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Boletim Informativo da Faculdade de Medicina da UFMG Nº 2 - Ano I - Belo Horizonte, junho de 2010

Conduta inadequada prejudica tratamento de doentes renais A

nálise de mais de 25 mil pacientes em tratamento hemodialítico pelo SUS aponta que cerca de 30% dos pacientes renais brasileiros estão expostos a maiores riscos de infecção, internação e morte. A desestruturação do sistema de saúde na atenção prestada a esses pacientes e o diagnóstico tardio são as principais causas. Página 3

PESQUISA

Óleo de peixe pode ser eficaz na alergia alimentar

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ENSINO

Seminário sobre Atenção Primária vai esclarecer dúvidas

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EMÉRITOS

Professores da Medicina recebem o reconhecimento acadêmico

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Foto: Bruna Carvalho


Editorial

Saúde do português

Pesquisas e memórias

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onfira alguns dos lançamentos recentes escritos ou organizados por professores da Faculdade de Medicina da UFMG.

Foto: Divulgação

Foto: Divulgação

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partir desta edição, o Saúde Informa passa a ser distribuído na Faculdade de Medicina sempre na segunda semana de cada mês. Outra novidade é que nossos leitores também poderão ler o Saúde Informe pela internet. As edições anteriores já estão disponíveis no endereço eletrônico www.medicina.ufmg.br/saudeinforma. Quanto ao conteúdo, duas pesquisas desenvolvidas na Faculdade são destaque. Contribuindo como alerta ao atendimento à saúde em nosso país, a matéria de capa traz um estudo na área de Saúde Pública que analisa o tratamento dos doentes renais pelo SUS. Já na área de Patologia Geral, uma tese defendida divulga dados experimentais em modelo animal, revelando boa expectativa para pessoas alérgicas a ovalbumina, substância encontrada na clara do ovo. Além dessas matérias, outra informação de destaque é a realização do Seminário sobre Atenção Primária, no qual os debates deverão contribuir para a reforma curricular do curso de Medicina da instituição.

Publicações

Urgência e Emergência Pré-hospitalar Saiu a segunda edição do livro, que é enriquecida por fluxogramas e protocolos de atendimento. O livro é direcionado aos profissionais de saúde que atuam na fase pré-hospitalar do atendimento de urgência. A organização é dos professores Maria do Carmo Barros de Melo, do Departamento de Pediatria, Tarcizo Afonso Nunes e Cláudio de Souza, ambos do Departamento de Cirurgia. Ed. Folium. Semiologia da Criança e do Adolescente Lançado no último 27 de maio, o livro pretende contribuir para que o atendimento pediátrico seja sempre realizado com qualidade e ética. A obra contém, também, um CD ROM com as técnicas de exame físico. O livro foi editado pelos professores Maria Aparecida Martins, Maria Regina de Almeida Viana, Marcos Carvalho de Vasconcellos e Roberto Assis Ferreira, todos do Departamento de Pediatria. Ed. MedBook Adesão ao tratamento antirretroviral no Brasil: coletânea de estudos do projeto ATAR Organizado pelos professores do Programa de Pós-Graduação em Saúde Pública Mark Drew Crosland Guimarães, Francisco de Assis Acurcio e Carla Jorge Machado, pesquisadores do Grupo de Pesquisas em Epidemiologia e Avaliação em Saúde da Faculdade de Medicina, o livro propõe reflexão acerca do tratamento antirretroviral, sua complexidade, conseqüências e impactos. O lançamento será no VIII Congresso Brasileiro de Prevenção das DST e AIDS, em Brasília, de 16 a 19 de junho de 2010. Ed. Departamento de DST, Aids e Hepatites Virais - Ministério da Saúde.

