Issuu on Google+

Tradução: o roteiro original de A Guerra dos Mundos Howard Koch/Tradução de Eglê Malheiros1 Locutor: A Rede CBS e suas estações filiadas apresentam... Orson Welles e o Teatro Mercúrio no Ar em A Guerra dos Mundos, de H.G. Wells. (Tema Musical do Mercury Theatre) Locutor: Senhoras e senhores, o diretor do Teatro Mercúrio no Ar e astro desta série de programas, Orson Welles... Orson Welles: Sabemos agora que, desde os primeiros anos do século vinte, nosso mundo vinha sendo observado por inteligências superiores às do homem e, ainda assim, tão mortais quanto nós. Sabemos agora que enquanto os seres humanos viviam entregues aos seus afazeres, eram examinados e estudados, talvez quase tão de perto quanto um homem ao microscópio pode examinar os organismos efêmeros que pululam e se multiplicam numa gota d’água. Com infinita satisfação as pessoas andavam para cá e para lá tratando de seus pequenos negócios terrenos, na tranqüila certeza de seu domínio sobre este pequeno e rodopiante fragmento de matéria solar, que por acaso ao destino o homem herdou do negro mistério do Tempo e do Espaço. No entanto, através do imenso abismo etéreo, mentes que estão para as nossas como as nossas para as feras na selva, imensos cérebros frios, sem simpatia, fitavam esta terra com olhos invejosos e, de modo lento e seguro, traçavam seus planos contra nós. No trigésimo nono ano do século vinte ocorreu a grande desilusão. 1

Publicada originalmente em CUNHA, 1981, pp. 8-29 .Tradução gentilmente cedida pela autora. Recuperação e digitação do original por Laura Toledo Daudén. Formatação conforme o original americano de Howard Koch (1970, pp. 33-80).


Foi pelos fins de outubro. Os negócios iam melhor. O pavor da guerra estava superado. Maior número de homens voltava ao trabalho. As vendas subiam. Nesta noite em especial, 30 de outubro, a agência Crosley calculou que trinta e dois milhões de pessoas ouviam rádio. Locutor ...nas próximas vinte e quatro horas pouca alteração de temperatura. Há informações de uma ligeira perturbação atmosférica de origem indeterminada sobre a Nova Escócia, provocando o deslocamento de uma área de baixa pressão com certa rapidez sobre os Estados do nordeste, trazendo previsão de chuva acompanhada de ventos de rajadas leves. Temperatura máxima 19 graus centígrados, mínima, 8 graus. Este informe meteorológico é de responsabilidade do Instituto de Meteorologia. ...Agora vamos transmitir do Meridian Room, do Park Plaza Hotel, bem no centro de Nova Iorque, onde ouviremos a música de Ramos Raquello e sua orquestra. (Entra tema hispano-americano... ) Locutor 3 Boa noite, senhoras e senhores. Diretamente do Meridian Room, do Park Plaza Hotel de Nova Iorque, levamos para vocês a música de Ramon Raquello e sua orquestra. Com seu toque muito pessoal, Ramon Raquello inicia “La Cumparcita”. (Começa a música) Locutor 2 Senhoras e senhores, interrompemos nosso programa de música de danças para levar a vocês um boletim especial da Agência de Notícias Intercontinental. Às dezenoves horas e quarenta minutos, hora central, o professor Farrell, do Observatório de Monte Jennings, Chicago, Illinois, comunicou estar observando a ocorrência de várias explosões de gás incandescente, a intervalos regulares, no planeta Marte. O espectroscópio indica que o gás é o hidrogênio e está se movendo com enorme velocidade rumo à Terra. O professor Pierson, do Observatório de Princeton, confirma a observação de Farrell, e descreve o fenômeno como (abre aspas) igual a um jato de chama azul lançado de uma espingarda (fecha aspas). Agora fazemos com que voltem à música de Ramon Raquello, tocando para vocês no Meridian Room, do Park Plaza Hotel, bem no centro de Nova Iorque.


(A música toca por alguns momentos até que o número acaba... Sons de palmas) Agora uma melodia que ninguém esquece, a sempre popular “Star Dust”, com Ramon Raquello e sua orquestra... (Música) Locutor 2 Senhoras e senhores, dando prosseguimento às notícias de nosso boletim de momentos atrás, o Instituto de Meteorologia solicitou aos principais observatórios do país que se mantenham em vigília astronômica para detectar quaisquer perturbações que ocorram no planeta Marte. Devido à natureza incomum dessa ocorrência, conseguimos uma entrevista com o conhecido astrônomo professor Pierson, que nos dará as suas impressões do fato. Daqui a momentos nós os levaremos até o Observatório Princeton, Nova Jérsei. Enquanto isso voltamos à música de Ramon Raquello e sua orquestra. (Música) Locutor 2 Estamos prontos para levá-los ao Observatório Princeton, em Princeton, onde Carl Phillips, nosso comentarista, entrevistará o famoso astrônomo Richard Pierson. Levamos vocês agora para Princeton, Nova Jérsei. (Câmara de eco) Phillips Boa noite, senhores e senhoras. Aqui Carl Phillips, falando-lhes do Observatório Princeton. Encontro-me de pé numa vasta sala semicircular, negra como breu, a não ser por uma fenda oblonga no teto. Através desta abertura posso ver o cintilar de estrelas, que lançam uma espécie de brilho gelado sobre o intrincado mecanismo do enorme telescópio. O tiquetaquear que ouvem é a vibração do relógio. O professor Pierson está diretamente acima de mim, numa pequena plataforma, espiando através das lentes gigantes. Peço-lhes que tenham paciência, senhoras e senhores, com qualquer demora que possa ocorrer durante nossa entrevista. Além da incessante observação dos céus, o professor Pierson pode ser interrompido pelo telefone ou outro meio de comunicação. Durante este período, ele está


em constante ligação com os centros astronômicos mundiais... Professor, posso dar início às perguntas? Pierson: Quando queira, senhor Phillips. Phillips Professor, poderia, por favor, contar aos nossos ouvintes exatamente o que o senhor vê quando observa o planeta Marte através de seu telescópio? Pierson Nada fora do comum, no momento, senhor Phillips. Um disco vermelho nadando em mar azul. Riscas transversais no disco. Muito claras agora, porque acontece que Marte está no ponto de maior proximidade da Terra... em oposição, como dizemos. Phillips Em sua opinião, o que significam essas riscas transversais, professor Pierson? Pierson Não são canais, asseguro-lhe, senhor Phillips, embora seja esta a crença generalizada daqueles que imaginam que Marte é habitado. Do ponto de vista científico, as riscas não passam de um resultado de condições atmosféricas peculiares ao planeta. Phillips Quer dizer que o senhor como cientista está absolutamente convencido de que não existe em Marte inteligência viva tal como a conhecemos? Pierson Diria que as possibilidades em contrário são de mil para um. Phillips


