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MADELEINE SHEEHAM


Distribuição: Eva Tradução: Nicolle S. Revisão Inicial: Rafaela S. Revisão Final: Livinha Leitura final: Lari F. Arte: Niquevenen Formatação: Eva

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UMA VERDADEIRA AMIZADE NUNCA MORRE. Leisel e Evelyn perderam tudo. Maridos. Famílias. Amigos. Vidas que faziam sentido. Tudo que tinha restado era uma a outra e uma amizade que poderia resistir a qualquer coisa... INCLUSIVE UM APOCALIPSE. Até uma noite fatídica, a pouca segurança com que elas passaram a contar chega a um final vicioso e brutal. Com a ajuda de Alex e Jami, ambos aliados improváveis, Leisel e Evelyn são capazes de escapar de seu santuário destruído apenas para se encontrar cara a cara com uma vida muito diferente, muito mais cruel, onde elas têm que encontrar o caminho – e a vontade − para permanecerem vivas em um mundo que não reconhecem mais. Viajando por um país quebrado e infectado, o grupo cansado da estrada é confrontado com a violência sem fim, circunstâncias improváveis e a perda final. Tudo vem a um preço, especialmente a segurança, cujo custo poderia muito bem roubá-los da única coisa que tentaram tão duramente se agarrar: a sua humanidade. No entanto, junto a todas as provações que são forçados a suportar, também há esperança na forma de amor. Amando Leisel de longe, Alex tenta colocar os pedaços de seu coração despedaçado juntos novamente. Mas em um mundo tão selvagem, há espaço para o amor? Em um lugar onde pesadelos se tornam reais, onde os vivos devem ser temidos muito mais do que os mortos, uma amizade inquebrável e um amor contra todas as probabilidades pode significar a diferença entre a vida e a morte. HÁ AMIGOS… E HÁ LEISEL E EVELYN.

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Prólogo O apocalipse zumbi não aconteceu como nos filmes. O desastre não nos atingiu quando não estávamos olhando. Não, estávamos todos olhando. Estávamos todos aguardando. Foi um lento gotejar que começou com a transmissão noturna de notícias. De novo outra doença, outra epidemia, estava varrendo o terceiro mundo com efeitos paralisantes, dizimando vilarejos inteiros em poucos dias. A Febre de Vaal, como eles chamaram e que não tinha misericórdia de suas vítimas. Homens, mulheres e crianças igualmente foram assolados pela doença, a maioria morreu como resultado. Só que, eles não continuavam mortos. Acordavam e atacavam os sobreviventes, disseminando o vírus através de sua saliva e sangue. E o que poderíamos fazer? Como todas as outras pandemias que já vivemos, não poderíamos fazer nada a não ser esperar que os CDCs1 pudessem colocar um fim nisso, ou que as forças armadas nos protegesse e assegurasse que aquilo não se espalharia. Então esperamos e aguardamos, tentando não nos preocupar. Continuamos com nossas vidas diárias. Como sempre, acordamos cada manhã, íamos ao trabalho e a escola, continuamos conversando, rindo, vivendo. Mas no fundo de nossas mentes, esperávamos. Sete bilhões de pessoas estavam todas aguardando. Aquele lento gotejar aumentou, tornando-se uma enchente enquanto mais relatórios eram transmitidos de todo o mundo. Como uma nação, ficávamos colados em nossos rádios, televisões, na internet, assistindo impotentes conforme a epidemia continuava a se 1

Centros de Controle de Doenças

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espalhar. A partir de então, os governos do mundo inteiro tomaram ações agressivas para impedir a doença de entrar em seus países. Aeroportos foram fechados, as companhias marítimas se recusaram a navegar, importação e exportação não existiam mais. Então as comportas se romperam e descobrimos a verdade. Não havia tratamento. Não havia cura. A África foi a primeira a sucumbir, depois China e Rússia rapidamente a seguiram. De repente, nossas agitadas e movimentadas vidas pararam. Supermercados e farmácias começaram a limitar o volume das compras, os produtores estavam repentinamente com grande demanda e as pessoas começaram a usar máscaras faciais. Outros pararam de ir ao trabalho, recusando-se a deixar suas casas para evitar qualquer tipo de contato com outras pessoas. Quando soubemos que a doença tinha chegado à Europa e América do Sul, o pânico – nascido do medo e da impotência – se transformou em violência. O exército americano não era grande e rápido o bastante, não estava preparado o suficiente para a magnitude do protesto público. Devido à sua falta de planejamento, uma guerra civil estourou entre o exército e os cidadãos que eles deveriam proteger. Como resultado, cidades inteiras caíram em chamas antes que a doença tivesse alcançado o solo americano. Mas quando chegou, no momento em que o primeiro americano caiu de joelhos, o governo estava miseravelmente preparado para as consequências e a doença se alastrou como fogo em palha seca. Indiscriminadamente, levou os fracos, os fortes, os jovens e os velhos. As longas reportagens de notícias e transmissões de rádio anteriores não existiam mais. As frequências do rádio foram preenchidas com nada além de estática. Nossas vizinhanças, nossas cidades e estados, o país inteiro, o mundo inteiro – tudo ficou em silêncio. Quando o mundo acordou de novo, despertou com um gemido que

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prometia somente misĂŠria e perda. E eventualmente morte.

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Capítulo Um Leisel

Há sangue em todo lugar – sobre a cama, nas paredes, no chão. Até mesmo no teto. Olho para as minhas mãos manchadas de vermelho, em meu corpo nu. Está em cima de mim, cobrindo a pele sardenta de meus braços, tronco, pernas e pés. Em todo canto. Não tinha visto tanto sangue em um único lugar em… Bem, não nos últimos quatro anos desde que vivo neste santuário do mundo exterior. Uma pequena e maníaca risada escapa da minha garganta seca e arranhada, passando por meus lábios. Um santuário? Bem, poderia ser para maioria, mas aquele não era o caso para todos e menos ainda para mim. Este lugar, Fredericksville, uma cidade que já foi pequena e tranquila, meu lar atual, é uma das últimas cidades funcionais que ainda restavam no país. E para todas as intenções e objetivos, era um lugar seguro para viver. As famílias sobrevivem dentro, protegidas pelos muros fortificados e guardadas por homens armados que nos mantinham a salvo das numerosas ameaças de fora. Nós tínhamos um líder, um homem e um conselho composto de um pequeno grupo de homens que criaram nossas leis. Juntos desenvolveram um sistema equilibrado para manter nossa paz. Todos têm um trabalho, determinado pelas habilidades que dominavam no mundo antigo. Mulheres que podiam costurar ainda

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estavam costurando e professores, como eu, ainda estavam ensinando. Homens que podiam construir ainda estavam construindo, cozinheiros ainda cozinhavam, agricultores ainda plantavam, policiais ainda policiavam, soldados ainda lutavam, oficiais ainda oficializavam. E nosso líder... Olho para cima, longe da minha pele ensanguentada e do outro lado do cômodo mal iluminado onde um igualmente nu e ensanguentado corpo permanece imóvel na cama. Meu marido, Lawrence Whitney, o líder da nossa comunidade... Estava agora morto e não mais liderando. Outra risada borbulha e meus olhos começam a marejar. Matei meu marido, um homem que não era somente um homem, mas o homem no comando, o mais poderoso homem no meu mundo. E não importa quão quebrado esse mundo poderia ser, assassinato ainda é um crime, ao menos por trás desses muros e consequentemente punido com a morte. Não haverá um julgamento, nem advogado de defesa para ajudar a apresentar minha história de sofrimento para um júri composto por meus companheiros, para mostrar os machucados, novos e antigos, que cobrem meu corpo. Ninguém vai me ajudar a explicar a verdadeira razão do porque minhas visitas à enfermaria eram mais frequentes que a maioria, porque muitas vezes eu tinha um braço em uma tipoia, porque óculos de sol sempre escondiam meus olhos e porque podia ocasionalmente ser vista mancando em um par de muletas. Quando se trata de cometer assassinato neste novo mundo, a única coisa que alguém pode esperar no seu futuro era a morte. Sem recursos ou espaço para obter uma prisão de longo prazo, as pessoas de Fredericksville têm pouca escolha a não ser acabar rapidamente com a vida de seus infratores violentos. Sei disto e ainda assim permiti que minhas emoções levassem a melhor sobre mim. Deixei que minha dor nublasse meu julgamento. Consenti que meu medo tomasse o controle, levantasse sua cabeça feia e acabasse com a fonte da minha miséria, minha prisão, de uma vez

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por todas. Oh Deus, por quê? Por que fiz isso e de todos os lugares possíveis, em nossa casa? Não haverá escapatória, nem fuga ou esconderijo dessa bagunça que criei. Não dentro dos confinamentos de uma cidade murada, rodeada por homens armados. Os mesmos homens que estariam em nossa porta ao primeiro sinal do amanhecer, prontos para escoltar meu marido em seus afazeres diários, apenas para encontrálo brutalmente assassinado. E eu, suja de sangue e a óbvia culpada. Se eles não me matarem na hora, eu serei levada em custódia imediatamente, sem permissão para ver ou falar com ninguém. Com uma hora de apreensão meu crime iria ser do conhecimento de todos. Palavras viajam rápido em uma comunidade tão pequena, especialmente em uma sem os meios modernos de entretenimento. Não há televisão para assistir, nem celulares para nos manter ocupados e a pouca eletricidade que era canalizada do rio próximo era usada somente para propósitos de comunicação dentro de Fredericksville, iluminar as construções da comunidade e prover uma pequena quantidade de refrigeração para a cozinha. Fofocar é nossa única fonte de entretenimento, por que é tudo que resta. Tenho um dia, talvez dois, até que todos se reúnam na rua principal, onde a justiça seria rapidamente cumprida. Uma execução pública, uma única bala em minha cabeça, daria uma advertência a todos que pudessem em algum ponto estar disposto a fazer justiça pelas próprias mãos como eu havia estupidamente feito. A infecção eficientemente acabou com a sociedade como conhecíamos. No meio da destruição, um novo mundo surgiu com uma filosofia “sobrevivência do mais forte” e “antes ele do que eu”, o tipo de pensamento arcaico que declara que homens e mulheres não são iguais. Quanto à justiça, também é uma coisa do passado. Simplesmente sobrevivemos. Afundo no piso gelado, caiu de joelhos com os braços estendidos em súplica. Mas para quem são minhas súplicas, não sabia. Ajoelhamos quando sabemos que não temos mais nada, nenhum lugar para ir? Eu estava subconscientemente pedindo a Deus por

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misericórdia, por perdão ou por um salvador? Meus pensamentos estão desorganizados, o medo em primeiro plano na minha mente ofuscando o resto. “Por quê?” sussurro para o chão. “Por quê...” Confusa, estou incapaz de terminar minha pergunta, nem sabendo que pergunta é. Ou talvez sei, talvez sei exatamente que pergunta é. Talvez não estou perguntando por que essa particular e mais recente tragédia tinha acontecido, mas por que tudo tinha acontecido. Tudo isso. Porque qualquer dessas coisas tinha acontecido. Mas não há respostas para encontrar. Nunca houve. Só vazio. E consequências. Eu desejo com todo meu coração que pudesse ter sido mais forte. Capaz de enfrentar este novo mundo, esta nova realidade, com serenidade e graça. Enquanto eu encaro o nada, penso em Evelyn, minha linda e corajosa amiga. Evelyn tinha suportado tanto quanto eu havia, sendo impelida de sua tranquila e feliz vida como eu, também havia perdido o homem que amava e ao meu lado tinha sido enfiada dentro desse mundo frio e cruel. Como eu, ela foi forçada a casar com um homem que não amava, forçada a viver uma vida que não queria. Ela tinha sido forçada a se tornar uma mulher que não era. Que nunca soube ser. Mas diferente de mim, ela não tinha se dobrado. Tornou-se uma versão mais forte de si mesma. Evelyn é capaz de enfrentar qualquer miséria que a vida atire em seu caminho, abraçando-a, utilizando e a moldando do seu jeito, com muita perseverança. Eu tinha feito o oposto. A tristeza me consumiu, me fazendo afundar em mim mesma em vez de encarar meus demônios de cabeça erguida. Eles haviam se espalhado por dentro e me devorado, me tornando inútil, incapaz de funcionar adequadamente, criando um novo conjunto de sofrimentos. Meus demônios estão sempre crescendo, se estabelecendo dentro

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de mim, até que eram muitos – muitos para nomear e contar, para lidar com eles sozinha. E então me entreguei, incapaz de tomar outro segundo disso. Ou dessa vida. Ou de seu punho colidindo com meu rosto, de seu corpo grosseiramente pegando o que eu não estava oferecendo, de suas duras palavras frequentemente seguidas de risadas e desdém. Eu tinha sucumbido. E ali minha consequência dormia. Sangrento. Arregaçado. Morto em nossa cama de casal. Mas mesmo morto e finalmente em silêncio, ainda podia ouvir sua risada. Ecoando sonoramente por este prédio antigo, pulando as paredes, vindo até mim de todas as direções. Você é uma imprestável, Leisel. Você é um nada. Ninguém. Você me ouviu? Você é um nada, Leisel, nada! Você é um buraco pra foder, um rosto bonito e uma cabeça vazia. Uma estúpida, inútil... E sua mão bateria contra meu rosto, me fazendo tropeçar, chorar de dor e cair a seus pés. Ele riria mais e mais. Me chamaria de mais nomes. E me culparia por sua inabilidade de produzir um filho. E depois mais lágrimas cairiam. Daquelas lágrimas de dor e humilhação veio as piores consequências de tudo. Minha dor, minha angústia e minha agonia fizeram ele se sentir mais poderoso, vitorioso e como todos os homens que não resistiram à sede de sangue, eu era o prêmio a ser pego. Só hoje à noite, havia lágrimas demais. Muita dor. E à medida que ele continuava me devastando, me machucando, de repente entorpeci de tudo isso. Entorpecida e depois... Furiosa. Enquanto ele dormia, eu caminhei. Acalentando as feridas doloridas do meu corpo ao mesmo tempo em que murmurava e chorava. Caminhei até a raiva assumir, muitos pensamentos dentro de mim, muitas vozes gritando comigo, muita dor irradiando de minha pele e do meu coração quebrado, muitas perguntas sem respostas vagando ao redor e então, de repente, não podia mais suportá-lo,

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tolerar outro segundo o ouvindo roncar tão pacificamente, sem uma preocupação no mundo, depois que meu mundo foi destruído e ele me forçou a entrar no seu, seu mundo de miséria, da minha miséria e repentinamente a faca que ele guardava em sua bota estava me encarando do outro lado do cômodo como um farol brilhante no nevoeiro em que havia entrado e estava me chamando, gritando comigo até que fosse a única coisa que conseguia ouvir, tudo que conseguia ver e assim, tirei aquela faca de sua bainha e a segurei por cima do corpo de meu marido e conforme as lágrimas derramavam pelo meu rosto, furiosa e cheia de determinação, independentemente das consequências, abaixei aquela faca e a conduzi para dentro de seu coração. De novo. De novo. E de novo. Enquanto eu continuo relembrando os eventos que tinham acontecido poucos minutos atrás, um estranho tipo de calma começa a se espalhar por minha pele, tranquilizando a náusea que queimava e aliviando o medo paralisante que me fazia refém. Com um suspiro silencioso, me levanto e pesquiso a cena de meu crime. Somente dessa vez, eu não estou examinando minha consequência. Ao invés disso, olho algo completamente diferente, algo totalmente surpreendente. Surpreendente porque... Afinal, eu queria sair deste mundo, não queria? Desejo estar livre desse medo, da dor, não só do meu marido, mas do mundo em que vivemos agora. Não fui feita para isso, para sobreviver em tempos de conflito. Eu sou fraca; sempre fui. Somente por causa da Evelyn sobrevivi por tanto tempo. Apenas por causa dela não tinha terminado comigo mesma tempos atrás. E agora eu estou livre. Estou finalmente feliz por estar livre deste homem. “Você é um homem terrível”, sussurro ferozmente. “Não é homem

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de verdade”. Conheci um homem bom, um homem de verdade. Eu o amava com tudo de mim e em troca ele tinha me amado com tudo dele. Tinha sido uma parceria, uma amizade e um amor que nos dominava. O que faltava em mim, ele tinha aos montes e o que faltava nele, eu havia feito minha missão para compensar. E nem uma única vez ele me tocou com raiva ou com perversão. Aquilo tinha sido um casamento e isto... Isto foi uma farsa. Unilateral, um jogo de servidão. Isto tinha sido tortura mascarada como uma tarefa para a continuação da raça humana. Matá-lo, aquilo não era um erro. Não nasceu do medo, mas da raiva. Matá-lo era uma necessidade, uma maldade necessária. Pela primeira vez em minha vida, mesmo que significasse o fim dela, havia, por fim, feito algo corajoso. Tinha finalmente salvo a mim mesma. Com minha mente de volta e uma determinação feita de aço firmemente no lugar, me afasto do que restava do homem que odiava, da vida que eu detestava. Enquanto ando lentamente em direção ao meu armário com a intenção de me vestir, o rosto de Evelyn novamente invade meus pensamentos. Sabendo que eu vou deixá-la sozinha, um pedaço de culpa serpenteia para dentro de minha recém-descoberta resolução. Ela tem amigos, mas todos são os mesmos puxas sacos e servis, sobreviver são suas únicas preocupações. Por muito tempo tudo que Evelyn e eu tínhamos tido era uma a outra; nós confiávamos uma na outra, dependíamos uma da outra, relembrávamos uma a outra uma vida que agora havia partido. Balanço minha cabeça, empurro aqueles sentimentos para longe. Era tarde demais para fazer algo sobre isso agora. O dano estava feito e Evelyn... Ela sobreviveria a isso também. Vestida agora em jeans esfarrapados e uma blusa térmica surrada, eu me viro para o espelho e solto uma vacilante respiração. Não reconheço essa mulher, salpicada de sangue, machucada e massacrada. Os mesmos cabelos longos e escuros caíam pelos meus ombros, os mesmos olhos arregalados castanhos me encaram de volta, a mesma pele pálida e sardenta branca brilha debaixo da luz da lua,

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ainda assim não a reconheço. Eu nem mesmo quero conhecê-la. Afasto-me do meu reflexo, olho o cômodo novamente enquanto minhas unhas cavam a ponto de sair sangue das minhas palmas. Então dou outra profunda respiração. “Ajuda!” grito com o topo de meus pulmões. “Me ajuda!” Um grito abafado soa, seguido de estrondos na porta e depois uma sonora batida. Eles chegaram agora. Veriam o que eu tinha feito e me levariam para longe. Entregariam-me a minha última parada desta longa e tortuosa estrada.

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Capítulo Dois Evelyn

Jami pressiona minhas costas na parede, os tijolos gelados raspam asperamente na minha pele aquecida. Seus beijos são persistentes, nunca acabam e eu prontamente os tomava, devorava-os, sedenta por mais. Estava sempre sedenta por mais dele. Quanto mais dele eu tenho, mais ele lava o gosto vazio do amargo que meu, assim chamado, marido deixava para trás. Preciso de Jami nesse momento, preciso dele como uma droga que pode me levar a algum lugar novo, algum outro lugar que não fosse aqui com um homem que me causa repulsa, em uma vida que eu odeio. A boca de Jami se move por meus lábios, viaja pelo meu queixo e pescoço, empurra minha blusa de algodão fino para um lado e expõe mais de minha carne para seus beijos vorazes. Sua respiração quente dança por minha pele, acendendo meus nervos com cada um de seus toques. Minhas mãos se arrastam em seus cabelos, minha perna se enrola ao redor da dele, o puxando para mais perto. Ele geme profundamente com o fundo de sua garganta enquanto suas mãos pegam meus seios com desejo. Esse é um som que eu amo ouvir. Um som que acende um fogo em mim, me faz querer ouvir de novo. Abaixando sua boca até o meu peito, ele libera meus seios, chupando e mordendo a dura protuberância de meu mamilo. Gemo de novo, me contorcendo por baixo de seu peso, sentindo como se não pudesse aguentar mais nem um segundo da sua provocação. “Jami...” digo seu nome, amando o som áspero que sai dele, um rugido satisfeito das profundezas de seu peito. “De novo”, ele murmura, sua boca resistindo a deixar meu

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mamilo. “Jami”, repito ofegante. Ele não tina necessidade de pedir, eu teria dito de qualquer forma, teria gritado de novo e de novo. O nome dele é como afrodisíaco, essa única palavra tem um poder incompreensível sobre mim. Controla-me, meu corpo e me sinto derretendo mais, sucumbindo inteiramente a cada um de seus toques, aumentando a necessidade por mais dele. Ainda assim, mesmo tão hipnotizada como eu estou por esse homem, meus pensamentos ainda voltam frequentemente a Mason, meu marido. Seu toque no meu corpo, seu cheiro ainda potente em meu nariz. Posso quase sentir seus dedos gordos ainda pressionando contra mim, intrometidos e ansiosos e isso fez meu estômago revirar. É quando eu preciso mais de Jami, para substituir o gosto e toques de Mason pelos seus próprios. Enquanto que Mason não é atraente, Jami é pecaminoso. Enquanto Mason é uns dez anos mais velho que eu, Jami tinha trinta e três, só dois anos mais velho que eu. Nenhum banho nunca fez o truque tão bem quanto as ásperas e zelosas mãos de Jami e sua incrível boca, sempre ansiosas em agradar. “Eve”. Meus olhos abrem lentamente e descubro Jami me olhando com olhos semicerrados, um sorriso que mostrava suas covinhas. Alcançando-me, esfrego seu dedo polegar sobre meu lábio inferior, deixando minha boca aberta para ele. “Onde você foi?” ele pergunta. Mais calma agora, sorrio para ele. “Lugar nenhum. Estou bem aqui”. Seu sorriso aumenta e então possui minha boca mais uma vez, suas mãos habilmente se movem em direção a barra da saia, puxandoa para cima e baixando as calcinhas ao mesmo tempo em um movimento eficiente e preciso. Minhas mãos vão para a fivela do seu cinto, desprendendo rapidamente. Com dedos experientes desfaço suas calças, excitada em libertá-lo de suas roupas. Excitada para senti-lo

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pressionando contra mim, pressionando dentro de mim. Minha respiração saiu trêmula. Eu o quero. Deus, como quero, preciso dele... E então lá está ele, duro e pronto para mim. Gemo quando ele agarra minha coxa, levanta minha perna, avidamente empurra dentro de mim. Suspiro, minha cabeça para o lado, garantindo a ele acesso a pele tenra em minha garganta. Ele suspira docemente em minha orelha enquanto se move dentro de mim, seus quadris encontrando um ritmo perfeito contra os meus. Mordendo meu lábio inferior, sufoco meu grito de prazer, permito a Jami sobrepor os toques de Mason, as feias memórias flutuando para longe com cada estocada que Jami da. Sua respiração pesada, um estrondo agitado em seu peito, quase me enviando para a borda. “Eve!” Abro meus olhos, meu corpo congelando no meio da minha respiração ofegante. Jami se inclina para me beijar de novo, mas balanço minha cabeça e silenciosamente murmuro “Espera”. Vários segundos passam. “Eve!” Dessa vez meu nome ressoa pelas paredes e paro, minha respiração presa em minha garganta à medida que espero ouvir meu nome ser chamado de novo. Apurando meus ouvidos, meu coração batia selvagem em meu peito, escuto atentamente qualquer tipo de barulho. Ouço cuidadosamente quando então o distinto som de pegadas vem rapidamente pelo caminho, pedras moendo por baixo de botas. Alguém está vindo! “Merda!” Cochicho, empurrando Jami com força suficiente para fazê-lo tropeçar para trás. “Merda”, repito, tentando me recompor, a perda da sensação dele dentro de mim já é muito forte. “Alguém está aqui”. Uma suave batida soa, vindo da porta da frente e se espalhando

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pela casa vazia e escura. Jami olha em torno do cômodo, seus olhos repentinamente arregalados e selvagens com a preocupação. Ele pega suas calças e começa a enfiá-las em suas pernas, eu estava contente em ver que ele parecia tão frenético e corado como eu. “Merda!” praguejo de novo, puxando minhas calcinhas pelas pernas. Correndo em direção a janela, olho para baixo. Ângela, uma das garotas da cozinha, estava parada na porta, suas mãos segurando o avental, violentamente o torcendo. Olhando para cima, ela me encontrou na janela. “Evelyn depressa”, ela suplica, gesticulando para eu descer. Repetidamente ela olhava por cima de seu ombro, de volta para mim e por sobre o ombro de novo, como se estivesse preocupada de que tivesse sido seguida, ou preocupada que alguém a estivesse observando. Olhando para ela, percebi que não só ela ainda estava usando seu avental, mas também tem farinha em seu cabelo, tudo me indicando que ela havia deixado a cozinha com pressa. Fredericksville funciona como qualquer outra máquina bem lubrificada. Todos tem um trabalho a fazer, tudo funcion bem, contanto que as pessoas façam seus trabalhos e os façam bem. Assim como antes da infecção, há certos empregos que tinham mais importância, mais estilo, que outros. Contrária à opinião pública, é minha crença pessoal que todo trabalho tinha tanta importância que qualquer outro, simplesmente porque um líder não poderia existir sem seus cidadãos e vice-versa. Mesmo as crianças responsáveis por reciclar nosso lixo são importantes e em minha humilde opinião, muito mais que os homens cruéis no comando. Nem todos compartilham de minhas crenças, apesar disso. Meu marido, o superior bastardo que é, era um dos muitos homens por aqui que sempre olhava para baixo para qualquer um que ele acreditava ser inferior a ele. Dando as costas para Ângela, encontro Jami deslizando sua jaqueta militar em seus ombros, suas calças já vestidas. Percebendo que outra de nossas escapadinhas tinha acabado, uma pontada de arrependimento passa por mim. Eu o assisto enfiar sua arma de volta

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em seu coldre, até seu olhar finalmente encontrar o meu. Sorrindo e sem nenhuma palavra, ele se afasta, indo para as escadas. Sem beijo de adeus, nem mesmo um olhar por cima dos ombros. Quero ficar chateada por sua indiferença; deveria ter ficado chateada. Meu “adorado” marido sempre me dava um beijo querendo eu ou não e Jami não me dava nada. Nada a que me apegar quando ele não estava aqui, nada para me ajudar quando Mason me ordenava a ser sua adorada esposa. Como era seu usual MO2, Jami apenas partiu, me deixando desesperada por mais dele. Eu ouvi o suave clique da porta da frente quando fecha, sinalizando a saída de Jami, mas continuo parada lá, esperando por um minuto a mais – o mais longo de minha vida – antes de descer as escadas. Descendo os degraus dois de cada vez, balanço minha cabeça, desanimada. Foi por pouco, estávamos ficando descuidados. Ou ao menos, eu estava, embora não tinha muita certeza de que ainda me afetava. Não, risque isso. Eu me importo. Meus pensamentos foram para Leisel, minha melhor amiga. Ela é a única família que havia me restado e não podia negar que ainda de fato me importo. Eu tenho que me importar, por sua segurança, porque se não me importasse, ela não sobrevive nesse lugar, neste mundo. Sua dependência de mim e minha força podem arranhar às vezes, mas então, não posso culpá-la completamente. Eu tive meus próprios dias escuros durante os quais ansiava acabar com tudo, comer uma bala, finalmente calar o mundo exterior. Então penso nela e sou incapaz de ir adiante com isso. De uma forma, acho que você poderia dizer que estávamos constantemente salvando uma à outra. Nós prometemos − quando tudo isso começou, quando o mundo desmoronou bem diante de nossos olhos, levando com ele tudo que conhecíamos, todos que amávamos – que nós nunca desistiríamos. Sobreviveríamos não importava o custo e iríamos ficar sempre juntas. Sempre. Aquelas promessas foram difíceis de manter e Leisel, especialmente, sofreu mais que eu. Diariamente, eu me odeio pelo que ela tinha sido forçada a suportar, por não ser capaz de fazer mais para

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Modus Operandi

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protegê-la. Chegando ao saguão escuro, destranco o ferrolho e abro a porta, rapidamente dando um passo para trás para que Ângela cambaleie para dentro. Ela parecia desesperada, um brilho de suor reflete em sua testa enrugada e começo temer que houvesse uma ruptura nos muros. Isso havia acontecido uma vez antes, durante o primeiro ano quando os muros ainda não estavam terminados. Um grande grupo de infectados encontrou um jeito de entrar e estavam vagando livremente pelas ruas. Mas isso terminou tão rápido quanto começou. Nossos soldados controlaram isso, rápido e eficientemente. Ainda assim, perdemos pessoas. Isso foi há três anos. Três longos anos se passaram dentro dessa prisão, livre de infecção... Prisão. “É Leisel”, Ângela diz e meus pensamentos incoerentes congelam bruscamente. Agarrando a pequena e robusta mulher por seus ombros, colo meu rosto ao dela. “Onde ela está?” ordeno, o tremor na minha voz revelando a preocupação. “Ela está – eles a levaram!” ela começa a soluçar, soluços para os quais não tinha paciência ou tempo. Ainda agarrando seus ombros, eu a sacudo com força. “Onde ela está?” grito. Mas Ângela ainda chora. Franzo o cenho para ela em aborrecimento e a preocupação deu lugar para o meu estado de pânico. Não é como se Ângela e Leisel fossem próximas, ainda assim a mulher estava se comportando como se fossem. “Pare de chorar e me diga onde diabos ela está!” a empurro para trás, batendo suas costas contra a porta. Meu corpo, que a poucos momentos tinha estado aquecido pela luxúria, estava agora zunindo com raiva. Leisel é um rato, um quieto ratinho que nunca fez mal a ninguém. Ela nunca, nem uma única vez, causou problemas em Fredericksville, sempre se resguardava, mal falava até mesmo comigo por causa daquele marido bastardo dela. Ela é um quebrado e lindo fantasma, minha doce Leisel. “Eu juro por Deus, se ele a machucou de novo...” praguejo sob

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minha respiração, liberando Ângela para começar a caminhar pelo cômodo. Lawrence Whitney, o marido de Leisel é nosso tão enigmático líder, exteriormente charmoso e carismático, tudo que um líder precisa ser. Ele era o que o povo de Fredericksville necessitava no começo, alguém para colocar seus mundos quebrados nos conformes e eles o seguiam cegamente. Mas na privacidade, com Leisel, ele é um monstro. Batendo e abusando dela, usando-a de cada forma horrível possível, simplesmente porque podia. Porque ele sabia que ninguém poderia ou iria pará-lo. “Vou matá-lo dessa vez”, murmuro. “Eu vou”. Lágrimas começam a se formar enquanto um sentido de impotência me gela. Ângela e eu sabíamos que eu estou cheia de merda; nós duas sabíamos que eu não faria nenhuma maldita coisa. Porque eu não posso tocar naquele homem sem trazer o inferno sobre mim e Leisel. Sabendo quão indefesa estava me fez odiá-lo tanto quanto odiava a praga que infectou o mundo além do muro. Ele é um monstro, assim como eles eram. “Ele está morto, Eve. Lawrence está morto”, Ângela diz, seus olhos arregalados. Eu franzo as sobrancelhas para ela. “O que?” choramingo. “Como?” E então de repente eu sorrio, porque não me importo como. O que isso significa? Ele estava morto e Leisel está livre dele, livre de sua tortura. Qualquer um para quem ela fosse passada a seguir não poderiam ser piores que Lawrence. Então continuo sorrindo porque esta é uma coisa boa, tão boa quanto a vida pode ser por dentro de uma comunidade murada que facilmente desprezou um século de direitos das mulheres em favor de um estado totalitarista de domínio masculino. “Onde ela está?” pergunto, rindo a despeito de mim mesma. Repentinamente quero encontrar com ela, estar com ela naquele instante, envolvo meus braços ao redor dela e compartilho o que só

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consigo imaginar que seriam lágrimas de absoluta alegria. É estúpido para mim me comportar desse jeito. Estúpido e precipitado. É perigoso alguém saber que eu estava feliz pela morte de Lawrence, mas para o inferno com isso, não ligo. Ele estava morto e minha melhor amiga livre dele. “Foi Leisel”, Ângela murmura. “O que tem Leisel?” pergunto. “Leisel o matou”. O olhar de Ângela baixa enquanto mais lágrimas caem por trás de seus cílios. “Ela matou ele, Eve. E eles vão executá-la amanhã”. Com suas chocantes palavras, tropeço para trás como se tivesse tomado um soco no estômago, como se Lawrence tivesse me acertado com um de seus golpes cruéis. Leisel, minha inocente Leisel, matou ele? Balanço minha cabeça, me recuso a acreditar nisso, mesmo que Ângela assentisse-se como um daqueles bonecos cabeçudos, sorridentes e balançando suas cabeças grandes eternamente. Só que Ângela não está sorrindo. “Me leve até ela”, digo por entre dentes cerrados. “Não posso. Eles a trancaram. Ela já está na torre. Eu tenho que ir porque se perceberem que sai...” Ângela aperta seus lábios e olha para longe. Não me afeta em pressioná-la por mais informações. O que falta dizer? Diversos segundos de silêncio desconfortável passam antes que Ângela se vire e abra a porta. Olhando por cima de seu ombro, ela engole em seco. “Sinto muito, Eve.” Ela realmente sente muito; posso ver quão genuinamente sentida está. Ela sabe o que Leisel significa para mim, até onde iria por ela. E ao contrário do resto da cidade, Ângela tem uma vaga ideia do que

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Lawrence fazia com Leisel. Novamente, a descrença nubla meus pensamentos. Leisel tinha matado um homem a sangue frio? Isso não faz sentido, apesar de supor que todos tivessem seus limites. Preocupação por ela começa a arder em minhas veias. O que ele teria feito para colocá-la em tal estado que não pudesse aguentar mais? Tudo parece tão errado, considerando tudo que pensava que sabia sobre minha melhor amiga. Como teria, a tal doce e cuidadosa mulher, uma nerd total que ensinou metade das crianças em Fredericksville a ler e escrever, machucado alguém? E não só machucou, ela o matou. Eu deveria ter visto isso chegando, ter percebido que ela estava perto do seu limite. Há somente algumas vezes que uma pessoa pode ser espancada, de novo e de novo, antes de quebrar inteiramente. Leisel tinha obviamente quebrado e por que ela não poderia? Machucar Leisel é como chutar um filhotinho cego – ninguém com uma mente sã faria tal coisa. Lawrence, finalmente decido, recebeu o que merecia, com ninguém para culpar a não ser ele mesmo. Quão estúpidas tínhamos sido, nós duas. Estúpidas por pensar que um pequeno grupo de sobreviventes que nos acharam em nossa hora mais sombria, prometendo salvação e segurança, não tinha suas razões ocultas. Nós tínhamos simplesmente trocado um inferno por outro. Eu me encontro zombando do muro, me lembrando quão feliz estava por Leisel quando Lawrence a escolheu para casar. Ele parecia um grande líder na época. No início de seus quarenta anos, carismático e bonito e mais importante, parecendo tão ansioso fazer o que fosse preciso para reconstruir nosso mundo destruído. Fiquei um pouco ciumenta, desejando que também tivesse um homem que parecesse tão confiável e cuidadoso. Até que as primeiras marcas aparecerem; por isso senti só raiva e

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arrependimento. “Como ela fez isso?” grito para Ângela e ela rapidamente recua. Se virando, olha com ansiedade para todas as direções. “Ela o esfaqueou” diz em voz baixa, engolindo nervosamente, seus olhos ainda virando de um lado a outro. Outra batida de coração passa, então Ângela me dá um compassivo olhar antes de correr de volta a calçada e desaparecer na noite. Chocada e horrorizada, aperto uma mão sobre minha boca. Porque esfaquear é muito pior do que qualquer outra coisa, não sabia. Talvez porque fosse muito mais pessoal, mais próximo e muito mais cruel do que jamais teria esperado de Leisel. Certamente isto a ajudou. Quão claramente fora de si ela estava para fazer isso, matá-lo de maneira tão cruel e brutal. No mundo antigo isso significaria alguma coisa, sua defesa seria curta e grossa, cristalina para um júri enquanto as evidências de seu abuso eram apresentadas para eles. Mas nesse novo mundo, aqui em Fredericksville... Tropeço para frente, despencando em meus joelhos, já sabendo que Leisel não há defesa. Não importa o que aconteceu, sua voz não será ouvida. A justiça aqui não é justiça de verdade e ninguém tem tempo para histórias tristes. Sobrevivência é tudo o que vale de agora em diante, a proteção de nossa comunidade das ameaças de fora e assegurar que todos continuem a fazer suas partes para manter as engrenagens funcionando, manter a humanidade dentro. Um soluço começa a se construir em minha garganta, tornando difícil a respiração. “Não”, murmuro para a escuridão. “Por favor, não”. Eu prometi protegê-la, mantê-la segura. Mas tinha quebrado essa promessa, dito a ela para esquecer o seu marido anterior, sua vida passada, mesmo que eu não tivesse – não pudesse. Ainda penso sobre isso todo dia, meu primeiro marido e nossas vidas antes da infecção. Eu fui uma hipócrita e uma mentirosa e parte de mim sentia que se tivesse sido honesta com ela desde o começo, em vez de sempre querer livrá-la de minha própria dor, talvez as coisas não tivessem terminado

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dessa forma. Sufocando minhas lágrimas amargas, lentamente me levanto e olho para minha farsa de um lar, ao redor. Três meses depois da infecção ter chegado à América, Leisel e eu tínhamos perdido nossos maridos, nosso mundo inteiro. Nós precisávamos continuar quando tudo o que queríamos era deitar e morrer. Eu nos mantive fortes, lutando. Menti sobre muitas coisas, sufocando minha tristeza para confortar e tranquilizar as dela e agora vou perdê-la de qualquer jeito. Fiz tudo por nada. Mas então de novo, aquilo foi o que eu fiz. Eu me mantive forte apesar de todas as probabilidades e mesmo em face da total devastação, sempre fui a resiliente. Sempre me recusei a desistir. E, por Deus, me recuso a desistir agora.