Letra Legível

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m 13 de abril último, entrou em vigor o novo Código de Ética Médica. Traz novidade em seu capítulo 3 art. 11: “É vedado ao médico receitar, atestar ou emitir laudos de forma secreta ou ilegível, sem a devida identificação de seu número de registro no CRM ...” Alguns colegas certamente passarão a escrever em letra de forma ou voltarão à escola para treinar caligrafia. Lembrei-me do caso do Dr. Paulo, residente de Clínica Médica, meu colega de moradia estudantil, muito estudioso e dedicado em suas tarefas. Gabava-se de já estar compromissado com os médicos de sua cidade natal, Pitangui, na criação de CTI, nos moldes do recém-montado no Hospital das Clínicas da UFMG. Mais ainda: noiva apaixonada o esperava com um dote. Uma “terrinha”, “coisa pouca”, prometida pelo sogro ... Para depois do casamento, é claro. No segundo semestre daquele ano, o Paulo queixou-se de que as respostas às cartas de amor enviadas à noiva espaçavam-se (naquela época o uso da internet não estava tão disseminado). Logo nas primeiras férias, ansioso pela falta de resposta, viajou para sua cidade para saber o que estava acontecendo. Bingo! A sua amada estava namorando o jovem farmacêutico do lugar, a quem sempre recorria para “traduzir” as suas cartas de amor. Lembrei de verso de Fernando Pessoa/ Álvaro de Campos: “Todas as cartas de amor são ridículas Não seriam cartas de amor se não fossem ridículas.”

Acrescento: podem ser ridículas, mas têm que ser legíveis. Washington Cançado de Amorim Contribua para a ‘Saúde do Português’. Envie sua sugestão ou opinião para jornalismo@medicina.ufmg.br.

Boa Leitura. 2

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Divulgação Científica

Tratamento de doentes renais pode ser inadequado no Brasil Pesquisa da Faculdade de Medicina da UFMG aponta a desestruturação do sistema de saúde na atenção prestada a esses pacientes e o diagnóstico tardio como principais causas de conduta inadequada

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uase um terço, mais exatamente 31,25%, dos pacientes renais brasileiros estão expostos a maiores riscos de infecção, internação e inclusive de morte. Esta afirmação vem do resultado da dissertação de mestrado em Saúde Pública defendida na Faculdade de Medicina da UFMG pela dentista Gisele Macedo. Para chegar a esse dado, ela analisou uma população de 25.557 pacientes que iniciaram tratamento hemodialítico entre 2000 e 2004, pelo Sistema Único de Saúde (SUS). Segundo Gisele, 80% dos pacientes com doenças renais crônicas começam o tratamento com um tubo, o cateter, que deve ser de uso temporário. A recomendação da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) é de que o prazo máximo para uso de “acesso de emergência” seja de 90 dias. Mas, apesar disso, “25% de todos os pacientes em tratamento com o cateter no Brasil estão em média permanecendo quatro meses com ele. Um mês a mais correndo riscos desnecessários”, afirma a autora. A pesquisadora avalia ainda que a média esconde uma realidade mais séria. “Foram observados casos extremos, em que o paciente chegou a ficar até quatro anos com o cateter”, alerta. “O correto seria encaminhar esses pacientes rapidamente para a confecção de um acesso vascular permanente, chamado Fístula Artério-Venosa (FAV)”, esclarece a orientadora da pesquisa Mariângela Leal Cherchiglia, doutora em saúde pública e professora do Departamento de Medicina Preventiva e Social.

