a questionar sua coragem. Sacudiu a cabeça para afastar a insegurança. Havia se metido em muitos problemas para recuar agora. Ou será que era tão covarde assim? Forçou-se a pensar na pobre mãe viúva, vivendo num estado de quase penúria, quando devia estar usufruindo de todo conforto. E Max Fielding era o único culpado daquela situação. Foi o bastante para impeli-la à ação. Ela se ergueu e, com passos decididos, atravessou a porta que separava sua sala da de Fielding. Tremendo um pouco, abriu a gaveta da escrivaninha. A chave do armário estava no lugar de sempre, numa caixinha prateada num canto. Ela a pegou e a apertou na mão. Em seguida, movendo-se como um autômato, voltou para sua sala. Aproximou-se do armário e colocou a chave na fechadura, a respiração parecendo parar enquanto a girava. Não sabia o que esperava. Então a porta se abriu silenciosamente, revelando o conteúdo do armário. Depois disso, começou a trabalhar o mais rápido possível. Tirou os documentos e começou a tirar xerox de cada folha. Assim que terminou essa parte, passou a copiar os disquetes, usando os novos que tinha escondido na bolsa.

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Sabrina 754 – A Outra Face do Amor – Stephanie Howard Foi tudo muito fácil e simples. A operação estava sendo realizada com precisão. Ela olhou para o relógio. Ainda não era meio-dia. Quando Max Fielding retornasse ao escritório, supondo que voltasse antes do fim do expediente, o armário estaria trancado, a chave de volta ao seu lugar, a prova vital muito bem guardada no carro dela e não restaria nenhum sinal do que tramara. Porém, no momento em que se parabenizava, feliz com seu triunfo, ouviu um ruído vindo da direção da porta. Ela se virou, surpresa e pálida ao mesmo tempo. Max Fielding estava parado na porta, observando-a. Ele lhe deu um sorriso estranho, estudando a cena. — Meu Deus! Isso parece muito interessante! — ironizou ele.

CAPÍTULO III

Â

ngela ficou estarrecida e, incapaz de se mover, parecia grudada na cadeira. Olhava para Max

Fielding sem saber como agir. Tinha sido apanhada em flagrante. E não havia nada que pudesse dizer. Ele entrou na sala c fechou a porta. Então, parou por um momento, os olhos fixos nos dela. — Por favor, não perca seu tempo tentando se desculpar. Como vê, sei exatamente o que estava tramando. Ângela engoliu em seco, tentando aliviar o nó que lhe travava a garganta. — O senhor voltou mais cedo — foi tudo o que ela conseguiu dizer. — Tem razão. — Ele lhe deu um sorriso irônico. — Embora "voltar" não descreva precisamente a situação. Na verdade, nunca saí daqui. Nas últimas horas, estive no andar de cima da casa, almoçando e saboreando um bom vinho. — O... o quê? — Ela gaguejou, arregalando os olhos. — Quer dizer que não foi a Londres? — Não. Não havia nenhuma reunião. Confesso que lhe contei uma mentira inofensiva. — Mas... não entendo. — Ela sentia a cabeça rodar. Naquele instante descobriu que havia caído numa armadilha cuidadosamente preparada. Fielding adivinhou seus pensamentos e confirmou: — Sim, você caiu na minha história. Não poderia ter funcionado melhor, mesmo que tivéssemos ensaiado. — Quer dizer... — Ângela gesticulou na direção do armário aberto e para as pastas de documentos e disquetes que estavam espalhados sobre sua mesa. — Quer dizer que sabia que eu planejava fazer isso? Sabia disso o tempo todo? — Sim. Lamento muito desapontá-la quando acreditava que tudo isso era fruto de sua grande imaginação. Eu sabia até mesmo como iria fazê-lo e quando. Escolhi o dia de hoje porque me era mais conveniente. Como vê, minha cara, estive preparado para este momento desde o dia que começou a trabalhar aqui. Emudecida, Ângela encostou-se na cadeira. — Mas por quê? Isso não tem sentido. Por que me encorajaria a espioná-lo? Max Fielding puxou uma cadeira para perto dela e sentou-se. A fisionomia, ameaçadora e

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Sabrina 754 – A Outra Face do Amor – Stephanie Howard sombria, parecia irada mas, ao mesmo tempo, demonstrava total tranqüilidade. No entanto, mais assustador que a raiva era o auto-controle de Fielding. Se tivesse explodido e vociferado, ela teria se sentido menos ameaçada. Mas aquela serenidade a deixava completamente apavorada. Sem pressa, ele desabotoou o casaco cinza e o colocou no encosto da cadeira. — Oh, não interprete mal as minhas palavras. Nunca desejei ser espionado. Pelo menos, não por um espião de verdade. E nisso você há de concordar comigo, seus esforços nessa direção deixaram muito a desejar. Na verdade, lamentavelmente para você, foram um completo fracasso. Ele apontou para as cópias dos documentos e para os disquetes. — Claro que pretendo confiscar isso tudo. Como vê, seus esforços foram uma total perda de tempo. — Mas por que iria querer que eu fingisse? — Ângela, por sua vez, olhou para o resultado de seu empenho. — Qual a vantagem de me deixar chegar até aqui? Max Fielding apenas sorriu. — Talvez porque satisfizesse os meus propósitos para conseguir um certo poder de barganha. — Poder de barganha? — Isso mesmo, srta. Smith, poder de barganha. Esse infeliz incidente alterou substancialmente o equilíbrio de poder entre nós, e acho que quanto a isso também concorda comigo. E, lamentavelmente para você, a meu favor. Como diz o ditado, srta. Smith, foi apanhada com a mão na botija. Ângela o observava com um crescente mal-estar. Ele tinha razão; estava comprometida e totalmente vulnerável. Assim, ficava à mercê dele. O sangue gelou-lhe nas veias. Ela porém o enfrentou com uma expressão altiva. — Não sei do que está falando. Talvez goste de achar que tem, mas não possui nenhum domínio sobre mim. — Acha que não? Claro que pode ter razão. — Ele se encostou na cadeira e cruzou as pernas. Por breves instantes deu a impressão de refletir sobre o assunto. — Mas me parece que a situação é muito diferente. Se não realizarmos uma barganha satisfatória... — Barganha? — Ângela franziu a testa, não gostando nada das implicações do fato ele estava apontando. — Não posso me ver fazendo nem um tipo de barganha com você. — Não mesmo? — Max sacudiu a cabeça. — É possível que isso a faça mudar de idéia... — Então, num tom de voz tão calmo que chegava a ser desalentador, ele continuou: — Se não conseguirmos realizar uma barganha satisfatória, receio que esteja dentro do meu poder pôr um fim à sua carreira. Ângela semicerrou os olhos e sentiu uma dor aguda no estômago. Ele só podia estar blefando! Tentava assustá-la, usando de seu perverso senso de humor para extrair todo o prazer sádico que a situação podia lhe proporcionar. Erguendo o queixo, ela se controlou e o desafiou: — O que está falando é absurdo, sr. Fielding. Não tenho nenhuma carreira à qual possa pôr um fim. Está se esquecendo de que sou apenas uma secretária temporária. — Ah, sim, estava esquecendo. — Ele lhe deu um sorriso simulado. — A jovem que fracassou ao dirigir seu próprio negócio não tem uma carreira que eu possa arruinar... Por outro lado, desconfio que a verdadeira sita. Smith tenha muito mais a perder. Ângela estremeceu. A apreensão parecia sufocá-la. Com dificuldade, conseguiu encará-lo.

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Sabrina 754 – A Outra Face do Amor – Stephanie Howard — Você está falando por meio de enigmas — ela o acusou. — Não faço idéia do que quer dizer. Agora, completamente desesperada, era ela quem estava blefando. — Não mesmo, srta. Smith? — Max Fielding lhe lançou um olhar franco. — Desculpe-me por chamá-la de mentirosa. Mas tenho certeza de que sabe exatamente o que quero dizer. — Não, não sei. — Ângela sentia as mãos frias e úmidas, e esforçava-se para se manter controlada. Imperturbável, ele a fitava, saboreando sua agonia. — Vou tentar ser mais claro. Talvez assim, possa me entender melhor. Considere a possibilidade de que eu venha a contar à comunidade local que a respeitada co-proprietária da famosa agência de empregos Ace Personnel tenha se disfarçado de secretária para ter acesso ao meu arquivo particular, e foi apanhada em flagrante violando-os... Ao vê-la empalidecer, ele prosseguiu: — Desconfio que teria quase nenhuma dificuldade em provocar uma grande controvérsia que levaria ao fechamento da agência em uma semana. Ângela mal podia acreditar no que estava ouvindo. Seu pior pesadelo tornava-se realidade! — Quer dizer que sabe quem sou? — Ela perguntou num tom quase inaudível. — Existe mais alguma coisa que já sabia durante todo este tempo? — Para seu azar, sim. — Ele esboçou um sorriso presunçoso. — Admita, não é tão inteligente quanto pensava. E eu, tanto pior para você, sou muito mais inteligente. Que se danasse a inteligência dele! Ângela preferiu calar-se. Subitamente, compreendeu toda a história. Ele havia preparado com cuidado cada uma das cenas, fingindo-se de esquecido quando na realidade era muito esperto c astuto. A escrivaninha, percebia agora, ele a havia deixado aberto deliberadamente. Ela o fitou indignada enquanto o ouvia acrescentar: — Oh, a propósito, a pasta de documentos do sr. Burton que tanto a preocupava... Eu a entreguei pessoalmente na casa dele ontem à noite. Achei que seria melhor que não fôssemos perturbados hoje, o que seria um tanto constrangedor. Ângela lhe lançou um olhar mal-humorado. Havia se esquecido completamente do sr. Burton, e qualquer constrangimento por conta disso seria a última de suas preocupações! De repente, ficou furiosa por ter sido tomada por idiota! Mas não tinha como negar que caíra em todas as mentiras dele. — Imagino que lhe seja muito fácil usar de truques sujos — ela comentou. — Afinal, trapacear, mentir e enganar são procedimentos a que está acostumado a fazer. Max Fielding nem mesmo se deu ao trabalho de responder à acusação. Acusar fazia mais seu estilo do que defender-se. — Seu primo Denis ficará decepcionado. Devia estar muito confiante no sucesso de sua missão. Exatamente como pretendia, essa observação a deixou sem fala. Max Fielding não sabia apenas que ela era sócia na agência, mas parecia possuir todo tipo de informação a seu respeito. E se sabia sobre seu primo, também devia saber sobre o pai. Ele a estava observando, saboreando sua expressão de horror. — Pobre Denis, você o deixou em má situação. Esse comentário a deixou desconcertada. — Do que é que está falando agora?

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Sabrina 754 – A Outra Face do Amor – Stephanie Howard — Você sabe muito bem do que estou falando — retrucou ele, sacudindo a cabeça. — Denis vai ficar extremamente desapontado. Ainda mais desconcertada, Ângela se perguntava o que significavam todas aquelas estranhas alusões a Denis. — Realmente não entendo aonde quer chegar. — De súbito, ela começou a se sentir apreensiva, confusa e ameaçada. — O que está acontecendo? Qual é o seu jogo c por que planejou tudo isso? O homem astuto e empreendedor deixou escapar um suspiro de impaciência. Ele se levantou e deu alguns passos na direção dela, parando, alto e ameaçador, na beira da escrivaninha. — Por favor, não banque a inocente comigo, srta. Smith. Como já lhe disse no início, sei o que estavam tramando... Você e seu primo, o espertalhão do Denis. — Ele fez uma pausa e, com um gesto furioso, jogou os disquetes e as cópias dos documentos no chão. — Meu jogo, como diz você, é fácil de explicar. Só pretendo pôr um fim no que você e seu querido primo estão planejando! A violência explícita do gesto foi revoltante. Ângela o observou em silêncio por um momento enquanto ele pisava com força sobre os documentos copiados, esmagando-os. Em seguida, começou a andar pela sala, como se mal pudesse conter a raiva. A insistência dele em colocar Denis na conversa era totalmente intrigante. Ângela esperou até sentir que ele havia recuperado a calma, então, num tom moderado, assegurou: — Denis não tem nada a ver com isso. Toda essa história foi idéia minha. Por alguns instantes, ele nada disse, apenas parou de andar e a encarou, a fisionomia transtornada pela fúria. De um modo abrupto, deu-lhe as costas. — Está bem, façamos de conta que você não sabe do que estou falando. De qualquer forma, não fará nenhuma diferença no resultado final. Isso eu posso lhe prometer! Sua voz denotava um tom de decisão implacável e cruel que a fez estremecer. Era o tom de um homem que não se deteria diante de nada. Ângela o olhou cautelosamente e percebeu que não seria sensato deixar transparecer seus receios. — Ainda não respondeu a minha pergunta — insistiu ela com audácia. — O que pretende fazer comigo e a que estava se referindo minutos atrás? Um brilho de desdém iluminou os olhos verdes. — Você realmente desempenha muito bem o seu papel. Qualquer pessoa acreditaria em sua inocência. Menos eu, claro. — A expressão dele ficou séria. — Já que afirma não saber de nada, estou me referindo a uma questão ainda pendente e que diz respeito a seu pai. Diante da referência insensível feita ao seu pai, Ângela ficou tensa. Como podia ter o descaramento de mencionar seu pai? Não se envergonhava de fazê-lo, depois da maneira como o destruíra? Ela cerrou os punhos e se levantou vagarosamente. — Surpreende-me que tenha coragem de falar de meu pai, considerando o que fez com ele. — Considerando ò que eu fiz com ele? — Max Fielding hesitou e examinou-lhe o rosto com um olhar sinistro e desdenhoso. — Foi essa a direção que Denis a aconselhou a seguir nessa sua empreitada infeliz? Quão rápido ele mudou de assunto! Talvez ainda lhe restasse um mínimo de consciência. — Você é surdo ou o quê? — Ângela o interpelou atrevidamente. — Continuo lhe dizendo que

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Sabrina 754 – A Outra Face do Amor – Stephanie Howard Denis não tem nada a ver com isso. — Ah, sim, é verdade. E eu continuo esquecendo. Por acaso, está tentando me dizer que Denis é apenas seu amante? Isso a deixou completamente aturdida. Boquiaberta, ela ficou olhando-o. Então, ainda incrédula, perguntou: — O que foi que disse? — Calma, calma, srta. Smith — ele retrucou, sorrindo. — Não precisa fingir. Sou muito liberal. Ângela deu um passo na direção dele. Agora, Max Fielding tinha ido longe demais. — Realmente não estou interessada na sua liberalidade. Todavia, posso lhe assegurar que Denis não é meu amante. — Claro, claro. — Encostando-se no armário, ele cruzou os braços e a encarou firmemente. — Sei que ele está fora no momento. Você deve estar se sentindo muito sozinha. — Engano seu. Gosto de ficar sozinha. — É mesmo? Nesse caso, por que foi morar na casa dele? Ângela deu mais um passo para a frente. — Se me permite dizer, acho que meu modo de viver não é da sua conta e não tenho a menor intenção de discutir esse assunto com você. Se tem algo a me dizer sobre tudo isso... — Ela apontou para a confusão a seus pés. — Admito que errei e peço desculpas. Más, já que nenhum mal foi feito, não poderíamos esquecer essa história? Max deu uma sonora gargalhada. — Talvez pudéssemos... Mas, pelo olhar malicioso dele, Ângela sabia que não podia nutrir esperanças. E ao continuar, ele não a desapontou. — Não é a minha intenção esquecer este incidente. — Pretende ir à polícia? — Ela sentiu um calafrio percorrê-la ao formular a pergunta. Com certeza, não fora ameaçada em vão com a possibilidade de ser arruinada. Ele ainda estava apoiado contra o armário, as pernas cruzadas negligentemente à sua frente. — Essa também não é a minha intenção... pelo menos, nesse momento. — Um sorriso sarcástico curvou-lhe os lábios. — Meu próximo passo na verdade só depende de você. De súbito, Ângela recordou-se da referência inicial sobre uma possível barganha. Sentiu uma palpitação desagradável. Se ele exigisse dinheiro, estaria em maus lençóis. Na realidade, nada tinha que pudesse lhe oferecer. Ele se endireitou abruptamente e aproximou-se dela. — Dá para perceber que está se perguntando sobre a natureza da barganha que mencionei antes. E seja qual for, será capaz de cumpri-la. Max parou muito perto dela. Ela desejou se afastar, mas cerrou os dentes e permaneceu onde estava, Não lhe daria o prazer de ver o quanto a perturbava. A poucos centímetros de distância, ele percorreu-lhe o corpo com o olhar insolentemente avaliador, como se estivesse despindo-a. — Agora que já sabemos quem somos... — Num gesto atrevido, ele estendeu a mão e contornou sem pressa alguma a gola da blusa trançada com fios prateados que Ângela estava usando. — Agora que tudo foi revelado, estou ansioso para conhecê-la melhor. Visivelmente perturbada, ela parecia não ter entendido a observação. E recusava-se a acreditar

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Sabrina 754 – A Outra Face do Amor – Stephanie Howard que a barganha que ele tinha em mente se relacionasse à entrega de seu corpo. Ele sorriu de forma estranha quando Ângela tentou se afastar, e a deteve segurando-a pelo tecido delicado e brilhante. — Desconfio que por trás de toda essa fantasia cintilante que se diverte usando se esconde a alma de uma mulher muito sensual. E como disse, teria imenso prazer cm descobri-la. — Você enlouqueceu! — Ângela afastou-se bruscamente. — Pode me ameaçar como quiser. Prefiro perder minha agência! — Tem certeza disso? — Cobrindo a distância que os separava, ele a puxou de novo para si. — Gostaria de saber o que Jill iria dizer sobre isso! Lembre-se, minha cara srta. Smith, a agência também é dela. Ângela ficou enojada com a chantagem. De qualquer forma, por um breve momento, havia se esquecido da sócia. De repente, via-se sufocada por uma nuvem escura. Em sua sede de vingança, tudo o que parecia ter feito era colocar cm risco seu futuro profissional e o da amiga também. E não tinha o direito de sacrificar Jill, uma vez que a sócia e amiga não estava envolvida em seus problemas pessoais. — Vamos, diga logo o que quer — Ela recomeçou a falar e fechou firmemente os olhos ao acrescentar — E eu o farei. Parecia que não lhe restava alternativa, a não ser fazer um pacto com o demônio para escapar daquela situação. — Assim está bem melhor. — Max Fielding afastou-se dela, libertando-a enfim. Apesar de seu nervosismo, Ângela ousou fitá-lo. — Afinal, o que quer de mim? Chega de fazer rodeios. Vá direto ao assunto. — Tentando superar a angústia, ela forçou um tom sarcástico. Sem que precisasse verbalizar, havia expressado sua opinião sobre homens como ele, que usavam de chantagem para obter favores sexuais. Embora a expressão dele não tivesse se alterado, Ângela tinha certeza de que ele havia compreendido perfeitamente sua mensagem. — Sente-se. Fique à vontade e preste atenção ao que vou lhe dizer. Atordoada, ela o obedeceu c, com aversão, viu-o se sentar ao seu lado. — Bem, o que tenho cm mente é o seguinte: já que você não é uma má secretária e que é tão agradável tê-la por perto... Eu lhe disse que adoro me ver rodeado de belos objetos, não foi? Bem, decidi mantê-la por mais algum tempo. Por enquanto, vai continuar trabalhando para mim. Alívio e desespero a invadiram. — Não posso ficar aqui! Preciso cuidar do meu negócio! E a sua secretária? Ela retornará cm breve e vai querer o emprego. — Engana-se, srta. Smith. Ela não voltará. Os problemas com a família são mais sérios do que pensava e ela terá de ficar mais algum tempo fora. Portanto, não precisa se preocupar por privála de seu trabalho. Como ele bem sabia, aquela não era a principal de suas preocupações. Endireitando a postura, ela protestou: — Isso é ridículo! Por que me manter aqui quando já tem uma secretária e sabe que sou necessária na Ace Personnel? Ele se recostou na cadeira. — Não se preocupe com os meus motivos. Estes, srta. Smith, não são da sua conta. Digamos

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Sabrina 754 – A Outra Face do Amor – Stephanie Howard apenas que, no momento, prefiro tê-la como minha secretária... e que, a meu ver, não lhe resta escolha a não ser concordar. Eis algo que Ângela não podia afirmar. Por mais sem sentido que a exigência dele parecesse ser, ela se recusava a correr riscos. Respirando fundo e observando-o de esguelha, ela perguntou: — E isso é tudo? Ou seja, só quer que eu fique aqui como sua secretária? — No momento, sim. — Max sorriu enigmaticamente. — Quanto ao futuro, veremos o que nos reserva. Pode ser que eu decida exigir outras coisas de você. Mas também pode ser que não. O que equivalia a dizer que ela ainda não estava segura. Mas compreendeu que não seria sensato de sua parte argumentar. — E por quanto tempo pretende levar isso adiante? — Ela indagou aflita. — Pelo tempo que me for conveniente — Max Fielding ergueu as sobrancelhas e forçou um sorriso. — Por favor, não fique tão nervosa, srta. Smith. É possível que acabe gostando do nosso acordo. Quem sabe? Ângela duvidava muito de que isso pudesse acontecer. Dando de ombros, declarou: — Não conte com isso. Acho mesmo que vou odiar cada minuto. — Veremos — ele replicou, enigmático. Em seguida, levantou-se e, dirigindo-se para a porta, gesticulou para a confusão espalhada no chão. — Destrua os disquetes e rasgue os papéis. E, por favor, nunca mais pense em fazer algo do tipo. Existem câmeras ocultas em cada canto desta sala. Um detalhe insignificante que esqueci de mencionar. Ângela resistiu à tentação de olhar para cima e checar a veracidade das palavras dele. Mas podia sentir pela expressão dele que não estava mentindo. E, mais uma vez, ela se amaldiçoou por conduzir aquela situação de maneira tão imprópria. Que grande tola, imprudente e impetuosa que fora! Max deu-lhe as costas e seguiu para sua sala. Mas, então, abruptamente, parou e virou-se. — Oh, a propósito, pode abandonar esse ridículo disfarce agora. Não lhe cai bem, e, ao contrário do que devem ter lhe falado, não gosto de mulheres que preferem fantasias a roupas comuns. Essa é mais uma razão para mantê-la aqui. Gostaria muito de saber como você é quando está vestida de maneira mais natural. — Um sorriso brincalhão pairou em seus lábios. — Desconfio que você não é apenas muito sensual, mas elegante e fina. Exatamente o meu tipo. Enquanto ele se afastava, Ângela ficou observando-o com ódio. Havia sido derrotada, mas ele se enganava se achava que podia explorar a vantagem que tinha sobre ela. Por mais ameaçada que fosse, jamais sucumbiria às suas investidas sexuais. Nunca, ela prometeu a si mesma.

CAPÍTULO IV

A

ssim que Fielding liberou Ângela naquela tarde, Ângela foi para o apartamento de Jill.

— Não pode imaginar como lamento tudo isso — disse à amiga, com a consciência pesada. — Acha que pode dar conta de tudo sozinha por mais algum tempo?