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Capítulo Três Leisel

Sentada em um banco no canto de uma das duas salas de concreto dentro da estação de polícia, ambas minhas mãos e tornozelos presos em algemas, eu mal consigo olhar através da luz das velas para o guarda instalado para me vigiar. Alex é mais jovem que eu quase cinco anos, ainda em seus vinte e poucos anos e pensei nele, primeiramente, como um dos companheiros que meu falecido marido mais confiava. Era ele quem sempre silenciosamente me sequestrava para a enfermaria quando estava machucada demais para andar, que dava desculpas para minhas ausências, que garantia que os segredos doentios do meu marido continuassem assim. Secretos. Pior ainda, ele é da escolta pessoal de Lawrence, seguindo o homem a qualquer lugar que fosse, até mesmo ficava parado do lado de fora da nossa casa a noite. Por causa disso, tinha sido Alex quem me descobriu com o corpo de meu marido morto. Por isso mesmo, esperava ver raiva ou ódio em suas feições, ou ao menos, choque e horror. Ao invés disso, ele deu um olhar para meu ensanguentado e espancado corpo, outro para a forma mutilada de Lawrence, então levantou seus olhos aos meus preenchidos com o que parecia ser pena. E alguma coisa mais, alguma coisa chocante e diferente que eu não consigo compreender. Nenhuma palavra foi dita enquanto ele lentamente puxava as algemas de seu cinto e gentilmente as colocava em meus pulsos. Ainda mais surpreendente foi que ele esperou até eu estar seguramente

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trancada dentro de uma cela antes de alertar aos outros do meu crime. Ele me alertou de que estava me protegendo da ira da cidade, especialmente daqueles que faziam parte do grupo fechado de Lawrence. Eu já estou aqui há uma hora e ainda não recebi nem um único visitante a não ser Alex e alguns poucos guardas que passavam por lá. Ninguém olhou muito para mim, falou comigo a sós, me levando a imaginar quantas pessoas realmente sabiam sobre os quatro longos anos de abuso que enfrentei. Porque ninguém nunca disse uma única palavra sobre isso? Ninguém exceto Evelyn, é claro. E mesmo Evelyn era reticente a falar o que pensava na frente de alguém importante. Falar o que pensava neste novo mundo era um crime por si só e se as palavras que você dizia eram contra Lawrence Whitney, você normalmente terminava sem a língua. Suspirei, não posso culpá-los por me juntar com a crueldade daqui, não quando o mundo exterior é tão terrível. Esses homens nos salvaram da infecção, nos protegeram, nos deram uma aparência de nossas antigas vidas, não importa quão distorcida aquela aparência fosse. Uma coisa era melhor que nada. Evitando os olhos de Alex, olho pela única janela e para a noite escura, pensando no que está por vir. Eu serei executada em breve, não há o que fazer sobre isso e ainda assim, para a minha própria surpresa, não estou experimentando o terrível medo que achei que teria quando fosse encarar minha própria morte. Minha calma provavelmente vem do conhecimento de que o mundo que estou deixando é estéril, desprovido de tudo que uma vez amei. Com exceção de Evelyn, não há nada aqui para mim. E talvez alguma pequena parte de mim ainda esperava que houvesse um paraíso em algum lugar fora daqui, no grande desconhecido. Talvez lá, a humanidade não foi esquecida e Deus irá me perdoar por meus pecados, me permitindo ficar no céu com meu primeiro marido de novo, ser a mulher que uma vez fui sem repercussões – simples, tímida e

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feliz. Sem consequências. Talvez algum dia veria Evelyn de novo também. Porque se o céu fosse real, então ela merece estar lá também. O som de uma porta arrastando sobre o chão de concreto me sacude de minhas reflexões. Estremeço, em seguida levanto minha cabeça para ver Alex já de pé e acenando para seja lá quem for que estava entrando. Endureço minha postura, preparando para o pior, pensando que minha hora chegou e serei sentenciada à morte esta noite. Uma bagunça chocante de cabelos loiros vem à vista primeiro, o que instantaneamente reconheço como pertencente a Jami, outro guarda de Fredericksville e a mais recente distração de Evelyn de seu marido. Seguindo por trás dele, com o rosto marcado de lágrimas, seus cachos cor de morango anormalmente bagunçados e retorcendo suas mãos estava Evelyn. Meu olhar surpreso desloca para Alex, que me dá um pequeno e triste sorriso em retorno. Ele está me ajudando? De novo? Pulo do meu banco, me esquecendo completamente que meus tornozelos estão algemados e termino caindo para frente. Torço meu corpo em tempo para não cair de cara no chão, permitindo que meu antebraço sustentasse a maior parte do impacto. A dor aguda irradia pelo meu membro, explodindo em meu pescoço, me fazendo involuntariamente chorar. Enquanto estou caída ali, respirando pesadamente, lágrimas ardem em meus olhos, eu posso ouvir o tinir das chaves, o som de palavrões abafados e lá está ela, ajoelhada ao meu lado no chão, suas mãos gentis conforme virava meu corpo. “Oh Deus”, Evelyn murmura enquanto olha para mim, seus olhos se arregalam quando me vê. Eu não posso imaginar como estava a minha aparência; não tenho olhado em um espelho desde o incidente. Mas sei pela expressão inicial de Alex e agora Evelyn, que sou uma

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visão de admirar. “Eve”, digo soluçando suavemente. “Eu sinto muito. Sinto muito mesmo”. Não por matar Lawrence, mas por deixá-la aqui sozinha, porque isso é o que ela será depois de eu partir – sozinha. “Shh” ela me cala, alisando sua mão em minha bochecha e tirando fios de cabelos dos meus olhos. “Não”, sussurro freneticamente, desejando poder abraçá-la. “Eu sinto muito. Não estava pensando, e-eu…” “Lei”, ela interrompe, suave, mas firmemente. “Você não tem nada a se desculpar. Ele teve o que merecia! Ele…” “Eve!” o agitado murmúrio pertence a Alex. “Mantenha sua voz baixa!” “Você não podia estar aqui”, eu falo, segurando o punho dela. Usando o braço dela, eu me puxo para cima a uma posição sentada. Evelyn envolve seus dois braços ao meu redor, depois inclina sua cabeça, pressionando nossas testas juntas. À medida que ela me segura, solto um trêmulo suspiro de alívio. Inalo suavemente, sentindo o suor em sua pele, o leve cheiro de licor e… Jami. Olho para cima, sobre a cabeça de Evelyn para o guarda que entrou com ela. Ela não está sozinha aqui. Tm Jami e se ele foi capaz de se arriscar trazendo Evelyn à estação para me visitar, seus sentimentos por ela devem ser mais profundos do que deixa transparecer. “Você precisa ir”, digo, me afastando dela enquanto seguro mais lágrimas que ameaçam cair. “Você não pode ser vista aqui me apoiando, não depois do que eu fiz. Eles vão te matar por isso, Eve”. “Vou falar com Mason”, diz, se recusando a me soltar, me apertando mais forte. “Deve ter algo que ele possa fazer, alguém com quem possa falar”. “Não entre em problemas por mim!” exclamo. Empurrando para longe dela novamente, tento escapar para trás, algo difícil para alguém

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algemada. “Porque você está sendo tão irresponsável?” Assim que percebo o que eu disse, usei as mesmas palavras que seu falecido marido costumava usar amavelmente para irritá-la, a culpa instantaneamente me preenche. Evelyn fica parada, seus olhos cheios de lágrimas não derramadas. “Você falou como Shawn”, ela diz calmamente. Uma longa pausa se segue. “E você sabe o que sempre dizia a ele”. Assinto, me sentindo mal por ela. “Você sempre disse, ‘é por isso que você me ama’”. Evelyn me dá um sorriso triste. “E é por isso que você me ama também, Lei”. Meu peito dói, abaixo meus olhos. Como ansiava por nossas vidas antes da infecção. Por nossa tola, simples e pequena vida em nossa cidade quieta, onde Evelyn uma vez foi Miss Popularidade e amorosa dona de casa e eu fui a sossegada e reservada professora de pré-escola. Ela sempre foi o sol que complementava a minha lua. Eu sinto falta disso – nossos maridos, nossos churrascos semanais, nossos planos de férias para a Europa, nossas brincadeiras sobre ficar velhinhas juntas. “Quero estar com Thomas”, murmuro, balançando minha cabeça. “Não sou forte como você”. Evelyn joga suas mãos para cima no ar, sua expressão retorcida em dor e exasperação. “Porque você quer tanto ir, Lei?” ela demanda. “Me deixar! Não é isso o que Thomas queria para você, que apenas desistisse!” “Ele não queria nada disso!” atiro de volta. “E ele está morto, Evelyn, ele não quer mais nada mesmo”. Em um único e ágil movimento, Evelyn salta em seus pés. Suas mãos em seus quadris, ela me encara de cima. “Eu não vou deixar você morrer, Lei”. Seu tom é agressivo e teimoso, muito Evelyn. “Não vou deixar você morrer”. Então se vira nos saltos de suas botas, braços cruzados no peito e como uma tempestade

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sai de minha cela. Jami me lança um olhar solidário antes de segui-la. Quando eles se vão, Alex avança lentamente para dentro da minha cela. Se abaixando em seus joelhos, me oferece uma mão. Por um momento eu simplesmente o encaro, encarando suas feições pela primeira vez, observando seus cabelos negros raspados e olhos igualmente escuros. Ele parece cansado, mas, ainda assim, alerta, limpo, ainda que, desalinhado, com diversos dias de barba crescida cobrindo sua mandíbula. É um daqueles momentos onde percebe que, apesar de viver lado a lado com alguém, você nunca verdadeiramente o notou, nem mesmo um pouco. Continuo estudando-o, sentindo como se estivesse perdendo algo, duvidando de toda sua recente gentileza, quando ele nunca tinha parecido outra coisa senão indiferente. “Eu tenho um plano”, ele diz em um tom baixo, quase um sussurro. Seus olhos se lançam na direção em que Jami e Evelyn desapareceram anteriormente e depois de volta para mim. “Vou tirar você daqui. De Fredericksville”. Desconcertada, com os olhos arregalados e a boca aberta. “O que?” murmuro. Ele meneia seus dedos, acenando de novo para eu pegar sua mão. Meio em choque, pego, permitindo a ele me levantar e gentilmente me ajudar a voltar para o meu banco. Nenhuma outra palavra foi dita enquanto ele se afasta e fecha a cela, mais uma vez me trancando lá dentro. Ele dá uma volta no corredor antes de virar para me encarar. Apesar das barras, me encara profundamente nos olhos, revelando tanta emoção, mais do que eu o imaginei capaz de sentir. Mas então, jamais tinha realmente pensado muito nele antes. “Porque, Leisel, quero sair também”.

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Capítulo Quatro Evelyn

“Mason, por favor,” imploro, me marido enquanto ele tenta se afastar você. Por favor, faça alguma coisa”. lágrimas formando pontos molhados morrer”.

agarrando as pernas de meu de mim. “Estou implorando a Continuo soluçando, minhas em sua calça. “Não a deixe

“Evelyn, não há nada que eu possa fazer por ela”. Ele se abaixa, lutando para soltar meus dedos de seu tornozelo, bufando de frustração. “Ela matou Lawrence. Ele era meu amigo, você sabe. Ela não conseguiria matar alguém mais importante nem se tentasse!” Jogando suas mãos para cima em exasperação, seu queixo duplo tremendo, olha para mim com piedade nos olhos. “Eu sinto muito, Eve. Sei o quanto você se importava com ela”. Olho para o chão. Meus olhos queimam buracos no piso de madeira e espero por vários segundos, respirando para acalmar minha raiva e conseguir me levantar. “Me importava?” pergunto, furiosa. “Eu me importo com ela. Ela não está morta ainda”. Dando as costas para ele, saio furiosa da sala. Por trás de mim, eu o ouço bufar novamente de irritação. Agora, parada junto a pia da cozinha, me inclino para frente, agarrando o balcão com ambas as mãos enquanto encaro a luz do dia diminuindo. Um dia já havia começado e quase acabado; amanhã vou perdê-la e não posso perdê-la. Agarro o balcão com mais força. Ela não merece nada disso, já Lawrence recebeu exatamente o que merecia. Ele tinha sido um bastardo até o fim e agora vai levá-la para baixo junto com ele. Minha respiração vem em curtos e irregulares

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ofegos, minha raiva ameaça me engolir por completo. Lentos e deliberados passos me libertam de meus pensamentos conforme Mason tenta furtivamente entrar no cômodo. Só que não há nada furtivo em meu marido, seus chinelos cavam ruidosamente sobre o assoalho, sua respiração pesada denuncia sua aproximação. Um momento depois suas mãos caem pesadas sobre meus ombros e como de costume, tive que lutar contra o desejo de afastá-lo. “Sinto muito”, diz, sua respiração pesada em meu pescoço. Na minha frente o sol se pondo é uma esfera dourada no céu, lançando um calor ardente contra a fachada de nossa casa. As outras casas não recebiam tanto sol quanto a minha e eu a tinha escolhido exatamente por essa razão. Depois de nosso casamento, Mason me deu a opção de escolher qualquer casa disponível que quisesse. Preferi esta por duas razões – era perto de Leisel e o sol... Meu Deus, muito sol. Era sempre a última casa a perder a luz do dia e enquanto o resto da minha vida consistia de tanta escuridão, precisava do sol, carecia de seu calor. Mason pressiona seus lábios em meu pescoço, deixando molhados e desajeitados beijos. Ele é um homem egoísta, só pensa em si mesmo e suas necessidades. As duas coisas me enojam e irritam, sinto um calafrio deslizar pela minha coluna e cruzar meus braços, mas não faço nada. Não há nada que eu possa fazer. Ele me possuí, de um jeito que um marido nunca deveria ser capaz de possuir sua esposa. “Esta noite não”, consego dizer, tentando não demonstrar a repulsa que sinto. “Não posso”. Esquivando-me de seu aperto, me movo rapidamente para o outro lado de nossa pequena cozinha. Quando tenho a chance de olhar em sua direção, o descubro com o rosto vermelho, envergonhado do meu passa-fora. Nenhuma outra mulher em Fredericksville teria alguma vez escapado com aquilo que fiz. Na maior parte, tenho Mason enrolado em torno do meu dedo. Ele sabe disso, eu sei disso. Mas, ainda assim, quando realmente preciso do poder, não tenho nenhum. Há só um jeito de salvar Leisel, algo que já comecei a organizar,

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mas tinha esperança de que não precisaria cumprir. Nós precisamos partir, escapar. Precisávamos voltar a entrar no mundo que deixamos para trás – aquele que todos abandonaram. O pensamento é ao mesmo tempo horrível e estimulante, especialmente sabendo que podemos morrer lá. A infecção ainda espreita; descobri isso através de Jami e de outros guardas que eram frequentemente enviados para escavar ruínas. Embora não fossem tão rápidos quanto costumavam ser, os infectados mais velhos e seus corpos apodrecidos estavam mais carniceiros agora do que quando foram transformados, eles ainda eram uma visão sanguinária a se observar. Os infectados remanescentes não eram minha única preocupação. Todos ouviram as histórias de pessoas que recusaram a segurança por trás dos muros, determinados a viver no aberto e entre os infectados. Eu não tinha ideia do que pessoas assim eram capazes de fazer, considerando que sobreviveram a infecção e suas infinitas ondulações secundárias. Mas, sabendo que se eu não tentar, pelo menos, nos tirar, que Leisel vai morrer, que o mundo além do muro parece muito menos assustador e muito mais acolhedor. “Vai me ajudar, Mason?” dou um passo à frente, diminuindo a distância entre nós e coloco minhas mãos em seu peito. Ele engole em seco nervosamente, lambendo seus lábios gordos e gulosos. Estava muito acima do peso, o único homem deixado vivo com tantos quilos extras. Era ridículo, sério. Às vezes quando ele está em cima de mim eu mal consigo respirar, quem dirá desfrutar. “Eu te falei que não posso, Eve”. Suas grandes mãos correm para as minhas costas, me puxando para mais perto dele. “Sabe que eu faria se pudesse. Prefiro seus sorrisos que suas carrancas”. Suas mãos se movem para mais baixo, segurando a minha bunda. “Se você não pode me ajudar a salvá-la...” Olhando para ele através dos meus cílios, o jeito que gosta quando eu faço, continuo em um sussurro, “Então nos ajude a escapar”. Eu o encaro, meus olhos suplicando para ter misericórdia da

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minha melhor amiga e de mim. Sei que ele se importa comigo; alguns poderiam chamar isso de amor. Mas compreendo a verdade – o que ele sente por mim não era amor. Não tinha certeza se o homem sabia o que realmente é o amor. Para ele, seu casamento comigo, sua posse sobre mim, era amor. E embora ele me permita fazer um monte de coisas, a ideia distorcida de amor de Mason não irá me permitir isso. Ele não me deixará ir. “Você não sabe o que está me pedindo, Eve”. Ele balança sua cabeça lentamente, um olhar de triste resignação cruza por suas familiares feições, fazendo o medo inundar minhas entranhas. “Eu sei”, respondo, incapaz de controlar o tremor em minha voz. “Estou pedindo para me ajudar a salvar minha amiga. Minha irmã”. Correndo minhas mãos para cima em seu peito, as enrolo ao redor de seu mal distinguível pescoço e o trago face a face. “Mason”, imploro. “Por favor”. Prendendo minhas mãos fortemente nas suas, ele me agracia com piedade. “Você não sabe como é o mundo lá fora”. “Então vou aprender”, alego. “Estará morta em um dia”. “Que nem ela”. Minha voz finalmente quebra, desmoronando na última sílaba. “Mason, amanhã eles vão executá-la e vou morrer junto com ela. Ajude-nos a sair daqui”. Tentando disfarçar meu semblante, olho dentro dos olhos dele. “Se você me ama, me deixe ir”. O olhar piedoso que ele tinha dado somente alguns segundos atrás desaparece instantaneamente, substituído por pura cobiça. A mesma cobiça que tinha nos olhos no dia que forçou esse casamento comigo. Eu sou sua. Aquilo é tudo que havia para saber. Dobrando-me contra ele, força meu rosto contra seu peito como se para me confortar e passa sua mão levemente pelo meu cabelo. Isso é típico dele, tratando-me como se eu fosse uma boa e dócil esposa, o ajudando a manter sua ilusão de que uma mulher como eu iria alguma

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vez amar um homem como ele. Na realidade ele é um escroto nojento que usou o fim da civilização estruturada para se erguer a alturas que nunca teria no mundo antigo, para possuir o tipo de mulher que nunca daria a ele um segundo olhar. É uma cruel avaliação, mas quando um homem como Mason força uma mulher como eu a uma vida como aquela, não consigo evitar ser amarga e odiosa. Guiando-me lentamente para fora da cozinha, Mason começa a me puxar escadas acima. Tento me afastar, insistindo que não estava no humor para sexo, mas ele continua me puxando, ignorando meus protestos, por isso desisto de lutar. Quando chegamos ao quarto, em vez de me seguir para dentro, me enfia no mal iluminado cômodo e rapidamente bate a porta. O próximo som foi de um clique, sinalizando uma chave virando a fechadura, me assustando. “Mason?”

*** “É melhor desse jeito”, ele diz pela porta, seu tom de voz esperançoso. “Você pode se lembrar dela feliz”. Meus olhos saltam, escancarados e horrorizados. “Mason, me deixa sair!” grito, segurando a maçaneta. Desesperadamente, puxo a maçaneta, sacudindo violentamente, mas não abre. “Por favor, não faça isso”, imploro enquanto bato na madeira com meus punhos. “Por favor, Mason, não pode fazer isso!” “Eu sinto muito, Evelyn. Estou te protegendo. Vou te deixar sair de manhã... Quando estiver feito”. Apesar do som do meu coração batendo, ouço os passos quando ele desce as escadas. Pânico absoluto toma conta de mim e grito para ele voltar, me deixar sair. Mas ele não retorna. É claro que não voltará. Corro para a janela, tento abri-la, mas assim como a porta, ela

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nem mexe. Da minha vista no segundo andar, posso claramente ver Mason andando desajeitado pela calçada em frente a nossa casa. Olhando em minha direção, seus olhos encontram os meus, seu rosto bulboso, sempre coberto com uma fina camada de suor, cintilando com o reflexo do sol que se punha. Seus olhos estão muito abertos como se desculpasse, o que era apenas uma cena, porque sabia que ele não liga de verdade. A única coisa com que Mason se importa era me manter aqui – me manter para si próprio. Tirando os olhos de mim, continua a descer a rua. Começo a socar a janela, gritando para ele, o chamando por nomes que quis por esses três anos, mas nunca tinha feito. As palavras preenchidas por ódio que mantinha enterrada dentro de mim para conservar Leisel e eu seguras, todas saíram voando, livres de suas gaiolas. Continuo batendo na janela, meio que esperando que quebrasse, mas nunca quebra. Talvez estou muito assustada para bater forte o suficiente, apesar de desejar. Eu quero esmagar a janela, fazer chover cacos de vidro na cabeça de Mason, fatiando ele ao meio, machucá-lo da forma como estava me machucando. “Odeio você!” grito. Berrando de frustração, afundo no chão, meus gritos dissolvidos em soluços de autopiedade. Eu não posso ajudar Leisel agora. Ela morrerá e não posso ajudá-la. Nem mesmo conseguirei estar lá com ela no fim. Puxo meus joelhos ao meu peito e minhas lágrimas caem mais rápido. O que eu farei sem ela? Leisel sempre me disse que eu era a forte, mas sabia agora que isso não era verdade. Não quando era dela que precisava para me manter forte.

*** A lua está cheia no céu quando ouço o retorno de Mason. Esforço

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meus ouvidos, escutando atentamente seus passos na escada, mas ele não vem imediatamente para mim. Consigo ouvi-lo tropeçando pela casa, sem dúvidas tinha bebido muito, provavelmente em um esforço para lavar seus pecados. Ou talvez esqueceu onde me colocou. Se tiver tão bêbado que até mesmo esqueceu o que tinha ocorrido mais cedo. Isso já tinha acontecido antes, ele me trancando por ser o que considerava insolente. Houve vezes em que esquecia completamente e me deixava sair sem nenhuma palavra sobre a situação, me olhando com curiosidade na escuridão enquanto tentava se lembrar do que eu tinha feito para merecer tal punição. Apesar de que isso – a execução de Leisel – era algo muito difícil para eu considerar esquecível. Mas este era Mason, um trapalhão idiota e tudo é possível. À medida que a esperança desabrocha dentro de mim de que hoje será um desses dias, me levanto e ando na ponta dos pés lentamente até a porta. Pressionando minha orelha contra a madeira, escutando seus lentos e cuidadosos passos subindo a escada, percebo que os passos que posso ouvir são lentos e cautelosos e Mason não era nada disso. Ele é desajeitado e com pés pesados. A maçaneta da porta balança. Olhando ao redor do cômodo, procuro por algo para me armar, porque o matarei se for preciso. Eu me recuso a ficar neste quarto e permitir que Leisel morra, não quando ainda há uma chance de poder fazer algo para interromper. Decido pela luminária de mesa; antes de tudo, ela nem funciona mais. Esta casa – todas as casas – são cheia de muitas coisas que não funcionam mais, tudo colocado para nos fazer sentir mais confortáveis, para nos ajudar a esquecer o horror por fora dos muros. Quando a maçaneta balança outra vez, me preparo para a tacada. “Eve?” Jami! vou para frente, me colo contra a porta. “Me tira daqui, Jami, por favor, me tira daqui!” De novo, tento a maçaneta, virando e puxando. “Está trancada”, ele diz, sua voz soava mais profunda que o

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normal através da espessa porta. “Tem outra chave?” Embora ele não pode me ver, balanço minha cabeça em resposta. “Só tem uma”, suspiro sonoramente. “Mas Mason guarda com ele”. “Foda-se”, ele murmura. Vários segundos tensos passaram e então ele grita, “Para trás!” Derrubo a luminária. Ela cai no chão quando algo pesado bate contra a porta com uma batida estrondosa. De novo e de novo, o barulho ecoa pelo quarto, uma vez, duas e só depois da terceira que a porta abre, colidindo com força na parede. Quando a porta volta, Jami a segurou antes que pudesse esmagar o seu rosto. Nossos olhos se encontram e ele está sorrindo para mim, um sorriso que me fez fraquejar por ele. Não amo este homem, mas nesse momento senti algo tão próximo disso. Correndo pelo quarto, Jami me encontra no meio do caminho e eu me atiro em seu peito, pressionando meus lábios nos dele, tudo enquanto repetidamente murmuro meus agradecimentos. “Como você soube?” pergunto quando finalmente me afasto. Ele olha para mim, seus olhos procurando os meus como se para se assegurar de que estava tudo bem comigo. “Você nunca teria a deixado sozinha assim”. Ele me beija de novo, ainda sorrindo contra minha boca. “Vamos pegar sua garota”. Afastando-me dele, tiro um momento para realmente olhar para ele, seu lindo rosto claramente expressando o que ele nunca disse antes. “Obrigada”, sussurro, me sentindo vencida. Pegando minha mão na sua, Jami me puxa pela casa, sem parar até alcançarmos a porta de trás. Lá puxa uma touca de seu bolso traseiro, similar ao que ele usava, depois coloca em minha cabeça e enfia meus cachos para dentro da touca. Rindo de novo, puxou sua arma do coldre, então me guia para fora da casa. A adrenalina percorre em mim, pelo medo de ser pega e da excitação de que talvez, só pela porra de um talvez, nosso plano funcionará. E Leisel e eu estaremos em breve livres desse inferno,

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juntas.

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Capítulo Cinco Leisel

“Não deveria estar me ajudando”, insisto, observando Alex abrir minhas algemas com pressa. Ignorando-me, ele termina com minhas mãos, depois se abaixa para soltá-las em torno dos meus tornozelos. “E se formos pegos?” continuo, sabendo que provavelmente seremos pegos. Há muitas pessoas vivendo em um lugar tão pequeno, um lugar que é fortemente guardado. “Você vai ser morto junto comigo”. Alex continua tão insensível como sempre tinha parecido para mim, notório por dizer o mínimo possível. Terminando com minhas algemas, empurra-as e se levanta. Permaneço onde estou por um momento, sentada no banco duro enquanto esfrego meus pulsos machucados e olho, perplexa, para ele. Pela minha vida, não consigo entender porque ele está arriscando seu próprio pescoço para me ajudar a escapar. “Tenho um caminhão do lado de fora dos muros”, ele finalmente diz. “Escondido na mata quase um quilômetro e meio daqui. Tem comida e água e uns galões de gasolina guardados lá dentro. Só precisamos chegar lá”. Olho para o rosto dele. Com a cidade inteira em nossos calcanhares, um quilômetro e meio de distância poderia muito bem ser na China! Balanço minha cabeça. “Nós nunca vamos fazer isso”. Alex se ajoelha, seus olhos escuros queimando buracos em meus

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pensamentos. Há uma fagulha ali, junto com um calor que jamais notei nele antes. Mas nunca prestei muita atenção, sempre enterrada com meus próprios problemas, minha própria dor. “Eu não ligo”, ele range por entre seus dentes apertados. “Estive fora dos muros, Leisel. Muitas, muitas vezes. Não é bonito lá, mas não é bonito aqui também, é? Escolho ser livre”. Livre. A palavra canta para mim como muitos coquetéis, me ofuscando, me drogando com toda sua nebulosa e ainda assim gloriosas possibilidades. Sua mão pousa em meu ombro quando ele se abaixa para falar comigo face a face e preciso me esforçar para não recuar de seu toque. Ser tocada por um homem, graças a Lawrence, não é algo que eu associo com suavidade e conforto. Não em muito tempo. “Você não quer ser livre?” é mais uma afirmação do que uma pergunta. Uma proclamação. Uma declaração. Me afasto de suas mãos. “Precisamos pegar Eve”, digo. “Eu não vou partir sem ela”. Ele franzi a testa e sua sobrancelha fica vincada, fazendo linhas finas aparecerem em sua testa anteriormente lisa, mas não diz nada em resposta. “Não vou partir sem ela”, repito, incapaz de me imaginar na vida em qualquer lugar sem Evelyn. Não tenho estômago para o pensamento de deixá-la para trás neste lugar horrível. “Não vai”. Ambos, Alex e eu estremecemos ao som da outra voz. Enquanto me encolho de volta no medo, Alex salta em seus pés e rapidamente tira sua arma do coldre em seu quadril. Jami para do lado de fora da minha cela, uma touca de esqui escondendo seus cabelos rebeldes e sua expressão geralmente travessa agora está séria. Vendo a arma de Alex, as mãos de Jami se erguem no ar, incluindo a que segura sua arma. “Eu vim em paz”, ele fala, nos dando um meio sorriso. “E estou

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feliz por não ter que te matar também”. Ele acena para Alex. “Também?” murmuro, o medo escorrendo para baixo da minha coluna e esfriando meu sangue. “Michaels e Davidson?” Alex pergunta, gesticulando em direção a porta que guia para o centro da estação. Jami balança a cabeça. “Havia muitos na frente”, ele diz quietamente. “Consegui limpar só a retaguarda”. “Em nenhum momento pensei que ficaria tão feliz por não ter eletricidade”, Alex resmunga, ele não soa e nem parecia feliz. Dá as costas para mim e inesperadamente me estende sua mão que estava segurando a arma e gesticula para que eu a pegue. Meus lábios se abrem e fecham e por um momento posso apenas gaguejar através de baforadas de ar. Finalmente encontrando minha voz, limpo minha garganta e tento de novo. “Não sei como”, sussurro. O pânico está começando a assentar dentro de mim. Ambos, Alex e Jami, estão aqui tentando me resgatar. E se Jami está lá, isso significa que Evelyn está também. Três pessoas, três boas pessoas, que podem acabar mortas junto comigo se formos pegos. E dois homens já estavam mortos? Verdade, não há nenhum amor escondido entre mim e a maioria dos homens que policiam Fredericksville. A maioria é narcisista, egoísta, homens violentos que ficam mais do que felizes ao aderir às regras tirânicas desse lugar. Mas mortos? Desejei antes que só um homem morresse e aquele desejo foi realizado por minhas próprias mãos na noite passada. “É por garantia. Certifique-se de que isso esteja fora antes de puxar o gatilho. Segura assim. Leisel... Leisel, está me ouvindo?” Assinto silenciosamente para Alex, que está me observando com impaciência e mais com uma pequena irritação. Limpo minha garganta de novo, pego a arma hesitante, segurando o cabo rígido em minha mão, aparentemente, trêmula e pequena demais. Então com uma respiração profunda, me levanto. A arma é

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pesada e esquisita em meu poder, fazendo-me sentir como uma criança brincando de vestir. “Eve está cuidado da parte de trás”, Jami diz a Alex. “E nós temos cinco, não...” - ele pausa, olhando em seu relógio - “três minutos pra dar o fora daqui antes que a patrulha rotativa volte por aí”. “Vamos”, Alex diz, sua voz profunda, carregada com uma determinação que eu não compartilho. Até me levantei, mas era como se blocos de cimento estivessem atados aos meus pés, meu medo me mantém presa no lugar. “Leisel!” Jami me adverte em um sussurro mais severo. “Eve está esperando por você! Arriscando a vida dela! Mexa-se!” Evelyn, seu destino é o meu destino e meu destino irá ser o dela. É tudo que preciso para me fazer pegar no tranco. Um passo na frente do outro, até que sou imprensada entre meus dois inesperados salvadores e estamos nos movendo lento, mas firmes pelo corredor escuro e estreito. Da minha parte, eu sou uma estúpida marchando. Consumida pelo medo, o único pensamento que me mantém andando é que encontrarei Evelyn, que há finalmente uma possibilidade que poderemos ser livres desta vida que não é de verdade. Ao menos não uma que vale a pena viver. Fora daqui conseguiremos ter uma chance de algum tipo de felicidade, ou ao menos, liberdade. Liberdade é felicidade, não era? Meus pensamentos dão uma virada então, pensando nos infectados, relembrando quantos tinham sido nos primeiros dias depois da infecção ter estourado, quão rápido eles deixaram nossas vidas em farrapos. Rapidamente sacudo aqueles pensamentos para longe, sabendo que não fará bem sobrecarregar minha mente com mais horrores do que os que já a ocupavam. Apressamos-nos por um pequeno lance de escadas e pegamos um atalho através de um porão empoeirado e úmido, a única luz vem de uma lanterna na mão de Jami. Então outro lance de escadas, através de outro corredor, se atrapalhando na escuridão até que um sinal de

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saída apagado finalmente está à vista. E então eu estou fora da porta e na noite, o ar fresco do outono como um bálsamo em minha pele aquecida. Um esbelto par de braços se enrola ao redor de meu pescoço, um perfume familiar me envolve e solto o ar preenchido com esperança. Até que vejo os dois corpos mortos caídos próximo ao depósito de lixo. Evelyn me aperta com força, beijando meu cabelo e minhas bochechas. “Vai ficar tudo bem, Lei, eu prometo”. “Um minuto!” Jami chia antes de puxar Evelyn de mim. “Nós temos que ir agora!” Com um último olhar preocupado de Evelyn, eles saem correndo e então Alex agarra minha mão, me libertando mais uma vez dos meus pensamentos sombrios e medo paralisante. Nós corremos como o vento, como morcegos saindo do inferno, em direção ao muro final do lado oeste, para a nossa liberdade, com somente trinta segundos restantes antes de nossa fuga ser descoberta.