Além da demora no encaminhamento, as pesquisadoras afirmam também que há um número insuficiente de profissionais disponíveis no SUS para fazer a FAV. E, ainda, que os próprios portadores das doenças renais não exigem esse encaminhamento dos médicos, pois desconhecem a necessidade. Por isto, “a divulgação ampla desse fato é muito importante para que o cidadão possa exigir os seus direitos” afirma a autora. A pesquisa Os números foram gerados a partir de bases de dados desenvolvidas pelo Grupo de Pesquisa de Economia da Saúde, da Faculdade de Medicina da UFMG (GPES/UFMG), que reuniu informações do SUS. “Utilizamos uma metodologia que trouxe resultados que refletem a realidade do Brasil e não somente de Belo Horizonte ou de Minas Gerais. Foram identificadas ainda importantes variações entre as regiões do país”, afirma. Mariângela Cherchiglia chama a atenção para o fato de que quase 70% dos atendimentos são feitos por clínicas privadas conveniadas com o SUS. “Não podemos afirmar que há interesse financeiro dessas clínicas em manter o paciente usando o cateter. Na maioria das vezes, poderíamos classificar como um descuido”, afirma a professora. A pesquisa teve a coorientação das professoras Eli Iola Gurgel Andrade, do Departamento de Medicina Preventiva e Social da Faculdade, e Eleonora Moreira Lima, pediatra do setor de hemodiálise do Hospital das Clínicas.

Infográfico: Leonardo Lopes Braga

Quando o rim para de funcionar existem três alternativas Cateter vascular

Diálise Peritoneal

Hemodiálise

Tubo inserido em um vaso sanguíneo no pescoço ou na região abdominal de um paciente para possibilitar o processo de filtragem sanguínea por meio de uma máquina de hemodiálise

Filtração artificial realizada por meio da injeção de solução aquosa no organismo, usando um cateter. Após um tempo, a solução é substituída por outra, retirando as toxinas que seriam captadas pelos rins

É a filtração artificial do sangue usando máquinas e técnicas específicas. O paciente tem o auxílio de uma máquina com a mesma capacidade de filtração do rim humano. O sangue sai pela Fístula Artério-Venosa (FAV), passa pela máquina, é filtrado e volta para o corpo livre de impurezas

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Melhor prevenir do que remediar As doenças renais crônicas têm como causas a hipertensão arterial e o diabetes mellitus. Boa parte dos portadores dessas doenças já são atendidos pelos centros de saúde, o que, para as pesquisadoras, poderia ser uma forma de se evitar ou retardar a chegada do paciente renal à condição de doente terminal. “A população frequenta os centros de saúde, mas, pelo que tudo indica os médicos não estão se lembrando de monitorar o funcionamento dos rins”, alerta Mariângela. As pesquisadoras defendem a criação de campanhas de incentivo ao monitoramento do funcionamento renal, tanto para pacientes quanto para profissionais de saúde. Também sugerem a utilização do período entre a entrada do paciente na clínica de diálise até o dia da confecção do acesso vascular permanente, a FAV, como indicador de qualidade que possibilite o monitoramento desses serviços. Leia a matéria completa em www. medicina.ufmg.br.

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Anvisa

Ceaps

Nova norma deve Nupad promove auxiliar alimentação estágio em nutrição e de fenilcetonúricos dietoterapia Com a regra, pacientes da triagem neonatal saberão qual o conteúdo de aminoácido nos alimentos

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stimular a vivência profissional e o desenvolvimento de atividades lúdicas e educativas por meio do contato com pacientes é um dos principais objetivos do estágio curricular na disciplina Atividades Práticas Monitoradas, parceria entre o curso de graduação em Nutrição da UFMG e o Núcleo de Ações e Pesquisa em Apoio Diagnóstico da Faculdade de Medicina (Nupad). Em maio, cinco estudantes do curso iniciaram o estágio, que já recebeu, desde 2008, mais de 40 alunos no Centro de Educação e Apoio Social (Ceaps). O estágio tem a orientação da nutricionista Michelle Andrade e mostra aos estudantes como inserir seus conhecimentos em saúde pública e dietoterapia para o público da triagem neonatal. As atividades vão da discussão de textos sobre as doenças à participação em atividades promovidas para os familiares de pacientes em acompanhamento. “O estudan-