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Sabrina 754 – A Outra Face do Amor – Stephanie Howard — Mas que canalha é esse Fielding! — Jill mostrou-se solidária. — Claro que posso dar conta. Não se preocupe com isso, Ângela. Mas talvez devesse esquecer essa história de espioná-lo. Não acho que seja uma boa idéia arriscar-se ainda mais. Ele é um homem perigoso. Ângela assentiu, mas não fez promessas. A única coisa que tornava o tempo que teria de passar com Fielding suportável era a possibilidade de continuar trabalhando secretamente contra ele. Além disso, seria uma traição a seus pais se não o fizesse. Mas, mesmo assim, compreendia os receios de Jill. — Não se preocupe — ela a tranqüilizou. — Vou me conduzir com muito cuidado. Tenho que sair dessa confusão o mais rápido possível, não é? Devo isso a você. Depois de jantar com Jill e seu namorado, Eddie, Ângela estava se sentindo bem melhor. Voltou para seu apartamento, exausta e louca para cair na cama. Porém, assim que abriu a porta, o telefone começou a tocar. Ela o atendeu, rezando para que não fosse Fielding. Afinal, uma vez que sabia tanta coisa sobre ela, também podia ter descoberto o número de seu telefone. Mas para seu alívio, era Denis. — Oi, Ângela, tentei falar com você mais cedo, mas não a encontrei em casa. — Calou-se por um instante. — Está tudo bem? — Sim, claro, passei na casa de Jill e acabei jantando lá. E você, como está? - Tudo bem. Só estou telefonando para avisá-la de que continuarei fora por mais três semanas. E Fielding, teve algum sucesso? Já conseguiu descobrir as sujeiras dele? — Não, ainda não. Mas não se preocupe — Ângela o tranqüilizou enquanto se acomodava no sofá. — Vou continuar trabalhando com ele mais um pouco, portanto, ainda terei tempo para descobrir o que quero. — Ótimo. Boa sorte, então. Escute, preciso sair agora. Mas, por favor, me telefone assim que tiver novidades. — Está bem. Cuide-se bem. Vou examiná-lo quando voltar. Ao desligar o telefone, Ângela deitou-se nas almofadas. Perguntava-se por que não havia contado a Denis toda a história. Por que não lhe falara sobre as acusações enigmáticas e incompreensíveis que Fielding fizera contra a primo? Certamente Denis tinha o direito de saber. Ela suspirou. "Essa história é muito confusa e muito mais complicada para ser discutida por telefone." Por isso não lhe contara nada. Mas assim que ele voltasse, o poria a par da inesperada reviravolta da situação. Era uma desculpa verdadeira. Ela havia ficado totalmente confusa, Ângela admitiu mais tarde enquanto se preparava para dormir. E um dos fatos que a deixou muito confusa foi a declaração de Fielding de que não apenas sabia o que ela estava tramando, mas que tinha conhecimento de tudo desde o começo. Quanto mais pensava nisso, mais tinha certeza de que não era verdade. Talvez o que tivesse em parte lhe despertado a dúvida fosse aquela breve e inesperada referencia a seu pai. Se Max Fielding soubesse que ela o espionava por causa do pai, com certeza teria falado mais, dito algumas mentiras e desculpas tolas. E também a intrigava a maneira como ele insistira cm tentar ligar Denis ao caso. De certa forma, parecia bom demais para ser verdade, mas aumentava sua desconfiança de que ele, na verdade, desconhecia a verdadeira origem de seu plano e por que o estava pondo em prática. Ele acreditava que ela estava atrás de alguma outra coisa.

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Sabrina 754 – A Outra Face do Amor – Stephanie Howard E não era de se surpreender, Ângela pensou enquanto se deitava e apagava a luz. Aquele homem devia ter muitos segredos horríveis para esconder. Deitada, ela fitava o vazio. Se assim fosse, ainda lhe restava uma chance da qual poderia tirar vantagem... Portanto, deveria aproveitá-la bem. — Oh, está ótima assim! Eu estava certo quando pensei que por trás daquela fantasia exuberante havia uma mulher elegante e muito atraente. Na manhã seguinte, Ângela entrou no escritório usando uma saia justa, cor de areia, e uma blusa de seda azul. O cabelo solto, caía suavemente sobre os ombros e uma leve maquiagem iluminavalhe o rosto. Sentia-se aliviada por poder voltar a ser ela mesma, mas a dispensava a aprovação de Max Fielding. — Mas que brilhante conclusão! — ela retrucou, lançando-lhe um olhar gélido. — Sem dúvida, você é um especialista quando se trata de julgar mulheres, não é? — Só tenho uma queixa. — Ele ignorou a pergunta sarcástica. — O vermelho lhe cai melhor do que o azul. Já lhe disse isso. Gosto de você usando vermelho. — Raramente uso essa cor — ela mentiu, encarando-o furiosa. — Nesse caso, altere seus hábitos e o use com mais freqüência. Para me agradar. Acho que não é pedir muito, não é mesmo? — Como Ângela continuava a encará-lo, ele sorriu divertido. — Afinal de contas, no início você se preocupava tanto em me agradar! É verdade que passou um pouco dos limites mas, de qualquer maneira, o desejo existia. Por que essa súbita mudança? — Não houve mudança alguma. Nunca foi meu desejo agradá-lo. — Tal sinceridade podia não ser prudente, mas Ângela não conseguiu resistir. — Desde o início, só pretendi que me desse o emprego. — E quem lhe disse que o conseguiria vestida como uma corista? Por acaso foi seu primo Denis? —Talvez... E ele estava certo, não? Afinal, você me deu o emprego. — Realmente. — Um sorriso arrogante dançou em seus lábios. — Mas só porque estava muito curioso para descobrir o que aquele disfarce grotesco escondia. E você realmente é uma mulher muito sensual. Mas, como disse, fica melhor de vermelho. Nesse caso, nunca mais deveria usar vermelho para trabalhar! No entanto, sabia que estava sendo tola, tal atitude seria contra producente. Deveria se sentir grata que pudesse agradá-lo com tanta facilidade, sem ter de vestir-se como uma corista, como ele mesmo havia se expressado. Afinal, até que completasse sua missão, precisava que aquela ligação incômoda durasse. Ela readquiriu o domínio sobre si mesma e sorriu documente. — No futuro, tentarei me lembrar de suas preferências. — Ótimo. — Seu tom transmitia uma nota condescendente. — Veja bem, não estou realmente reclamando. Mas como disse, você está muito atraente esta manhã. — Obrigada. — Ângela mal pôde reprimir uma careta. — E agora, se já terminou a avaliação de minha aparência, talvez não se importasse se eu começasse a trabalhar. — Por favor, fique à vontade. É por isso que está aqui. — Para irritação de Ângela, ele reagiu sorrindo ao seu sarcasmo. — Tem uma pilha de coisas para serem feitas sobre sua mesa. Quando terminar, me avise. Em seguida, enquanto rapidamente se dirigia para sua sala, Max Fielding acrescentou:

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Sabrina 754 – A Outra Face do Amor – Stephanie Howard — Oh, à propósito, preciso que trabalhe até mais tarde hoje. — Depois de uma pausa, continuou com um falso tom de lamento: — Espero que não seja um inconveniente para você. — Nem um pouco. — Não lhe daria o prazer de saber que, na verdade, havia planejado visitar uma amiga naquela noite. Porém, ao entrar em sua sala, sentiu-se alvoroçada. Era como se sua penitência tivesse de fato começado! A avaliação que fizera da situação se revelara precisa. Nos dias que se seguiram, horas extras de trabalho e almoços rápidos se tornaram freqüentes. Mas, pelo menos, isso era tudo que ela tinha de enfrentar. Fielding não lhe fizera outras exigências, além de que cumprisse com eficiência o papel de secretária. Mas então, no meio da semana, ele participou: — Amanhã iremos a Londres. Tenho duas reuniões à tarde. Ângela assentiu com uma expressão séria. — Está bem. — Em seguida, como ele continuava espreitando-a, Ângela acrescentou: — Mais alguma coisa? — Sim. Como teremos um jantar depois, acho melhor você levar um vestido de noite. Poderá trocar-se no escritório. É o que eu também farei. Ela não gostou nada da impressão que aquelas palavras lhe causaram. — É um jantar de negócios com clientes? — Não, srta. Smith. Apenas nós dois. — Ele sorriu, divertido. — Não acha que pode ser muito agradável? — Adoraria poder concordar. — Ângela o olhou com visível aborrecimento, não gostando nem um pouco de seu senso de humor. — Se não se importa, e já que não é um jantar de negócios, prefiro voltar mais cedo para casa. Max Fielding sacudiu a cabeça. — Vai me desculpar, mas não concordo com isso. Nós dois jantaremos juntos esta noite, quer queira quer não. A angustia de Ângela aumentou. Era inútil argumentar, mas não podia simplesmente aceitar a intromissão dele em sua vida particular. — Por que se obrigar a ter uma companhia indesejável? Tenho certeza — acrescentou ela com sarcasmo — de que não faltarão mulheres que não hesitariam em agarrar esta oportunidade. — Tem razão, só que a proposta não é negociável. As outras terão de esperar a sua vez. Amanhã, resolvi lhe dar a honra de dividir minha mesa comigo, srta. Smith. E que honra, Ângela pensava furiosa enquanto vasculhava o guarda-roupa, procurando selecionar algo apropriado para levar na viagem. De repente, deparou-se com o vestido vermelho de seda que lhe custara uma fortuna e que simplesmente adorava. Odiava pensar em usá-lo num jantar com Max Fielding, mas era a opção óbvia. Como repetia a si mesma, era do seu interesse agradá-lo. E foi com o mesmo mau humor que menos de vinte e quatro horas depois, no luxuoso banheiro feminino do escritório de Fielding, em Londres, ela vestiu o vestido vermelho e arrumou o cinto na cintura, para então mirar-se no espelho. Talvez devesse quebrar a elegância simples do vestido com um broche brilhante ou uma gargantilha. Ou então, ter penteado o cabelo de uma forma diferente e passar nos lábios um batom mais vivo. De súbito, ela se dava conta de que, pela primeira vez na vida, achava

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Sabrina 754 – A Outra Face do Amor – Stephanie Howard desconcertante ser ela própria. Sem suas fantasias grotescas, como Fielding falava, sentia-se estranhamente exposta e vulnerável. Vulnerável? Não, claro que não! Com certeza, apenas se sentia constrangida porque detestava a idéia de que Fielding parecia realmente se interessar por ela. E quem queria ser apreciada por um monstro? Quando saiu do banheiro, Fielding a estava esperando no corredor, encostado a um pilar, os braços cruzados no peito. A reação dele não podia tê-la aborrecido mais. Primeiro, olhou-a de alto a baixo, então, assobiou. — Chocante! Adorei! — Ele então aproximou-se dela e ofereceu-lhe o braço. — Vamos. Não sei quanto a você, mas eu estou faminto. Ângela ignorou o gesto. Podia ter concordado sob coação em jantar na companhia dele, mas Fielding se enganava se pensava que possuía alguma intenção de bancar a acompanhante tímida! Como se pudesse ler seus pensamentos, ele sorriu enquanto abria a porta e, pareceu-lhe, sugerir deliberadamente para aborrecê-la: — Diante das circunstâncias, acho que podemos abandonar as formalidades esta noite. Fique à vontade para me chamar de Max, e eu a chamarei de Ângela. Ignorando o desdém dela, ele a conduziu para o rolls royce. — O restaurante não fica longe daqui. Estaremos lá em cinco minutos. Espero que goste de cozinha francesa — concluiu Max com um sorriso ao abrir-lhe a porta. Ângela retribuiu-lhe com a imitação de um sorriso. — Preferiria ir a uma lanchonete. Algo rápido de modo que pudéssemos acabar logo com essa charada. — Não é bem assim, minha querida. Comida, como sexo, é algo que deve ser saboreada. Precisase de, no mínimo, duas horas para saborear os dois. Quando ele fechou a porta, Ângela voltou-se para a janela do carro. Uma sensação estranha a percorreu diante daquela observação sobre sexo. E não era para menos, fora um comentário de muito mau gosto. O restaurante, no centro de Mayfair, era elegante e parecia caro. E ficou claro que Max era um cliente regular enquanto eram conduzidos, entre sorrisos gentis, para uma mesa de posição privilegiada, iluminada por velas. — O que gostaria de beber? — Enquanto o garçom lhes passava os menus, ele lhe sorriu. — Que tal champanhe? Façamos desta uma ocasião para ser lembrada. — Como o naufrágio do Titanic! — Ângela ironizou. Ele estava errado se achava que podia ser persuadida por seu falso charme. Para seu aborrecimento, Max apenas a fitou com despreocupação. — Então, está decidido, beberemos champanhe. — Ele fez o pedido ao garçom. — Mas que senso de humor picante! — Não tanto quanto o seu — retrucou ela. — Suponho que ache muito engraçado sujeitar-me a essa experiência penosa que é ter que agüentar a sua companhia. Como resposta, ele sorriu enfurecendo-a. — Muitas mulheres fariam qualquer coisa para suportar essa provação. Portanto, pare de desdenhar, querida, e tente aproveitar esse raro privilégio. Mas que figura prepotente! Ângela concentrou a atenção no menu, encerrando o assunto com

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Sabrina 754 – A Outra Face do Amor – Stephanie Howard um gesto de cabeça. Mas enquanto permanecia ali, ignorando-o, tinha de confessar que havia uma ponta de verdade no que ele havia dito. Pelo menos aparentemente, ele era uma companhia muito desejável. Max estava usando o mesmo terno cinza que usara durante o dia, mas trocara a camisa por outra branca, que realçava suas feições, e uma gravata de seda vermelha, que ela havia reparado antes, combinava perfeitamente com o tom de seu vestido. Qualquer pessoa que os visse, pensaria que eram um casal de namorados e "enamorados", divertindo-se. E estariam errados? Ela o observou de soslaio e ficou horrorizada com a reação sensível de seu corpo. Nunca havia negado que era um homem atraente mas, ainda assim, sabendo o que sabia a respeito dele, era muito vulgar de sua parte ceder a um jogo de sedução. A única reação física que poderia ter era aversão. — Já decidiu? Quando ele lhe fez a pergunta, Ângela ergueu os olhos a fim de encontrar-lhe o olhar. Dessa vez, para sua tranqüilidade, nada sentiu de estranho. Notou que ele parecia completamente descontraído, e isso a irritou ainda mais. De propósito, ignorou a pergunta dele. E, franzindo as sobrancelhas, comentou: — Talvez pudesse me dizer... Existe alguma razão especial para este jantar? Há algum aspecto do meu trabalho que gostaria de discutir comigo? Ele se encostou na cadeira, concedendo-lhe um sorriso. — Talvez exista, e talvez não. Mas é possível que esse jantar seja apenas para meu prazer. Para Ângela ficou claro o quanto Max se divertia, usufruindo da vantagem que possuía sobre ela. O fato de ser odiado por isso parecia aumentar sua satisfação. E para provar isso, ele acrescentou sorridente: — É sempre um prazer jantar com uma mulher bonita. — Os olhos fixos nos dela, seu sorriso se alargou. — E, a propósito, foi realmente muito delicadeza sua escolher algo vermelho para esta noite. — Não estou usando este vestido por sua causa. — Irritada, ela rebateu instantaneamente, censurando-se por ter dado um tom tão defensivo à negativa. — Acontece que era a única roupa apropriada que encontrei no armário. Max piscou-lhe antes de falar: — Não precisa ficar envergonhada. Como lhe disse, gosto do gesto. Só estou em dúvida quanto a uma coisa. — Ele se calou por um momento, quando o garçom se aproximou com dois copos de champanhe. Ao ver o rapaz se afastar, prosseguiu: — Você escolheu um vestido vermelho para mim, quero dizer, realmente para mim, como uma mulher faz um gesto para agradar um homem? Ou foi apenas mais uma decisão cínica, tencionando me satisfazer em vez de me agradar? Quanta vaidade e delírio! Como podia, em sã consciência, pensar que ela tinha alguma motivação para agradá-lo? Ângela semicerrou os olhos esverdeados. — Por acaso é um daqueles homens que acredita que tudo o que uma mulher faz é deliberadamente para agradar um homem? A maneira como se veste, como se comporta? Tudo

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Sabrina 754 – A Outra Face do Amor – Stephanie Howard em benefício de uma platéia masculina? — Por quê? Não é assim? Ele era mesmo incorrigível. E até mesmo sorriu ao se expressar. — Mas é claro que não! — Ângela se endireitou, exasperada. — As mulheres se vestem e fazem coisas por todos os tipos de razões. Principalmente para agradar a si mesmas! — Mas também para agradar os homens. — Eis ali um homem insistente. — Seria tão desonesta a ponto de negar isso? — Talvez. Se o homem merecer... — E então, não usou este vestido para me agradar? — Escolhi-o porque era o mais conveniente que eu tinha — Ângela disse entre os dentes. — Já lhe disse isso. — É verdade. Perdoe-me por parodiar Shakespeare, mas "Parece-me que a mulher de fato protesta muito". Mas não se preocupe — Max acrescentou antes que ela pudesse responder —, acho a sua reserva interessante. Ao contrário do que posso tê-la levado a acreditar, não gosto de arrebanhar o que está fácil para ser coletado. O que realmente me excita são aqueles tesouros difíceis que só podem ser alcançados com habilidade e persistência. Ângela se sentiu uma presa nas mãos de um caçador e ficou aliviada com a aparição do garçom bem naquele momento, caneta e papel nas mãos, pronto para anotar o pedido. Como a aborrecia o fato de ele ser capaz de desconcertá-la com tanta facilidade! Era capaz de simular total imunidade contra seus jogos, mas no íntimo ele a perturbava e a contundia. Quando o garçom se retirou, Max recostou-se na cadeira. — Bem, já falamos muito sobre mim. Agora, conversemos um pouco sobre você. Ângela tomou um gole de champanhe e, em seguida, contestou: — Você já sabe tudo a meu respeito. — Tudo, não. Por exemplo, fale-me sobre você e Denis. Há quanto tempo essa parceria de vocês existe? — Ao dizer isso, seu tom de voz se alterou sutilmente. — De que parceria está falando? Denis e eu somos primos. — Primos distantes, se considerarmos as ligações sangüíneas. Não é esse o caso? — Sim, é. Ele é filho de um primo do meu pai. Mas sempre pensei nele como sendo de fato um primo. Afinal, como você provavelmente deve saber, já que parece saber tanta coisa sobre mim, ele morou conosco por algum tempo depois que seus pais morreram. Foi então que realmente o conheci. Ela tinha doze anos naquela época; Denis, dezesseis. E embora ele tivesse ficado com sua família por apenas um ano, Ângela aprendera a pensar nele quase como num irmão. Fitando-o firmemente, ela prosseguiu: — Sua teoria de que somos amantes é absurda. Nunca houve, nem poderia haver, algo de natureza diferente de amizade fraterna entre nós. Max sustentou-lhe o olhar. — Então, por que foi morar com ele? Parece muito improvável que uma moça que tem sua própria casa faça tal coisa. A menos, é claro, que esteja romanticamente envolvida. Ah, então, ele não sabia tudo a seu respeito. Com cinismo, ela o informou: — Está um pouco desatualizado. Não tenho mais a minha casa. — Não foi precipitada nisso? Onde vai viver se o romance com Denis acabar?

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Sabrina 754 – A Outra Face do Amor – Stephanie Howard Naquele momento, o garçom reapareceu com as entradas: salada de escarola com alho e vários tipos de queijo para Ângela, savelha curtida no azeite para Max. Ela respirou fundo e esperou que o garçom se afastasse. — Vendi a casa porque minha mãe precisava do dinheiro para pagar as dívidas do meu pai. — Não pretendia lhe contar isso, mas repentinamente não conseguiu se calar. E, ao continuar, pronunciou cada sílaba como uma acusação: — Como deve saber, meu pai, ao morrer, não nos deixou nada, a não ser dívidas. Ele estreitou os olhos enquanto a observava, e permaneceu calado por alguns instantes. — Sim, eu sabia disso. Deve ter sido terrível para a sua mãe. A postura dele era tão inabalável que chegava a ser escandalosa. Como podia se sentar ali e pronunciar semelhantes chavões quando fora ele o responsável pela tragédia financeira de seus pais? Mas, com um certo esforço, Ângela conseguiu reprimir aquela acusação. Por enquanto, guardaria para si o que sabia. — Então, vendeu a casa e foi morar com Denis. — Ele ainda a observava. Sem tocar na comida, perguntou: — E de quem foi a idéia, sua ou dele? — Se quer saber, dele. — Ângela o encarou com uma expressão de censura, e recordou-se de como o convite lhe fora feito na mesma noite que confidenciara ao primo seu plano de procurar Fielding. Ela ergueu os talheres. — Mas é apenas uma medida temporária, até que eu consiga me refazer financeiramente e encontre um lugar para mim. — Entendo. — Max estendeu o guardanapo sobre os joelhos. E os olhos, que momentos atrás a observavam tão atentamente, deixaram entrever mais uma vez aquele brilho divertido e irônico que sempre a enfurecia. — Quer dizer que posso acreditar em suas palavras de que não há nada entre você e Denis? — Ele provou o vinho e a examinou com um repentino interesse. — Existe mais alguém de quem eu deva ter conhecimento? — Que você deva ter conhecimento? Meu caro, sr. Fielding, não existe nada sobre a minha vida que o senhor deva saber. Nosso acordo, até onde sei, não lhe dá esse direito. — Max! Por favor, não seja formal. — Ele então sorriu. — Deixe-me reformular a frase. Você tem namorado? Existe alguém de especial em sua vida? — Pode ser que sim, pode ser que não. — Isso não era da conta dele! — E quanto ao senhor, sr. Fielding? — Ela o interrogou, ignorando seu pedido para tratá-lo pelo nome e, deliberadamente, retribuindo a insolência com insolência. — Existe alguém especial na sua vida? Max simplesmente sorriu. — Vou interpretar isso como um não à minha pergunta. Tenho certeza de que, se existisse alguém, você não reagiria com tanta timidez. — Ele se inclinou sobre a mesa, como se fosse falar algo confidencial. — Isso me faz voltar à questão dessa noite. E é muito mais simples, agora que sei que você não tem nenhum envolvimento amoroso. Ângela sentiu o coração bater descompassado. Então, existia alguma coisa por trás daquele convite para jantar. Devia saber que era mais do que apenas um inocente transtorno. Ele esquadrinhava-lhe o rosto, sendo mesmo provocador. — Não quer saber o que este jantar significa? — Tenho um pressentimento de que não deveria, mas sem dúvida você planeja me dizer de qualquer modo, não é?

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Sabrina 754 – A Outra Face do Amor – Stephanie Howard Sorrindo, Max experimentou o peixe, saboreando-o sem pressa. — Preciso que me faça um favor muito especial. — Ele lhe disse depois de alguns instantes, apoiando o garfo no prato. — E por acaso eu tenho o direito de recusar? — Claro que tem o direito. — Max deu de ombros e comeu outro bocado do peixe. — Não estou pensando em acorrentá-la e forçá-la fisicamente. Mas você deve compreender que se se recusar a cooperar, posso considerar nosso acordo desfeito. E aí... bem, isso terá uma única conseqüência. Será obrigada a dizer adeus à Ace Personnel. Com que tranqüilidade aquele homem proferia ameaças! Nem sequer alterava a voz. Ângela estremeceu ao encará-lo. — A opção que me oferece é muito generosa... Que favor quer de mim, afinal? Max continuou sorrindo e com calma deixou o garfo no prato, fazendo uma pausa antes de responder. Parecia se divertir muito diante do constrangimento dela. — Quero que passe um fim de semana comigo. Mas não como minha secretária, como minha amante.

CAPÍTULO V

Â

ngela fez uma careta para Max.

— Acho as suas piadas detestáveis — observou ela. — Seu senso de humor é espantoso. — Não é uma piada — Max continuou comendo. — Nesse caso, acho que entendi mal o que disse. — Duvido. — Ele fez um sinal para a travessa de salada. — Coma, minha querida, vai acabar com fome esta noite. — Então, ao perceber que ela continuava olhando-o com desdém, acrescentou: — O que eu disse era muito fácil de compreender e simples. Quero tê-la como amante neste fim de semana. "É preciso reconhecer a superioridade do homem, quando se trata de arrogância. E Max Fielding não tem adversários à altura", Ângela pensou e continuou encarando-o. Não havia tocado em seu prato e perdera a vontade de fazê-lo. — Fácil e simples. É isso o que acha? Eu, pessoalmente, diria algo mais. — Devo dizer que não parece fascinada pela idéia. — Max se serviu de outra porção de savelha e sorriu. — Fascinada? Francamente, estou enojada. Como pode ser tão atrevido a ponto de fazer tal sugestão? Max franziu o cenho como se tivesse se surpreendido com a pergunta. — Oh, esqueci de mencionar que... — Ele se deteve por um momento. — Não estou pedindo para que seja minha amante de verdade. Só quero que finja ser. — Sacudindo a cabeça, Max continuou: — Calma, Ângela. Você não pensou que eu seria capaz de sonhar em fazer uma sugestão tão escandalosa, não é mesmo? Mais uma vez ele a tinha enganado!

