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Ano IV - Nº 61 - Agosto de 2017

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Conectados em Defesa dos Direitos de Crianças e Adolescentes LGBTI

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Visisbilidade

LÉSBICA Olá moças e moços! Estou muito feliz por estar aqui conversando com vocês sobre um assunto considerado um grande tabu, que é a lesbianidade, ou melhor, a Visibilidade Lésbica. Mas para falar sobre a Visibilidade Lésbica temos que fazer aqui uma retrospectiva do movimento Homossexual, hoje denominado LGBT. Movimento que na época feito por gays e lésbicas com sonhos, desejos, paixões, consciência e indignação. E que cada um de nós ao nosso modo fomos trabalhando nossa sexualidade e descobertas de ser e se sentir-se diferentes d@s coleg@s. Sacava que tinha havia algo muito diferente. Até o momento em que o coração bateu mais forte, só faltou sair pela boca. Então esse foi o primeiro momento de assumir. Assumir meus sentimentos, meus desejos, meu tesão, minha própria sexualidade e me sentir visível. Não deu para fugir, tive que me olhar e saber como lidar com aquele turbilhão de sentimentos, desejos e me assumir, me tornar visível, construir a minha própria visibilidade.

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Por Alice Oliveira ABL - Articulação Brasileira de Lésbicas, Fórum Cearense LGBT e Co-fundadora do Grupo SOMOS em 1978

Esse é um momento muito importante, onde os conflitos estão rolando solto e os medos dos olhares alheios são enormes. Porém, nossa paixão, nosso tesão, nossa irreverência, nossos hormônios, começam a nos cutucar, dizendo que temos que viver o que sentimos, que a vida é bela e o amor é lindo. Não foi nada fácil, pois como ainda vivemos numa sociedade heterossexual, machista, patriarcal, sexista, conservadora e homofóbica, ufa! E imagina isso no final os anos 70, tudo era muito mais difícil e a criatividade era imensa. Mas, mesmo

assim, algumas lésbicas e gays não se conformavam somente em viver suas relações. Existiam muitas coisas que nos incomodavam e nos angustiavam. Não tínhamos direito a nada, só perseguição.

EXPEDIENTE COORDENAÇÃO Lídia Rodrigues SECRETÁRIA EXECUTIVA Suely Bezerra ASSESSORES DE CONTEÚDO Paula Tárcia

Rodrigo Corrêa Rosana França DIAGRAMAÇÃO Tatiana Araújo

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Então aconteceu um seminário sobre as minorias (era assim que nos rotulavam) e claro que nós lésbicas não aparecíamos em nada, mas estávamos lá marcando presença, marcando território... e quando olhamos olhávamos para os lados, identificávamos muitas lésbicas e gays com a mesma linha de pensamento, as mesmas angustias e querendo transformar os beijos, os abraços e as transas em sujeitos políticos, dando visibilidade as nossas questões, que eram muitas por sinal. E assim, nasceu o Grupo Somos (1º Grupo Homossexual do Brasil em 1978, em São Paulo) e dentro dele estávamos nós, lésbicas. Um grande momento de euforia, de satisfação e encantamento que foi se perdendo com a nossa ínfima participação e também invisibilidade, pois numericamente éramos poucas e diante de tantos gays, sumíamos completamente. Então, vimos a necessidade de discutir a parte e dar visibilidade as nossas questões que ainda são muitas, porém invisíveis. Então começamos por assumir o nome “lésbica”, como forma de ressignificar o nome, uma vez que advém de uma ilha grega, ilha de Lesbos, onde Safo, poetisa grega viveu, e seus poemas por falarem de amor entre mulheres foram censurados, queimados e quase exterminados. E assim, nasceu o Subgrupo Facção Lésbica-feminista, dentro do Grupo Somos, com o objetivo de dar visibilidade as nossas reivindicações, a nossa voz, a nós lésbicas. Iniciando-se a organização lésbica no Brasil, como forma de romper um tabu, tanto na rejeição de uma heterossexualidade obrigatória, quanto na recusa ao patriarcado. Fizemos do grupo uma resistência de vida. Além disso, fomos nós que levamos a discussão sobre a homossexualidade para dentro do movimento feminista com muita luta e por outro lado, a discussão da mulher para dentro do movimento homossexual. Buscando dar visibilidade as nossas questões e poder

