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MEMÓRIA, SENTIMENTOS E LEITURA

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MEMÓRIA, SENTIMENTOS E LEITURA Paula Serelle Macedo

CEFET-MG 2017

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Memória, sentimentos e leitura Copyright © 2017 by Paula Serelle Macedo Todos os direitos reservados Capa Ana Cláudia Muniz Soares Valério Imagem da capa Budi Satria Kwan Imagens do miolo P. 43 - Acervo Pessoal da Autora Restante das imagens - Google Images Revisão Denise Niffinegger Projeto e diagramação Ana Cláudia Muniz Soares Valério Preparação Denise Niffinegger Paula Serelle Macedo Coordenação Editorial Ana Elisa Ribeiro Oséias Silas Ferraz

CEFET-MG 2017

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Sumário Introdução....................................................9 A vontade infindável de conquistar o mundo (das letras).......................................13 O nebuloso percurso do meio.......................21 A eterna busca pelo livro perfeito..................27 O carinho pelos não lidos.............................33 O refúgio nos livros......................................39 O entusiasmo acadêmico das letras..............45 Futuras leituras...........................................51 Créditos.......................................................57

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MEMÓRIA, SENTIMENTOS E LEITURA

Pensar sobre os livros que percorreram o meu caminho é um exercício tortuoso de memória. Ao longo da vida, creio que tenham sido milhares deles. Livros que li (e reli), livros que vi em mãos conhecidas e desconhecidas, livros que descobri por acaso, livros que namorei de longe, livros veementemente recomendados, livros que enfeitam estantes, livros que eu mesma fiz, livros largados no meio, livros que perdi e livros que reencontrei. O livro, pelo menos para mim, é mais que um objeto de leitura, mais que um mero invólucro de histórias. Acho que vale apontar que o livro é, sim, um objeto. Não um objeto qualquer, mas um objeto belíssimo. Muitos dos livros que escolhi me conquistaram pela cara. Julgar um livro pela capa é um dos maiores prazeres da vida, embora alguns condenem essa atitude: eu os chamo de “defensores do conteúdo”, aqueles 9


que bradam forte “e o conteúdo? O que importa é o conteúdo!!”. Tudo bem, tudo bem... o que vem escrito no livro é, sim, de suma importância, mas a experiência de leitura envolve também o físico, o visível, o palpável, o “cheirável”. Não há nada melhor do que pegar um livro bem elaborado. Um objeto que, além do design impecável, possui uma escrita marcante e se torna inesquecível. Acho que o livro é bem isso, uma Quimera: cabeça de conteúdo, corpo de design e cauda de memória. Ah, e a memória? Cada livro que está guardado aqui dentro da cabeça representa um marco em minha história de vida. Remexer na caixinha das memórias é um desafio, não só porque as lembranças chegam à superfície cheias de buracos, mas também porque é uma experiência muito privada. É tão íntimo compartilhar com o mundo — se é que alguém vai ler este livreto, além de meu colega revisor — aquilo que está gravado dentro de mim. Memórias não são racionais, sentimentos não tem porquê, apegos e desapegos tem vida própria. Digo isso para que você, caro leitor, entenda que os livros que me marcaram não são os melhores livros do mundo. Por vezes (muitas vezes), o cânone não me impressionou, mas aquela crônica boba ficou imortalizada na linha do tempo. Portanto, a meu ver, a qualidade da literatura lida tem muito pouco a ver com o impacto que ela gera. 10


Aliás, me deu uma vontade de explicar aqui também que vou parar de dizer “eu acho”, “na minha opinião”, “em minha experiência”. Este texto é um pedaço da MINHA memória. Minha em caixa alta mesmo, pois memória é subjetividade e experiência de leitura também é. O sentimento que agreguei a cada livro está extremamente conectado ao momento em que aquela leitura entrou em minha vida. Desse modo, quero escrever a história dos meus livros sem muitas explicações. Não quero descrever o currículo invejável (ou não) dos autores, os prêmios recebidos (ou perdidos) pelos livros, as linhas maravilhosamente bem escritas (ou maravilhosamente mal escritas). Quero falar daquilo que senti quando li cada livro e de como eles encontraram um modo de ajudar, de instigar, de confundir, de distrair, de esclarecer… enfim, de virar pedacinho de memória. Estejam avisados que, se os sentimentos são irracionais, autoritários e arbitrários, também parecerá ao leitor que essas características se aplicam à escolha dos livros aqui listados. Isso é de propósito, já que não há nada mais pessoal do que escrever sobre as próprias lembranças. Portanto, sem mais delongas, me lanço à experiência de dar nome aos bois, opa, livros. Uma escrita que é, ao mesmo tempo, melancólica, aterrorizante e deliciosa. 11


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A VONTADE INFINDÁVEL DE CONQUISTAR O MUNDO (DAS LETRAS)

Capa do livro “Você é capaz de fazer isso?”


