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EDITORIAL Estamos juntos!

ATUALIDADE A coragem e a audácia Egoísmo, solidariedade e insolidariedade O vinho do Porto Europa entre uma memória fraca e um futuro incerto— Uma história rica e dramática A Europa e “populismos”

os

seus

OFIR (Porto) — 2017

XXIII Euroencontro no Douro Conclusões sobre o tema: “A Europa numa encruzilhada entre o populismo, a resposta às migrações, a sua desagregação e o futuro”

EUROENCONTRO 2018 19 a 26 de maio Sevilha - ESPANHA


GRUPO EUROPEU DE PENSINISTAS DAS CAIXAS ECONÓMICAS E BANCOS

GRUPO EUROPEU DE PENSIONISTAS DAS CAIXAS ECONÓMICAS E BANCOS

Sede Social e endereço postal: Calle Antonio de Cabezón, 29 28034 MADRID (Espanha)

SUMÁRIO

*** PRESIDENTE DE HONRA JEAN CLAUDE CHRÉTIEN

Editorial

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CONSELHO DE ADMINISTRAÇÃO Presidente

A coragem e a audácia

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Egoísmo, solidariedade e insolidariedade

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O Vinho do Porto

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A Costa Verde do Norte de Portugal

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Conclusões do GET— Ofir

Europa entre uma memória fraca e um futuro incerto — Uma história rica e dramática

CÂNDIDO TRABUCO VINTÉM Vice-presidentes MICHEL PAGEAULT FRANCISCO RAMÍREZ MUNUERA (Tesoureiro) Secretário ANTONIO GONZÁLEZ DÍEZ Secretário adjunto

9-11

JEAN WOJTIUK Secretária adjunta da presidência MARIA CREMILDA CABRITO

12—16

COMITÉ EXECUTIVO (Presidente)

A Europa e os seus “populismos”

Euroencontro 2018 em Sevilha

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Recordação de Ofir

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17-18

CÂNDIDO TRABUCO VINTÉM (Vice-presidente 1º ) MICHEL PAGEAULT (Vice-presidente 2º) FRANCISCO RAMIREZ MUNUERA DELEGADOS À ASSEMBLEIA

Para mais informaç ão sobre o Grupo :

Por Portugal: ANTÓNIO MENDES DE ALMEIDA CARLOS GARRIDO JOSÉ RIBEIRO GONÇALVES

Presidente (Portugal): ctvintem@netcabo.pt

ORLANDO SANTOS

Vicepresidente 1º (França): michel.pageault@orange.fr

(a designar) Por França:

Vicepresidente 2º (Espanha): framirezmunuera@gmail.com

Caisse d’Epargne

Secretariado

JEAN YVES MARTIN JACQUES HUBERT

info@euroencuentros.org

(a designar) (a designar) Banques Populaires

www.euroencuentros.org

BERNARD NICOLAS Por Espanha: DOMINGO PEREZ AUYANET JOSÉ ALMELA ALCÁZAR JOSÉ MANUEL GARCÍA VILLA ARTURO PÉREZ VELASCO Por Itália: EGIDIO RAMONDETTI Membro eleito: CHRISTA SAIA (Alemanha) MEMBROS DE HONRA AGRUPACIÓN EUROPEA DE CAJAS DE AHORROS CONFEDERACIÓN ESPAÑOLA DE CAJAS DE AHORROS CAJA MEDITERRÁNEO CAJA DE AHORROS DE ZARAGOZA ARAGÓN Y RIOJA (IBERCAJA) CAIXA GERAL DE DEPÓSITOS

DIRETORES Cândido Trabuco Vintém Alicia González Amorós

CONCEÇÃO E MAQUETAGEM Cândido Trabuco Vintém Alicia González Amorós

REDATORES

IMPRESSÃO

Cândido Trabuco Vintém Jean Claude Chrétien Domingo Pérez Auyanet José María Tortosa (Prof) Franco Chittolina (Prof) Egidio Ramondetti Christa Saia

TRACER-CAD (Impressão Digital) C/Médico Manero Mollá 13 Bajo 03001 Alicante (España) Tel: +34 965216360

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EDI TO RI AL ESTAMOS JUNTOS! O Grupo Europeu é um espaço de reflexão conjunto, de são convívio, onde se respeitam todas as opções de cada um dos seus membros. Para que o nosso Grupo possa ser mais forte, necessitamos da presença ativa de todas as Associações, de todos os países. Só assim poderemos cumprir o objetivo alargado de defesa dos cidadãos menos jovens que trabalharam para que o sistema financeiro fosse sólido e motor do desenvolvimento da nossa Europa. Desde há alguns anos que era sentida a necessidade de retorno da Federação Espanhola aos trabalhos dos Euroencontros e ao nosso dia-a-dia. Enquanto trabalhávamos na elaboração deste boletim e na preparação do Euroencontro de Sevilha também continuaram os contactos com a nova direção da Federação. Como consequência do espírito aberto e cooperante da sua direção podemos anunciar, com grande satisfação, que em reunião extraordinária da Federação Espanhola, realizada na simbólica cidade de Toledo, foi decidido o seu regresso ao Grupo Europeu. Trata-se de uma decisão que, certamente, muito contribuirá para que o Grupo Europeu tenha mais expressão junto da Plataforma AGE. Saudamos daqui a direção e todas as Associações que integram a Federação e damoslhes as boas-vindas a uma casa que sempre foi sua. Este número do boletim Euroencontros tem, excecionalmente, vinte páginas. O motivo é a publicação integral dos textos dos dois conferencistas convidados para participar nos últimos encontros. Os textos complementam-se e, no seu conjunto, dão uma visão histórica e também prospetiva de questões que tornam o nosso mundo um lugar pouco seguro sobretudo para as gerações vindouras. As questões dos populismos e dos nacionalismos radicais mantêm-se muito atuais. Os resultados das eleições realizadas recentemente em vários países indiciam que a força do “populismo” apresenta sinais de retrocesso. No entanto, não podemos esquecer que em alguns desses países foram reforçadas as posições e a representatividade dos que o defendem. A nossa geração transporta em si valores de igualdade, fraternidade e de solidariedade e tem a obrigação moral de transmitir às gerações seguintes; é isso que procuramos fazer no Grupo Europeu. A direção tudo fará para que o ano de 2018 seja um ano muito importante para todos, com a continuação dos esforços para alargar o âmbito para novos países. Continuamos a trabalhar, agora com mais alegria causada pelo regresso dos nossos companheiros. Cândido Vintém (Portugal) Presidente do Grupo Europeu

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A CORAGEM E A AUDÁCIA A coragem não deve ser confundida com audácia. Porque se a audácia está na moda, a coragem, como a cortesia e a lealdade fazem parte das palavras adormecidas, já que a coragem é humilde e discreta. A audácia está presente hoje em todos os lugares: negócios, vida política e até mesmo em alguns círculos sociais e culturais... A audácia é muitas vezes sinónimo de tomada de riscos, às vezes inventiva, muitas vezes em contracorrente. "Mas quem é audacioso hoje não é sempre ousado", como afirmou Confúcio. A coragem é menos espetacular porque muitas vezes resulta de uma vontade, continuada, de enfrentar a adversidade. A coragem é muitas vezes indetetável nestes tempos em que os heróis são destacados, porque esconde uma maneira de reagir aos eventos e enfrentá-los que nem sempre é reconhecida pelo seu verdadeiro valor. A audácia é muitas vezes localizada num momento dado, numa trajetória de vida, mesmo se os indivíduos, os líderes sociais, os líderes comunitários ou outros decisores que a colocam na vanguarda das suas ações não buscam necessária e imperativamente o reconhecimento e as honra-

rias. Muitas vezes, é para eles uma solução alternativa que mascara a falta de coragem para enfrentar uma situação. O audácia é um desafio cuja confiabilidade diminui muito frequentemente ao longo do tempo. A coragem provém, etimologicamente, do coração. Muitas vezes é sinónimo de humildade. Aqueles que a encarnam com maior frequência, felizmente não a reivindicam, eles vivem-na. A audácia está em voga, muitas vezes é considerada como um movimento de ousadia que não conhece nenhum obstáculo ou limite. Às vezes é classificada, pejorativamente, como sinónimo de insolência e impertinência, em detrimento das conveniências. Se a coragem é um sentimento adormecida, continua a ser uma fonte de futuro. Hoje em dia a questão permanece, o homem que evolui todos os dias num mundo incerto, em mudança perpétua, pode ter a coragem de enfrentar o terrorismo, o desemprego, os abusos, os conflitos que afligem o mundo, o sofrimento dos povos oprimidos e todos os flagelos contemporâneos? A resposta é sim. Enquanto todos os dias as notícias relatam mais escândalos do que atos honrados, devemos ser, cada um a

nosso nível, a expressão dessa discreta coragem que muitas vezes casa dignidade e humildade. Outras das palavras adormecidas !!! A coragem é uma força que impõe o respeito pelos valores com dignidade, comprometer-se com humildade, assumir as suas responsabilidades, escutar e compreender o nosso semelhante. Como Winston Churchill, homem valente que ele foi, disse, : A coragem é ousar levantar-se e falar; mas também é saber ficar sentado e ouvir. A coragem não tem idade. Cada indivíduo, em sua empresa, na sua associação, no seu bairro, no seu meio cultural... pode fazer prova de coragem. Este é o significado que damos à nossa participação nos trabalhos do nosso Grupo e na Plataforma AGE em Bruxelas, quando realizamos ações para o bem-estar dos idosos e realizamos operações de influência junto dos parlamentares europeus, a fim de pôr fim a certas discriminações e trazer soluções duradouras aos problemas dos pensionistas e aposentados. Jean Claude Chrétien (França) Presidente Honorário do Grupo Europeu PÁGINA