Sendo assim, que explicação tem para estas erupções de gás que estão ocorrendo na superfície do planeta a intervalos regulares? Pierson Senhor Phillips, não sei como explicá-las. Phillips Aproveitando a oportunidade, professor, para esclarecimento de nossos ouvintes, quanto dista Marte da Terra? Pierson Aproximadamente 64 milhões de quilômetros. Phillips Bem, parece uma distância bastante tranqüilizadora... Um momento, senhoras e senhores, alguém acaba de entregar um telegrama ao professor Pierson. Enquanto ele lê, deixem-me lembrar-lhes que estamos lhes falando do Observatório de Princeton, Nova Jérsei, onde entrevistamos o mundialmente famoso astrônomo, professor Pierson... Um momento, por favor, ele passou-me o telegrama que acaba de receber. Professor, posso ler o telegrama para os ouvintes? Pierson Certamente, senhor Phillips. Phillips Senhoras e senhores, lerei agora um telegrama dirigido ao professor Pierson pelo Dr. Gray, do Museu de História Natural de Nova Iorque: “9:15 p.m. Hora padrão ocidental. Sismógrafo registrou choque de intensidade quase de terremoto ocorrendo dentro de um raio de trinta e dois quilômetros em torno de Princeton. Por favor investigue. Assinado Lloyd Gray. Chefe da Divisão Astronômica.” ... Professor Pierson, poderia esta ocorrência ter algo a ver com as perturbações observadas no planeta Marte? Pierson


Dificilmente, senhor Phillips. Isto é provavelmente um meteorito de tamanho fora do comum, e sua chegada nesta hora em particular não passa de uma coincidência. No entanto, efetuaremos uma pesquisa, assim que a luz do dia o permitir. Phillips Obrigado, professor. Senhoras e senhores, nos últimos dez minutos temos estado lhes falando do Observatório de Princeton, levando até seus lares uma entrevista especial com o professor Pierson, o conhecido astrônomo. Aqui fala Carl Phillips. Voltaremos agora para nossos estúdios em Nova Iorque. (Entra Piano ao fundo) Locutor Dois Senhoras e senhores, aqui o último boletim da Agência de Notícias Intercontinental: Toronto, Canadá. O professor Morse, da Universidade McGill, relata ter observado um total de três explosões no planeta Marte, entre 7:45 p.m. e 9:20 p.m., padrão de tempo ocidental. Isto confirma relatórios anteriores recebidos de observatórios americanos. Agora, de mais perto de casa, vem uma notícia de Trenton, Nova Jérsei. Às 8:45 p.m. um enorme objeto flamejante, que se julga ser um meteorito, caiu numa fazenda nas vizinhanças de Grovers Mill, Nova Jérsei, distante trinta e cinco quilômetros de Trenton. O clarão no céu foi visível dentro de um raio de várias centenas de quilômetros e o estrondo do impacto foi ouvido até em Elizabeth, no norte. Despachamos uma equipe volante para o local, e nosso comentarista, senhor Phillips, lhes fará uma descrição a viva voz logo que chegue lá, vindo de Princeton. No meio tempo, nós os levaremos ao Hotel Martinet no Brooklyn, onde Bobby Millette e sua orquestra estão oferecendo um programa de música para dançar. (Banda de swing por 20 segundos... Então corta) Locutor Dois Agora o levaremos a Grovers Mill, Nova Jérsei. (Barulhos de multidão... Sirenes da polícia) Phillips


Senhoras e senhores, este é mais uma vez Carl Phillips, na fazenda Wilmuth, Grovers Mill, Nova Jérsei. O professor Pierson e eu fizemos os dezessete quilômetros de Princeton em dez minutos. Bem, eu... eu nem sei como começar, para pintar-lhes com palavras a estranha cena que tenho diante de mim, algo como que saído de uma moderna história das Mil e Uma Noites. Bem, mal acabo de chegar. Ainda não tive tempo ocasião de examinar o ambiente. Acho que está ali. Acho que é a... Coisa, bem na minha frente, meio enterrada num imenso buraco. Deve ter batido com uma força terrível. O chão está coberto de lascas de uma árvore que ela atingiu quando tombava. Pelo que posso ver o... objeto não se parece muito com um meteorito, pelo menos com os meteoritos que já vi. Parece mais um cilindro de enorme tamanho. Deve ter um diâmetro de... calcula em quanto, professor Pierson? Pierson (off) Uns vinte e sete metros, por aí. Phillips Uns vinte e sete metros... O metal do revestimento é... bem. Nunca vi nada igual. A cor é uma espécie de branco-amarelado. Espectadores curiosos se amontoam em torno do objeto, apesar dos esforços da polícia para mantê-los afastados. Estão obstruindo minha linha de visão. Por favor, não poderiam chegar para o lado? Policial Para o lado, vamos, para o lado. Phillips Enquanto os policiais empurram para trás a multidão, aqui está o senhor Wilmuth, proprietário da fazenda. Ele deve ter coisas interessantes para acrescentar. Senhor Wilmuth, poderia ter a gentileza de contar aos ouvintes tudo o que se lembra em relação a este visitante tão fora do comum que caiu em seu quintal? Um passo à frente, por gentileza. Senhoras e senhores, este é o senhor Wilmuth. Wilmuth


Eu estava escutando o rádio... Phillips Mais perto e mais alto, por favor. Wilmuth Como disse? Phillips Mais alto, por favor, e mais perto. Wilmuth Sim, senhor... eu estava ouvindo no rádio uma lega-lenga que o professor ali falava sobre Marte, de modo que eu meio que cochilava... Phillips Sim, sim, senhor Wilmuth. E então o que aconteceu? Wilmuth Como estava dizendo, eu estava ouvindo rádio assim meio distraído... Phillips Sim, sim, senhor Wilmuth, e então o senhor viu uma coisa? Wilmuth Não vi logo. Primeiro ouvi. Phillips E o que o senhor ouviu? Wilmuth Um som sibilante. Assim: sssssss... como um foguete de festa... Phillips E daí?