Foto: Ismael dos Anjos

Foto: Vinicius Utsch

partir de agosto, pessoas com fenilcetonúria - doença genética cujo tratamento prevê a restrição da ingestão do aminoácido chamado fenilalanina -, terão uma nova ferramenta para melhorar sua alimentação e a adesão ao tratamento, evitando complicações como atraso no crescimento, convulsões e hiperatividade. Uma norma publicada em abril pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) determina que todos os sites e serviços de atendimento ao consumidor (SAC) das empresas produtoras de alimentos deverão informar a quantidade do aminoácido presente nos produtos. E as informações serão reunidas no site da Anvisa. “Essas informações serão essenciais para os nutricionistas elaborarem, com segurança, a dieta dos quase 1,5 mil brasileiros fenilcetonúricos”, afirma Maria Cecília Brito, diretora da Anvisa. Para a nutricionista Michelle Andrade, do Núcleo de Ações e Pesquisa em Apoio Diagnóstico (Nupad) - Órgão Complementar da Faculdade de Medicina que faz o diagnóstico e acompanhamento dos fenilcetonúricos em Minas -, a medida permitirá que as pessoas tenham mais confiança no conteúdo de proteína e fenilalanina dos alimentos. “Atualmente, restringimos muito o uso de produtos industrializados justamente por não podermos confiar na quantidade de proteína que está descrito nos rótulos. A medida pode permitir que essas pessoas diversifiquem mais o cardápio e fazer com que a adesão ao tratamento fique mais adequada”. Mãe de uma criança de três anos com fenillcetonúria, Danielle Ayoub destaca que a medida vai facilitar a vida das mães que, como ela, têm poucas opções na hora de alimentar o filho. “Temos muitas dificuldades, pois a dieta é bem restrita - meu filho come, basicamente, legumes, verduras, frutas, arroz e receitas preparadas com a farinha especial. Quando compro algo industrializado, fico insegura de dar para meu filho e tenho de esperar a consulta com a nutricionista para tirar essas dúvidas”, destacou. “A nova medida vai ajudar bastante, pois, com as informações sobre a fenilalanina, teremos condições de avaliar o que a criança pode comer e em que quantidade”, concluiu Danielle Ayoub.

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te pode ver a atuação do nutricionista em áreas específicas, incluindo o tratamento da fenilcetonúria e da fibrose cística e, em doenças em que não há dietoterapia específica, a orientação também é importante para a manutenção do estado nutricional do paciente com alimentação saudável”, explica Michelle. Para a estudante Luísa Vilela, participante do programa, as atividades são importantes para a formação profissional, por envolver diversas áreas de atuação do nutricionista. “É essencial conhecer nosso campo profissional, como a vivência prática, que envolve o atendimento e a orientação nutricional”. Ela também destaca a possibilidade de ação em termos de saúde coletiva.

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Divulgação Científica

Óleo de peixe pode diminuir alergia à clara de ovo Dados mostram que, em animais, a substância reduz reações alérgicas

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se alimentaram com ração rica em óleo de peixe. Nos que comeram ração com a mistura dos dois óleos a redução da proteína foi de 35%. Outro parâmetro analisado foi a quantidade de eosinófilos no tecido intestinal, células que se apresentam em grandes quantidades quando há uma reação alérgica. Novamente o resultado foi positivo. Os animais que consumiram a ração rica em óleo de peixe apresentaram redução de 60% das células em relação aos alimentados com óleo de soja. Para os animais que se alimentaram com a ração que veio da mistura dos óleos, o índice foi 50% menor.

Resultados Segundo a pesquisadora, um parâmetro muito importante para a determinação desse tipo de alergia alimentar é o nível de uma proteína chamada imunoglobina E (IgE). Ela é produzida no organismo como resposta a uma agressão externa produzida, por exemplo, por alguns tipos de proteínas alimentares. Comparando com os animais que consumiram ração rica em óleo de soja, houve uma redução da taxa de IgE de aproximadamente 38% em relação aos animais alérgicos que