Quando parei para pensar em todos os livros que deveriam ganhar um espacinho aqui neste texto, os que marcaram a minha infância foram, sem dúvida, os mais numerosos. Ser criança é ser alegre, é ver o maravilhoso no mais trivial, é querer aprender tudo ao mesmo tempo, é ser incansavelmente curioso. Pensar na infância sempre me traz uma alegria, um sorriso ao rosto, embora eu saiba que, no fundo, é um sorriso meio ingênuo. Ingênuo porque a fartura de boas memórias é, com toda certeza, resultado da distância temporal e do esquecimento seletivo. Prefiro não aprofundar nessa linha de pensamento porque é muito bom pensar em uma época e só se lembrar de coisas boas. Ninguém precisa estragar a própria felicidade com a verdade. Memórias não são verdades, por sorte nossa. Minha primeira recordação ligada aos livros se deu quando eu estava aprendendo a ler na escola. Aliás, parece óbvio, mas o ato de 14


ler requer, primeiramente, adquirir a habilidade de leitura e escrita, o que implica em dominar uma tecnologia de representação da linguagem. Passar pelo processo de alfabetização é trabalhoso, mas tem recompensas incríveis. O primeiro “livro” ao qual me apeguei era uma apostila de alfabetização da escola, com pequenos textos e exercícios. Ela se chamava “Tal e Qual”. Lembro direitinho da encadernação com espiral preta, do símbolo de Yin-Yang da capa. Nunca parei para pensar por que algo relacionado à filosofia chinesa estaria na capa desse material, mas só de pensar naquela imagem, me dá um frio na barriga. Um friozinho bom, de ansiedade, de vontade de conquistar o mundo das palavras. Filha de pais muito jovens, ainda estudantes na universidade, nunca tive aquela experiência que sempre relaciono aos filmes, em que mãe e filha escolhem um livro antes de dormir, apagam as luzes, ligam o abajur e juntinhas, aconchegadas nas cobertas, compartilham histórias. É algo do qual sinto saudades, mesmo nunca tendo acontecido comigo. Meu contato com a leitura começou mesmo na escola, que comecei a frequentar com apenas seis meses de vida. Lá para os seis ou sete anos, quando as letrinhas do “Tal e Qual” estavam começando a fazer sentido, as primeiras paixões “livrísticas” começaram a surgir. Primeira a chegar na 15


escola e última a sair, eu e a filha da diretora, minha melhor amiguinha, nos perdíamos nos livros da biblioteca, uma pequena salinha bem colorida, que tinha mais brinquedos e almofadas do que livros propriamente ditos. Como toda criança, eu tinha uma leve tendência à repetição: relia trocentas vezes os favoritos. Por isso, creio que algumas capas e personagens ficaram gravadas nos arquivos da memória. Não me lembro muito bem das histórias, mas sim da carinha dos livros. Livros infantis são tão belos, tão ricamente ilustrados, tão inundados de cores, tão vivos! Embora eu entenda que, objetivamente, não é possível fazer livros “de adulto” do mesmo modo, gostaria sempre de ler livros que me passassem a mesma sensação, o mesmo encanto visual. Algumas ilustrações até hoje fazem meu coração bater mais forte. Era, e ainda é, amor por esses livros. Não me lembro sequer dos títulos deles, mas o tipo da ilustração já cochichava para mim: esse livro é bom, pode pegar! Um desses livros é o que aparece adjacente ao subtítulo deste capítulo. Não faço ideia do que propunha, mas lembro das ilustrações vividamente. Por algum tempo, essas capas se perderam na minha vida e na minha memória, até o dia em que me e deparei com um desses posts banais da internet que têm a intenção de divertir, desenterrando os objetos da infância. 16