Wilmuth Virei minha cabeça para a janela e teria jurado que estava dormindo e sonhando. Phillips É? Wilmuth Vi uma espécie de risco esverdeado e então pumba! Alguma coisa beijou o chão. Me jogou para fora da cadeira! Phillips Bem, o senhor se assustou, senhor Wilmuth? Wilmuth Bem, eu... eu não tenho muita certeza. Reconheço que eu... eu estava um tanto apalermado. Phillips Obrigado, senhor Wilmuth. Obrigado. Wilmuth Quer que eu lhe conte mais alguma coisa? Phillips Não... está bem assim, isso chega... Senhoras e senhores, acabaram de ouvir o senhor Wilmuth, proprietário da fazenda onde caiu a Coisa. Gostaria de ser capaz de transmitir a atmosfera... o ambiente desta... coisa fantástica. Centenas de carros estão estacionados num ponto atrás de nós. A polícia está tentando bloquear a rodovia que conduz à fazenda. Mas não adianta. Eles chegam de qualquer jeito. Seus faróis lançam um enorme foco luminoso sobre o buraco em que o objeto está meio enterrado. Algumas pessoas mais ousadas se aventuram perto da beirada. Suas silhuetas se desenham contra o resplendor metálico. (Leve som de zumbido) Um homem quer tocar a Coisa... está tendo uma discussão com o policial. O policial vence... Agora, senhoras e senhores, algo que não


mencionei em toda esta barafunda, mas que está se tornando mais nítido. Talvez seus rádios já o tenham captado. Escutem (longa pausa)... Ouviram? É um curioso zumbido que parece vir de dentro do objeto. Vou chegar o microfone mais para perto. Aqui (pausa). Agora não estamos afastados nem oito metros. Podem ouvir agora? Oh! Professor Pierson! Pierson Sim, senhor Phillips? Phillips Podemos esclarecer o significado desse barulho rascante dentro da Coisa? Pierson Possivelmente o esfriamento desigual de sua superfície. Phillips O senhor ainda acha que é um meteorito, professor? Pierson Não sei o que pensar. O invólucro é positivamente extraterrestre, feito de metal não encontrado em nosso planeta. A fricção com a atmosfera da terra costuma fazer buracos num meteorito. A Coisa é lisa e, como se vê, de forma cilíndrica. Phillips Um minuto! Algo está acontecendo! Senhoras e senhores, isto é assustador! A extremidade da Coisa está começando a abrir. O topo está começando a rodar como um parafuso! A Coisa deve ser oca! Vozes Ela está se mexendo! O diabo dessa coisa está se desparafusando. Para trás, vocês aí! Para trás, estou dizendo! Quem sabe há homens lá dentro tentando escapar! Está rubro de tão quente, vão virar cinza. Para trás aí! Faça esses idiotas se afastarem. (Subitamente, o ressoar de um enorme pedaço de metal que cai)


Vozes Ela caiu! A tampa se soltou! Cuidado! Fiquem afastados! Phillips Senhoras e senhores, esta é a coisa mais aterradora que jamais testemunhei... um momento! Alguém sai engatinhando pela abertura de cima. Alguém ou alguma coisa. Posso ver que de dentro do buraco negro dois discos luminosos espiam... são olhos? Pode ser um rosto. Pode ser... (Grito de pavor da multidão) Phillips Deus do céu, algo está saindo da sombra como uma serpente. Agora outro, e mais outro. Parecem tentáculos. Agora, posso ver o corpo da Coisa. É grande como um urso e brilha como couro molhado. Mas o rosto. Ele... ele é indescritível. Mal consigo continuar olhando. Os olhos são pretos e luzem como os de uma cobra. A boca tem a forma de V, com saliva escorrendo de seus lábios disformes, que parecem tremer e pulsar. O monstro ou seja lá o que for mal pode se mover. Parece puxado para baixo... talvez pela gravidade ou algo parecido. A Coisa está se levantando. A multidão recua. Já viram bastante. É a experiência mais extraordinária. Não encontro palavras... estou arrastando o microfone comigo enquanto falo. Tenho de interromper a descrição até me colocar em outra posição. Aguardem, por favor. Voltarei em um minuto. (Entra música de piano) Locutor Dois Estamos apresentando aos senhores um testemunho ocular do que está acontecendo na Fazenda Wilmuth, em Grovers Mill, Nova Jérsei. (Mais piano) Agora voltamos a Carl Phillips em Grovers Mill. Phillips Senhoras e senhores (estou no ar?)... Senhoras e senhores, aqui estou eu, em cima de um muro de pedra que cerca o jardim do senhor Wilmuth. Daqui tenho uma visão da cena toda. Comunicarei aos senhores cada pormenor, enquanto possa falar. Enquanto possa ver. Chegaram mais


policiais estaduais. Estão formando um cordão de isolamento diante do objeto, uns trinta deles. Não é preciso empurrar para trás a multidão agora. As pessoas querem manter distância. O capitão está conferenciando com alguém. Não podemos ver com quem. Oh, sim, creio que é com o professor Pierson. Sim, é ele. Agora se separaram. O professor anda para um lado, estudando o objeto, enquanto o capitão e dois policiais avançam com algo nas mãos. Posso ver agora. É um lenço branco atado a uma vara – uma bandeira da paz. Se aquelas criaturas souberem o que isso significa o que alguma coisa significa!... Esperem! Algo está acontecendo! (Um silvo seguido de um zumbido que aumenta de intensidade.) Uma forma encurvada está se elevando do buraco. Posso distinguir um pequeno raio de luz contra um espelho. O que é isso? É um jato de fogo brotando daquele espelho, e que vem na direção dos homens que empenham o lenço branco. O jato agora os atinge de frente! Santo Deus, eles estão em chamas! (Gritos de horror. Guinchos não-humanos) Agora todo o pasto está em chamas (Explosão). As árvores... os celeiros... os tanques de gasolina do automóveis... o fogo está se espalhando por tudo. Está vindo para cá. Uns seis metros à minha direita... (Estrondo do microfone... depois, silêncio mortal) Locutor Dois Senhoras e senhores, devido à circunstância fora de nosso controle, não podemos continuar a transmitir diretamente de Grovers Mill. Evidentemente há alguma dificuldade com nossa transmissão local. No entanto, voltaremos àquele local com a maior brevidade possível. No meio tempo, tempo, temos um boletim atrasado de San Diego, Califórnia. O professor Indellkoffer, falando num jantar da Sociedade Astronômica da Califórnia, expressou a opinião de que as explosões em Marte sem dúvida nada mais são do que violentas perturbações vulcânicas na superfície do planeta. Continuaremos agora com nosso interlúdio pianístico. (Piano... depois corta) Senhoras e senhores, acaba de me ser entregue o noticiário que veio de Grovers Mill por telefone. Um momento. Pelo menos quarenta pessoas, inclusive seis policiais estaduais, jazem mortas num campo a leste da vila