Infográfico: Ana Cláudia Ferreira

iarréia, inchaço e coceira na pele e até dor abdominal. Estes são alguns dos sintomas clássicos de quem apresenta hipersensibilidade a alguns tipos de alimentos, a chamada alergia alimentar. Entre as alergias alimentares está a sensibilidade excessiva à ovalbumina, presente na clara de ovo. Um estudo experimental, desenvolvido pela nutricionista Olívia Gonçalves de Matos, como parte de sua dissertação de mestrado em Patologia Geral, pela Faculdade de Medicina da UFMG, pode ser uma alternativa para quem tem essa alergia. Até o momento, a solução existente para pacientes com esse tipo de hipersensibilidade é não ingerir o alimento que lhe faz mal. Porém estudos mostram que, principalmente pessoas com alergias múltiplas, por não ingerirem todos os nutrientes necessários, podem apresentar deficiências alimentares. “Como o óleo de peixe é antiinflamatório, decidimos investigar se ele poderia ser um aliado no tratamento da alergia”, relata a nutricionista. Ela comparou a reação alérgica de camundongos alimentados com ração à base de óleo de soja - rico em ômega 6 - com a reação alérgica em animais que consumiram ração à base de óleo de peixe - rico em ômega 3 – ou, ainda, uma ração que continha uma mistura dos dois óleos.

Título: Efeito da ingestão dos óleos de soja e de peixe na alergia alimentar induzida experimentalmente em camundongos Autor: Olívia Gonçalves de Matos Nível: Mestrado Programa: Pós-Graduação em Patologia Área de concentração: Patologia Geral Orientadora: Professora Denise Carmona Cara Data da defesa: 30 de abril de 2010


Pró-saúde

Faculdade promove seminário sobre Atenção Primária Discussões deverão esclarecer dúvidas teóricas sobre o tema

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retrizes Curriculares Nacionais recomendam que o médico tenha formação generalista e seja capacitado a agir nos diferentes níveis de atenção à saúde. Em particular, que ele possa atuar de maneira competente e resolutiva na Atenção Primária, o que, sem dúvidas, é um grande desafio para todos nós”, pondera. O professor assinala que também será necessária uma pactuação com a Secretaria Municipal de Saúde, quando o processo de reforma curricular estiver concluído. “Estamos expandindo significativamente a inserção dos estudantes nas Unidades Básicas de Saúde e no seu entorno. Hoje ela acontece apenas durante o Internato Rural e no 8º período. O plano é estendê-la a outros seis períodos. Nesta nova perspectiva, trabalhar em conjunto e em harmonia com a Secretaria é zelar pelo sucesso de nosso projeto pedagógico”, afirma.

Foto: Carina Oliveira

os dias 17 e 18 de junho, a Faculdade de Medicina realiza o seminário “O Profissional Médico e suas Competências na Atenção Primária”. O evento, organizado pela Diretoria da Faculdade, Colegiado de Curso e pela Comissão de Sistematização da Reforma Curricular, contará com mesas-redondas, oficinas temáticas e plenárias. Segundo a professora Cláudia Lindgren, coordenadora do seminário, a expectativa é receber cerca de 250 participantes, entre estudantes e docentes da Faculdade de Medicina, profissionais da rede de saúde e técnicos da Secretaria Municipal de Saúde de Belo Horizonte. Para o professor Marco Antônio Rodrigues, presidente da Comissão de Sistematização da Reforma Curricular da Faculdade de Medicina, o seminário busca atingir dois objetivos principais. “As palestras e os debates devem trabalhar os conceitos de Atenção Primária, ajudando a esclarecer parte das dúvidas teóricas sobre o tema. As oficinas, por sua vez, visam discutir de maneira prática o papel das Unidades Básicas de Saúde e do Sistema Único de Saúde (SUS) enquanto importante cenário na formação médica. Assim, ampliaremos a discussão sobre a inserção de estudantes e professores da Faculdade de Medicina nesse cenário, estreitando as relações entre a comunidade acadêmica e os funcionários da rede de saúde”, explica. Ele ressalta ainda que a discussão do tema é crucial para a reforma curricular do curso de Medicina, que já está em fase avançada. “As Di-