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Capítulo Seis Evelyn

Se isso fosse um filme, um alarme tocaria agora mesmo, berrando obviamente para deixar todos saberem que alguma coisa estava errada, que alguém tentava sair. Ou pior, que alguém estava tentando entrar. Nesse caso, eu teria acolhido bem tal som; ao menos então saberíamos se nossa fuga improvisada foi notada ou não. Porém em nosso mundo, tal barulho é perigoso. Um barulho tão alto teria atraído todo e qualquer infectado a metros de distância de nossos muros. Criaturas insípidas com uma mente limitada, obcecadas em rasgar qualquer coisa, mas uma vez que tinha um alvo, suas mentes limitadas se tornavam ainda mais mortais. Jami olha em seu relógio, depois para mim. “Hora do jogo”, ele sussurra, suas palavras meio perdidas ao vento enquanto continuamos a correr. A próxima troca dos guardas está para acontecer. A qualquer minuto a partir de agora eles descobrirão os corpos, notarão que Leisel está desaparecida e em breve seremos apreendidos e provavelmente executados no local. Aquele pensamento por si só me fez mover mais rápido, me impulsionando a correr tão rápido quanto meu corpo permite. No fim da nossa comunidade há uma passagem que se divide em direita e esquerda e quando a alcançamos, viramos à esquerda e ao redor dos fundos das casas. Costurando pelos jardins, saltando pelos arbustos habilidosamente cortados, passamos por rosas desabrochando, brilhantes cestos pendurados e gramados com a

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grama perfeitamente aparada. Como se estivéssemos presos em algum louco labirinto de jardim oriental bem podado, seguimos para a segunda à esquerda e depois para a direita a seguir. Finalmente, deixamos o distrito das casas para trás e nos dirigimos diretamente para o quarteirão da fazenda e da cozinha. Acima de nós, três galhos pendiam pesados com frutas maduras e aos nossos pés estavam fileiras e fileiras de vegetais frescos. Era tudo pintado como perfeito e adequado, como se fossemos parte de uma grande família de comercial de margarina. Mas não é nada mais que uma fachada. Claro, as frutas estão suculentas e os vegetais no ponto, mas não há alma. Tão bonitos por fora, mas por dentro tudo morreu muito tempo atrás e apodreceu por nada. Um barulho soou a uma distância, alguma coisa que depois entendo como um homem gritando. Olho para Jami com medo nos olhos, mas ele já está puxando a minha mão, me fazendo correr mais rápido. Os armazéns de comida ficam do lado oposto da rua em que estamos e quando nos aproximamos deles, Jami me puxa para uma parada. Respirando pesado, olho para trás no caminho por onde viemos, assistindo as silhuetas de Leisel e Alex se aproximarem rápido. Seu cabelo está voando atrás dela, sua pele pálida é um raio de esperança para mim, algo a me agarrar no meio desta insanidade. Puxo-a para uma parada junto a mim e Jami, Alex a libera. Ela vem caindo pra cima de mim e aperto meu corpo no dela. Os ombros de Leisel tremem conforme chora suavemente em meu pescoço, sua angústia é dolorida para mim também. Eu a seguro por um momento, sussurro palavras de conforto em seu ouvido, prometo a ela segurança, tirá-la desse pesadelo, até que eventualmente se acalma. Quando ela olha em meus olhos, os seus brilhando pelas lágrimas, deixo um forte beijo em seus lábios. “Nós vamos ficar bem”, digo firmemente, mantendo nossos olhares fixos. Ela tenta virar sua cabeça, afastar o olhar, para se esconder dentro de si mesma como frequentemente faz, porém recuso permitir isso, segurando firme sua

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cabeça e seu olhar. “Você acredita em mim?” Ela não diz nada, somente assente uma vez, seu queixo tremendo. “Lei, eu te prometo”. Tirando seu cabelo escuro de seu rosto, pressiono outro beijo em sua testa. “Te prometo”, sussurro, a puxando para outro abraço apertado. Muitos segundos se passam enquanto recuperamos nosso fôlego, tentando acalmar nossos nervos. Não consigo mais ouvir os gritos dos guardas e tenho que acreditar que eles se movem para longe de nós, em vez de perto. Por fim cedo, permito a Leisei deixar meus braços. Se afastando, levanta sua mão, me mostrando sua arma. Sorrindo, mostro a minha. Era quase igual a dela, apesar de carregar a minha com mais confiança. Antes da infecção, eu amava atirar em um estande de tiro. Mesmo que fizesse um tempo que não praticava, não tinha esquecido o básico. “Eve”. Jami acena para eu ir com ele, gesticulando a Alex para ir em direção a Leisel, o que ele faz imediatamente. Tirando um momento, observo quando Alex para ao lado dela, sua linguagem corporal agressivamente protetora e fico surpresa como nem Leisel nem eu nunca notamos o jeito que ele olhava para ela, a absoluta intensidade disso. Ele é inacreditavelmente quieto, às vezes a ponto de irritar, contudo o jeito que sempre olhou para ela, aqueles profundos olhos castanhos buscando tudo dela. Ela estava cega a isso – a ele, infernos, e a todos. Ela teve o suficiente dos homens para a vida toda e simplesmente não liga mais. Mas então há Alex e o número de vezes que ele a escoltou até a enfermaria, algumas humilhantes e algumas apenas dolorosas. Além do pessoal da clínica e eu, somente Alex viu a maioria dos horrores que Lawrence a tinha feito passar; somente ele sabia a completa extensão de sua dor. A dor de Leisel, eu suponho e a ameaça de perdê-la para sempre, devem ter sido seu ponto de virada. A razão pelo qual está querendo arriscar sua vida para nos tirar dali. Sabendo o que eu sabia, tendo

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visto o que vi, o comportamento de Alex realmente não chegou a mim como uma surpresa. É Jami que me chocava. Nunca em um milhão de anos esperei que ele auxiliasse em um plano de fuga, quanto mais já ter um plano feito por ele mesmo. Ele gosta de seu trabalho, desta vida, ou sempre assumi isso e jamais pensei que fosse mais que uma distração passageira para ele. Mas sua disposição em nos ajudar, partir conosco, é evidência de muito mais cuidado do que ele alguma vez admitiu. “Vou atravessar”, Jami anuncia, seu rosto escondido por sombras. “Vocês esperem aqui até ver o meu sinal”. Nós três assistimos Jami rapidamente atravessar a rua. Alcançando o outro lado, se esgueira entre dois prédios erguidos próximos e desaparece da vista. Momentos depois, reaparece e faz sinal para atravessarmos. Atirando a Leisel um último olhar, cochicho as palavras, eu prometo, antes de correr para a rua. Está escuro nessa parte da cidade, a escuridão é nossa aliada, mas sem as sombras dos prédios para nos esconder, eu me sento muito exposta e vulnerável a qualquer um que pode espreitar. Zumbindo no meu ouvido, minha respiração soa excessivamente alta, um sinal em neon de nosso paradeiro. No entanto continuo no caminho, nunca vacilando, não ousando olhar para a esquerda ou direita. Meus passos são rápidos, firmes, até que alcanço o outro lado da rua, trombando em Jami quando ele me puxa para a segurança da escuridão do outro beco ensombrado. Não me incomodando em prender minha respiração, espio pelo quarteirão, checando para me certificar de que ninguém avistou minha corrida desenfreada pela segurança. Raios de luz romperam minha atenção, uma luz cintilante das lanternas que nossos guardas carregam e apesar de estar longe, estão se dirigindo em nossa direção. Quando Jami sinaliza para Leisel e Alex atravessar, ela hesita. Graças a Deus por Alex, porque ele repentinamente a puxa pela rua, quase a carregando já que ela mal pode correr sem tropeçar e quase cai. Checando novamente a rua, noto que as luzes estão ficando mais

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próximas, as pisadas e gritos abafados parecendo mais perto. Quando Leisel e Alex finalmente nos alcançam, eu a puxo para mim mais uma vez, notando que ela está sem fôlego e tremendo de medo. “Por aqui”, Jami diz, já se afastando. Nós o seguimos, Leisel e eu no centro, enquanto Alex nos cobre por trás. Encontramos o final do beco altamente bloqueado, segurado por metal enferrujado fundido e reforçado por paletes de madeira e cerca de galinheiro. Ao ver isto, começo a entrar em pânico, pensando que estamos encurralados, até que Alex passa por mim e Jami se abaixa, desliza sua mochila dos ombros e puxa um cobertor grosso. Depois de entregar o cobertor a Alex, Jami se curva para dar a ele um impulso. Usando Jami como apoio, Alex joga o cobertor por cima da barricada e alça a si mesmo para cima. Era muito barulhento, metal arranhando metal e o som ecoava alto na escuridão. Meus batimentos cardíacos estão enlouquecidos, mas meu desejo de sobreviver – que nós sobrevivermos – era forte. Mesmo quando as vozes ficam mais audíveis, as pegadas pesadas se aproximando, mesmo com o desespero da situação inteira, eu me recuso a desistir. O suave som do corpo de Alex batendo no chão sinaliza que está do outro lado. Aguardamos, nós três, com a respiração suspensa, pelo que virá a seguir. “Limpo”, enfim nos avisa suavemente. Jami gesticula para eu ser a próxima. Balançando minha cabeça, empurro Leisel a frente. “Vou depois dela”. Olhando para a cerca, seus olhos tão grandes e abertos como uma corça, ela engole em seco e olha de volta para mim. “Eu não consigo”, ela sussurra e balança sua cabeça. “Você consegue fazer isso, Lei”, falo para convencê-la. “Esta é a

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nossa chance e você consegue fazer isto, tem que fazer”. Gentilmente, eu a empurro em direção a cerca. Concordando com desânimo, ela relutantemente sobe nas costas de Jami. Imediatamente ele a levanta, permitindo a ela subir mais alto para que possa se impulsionar o restante do caminho para cima. Ela se atrapalha com seus pés, finalmente conseguindo, depois se eleva até o topo. Cruza o muro e escala de forma esquisita sobre o topo e pouco antes de pular para o outro lado, ela olha para baixo e me dá um pequeno e nervoso sorriso e então ela já está lá. “Eve, você é a próxima”, Jami sussurra. O beco esta mais escuro agora, mais opressor, a lua tinha se escondido por trás das nuvens. “Jami?” “Sim?” ele pergunta, olhando para a outra ponta do beco. “Obrigada por isso. Palavras não parecem suficientes. Eu -” Jami olha para mim, seu sorriso arrogante no lugar. “Você pode me mostrar quão agradecida está depois, mas por agora, preciso que você tire sua bunda daqui”. Dando um tapa no meu traseiro, ele pisca para mim. Reprimindo uma risada, sorrio para ele e sacudo minha cabeça. Depois de subir nos ombros de Jami, ele me levanta com um grunhido e me descubro tremendo por um momento antes de finalmente começar a escalar. Enquanto me puxo para cima, as mãos de Jami me dão o empurrão final que eu preciso para escalar a altura excedente. Assim que eu estou preparada para pular para o outro lado, olho para baixo para Jami, descobrindo-o sorrindo para mim. Liberdade está tão próxima, posso quase sentir o gosto dela, palpável em minha língua. De repente eu me encontro sorrindo de volta para Jami, rindo na verdade, minha preocupação desaparece pela excitação que tinha pelo futuro. Liberdade e Jami vieram com um preço, mas é um preço que estou desejando pagar, por Leisel e eu. “Você pode fazer isso, Eve”, ele sussurra, seus olhos brilhando

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avidamente, refletindo sua própria excitação. Ele beija sua palma e então a ergue para mim. É a primeira vez que Jami me mostra que se importa e isso me pega de surpresa. Ele nunca me dava um beijo de despedida, nunca antes revelou que eu valia algo para ele. Com o peito agitado, as batidas do meu coração estavam erráticas com esse recém-descoberto conhecimento. Meu charmoso e convencido Jami só expôs que ele se importa comigo, algo que ele jurou jamais fazer de novo, não depois de ter perdido tudo. Mas ele finalmente deixou alguém entrar – eu – e me sinto privilegiada e feliz, presa em uma abençoada bolha de esperança pelo nosso futuro. Ainda estou sorrindo para ele quando meu olhar pega algo movendo por trás dele e, portanto meu coração paralisa, tudo repentinamente se move em câmera lenta. Os guardas estão quase em cima da gente, suas lanternas iluminando a área ao redor de Jami. Homens gritando, correndo em nossa direção com suas armas apontadas, gritando para largarmos nossas armas e ficarmos onde estamos. E Jami, oh Meu Deus, meu bravo e convencido Jami, ele vira e aponta sua arma, “Não!” grita. “Jami, não!” “Vai!” ele grita de volta. “Vai, Eve!” Jami não me olha de volta quando atira a primeira bala e enquanto eu deveria cair do outro lado e escalar por minha própria segurança, não consigo me mover. Eu estou congelada, presa naquele momento horrível e devastador. Tiros iluminam o pequeno espaço, explosões de balas sendo atiradas em velocidades desumanas, e então de repente, como se o vento batesse nele, Jami cai em seus joelhos. Meu choro a seguir se perde ao som de pistolas e tiros e o que eu posso fazer é encarar com horror enquanto Jami continua a atirar com sua arma, mesmo com eles atirando de volta, abrindo seu corpo com balas. Ele atira até sua arma estar vazia, apesar de seu dedo continuar a apertar o gatilho na esperança de mais até sua mão cair flacidamente ao seu lado, a arma

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escorrega de seus dedos. O tiroteio para logo, o pequeno espaço parecendo menor e mais escuro que antes. Não percebo que estou chorando até minha garganta começar a queimar. Foi quando Jami afunda para frente, cai em silêncio e imóvel, alguma coisa agarra minha perna, imediatamente me tirando da cerca e para dentro da escuridão. Minha queda foi suave, os braços de Alex me agarram antes de colidir contra o chão. Conforme me levanto, a mão de Leisel encontra a minha e a aperta antes de me puxar do muro, para longe do tiroteio e gritos, longe de Jami e para dentro da floresta. Tropeçamos através da escuridão, ocasionalmente pegando o que parece ser o baixo gemido de um infectado. Mantendo um aperto firme na mão de Leisel, eu me recuso a soltá-la, mesmo por um segundo. Quando ela tropeça, eu tropeço; quando ela cai, eu caio. Nós estamos nisso juntas; ela é tudo que me restou. Parece como se horas tivessem passado antes da floresta diminuir e alcançarmos uma pequena clareira. Na luz da lua, consigo perceber a silhueta de um caminhão e quando nos aproximamos, noto que ele era velho e enferrujado. O que uma vez provavelmente foi um lindo azul agora parecia como um cinza lavado com manchas marrom. Pior, aquilo não parece ter sido ligado em anos e eu me descubro resistindo a uma pequena esperança de ele ser um valioso veículo de fuga. Apesar de sua aparência, pulamos para dentro. Que escolha nós temos? A chave já está na ignição e quando Alex vira, o caminhão engasga várias vezes antes do motor finalmente funcionar ruidosamente. À medida que dirigimos para longe, deixando a floresta para trás, Leisel descansa sua cabeça em meu ombro. Posso sentir seu corpo tremendo, ouvir suaves soluços enquanto chora silenciosas lágrimas e eu encaro vagamente pela janela. Talvez amanhã eu chore. Mas não esta noite. “Ele me deu um beijo de despedida”, murmuro, ainda encarando a escuridão que nos rodeava. Dando uma profunda respiração, lentamente expiro, me recusando a ser qualquer coisa que não

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agradecida. Agradecida porque minha amiga, minha melhor amiga, tinha evitado a execução, agradecida que ambas, ela e eu, estamos agora livres de Fredericksville e de todo o seu horror escondido. E aquilo é tudo o que realmente importava.

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Capítulo Sete Leisel

Acordo com o leve som de pássaros ao longe e de água corrente. Por um momento estou em paz, feliz naquele gentil espaço entre estar acordada e dormindo, ignorante das câimbras no meu pescoço por dormir sentada e abençoadamente alheia de tudo aquilo que ocorreu nos últimos dois dias. E então tudo veio de volta para mim. Lentamente no começo – a dor, a violência, o crime – e meus olhos estremecem bem fechados, tentando bloquear aquilo e aproveitar a paz por um momento maior. Mas aquilo não irá embora; o resto daquilo retorna para mim. Meu medo, minhas mãos cheias de sangue, os corpos no beco. E mais tarde, enquanto estava entre Alex e Evelyn, ao mesmo tempo em que chorava até o movimento do caminhão me levar para dentro de uma inconsciência abençoada, tudo enquanto Evelyn corria seus dedos em meus cabelos, pressionava suaves beijos em minha cabeça, sussurrava palavras calmantes e tranquilizadoras em meu ouvido. Mas deveria ser de outra forma. Deveria ter sido eu a consolá-la. Antes de tudo, foi ela que perdeu alguém com quem se importava. Não eu. Fraca. A palavra pesa em meus pensamentos como uma perversa batida até que não consigo mais aguentar outro segundo sozinha com meus pensamentos e meus olhos abrem. Pisco com os olhos incrustados de lágrimas, tentando ver a luz do sol escondida pelas janelas sujas do caminhão. “Bom dia”. O som da voz profunda e cavernosa de Alex me

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surpreende. Remexo-me em meu assento, eu o descubro parado do lado de fora da porta do motorista com as costas voltadas para mim. Pisco de novo, percebendo que o som que inicialmente achei que fosse água corrente era, na verdade, ele urinando. O meu rosto começa a esquentar de vergonha, rapidamente me viro e pego um relance de mim mesma no espelho retrovisor. O caminhão é de um modelo mais velho, o para-brisa curto e achatado e o espelho virado me deu um ângulo e uma visão do meu rosto que não faço questão de ver. Manchas secas de sangue descem e sobem em minhas bochechas, olheiras escuras circulam meus olhos, meu nariz tem um pequeno corte na região do septo. Meu lábio inferior esta inchado, partido em dois lugares e meu pescoço... Estremeci forte, desviando meus olhos do espelho, vividamente relembrando a sensação da mão de Lawrence enrolada em minha garganta, as pontas de seus dedos apertando minha pele conforme lutava para respirar, enquanto ele pegava o que eu não dava. E então o sangue. A memória do sangue me cobrindo, cobrindo o cômodo inteiro, vindo sobre mim em uma onda sufocante, tão real que podia sentir o sabor metálico tudo novamente. “Evelyn,” consigo gaguejar. Alex se inclina, apoiando seu antebraço sobre a janela aberta. “Você está bem?” ele pergunta. Não confiando em minha voz, simplesmente assinto. Ele me observa por um longo e desconfortável momento antes de apontar. Seguindo seu dedo, me viro no banco e acompanho os arredores. Parecia que tínhamos estacionado ao lado de uma estrada deserta de duas mãos, cercada principalmente por terrenos abertos. Eu rapidamente percebo Evelyn, uns 12 metros de distância, quando ela emerge de trás de um grande carvalho. Está se movendo lentamente, muito mais devagar que o normal, parecendo descabelada e um pouco atordoada. Eu a encaro, juntando os olhos para vê-la melhor enquanto ela continua descendo a inclinação da relva. Sua linguagem corporal, seus movimentos, sua expressão facial, está tudo tão errado que mal a reconheço. Esta parece ser Evelyn em seu pior estado, internalizando

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sua dor, deixando pressioná-la até que algo tão simples como andar se torne cansativo. Só tinha visto essa Evelyn uma vez antes. O dia que ela perdeu Shawn. “Eve!” Alex grita, rugindo por trás de mim, fazendo meu corpo inteiro se encolher. “Três em ponto!” Meus olhos lançam à direita e não veem nada, depois a esquerda, Evelyn três em ponto e minha respiração prende na garganta. Já vi os infectados antes, Deus sabe que tinha, muitos para contar. Mas mesmo assim, eles causam o tipo de medo dentro de mim que nenhum punho, nenhuma arma, nenhuma pessoa viva jamais poderia. No começo, quando Thomas e eu estávamos entocados na casa de Evelyn e Shawn, nós quatro esperamos por semanas que alguém viesse e nos salvasse – o exército, a guarda nacional, a cruz vermelha, qualquer um que nos levasse a um lugar seguro. Durante aquele tempo, os infectados estavam por todo canto. Caindo pelas ruas, em cada esquina e canto, batendo sobre a casa, tentando tomar seus caminhos para dentro. Aqueles que foram nossos vizinhos, amigos e família tinham todos sucumbido a infecção e se tornado monstros. Até mesmo suportei o horror de assistir meu próprio marido se transformar, assistido a febre tomá-lo, enquanto as pústulas de sangue se formavam por toda sua pele. Eu o assisti chorar lágrimas misturadas com sangue e engasgar meu nome junto com suas últimas respirações. Depois eu o observei acordar, seus olhos enevoados, com uma cacofonia confusa de gemidos roucos e gorgolejos animalescos que saíam de sua garganta. E da mesma forma que ele pulou em mim, sua mandíbula estalando, seus dentes a mostra, testemunhei quando Shawn acertou o crânio de meu amado marido com uma faca de açougueiro. A mesma faca que ele costumava usar para cortar o peru todo dia de Ação de Graças. Presenciei os infectados em Fredericksville também, os retardatários que de alguma maneira deram um jeito de se colocar para dentro de nossos muros. Mas foi sempre de longe. Mesmo durante a única ruptura dos muros no primeiro ano, a invasão foi curta,

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resultando em pouca fatalidade. Mas agora aqui onde estávamos, no aberto, só nós três, os pássaros e os três infectados se arrastando em direção a Evelyn. Minha única fonte de alívio vinha da notável diferença entre estes infectados e aqueles do começo. Estes eram mais lentos do que eu me lembrava que eram, menos firmes em seus pés e incapazes de se mover rapidamente. Alex já está correndo ao redor da frente do caminhão, um rifle em suas mãos. Ele para na frente do capô, ficando ereto. Levantando a arma ao nível do olho, olhando pela mira. Seus dedos puxam o gatilho e uma bala estronda no ar, a pequena explosão ecoando ao nosso redor. Assisto, colocando minha mão sobre minha boca, quando um dos infectados cai. Seus dois companheiros dão pouca importância quando seu corpo cai no chão, seus focos somente em Evelyn. Que, para meu completo e total horror, não está correndo para longe deles, mas sim em direção a eles. Algo como um grito de guerra sai de seus lábios conforme ela fica na frente deles, sua arma na mão. Minha cabeça zumbe com uma mistura de medo e ansiedade enquanto ela corre pela grama exuberante, seus braços e pernas se levantando à medida que ia direto em direção à morte. O que ela está fazendo? Porque ser tão imprudente quando Alex estava aqui, completo com um rifle e uma excelente mira, para começar? “Ajuda ela!” grito, me atirando no para-brisa, batendo no vidro com punhos cerrados. “Alex! Faça alguma coisa!” Seu rifle ainda está erguido, seu corpo posicionado e pronto para atirar, Alex balança sua cabeça. “Não posso!” ele grita. “Ela está me bloqueando! Poderia acertar nela!” Um grande calafrio corre por mim, deixando meus lábios e minhas mãos trêmulas. Eu me descubro freneticamente tateando ao meu lado, procurando pela arma que Alex me deu na noite passada. Por qual razão, não sabia. Eu jamais atirei, nunca nem mesmo peguei em uma

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arma; Lawrence não me permitiria tal liberdade. Quando encontro no chão do caminhão, eu a agarro e tropeço pelo lado da porta do passageiro, depois corro para frente do caminhão. Alcanço o lado de Alex bem na hora que Evelyn começa a soltar uma chuva de balas. No meio de seus gritos, um estampido após o outro rompe pelo ar. Minha respiração quase para enquanto meu coração faz o que meus pulmões parecem não conseguir produzir. Uma de suas balas finalmente encontra o joelho de um infectado, fazendo-o tropeçar e cair firmemente de costas. O outro leva um tiro no ombro, no peito e na lateral de seu rosto e, ainda assim, continua avançando para ela, inabalado. Então Evelyn, a um beijo de distância de seu, ainda andando, infectado, por fim acerta seu alvo. A bala reparte a cabeça dele, abrindo sua nuca em duas partes. Como uma piñata3 de papel machê, os prêmios dentro – osso e cérebro e muita gosma escura indistinguível– tudo explode no ar como confete. “Oh Meu Deus”, respiro, observando a criatura achatar no chão. Mas meu alívio teve vida curta porque os infectados restantes de algum jeito conseguiram se levantar. E Evelyn, parecendo vitoriosa, encontrava-se alheia ao perigo que agora estava quase em cima dela. Grito com o topo dos meus pulmões, freneticamente agitando meus braços no ar. “Eve! Eve! Atrás de você!” Evelyn se vira bem na hora de pegar o infectado que a estava alcançando, sua mandíbula já aberta, pronto para dar uma mordida em qualquer pedaço dela que conseguisse arranjar. Enquanto ela batalha para mantê-lo longe, enfiando sua mão no peito dele, sua arma escorregou de seus dedos. Gritando, Evelyn cambaleia para trás sobre seu peso morto, mal conseguindo empurrar o monstro de cima dela. “Faz alguma coisa!” choro, implorando a Alex. “Ela vai morrer! Faz alguma coisa!” “Eu não posso dar um tiro”, ele murmura, ainda olhando em sua 3

Uma brincadeira muito comum no México.

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mira. A frustração e o medo me fazem agarrar o braço dele, segurando com força o grosso material de sua jaqueta de sarja e chacoalhando. “Isto não pode ser por nada!” esbravejo, lágrimas em meus olhos. “E se eu a perder, isto tudo terá sido por nada”. Evelyn continua a gritar, mal conseguindo se manter de pé conforme tentava de novo empurrar o infectado de cima dela. Mas ele não alivia. Abaixando sua arma, Alex se vira para mim, seu olhar calmo encontra o meu olhar histérico. Só leva um segundo, esse estranho olhar que ele deu e então estava enfiando seu rifle em meus braços e correndo campo afora. Puxando uma grande faca de caça da bainha presa em sua coxa, Alex corre em um círculo em torno de Evelyn e o infectado, atraindo a atenção do infectado e permitindo a Evelyn a distração e o espaço que ela precisava para dar naquela coisa um bom empurrão. Eles dois tropeçam em direções opostas, Evelyn para trás e o infectado direto para os braços de Alex. Com uma rapidez que só podia vir da experiência, Alex deita a criatura de costas e no espaço de uma batida do coração enfiou sua faca dentro do crânio dela. Ainda segurando o rifle e minha arma, caio de joelhos no chão, desesperadamente tentando segurar minha respiração. Estava acabado agora, todos estavam salvos, mas... Esta era a vida por fora dos muros, não era? Esta era minha suposta liberdade. As lágrimas queimam atrás de meus olhos, lágrimas tanto de alívio como de arrependimento. Nós apenas trocamos um inferno por outro? E qual seria o preço desse novo inferno? “Lei!” Levanto meus olhos, assistindo Evely rapidamente descendo a colina, um pequeno sorriso em seu rosto. Incrédula, eu a encaro, me perguntando como ela poderia sorrir em um momento como este. Mas já sabia a resposta. Simplesmente, ela foi feita daquele jeito, capaz de encontrar uma luz quando os demais

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ao redor dela viam somente escuridão, capaz de se manter inteira quando todos estavam se destruindo. Ela tinha perdido Jami somente algumas horas atrás e aqui estava ela, parecendo fresca, radiante, e... Livre. “Você está bem?” ela pergunta quando me alcança. Incapaz de responder a ela, tão presa em minha autopiedade, não posso fazer mais que balançar minha cabeça uma vez para um sim. “Aquilo foi foda para caralho”, ela diz sem fôlego, se movendo de um pé para o outro. “Foda para caralho”. “Você precisa aprender a usar aquela arma”. Alex passa casualmente ao lado de Evelyn, seus olhos em mim. Ainda no chão e me sentindo esquisita, limpo minha garganta e tento me levantar. De repente Alex está ao meu lado, tirando seu rifle de minhas mãos. Com um braço ao redor de minha cintura, ele me puxa para cima. “Obrigada”, murmuro, me movendo com rapidez para longe dele e tentando sutilmente me aproximar de Evelyn. “Ela vai”, Evelyn adiciona. “Mas primeiro precisamos entender para onde estamos indo”. “O tempo frio está chegando”, Alex diz, ainda me observando. “Podemos ir para o sul, não teríamos de nos preocupar com congelar até a morte”. “Parece bom para mim”. Evelyn se vira para mim. “Lei?” “O tempo frio os deixa mais lentos”, falo suavemente, sabendo que não tinha nada a oferecer e me sentindo boba por causa disso. “Não é? Isso não faria mais seguro aqui?” Alex continuou a me encarar, sua expressão dura não dando nenhuma dica do que estava pensando. “Não sabe quão seguros estaremos quando estivermos congelando

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até a morte e não pudermos encontrar nenhuma merda para comer”. “Hey!” Evelyn estala. “Ela fez um bom ponto!” “Não”, digo rapidamente, agarrando a mão dela. “Ele está certo, não estava pensando. Nós devemos ir para o sul”. Evelyn balança a mão concordando, mas não diz nada. Entretanto, era difícil não perceber o fogo em seus olhos enquanto encarava Alex. “Sul,é isso”, Alex murmura. “Vamos nessa”.

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Capítulo Oito Evelyn

O fogo em minha barriga ainda queima por muito tempo depois de a matança ter terminado. Verdade, a matança foi desordenada e imprudente e eu sabia que precisava de mais prática, mas tinha sido gloriosa. Enfiar bala depois de bala em um infectado, assisti-lo cair…. De novo. Aquilo foi um remédio amargo para meu coração quebrado. A dor em meu peito é um constante lembrete de que em algum ponto irei ter que parar e pensar em Jami. Terei que pensar sobre a perda que eu tive, a vida que ele desistiu, ambos, por mim e pela chance de liberdade. Sua morte era outra razão para eu não deixar isso tudo ser em vão, outra razão pelo qual tínhamos que sobreviver. Mas não agora. Não posso pensar sobre isso agora. Rangendo os dentes, levanto meu queixo conforme entramos de novo no caminhão, desejando a mim mesma ser forte. Continuamos descendo a estrada vazia e Alex vira na primeira rodovia que passamos. Não havia sinal de qualquer infectado por quilômetros, mas mesmo depois de diversas horas terem passado, ainda almejava matar mais deles. Aquele último encontro acendeu um fogo em mim e estava me coçando de vontade de enfiar uma bala ou uma lâmina em outro e acabar com ele. Ele me deu um beijo de adeus. Minha respiração prende em minha garganta, o rosto de Jami vindo do fundo da minha mente. Leisel aperta minha mão, assustada, olha para ela, dando-lhe um sorriso tranquilizador. “Está com fome?” pergunto a ela. “Você precisa comer. Não faz

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sentido se privar, vai ficar fraca”. “Tem alguma coisa de comer na bolsa, mas não é muito”, Alex diz, não se incomodando em tirar seus olhos da estrada. Subindo pelos joelhos de Leisel, encontro a mochila de Alex enfiada entre o banco. Tinha um pouco de pão e fruta, maçãs e framboesas principalmente, e alguma carne. Fechei a cara para os poucos suprimentos, sabendo que precisávamos racionar nossa comida e água; isso não ia durar mais do que um dia, no máximo dois. “Como você conseguiu a carne?” pergunto a Alex. Carne era uma raridade. Em Fredericksville, só uma vez ao mês fazíamos o abate do nosso gado. A maioria disso era curada para durar por mais tempo. Mas essa carne era fresca e ainda não tinha sido salgada. “Roubei”, Alex conta, sua voz tão vazia quanto sua expressão. Assinto uma vez, minha boca uma linha fina quando começo a dividir a comida entre a gente, dando a nós quantidades iguais de carne, pão e fruta. Alex come enquanto dirigi, uma mão nunca saindo do volante, enquanto Leisel belisca a dela por um longo período antes de cair no sono. “Como você está?” Alex pergunta, me encarando. “Bem, você?” respondi arrogantemente. Poderia dizer que ele pensa que eu era uma mulher frágil, que quebrarei a qualquer momento e em breve ele terá que cuidar de duas mulheres despedaçadas. Mas eu não vou. Tenho que ser forte por Leisel e aquele pensamento me deu força suficiente para manter minhas lágrimas guardadas. Um pequeno sorriso curva os lábios dele. “Me passa a água”, foi sua única resposta. Recuamos no silêncio, o barulho do motor me acalmou, me deixando sonolenta. Eu já estava na beira do sono, quase deslizando para dentro do esquecimento, quando Alex chamou meu nome. Fiquei instantaneamente alerta, me endireitando no banco e procurando pelas ameaças, apenas para encontrar Alex apontando para um carro

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tombado de cabeça para baixo no meio da rodovia, bloqueando nossa passagem. Cercas de proteção metálicas nos bloqueavam em ambos os lados, nos deixando pouca escolha a não ser dar um jeito de mover o veículo. Leisel ainda estava segura no sono e decido deixá-la dormir. Ela precisa de seu descanso, uma chance de se acalmar e captar seus pensamentos, encontrar uma forma de aceitar tudo o que aconteceu nos últimos dias e, esperançosamente, acordar pronta para este novo mundo. Depois de Alex parar o caminhão, eu o sigo para fora da estrada, apertando com força a arma ao mesmo tempo em que escaneio a área buscando por qualquer infectado. Quando não encontramos nenhum sinal de outros, vivos ou mortos, vamos em direção ao carro. É pouco mais que uma carcaça enferrujada, com pedaços e peças de metal retorcido, espalhados pela estrada. Quando estamos perto do carro, notamos uma coisa estranha, algum tipo de movimento vindo de dentro. Aproximamos-nos, abaixando para poder olhar dentro, apenas para descobrir que o motorista, ou o que restou dele, está ainda sentado atrás do volante, prensado no lugar por uma coluna de ferro quebrado. Ao nos ouvir, ele se vira em nossa direção, suas mandíbulas mordendo, um ávido e estridente barulho rompendo de sua garganta apodrecida. Ergo minha arma, pronta para atirar e colocar fim a sua miséria, mas Alex coloca uma mão sobre minha arma, me fazendo parar. “Precisamos economizar balas”, ele diz e me entrega uma faca. “Direto na cabeça. Ele é velho, deve ser macio”. Sei por que ele quer que eu faça isso, ao invés dele. Está me testando, determinando se eu tenho alguma utilidade para ele aqui fora. Pego a faca dele, com determinação, olho o carro de perto. Quando alcanço o lado do motorista e me inclino para olhar para dentro de novo, o infectado fica furioso. Ele estica um braço débil para mim, bate contra a porta para me pegar com seu pescoço esticado, sua mandíbula

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estalando descontroladamente. Ergo a faca, meu olhar voa para o assento traseiro do carro e encontrou os esqueletos do resto da família. De forma esquisita, me pego dando a cada esqueleto um nome – Mary, Jack, e a doce pequena Katie – e de repente desejo que pudesse dar a eles um enterro apropriado, não deixar o que provavelmente havia sido uma amorosa família feliz aqui no meio da estrada como uma aberração de circo. O infectado grasna, leva minha atenção de volta a sua mandíbula. Sem hesitar, ergo a faca e a abaixo rapidamente, enterrando profundamente na cabeça dele e o infectado silencia instantaneamente. Com uma simples puxada, a faca fica livre, pingando um lodo negro que respingou no pavimento. Enrugando o nariz para aquela bagunça violenta, levanto e me viro para Alex, entregando a faca de volta para ele, mas balança a cabeça para mim. “Isso é seu agora”, ele fala, me entregando o estojo que estava preso na sua coxa. “Agora me ajuda a mover essa coisa”. Leva só alguns minutos para perceber que não podemos mover o carro; era muito pesado e amassado. Decidimos usar o caminhão para puxá-lo do caminho, por isso voltamos para o veículo. Leisel ainda está profundamente adormecida, ressoando suavemente, então decido acordá-la para que não se assuste enquanto está dormindo com o barulho de metal arranhando metal. Quando a balanço gentilmente, ela pula para cima, sua mão imediatamente procura pela arma deixada entre suas pernas. Parado do lado de fora do caminhão, Alex olha de mim para Leisel com a sua, sempre presente, carranca firmemente no lugar. Seu olhar finalmente para sobre mim e aponta para o assento do motorista. “Você dirige, eu puxo”. Colocando o motor para funcionar, começo lentamente a guiar o caminhão para frente. Com Alex como meu guia, deixo o caminhão cara a cara com o carro e começo a empurrar. O barulho é ruim de verdade; os guinchos do metal sobre o asfalto são mais altos do que antecipei, o estouro do vidro soa como se uma bomba tivesse explodido. Franzo o

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cenho, esperando que não quebrassem o nosso caminhão no processo. Felizmente, depois de quinze minutos conseguimos mover o carro o suficiente para nos dar o espaço para passar. “Você está bem?” pergunto a Leisel conforme deslizo para o outro banco, dando a Alex o assento do motorista. “Sim”, ela diz calmamente e deixa sua cabeça cair no meu ombro. “Jura?” pergunto a ela. Levantando o rosto, me oferece um pequeno sorriso. “Juro”. Estudo-a por um momento antes de deixar um beijo em sua cabeça e ficamos em silêncio.