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Sabrina 754 – A Outra Face do Amor – Stephanie Howard — Honestamente, nem mesmo a idéia de fingir me agrada. Na verdade, para ser mais honesta ainda, acho-a repulsiva. — A honestidade é uma qualidade que sempre admirei. Por isso, seja honesta sempre. — Mas nunca se sentiu inclinado a aspirá-la — retrucou ela sem sequer pensar. Ao se dar conta de que o insulto parecia diverti-lo, Ângela pegou os talheres, levou um bocado de legumes à boca e mastigou-os furiosamente. Então, como Max ainda a observava, indagou: — E que história estúpida é essa da qual espera que eu participe? Já que não me resta escolha, a não ser concordar com isso, acho que devo saber do que se trata. Recostado contra o encosto da cadeira, Max brincava com o copo de vinho, — Não leve as coisas tão a sério, minha cara. Acho que a história toda, se encarada com a disposição certa de espírito, pode se revelar uma inofensiva brincadeira. — Brincadeira? — Sim, brincadeira, Ângela. Você precisa aprender a desconfiar menos de mim. — Em seguida, vai me pedir para desenvolver asas e voar. Mas algumas coisas, sr. Fielding, simplesmente não são possíveis. — Não seja tão pessimista. Não pode dizer o que é ou não possível até tentar. — Bem, eis aí algo que pode tentar. — Ângela inclinou-se sobre a mesa. — Tente explicar no que consiste essa sua ridícula proposta. Max esperou até que o garçom recolhesse os pratos da entrada para perguntar: — Já esteve em Gloucestershire? Ângela sacudiu a cabeça, impaciente. E aquilo lá era alguma explicação? — Não, nunca. — Então, está sendo convidada. — Ele serviu vinho para os dois. — É um lugar muito bonito da Inglaterra. Lane Park, onde iremos ficar, é uma região muito antiga, rodeada por florestas e campos. — Que idílico! De fato, um verdadeiro paraíso. Mal posso esperar para chegar lá. — É exatamente assim que me sinto. — O sarcasmo dela parecia apenas aumentar a satisfação dele. — Fico feliz que esteja reagindo com tanto entusiasmo. Seria um desperdício terrível levar para lá alguém que não apreciasse o Socai. Ela o acusara antes de ter um espantoso senso de humor. Mas não era só isso; também era enlouquecedor. Tão enlouquecedor que conseguia desarmá-la. Ele parecia quase humano quando estava sendo jocoso. Humano e alarmantemente atraente. Ângela sufocou esse pensamento e o fitou. — Isso me estimula a fazer uma pergunta óbvia. Por que não leva uma das tantas mulheres interessadas em você? Por que fui premiada com essa honra? — Fico feliz que se sinta lisonjeada. — Max olhou para o prato enquanto o garçom servia os medalhões com cogumelos. Em seguida, voltou-se de novo para Ângela e prosseguiu: — Além de nós, muitos outros convidados estarão em Lane Park. Mas, prometo que vou fazer o melhor que puder para dedicar-lhe toda a atenção que seu status de noiva exija. — Noiva? — Ângela arregalou os olhos. — Porque essa repentina promoção? Entendi que iria fazer o papel de sua namorada, só isso. — É o que prefere? — Não prefiro coisa alguma! Para ser franca, preferiria que escolhesse outra pessoa.

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Sabrina 754 – A Outra Face do Amor – Stephanie Howard — Talvez seja por isso mesmo que a escolhi. Se levasse outra mulher, correria o risco de que entendessem tudo errado. E poderiam querer prolongar a história, assim que o fim de semana terminasse. — Mas que petulância! — Ângela grunhiu, embora lhe desse razão. Qualquer pessoa, cega demais para distinguir os defeitos dele, poderia considerar Max Fielding um excelente partido. Era um homem rico, bonito, de forte sensualidade. E quando queria, mortalmente fascinante. Para muitas mulheres, uma combinação perfeita. Felizmente, apesar de às vezes ele conseguir perturbá-la, Ângela ainda se considerava senhora de suas percepções. E por baixo daquela fachada maravilhosa, era capaz de enxergar muito claramente um manipulador impiedoso. — Tem razão — Ela o tranqüilizou. — Comigo, estará seguro. No que me diz respeito, pior que fingir ser sua noiva, só mesmo sendo sua noiva de verdade. Na minha opinião, isso seria pior que a morte. — Você realmente acredita nisso? — ele perguntou calmo e imperturbável. Será que haveria alguma coisa que fosse capaz de dizer que pudesse abalar aquele ego intolerável, Ângela pensava com irritação. Parecia que não. — Lá pelo fim da semana, você pode ter mudado de idéia. Sem dúvida, terá me conhecido melhor e poderá apreciar muitas das minhas virtudes. — Eu não contaria com isso — Ângela o advertiu. Ele a olhou como se compartilhasse de uma certa intimidade, fazendo a pulsação dela acelerar. Baixando os olhos para o prato, ela acrescentou: — Além disso, não concordei em cooperar. — Mas irá. Você é sensata. Sabe que não vale a pena me contrariar. Mas que grande prazer teria em se arriscar se soubesse que ele não manteria a promessa de fechar a agência e arruinar sua carreira! — Por que eu deveria concordar quando você nem sequer me contou qual o objetivo dessa bobagem toda? — ela replicou em tom de desafio. — Deve haver alguma razão para você me levar e me apresentar como sua noiva. Sei muito bem que não é pelo prazer da minha companhia. — Realmente não é. Embora, quem sabe? — Ele deixou a frase inacabada e deu-lhe um sorriso malicioso. — O prazer de sua companhia pode acabar se revelando uma recompensa mais do que gratificante. Ângela ignorou o comentário. — Afinal, qual é a razão? Qual c o desfecho? Conhecendo você, deve haver um. Max se serviu de um pedaço de carne antes de responder. — Acho que quanto menos conhecer os meus motivos, melhor. Se eu lhe contasse, poderia despertar sua curiosidade. E talvez você se sentisse tentada a sabotar os meus planos. Ângela se animou um pouco. Até então não havia progredido em suas tentativas de descobrir o que acontecera com o dinheiro do pai, e esse fracasso estava se tornando muito deprimente. Mas Max parecia estar insinuando que podia estar ao alcance dela algum tipo de represália, por menor que fosse, naquele meio tempo. Se conseguisse descobrir por que ele precisava de uma noiva temporária, teria imenso prazer, enquanto fingia concordar com a farsa, em jogar areia em seus planos cuidadosamente elaborados.

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Sabrina 754 – A Outra Face do Amor – Stephanie Howard — Sabotar seus planos? — Ela sorriu com satisfação. — Acredita mesmo que eu sonharia em fazer tal coisa? Já passavam das onze horas da noite quando eles finalmente saíram do restaurante depois do que, se por nenhum outro motivo, fora uma excelente refeição. A companhia a irritara um pouco, mas a comida e o vinho estavam excepcionais. Ângela se aconchegou no banco enquanto o carro deslizava silencioso pelas ruas desertas de Mayfair. Ela olhava pela janela, consciente da estranha sensação que lhe alvoroçava o íntimo. Devia estar sentindo revolta e raiva do homem que se sentava tão calmamente ao seu lado. A história na qual a envolvera era uma imposição vergonhosa. Devia estar furiosa. E de fato estava, garantiu a si mesma, franzindo a testa. Porém, não podia negar que, interiormente e de uma maneira perversa, estava ansiosa pelo fim de semana. Era apenas a possibilidade de sabotar os planos dele que lhe despertava tanta ansiedade, ela concluiu apressadamente. Com certeza, a expectativa não estava no prazer da companhia dele. Atravessaram o centro de Londres com seus painéis iluminados a néon e seguiram para a estrada que os levaria para Cambridge, ambos em silêncio, perdidos em seus próprios pensamentos. Então, inesperadamente Max perguntou: — Diga-me uma coisa, como é que você não tem um namorado? — Quem disse que não tenho? — Pega de surpresa, ela se mostrou defensiva. E que direito ele tinha de lhe fazer perguntas pessoais? — Isso quer dizer que você tem? — E o que isso tem a ver com você? — Absolutamente nada. — Ela podia jurar que Max sorria ao responder. — Mas acontece que acho essa parte da história muito intrigante. — Olhe, sugiro que se preocupe com a vida de outra pessoa. Não pretendo diverti-lo com detalhes sobre a minha vida particular. Max Fielding mostrava-se impossível de ser desencorajado. — Qual é o problema? Dirigir a agência a mantém tão ocupada que não é capaz de arranjar tempo para o amor? — Como Ângela o ignorou, ele acrescentou num tom provocativo: — Ou você não gosta de homens? — Mas é claro que gosto de homens. Alguns homens, naturalmente — ela se corrigiu. — E já que está tão curioso, eu tinha um namorado, até bem pouco tempo. Max a olhou com curiosidade. — Oh, e o que aconteceu? — Nada. Apenas acabamos. — Compreendo. Que coisa triste! — Seu tom era irritantemente compreensivo. — Mas não se preocupe. Essas coisas acontecem, às vezes. — Não foi triste. Era mais um desses casos sem muita importância. — Mas você é uma mulher muito dura. Tem um coração de pedra! Vindo dele, tal comentário assumia um caráter absurdo! Ele, sim, possuía um coração tão duro quanto granito! Mas embora não lhe importasse realmente o que Max pensava a seu respeito, Ângela sentiu-se tentada a amenizar o que lhe dissera com uma explicação desnecessária. — Não quis dizer que não tinha importância. Mas quando o relacionamento não evolui, o melhor

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Sabrina 754 – A Outra Face do Amor – Stephanie Howard é terminar e não perder tempo com lamentações? Na verdade, ficara muito triste. Seu relacionamento com Andy durara cerca de três anos e tudo parecia ir bem até que fora transferido para os Estados Unidos. Ele viajara jurando que a separação não iria prejudicá-los e que ficaria longe no máximo um ano. No entanto, resolveu permanecer no outro continente e, aos poucos, perderam contato. Quando a ruptura finalmente se concretizou, há muito Ângela deixara de sofrer. Mas aquele não era um episódio do qual se recordava com prazer e não havia nenhuma razão para que um desconhecido como Max Fielding soubesse desses detalhes. Ele não era uma pessoa com a quem devia segredar suas decepções. Amor e sexo para ele não passavam de meros pretextos para obter prazer e diversão. Certamente, zombaria de quem levasse a sério um romance. Max a olhou quando chegaram à rodovia. — E depois disso, não houve mais ninguém? Deus, não me diga que é uma jovem abstêmia? Aquele era exatamente o tipo de comentário que Ângela esperava. — Apenas não passo de um caso amoroso para outro irresponsavelmente, como é seu hábito fazer. Algumas pessoas ainda estão procurando por qualidade e não quantidade. — Um objetivo muito digno. — Max sorriu ironicamente. — Espero que possa ser feliz nessa empreitada, querida. Viva a superioridade! Ângela lhe lançou um olhar mal-humorado e resolveu desafiá-lo para valer. Queria ver até onde ele podia aceitar uma crítica de ordem pessoal. — Não se preocupe, já esperava por essa reação irônica. Afinal de contas, esse é o tipo de pessoa que você é. Se fosse uma pessoa séria, não precisaria montar essa farsa estúpida com uma noiva fictícia. Você já teria uma noiva de verdade! Aliás, já tem idade para ter uma esposa! — É assim que as coisas acontecem com as pessoas sérias? Elas têm esposas e noivas? — Isso é o normal — Ângela replicou num tom cortante. — Mas, já que você certamente não foi talhado para qualquer tipo de responsabilidade afetiva, não me surpreende que na sua idade você ainda esteja solteiro. — Na minha idade? — Ele riu. — Quem você pensa que eu sou, Matusalém? — Longe disso, mas a maioria dos homens está casada na sua idade. Você deve ter pelo menos trinta e seis anos. — Acertou em cheio, cara Ângela. Vou fazer trinta e seis anos daqui a dois meses. E acho que tem razão, devia estar casado. Aliás, é um pecado privar as mulheres de um marido com as qualidades que possuo. — Continuou a fitá-la, saboreando o riso sarcástico dela. — Mas felizmente é um pecado ao qual posso resistir. — Duvido que existam pecados aos quais possa resistir. — É verdade, até tentei. Mas vou contar-lhe algo que pode surpreendê-la. Quase cheguei a me casar umas duas vezes. Faltou pouco. A revelação realmente a surpreendeu. — E o que aconteceu? Por acaso a pobre noiva acabou descobrindo o tipo de homem que você é antes do tempo previsto? — Algo parecido. Ou talvez, como aconteceu com você, nós simplesmente tenhamos nos afastado. Seguiram em silencio durante o resto do caminho. Para Ângela, bem que podia ter sido poupada

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Sabrina 754 – A Outra Face do Amor – Stephanie Howard daqueles poucos detalhes sobre a vida particular dele. Precisava saber apenas como ele havia enganado seu pai. Tudo o mais, lhe era indiferente. Mas as confidencias inesperadas lhe provocaram uma sensação incômoda; como se, contra sua vontade, estivesse sendo atraída para uma teia traiçoeira. Ao revelar seu lado humano e falível, ele parecia estar lhe pedindo para confiar nele, para parar de ser tão desconfiada e de vê-lo como um inimigo. Talvez, Ângela conjeturava, ele tivesse finalmente adivinhado a verdadeira razão de seu interesse por ele e esperasse persuadi-la a desistir de sua vingança, manipulando-a. Mas isso não tinha sentido. Se Max soubesse o que ela estava tramando, bastava despedi-la para estragar todos os seus planos. E o que fizera fora exatamente o contrário. Confusa, ela franziu a testa. Não fazia sentido, a menos que tivesse concluído que a melhor maneira de controlá-la fosse mantê-la por perto, de modo que pudesse sempre estar de atento a ela. E essas considerações inúteis começavam a lhe provocar dor de cabeça e, mais que isso, não a levavam a lugar algum. Era inútil tentar descobrir o que se passava na mente de Max Fielding, o homem mais cínico e trapaceiro que conhecera. Aproximaram-se da periferia de Cambridge; as silhuetas lendárias e familiares das torres contemplavam a cidade antiga com uma magia melancólica. Ângela suspirou e se sentiu um pouco mais tranqüila. Em breve, aquela noite penosa chegaria ao fim. Eles atravessaram as ruas escuras e desertas da cidade, seguindo por fim em direção ao apartamento de Denis. — Vou acompanhá-la até a porta do seu apartamento. — Antes que ela pudesse protestar, Max saiu do carro e contornou-o para lhe abrir a porta. Ângela desceu e na calçada argumentou: — Eu lhe garanto que não é necessário. Posso muito bem chegar até lá sozinha. — Ah, mas insisto. — Segurando-a pelo braço, ele a conduziu para a entrada do edifício. — Que tipo de homem eu seria se permitisse que uma jovem indefesa como você subisse sozinha para o seu apartamento? Além disso — ele sorriu e abriu a porta —, sua segurança e bem-estar me são muito caros. O que eu faria neste fim de semana se alguma coisa lhe acontecesse? Ângela não respondeu. Melhor deixá-lo fazer seu jogo. Afinal, seria inútil argumentar. Com um olhar aflito, ela o deixou acompanhá-la ao elevador e apertar o botão de seu andar. Então, quando as portas se fecharam, preferiu desviar os olhos dele ao vê-lo se encostar negligentemente contra a parede. — Posso confiar que, neste fim de semana — observou ele sem deixar de fitá-la —, você vai entrar no espírito da coisa? Ficaria muito decepcionado se não desempenhasse seu papel com emoção. Ângela deu de ombros. A claustrofobia a sufocava, fechada ali naquele minúsculo espaço com ele. — Farei o melhor que puder, mas não espere muito. Representar o papel de sua noiva não é das tarefas mais fáceis. — Considere isso como um desafio. E não se preocupe, lhe darei toda a assistência que precisar. — Diante do olhar de advertência dela, ele acrescentou, tom malicioso: — Suponho que saiba

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Sabrina 754 – A Outra Face do Amor – Stephanie Howard como as noivas se comportam, não é? — Faço alguma idéia. — Onde ele queria chegar? De repente, começou a desconfiar ainda mais da atitude dele. — Elas têm um comportamento muito particular. É absolutamente essencial que você o compreenda bem. — É mesmo? — Absolutamente. Então, num instante de loucura, ela lhe fez a pergunta fatal. — O que elas fazem? Acho que nunca reparei nisso. De súbito, a expressão dos olhos dele se alterou, fitando-a com um olhar intenso. — Para começar ... — Ele aproximou-se dela. — Para começar, querida, elas fazem coisas como essas... No instante seguinte, para horror de Ângela, ele estendeu o braço, levando uma das mãos às costas dela e atraindo-a para si. A outra mão acariciava-lhe os cabelos, fazendo-a estremecer. O coração de Ângela parecia querer saltar do peito. Ela desejava resistir e afastar-se dele, livrar-se dos braços opressivos que a aprisionavam. Mas quando, naquele exato instante, as portas do elevador se abriram, como se em resposta às suas súplicas, ela se sentiu incapaz de se mover. Silenciosamente, o coração batendo num ritmo frenético, ela o fitou como uma presa apanhada em uma armadilha.

CAPÍTULO VI

Q

uando os lábios de Max tocaram os seus, Ângela sentiu o coração bater forte no peito. Tudo

à sua volta girava, mal conseguia manter-se em pé. Ele lhe acariciou as costas, provocando arrepios de prazer. E quando o beijo, no princípio gentil, se tornou ávido e intenso, ela quase gritou ante o arrebatamento intenso. Seu corpo ardia nas chamas do desejo. Sentiu os lábios perderem a rigidez inicial, saboreando a invasão da língua doce e quente. Vivia uma loucura. Uma maravilhosa loucura, à qual não podia resistir. Ângela mal reparou quando as portas do elevador se abriram, no gesto de Max apertando um botão e, então, quando as portas se fecharam novamente. "Isso pode durar a noite toda", ela pensou um pouco atordoada ao perceber que o elevador começou a descer. "E eu não me importaria". Na verdade, desejava mesmo que passassem a noite ali dentro e que aquele beijo não tivesse fim. Ao se sentir acariciada com intimidade, seu sangue parecia transformar-se em fogo, tamanha excitação que a tomava. E quando ele a pressionou contra seu corpo, sentiu a intensidade do desejo que o possuía. Max deslizou a mão por dentro do casaco que ela estava usando. Ângela prendeu a respiração ao sentir as mãos fortes tocando os seios sob o tecido leve do vestido. Gemeu de prazer.

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Sabrina 754 – A Outra Face do Amor – Stephanie Howard Isso é loucura, loucura... A consciência estava anuviada pelos sentidos cada vez mais aguçados pelas carícias. Ela pousou a mão delicadamente sobre o peito dele, como se com esse gesto pudesse concentrar sua energia para reagir e afastá-lo. Porém, à medida que as mãos dele continuavam acariciando-a, com um suspiro ela rendeu-se, afundando o rosto no peito largo, erguendo as mãos para brincar com os cabelos sedosos. O perfume dele, suave e provocante, o calor de seu corpo, o contato dos corpos minavam-lhe a resistência. — Oh, Max! — Ângela murmurou, estremecendo e aninhando-se nos braços dele. — Estou vendo que não é totalmente inexperiente quanto aos segredos de uma noiva. — Ao falar, ele a pressionou mais junto a si. Observando o rosto corado, Max sorriu e acrescentou: — Isso é ótimo. Vai contribuir para um fim de semana muito agradável. O tom frio e sarcástico teve o efeito de uma bofetada. Imediatamente ela se afastou. — Tire as mãos sujas de mim! Que acha que está fazendo? — Travando conhecimento. — Ele permaneceu impassível diante da explosão de raiva. — Essa me pareceu uma boa oportunidade para exercitar um pouco. Afinal, teremos um fim de semana inteiro e cheio dessas práticas. Ângela fechou os olhos por um instante. Enquanto se deixava envolver por uma onda de paixão, ele "se exercitava um pouco no jogo de sedução"! Quão inocente e tola havia sido! Ela afastou o cabelo do rosto e olhou-o, furiosa. — Não teremos nenhum fim de semana cheio de coisa alguma! É melhor esclarecermos uma coisa, O que acabou de acontecer foi... Calou-se ao vê-lo esticar o braço em sua direção. De repente, foi violentamente puxada para o lado e, assim, teve seu segundo acesso de raiva frustrado. — Como se atreve? — ela gritou com voz esganiçada. — Não pode ouvir o que estou dizendo? Ângela mordeu o lábio inferior, sentindo-se ridícula quando, com ar desdenhoso, Max passou por ela e apertou um dos botões do painel. As portas se abriram, fecharam-se uma vez mais, e o elevador começou enfim a subir para o quarto andar. Max se encostou na parede, os braços cruzados à sua frente. — O que você estava dizendo? — perguntou num tom casual. — Parecia um pouco contrariada com alguma coisa. Que se danasse a calma dele! Ângela cerrou os dentes e lançou-lhe um olhar mal-humorado. — Eu não disse nada. Deve ter sido imaginação sua. E, para seu alívio, chegaram ao quarto andar. Max afastou-se para lhe dar passagem. Ela saiu para o corredor e, antes que ele pudesse segui-la, virou-se e lhe disse abruptamente: — Aproveite que o elevador ainda está aqui e desça. O apartamento é aquele ali, no canto. Realmente não precisa perder mais tempo. No momento, ela desejava ardentemente ver as portas do elevador se fecharem, com Max Fielding atrás delas. Naturalmente Max sabia disso. Talvez por isso mesmo saiu do elevador. — Não é nenhum incômodo — ele assegurou e a conduziu pelo corredor. — Insisto em vê-la em segurança lá dentro. Afinal, essa é uma das minhas obrigações enquanto seu noivo. Ângela não o olhou. Como ele gostava de atormentá-la! Como gostava de vê-la embaraçada!