Centenário

Berço do tratamento intensivo no Brasil

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urante os 100 anos da Faculdade de Medicina da UFMG, diversas ações, inovações e egressos da instituição se tornaram parte da história que a constituiu. Mais do que isto, seu pionerismo em diversas áreas contribuiu para o desenvolvimento pleno da profissão médica e da promoção de saúde em Minas Gerais e no país. No ano de 1969, por exemplo, o Hospital das Clínicas, que nesta época integrava a Faculdade, foi berço do primeiro Centro de Tratamento Intensivo (CTI) do Brasil, com seis leitos e uma pequena equipe de profissionais. Idealizado por Mário Lopez, professor aposentado da Faculdade de Medicina, o espaço para tratamento de pacientes em estado grave foi inaugurado no Hospital das Clínicas da UFMG (HC) e logo se tornou referência para outros hospitais. “Professores do país inteiro vieram estagiar no CTI para conhecer este tipo de tratamento e implementá-lo nos seus estados”, recorda João Mendes Álvares, professor aposentado do Departamento de Clínica Médica. O professor, que à época da instalação do CTI tra6

balhava no HC como voluntário, foi convidado a integrar o projeto poucos meses depois, fazendo parte da segunda equipe de médicos. “O convite do Mário Lopez era, além da oportunidade de ser contratado, uma chance de trabalhar no lugar mais nobre do hospital. Me senti muito prestigiado”, revela. Ele relembra que todas as rotinas de atendimento eram mimeografadas, a fim de padronizar os tratamentos. “Depois, em 1973, estas anotações se transformaram no ‘Manual de Tratamento Intensivo’, escrito pelo Mário Lopez. O primeiro livro brasileiro a tratar desta área”, afirma. João Mendes conta que, devido à pequena disponibilidade de leitos, somente pacientes em estado muito grave eram conduzidos ao CTI, onde ficavam isolados. “Os doentes não podiam ir acompanhados. Por isto, além do atendimento médico convencional, tentávamos oferecer um tratamento humanizado e amenizar uma situação que já era emocionalmente complicada”, explica. Hoje o CTI do HC conta com 37 leitos, sendo 18 destinados a pacientes adultos e 19 ao atendimento pediátrico.

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Professor Emérito

Quatro décadas de ensino reconhecidas Luiz Otávio Savassi Rocha ram outros tempos. Os portões das casas passavam os dias destrancados e assistiam Luiz ir e voltar da escola, com seus sete irmãos. Frequentava o ensino público, já que o pai não podia arcar com um colégio particular. Nem precisaria: era o melhor colégio do Estado e nem cursinhos preparatórios foram necessários: foi aprovado no vestibular da Faculdade de Medicina da UFMG. Agora, esta mesma Faculdade homenageia os passos dados, desde aqueles tempos, por Luiz Otávio Savassi Rocha, professor do Departamento de Clínica Médica, que recebe o título de Professor Emérito da Instituição, no dia 23 de junho de 2010. Apaixonado pelos prédios antigos da Faculdade, Savassi lamenta a demolição da construção inicial. “É uma pena que eu nem tenha estudado ali –eu tinha 12 anos quando o demoliram. Mas, até hoje, passeio em volta do Borges da Costa, admirando o que restou da antiga Medicina. É uma relíquia arquitetônica”, confessa. Mas nem só de encantamento arquitetônico se constituiu sua trajetória na Faculdade. No terceiro ano da graduação, Savassi foi monitor de Anatomia Patológica a convite do professor Luigi Bogliolo, do Departamento de Anatomia Patológica e Medicina Legal (APM). Na formatura, recebeu o prêmio Oswaldo Cruz, oferecido aos alunos que obtiveram as melhores notas durante o curso. Lecionou no APM por quatro anos e migrou para o Departamento de Clínica Médica. “Funcionei como um elo entre os departamentos. Coordenei as sessões anatomoclínicas, nas quais os laudos de necropsia são comparados com os diagnósticos propostos anteriormente”, explica. Da experiência na área, escreveu “Sessões anatomoclínicas” ainda a ser publicado, e o livro biográfico “Vida e obra de Luigi Bogliolo”, lançado em 1992. E do interesse em História da Medicina, estudou Guimarães Rosa, autor de diversos livros colecionados pelo professor. “Um deles tem dedicatória do próprio a meu pai”, conta. Depois de 40 anos lecionando na instituição, reconhece o papel ímpar a ser desempenhado pela Faculdade centenária. “No país, temos escolas de Medicina por todos os lados, com um número de vagas enorme. A parte que nos cabe é servir de exemplo, e continuar a melhorar o nosso curso, sempre”, reflete.

