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Ano IV - Nº 60 - Julho de 2017

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Conectados em Defesa dos Direitos de Crianças e Adolescentes LGBTI

25 de julho Dia de Luta das Mulheres Negras da América Latina e Caribe Por Iara Fragas Integrante do Instituto Negra do Ceará.

Amparadas pela força da nossa ancestralidade, neste 25 de julho de 2017, evidenciamos o dia de Luta das Mulheres Negras da América Latina e Caribe, junto às nossas irmãs que vivenciam o cárcere no Ceará. Ao som dos nossos tambores, abê's e ferros, entoamos com toda a nossa força, a liberdade para nós e para as mulheres do Instituto Penal Feminino Auri Moura Costa. A quantidade de mulheres aprisionadas aumentou 567% nos últimos dois anos no Brasil. As mulheres negras correspondem a 68% dessa população e no Ceará chega a ser 81% das pessoas encarceradas. Essas mulheres são em sua maioria primárias, jovens, responsáveis pela economia de suas famílias e têm baixa escolaridade. No Ceará mais da metade as mulheres são presas provisórias e cometeram “crimes” instituídos no Artigo 33, da Lei de Tóxicos (2006)

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Imagem: Lídia Rodrigues

correspondente ao que conhecemos por tráfico de drogas e no Artigo 155 do Código Penal Brasileiro, que versa sobre o dano á propriedade privada de outrem, roubo. Ou seja, essa população aprisionada não cometeu “crime” de ameaça ou extinção da vida, refletindo um judiciário cuja cultura falida do encarceramento ainda é regra.

Caminhamos pelos corredores e alas do presídio conversando com as mulheres sobre essa data tão importante para nós, estabelecida durante o I Encontro de Mulheres Afro-Latino-Americanas e Afrocaribenhas, realizado em 1992, na República Dominicana. À época as mulheres negras evidenciavam que suas demandas não eram acolhidas por completo nem pelo movimento feminista, nem pelo movimento negro em razão do cruzamento de vários eixos de poder e desigualdade (gênero, raça, classe e origem) presentes em suas vidas.

EXPEDIENTE COORDENAÇÃO Lídia Rodrigues SECRETÁRIA EXECUTIVA Suely Bezerra ASSESSORES DE CONTEÚDO Paula Tárcia

Rodrigo Corrêa Rosana França DIAGRAMAÇÃO Tatiana Araújo

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Imagem retirada da internet

Infelizmente as razões para evidenciar essa data ainda são evidentes. Mulheres negras de toda a América Afro Latina ainda enfrentam simultaneamente o racismo, o sexismo, o classismo, a lgbtfobia e a xenofobia. No Brasil somos mais vítimas de violência, tanto no espaço privado quanto no público, que as mulheres brancas (57% a mais que as mulheres brancas); somos nós que dificilmente alcançamos o ensino superior, sequer concluímos o ensino médio; também há pouca gente como a gente nos meios de comunicação; no legislativo, executivo e judiciário, decidem sobre as nossas vidas, pessoas que nunca caminharam por onde nós caminhamos, são em sua maioria homens e brancos; somos minoria também no mercado formal de trabalho e somos maioria nos territórios cuja segurança, soberania alimentar, saneamento básico e tantos outros direitos não são garantidos. É por isso que nesta data também rememoramos a história de resistência de Tereza de Benguela para retomar nossa força. Essa mulher que no século XVIII assumiu a liderança do quilombo Quariterê,

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em Mato Grosso, foi uma grande rainha do seu povo. Comandou a estrutura socioeconômica e política do quilombo garantindo a defesa através das armas negociadas com vilas próximas. Esse quilombo também desenvolvia agricultura e dentre as culturas beneficiava o algodão transformando-o em tecidos para o comércio na vila.

Tereza de Benguela foi presa numa emboscada e morreu alguns dias depois.