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EGOÍSMO, SOLIDARIEDADE E INSOLIDARIEDADE O termo egoísmo faz referência ao amor excessivo e desmedido que uma pessoa sente por ela própria e que lhe faz atender desmedidamente ao seu próprio interesse. Portanto, o egoísta não se interessa pelos interesses do próximo e rege os seus atos de acordo com a sua absoluta conveniência. Nós não costumamos ser um exemplo de generosidade nem ter um contínuo comportamento egoísta; pelo contrário, encontramo-nos num meio-termo em que nos movemos dependendo de vários fatores, entre os quais se encontra o nosso momento vital. Muitas vezes muitos de nós nos perguntamos se “sou egoísta se faço ou não determinada coisa?” Esta questão surge quando alguém nos faz algum pedido razoável e temos de valorizar se acedemos ou não, quando aceder supõe um custo ou quando nos lembramos de formas de ajudar que podem ou não ser desmedidas para a responsabilidade que temos. De certeza que nos lembramos de situações nas quais nos fizemos essas perguntas e, muito frequentemente, a resposta não é fácil. Um motivo comum e egoísta para não prestar ajuda é o temor de mostrar debilidade, de tentar e ficar em evidência ao sentir que a nossa ação, na realidade, não serve de muito. As pessoas, numa atitude egoísta, sustentam o pensamento de que o seu ambiente tenta menosprezar o seu trabalho e potencial. Caracterizam-se por ser pouco constantes na hora de seguir com os seus objetivos, podendo chegar a pensar que o êxito estará sempre do seu lado, sendo-lhes indiferente quem é que têm que ultrapassar no caminho para alcançar o seu objetivo. Este tipo de pessoas prefere a crítica fácil e pelas costas. No fundo, temem não ter a razão e fazem-no sempre à distância para que a realidade não possa estragar a sua ideia de como têm concebido o

mundo na sua cabeça. Uma das características mais importantes e notórias de uma pessoa numa atitude egoísta tem a ver com a falta de humildade. A humildade é uma virtude preciosa e humana, necessária para crescer como ser humano e pessoas sociáveis com o nosso ambiente. As pessoas egocêntricas só taparão este potencial pessoal tentando ressaltar e engrandecer os seus êxitos. Têm medo de arriscar, não consideram o fracasso porque nunca se expõem a ele. Mas não duvidam em criticar, de forma dura e severa, quando outros não conseguem aquilo que pretendiam. São os primeiros que te vão dizer: “já se sabia que isso ia acontecer…”. A insolidariedade é a atitude de indiferença social daquela pessoa que se deixa levar pelo individualismo e olha para outro lado, evitando assim implicar-se em assuntos sociais que podem aportar um grão de areia para a construção do bem comum. Mostra distância emocional daquele que vive encerrado na sua própria bolha de conforto para viver pendente do seu próprio ego. Não se mostra só através do plano material se não também através da atitude emocional. Por exemplo, uma pessoa pode não mostrar a sua colaboração a um amigo que está a passar por um mau momento pessoal enquanto a solidariedade potencia a colaboração mútua e o apoio recíproco pelo bem-estar da equipa. Pelo contrário, a insolidariedade mostra a atitude daquele que se evade da sua responsabilidade ética como pessoa. Essa atitude pode ser pontual ou prolongar-se no tempo. Contudo, tem consequências negativas a nível pessoal, sendo a solidão uma das mais importantes. A indiferença das pessoas perante as necessidades ou calamidades pelas que possa estar a passar uma pessoa ou uma comunidade em geral. Perante isso, não só têm que comover-se e sentir-se mal pelas

pessoas desafortunadas mas também fazer alguma coisa para as ajudar. No que respeita às catástrofes, a população em geral, costuma reagir de forma positiva, da mesma forma que os Governos. A pobreza é uma das grandes vítimas do desastre dado que são os afetados que ficam totalmente desamparados e carecem de contactos ou estratégias para fazer face ao que perderam. Por outro lado, perante a possibilidade de risco de desastres, os Governos deveriam implementar protocolos de atuação, dado que estes estabelecem a forma de proceder perante cada situação: quais são os tipos de ajuda que são necessários num momento determinado: não é igual um terramoto a um incêndio florestal ou a uma inundação. Em momentos de crise, é necessário alguém que organize, determine e comunique quais são as necessidades. O problema surge quando os Governos improvisam e a sociedade se encontra numa encruzilhada de não saber o que fazer. Por tudo isto, vivemos um momento em que a solidariedade não é uma moeda corrente, mas conhece-se a nível mundial que perante grandes catástrofes as pessoas se envolveram de maneira massiva para ajudar, trata-se de uma expressão de solidariedade. O que não é afetado, sente-se na obrigação de colaborar com o que foi atingido. O que nunca deve acontecer nos desastres é que ali se dirimam questões políticas, o que faz com que a ajuda chegue ou não por essas razões. Em termos gerais, Proteção Civil, Bombeiros, Unidade Militar de Emergências, Forças e Corpos de Segurança do Estado, etc. estão preparados para afrontar eventos deste tipo, o que têm vindo a demonstrar com toda a eficiência ao longo do tempo. Domingo Pérez Auyanet Presidente da Associação de Empregados Aposentados e Pensionista da Caixa Insular de Poupança das Canárias PÁGINA

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O VINHO DO PORTO Durante as guerras com a França (séculos XVII e XVIII), a Grã-Bretanha boicotou o vinho francês e decidiu adquirir os vinhos portugueses que, infelizmente, não suportavam a longa viagem pelo mar. O processo de produção do Porto foi inventado acidentalmente pelos dois irmãos que robusteceram o vinho com o destilado de uva, cerca de 3 % naquela época, para que a qualidade se mantivesse durante a viagem até Inglaterra. Em 1756, em Portugal, o Marquês de Pombal delimitou a produção do Porto na região do Douro, a primeira denominação na Europa com uma produção regulamentada, assim como sucede com o Champagne produzido nessa região específica de França. A partir de aquele momento, o verdadeiro Porto somente vem daquela região. Tradicionalmente, os agricultores e proprietários de terrenos eram portugueses e vendiam aos ingleses o vinho, envelhecido no Porto. Mas no fim do século XIX o cenário mudou, quando a praga de um inseto de origem americana chamado filoxera chegou à Europa e se difundiu rapidamente por todas as vinhas, arruinando irremediavelmente a produção do vinho. Os terrenos tratavam-se com substâncias químicas que contaminavam a terra, fazendo-a não apta para o cultivo da uva. Os portugueses, ao não poderem produzir uva durante mais de uma década, cederam as suas terras às sociedades inglesas que encontraram a solução para a praga da filoxe-

ra: o enxerto de vinhas europeias no talo da vide americana que aportava a toda a planta uma tolerância intrínseca à filoxera. A produção do Porto melhorou, mas em terrenos de propriedade britânica. No início dos anos 1700 houve uma vindima de uvas mais doces do que o normal e o

vinho daquela safra teve muito êxito na Grã-Bretanha. Após isto, os viticultores do Douro produziram vinhos mais doces e acrescentaram uma maior quantidade de destilado: aqueles vinhos foram precursores do Porto de hoje em dia. O Porto é uma mistura de uvas procedentes de diferentes vinhas, vinificadas a partir de técnicas diferentes, de diferentes safras: um vinho que não se obtém como a maioria dos vinhos cujo mosto se deixa fermentar. O Porto é um sumo de uva muito doce ao qual o enólogo acrescenta o destilado para a fermentação e obtém um vinho com graus alcoólicos elevados (17-21% em volume) e um marcado nível de açúcar residual (ao redor de 7%) porque as leveduras não puderam transformá-lo completamente

em álcool, dado que estavam inibidas da elevada concentração de etanol. O resultado é um vinho com corpo, suculento e doce. Existem dois tipos de Porto: o envelhecido na madeira e o envelhecido no vidro. O Vintage é o único Porto envelhecido exclusivamente nas garrafas de vidro e chamase assim porque só tem um ano e é o Porto mais prestigioso, produzido com uvas de uma só safra, envelhecido inicialmente em barricas por um período de uns dois anos para depois o submeter a um segundo envelhecimento em garrafas que possam durar muito mais (até 40 - 50 anos, e nas melhores safras inclusive mais de um século). O Ruby envelhece em barricas grandes só durante dois ou três anos, depois traslada-se para pequenas barricas de uns 500 litros onde o contacto com a madeira e, através desta com o ar, é maior. É um vinho muito frutado, cor rubi intenso e com sabor a frutos vermelhos e ameixa. O Tawny envelhece durante muito mais tempo em barricas de madeira, às vezes até 40 anos e ao oxidar-se envelhece mais rápido que o Ruby. Egidio Ramondetti (Itália) Delegado à Assembleia Geral

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A COSTA VERDE, NO NORTE DE PORTUGAL O Grupo Europeu de Pensionistas das Caixas Económicas e Bancos convidounos pela terceira vez para Portugal. Depois de visitar o Algarve e Lisboa, dirigimo-nos para o norte do país para Esposende, na Costa Verde. 200 participantes de Portugal, Espanha, França, Itália, Grã-Bretanha e Alemanha passaram uma semana movimentada na costa atlântica selvagem e arenosa no Resort Axis Ofir Beach e conheceram nas excursões a natureza intocada no interior, com florestas, pomares e inúmeras vinhas nos vales do Douro. Nas reuniões individuais foram discutidos tópicos importantes e as decisões foram anunciadas. Algumas associações espanholas decidiram juntar-se ao agrupamento. O tema principal do Euroencontro deste ano foi: "A Europa na encruzilhada entre o populismo, a resposta ao problema dos refugiados, a dissolução da UE ou seu futuro". Os participantes de cada país falaram sobre esta matéria na reunião geral anual. A partir de todos os discursos, o GET usou as discussões estimulantes para elaborar as conclusões que foram enviadas para AGE. AGE é a plataforma europeia para idosos com sede em Bruxelas. Possui 126 organizações de aposentados com 140 milhões de membros. O nosso objetivo final deve ser preservar a Europa, permitir aos cidadãos participar em debates abertos e transparentes e não cair no isolamento e no protecionismo. Isto aplica-se à política económica e externa, à política responsável sobre refugiados e à luta contra a desigualdade económica e social entre os cidadãos europeus. A Europa continuará a ser um local de construção constante e, sem reformas estruturais, a crise atual não vai acabar. Todos podemos contribuir, porque a U.E. só pode persistir com a tolerância e a cooperação em parceria. Além dos debates e reuniões, o conselho e a Viagens Transvia impressionaram-nos com um extenso programa de apoio. A nossa primeira viagem levou-nos à igreja de peregrinação do Bom Jesus do Monte. No alto da cidade de Braga, uma escada de 600 níveis decorada com estátuas e subindo em pequenos terraços leva à sublime igreja barroca. Evitámos a árdua escadaria e usámos o Elevador, o mais antigo do mundo, construído em 1882, trabalhando com lastro de água. Depois de uma visão esmaga-