Foto: Bruna Carvalho

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Roberto Assis Ferreira m reconhecimento pela dedicação e contribuições prestadas à UFMG e às áreas da Medicina do Adolescente e da Saúde Mental, o professor Roberto Assis Ferreira, do Departamento de Pediatria, receberá o título de Professor Emérito no próximo dia 23 de junho, às 19h30, no Salão Nobre da Faculdade de Medicina. Roberto Assis Ferreira conta que, vindo de Calogi, Espírito Santo, para estudar em Belo Horizonte, teve muitas dúvidas ao escolher a profissão. “Eu não sabia exatamente o que cursar. Acabei me decidindo por Medicina por me interessar pelo grupo de Química da Faculdade”, afirma. Membro do Departamento de Pediatria desde fevereiro de 1968, no qual foi chefe por dois mandatos, Ferreira optou pela especialização em Pediatria quando, ao preparar um grupo para atuar em cidades do interior, ele descobriu que nenhum dos demais participantes faria o atendimento de crianças. Então, ele se tornou o primeiro residente de Pediatria do Hospital das Clínicas. Como docente, ele deu aulas na graduação e na pós-graduação na Faculdade por 41 anos até se aposentar, em 2009. “Sempre tive uma grande queda por ensinar. Me identifiquei mais com a carreira de professor”, explica Roberto. Assis Ferreira também supervisionou residentes no Hospital das Clínicas, e atualmente orienta mestrandos e doutorandos, como professor convidado do Departamento de Pediatria. Um dos criadores da disciplina optativa Medicina do Adolescente e do curso de especialização na área, o professor conta que trabalhar com os adolescentes o fez despertar para a questão emocional dos pacientes, pelo próprio enfrentamento com as questões do adolescente. “Eu achei que a minha formação não me dava base para trabalhar com a questão emocional do adolescente, apenas com sua saúde física”, o que explica sua capacitação na área de saúde mental. Em 2003, Assis criou o Núcleo de Investigação em Anorexia e Bulimia (NIAB), do Hospital das Clínicas, referência do SUS nesta área. Também participou da implantação do Núcleo de Apoio Psicopedagógico dos Estudantes da Faculdade de Medicina (NAPEM), o qual coordena. Homenageado em muitas ocasiões, Roberto Assis Ferreira afirma que o título de Professor Emérito o emocionou, e está muito orgulhoso de ter sido escolhido. “É bom ver que os 40 anos em que ensinei na Faculdade foram reconhecidos”, afirma.