Apesar da derrota, Tereza e de tantas outras mulheres negras, foram e são inspiração para continuarmos nossa luta de enfrentamento a essa estruturante herança colonial do racismo e do patriarcado, sendo os presídios brasileiros bons exemplos O quilombo Quariterê foi disso. Com a certeza de que enquanto destruído por proprietários de minas houver uma de nós presa, todas com o amparo do Estado. Negros/as também estaremos, seguiremos em roda com nossos instrumentos de luta foram mortos/as, torturados/as. em busca da libertação dos cativeiros modernos, em busca da liberdade.

REFERENCIA Cortejo Instituto Negra do Ceará – INEGRA e Fórum Cearense de Mulheres – FCM: https://www.facebook.com/institutonegra/ Relatório Infopen Mulheres: http://www.justica.gov.br/noticias/estudotraca-perfil-da-populacao-penitenciariafeminina-no-brasil/relatorio-infopenmulheres.pdf/view

Imagem retirada do Blog Movimento Negro Unificado

Censo Penitenciário do Ceará: http://www.sejus.ce.gov.br/index.php/com ponent/content/article/58-cidadaniainterna/1827-censo-penitenciario

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MURALIDADE

Fique

por dentro Por uma sociedade mais justa, igualitária, fraterna e livre de preconceitos Em defesa de uma sociedade mais justa, igualitária, fraterna e livre de preconceitos, foi apresentado o Projeto de Lei 7582/14, que está aguardando parecer do relator na Comissão de Direitos Humanos e Minorias (CDHM) da Câmara dos Deputados. O projeto de Maria do Rosário cria mecanismos para punir quem praticar crime de ódio e intolerância em razão de classe e origem social, condição de migrante, refugiado ou deslocado interno, orientação sexual, identidade e expressão de gênero, idade, religião, situação de rua e deficiência. A dignidade da pessoa humana é valor regente de nosso Estado Democrático e sua preservação é uma obrigação compartilhada por todo o Poder Público e por toda a sociedade.

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dICIONÁRIO DE DIREITOS HUMANOS Racismo: é a discriminação social baseada no conceito de que existem diferentes raças humanas e que uma é superior às outras. Esta noção tem base em diferentes motivações, em especial as características físicas e outros traços do comportamento humano.

Preconceito: é um juízo pré-concebido, que se manifesta numa atitude discriminatória perante pessoas, crenças, sentimentos e tendências de comportamento. É uma ideia formada antecipadamente e que não tem fundamento crítico ou lógico.

notÍcias

da rede

O Instituto Negra do Ceará – INEGRA é uma organização social de mulheres negras que objetiva promover os valores étnicos, políticos, sociais e culturais das populações negras, com prioridade à mulheres negras, atuando em uma perspectiva antiracista e feminista. Reúne mulheres negras de diferentes áreas de formação e atuação política: militantes dos movimentos negro, feminista e popular; lideranças estudantis; pesquisadoras e profissionais liberais. Para tanto, em 2008 o INEGRA redefiniu sua atuação, priorizando os seguintes eixos norteadores: 1 – Racismo e políticas públicas; 2 – Racismo institucional (com destaque no setor da saúde e da formação profissional reforçando a divisão sexual e racial do trabalho); 3 – Violência racial; 4 – Mulheres e raça-identidade e visibilidade/reconhecimento; 5 – Desenvolvimento institucional. Dentre as ações realizadas destacam-se: as programações anuais do 8 de março e do 25 de Julho – dia da Mulher Negra Latino-americana e Caribenha; a Jornada pela legalização do aborto legal e seguro, realizado anualmente em parceria com o Fórum Cearense de Mulheres; a Jornada pela Saúde da População Negra e o Dia da Consciência Negra. Fonte: inegrace.wordpress.com

Olá pessoal! Você sabia que o dia 25 de julho é o Dia de Luta das Mulheres Negras da América Latina e Caribe.