dora sobre a cidade e as florestas circundantes, dirigimo-nos a Braga para visitar uma das igrejas mais antigas de Portugal, a Sé Catedral, com túmulos de muitas das figuras históricas do país. No dia seguinte, partimos com sol brilhante para uma viagem de barco de uma hora no Douro. Passámos as seis pontes no Porto num barco “rabelo”, um barco típico que costumava ser usado para transportar mercadorias, especialmente barris de vinho do Porto, e nós gostamos da bela vista para a direita e a esquerda do rio. Tivemos uma visita guiada à adega de Ferreirinha em Vila Nova de Gaia, degustando vários vinhos do Porto e terminando a noite com um delicioso jantar e um show folclórico ao vivo com canções e brincadeiras no restaurante Herança Magna. Na foz do rio Lima, entre mar e montanhas, fica Viana do Castelo. A cidade foi um importante ponto de partida durante a Idade das Aventuras das Descobertas do "Mundo Desconhecido". Visitámos a igreja de Santa Luzia, do século XVIII, com pórticos romanos e varandas de estilo renascentista. Guimarães é uma cidade encantadora e histórica e é considerada o local de nascimento de Portugal, onde Afonso Henriques, o primeiro rei de Portugal, nasceu em 1110. Na colina sagrada acima da cidade, as muralhas coroam o castelo com 27 metros de altura. A fortificação é considerada uma das fortalezas românicas mais bem conservadas de Portugal. Um pouco abaixo é o Palácio Ducal. Nos grandes quartos existem móveis impressionantes, tapeçarias flamengas e coleções de armas. A cidade velha de Guimarães foi declarada Património da Humanidade pela UNESCO. Na quinta-feira, dirigimos a Barcelos para o maior mercado semanal em Portugal, no Campo da Republica. O símbolo de Barcelos é o Galo, que é oferecido como uma lembrança em todas as suas variações. A lenda conta que um fazendeiro foi condenado à morte, apesar da inocência. Antes da sua execução, exigiu uma última vez para falar com o juiz. Ele estava comendo uma galinha assada quando o condenado lhe disse que o galo iria saltar do prato como um sinal de sua inocência e coroar alto em sua execução. E assim aconteceu… O absolvido deu então à igreja como uma oferenda um galo de argila. Através de uma das paisagens mais

bonitas de Portugal, dirigimo-nos para o Vale do Douro. Nas encostas do Rio Douro, chamado "Pai do Vinho", cultivam-se as uvas para a mundialmente famosa, gota nobre, o Porto. O clima natural desta região tem um efeito positivo nas videiras. Ficámos conscientes disso na luxuosa e familiar Quinta da Pacheca, com a sua vinha tradicional. Participámos numa visita guiada e apreciámos os produtos regionais da cozinha gourmet e, claro, o excelente vinho, que poderíamos encomendar localmente. Chegou com segurança à Alemanha e já foi consumido. Mais uma razão para voltar em breve! Descobrimos na viagem uma outra grande propriedade, cercada por um lindo jardim. O palácio barroco da Casa de Mateus. O interior da casa, que agora é um museu, cativa com elaborados tetos e pinturas de madeira, pratas e cerâmica de diferentes épocas. Numa ascensão à linda e bem conservada cidade de Lamego visitámos o santuário da Senhora dos Remédios, construído a partir de 1761, com uma capela rococó. Uma escada dupla de 613 degraus leva à igreja de peregrinação, alinhada com 18 estátuas. A nossa última viagem levou-nos ao Porto, a segunda maior cidade de Portugal. Na cidade velha, classificada como património cultural mundial, visitámos a Sé Catedral do Porto. Combina elementos de estilo gótico e românico. Admirámos o claustro com telhas lindamente pintadas, os azulejos, o órgão e o retábulo dourado. Do mosteiro da Serra do Pilar, desfrutámos de uma vista incomparável sobre o cenário pitoresco da cidade histórica e diversificada e do Rio Douro. Uma ponte magnífica de dois andares, a Ponte de Dom Luís com uma via para carros e uma passadeira para peões e o metro que atravessa o rio. A ponte liga Vila Nova de Gaia na margem sul com a zona da Ribeira, a cidade velha do Porto. Pela última vez, caminhámos ao sol através das estreitas ruas de paralelepípedos com inúmeros restaurantes, cafés e bares. Como sempre, a semana movimentada terminou muito rápido. O grupo alemão gostaria de agradecer a Cândido e a Santiago e a todos os organizadores e apoiantes, e espera a reunião do próximo ano em Sevilha. Christa Saia (Alemanha) PÁGINA

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G R U P O E U R O P E U D E P E N S I O N I S T A S DPAÁS GCI A S N IAX A 8 ECONÓMICAS E BANCOS

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CONCLUSÕES SOBRE O TEMA DEBATIDO NO XXIII EUROENCONTRO OFIR — 2017 “A EUROPA NUMA ENCRUZILHADA ENTRE O POPULISMO, A RESPOSTA ÀS MIGRAÇÕES, A SUA DESAGREGAÇÃO E O FUTURO” Dizem que a Europa se encontra numa encruzilhada. O que é que significa esta expressão? Para todos nós trata-se de escolher entre sair pela “porta grande”, a do êxito, ou pela porta detrás, a que nos leva ao impasse e a um beco sem saída. Qual é o motivo por que a Europa, sessenta anos depois da assinatura do Tratado de Roma, se mostra hoje como uma instituição desprestigiada, questionada e muitas vezes acusada falsamente de todos os males? Melhor, deveríamos dizer: quais são os motivos? Dado que são muitos.

GET—Delegação Espanhola

Sem dúvida alguma, o primeiro é a crise económica que atinge em diferentes níveis não só a economia europeia, mas também todas as ocidentais. As sequelas da crise financeira de 2008 ainda se notam, dez anos depois, e caraterizam-se por um endividamento crescente dos países, um aumento preocupante do desemprego, uma precarização dos mais desprotegidos e um empobrecimento da classe média. Esta crise e as suas consequências sobre a economia dos diferentes Estados membros fazem-nos lembrar a grande crise de 1929. No entanto, tal memória estremece-nos hoje em dia ao pensar na forma como acabaram esses acontecimentos. O segundo motivo importante deste fenómeno antieuropeísta primário reside na situação que tem origem no Próximo Oriente. A queda do regime da Líbia, as revoluções egípcia e mais tarde a tunisina e a guerra da Síria propiciaram que milhares de homens, mulheres e crianças fugissem. Este constante fluxo migratório

reforça em alguns o sentimento de medo e de isolamento. Países do Mediterrâneo como a Grécia e a Itália estão na primeira linha e devem gerir a chegada massiva de imigrantes. Entre as medidas contempladas para dar resposta à situação está a vontade de reduzir o número de travessias e, graças a isto, salvar vidas. Este facto implica intensificar a luta contra os que passam ilegalmente as fronteiras e os traficantes de pessoas no âmbito do programa “sea horse”, que se baseia no equipamento de guardas costeiras de um lado e do outro do Mediterrâneo e principalmente na Líbia, ponto de saída mais frequente. A Grã-Bretanha, cujo atrativo era importante, com a sua decisão de sair da União, o famoso “Brexit”, complica ainda mais a situação de França com os migrantes presos em Calais em condições deploráveis O terceiro motivo de desinteresse dos povos face às instituições europeias poderia denominar-se “tecnocracia”. A censura é recorrente: a falta de transparência, a ausência de comunicação, a complexidade das estruturas e o conjunto de decisões perturba mesmo os nossos cidadãos mais instruídos. A regra da unanimidade, travão de qualquer evolução; o contexto económico dos últimos anos e as distorções de competências relacionados com a ausência de harmonização fiscal. Todos estes fatores contribuíram para este desafeto, mesmo para esta rejeição. A crise do desemprego e o medo da imigração e especialmente do terrorismo interagem entre eles. A crise não só promove o consenso eleitoral para as forças populistas, mas também alarga os efeitos do medo. O medo reforça os impulsos populistas enquanto amplia os efeitos da crise. A crise do desemprego e do medo face ao desconhecido são elementos que fazem com que nos últimos anos o movimento populista tenha estado em

crescimento e que faz muitas vezes considerarmos alguém como terrorista mesmo antes de o considerarmos como imigrante. Populismo quer dizer simpatia pelo povo (povo + ismo) e é a forma de “governar” em que se utilizam os recursos para obter apoio popular, onde se usa e abusa da propaganda pessoal, onde se apela à simpatia das classes sociais mais baixas, sem privilégios económicos ou políticos, para alcançar o poder. Normalmente os lideres populistas apresentam-se como humildes e redentores mas, não raramente, passam a prepotentes e hipócritas. Tal e como a entendemos, a Europa é vítima do populismo que afeta um número crescente de Estados da União Europeia cujas frivolidades nacionalistas, inclusive xenófobas, se manifestam cada vez mais abertamente em países muito diferentes entre si. Agora, os partidos populistas ou eurocéticos nos países da União Europeia são uns cem mais ou menos e encontram-se em 24 dos 28 países da UE. Os movimentos eurocéticos ou populistas, em eleições realizadas em 2016, atraíram um em cada três eleitores. O populismo encontrou o seu lugar na emergência criada pelas crises conjuntas: a económica e laboral, a migratória e também a do terrorismo jiadista. A Sociedade Financeira Fitch colocou já valores à possível vitória dos partidos populistas e eurocéticos nas numerosas eleições que haverá na Europa neste ano: mais de 100.000 milhões de euros. Efetivamente, o aumento do risco político pode ter um impacto importante na economia e nas finanças. O crescimento GET—Delegação Francesa

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CONCLUSÕES SOBRE O TEMA DEBATIDO NO XXIII EUROENCONTRO OFIR — 2017 “A EUROPA NUMA ENCRUZILHADA ENTRE O POPULISMO, A RESPOSTA ÀS MIGRAÇÕES, A SUA DESAGREGAÇÃO E O FUTURO” - Continuação GET—Delegação Portuguesa

da Eurozona pode ser reduzido em um ponto percentual no pior dos cenários. Segundo os últimos dados, 41% da economia europeia (ou seja, o PIB da Alemanha, da França e da Holanda) seria ameaçada pelo Populismo e os Eurocéticos. A estas incertezas teríamos de acrescentar o anúncio recente, no início de março deste ano, na mini cimeira de Versalhes, pelos quatro maiores parceiros (Espanha, França, Alemanha e Itália) de promover ritmos diferentes para que o núcleo da União Europeia possa sair da paralisia e arrastar os mais reticentes, nomeadamente os países de Leste. Isto é: Uma Europa com duas velocidades ou mais. Acresce que, agora, uma grande parte da população alemã pensa que sem o euro estaria melhor e, também, em outros países vê-se uma tendência similar. Os europeus do Norte temem que os milhões desembolsados para resgatar países estruturalmente débeis possam perder-se e os cidadãos dos países em crise consideram os requisitos de apoio e reabilitação vigiados pela UE demasiado duros. Há uns meses, os cidadãos do Reino Unido preferiram Farage, o líder populista do Independence Party e partidário do “Brexit”, aos líderes dos partidos tradicionais, o conservador Cameron e o trabalhista Corbyn. É indubitável que o “Brexit” constituiu um ponto de viragem na história comunitária. Segundo um estudo da London School of Economics o efeito da saída do Reino Unido afetará entre 6,5% e 9,5% o seu PIB, uma situação semelhante à crise financeira dos anos 2008-2010. Nos Estados Unidos da América, o candidato republicano Donald Trump, que é também populista e xenó-

fobo, foi eleito Presidente. Desde há milhões de anos que os homens com características semelhantes sentiram a necessidade de se organizar em grupos, de sair do seu lugar de nascimento e se propagaram pelo mundo. O fenómeno das migrações é, afinal, tão antigo como a humanidade. Hoje, as migrações resultam fundamentalmente da falta de esperança em dias melhores e o modelo de negócio dos traficantes de pessoas volta a estar de novo em alta. Assim surgiu também a chamada imigração ilegal e o processo de reforço das fronteiras para evitar a chegada em massa de pessoas indesejadas. Foi para refletir à volta destes temas e das consequências no futuro da nossa “casa comum” que se juntaram, em Ofir (Porto, Portugal), entre 28 de Maio e 04 de Junho de 2017, cerca de 200 aposentados bancários de sete países europeus (representados pelo Grupo Europeu dos Pensionistas das Caixas Económicas e Bancos). É desta reflexão conjunta que apresentamos as conclusões seguintes:

Há muitos aspetos positivos da construção da Europa. Não podemos nem devemos renunciar a este sonho. Nestes 60 anos têm-se dado resultados significativos: uma paz duradoura, instalada na Europa depois dos dois conflitos mundiais que tinham devastado a Europa e o mundo entre 1914 e 1945; uma verdadeira integração económica e útil em alguns setores (sobretudo na indústria transformadora com alta inovação tecnológica); e o sentido da pertinência à Europa, muito difundido entre os jovens estudantes protagonistas do programa Erasmus proposto em muitas cidades europeias;

do programa Erasmus + para os nossos estudantes. Tantas situações que parecem evidentes na atualidade e que ninguém questiona, exceto para medir as suas consequências;

Temos que explicar às novas gerações, dado que muitas não estão conscientes disso, tudo o que a Europa contribuiu em termos de desenvolvimento agrícola, industrial e de infraestruturas para cada país que se associou a esta comunidade de interesses e ideias;

Sem reformas estruturais a crise não irá terminar;

Tem que se voltar a pensar a Europa humanizá-la, aproximá-la ao cidadão, escutá-lo mais. É conveniente prestar atenção para não cair no isolamento e no protecionismo dogmático;

A Europa vai continuar a ser uma obra constante. Do que precisamos é de um debate aberto e transparente sobre a Europa na qual queremos viver. Desta forma poderíamos conseguir uma renovação da UE: uma sociedade tolerante e aberta ao mundo, uma Europa das cidadãs e cidadãos, porque a UE somente pode continuar a existir se trabalhamos juntos. Devemos admitir a existência de grandes problemas e incertezas, mas a construção da GET—Delegação Italiana

A livre circulação de pessoas e de bens, uma moeda única, os intercâmbios PÁGINA

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CONCLUSÕES SOBRE O TEMA DEBATIDO NO XXIII EUROENCONTRO OFIR — 2017 “A EUROPA NUMA ENCRUZILHADA ENTRE O POPULISMO, A RESPOSTA ÀS MIGRAÇÕES, A SUA DESAGREGAÇÃO E O FUTURO” - Continuação GET—Delegação Alemã

Reduzir as taxas de desigualdade entre os cidadãos europeus; A UE tem de fazer alguma coisa porque o êxito dos populistas que se pode observar atualmente em França, nos Países Baixos e na Alemanha, alimenta-se sobretudo dos sentimentos de insegurança e de frustração do povo;

Europa é um processo que tem garantido a paz e tem possibilitado aos países da União Europeia gozar de um bom nível de vida;

Deve assegurar-se as fronteiras exteriores da U E, porque somente uma imigração legal mais segura e controlada se evitará o fomento do crime organizado e se podem deter os traficantes de pessoas e contribuir para que as vias de entrada sejam seguras possibilitando uma gestão, o registo e a integração dos refugiados;

O contexto atual está cheio de incertezas.

O regresso ao nacional-socialismo, como reivindicam a Front National e Não só estamos ainda longe de ultrapasAFD, teria fatais consequências para sar os efeitos da crise económica, finana Europa: ceira e social, mas agora acresce a estas

Ainda temos objetivos urgentes por abordar

Menos trabalho, menos liberdade no mercado interno, menos oportunidades como a coordenação das políticas econó- de formação para os jovens. A Europa micas, das políticas externas, a união não se deve dividir. Precisa de mais coebancária, o combate contra a corrupção, são e de menos ódio e violência; à fraude e à evasão fiscal e, a médio prazo, a união orçamental para alcançar um Manifesta-se um sentimento de isolamaior crescimento, melhor distribuição mento mais ou menos pronunciado, da riqueza assim como a redução do desemprego com salários dignos; consoante os países, e movimentos políticos ou novos partidos nasceram aproA ideia fundamental da UE foi a solida- veitando o medo e a preocupação dos seus cidadãos. Este fenómeno de isolariedade entre os Estados. mento, estes discursos nacionalistas, por Mas a afluência de refugiados significa vezes xenófobos, e a ideia de restabeleum desafio ainda maior para a Europa cer fronteiras internas são sentimentos que a anterior crise económica e mone- incompatíveis com o princípio europeu tária. O desacordo dos Estados não é de livre circulação de pessoas e de bens, benéfico porque do que precisamos que era o que queriam os seus fundadourgentemente é de uma solução euro- res; peia conjunta;

crises a crise política e de liderança que pode ameaçar o futuro do projeto europeu. O “Brexit”, a gestão dos refugiados e os ajustes nos países do sul da Europa estão na agenda europeia. Na declaração final depois de dois dias de reuniões na China, as 20 economias principais do mundo sublinhavam a saída do Reino Unido da UE como um fator de mais de instabilidade global;

O Parlamento Europeu deveria ter capacidade para legislar de forma imediata. Terá de se acabar com a ratificação que permite a cada Estado a execução das leis, após a aprovação de cada Parlamento, já que esta aprovação pode demorar anos.

Falta um conceito sobre uma política Certamente que a Europa pode melhorar mas, do nosso ponto de visA fonte do populismo são as políticas responsável de refugiados. ta, prescindir dela seria um grave de austeridade que os dirigentes europeus ditaram à sua gente. Por exemplo, combater as razões que erro.

Para outros, no entanto, o elemento que favoreceu o auge dos movimentos populistas é a entrada desorganizada e ilegal dos imigrantes na Europa como resultado das crises que surgiram em África e no Próximo Oriente. No aspeto social, a realidade da imigração ilegal parece ter feito aumentar a simpatia pelo movimento populista;

provocam a evasão: deixar imediatamente de proporcionar armas às regiões afetadas, porque a guerra e a guerra civil, a violência por parte do Estado e os terroristas nos países de origem são fatores decisivos para a fuga e, além do mais, temos que investir nos países emergentes e no desenvolvimento para melhorar consideravelmente as condições de vida das pessoas;

Resta a quem escolhe os governos, os eleitores, saber fazer a escolha certa. Dessa escolha pode depender a salvação da Europa. GET – Grupo de Estudos e de Trabalho PÁGINA

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“EUROPA ENTRE UMA MEMÓRIA FRACA E UM FUTURO INCERTO UMA HISTÓRIA RICA E DRAMÁTICA” A Europa tem muitos séculos atrás de si -Jugoslávia no início dos anos 90 e, em de graça, logo dilacerado por aquele atentae espero que muitos mais ainda pela menor medida, no sul do Cáucaso e, mais do em Sarajevo em 8 de junho de 1914, recentemente e com mais severidade na detonador da Primeira Guerra Mundial: sua frente. Ela surgiu na história do Ocidente como um pequeno promontório da Ásia e converteuse, depois de séculos de expansão cultural, económica e política, no centro do mundo por um longo tempo, reencontrou novamente hoje as dimensões daquele promontório cúmplice do desenvolvimento tumultuoso dos outros continentes e vítima de si própria e daquele ato suicida com a data da primeira guerra mundial, há cem anos atrás.

Depois de séculos de guerras "civis", entre povos mais rivais do que irmanados, a Europa parece ter-se arrependido depois de duas trágicas guerras mundiais, que deixaram dezenas de mortos na sua terra. A metade do século passado marcou uma censura nesta história de violências sem fim, causadas por interesses económicos divergentes e rivalidades políticas, por vezes acompanhadas por conflitos religiosos. O dia 9 de maio de 1950, passados apenas cinco anos desde o fim da Segunda Guerra Mundial, a memória dos incontáveis conflitos e a sabedoria de políticos europeus clarividentes, resultou numa "Declaração" do ministro dos Negócios Estrangeiros Robert Schumann, que chamava os povos beligerantes (começando pela França e Alemanha) para as políticas de cooperação para reconstruir a Europa e para consolidar a paz. Uma aposta que até agora se conseguiu alcançar em grande parte, pelo menos nos países que, gradualmente, se juntaram à aventura da integração comunitária, mas sem esquecer os conflitos que eclodiram nas fronteiras da Europa, como o caso da ex

Ucrânia.

deveria ser uma "Blitzkrieg" (guerra relâmpago) e durou quatro anos. Ela saldou-se Hoje, passados cem anos desde o "massacre por dez milhões de mortos, mudou o curso inútil" da Grande Guerra - também chamada política mundial e foi um suicídio para a da, não por acaso, "Guerra Europeia" e Europa. depois de mais de sessenta anos desde a "Declaração" de Schumann, a Europa vê-se No pequeno continente europeu, numa imersa em turbulências inquietantes e volta área relativamente confinada, enfrentarama sentir-se como cedem os cimentos se até se dissolverem quatro impérios e não comuns construídos com grande paciência e foi suficiente o Tratado de Versalhes, assinaexpandidos ao longo do tempo, desde os do em Paris em 1919, para reconstruir o primeiros seis países fundadores até aos continente; mas a reconstrução da Europa a vinte e oito de hoje. partir de uma base étnica, a modificação de fronteiras e, acima de tudo, a dura punição Dezanove deles tentaram dar um passo imposta à Alemanha, juntamente com os adiante através da adoção da moeda nacionalismos emergentes, foram a fonte de comum, o euro, que se por um lado estabedesconcertos políticos, especialmente com leceu uma forte união política, por outro foi os regimes totalitários na Alemanha, Itália e acusado de fazer pagar, durante a longa Rússia, que contribuíram para desencadear, crise económica, preços demasiado elevaapenas vinte anos mais tarde, a segunda dos aos países membros mais fracos, aos guerra mundial. quais o Banco Central está tentando ajudar nas suas últimas intervenções. Desta vez, o teatro de guerra tinha-se espalhado do Ocidente até ao Oriente, com sesUma história de experiências valiosas, muisenta milhões de mortos nos campos de tas delas positivas e outras negativas, a parbatalha, nos campos de concentração e nas tir das quais começar novamente para conticidades em ruínas, de Londres a Dresden nuar a aventura da construção europeia, passando por Hiroshima e Nagasaki. Seguiuavaliar a sua força e fraquezas de hoje e se um novo tratado de paz assinado novaquestionar-se sobre os possíveis desenvolvimente em Paris em 1947: por um lado, as mentos futuros. potências vencedoras, incluindo a França, Sem atravessar a rica história da Europa de Reino Unido, Estados Unidos e União Soviénovo, mas sem esquecer as suas origens tica, e por outro os derrotados, incluindo a culturais que a viram crescer no grande Itália. A Alemanha não teve que assinar continente euro-asiático, basta parar nas qualquer coisa, tinha sido praticamente suas vicissitudes do século passado para expulsa como um estado soberano e como retornarem à memória tragédias e ressurgi- um parceiro internacional, nem sequer houmentos de uma região fragmentada e à ve ratificação da Administração norteprocura de uma nova coesão. americana, que tinha escolhido uma política A Europa, em resultado de culturas e identi- isolacionista. dades rigorosamente plurais, entrou no século XX com o impulso de uma economia lançada pela industrialização do século anterior e por um forte desenvolvimento do comércio e dos serviços financeiros: não é por acaso que se fala daquela época como a "primeira globalização".