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compartilhar com outras lésbicas, o grupo elaborou a primeira publicação lésbica do país, o ChanacomChana. Essa publicação era feita manualmente e sua venda era feito em locais frequentados por lésbicas. Um desses locais era um restaurante, o Ferro's Bar (São Paulo) e que se sustentava com o dinheiro, principalmente das lésbicas, pois era o ponto de encontro e onde sempre nos reuníamos e vendíamos o ChanacomChana. Sempre era uma discussão, pois eles não queriam a venda, até que realmente proibiram a entrada e chamaram a polícia. Esta por sua vez entendeu que estávamos no nosso direito. Como ação política foi organizado no dia 19 de Agosto, um ato de repúdio, com a imprensa, onde se originou ao Dia Nacional do Orgulho Lésbico.

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Tivemos outro importante momento de luta pela visibilidade, quando estávamos organizando o VII Encontro Brasileiro de Homossexuais, que aconteceu em Cajamar, São Paulo, em 1993 e nós lésbicas exigimos que o nome Lésbicas deveria entrar. Isso gerou uma profunda discussão, de norte a sul e de leste a oeste, mas acabou ficando VII Encontro Brasileiro de Lésbicas e Homossexuais. Essa discussão foi amadurecida e nos outros encontros já entrou o LGBT. Podemos dizer que foi um grande divisor para a visibilidade e também para inclusão da discussão de gênero. E não podemos deixar de registrar o grande marco da visibilidade, que foi a construção do I SENALE – I Seminário Nacional de Lésbicas, que iniciou no dia 29 de agosto de 1996, no Rio de Janeiro e

como proposta aprovada, se tornaria o 29 de Agosto – Dia Nacional da Visibilidade Lésbica. Hoje caminhamos para o X SENALE, que acontecerá em 2018 em Salvador. Depois surgiram outros grupos de lésbicas, que ao longo dos anos foram fortalecendo e empoderando as lésbicas pelo país afora. Mas, mesmo assim, ainda não conseguimos ter a visibilidade necessária. Não existe nenhum programa, nenhuma política pública direcionada as lésbicas. Dentro da própria questão da saúde, não encontramos nada. As vezes temos um ou outro gestor que busca trabalhar algumas questões, mas quando acontece uma mudança de governo, aquele serviço não tem continuidade. Por exemplo, você quando se vai ao ginecologista é perguntada qual a sua orientação sexual? Tenho quase certeza que não. E você também não diz nada. Se tiver com algum problema ginecológico, provavelmente sairá do consultório com duas receitas: uma para você e outra para seu ¨marido¨. Isso é fato, já aconteceu com várias lésbicas. Como não temos pesquisas, dados importantes, os gestores dizem que não tem como gerar uma política pública e mais uma vez, ficamos na invisibilidade e desprotegidas de qualquer amparo. Já a Lei Maria da Penha numa relação homoafetiva lésbica, pode dar proteção a vítima. Agora o importante é você saber que para estar bem, para vivenciar a lesbiandade e qualquer coisa na vida, temos que estar com a nossa autoestima fortalecida e que tudo o que já foi construído até hoje para dar proteção, empoderamento e fortalecimento teve a participação de muitas lésbicas, gays, travestis e transexuais, que deram suas vidas. Por isso, a importância de estarmos junt@s nessa caminhada. Lembre-se que eu posso caminhar sozinha, mas com certeza com você, vamos caminhar muito melhor, com passos firmes e longos em busca de nossos direitos e visibilidade. Beijos no coração.

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MURALIDADE

Fique

por dentro Documentário que mostra como morrem as mulheres lésbica no Brasil Mulher preta, periférica, mãe e lésbica que não performava feminilidade – que não era feminina. Luana Barbosa era moradora da periferia de Ribeirão Preto, tinha 34 anos e seu assassinado foi o estopim para a criação de um grupo de mulheres em São Paulo. Em memória de todas as mulheres pretas e lésbicas mortas, a Coletiva Luana Barbosa se organiza realizando debates e atividades que discutam as especificidades de quem sofre racismo, lesbofobia e misoginia. Em repúdio ao preconceito cotidiano da sociedade brasileira, nove jovens paulistanas produziram o documentário “Eu sou a Próxima”, que narra em primeira pessoa o ataque lesbofóbico contra algumas mulheres que morreram em 2016. Os fortes depoimentos também denunciam a negligência do Estado e da mídia que não se manifestam em defesa dessas vítimas, mas que adultera os fatos, colocandoas como culpadas de sua própria morte. Fonte: coletivo Luana Barbosa