#todoscontraoracismo www.anamovimento.blogspot.com

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entrevista

Entrevista: Combater os sistemas opressores e o dia 25 de julho. Com Áurea Carolina Na entrevista deste mês conversamos com Áurea Carolina de codinome Dejavu, mulher negra, nascida em Tucuruí (PA), mas cresceu e se formou em Belo Horizonte. Sua trajetória de mobilização social começou nas ruas, em diálogo com o movimento hip hop e com diferentes iniciativas populares de promoção dos direitos humanos. É cientista social, especialista em gênero e igualdade e mestre em Ciência Política. Na nossa conversa, ela conta um pouco de suas lutas e trajetória, e aponta a importância do dia 25 de julho. Confira abaixo. Campanha ANA: Quem é Áurea Dejavu? Aurea Carolina: Aurea Dejavu era meu codinome quando eu cantava rap no grupo Dejavu, que integrei no início dos anos 2000, grupo que já existia. Eu entrei na segunda formação. Foi um grupo muito importante para minha atuação na cultura hip hop como artista ativista. Então esse era meu sobrenome como forma de identificação com essa cultura. C. ANA: Quando foi que você se percebeu militante? E desde quando se tornou uma vivência efetiva na sua trajetória? A.C.: Eu me reconheci como ativista

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política a partir da minha vivência na cultura Hip-Hop. Foi colando na rua nos eventos e conhecendo parceiros do movimento Hip-Hop que eu me dei conta de uma dimensão maior de luta política. A arte que fazíamos de expressão periférica, tinha também um apelo de transformação social. E isso se consolidou na minha trajetória no momento em que me engajei no coletivo hip hop chama. Eu cantava Rap no grupo Dejavu e pouco tempo depois eu entrei pro coletivo hip hop chama que foi um espaço de discussão sobre direitos juvenis sobre gênero, sexualidade e redução de danos, e ali eu tive uma formação muito mais profunda, mais libertaria. Era um coletivo auto organizado de jovens da cultura hip-hop da região metropolitana de Belo Horizonte. E a gente tratava esses temas gênero, sexualidade e drogas numa perspectiva muito avançada. Discutíamos drogas a partir da ideia da redução de danos isso no ano 2000 e nos colocávamos de uma maneira muito avançada mesmo. E essa atuação foi abrindo caminhos para eu me engajar em outras lutas juvenis, movimento negro, feminista e pelo direito a cidade de forma ampla. C. ANA: Áurea você foi a vereadora mais votada nas eleições de Belo Horizonte, no ano passado, com 17,4 mil votos. Você acredita que esse é um pedido da população de novo modo de fazer política e que leve em consideração as demandas sociais? A.C.: A minha eleição como a vereadora mais votada de Belo Horizonte em 2016 é um marco sem dúvida, uma demonstração de força do nosso campo popular de resistência dos movimentos sociais. E assim um espaço a ser expandido, de correspondência institucional destas lutas em relação a nossa atuação de ponta, nos territórios com as diversas causas democráticas. C. ANA: Qual a importância do dia 25 de julho e quais as reivindicações o dia internacional traz para agenda pública? A.C.: O dia 25 de julho que celebra o reconhecimento das mulheres Afrolatinas e Caribenha e no Brasil especificamente trazendo a memória de Tereza da Benguela, uma líder quilombola, é um momento de afirmação da nossa resistência cotidiana e de denuncia das violências que sofremos há séculos. Por esse estado genocida colonial que produz o tempo inteiro desigualdade e exclusão de

