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Brasil

Nacionalmente, persiste o modelo tradicional e centralizado de organização de mídia. E este não é o único centro: as grandes difusoras de informação da área (e da América Latina) pertencem a grandes grupos, como a gigantesca Organizações Globo, que faturou sozinha R$ 10,4 bilhões em 2010. Em menor escala, também persistem os “coronelismos” midiáticos, no qual figuras políticas com grande poder local dominam o cenário – as Organizações Arnon de Mello, no Norte-Nordeste, são um exemplo. Mesmo com a crise de circulação (cerca de 4% dos brasileiros leem jornais impressos, de acordo com uma pesquisa de 2009), a mentalidade “print first” continua sendo palavra de ordem, preterindo seus websites. A indústria no geral ainda carece de discussão e desenvolvimentos tecnológicos e de profissionais para lidar corretamente com novas ferramentas, como as redes sociais e outros devices. Do outro lado, a disseminação nacional da internet (mais de 40% brasileiros a acessam) começa a fornecer voz e conhecimento às massas, antes desinformadas e/ou ignoradas pela grande mídia, o que potencializa conflitos com tais “coroneis” e chefes midiáticos em geral.

Publicidade

É principalmente o lucro advindo de propagandas que sustenta os veículos de informação, o que as torna, muitas vezes, uma prioridade maior que as próprias matérias jornalísticas, além de alimentar uma série de conflitos de interesse em potencial. A grande participação percentual dos anúncios publicitários na renda dessas empresas chega a ser ainda mais preocupante quando se trata de um monopólio da comunicação, em que o dinheiro e os interesses envolvidos são ainda maiores, atingido patamares elevadíssimos ( a Globo Comunicação e Participações S.A. divulgou ao mercado internacional que faturou R$ 10,4 bilhões em 2010, sendo R$ 7,5 bilhões vindos de investimentos de publicidade). Outro potencializador propagandístico são os targeted ads, ou seja, anúncios direcionados a um público específico. Isso porque ads para um público específico costumam demonstrar maior aceitação do público-alvo: 11% dos anúncios do The Daily, jornal em forma de aplicativo exclusivo para iPad, por exemplo, atingem o público, um grande salto se comparado aos 2% da Internet.

Tradicional

Apesar da democratização dos modelos comunicacionais, por meio da interatividade possível entre redes sociais e grandes meios de comunicação, a mídia ainda está concentrada em grandes monopólios, no Brasil e no mundo. O que existe aqui é uma espécio de “coronelismo”, a exemplo das Organizações de Mello e da família Sarney (com o grupo Mirante), ou ainda da preferência nacional pela Rede Globo – quase 70% da população (de acordo com pesquisa realizada pelo governo federal em 2010) assiste ao canal. O Jornal Nacional, por exemplo, é um caso escancarado dessa predominância: com 56,4% (segundo mesma pesquisa) da preferência do público, é líder disparado no segmento. No exterior, Robert Murdoch é tão admirado quanto temido por sua imperial News Corporation. Silvio Berlusconi, primeiro-ministro da Itália, é dono, entre outros, da Mediaset (que comanda três canais de TV) e da Publitalia (a maior agência de propaganda do país). Percebe-se, portanto, um sistema fechado, no qual poucos são os emissores de informações para uma gigante massa de receptores. Esse sistema condiz com o que Nick Couldry explana sobre o mito do centro mediado em seu texto A Mídia tem futuro?. Para Couldry, a mídia tradicional (de monopólios) é vista como “nosso ponto de acesso privilegiado para o centro ou núcleo da sociedade”. Desse modo, a os grandes grupos empresariais não só detêm o controle sobre a informação, como também determinam o que deve ser tema de debate público ou não.

Internet O desenvolvimento acelerado da Internet a partir dos anos 1990 e sua galopada desde a década passada resultaram na época de transição atual. A velocidade de vazão de informações torna praticamente obsoleta o modelo tradicional de mídia, centralizado em único ponto e que não leva em conta a fundamental dinâmica peerto-peer, em que o indivíduo é ambos destinatário e remetente de informações.

Paywall Uma contra-medida em relação à grande dependência das empresas jornalísticas com as de publicidade poderia ser minimizada com a venda de conteúdo virtual. É o chamado “paywall”, um bloqueio no site que libera a leitura das notícias mediante pagamento. Até o fim de março deste ano, o Wall Street Journal foi o último maior jornal nos EUA a bloquear seu conteúdo, com quase um milhão de leitores pagantes que geravam cerca de US$ 65 milhões ao ano. Naquela data, o New York Times reinstituiu o bloqueio, liberando vinte artigos grátis por mês, depois dos quais o leitor é instigado a comprar a assinatura mensal de 15 dólares. Jim Garber, da Google, cita alguns desafios desse método: sustentar o tráfego de visitantes e compradores, gerenciar tais acessos e ter capacidade de vender em múltiplas plataformas. As mídias sociais seriam uma forma de ampliar a audiência para o conteúdo pago. O impacto da mídias sociais não se restringe a como o público recebe as informações, mas também em como elas são geradas. Nikki Usher, da Southern California, defende que tais mídias e os conteúdos multimídia (“outside of the text”) são fatores de estímulo nas redações – e que o uso de criatividade é algo diferencial na construção de conteudos online.