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Sabrina 754 – A Outra Face do Amor – Stephanie Howard Sua raiva era tanta que começou a tremer, mal conseguindo colocar a chave na fechadura. Por fim e com grande esforço, ela abriu a porta. — Boa noite e obrigada. — Só um momento. — Ele a deteve no vestíbulo e acendeu a luz. Em seguida, examinou o interior da sala e sorriu. — Tudo bem. Acho que está em segurança agora e pode se deitar. — Já terminou? — Ângela indagou, encarando-o. — Ou ainda quer fazer mais alguma coisa antes de me deixar em paz? — Não, acho que não. — Max tomou a direção do elevador. Mas quando ela estava fechando a porta, ele virou-se e segurou a maçaneta. — Tem razão. Tem sim mais uma coisa que quero lhe dizer e esclarecer de uma vez por todas. — Seus olhos passeavam irônicos e maliciosos pelo rosto dela. — Alguns minutos atrás, você fez algum comentário sobre o que aconteceu no elevador, dando a entender que não deveria mais se repetir. Lamento muito, minha querida, mas quanto a isso está enganada. Se o desejamos ou não, isso acontecerá muitas vezes durante o fim de semana. Ele franziu a testa e semicerrou os olhos, fitando-a atentamente. — Espero que desempenhe seu papel de noiva com o mesmo grau de entusiasmo que mostrou no nosso rápido ensaio. Espero também que tenha sido claro. — Enquanto ela continuava a observá-lo, pálida de raiva, Max girou nos calcanhares. — Boa noite e durma bem. Durante todo o dia de sexta-feira, Ângela se sentiu ameaçada pela aproximação do fim de semana. Estremecia só de pensar na provação a que seria submetida. Mas não tinha escolha e sabia disso. Max, ela percebera claramente, estava se divertindo com sua angústia. — Dormiu bem? — Ele lhe perguntara ao chegar ao escritório naquela manhã, parando um instante para lhe dar um sorriso devastador. E acrescentou, quando ela assentiu silenciosamente com um gesto afirmativo de cabeça: — Vai precisar de toda a sua energia para o fim de semana. Depois disso, Ângela evitou observá-lo quando ele foi à sua sala pegar documentos nos armários. Apesar disso, não podia deixar de perceber o sorriso presunçoso e sarcástico quando, vez por outra, espiava em sua direção. De qualquer forma, era muito mais do que apenas apreensão pela chegada do fim de semana que a perturbava. Ainda procurava encontrar uma explicação racional para ter sucumbido às investidas dele no elevador. A simples lembrança daqueles momentos alterava suas pulsações. De onde surgiram todas aquelas sensações perigosas e atordoantes? O que a havia acontecido para ela se deixar envolver daquele jeito? Ele era um homem atraente, Ângela ponderava, sabendo que aquela era uma desculpa pouco convincente. Sempre soubera que Max Fielding era um homem atraente, mas nunca antes se sentira tentada a cair em seus braços! E, afinal, não tinha claro que jamais poderia se interessar por um vilão como ele? Então por que, na noite anterior, esquecera-se de todas essas considerações? Por que sucumbira para em seguida ser esmagada pela descoberta de que ele estava apenas brincando com seus sentimentos? Quase morria de vergonha ao lembrar-se da cena. Era aquela revelação que a deixava apreensiva agora. Durante o fim de semana provavelmente

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Sabrina 754 – A Outra Face do Amor – Stephanie Howard tivesse de se sujeitar a outros de seus jogos impiedosos. Era muito mais que provável, ela concluiu. E como iria reagir? Ângela franziu o cenho, olhando para a tela de seu computador. Com certeza, não teria problemas. Era inconcebível que se despojasse de suas defesas outra vez. Além disso, talvez não acontecesse nada. A consciência de que tudo representava um jogo para ele só lhe provocaria desprezo, e não prazer. Ela respirou fundo. De alguma forma, enfrentaria a situação. Além disso, seria apenas por dois dias. Com certeza, nada de horrível poderia acontecer no espaço de quarenta e oito horas. No final do dia, enquanto se preparava para ir embora, Ângela começava a se sentir mais confiante quanto à sua habilidade de administrar os desafios dos próximos dois dias. Quando Max apareceu na soleira da porta da sala dela, ela o recebeu com calma. — Tem mais alguma coisa que deva ser feita hoje? Estou indo embora. — Terminou todas as cartas? — Ele permaneceu parado na soleira. — Gostaria de colocá-las no correio ainda hoje. Ângela pegou o pacote de cartas de sua mesa enquanto colocava a bolsa no ombro. — Estão prontas, sim. Se assiná-las agora, posso colocá-las no correio a caminho de casa. — Está bem. — Max tirou a caneta de ouro do bolso interno do casaco, inclinou-se sobre a mesa e começou a assinar as folhas. Ângela o observava, feliz por perceber que apesar da proximidade, não sentia nem uma ponta da agitação da noite anterior. Uma aberração, concluiu ela, endireitando os ombros. Uma aberração inexplicável! Mas, quando ele se endireitou, o coração dela disparou. O perfume envolvente dele a transportou imediatamente para um mundo de sensações deliciosas que ela descobrira na véspera. Não, foi apenas o movimento súbito que a surpreendeu, ela tentou se convencer enquanto Max se afastava. Pegou as cartas para colocá-las nos envelopes. Ele estava sentado em seu escritório quando Ângela entrou na sala, com as cartas na bolsa. — Estou indo, então. Boa noite — ela se despediu rapidamente e começou a se dirigir para a porta. — Boa noite, Ângela. Nós nos veremos amanhã, às nove e meia, como combinamos. Ângela assentiu, evitando o olhar dele, sem parar de andar. — Eu a avisei sobre o que irá precisar. Portanto, não se esqueça de escolher suas melhores roupas. Nada de fantasias de coristas! — Claro. — Ela já havia se desfeito daquelas roupas. — Levarei exatamente o que me recomendou. — Excelente. Mas acho que me esqueci de mencionar um detalhe. — Qual? — Ângela hesitou, segurando na maçaneta. Não gostava nenhum pouco do sorriso e do olhar dele. — Gostaria que levasse uma camisola bem bonita. Camisola! Ângela arregalou os olhos, consciente da vermelhidão de seu rosto. — Espero que não esteja insinuando que você e eu iremos dividir um quarto? — protestou com a voz enrouquecida.

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Sabrina 754 – A Outra Face do Amor – Stephanie Howard — Mas é claro que sim. — Ele havia se levantado da cadeira e contornado a mesa, fitando-a agora com as mãos nos bolsos. — Para todos que lá estarão, somos noivos. E nos dias de hoje parecerá muito estranho se não dormirmos no mesmo quarto. Ângela respirou fundo e deu um passo na direção dele. — Não concordo. — Ela tremia de raiva. Como ele se atrevia a lhe dizer tal coisa? — E é bom saber que não tenho a menor intenção de dividir um quarto com quem quer que seja. Max sacudiu a cabeça. — Isso está fora de questão. O combinado é que você vai dormir comigo. Além do mais, embora seja grande, a casa da minha amiga não é nenhuma mansão. O número de quartos é limitado. — Nesse caso, vou dormir num hotel! — Ângela insistiu, inflexível. — Eu não vou, repito, não vou dividir um quarto com você! — Do que tem medo? — A expressão de seu rosto ainda era de desdém, os olhos percorrendo-a com vagar. — Como parceiro de cama, até que sou uma pessoa agradável. Não ronco nem puxo todos os cobertores só para mim, tampouco falo dormindo. — Eu devia ter desconfiado! — Ele não conseguiu acalmá-la com seu senso de humor. — Devia saber que não poderia confiar em você... Não é um sujeito decente! Sabe muito bem que isso não faz parte do nosso acordo. Tenho todo o direito do mundo de recusar! — Mas, por certo, você imaginou que íamos dormir juntos? — Não imaginei nada ou jamais teria concordado com essa história! — Fora ingênua, mas era verdade. Confiara que ele seria um cavalheiro para providenciar quartos separados. — Bem, lamento, mas as coisas são assim. Goste ou não, dormiremos juntos. — Posso lhe afirmar que não! — Ela deu mais um passo na direção dele. Desejava agarrá-lo pelo pescoço e estrangulá-lo. — Portanto, a menos que tome outras providencias, é melhor cancelar esse seu compromisso. — Ah, não, não farei isso. — Ele se endireitou devagar, tirando as mãos dos bolsos. — Muita coisa depende deste fim de semana para que eu o cancele só por causa dessa sua exigência extravagante de não querer dividir uma cama comigo. — Pode gracejar quanto quiser. — Ângela ergueu o queixo em desafio. — Só que isso não muda nada. E não irei fazer isso! — Oh, sim, irá. — Oh, não, não o farei, sr. Fielding! — Sr. Fielding? — Ele repetiu, franzindo a testa. — Até onde me lembro, eu era "Max", ontem à noite. Esperanças vãs, ela pensou. Ele não era gentil nem sensível. — Já lhe perguntei antes, do que é que tem medo? Se receia que eu possa estuprá-la, pode descartar esses temores. Só vou até onde sei que sou bem recebido. Portanto, nada tem a temer. — Ele segurou-lhe o queixo e quando Ângela tentou se afastar, forçou-a a encará-lo. — Não tente se esquivar desse compromisso. E não oponha resistência. Eu lhe asseguro que não será nada bom para você. Ângela o fitou, o coração batendo furiosamente. Não era preciso nenhuma explicação. Ele estava se referindo, claro, à sua ameaça de fechar a agência. Jamais havia odiado alguém como odiava Max Fielding naquele momento. — E se cumprir com a sua parte — ele prosseguiu num tom provocante —, quando o fim de

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Sabrina 754 – A Outra Face do Amor – Stephanie Howard semana terminar, posso até liberá-la do nosso acordo. Veja bem, sem promessas. Mas do seu ponto de vista, só essa possibilidade torna esse seu pequeno inconveniente válido, não acha? — Max tirou a mão do queixo dela e acrescentou: — E, quem sabe, talvez acabe achando divertindo dividir o quarto comigo, querida Ângela. Ângela afastou-se, ofegante. — Pode acreditar que eu ainda prefiro dormir na rua, com neve e tudo. Mas parece que não tenho escolha, portanto, com muita relutância, vou concordar com você. Posso até dormir no mesmo quarto, mas jamais dormirei na mesma cama. Ele apenas deu de ombros. — Mais espaço para mim. Agora que já esclarecemos esse pequeno detalhe, talvez possa ir embora. Ainda preciso trabalhar. Só não se atrase amanhã de manhã — lembrou-a com seu tom irônico que tanto a enfurecia. — Sabe que não gosto de esperar. Ângela dirigia-se para a porta e quando a abriu, Max acrescentou: — E não se esqueça do que lhe falei sobre a camisola. O sacrifício merece algo bem sensual. — Antes que Ângela saísse e batesse a porta atrás de si, ele ainda teve tempo de dizer: — Mas, se como eu, prefere dormir nua, não se preocupe com a camisola!

CAPÍTULO VII

— Você está maravilhosa! Max estava parado na soleira porta do apartamento, quando Ângela apareceu com a mala, vestindo um conjunto de calça comprida e blazer azul-marinho com uma camisa de seda branca. Ele pegou a mala da mão dela, piscando-lhe maliciosamente. — Na verdade, acho que nunca a vi tão bonita. — Por favor, poupe-me de elogios falsos. Ainda nem chegamos lá e não há ninguém por perto. — Só estou tentando me acostumar. — Ele a encarou deliberadamente por um instante. — Alem disso, não estou tecendo falsos elogios. Você realmente está maravilhosa. É a noiva da qual todo homem da Inglaterra iria se orgulhar. Max foi até o elevador, enquanto Ângela fechava a porta. — Igualmente, sr. Fielding, está representando um noivo muito apresentável. — É muita gentileza de sua parte. — Quando as portas do elevador se abriram, ele se afastou, dando-lhe passagem. Depois que ambos entraram, ele a encarou e observou: — A propósito, insisto que abandone as formalidades. Já fez isso uma vez, e tenho certeza de que poderá fazê-lo novamente. Os meus amigos acharão estranho se a minha noiva me chamar de sr. Fielding. Ângela desviou o olhar rapidamente. Já fez isso uma vez. Ele fazia questão de lembrá-la o que acontecera duas noites atrás naquele elevador só para humilhá-la! O rolls royce preto estava parado em frente à entrada do prédio. Sempre galante, Max abriu a porta do carro para ela, depois colocou a bagagem no porta-malas. Ângela o observava disfarçadamente enquanto ele contornava o amplo automóvel, sentando-se

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Sabrina 754 – A Outra Face do Amor – Stephanie Howard ao volante. Max usava uma calça bege, camisa branca e uma jaqueta de couro que lhe dava um ar de informalidade com o qual ela não estava acostumada, E embora a aborrecesse muito, admitia que ele parecia mais atraente do que o normal. — A viagem deve durar cerca de duas horas. — Ele informou ao ligar o motor. — Prometi que chegaríamos a tempo para o almoço. — Sei — Ângela assentiu, ainda observando-o. Havia na fisionomia dele um ar de serenidade e segurança, uma calma que dava a entender que ele acreditava na total cooperação da parte dela naquele fim de semana. Ela sorriu. Que ele acreditasse nisso! Que baixasse a guarda e confiasse na obediência dela. Talvez pudesse revelar, acidentalmente, o objetivo que envolvia aquela misteriosa viagem. E ela saberia então qual a melhor forma de realizar sua sabotagem. Já na estrada, Ângela pensou que seus planos de sabotagem tinha um propósito duplo. Primeiro, iria contrariá-lo para valer. Os interesses envolvidos naquele jogo deviam ser grandes. Ele não se colocaria naquela situação em troca de nada. Segundo, Max ficaria furioso com ela e desistiria de sua promessa de liberá-la do acordo. E isso era extremamente conveniente para Ângela. Ainda não queria ser liberada. Precisava de mais tempo para poder ter acesso aos arquivos secretos. Ela se parabenizou. Sentia-se satisfeita por poder matar dois coelhos com uma só cajadada. Eis porque esperava com tanta ansiedade pelo fim de semana! Ângela percebeu que ele a olhava. — Mas que ótimo vê-la sorrindo! Posso saber o motivo de seu bom humor? "Você saberá em breve!" Contendo o impulso, ela se virou para Max. — Estava apenas pensando que talvez este seja um fim de semana muito agradável. — Não duvido que será — Max disse num tom estranho. — E não se esqueça de me chamar pelo nome toda vez que se dirigir a mim. Sim, Max. Não, Max. Lá estava ele dando ordens de novo! — Está bem, mas em troca vou lhe dar um conselho. Sugiro que não use "minha querida, Ângela" em público. Qualquer um que tenha um bom ouvido perceberia a falsidade. — Espere só até que eu comece a pôr emoção no que falo. Não se preocupe, quando me virem no papel de noivo, ninguém duvidará de meu amor por você. Ah, falando nisso — abriu o portaluvas e tirou uma caixinha aveludada, entregando-a para Ângela —-, é melhor usar isso, afinal é o acessório essencial. Não quero que os meus amigos pensem que sou um pão-duro. Foi preciso calcular o tamanho, mas acho que vai servir. Antes mesmo de abrir a caixa, Ângela já sabia que continha um anel. E serviu perfeitamente em seu dedo. — Deus! Essas pedras são verdadeiras? — No centro havia um enorme diamante circundado por belíssimos rubis. — Acha que confiaria o suficiente em você, minha querida, para lhe comprar pedras verdadeiras? Principalmente se considerarmos que conheço bem os seus hábitos. Ângela corou. Fizera uma pergunta idiota. As pedras eram falsas e isso lhe dava uma certa tranqüilidade. Afinal, seria muita responsabilidade passar o fim de semana desfilando com um

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Sabrina 754 – A Outra Face do Amor – Stephanie Howard anel verdadeiro. Ela tirou o anel do dedo e tornou a guardá-lo na caixa. — Eu o colocarei quando chegarmos a Lane Park. Ainda não preciso usá-lo. — Como quiser. — Ele se virou e a fitou por um momento. — Gostou do anel? — Sim, é muito bonito. — Sim, o quê, minha querida Ângela? Ângela respirou fundo e acabou cedendo: — Sim, Max. — Ótimo. Está melhorando. Eles chegaram em Lane Park pouco depois das onze e meia e estacionaram o carro ao lado de muitos outros. Muitos convidados já haviam chegado. Ângela examinou o imponente casarão situado entre quilômetros e quilômetros de mata e cultivo agrícola. Max havia dito que a casa não era exatamente uma mansão, mas seria dessa forma que ela a descreveria. — Oh, finalmente você chegou! Que bom vê-lo! Um casal apareceu na porta e rapidamente desceu as escadas para cumprimentá-los; a mulher, Ângela achava, tinha a mesma idade de Max; o homem talvez fosse um pouco mais velho. Os três trocaram abraços calorosos, dando a impressão de serem amigos há muitos anos. Então, Max virou-se para ela. — Ângela, quero que conheça nossos anfitriões. Janie, Alan, está é minha noiva, Ângela. — Prazer em conhecê-la... E que boa surpresa! — Janie apertou a mão dela, em seguida voltouse para Max. — Estávamos começando a pensar que nunca iria se casar! Fico muito feliz que tenha encontrado a garota certa. Max sorriu feliz e passou o braço pela cintura de Ângela. — Foi preciso esperar muito tempo, mas valeu a pena. Max estava certo, era de fato um excelente ator. Achando conveniente a ocasião, Ângela encostou-se de leve nele e, voltando-se para ele, comentou: — Oh, meu amor, você sempre diz coisas tão belas. Confesso, que estou feliz por ter esperado. — Estão planejando casar-se logo? — Alan quis saber. — Tão logo seja possível — Max respondeu sem hesitar. — Quando se está apaixonado, não há motivo para esperar. Janie sorriu ternamente para o casal enamorado. — Essa é a melhor notícia que recebo há anos. Estou ansiosa para receber o convite de casamento. — Ela pegou no braço de Max. — Vamos entrar agora. Eu lhe mostrarei o quarto de vocês. O almoço será servido à uma da tarde. Caminhando lado a lado, eles seguiram para a porta da frente, Ângela ladeada por Max, que lhe segurava firmemente a mão, e Alan, que lhe perguntava se haviam feito boa viagem. Mesmo enquanto respondia, mantinha um ouvido atento na conversa entre Max e Janie. — Sir Gregory já chegou, achei que ia gostar de saber — Janie disse a Max cm voz baixa: — Ótimo. Ia mesmo lhe perguntar sobre ele — Max respondeu no mesmo tom. — Ele está ansioso para encontrá-lo e fazer negócios com você. Acho que não poderia escolher uma ocasião melhor se tivesse tentado. Ângela não conseguiu ouvir o que Max respondeu, pois Alan continuava conversando com ela

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Sabrina 754 – A Outra Face do Amor – Stephanie Howard enquanto subiam para o vestíbulo. Mas não importava, tinha ouvido o principal. E estava certa de que sabia a razão daquela visita. Max esperava fazer negócios com o sr. Gregory. Agora, tudo o que precisava fazer era tentar descobrir que papel lhe estava reservado naquela história. Eles foram levados para o quarto que ocupariam naqueles dois dias. Um ambiente espaçoso, com banheiro e uma vista magnífica. — Espero que fiquem à vontade. — Janie mostrou-lhes o quarto rapidamente enquanto as malas eram levadas para cima. — Vou deixá-los sozinhos agora. Quando estiverem prontos, nos veremos lá embaixo. Depois que Janie saiu, Ângela reconheceu que havia pelo menos um ponto positivo, ao qual deveria se sentir agradecida. Mas antes que tivesse tempo de expressar em voz alta seus pensamentos, Max exprimiu uma opinião contrária. — Péssimo. Camas separadas. Estava esperando por uma cama bem grande. Ângela esboçou um sorriso rabugento. — É mesmo? Talvez estivesse ansioso para dormir no chão. De uma coisa pode ter certeza, se fosse uma só cama, não havia a menor chance de você dividi-la comigo. — Acha que não? — Ele estendeu o braço e correu o dedo pelo rosto dela. — Nunca saberemos... Mas camas separadas não são necessariamente um problema. Podemos puxar e unir as duas. Ângela se afastou. — Acho que ficam melhor quanto mais distantes estiverem uma da outra. Ah, mais uma coisa, não há a menor necessidade de você bancar o noivo apaixonado quando estivermos sozinhos. Prefiro que se mantenha bem longe de mim. Max apenas deu de ombros. Em seguida, pegou a sua mala, colocou-a sobre a cama mais próxima e abriu os fechos. — Acho péssima a idéia, eu estava começando a entrar no espírito da coisa. Ah, e você está indo muito bem. Continue assim. Aquela era uma ocasião realmente importante para ele. Isso era perceptível, apesar da aparente fachada de despreocupação. O que a deixava ainda mais curiosa para descobrir os planos dele. Mas não tinha a intenção de denunciar seus propósitos ao fazer-lhe perguntas suspeitas como que tipo de negócios ele mantinha com o sr. Gregory, que era o que ela realmente queria saber. Em vez disso, sentando-se na beirada da outra cama, ela comentou: — Fiquei surpresa quando você disse aos seus amigos que planejava se casar cm breve. Não acha que está levando as coisas um pouco longe demais? — Não. Foram eles que tocaram no assunto. — Enquanto falava, Max começou a desfazer a mala, guardando algumas peças nas gavetas, pendurando outras. — E sei muito bem que ficariam surpresos se eu lhes dissesse que pretendia ter um noivado longo. Eles me conhecem e sabem tudo sobre minha natureza impulsiva e ardente. Ângela desviou o olhar, aparentando um súbito interesse pela vista que a janela lhe proporcionava. De repente, sentiu um certo constrangimento por estar sozinha com um homem de natureza impulsiva e ardente num lugar estranho. Então, com calma, voltou a encará-lo. — Bem, esse é um problema seu. Mas logo eles vão começar a perguntar o que aconteceu com

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Sabrina 754 – A Outra Face do Amor – Stephanie Howard o convite de casamento. E você vai fazer papel de bobo. — Oh, não, isso não. Direi a eles que você me abandonou, que fugiu como leiteiro e roubou toda a minha prataria. Eles se mostrarão compreensivos. E, é claro, pensarão que estarei melhor sem você. Como ele era cínico! Não duvidava que fizesse exatamente aquilo. — Quer dizer que assim que tenha acabado de me usar, planeja sujar o meu nome? — Ângela replicou, ríspida. — Bem próprio de você! Max a olhou de soslaio enquanto fechava a mala vazia. — Bem, também posso lhes contar a verdade... — De repente, a voz dele também se tornou ríspida. — Posso lhes dizer que você apenas quis ganhar a minha confiança para me espionar. Ele tinha razão. Por um momento, havia se esquecido de que sua presença ali não era de todo inocente. Mesmo assim, ela o enfrentou desafiadoramente: — Talvez quisessem saber por que eu o estaria espionando. Ou, por acaso já sabem dos seus segredos sujos? Ele não respondeu. Simplesmente, fuzilou-a com o olhar. Em seguida, pegou a mala dela e a jogou sobre a cama. — Desfaça a mala, por favor. Quero ver o que trouxe. — Por quê? Está com medo que eu tenha trazido algumas das minhas fantasias de corista? — Ângela gracejou, mas intimamente estava aliviada pela mudança de assunto. Por um breve momento, o ar havia se tornado pesado c tenso. Não alimentava nenhum desejo de agradá-lo, mas seria preferível que pelos próximos dois dias, durante os quais eram obrigados a passar grande parte do tempo juntos, procedessem de maneira civilizada um com o outro. Do contrário, aquele fim de semana seria insuportável. — Isso não seria sensato de sua parte. Se houver nessa mala uma daquelas roupas grotescas, juro que não serei responsável por meus atos — Max ameaçou. — O que vai fazer? Pretende me estrangular com o lençol? — Ângela sustentou-lhe o olhar, tensa. Continuou sentada, sem fazer nenhum movimento para abrir a mala. — Com certeza, isso não é tão importante para você. — Não conte com isso, querida Ângela. — Ele deu um passo na direção dela. — Agora, abra essa mala e mostre o que tem aí dentro. Ela brincou com o fecho, atormentando-o deliberadamente. — Não vai ficar tão aborrecido com uma calça de cotton-lycra estampada e uma blusa transparente. Pode acreditar, são roupas da moda. Ângela sorriu para si ao notar que a expressão dele ficou ainda mais carrancuda. Dava-lhe imenso prazer assumir o controle da situação pelo menos um vez. Então, olhando-o nos olhos, abriu o zíper. — Surpresa! — Ângela exclamou, jogando a tampa de couro para trás. Bastou somente uma simples olhadela para Max perceber que ela seguira todas as suas instruções. Na mala estavam dois vestidos finos, apropriados para a noite, alguns suéteres de cashmere, saias e blusas de seda. A medida que ela tirava peça por peça da mala e estendia-as diante dele, Max inclinava a cabeça em sinal de aprovação. De repente, inesperadamente, ele a segurou pelo pulso, fazendo-a virar e forçando-a a encará-lo.