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dICIONÁRIO DE DIREITOS HUMANOS Lésbica: mulher que tem preferência sexual por ou mantém relação afetiva e/ou sexual com outra mulher. Lesbofobia ou lesbifobia: inclui várias formas de negatividade em relação às mulheres lésbicas como indivíduos, como um casal ou como um grupo social.

notÍcias

da rede

Você sabe o que é a LBL? LBL é a Liga Brasileira de Lésbicas é uma expressão do movimento social, de âmbito nacional, que se constitui como espaço autônomo e não institucional de articulação política, anti-capitalista, anti-racista, não lesbofóbica e não homofóbica e de articulação temática de mulheres lésbicas e bissexuais, pela garantia efetiva e cotidiana da livre orientação e expressão afetivo-sexual. É um movimento que se soma a todos os movimentos sociais que lutam e acreditam que um outro mundo é possível. A LBL é uma articulação de grupos, entidades, movimentos, lésbicas e bissexuais autônomas Fonte: https://lblnacional.wordpress.com/sobre/

Olá pessoal! Vocês sabiam que dia 29 de agosto é o Dia Nacional da Visibilidade Lésbica. #todoscontraalesbofobia www.anamovimento.blogspot.com

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entrevista

Virgínia Figueiredo, tem 58 anos é lésbica e feminista, não tem formação acadêmica, mas é mestre pela vida, desde o ano de 1976/77, quando entrou no movimento estudantil, ainda na ditadura, e até os dias de hoje continua lutando pelas mesmas bandeiras e pautas, pois nada avançou no legislativo. Ela já passou por vários movimentos desde o movimento pro trabalhador, a saber: PT, CUT, CMP, MMM, entre fóruns, frentes, sendo a primeira mulher com identidade política lésbica nestes espaços no RJ, ajudei a construir e fundar vários outros, em 1996 foi a primeira candidata a vereadora lésbica pelo PT no Brasil, e talvez pela conjuntura da época, da América Latina em 2003 fui uma das fundadoras da LBL liga brasileira de lésbicas, uma rede autônoma sem CNPJ, formada por lésbicas e mulheres bissexuais feministas e de esquerda.

Campanha ANA: Desde quando a pauta dos direitos das mulheres e LGBT, se tornou uma vivência efetiva na sua trajetória? Qual foi o clique que te despertou para essa defesa? Virgínia Figueiredo: Desde pequena achava estranho ter que usar rosa e não azul a cor que mais gostava, ou não poder brincar com os meninos de correr ou pipa, entre outras coisas, e isto me fazia questionar sempre. No científico (hoje no ensino médio), outras situações que

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homem pode e mulher não, o que me aproximou de outras pessoas que pensavam igual, e formamos um grupo no colégio, que hoje seria um grêmio estudantil, e depois que comecei a trabalhar, me aproximei do movimento partidário e sindical. C. ANA: Virgínia você compõe a Liga Brasileira de Lésbicas (LBL), o que é essa organização e como atuam? V. F.: A LBL é uma força, uma resistência, pois fomos as 1ª lésbicas a fazer parte desde 2005 do conselho nacional da mulher, na cadeira de lésbicas na SPM, saímos desse lugar, assim que aconteceu o golpe contra a Dilma, a única rede não ligada ou próxima a ABGLT, no conselho nacional de direitos humanos LGBT, e no conselho nacional de saúde, dando um salto nas pautas para lésbicas, atuamos nas bases, nos movimentos LB e feministas. C. ANA: Esse ano o dia da visibilidade lésbica completa 21 anos de existência. Ao longo desse anos quais foram os avanços e quais desafios ainda são necessário visibilizar? V. F.: Do 1º SENALE em 1996 até os dias atuais, pouco se avançou, a maioria dos ganhos foi no judiciário, nosso desafio ainda é enorme, ainda mais em tempo de golpe, onde estamos retrocedendo nos direitos das mulheres. Falta muita coisa para visibilizar, afinal sofremos apagamento em todos os espaços, inclusive naquele que deveria ter como parceria o feminismo, somos usadas para legitimar que fazem a discussão, e quando abriram as caixinhas, foi para pautar o transfeminismo, assim como os movimentos sindicais e partidários entre outros, a sopa de letrinha é mais GGG, e também nos isolam, e os políticos lembram de nos de dois em dois anos nas eleições, e nos tratam como mercadoria, para apoio de voto, uns nos citando outros nos oprimindo. Nosso desafio é enorme contra a heteronormatividade compulsória, o capitalismo que alimenta isso, o machismo, o racismo, e a LBfobia C. ANA: As política pública de saúde sexual brasileira comtemplam insumos de prevenção para as mulheres lésbicas e bissexuais? V. F.: A saúde é precarizada para todas as pessoas, imaginem para LBT? claro que não nos comtempla, e preciso formar