*** “Cidade em frente”, Alex anuncia em voz alta, o som de sua voz me faz pular. Ele é estranho, ficava horas sem falar uma única palavra, ai do nada falava, me assustando até os ossos. Viro-me para fazer uma careta para ele, mas seus olhos estão na estrada enquanto ia diminuindo em frente a uma placa de saída. “Continua?” ele pergunta, esfregando uma mão em seus cabelos pretos e curtos. “Ou dar uma checada”, adiciona, respondendo sua própria pergunta. Lançando um olhar em nossa direção, suas sobrancelhas erguidas em expectativa. Dei de ombros. “Dar uma checada?” eu digo, insegura, “Mulheres, como vocês são indecisas”, Alex responde, sua expressão ainda vazia. A respiração aguda de Leisel ressooa na cabine do caminhão. “Então continua!” ela choraminga suavemente. “Continua!” Se inclinando em seu assento, olha para mim, me encarando, querendo

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que eu concordasse com ela. Mordendo meu lábio inferior, não a respondo na hora, estou pensando em nossas opções. “Eve”, ela sussurra, parecendo desesperada. Pressionando meus lábios, dou de ombros novamente. “Nem mesmo sabemos se tem alguém ai, Lei. E precisamos de suprimentos. Não vamos muito longe com o que temos”. “Precisamos de gasolina”, Alex revela, olhando o medidor de combustível. “Logo”. “Eve!” Leisel resmunga com aspereza, pegando minha mão e a apertando com força. Entendo do que ela tinha medo; eu tenho medo da mesma coisa. Ir de encontro a pessoas como as de Fredericksville, que pensam que podem fazer o que quisessem com o que a infecção deixou para trás. Ou pior. E no que diz respeito à pior, as possibilidades eram infinitas. “Isso pode estar abandonado”, continuo. “Talvez alguns infectados perambulando por aí, mas nada que a gente não consiga solucionar”. Ao menos, eu espero que isso fosse tudo que encontraríamos. Alguns infectados seriam fáceis o suficiente para se livrar. A menos que a cidade estivesse tomada. “Há muitas possibilidades”, ela diz, se abrigando em meus pensamentos. “Precisamos tomar uma decisão”. Alex aponta para o céu. “Estamos ficando sem a luz do dia”. Fechando a cara para ele, viro para Leisel. Para alguém que foi tão surpreendentemente útil, ele é muito insensível às lágrimas de Leisel. “Vamos dar uma checada”, anuncio, não completamente segura de minha decisão, mas precisando tomar uma de qualquer maneira. E Alex está certo, a noite estava chegando e precisamos de algum lugar para permanecer. Algum lugar seguro e um carro sem gasolina não era

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um lugar seguro para ficar. “Por favor, não! Eve, por favor.” Leisel está chorando de novo e me sinto uma merda por ser aquela que tinha causado suas lágrimas. Mas estou fazendo isso para protegêla, nos colocar em um lugar seguro. A puxando para um abraço, planto um beijo no topo de sua cabeça. “Nós vamos ficar bem. Eu prometo”, falo, com muito mais tranquilidade do que deveria. Assentindo contra mim, ela tenta parar as lágrimas, mas eu ainda estou me sentindo horrível. Leisel não conhece nada além de medo nos últimos quatro anos e faria qualquer coisa para garantir que ela nunca se sentisse insegura de novo. Alex segue em frente. Conforme nos aproximamos e a pequena cidade entra em vista, a ponta de preocupação em meu estômago ficou pior. Não há movimento, nada vivo ou morto que pudéssemos ver, mas parece que estamos sempre nos enganando. Pegue Lawrence Whitney, por exemplo. A ameaça que repousa por trás de portas fechadas, de tocaia nas sombras, é sempre muito mais mortal que o perigo à vista.

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Capítulo Nove Leisel

A cidade de Covey era pequena, até mesmo menor que Fredericksville e parecia estar totalmente abandonada. Quando Alex vira onde, provavelmente, foi a rua principal, encaro pela janela em choque para o que, eu estava certa, uma vez foi um pequeno e excêntrico vilarejo. Lojinhas do tipo familiar ladeavam a rua, um sinal de madeira ostentando um boticário preso em um poste quebrado e havia uma barbearia, completa com um poste listrado como um pirulito. Continuo encarando, tentando imaginar como este lugar era antes da infecção, com pessoas felizes caminhando pela calçada. Esse era um lugar que eu ficaria contente em visitar. Forçaria Evelyn a vir comigo, arrastado-a de lojinha em lojinha, sorrindo quando ela risse das minhas compras e me provocasse por ficar facilmente entretida com coisas simples. Mas aquilo foi antes e não agora. E o agora é uma rua quebrada e coberta de mato, a grama por baixo do pavimento reclamando a terra e tudo o que o homem tinha construído sobre ela. As lojas são agora cascas de seus antigos ‘eu’. É uma cidade-fantasma, um cemitério sem túmulos, um museu esquecido e decadente daquilo que a vida costumava ser. E se a vida continuasse desse jeito, se a infecção continuasse a crescer, eventualmente não restaria ninguém, a raça humana sumiria em breve. E com o tempo, tudo das nossas cidades e com elas, qualquer

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pedaço de prova de nossa existência. “A primeira vista parece limpo”, Evelyn divaga. Alex solta enganosos”.

um

resmunga.

“Primeiros

olhares

podem

ser

Seu olhar faisca de irritação, Evelyn volta seus olhos em minha direção, revirando-os lentamente. Esforço-me para dar a ela um sorriso em retorno, mas não consigo. Meu estômago agita de medo, minha cabeça pesa de ansiedade e em cada quilômetro que viajamos, meu medo do desconhecido só continua a crescer, aumentando meu desconforto. “Lei?” ela sussurra, movendo sua cabeça junto com a pergunta. “Você está bem?” “B-bem”, gaguejo com rouquidão, mas eu não estou nada bem. Tento me visualizar vasculhando por estes prédios por comida ou roupas, coisas que haviam pertencido a outros – outros que não foram tão afortunados como eu – e minha apreensão só aumenta. Eu me sinto como uma intrusa nesse novo e estranho mundo e pior que isso, como um fardo para Evelyn e Alex. Quão boa eu serei se formos atacados por um infectado, ou mesmo por outra pessoa? Quão boa serei mesmo se não formos? Fechando meus olhos, inalo suave e profundamente, o ar velho do caminhão com cheiro forte de corpos não lavados. Solto minha respiração, sonhando em ter um momento particular sozinha, em algum lugar com portas fechadas para que eu pudesse bloquear o mundo. Só um minuto era tudo que precisava para refazer minha compostura. Inspiro e expiro novamente, outra tentativa infrutífera de acalmar meus nervos. Está quente no caminhão, nós três apertados um contra o outro, Alex a minha esquerda, sua perna direita situada firmemente ao longo da minha esquerda e à minha direita estava Evelyn, seu lado esquerdo inteiro pressionado desconfortavelmente contra mim. Estamos nos tocando dos ombros aos tornozelos, incapazes de mexer

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uma fração de centímetro sem a outra pessoa perceber. Quando abro uma pálpebra, o painel do caminhão emergiu na minha frente e, além daqueles carros abandonados e embaçados que entram e saem de foco quando passamos por eles, Alex desviava frequentemente para evitar o lixo espalhado pela estrada. Seu cotovelo pressiona em meus bíceps e toda vez, encolho e fecho meus olhos, minha respiração aloja em minha garganta. Preciso sair desse caminhão; é muito pequeno e asfixiante. Necessito de ar fresco e um momento sozinha. Preciso de um banho para lavar o sangue, o suor e o fedor do medo. Eu preciso “Não se preocupe, Lei”, Evelyn diz gentilmente, interrompendo meus pensamentos nervosos. “Vai ficar tudo bem. Vou te proteger”. Meus olhos se abrem bem no momento de vê-la se esticando até mim, provavelmente para me dar um toque reconfortante ou um aperto. O pensamento disso, de ser tratada ou considerada como uma criança inútil de novo, saturou minhas emoções e faço uma coisa que nunca tinha feito antes, nunca nem pensei em fazer. Empurro o braço de Evelyn para longe. “Para com isso!” exclamo. “Não sou criança. Não é minha culpa se não sei usar uma arma. Não é minha culpa se não sei nem o básico sobre sobreviver aqui fora. Não é minha culpa se não sou tão forte como você, ou tão brava. E não é minha culpa se eu sou fraca!” A boca de Evelyn fica aberta, depois fecha e depois abre novamente e seus olhos ficam escancarados com a minha repentina explosão. “Você não é fraca”. Estou tão ocupada olhando furiosamente para Evelyn e ela me encarando, não percebemos que o caminhão tinha parado. Piscando com confusão, me viro e dou de cara com Alex olhando fixamente para frente, suas mãos apertam com tanta força o volante que as

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articulações de seus dedos bronzeados se tornam brancas. “Você não é fraca”, ele repete, dessa vez com mais força. Sem outra palavra, Alex asperamente puxa a chave da ignição e sai do caminhão, batendo a porta com tamanha força que o barulho me faz estremecer. Eu o observo caminhar uns poucos metros na estrada vazia antes de olhar de volta para Evelyn, uma desculpa se formando em meus lábios. “Não”, ela fala, me dando um sorriso fraco. “Não se atreva a pedir desculpas. Não por isso”. Boquiaberta, procuro pelo seu rosto, confusa com seu sorriso, tentando discernir a razão dele. “Por que diabos não?” foi tudo que consigo dizer. “Porque”, ela diz diretamente. “É muito foda finalmente te ver se defendendo sozinha outra vez”.

*** As primeiras três lojas que nos aventuramos a entrar foram depenadas de qualquer coisa útil há muito tempo. Tudo que restam são fragmentos do que aqueles suportes tinham uma vez segurado, uma abundância de teias de aranha e poeira e alguns dispersos ossos humanos. Na maior parte fico na vigia, permanecendo na entrada. Meu trabalho é alertar Alex e Evelyn de qualquer surpresa, seja ela infectado, animal, ou outro humano, conforme os dois procuravam por mantimentos. Em nossa quarta parada, o que parece ter sido um banco um dia, eu estou mais segura de mim mesma do que já estive em muito tempo. A arma bem encaixada no meu punho, sólida e pesada e apesar de ainda não ter disparado, me sinto tranquila em tê-la. Isso não quer dizer que eu não estou mais assustada, porque

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estou. Na verdade, estou totalmente apavorada. O sol sumindo no horizonte, dá a cidade inteira um cinza generalizado e uma aparência assustadora. Sem eletricidade, os interiores dos prédios já estão muito sombrios para ver claramente, mesmo com a ajuda da luz da lanterna de Alex. Junto com isso tem o silêncio não-natural e a quietude em um lugar que eu sei que uma vez foi cheio de passos, vozes, mesmo o zunir das luzes da rua. Esse é o cenário perfeito para um filme de terror. E enquanto o sol desce mais no horizonte, meu recente conquistado punhado de coragem começa a se tornar uma massa dura de medo nas minhas entranhas. “Nós deveríamos ir andando”, falo por cima de meu ombro, minha voz trêmula por minha crescente ansiedade. “Um minuto!” Evelyn responde. “Tem uma coisa debaixo disso... maldição, isso é pesado!” “Leisel”. Alex está de repente ao meu lado, tão perto que consigo sentir o calor de sua respiração em minha bochecha. Grunhindo pela surpresa, pulo para trás, para fora da entrada e já na calçada. “Você me assustou”, respiro. Pousando minha mão sobre meu coração acelerado, tomo uma muito necessária golfada de ar. “Sinto muito”, ele diz, não parecendo muito arrependido. Igual Evelyn fez mais cedo em resposta a Alex, queria revirar meus olhos. Ele é um homem estranho. Bonito e indecifrável e se os eventos dos últimos dois dias eram algo a se considerar, inteiramente imprevisível. “Por que me salvou?” deixo escapar, repentinamente desejando saber. “E não me diga que você queria cair fora de lá. A vida era boa para você e Jami em Fredericksville. Porque alguém trocaria aquilo por...” pauso e gesticulo em direção à rua vazia e arruinada. “Isto” termino. O que eu realmente quero perguntar é, porque alguém trocaria uma vida confortável e previsível pelo que poderia ser uma vida muito curta, preenchida com insondáveis perigos. Como já havia presumido, ele não me responde prontamente, mas ao invés disso só me encara, seus olhos escuros parecendo negros na

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luz minguante. “Você pensa que é fraca”, finalmente diz, sua voz estranhamente irregular e densa. “Mas não é. Pessoas fracas não sobrevivem ao tipo de merda que você viveu. Pessoas fracas não põem uma faca no coração de alguém e pessoas fracas não aceitam voluntariamente o fato de serem condenados à morte”. Alex dá um passo em direção a mim muito ameaçador e eu estou mais uma vez lutando para continuar parada. Não quero ser a mulher que tem medo de todos os homens só por que um homem a machucou. Eu não quero mais ser fraca. Então finco meu pé e ergo o queixo, apesar de meus joelhos começarem a tremer. “Eu era fraco”, ele continua, torcendo seus lábios em um rosnado preenchido por ódio por si mesmo. “Ficava do lado de fora da sua casa, dia após dia, ano após ano, ouvindo o que ele fazia com você e jamais levantei um dedo para parar com aquilo”. Ele engole com força e balança sua cabeça conforme suas narinas abrem, seu olhar desfocado. “Pessoas fracas fazem nada. Pessoas fracas deixam a vida acontecer para elas e eu era fraco. Sabia como era aqui fora, compreendia o tipo de merda que as pessoas estavam fazendo para viver mais um dia e não queria voltar para isso. Então eu o deixei machucar você, não disse uma palavra, não tentei parar, porque era um maldito fraco”. Meu lábio inferior começa a tremer à medida que meus olhos se enchem de lágrimas. Uma piscada e elas cairiam, correriam por minhas bochechas mais rápido do que eu posso prender minha respiração para pará-las. Quem é esse homem? Este não é o Alex que conheço, o silencioso, rosto de pedra, sem emoção, o Alex que esteve ao meu lado esse tempo todo e ainda o mesmo que eu pensei que nunca, realmente, me viu antes. Não devia ter ficado tão surpresa. Enquanto que Lawrence parecia tranquilo, sempre tinha um sorriso em sua face, era bem-falante e se movia de um jeito que não era ameaçador, ele na verdade foi o oposto disso. As pessoas, eu vim a aprender, eram raramente condizentes com a cara que usavam. Lawrence certamente não foi e Alex também não.

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Evelyn, entretanto, Evelyn era sempre ela mesma. A única pessoa que eu poderia sempre contar como honesta, a única pessoa em que poderia sempre confiar. Ela era minha constância, minha pedra, meu coração e a amava por isso. “Você não tem nada que se desculpar”, sussurro chorosa. “Não te culpo por tomar conta de si mesmo. Você não me devia nada”. “Mas eu devia – eu devo”, ele diz, sua mandíbula apertando com força, seus olhos reluzindo como fogo. Eu o assisto batalhar internamente com sua raiva e ainda assim estranhamente não estava com medo dele. Eram os sorrisos que agora me preocupavam, os toques gentis e palavras suaves que se transformavam em algo muito mais horrível. Graças a Lawrence – que foi o mais calmo e feliz quando me batia – o comportamento mais acentuado e mais severo de Alex era quase reconfortante. “Devo a você minha humanidade, Leisel. Oh qual diabos é o ponto? Pelo que está tentando sobreviver?” Abro minha boca, uma resposta instintiva quando alguém te faz uma pergunta, só para perceber que não tenho uma resposta pronta e mais lágrimas caem. Através de olhos enevoados vejo a mão de Alex erguer e pela primeira vez em três anos, eu não me encolho a vista disso. Mas antes que pudesse me alcançar, sua mão repentinamente fica a um fio de cabelo de minha bochecha e espera por um momento antes de abaixar. “Perdão”, ele fala quietamente, toda a raiva agora drenada de sua expressão. Eu não quero me repetir, dizer a ele de novo que não tem nada a que se desculpar, não depois de ter me confessado o que parecia ser algo que esteve pensando muito até agora. Fazer isso seria o mesmo que desprezar sua dor e sabia, melhor que ninguém, como era isso. Eu nunca desejaria o mesmo para outra pessoa, ignorar as feridas que eles carregavam com eles. “Nada” Evelyn anunciou, olhamos para ela, encontrando seu rosto com uma expressão de perda. Passando por alguns escombros no caminho, ela veio em nossa direção. “Nem uma única coisa.” Ficamos

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ali parados por um momento, sem olhar um para o outro, sem olhar para nada em particular. Estamos com fome, sujos e o tempo rapidamente mudando. Logo os dias já não seriam quentes e as noites ficariam ainda mais frias. “Sem gasolina, estaremos viajando a pé em breve,” Alex diz, soando e parecendo sombrio. “E mortos se não encontrarmos nada para comer.” “E as outras pessoas?” Evelyn pergunta. “Deve haver outros sobreviventes.” Alex vira seu olhar duro para Evelyn. “Confie em mim, não queremos encontrar outros sobreviventes. Você acha que Whitney era uma ba”−. “Noite, amigos.” Minha cabeça girou para esquerda em direção a nova voz quando Alex agarra minha mão. Mal tive tempo de ver quem era que tinha falado, somente dei um relance em uma figura escura que parecia decididamente masculina, antes de Alex me puxar para trás e quase me jogar para cima de Evelyn. Rapidamente, se move para a nossa frente, nos protegendo com seu corpo. A mão de Evelyn imediatamente procura pela minha e nós duas apertamos a mão uma da outra com força. “Vocês parecem famintos”, a voz continua. “E cansados”. “Estamos bem”, Alex estala. “Apenas de passagem”. “Nós temos comida, amigos, e -” “Não sou seu amigo”, Alex atira de volta, parecendo mais agitado do que já o ouvi antes. Observo, mal respirando, quando seus ombros tensionam, os músculos de suas costas incham por baixo de suas roupas. “Você tem certeza disso?” a voz responde, soando casual, tranquila e jovial demais para o meu gosto. “Todos precisamos de um amigo nestes dias”. Um estrondo soa por trás da gente, assim como uma luz brilhante

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temporariamente me cega. Apertando a mão de Evelyn com mais força, assim como minha arma, pisco rapidamente, apontando minha arma inutilmente, tentando ver por entre o brilho da luz. Tudo ao meu redor que consigo ouvir está embaralhado, palavrões abafados que ecoavam como Alex, murmúrios não familiares e então de uma vez Evelyn foi puxada para longe de mim. Momentaneamente sozinha, congelo, o medo mantendo o grito refém em minha garganta, até que mãos repentinamente se agarraram a mim e dor irrompeu de meu crânio. Como um soco no estômago, a respiração sibilava em meus pulmões enquanto meus joelhos se entregavam. Eu começo a cair, caindo em um aparentemente buraco de um nada sem fim, rodeada por silêncio e uma sombra mais escura que a noite.

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Capítulo Dez Evelyn

Acordo com o som de cantoria. Gemendo, seguro minha cabeça dolorida e descubro algo pegajoso cobrindo meu cabelo, o escalpo por baixo macio e ferido. O vibrante som de diversas vozes cantando em harmonia só piora a dor. Subitamente me lembro que frequentava uma igreja quando criança. Todo domingo vestíamos nossos vestidos mais bonitos, minha irmã e eu, minha mãe também e meu pai vestia o seu, perfeitamente engomado, terno. O ministro era um velho bastardo rabugento. Nunca sorria para ninguém, nem mesmo para as crianças comportadas que sentavam pacientes e quietas pelo medo de serem repreendidas. Na verdade, quando fiquei mais velha, isso se tornou uma piada de longa data entre meu pai e eu quando debatíamos a razão por trás da miséria daquele velho homem. Quando finalmente consigo abrir meus olhos pesados, não foi somente o som da cantoria que me fez recordar a minha infância. Eu estava sentada em uma igreja – o banco da frente, para ser precisa – e havia um coro posicionado a minha direita cantando o último hino, uma benção que conhecia de cor. Similaridades a parte, o ministro parado por trás do palanque era o exato oposto do meu ministro. Este homem não tinha nada de miserável, ao contrário, parecia pular de felicidade. Seu sorriso era caloroso, seus olhos brilham quando observava a congregação. Uma cabeça cheia de grossos cachos castanhos emoldurava seu jovem e amigável rosto e quando ele vira aquele rosto em minha direção, ele pisca para mim, seu sorriso ficou

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ainda mais aberto. Piscando, balanço minha cabeça como se isso ajudasse de alguma forma a bagunça em meu cérebro. Quando aquilo pareceu não funcionar, fecho meus olhos e conto até dez, porque isso pode ser uma alucinação ou um sonho. Era isso! Eu estou sonhando. Dou um bom beliscão no meu braço, abro meus olhos e ainda nada havia mudado. Confusa, pisco várias vezes e depois mais algumas como um bom indicador. Mas nada havia mudado. O alegre ministro ainda esta lá, pulando alegremente, batendo palmas enquanto cantava. Vindo de lugar nenhum, o som de repente alcança um novo volume e meu corpo responde enviando um disparo de dor aguda gritando em minha cabeça de uma têmpora a outra. Quando vislumbro a minha esquerda, descubro uma mulher mais velha com cabelos grisalhos e olhos gentis que se iluminam para mim. Com desconfiança, afasto o olhar, apenas para descobrir que a minha direita estava ocupada também. Outro rosto amigável sorri para mim, este pertencendo a um homem de meia idade que estava carinhosamente aninhando uma arma em seu colo. Sobressaltada com a arma, recuo e me aproximo uns centímetros da mulher. Ela coloca uma mão gentil sobre meu ombro e me afasto de novo. Meu comportamento não parecia perturbar nenhum deles, eles continuam a sorrir para mim conforme cantam, me olhando com expectativas como se esperassem que eu abrisse minha boca e entrasse na onda. Encolhendo meus ombros da mão da mulher, tento levantar, mas sou imediatamente forçada de volta pelos dois, a mulher e o homem. Assim que sento outra vez, cada um deles pega um dos meus braços, prendendo meus membros em suas garras. É então que minha mente clareia e percebo que Leisel e Alex não estam ali comigo, onde quer diabos que ali fosse. Contorcendo-me em meu assento, busco através dos mal preenchidos bancos por qualquer sinal dos meus amigos, encontrando o vazio. Sinto-me doente de repente, em pânico e mais do que só um

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pouco apavorada, começo a gritar. “Lei!” grito, interrompendo o terceiro verso do hino. “Leisel!” Apesar dos meus gritos, o coro canta ainda mais alto, com sorrisos satisfeitos em seus rostos. Nem mesmo um olhar foi disparado em minha direção, como se este cenário insano fosse completamente normal para eles. “Me solta!” esbravejo, ainda me contorcendo no banco, tentando me livrar de meus captores. “Me solta, porra!” O ministro escolhe aquele momento para finalmente encerrar a cantoria e assim que ele fez, a igreja inteira ficou em silêncio. Sua expressão feliz permanecia firme no lugar, apesar de alguma coisa ter mudado. Seus olhos pareciam diferentes agora, como se uma escuridão tivesse deslizado para dentro deles. “Você está acordada!” Juntando suas mãos, ele me dá um sorriso mostrando os dentes. “Maravilhoso. Deixe-me apresentar-me, amiga!” continua alegremente. “Sou o senhor Peter e as boas pessoas sentadas perto de você são o senhor Michael e a senhora Mary!” “Amiga”, senhor Michael me cumprimenta, inclinando sua cabeça. Olho perplexa para aquelas três pessoas loucas, meus olhos arregalados, meu cérebro tendo problemas para compreender o que realmente estava acontecendo ali. “Amiga”, senhora Mary diz, me liberando para poder me oferecer sua mão. Em vez de segurá-la, pulo para cima, pegando senhor Michael de surpresa, me livrando de seu aperto em meu braço. Enquanto me movimento para o fundo, senhora Mary e senhor Michael já estavam de pé, me alcançando. Repentinamente senhor Peter entra ali, seu roupão branco fazendo barulho ao redor dele conforme para na frente deles, os bloqueando de me alcançar. “Isso não vai ser necessário, Sr. Michael”, anuncia, seus olhos em

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mim. “Nós somos todos amigos aqui, não precisa entrar em pânico”. Olho com desconfiança para ele. “Onde está Leisel?” exijo. O ministro apruma sua cabeça para um lado, parecendo pensativo. “Tenho receio de que não sei de nenhuma Leisel, amiga” “A mulher que estava comigo!” grito, minhas mãos se contraindo com a urgência de se enrolar ao redor do pescoço dele. “Onde estão as pessoas que estavam comigo?” “Ah, suas companhias”, ele responde calmamente. “O que, eles estão aqui. Conosco.” Ele gesticula para trás dele, em direção a congregação. Desesperada, viro minha cabeça em volta, meus olhos agora selvagens à medida que busco por qualquer sinal de Alex ou Leisel. A igreja é pequena e escura, suas janelas vedadas com tábuas. As paredes eram brancas, o carpete vermelho e as velas estão colocadas por todo o espaço inteiro. Há mais pessoas do que eu vi anteriormente, vinte ou por aí, apesar de que poderia ter mais considerando que não podia ver direito o fundo. Ainda assim, não vi sinal de Leisel ou Alex. “Leisel!” grito de novo. “Leisel!” Sr. Peter coloca sua mão sobre o meu braço. Seu aperto não era duro, em fato, seu toque era gentil, provavelmente desejando ser um gesto calmante, ainda assim isso teve o efeito oposto sobre mim. “Eles estão aqui”, ele diz, seu tom mais baixo que antes, com um toque de ameaça. “Estão com a gente”. Ele aponta para si mesmo e depois estende seus braços abertos, enfaticamente gesticulando para todos. Bruscamente, me viro para dar uma olhada na congregação, achando-os um pouco mais que estátuas felizes. Quando olho de volta para Sr. Peter, meu pânico e medo alcançam seu auge e atacam. Meu punho se conecta com a mandíbula dele em um esmagar doentio e nós dois choramos de dor. Mas dor era a menor das minhas preocupações. Enquanto ele recua para trás, salto, pulo em cima dele e o deixo

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esparramado no chão. Gritando obscenidades, enfio meu punho novamente na cara dele, arranhando sua pele, dando tapas nele, até que mãos seguram a parte de trás de minhas roupas e me puxaram. Ainda estava lutando, gritando e chutando, quando Sr. Peter foi ajudado a ficar de pé. Com suas narinas abrindo, ele me encara através de pálpebras inchadas. Lambendo o sangue de seu lábio inferior, sua cara feliz foi embora, substituída por um grunhir mortal. “Isso não foi muito legal da sua parte”, praticamente rosna. “Pensei que fossemos amigos”. “Onde ela está?” berro, minha garganta queimando de raiva. Sem aviso sua mão atacou, conectando dolorosamente com a minha bochecha. Minha cabeça estala para trás e estrelas dançaram na frente dos meus olhos conforme pisco repetidamente, desesperadamente tentando focar. Mas a bofetada foi como uma marreta para o meu já atordoado crânio. Repentinamente minhas pernas ficaram como gelatina e caio contra os homens que estavam me segurando. “Leva ela para o altar”, Sr. Peter diz para os homens que me seguram, seu olhar agora era frio e desapontado para mim. “Seremos eternamente gratos pelo seu sacrifício, amiga”, ele fala suavemente, um perverso sorriso curvando em seus lábios. Não mais com força para gritar, murmuro alguma coisa incoerente em resposta antes de ser dragada da sala das velas e atravessado uma porta. Está escuro nas entranhas da igreja, meus olhos já tensos são incapazes de decifrar mais que do que algumas sombras. “Não se preocupe, amiga!” Sr. Peter chama, sua voz soa abafada e afastada. “Você estará com eles em breve. “Ambos, o Senhor e eu, queremos que saiba que estamos em débito com você. Eternamente gratos”. Não tenho energia para lutar com eles, seja lá quem fosse que estava me carregando. E qual seria o ponto? Não só me excedem em

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número, mas as meias palavras de Peter removeram qualquer vestígio de luta que restou em mim. Não importa mais o que me acontecesse. Nada mais significava se Leisel tiver partido. Eu me sinto sendo puxada por uma escada abaixo, ouvindo o thump-thump-thump monótono de meus pés batendo em cada degrau de concreto. Está mais escuro aqui embaixo e com um cheiro horrível. Quando o cheiro absoluto de morte e podridão cai sobre mim, engasgo e quase soluço. Aquele cheiro me lembrava de dias anteriores, da morte em cada corredor, em cada lar. Lembrava-me das famílias perdidas, as crianças massacradas. Pior, me lembrava de Shawn, de seus momentos finais. Um baixo zumbido nos rodeiam, um estranho zunido, não diferente do som de um transformador elétrico. Mas minha garganta está áspera com os soluços não liberados e queimando com um sofrimento destruidor. Eu não consigo nem mesmo encontrar a força para levantar minha cabeça e localizar a fonte do barulho. Muitos minutos passam e então um brilho de luz prende minha atenção. Quando ergo minha cabeça, meu olhar cai nas pernas de alguém. Inclino minha cabeça para cima, deixando meu olhar viajar pelas pernas e corpo até descobrir o rosto desfocado de um homem. “Por favor”, imploro. “Só me diga onde ela está, me deixe vê-la”. Meu queixo treme quando eu falo, mas me recuso a chorar, a ceder à minha tristeza até poder vê-la, até eu saber com certeza o que tinha acontecido com Leisel. Mas o homem não responde, nem mesmo olha para mim. Ao invés disso se afasta, permitindo que o homem que me arrasta passasse por ele. Há um esboço aqui embaixo, um frio que abria seu caminho pelos corredores úmidos, similar ao que descia pela minha coluna. Meu coração martela pesadamente e uma gota de suor desliza lentamente pelas minhas costas. À distância, consigo ouvir o som de passos, ecoando ao meu redor. Deixando minhas pálpebras fecharem, engulo outro soluço ameaçador, não muito capaz de acreditar que cheguei a isto. Depois de

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tudo que eu vivi, seria assim que morreria – nas mãos de um bando de lunáticos com séria necessidade de terapia. Sério, Deus? De verdade? Continuamos pelo que parece ser uma eternidade, até que um dos homens que me segura começa a grunhir com o esforço que fazia para me impedir de cair. Levanto minha cabeça, só o suficiente para dar um relance nele na luz fraca. Ele é mais jovem que eu, ainda assim tem uma aura de escuridão o rodeando que o fazia envelhecer além de sua idade. Há um olhar familiar em seus olhos vazios, um que eu tinha visto milhares de vezes antes. Não era tristeza nem raiva, mas o olhar de alguém que viu muito, feito muito, alguém que sabia que queimaria no inferno por isso tudo quando chegasse a hora. “Você vai queimar”, sussurro com rouquidão, querendo relembrálo do que ele já sabia e seus olhos voam aos meus, olhando fixamente para mim, de forma vaga. Enojada, me afasto dele. Não existe esperança para alguém como ele, perdido em sua loucura. Finalmente chegamos a uma parada do lado de fora de uma grande porta de vigas de madeira. Um dos homens me segurando inesperadamente me solta, me jogando totalmente nos braços de outro. Ele era mais velho, surpreendentemente corpulento considerando que estávamos no meio de um maldito apocalipse. Eu me lembro de Mason então, sua gula no que dizia respeito a tudo, mas principalmente quando era sobre mim. Esperava que, como me perdeu, ele estava se afogando em autopiedade. Lançando um rápido olhar por cima da minha cabeça, o homem puxa um conjunto de chaves do seu bolso e o coloca em seu dedo polegar. Após tensos momentos onde aguardo que os horrores por trás da porta fossem revelados, ele a destranca. A porta range ameaçadoramente, revelando uma sala escura e o cheiro de podridão flutua de dentro, ainda mais potente que o anterior. Não era só o cheiro de podridão, mas o cheiro de morte que perdura no ar e meu estômago aperta com o pensamento de qual novo horror eu estava prestes a encontrar. Comprimindo meus olhos, consigo

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vislumbrar o que parece ser um bloco de concreto no centro da sala, com um cobertor de veludo jogado por cima. Não há janelas, nem portas além da de entrada. É claro que não haveria. O homem me segurando me empurra para frente, me enfiando na escuridão de cheiro horrível. No começo, tento resistir, mas é inútil e sou jogada com força para o chão de concreto. Rapidamente, dou uma olhada pela sala, porém não vejo nada além do bloco de concreto e do cobertor de veludo. Mas assim que meus olhos começam a se ajustar a escuridão, descobri que aquilo não era um cobertor. Era sangue, espesso e vermelho, cobrindo o bloco. “Porque estão fazendo isso?” murmuro, me voltando aos homens, meus olhos escancarados com o horror enquanto meu cérebro luta para processar o que esta acontecendo. “Não é nossa escolha”, o homem corpulento fala. “É de Deus”. E por fim encara o teto, fazendo o sinal da cruz em frente a ele. “Está me dizendo que Deus pediu a você para sequestrar três pessoas na rua e matá-las? Deus quer que mate três pessoas inocentes que não fizeram nada para você?” “Você não vai morrer”, o homem mais jovem disse. “Não vou?” pergunto, estupefata. “Não, tolinha, está indo para casa”. Ele sorri então, apesar de não ser um sorriso amigável, me fazendo pensar que ele não acredita muito no que estava dizendo. “Você está fazendo charadas!” grito, fixando a ambos com o olhar mais ameaçador que consegui fazer, mas foi desperdiçado sobre eles enquanto os dois estavam agora sorrindo. “Onde estão meus amigos?” pergunto, sentindo uma mínima partícula de esperança, mesmo que minha voz quebra na última sílaba. “Vocês os mataram? Por favor, só me digam isso”. “Vamos enviá-los para casa também”, o mais velho responde, sua

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voz vaga, seu olhar de repente distante. “Eles vão proteger nosso rebanho dos lobos”. As lágrimas começam a se construir por trás de meus olhos. Estas pessoas eram insanas, completamente fodidos da cabeça. Não tenho ideia do que eles fizeram a Leisel e Alex, nem do que eles farão comigo. Meu coração começa a bater tão rápido que parece que meu peito explodiria pela pressão. Mas mantive isto até agora, me controlando para manter tudo sempre contido e enterrado profundamente dentro de mim, que me recusava a liberar isso aqui, especialmente em frente aqueles lunáticos. E então, quando penso que tudo estava perdido, um grito, perfurante em sua intensidade e absolutamente familiar, rompe bruscamente através do, outrora silencioso, salão. Leisel! Pulando de pé, corri para a porta, alcançando as cegas pelos dois homens parados lá. Socando, chutando, mordendo, arranhando, eu os ataco com tudo que me restou, retirando minha força do som do medo de Leisel.