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Sabrina 754 – A Outra Face do Amor – Stephanie Howard — Você se divertiu com isso tudo, não foi? O gesto fora tão repentino que a apanhara de surpresa. — Me diverti com o quê? — Enganando-me dessa forma e me mantendo na expectativa sobre o que estava escondendo nessa mala. — Mas não estava escondendo nada. — Sei disso agora. Mas queria me fazer acreditar que sim. — Max apertou um pouco mais o pulso dela, puxando-a para mais perto de si. — Sabe o que você é, minha querida Ângela? Uma pessoa provocante e implicante. — Não sou nada disso. Foi apenas uma brincadeira inofensiva. Qual é o problema? Não sabe apreciar uma piada? Ângela tentou soltar a mão, mas ele a segurou rápido. E quanto mais tentava se afastar, mais ele a puxava para perto de si. — Claro que sei. Mas esse tipo de jogo pode ser perigoso. Principalmente entre um homem e uma mulher. O final pode ser inesperado. Max começou a acariciar-lhe o cabelo enquanto o coração de Ângela batia descompassadamente. Ao sentir os dedos dele percorrendo-lhe o rosto, sensações de frio e calor se alternavam. E, de súbito, toda a vontade de livrar-se dele desapareceu. Era vergonhoso ter de admitir, mas desejava que ele a beijasse. Entretanto, para sua surpresa, Max não a beijou. — Acho melhor não se esquecer disso durante o resto do fim de semana — disse, soltando-a. — Do contrário, quem sabe o que pode acontecer? — Ele deslizou o olhar pelo corpo dela, demorada e languidamente. — Podemos terminar como amantes de verdade. — Não se preocupe, sr. Fielding, não há a menor possibilidade de isso acontecer. Desesperada com a proximidade entre eles, Ângela se voltou para a cama e começou a guardar as roupas no armário. Não conseguia entender por que havia se comportado daquela maneira. Olhando-o por cima dos ombros, ela o advertiu: — E por favor, fique longe de mim! Não pretendo suportar mais as suas investidas! Ainda que fosse o último homem na face da Terra, preferiria terminar meus dias sozinha! Enquanto pendurava o casaco, Ângela conjeturava sobre a força de suas palavras. Seria suficiente para protegê-la de um homem tão cruel e cínico como Max Fielding? E, pior que isso, como faria para proteger-se de si mesma, dos desejos misteriosos e secretos que sentia aflorarem em seu íntimo de forma tão traiçoeira?

CAPÍTULO VIII

— Que tal uma caminhada para gastar um pouco de calorias? O almoço, uma refeição informal mas suntuosa que durante quase três horas manteve os convidados sentados agradavelmente em volta da mesa, por fim terminou e as pessoas

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Sabrina 754 – A Outra Face do Amor – Stephanie Howard começavam a se dispersar. Um casal, junto com os anfitriões, seguiu para a quadra de tênis para um jogo em duplas; Max e Ângela foram para o jardim a convite de sir Gregory e de sua esposa. Max concordou com o convite. — Boa idéia. — Virou-se para Ângela. — O que acha de uma caminhada, querida? Ao lhe fazer a pergunta, Max passou o braço em volta de sua cintura, fitando-a com afeição e ardor. — Também aprovo a idéia. Os lábios dele roçaram-lhe os cabelos. — Talvez seja melhor trocar de sapatos — Max olhou preocupado para os sapatos de salto alto que ela estava usando. — Não quero que torça o pé. Esperaremos por você no jardim. Mas que noivo atencioso e preocupado ele era! Nunca cometia uma falta! Era realmente perfeito! Com um olhar transbordante de carinho, Ângela assentiu. Estava descobrindo que também podia representar o papel de noiva apaixonada de modo tão convincente quanto ele. — Está bem. Não me demorarei. — Sorriu para sir Gregory e sua esposa Daphne enquanto se afastava. Subindo as escadas, ela pensava na verdadeira razão pela qual Max desejava ficar alguns minutos sozinho com sir Gregory. Durante o almoço, embora nada tivesse sido discutido em detalhes, Ângela conseguiu entender a natureza do negócio de Max com sir Gregory e, também, o motivo de ele a ter apresentado como sua noiva. Fora uma observação casual entre um prato e outro. Sir Gregory inclinara-se sobre a mesa na direção de Max. — Talvez pudéssemos conversar um pouco nesses dois dias. Alguns amigos meus, que atuam na Bolsa, me contaram que você é a pessoa mais indicada para se fechar negócios, e agora que finalmente tive o prazer de conhecê-lo, vejo que me agrada muito. É um homem com talento para negócios e que preza os valores familiares. — Ele fez uma pausa e lançou um olhar de aprovação para Ângela. — Esse é o tipo de homem com quem gosto de negociar. Ângela recordou-se dessas palavras enquanto cruzava o corredor em direção ao quarto. Estava perfeitamente claro que Max só estava ali porque desejava tornar sir Gregory seu cliente e precisava de uma noiva para projetar uma imagem confiável. Sir Gregory e sua esposa eram conservadores. Esperavam que um homem com mais de trinta anos fosse casado, do contrário, desconfiariam dele. E melhor ainda que ser casado era parecer eminentemente prestes a se casar, com uma noiva a tiracolo para provar suas intenções. Agora, portanto, ela sabia como sabotar o fim de semana. Parecia muito simples. Bastava revelar a Sir Gregory que seu noivado com Max não passava de um embuste. Ângela abriu a porta do quarto e entrou. Que prazer lhe daria ver Max metido em dificuldades. Quase o mesmo prazer que sentiria no dia em que revelasse ao mundo que fora ele quem levara seu pai à ruína. Tirou os sapatos e foi até o armário procurar um par de mocassins. Deveria escolher com cuidado o momento para a revelação, um momento em que todos os hóspedes estivessem reunidos e que com certeza causaria um grande estrago. Max iria passar por idiota! Mentiroso e charlatão! Calçando os mocassins, ela os observou por um instante. Os amigos dele poderiam achar difícil

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Sabrina 754 – A Outra Face do Amor – Stephanie Howard acreditar na fraude. Afinal de contas, ele representava tão bem a sua parte. Durante o almoço, procurara conversar apenas com as pessoas que a cercavam na mesa, assim como os olhares ardentes e apaixonados foram perfeitamente cronometrados. Com um comportamento tão impecável, qualquer um o acharia um homem muito apaixonado. E às vezes, ela tinha de admitir, parecera-lhe um tanto estranho ser objeto de tanta afeição. Passara-lhe pela cabeça que se fosse verdadeira, se toda aquela atenção e consideração fossem dirigidas para alguém que ele de fato amasse, essa seria uma pessoa de sorte. Pois ainda que de maneira enganosa, ele a fizera sentir-se a mulher mais especial e desejada do mundo. Não eram muitos os homens capazes de despertar essas sensações numa mulher. Ela, pelo menos, não conhecera nenhum. E por isso mesmo a farsa adquiria um caráter ainda mais desprezível. Qualquer homem que enganasse e mentisse com tanta facilidade merecia a colheita espinhosa do que plantava. Mas enquanto isso... Ela se levantou e endireitou os ombros. Enquanto isso iria se juntar a eles e aproveitar a caminhada no campo. E ele jamais desconfiaria de sua conspiração. Com um sorriso nos lábios, desceu rapidamente as escadas. Os jardins eram belíssimos, longos trechos ocupados com canteiros de flores viçosas, grama verde e aparada com fontes e cachoeiras. — É maravilhoso, não acha? — Daphne sorriu para Ângela enquanto as duas mulheres seguiam a alguns passos atrás dos homens que, a julgar pelos fragmentos de conversa que Ângela escutou, discutiam algumas possibilidades de investimento para o dinheiro que sir Gregory planejava deixar aos cuidados de Max. Ela desejava poder ouvir mais, mas tinha de ser discreta. — É realmente muito bonito — concordou, retribuindo o sorriso da outra mulher. E então, ao virarem para um dos lados, se depararam com um labirinto, cujas sebes de alfenas se elevavam acima de suas cabeças. — Vamos até o fim. — A idéia foi de Daphne. — Há muitos anos não atravesso um labirinto. Pode ser uma brincadeira divertida. Ângela e Max seguem em uma direção, e eu e Gregory seguimos na outra. Assim, veremos qual o casal que achará a saída primeiro. Ângela não achou a idéia nada atraente. Só de pensar em ficar perambulando à toa com Max numa mata fechada, sentia-se sufocada. Virou-se para Max, certa de que ele encontraria uma desculpa qualquer que os livrassem daquela brincadeira boba. — Perfeito — respondeu ele, sorrindo. — E para tomar a brincadeira um pouco mais interessante, o último casal que voltar para a casa deve uma garrafa de champanhe para o outro casal. Daphne sorriu c piscou para o marido. — Acho que nós ganharemos o champanhe. Esses dois enamorados, se eu não estiver enganada, não terão a menor pressa de encontrar a saída. Esse quadro de ficção romântica pareceu encantar sir Gregory. Ele deu uma piscadela para Max. — Não posso culpá-lo. Se eu tivesse vinte anos menos e uma noiva tão linda como a sua não me importaria nem um pouco em ficar preso aí a noite toda! Ângela se voltou mal-humorada para Max quando os outros partiram e eles tomaram a direção contrária. — Por que concordou com isso? Por que os encorajou a seguir com uma brincadeira tão tola?

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Sabrina 754 – A Outra Face do Amor – Stephanie Howard — Por que não? Qual e a sua preocupação? Está com medo que nós dois fiquemos perdidos? — Não é isso o que devemos fazer? Fingir que nos perdemos para que pensem que estamos fazendo alguma coisa e possam se divertir às nossas custas? Max deu de ombros enquanto contornavam um beco estreito. — Não me importo que se divirtam. Não há nenhum mal nisso. E, de qualquer forma, estarão errados, não é? — Ele ergueu as sobrancelhas e a filou. — Nós não estaremos fazendo nada. — Claro que não. — Ângela afastou-se dele, terrivelmente constrangida por estar sozinha com ele naquele lugar sinistro e enigmático. A cada passo, as sebes pareciam se fechar mais à volta deles, confinando-os a um espaço cada vez menor. Numa atitude defensiva, ela cruzou os braços sobre o peito. — E já que não queremos realmente ficar aqui, sugiro que encontre logo o caminho que leva à saída. — Cada coisa a seu tempo. Não há pressa, minha querida. Lembre-se, temos que preservar nossa imagem. Ângela se voltou para fitá-lo, a expressão horrorizada. — Não me diga que pretende perambular nesse matagal só para preservar nossa imagem? — Só por uma meia hora. Depois, podemos sair e, quer o façamos ou não antes de Gregory e Daphne, pelo menos nossa reputação de apaixonados será mantida. — Oh, não! Não vou ficar aqui todo esse tempo! E pouco me importa a nossa reputação. Já estou farta de toda essa fraude! — Dizendo isso, ela desapareceu rapidamente por uma abertura próxima, dobrou à direita e seguiu por outra picada. — Posso muito bem dizer que eu o perdi! — gritou no meio do matagal. — Não se preocupe, fingirei estar triste! — Não será necessário. — Para sua consternação, Max apareceu de repente à sua frente. Ângela o encarou impaciente e incrédula. Como ele havia conseguido fazer aquilo? E apesar de aborrecida, reconhecia que o admirava. Nunca antes encontrara um homem capaz de manter-se sempre um passo à sua frente. — Acontece que conheço muito bem esse matagal. Não é a primeira vez que venho aqui — Max respondeu à pergunta não pronunciada. — Nesse caso, diga-me logo como sair daqui! — Ela ergueu a cabeça num gesto de desafio, consciente das batidas fortes de seu coração. Ele estava tão próximo dela que sua sombra a encobria, parecendo envolvê-la como um pano imenso, aprisionando-a em suas dobras. Essa era uma sensação que ele freqüentemente despertava nela, ocorreu-lhe. A sensação de ser aprisionada, presa em sua teia composta de fios eletrizantes e dominadores. E ela não gostava disso, principalmente naquele momento quando, para todos os efeitos, de fato estava num beco sem saída e à mercê dele. Max não disse nada. Simplesmente cravou os olhos verdes e frios nela, de maneira que lhe era quase insuportável enfrentá-los. De repente, ele sorriu. — Eu poderia achar a saída daqui em dois minutos. Isto é, se eu quisesse. — Então, faça isso, por favor — Ângela pediu com voz trêmula. De repente, parecia-lhe impossível controlar a própria respiração. — Não quero ficar aqui. Se preferir, podemos sair e nos esconder em algum lugar durante meia hora. Eles não ficarão decepcionados e ganharão a garrafa de champanhe.

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Sabrina 754 – A Outra Face do Amor – Stephanie Howard — Isso seria uma trapaça. Não tem escrúpulos, minha querida Ângela? — Ele deu um passo à frente e acariciou-lhe o rosto, sobressaltando-a. — Não, não posso concordar com sua idéia. — Enquanto falava, seu olhar continuava a vagar por seu rosto provocativamente. — Mas vou lhe dizer o que podemos fazer. Já que parece ter tanta certeza de que pode encontrar a saída, você nos guiará. Onde você for, eu a seguirei. Ele pronunciou as últimas palavras como uma promessa amorosa. Confusa, a respiração quase suspensa, Ângela se. afastou. As palavras escolhidas por ele, sem dúvida, pretenderam ironizar a situação grotesca e fraudulenta que viviam. Porém, ao mesmo tempo, pretendiam expô-la ao ridículo. Teria ele percebido o efeito devastador que às vezes exercia sobre ela? Esse pensamento a deixou horrorizada e, deliberadamente, ela o encarou com severidade. — Está bem, se é essa a proposta, concordo. — Dando-lhe as costas, Ângela se embrenhou pela abertura mais próxima. — Afinal, esse labirinto não devia ser tão grande e terrível. Não vou demorar muito tempo para encontrar a saída. Palavras corajosas! Só depois de ter se passado mais de uma hora eles conseguiram sair das matas. Ângela admitia que teria sido mais sensato concordar com a brincadeira. Dessa forma, teriam gasto menos da metade do tempo. — Aposto que se divertiu muito! — Ela se voltou para Max quando alcançavam o caminho do jardim. Estava com raiva, aborrecida e frustrada. Num dado momento, experimentara a sensação de que nunca encontrariam a saída! E Max, desnecessário dizer, nada fizera para ajudá-la. — Algumas vezes, sim — sua voz soou divertida. — Quando passamos pela terceira vez pelo mesmo lugar, pensei que fosse começar a derrubar as sebes. — Saiba que me senti muito tentada. — Ângela o fuzilou com o olhar. "Mas antes, teria sido fantástico acabar com você", ela desejou acrescentar, mas desistiu dá idéia. Entretanto, naquele momento algo desviou-lhe a atenção. Quando acabavam de contornar uma curva e começavam a se aproximar da casa, uma explosão de aplausos, vinda do terraço, os saudaram. — Até que enfim eles voltaram! — alguém gritou. Então, a voz retumbante de sir Gregory se fez ouvir: — Sr. Fielding, Daphne e eu estamos ansiosos para beber nosso champanhe. Que farsa ridícula!, Ângela pensava mal-humorada. Quase empurrou Max para o lado quando ele a segurou pelo braço carinhosamente. — Sorria! Dê a impressão de que se divertiu durante nossa breve estada no labirinto. — Max sussurrou, atraindo-a para si e, para delírio dos presentes, passou a mão pelos cabelos dela e beijou-lhe o nariz. — Tente parecer uma mulher apaixonada. Anime-se um pouco. Ande nas nuvens. E, lembre-se, todos eles nos invejam. O mundo inteiro ama e inveja quem é amado. Ângela esforçou-se para enfrentar a ocasião e inclinou a cabeça para encará-lo. — Assim está bom? — ela murmurou entre os dentes. — Pareço uma mulher com a cabeça nas nuvens? — Está ótima e sua platéia está adorando a cena. — Ele beijou-lhe a testa. Se era para adorar alguma coisa, que esperassem até descobrirem o que ela tinha para lhes contar! Foi durante o jantar daquela noite que Ângela vislumbrou sua chance de expor a verdade sobre

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Sabrina 754 – A Outra Face do Amor – Stephanie Howard aquele maravilhoso noivado. Apesar de todas as provocações do dia, estava de ótimo humor, embota isso fosse muito fácil de explicar, concluiu ela. Janie e Alan e seus convidados eram excelente companhia, e Lane Park, um lugar encantador. Alem disso, estava descobrindo, a enganosa situação com Max revelava-se às vezes muito engraçada. Ele parecia estar se divertindo e seu contentamento era contagiante. Mas havia nisso um grande perigo. E antes que sua resistência fosse minada, precisava acabar com a vantagem que ele tinha sobre ela. Na primeira oportunidade, Ângela decidiu, deveria dar o bote. Para o jantar, Ângela escolhera o vestido vermelho e prendera o cabelo no alto da cabeça com dois pentes enfeitados com imitações perfeitas de diamantes. Sentou-se à mesa circular de mogno, adornada com a prataria cintilante e cristais, tendo Max a seu lado, usando um terno escuro e, para irritação dela, a mesma gravata vermelha que combinava perfeitamente com o tom de seu vestido. Consciente da deslealdade que logo estaria cometendo, ela estava gostando mais do que o normal da atenção que ele lhe dedicava. Sorriu quando ele lhe passou o guardanapo. — Obrigada, querido. — Ângela baixou os olhos timidamente. Então, ela pegou o guardanapo dele, desdobrou-o e estendeu-o delicadamente sobre o colo dele. — Obrigada, meu amor. — Max agradeceu num tom doce e terno. Mas antes que ela tivesse tempo de tirar a mão, ele a segurou firmemente e a pressionou contra sua perna. Embora por uma fração de segundo, a vermelhidão invadiu-lhe as faces. A sensação dos músculos fortes contra sua pele fez com que seu coração disparasse. Por alguns momentos, os limites entre a suposta e a verdadeira realidade se tornaram ameaçadora mente indistintos. A sensação que dela se apoderara não fora falsa. Mais uma vez, e de forma bem clara, fora lembrada da natureza perigosa daquele empreendimento. Max ainda segurava sua mão. E mesmo tendo desviado apressadamente o olhar, sabia que ele a estava observando. Ninguém sabia, mas ele estava reprimindo boas gargalhadas. "Espere até chegar a sua vez! Antes que este jantar termine, vou pôr um fim a esse seu sorriso sarcástico", ela jurou a si mesma. O momento que esperava surgiu durante a sobremesa, uma deliciosa mousse de chocolate, regada a kirch e brandy. E foi sir Gregory, apropriadamente, quem lhe ofereceu a oportunidade. — Para mim, mousse de chocolate — ele começou a dizer, lançando um olhar significativo na direção de Max e Ângela — é uma sobremesa perfeita para as pessoas apaixonadas. A mãe de Daphne nos serviu mousse de chocolate no dia em que a pedi em casamento. — Que romântico! — exclamou alguém, seguido de outros murmúrios de aprovação. — E muito adequado que Janie tenha escolhido a mousse de chocolate quando Max e Ângela estão conosco — alguém acrescentou. — Nós nos lembraremos disso, sir Gregory — Max respondeu, voltando-se ternamente para Ângela: — A partir de hoje, toda vez que comermos mousse de chocolate nos lembraremos desta noite, não é mesmo, querida? Com certeza! Ângela retribuiu o olhar apaixonado, saboreando o momento que antecede o ataque. Então, ela respirou fundo e girou o corpo para se dirigir aos outros, pousando os olhos

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Sabrina 754 – A Outra Face do Amor – Stephanie Howard em sir Gregory. — Bem, mas a verdade é que eu e Max não nos amamos. O noivado, o anel... — Ela agitou a mão direita no ar. — Lamento dizer, mas toda essa história é uma farsa!

CAPÍTULO IX

A

o mesmo tempo que Sir Gregory franzia as espessas sobrancelhas, Max chutou o tornozelo

de Ângela por baixo da mesa. Ela deixou escapar um gemido quando Max tomou-lhe a mão e levou-a aos lábios com tanta delicadeza que chegava a ser um contraste surpreendente se comparado com seu procedimento violento longe dos olhos de todos. Ele, então, comentou num tom extremamente suave: — Como podem ver, ela não é apenas bonita, mas também possui um incrível senso de humor. E eu lhe garanto, minha querida, que não existe nada falso nesse anel que está usando. — Quanto a isso não há a menor dúvida! — Do outro lado da mesa, sir Gregory explodiu numa gargalhada. — E você não me engana, minha jovem, reconheço um casal apaixonado a quilômetros de distância. — Estava brincando, não é? — Max se inclinou para Ângela, divertindo seu público ao mostrarse preocupado. — È melhor me dizer agora, publicamente, se o nosso noivado acabou. Enquanto falava, ele pressionava o tornozelo dela com o pé de tal forma que Ângela sentiu o próprio pé adormecido. Ela cerrou os dentes. Max era um excelente ator. Não havia uma única pessoa na sala que acreditasse no que ela acabara de lhes dizer. — Se isso não for amor... — Janie ria enquanto falava — gostaria de saber como é que vocês agiriam um com o outro se realmente estivessem apaixonados! Max entrelaçou sua mão com a de Ângela, apoiando-as sobre a mesa. — Vamos, querida, a verdade, por favor — ele a encorajou com um meio sorriso, beijando-lhe delicadamente a mão. — Ainda estamos esperando uma resposta. Você não me ama mais? O noivado acabou mesmo? — Cada palavra era pronunciada com um tom suave e brincalhão, o tom de um homem que nada tinha a temer. Ângela não esperava que os acontecimentos seguissem naquela direção. Havia planejado mal o seu golpe, e isso fazia com que se sentisse completamente idiota. Ela se voltou para Max, consciente de que todos os olhos estavam fixos nela e consciente também do pé que continuava dominando o seu por baixo da mesa. Se dissesse a coisa errada, podia quase apostar que ele seria bem capaz de lhe arrancar o pé. Com dificuldade, ela esboçou um sorriso. — Meu amor, claro que eu estava brincando. Sabe muito bem o que sinto por você, não é mesmo? — Vou beber a isso! — Sir Gregory ergueu seu copo de vinho. — Um brinde aos enamorados. — Então, enquanto os outros hóspedes seguiam o exemplo dele e os copos tilintavam ao redor da

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Sabrina 754 – A Outra Face do Amor – Stephanie Howard mesa, ele piscou para Max e acrescentou em voz baixa: — Aos enamorados e, claro, ao nosso acordo! Quando a conversa recomeçou, Max soltou-lhe o tornozelo, mas antes que Ângela pudesse se inclinar e massagear o pé adormecido, ele fez com que se virasse e o encarasse. Ele estava sorrindo, mas havia um brilho sombrio em seus olhos e seus dedos se fechavam ao redor da mão dela como se fossem verdadeiras algemas. — Não pense que essa história morreu aqui — advertiu quase num sussurro. — Nós a retomaremos mais tarde, na privacidade do nosso quarto. O jantar terminou rápido demais para o gosto de Ângela. No entanto, quando os charutos e os licores começaram a circular, a atmosfera em volta da mesa assumiu um ar festivo. E Ângela, deixando de lado seus dilemas pessoais, participou entusiasticamente das conversas. Há muito tempo não se divertia tanto. E, em grande parte, o motivo de seu próprio divertimento, como o de todos os presentes, era sem dúvida Max. Nunca antes ela o vira tão à vontade e descontraído, tampouco desconfiava que fosse um contador de piadas tão espirituoso. Esquecendo-se do quanto o odiava, ela se deliciava ao ouvi-lo relatar uma história atrás de outra para uma platéia hipnotizada. Até mesmo os olhares invejosos das outras mulheres lhe causavam prazer. Todas elas pareciam claramente invejar sua posição como futura esposa e companheira do homem mais charmoso e inteligente da sala! Foi só quando as pessoas começaram a deixar a mesa e a dar boa-noite umas às outras que Ângela se lembrou por que não desejava que a noite acabasse. Depois do aviso irado que recebera de Max, relutava em ficar sozinha com ele. Mas talvez fosse possível, ela conjeturava enquanto subiam as escadas, que a raiva dele tivesse passado e que já não se lembrasse de sua ameaça. Não queria vê-lo zangado de novo. Isso estragaria o que tinha sido uma noite quase perfeita. Max subiu as escadas em silêncio e percorreu na frente dela o longo corredor que levava ao quarto. Ela ainda se mantinha esperançosa quando ele abriu a porta e lhe deu passagem. Então, a porta se fechou e, lentamente, ele se virou para encará-la. Naquele instante, suas esperanças desapareceram. Por um momento, sem dizer nada, Max ficou apenas observando-a atentamente. Então, num tom baixo, ele a acusou: — Aquilo foi um truque sujo. Por que fez uma coisa dessas? — Porque quis. — Era uma resposta tola e infantil, mas ao saber que a noite eslava arruinada, nada mais lhe ocorreu. Fitando-a com os olhos semicerrados, a expressão de Max era indecifrável. — E por que queria fazer isso? Qual era o objetivo? — De repente, ele lhe lançou um olhar carrancudo. — Por acaso, estava bêbada? — Não, não estava bêbada. Aliás, nunca estive tão sóbria. E se quer mesmo saber, já havia planejado isso mesmo antes de virmos para cá. — Compreendo. Mas ainda não posso entender o que a levou a fazer isso. Para desforrar-se de mim, isso eu entendo, mas no final das contas não era do seu interesse. — Engana-se. Era sim do meu interesse. Não imagina o quanto eu teria me divertido ao revelar aos seus melhores amigos o impostor desprezível que você realmente é!