de Grovers Mill, seus corpos arderam e estão totalmente irreconhecíveis. Ouvirão a seguinte palavra do General Montgomery Smith, comandante da Milícia Estadual de Trenton, Nova Jérsei. Smith O Governador de Nova Jérsei solicitou-me que colocasse os condados de Mercer e Middlesex, no oeste até Princeton e no leste até Jamesburg, sob lei marcial. A ninguém será permitido penetrar nessa área a menos que tenha passe emitido por autoridades do Estado ou militares. Quatro companhias da Milícia Estadual estão se deslocando de Trenton para Grovers Mill e ajudarão a evacuar os moradores dentro dos limites das operações militares. Obrigado. Locutor Acabaram de ouvir o General Montgomery Smith, comandante da Milícia Estadual de Trenton. No meio tempo estão chegando mais pormenores da catástrofe de Grovers Mill. As estranhas criaturas, depois de desfechar seu assalto mortal, esgueiraram-se de volta para sua cova e não fizeram tentativas de impedir os esforços dos bombeiros para resgatar os corpos e extinguir o fogo. Bombeiros de todo o condado de Mercer estão combatendo as chamas, que ameaçam os campos em volta. Não conseguimos estabelecer contato com nossa unidade móvel em Grovers Mill, mas esperamos poder levá-los de volta ao local no menor prazo possível. No meio tempo levamos até... oh, um momento, por favor. (Pausa longa) (Murmúrios). Senhoras e senhores, acabo de ser informado de que finalmente estabelecemos comunicação com uma testemunha ocular da tragédia. O professor Pierson foi localizado numa casa de fazenda perto de Grovers Mill, onde estabeleceu um posto de observação de emergência. Como cientista ele nos dará sua explicação da catástrofe. A voz que escutarão a seguir é do professor Pierson, trazida diretamente a vocês. Professor Pierson. Pierson Sobre os seres dentro do cilindro do foguete em Grovers Mill não lhes posso dar nenhuma informação positiva – quer sobre sua natureza, sua origem, quer sobre seus propósitos aqui na Terra. Sobre seu destruidor instrumento posso aventurar uma explicação baseada em mera hipótese. Na falta de termo melhor, me referirei à arma misteriosa como um raio de


calor. É por demais evidente que essas criaturas têm conhecimento científico muito mais avançado que o nosso. Tenho o palpite de que são capazes de gerar, de alguma forma, um intenso calor numa câmara de praticamente absoluta não-condutividade. Esse intenso calor eles o projetam num raio paralelo contra qualquer objeto que escolhem, por meio de um espelho parabólico polido, de composição desconhecida, de maneira muito semelhante àquela pela qual o espelho de um farol projeta um raio de luz. Essa é a minha conjectura sobre a origem do raio de calor... Locutor Dois Obrigado, professor Pierson. Senhoras e senhores, aqui temos um boletim de Trenton. É um breve comunicado informando-nos que o corpo carbonizado de Carl Phillips, o comentarista de rádio, foi identificado num hospital de Trenton. Agora, outro boletim de Washington, DC. O gabinete do diretor da Cruz Vermelha Nacional comunica que dez unidades de trabalhadores de emergência da Cruz Vermelha foram enviadas ao quartel-general da Milícia Estadual estacionado nas imediações de Grovers Mill, Nova Jérsei. Agora um boletim da Polícia Estadual, Princeron Junction. O incêndio em Grovers Mill e vizinhanças já foi dominado. Batedores constatam que tudo está tranqüilo no local e que não há sinal de vida aparente no topo do cilindro. E agora, senhoras e senhores, temos uma declaração especial do senhor Harry McDonald, vice-presidente encarregado das operações. Mc Donald Recebemos um requerimento da Milícia de Trenton para colocar à sua disposição todos os nossos recursos de transmissão. Em vista da gravidade da situação e acreditando que o rádio tem uma responsabilidade definida de servir ao interesse público em todas as ocasiões, estamos transferindo nossos recursos para a Milícia Estadual de Trenton. Locutor Levaremos os senhores agora para o quartel general de campanha da Milícia Estadual de Grovers Mill, Nova Jérsei. Capitão Aqui fala o capitão Lansing, do Corpo de Sinaleiros, ligado à Milícia Estadual agora empenhada em operações militares nas vizinhanças de


Grovers Mill. A situação provocada pela presença de certos indivíduos de natureza não identificada está agora sob completo controle. O objeto cilíndrico caído dentro de um buraco diretamente embaixo de nossa posição esta rodeado por todos os lados por oito batalhões de infantaria, sem artilharia pesada, mas fortemente armados com rifles e metralhadoras. Qualquer razão para alarme, se é que razão existiu, é agora inteiramente injustificada. As coisas, sejam o que forem, não se arriscam a mostrar as cabeças acima do braço. Posso ver perfeitamente seu esconderijo ao clarão dos holofotes. Com todos os seus falados recursos, estas criaturas mal podem enfrentar um cerrado fogo de metralhadora. De qualquer forma, é um interessante treino para as tropas. Posso perceber seus uniformes cáquis cruzando de cá para lá diante das luzes. É quase como se fosse uma guerra verdadeira. Parece haver uma ligeira fumaça nos bosques que margeiam o Rio Millstone. Provavelmente fogueiras acessas por gente acampada. Bem, teremos de ver logo alguma ação. Uma das companhias está se deslocando no flanco esquerdo. Um golpe rápido e tudo estará acabado. Agora esperem um minuto! Vejo algo no cilindro. Não, é apenas uma sombra. Agora as tropas estão na borda da fazenda Wilmuth. Sete mil homens armados apertando o cerco em torno de um tubo de metal. Esperem, não é uma sombra! É alguma coisa se movendo – metal sólido – é uma espécie de coisa parecida com um escudo se levantando para fora do cilindro... Está cada vez mais alto. Epa, está ficando de pé... quer dizer, na verdade se elevando sobre um arcabouço metálico. Agora a coisa está bem por cima das árvores e as luzes dos holofotes incidem sobre ela! Esperem! (Silêncio.) Locutor Dois Senhoras e senhores, tenho uma notícia muito grave para transmitir. Por mais incrível que pareça, tanto as observações da ciência como a evidência de nossos olhos conduzem à conclusão irrecusável de que aqueles estranhos seres que aterrissaram hoje à noite na região agrícola de Jérsei são a vanguarda de um exército invasor vindo do planeta Marte. A batalha que ocorreu esta noite em Grovers Mill terminou com uma das mais aterradoras derrotas jamais sofridas por um exército nos tempos modernos: sete mil homens armados com rifles e metralhadoras investiram contra uma única máquina de combate dos invasores vindos de Marte. São conhecidos cento e vinte sobreviventes. O resto jaz espalhado pelo campo de batalha, de Grovers Mill a Plainsboro, os corpos esmagados e despedaçados sob os pés metálicos do monstro, ou transformados em cinzas por seus raios de calor. O monstro agora tem o controle da parte central de Nova Jérsei e cortou efetivamente o Estado ao meio. As redes de