Sent from my iPad @bethsaad Como a mídia se organiza hoje? E se a complexa rede da indústria de informação se reinventa a cada momento, como ficará no futuro?

ISOJ

O 12o International Symposium on Online Journalism (ISOJ) aconteceu na Universidade do Texas, nos EUA, entre os dias 1 e 2 de abril de 2011, com número recorde de 50 submissões de papeis acadêmicos, dentre os quais foram escolhidos 22. Palestrantes vieram de vários países do mundo, como o Egito, Peru e África do Sul. As apresentações, apropriadamente, foram transmitidas também pela internet.

Para valorizar-se nesse novo ambiente, não há uma receita fixa. Como comentou Angela Lee no ISOJ 2011, o consumo da notícia está vinculado à experiência do usuário com a marca e com o device. E confiança numa marca jornalística está intimamente ligada a sua credibilidade como fonte noticiosa, tanto online quanto offline. Exemplar, o “The New York Times” conseguiu transmitir o peso de seu nome para a versão HTML mantendo um equilíbrio entre o conceito de “print first”, paywalls e o mundo dos apps, mantendo o usuário engajado em meios digitais diferentes.

Novas Mídias As novas mídias surgem como protagonistas da descentralização das informações. Jornais online, blogs especializados, redes sociais e YouTube são alguns dos muitos exemplos que tornam as notícias mais imediatas e, principalmente, disseminadas. Nesse novo contexto, a informação, primeiramente, torna-se compulsiva: é acessada por todos a todo momento. Além disso, ela passa a não ter mais emissores fixos (como era no modelo tradicional). Pelo contrário, receptores transformam-se em emissores e vice-versa, de modo que o leitor passa a ter maior influência e espaço na mídia. Já o conteúdo, apresenta-se de modo não linear, explorado de forma interativa e multimídia. No Brasil, quase metade da população possui conexão online e acessa-a diariamente. Brasileiros também são dos líderes em uso de redes sociais como Orkut, Facebook e Twitter. Como exemplos da influência dessas redes na comunicação social, podem-se citar casos como o movimento Fora Sarney, iniciado pelo Twitter, e o projeto Ficha Limpa, disseminado também pelo Facebook e pelo capítulo brasileiro da Avaaz.org, rede global de ativistas.

Interações As possibilidades de interação entre leitor e publicação podem permitir a adaptabilidade do jornalismo para se manter e aumentar seu status. Embora haja já a certo tempo em mídias impressas uma seção do leitor, essa é sempre editada e limitada por um espaço físico, o que reduz o debate e frustra o leitor não correspondido. Com a transferência da informação para o mundo digital, não existe mais o problema do espaço físico e o da edição se tornou uma mera questão de educação: para que um comentário seja publicado basta ele ser respeitoso aos demais leitores. Dessa maneira o debate público gerado por uma matéria jornalística se expande como há muito não se via, já que de umas décadas pra cá o seu espaço nas ruas foi se esvaindo. Entretanto, como já era de se esperar na sociedade em que vivemos, esse tipo de interação já é ultrapassado. Madnmohan Rao, autor e consultor em gerenciamento de conhecimento e participante do ISOJ, diz que o twitter ajuda o cidadão a transpor a barreira entre ter conhecimento de um fato e agir em torno desse fato. O grande exemplo que podemos tomar são os Trending Topics que não raramente são usados para demonstrar apoio ou repúdio aos mais variados acontecimentos, desde uma esfera municipal até a esfera global, dependendo do caso.

Devices

Além da possibilidade de o leitor se aproximar e/ou se apropriar da informação de maneira mais eficiente, existe também abertura para o caminho inverso: a publicação jornalística se aproximar e conhecer melhor o seu leitor. Promoções no twitter, aplicativos para aparelhos como iPhone/iPad e para o Facebook têm entre seus objetivos recolher o máximo de informação possível sobre quem é o público que acessa as informações dessa empresa, pelo que essa pessoa busca, quais são seus interesses, o que ela aceita, o que ela repudia. Dessa maneira, a empresa pode moldar os seus seviços ao seus clientes e permitir, em forma de um circulo virtuoso - em que um leitor mais interessado interage mais com uma publicação que por sua vez consegue atender mais aos interesses do leitor-, uma aproximação cada vez maior entre leitor e publicação.

