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leitura davam ainda mais antipatia daquelas obras. E, olha, não é por nada não, mas todos eram livros horrorosos. Digo isso em relação ao aspecto estético mesmo. Por que livros de Machado de Assis tinham capas e edições tão feias? Eles simplesmente não me atraíam. O meu maior trauma dessa época foi ter que ler o livro “Grande Sertão Veredas” para o vestibular. Ao ler a primeira palavra — “Nonada”, lembro como se fosse ontem — já suspirei de puro desânimo. O livro de Guimarães Rosa, favorito de meu pai, se tornou uma incumbência interminável, um labirinto de palavras sem sentido. Tentar lê-lo com propósitos acadêmicos tirou completamente a graça da leitura. Hoje, vejo aquela relutância em me jogar nas palavras de Rosa como um grande desperdício de tempo. Anos depois do trauma, já inspirada por um professor do meu adorado curso de Letras, resolvi dar uma nova chance ao Sertão e nunca mais olhei para trás. Os neologismos, o ritmo da escrita, o jogo de linguagem, o enredo (ou melhor dizendo, a travessia), tudo no livro me conquistou. Me rendi à mágica de Rosa sem arrependimentos e refleti sobre o quanto a travessia no sertão se assemelha ao período tortuoso da adolescência. Não pude aproveitar o Sertão naquela época, mas nunca é tarde demais. Acho que isto é uma das melhores coisas 23

Memória, sentimentos e leitura - Paula Serelle  
Memória, sentimentos e leitura - Paula Serelle  
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