comunicação caíram desde a Pensilvânia até o Oceano Atlântico. Trilhos ferroviários foram retorcidos e os serviços de Nova Iorque para Filadélfia estão interrompidos, exceto alguns trens passando por Allentown e Phoenixville. As autoestradas para o norte, sul e oeste estão coalhadas de frenético tráfego humano. A polícia e o Exército são impotentes para controlar a fuga desordenada. Calcula-se que pela manhã os fugitivos darão a Filadélfia, Camden e Trenton o dobro de sua população normal. Neste momento, toda Nova Jérsei e o leste da Pensilvânia estão sob lei marcial. Passaremos agora a transmitir, de Washington, um programa especial sobre a Emergência Nacional. O Secretário do Interior... Secretário Cidadãos dos EUA: Não tentarei encobrir a gravidade da situação que nosso país enfrenta, nem a preocupação de nosso Governo em proteger as vidas e a propriedade de nosso povo. No entanto, desejo que todos se compenetrem – cidadãos, autoridades e funcionários de todos os escalões – da necessidade urgente de calma e ação bem orientada. Felizmente este inimigo temível ainda está confinado a uma área relativamente pequena, e devemos confiar nas forças militares para mantê-los lá. No meio tempo, confiando em Deus, devemos continuar a desempenhar nossas obrigações, cada um de nós sem exceção, para que possamos enfrentar este adversário destruidor com uma nação unida, corajosa e consagrada à preservação da supremacia humana nesta terra. Muito obrigado. Locutor Acabaram de ouvir o Secretário do Interior, falando de Washington. Boletins por demais numerosos para que possamos lê-los se amontoam aqui no estúdio. Estamos informados de que a parte central de Nova Jérsei está sem comunicação pelo rádio por causa do efeito do raio de calor sobre as linhas de força e o equipamento elétrico. Aqui, um boletim especial de Nova Iorque. Cabogramas recebidos de entidades científicas inglesas, francesas e alemãs oferecendo assistência. Astrônomos relatam contínuas erupções gasosas em intervalos regulares sobre o planeta Marte. A opinião da maioria é que o inimigo será reforçado por novas máquinas lançadas por meio de foguetes. Foram feitas tentativas para localizar o professor Pierson de Princeton, que observou os marcianos de perto. Teme-se que tenha morrido em batalha recente. Langham Field, Virgínia: Aviões de reconhecimento dão conta de três máquinas marcianas visíveis acima das árvores, movendo-se para o norte em direção de Somerville, com a população fugindo à sua aproximação. Não estão usando o raio de calor. Embora avançando à velocidade de trem expresso, os invasores escolhem


sua rota com cuidado. Parecem estar fazendo um esforço deliberado para evitar a destruição de cidades e campos. No entanto, param para desmantelar linhas de força, pontes e trilhos ferroviários. Seu aparente objetivo é quebrar a resistência, paralisar as comunicações e desorganizar a sociedade humana. Aqui temos um boletim de Basking Ridge, Nova Jérsei: Caçadores acabam de descobrir um segundo cilindro idêntico ao primeiro, enterrado no grande pântano a 32 quilômetros dão sul de Morristown. Peças de artilharia do Exército dos EUA estão vindo de Newmark para arrasar a segunda unidade invasora antes que o cilindro possa ser aberto e a máquina de guerra seja ativada. Estão tomando posição no sopé das Montanhas de Watchung. Outro boletim de Langham Field, Virgínia. Aviões de reconhecimento localizam máquinas inimigas, agora em número de três, aumentando sua velocidade para o norte, tropeçando em casas e árvores na pressa evidente de fazer junção com seus aliados ao sul de Morristown. Máquinas também divisadas por operador telefônico a leste de Middlesex num círculo de 16 quilômetros de Plainfield. Agora um boletim de Winston Field, Long Island: Esquadrilha de bombardeiros do Exército carregando explosivos pesados voando para o norte em perseguição do inimigo. Aviões de reconhecimento agem como guias. Mantém sob observação inimigos em marcha acelerada. Um momento, por favor. Senhoras e senhores, fizemos ligação especial com a linha de artilharia em povoações adjacentes, para dar-lhes relatórios diretos da área do avanço inimigo. Em primeiro lugar falamos da bateria da 22ª Artilharia de Campo, nas Montanhas de Watchung. Oficial Alcance – trinta e dois metros. Artilheiro Trinta e dois metros. Oficial Projeção, trinta e nove graus. Artilheiro Trinta e nove graus. Oficial


Fogo! (Estrondo de artilharia pesada... Pausa) Observador Cento e vinte e cinco metros à direita, senhor. Oficial Muda alcance... trinta e um metros. Artilheiro Trinta e um metros. Oficial Projeção... trinta e sete graus. Artilheiro Trinta e sete graus. Oficial Fogo! (Estrondo de artilharia pesada... pausa) Observador Bem no alvo, senhor! Atingimos a trípode de uma delas. Pararam. As outras estão tentando consertá-la. Oficial Rápido, o alcance. Muda trinta metros. Artilheiro Trinta metros. Oficial Projeção – vinte e sete graus.


Artilheiro Trinta e sete graus. Oficial Fogo! (Estrondo de artilharia pesada... Pausa) Observador Não posso ver o local da cápsula, senhor. Estão deixando escapar uma fumaça. Oficial O que é? Observador Uma fumaça preta, senhor. Está vindo para cá. Bem rente ao chão. Se movendo ligeiro. Oficial Coloquem máscaras contra gases. (Pausa) Aprontar fogo. Muda para vinte e quatro metros. Artilheiro Vinte e quatro metros. Oficial Projeção, vinte e quatro graus. Artilheiro Vinte e quatro graus. Oficial Fogo! (Estrondo)


Observador Ainda não consigo ver, senhor. A fumaça está mais perto. Oficial Prepare o alcance. (Tosses) Observador Vinte e três metros. (Tosses) Oficial Vinte e três metros. (Tosses) Artilheiro Vinte e três metros. (Tosses) Observador Projeção, vinte e dois graus. (Tossindo) Oficial Vinte e dois graus. (A tosse vai sumindo) (Som passa para ruído de motor de avião) Comandante Avião bombardeiro do Exército, V-8-43 saído de Bayonne, Nova Jérsei. Tenente Voght, comandando oito bombardeiros. Fazendo relatório para Comandante Fairfax, Langham Field. Máquinas inimigas, de três pernas, agora à vista. Reforçadas por três máquinas do cilindro de Morristown. Seis no total. Uma máquina parcialmente avariada. Decerto foi atingida por projétil de metralhadora do Exército na operação de Watchung. Metralhadoras agora silenciosas. Pesada bruma negra pairando rente à Terra... de extrema densidade, natureza desconhecida. Nenhum sinal de raio de calor. Inimigo se desloca para leste, atravessando o Rio