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Sabrina 754 – A Outra Face do Amor – Stephanie Howard Max surpreendeu-a ao sorrir. — Oh, sei muito bem disso. E, sem dúvida, também lhe teria causado grande satisfação sabotar o meu acordo com sir Gregory. E como você foi bastante astuta para concluir, ele gosta de negociar com pessoas parecidas com ele, homens respeitáveis e casados. Mas não devia ter pensado primeiro na possibilidade de se ver livre de mim se cooperasse comigo neste fim de semana? O que aconteceu? — Ele estreitou os olhos e um sorriso pairou em seus lábios. — Por acaso adquiriu subitamente gosto por trabalhar comigo? — Não se iluda com esperanças infundadas. — Constrangida, Ângela desviou o olhar. Então, pensando rapidamente, ela acrescentou: — Acontece que não acreditei na possibilidade de que fosse me liberar. Espero que não me ache tão tola a ponto de acreditar em tudo o que diz! — E eu, minha querida, não sou o imbecil que você acha. — Uma expressão sarcástica tomou conta de seu rosto. — Você pensou que eu a deixaria ir até o fim com esse seu acesso de loucura? Não, isso não. Claro que esperava algum tipo de retaliação. Mas definitivamente não contara com o fato de que ele pudesse administrar tão bem uma situação difícil. E isso fazia dela a tola, Ângela compreendeu de repente ao fitar a fisionomia impiedosa. Já devia saber que aquele homem era capaz de escapar de qualquer armadilha. Ela deu de ombros. — Bem, não importa se pensei ou não. Minha tentativa de desmascará-lo não deu certo. Você venceu. E isso deveria deixá-lo muito contente. — É mesmo? — Max a examinou por um instante, em seguida se afastou. — Pode até ficar espantada, mas não vi nada de agradável no episódio dessa noite. Ângela o observou com uma estranha sensação. Ela também desejava ser deixada em paz. O que fizera não apenas estragara a noite de outra pessoa mas, se fosse honesta, admitiria que estava descontente com a própria façanha. Fora maldosa e desleal, e agira de modo atípico. E a maneira como ele acabara de fitá-la, mais decepcionado do que irado, aumentou ainda mais seu constrangimento. Ele não merecia aquilo, ela pensou irracionalmente. Mas por que deveria se sentir culpada com sua tentativa de traí-lo? Com certeza, era exatamente o que ele merecia! Enquanto continuava a encará-lo com um ar confuso e arrependido, a expressão dele se alterou. E de súbito, ele sorriu. — Vamos esquecer isso. Já passou. E não vai acontecer de novo. — Seus olhos se fixaram nos dela por um momento. — Não é mesmo, querida Ângela? Ao vê-la baixar os olhos para o chão, Max continuou: — Além do mais, estou muito cansado e já é hora de irmos para a cama. — Tirou o paletó e soltou o nó da gravata. — E como sou um cavalheiro, vou deixar que use o banheiro antes de mim, assim estará bem protegida pelos cobertores quando eu vier me juntar a você. — O que foi que disse? — Ângela replicou instantaneamente. — Disse que já estará na cama quando eu me juntar a você, querida... mas é só uma maneira de falar. Não se preocupe, não pretendo dormir com você. — Max colocou o paletó e a gravata sobre uma cadeira e fez uma careta ao olhar para as camas. — Acho que tinha razão, devemos afastálas. Estão próximas demais para o meu gosto. Farei isso enquanto você se prepara. — Com a cabeça, ele fez um gesto cm direção ao banheiro. — Vá em frente. Quando Ângela saiu cautelosamente do banheiro, vestindo uma recatada camisola de linho

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Sabrina 754 – A Outra Face do Amor – Stephanie Howard branco que chegava aos tornozelos, as camas já tinham sido puxadas para lados opostos e as duas cadeiras, colocadas como uma barreira entre elas. Max sorriu ao vê-la. — Mas que bonitinha! Um tanto virginal, não acha? O que aconteceu com a camisola sexy que pedi para trazer? Ângela atravessou o quarto em direção à cama ao lado da janela. — Devo ter me esquecido inexplicavelmente dela. Que decepcionante para você! — Menos do que eu esperava. Já estava preparado para vê-la metida em pijamas de bolinhas. — Se soubesse que eram os seus preferidos, teria comprado. — Não duvido. — Ele riu da piada. — Mas nesse caso, eu teria que rezar para que não houvesse um incêndio no meio da noite. Se minha noiva fosse vista usando pijamas que só as mães usam, meus amigos ficariam seriamente preocupados com a minha vida sexual. Quando Ângela passou a mão pela gola bordada da camisola, ele acrescentou: — De qualquer forma, o que está usando não é muito diferente. Pelo menos não é o tipo de roupa que uma mulher normalmente escolhe para um romântico fim de semana com o namorado. Por alguma razão, esse comentário a aborreceu. — Sem dúvida, você é um especialista nesse assunto, não? — Ela o fitou, esperando a resposta dele. Max ignorou a pergunta e sorriu ao dizer: — Desconfio que acabará tirando-a durante a madrugada. — Ângela corou, perguntando-se o que ele estaria insinuando desta vez. Depois de alguns segundos, dirigindo-se ao banheiro, ele continuou: — Acho que vai sentir muito calor. Quando Max voltou para o quarto, Ângela já estava na cama. Deitada de lado e fingindo dormir, ela o observava furtivamente. Ele estava usando apenas os short de seu pijama de seda; a ameaça sobre preferir dormir nu fora evidentemente para assustá-la. E enquanto o via guardar o terno no armário, ela desejou fechar os olhos e reagir com indiferença às costas largas e bronzeadas e aos ombros másculos. Mas não conseguia fechar os olhos. Sentia-se hipnotizada pela perfeição assustadoramente viril que Max possuía. Em seu íntimo, uma estranha emoção tomava forma. Teve vontade de sair da cama e abraçá-lo. Idiota desavergonhada! Ela fechou os olhos para, em seguida, abri-los lentamente, controlando a respiração. Nesse momento, Max fechou a porta do armário e se virou. Ele havia percebido que estava sendo observado! Ansiosa, Ângela sentiu o coração disparar. Novamente fechou os olhos e conteve a respiração. Logo depois, ela o ouviu apagar a luz e cruzar o quarto em meio à escuridão. Mas continuou prendendo a respiração até que ele se deitasse e p único som que ouvia fossem as batidas fortes de seu coração. Para seu espanto, Ângela adormeceu imediatamente. Mas acordou algumas horas depois, tão desperta como se já fosse de manhã. Tinha sido acordada por um sonho que permanecia vivido em sua mente. Sua mensagem parecia pairar com um brilho colorido diante de seus olhos. Procurando não fazer ruído ela se encostou nos travesseiros. A revelação trazida pelo sonho, Ângela compreendeu subitamente, era uma idéia que começara a tomar forma era sua mente

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Sabrina 754 – A Outra Face do Amor – Stephanie Howard durante o dia. Mas precisara recorrer aos poderes misteriosos do inconsciente para entendê-la em termos claros e simples. De olhos fechados, ela ficou ouvindo por alguns instantes a respiração calma e regular do outro lado do quarto. Max, agora tinha certeza, não roubara seu pai. Havia se enganado a respeito disso. Ele não podia ser responsabilizado. Ângela deu um longo suspiro e afastou as cobertas, sentindo que suava de modo desagradável. Agora dava razão a ele, aquela camisola era muito quente. Antes de dormir de novo, precisava tomar um banho. Silenciosamente, ela saiu da cama e dirigiu-se ao banheiro, olhando de relance para a forma adormecida de Max. Devia saber desde o princípio. A prova estivera o tempo todo â sua frente, se ao menos tivesse se dado ao trabalho de examiná-la. Mas em vez disso, agarrara-se à sua convicção e obstinadamente a ignorara. Ela entrou no banheiro e acendeu a luz. Tirou a camisola e abriu a torneira do chuveiro, deixando a água escorrer abundantemente sobre seu corpo. Fora tola e cega. Simplesmente havia acreditado naquilo que queria. Depois de alguns minutos, ela pegou a toalha e se secou. Como não enxergara a verdade? Durante a tarde, enquanto caminhavam com sir Gregory, ela começara a desconfiar de que havia se enganado. Uma frase aqui e outra ali de sua conversa com Max bastaram para lançar dúvidas em sua mente. Ângela vestiu a camisola e prendeu o cabelo. Essas frases adicionadas a outras informações que, tão ingenuamente havia ignorado, por fim a convenceram do erro terrível que cometera. E agora precisava conversar com ele e se explicar. Acima de qualquer coisa, tinha de se desculpar. Quando ela abriu a porta do banheiro, um raio de luz incidiu sobre Max. Ele se mexeu e abriu os lhos. — Ângela? Algum problema? Ângela sentiu um aperto no peito. Desejava correr até ele, ajoelhar-se a seu lado e, por fim, falarlhe da confusão e da culpa que a atormentavam. Desejava pedir que a desculpasse e perder-se no calor daqueles braços fortes. Max estava apoiado no cotovelo e, com a outra mão, tentava evitar a claridade que vinha do banheiro. — Ângela, está tudo bem com você? O que está fazendo? Enquanto o observava, Ângela sentiu um tremor percorrê-la e um desejo sufocante tomar conta de si. Cerrando os pulsos, ela lutava para se controlar. Acabou decidindo que aquele não era o melhor momento para conversar com ele. — Continue dormindo, Max. Está tudo bem. Só estava com sede. Sem lhe dar tempo para responder, ela apagou a luz e, com as pernas tr êmulas, apressou-se a voltar para a cama. "Falarei com ele de manhã, quando tiver recuperado o bom senso", ela prometeu a si mesma. Pressionou o rosto contra o travesseiro, tremendo de pura excitação. "Isso muda tudo", ela continuou pensando, a pulsação acelerada. "Eu não preciso odiá-lo mais. Não preciso temê-lo mais. Max não é meu inimigo. Se soubesse disso antes, ele nunca teria sido meu inimigo."

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Sabrina 754 – A Outra Face do Amor – Stephanie Howard De repente, embora não ousasse dar nome ao que estava sentindo, uma palavra se destacou entre todas as mais assombrosas dificuldades.

CAPÍTULO X

N

o dia seguinte, para frustração de Ângela, até o meio da tarde ela ainda não havia tido

chance de revelar a Max o segredo que a consumia. Durante o café da manhã com as demais pessoas, ela o observou furtivamente, mal podendo conter a excitação causada pelo fato de agora saber que ele não era o mau-caráter que julgara ser. Quando Max a surpreendeu e lhe sorriu, ela desviou o olhar e tentou se acalmar. Afinal, estava sendo infantil. Ou irresponsável. Ou ainda completamente louca. Sua descoberta, vista sob a luz do dia, mudava muito pouco as coisas. A única diferença real era que ela finalmente conhecia a verdade. Uma sensação angustiante a invadiu. Nutrir esperanças ou acalentar sonhos sobre uni relacionamento amistoso com Max era tolice. Procurando firmar-se na realidade, ela evitava perder-se em elucubrações desnecessárias. Por que dava tanta importância ao fato de Max não ser o impostor que havia imaginado? Na verdade, sua descoberta significava apenas que havia perdido tempo ao persegui-lo, mas isso não a ajudava a descobrir o que acontecera com o dinheiro do pai. E quando finalmente tivesse oportunidade de falar com Max sobre seu erro, não haveria lágrimas ou abraços de reconciliação. Ele não pularia de alegria nem a carregaria nos braços como secretamente havia fantasiado em seu estado de loucura na noite anterior. "Nem eu desejaria que ele o fizesse. Devia estar louca", ela disse a si mesma com firmeza. Mas, ainda assim precisava falar com ele. Explicar-se e se desculpar de maneira calma e controlada. "Devo isso a ele", Ângela concluiu quando, terminado o café da manhã, eles saíram com os demais para o jardim. Como ele iria reagir aos seus pedidos de desculpas e explicações? Quando se sentaram na varando, folheando os jornais de domingo antes de se dirigirem à quadra de tênis para uma partida, ela observou de soslaio o perfil distraído. Era provável que ele desse de ombros e não se importasse nem um pouco com o que lhe contasse. Mas que fosse assim. Determinada a revelar a ele seu segredo, Ângela reprimiu a decepção. Também para ela não tinha muita importância. Era simplesmente uma questão de corrigir um equívoco. E, talvez, ocorreu-lhe como um consolo, assim que seus segredos fossem todos revelados, Max poderia orientá-la em sua pesquisa para descobrir a verdade sobre a ruína financeira do pai. Afinal, se havia um assunto do qual ele entendia, era dinheiro. E ele poderia lhe dar algumas idéias. Tendo racionalizado sua agitação interior, Ângela aos poucos começou a se sentir mais calma. Quando ela e Max, juntos com os outros convidados, voltaram à casa para o almoço, apesar da cena amorosa que ainda representavam, ela se achava controlada e descontraída.

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Sabrina 754 – A Outra Face do Amor – Stephanie Howard Quando chegasse o momento certo, diria o que tinha a dizer. Até lá, não pensaria mais sobre o assunto. Foi logo depois do chá e poucas horas antes do jantar que Ângela teve enfim sua chance. Ela e Max subiram para o quarto "para uma rápida siesta", ele dissera aos outros, provocando sorrisos maliciosos. E agora estava deitado em sua cama, que novamente voltara à sua posição original, ao lado da de Ângela. Ele arrastara o móvel para o lugar naquela manhã, prometendo afastá-lo de novo à noite. Max se encostou nos travesseiros, as mãos entrelaçadas atrás da cabeça, os olhos fechados. — Acho que vou tirar uma soneca. Espero que não se importe. Ângela perambulava pelo quarto, tomada por um súbito nervosismo, agora que estavam sozinhos. Ela deu alguns passos na direção dele, os braços cruzados no peito, e parou constrangida aos pés da cama dele. — Bem, estive esperando por uma oportunidade para conversar com você. Ele ergueu de leve as sobrancelhas, mas não abriu os olhos. — Então é por isso que estava tão estranha? Deu para perceber que havia alguma coisa incomodando-a. Ângela fez uma careta e, por um momento, permaneceu calada. Agora que precisava tanto de autocontrole, sentia que começava a perdê-lo. — Está bem — Max continuou, ainda sem olhá-la. — Você realmente passou o dia todo muito nervosa. Talvez ninguém mais tenha notado, mas como seu noivo, sou particularmente sensível em relação a sua mudança de humor. Não ajudava constatar que ele estava num daqueles momentos em que adorava zombar dela. Ângela começou a se afastar. — Talvez seja melhor que você durma. — Seu desejo de explicar-se e desculpar-se de repente perdeu a força. — Venha aqui, minha querida. — Para sua surpresa, ao se virar, deu com Max deitado de lado e apoiado num dos cotovelos, observando-a. Enquanto falava, ele batia levemente com a mão sobre a colcha da cama. — Sente-se aqui e, por favor, pare de ser tão sensível. Ângela hesitou, sentindo-se confusa e desajeitada. — Se prefere dormir, tudo bem. — Seu tom, para seu espanto, soou magoado e infantil. — O que tenho para lhe dizer não é mesmo importante. — Não importa, pedi para que se sentasse aqui e me dissesse. — Outra vez, ele bateu na colcha. — E se demorar, vou até aí buscá-la. Ângela sorriu contra a vontade. — Não será necessário. — Com passos lentos e relutantes, ela se aproximou da cama dele. Mas não se sentou no lugar por ele indicado, e sim um pouco mais distante. — E então? — Max passava a mão pelo queixo, pensativo. — Pode falar. Sou todo ouvidos. Ela cruzou as mãos sobre o colo, o olhar fixo nelas. — Tenho que lhe confessar algo e lhe pedir desculpas. — Nessa ordem? Ângela ergueu os olhos para ele. Deveria estar preparada para esse tipo de comentário, deveria saber que ele adoraria dificultar-lhe a tarefa já penosa. — Vou começar pela confissão. Diz respeito ao meu pai. — Ela fez uma pausa, mas então

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Sabrina 754 – A Outra Face do Amor – Stephanie Howard prosseguiu sem vacilar: — Achava que você era responsável pela desgraça de meu pai. Que de alguma forma tivesse roubado o dinheiro dele. Foi essa a razão que me levou a trabalhar com você. Para desmascará-lo. E obrigá-lo a devolver o dinheiro. Ela não sabia exatamente que reação estava esperando. Raiva, talvez. Mas com certeza não esperava o que aconteceu em seguida. A expressão de Max não se alterou. Ele apenas deu de ombros. — Já sabia disso, minha querida. — Como já sabia? E por que nunca disse nada? — Ângela indagou, boquiaberta. — Tinha as minhas razões para ficar calado. — Havia um brilho enigmático em seus olhos. Ele se sentou, colocando as pernas para fora da cama, e de novo se encostou nos travesseiros. — Mas não é tão difícil de imaginar como fiquei sabendo. Juntei os fatos. Ficou perfeitamente claro que você estava procurando alguma coisa e, uma vez que eu sabia tudo sobre seu pai, a conclusão foi óbvia. Enquanto Ângela o fitava estarrecida, sem saber o que dizer, Max se endireitou e se inclinou em sua direção. — E como foi que descobriu que eu não era culpado? — Ele lhe deu um sorriso irônico. — Bem, é isso o que está tentando me dizer, não é? — Sim. As evidencias estavam diante dos meus olhos o tempo todo, mas foi só na noite passada que tudo ficou claro. Ela resolveu não lhe contar sobre o sonho, seria se expor demais ao seu agudo senso de humor. Em vez disso, ela acrescentou: — Acho que comecei a perceber tudo ontem à tarde, quando você discutia possíveis investimentos com sir Gregory. — Quer dizer que você estava ouvindo às escondidas? — Max fingiu desaprovação. — Se soubesse, podia tê-la deixado de castigo mais algum tempo naquele labirinto. Apesar da expressão sorridente de Max, Ângela fez questão de explicar: — Não estava prestando atenção na conversa, mas ele falava muito alto. Não pude deixar de ouvir. — Tem razão, mas a conversa girava em torno de generalidades. Nada particular ou pessoal. O que foi que ouviu que a fez pensar que eu era inocente? Ângela curvou os lábios num rápido sorriso. Inocente? Max? Embora ele não fosse o vilão que ela acreditava, Max e a palavra inocência formavam uma enorme contradição! Ela ficou em silêncio por alguns instantes para recompor suas idéias. — Bem, ouvi certas somas serem mencionadas. Valores altos, muito altos. Algo em torno de seis milhões... Max interferiu diante da hesitação dela, — E o que há de estranho nisso? Constantemente, negocio valores dessa ordem. E quase sempre, valores ainda maiores. Você sabe disso, tem acesso aos meus arquivos. Era verdade, mas só pensara nisso na noite anterior. — Meu pai era um de seus clientes. Mas ele era um simples diretor comercial. E pelos seus padrões, ele era um investidor menor. — Menor, talvez, mas não menos importante. Todos os meus clientes, seja qual for o tamanho de sua carteira de ações, recebem o mesmo tratamento e os melhores conselhos que posso lhes

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Sabrina 754 – A Outra Face do Amor – Stephanie Howard dar. Ângela assentiu. Sabia que ele dizia a verdade. — Está certo. Mas por que você arriscaria sua reputação, roubando as economias insignificantes de meu pai, quando num único dia pode ganhar muito mais só com as comissões de investimentos de clientes como sir Gregory? Teria de ser desequilibrado. Se quisesse roubar, poderia fazê-lo de clientes mais poderosos que nem mesmo dariam pela falta do dinheiro. — Obrigada pelo conselho. — Max a observava atentamente, os olhos misteriosos passeando à vontade pelo rosto dela. — Vou me lembrar disso se decidir perder a cabeça. — Oh, não quis dizer isso — Ângela se desculpou imediatamente. — Estava apenas dando um exemplo de como as minhas desconfianças eram infundadas. — Não se preocupe, entendi o que estava dizendo. — Abruptamente, ele se inclinou e seguroulhe a mão. — Além do mais, você é uma pessoa muito sensível. Eu, por minha vez, não me ofendo com tanta facilidade. Ângela tentou ignorar o calor que se alastrou por seu corpo. Engoliu em seco e rezou para que sua voz soasse normal quando voltasse a falar. — Ainda assim, deveria ter ficado um pouquinho ofendido que eu... ou qualquer pessoa, tivesse tal desconfiança de você. Max acariciou-lhe delicadamente a mão. — Fiquei mais intrigado do que ofendido. Só queria saber o que você esperava encontrar. Afinal, embora seja uma jovem brilhante, muito brilhante, e extremamente bonita e atraente, não é uma autoridade em finanças. Como poderia saber o que procurar, ou reconhecer o que buscava, se encontrasse? Diante das palavras dele, ela sentiu uma pontada de culpa. Embaraçada, desviou o olhar. Deveria lhe contar toda a história? Deveria lhe dizer que Denis concordara em ajudá-la? Ao fitá-lo de novo, percebeu que ele havia percebido seus remorsos. E embora soubesse que ele esperava que continuasse falando, não a estimulou a fazê-lo. "Essa confissão precisa partir de você", ele parecia estar lhe dizendo. "Sei que tem mais coisas para falar, mas não a forçarei". Ângela respirou fundo. Qual era o significado de uma confissão pela metade? Ela lhe deu um sorriso arrependido. — Alguém prometeu me dar uma mãozinha para decifrar as informações. — Compreendo. — Ainda assim, ele não a pressionou. Mas a expressão de seus olhos se tornou indecifrável. — Foi meu primo Denis. Ele disse que me ajudaria a interpretar os números. Max meneou a cabeça lentamente. — Seu primo Denis? — Ele soltou a mão dela. — O mesmo primo Denis por quem você não está apaixonada? O tom áspero na voz dele a fez estremecer. Parecia que há muito tempo não se sentia alvo daquela agressividade. Quando Max se sentou, criando uma sensação de abismo entre eles, Ângela se justificou: — Sei que parece que estávamos conspirando contra você. Mas precisa entender que, por mais mal orientada que eu estivesse, acreditava seriamente que você tinha enganado meu pai. — Foi o que você disse. — Ele se levantou e a fitou com os olhos semicerrados. — E Denis, que