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Capítulo Onze Leisel

Eu não consigo parar de gritar. O cheiro é horrível, repugnante, o bastante para fazer meus olhos marejarem e meu estômago revirar. Só que não tenho tempo para soltar o conteúdo do meu estômago. Não trancada nesta pequena sala, iluminada por uma solitária vela no chão, acorrentado a um altar de pedra, minha única companhia, um infectado. Nunca estive tão perto de um infectado antes, apenas Thomas e Shawn quando eles eram recém-transformados. Shawn rapidamente finalizou a vida de Thomas e quando Shawn acordou como um infectado foi Evelyn quem tomou a dele. Apesar de ter visto outros infectados através dos anos, foi sempre à distância. Mesmo nosso encontro mais recente, não estive tão perto deles, não como Evelyn e Alex estiveram. Constantemente era protegida por alguma coisa, por alguém. Não mais. Minha cabeça ainda palpitava do golpe que eu sofri e os grilhões ao redor de meus pulsos estão cortando a minha pele, irritando e rasgando. Mas continuou puxando eles, minha adrenalina obscurecendo minha dor conforme corria em círculos ao redor deste altar de pedra ensanguentado. Eu tinha somente eu mesma para me proteger agora. Ninguém viria me salvar e não há tempo para falhar, surtar ou desistir. Não a menos que eu quisesse uma morte horrível e muito dolorosa. O infectado estava desesperado para tirar um pedaço de mim. Arrastava-se tediosamente atrás de mim, seus braços esticados, sua

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boca escancarada, expondo os dentes podres e afilados. Ainda pior, este não era um recém-transformado. Mesmo com as sombras piscando, poderia dizer que este parecia ser um infectado da primeira ou da segunda onda. O que uma vez foi pele, lisa e carnuda e corada de vida, era agora afundada e enrugada pela idade e podridão, dando à coisa uma aparência amarronzada e de couro. Completamente sem cabelos, seus olhos esbranquiçados estavam encovados para dentro e a pequena massa muscular que sobrava não era o suficiente para impedir que os ossos do infectado saíssem de sua pele. Apesar de ele estar desprovido de qualquer pelo corporal, não podia nem mesmo começar a determinar de que sexo ele era. Infectados da primeira onda eram raros de se ver, a maioria deles foram mortos ou não eram mais capazes de sair por aí tão facilmente como nos primeiros dias depois que anos de decomposição tomaram conta de seus corpos. Entretanto, este em particular foi bem tratado. Sem exposição aos elementos que apressam o processo de decomposição e nenhum ataque humano o deixou sem membros ou buracos de bala. Claro, cheirava ruim, como carne que foi deixada no congelador muito tempo depois de a energia ter sido cortada, mas, ao mesmo tempo, parecia ter sido rotineiramente limpo, vestido…. E alimentado. Este infectado, difícil acreditar em algo assim com o meu cérebro medroso. Era amado. E eu fui tão amavelmente dado a ele para o jantar. Mas eu não seria uma refeição fácil. Se o medo tinha me paralisado no passado, nesta pequena sala ele se tornou minha motivação. Com o altar de pedra sendo a única coisa que impedia a criatura de me pegar facilmente, corro para a esquerda, depois para a direita, depois para a esquerda de novo, ou às vezes em um círculo completo, enquanto ele continua lentamente, mas com firmeza, a vir em minha direção. Era uma criatura incansável, não se importa com a energia que despendia, enquanto eu era o oposto. Estava com frio, exausta, meu corpo ainda não estava recuperado da última surra de Lawrence. Eu não tinha a força física de Alex ou a aparentemente incansável resistência de Evelyn e apesar de não estar fora de forma, eu

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certamente não estou na melhor das condições. Eventualmente iria me cansar ou cometer um erro e então me tornaria comida para a morte. Por fim a pior coisa possível aconteceu – eu escorrego. Não sabia como ou porque isso aconteceu, não que isso importasse já que eu estava achatada de bunda no chão, meus braços puxados para cima da minha cabeça, meus pulsos ainda acorrentados ao altar. Quando os confusos gemidos ficaram mais próximos, agarro minhas correntes, chutando o chão, tentando me colocar de volta em pé, mas não estava sendo veloz o bastante. O infectado me alcança e com seus braços de ossos estendidos, cai sobre mim. Eu grito, posso sentir a vibração nos meus pulmões e em minha garganta, ainda que não pudesse ouvir coisa nenhuma. Meu coração está palpitando, minhas mãos geladas e suadas escorregavam pela corrente conforme eu continuava a tentar me colocar de pé, meus dedos deslizando em cada tentativa. Instintivamente, balanço minha perna direita para cima e para frente, acertando o infectado em sua boca e o fazendo cambalear para trás. Ele bate na parede e a força dessa batida o empurrou para frente, me dando somente uma fração de segundos para me levantar. Tento ficar em pé, mas as correntes enroscaram e apertaram quando cai e agora correr em círculos ao redor do altar não era mais uma opção. O infectado vem para mim de novo, firme e seguro e mais uma vez balanço minha perna, dessa vez o pegando no joelho. Com um audível estalo, o membro dobrou e o infectado cai. Mas ainda assim, ele continua vindo, despreocupado. Frenética, tento soltar as correntes, gritando enquanto empurro e puxo, sem me importar se estava com uma ferida que sangrava, sem me importar se eu estava agora, provavelmente, com pele faltando em meus pulsos. Não tinha vivido até aqui – sobrevivendo à perda, a dor e a brutalidade deste novo mundo – apenas para terminar trancada em uma sala, acorrentada a um altar como um cordeiro a ser sacrificado e dada a um infectado como um presente. Levo muito tempo tentando me soltar, não me dando tempo razoável ou espaço para dar outro bom chute, antes do infectado voltar

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em minha direção. Grito quando ele me alcança, enfiando meu cotovelo em seu peito, mas sem força suficiente. O golpe não fez muito, só alertou o infectado da refeição pronta que enfiei na sua cara. Quando seus dentes podres pegam meu braço, grito de novo, dessa vez com lágrimas em meus olhos. “Não!” choro alto, lutando com mais força. “Não!” Minha jaqueta rasga sob o ataque dos dentes e fecho meus olhos bem apertados, sabendo que a minha camiseta e pele seriam as próximas. Eu estou muito enroscada agora, sem condições para qualquer manobra evasiva. O cheiro doentio e doce de putrefação e decadência estava por todo o meu redor, o monstro ofegante em cima de mim, me segurando com suas mãos geladas. Está acabado. Este será meu horrível e amargo fim. Na primeira passada de dentes em minha pele, meu coração dá um pulo. Uma reação visceral rompe em cadeia e agito meu braço para cima e mesmo com o pouco espaço que eu tinha, meu cotovelo desvia de sua boca, acertando sua mandíbula. A força do golpe não é o bastante para fazê-lo cair para trás, ou distraí-lo, mas me dá espaço suficiente para recuar e levantar minha perna e enfiar meu pé direto no mesmo joelho que já tinha quebrado. Dessa vez seus ossos frágeis despedaçam e o infectado cai no chão, sua cabeça bate no chão de concreto. Não desperdiço nenhum segundo a mais. Ergo meu pé e enfio na cara da criatura. Com a força da minha pisada e a quantidade de decomposição que o infectado já sofria, meu pé afunda facilmente em sua pele, seu rosto cede com facilidade sob meu peso. A pele rasga e os ossos quebraram debaixo do meu sapato, mas continuo pressionando, apertando meu sapato, gritando e chorando até que sinto e ouço um sonoro estouro. Como um balão de ar rasgado, a cabeça do infectado esvazia, um lodo derramou de dentro dela. O infectado está agora parado, sem se mexer e o que sobrou da sua cara estava atolado na sola dos meus tênis. Ainda gritando, começo a chutar, tentando, mas não conseguindo desviar dele. Com a minha recusa em tocar naquela coisa,

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eventualmente tinha pouca opção a não ser me afundar no chão ao lado dela. Não que isso importasse muito. A infecção iria em breve enraizar em mim e a febre iria se espalhar rapidamente, me dando um dia, talvez dois antes que eu sucumbisse, para depois acordar como um deles. Quando meu traseiro encosta-se ao chão de concreto, o resto da minha fugaz energia já me abandonou completamente, os gritos se tornam lamurias, minhas lágrimas, uma quieta asfixia que resultou em bile explodindo pela minha garganta e descendo por meu queixo. Sinto lá, tossindo as minhas emoções, o medo serpenteia pelo meu corpo tão selvagemente que mal consigo pensar direito e então minha bexiga involuntariamente se libera, quente e molhado, cobrindo meus jeans. E é assim que Alex me encontra. Coberta com o meu próprio vomito, em uma piscina da minha própria urina e com meu pé ainda enfiado no crânio de um infectado. Tão consumida em minhas próprias circunstâncias, não ouço a porta abrir, não vejo Alex até que ele para na minha frente. Olho para cima, me sentindo descrente até que percebo um braço na sua mão. Conectado ao braço estava o corpo inteiro de um homem que não reconheço. Um homem que, considerando o que parecia ser um osso humano saltando da órbita de seu olho, estava obviamente morto. Alex dá uma olhada em mim, em minha expressão, então deixa cair o corpo que trazia e corre para o meu lado. Tardiamente, noto o grande molho de chaves em sua mão, cortesia do homem morto, presumo. “Ev-Ev-Evelyn”, tento cuspir entre soluços. Arrancando minhas correntes, Alex balança sua cabeça. “Ainda não a encontrei. Só encontrei você porque estava gritando”. “Mor-mordida”. Soluço, tentando mexer meu braço direito para mostrar a ele. Há uma pausa momentânea à medida que os olhos de Alex se arregalam alarmados e logo rasga os trapos restantes da minha manga

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e freneticamente inspeciona minha pele. Caindo de joelhos, não se incomodando com onde estava se ajoelhando, ele se vira de volta para mim e sorri. “Sem mordida”, sussurra. Sem mordida. Aquelas duas palavras foram como combustível para o meu fogo declinante. Minha energia minguante explode, minhas preocupações comigo mesmo foram embora, substituídas por nada mais que apreensão por Evelyn. Depois de desviar meu pé do crânio do infectado e me ajudar a levantar, Alex mantém um braço ao redor de minha cintura, me segurando enquanto me desacorrenta do altar. São várias tentativas, mas ele finalmente encontra a chave certa e remove os grilhões. Estremeço a vista dos meus pulsos mutilados e ensanguentados, mas depois rapidamente me esqueço deles. “Evelyn”, sussurro freneticamente. “Precisamos encontrá-la”. Alex, suas costas para mim agora, se inclina próximo ao corpo que tinha arrastado para a sala. Grosseiramente vasculhando pelas roupas do homem, ele foi colocando no bolso qualquer coisa que encontrava. Tirando dos seus pés, me estende uma faca e prontamente a pego, agradecida por aquilo. O cabo quente na minha mão fria, firme e segura em oposição a minha instável determinação. Poderia fazer isso se tivesse que fazer. Não era como se eu nunca tivesse usado uma faca em alguém, mesmo que aquela pessoa estivesse dormindo. Minha apreensão vinha do medo de retaliação. Eu não sou uma lutadora, com muita força física. Se um homem muito grande viesse pra cima de mim... Rangendo os dentes, calo aquela linha de pensamento. Eu farei o que tiver de fazer. Posso ser forte e lutar, se precisasse ser. Eu serei como Evelyn. “Fique atrás de mim”, Alex diz, sua voz era um sussurro abafado. “Se alguma coisa acontecer comigo, você corre. Entendeu? Apenas

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corra”. Limito-me a balançar a cabeça para cima e para baixo, meu alívio ao descobrir que não fui mordida dura pouco. Ainda temos que cair fora dali... Onde quer que estivéssemos. A última coisa que me lembro era de ser arrancada para longe de Evelyn e depois acordar ali, algemada e sozinha, somente com um infectado enfiado no mesmo cômodo que eu. “O que é esse lugar?” pergunto enquanto nos arrastamos silenciosamente em direção a porta. “Onde nós estamos?” Com uma mão na maçaneta, a outra segurando a arma, Alex virou sua cabeça só o suficientemente para olhar para mim. Na cintilante luz que dava as suas já sombrias feições um olhar ameaçador, ele engole em seco audivelmente. “Inferno”, responde sombriamente. “Apenas outra versão do inferno”. Sua expressão e suas palavras são uma janela para sua alma e pela primeira vez desde que conheci Alex, ele parece honestamente assustado. Instintivamente, me aproximo, colocando minha palma em suas costas e segurando o material de sua camiseta. Esse foi um gesto reconfortante, para ambos, eu e ele. Seus olhos fecham, só por um segundo, mas naquele momento vi suas feições relaxarem. As preocupações diminuíram e quando ele os abriu, era o Alex que eu conhecia, novamente. Duro. Determinado. E pronto para abrir seu caminho pelo inferno. Outra vez.

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Capítulo Doze Evelyn

“Você vai se arrepender disso, amiga”. De alguma maneira recuo até um canto, o homem corpulento bloqueando qualquer chance de escapar que eu pudesse ter. Ao menos ele não está mais sorrindo. Na verdade, parecia furioso, tanto que sua papada estava tremendo de raiva. Olhando para trás dele, na direção onde seu companheiro permanece sem se mexer e esperançosamente, sem respirar, ele vira para mim, seu lábio superior se ergue em um grosseiro rosnado. “O Senhor não vai ficar satisfeito”. Agachando, recuo ainda mais, minhas costas agora pressionadas contra a fria e úmida parede. Tive sorte com o mais jovem. Os gritos de Leisel me estimularam e golpeei grosseiramente, agarrando e arrancando os cabelos dele, minhas unhas cavando em seus olhos, mas foi a sua própria arma que me salvou – um cassetete de cabo longo que estava preso no cinto dele. Tomando conta disso, eu o agitei o mais forte que consegui, sentindo o estalo contra o crânio do homem, a força do impacto irradiando do bastão para o meu braço. Então sai correndo pelo corredor, na direção errada, entretanto, apenas para descobrir que eu estava encaixotada lá dentro. Agora o outro homem avança em mim, com uma espingarda em suas mãos e sei que não há jeito de escapar disto. Você não leva uma barra de metal para uma briga de tiros e espera sair dessa vivo. Lágrimas, inesperadas e indesejadas, se formam por trás dos meus olhos, me apavorando enquanto uma a uma delas desliza pelo meu rosto. Tento silenciar minhas emoções dando uma profunda

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inspiração, mas acabo gemendo ao invés disso. Fico repentinamente furiosa, odiando a mim mesma por permitir que esse homem, este lunático, visse minha fraqueza. Odiando que fosse esse estranho o primeiro a ver minhas lágrimas após tantos anos as contendo. Não Shawn, nem Jami, nem Leisel, mas este homem vil, odioso e assassino que usava Deus como uma desculpa para machucar os outros. E foi onde eu descobri isso, minha força. Na compreensão de que era melhor que este homem, que estas pessoas. Que mesmo se eu fosse morrer aqui hoje, morreria sabendo que fui uma sobrevivente, uma verdadeira lutadora, que não se refugiou na violência, que não perdeu a mente só porque o mundo que conhecia acabou. Rangendo os dentes, levanto e fico totalmente erguida, pronta para encarar meu destino de frente. Estava tão concentrada em minha morte que rapidamente se aproximava que quase grito quando Alex repentinamente aparece lá, surgindo por trás do homem com sua própria arma apontada. Alex pula no ar e quando ele cai, bate a parte traseira de sua arma na nuca do homem. “Pare!” Leisel grita, aparecendo por detrás. “Alex! Pare!” Ela estava viva. Ela estava viva e Alex está vivo e ainda mais incrível, eu estou viva. Meu olhar oscila entre Leisel e Alex e o corpo ensanguentado no chão e então de volta a Leisel. Ela está viva. Grunhindo, Alex arrasta o corpo, usando a manga do seu casaco para limpar o sangue que espirrou em seu rosto. Depois enfiou sua pistola em seu cinto e se abaixa para pegar a espingarda do homem. “Temos que ir”, Leisel sussurra. Sabia que precisávamos ir, mas eu não conseguia parar de encará-la e mover meu pé. Eu me convenci de que ela estava morta, aquele medo se alojou quando não consegui mais ouvir seus gritos. Apesar disso ela estava aqui e ainda assim não acreditei muito que ela era real, que ela ainda está viva. “Lei”, verifico, a alcançando, meu queixo tremendo. “Está viva”. Seu rosto enruga ao som das minhas palavras quebradas e então

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ela corre para frente, quase tropeçando no corpo esmagado aos seus pés conforme cai em meus braços que a aguardam. Envolver os braços ao redor dela, sentir seu calor e seu tremor, sentir a umidade de suas lágrimas no meu rosto, só serve para reforçar o fato de que está verdadeiramente viva e eu não sonhei ou imaginei que ela está lá. Solto um suspiro de alívio e me jogo contra ela. “Nós temos que ir”, Alex murmura. “Agora”. Ele se move, se dirigindo para o corredor e Leisel e eu nos apressamos para acompanhá-lo. Seguimos bem atrás dele, eu ainda segurando o cassetete com uma mão e a mão de Leisel com a outra. “Este lugar é grande”, sussurro quando nos deparamos com um terceiro jogo de escadas. “É assustador como o inferno”. Onde quer que a gente estava agora, posso ouvir a cantoria, o mesmo hino sendo cantado pelas mesmas vozes felizes, o som disso tudo era mais relaxante agora que eu sabia o que estava acontecendo aqui. Em nome de Deus, não mais. “Está pronta para isso?” Alex pergunta quando alcançamos uma grande porta de madeira, a cantoria vindo de trás dela. Assentindo, mostro a ele minha arma e ele me recompensa com o que poderia ter sido um sorriso. Com Alex, cujos sorrisos e caretas pareciam idênticos, as possibilidades eram infinitas. Apertando com mais força a mão de Leisel, dou a ela um duro, mas ainda gentil olhar, tento passar minha força e tranquilidade. Ela parece petrificada, mas, ainda assim, determinada e foi então que notei uma pequena faca apertada em seu punho. Saber que ela tinha algum jeito de se defender caso fossemos separadas era um pensamento reconfortante. Levanto meu bastão, olho para Alex e assinto. “Pronta”, sussurro. Quando ele pega na maçaneta, tive um momento de pânico ao pensar que poderia estar trancada, que teríamos de fazer nosso caminho de volta as masmorras da igreja. Se fosse esse o caso, perderíamos o elemento surpresa, não teríamos mais a mão mais alta

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do jogo. Mas meu medo era sem fundamento. Quando o barulho da fechadura soou e o cômodo onde estávamos foi preenchido de luz, nós três nos movemos para dentro da nave da igreja. O lugar é exatamente o mesmo por onde fui arrastada. Ainda há pessoas alinhadas nos bancos, o coral situado no palco e o ministro, Sr. Peter – apesar de seus lábios inchados – ainda estava sorria, cantando com o coração para fora com seus braços erguidos na direção do céu em sinal de adoração. “CALEM A PORRA DAS BOCAS!” Alex esbraveja, surpreendendo a todos na sala, incluindo Leisel e eu. O canto abruptamente termina. Uma batida de coração de silêncio se seguiu antes que um coro de arfadas e murmúrios finalmente rasgue pelos bancos enquanto os paroquianos nos assistem deslizar lentamente para a vista deles. Somente Sr. Michael foi corajoso para levantar, apesar de suas mãos tremerem, revelando seu medo e fazendo sua arma estremecer em sua mão. Alex sorri para o homem armado, uma ameaçadora mostra de dentes. “Coloca isso no chão, ou seu homem aqui” - ele aponta com sua arma na direção de Sr. Peter - “vai comer bala”. Com um rápido aceno, Sr. Peter sinaliza para Sr. Michael fazer como Alex pediu. Sr. Michael faz, suavemente colocando a arma aos seus pés antes de se sentar novamente. Sr. Peter, não mais sorrindo, seus olhos esbugalhados ao mesmo tempo em que olhava para nós três, abre sua boca para falar. “Não diga nada, imbecil”, Alex rosna, cortando seja lá o que homem estava para dizer. “Pega seu pessoal e vai para lá”. Ele aponta para o corredor próximo a nave, diretamente oposto a onde estávamos. A igreja fica em silêncio, o coral e os paroquianos todos olhando para Sr. Peter com um olhar questionador. Cordeiros, assim que eles pareciam para mim. Incapazes de pensar por si próprios, comer, dormir ou respirar sem algum tipo de direcionamento. “Fique ai”, Alex murmura antes de andar para frente. Com sua

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espingarda erguida, o cano apontado para o centro do peito do Sr. Peter, Alex se aproxima dele lentamente. “Você mataria um homem de Deus?” Sr. Peter pergunta em chocada descrença enquanto olha para a arma na mão de Alex. “Mataria o povo inocente de uma igreja por simplesmente espalhar a palavra do Senhor?” Alcançando-o, Alex pressiona o cano da arma contra o peito dele. “Diga a eles para sair”, rosna. “Ou vou matar você”. Os dois homens se encaram, os olhos de Alex cheios de determinação e os do Sr. Peter cheios de ódio. Ódio puro e absoluto por trás da fachada de bondade. “Façam o que ele diz”, Sr. Peter diz, levantando o queixo obstinadamente. “Levantem e vão para o lado e deixem esses pecadores passar. O Diabo tem uma estrada diferente para eles”. Outros murmúrios rasgam através dos bancos conforme as pessoas olham uma para as outras, algumas parecendo assustadas, outras parecendo raivosas, até eventualmente todos se levantarem e marcharem devagar pelo cômodo. “Mãos erguidas!” Alex berra, olhando para a multidão reunida. “Todos vocês”. Novamente, Sr. Peter assente, sinalizando para fazerem como Alex mandou. Assim que seus braços foram erguidos e Alex viu que suas mãos estavam desprovidas de armas, ele se voltou ao Sr. Peter. Pegando no pescoço dele, Alex o envia para frente. Pressionando sua arma nas costas do homem, ele mantém seu aperto no pescoço dele e o obriga a continuar andando. Apertando a mão de Leisel, a puxo para o centro do corredor e a sigo bem de perto. Alex só para para se abaixar e pegar a arma caída do Sr. Michael. Continuamos descendo pelo corredor rapidamente enquanto eu vigio a multidão pela direita, observando qualquer sinal de movimento, pronta para correr se alguém puxasse uma arma. “Está nos deixando desarmados, você sabe”, Sr. Peter fala, sua voz curiosamente amigável. “Não temos nenhuma forma de nos

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proteger contra os ressuscitados”. Alex ri, um som frio e cruel. “Você tentou nos matar e acha que eu me importo com o que acontece com você?” Ele rosna outra risada raivosa e pressiona com mais força a arma nas costas do Sr. Peter. Quando alcançamos o lance duplo de escadas na porta de entrada, Alex olha para mim e me precipito à frente, buscando as maçanetas e as encontrando trancadas. “Cadê as chaves?” Alex rugi, chacoalhando Sr. Peter. “Estão aqui!” uma voz chama e um homem mais velho dá um passo a frente da multidão. Grisalho e enrugado, usa um par de suspensórios esfarrapados e um chapéu de golfe. Ele me lembrou um tipo avô, um tipo tio, ou um vizinho idoso, alguém que parecia inofensivo, gentil e afetuoso. Segurando um molho de chaves para vermos, ele os balança. “Eu tenho as chaves”. Alex gesticula ao homem para se juntar a nós e quando ele vem, ainda segurando firme o pescoço do Sr. Peter, Alex usa sua arma para empurrar o homem idoso na direção da porta. “Abra”, ordena. O homem idoso consente, suas mãos tremendo pela idade e medo enquanto tentava localizar a chave certa. Foram diversas tentativas, cada tentativa falha fazia o homem olhar para Alex com olhos esbugalhados cheios de medo, até que finalmente as portas destrancaram. As abrindo, o homem hesitantemente espreitou sua cabeça para fora, olhando para a esquerda e para a direita antes de dar um passo para trás. “O caminho está limpo”, ele diz, engolindo com força. “Embora sua consciência não estará se você machucar o Sr. Peter”. Alex bufa. “Devia matar ele”. O homem idoso engole em seco de novo e balança a cabeça. “Não, amigo, devia ficar agradecido pelo que tínhamos planejado – pelo que o Senhor planejou para você”. “O que tem de errado com todos vocês?” choramingo, olhando do

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homem idoso para o Sr. Peter e para a multidão ainda reunida. Quando ninguém se incomoda em me responder, balanço minha cabeça, me sentindo ao mesmo tempo doente e triste. “Alex”, eu digo. “Vamos. Agora”. “Sim, vão”, Sr. Peter rosna. “Dêem o fora da minha igreja e leve com vocês o demônio que trouxeram para o meu lar. Voltem para a vila de dejetos que o mundo se tornou, cheio de pecadores e putas”, ele fala diretamente, olhando para mim e Leisel com seu rosto contorcido de desgosto, seus olhos queimando de loucura. Eu estou tremendo, não por medo, mas por uma explosão incontrolável de raiva e quando Alex envia Sr. Peter na frente, mal dando falta do homem idoso, reparo que liberei a mão de Leisel, erguendo minha arma e puxando o gatilho. Meu objetivo era selvagem e a primeira bala raspou o ombro do Sr. Peter, fazendo ele se dobrar para trás e chorar de dor. Outra vez, puxei o gatilho, desta vez acertando bem no peito, perfurando o órgão mais vital. Arfadas e gritos explodiram da multidão reunida conforme o homem caia de joelhos, suas mãos tampando as manchas vermelhas que aumentavam na camiseta do Sr. Peter. “O que você fez?” ele grita, sua voz estridente e áspera. “Condenou a todos nós. Você nos condenou!” Alex, mirando sua arma no homem idoso, enche a boca de saliva e a envia diretamente para a ponta de seu sapato preto e brilhante. “Condenaram a si mesmos”. Eu estou tremendo, minha arma ainda mirando no homem que matei, querendo matá-lo de novo, querendo matar cada uma das pessoas dentro desta igreja. Apesar de eles merecerem coisa pior do que uma morte rápida, mereciam a mesma morte que quase infringiram a nós e sabe se lá quantas outras pessoas inocentes antes. “O sangue atrai os ressuscitados”, o homem idoso geme, suas palavras mal se distinguiam entre os gemidos de sofrimento. “Nós vamos precisar de uma oferenda!” ele chora, olhando para as pessoas. Para o meu horror, muitos dos paroquianos dão passos à frente. Suas cabeças estavam inclinadas enquanto silenciosamente se

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ofereciam a solicitação do idoso. “Temos que ir”, Leisel choraminga à medida que agarra meu braço e tenta me puxar pela porta. “Agora, Eve, agora!” Nós três corremos pela porta para a rua vazia e escura. Apesar de não parar de correr por tempo o suficiente para dar uma boa olhada no lugar, pelos relances que apurei pude ver que ali era um tipo calmo de vizinhança. Aquilo tinha sido provavelmente cheio de famílias, com crianças rindo e brincando, vizinhos emprestando açúcar, o tipo de lugar onde o coral de Natal era um evento anual esperado por todos. Nós passamos casa por casa, as janelas escuras, sem sinal de pessoas ou infectados, mas continuamos correndo, sem querer parar até estarmos o mais distante possível deste lugar. Eventualmente, os espaços entre as casas foram ficando maiores. A estrada era mais ampla aqui, as árvores mais largas e fortes, seus galhos pesados bloqueavam a luz do luar. Desacelero primeiro, meus passos vacilantes, meu peito queima pela falta de ar. O corpo de Leisel tromba com força ao meu lado e ela sorri para mim, parecendo contente pela parada. “Alex”, chamo, minha voz sufocada, minha garganta seca e sensível pelo esforço. Ainda correndo a nossa frente, ele vira, parando quando viu que éramos incapazes de acompanhá-lo. Assentindo, ele retorna ao nosso redor, tomando lugar ao lado direito de Leisel. “Não podemos parar ainda”, ele murmura com rouquidão. Suor brilhava em sua testa conforme ele olha para Leisel. “Você está bem?” Leisel ergueu sua cabeça, seus olhos reluziram ao encontrar os de Alex. “Estou bem”, ela responde, ofegante. Ela não parece bem, nem mesmo um pouco bem, ainda assim o fato de que estava tentando ser forte dada a nossa atual situação me fez dar um quase sorriso. Quase. Viajamos sem falar pelo que pareceu ser quilômetros, o som de

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nossas pegadas acompanhadas pelo som dos grilos e a brisa sussurrando no topo das árvores. Meus pés estavam machucados, doendo com um cansaço que não sentiam há muito tempo. Era o tipo de dor que me lembrava do mundo antes da infecção tomar conta. Estranhamente, isso parecia bom. Bem, apenas por que isso me relembrava que estava finalmente livre.

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Capítulo Treze Leisel

Caminhamos por toda a noite e começo da manhã, sem parar para nada a não ser pausas para ir ao banheiro. Caminhando até meus pés ficarem dormentes e minhas pernas e braços doerem pela fadiga e tensão. E então finalmente, quando eu já não estava segura de que conseguiria ir além, quando já tinha começado a tremer de exaustão, tonta de fome, Alex enfim parou de andar. Ele parou tão abruptamente que quase trombei em suas costas. “Que foi?” pergunto, olhando ao redor. Não vi nada, somente o coração da floresta por onde viajamos por quilômetros até aqui. Nada, só árvores, uma verdadeira roda de folhas e a sujeira debaixo dos meus pés. “Podemos dormir aqui”, ele diz, gesticulando com sua arma. Meus olhos seguem o tambor da arma até uma árvore próxima. “Oh”, exclamo, suspirando de felicidade. A pequena plataforma de caça parecia bem frágil, obviamente sem uso há algum tempo e envelhecida pelos elementos do tempo. A escada de corda pendurada estava esfarrapada e bem desgastada, mas eu não podia me importar menos. Estou morta de cansaço e desmaiaria bem ali no chão se isso fosse seguro de se fazer. Os últimos dias passados finalmente me atingem. O esforço, o trauma, o sofrimento e tudo que vinha junto com isso. Meu corpo completamente exausto, mal havia sobrado uma gota de energia em mim e ela está em minha mente. Mas não é seguro aqui embaixo e não

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temos o luxo de dormir em turnos. Nem Evelyn nem Alex dormiram desde que deixamos Fredericksville e aquela pequena soneca que dei na estrada não chegou nem perto de ser o bastante. Este era o lugar perfeito para passar algumas horinhas de olhos fechados sem ter de se preocupar com algum infectado errante caindo sobre nós. “Vou subir primeiro”, Evelyn oferece calmamente. Olho para a minha amiga, busco em seu rosto sujo e manchado de sangue por uma razão para o seu recente silêncio. Não é dela ser tão quieta e ainda assim nas últimas horas mal tinha dito mais que algumas palavras. “Hey”, eu digo, a alcançando. Entrelaçando meus dedos nos dela, a puxo há alguns passos de distância de Alex, numa tentativa de privacidade. “Alguma coisa aconteceu?” sussurro, intencionalmente tirando um cacho de cabelo de seus olhos na intenção de ganhar sua atenção. Ela ergue sua cabeça e finalmente olha diretamente para mim, suas feições bonitas e tristes contorcidas de dor, seus grandes olhos azuis cheios de tristeza. Vendo isso, tão abertamente machucada e vulnerável é tão inesperado, tão diferente de Evelyn, que tive de me conter para não dar um passo apavorado para trás. Ela parece tão destruída, ainda mais que antes. “Eve”, eu digo, minha voz quebrada. “O que eles fizeram com você?” Não tinha me ocorrido até agora que alguma coisa a mais, além de ser dada em sacrifício para um infectado, poderia ter acontecido com Evelyn. “Além de ter de aguentar uma missa armada e uma cantoria horrível?” ela brinca, tentando um sorriso. Mas assim como suas palavras, sua forçada expressão feliz parece vazia. Seu sorriso falso se afasta e ela suspira, dando uma sacudida na minha mão. “Pensei que você estava morta, Lei”, admite com uma voz pequenina. “E não havia nada que eu pudesse fazer. E tudo isto...” ela

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se encolhe e afasta o olhar, seus olhos averiguando a floresta. “Isto tudo seria em vão”. Sinto uma sensação de aperto em meu peito, não diferente de dor, mas, ao mesmo tempo, o sentimento ia mais fundo que qualquer dor física conseguiria. “Não sou sua responsabilidade”, lhe digo gentilmente, as emoções aumentam e fazem meus olhos se encherem. “E você não é a minha. Estamos nessa juntas, Eve, porque sem você, tudo isso ainda seria por nada”. “Parece forte o bastante”, Alex grita, atraindo nossa atenção para a árvore. Em pé na plataforma, Alex espia para baixo em nós duas e empurra com um chute a escada de corda. “Bem-vindas ao Hotel de la Zombie”. Fico de olhos arregalados pela surpresa. Alex fez uma piada? Emocionalmente esgotada, meio delirante pelo cansaço e a exaustão física, não consigo abafar a risadinha que desliza de meus lábios. “Ooh”, Evelyn ri, me cutucando com o ombro. “O Sr. durão, silencioso e sexy faz piadas”. Meus olhos arregalam na direção dela, o sorriso morrendo em minha boca aberta. “Sexy?” sussurro, franzindo a testa. “Acha que Alex é sexy?” Ela levanta um ombro, depois abaixa, um meio encolher de ombros. “Claro, se você gostar de caras bonitos que estão constantemente desconfiados e mal-humorados”. Encarei-a, me perguntando como conseguia ir de estar a ponto de chorar para fazer piadas tão rápido. Ela segura a ponta da escada de madeira e eu a assisto habilmente subir, levando apenas alguns minutos para chegar até o topo. “Chocolates no travesseiro, Lei”, ela diz cantarolando. “Muito chique”. Piscando e sentindo uma vontade estranha de chorar, balanço minha cabeça e doi um passo à frente. A dor dispara dos meus pés

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para as minhas panturrilhas, me fazendo estremecer e eu me descubro me movendo mais rápido, apesar da dor. Afinal, quanto mais rápido subisse, mais rápido posso dormir e quanto mais rápido eu dormir, mais rápido me curaria. Quanto ao resto disso – o que fiz em Fredericksville, meu encontro próximo de me tornar o jantar de um infectado, a mudança de humor de Evelyn e os humanos mortos que estavam velozmente se empilhando aos nossos pés, por minhas próprias mãos ou por minha causa. Bem, lidaria com isso depois. Ou nunca. O que parecesse mais fácil.