Passaic em direção aos pântanos de Jérsei. Outro se escarrancha sobre o Viaduto Pulaski. Nova Iorque é o objetivo evidente. Estão derrubando uma usina de alta-tensão. Máquinas agora muito juntas, e estamos prontos para atacar. Aviões sobrevoando, prontos para bombardear. Uns 900 metros e estaremos sobre a primeira... 700 metros... 500 metros... 300 metros... 150 metros... Aí vão... Estão nos varrendo com chamas! Seiscentos metros. Motores falhando. Impossível lançar bombas... Somente uma das Coisas ficou para trás... Vamos mergulhar nelas com o avião e tudo. Estamos mergulhando na primeira. Agora o motor se foi! Oito... Operador Um Aqui Bayonne, Nova Jérsei, chamando Langham Field... Aqui Bayonne, Nova Jérsei, chamando Langham Field... Responda, por favor... Responda, por favor... Operador Dois Aqui Langham Field... prossiga. Operador Um Bombardeiros do Exército encontraram máquinas de combate inimigas sobre as planícies de Jérsei. Motores inutilizados pelos raios de calor. Tudo despedaçado. Uma máquina inimiga destruída. Inimigo agora descarregando pesada fumaça preta na direção de... Operador Três Aqui Newmark, Nova Jérsei... Aqui Newmark, Nova Jérsei... Cuidado! Fumaça preta venenosa chegando dos pântanos de Jérsei. Alcança South Street. As máscaras contra gases são inúteis. Urgente transferência da população para espaços abertos... automóveis usem estradas 7, 23, 24... evitem áreas congestionadas. Fumaça agora se espalhando sobre o Raymond Boulevard... Operador Quatro 2X2L... chamando CQ... 2X2L... chamando CQ... 2X2L...chamando 8X3R... Responda por favor...


Operador Cinco Aqui 8X3R... devolvendo chamada de 2X2L... Operador Quatro Que tal a recepção? Que tal a recepção? K, por favor. Onde você está, 8X3R? O que há? Onde é que você está? (Sinos tocando pela cidade, diminuindo gradualmente) Locutor Estou falando do terraço da Broadcasting Building, cidade de Nova Iorque. Os sinos que ouvem estão tocando para que o povo evacue a cidade, enquanto os marcianos se aproximam. Calcula-se que nas últimas duas horas, três milhões de pessoas fugiram para o norte pelas estradas, a avenida do Rio Hutchison ainda está aberta para tráfego motorizado. Evitem as pontes para Long Island... estão completamente inutilizadas. Toda a comunicação com a costa de Jérsei interrompida há dez minutos. Não há mais defesa. Nosso Exército varrido... artilharia, Força Aérea, tudo varrido. Esta pode ser a última transmissão. Vamos ficar aqui até o fim. O povo está rezando lá em baixo... na Catedral. (Vozes cantando um hino) Estou olhando para os lados do porto. Embarcações de todo tipo invadidas pela população em fuga. Deixam o cais, superlotadas. (Som de apitos de barco) Ruas na maior confusão. Multidões se atropelam como numa véspera de Ano Novo. Um momento... Inimigo à vista agora acima de Palisades. Cinco grandes máquinas. A primeira está cruzando o rio. Posso vê-la daqui, vadeando o Hudson como um homem vadeia um regato... Um boletim acaba de ser entregue... Cilindros marcianos estão caindo por todo o país. Um nos arredores de Buffalo, um em Chicago, St, Louis ... parece que com tempo e distância calculados... Agora a primeira máquina alcança a margem. Fica de pé contemplando a cidade. Sua descomunal cabeça metálica alcança a altura dos arranha-céus. Espera pelas outras. Erguem-se como uma linha de novas torres na zona oeste da cidade... Começam a levantar as suas mãos metálicas. É o fim. Fumaça... uma fumaça negra se


alastra por toda a cidade. As pessoas que estão nas ruas agora percebem. Estão correndo em direção ao rio... milhares delas se afogando como ratos. Agora a fumaça está se espalhando mais depressa. Alcançou Times Square. O povo tenta fugir dali, mas não adianta. Caem como moscas. Agora a fumaça atravessa a Sexta Avenida... a Quinta Avenida... aproxima-se... está a 90 metros... está só a uns 15 metros... Operador Quatro 2X2L chamando CQ... 2X2L chamando CQ... 2X2L chamando CQ... Nova Iorque. Não há ninguém no ar? Não há ninguém... 2X2L... Locutor Você está ouvindo uma apresentação de Orson Welles e o Mercury Theatre on the Air pela CBS, numa dramatização original de A Guerra dos Mundos, de H.G. Wells. O espetáculo vai continuar após um rápido intervalo. Esta é a Columbia Broadcasting System... (música) II Pierson Enquanto ponho no papel estas notas, sinto-me obsecado pelo pensamento de que posso ser o último homem vivo sobre a Terra. Tenho estado escondido nesta casa vazia perto de Grovers Mill – uma pequena ilha de luz solar recortada dentro da fumaça negra do resto do mundo. Tudo o que aconteceu antes da chegada dessas criaturas monstruosas à Terra parece agora parte de outra vida – uma vida sem continuidade com o presente, furtiva existência do náufrago solitário que grava estas palavras nas costas de algumas notas astronômicas que levam a assinatura de Richard Pierson. Baixo os olhos para minhas mãos enegrecidas, meus pés descalços, minhas roupas em frangalhos, e tento relacioná-los com um professor que vive em Princeton e que, na noite de 30 de outubro, observou de relance, através de seu telescópio, um escapar de luz alaranjada num distante planeta. Minha mulher, meus colegas, meus alunos, meu livros,


