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7 de Outubro de 2009 | Quarta-feira | a

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CIDADE

Mudanças no panorama industrial de Coimbra FOTOMONTAGEM POR LEANDRO ROLIM

A identidade da cidade está em transformação devido à perda de indústrias que a projectavam no país e no mundo. A Marcopolo e a Poceram são os exemplos mais recentes MARIA EDUARDA ELOY Coimbra perdeu, em 2009, mais duas das suas indústrias emblemáticas. Face à crise mundial, a Marcopolo – Indústria de Carroçarias, S.A. encerra a fábrica de Coimbra e a Poceram entra em processo de insolvência. O presidente da Câmara Municipal de Coimbra (CMC), Carlos Encarnação, afirma que “a câmara tem uma capacidade limitada de intervenção” para ajudar estas empresas, mas procura prestar apoio em situações críticas. Encarnação refere o exemplo da Marcopolo que já há oito anos pretendia encerrar a fábrica de Coimbra e que foi persuadida a não o fazer na altura. “A CMC foi um parceiro interessado na vida da Marcopolo, procurou facilitar-lhes a vida o mais possível, fez encomendas, comprou autocarros, carroçarias” e, portanto, a autarquia “ficou absolutamente surpreendida com a decisão da empresa de sair de Coimbra”, conclui. A CABRA procurou entrar em contacto com a Marcopolo, no entanto, até à data de fecho da edição não obteve resposta. Longe de serem fenómenos isolados no panorama da cidade, falências e encerramentos enquadram-se numa tendência que

SÃO CADA VEZ mais as indústrias tradicionais a desaparecer em Coimbra se prolonga há mais de 25 anos. O representante da Sociedade Central de Cervejas, Basílio Dinis, associa a extinção da Topázio, enquanto produto conimbricense, há já 17 anos, à falta de saneamento adequado às necessidades de produção. Mas admite que “não seria possível fazer o saneamento” para a fábrica, em detrimento de zonas urbanas carenciadas e que a autarquia de Manuel Machado, então presidente da CMC, se “portou extraordinariamente”. Contra as probabilidades que ditam o fim das indústrias mais tradicionais em Coimbra, há empresas que ainda persistem. A Fucoli – Somepal, S.A., a Dan Cake e a ressuscitada Ceres – Cerâmicas

Reunidas, S.A. são disso exemplos. O presidente do Conselho de Administração da Fucoli – Somepal, S.A., Álvaro Pereira, afirma que mantém a sua empresa de metalurgia em funcionamento com “apoio zero da autarquia”. Carlos Encarnação contrapõe que o melhor apoio que a autarquia pode dar à metalúrgica “é fazer as obras de saneamento”, para aumentar as vendas de produtos daquela indústria.

Novas apostas renovam a cidade O mediatismo industrial em Coimbra tem sido canalizado para o iParque, pólo de empresas ligadas às tecnologias e à saúde. São estes

os novos produtos que a cidade exporta e que vêm ao encontro do ideal do economista e docente da Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra (FEUC) José Reis que afirma que “o que importa é ter empresas que inovem, que possam criar emprego e que retribuam bem do ponto de vista salarial”. Contudo, para o Coordenador da União de Sindicatos de Coimbra, António Moreira, apesar de a criação de emprego ser positiva, as diferenças entre o tipo de mão-deobra da indústria tradicional e da nova indústria são tão marcadas que as novas empresas “para além de pequenas e para além de poucas não conseguem absorver a mão-deobra que está no desemprego”.