nós mulheres negras, das mulheres latinas da possibilidade da cidadania plena. É muito importante trazer essa data como símbolo de resistência e denúncia. C. ANA: A violência nas sociedades afetadas pelo racismo patriarcal heteronormativo atinge de maneira desproporcional as populações negras, com forte marca do sexismo e das fobias LGBT. Diante de todo esse cenário, o que podemos fazer ou mesmo enfatizar enquanto indivíduos e instituições para enfrentar mazelas? A.C.: Nós vivemos tempos muito difíceis de acirramentos de condutadas e discursos de ódio, e isso se volta sobre tudo contra as mulheres, a população negra, LGBT, indígenas e as juventudes periféricas. É preciso então buscar e construir outras formas de conivências. Investir muito em processo de educação popular, de formação coletiva e de mobilização nos territórios para que a gente numa perspectiva de poder popular se coloque em contra posição a mídia tradicional antidemocrática, as instituições políticas que não nos contemplam, ao próprio mercado. Ao capitalista que é um verto permanente de opressão. É preciso discutir na cultura, na educação como ter uma sociedade mais inclusiva. Não é à toa que esses grupos conservadores são contrários as discussão de gênero, sexualidade e igualdade racial por exemplo. Eles sabem que quando uma pessoas começa a refletir criticamente, ela passa a contestar o poder de grupos e instituições que querem controlar a nossa vida sexual, a nossa forma de existência. Então esses grupos querem minar essas possibilidades da reflexão crítica na origem. C. ANA: Como as organizações que atendem crianças e adolescentes podem contribuir com as pautas das mulheres negras, latinas e caribenhas? A.C.: Penso que as organizações que atua e defendem com prioridade os direitos de meninas e meninos, devem desenvolver as temáticas de gênero e de raça de forma interseccional, no enfrentamento as desigualdades, por que as crianças e adolescentes são corporificados. Existem numa sociedade que é estruturada a partir das desigualdades de raça e de gênero. Evidentemente que tudo isso é atravessado desigualdades socioeconômicas. Então como é que poderemos avançar na inclusão de crianças e adolescentes na sua proteção integral sem trazer essas condicionantes da realidade social Brasileira de gênero e raça.

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Fica dica

Livros Mulheres, Raça e Classe

Filmes Histórias Cruzadas Jackson, pequena cidade no estado do Mississipi, anos 60. Skeeter (Emma Stone) é uma garota da sociedade que retorna determinada a se tornar escritora. Ela começa a entrevistar as mulheres negras da cidade, que deixaram suas vidas para trabalhar na criação dos filhos da elite branca, da qual a própria Skeeter faz parte. Aibileen Clark (Viola Davis), a emprega da melhor amiga de Skeeter, é a primeira a conceder uma entrevista, o que desagrada a sociedade como um todo. Apesar das críticas, Skeeter e Aibileen continuam trabalhando juntas e, aos poucos, conseguem novas adesões.

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Moonlight Uma história atemporal de relações humanas e autoconhecimento, este drama narra a vida de um jovem afro-americano desde a infância até a vida adulta e a luta dele para encontrar seu lugar no mundo enquanto cresce num bairro violento de Miami. Ao mesmo tempo um retrato essencial da vida contemporânea do afro-americano e uma reflexão intensa, pessoal e poética sobre identidade, família e amizade, a produção independente Moonlight é ainda uma obra de cinema inovadora que ecoa uma profunda compaixão e verdades universais.

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O livro Mulheres, Raça e Classe aborda temas antigos, mas que até hoje refletem na sociedade e diversas culturas pelo mundo. Essa produção literária quer mostrar os nuances da opressão, falando sobre as antigas lutas anticapitalista, antiescravagista, antirracista, feminista e todos os dilemas que as mulheres vivem ainda hoje, na era contemporânea. Angela Davis enfatiza em sua obra quais são os efeitos da escravidão e como é difícil se acreditar em uma sociedade que desconsidere a centralidade da questão racial, principalmente, quando se fala da mulher.

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Esta publicação foi produzida com o apoio da União Europeia. O conteúdo desta publicação é da exclusiva responsabilidade da Associação Barraca da Amizade e não pode, em caso algum, ser tomado como expressão das posições da União Europeia.

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Boletim da ana edição 60  

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