Quando vi a famigerada ilustração, fui inundada pelas emoções. Descobri, finalmente, o nome daquele ilustrador: Cláudio Martins, um desconhecido amigo que marcou um período de tantas descobertas em minha vida. Ele e também a Ruth Rocha, autora desses livros “desenhados” pelo Cláudio. Além do Cláudio e da Ruth, o Ziraldo também foi um velho amigo de infância. Me lembro muito de um livro que ele escreveu que se chama “Flicts”. Não sei se termina bem ou mal, mas sei que contava a história de uma cor, chamada Flicts, que não era nenhuma das cores do arco-íris, mas tinha seu charme próprio. Como era bom começar a pensar que ser diferente pode ser tão maravilhoso como ser Flicts. Os livros começaram a abrir novas portas, portas para mundos imensos e desconhecidos. Quanto mais eu lia, mais fácil ficava ler e mais difícil ficava não ler. Minha mãe, pedagoga de formação, não lia muito na época, mas fazia questão de sempre trazer livros novos para a leitora voraz que a escolinha tinha criado. Por causa dela, me enveredei na poesia doce de Cecília Meireles. Até hoje lembro de cor o verso “Quem me compra um jardim com flores, borboletas de muitas cores, lavadeiras e passarinhos, ovos verdes e azuis nos ninhos?”. Na minha cabeça ele ecoa em ritmo próprio, como uma melodia que convida o leitor a se 17


perder no vibrante jardim de Cecília. Trago também na memória as inúmeras revistinhas em quadrinho que li. Com a intenção de saciar minha vontade de leitura, minha mãe fez uma assinatura das revistinhas da Turma da Mônica. A cada quinze dias chegavam impreterivelmente (e para a minha total alegria) uma ou duas revistinhas novas. Lendo, entrei para a turma também, e me sentia mesmo como um deles. Odiava o jeito como o Cebolinha e o Cascão tratavam a Mônica; entendia, sem problema algum, a fome eterna da Magali; ficava encucada com o jeito estranho de falar do Chico Bento. Foram anos e anos de amizade. Ao longo do tempo, os livros começaram a ter mais letras e menos figuras. Me deparei com as primeiras coleções, que tinham vários volumes. Era uma sensação incrível saber que, quando um livro acabava, tinha outro, e outro, e outro. Devorei a “Coleção Vagalume” e “Para Gostar de Ler”. Da primeira, o preferido foi o livro “Escaravelho do Diabo”, um mistério intrigante, que me deixou naquela desesperante expectativa (quem é o assassino??), e despertou aquilo que se transformaria em um vício em literatura policial. As memórias são muitas, mas, infelizmente, todos os meus livros de infância foram perdidos. Trancados num quartinho escuro para “não entulhar muito a casa”, foram, tris18


tes e solitários, lentamente comidos pelas traças. Diria que este é um dos meus maiores arrependimentos dessa época: não os ter salvado. Se pudesse voltar ao passado, bateria o pé no chão e colocaria todos eles no meu quarto, entulhados ou não. Depois dessa perda irreparável, hoje trato meus livros com muito apreço e, no meu quarto, (digo com muito orgulho) há mais livro do que espaço para pisar. Ninguém mais é deixado para trás (ou para as traças).

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O NEBULOSO PERCURSO DO MEIO

Capa do livro “Grande Sertão: Veredas”


A minha adolescência não foi um período no qual li muito, especialmente se comparado à minha infância e vida adulta. Diria que essa é uma fase bem confusa, na qual você não é criança, mas também não é adulto; não sabe de nada, mas tem certeza de que sabe de tudo. Nesse período, alguns aspectos ganham um enorme foco: a vida social e o vestibular. Parece não sobrar espaço para mais nada. Tudo é incerto, é urgente, é desarranjado. Com as pressões estudantis e os famigerados dramas adolescentes, sobra pouco tempo para leitura. Com exceção das leituras obrigatórias da escola. Está aí um tipo de leitura horrendo que me fez questionar se eu gostava mesmo de ler. Qualquer coisa obrigatória, especialmente na adolescência, perde todo o charme. Os livros que eu tinha que ler — “obras primas” de consagrados autores brasileiros — não tinham nem chance, pois eu já a lia com maus olhos. E os exercícios e provas que vinham depois da 22