O investigador do Centro de Estudos Sociais (CES) Carlos Fortuna revela que as indústrias com mãode-obra pouco qualificada “estão a perder espaço face às empresas de serviços”, que “marcam o compasso das novas tendências da economia”. O director da Associação Comercial e Industrial de Coimbra, Paulo Mendes, confirma a opinião do investigador do CES ao afirmar que as indústrias voltadas para as novas tecnologias “são mais relevantes” e que “as outras são indústrias não competitivas no território europeu, que estão a ser desvalorizadas e localizadas em territórios onde a mão-de-obra intensiva é mais barata”. Apesar de a cidade ser conotada com comércio e serviços, fábricas como a Estaco, a Real Cerâmica, a Triunfo, as Confecções Ideal, a Fábrica da Cerveja (produtora da marca Topázio), contribuíram para definir a identidade de Coimbra. Nuns casos o encerramento e, noutros, a deslocação para regiões diferentes destas indústrias dos sectores metalúrgico, cerâmico, têxtil, de géneros alimentares, ditaram a perda de “empresas que marcaram um tempo e marcaram também uma referência da cidade no plano nacional e internacional”, como afirma o sindicalista António Moreira. Carlos Fortuna, acredita que a identidade da cidade “se está a perder”. Contudo, o sociólogo revela que “a longo prazo, o que vamos ver é uma mudança na natureza do emprego e da indústria económica”, em vez de uma lacuna, marcada por desemprego e problemas sociais. “Daqui a 25 anos”, a cidade estará a “refazer a sua identidade”, conclui. Com Alexandra Lacerda e Marta Pereira

SMTUC apostam na inovação Painéis sonoros concebidos para invisuais e horários de autocarros no telemóvel facilitam a mobilidade em Coimbra ANA MARIA COELHO Depois dos painéis informativos, que indicam o tempo de espera dos autocarros, agora os utentes invisuais vão ter painéis sonoros que disponibilizam a mesma informação. O administrador-delegado dos Serviços Municipalizados de Transportes Urbanos de Coimbra

(SMTUC), Manuel Oliveira, designa-os como uma “nova geração de painéis informativos”. É uma medida da empresa de transportes que pretende contribuir para a autonomia dos invisuais e das pessoas com acuidade visual reduzida. O sistema sonoro vai estar localizado em quatro paragens de grande movimento dentro da cidade. “Só com o funcionamento dos dispositivos é que poderemos saber se a medida é positiva”, revela a técnica de serviço social da Associação de Cegos e Amblíopes de Portugal (ACAPO), Ana Eduarda Ribeiro. Será difícil prever os pontos fortes e fracos deste sistema de informação, dado que “nos primeiros tempos de utilização é que os utentes conseguem perceber as falhas”, acres-

centa. Segundo a técnica de serviço social, os SMTUC têm dado também formação aos motoristas, com o objectivo de os sensibilizar para as ne-

invisuais são positivas”, remata Ana Eduarda Ribeiro, considerando, contudo, que é “utópico” adaptar tudo numa sociedade de maiorias.

Painéis sonoros vão ser colocados em paragens de grande movimento

SMTUC com serviço para telemóvel Com o intuito de melhorar a vida dos utentes dos transportes públicos, foi criado o SMTUC Mobile. Através de uma aplicação instalada no telemóvel, os utilizadores podem consultar os horários dos autocarros da empresa e saber quantos minutos faltam para a linha em que pretendem viajar. O serviço está disponível para “download” gratuito no sítio dos SMTUC na Internet, desde Setembro. Até à data, tem conseguido

cessidades dos invisuais. Nas zonas de paragem, sempre que avistam uma pessoa invisual ou com limitação visual, os condutores procuram saber se ela pretende seguir naquela linha. “Todas as medidas que contribuam para a autonomia dos

“bastante adesão”, segundo o administrador-delegado dos SMTUC. Os utentes dos transportes urbanos de Coimbra, com acesso a esta aplicação, vão esperar menos tempo pelos autocarros. De futuro, os SMTUC querem implementar também uma nova forma de emissão de bilhetes, semelhante à utilizada no Porto e em Lisboa. Os novos títulos de transportes poderão ser carregados sempre que necessário, em vez dos actuais descartáveis. O processo encontra-se numa “fase de adjudicação” dependente do financiamento do Instituto da Mobilidade e dos Transportes Terrestres, avança Manuel Oliveira, sem adiantar quando entrará em funcionamento. Com Maria Eduarda Eloy

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