meu observatório, meu... meu mundo... onde está tudo isso? Será que ainda existem? Sou mesmo Richard Pierson? Que dia é hoje? Será que os dias existem sem calendário? O tempo passa quando não sobrou mão humana para dar corda aos relógios? Estou relatando minha vida diária porque disse a mim mesmo que devo preservar a história humana sob a capa preta deste livrinho que era destinado à anotação do movimento das estrelas... Mas para escrever eu tenho que viver, e para viver tenho de comer... Achei pão duro na cozinha e uma laranja que ainda podia ser aproveitada. Estou sempre de olho na janela. De tempos em tempos percebo um marciano acima da fumaça negra. A fumaça ainda prende a casa em sua espiral negra, mas a espaços ouve-se um som sibilante, e súbito vejo um marciano montado em sua máquina, borrifando o ar com um jato de vapor, como se fosse para dissipar a fumaça. Me esgueiro para um canto, enquanto suas enormes pernas metálicas quase dão de encontro à casa. Exausto de pavor, pego no sono. É de manhã. Raios de sol penetram pela janela. A negra nuvem de gás ergueu-se, e os campos estorricados ao norte dão a impressão de que um tempestade de neve negra os assolou. Aventuro-me para fora da casa. Encaminho-me para uma estrada. Nenhum tráfego. Aqui e ali um carro arrebentado, bagagem removida, um esqueleto enegrecido. Me arrasto para o norte. Por alguma razão sinto-me mais seguro nos rastros destes monstros do que fugindo deles. E me mantenho alerta. Eu vi de que é que os marcianos se alimentam. Se alguma dessas máquinas se mostrar por sobre o topo das árvores, estou pronto para ir me deitar rente ao solo. Chego a uma nogueira. Outubro, as nozes estão maduras. Encho os bolsos. Preciso me manter vivo. Há dois dias perambulo numa vaga direção norte por um mundo desolado. Finalmente percebo uma criatura viva – um esquilinho vermelho numa faia. Fixo os olhos nele e fico imaginando. Ele me devolve o olhar. Creio que naquele momento o animal e eu compartilhamos a mesma emoção ... a alegria de descobrir um outro ser vivo... Prossigo para o norte. Encontro vacas mortas num pasto cercado. Além, as ruínas requeimadas de uma fazenda. O silo permanece de guarda sobre a terra devastada, qual um farol abandonado pelo mar. No alto do silo se empoleira um galo de catavento. A seta aponta para o norte. No dia seguinte chego a uma cidade vagamente familiar por seus contornos. Contudo, seus prédios diminuíram de tamanho, estranhamente, foram nivelados como se um gigante houvesse cortado suas torres mais altas com um desdenhoso golpe de mão. Alcanço os arrabaldes. Vejo que Newmark não foi arrasada, mas só decapitada por algum capricho dos marcianos em seu avanço. Agora, com a estranha sensação de estar sendo observado, percebo algo acocorado num portal. Dou um passo em sua direção, ele se levanta e vejo que é um homem - um homem armado com um facão.


Estranho Pare... De onde é que veio? Pierson Eu vim de... muitos lugares. Há muito tempo, de Princeton. Estranho Princeton, é? Mas isso é perto de Grovers Mill! Pierson É sim. Estranho Grovers Mill... (Ri como de uma boa piada.) Não há comida aqui. Este é meu território ... desta ponta da cidade até o rio. Só há comida para um... Para onde está indo? Pierson Não sei. Acho que estou procurando... procurando gente. Estranho (nervoso): Que foi isso? Ouviu alguma coisa bem ali? Pierson Apenas um pássaro (trinados)... um pássaro vivo! Estranho Precisa saber que nos dias de hoje os pássaros nunca vêm sozinhos... Olhe, estamos a céu aberto aqui. Vamos engatinhar para este portal e conversar. Pierson Tem visto algum marciano?


Estranho Foram-se para Nova Iorque. À noite o céu fica todo claro com suas luzes. É como se as pessoas ainda estivessem vivendo ali. De dia não dá para vê-los. Há cinco dias dois deles passaram carregando um troço bem grande pela planície, vindos do aeroporto. Acho que estão aprendendo a voar. Pierson Voar! Estranho Isso mesmo, voar. Pierson Então acabou-se a humanidade. Estranho, sobramos você e eu. Somente nós dois. Estranho Eles atacaram sabendo o que faziam: transformaram em ruínas a maior nação do mundo. Aquelas estrelas verdes provavelmente estão caindo em algum lugar cada noite. Eles perderam apenas uma máquina. Não há nada a fazer. Estamos vencidos. Estamos liquidados. Pierson De onde é que você veio? Está de uniforme. Estranho Com o que sobrou dele. Estava na milícia – Guarda Nacional... Na guerra. Como se pudesse haver guerra entre homens e formigas! Pierson Nós éramos formigas comestíveis. Descobri isso. O que vão fazer conosco? Estranho


Tenho pensado nisso tudo. Agora nos pegam de qualquer jeito. É só um marciano andar uns quilômetros e lá está uma multidão em fuga. Mas não vão continuar fazendo isso. Começarão a nos pegar de modo sistemático... conservando os melhores e nos armazenando em jaulas e coisas assim. Ainda não começaram a cuidar de nós! Pierson Não começaram? Estranho Não começaram. Tudo o que aconteceu até agora é porque não temos o bom senso necessário para ficar quietos – ficamos incomodando-os com armas e essa tralha toda, e perdendo a cabeça e fugindo em bandos. Agora, em vez de sair por aí às cegas, temos que nos adaptar às coisas como são agora. Cidades, nações, civilização, progresso...tudo isso acabou. Pierson Mas se é assim, para que viver? Estranho Durante um milhão de anos ou pouco mais, nada de concertos, ou jantares elegantes nos restaurantes da moda. Se está atrás de diversão, acho que a festa acabou. Pierson E o que sobra? Estranho A vida... sobra a vida! Eu quero viver. E você também. Não vamos ser exterminados. E também não quero ser agarrado, domesticado e cevado como um boi. Pierson Que vamos fazer? Estranho


Eu vou adiante... bem debaixo do nariz deles. Tenho um plano. Nós homens, como homens, estamos acabados. Não sabemos bastante. Temos de aprender um bocado para criar uma oportunidade de salvação. Temos de dar um jeito de viver em liberdade enquanto aprendemos. Pensei nisso tudo, este vendo? Pierson Me conte o resto. Estranho Bem, nem todos foram feitos para a vida selvagem, e assim tinha de ser. É por isso que eu os observava. Todos esses funcionariozinhos que viviam nestas casas sabiam correr para o trabalho. Via centenas deles correndo feito loucos para pegar seu trem de cada dia pela manhã, com medo de chegar atrasados no emprego; correndo de volta à noite, com medo de não chegar a tempo para o jantar. Seguro de vida e um pouco de dinheiro investido para o caso de acidente. E aos domingos, preocupados com o futuro. Os marcianos serão uma bênção celestial para esses caras. Jaulas confortáveis, boa comida, bom tratamento, nada de preocupações. Depois de uma semana ou duas de andança pelo mato com estômago vazio, eles ficarão contentes de ser apanhados. Pierson Você pensou em tudo, não pensou? Estranho Se pensei! E não é só. Estes marcianos farão de alguns deles animaizinhos de estimação, ensinando-lhes gracinhas. Quem sabe? Ficarão cheios de problemas por ter de matar o menino de estimação que já cresceu demais. Talvez treinem alguns para que nos cacem. Pierson Não, isso é impossível. Nenhum ser humano... Estranho