*** Uma brisa fria varre sobre mim, me acordando e atiçando calafrios em minha pele. Junto com isso veio o delicioso aroma de carne cozida. Virando de costas, me alongo preguiçosamente, fazendo caretas de dor por causa de meus pulsos e minhas costelas. Minha cabeça também doía, uma palpitação monótona que só aumenta, me fazendo dormir além e totalmente inconsciente. Abrindo meus olhos, esperando ver uma floresta iluminada, pisco surpresa. O sol já havia quase sumido, somente lascas da luz enfraquecida permeando através do toldo de galhos e folhagem. Alex estava sentado do outro lado de onde Evelyn e eu descansávamos uma ao lado da outra, suas pernas cruzadas no pequeno espaço destinado a ele. Na frente dele estava o que parecia ser uma grande lata de café e dentro dela havia uma fogueira muito impressionante. “Esquilo”, ele diz, levantando uma pequena forma escura das chamas. Em uma vareta, a ponta afiada, estava espetado o pequeno corpo de um, magrelo e assado, esquilo. Meu estômago ronca de novo, desta vez mais alto, atraindo a atenção de Alex e prolongando um sorriso. Gemendo, me levanto, tentando ignorar os protestos do meu corpo. Estou ferida em todo lugar, mais do que antes. Tudo que

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aconteceu nos dias anteriores – a surra que levei de Lawrence, o stress, o golpe na minha nuca, a luta com o infectado, nossa longa trilha a pé até o meio de lugar nenhum – isso tudo tomou conta. Para piorar tudo, eu cheiro mal, o cheiro mais forte era de urina cobrindo minhas calças. Apesar de ter secado, a urina tinha desenvolvido um fedor ácido, assim como deixava o tecido endurecido. Trocando as pernas incontrolavelmente, dobrei minhas pernas sob mim e esperei que Alex não conseguisse sentir meu cheiro. “Como?” sussurro, para que não acordasse Evelyn. Ele dá de ombros. “Achei essa lata e um pouco de cerca de arame em outra plataforma. Fiz umas armadilhas e tive sorte”. “Uau”, penso alto, bem impressionada. Dê-me uma lata e um pouco de cerca de arame e teria possivelmente plantado uma muda. Capturar esquilos nunca teria me ocorrido. “Coma”, ele diz, me oferecendo o espeto de esquilo. “Tem mais de onde esse veio”. Apontou para uma pequena pilha de esquilos atrás dele. Contei mais três corpinhos, já sem pele e todos parecendo ter tido seus pescoços quebrados. “Obrigada”, falo, pegando a comida, meu peito quase explodindo de gratidão por aquele homem e toda a sua inesperada gentileza. “Obrigada por tudo”. Os olhos de Alex se erguem e ele audivelmente limpou sua garganta. “Tem um córrego aqui perto”, ele diz, parecendo desconfortável de repente. “Um lugar decente para se lavar de manhã”. Ele estava mudando de assunto, obviamente desconfortável com a minha gratidão. Não entendi isso, mas também não posso forçar. Ao invés disso, sopro a carne quente, simplesmente agradecida por ter uma, por minha melhor amiga estar viva, segura e dormindo ao meu lado e eternamente grata ao homem sentado do outro lado que tornou tudo isso possível. Comemos em silêncio, os únicos sons eram da nossa mastigação, o chamado dos pássaros para a vida escondida nas profundezas da

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floresta e o ressoar suave e pacífico de Evelyn. Então, quando meu estômago ficou cheio e a exaustão novamente decai sobre mim, deito ao lado de Evelyn nas duras e irregulares tábuas de madeira e fecho meus olhos. Só que dessa vez, antes que o sono me alcançasse, sinto um leve toque na ponta dos meus dedos. Estremecendo, abro meus olhos e percebo que Alex chegou mais perto de mim, sua mão mal me tocando. Seus olhos em mim, ele enrosca seus dedos nos meus, sua mão suja e calejada curvada ao redor da minha. Fiquei desconfortável por um momento, depois um suave suspiro escapa de meus lábios e apertei a mão dele de volta. Não estava certa do por que, talvez para demonstrar a gratidão que parecia não querer ouvir, talvez para dividir com ele um sentimento de conforto. Ambos os jeitos pareciam estranhamente certos e logo adormeci.

*** O córrego era há uma curta distância do nosso abrigo. Ainda que meu corpo doesse muito e sentisse que poderia dormir por semanas, sou capaz de enfrentar a rápida caminhada. A visão da água fresca, clara e limpa, é o suficiente para rejuvenescer as minhas feridas. Evelyn é a primeira a se despir e eu a sigo, mas diferente dela, mantenho minhas roupas de baixo. Como imaginava, no momento em que me livrei da minha blusa, ambos, Evelyn e Alex afastam seus olhos e a plataforma ficou repentinamente silenciosa. Sabia que suas reações eram por causa da história triste que meu corpo contava. Cicatrizes antigas e manchas recentes marcavam minha pele, minha barriga e costas, lembranças das surras que sofri nas mãos daquele bastardo. Meu corpo não era mais um conjunto bonito, algo a se orgulhar ou cobiçar, ao contrário, era um lembrete vivo do inferno em que vivi. Eu não o odiava, nem estava com vergonha, mas tampouco gostava de olhar para mim por

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muito tempo. Mas ao ver seus rostos, o encolher que ambos tentaram, porém falharam em esconder, fez uma onda de humilhação cair sobre mim. Não quero sua piedade; eu não quero a piedade de ninguém. Nós todos vivenciamos nossos próprios horrores e se eles aparecessem em nossas peles, todos teriam cicatrizes, não? As cicatrizes de Evelyn eram internas, enterradas bem no fundo. Ela nunca fala da sua dor, do passado, das pessoas que ela amou e perdeu, ela as oculta, se escondendo delas usando qualquer distração que pudesse, tirando força a partir de nossos pesadelos. E Alex, suas cicatrizes estão lá, apesar de recobertas por seu silêncio e coragem. Não conhecia sua história, a vida que ele viveu ou o que sofreu antes de viver atrás dos muros de Fredericksville. Mas qualquer que tenha sido, deixou uma marca. Em silêncio, sigo Evelyn até o córrego, o contraste total entre o dia quente e a água fria foi glorioso contra minha pele irritada e rachada. Afundo rapidamente, sentindo o lodo e as pedras por baixo de mim e fecho os olhos com um suspiro feliz. “Sabe o que seria incrível nesse momento?” Evelyn pergunta. Fecho um olho, piscando pela luz do sol e a encontro apoiada em uma pedra pequena, jogando mãos cheias de água sobre seu rosto. “Sabonete?” sugiro. “Roupas limpas? Starbucks4?” Há alguns metros de distância ouço Alex bufar, me fazendo soltar um sorriso. Evelyn também, tirando as mãos de sua cabeça, estava sorrindo para mim. “Sim”, ela concorda, rindo. “Sabonete, roupas limpas e Starbucks seriam incríveis. Mas estava pensando mais ao nível de uma refrescada, ir direto ao mais fresco. Dar uma boa zanzada e deitar pelada no sol”. Ela joga sua cabeça para trás, seu rosto apontado em direção ao céu e fecha seus olhos. Sentada na pedra totalmente à vontade, o sol 4

Rede internacional de cafeterias.

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derramando sobre ela, seu luxuriante cabelo cai em suas costas, sua pele nua e seu corpo bem torneado metade na água, metade fora, arqueia suas costas de uma forma que a faz parecer uma sereia, uma beleza etérea que não é desse mundo. Por razões desconhecidas a mim, eu me percebo olhando por cima do meu ombro para onde Alex está, ajoelhado na água rasa, esperando que ele estivesse olhando para ela também. O choque de sua nudez momentaneamente me surpreende e me pego olhando para cada centímetro perfeitamente lapidado de sua pele bronzeada. É um lindo homem jovem, seus cabelos negros na nuca contrastando com seu corpo dourado, seus olhos escuros…. Nossos olhos se encontram, os meus escancarados de choque e os dele de culpa. Ele não estava olhando para Evelyn; estava olhando para mim. E a intensidade do nosso olhar não foi só surpreendente, mas também asfixiante. Ele afasta os olhos rapidamente e eu também, apenas para descobrir Evelyn me observando. Ela olha para nós dois, arqueia a sobrancelha maliciosamente, um risinho em seus lábios. Eu a encaro, implorando com meus olhos para manter sua boca diabólica fechada e não piorar o que já tinha se tornado uma situação esquisita. Seu sorriso travesso se torna gentil e com uma piscada ela se vira. Aliviada, continuo a me lavar o melhor que consigo, tentando duramente ignorar o repentino elefante que entrou para o meu já complicado mundo. Porque ele olhou para mim daquele jeito? Se bem que, mentiria se dissesse que não estava de alguma forma satisfeita por descobrir que ele não estava olhando para Evelyn.

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Capítulo Catorze Evelyn

Diversos dias passam enquanto nos recuperamos. Dormimos, comemos e saramos, apesar de que algumas cicatrizes jamais iriam embora. Eu me sentia fraturada, como se goivas5 profundas estriparam meu coração, causando dores além das minhas feridas físicas. Era como se minha alma estivesse triste, quase esmagada com a gravidade de nossa situação. O que era isso? O que era tudo que teríamos de esperar a partir de agora? Encontrar pessoas loucas como as com quem lutamos para viver – sobreviver a cada dia? Nem por um minuto me arrependo da minha decisão de libertar Leisel de Fredericksville, mas eu esperava que houvesse mais a oferecer a ela no mundo exterior. Que talvez o homem tivesse sobrevivido e tínhamos meramente estado alheias as iniciativas que estavam sendo feitas para nos salvar da extinção. Mas estava errada. Nada de bom sobrou no mundo e eu não sei como lidar com isso. Não sei como melhorar as coisas. Aquele era meu trabalho, afinal de contas, quem eu era no coração. Uma pessoa satisfeita, alguém que consertava as coisas, as fazia funcionar de novo. Mas não podia melhorar isso, não sabia como acertar isso. E quanto mais me preocupo com isso, mais dor eu sinto, mais difícil se torna manter tudo trancado dentro de mim. As coisas começam a borbulhar na superfície, emoções e sentimentos que mantive preso por muito tempo, rachaduras começam

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Nome dado a uma série de instrumentos cortantes utilizados para o entalhe em madeira.

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a aparecer em minha fachada. Sem Jami aqui, não tinha uma saída para me livrar de toda essa energia nervosa latente bem abaixo da minha pele. Sem Jami, eu não sei como me livrar de meus próprios demônios, anulá-los, enterrá-los antes que começassem a aparecer. A verdade é, me sentia partindo em duas e uma vez que eu quebrasse, quem uniria meus pedaços novamente? Olho para Leisel, que está sentada no chão da mata, suas costas contra um tronco grosso de árvore, encarando à distância de novo. Isso é algo que ela sempre fez, mas estava fazendo muito mais ultimamente, sua mente viajando para outro lugar por horas. Assim que virava de volta para gente, era normalmente como um restart, como se tivesse se esquecido por um momento de onde estava. Ela estava assim há um tempo já, desde que Alex saiu para checar suas armadilhas e eu não consegui deixar de pensar que se não pudesse manter isso tudo inteiro, não iria ser Leisel quem me salvaria. Não com ela sendo tão emocionalmente instável. Meu olhar desceu para seus pulsos, notando que estavam curando bem depois de sua pele quase ser despedaçada. Felizmente, crostas estavam começando a formar, atenuando minhas preocupações de que ela poderia desenvolver uma infecção por causa dos ferimentos. Quando meu estômago começa a roncar, coloco a mão sobre ele e me afasto de Leisel, procurando na mata por algum sinal de Alex. Tínhamos tido sorte por enquanto, com uma fartura de esquilos e cobras como nossa fonte de alimento e até mesmo um arbusto com algumas frutinhas comestíveis para nos dar uma maior variedade em nossa dieta. Na verdade, nós fomos muito sortudos, provavelmente mais sortudos que a maioria. Mais sortudos do que Jami foi. Aquele pensamento fez meu estômago revirar dolorosamente e forço os pensamentos sobre ele a se afastarem intencionalmente. Voltando a focar em Leisel, a descubro olhando para mim, seus olhos muito abertos. “Eu fiz isso de novo?” diz, suas bochechas corando. Assentindo, sorrio para ela. Essa era a primeira vez que tinha conhecimento de que fez aquilo – desaparecido dentro de si mesma. Talvez isso fosse porque Alex não estava por perto e ela se sentia

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confortável para falar a respeito. “Como você está resistindo?” pergunto. Inclinando sua cabeça para um lado, levanta uma sobrancelha em dúvida. Dou de ombros. “Odeio dizer isto, Lei, mas você matou um homem esta semana e esse é um novo recorde para você”. Mantive minha voz leve de propósito para mostrar que não estava julgando-a. Sendo eu mesma uma assassina, não tinha moral para julgá-la ou a qualquer um, mas também por que pensava que o que ela fez – matar Lawrence – foi muito incrível e ela estava lidando com as consequências melhor do que eu esperaria que fizesse. “Ele não era um homem”, fala, tomando uma golfada de ar. “Era um monstro”. Assinto fervorosamente em concordância. “Não posso argumentar contra isso”. “Homens reais são pessoas como Thomas e Shawn”, ela continua. “E não tenho visto um homem desse jeito...” Suas palavras adormecem, seus olhos brilham, sua expressão fica triste com a memória de seu primeiro marido, nossos maridos, antes de tudo ser destruído. “Para onde você vai?” pergunto, numa tentativa de mudar de assunto. “Quando sai do ar?” pego um galho, começo a quebrá-lo em pequenos pedaços, jogando cada um deles para o lado. “Para o passado”, diz sem hesitação. “Eu volto ao passado”. Balanço minha cabeça, insegura do que dizer. Nunca pensei nisso – no passado. Uma vez por dia, fechava meus olhos e tentava visualizar o rosto de Shawn, apenas para não esquecê-lo, mas eu me recusava a pensar nos tempos felizes, de aniversários e churrascos, de Natais e férias. Pensar nos dias melhores só fazia a realidade muito mais difícil de viver. “O que?” ela pergunta, parecendo surpresa. “Você não? Nunca?” “Porque torturar a si mesma?” replico, ouvindo a irritação em

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minha voz e então me retraindo de arrependimento. “Por que”. Afastando seus olhos de mim, olha para o chão. “Não sei...” “Está bem”, digo apressadamente. “Não precisamos falar sobre isso”. Principalmente porque eu não quero falar sobre isso, não posso me obrigar a falar sobre isso. E não conseguia compreender qualquer razão do porque ela iria querer falar sobre isso também. Era dor demais para qualquer pessoa ter de pensar a respeito. Quanta dor uma pessoa poderia viver? Porém se deixar arrastar para o passado de propósito, sabendo muito bem que nunca vai ter aquela vida de volta? Não, eu não poderia. Isso me quebraria completamente, me deixaria insana. Eu não poderia pensar naqueles dias, naquelas vidas perdidas, por que não queria voltar àquelas memórias. Jamais. “Não, não, está bem”, ela diz. “Eu desejo. Na verdade, preciso”. Seu olhar voa ao meu e a encontro sorrindo, o sorriso distorcido contra as muitas manchas que ainda são visíveis em seu lindo rosto. “Se estiver ok?” Dou de ombros de forma evasiva, silenciosamente esperando que ela não me forçasse a voltar ao assunto. “Claro, se você estiver tranquila com isso”. O sorriso de Leisel fica mais aberto, seus olhos se iluminando. “Penso sobre isso o tempo todo. Coisas como o primeiro Natal que passamos juntos. Você e Shawn vieram, trouxeram aquele bolo de chocolate horrível – sua primeira tentativa de fazer bolos, lembra?” Ela começa a rir e isso é como um som estranho, um infeccioso. Apesar de mim mesma, apesar de agora vividamente relembrar a memória daquele Natal que foi forçado a entrar nos recessos da minha mente, me descubro rindo com ela. “Ele estava nojento”, falo, ainda rindo. “Por que pensou nisso?” “Porque isso me faz sorrir e porque foi naquele dia que soube que seriamos amigas para sempre”. Suas palavras foram ditas com tanta

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convicção que lágrimas nascem em meus olhos de repente. Mordo meu lábio inferior enquanto uma dor cega nasce dentro do meu peito, balanço minha cabeça. “Um bolo de chocolate de merda fez você pensar a mais estranha das coisas, Lei. Talvez só esteja excessivamente emocional – seu período6 deve estar chegando ou algo do tipo”. Tento rir, mas me lembro que Leisel não havia menstruado em quase dois anos, não desde que se recuperara de uma surra que quase a matou. “Merda”, murmuro quando minhas lágrimas se libertam em meus olhos. “Merda, sou uma idiota imbecil. Eu sinto muito”. Inabalável apesar do meu comentário sem tato, Leisel chega para mais perto de mim, tomando minha mão nas dela. “Lembra quando te disse o quanto odiava bolo de frutas, que tudo que eu sempre quis quando criança era um maldito bolo de chocolate no Natal, mas minha mãe continuava fazendo bolo de frutas? Lembra, Eve? A gente estava bebendo tequila no seu quintal e por alguma razão te contei a minha triste história de Natal e então seis meses depois você me fez aquele bolo de chocolate – embora um bolo de merda – e me deu de Natal”. Meu queixo treme, meu coração batendo em meu peito. “Não”, imploro, mais lágrimas se construindo em meus olhos e ameaçando se libertar. Lágrimas que recusei por muito tempo. Lágrimas que sempre fui capaz de resistir no passado. “Por favor, não faça isso, Lei”. Levantando nossas mãos entrelaçadas, Leisel dá um beijo nos meus dedos. “Quando me deu aquele bolo horroroso, soube o que eu significava para você, o quanto se importava comigo. Eu soube naquele dia que sempre poderia contar com você”. Leisel olha em meu rosto, seus olhos brilhando de amor. “E em troca, juro por mim mesma que sempre poderá contar comigo”. Engulo em seco e olho para longe, sufocando minhas lágrimas. Sua mão encontra o meu queixo, e ela levanta meu rosto junto ao dela. “Você me deixou tão feliz naquele dia, Eve e todos os dias desde então. Eu te amo e agradeço todos os dias por ter se casado com o melhor amigo do meu marido, que você se tornou minha melhor amiga. 6

Menstruação

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Você faz os dias valerem à pena. Você faz tudo valer à pena”. Meu primeiro soluço se liberta. Soou alto e trágico e fez minhas entranhas revirarem dolorosamente. Lágrimas grandes e salgadas rastejam em meu rosto conforme continuo a balançar minha cabeça, desejando que ela parasse. Mas não consigo encontrar minha voz, não posso dizer a ela para se calar por que minha garganta parece muito apertada e eu estou muito ocupada tentando encontrar ar, tentando desesperadamente respirar. Quando soluço de novo, mais alto dessa vez, Leisel tenta me puxar em seus braços. Eu resisto no começo, empurrando, mas ela se recusa me deixar, a afrouxar seu aperto em mim. Eventualmente minha barragem rompe, minhas barreiras quebram e percebo que seguro nela enquanto soluço, minha dor finalmente encontrando propósito no mundo. As memórias fluíram por dentro; não havia mais como se esconder delas. As lágrimas eram infinitas, um tsunami de emoções que ameaça me engolir inteira, me arrastando de novo e de novo a um abismo de dor do qual me escondi por anos. E por todo esse instante, Leisel me segura apertado, cantarolando doce e suavemente, me mantendo amarrada a ela e se recusando a permitir que minha dor me consumisse.

*** Devo ter adormecido, por que quando acordo meu rosto está seco de lágrimas, mas ainda nos braços de Leisel. “Eu ainda lembro como você estava quando Thomas nos apresentou”, digo, minha voz rouca e minha garganta irritada de tanto chorar. “Estava assustada”. “Você era intimidante, Eve!” ela fala com uma risada. Recompondo-me, enxugo o restante das lágrimas ainda grudadas

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em meus cílios. “Ouvi você conversando com Tom naquele dia, sabia?” Leisel levanta sua sobrancelha de confusão. “Na mesa”, explico. “Acho que uma garçonete tinha acabado de te levar um drinque. Você nunca foi muito de beber, então em sua defesa você estava provavelmente um pouco bêbada quando disse isso...” Leisel balança sua cabeça. “Disse o que?” “Que almejava não ter de passar muito tempo comigo. Que eu fui uma puta na escola e você esperava que eu fosse mais uma vagabunda de Shawn e que não duraríamos. Que ele poderia ter muitas melhores que eu”. Seus olhos escancaram, Leisel se estica em minha direção. “Eu sinto muito, Eve, não quis dizer aquilo!” “Sim, você quis”, eu falo e rio. “E estava certa. Shawn merecia coisa melhor que eu, por isso decidi ser a melhor para ele e provar que estava errada. Mostrar para você que eu não era uma fracassada total”. “Nem me lembro disso”, ela diz, parecendo culpada. “Eu te disse, você não pode beber. Mas isso não importa. Tudo o que eu queria que soubesse era que estava certa. Ouvir você dizer aquilo me fez querer ser melhor para ele e o que começou com eu tentando provar que você estava errada, se transformou em eu me apaixonando por Shawn. Você não sabia disso, mas me salvou. Estava pegando um caminho que eventualmente não teria volta. Você me salvou daquilo, você e Shawn”. “Mas vocês só tiveram dois anos juntos”, Leisel enruga o rosto. “Vocês dois mereciam mais”. “Dois anos com um homem que amei”, digo, dando um cutucão nela. “E você me deu isso. Ninguém poderia saber o que estava para acontecer, Lei. E ter dois anos com um homem como Shawn valeu a pena. É melhor ter amado e perdido do que nunca ter amado, certo?” Viro-me para ela, lanço meus braços ao redor do seu pescoço e a aperto comigo. “Obrigada por ter me dado aqueles dois anos com ele”. Nós duas estávamos chorando agora e nos abraçando, mas por

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trás das lágrimas eu estava sorrindo. “Você lembra quando bateu o carro do Tom na traseira do caminhão do Sr. Reilly?” “E mostrou seus peitos para ele, assim ele não reportou o acidente!” Leisel adiciona, gargalhando. “E dissemos a Tom que ele não ligou para a polícia por que estava apenas sendo um bom vizinho!” Nós duas estávamos, histéricas agora, rindo com tanta força que estávamos chorando de novo, eu não posso dizer que é melhor relembrar, deixar isso tudo sair, as emoções contidas ainda estavam lá e havia um milhão de memórias a mais que ainda seriam libertadas, um milhão a mais de lágrimas a serem derramadas, mas foi bom deixar sair, parar de ser resiliente apenas por um instante. O ar parece mais limpo que antes, minha cabeça um pouco menos cheia e meu corpo um pouco mais rejuvenescido. Um barulho na mata atrai nossa atenção para onde Alex está parado ao lado de um grande carvalho, segurando dois coelhos mortos em sua mão. “É seguro?” ele pergunta, erguendo sua sobrancelha. Assentindo para ele, reviro meus olhos quando Leisel acena na direção dele. “Descobri uma pequena cabana quase um quilômetro ao norte”, ele anuncia, se aproximando. “Vigiei o lugar, esperei por quase uma hora para ver se alguém aparecia, mas ninguém apareceu. Precisamos vasculhar a área primeiro, mas acho que a gente devia dar uma checada”. Ele para, seu olhar pousando em Leisel. Olha preocupado para ela, porém mais que isso havia uma espécie de posse em sua expressão que nunca notei antes. Ele sempre a encarou, mas jamais com tal intensidade. Eu supus que agora que estávamos, todos finalmente livres de Fredericksville, nenhum de nós se sentia compelido a esconder

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nossos verdadeiros sentimentos. Estávamos por fim livres. “Vamos comer primeiro”, eu digo “e depois dar uma checada”.

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Capítulo Quinze Leisel

A cabana era exatamente como Alex descreveu, não muito longe e sim, muito pequena. Mas não parecia abandonada, não da forma como tudo mais parecia. Ela estava desgastada, a pintura vermelha queimada precisava de um retoque e as janelas estavam fechadas por tábuas. Ainda assim, do nosso ponto de vantagem escondido entre as árvores – e tudo mais considerado – a pequena cabana parecia muito boa. “Não sei não”, sussurro. A cidade de Covey pareceu muito pior do que esta cabana solitária e depois do que aconteceu lá... Bem, eu não quero dar mole. “Precisamos de roupas limpas, Lei”, Evelyn sussurra de volta. “Pelo menos alguma coisa para cobrir seus pulsos”. “Vou primeiro”, Alex diz. “Se for seguro, vou assobiar uma vez. Se não, duas vezes e vocês duas... Corram”. “Não vamos deixar você”, exclamo, instantaneamente me sentindo ridícula. Quem eu estou enganando? Foi Alex que me salvou, duas vezes agora. Se alguém faria um salvamento, certamente não seria eu. Ainda assim, quis dizer o que disse. Eu não o deixaria, por nada. Devia a ele; Evelyn e eu, nós duas devíamos. “Não vamos te deixar”, Evelyn concorda, depois sorri. “Quem vai pegar nosso jantar?” Alex grunhi. “Bom saber que sou valioso”. Apesar de tudo, sorri. Os últimos dias de paz e tranquilidade foram um alívio calmante para o meu coração dolorido.

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O tempo que Evelyn e eu tínhamos passado conversando sobre a vida antes da infecção foi o momento mais libertador que experimentei em muito tempo. É claro, ajudava o fato de que estávamos livres de verdade agora. “Tome cuidado”, murmurei para Alex. Com o canto dos meus olhos vejo seu braço se mover, sua mão levantar e mesmo encarando seu rosto, em minha visão periférica observo sua mão continuar a levantar em direção a seu destino, minha bochecha. Diferente da última vez, em Covey quando ele quase me tocou, dessa vez sua mão grande e quente fez contato, gentilmente acolhendo meu rosto. O inesperado e íntimo toque enviou um arrepio de alguma coisa estranha deslizando por mim. Nem bom, nem ruim... Apenas estranho. E há algo a mais, alguma coisa em seus olhos não diferente do jeito em que esteve me olhando no riacho. É muito intenso, até mesmo mais. Mais forte e infinitamente mais particular. De repente nada faz sentido, os olhares compartilhados e o segurar de mãos, tudo o que parecera simples gestos e normalmente sem importância, mas eles não parecem mais simples ou sem importância. Não compreendi o que esta nova revelação significa, ou se significa alguma coisa, afinal. Tudo que eu sei é que isso me apavora, coalha em minhas entranhas como leite velho e envia ao meu coração tremulante uma intermitente cadência de batidas que abre seu caminho subindo pela minha garganta. “Ouçam meu assobio”, Alex diz quando abaixa sua mão, rompendo nossa conexão e dispersando meus pensamentos. Ligeiramente impressionada, assisto enquanto ele cruza a pequena distância da floresta e entra na clareira. Seu corpo está tenso e agressivo, uma mão segurando a arma, a outra, uma faca, caminha lentamente, mas, ainda assim, com determinação em direção a cabana. Eu o estudo atentamente, algo que nunca me incomodei em fazer até este momento. Assimilo o orgulho em sua postura, o jeito predatório em que ele caminha e sua absurda

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masculinidade, eu sinto uma onda de apreciação explodir em minha barriga. Mesmo que ele fosse cinco anos mais jovem que os meus vinte e nove anos, parecia e agia como se fosse muito mais velho. Talvez aquilo fosse devido a sua vida antes da infecção, ou talvez se originasse dos horrores que ele enfrentou depois. Ou talvez sempre fosse uma alma velha. Continuo a observá-lo, pensando que talvez suas feições agressivas e sombrias parecessem tão intimidadoras; que talvez, só talvez, elas fossem parte do seu charme. Por vários segundos meus pensamentos continuam a conduzir uma guerra em relação a Alex; concordando e depois discordando, encontrando razões plausíveis para minha estranha linha de pensamento; e então mais desculpas do porque deveria dar um fim nisso. Não é até que ele vira num canto, fora da vista, que minha mente finalmente me libera de seu blá blá. “Não gosto disso”, sussurro nervosamente, sentindo minha ansiedade aumentar. Vários minutos passam em silêncio e ainda nenhum assobio tinha soado. E se’s começam a correr em meus pensamentos, possibilidades infinitas de que coisas ruins podem acontecer atrás daquela cabana e eu incapaz de ajudar. O barulho de folhas esmagadas ecoa na calmaria quando Evelyn se aproxima por trás de mim. Sua mão escorrega na minha e juntas, como sempre fazíamos, apertamos a mão uma da outra bem forte. “Você sabe como ele te salvou, não sabe?” ela sussurra. “Voltando a Covey, daqueles malucos?” Viro-me para olhá-la, balanço minha cabeça lentamente. “Não”, eu falo. “Realmente não pensei sobre isso”. Faço uma pausa enquanto a memória me bate. Alex e o homem morto que ele arrastava para dentro do cômodo, aquele com o osso saltando das órbitas do seu olho. “Perguntei a ele”, Evelyn diz. “Estava trancado em uma sala assim como você estava, acorrentado e entregue a um infectado. Ele usou suas correntes para estrangular a coisa e arrancou a cabeça dela fora. Então rasgou o corpo, cavou um osso da perna, arrancou o osso e esperou até que alguém viesse olhar”. Engasgo com a imagem que se intromete em meus pensamentos,

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a memória feia daquele momento pedindo passagem. “Está me ouvindo, Lei?” ela prossegue. “Aquele homem arrancou a cabeça de um infectado e usou seus ossos para matar um guarda armado. E fez isso tudo enquanto ainda estava acorrentado”. Encaro-a, sem piscar, um leve reflexo do pensamento disso tudo. “Meu ponto é, Lei, você não precisa se preocupar com ele”, diz, enfática. Sentindo-me ao mesmo tempo atônita e orgulhosa, dou as costas para ela e me volto à cabana. Não, eu realmente não tenho que me preocupar com ele, tenho? Pelo menos, não no que diz respeito à capacidade dele de proteger a si mesmo. À distância, um assobio agudo e baixo ressoou e minha respiração para. Aguardo para ver se ouço outro, dois assobios para dizer que o perigo estava em ação e era hora de fugir ou lutar. Mas esse nunca chega. Ao invés disso, vi Alex aparecer do outro lado da cabana, parecendo inteiramente bem. Com um suspiro de alívio, solto a mão de Evelyn, me levanto e juntas andamos em direção a clareira.

*** De acordo com Alex, todas as janelas ainda estavam intactas, bloqueadas com tábuas tanto por fora como por dentro, algo que exigiria fazer uma bagunça e um monte de barulho caso tentássemos entrar daquele jeito. No fim, era a porta da frente que parecia ser o mais seguro e mais lógico jeito de entrar, mas primeiro teríamos de ultrapassar dois grandes cadeados que nos selavam do lado de fora. “Isso é uma coisa boa”, Alex murmura, usando sua faca para cutucar a fechadura do cadeado. “Significa de dez a um que tem alguma coisa útil dentro, e principalmente, sem surpresas

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desagradáveis”. Ainda não estou convencida de que estamos a salvo aqui, algo nesse lugar parece vazio para mim. Diferentemente de todos os outros lugares que vimos, esse não parece morto; na verdade, parece cheio de vida. É claro, aquilo pode ser da mata crescente nos rodeando, os animais e insetos, tudo que está intocado pela infecção. Ainda assim, minhas preocupações não diminuíam e eu me vi constantemente observando as árvores em busca de qualquer sinal de movimento. “Consegui”, Alex fala, liberando o primeiro cadeado de sua tranca e colocando no bolso. Quando ele começa com o segundo, Evelyn sorri para mim, excitadamente se remexendo e trocando o apoio de um pé ao outro à medida que espera ansiosa para ver o que estava lá dentro. Ela me lembrou da velha Evelyn, a de antes da infecção, sempre ansiosa para fazer e experimentar coisas novas, batendo palmas entusiasmadamente quando estava feliz, dando pulinhos como uma menina de dez anos que ganhou o presente que sempre quis de aniversário. Com um sorriso feliz em meu rosto, dou as costas, outra vez escaneando a linha de árvores em busca de algum sinal de ameaça. Não há nada, só os vários tons de verde e marrom de uma floresta, o zumbido baixo de insetos e folhas caindo de seus galhos e voando lentamente até o chão. Sigo uma folha em particular pega pela brisa, fazendo um círculo no ar e girando até o chão. Sua feliz jornada, quase fazendo um círculo completo com a cabeça quando algo captura meus olhos e congelo no lugar. “Eve!” sussurro, procurando às cegas por ela. “Alex!” Um homem parado na beira da clareira, não ainda rompendo a linha das árvores, mas já visível a olho nu. Ele estava sujo e sangrento, seus cabelos compridos desgrenhados e suas roupas rasgadas. Seus olhos são selvagens e em seus braços... “Oh Meu Deus”, Evelyn suspira. “Oh não”. Meu olhar viaja por seu corpo abaixo, meu coração pula em meu

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peito. Em seus braรงos, pendurada flacidamente e coberta em sangue, estava o pequeno corpo de uma garotinha.