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Sabrina 754 – A Outra Face do Amor – Stephanie Howard não é seu namorado, ele também acreditava nisso? — Acho que sim. Ele disse que sim. Parecia a explicação óbvia. — De repente, Ângela não conseguia mais pensar com clareza. A mudança súbita de humor de Max a deixou confusa. Só podia ver claramente a hostilidade que ele dirigia a ela. Num impulso, Ângela ficou em pé diante dele. Desejou tocar-lhe o braço, mas desistiu. — Olhe, sinto muito se o que disse o aborreceu. Sei agora que estávamos errados, e peço desculpas. Estou profundamente arrependida. Um silencio pesado e interminável pairou no quarto. Max examinava-lhe o rosto com um olhar intenso e penetrante. Então, ela estremeceu ao vê-lo estender a mão para tocar seu rosto. — Está mesmo, Ângela? — Max pronunciou essas palavras quase num sussurro, como se falasse consigo mesmo. Mas, inesperadamente, ele sorriu. — Minha pobre Ângela. Que momentos terríveis deve ter passado. Acho que espionagem não é o seu negócio. A rispidez havia desaparecido. Ângela sacudiu a cabeça. — Definitivamente, não é mesmo! — Enquanto a tensão começava a se dissipar, ela o fitou nos olhos. — Queria lhe perguntar uma coisa. Você imagina o que pode ter acontecido com o dinheiro do meu pai? — Talvez — Max respondeu sem deixar de fitá-la. — Então, diga-me, por favor. — Ângela sentiu um calafrio. — Por favor, Max, conte-me. — Não agora, minha querida. Acho que já falamos demais sobre esse assunto por hoje. — Ele se afastou abruptamente. — Na verdade, preciso de um drinque. Quer que eu lhe prepare alguma coisa para beber? Ângela o observou atravessar o quarto em direção ao bar que ficava a um canto e se servir de uma dose de uísque. Por que a relutância?, ela se perguntava. Não era típico de Max hesitar. Será que sabia quem havia enganado seu pai? Ao pensar nisso, uma idéia lhe ocorreu. Poderia ter sido...? Não! Estava imaginando coisas. E não devia haver nenhum mistério. Como ele mesmo dissera, apenas estava cansado do assunto. Quando Max se virou, ela respondeu-lhe: — Martíni para mim, obrigada. Com gelo e limão. — Ângela se sentou na beirada da cama. Ele tinha toda razão, bastava de confissões e explicações no momento. Teriam muito tempo para retomar o assunto. Não havia nenhum sinal da reticência que por breves instantes cruzou-lhe o rosto quando Max retornou para perto da cama e lhe entregou o copo. Ele se sentou em sua cama e tomou um gole de uísque. — E então, a minha noiva está gostando do fim de semana? — Para sua surpresa, estou gostando muito. Seus amigos são pessoas extremamente agradáveis. — Sabia que ia gostar deles. E agora, ainda acha que ser minha noiva é um triste destino? Uma sensação estranha a dominou. Ela apertou os dedos em volta do copo. — Ser sua falsa noiva não é tão terrível. Não estou qualificada para julgar a situação verdadeira. — Tem razão. — Ele a observou por um momento. Então sorriu e encostou a cabeça nos travesseiros. — Como já lhe disse, fui noivo uma vez. E ao que tudo indica, ela achou a experiência horrível. — Não acredito! — Ângela pronunciou as palavras sem nem mesmo pensar. Embaraçada,

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Sabrina 754 – A Outra Face do Amor – Stephanie Howard tomou um gole de Martíni, e tentando fazer uma piada do que dissera, acrescentou: — O que você fez para a pobre garota? — Não sei, mas com certeza eu a deixei assustada. Eu só tinha dezenove anos na época. Ela, vinte e dois, e eu não passava de um brinquedo nas mãos dela. Depois de alguns meses, ela voltou para um ex-namorado e me deixou cuidando de um coração partido. — Quer dizer que o noivado só durou alguns meses? — Para ser mais exato, dois meses, uma semana e três dias. — E você ficou de coração partido? — Ela o fitou de esguelha. Era difícil saber se ele estava falando sério ou brincando. — Só um pouco. Mas aos dezenove anos, felizmente, as dores de amor passam logo. — A expressão dele ficou séria. — De qualquer forma, aprendi uma lição. O amor não é uma brincadeira, é algo sério. Com o coração não se deve brincar. — Ele bebeu o restante do uísque e sorriu para Ângela. — E você, querida Ângela? Alguém já maltratou seu coração? — Não. — Nem mesmo aquele rapaz de quem você me falou? — Andy? Não. — Ângela sacudiu a cabeça. — Fiquei decepcionada e muito triste por algum tempo, mas nada tão sério. Na verdade, acho que nunca estive apaixonada. Ainda estou esperando pelo príncipe encantado. — Ao dizer isso, ela desviou o olhar e, embaraçada, acrescentou: — Se é que existe. — Ele virá. Não se preocupe. — Max levantou-se e acariciou-lhe os cabelos. — Ele virá quando você menos esperar. É assim que as coisas normalmente acontecem. Ela ergueu os olhos e deparou com os dele. Desejou levantar-se e abraçá-lo. Era um impulso louco, mas não conseguia se conter. Porém, antes que pudesse se mover, ele se afastou. — Vou tomar um banho agora e me vestir para o jantar. — Ele olhou para o relógio. — Está ficando tarde. Devemos descer daqui a quarenta minutos. Enquanto ele se dirigia para o banheiro, Ângela o observava, lutando para pôr um fim na confusão em que mergulhavam seus sentimentos. O que estava lhe acontecendo? Estaria, por acaso, perdendo o juízo? Um banho longo iria lhe fazer bem. Já na porta do banheiro, Max se virou subitamente. — Ângela, me faça um favor? Use o seu vestido vermelho de novo esta noite. Ângela usou o vestido vermelho, consciente de que o pedido a agradara excessivamente. Também tinha consciência de que estava trilhando um caminho perigoso ao dar tanta importância a um simples elogio dele. Elogiar era algo natural para um homem como Max. No entanto, enquanto todos se reuniam à mesa para o jantar, ela percebeu que Max estava mais cordial e afetuoso do que de costume, que havia um brilho misterioso no fundo de seus olhos. Apesar do esforço que fazia para se ater à realidade, continuava rememorando os últimas acontecimentos. Max lhe dissera que a achava muito bonita e atraente. Também lhe acariciara a mão, os cabelos... A simples lembrança daqueles momentos alterava sua pulsação. Lutando para dominar-se, Ângela procurava se convencer de que todos aqueles gestos, apesar de carinhosos, não tinham significado. Seria loucura insistir em recordá-los. Estaria apenas enganado a si mesma.

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Sabrina 754 – A Outra Face do Amor – Stephanie Howard E então, ao encará-lo novamente e ver aquela promessa brilhando no fundo de seus olhos, uma excitação absurda a percorreu. Como poderia negar a evidência que estava diante de seus olhos? Por que deveria contestar seus instintos? Mas afinal, poderia confiar em seus sentimentos? Na verdade, eram infinitos os argumentos que lhe diziam o contrário, e Ângela travou um verdadeiro combate com cada um desses argumentos. E podia sentir que a razão estava vencendo. O bom senso voltava a imperar. Por volta da meia-noite, as pessoas se dispersaram. Max tocou-lhe o braço. — Se não se importa, gostaria de dar uma palavrinha em particular com sir Gregory. — Ele lhe deu uma piscadela. — Não sei quanto tempo vou me demorar, mas prometo não acordá-la quando subir. Tudo ficou muito claro. Para Ângela, aquelas palavras foram como um balde de água fria em suas expectativas. Havia simplesmente imaginado coisas. Mas admitia que era melhor que fosse assim. Ela se despiu e foi para o banheiro. Um banho rápido, depois cama, e uma boa noite de sono. Ela não se demorou. Apreciou a calidez da água por não mais de dez minutos e fechou a torneira do chuveiro. Então, abriu o box para pegar a toalha. — Como você é bonita! Ela se virou e deu com Max observando-a da soleira da porta. — Oh, meu amor! — Max deu alguns passos em sua direção e, sorrindo, estendeu-lhe a mão. —, Venha. Então ela fez algo realmente extraordinário. Sem corar, sem o menor sinal de hesitação, saiu do box e deixou-se acolher pelos braços que a esperavam!

CAPÍTULO XI

E

nvolta nos braços de Max, Ângela sentiu a respiração suspensa.

— Rezei tanto para que estivesse me esperando — ele murmurou de encontro aos seus cabelos. — Concluí meus negócios com sir Gregory bem rápido. — Ele se afastou um pouco, observandolhe o rosto. — Você estava esperando, não é mesmo? Sabia que eu viria? — Esperava que viesse, mas não descartei a possibilidade de não vir. — Subitamente, ela se sentiu constrangida. — A sua conversa com sir Gregory... pensei que poderia detê-lo. Você insinuou isso. — Tinha medo que se prolongasse. — Max sacudiu a cabeça lentamente. — E também tive medo de que, mesmo que eu viesse, você podia não me querer, que eu tivesse interpretado mal os sinais. — Oh, não! — Ângela sorriu, corando de leve. Ele ainda não a havia beijado. Como se pudesse ler seus pensamentos, Max roçou-lhe os lábios. — Você sabe, minha querida, que se eu a beijar agora, esse não será o fim da história? — ele continuou provocando-a. — Será apenas o começo! — Sim, eu sei. — Um beijo, ou ainda uma centena, jamais será o bastante para mim. — Havia um brilho febril

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Sabrina 754 – A Outra Face do Amor – Stephanie Howard nos olhos verdes. — Preciso de muito mais que beijos. — Eu também. — Ela o fitou ruborizada. — E não tem nenhuma restrição? Quaisquer que sejam as conseqüências decorrentes, tem certeza de que está preparada para aceitá-las? Ângela franziu levemente a testa. Do que ele estava falando? — Está se referindo à possibilidade de eu engravidar? — Não, quanto a isso, podemos tomar algumas precauções. — Max a abraçou, apoiando o queixo em seus cabelos. — Mas existem outros riscos, minha querida, contra os quais não é tão fácil se proteger. Eu me refiro ao coração, esse nosso coração que é tão complexo e imprevisível. Ela compreendeu o que Max tentava lhe dizer. Não devia se apaixonar por ele. Antes que dessem mais um passo, devia aceitar que as conseqüências não teriam um significado mais profundo. Ele a desejava, mas tudo começaria e terminaria na cama. Uma noite de amor e só. Isso não mudaria a essência do relacionamento deles. Uma dor profunda a invadiu. Poderia, com toda honestidade, aceitar tal proposta? Apesar de todos os temores, Ângela se sentia disposta a correr o risco. Decidiu deixar seus medos de lado. O presente era o que importava. Por que se preocupar com o amanhã? E aquele momento era real. — Estou preparada, Max. Sei muito bem o que quero — ela afirmou, encarando-o com firmeza. — Oh, minha querida — Max suspirou, aliviado, e de novo a atraiu para si. Em seguida, segurando-a pela mão, ele a levou para o quarto. — Mas primeiro, deixe-me vê-la. Com o olhar ardente Max percorreu-lhe o corpo e, com um movimento suave, acariciou-lhe os seios. E embora nunca tivesse se deixado apreciar por um homem daquela maneira, nua e vulner ável, Ângela não sentia o menor constrangimento. Todo seu corpo ardia de excitação ante aquele olhar intenso. Mas tampouco desejava esconder seus sentimentos. Havia esperado muito por aquele momento, e por nada no mundo iria perdê-lo agora. Ainda observando-a, Max tirou o casaco e a gravata. — Não vai me ajudar? — disse quando começou a desabotoar a camisa. Ângela sorriu e, surpresa com a própria ousadia, rapidamente o livrou da roupa. Tocou-lhe o peito forte, sentindo a maciez dos pêlos e o ritmo acelerado do coração. Uma doce agonia envolveu-a. Desejava-o tanto! Seguiu-se um beijo lânguido e suave, enquanto as mãos fortes de Max a seguravam, puxando-a para junto de si. Ela soltou um gemido, sentindo uma corrente eletrizante percorrê-la. Ele beijava-lhe o pescoço e as orelhas, despertando-lhe sensações intensas. Tocou-lhe os seios, apertando levemente os bicos rosados. Tentando refrear a urgência do seu desejo, Max carregou-a nos braços, deitando-a na cama mais próxima. Então, por mais alguns instantes, observou-a, saboreando cada curva daquele corpo bonito enquanto se livrava de todas as roupas. Em seguida, recomeçou a acariciá-la, as mãos correndo livremente pelo corpo de Ângela, incendiando-a de desejo. Max a fitou, lançando-lhe um sorriso sedutor e fascinante. Então, entreabriu os lábios dela com a língua, arrancando-lhe um gemido de puro prazer. Ângela estremeceu. A respiração ofegante de Max excitava-a, as carícias a enlouqueciam. Mais audaciosa, começou a acariciar-lhe o ventre, descendo as mãos pelas coxas musculosas, deleitando-se com as reações a seu toque. Ao sentir a língua quente pousar em seus seios, ela

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Sabrina 754 – A Outra Face do Amor – Stephanie Howard inclinou-se levemente para trás, abandonando-se à vontade dele. Em meio a um delírio abrasador, Ângela fechou os olhos, murmurando o nome dele. — Não posso esperar mais, meu amor — Max disse, a voz enrouquecida pela emoção. Como resposta, Ângela suspirou e o puxou para si. Com um movimento ágil, ele a penetrou. Seus corpos se moldaram com perfeição e seus olhares se encontraram, transbordantes de sensualidade. Os lábios voltaram a se unir num beijo tão intenso quanto o ritmo de seus corpos. — Agora você é minha, completamente minha! — Max sussurrou, a voz estrangulada pelo êxtase. Mais tarde, deitados um nos braços do outro, conversaram até o amanhecer sobre suas vidas, amigos, famílias e trabalho. — Quero que me conte tudo sobre você — Max lhe pediu, beijando-a. E ela o obedeceu. Contou-lhe sobre a infância em Cambridge, os dias felizes que passara com Jill, estudando secretariado, e sobre o árduo trabalho dos últimos três anos na Ace Personnel. — Estou impressionado. Você é muito jovem. E por sua vez, ele lhe falou sobre sua vida, os pais e a infância em Londres, a carreira como banqueiro antes de se tornar independente. Quando, finalmente exaustos, adormeceram, Ângela se deu conta da imensa felicidade que sentia. Só quando se preparavam para partir, na manhã seguinte, ocorreu-lhe que havia ainda uma coisa que Max não lhe contara. Ele evitara falar sobre suas suspeitas a respeito das causas da falência do pai dela. Ângela decidiu que tocaria no assunto durante a viagem, sentindo uma ponta de otimismo diante da perspectiva. Conhecendo Max, sua hipótese podia ter grande chance de se provar correta. Pouco antes das nove horas, partiram de Lane Park em direção a Cambridge. — E então, teve um bom fim de semana? — Max olhou-a de soslaio. — Maravilhoso. Adorei este lugar. E Janie e Alan são super-gentis. — Nesse caso, posso convidá-la de novo. Ele falou num tom casual. Talvez estivesse brincando. Ao perceber que a esperança e o medo se misturavam em seu interior, Ângela se deu conta de sua vulnerabilidade. O que iria acontecer daquele momento em diante? Haveria um futuro para eles? Num espaço de poucas horas, ocorrera uma mudança drástica em sua vida. Nem mesmo era capaz de suportar o pensamento de um futuro sem Max. A medida que se aproximavam da auto-estrada, ela tentou direcionar seus pensamentos para o presente. Talvez já fosse o momento de falar sobre seu pai. — Max, você ainda não me falou sobre suas possíveis hipóteses sobre os negócios de meu pai — ela o lembrou. — Sabe que estou ansiosa. Vamos, fale-me agora sobre isso. Quero verse são razoáveis. Ele não lhe deu uma resposta imediata e, ao franzir a testa, Ângela percebeu sua relutância. Mas por quê? Que razão havia para tanta hesitação? — Oh, sim, são muito razoáveis. Esse não é o problema. — Então qual é o problema?

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Sabrina 754 – A Outra Face do Amor – Stephanie Howard — Bem, você pode não gostar do que tenho para lhe dizer. — Por quê? — Ângela mal continha o nervosismo. Max respirou fundo. — Antes de começar, quero deixar claro que isso tudo é apenas uma hipótese minha. Quase não tenho provas. Pelo menos, nada conclusivo. Mas aqui, na minha cabeça, tenho certeza absoluta, e pretendo conseguir as provas que mostrarão que tenho razão. O nervosismo dela começava a aumentar. Do jeito que Max falava, a história toda soava muito sinistra. — Então, por favor, conte logo. — Está bem. — Ele suspirou, os olhos fixos na estrada. — Seu pai estava sendo chantageado. — Chantageado! Meu pai! — Ângela virou-se para ele, os olhos brilhando de indignação. — O que pretende ao fazer uma sugestão tão afrontosa? Meu pai era um homem bom e honesto. Por que alguém iria chantageá-lo? — Eu a preveni que não iria gostar disso. Mas receio que seja verdade. — Não, não é! Essa é apenas a sua teoria. E se quer saber, uma droga de teoria! — Lamento, Ângela, mas essa parte não é teoria. Ainda não cheguei lá. Sei que seu pai estava sendo chantageado porque ele mesmo me contou. Ao vê-la empalidecer, Max sacudiu a cabeça, pesaroso. — Sabia que não ia ser fácil. — Então, num gesto impulsivo, ele saiu da estrada principal, parando no acostamento. — Escute, Ângela, lamento tanto quanto você. Conhecia seu pai e o respeitava muito. Mas o fato é que ele possuía um certo segredo no passado e alguém descobriu e resolveu explorá-lo. Pode acontecer com todo mundo. Todos nós temos segredos que, em mãos de pessoas desumanas, podem ser usados para nos prejudicar. Ângela sabia que ele estava tentando amenizar o impacto do golpe que tinha acabado de sofrer. Mas, ainda assim, detestava-o pelo que lhe dissera. Como aquele homem, que na noite anterior a amara, podia agora destruí-la, enlameando o nome de seu pai? — Por que ele lhe contou? Por que não disse nada à sua família? Por que contaria a um estranho? — Eu não era um estranho. Já nos conhecíamos há algum tempo. Mas a razão que o levou a me procurar foi de ordem prática. Ele pensou que eu pudesse ajudá-lo a recuperar parte do dinheiro que lhe fora tirado pelo chantagista. Estava preocupado com você e com sua mãe. Sabia que o coração não era bom e que podia morrer a qualquer momento. Estava apavorado com a idéia de não lhes deixar nada. Ângela engoliu em seco e baixou os olhos. Não conseguia falar. — O que ele me pediu foi para investir o dinheiro que lhe restava, um investimento de alto risco. Ele foi inflexível quanto a isso. Queria um investimento que o fizesse ganhar muito dinheiro rapidamente. Ou perdê-lo rapidamente. Eu o preveni sobre isso. Ângela voltou a fitá-lo. — E você o perdeu? — Eu não perdi nada. Muito ao contrário. Num curto período, ele ganhou muito. Mas foi perda de tempo. O chantagista voltou a atacar. Logo, também esses novos ganhos se foram. — E depois? Ele investiu mais? — Ângela o olhou arrasada. Agora acreditava nele e em cada palavra do que lhe dizia. E aquela revelação a deixou cheia de raiva e angústia.

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Sabrina 754 – A Outra Face do Amor – Stephanie Howard Max continuou em silencio, visivelmente constrangido. Ela instigou-o a prosseguir. — O que aconteceu depois? Ele continuou investindo? Continuou dando dinheiro ao chantagista? Vamos, continue! Não me poupe nenhum detalhe! Sei que está se divertindo por poder me contar essa história sórdida! Max ignorou o final histérico de sua explosão. — Sim, ele continuou investindo e entregando o dinheiro ao chantagista. — Ele olhou para a estrada, suspirando. — Eu insisti com ele para que fosse à polícia e colocasse um fim àquilo tudo antes que estivesse arruinado. Mas ele se recusou. Não queria nem mesmo falar sobre isso. Sabia que o que estava escondendo viria à tona e que sua mãe acabaria descobrindo. Era disso que ele tinha mais medo, que sua mãe descobrisse o motivo da chantagem. Ângela apertava as mãos nervosamente. — E ele lhe contou qual era o motivo da chantagem? — Não e eu não lhe perguntei. Achei que seria muita indiscrição. — Fez-se um rápido silencio, então Max se inclinou na direção dela e segurou-lhe as mãos. — Mas assumi os riscos de descobrir o chantagista... com a intenção de negociar com ele. Só que antes que pudesse fazê-lo, infelizmente, seu pai morreu. Embora seja muito tarde para ajudar seu pai, agora sei quem era o criminoso. — Calou-se. Quando falou, olhava-a diretamente nos olhos: — Era Denis. — Denis?! Uma dor aguda oprimiu-lhe o peito. Não podia explicar, mas sabia que ele ia acusar Denis. Essa fora a suspeita que lhe cruzara a mente na noite anterior, quando Max se mostrara relutante em falar sobre o assunto. Era uma suspeita, percebia agora, que lhe ocorrera pela primeira vez quando ele acusara Denis de ser seu cúmplice. Porém, rejeitava em absoluto aquela acusação. Revoltada e com um olhar furioso, ela o enfrentou: — Isso é ridículo! Denis é meu primo! Ele jamais chantagearia meu pai! Max franziu a testa. — Compreendo a sua reação. A imagem de um rapaz que rouba o tio que o acolheu e lhe deu um lar quando ele ficou órfão é de fato muito desagradável. E embora lamente muito, acho que foi o que aconteceu. — Antes que ela pudesse protestar, Max a interrompeu com uma pergunta. — Denis nunca brigou com seu pai? Eles nunca tiveram desavenças? — Claro que não! Eles se afastaram ao longo dos anos, mas nunca soube que brigaram. — Mas eu acredito que deva ter acontecido alguma coisa que possa explicar essa traição. — Não houve traição! — Ângela foi implacável. Max podia pensar que sabia tudo, mas isso não era verdade! — Encare os fatos! Denis não tem dinheiro! O apartamento dele é alugado. Ele nem sequer um carro decente tem! Esse lhe parece o estilo de vida de um homem que roubou milh ões e milhões de libras? Max meneou a cabeça. — Ouça isso: uma casa com seis quartos, lareira e piscina aquecida, um BMW novinho em folha e do último tipo na garagem. — Quando Ângela o olhou boquiaberta, ele acrescentou: — Mas não em Cambridge. Ele é inteligente o bastante para ocultar o produto de seu roubo. Em Wiltshire, onde ele vive quando não está em Cambridge. A história assumia um caráter cada vez mais absurdo. — Você espera que eu acredite nisso tudo? Nunca ouvi uma loucura tão grande em toda a minha

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Sabrina 754 – A Outra Face do Amor – Stephanie Howard vida. — Não é loucura. Ninguém desconfia dele. Seus velhos amigos e conhecidos de Cambridge o vêem levando a mesma vida, usando as mesmas roupas e a carteira quase sem dinheiro. Os novos amigos de Wiltshire não têm razão para desconfiar de todo o conforto que desfruta lá. — Está querendo me dizer que ele está levando uma vida dupla? Não acredito em você. Está inventando isso tudo. — Por que não checa a minha história? — Rapidamente, ele anotou um endereço num pedaço de papel. — Vá e veja por você mesma se estou mentindo. — Não vou perder meu tempo. — Ângela o fuzilou com o olhar. — O que me intriga é por que você está inventando essa história. Alguns minutos atrás, estava quase acreditando em você, mas é impossível acreditar no que está me dizendo agora. O que está escondendo? Isso é algum tipo de jogo? Ela desejou não ter pronunciado essas palavras, não só porque não acreditava naquilo, mas também porque sabia que tinha soado grosseiro e vingativo. Contudo, ele havia confundido as suas idéias com aquela história terrível. Como Denis, que ela conhecia desde que tinha doze anos, podia ter feito uma maldade dessas a seu pai? Max não respondeu. Simplesmente lhe lançou um olhar frio, silenciando o pedido de desculpas que pairava nos lábios dela. Então, ligou o carro, fez o contorno e voltou para a estrada. — Oh, a propósito — ele quebrou o silêncio rispidamente —, assim que voltarmos, vou liberá-la de seu trabalho. E esse será o fim, em todos os sentidos, de nossa desagradável ligação. Nós dois, querida Ângela, como qualquer pessoa pode ver, nada temos a oferecer um ao outro. — Concordo plenamente — a resposta foi dada num impulso, uma tentativa de rechaçar, por um momento, o desânimo e a decepção que tomavam conta de seu coração. Ela tirou o falso anel de noivado do dedo e o entregou a Max. — Nós dois nunca tivemos nada de valor para oferecer um ao outro. — É verdade — Max concordou. — Sempre tive consciência disso. — Guardou o anel sem sequer olhá-la, e pisou fundo no acelerador como se, de repente, mal pudesse esperar pelo fim da viagem para que se separassem.