profissionais capacitados para atender a esta população, os insumos para mulheres cishetero, não existem para nos então lésbicas e bissexuais. C. ANA: A violência sexual como ferramenta para punir e “transformar” lésbicas, bissexuais e homens trans em mulheres “de verdade” é uma constante contra as meninas? E quais os motivos dessa ocorrência? V. F.: A violência física, moral, psicológica, religiosa e sexual, os estupros corretivos, são uma constante na nossa vida, se for negra, de comunidade então, quantas se suicidam? a inseminação do ódio que o capitalismo gera, o machismo, faz com que tenhamos medo, afinal como uma mulher goza e faz a outra sentir prazer, sem precisar de um homem. Somos as únicas a dizer não ao falo, e a não nos submeter aos mandos e desmandos de macho C. ANA: Para colaborar com a diminuição da violência contra a mulheres, em especial as lésbicas, bi e transexuais. Qual a dica você deixa para as organizações que trabalham com os direitos humanos? V. F.: Os grupos de direitos humanos tem uma resistência assim como todos os outros movimentos, em debater nossas questões, além de estar misturando religião com política, tem a questão de não ter dado ou número expressivo, sobre nós: quantas evadem as instituições educacional, somos postas para fora de casa e muitas trabalham como prostitutas, quantas chegam a academia? E quando chegam kd pesquisa sobre nós? Quantas morrem de câncer, HPV, aids? Morrem decorrente de lesbofobia? Sem dados sobre nós não rendemos verbas, projetos estamos nas ruas como camelo, na senzala digital (telemarketing), e quando teremos chance de trabalhos contanto com nossa aparência, uma disputa no mercado de trabalho, e a grande maioria sem qualificação e oportunidade. Quantos políticos nos pautam, precisamos de representação na política, deixar a bíblia de lado porque o país é laico, e preciso respeitar a constituição. E por fim não falem de nós, por nós, sem nós, não queremos a simpatia de ninguém e sim respeito e direitos iguais, e se antes ser chamada de sapatão me ofendia, hoje digo que se ser sapatão é amar outra mulher, sou sapatão com muito orgulho!

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Fica dica

Livros Amor entre Meninas

Filmes Yes or no: So, I Love You (2010) Yes or No é o primeiro filme tailandês com temática lésbica, e conta a história de Pie (Aom), uma menina que se muda para um dormitório na faculdade e percebe que a companheira de quarto, Kim (Tina) se veste e parece com um menino. Apesar das dúvidas, as duas começam uma amizade, que logo é questionada se não está se transformando em um sentimento de amor e paixão.

A Incrível História de Duas Garotas Apaixonadas (1995) Randy e Evie são duas adolescentes, uma rica e uma pobre, que estudam no mesmo colégio. As duas começam uma amizade intensa que evolui para sentimentos que não conseguem definir, gerando dúvidas, medos e descobertas. A trama é divertida e leve, que parece buscar levar o debate sobre homossexualidade para os jovens.

A obra toca no assunto com uma abordagem leve e dinâmica, tirando dúvidas e desmistificando certos tabus que levam ao preconceito. 'Amor entre meninas' faz parte de uma linha editorial voltada para a educação sexual de adolescentes.

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Boletim da ana edição 61  
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