leitura davam ainda mais antipatia daquelas obras. E, olha, não é por nada não, mas todos eram livros horrorosos. Digo isso em relação ao aspecto estético mesmo. Por que livros de Machado de Assis tinham capas e edições tão feias? Eles simplesmente não me atraíam. O meu maior trauma dessa época foi ter que ler o livro “Grande Sertão Veredas” para o vestibular. Ao ler a primeira palavra — “Nonada”, lembro como se fosse ontem — já suspirei de puro desânimo. O livro de Guimarães Rosa, favorito de meu pai, se tornou uma incumbência interminável, um labirinto de palavras sem sentido. Tentar lê-lo com propósitos acadêmicos tirou completamente a graça da leitura. Hoje, vejo aquela relutância em me jogar nas palavras de Rosa como um grande desperdício de tempo. Anos depois do trauma, já inspirada por um professor do meu adorado curso de Letras, resolvi dar uma nova chance ao Sertão e nunca mais olhei para trás. Os neologismos, o ritmo da escrita, o jogo de linguagem, o enredo (ou melhor dizendo, a travessia), tudo no livro me conquistou. Me rendi à mágica de Rosa sem arrependimentos e refleti sobre o quanto a travessia no sertão se assemelha ao período tortuoso da adolescência. Não pude aproveitar o Sertão naquela época, mas nunca é tarde demais. Acho que isto é uma das melhores coisas 23


da vida: saber que nosso gosto pela leitura está sempre em transformação, que nunca somos os mesmos; que os livros péssimos de ontem são as obras-primas de hoje e vice-versa. Creio, de verdade, que ninguém faz a mesma leitura duas vezes. Embora os livros continuem os mesmos, nós mudamos um pouquinho a cada dia. Quem faz a leitura agora não é a Paula de momentos atrás; é uma outra pessoa, com novas experiências de vida, outros sentimentos e outras perspectivas. A cada momento, a leitura é única e isso é de uma riqueza infinita. Como é bom crescer (como leitor). Nas palavras extremamente pertinentes de Rosa: “Mire veja: o mais importante e bonito, do mundo, é isto: que as pessoas não estão sempre iguais, ainda não foram terminadas – mas que elas vão sempre mudando. Afinam ou desafinam. Verdade maior. É o que a vida me ensinou.”1 Apesar dos desentendimentos literários da adolescência, foi ali que encontrei uma das minhas maiores paixões: Harry Potter. Eu sei, eu sei, impossível ser mais clichê, mas é verdade. No castelo de Hogwarts, na companhia dos meus bruxos, eu encontrei um mundo novo, no

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ROSA, João Guimarães. Grande Sertão: Veredas. 20

ed. Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1986, p. 24-25.

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qual eu queria viver para sempre. Até hoje tenho um grande apreço pelos livros e coleciono tudo relacionado aos personagens. Apesar disso, faz alguns anos que não releio a série. Não por preguiça ou falta de tempo, mas por receio mesmo. Explico: tenho um medo incrível de que os livros favoritos não sejam tão bons quanto eu imaginava. Alguém já passou por isso? Medo da releitura? Imagine aquele livro que salvou a sua vida, te deu horas de prazer, melhor ainda, te deu um propósito quando tudo parecia perdido. Pensou? Todo mundo tem um livro desse. Agora imagine relê-lo e pensar “Uhm, não sei o que vi nesse livro”. Como com um ex-namorado, desses que a gente amou tanto e depois olha com desdém. Não imagino fim mais trágico para um livro. Toda essa reflexão foi para dizer que o Harry vai ficar na prateleira mais alguns anos, até eu ter a coragem de reencontrá-lo.