Uma nova ronda de relações internacionais foi aberta em Yalta: os três Grandes (Estados Unidos, Reino Unido e União Soviética - a França não tinha sido convidada) repartiram as áreas de influência na Europa e puseram em marcha a Organização das Nações Unidas (ONU), que nasceu em 24 de outubro de 1945 com o Tratado de San Francisco e foi criada para substituir o "fantasma" da Liga das Nações (SDN), criada a partir do Tratado de Paris em 1919 e extinta sem grandes remorsos em 1946.

Os Estados nacionais coexistiram com as tensões políticas, também alimentadas por impulsos de colonização após a divisão do mundo acordada na Conferência de Berlim de 1884, pela qual se aliaram entre si e se expuseram às consequências de potenciais Nasceram neste clima novas iniciativas e conflitos. Eram anos em que a Europa da uniões internacionais. Entre as principais, a “Belle Époque” parecia viver um momento adoção em 1948 da Carta dos direitos uniPÁGINA

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“EUROPA ENTRE UMA MEMÓRIA FRACA E UM FUTURO INCERTO UMA HISTÓRIA RICA E DRAMÁTICA” - continuação versais e a criação em 1949 do Conselho da Europa, com sede em Estrasburgo, hoje composto por 47 países, incluindo todos os da UE, Turquia e Rússia. Em Abril de 1951 criou-se, com o Tratado de Paris, a Comunidade Europeia do Carvão e do Aço (CECA). Foi inaugurada pelos grandes estadistas do momento: Robert Schumann e Jean Monnet, de França, Konrad Adenauer da Alemanha, Alcide De Gasperi de Itália e Paul-Henri Spaak, da Bélgica. Começou uma grande aventura, um projeto único no mundo para criar uma "democracia entre nações”, após os resultados negativos dos regimes políticos baseados numa ideia inesperada de" nação "e que levaram à tragédia das duas guerras mundiais que tinha destruído a Europa e perturbado o mundo. " Começou então para a Europa uma história complexa, com momentos de crise seguidos por relançamentos, no entanto sem um progresso ainda significativo no sentido da união política como desejado pelos fundadores, um sonho que se tornou mais difícil com vinte e oito países membros e um clima generalizado de desconfiança, ou uma declarada hostilidade, face às atuais instituições da UE. UM PRESENTE DIFÍCIL Nos últimos anos têm coincidido eventos difíceis para a Europa, marcados por uma crise financeira e económica sem precedentes, com os fluxos migratórios massivos e os conflitos armados nas suas fronteiras que tiveram um forte impacto social e político para a União Europeia.

to significativo, enquanto os outros países registaram uma imobilidade substancial, em alguns casos, seguido por períodos de recessão e recentemente por sinais fracos de melhoria. O impacto da crise foi forte ao nível social: o desemprego cresceu, superando na zona euro o limiar de 10%, com quotas muito altas e preocupantes para o emprego de jovens: um jovem em cada dois é desempregado em Espanha, e um em cada três em Itália.

pelo Banco Central Europeu, surgiram dois governos - o alemão e o francês - decididos a tomar "a oportunidade da crise" para assumir o comando de uma União incerta e dividida. Quem tenha comparado este "conjunto" com o lendário "eixo francoalemã" de há muito tempo, poderá ter pensado que se teria enganado no momento histórico. Após a unificação alemã em 1990, com a chegada dos novos líderes ao poder na Alemanha e França e a devastação causada pela crise financeira, o cenário político e económico de ambos os lados do Reno mudaram profundamente.

As pessoas em situação de pobreza superaram na Europa o limite dos 60 milhões e, de A Alemanha tornou-se o país mais importanacordo com o Eurostat, na Europa, uma em te na UE, de longe, não só pelas suas dimencada quatro pessoas está em risco de pobresões demográficas, mas também pela sua za. força económica e a sua entrada em cresciFicou claro que o acumular de tantas crises mento nos mercados europeus e mundiais. traria consigo crises políticas, e não apenas Ela tornou-se claramente numa nova ambiem alguns países da zona do euro, mas tam- ção política para a UE, que também se bém nas cimeiras da União Europeia. expandiu para as fronteiras orientais da Nos últimos anos caíram na crise os gover- Alemanha, que ainda se recusa educadanos da Irlanda, Portugal, Grécia e, por duas mente a assumir o papel de guia da UE. vezes, também o da Itália. Na Grécia e na Itália, a política é forçada a abrir espaço para os "técnicos", até arriscar-se a experimentar novas formas de delegação, fazendo surgir perplexidades baseadas na saúde da nossa democracia e da capacidade da política no momento de assumir as suas responsabilidades.

Especialmente grave foi a crise financeira e económica na Grécia, obrigada a repetir eleições e a políticas de austeridade severas que também ajudaram a pôr de joelhos um país que, só no Verão de 2015, pôde respirar um pouco mais graças a um acordo com a UE e o Fundo Monetário Internacional, cuja O impacto da crise financeira e económiaplicação ainda é frágil. ca

Para França foi diferente, um país com crescente dificuldade seja no seu interior, seja a nível internacional, cujo papel se foi reduzindo; no entanto, ainda mantém algumas posições conquistadas no pós-guerra como no caso do Conselho de Segurança das Nações Unidas ou no âmbito do Fundo Monetário Internacional, depois de pequenos eventos de júbilo para o orgulho francês, também agravados pelo que se passou na direção do Banco Central Europeu, em que Mario Draghi substituiu o francês Jean-Claude Trichet.

Neste contexto, temos de reinterpretar a imagem do “eixo franco-alemão" por aquilo que é: pedalado por dois e com uma força diferente, mas em que só um manda, o de Angela Merkel, a chanceler alemã sob uma crescente crítica não só na UE mas também A fragilidade das instituições europeias recentemente no seu país após as suas forIgualmente interessante - e sob alguns aspe- tes tomadas de posição sobre o acolhimento tos perturbador - é o que aconteceu nas de refugiados sírios. instituições europeias e seus arredores. O As eleições europeias de junho 2014 confirtrabalho diário da Comissão Europeia conti- maram as dificuldades que atravessa a UE, nuou sem encontrar, até recentemente, a dando um grande consenso a áreas políticas capacidade de iniciativa que lhe tinham con- eurocéticas com predominância populista, fiado os Tratados para fazer avançar a inte- mas sem punir negativamente os dois maiogração europeia, acabando sempre num res grupos europeus, o Partido Popular conflito de interesses divergentes apareci- Europeu e o Partido Socialista Europeu, de dos no Conselho Europeu e pouco alimenta- que são, respetivamente, a expressão do do pelas boas intenções do Parlamento Presidente da Comissão Europeia, Jean ClauEuropeu. de Junker, e Martin Schulz, atual presidente

A crise financeira manifestou-se principalmente por meio de um desequilíbrio das contas públicas em muitos países europeus: alguns estão fora do limite acordado para o défice, como a Irlanda, Reino Unido e Espanha, mas também a França e Itália, com um desequilíbrio relativamente contido; mais alarmante é a situação da dívida pública, em particular na Bélgica, Irlanda e Portugal, mas especialmente na Itália e na Grécia. Desequilíbrios que levantaram receios de banca rota e que mantiveram em alerta a União Europeia e a sua moeda comum. As consequências da crise financeira sobre a economia real foram desastrosas: na zona do euro, apenas a Alemanha alcançou um crescimen- Neste vazio institucional, apenas moderado do Parlamento Europeu.

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“EUROPA ENTRE UMA MEMÓRIA FRACA E UM FUTURO INCERTO UMA HISTÓRIA RICA E DRAMÁTICA” - continuação Uma União Europeia com afã O quadro europeu foi profundamente alterado pela progressiva expansão territorial da UE, que cresceu a partir dos seis países fundadores para os atuais 28 com a chegada - a última- da Croácia e ferida por uma crise financeira e económica sem precedentes na sua história e abalada por empurrões nacionalistas e populistas; Encontrou mais obstáculos no caminho da integração política, hoje já mais rápido, entre os que adotaram a moeda única, aqueles que a querem adotar, aqueles que se arriscam a sair dela e aqueles que não parecem amá-la de todo. Ou de muitos que assinaram o Tratado de Schengen, que não o adotaram e aqueles que suspenderam unilateralmente a sua aplicação nos últimos meses. No âmbito da própria UE, mudou a importância económica e política dos próprios países: foram postos à margem países "menores" como a Grécia, Irlanda, Portugal; perderam a iniciativa os países do Benelux, Espanha está em dificuldade, a Polónia propõe algumas ambições, a Itália tenta recuperar a iniciativa; da França e da Alemanha já falei. Falta entender melhor o projeto que é perseguido pelo Reino Unido e o seu atual jovem líder David Cameron, o promotor de um temerário referendo em Junho, sobre se deve ou não ficar entre os países da UE.

O projeto europeu no novo contexto internacional No contexto internacional, a UE terá de equacionar o seu projeto de futuro, sem tentar reencontrar a centralidade do mundo que pertence ao passado, mas sem renunciar a tecer novas relações quer com os seus vizinhos e aliados tradicionais quer com os novos poderes emergentes, especialmente com o Oriente. Nos seus limites próximos, a União Europeia deve estar de acordo com essa conceção de reunificação europeia, iniciada após a queda do Muro de Berlim em 1989 e que já ajudou dez países da UE a sair da órbita soviética: um caminho que se segue com a recente adesão da Croácia, na pendência de negociações com a Macedónia e Montenegro, enquanto esperam para se juntar Á U E a Sérvia, a Bósnia-Herzegovina, Albânia e Kosovo; expansão até à Islândia foi suspensa.