Sim, treinarão. Há homens que farão isso alegremente. Se algum vier no meu encalço... Pierson Enquanto isso, você e eu e outros de nós... onde iremos viver enquanto os marcianos dominam a Terra? Estranho Já pensei em tudo. Vamos ter uma vida clandestina. Pensei nos esgotos. Debaixo de Nova Iorque há quilômetros de esgotos. Nos maiores qualquer pessoa cabe. E depois há adegas, caixas-fortes, depósitos de alimentos subterrâneos, túneis ferroviários, metrôs. Este percebendo, não? Vamos arranjar um punhado de homens fortes. Nada de fracotes, fora com eles. Pierson E quer que eu vá? Estranho Eu lhe dei uma oportunidade, não dei? Pierson Não vamos brigar por causa disso. E daí? Estranho Temos de arranjar lugares seguros para nós, compreende, e arranjar todos os livros que pudermos – livros científicos. É aqui que entram homens como você, percebeu? Faremos incursões nos museus, espiaremos os marcianos. Talvez não tenhamos de aprender muito para... imagine só: quatro ou cinco das máquinas de combate deles de repente se põem a funcionar... raios de calor à direita e à esquerda, e nenhum marciano dentro. Nenhum marciano, percebe? – Mas homens – homens que aprenderam a lidar com elas. Pode mesmo ser ainda em nosso tempo. Que beleza! Imagine uma dessas coisas maravilhosas, com seus raios de calor em nosso poder! Vamos disparar contra marcianos, vamos disparar contra outros homens. Todo mundo vai ter de se ajoelhar diante de nós. Pierson


É esse o seu plano? Estranho Você e eu e mais alguns poucos seremos donos do mundo. Pierson Estou percebendo. Estranho Fale, o que é que há? Para onde vai? Pierson Não para o seu mundo. Adeus, Estranho... Pierson Depois de ter rompido com o artilheiro, acabei dando no Túnel Holland. Entrei naquele tubo silencioso, cheio de ansiedade para conhecer o destino da grande cidade do outro lado do Hudson. Cauteloso, saí do túnel e caminhei pela rua que margeia o canal. Alcancei a rua Quatorze, e de novo era pó negro e numerosos corpos, e um cheiro fétido e de mau agouro que vinha dos porões de algumas casas. Vagueei por vários trechos; contemplei, solitário, Times Square. Vi de relance um cachorro magro correndo Sétima Avenida abaixo, com um pedaço de carne enegrecida entre as mandíbulas, e um punhado de viralatas esfaimados no seu encalço. Fez um grande círculo em torno de mim, como se temesse que eu fosse mais um competidor. Subi a Broadway na direção daquele pó estranho... passando por vitrinas silenciosas, que apresentavam sua muda mercadoria às calçadas desertas... passando pelo Capitol Theatre, silencioso e às escuras... passando por uma galeria de tiro ao alvo, onde uma fileira de espingardas vazias apontava para uma linha imóvel de patos de madeira. Perto do Columbus Circle vi automóveis modelo 1939 nas salas de exposição olhando para as ruas sem ninguém. Por sobre o edifício da General Motors observei um bando de pássaros negros voando em círculos no céu. Apressei-me. De súbito, divisei a parte superior de uma máquina marciana, parada num ponto qualquer do Central Park, luzindo aos últimos raios do sol vespertino. Uma idéia louca me veio à mente! Subi uma colina acima do reservatório d’água da Rua Sessenta. De lá pude ver, parados em fila silenciosa ao longo do Mall, dezenas


daqueles imensos Titãs de metal, com suas torres vazias, seus braços de aço pendendo indiferentes. Procurei em vão os monstros que habitam essas máquinas. Súbito, meus olhos foram atraídos pelo imenso bando de pássaros negros que voltavam diretamente abaixo de mim. Faziam círculos para o chão, e ali, diante de meus olhos, rígidos e silenciosos, jaziam os marcianos, com os pássaros famintos bicando e arrancando tiras de carne de seus cadáveres. Mais tarde, quando seus corpos foram examinados em laboratórios, descobriu-se que haviam sido mortos pelas bactérias da putrefação e das doenças contra as quais seus organismos não tinham proteção... mortos, depois que todas as defesas do Homem haviam fracassado, pela coisa mais humilde que Deus em Sua sabedoria colocou sobre esta terra. Antes que o cilindro caísse, havia uma convicção geral de que por todo o imenso espaço não havia vida a não ser na insignificante superfície de nossa minúscula esfera. Agora vemos mais longe. Obscura e maravilhosa é a visão que formei em minha mente: a vida se espalhando lentamente desta pequena sementeira do Sistema Solar por toda a vastidão inanimada do espaço sideral. Mas isso é um sonho remoto. Pode ser que a destruição dos marcianos seja apenas uma moratória. Talvez o futuro esteja reservado para eles e não para nós. Agora parece estranho estar aqui sentado em meu tranqüilo estúdio, em Princeton, escrevendo o último capítulo do relatório começado numa fazenda deserta em Grovers Mill. Estranho ver de minha janela as torres da universidade esfumaçadas e azuis através da névoa de abril. Estranho contemplar crianças brincando na ruas. Estranho ver gente passeando pelo gramado, onde a nova relva primaveril cicatriza as últimas escaras negras de uma Terra combalida. Estranho observar os turistas que entram no museu para ver as partes desmontadas de uma máquina marciana em exposição. Estranho quando me lembro da primeira vez que a vi, recortada contra a paisagem, brilhante, dominadora e silenciosa, no amanhecer daquele último grande dia. (música) Orson Welles Senhoras e Senhores, aqui fala Orson Welles, agora sem máscara para assegurá-los de que A Guerra dos Mundos não tem maior significado do que a diversão de feriado que tinha a intenção de ser. A maneira do Mercury Theatre para vestir-se com lençóis e pular de um arbusto dizendo BUUU!. Começando agora, nós não poderíamos ensaboar todas as suas janelas e roubar todos os portões dos jardins até amanhã à noite... Então


fizemos o que estava ao nosso alcance. Nós aniquilamos o mundo diante de seus próprios ouvidos e finalmente destruímos a CBS. Vocês ficarão aliviados, espero, em saber que não falávamos a sério, e que as instituições seguem funcionando normalmente. Então, adeus a todos e lembrem-se, por favor, da terrível lição que aprendemos nesta noite. Que aquele sorridente, luminoso, e esférico invasor de sua sala de estar é um habitante do campo das abóboras, e se sua campainha tocar e ninguém estiver lá, não é um marciano... é o Dia das Bruxas. (Tema Musical do Mercury Theatre) Locutor Hoje à noite, A Rede CBS e suas estações afiliadas, de costa a costa, trouxeram A Guerra dos Mundos, de H.G. Welles, a décima sétima obra da série dramática semanal, apresentada por Orson Welles e o Mercury Theatre on the Air. Na próxima semana, traremos a dramatização de mais três contos famosos. Aqui Columbia Broadcasting System.


Roteiro original traduzido