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A ETERNA BUSCA PELO LIVRO PERFEITO

Capa do livro “I am the messenger”


Já na primeira faculdade, comecei a explorar mais e ousar na minha seleção de livros. Sem a obrigatoriedade de ler para fazer prova ou vestibular, minhas horas livres eram tomadas por novos livros, fosse lendo ou tentando encontrálos. Me tornei uma leitora voraz, estabeleci minha predileção por livros de ficção, comecei a participar de redes sociais para leitores, expandi meu leque de escolhas, começando também a ler em inglês, e comprei um Kindle. É uma liberdade enorme poder escolher suas próprias leituras, poder pagar por elas. Minha ínfima bolsa-estágio ia toda para os livros. Nessa época eu comecei a me sentir uma Leitora de verdade, com “L” maiúsculo. Saí da liga amadora e me juntei aos profissionais. Conheci novos amigos, autores que, mesmo nunca tendo ouvido falar de mim, pareciam escrever comigo em mente e sabiam exatamente o que eu queria ler. Devorei muitas e muitas séries de livros e 28


até hoje continuo procurando por outras. Gosto muito de ler vários volumes com os mesmos personagens e de esperar com muita ansiedade pelo próximo livro. É incrível poder acompanhar os protagonistas em várias aventuras e poder conhecê-los a fundo. Hoje me considero íntima de Eve Dallas, Sookie Stackhouse, Lisbeth Salander, Daenerys Targaryen, Stephanie Plum, Cormoran Strike e muitos outros. Conheço-os mais do que muita gente que vejo na vida real todos os dias. Engraçado isso, se sentir amigo de personagens fictícios, mas é isso mesmo que sinto. É parte da magia dos livros. Apesar da minha predileção pelas séries, creio que elas possuem uma grande desvantagem: muitas vezes os autores se perdem em sua própria trama. Vejo que muitos têm dificuldade em colocar um ponto final na história, em desapegar. E então, o que resta ao leitor é um livro meio repetido, sem muita graça, que desaponta em todos os sentidos e não faz jus aos personagens que tanto amamos. Bom, ler também é arriscar-se. Só se descobre que um livro é bom lendo. Por falar nisso, antes eu não conseguia largar uma série antes do fim, nem se ela se tornasse péssima. Largar um livro no meio então, nem pensar! Hoje tento praticar mais o desapego. A vida é muito curta para ser torturado por um livro ruim. Ainda não largo nenhum livro antes de chegar na página 100, 29


porque creio, do fundo do coração, que todo livro merece uma chance. Também ainda fico de consciência pesada ao abandonar um amigopersonagem no meio da série. Mas abandono. Acho que um bom leitor também deve saber dizer “chega!”. É uma questão de amor-próprio. Além das séries, também tomei grande apreço pelos volumes únicos, nos quais a história tem início meio e fim. Aliás, todo tipo de livro tem seu charme, seja clássico, best-seller, de crônicas, de poesia, etc., sem preconceitos. Nessa fase da vida que descrevo agora, percebi que uma das melhores partes da leitura é paquerar um livro. É ler sobre a história, descobrir mais sobre o autor, procurar críticas de especialistas e amadores. A leitura começa antes mesmo de abrir um livro. Um dos artifícios que expandiu muito o meu hábito de leitura foi a convergência entre livro e tecnologia digital. Quando adquiri um Kindle, o leitor eletrônico da Amazon, minha vida se transformou. Eram milhares de livros nas pontas dos dedos, livros que não ocupavam espaço, que tinham preços mais baixos e que eu podia levar para qualquer lugar. Compro e leio muitos livros no Kindle, mas apesar das facilidades, até hoje ainda prefiro os livros de papel. O design do livro, o cheirinho dele, as páginas que vão amarelando, as dobrinhas que a gente faz para marcar os trechos favoritos: isso 30


o Kindle não me dá. Por isso não acredito muito nos pessimistas, os cavaleiros do apocalipse que já preveem o dia da morte do livro físico. Acho que ambas as tecnologias vão conviver por muitos e muitos anos, já que os leitores gostam de praticidade, mas são, por natureza, sentimentais. Nostálgicos, possuem um vínculo com certas leituras, um vínculo que, muitas vezes, só se satisfaz com objetos palpáveis, “de carne e osso”, sentados ali na estante. Foi nesse período de expansão literária que encontrei o meu livro favorito. Declarar um livro como o meu “Livro Favorito” foi uma decisão muito, muito polêmica. Foi colocá-lo acima dos outros livros, foi admitir que aquela história havia me tocado mais do que todas as outras. Encontrei o tal livro por acaso, como acontece com as coisas mais gostosas que cruzam nossa vida. Gostei da capa e comprei despretensiosamente. Quando terminei de ler, fechei o livro e parei, incrédula: “Que livro!”. Esse momento está na minha lista como uma das melhores sensações que já senti. Não vou contar a história do livro, pois quero deixá-los curiosos. Até porque meu livro favorito não será o seu, tenho certeza, mas deixo aqui o nome: “I am the messenger”, de Markus Zusak. Leia por sua própria conta e risco.