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Foto: Arquivo pessoal

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Encontro Institucional

Acontece

Encontro Institucional acontece neste mês

Foto: Mariana Pires

“De bem comigo, de bem com a vida, de bem com o trabalho” é o tema dessa terceira edição

Extensão O X Curso Nacional de Fisiologia Cardiovascular Aplicada acontecerá no dia 19 de junho, promovido pelo Centro de Extensão da Faculdade de Medicina da UFMG e a Fundação Cardiovascular São Francisco de Assis, com apoio do Departamento de Cirurgia (CIR)

Influenza

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romovido pela Seção de Recursos Humanos com o apoio da Diretoria da Faculdade de Medicina, a terceira edição do evento que reúne, anualmente, servidores, funcionários e professores da Faculdade, acontecerá nos dias 14 e 21 de junho, das 8h às 16h, no Museu de História Natural da UFMG. De acordo com Cleusa Maria dos Santos, chefe da Seção de Recursos Humanos, o evento promove a aproximação dos funcionários entre si e com a instituição. “O objetivo é buscar a integração dos funcionários”, diz. Ela conta que, durante o dia, atividades serão promovidas para estimular uma reflexão sobre valores e objetivos, além da possibilidade de cada um conhecer melhor a instituição, reforçando interesse, motivação e comprometimento geral de cada um. O diretor da Faculdade, professor Francisco José Penna, destaca a importância da participação no evento. “É uma oportunidade de refletir sobre o que estamos desenvolvendo e de nosso potencial de desenvolver outras atividades importantes para a Faculdade”, ressalta. Para garantir o funcionamento da Faculdade

durante os dias do evento, cada setor será dividido em dois grupos, e cada um participará da atividade em um dia diferente. Um ônibus levará os grupos até o Museu, onde todos participarão de café, almoço e lanche. “Fica a sugestão para que os funcionários vistam roupas confortáveis para participar das atividades”, recomenda Cleusa dos Santos, lembrando que o Encontro também tem a proposta de ser um dia longe do ambiente de trabalho, em que haja descontração e troca de boas ideias. Convidada como consultora do evento, a psicóloga Terezinha Araújo, relembra as outras duas edições, em que também participou: “A confraternização de todos num espaço verde, aconchegante, a possibilidade de conversas descontraídas debaixo da sombra das árvores e, principalmente, a possibilidade de refletirmos juntos sobre a instituição, os problemas e sugestões para mudanças foi muito proveitoso”, conta. Mais informações: Seção de Recursos Humanos – 3409-9699.

Nos dias 18 e 19 de junho, o Núcleo de Educação em Saúde Coletiva (Nescon) realiza, em Brasília, o Curso de Formação de Multiplicadores para enfrentamento da possível segunda onda da Influenza Pandêmica (H1N1) 2009 em parceria com as secretarias de Gestão do Trabalho e da Educação em Saúde e a Secretaria de Vigilância em Saúde, do Ministério da Saúde.

Samu A VII Semana Acadêmica de Medicina de Urgência acontece entre os dias 21 e 24 de junho, na Faculdade de Medicina da UFMG. As inscrições podem ser feitas na página eletrônica da Fundep (www.fundep.ufmg.br).

Expediente

IMPRESSO

Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Minas Gerais – Diretor: Professor Francisco José Penna – Vice-Diretor: Professor Tarcizo Afonso Nunes – Coordenador da Assessoria de Comunicação Social: Gilberto Boaventura (Reg. Prof. MG 04961JP) – Editora: Mariana Pires – Redação: Jornalistas: Marcus Vinícius dos Santos – Estagiários: Ennio Rodrigues, Estefânia Mesquita, Michelle Lessa, Leandro Perché e Renata Ferreira. Projeto Gráfico e Diagramação: Ana Cláudia Ferreira de Oliveira e Leonardo Lopes Braga - Atendimento Publicitário: Janaína Carvalho – Impressão: Imprensa Universitária – Tiragem: 2 mil exemplares – Circulação mensal – Endereço: Assessoria de Comunicação Social, Faculdade de Medicina, Av. Prof. Alfredo Balena, 190 / sala 5 - térreo, CEP 30.130-100, Belo Horizonte, Minas Gerais, Brasil – Telefone: (31) 3409-9651 – Internet: www.medicina.ufmg.br; www.twitter.com/medicinaufmg e jornalismo@medicina.ufmg.br. É permitida a reprodução de textos, desde que seja citada a fonte.

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