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Capítulo Dezesseis Evelyn

“Mãos para cima!” Alex grita, abaixando sua faca em favor de seu rifle. Rapidamente, ele pega a arma ao seu redor e a levanta, mostrando ao homem que estávamos armados. O homem comprimi seus olhos, sua boca pressiona em uma linha apertada enquanto ele levanta a garotinha em seus braços, junto a seu peito. É um comportamento protetor e ao ver isso, coloco uma mão no braço de Alex. “Ele não tem como”, digo simplesmente, meus olhos na garotinha nos braços dele, seu cabelo ensanguentado espalhado pelo rosto. O homem ainda não tinha se movido. Seu rosto, parcialmente escondido por trás de uma longa e desalinhada barba, estava congelado em alguma emoção que não consegui entender. Não raiva, apesar de que ele parece raivoso e nem tristeza, mesmo que considerando a condição da criança em seus braços, ele deveria estar triste. Trocando as pernas, em obvia indecisão sobre como proceder, franzi suas sobrancelhas em consternação, como se tentasse decidir se éramos uma outra ameaça para ele e a menina, que era provavelmente sua filha. “Esta é sua casa?” Leisel grita, sua voz suave viajando através da clareira. O homem grunhi sonoramente em resposta, mas não vocaliza um real sim ou não. “Suponho que isso seja um sim”, eu digo calmamente. “Nós vamos embora”, Alex diz em voz alta, abaixando sua arma e

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dando um passo de distância da porta. Respondo imediatamente, indo para o lado de Alex e me preparo para partir, mas Leisel, sempre a compassiva, não se mexe. Ela olha para mim, franzindo o cenho levemente e eu sei exatamente o que estava pensando – que minha falta de compaixão por este homem e sua filha fazia de mim uma vaca. Sim, não posso negar isso; eu estou mais que disposta a enfiar o rabo entre as pernas e deixar aquelas pessoas cuidarem de si mesmas. Eles não são problema meu e não quero que eles se tornem meu problema. O sangue pingando do pequeno corpo da menina vai sem dúvidas atrair os infectados, sempre acontece e eu não estou emocionalmente pronta para lutar. Não só isso, mas eu já vi morte o suficiente para uma vida inteira. Eu não preciso testemunhar mais se não tivesse que fazer isso. Esta criança está claramente morrendo, isso se já não estiver morta e eu não tenho estômago para ficar e assistir como aquilo iria se desdobrar. “Leisel”, Alex fala. “Vamos”. Ele alcança o braço dela, querendo afastá-la da porta na hora que o homem, como se finalmente se libertasse de suas indecisões, começa a andar para frente. Seu andar era pesado e determinado conforme ele cruza a pequena clareira em direção a nós. Ninguém diz uma palavra quando para ao nosso lado e agora que ele estava ao nosso lado, eu consigo sentir o cheiro dele e o fedor era horrível. Se aquilo vinha das feridas da menininha ou de seus corpos não lavados, não tinha certeza, só que é uma luta não tapar o nariz pela catinga terrível. As roupas dele estão imundas, sua pele e cabelo ensebados a ponto de parecer molhados, ainda assim ele não parece um andarilho, só de passagem. Parece bem alimentado, com ombros largos, bíceps fortes. Observamos o homem equilibrando a garotinha em seus braços enquanto se atrapalha com o segundo cadeado, abrindo-o e chutando a porta para abrir. Mantém suas costas voltadas para a gente o tempo inteiro, obviamente decidindo que não somos uma ameaça. Isso, ou ele

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simplesmente não liga. “Nós deveríamos ir”, eu digo calmamente. “Se ela foi mordida, vai se transformar e não quero ver isso”. Por que ninguém com a mente sã quer ver isso, assistir uma criança morrer, se transformar. E se a pobre garotinha morrer e um de nós tiver que colocar um fim em sua miséria, e ai? O que acontece quando este homem – o pai dela – surta e nos ataca? Por que ele vai; isso aconteceu muitas vezes. “Mulher!” o homem grita do lado de dentro, sua voz áspera e impaciente. Leisel pula, olhando do batente da porta para mim e de novo para o batente antes de rapidamente se esgueirar para dentro da cabana. Eu a xingo em voz alta e Alex fez o mesmo. Compartilhamos um olhar malicioso, eu reviro os olhos e Alex parece irônico, antes de nós dois seguirmos para dentro. Estava escuro e levou a meus olhos muitos minutos para se ajustar, mas quando finalmente se ajustam, me descobri chocada. O lugar é surpreendentemente limpo, quase confortável, com estantes e mais estantes de vasos e caixas em diferentes tamanhos e formas. O lugar inteiro não é maior que um quarto dez por vinte, com uma bicama em um lado próximo a um fogão a lenha e na outra ponta estava uma pequena mesa de madeira e três cadeiras de vime. O homem está de joelhos ao lado da cama, a garotinha deitada sobre ela. A respiração dela era úmida, crepitante e seu peito ergue e desce em um ritmo rápido. O homem está tentando limpar o pescoço dela, o que consiste em limpar o sangue por um momento antes da ferida esguichar de novo. Engulo em seco. Eu estava certa; ela foi mordida e iria se transformar. Para meu horror, Leisel está ajoelhada ao lado do homem, ternamente afastando cabelos do rosto da criança. “O que posso fazer?” ela pergunta, sua voz cheia de urgência. “Leisel!” Alex diz, sua voz em tom afiado. Ele claramente não está feliz com a proximidade dela ao homem ou a criança mordida e não

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posso dizer que o culpo. Eu sinto o mesmo, preocupada com a situação toda. “É só uma menininha, Alex”, Leisel estala, atirando a nós dois um olhar de desgosto. “Ela precisa da nossa ajuda. Os dois precisam da nossa ajuda!” Meu olhar despenca, sei que ela está certa. Esta pobre menina, é só uma criança, uma linda menina de talvez sete anos ou mais, com longos cabelos loiros e lábios de querubim. Parece doce e inocente, apesar da mordida em seu pescoço. Mas era aquela mordida que a torna um monstro para mim, um monstro que não quero chegar perto de jeito nenhum. “Ela não vai ser uma menininha por muito tempo”, Alex fala sombriamente. O homem vira, fixando seus olhos cinzentos em Alex e se olhares pudessem matar, Alex teria sido morto no lugar onde estava. “Diz isso de novo, garoto”, o homem rosna e lentamente se coloca de pé. Alex, inabalável, inclina sua cabeça para o lado e olha o homem diretamente nos olhos. “Eu disse que ela é só uma criança... agora. Ela foi mordida, vai se transformar em um deles em breve. Quem sabe quanto tempo tem”, ele diz, gesticulando nervosamente em direção a cama onde Leisel ainda está de joelhos. “E eu não quero que ela se transforme perto da minha...” Suas palavras se perdem enquanto seu olhar se afasta de Leisel, mas eu sei o que estava para dizer, o que ele deseja dizer e por que parou. Ele e Leisel não eram nada, não importa o quanto ele deseja que fossem. Pausando uma mão no braço de Alex, entro na frente dele, não para protegê-lo do homem, mas em uma tentativa de manter a paz. Meu coração está me dizendo uma coisa, mas minha cabeça me diz outra. Minha cabeça queria que eu corresse, que ficasse o mais longe possível dessa bomba em forma de criança, mas a outra parte de mim, uma pequena voz enterrada bem lá no fundo, me dizia que era só uma

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garotinha e esse pobre homem, seu pai, mereciam a nossa ajuda. “Como posso ajudar?” Leisel pergunta de novo. Mais segundos tensos palpitam pelo instante em que o homem continua a olhar por cima da minha cabeça, seu olhar raivoso em Alex, até que ele finalmente balança a cabeça e se vira, depois se dirige ao fogão, suas botas desgastadas arranhando audivelmente o piso de madeira, então se inclina e cutuca o pequeno fogo em brasa nas lenhas. “Uma bacia”, murmura. “Me pega uma bacia. Preciso esterilizar a água”. Ainda sentada com a criança, Leisel olha para mim, seus olhos queimando de suplicas até que eu não consigo mais segurar, a culpa que me força a sentir. Viro-me abruptamente, saindo em busca de uma bacia, desastrada ao longo das estantes cheias de garrafas esquisitas, canecas enferrujadas e caixas destroçadas. Eventualmente encontro uma bacia, uma pesada tigela de metal com um cabo grosso. Tiro da estante, cruzo a cabana e a entrego ao homem. Ele prontamente a enche de água de uma vasilha pendurada em seu quadril e depois de colocá-la no fogão para ferver, se ocupa com um pilão que usou para triturar algumas ervas. O tempo todo que ele tritura, seu olhar ronda da criança para Alex, como se ele esperasse que Alex fizesse algum movimento quando não estava olhando. Quando a água começa a sibilar, borbulhando no topo do pote, o homem cuidadosamente a remove e borrifa em algumas das ervas esmagadas, depois as mistura. Quando parece satisfeito com sua mistura, se dirige a cama, grunhindo para Leisel sair de seu caminho. Olhando do pote em sua mão para o ferimento no pescoço da menina, Leisel balança sua cabeça, mas relutantemente se levanta. Tomando seu caminho de volta para mim, seus olhos estão vítreos por lágrimas não derramadas. Apesar de estar triste pela garotinha e por seu pai também, eu estou mais preocupada com o nosso bem-estar. As pústulas começam a se formar por todo o corpo dela, grandes bolhas cheias de pus e sangue. Assim que aquela menininha se transformasse, a rigidez cadavérica tendo ou não se instalado, ela seria uma rápida e eficiente arma mortífera. E só algum tempo depois, quando seus

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músculos se tornassem endurecidos, ela desaceleraria, até eventualmente começar a se decompor, tornando seus movimentos mais lentos, mas ainda fluidos. “Precisamos ir”, Alex diz entre dentes. “Ela vai ficar bem”, o homem fala, não se incomodando em virar. “Assim que limpar isso, vai ficar bem”. Sua voz está cansada, tremendo ligeiramente e seus ombros estavam encolhidos, mas suas mãos trabalham rapidamente aplicando sua pastinha de ervas caseira. Pelo que eu podia dizer de onde está, aquilo parecia ter parado o sangramento, mas não faria nada com a infecção. Se o Centro de Controle de Doenças não foi capaz de descobrir uma cura ou mesmo um tratamento preventivo, duvido que a pasta de ervas desse homem tivesse sucesso onde eles falharam. Mesmo que isso não dissesse que eu não estava esperançosa. Que não estou lá esperando que suas bolhas retraíssem, que sua respiração voltasse ao normal, que seus olhos abrissem, para olhar para seu pai com um sorriso em seu rosto inocente. Mas aquilo não foi o que aconteceu. Ela começou uma respiração ofegante de repente, seu peito arfou uma última vez e então ela ficou parada, seus lábios eternamente partidos em um silencioso O. “Ela está morta”, Alex diz, de forma tão direta que eu o recompensei com uma cotovelada em suas costelas. Levantando, seus ombros mais encolhidos que antes, o homem vira para nos olhar. Aguardo com a respiração suspensa, imaginando que se tornaria selvagem, atacando Alex por suas palavras cruéis. Ao contrário, ele nos encarou, um homem triste e derrotado, seus longos cabelos pendurados em torno de seu rosto como uma escura cortina de desespero, suas narinas dilatando conforme lutava para impedir suas emoções de desmoronarem. “Ela era minha garotinha”, ele sussurra com a voz quebrada, seus olhos finalmente encontrando os meus. “Ela era tudo o que havia me restado”. Sua voz quebra nas últimas palavras e então ele começa a chorar. Não as sutis e singelas lágrimas de alguém que não conhecemos, mas as lágrimas exaustas e desoladas de um homem a

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quem nada resta. Seus soluços eram altos e lastimáveis e quanto mais tentava se controlar, mais forte ele chora. Nós três congelamos, inseguros sobre o que fazer, o que dizer e o que havia para se dizer? Não podemos consertar isto – ninguém poderia consertar. Era isso o que a infecção faz. Ataca, mata, destrói todas as coisas, bonitas ou não. Ela não tem respeito pelos jovens ou velhos, pela cor de sua pele ou crenças religiosas, por posição social ou importância. Ela só mata e mata e mata. Mata todas as coisas. Leisel começa a chorar junto com ele e, portanto, antes que eu pudesse pará-la, cruz a sala e envolve seus braços ao redor do homem, aquele estranho. O puxando contra ela, embala sua larga figura trêmula enquanto sussurrava sons consoladores em sua orelha, como fez comigo. Uma mão esfrega suas costas em lentos e seguros círculos. A familiaridade de suas ações era quase chocante em sua esquisitice. Não o conhecíamos, nem quem ele tinha sido, nem quem era agora. Ainda assim ela o está tratando como se o conhecesse a vida inteira. É assim que ela era – a zeladora, a pacifista, a mulher a quem as pessoas recorriam quando precisavam de conforto. Um pensamento estranho me atinge, uma dolorosa percepção. Leisel não é fraca, não no sentido real da palavra. Ela pode ser frágil fisicamente, fácil de magoar, sempre usando suas emoções a flor da pele, mas entre nós três – Alex, Leisel e eu – ela é a única que mais manteve sua humanidade, o que não é uma tarefa fácil em um mundo que se tornou um inferno. E todo esse tempo, eu presumi que era mais forte que ela por que poderia facilmente – e com prazer – me afastar de situações como esta, por que estava preparada para matar e mutilar e condenar os outros a miséria se isso significasse manter nós duas seguras. Em algum lugar no meio da minha força e coragem, devo ter perdido uma parte de mim mesma. A parte em que me importava com os outros, mesmos estranhos. Em algum lugar, de alguma forma, perdi

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minha humanidade. O pensamento é surpreendente, sufocante até e de repente preciso de ar e espaço. Viro-me e tropeço para o lado de fora, meus olhos queimando pela iluminação repentina. Começo a soluçar e tentar vomitar, arquejando por ar, sentindo como se eu fosse tão ruim quanto um infectado, por que nunca senti ou mostrei um centímetro de remorso por nada ou ninguém que matei ou machuquei. Justamente como os infectados. Um barulho adiante me sobressalta em minha festa da piedade e olho para cima bruscamente, vendo um infectado nos arredores da clareira. Ele veio por causa do cheiro de sangue, assim como imaginávamos. Era só um homem, mas Cristo, não era um homem mais. Está quase despido, com trapos agarrados em seu corpo cinzento e ossudo. Ficando em posição ereta, aperto minha faca e dou um passo à frente, observando quando ele – aquilo – olha para cima na minha direção. Ao me notar, grunhi alto e tropeça pelas árvores até entrar na clareira, mas eu repentinamente não consigo me mexer, como se meus pés estivessem colados na terra. Minha faca ainda firmemente segura em minha mão, mas poderia até ser uma espátula por tudo o que faria se não pudesse encontrar o desejo de agir. Eu via tanto de mim mesma no monstro agora, sabendo que não era melhor que ele. O infectado continua sua passagem desordenada em direção a mim, cada vez mais perto com seus passos vacilantes e ainda assim não consigo me mexer. Quando a coisa tropeça em um grande tronco de árvore em seu caminho, me vi bufando, depois rindo. Rindo! Tossindo, tento limpar minha garganta, mas era incapaz de parar de rir. O infectado parecia ligeiramente assolado pelo som, ou talvez aquilo fosse apenas eu projetando minhas emoções em uma criatura que não parecia nada a não ser faminta e com urgência em matar. Assim como eu. Faminta de vontade de viver e desejando matar para continuar a fazê-lo. Ele está dentro do meu alcance agora e eu seria pelo menos capaz de levantar minha faca um pouco mais. Mas meu maldito braço estava tremendo e eu sabia – sabia que essa coisa iria me morder se não

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fizesse alguma coisa. Mas eu não conseguia; apenas não conseguia. “Jesus, Eve!” Alex passa por mim, cambaleando sobre o infectado bem na hora que me alcança e o atira ao chão. Caindo de joelhos, Alex bate o cabo de seu rifle na cabeça dele, o som doentio de ossos quebrando e cérebro espalhando sob o impacto fazem me sentir mais doente. Olhando feio para mim, Alex fica em pé. “Que diabos tem de errado com você?” reclama com raiva. Abro minha boca, mas nenhum som sai, nem mesmo ar. Eu estou literalmente sem palavras para me explicar ou explicar meu comportamento. Dando-me um olhar duro, Alex balança sua cabeça e se vira. “Mantenha essa merda firme”, fala sobre seu ombro enquanto esbraceja de volta para dentro. Tonta e desorientada, me abaixo no chão. Esta não sou eu. Eu não faço isso. Sempre me mantive firme; Mantive toda essa merda firme pelos quatro anos anteriores. Eu não perderia assim, ainda que minha visão estivesse afunilando bem na minha frente e que mal conseguisse respirar. De dentro da cabana, podia ouvir o débil som de discussão e depois o que parecia ser um confronto físico. Eu sabia que precisava me erguer e entrar lá, para ver o que estava acontecendo, mas não conseguia fazer minhas pernas funcionarem. Só o pensamento de me levantar já parecia extenuante. Isso tudo era demais, era muito para eu ter que lidar. Um grito curto e agudo ressoou pelo ar, mas foi cortado tão rapidamente quanto começou e então um mísero momento depois, o homem saiu da cabana e decola correndo para a mata. Outro momento passa antes de Leisel deixar a cabana. Seus olhos me encontram e ela se dirige para onde eu estou, sentando ao meu lado no chão. Pousando um braço sobre meus ombros, descansando sua cabeça contra a minha. “Alex a matou”, ela sussurra. “Ela acordou e atacou seu pai. Ele

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não foi rápido o bastante, mas Alex foi”. Inspirando profundamente conforme minha visão clareia, sinto meus pulmões finalmente expandindo totalmente, me permitindo tomar uma golfada de ar extremamente necessária. Olho para Leisel, debatendo se respondo o que ela me disse ou não, porém a encontrei olhando a distância enquanto lágrimas brilham em suas bochechas e decido deixar passar. Eventualmente Alex se junta a nós, seus dentes apertados e sua mandíbula travada. “Resolva suas merdas, Eve”, ele diz brevemente. “Não pode entrar em parafuso daquele jeito de novo”. Fungando, eu assinto. Ele está certo; sendo fraca quando preciso ser forte. Mas também sei que isto – sua raiva – era seu jeito de lidar com o que acabou de acontecer. Que como eu, tinha seu próprio mecanismo de lidar com as coisas e nesse momento ele estava lidando bem. Ele é mentalmente e fisicamente forte, mas todos tinham seu ponto de rompimento. “Eu sinto muito”, sussurro, piscando rapidamente na tentativa de impedir que as ameaçadoras lágrimas caíssem. Porque sentia muito. Sentia por ter perdido isso, por quase me deixar ser mordida assim como colocar todos os outros em perigo e sentia por causa da coisa terrível que ele teve de fazer. “Não sinta muito por ser humana”, Leisel diz suavemente, me puxando para mais perto enquanto olha acusadoramente para Alex. “Nunca se desculpe por isso, Eve”.

*** Passaram-se horas até que o homem retornasse e quando voltou não deu mais que um olhar para nós, quanto mais dizer algo sobre a gente ainda estar ali. Honestamente, não sabia por que estávamos. Não devíamos nada a ele, mas, ainda assim, ficamos. Barulhos irrompiam de dentro da cabana, como se objetos

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estivessem sendo jogador ao redor. O som alto e estridente só durou um minuto antes do homem reaparecer com uma pequena pá na mão. Com um olhar derrotado, Alex se junta a ele e juntos fizeram turnos cavando um pequeno buraco no chão. Nós três ficamos em silêncio no instante que o homem trouxe sua filha para fora, enrolada bem apertada em um lençol ensopado de sangue e a colocou gentilmente no chão. Ao lado dela colocou um ursinho de pelúcia esfarrapado e um pedaço dobrado de papel que parecia ser uma fotografia enrugada. Depois que ela foi enterrada, a terra derrubada e compactada ao redor e em cima dela, o homem caminhou de volta para a cabana sem uma palavra para qualquer um de nós e fechou a porta por trás dele. Ninguém falou; não havia palavras. Isto não deveria ter acontecido, isto não era justo, ela foi para um lugar melhor e estava em paz agora, bla-bla-caralho-bla. Isso tudo parecia inútil dizer. “Deveríamos ver se ele tem alguma arma que possamos usar?” pergunto, esfregando minhas têmporas. “Ou talvez perguntar a se ele sabe onde podemos conseguir um veículo?” “Vamos voltar amanhã”, Leisel sugere. “Dar a ele tempo para o luto”. Todos nós concordamos no que seria o melhor curso de ação, nos dirigimos de volta à plataforma de madeira. Não está escuro ainda, o sol ainda firme no céu, espelhando quão firme parecia. Crianças oferecem esperança e quando uma criança é tirada deste mundo, isso faz parecer muito um lugar mais escuro para tentar viver. Fico deitada acordada por horas naquela noite, encarando o topo das árvores, exausta, mas incapaz de dormir. Ouvi o ronco de Alex, os galhos soprando na brisa, até que eventualmente me viro e encontro Leisel acordada e me observando. Ofereço a ela um pequeno sorriso e ela o retorna, se aconchegando mais perto de mim. Sei exatamente o que ela está pensando – que dias

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como hoje faz tudo parecer desesperançoso.

*** O sol nos acorda cedo na manhã seguinte. Rapidamente nos lavamos no córrego e depois voltamos a cabana, mas quando chegamos, a encontramos vazia. Mesmo os lençóis ensopados de sangue da pequena cama haviam sumido. Um pequeno recado estava afixado na porta aberta e sobre ele uma simples palavra havia sido escrita: Obrigado.

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Capítulo Dezessete Leisel

“E agora?” Evelyn pergunta, soando irritada. “Agora que porra vamos fazer?” Nenhum de nós dormiu muito na noite passada, mas Evelyn parecia pior que eu. Grandes círculos escuros rodeavam seus olhos vermelhos, seus ombros caídos e suas mãos tremendo ligeiramente. “Ele não nos devia nada”, digo a ela gentilmente. “Só o encontramos numa hora ruim”. “Eu sei disso!” ela grita, ficando ainda mais agitada. “Mas… mas e agora?” ela gesticula ao redor da cabana vazia, seus olhos muito abertos, suas narinas dilatadas. “Não temos nada, Lei! Nada!” “Não nada”. Alex nos interrompe e nós duas olhamos para onde ele está parado. Há uma pequena cômoda ao lado da cama e Alex vasculhando, tirando peças de roupa e as jogando na cama. Evelyn e eu observamos os variados tons de rosa e amarelo, roupas que muito obviamente pertenceram a garotinha que ajudamos a enterrar ontem. Não consigo evitar e interromper as lágrimas que se formam. Memórias de sua última respiração, seu doce rostinho contorcido de dor e as lamurias do seu pai preenchem meus pensamentos. Ontem eles estavam aqui, vivos e sobrevivendo e agora a criança estava morta e seu pai havia partido. Rangendo meus dentes, empurro minhas emoções para dentro. Agora não é hora para isso, não quando há três de nós bem aqui, lutando para sobreviver outro dia. “Não podemos usar elas, Alex” Evelyn diz concisamente. “São

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muito pequenas”. Alex não para de cavar. “Podemos usá-las como panos, como bandagens e um milhão de outras coisas, Eve. Tem mais”, ele continua, segurando um vestido de mulher. “Estou achando que ele teve uma mulher em algum momento”. Alex atira outra pilha de roupas na cama e quando caminho a frente para inspecioná-las, percebo que Evelyn hesita. Olho para ela com um olhar questionador que parece sacudi-la e lhe colocar em movimento e juntas nos dirigimos para a cama. Não muitos dos itens que Alex encontrou eram roupas funcionais, ao menos não neste mundo. Eram vestidos, muitos deles sem mangas e tops leves que seriam perfeitos caso eu precisasse ir a uma entrevista de emprego e não para escapar de mortos-vivos ou humanos meio loucos. Mais importante, não quero usar a roupa de outra pessoa. Roupa que pertenceu a uma família agora destruída. Mas que escolha eu tinha? O fedor de podridão e morte, sangue, suor e outros cheiros pestilentos não sairiam de nossas roupas atuais, não importava quantas vezes tentássemos lavá-las. Eventualmente conseguimos encontrar algumas coisas que podíamos usar. Como sutiã, uso uma das regatas da garotinha. Era bem apertado e só ia até meu umbigo, mas já faz um trabalho melhor de sustentar meus seios do que o sutiã que estava usando desde que escapei de Fredericksville. Sobre isso coloco uma camiseta preta larga de mangas compridas de algodão que tinha uma renda ridícula costurada nas costas e mangas boca de sino. Graças a Deus que há um par de jeans dentro daquela arca também. Eram muito grandes para a figura esguia de Evelyn e muito compridos para as minhas pernas curtas, mas depois de enrolá-los algumas vezes, eles me coube confortavelmente. Evelyn é menos afortunada, tendo que combinar um par de calças social cinza e uma camisola infantil de um rosa pálido como uma camiseta. Nós duas parecíamos puramente ridículas em nossas roupas descoordenadas que mal nos serviam, mas qualquer coisa era melhor

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que nada. Então mantive esse pensamento para mim. Alex se saiu pior do que eu. As únicas roupas de homem encontradas eram uma camisa de botões branca, um paletó comprido e um par de calças sociais, amarrotado. Ele optou por continuar com seu uniforme de batalha imundo, mas decidiu trocar sua camiseta arruinada e manchada de sangue pela camisa de botões. Eu me vi observando-o conforme puxava sua camiseta pela cabeça, fascinada pelo jeito que os músculos em suas costas e braços flexionavam até com o mais simples movimento. Thomas sempre esteve em boa forma, mas Alex – a envergadura dele, sua altura e o tamanho de seus músculos – faria Thomas se envergonhar. Sinto um calafrio então, não do clima, mas vindo da direção dos meus pensamentos. O que estou fazendo encarando este homem assim? E o comparando ao meu marido, meu primeiro marido, que amei mais que tudo? O que tem de errado comigo? Começo a me afastar, envergonhada de mim mesma, quando Alex volta, vestido e desliza rapidamente sua jaqueta militar. Ao ver a camisa de botões por dentro da jaqueta de lona escura e suja, começo a rir. “Você está lindo”, deixo escapar. “Ah é?” ele sorri para mim. “Devo colocar a gravata também?” Antes que eu pudesse responder, Evelyn para entre nós. Ela olha de mim para Alex e depois para mim de novo. “Qual o plano?” pergunta, sua voz séria, instantaneamente rompendo aquele momento descontraído. Sem saber, olho novamente para Alex, cujo sorriso havia partido. Suspirando, fecha os olhos. “Sul”, ele diz e quando abre seus olhos, sua careta habitual estava de volta no lugar. “Vamos para o Sul como planejamos”.

*** Passamos a noite na cabana, procurando em cada canto e cada buraco por qualquer coisa que o homem tenha deixado para trás. No final, quando juntamos nossos achados, não deu muita coisa. Mais

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algumas peças de roupas, uma caneca pequena, um martelo enferrujado e um jarro de plástico, não havia nada de valor. Quando Alex sai para procurar comida, Evelyn e eu nos ocupamos em amarrar algumas das roupas da menina para fazer uma trouxa e usar para guardar o que conseguimos. Pela hora em que Alex retorna já estava escuro e Evelyn acende uma pequena fogueira no fogão de ferro para ter luz e calor. Nos encolhemos juntas ao redor do fogãozinho, comemos nosso jantar, que consistia em dois esquilos e algumas frutinhas, praticamente em silêncio. Evelyn, percebo, está mais retraída do que já a tinha visto antes. Mal-humorada, seus altos e baixos cada vez mais perceptíveis. Ela claramente está irritada com Alex e evita qualquer tipo de conversa comigo. Apesar de continuar do meu lado, ainda me buscando como uma fonte de conforto, para dizer que algo está errado. Há uma agitação interna que eu consigo ver, angustia ou raiva escrita em sua face. Eu me sinto impotente, sem saber a coisa certa a fazer ou dizer para atenuar isso nela, então no fim das contas acabo não dizendo nada mesmo. Durante a noite, enquanto Evelyn e eu ocupamos a pequena cama juntas e Alex deita no chão na frente da porta, o vento recomeça, fazendo a temperatura despencar drasticamente dentro da cabana. Sem cobertores ou o calor adicional do corpo de Evelyn, que se enrola em si mesma e estava com o rosto voltado para a parede, acordo com o som dos meus próprios dentes batendo. Tremendo, me sento na cama, encontrando Alex acordado e apoiado na parede ao lado do fogão, um pequeno fogo ainda queimando lá. “Es-esta f-f-frio”, murmuro, esfregando minhas mãos em meus braços. “Vem aqui”, ele sussurra. “O fogo está quente”. Sem querer acordar Evelyn, hesito por um momento antes de ir nas pontas dos pés em direção a ele, cruzando as tábuas que rangiam o mais silenciosamente possível. Levantando seus braços em sinal de

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boas vindas, Alex afasta seus joelhos, indicando que eu deveria tomar o espaço entre eles. Parte de mim reluta em aceitar tal intimidade, mas a outra parte, a parte que estava com frio e deprimida pelas atuais circunstancias, quer prontamente aceitar o calor que ele está oferecendo. Ainda assim, não consigo me fazer aceitar isso, ficar tão perto dele e tomar o lugar vazio no chão ao lado dele. “Lei…” Levanto os olhos, encontrando seu olhar, descobrindo suas feições contorcidas com algum tipo de dor interna. “Eu nunca te machucaria”, ele diz suavemente. Sentindo minhas bochechas aquecerem, olho para o outro lado da cabana. Sei que ele não me machucaria, é claro que eu sei. Mas alguma parte de mim, mesmo a parte que sabia que eu podia confiar nele, ainda não conseguia estar tão perto dele, ou estar tão perto de alguém que não fosse Evelyn. “Deveria ter matado ele”, continua, sua voz mudando drasticamente. Em vez de suave, confortadora, ele soa sombrio, nervoso. Surpresa, olho de volta para ele, dessa vez está encarando o nada assim como eu havia feito. Só que ele está rígido agora, seu corpo tenso, sua mandíbula dura e fortemente delineada, parecendo ameaçadora na luz do fogo. “Aquilo não era sua responsabilidade”, digo gentilmente. “Eu não era sua responsabilidade, Alex”. Seus olhos inclinam em minha direção, sua expressão impassível e furiosa. “Você não entende”, ele diz, entre dentes. “Você não sabe como eu...” ele para abruptamente, seus olhos cintilando de fúria e afasto o olhar novamente. Voltando a encará-lo, me sento impotente e confusa, sem querer que ele se culpasse pelo desfecho do meu casamento forçado e abusivo e ainda sem saber o que dizer ou fazer para mudar a forma como se sentia. Ele é um homem muito quieto, normalmente só falava quando

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solicitado ou quando acreditava que era absolutamente necessário, mas eu tinha que imaginar que havia muito mais dentro dele, muito além do que deixava transparecer. “Você não tem ideia do quão grata nós somos”, digo. “Se não fosse por você, nunca teríamos dado o fora de lá, Alex”. Ele não responde, não se vira para me olhar, também não dá nenhuma mostra de que tinha ao menos ouvido o que falei. Continua encarando o nada, as duras linhas de seu corpo rígidas, sua expressão ainda furiosa. Então faço a primeira coisa que veio a minha mente, a primeira coisa que consigo pensar para relaxar a tensão repentina. Seguro seu braço e me ajoelho na frente dele, o forçando a olhar para mim. “Ainda estou com frio”, eu digo, soando energética demais até mesmo para os meus próprios ouvidos. “Não consigo me esquentar”. Não sei por que significa para mim que ele não carregasse tanta culpa, que não tivesse que sustentar o peso do meu mundo em seus ombros, mas significa. Por alguma razão, atenuar a consciência desse homem de repente importava. Sua expressão dura suaviza instantaneamente, suas pernas afastam e acena para eu chegar mais perto. Assim faço, meio que engatinhando para dentro do espaço que ele reservou para mim. Seus braços me envolvem, me puxando para mais perto dele, abraçando meu corpo bem apertado ao dele. Embora me sinto abençoadamente mais aquecida, isso ainda era uma posição desconfortável para mim. Estar tão intimamente próxima a alguém, a um homem, não menos que isso. Mas não sinto medo com ele; posso ouvir aquela vozinha dizendo em voz alta e clara que este não era um homem que eu deveria temer, que merece tanto conforto quanto eu possa prover a ele. Viro minha cabeça, hesitantemente pressionando meu rosto em seu peito, ouvindo o som das fortes batidas do seu coração batendo em um ritmo constante. Quanto tempo faz desde que fui segurada por um homem sem a mão pesada do medo pressionada sobre mim, transformando conforto necessário em outra coisa completamente

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diferente, algo sombrio e cruel? Muito. Muito tempo, na verdade, tanto que nem me lembro mais quanto eu senti falta disso, não até este momento, envolvida perfeitamente nos braços de Alex. “Melhor?” ele sussurra. Seu queixo fazendo cócegas no topo da minha cabeça, seu pescoço prendendo como velcro em meu cabelo. Inclino minha cabeça para cima, pretendendo responder a ele, sem esperar que seu rosto estivesse tão perto de mim. Nossos narizes quase se tocam e nossa respiração momentaneamente se misturam, eu o encaro na trêmula luz do fogo enquanto sombras dançavam em torno de nós. “Eu quis fazer isso tantas vezes”, ele diz, sua respiração quente soprando em meu rosto. “Toda vez que te ouvia chorando, aquilo me corroia. Eu queria te abraçar… ou fazer algo, qualquer coisa para tornar as coisas melhores”. Sinto-me exposta, minha respiração se torna irregular. Alex sabe coisas sobre mim – viu e ouviu coisas – que nem mesmo Evelyn sabe. Na verdade, Alex me conhece quase tão bem quanto Evelyn. Embora não soubesse nada da minha vida pré-infecção, ele conhecia minha vida pós-infecção, conhecia toda a minha secreta dor. “Não é sua culpa”, consigo sussurrar. Ainda o encarando,meio apavorada pelo quão estranhamente certo isso parece, estar nos braços dele, ambas as nossas vergonhas secretas abertamente reveladas. Eu estou tão acostumada a esconder, esconder tudo, cada parte de mim de quase todos os outros, que não consigo evitar me sentir tão… tão… consumida por este momento. Este era um momento muito libertador. A respiração de Alex fica mais pesada, seu peito ergue e abaixa rapidamente sob mim. Seus braços se apertam em torno de mim e ainda assim eu continuo não sentindo medo, nenhuma sensação sufocante ameaça inundar minhas emoções. Há definitivamente ansiedade, uma queimação feia no âmago do meu estômago, mas não a sensação familiar de medo e terror que sentia quando Lawrence me tocava. Continuo

observando-o,

olhando

dentro

de

seus

olhos

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semicerrados, desesperadamente me perguntando o que ele está pensando. É piedade o que estava sentindo? Piedade pela mulher que assistiu ser espancada fisicamente e emocionalmente, dia após dia, ano após ano? Ou culpa por simplesmente ficar parado conforme Lawrence fazia comigo o que queria? Ou mais que isso? Seria algo além de Lawrence? O pensamento de que talvez seja lá o que fosse o que estava acontecendo ali não tinha nada a ver com Lawrence Whitney é um pensamento feliz. Ainda assim ao mesmo tempo, apavorante. Eu não sou como Evelyn, capaz de me perder em um momento, esquecendo o resto a não ser o aqui e agora, em nenhuma vez me permiti ser distraída pelo sexo oposto. Aquilo era coisa de Evelyn, seu jeito de lidar com suas emoções, a forma como ela torna seus dias um pouco menos longos e nossa situação um pouco mais suportável. Ao invés disso, me resigno a uma vida de frigidez, o pensamento de ser tocada por qualquer homem me deixava nauseada e desconfortável. Mas aqui, enfiada no meio de lugar nenhum, nosso destino desconhecido, quando qualquer momento pode ser o último, de repente me sinto muito diferente aquele respeito. Eu desejo mais, mas ainda assim… não quer. Ou não posso; não tenho certeza de qual. Olhando nos olhos escuros de Alex, arrepio de novo, só que dessa vez não de frio; eu estou tudo menos com frio. Um calor inesperado invade aquele lugar eternamente frio dentro de mim, se arrastando lentamente como o sol da manhã. Pequenos filamentos de luz gentilmente batem aqui e ali, deixando não mais tão frio. Na verdade, está absolutamente intoxicante. Suas mãos se movem lentamente por minhas costas, deixando ondas de calafrio e ansiedade em seu despertar. Varrendo meu cabelo para longe do meu rosto, a ponta dos seus dedos atenciosamente alisando minha mandíbula até que ele pega meu queixo em sua mão, inclinando meu rosto na direção do seu. Ele vai me beijar? Deus, faz tanto tempo desde que fui beijada de verdade, beijada apenas por vontade de beijar. Muito tempo desde que

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conseguia me lembrar de querer retornar o gesto. Era errado querer beijar ele? Parece errado, mas mesmo assim… eu quero isso. Almejo este conforto e este calor, esta intimidade. Quero algo para aliviar o medo, o frio, a culpa paralisante e o arrependimento. Só por um momento, por um único momento, desejo me lembrar como era se sentir viva. Por minha própria vontade, inclino minha cabeça um pouco mais. Minhas pálpebras fecham, uma lágrima solitária desliza em meu rosto enquanto espero pelo beijo dele. Ao invés disso, sinto seu dedo enxugar minha lágrima e um momento depois seus lábios pressionam minha bochecha molhada. Um tremor me percorre e meus lábios abrem, dando uma golfada de ar necessária conforme ele passa levemente seus lábios nos meus. Com meus olhos ainda fechados, ao mesmo tempo em que arquejo, gemo contra seus lábios, sentindo sua respiração quente misturando com a minha. “Leisel…” firmemente apertados um contra o outro, consigo sentir o vibrar do meu nome em seu peito. “Leisel, olhe para mim”. Eu não respondo; não consigo abrir meus olhos. Estou congelada no lugar pela dualidade das minhas emoções, incapaz de tomar uma decisão de um jeito ou de outro. “Por favor”, sussurro, não muito certa sobre o que imploro, nem segura de nada naquele momento. O que eu queria? O que estava fazendo? Ele me beija então, outro toque de seus lábios contra os meus. Uma vez, duas e depois ele emoldura suavemente sua boca na minha. Por conta própria, minhas mãos começaram a mover, uma tomando seu lugar no pescoço dele e depois se enterrando em seu cabelo. A outra mão encontra seu bíceps, meus dedos se acomodam graciosamente nos músculos rígidos. Sua boca se torna mais ávida, mais exigente e quando toca na minha, sou lançada em outra volta, minha excitação aumenta rapidamente. Eu o agarro com mais força no instante em que me envolvo mais em seus braços para ter um melhor acesso à sua boca. Algo está acontecendo comigo, algo que me faz sentir ao mesmo

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tempo forte e fraca. Fraca por me submeter, por deixar meu corpo ignorar o que o meu cérebro e meu coração não conseguiam racionalizar e, ainda assim, forte por deixar ir, mesmo que só por um minuto, a culpa e o arrependimento que nunca pareciam me abandonar. “Lei”, Alex murmura contra a minha boca. Sua mão envolve meu rosto, se afasta de mim. Abro meus olhos, vendo-o pela primeira vez desde que nos beijamos. O encaro, olhando dentro das profundezas de seus olhos escuros, observando a luz que cintilava dentro deles. E ele me encara, procurando em minhas feições. Procurando pelo que, não sei, só estava consciente do meu coração acelerado e da minha respiração irregular. “Alex”, sussurro emocionada quando a agitação do calor começa a recuar. Soltando meu aperto dele, minhas mãos caem em seu peito, empunhando sua camiseta. Eu não posso perder este momento, não estou pronta para voltar para o frio, para o medo e para a culpa. Para as minhas memórias. Mais que qualquer coisa, o que eu quero agora, só por esse momento, é ter um valioso agora mesmo. Ele deve ter descoberto o que eu estava querendo. Ainda segurando meu rosto, abaixa sua cabeça na minha e cobre minha boca com a sua mais uma vez.