Mas é em suas fronteiras leste e sul que a países vizinhos, muitas vezes conduzidos por União Europeia tem o seu teste mais difícil. líderes míopes e sem ambição ou muito relutantes em tomar grandes iniciativas. Na Para o leste, nas difíceis negociações penUE é necessária uma "manutenção extraordentes com a Turquia nas suas fronteiras dinária", inspirada por um novo projeto polínorte com os países do Cáucaso Meridional, tico, apoiada por instituições profundamenvinculados com a UE no âmbito da política te reformadas e, acima de tudo, colocada de proximidade. As negociações de adesão nas mãos de cidadãos ativos, finalmente, da Turquia vivem uma fase de estagnação, determinado a construir a "sua" União, uma justificadas cada vez mais por razões econóUnião que não subestime a união dos Estamicas, culturais e políticas, e agravadas pela dos, que a represente muito melhor, emborecente política do "sultão" Erdogan tentado ra seja uma União muito mais difícil de criar. por um retorno aos tempos do Império Otomano e responsáveis por violações graves Só nestas condições a paz poderá ser para a dos direitos fundamentais, como a liberdade nova Europa não apenas um objetivo, como de imprensa. Mas a Turquia continua a man- é agora, mas antes um valor para prosseguir ter um papel político e militar numa área "sem ses e sem mas"; uma Europa enraizada com alta instabilidade, como o Médio Orien- na solidariedade entre os muitos e diferente, onde a Europa tem dificuldade em gerir o tes povos europeus; fundada na justiça à movimento dos fluxos migratórios maciços. frente da legalidade, para que se possa forIsto é o que está acontecendo no conflito na mar uma sociedade inclusiva na qual todas Síria, que causou centenas de milhões de as culturas que se inspiram na tolerância e vítimas e mais de dez milhões de refugiados: em regras da democracia possam dialogar. a frágil trégua atualmente em vigor ainda Não se trata de tentar consertar um carro está longe de ser uma paz consolidada numa velho que certamente já prestou muitos área onde há um conflito de interesses entre serviços, mas que já não pode satisfazer os o Irão e a Arábia Saudita e onde não é possínovos desafios do mundo global. Para se vel encontrar solução para o eterno conflito poder avançar são necessários agora novos entre Israel e a Palestina e as transições não cidadãos europeus, um novo tratado, novas resolvidas para a democracia no sul do instituições, novas políticas, novos líderes e Mediterrâneo, especialmente na Líbia, onde novos horizontes-mundo. se manifestam interesses pouco claros das potências mais interessadas no Mediterrâneo, mais interessados do que às vezes a Novos cidadãos europeus União Europeia se pode mostrar. A União Europeia que nos foi entregue pela história foi criada há sessenta anos pelos fundadores visionários e corajosos, consUM FUTURO PARA RECONSTRUIR cientes da necessidade de salvaguardar e A União Europeia tem-se visto nos últimos consolidar a paz alcançada após os trágicos anos em dificuldades para gerir a crise que a anos da Segunda Guerra Mundial e depois tem afetado e para manter a coesão, tanto de séculos de conflitos em todo o contineneconómica como política, dentro dela, assim te. O primeiro projeto de comunidade eurocomo na hora de desempenhar o seu papel peia contemplava a ideia de ligar os interessignificativo no mundo. Se a UE continuasse ses económicos e comerciais dos países viziassim, haveria pouco a apostar sobre o seu nhos e servia-se de regras complexas que futuro sobre o euro e, talvez, na sua busca visavam traçar um caminho progressivo até contínua e apaziguadora por uma unidade à integração política. política num continente historicamente dividido e continuamente em conflito, às vezes Para este projeto chamou-se uma tecnocracia organizada e eficiente que ajudou a que armados, no seu interior. as instituições seguissem para a frente, conA "manutenção de rotina", na qual os acorseguindo os objetivos estabelecidos, às dos existentes são baseados não poderá vezes até mesmo antes dos prazos, como no salvar por muito mais tempo o colapso polícaso da união aduaneira criada em 1968. tico da União Europeia e o declínio económiPara tanto aqueles protagonistas do primeico. ro capítulo da integração, políticos A Europa está numa encruzilhada: ou criar "visionários" da época e da tecnocracia instium novo projeto corajoso ou está destinada tucional, tratou-se de vanguardas e de a desaparecer entre as disputas dos seus "elites", impulsionadas por uma visão polítiPÁGINA

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“EUROPA ENTRE UMA MEMÓRIA FRACA E UM FUTURO INCERTO UMA HISTÓRIA RICA E DRAMÁTICA” - continuação ca e de perspetiva dos novos interesses eco- damente a história da integração europeia: a nómicos e comerciais que puderam surgir partir da Comunidade Europeia do Carvão e daquele desenho. do Aço, em 1951, até ao presente Tratado de Lisboa, que entrou em vigor no final de Durante os primeiros anos do pós-guerra, a 2009. Relidos na sua sucessão marcaram participação ativa dos cidadãos foi mais consempre um ponto de progresso para o desetida, quando segundo eles prevaleciam as nho europeu, como no caso do Tratado de urgências da vida diária e as suas organizaRoma em 1957 ou o de Maastricht em 1992, ções sociais conduziam a lutas para a reconaté ao Tratado atualmente em vigor. Mas quista de direitos negados por muito tempo. nem sempre as promessas feitas foram Em Itália, por exemplo, o primeiro sindicato totalmente mantidas, ou pela resistência de de trabalhadores continuou por muitos anos alguns estados membros ou porque foram a opor-se ao projeto comunitário no qual bloqueadas por conjunturas económicas e prevaleciam os interesses do capital antes políticas que levaram os países vizinhos a que os dos trabalhadores. E assim, entre jogar sozinhos, fazendo valer os seus intecontrastes, diferenças e tímidas adesões resses à frente dos da União. populares, o projeto comunitário avançou nas suas realizações, sem fazer uso de uma Uma mudança radical política significativa grande participação popular e a situação não poderia ter resultado do Tratado que instimelhorou nem significativamente quando, tuiu a Comunidade Europeia de Defesa, não em 1979, os cidadãos europeus foram cha- ratificado pela França em 1954, nem, depois, mados a votar para eleger pela primeira vez por aquele "projeto de Constituição Europor sufrágio universal direto, o Parlamento peia" afundado, também pela França e Europeu. Além disso, ao longo dos anos e os depois pela Holanda, em 2005. Neste último novos alargamentos, a participação eleitoral caso, nem tudo foi perdido e elementos foi-se reduzindo até alcançar, pouco menos importantes desse projeto foram retomados de quarenta anos mais tarde, os picos de no Tratado de Lisboa, assinado em 2007 e abstencionismo em torno de 50%. que entrou em vigor dois anos mais tarde, depois de várias aventuras. Não passa despercebido a ninguém que nas novas condições de hoje e com uma União Hoje, apenas dois anos após a sua entrada por reconstruir depois das muitas crises de em vigor, muitas vozes avisadas levantam-se que foi vítima, mas também responsável, para pedir que um novo tratado seja produseria uma ilusão reabrir o projeto da integra- zido. Até mesmo a da chanceler Angela Merção europeia sem ser associado de uma kel, depois de ter imposto em 2012 um acorforma mais direta aos cidadãos, em primeiro do intergovernamental (chamado "pacto lugar na elaboração do novo projeto de fiscal" ou "União de equilíbrio") que, se tudo União Europeia e, em seguida, na sua gestão correr bem, irá operar temporariamente diária. Não é uma tarefa fácil, mas necessá- numa União Europeia com uma moeda única ria, que se deve traduzir numa pedagogia mas não um governo comum da economia e paciente para explicar a complexidade da menos ainda de uma política fiscal, pelo aventura europeia e mobilizar os cidadãos menos harmonizada entre os Estadospara apoiar um projeto em que se reconhe- Membros. çam. Se este acordo se tornasse realidade, eram Jean Monnet, o pai e arquiteto das primeiras necessário introduzir muitas acrobacias comunidades europeias, declarou nos últi- legais no Tratado em vigor e fornecer-lhe o mos momentos de sua vida que "se eu tives- apoio operacional das instituições comunitáse que começar de novo, começaria pela rias. Finalmente, outro remendo que nos cultura". Talvez na União Europeia de hoje, lembra um discurso memorável de Altiero ele diria que é necessário "iniciar pelas cul- Spinelli no Parlamento Europeu para conturas " as de muitos povos, europeus e não- vencer a União da necessidade de reescreeuropeus, que vivem e continuam a chegar à ver radicalmente os seus tratados. Naquela Europa e que precisam de uma nova Europa época Spinelli, que muitos agora voltam a multicultural. citar, evocou a obra de Ernest Hemingway, O Velho e o Mar, em que conta a aventura de um velho pescador que sai para o mar aberUm novo Tratado da UE to num pequeno barco cuja "vela era remenOs Tratados comunitários marcaram profun- dada com sacos de farinha e quando fechado parecia uma bandeira de derrota perene.

" Para Spinelli essa era a imagem da Europa na época e, infelizmente, também a de hoje.

Novas instituições europeias Os Tratados europeus desde os primórdios das Comunidades Europeias até ao atual da União Europeia, foram construídos sobre um modelo institucional, cuja originalidade e complexidade se revelaram úteis para seguir o caminho da integração europeia, mas são insuficientes para realizá-la. A tentativa, nos primeiros tempos conseguido, foi buscar um equilíbrio entre as instituições com predominante vocação soberana e aquelas que defendiam os legítimos interesses nacionais, um sistema de tração que deveria ter chegado gradualmente a uma original e inédita "democracia entre as nações com características diferentes das experimentadas "democracias nas nações" típica dos Estados Membros”. O modelo funcionava melhor quando a comunidade era composta por poucos países, politicamente mais coesos entre eles; começou a ir mal com o aumento dos Estados-membros, portadores de projetos de integração divergentes e muito ciosos de sua própria soberania: entre estes, a França e a Grã-Bretanha e também muitos dos países da Europa Centro-Oriental que esta soberania tinha conquistado havia pouco tempo, e da qual se mostram muito ciosos. Agora teremos de encontrar equilíbrios mais avançados, que reforcem a vocação soberana da ordem institucional europeia: A Comissão Europeia, detentora do poder de iniciativa, mas também o futuro executivo da UE, um verdadeiro governo cujo presidente deverá desfrutar de uma forte legitimidade popular, graças à sua eleição direta, seguindo a experiência positiva feita após as últimas eleições europeias; Um Parlamento Europeu reforçado nos seus poderes e uma "Casa dos povos" em diálogo com o Conselho Europeu "Câmara Federal", em representação dos territórios da União; um Tribunal de Justiça confirmado no seu poder jurisdicional, com progressivas funções de Tribunal Constitucional Europeu. Será necessário tempo para realizar todas estas reformas, mas também é muito urgente consegui-lo porque a história não vai esperar para a Europa-tartaruga do passado.