E

CAPÍTULO XII stava tudo acabado antes mesmo de haver começado!

De volta ao apartamento de Denis, Ângela se sentou numa cadeira, a mala ainda fechada num canto da sala. Olhava distraidamente para a lareira. Podia ter amado Max. Havia chegado tão perto disso! Ela fechou os olhos e cerrou os pulsos. Mas se não o amava, então por que estava se sentindo tão infeliz? Por que seu coração parecia ter sido esmagado? Ângela dobrou os joelhos e envolveu-os com os braços, assumindo uma posição de total desolação. Por que sua vida parecia ter perdido todo o significado? Onde estava sua vontade de lutar, a garra que sempre a acompanhara, o ânimo que sempre procurara manter mesmo nas situações mais difíceis? Pressionou o rosto contra os joelhos para reprimir as lágrimas.

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Sabrina 754 – A Outra Face do Amor – Stephanie Howard Porém, quanto mais tentava reprimi-las, mais livremente elas corriam. Como a dor aguda que lhe sufocava o peito, as lágrimas pareciam não ter fim. — Ângela, sente-se. Quero conversar com você. Talvez eu saiba mais coisas sobre seu pai do que pensei a princípio. Acomodada no sofá verde de veludo ao lado da janela, a sra. Smith sorriu tristemente para a filha, que andava sem parar pela sala. — É sobre esse segredo do seu pai, sobre a chantagem. Sei do que se tratava. Sempre soube. S ó não sabia que ele estava sendo chantageado. — Uma lágrima rolou por seu rosto. — Se pelo menos tivesse desconfiado... Ângela se sentou numa cadeira e observou a mãe com olhos enevoados. O que ficaria sabendo dessa vez? Nos últimos dois dias foram tantas as revelações, tantas as descobertas, que se sentia debilitada. Não tinha certeza se agüentaria mais. No dia seguinte a sua volta, ela fora direto para Wiltshire procurar o endereço que Max anotara e, escondida do lado de fora, ficara observando. Vira Denis e o BMW na garagem e n ão mais duvidava de que Max lhe dissera a verdade. Sua reação instintiva fora confrontar-se com o primo, bater na porta da casa dele e desferir-lhe uma boa bofetada. Mas o bom senso prevalecera. Por que revelar sua descoberta e dar-lhe, assim, uma chance de fugir? Não, precisava esperar o momento certo, como Max estava fazendo, até que tivesse certeza de seus argumentos contra ele. Enquanto isso, iria falar com a mãe. A sra. Smith ficara chocada quando Ângela lhe contou de suas suspeitas, que eram também as de Max, sobre Denis, mas não tão surpresa quanto Ângela esperava. Durante alguns instantes, ela ficou em silêncio. — É, isso se encaixa — a mãe por fim murmurou. — Então, ele acabou concretizando sua ameaça. — De que ameaça está falando? A mãe se sentou no sofá. — Foi há muito tempo. Você ainda era muito nova. Duvido que tenha percebido o que estava acontecendo. Mas menos de um ano depois que ele veio morar em nossa casa, Denis teve uma briga com seu pai. Não foi a primeira vez, mas foi a mais violenta. Ele era um rapaz problemático, sempre exigindo dinheiro, e quando seu pai se recusou a aumentar a mesada, eles tiveram uma briga terrível. — Ela fez uma pausa, recordando-se. — Não a levei a sério. As pessoas dizem coisas que não querem dizer quando ficam zangadas. Mas ele prometeu a seu pai que um dia o arruinaria. Ângela a escutava, mal podendo acreditar em seus ouvidos. Então, Max estava certo. Tinha havido uma desavença entre eles. Consternada, ela suspirou. Quão cega fora! Havia tantas coisas das quais nunca desconfiara. E agora a mãe estava prestes a revelar-lhe o segredo de seu pai. Ela prendeu a respiração e esperou, literalmente preparada para qualquer coisa. E à medida que se tornava conhecida, a história se revelava previsível. Seu pai tivera uma amante muitos anos atrás, quando ela própria era apenas um bebê. Sua mãe descobrira o caso muito depois que acabara. A sra. Smith deu de ombros. — Não disse nada para o seu pai. Achei que ficar remexendo nessa velha ferida só nos causaria

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Sabrina 754 – A Outra Face do Amor – Stephanie Howard mais transtornos e meu casamento era a coisa mais preciosa do mundo para mim. Ângela se levantou da cadeira e sentou-se ao lado da mãe, abraçando-a. — Deve ter sido muito precioso também para o papai, já que preferiu se arruinar para manter seu segredo. Ele realmente deve tê-la amado muito. Na manhã seguinte, Ângela voltou para o apartamento de Denis, as últimas palavras da mãe ainda ecoando em seus ouvidos. — Procure esse seu amigo. Conte a ele o que eu lhe disse. Depois, procure a polícia e denuncie Denis. Não me importo que toda a história venha à tona. Denis tem de pagar pelo que fez a seu pai. Como poderia procurar Max? Ele não era seu amigo. Só de pensar nele, sentia uma angústia terrível oprimir-lhe o peito. Mas precisava fazê-lo. Havia prometido à mãe que iria procurá-lo. E, de certa forma, era exatamente o que deveria fazer. Há muito tempo Max vinha se esforçando para apanhar Denis. Seria desonesto não dividir com ele essa nova informação. Ele merecia participar da fase final daquela história. Assim que chegou à agência, ela reuniu toda a sua coragem e discou o número do telefone dele. A idéia de falar com ele, ouvir sua voz de novo, a apavorava. Mas foi a antiga secretária dele quem atendeu. — Ele não está aqui no momento, e não sei onde encontrá-lo. Se quiser deixar recado, eu o darei da próxima vez que ele telefonar. Ângela deixou um recado, embora não confiasse na eficiência desse ato. A última coisa que Max faria seria lhe telefonar. Talvez ele só tivesse saído da cidade para ficar longe dela algum tempo. Mas e agora, o que ela deveria fazer? Deveria ir à polícia sozinha? Ele havia lhe contado que tinha provas e, embora não fossem conclusivas, a polícia sem dúvida gostaria de conhecê-las. Suspirando, Ângela consultou o calendário sobre sua mesa. Denis estaria de volta no final da semana, portanto, era absolutamente importante que agisse antes disso. Esperaria até quintafeira pelo telefonema de Max. Então, se ele não lhe telefonasse, tomaria uma decisão sozinha. Mais uma vez, sentiu uma dor profunda oprimir-lhe o peito. Sabia que estava se enganando ao esperar. Max jamais iria procurá-la de novo. Na quarta-feira à noite, Ângela trabalhou até mais tarde na agência, compensando o excesso de trabalho que havia deixado para Jill durante sua ausência. Já eram mais de dez horas quando olhou para o relógio. Decidiu, então, deixar os poucos papéis que restavam para examinar no dia seguinte. Embora relutante, resolveu ir embora. Afinal, ali na agência, quase conseguia tirar Max da cabeça, uma façanha impossível de ser alcançada quando estava em casa. Além disso, nos últimos dias detestava ficar naquele apartamento, sabendo o que agora sabia sobre seu primo. Mal podia esperar para mudar-se. Mas aquela seria a última noite que passaria lá. No dia seguinte, mudaria para o apartamento de Jill e Eddie, onde ficaria apenas o tempo necessário para que encontrar um lugar para si. Ela se encostou na cadeira, olhando para o jornal, para os anúncios que havia examinado antes, enquanto procurava um apartamento para alugar. No dia seguinte, visitaria alguns deles com um corretor e já havia decidido alugar o primeiro apartamento em boas condições que encontrasse. Ela suspirou, virando distraidamente as páginas do jornal. Mas a primeira coisa que faria na

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Sabrina 754 – A Outra Face do Amor – Stephanie Howard manhã seguinte seria procurar a polícia. Como imaginara, Max não lhe dera notícias, portanto, dependia apenas dela desmascarar Denis. Quando Max voltasse, se desejasse se envolver no caso de novo, poderia ir à delegacia de polícia e prestar seu depoimento. Subitamente, porém, seus pensamentos foram interrompidos quando se deparou com um artigo de duas colunas escrito ao pé da página de negócios. Ela se inclinou sobre o jornal para examiná-lo melhor, o coração batendo acelerado. Era uma notícia sobre um processo que fora instaurado para averiguar uma transação desonesta envolvendo um ex-colega de Max. Enquanto a lia, ela se deu conta de sua satisfação ao descobrir que não apenas o amigo de Max tinha sido inocentado, mas que o tribunal também oferecera um pedido de desculpas a Max, informando que seu nome jamais deveria ter sido envolvido no processo. Ao que tudo indicava, as provas contra ele tinham sido manipuladas. Ângela fechou os olhos por um momento. Denis havia usado aquele processo e os laços de Max que mantinha com o acusado para convencê-la de sua imoralidade. E ela, ingenuamente, se deixara enganar. Levantou-se e pegou a bolsa. Sabia muita coisa agora que desconhecia antes. Muita coisa havia acontecido e tantas outras, mudado. Ela, por exemplo. Já não era mais a mesma pessoa de algumas semanas atrás. Naqueles dias distantes, seu coração lhe pertencia, era uma pessoa cheia de confiança, e não apreensiva como se sentia agora em relação ao futuro. Um futuro solitário e sem perspectivas sem a presença de Max. Ângela se afastou da mesa, impaciente, desejando ser capaz de expulsar a angústia que se instalara em seu coração. "Você sabia que isso iria acontecer", a razão a repreendia. "Ele a preveniu mas você ousou ter esperanças. E agora tem de pagar o preço." Dirigindo lentamente pelas ruas quase vazias, ela voltou para o apartamento. Mas ao contornar a última esquina, seu coração quase parou. Estacionado em frente ao prédio estava o grande rolls royce preto. Ângela quase deu marcha a ré e fugiu. Suas mãos tremiam no volante. Mas a porta do rolls royce já estava se abrindo e Max saindo do carro. Era mesmo um milagre vê-lo andando tão decididamente em sua direção. Aquele homem que ela amava e que nunca lhe pertenceria. O homem que temia nunca mais ver. Tensa, ela estacionou quase no mesmo instante que Max lhe abria a porta. — Por onde andou? Estou aqui esperando-a há horas! — ele disse bruscamente. — Esperando? — Ângela o encarou. Suas idéias estavam confusas. Só era capaz de entender com clareza a dor que a atravessava ao ver o rosto furioso do homem que tanto amava. — Onde esteve? — Ele deu um passo para o lado para deixá-la sair do carro. — Na agência, trabalhando. — Até esta hora? — Ele lhe lançou um olhar mal-humorado e olhou para o relógio. — Você normalmente trabalha até depois das dez e meia? A atitude dele a enfureceu. Magoada com o tom agressivo, ela revidou: — Se achar que devo, sim. Tem alguma coisa contra? — Tenho sim. Estou esperando por você desde às sete e meia. Max a segurou pelo braço, mas Ângela, com um movimento brusco, se soltou. — Não me culpe. Não sabia que estava aqui. Aliás, eu é que deveria estar zangada. Deixei um

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Sabrina 754 – A Outra Face do Amor – Stephanie Howard recado com a sua secretária há muito tempo e você nem mesmo se incomodou em me telefonar. — Só recebi o recado esta tarde. E não lhe telefonei porque resolvi vir pessoalmente. Por quê? — Ele a fitou, o cenho franzido. — Tem alguma razão particular para querer falar comigo? Ao ouvir a pergunta, ocorreu a Ângela que ele talvez estivesse pensando que tinha um motivo pessoal para desejar vê-lo. Possivelmente acreditasse que ela pretendia pedir que a experiência da noite de domingo se repetisse. Ela não ousou olhá-lo temendo que a expressão dele lhe revelasse a verdade. Contornando o carro em direção à calçada, Ângela o informou: — Queria falar com você sobre Denis. Estive com a minha mãe e agora sei que você estava certo em relação a ele. Denis teve uma desavença com meu pai e o chantageou, tenho certeza disso. Amanhã pretendo denunciá-lo à polícia. Max a fitava, as sobrancelhas erguidas. — Compreendo — ele murmurou e, novamente, segurou-a pelo braço. — Mas acho melhor entrarmos para discutir esse assunto. É mais confortável do que ficarmos aqui na rua. Ângela, mais uma vez, esquivou-se. — Não há nada para discutirmos. Você estava certo e reconheço isso. Se quiser, poderá ir comigo à polícia amanhã e contar o que sabe. Apesar de ela ter se esquivado, Max não soltou seu braço, conduzindo-a pela calçada. — Vou fazer isso, sim. Mas antes, vamos subir até o apartamento. Ângela sabia que não adiantaria argumentar com ele. Portanto, deixou de resistir e o encarou friamente. — Está bem, já que insiste. — Com um gesto brusco, ela puxou o braço. — Mas se não se importa, sou capaz de andar sem a sua ajuda. Dizendo isso, ela saiu em direção à entrada do prédio, seguindo para o elevador. A proximidade dele parecia sufocá-la. Não conseguia respirar nem pensar direito. Tentando se acalmar, ela respirou fundo. Não deveria se envergonhar permitindo que suas emoções fossem reveladas. Precisava agir com calma. Ângela cerrou os dentes. Por mais difícil que pudesse ser, iria conseguir. Assim que entraram no apartamento, Max foi direto para a sala, tirou a jaqueta e se sentou. Então, começou a falar: — Passei esses últimos dois dias no centro financeiro de Londres, atormentando alguns dos meus amigos banqueiros. E agora, graças à influência e ao conhecimento deles, reuni todas as provas que precisava ter contra Denis. Como desconfiava, cada centavo do dinheiro de seu pai foi depositado nas várias contas dele. Tenho todos os números, datas e detalhes que um advogado precisará para meter seu primo na cadeia. Ao ouvi-lo, Ângela se esqueceu da própria angústia por um momento. O peso que a oprimira desde a morte do pai miraculosamente desaparecera. Max disse em voz alta o que ela estava pensando. — Seu pai será vingado e o dinheiro que Denis roubou, pelo menos a parte que ele não gastou, retornará para sua mãe. — Max fez uma pausa e sorriu. — E há um fato favorável. O dinheiro que Denis não gastou, ele investiu e, devo dizer, investiu-o de maneira brilhante. Os lucros desses investimentos mais ou menos cobrem a parte que ele já gastou.

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Sabrina 754 – A Outra Face do Amor – Stephanie Howard — Mas isso é maravilhoso! — Ângela sorriu e acrescentou: — Obrigada por tudo o que fez. Não tinha nenhuma obrigação. Max deu de ombros. — Não me agradeça. Não podia ter agido de outra forma. Respeitava seu pai e gostava muito dele. E estava tão ansioso quanto você para pôr as mãos no homem que o arruinou. Ela compreendeu que Max dizia a verdade. Seu coração pareceu reanimar-se. Não era de estranhar que o amasse. Ele era um homem bom e cuidadoso. Lágrimas brilharam em seus olhos. Para ocultar a emoção, ela baixou as pálpebras, esforçandose para detê-las. — E quanto a você? Disse que esteve com sua mãe. O que ela lhe contou? Com a voz embargada, ela relatou tudo o que a mãe lhe dissera, sem omitir nenhum detalhe. — Ainda acho difícil de acreditar que Denis possa ter feito tudo isso com meu pai — ela finalizou, triste. — Não apenas ao seu pai. Denis fez outras vítimas. Ângela ergueu os olhos, assustada. — Está falando sério? Está me dizendo que ele é um chantagista profissional? — Ele estava trilhando esse caminho. Começou com seu pai e como deu certo, foi atrás de outras vítimas. Eu desconfiava disso. — Max a fitava atentamente. — Eis porque eu acreditava que ele estava interessado em me chantagear. — Chantagear você? Mas com o que ele poderia chantageá-lo — Que eu saiba, com nada. — Max fez uma careta de desagrado — Mas na época havia aquele processo correndo no tribunal, e eu estava muito ligado ao réu. Para uma pessoa com a mente de Denis era uma tentação. Ângela assentiu. De uma vítima como Max, um chantagista podia esperar somas atraentes. A não ser pelo fato, ela se corrigiu, de que seria impossível fazer dele uma vítima. — Preciso lhe confessar uma coisa. — Ele se inclinou na direção dela. — É sobre você e Denis... e sobre minha decisão de concordar com o pedido da minha secretária para usar os serviços da sua agência em vez da que usamos normalmente. A decisão que a levou a trabalhar comigo. Naquela época, como lhe disse, eu desconfiava de que você e Denis estivessem trabalhando juntos. Achei que o acordo com a minha secretária fosse um estratagema para você ir trabalhar comigo, de modo que pudesse me espionar, sob a orientação de Denis, e tentar descobrir alguma coisa para me chantagear. Decidi cooperar com a história por uma razão simples: achei que seria uma ótima oportunidade para espionar você e Denis. — Ele sacudiu a cabeça com uma expressão contrariada e triste. — Como vê, minha querida, enquanto você estava me espionando, eu também a espionava. Uma situação muito desagradável. Ângela o fitou de olhos arregalados. — Está dizendo que achava que eu estivesse envolvida na chantagem do meu próprio pai? — Não precisei de muito tempo para perceber que estava enganado, para me convencer de que você não era cúmplice de Denis e que, na verdade, você havida ido trabalhar para mim por uma razão muito diferente, ou seja, porque acreditava que eu tivesse levado seu pai à ruína. — Max suspirou e esboçou um sorriso. — Mas a resposta para a sua pergunta é sim. No início, acreditei nisso. Não fique tão horrorizada. Afinal, você também cometeu uma grande maldade pensando essas coisas todas de mim.

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Sabrina 754 – A Outra Face do Amor – Stephanie Howard — Mas como pôde pensar que eu seria capaz de algo tão desprezível? — Desculpe-me — Max murmurou e segurou a mão dela firmemente entre as suas. — Não podia imaginar que as coisas acabariam dessa maneira. Ângela tentou puxar a mão. Sentia-se profundamente magoada. — Se tivesse o mínimo de dignidade teria percebido imediatamente que eu não poderia ser cúmplice de Denis! — Não foi isso que quis dizer. — Max sacudiu a cabeça, fixando os olhos nos dela. — Quando disse que não podia imaginar como as coisas acabariam, não estava me referindo a você e Denis. — E ao que estava se referindo? — Ele a confundia. E a maneira como segurava sua mão e o olhar estranho que não deixava seu rosto por um instante faziam com que se sentisse mais nervosa. — Bem... — Ainda com a mão dela entre as suas, Max se levantou, forçando-a a também se erguer. — Talvez eu não devesse dizer isso porque, no fundo do coração, não sei com certeza se mudou de opinião a meu respeito. Mas seja lá como for, vou falar. Eu quis dizer, minha querida, foi que não imaginava que ia me apaixonar por você. As palavras dele tiveram o efeito multicolorido dos fogos de artifício que, de repente, invadiram a sala, cegando-a por momentos. Não, devia ter ouvido mal. Ele não havia dito que estava apaixonado! Mas ao fitá-lo, silenciosa e perplexa, ele repetiu: — Eu te amo, Ângela. Acho que me apaixonei por você logo depois que a conheci, mas só naquela noite em Lane Park é que me dei conta de que já não podia mais controlar meus sentimentos. Eu a adverti antes de fazermos amor de que eu corria o risco de me apaixonar por você. Eu lhe perguntei se estava preparada para aceitar as conseqüências daquela noite, isto é, o fato de que uma vez que eu me apaixonasse, iria persegui-la até o fim da minha vida. Ângela ficou totalmente pálida. — Não tem mais nada para me dizer? — ele a provocou, beijando-a de leve nos lábios. Mas por trás das palavras suaves, Ângela sentiu sua ansiedade. — Entendi tudo errado. — Ela jogou a cabeça para trás e brindou-o com um sorriso irradiante. — Pensei que estava me advertindo do perigo que eu corria se me apaixonasse por você. — Não me atreveria... — Max murmurou, surpreso. — Mas isso tem algum significado real? Você está querendo... — Oh, Max! — Ela o beijou, o coração parecendo querer saltar do peito de tanta alegria. — Eu também me apaixonei por você! — Mas... Rindo, ela colocou um dedo sobre os lábios dele para calar seu protesto. — Eu me lembro muito bem do que lhe disse na viagem de volta. Sei que dei a entender que ainda não confiava em você. Mas estava abalada e magoada. Não sabia o que estava dizendo. — Acariciando-lhe os cabelos, Ângela acrescentou: — Acho que me apaixonei por você antes mesmo de fazermos amor. Max a puxou para si, apertando-a nos braços. — Oh, Ângela, como fomos tolos! Eu te amo tanto, minha querida. Diga que quer se casar comigo. É só o que desejo na vida. Dois meses depois, eles se casaram, proporcionando à cidade de Cambridge uma cerimônia

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Sabrina 754 – A Outra Face do Amor – Stephanie Howard nunca vista antes. A sra. Smith chorava muito enquanto observava a filha sendo conduzida ao altar pelo braço de seu tio para unir-se ao noivo sorridente e orgulhoso que a esperava. E até mesmo Jill não conseguiu conter as lágrimas. — Está feliz, meu amor? — Max murmurou quando, promessas feitas e alianças trocadas, eles caminhavam de braços dados, enfim marido e mulher, pelo corredor da igreja. — Muito — ela afirmou, olhando-o. — E você? — Como jamais fui feliz em toda a minha vida. — Ele sorriu, beijando-a levemente na testa, selando a felicidade que o futuro lhes prometia.

Este livro possui 112 pag.

Edição 755 Atração do Pecado Anne Mather Livros corações corações

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Sabrina 754 – A Outra Face do Amor – Stephanie Howard A chuva caía forte, quando Julie saiu correndo do carro e entrou na casa de sua mãe, sem bater na porta. A cena que viu ao entrar na sala quase a fez desmaiar. Mas a raiva a dominou, e esse sentimento foi o bastante para dar-lhe forças. Forças para vingarse! Sua mãe estava nos braços de Jake Lombardi, seu noivo, beijando-o apaixonadamente, e esta traição ela não ia perdoar!

Edição 756 Dilema de Amor Miranda Lee "Pare de lutar, Carolyn! É inútil. Você já se tornou minha escrava, assim como eu me tornei escravo seu!" Hipnotizada pelas palavras de Vaughan, Carolyn não reagiu quando ele tomou-lhe os lábios num beijo ardente e devastador. Fechou os olhos, entregando-se ao prazer que a invadia. Sabia que o preço a pagar por uma insana noite de amor com esse homem era alto demais. Vaughan Slater, afinal, tivera um romance com sua mãe, e não poderia fazer parte da vida de Carolyn!

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Sabrina 754 a outra face do amor stephanie howard  

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