A relação da empresa jornalística com o usuário começa na escolha do device, por definição uma invenção. Convencionou-se evocar o termo como referência para aparelhos eletrônicos, normalmente portáteis, como smartphones, tablets, e-readers. Em termos de apresentação de conteúdo, seus diferentes mecanismos e resoluções pedem plataformas e approaches variados – é mais agradável ler um texto extenso no iPad que no Blackberry, é menos custoso adaptar o conteúdo de um jornal para um Kindle que para um iPhone, etc. Os três, no entanto, são de grande importância para a indústria midiática porque, além de oferecer infinitas possibilidades em termos de interatividade, carregam consigo o importante conceito de “mobile” que significa, na prática, acesso à produção e ao consumo de informação massiva, instantânea e participatória em redes sociais.


Hiperlocal Open Source O Jornalismo Participativo, também conhecido como Jornalismo Cidadão, resume-se na construção de conteúdo informativo por pessoas sem formação jornalística. Trata-se de uma reviravolta no conceito tradicional do jornalismo: enquanto, no modelo tradicional, o Jornalismo trabalha para a construção da sociedade; no modelo participativo, a sociedade trabalha para a construção do Jornalismo. Esse novo tipo de jornalismo, ainda ignorado pelas grandes mídias, é possível por uma série de fatores que vão desde a expansão tecnológica (por exemplo, difusão de celulares com câmeras e de domicílios com internet) até as mudanças na relação “sociedade x informação”. Relação que, após o advento das novas mídias e das redes sociais, apresenta-se cada vez mais democrática. Se, por um lado, o Jornalismo Participativo é positivo, visto que abre a possibilidade de todos serem emissores, por outro, o segmento recebe uma série de críticas pela ausência da objetividade jornalística. Afinal, ele acaba funcionando como um “jornalblog”, no qual informações se misturam com as opiniões dos escritores. Como a mídia tradicional, o lucro do Jornalismo Participativo vem, principalmente, da publicidade. Além disso, lucra-se por meio das contribuições dos leitores e da venda de matérias (como em uma Agência de Notícias). Em escala mundial, há exemplos muito bem sucedidos de “open source”, como o coreano OhmyNews (http://international.ohmynews.com/) e o Wikinews (http://www.wikinews. org/). No Brasil, o portal OverMundo (http://www.overmundo.com.br) pode ser considerado um caso desse tipo de jornalismo. Vale lembrar que vários canais de mídia tentam, sempre mais, expandir seus setores de interatividade. Portais como o IG, O Globo e Terra apresentam seções destinadas à produção jornalística cidadã.

O modelo hiperlocal de notícias é um dos grandes exemplos de como o modelo tradicional oligopolar de fonte de informação não mais condiz com o cenário contemporâneo. Geralmente, um site de divulgação hiperlocal tem o conteúdo produzido por qualquer pessoa focando histórias de uma área ou grupo de interesse em particular. O Patch.com é uma plataforma de notícias desse modelo alimentada por cidadãos, comunidades e vizinhanças, abrangendo 800 cidades dos EUA. Seu maior ganho é o de organizar e digitalizar as informações de bairro por meio de editores locais. O publisher do site diz que não é um abandono do jornalismo, uma vez que foi criado mediante necessidade e carência identificadas. Foi o maior empregador de jornalistas nos EUA e provavelmente no mundo, contratando mais de mil deles, diz Warren Webster, presidente. É uma tendência atual: Espen Hansen, editor-chefe da VG Multimedia, afirma que jornalistas deveriam usar 10% de seu tempo interagindo com a comunidade local - proposta sustendada pelo conceitto de inteligência coletiva, base de toda mídia social e blogs hoje.

Apesar do medo que permeia a indústria, a disseminação da Internet não significa que o jornalismo deixará de ser a difusor de informações. É ele quem apura, amplia e valoriza, com conhecimento agregado, uma notícia. A mídia tradicional não perdeu seu lugar para um bando de twitteiros, não morreu, nem entrou em coma. Mas um novo modelo é necessário, e ele vem sim sendo buscado, com a entrada das grandes empresas jornalísticas nas redes sociais e sua adequação às possibilidades de multiplataformas na Internet. Hoje o site de um grande jornal possui áudio e vídeo produzidos pela própria equipe da empresa, tudo graças ao suporte dado no mundo digital. Já nas redes sociais são essas mesmas empresas que lançam manchetes confiáveis para milhares de internautas e que deles partem para o mundo. Em um mundo em que qualquer pessoa pode divulgar uma informação é necessário ter portos seguros no jornalismo com credibilidade, para que as pessoas não se percam em um mar de palavras sem saber ao certo aonde vão.


Estudo de Mídia I - 'Sent from my iPad'