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GRUPO EUROPEU DE PENSIONISTAS DAS CAIXAS ECONÓMICAS E BANCOS

“EUROPA ENTRE UMA MEMÓRIA FRACA E UM FUTURO INCERTO UMA HISTÓRIA RICA E DRAMÁTICA” Novas políticas europeias De pouco serviria um novo Tratado e novas instituições europeias se não tivessem colocado ao serviço de novas políticas da UE, para reformar as já existentes e fazer face aos novos desafios que esperam a Europa. Embora haja muito para reformar nas atuais políticas da UE, a crise atual tem mostrado, começando com as desventuras daquela União económica e monetária tão desequilibrada quanto à moeda e de obsessivas políticas de austeridade e substancialmente sem um governo europeu da economia. Uma "cocheira", como denunciou Carlo Azeglio Ciampi, que a UE está a pagar cara e que se terá de corrigir o mais rápido possível. Para tratar o problema de raiz terão de se rever as competências da UE em matéria fiscal e, mais genericamente, em matéria de equilíbrio que não pode ser deixada às "soberanias nacionais", também chamadas a dar poderes mais amplos à UE também no que diz respeito à política externa e de segurança, se quisermos que a Europa volte a contar para o mundo. Além disso, será necessário um maior empenho no aspeto da política social, incluindo uma convergência progressiva dos sistemas de bem-estar, para uma coordenada tutela dos direitos e luta contra a exclusão. Em 1951, a política comum no domínio do carvão e do metal foi uma escolha corajosa. Hoje, sê-lo-ia o de uma política comum da investigação e da energia: não só para aumentar a vantagem competitiva da UE nos mercados internacionais, mas também para alimentar uma política ambiental comum para salvaguardar o planeta. Em 2015 foi dado um novo passo nesse sentido e podem -se esperar mais progressos na política ambiental na sequência das conclusões positivas da COP 21 em Paris, em dezembro passado. Novos líderes europeus Tratados, instituições e novas políticas não iriam muito longe se não forem levados a cabo pela determinação de homens e mulheres capazes de assumir a responsabilidade para o bem comum de prosseguir, fortalecidos pelas suas competências e, mais ainda, pela relação constante e cuidado com seus cidadãos e não só os de seu eleitorado não só da sua nacionalidade, mas com todos os europeus e não europeus que vivem no território da União.

A nova classe dirigente deque a Europa precisa não deve obedecer apenas a critérios de origem, para não desbaratar recursos valiosos entre aqueles que, ao longo dos anos, têm trazido memória e experiência à aventura comum e para formar equipas que recolham todo o melhor que podem para o legar a diferentes gerações. Acima de tudo precisamos de líderes humildes na hora de escutar, preparados para enfrentar problemas, democratas para encontrar soluções em conjunto e que trabalhem em equipa para não nos fazer correr o risco de "um só comando" e atentos para ouvir as vozes desses "corpos intermédios "nos quais Montesquieu depositou a sua confiança para consolidar a democracia dos três poderes independentes entre eles. Nem tudo está por inventar, mas há muito para construir, com o trabalho político de todos os cidadãos e não apenas das "elites" porque só assim pode tomar forma uma "União dos povos" e não apenas uma União de Estados, útil nos últimos tempos, mas inadequada para enfrentar os de hoje. Novos horizontes europeus

política, na esperança de não ter que ativar a militar para a qual, na verdade, está menos equipada mas deverá provavelmente reforçar as alianças a que pertence. Os novos horizontes da Europa começam a partir de suas fronteiras imediatas com os países candidatos à adesão à União Europeia o a associar-se de forma mais estreita: a resposta está na estratégia de alargamento que deve continuar as condições acordadas e na da política de proximidade, particularmente na área do Mediterrâneo, para os que até agora não satisfazem as condições estabelecidas para o alargamento. Mas a Europa deve olhar mais longe: no norte aguardam novas oportunidades para rever e melhorar as suas relações com a Rússia e no sul o dever, mas também o interesse, de assumir o desenvolvimento de África, seu "continente vizinho". No oeste, para lá do Atlântico, as mudanças políticas em curso na América Latina, nas ex-colónias europeias, com respeito ao "laboratório" das democracias europeias, às quais têm muito a ensinar; também com os EUA serão necessárias clarificações, não só a propósito de alianças militares existentes, mas também pelo acordo entre dois modelos de sociedade que pode ser uma ocasião de ensino recíproco. As negociações atualmente em curso entre a UE e os EUA para um tratado transatlântico sobre o comércio e o investimento (TTIP) será uma oportunidade útil para o esclarecimento essencial.

Vista no mapa do mundo, a Europa é uma península de dimensões modestas, a ponto de despertar em Paul Valéry a seguinte pergunta: "A Europa se tornará no que realmente é, ou seja, um pequeno promontório do Continente asiático?". Se contasse apenas a geografia, a resposta a essa pergunta seria clara, mas como conta, e muito, também a história e as intenções livres do homem, E, finalmente, na Ásia, o futuro próximo do tudo se torna mais complexo e aberto a mundo em que emergem duas grandes diferentes resultados. potências económicas, comerciais e políticas como China e Índia, dois países-continente Na sua história, a Europa conheceu séculos muito diferentes entre si e protagonistas de grande presença em muitas regiões do importantes das mudanças em curso a nível mundo, nomeadamente a partir do século mundial, não imunes a possíveis surpresas de descobertas, aos quais se seguiram lonquanto aos resultados políticos, ou mesmo gos períodos de dominação colonial. Isso já é militares, como no caso da China. uma consideração que pertence ao passado da Europa e espera-se que ninguém mais Novos horizontes-mundo aguardam a Eurosinta nostalgia por ele. pa: são desafios a que seria dramático acorrer tarde, como muitas vezes aconteceu nos Hoje, a presença no mundo é medida por últimos tempos. diferentes dimensões: a das armadilhas e da contaminação cultural, a das trocas comer- Cabe a nós, cidadãos, entrar em jogo para ciais e financeiras e das redes de informação que o grande desafio mundial que está sene até mesmo a da capacidade política e mili- do jogado não nos force a ter o papel passitar para controlar territórios e orientar a vo de espectadores. política dos Estados "hipoteticamente sobeFranco Chittolina ranos". Conferencista convidado em CHIANCIAA Europa tem hoje a capacidade de ativar NO TERME eficazmente as primeiras destas alavancas do mundo, sem ter que renunciar àquela PÁGINA

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A EUROPA E OS SEUS “POPULISMOS”

Um fantasma percorre a Europa: o fantasma do populismo. Implica riscos, precisa análises, exige compreensão e exige reações coletivas e pessoais. 1—É um fenómeno importante Eis um rápido percurso por opiniões de diferentes origens geográficas e ideológicas a propósito da importância que o “populismo” contemporâneo tem. Primeiramente os que, por causa do populismo, temem um colapso iminente da ordem liberal que foi iniciado no pósguerra. Mesmo que não cheguem a serem iguais, os posicionamentos chamados populistas afetam e vão afetar a União Europeia. De facto, as perspetivas de Jean-Claude Juncker, o chefe do executivo europeu, não são muito animadoras. O facto é que estes populismos põem em risco a existência da União Europeia. Em termos muito mais concretos estão os que temem que por causa disto o crescimento da Eurozona possa reduzir-se num ponto percentual, mais ou menos 104.500 milhões de euros, num contexto de deriva securitária que teve lugar nos 14 países europeus analisados pela Amnistia Internacional. Mesmo assim, não se trata de afirmar, tal e como Richard Falk disse, que haja por cá necessariamente elementos préfascistas. Mas também não podemos negá-lo a priori. 2—Quem são? O jornal Espanhol ABC proporcionou uma lista de populistas no ano 2016: Bernie Sanders, Donald Trump, Marine Le Pen, Jaroslaw Kaczynski, Pablo Iglesias, Alexis Tsipras, Yanis Varoufakis e Beppe Grillo. A lista, como os senhores vão poder observar, está incompleta mas mesmo assim permite já algumas observações. A primeira é que, de facto, a lista inclui os lideres da chamada “direita” e da chamada “esquerda”; a segunda é que num só país, como no caso dos Estados Unidos da América, aparecem o democrata mais de esquerda (o pré-candidato frente a Hilary Clinton) que fez mesmo uso continuado da palavra “socialismo” e o presidente atual, que não é de forma nenhuma de esquerda. No governo há pessoas como Trump e Kazynski de direita ou Tsipras de esquerda e pessoas que têm

um acesso muito difícil a ele como Varoufakis. O quadro publicado por The Economist (dados de 2015) mostra que a nossa lista está incompleta e permite também ver, de novo, que “populista” é um adjetivo que pode ser aplicado à direita e à esquerda. Pode ser observado que no caso de Sanders e Trump os dois são populistas, mas têm tendências políticas diferentes – “esquerda” e “direita” respetivamente na Grécia há duas possibilidades populistas, uma de “esquerda” (Syriza) e outra de “direita” (Aurora Dourada). No caso da Itália proporciona só dois, a Lega Nord e Forza Italia (o partido de Berlusconi), mas não inclui o 5 Stelle que algumas pessoas classificam como populista pela sua base empírica ainda que, provavelmente, não o seja tanto como a Lega Nord. O contraponto de Donald Trump é preciso porque parece que não são fenómenos independentes. Tome-se por exemplo, a frase “Não me interessa defender um sistema que, durante décadas, serviu aos interesses dos partidos políticos em detrimento das pessoas. Membros desse clube (consultores, recenseadores, políticos, tertulianos e lobbies) que ficaram ricos ao mesmo tempo que as pessoas [...] ficavam mais pobres e isoladas”. Esta frase poderia ser de Pablo Iglesias ou de Donald Trump (a frase é deste último). E o facto é que, progressivamente, estão a organizar-se por todo o mundo. A sua tendência é a manipulação que faz com que as suas posições eleitorais não coincidam com as suas práticas posteriores quando eles chegarem ao governo como no caso de Trump nos Estados Unidos de América e Tsipras na Grécia. É preciso advertirmos de uma coisa: a existência de partidos ou comportamentos políticos classificados como “populistas” muda muito de um país para outro. Atuam fatores históricos e geográficos, diferenças nas condições políticas e económicas locais, tal como veremos depois. Mas, de momento, basta indicarmos os que, de um ponto de vista quantitativo, são os dois extremos do “populismo” na Europa. Por um lado, Portugal no qual, segundo António Guter-