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O CARINHO PELOS NÃO LIDOS

Capa do livro “O homem que amava muito os livros”


Admito que possuo muitos livros que ainda não li. Aliás, nada me lembra mais da finitude da vida do que pensar em todos os livros que nunca lerei, nunca terei tempo para ler, por mais que me esforce. Uma vez vi uma reportagem sobre um senhor que se considerava um “superleitor” e diz ter lido mais de dez mil livros. DEZ MIL LIVROS. Coisa de super-herói mesmo. Embora essa pareça ser uma quantidade imensa, na verdade, é uma parte ínfima dos livros disponíveis no mundo. Por mais que eu leia e viva até os 120 anos de idade, nunca lerei o suficiente para satisfazer meus apetites. Esse é um pensamento que me chateia e, ao mesmo tempo, me liberta, pois jamais acabarão as opções. Sempre haverá mais livros a serem descobertos. O leitor tem a melhor coleção do mundo, pois quem lê é um eterno colecionador de histórias e não há coleção mais extraordinária. Um dia, como o senhor da reportagem, gostaria também de 34


anunciar que sou uma superleitora. Durante a minha vida, até o presente momento, li 266 livros. Apenas. Mas ainda chego lá. Ainda falando sobre os livros não lidos, em minhas prateleiras existem alguns desses que são muito significativos para mim. Não conheço ainda suas personagens e histórias, mas eles possuem um valor sentimental imensurável, e eu os exibo como troféus em meu quarto. Esses livros são aqueles presenteados por pessoas que amo, recebidos como herança ou, ainda, os “livros de viagem”. Os apelidados “livros de viagem” são aqueles que trouxe comigo de diferentes lugares que visitei. Esse hábito começou há uns dez anos, quando decidi que o melhor souvenir que uma cidade pode oferecer não são imãs, camisetas ou chaveiros, são livros! Sempre que viajo busco feiras de rua e livrarias pequenas, algum livro, de preferência usado, que me relembre certa cidade ou país. Às vezes, os livros estão escritos em línguas que não domino, às vezes sua história nem me parece tão interessante, mas a sua mera presença em minha casa é motivo de alegria e nostalgia. Em cada um deles, escrevo a cidade e a data na qual o livro foi comprado. A última aquisição foi um de Salman Rushdie que achei em Londres. Passeando pela cidade, me deparei com um homem sentado na calçada, vendendo livros usados por um pound. Escolhi 35


o que me pareceu mais interessante, e aqui estou, admirando-o enquanto escrevo essas palavras. Ele está na minha lista de livros a serem lidos, mas, enquanto não chega a sua hora, ele é uma bela recordação. O livro que ilustra esse subcapítulo não é um “livro de viagem”. Ele também não foi lido ainda, mas remete a outras memórias afetivas. “O homem que amava muitos livros” foi um presente surpresa que meu pai me deu. Em minha casa, ninguém se arrisca a me presentear com livros porque acham que eu já li/tenho tudo que existe no mundo ou que eu, entendida dos livros, vou zombar de suas escolhas. Eles não poderiam estar mais enganados. Até hoje não consigo descrever o sentimento da menina que amava muitos os livros ao receber esse presente simples, mas com gostinho de homenagem.

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O REFÚGIO NOS LIVROS

Capa do livro “A Game of Thrones”

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Muito mais do que entretenimento, os livros foram, em certos períodos da minha vida, um escape, um consolo, uma salvação. Não é muito fácil pensar sobre esse tempo, mas alguns anos após começar minha primeira faculdade, insatisfeita e me sentindo muito perdida, entrei em uma depressão. Não sei se você, leitor, já passou por isso, mas é uma coisa terrível, muito maior que uma simples tristeza, dessas que acontecem de tempos em tempos na vida da gente. Diria que é uma falta de propósito, de vontade de tudo, é como perder sua cor, como ficar preso no tempo. Bom, não posso afirmar que os livros me tiraram sozinhos da fossa, mas foram, sim, de grande ajuda. Sempre ouço aquela frase que diz que ler é como viajar sem sair do lugar. Eu concordo. Ler é tirar férias da sua própria vida, mesmo que por alguns momentinhos e, às vezes, isso é bem necessário. No pior momento da minha vida, quando sentia que ninguém me 40