res, “o populismo não dá votos” e, por outro lado, a Itália, em que podemos dizer que quase todos os partidos, em diferentes graus, são “populistas”. 3—Como é que eles são definidos? O acordo entre as definições não existe. Eis alguns exemplos: A primeira é a de uma lista que Gino Germani faz a partir de La razón populista (A razão populista), livro do argentino Ernesto Laclau, um dos inspiradores do partido espanhol Podemos. Segundo este livro, “O populismo inclui geralmente componentes opostos como a exigência de igualdade de direitos políticos e participação universal das pessoas reais, mas sob algum tipo de autoritarismo que geralmente está sob uma liderança carismática. Também inclui exigências socialistas (ou pelo menos a exigência da justiça social), uma defesa forte da pequena propriedade, fortes componentes nacionalistas, e a negação da importância da classe. Junto com a afirmação dos direitos das pessoas reais frente aos grupos de interesse privilegiados, que geralmente são considerados contrários ao povo e à nação”. Saliente-se de entrada, a semelhança que este último tem com as informações já mencionadas de Donald Trump. A segunda é a de Moisés Naïm, da Venezuela, mas que trabalha para o jornal espanhol El País. Diz assim: “Nós frente a eles: o povo frente às elites; Catastrofismo: o passado é terrível; Eles são o inimigo, interno e externo, que devemos criminalizar; Militarismo antes da diplomacia; Deslegitimar os especialistas por fazerem parte das elites; Deslegitimar a imprensa; Debilitar os checks and balances (pesos e contrapesos); Aproximação messiânica: a solução sou eu”. A terceira é a Global Trends publicada em 2017 pelo National Intelligence Council. A sua caraterização do populismo, uma das tendências que, segundo eles, poderia transformar o mundo, é a seguinte: “Os populistas, de direita e de esquerda, têm crescido na Europa. Caracterizam-se pela sua suspeita e hostilidade para com as elites, a política convencional e as instituições estabelecidas. ReflePÁGINA

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A EUROPA E OS SEUS “POPULISMOS” - CONTINUAÇÃO tem a rejeição dos efeitos económicos da globalização e a frustração que produzem as respostas das elites políticas e económicas às preocupações do povo. Os sentimentos anti-imigração e de xenofobia das democracias centrais da aliança Ocidental podem debilitar algumas das fontes tradicionais de fortaleza do Ocidente para cultivar sociedades diversas e fomentar a perceção global. Os movimentos populistas e os seus líderes, de direita e de esquerda, podem aproveitar as práticas da democracia para promover, por um lado, o apoio do povo que o reforce com um poder executivo forte e, por outro lado, a demorada, mas permanente erosão da sociedade civil, do estado de direito e das normas relativas à tolerância”. Existe uma última caraterização do populismo económico baseado num trabalho de Sebastian Edwards e Duriger Dornbusch. Segundo estes autores, trata-se dum enfoque económico que “enfatiza o crescimento e a redistribuição do rendimento enquanto se reduz a ênfase nos riscos de inflação e déficit financeiro, as limitações externas e a reação dos agentes económicos perante politicas agressivas de não-mercado”. Os enfoques populistas, dizem, “fracassam em resumidas contas”, não porque a economia conservadora é melhor mas sim como “resultado de políticas insustentáveis”. Óbvio que não é possível, chegados a este ponto, propor uma definição definitiva. Parece ser suficiente contentar-se com estas caraterizações de um fenómeno que, como podemos observar, não se deixa definir facilmente, dadas as suas ténues fronteiras com outras propostas políticas que influenciam na redação de uma proposta populista ao mesmo tempo que as mesmas influenciam nas dos partidos convencionais. No entanto, parece fazer sentido pensar o que é que está a produzir esta maré que, como se tem vindo a observar, não afeta de igual maneira a todos os países, mas que acaba por afetá-los a todos.

em maior ou menor medida e portanto vale a pena questionarmo-nos pelos fatores que poderão levar a tal situação. Em primeiro lugar, existem fatores políticos e o primeiro deles é a crise dos partidos convencionais (em particular, o partido Democrata dos Estados Unidos e os social-democratas na Europa). Contudo, o problema é mais profundo e tem a ver com o alvoroço europeu com o funcionamento da democracia. Os motivos parecem ser muito diversos incluindo a perceção da corrupção, o aumento da desigualdade e a perceção das instituições públicas nas quais não se pode confiar. Em segundo lugar aparece o campo cultural, as mentalidades e o que se pode chamar de “cultura do tweet”. Refere-se ao papel que jogam as novas tecnologias de informação que, ainda que efetivamente proporcionem melhor acesso às noticias e dados, por outro lado, correm o risco de produzir essas “bolhas ideológicas” muito mais percebidas que as produzidas pelos meios convencionais quando se leem nos jornais e se ouvem na radio e televisões que coincidem com os próprios prejuízos, com um claro predomínio do sentimento sobre os factos. No terreno económico, a crise iniciada no ano de 2008 fez com que o rendimento disponível caísse e também a riqueza de muitas famílias, mas golpeou com particular dureza os jovens. Como se sabe, a frustração produz agressividade e a agressividade procura um objeto sobre o qual descarregar em forma de autodestruição (aumento da depressão e, eventualmente, dos suicídios), violência urbana e busca de objetos (reias ou fictícios) aos quais declarar como responsáveis da própria situação. É igualmente generalizável a situação das classes médias, temerosas de cair na pobreza, inseguras sobre o seu futuro como desempregado ou como pessoa pensionista. A insegurança é uma situação que pede seguranças, ainda que sejam simples. A crise económica teve um efeito importante sobre quase todas as sociedades, 4—O que é que os alimenta? tendo em conta que, como tendência Parece que estamos perante um fenóme- geral, “os poderosos são cada vez mais no que, apesar das fronteiras difusas, poderosos e os indefesos cada vez mais afeta o conjunto de partidos europeus indefesos”. Desta forma, a desigualdade

social tem vindo a crescer dentro dos diferentes países e, em particular, dentro da União Europeia onde, (e isto é particularmente importante) a situação da justiça social e a perceção da mesma se tem vindo a deteriorar. Mas o problema é o da polarização, ou seja, situações nas quais os extremos dessa escala, perante a diminuição dos elementos intermédios (as classes médias), geram formas de enfrentamento nas que não se exclui a violência, no seu extremo por meio da revolução ou da repressão militar/policial. É claro que essas opções dicotómicas podem reforçar tendências para a polarização, mas não se trata das causas que, tanto em termos clássicos (Karl Marx) como em termos contemporâneos (Warren Buffet) se possa chamar a isto de “luta de classes”. 5—O que fazer? Pode-se construir uma lista do que se pode fazer como mais importante quer em termos pessoais, mas também coletivos em âmbitos desde o familiar à participação em sistemas educativos e mediáticos. Esta seria a seguinte (que se amplia no texto completo): 1.Contrapeso (não negação) da cultura do tweet: educar nos meios. 2. Contrapeso à cultura “adamista”: o passado existe (daí as Intergerações). 3. Sentimento, mas racionalidade tanto quanto necessário. 4. Imagens, mas ideias. 5. Grupo, mas indivíduo. 6. Darwin, mas Kropotkin: competitividade, mas também ajuda mútua. Os presságios que permitem o presente texto podem ser minorados pelo dito nesta última epígrafe: também são percetíveis, na União Europeia, tendências concordantes com estes pontos que se acabam de numerar. De qual das duas tendências acabe dominando (nunca vai desaparecer nenhuma), vai depender o futuro imediato, mas, como ocorre com o Tao, não se exclui que continuem a suceder-se como têm feito até agora, pelo menos nesta Europa à qual pertence a União Europeia. Chi vivrè, devrà. José María Tortosa Conferencista convidado em OFIR mundomundialtortosa.blogspot.com PÁGINA

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EUROENCONTRO 2018 - 19 a 26 de Maio SEVILHA— ESPANH A A comunidade autónoma da Andaluzia estende-se pela zona costeira do sul de Espanha, desde Portugal (Alentejo/Algarve) até à região de Múrcia. A sua capital é Granada. Por esta região passaram, ao longo da história, as culturas que influenciaram decisivamente a formação do caráter ibérico. Estas características foram espalhadas pelo mundo inteiro a partir das suas zonas mais próximas do Atlântico e do Mediterrâneo. Sem dúvida de que uma das cidades mais importantes da época dos descobrimentos e, depois, da expansão castelhana e do comércio marítimo, foi Sevilha. Devido à sua localização privilegiada, no interior mas banhada por um rio (Guadalquivir) que permitia rápido acesso ao Atlântico, Sevilha foi o porto comercial mais importante do Séc. XVI. Fundada no século XIII A.C. pelos Turdetanos, com o nome de “Hispal”, esta cidade com mais de 3.300 anos de história, encerra em si (e na sua região) verdadeiros tesouros e é o coração do “flamenco”, do cavalo, do “toro” e do vinho doce (Jerez) e é também conhecida pelo forte sentimento religioso das suas gentes.

É esta região que iremos descobrir, de 19 a 26 de maio de 2018, no decorrer do nosso XXIV Euroencontro. Temos preparadas várias saídas de meio dia para conhecermos a cidade, a sua Catedral, os Alcázares (o palácio habitado mais antigo da Europa), para além de termos tempo para visitar a cidade da forma que mais nos agradar e tomar “una copa” num dos muitos pátios da cidade. O rio Guadalquivir vai abrir-se para nós descobrirmos Sevilha a partir de um cruzeiro nas suas águas. Claro que o “Flamenco” também nos espera, num “tablao” muito especial. A cultura romana será recordada em Carmona (passagem da Via Augusta) e também em Italica (onde nasceram os imperadores romanos Trajano e Adriano). A beleza do cavalo, conjugada com a música do “Flamenco” e a dança “sevillana”, esperam-nos em Jerez de la Frontera onde visitaremos as “Bodegas Don Pepe” (as maiores de Espanha) para conhecermos e degustarmos o famoso “vinho de Jerez” e para lá almoçarmos, numa jornada de dia completo. Com esta informação prévia apenas queremos que reserve na sua agenda as datas indicadas e, desta maneira, poder participar no XXIII Euroencontro, onde reencontrará amigos de longa data e também fará novos amigos que virão de vários países da Europa para conviver e debater ideias num ambiente deslumbrante.

Esperamos por si, em SEVILHA.

► Para mais informações pedimos que contacte com:

VIAJES TRANSVIA: Tel: +34 96 514 39 50 - E.mail: euroencuentro@viajestransvia.com Só falta a sua inscrição… Cândido Trabuco Vintém (Presidente), Michel Pageault e Francisco Ramírez Munuera (Vicepresidentes)

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MOMENTOS PARA RECORDAR

Até ao próximo EUROENCONTRO, em SEVILHA!

Montaje boletin portugués 2017 final  
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