entendia, quando me sentia mais sozinha e isolada, foram os livros que me fizeram companhia. Eu lia por horas e horas. Lia quando deveria estar estudando, lia quando deveria estar dormindo. Por um lado, refletindo agora, talvez não tenha sido o jeito mais saudável de lidar com a situação, mas foi o melhor jeito que encontrei. Estar dentro da história do outro me deixou fugir da minha própria, me deu um tempo para pensar no próximo passo, me deu um pouco de perspectiva. O livro que ilustra esse subcapítulo é das “Crônicas de Gelo e Fogo” de George R.R. Martin, um conjunto de 5 livros apelidados carinhosamente por mim simplesmente de “Game of Thrones”. Para quem nunca leu, os livros são muito interessantes, possuem uma trama de fantasia muito bem bolada, personagens para amar e odiar e reviravoltas mirabolantes. Além disso, os livros também são longuíssimos. Isso pode parecer uma desvantagem para alguns, mas para mim, naquele momento, eles representavam uma pausa na rotina, coisa que eu precisava desesperadamente. Li todos os livros no idioma original e, embora eu já tivesse o hábito de ler em inglês, aqueles livros me despertaram algo que estava adormecido, uma vontade de trilhar outro caminho. Acabei os cinco livros mais animada com a vida, respirei fundo e tomei coragem para 41


largar tudo o que não me fazia feliz mais. Decidi mudar de profissão e trabalhar com aquilo que me inspirava: as Letras. Mudar da Biologia para Letras, assim de supetão, no último período, foi uma escolha, no mínimo, ousada. Mas, cabeça-dura que sou, fui e ainda estou indo. Queria trabalhar circundada por letras, escrevendo, revisando, ensinando, traduzindo, lendo. Todos esses verbos me trazem uma felicidade imensa. Se aqueles livros não tivessem me encontrado naquele momento, talvez eu tivesse feito escolhas diferentes. Os livros mudam mundos, ou pelo menos, mudaram o meu mundo.

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O ENTUSIASMO ACADÊMICO DAS LETRAS

Capa do livro “A beautiful mess: um ano de desafios criativos”


Sabe quando você lê um livro muito bom e ele termina deixando uma saudade, um espaço vazio na sua vida? Descreveria esse vazio como aquilo que você sente quando um amigo muito próximo muda de cidade e você se sente largado para trás, sabe? Bom, sair da Biologia causou o efeito oposto. Eu senti realmente um grande alívio, como se tivesse finalmente dado um passo na direção certa. No curso de Letras, pude ver a leitura, os livros e os leitores sob um novo olhar, sob uma perspectiva mais profissional. Compreendi como as editoras funcionam, como o mercado do livro funciona e o quanto é complexo o processo de produção do livro. Tudo isso me encantou e ainda me encanta. Hoje, durantes meus passeios quase semanais pelas livrarias, penso em todo o trabalho envolvido em produzir aquele pequeno livro que está lá. Foi no curso também que tive a oportunidade de produzir o meu primeiro livro: o que 46


ilustra este subcapítulo. O primeiro livro que a gente faz, a gente nunca esquece. E como foi trabalhoso! Foram seis meses de muito aprendizado, desde a escolha do tema, o cuidado com o material escrito, a tradução, o projeto gráfico e a impressão. Mas ver o livro pronto, com meu nome na capa, me encheu de orgulho. Eu e minha dupla fomos apenas organizadoras do livro. Imagine só escrever e publicar um livro como autora? Deve ser uma alegria imensa, além de dar um frio na barriga, pois escrever é sempre colocar a alma no papel. Ser autora é um sonho recente, que o curso de Letras está despertando em mim. Não sei se vai se realizar, mas é bom ver novas possibilidades. Na verdade, já estou me sentindo um pouco autora aqui neste texto que escrevo, embora esta prosa se assemelhe mais a um diário, pessoal e íntimo, do que o livro de ficção que um dia penso em escrever. Na graduação de Letras também pude reencontrar livros já esquecidos e relê-los com outro olhar. Pude analisá-los de modo acadêmico, aprofundar-me em sua escrita, em seu estilo. Reli, inclusive, outro livro que me aterrorizou no ensino médio: “Macunaíma”, de Mário de Andrade. Hoje dou risadas daqueles momentos de angústia na escola. Como a leitura pode ser simples! Como um livro ruim pode ser transformar! Nada como o tempo para mudar nossas opiniões. Já compartilhei aqui o meu 47


medo do reler, mas no caso dos livros ruins, uma releitura pode ser extremamente positiva (ou não, pois há livros que são e sempre serão ruins). Não vou difamar nenhuma obra aqui, pois gosto é algo muito pessoal e acredito piamente que há uma tampa para cada panela, um leitor para todo livro. Letras me ensinou (e ainda tem me ensinado) muito sobre os livros. Hoje, vejo que a minha memória de leitor e a minha história de vida são uma só, e isso se deve muito ao curso em que eu escolhi me formar. Um curso que me instiga mais a cada dia e me faz crescer como leitora e como pessoa. Creio que agora acertei

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na profissão.

Capa do livro “Bad Feminist”

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FUTURAS LEITURAS Hoje, diria que o meu maior dilema literário é a falta de tempo para ler. Parece uma desculpa daquelas bem esfarrapadas, mas não é. Faço várias leituras acadêmicas e profissionais no dia a dia, mas poucas leituras por prazer ou por interesse pessoal. Se houvesse mais horas no meu dia, sem dúvidas, as passaria lendo. O tempo (ou melhor, a falta dele) é sempre um desafio na vida contemporânea, mas é especialmente penoso para o leitor insaciável, como me considero ser. Deixando essas chateações de lado, continuo me enveredando por novos caminhos, por novos tipos de leituras. Embora o meu ritmo de leitura tenha diminuído, a lista de desejos dos livros só aumenta. Ultimamente, tenho fugido um pouco das minhas amadas ficções e optado por leituras mais engajadas. Como o livro que acompanha este subcapítulo (“Bad Feminists”, de Roxane Gay), as obras que reúnem as cha52


madas essays, ou ensaios, em português, trazem textos curtos que discutem temas específicos sob a perspectiva do autor. Esses livros nos convidam a uma leitura cujo objetivo primeiro não é entreter, mas sim discutir, problematizar, levantar reflexões. No caso de Gay, o tema abordado é o feminismo, assunto que muito me interessa e sobre o qual busco sempre me atualizar. É interessante perceber como esse é um tipo de livro que não nos deixa escapar do mundo, mas, pelo contrário, nos desperta para as realidades que estão à nossa volta. Para mim, essa é uma grande transformação. Sem perceber, me tornei uma leitora que não quer mais se esconder, mas, sim, se envolver com a vida e ser mais protagonista. O livro, mais uma vez, reflete aquilo que sinto, aquilo que quero sentir, aquilo que quero ser. São objetos tão simples, mas que servem funções sociais complicadas e múltiplas. Eles educam, divertem, alegram, entristecem, questionam, polemizam, consolam. Ao longo da minha vida, percebo que os livros cumpriram todos esses propósitos e muitos outros. Nesta breve história de leitura, relatei muitas experiências íntimas e importantes para mim, mas não citei, nem de perto, todos os livros que impactaram a minha vida. Finalizo este texto com o sentimento de que ele está incompleto, mas com a certeza de que a minha 53


história de leitura só terá fim quando eu não estiver mais aqui para ler e, portanto, já não puder mais escrevê-la. Colocar essas histórias no papel também me fez compreender melhor a dimensão que os livros possuem em minha vida e como essas memórias literárias são sempre as que recordo com mais carinho. Embora esses momentos muitas vezes sejam marcados apenas por uma relação eu-livro, eles nunca são momentos de solidão. É verdade que quem lê nunca está sozinho ou mal acompanhado. Para terminar este memorial, proponho um brinde às futuras leituras, na esperança de que todos os clichês mais piegas que já ouvi sobre os livros e seus infindáveis benefícios sejam a mais pura verdade.

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Esta plaquete foi elaborada para a disciplina de Oficina de Edição e Revisão de Textos II, no CEFET-MG, em 2017 e impressa em papel de algodão, em tipologia Bookman Old Style.

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Memória, sentimentos e leitura - Paula Serelle  
Memória, sentimentos e leitura - Paula Serelle  
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