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Capítulo Dezoito Evelyn

Estava claro quando acordo, o sol se espremendo para dentro da cabana pelas fendas nas janelas cobertas por tábuas, lançando estranhas formas sombreadas da minha cabeça na parede. Piscando para afastar qualquer vestígio de sono restante, rolo de costas, observando flocos de poeira voar no ar frio. Meu peito parece pesado, cheio de fardo e aversão por mim. Não quero ser nada menos que humana, como os infectados eram, ou os lunáticos em Covey, mas eu não conheço nenhum outro jeito. Outro além de Leisel e talvez Alex, todos os outros eram expansíveis. Foi assim que sobrevivi, o único jeito que eu sabia sobreviver. Estico-me para os lados, tateio ao redor procurando por Leisel, precisando dela para me situar, me fazer sentir menos péssima. Confusa quando minha mão não a encontra, me viro de lado e acho a cama vazia. Sento-me abruptamente, minha mão foi direto para o cabo da minha faca, meus olhos vasculharam a cabana. E então sorrio. Sentada contra a parede próxima ao fogão, Leisel estava embrulhada nos braços de Alex. Pressionada contra o peito dele, suas feições estavam relaxadas em um sono pacífico, enquanto Alex estava curvado em torno dela, sua postura relaxada, sua cara carrancuda havia partido, o fazendo parecer mais jovem, como um homem de sua idade deveria parecer. Eu os encaro, parecendo tão tranquilos, por um momento esqueço. Esqueço onde estávamos, o que tinha acontecido no

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mundo ao nosso redor, a dor e a tortura e a sempre crescente culpa. Aquilo é uma coisa linda de ver, duas pessoas libertadas de seus fardos, mesmo que apenas temporariamente. E por um momento, parecem me libertar do meu. Inclinando-me contra a parede, deixo minha faca cair e continuo observando-os dormir, imaginando uma vida para eles. Uma vida mais suave, com bolos de chocolate no Natal e churrascos no quintal. O tempo passa lentamente, o agradável e calmante som de suas respirações pesadas me conforta ao ponto em que começo a divagar de novo. Ainda pensando em dias melhores, fecho meus olhos, visualizando nós quatro – Leisel e Alex, eu e Jami – na praia, deitados ao sol, cervejas geladas em nossas mãos. Haveria uma banda ao vivo tocando a distância, o som da música flutuando na brisa do verão. Talvez houvesse até mesmo crianças brincando ao nosso lado. Suas pequeninas vozes, risadas inocentes e vibrantes. Sempre quis ter filhos. Shawn e eu tínhamos planejado ter ao menos dois. Mas então vi Shawn como o tinha visto pela última vez, infectado e morrendo, me implorando para matá-lo antes que acabasse me machucando. Rangendo meus dentes, rapidamente afasto a imagem do rosto de Shawn, substituindo por Jami. Pintando nosso filho com meus cabelos avermelhados e o sorriso levado dele. Ele me deu um beijo de adeus. Um soluço aloja em minha garganta, me expulsando do meu sonho acordado e me trazendo de volta a realidade, para essa realidade dura e feia onde Leisel, Alex e eu estávamos dentro de uma decrépita cabana vedada por tábuas onde apenas há um dia uma garotinha morreu. Esfregando meus olhos, me sento mais ereta quando um tipo de grunhido soou do lado de fora da cabana. Imediatamente pulei para fora da cama, novamente pegando minha faca. O som dos meus pés batendo no chão acorda Alex, seus olhos instantaneamente alerta e seu corpo rígido. Os olhos de Leisel estavam

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abertos agora também, abertos e sem piscar, focados na porta. Outro grunhido soa, dessa vez seguido por uma batida na parede, fazendo a porta e as janelas sacudirem. “Acha que fomos vistos?” sussurro asperamente, já me movendo em direção a janela. “Foi o sangue”, Alex sussurra de volta. Ele e Leisel estavam silenciosamente se arrastando para mim. Curvo-me silenciosamente, mentalmente me repreendendo por não me lembrar da trilha de sangue que a garotinha deixou ao despertar. Foi por provavelmente toda a floresta, guiando os infectados até nós. Eu devia ter coberto isso, tentado mascarar de alguma forma. “Merda”, murmuro, espreitando pelas tábuas. “Isso é ruim”. Conto seis infectados e isso era só o que eu consegui prontamente ver através dos pequenos espaços entre as tábuas. Podia haver muito mais e provavelmente havia. Pior, eles claramente sabiam que estávamos aqui dentro e assim que suas visões caiam sobre alguma coisa ou alguma pessoa, nada podia distrair a atenção deles. Quando Alex se junta a mim na janela, me afasto para o lado, dando a ele espaço para se inclinar e dar uma olhada. Ele não diz nada enquanto encara pelo espaço pequeno, apesar de suas mãos se fecharam em punhos, as juntas ficando esbranquiçadas. Correndo as mãos pelos cabelos, com a preocupação gravada em seu rosto, Alex se afasta da janela e volta para o lado de Leisel, sua linguagem corporal ferozmente protetora. “Vamos ter que passar correndo por eles”. “Passar correndo por eles?” Leisel exclama suavemente, andando em volta de Alex. “Mas quantos estão lá?” Se erguendo na ponta dos pés, espia pelos espaços das tábuas, sua respiração presa. Voltando lentamente, seus ombros tremendo, ela olha para mim e Alex. “Você está me zoando?” diz com a voz estridente, seus olhos redondos como pires. “Nós não podemos passar por tantos.

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Eles vão arrancar a porta no minuto em que a abrirmos!” Ao som de sua voz, outro thump thump soou na parede da cabana, seguido por outro e outro. “Leisel!” Alex rosna, a encarando. “Mantenha sua voz baixa”. Colocando minhas mãos em minha cabeça, começo a andar pelo cômodo. Eles se tornaram mais barulhentos, mais agitados e quanto mais barulhentos se tornavam, mais atenção atraiam. Em breve seriamos cercados por todo e qualquer infectado das redondezas e sabe-se lá quantos eram. Cinquenta? Cem? “Merda, o que vamos fazer?” sussurro freneticamente. “Eu já disse”, Alex fala. “Vamos passar correndo por eles”. Passando por mim, Alex olha para o telhado, provavelmente procurando por alguma rota de fuga alternativa. Balançando sua cabeça e murmurando para si mesmo, se move em direção a parede de trás, onde gentilmente bate os nós de sua mão nas ripas de madeira. O som de resposta foi oco, especialmente com o pano de fundo de todo o barulho que os infectados estavam fazendo. “Alex?” Leisel sussurra. “O que está fazendo?” “Temos que fazer o máximo de barulho que conseguirmos nessa parede”, ele diz, apontando. “Assim atraímos tantos deles quanto possível para os fundos da cabana e depois corremos pela porta”. Virase e olha para nós duas com sua expressão determinada. “É o único jeito de sair daqui”. Leisel parecia apavorada e apesar de me recusar a demonstrar isso, sinto o mesmo. Era um plano de merda, mas, ainda assim, é o único plano que nós temos. “Vamos fazer isso”, eu digo, depois levanto a bolsa que fizemos com os itens que coletamos na noite anterior e a coloco apertada em minhas costas. Segurando minha faca em uma mão, entrego a Leisel o martelo que encontramos. “Leisel”, Alex fala. “Fique pronta para abrir a porta quando eu

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disser”. Segurando o martelo como se fosse um taco de basebol, ela engole em seco com força e assentiu. Rastejando lentamente em direção a porta, coloca uma mão na fechadura, pronta para girá-la quando Alex dissesse para virar. Apontando seu queixo para a parede, Alex começa a bater na madeira, sinalizando para eu fazer o mesmo. Quando seus punhos repetidamente espancaram a parede, começo a bater e chutar, fazendo o máximo de barulho que conseguia. “Esta funcionando”, Leisel sussurra ruidosamente. “Eles estão andando, não todos, mas alguns estão se afastando”. Dobramos nossos esforços, batendo na parede com mais força e mais entusiasmo que antes, até eventualmente um fino brilho de suor molhar minha testa. Fico com inveja da força de Alex; ele não estava nem remotamente ofegante pelo esforço físico, enquanto eu me canso rapidamente. Mais determinada que antes, aperto meus dentes e soco com força. Sobreviveria nesse mundo; Leisel e eu, nós duas sobreviveríamos neste mundo. Logo, não éramos os únicos batendo na parede de trás. Os infectados estavam do outro lado, seus punhos batendo em resposta aos nossos, os grunhidos e rosnados ainda mais altos que antes. Olhando por cima de seu ombro, Alex olha para Leisel. “Como está ai?” “Tem três que eu consigo ver”, ela sussurra de volta. Ainda batendo na parede, ele me olha de volta. “No três a gente corre”. Espera que nós duas assentíssemos antes de começar a contar. “Um, dois… três. Abre a porta!” Agarramos nossas armas, Alex para para pegar uma cadeira que está perto ao mesmo tempo em que Leisel destranca a porta. A porta abre, revelando três infectados. Eles são velhos, suas peles encovadas para dentro e negras pela exposição ao tempo, seus membros pouco mais que pele cobrindo o osso. Não tinham olhos, a razão pelo qual não seguiram os outros, ainda que suas orelhas

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parecessem boas já que grunhiram ferozmente em nossa direção, já bambeando em direção ao barulho que fizemos simplesmente abrindo a porta. Usando a cadeira, Alex os atira de costas no chão e depois agarra a mão de Leisel e a puxa para fora da cabana. Nós corremos as cegas através da clareira, sem se incomodar em ver se os outros infectados nos viram. Os três se tornam um borrão conforme corríamos, nossos passos são barulhentos e desajeitados na vegetação rasteira. Os galhos prendem meus cabelos quando passava por eles, mas não diminui a velocidade, nem mesmo quando meus pulmões queimam e meus músculos doem. Nem mesmo quando o suor escorre por meu rosto e queima meus olhos. Fora da clareira, as árvores são mais densas, tornando difícil ver onde estams ou para onde vamos. Mas mesmo assim não paramos, não até chegarmos a uma ribanceira que dava em um rio, outra margem com ribanceira no lado oposto. Zonza, caio de joelhos e me inclino para frente, minhas mãos enterrando na lama enquanto tento recuperar o fôlego. Leisel cai no chão ao meu lado, sua pele pálida estava avermelhada pelo esforço, seus cabelos escuros molhados de suor. Juntas, sugamos o ar em um ritmo rápido. “Nós… temos…” Alex engasga, levando um momento para estabilizar sua respiração. “Temos que… atravessar isso”. Passando sua manga em sua testa, Leisel olha para ele. “Porque não podemos dar a volta?” ela pergunta, ainda sem fôlego. “Você normalmente não contorna rios”, ele diz a ela. “Eles podem seguir por quilômetros”. “Então, por cima?” ela pergunta. “Ou através dele?” “Muito perigoso ir através dele”, Alex disse, franzindo o cenho como se estudasse a água abaixo de nós. “Se a corrente estiver muito forte, seriamos levados”. Parecendo frustrado, ele balança sua cabeça.

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“Há muitas variáveis a se considerar”. Levantando-me, meu corpo inteiro protestando a qualquer movimento, coloco minhas mãos nos quadris e suspiro alto. “Então vamos contornar”, eu digo criticamente, irritada com a nossa indecisão. “Não faz sentido só ficar parado aqui falando sobre isso”. Eu ia oferecer minha mão para Leisel, mas percebi que Alex já estava fazendo isso. Pegando sua mão na dele, ele a levanta facilmente. Por um momento os dois ficaram parados ali, ele olhando para ela, ela olhando para ele, fazendo me sentir incrivelmente esquisita. Limpando minha garganta, me afasto, propositalmente dando passos mais pesados que o normal. Logo, ouço os dois caminhando em silêncio, constantemente de guarda, não consigo evitar pensar quão afortunado era que tivéssemos acordado tão cedo quanto tínhamos. Iríamos precisar do máximo de luz do dia possível para encontrar um lugar seguro para passar a noite.

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Capítulo Dezenove Leisel

“Do que você sente mais falta, Eve?” pergunto, desacelerando meus passos até estarmos lado a lado. Não avistamos nenhum infectado há horas, algo que não me surpreende considerando o quão fechada é a mata onde estávamos. As árvores são inacreditavelmente grossas aqui, providenciando obstáculos enormes em algumas partes e o chão muito desnivelado em alguns lugares, tudo isso torna nossa jornada mais cansativa. Mas mesmo assim, é lindo olhar. As folhas normalmente verdes começam a sofrer a mudança de estações, onde toma tonalidades vibrantes de âmbar, púrpura e violeta. Faz tanto tempo que eu não tenho paz mental para simplesmente curtir a natureza em toda a sua glória. Paz mental a parte, pelo meio-dia, o sol alto no céu, estou ficando cansada e desesperada por uma distração, algo para impedir de me preocupar com o aumento das minhas dores e cãibras. “Essa é uma pergunta boba”, Evelyn diz, torcendo seu nariz para mim. “Você sabe do que mais sinto falta. Quem eu sinto mais falta”. “Não”, corro para consertar meu erro. “Não quis dizer isso. Eu quis dizer de que coisas estúpidas e insignificantes sente falta? Não de Fredericksville, mas de… antes?” Estou assumindo um risco ao trazer o passado à tona novamente; Evelyn nunca fala sobre isso. Mas depois da nossa conversa coração a coração ela pareceu mais aberta a isso, finalmente desejando relembrar como a vida foi antes do vírus tirar o chão debaixo dos nossos pés. Ao

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menos, até o incidente da cabana. “Oh”. Franze seus lábios. “Hmm, quer dizer além de Starbucks, cervejas geladas e biquínis?” Sorri para mim. “Sinto falta de gelo”. Suspirando alegremente, ela diz, “sinto falta de gelo, sorvete, picolé e margaritas. Sinto falta de qualquer coisa que não esteja em temperatura ambiente”. Encolhe os ombros e suspira de novo. “E do que você sente mais falta, Lei?” “Banhos que não precisam ferver água”, oferecço. “E depilação. Deus, realmente sinto falta de me depilar. Oh, e Butterfingers7, água sem gosto metálico…. oh! E certamente sinto falta das botas pantufas, lembra daquelas, né? Pink com..” “Como poderia esquecer?” Evelyn interrompe, fazendo uma careta. “Pareciam como marshmallows gigantes, peludos e cor-derosa”. “Elas eram bem confortáveis”. “Não, Lei, eram bem feias”. Mostro minha língua para ela antes de lançar um rápido olhar para as minhas roupas folgadas. Dando uma pequena bufada, digo, “Sinto falta das minhas roupas também”. “Você nunca ligou para suas roupas!” Evelyn protesta. “Eu tinha que praticamente te arrastar para o shopping comigo”. “Não ligava muito para as minhas roupas”, falo, corrigindo. “Mas a diferença é que elas eram minhas roupas e acontece que eu gostava muito delas”. Faço um gesto indicando o meu conjunto ridículo. “Isto”, digo apontando, “desgosto muito”. Evelyn desacelera seus passos, nivelando um olhar de descrença comigo. “Não é você aquela que usava um tubinho de noite rosa, Lei? Com corações e estrelas nele?” A nossa frente, Alex rosna um som parecido com uma gargalhada, me assustando. Evelyn e eu olhamos uma para a outra, nossos olhos

7

Barra de chocolate ao leite com recheio de creme de amendoim

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arregalados pela surpresa. Teria Alex só… gargalhado? Reajustando sua bolsa provisória, Evelyn coloca uma mão em seu rosto, cobrindo sua boca. “Acho que é a primeira vez na vida que Alex dá uma gargalhada”, ela sussurra. “Na vida”. “Concordo”, sussurro de volta. “Fez um som meio enferrujado”. “Consigo ouvir vocês”, Alex murmura, não se incomodando em nos lançar um olhar. “E acho que vocês parecem duas garotinhas mimadas. Suas roupas estão limpas e secas – não deveria ser importante a aparência delas”. Evelyn vira para mim, seus olhos arregalados de divertimento. “Vocês parecem duas garotinhas mimadas”, ela cochicha caçoando. Olhando para o lado, coloco minha mão sobre minha boca, engolindo de volta minha risada. Mesmo assim Evelyn continua a imitar Alex, indo ainda mais longe ao imitar o jeito que ele estava andando, seus ombros quadrados, suas costas muito retas. No geral, ele tinha um tipo de padrão de marcha nele. “A propósito”, Evelyn sussurra de novo e sinto um suave beliscão no meu braço. “Você o beijou na noite passada?” Meus olhos arregalam e olho para o chão da floresta. Sentindo meu rosto ficar mais quente, mordo meu lábio inferior e continuo andando, cuidadosamente a ignorando. Sinto outro beliscão, depois outro e em seguida Evelyn começa a me dar socos, de novo e de novo. Não importa quão rápido eu andasse, as pernas dela são mais compridas e rápidas que as minhas. Cada vez que tento ir mais rápido, ela está bem ali, ainda me batendo no braço. Somente uma vez Alex olhou por cima do seu ombro, vendo o que estávamos fazendo, agindo como crianças ridículas. Ele revira seus olhos e rapidamente afasta o olhar. “Sim!” sibilo, incapaz de aguentar outro segundo de seus soquinhos incessantes. “Eu o beijei!” Dando uma parada abrupta, viro na frente dela, apontando um dedo acusatório. Mas quando a vejo sorrindo, rindo na verdade, não

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consigo ficar brava. Apenas não consigo. Não com ela. As notícias pareceram emocionar Evelyn, que logo solta um pequeno grunhido de excitação. Entrelaçando seu braço no meu, me puxa para mais perto e começamos a andar juntas. “Andem logo”, Alex chama. “Estão ficando para trás”. “Espero que seja mais divertido beijar ele do que viajar com ele”, Evelyn sussurra. “Shh” advirto suavemente. “Cala a boca!” “Eu posso ouvir vocês”, Alex grita, seu tom era seco mais ainda com um toque de divertimento. “Alto e claro”. Sentindo-me contente, aperto meus lábios e lanço meu olhar para baixo, sorrindo para mim mesma. Não consigo relembrar da última vez em que me senti tão… Ok. Não posso mentir e dizer que estava feliz, não com os infectados sendo uma ameaça sempre presente. Não quando não tinha jeito de saber como ou quando teríamos nossa próxima refeição, ou encontrar um lugar seguro para passar a noite. Mas mesmo assim, naquele momento singular, me senti melhor do que eu poderia me lembrar sentir em muito tempo. Livre e mais como eu mesma do que fui há anos.

*** Horas depois, quando o sol começa a descer, as árvores diminuem, alcançamos uma estreita passagem suja. Alex se inclina em um joelho, inspecionando a trilha. “Isso não está indo pelo mato”, ele medita em voz alta. Se levantando, olha para a esquerda e depois a direita, sua expressão zombeteira. “Esta sentindo esse cheiro?” Evelyn pergunta, levantando seu queixo e farejando o ar. Dou a ela um olhar questionador e farejo

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também. “É como… algo queimando?” Alex sugere. “Ou que esteve queimando”. No começo não consigo sentir nenhum cheiro anormal; a floresta cheira como eu esperava – úmida, fresca e limpa, toques de musgo e pinheiro e o cheiro ácido amadeirado de folhas começando a apodrecer. Inalo com força, sugando o ar por minhas narinas e garganta até começar a classificar os cheiros misturados e descubro que um deles estava mesmo fora de lugar. Algo parecido com o aroma de uma fogueira acesa, quando o fogo já apagou, mas as brasas ainda estão queimando. “Não tenho certeza”, Alex diz, espiando a estrada. “Mas acho que isso está vindo com a brisa. Nós podemos ir para o Oeste e dar uma checada, ou a Leste e ver se esse caminho nos leva a uma estrada”. Vira o rosto para mim e para Evelyn, aguardando nossa resposta. Como ele sabe qual caminho é oeste, me pergunto, sem uma bússola? “O sol ergue no Leste”, ele diz, respondendo minha pergunta não verbalizada com uma piscadinha. “E se põe no Oeste. E musgo”, continua, apontando para um grande carvalho. “Supostamente cresce no lado norte, porém não tenho certeza o quanto preciso é”. “O que você fazia antes?” pergunto, intrigada e repentinamente querendo saber mais sobre ele. “Antes da infecção”. Ele levanta um de seus ombros largos, depois o abaixa indolentemente. “Na verdade nada. Tinha dezenove anos quando a infecção tomou o país. Eu estava na faculdade pública, jogava futebol todo fim de semana com meus amigos, caçava com meu pai, ainda não sabia o que queria fazer da vida”. Deu de ombros novamente, mais com seu rosto que com seu corpo. “E ainda não sei”. “Do que mais sente falta, Alex?” Evelyn pergunta abruptamente. “De antes?” Ele não responde imediatamente, seus olhos buscando algo ao longe. Eu o observo, me perguntando se era assim que eu parecia

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quando pensava sobre o passado. “Musica”, finalmente falou, voltando a focar em mim. Ainda o observando, sinto meu coração esmurrar dolorosamente em meu peito, meu bom humor rapidamente esvaindo. Não foi o que ele disse, mas o jeito que disse. Quieto e cheio de desejos, mas, ao mesmo tempo, parecendo resignado. Como se ele verdadeiramente acreditasse que música, junto com cervejas geladas e pantufas cor-derosa, se tornaram extintas e somente em nossas memórias iríamos ter essas coisas outra vez. Evelyn limpa sua garganta. “Que tal irmos para Oeste?” ela pergunta. “E ver o que está causando esse cheiro? Quem sabe? Talvez encontremos um par de pantufas rosa”.

*** Sempre o protetor, Alex insiste que Evelyn e eu ficássemos atrás dele enquanto fazemos nosso caminho pela estrada suja. Vamos ao lado da trilha, principalmente, Alex quer acesso rápido a floresta caso acontecesse de precisarmos de uma saída rápida. Eu mantinha meu martelo firme na mão, apesar de que não tinha ideia se serviria usá-lo em um infectado, se seria capaz de juntar coragem suficiente. Por mais ou menos meia hora, me parece que a estrada estava nos guiando a lugar nenhum. Começo a me sentir como a Dorothy no Mágico de Oz, em uma longa estrada para algum lugar bom, com a possível ameaça de monstros aguardando para pular a cada curva. Mas para Dorothy, isso tudo foi apenas um sonho. Se fosse assim tão simples, penso, me sentindo aborrecida de repente. Só sapatear e cantar “Não há lugar como o lar, não há lugar como o lar”. E então, poof, acordaríamos desse pesadelo, sãos e salvos em nossas próprias camas aquecidas, os monstros haveriam sumido. “Dorothy era uma vadia sortuda”, murmuro. “O que disse? Esta xingando alguma coisa?” Evelyn pergunta, me

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observando com curiosidade. “Quem é vadia?” “Ninguém”, resmungo, me sentindo boba. “O cheiro está ficando mais forte”, Alex anuncia, diminuindo sua marcha a um simples rastejar de pés. “Olha”. Ele aponta para cima e ao redor de uma pequena curva. “A entrada de uma garagem”. Pisco, tentando ver melhor e vislumbro uma entrada de cascalho escondida entre as árvores e subindo por uma pequena inclinação. Continuamos a andar, nós três em constante alerta de qualquer movimento ou som que parecesse fora de lugar, Alex com seu rifle na frente e Evelyn segurando sua faca conforme eu mantinha firme o meu martelo. Lentamente e silenciosamente, nos aproximamos da entrada da garagem e Alex levanta um braço, sinalizando para Evelyn e eu ficarmos enquanto dava uma checada. Estico-me, segurando a manga da blusa dele para chamar sua atenção. Quando nossos olhos se encontraram, não sei exatamente o que eu quero dizer, só que sentia que devia dizer algo. A cada segundo parecia que caminhávamos para um tipo de perigo ou outro, e no caso de não sermos capazes de nos salvar do que estávamos para encontrar, queria que Alex soubesse… Na verdade, não estou totalmente certa do que eu desejo que Alex compreendesse, talvez só que me preocupo com o que poderia acontecer com ele. Sim, queria que ele soubesse que eu me importo, então tento demonstrar aquela emoção ficando na ponta dos pés, levantando meu rosto ao dele e pressionando um suave e rápido beijo em seus lábios. A mão de Alex encontra minha cintura, me puxando para ele enquanto aprofunda o que deveria ter sido só um pequeno gesto, transformando isso rapidamente em algo maior. “Tome cuidado”, murmuro, depois me afasto. Uma sensação de Déjà vu cai sobre mim, perturbadora e poderosa e de repente não era Alex na minha frente, mas Thomas, junto com Shawn, prontos para esquadrinhar a vizinhança a procura de água e comida, parado na minha frente, me dando um beijo de despedida e eu sussurrando para ele, “Toma cuidado”. Quatro horas depois ele retornou coberto de marcas de mordidas,

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Shawn meio carregando ele para dentro da casa. No dia seguinte rendeu-se a febre. Afastei-me de Alex, sentindo-me nauseada e um pouco sem ar e procuro pela mão confortadora de Evelyn. Ela está lá, sempre esteve lá, deslizando sua mão na minha e apertando gentilmente. “Vou assobiar”, Alex diz, olhando para nós duas. “Uma vez para virem e duas para correrem”. De mãos dadas, Evelyn e eu ficamos no final da pequena colina, assistindo Alex tomar seu caminho para cima e saindo de vista. Esperamos lá pelo que pareceu ser uma eternidade, sem falar, mal respirando, até que finalmente ouvimos – um único assobio. Juntas, Evelyn e eu subimos correndo a colina. Alex entrou em nosso campo de visão, primeiro seus cabelos escuros, depois suas costas largas. Há mais árvores, depois uma larga clareira e, aquilo era um caminhão? Sim, era um caminhão! E dai, quando o resto da cena se revela por si mesma, empacamos no caminho. À esquerda para fora da clareira estava a casca do que alguma vez tinha sido uma casa. Grossas lascas espalhadas apontadas para o céu, enegrecidas e carbonizadas, empilhadas assustadoramente sobre uma fundação em ruínas – pilhas de vidro quebrado, poeira negra e madeira torcida e queimada. “Oh Meu Deus”, Evelyn sussurra. “Há tantos ossos…” Meus olhos escancara, minha boca cai aberta. O que pensei que fossem pedaços contorcidos de madeira queimada eram, na verdade, ossos. E agora que eu sabia exatamente para o que estava olhando, consegui distinguir o que aparentava ser uma caixa torácica e ao lado dela, um crânio. “Nós temos companhia”, Alex fala, sua voz baixa conforme gesticulava em direção ao caminhão. O que uma vez foi um homem, mas agora era um monstro, estava

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pressionado contra a janela respingada de sangue do lado do motorista. Seu rosto estava contorcido em uma diabólica careta, desdentado e mastigando o ar enquanto suas mãos estapeavam o vidro, desenhando manchas escuras para cima e para baixo quando batia. “Ele é um recém-transformado”, Evelyn diz, engolindo em seco. “Vai ser mais rápido que os outros. Mais forte também”. “Aquele caminhão parece que pode funcionar”, Alex emite calmamente. “Este fogo foi recente. E olha…” ele aponta para a carroceria do caminhão onde três latas de gasolina estavam empilhadas e uma linha escura de um líquido podia ser vista nos três. “Combustível”. A cena inteira era devastadora. Algo obviamente horrível aconteceu aqui e com pessoas como nós, que se esconderam e simplesmente tentaram sobreviver. Não tinha como saber o que realmente ocorreu, porém visualizava uma família, talvez alguns amigos, que se esconderam em uma casa no mato quando um deles de alguma forma foi infectado. Aquele um provavelmente infectou todos os outros, até mesmo o sobrevivente que tentou sem sucesso escapar neste veículo. Tirando meus olhos das ruínas, olho para Alex. “O que deveríamos fazer?” pergunto, minha voz estava rouca de emoção. Foi Evelyn que responde, o sentimento dela era totalmente diferente de como eu estava me sentindo. “O matamos”, ela diz, enfaticamente. “E pegamos o caminhão”.

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Capítulo Vinte Evelyn

O matamos e pegamos o caminhão. É claro que mataríamos, essa era a coisa mais humana a fazer, certo? E precisávamos de um caminhão. Então porque me sentia tão culpada? Eu expressei isso tão rápido que consegui chocar a mim mesma. Sim, esta nova Evelyn era uma versão de mim muito mais maníaca que qualquer outra versão de que podia me lembrar. Meus violentos altos e baixos, minhas emoções embaraçadas com estranhos períodos de indiferença, faziam parte de mim e sempre consegui manter isso escondido, no passado. Mas aqui, nesse mundo aberto, parece como se tudo estivesse derramando para fora, todas as minhas dores secretas. E isso me faz sentir inútil, e por sua vez, vulnerável. Minha fuga típica das minhas emoções havia acabado, era impossível sem Jami aqui para me distrair e agora questionava cada pensamento que eu tinha, assim como cada ação. Esfregando sua mão em seu queixo, Alex alisava pensativamente a penugem que cobria sua mandíbula. “Eve, vai para o lado do passageiro e o distraia. Vou pegar o outro lado e abrir a porta e quando ele vier, eu mato ele”. “E eu?” Leisel nos pergunta, apertando com mais força o martelo em sua mão. “Fica aqui”, Alex e eu respondemos juntos. Os lábios de Leisel ficam comprimidos e seu olhar baixa para o cascalho debaixo de seus pés. Sinto uma pontada de culpa por cortá-

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la assim tão descuidadamente, mas a verdade é que ela não tinha uma experiência real em matar estas coisas, com exceção daquele na igreja. Ela sempre foi protegida deles e eu não arriscaria perdê-la nas mãos de um infectado. E Alex aparentemente compartilhava de meus sentimentos. Eu a observo ao mesmo tempo em que ela olha horrorizada para uma pilha de ossos em chamas e isso solidifica meus medos por ela. Não chora, mas fica claramente aterrorizada, algo me diz que ela não está pronta para tomar o mundo do lado de fora dos muros, pelo menos não ainda. Assentindo para Alex, me esguero pelo lado do passageiro, minha faca levantada para o caso de precisar ser rápida. Você nunca deve confiar que estas coisas vão fazer o que você quer ou espera; eles vivem por suas próprias regras, fome é a única coisa em suas mentes. “Está pronta?” Alex para do outro lado de onde eu estaou, com o caminhão entre nós. Esquadrinhando meus ombros, coloco minha faca à frente e consinto. “É claro”, eu digo, me certificando de que minha voz transmitisse confiança e força. O infectado se debate, atirando seu corpo contra a janela em sua ânsia de pegar Alex, tamanha era essa, que nem consegui imaginá-lo prestando atenção em mim não importasse quanto barulho eu fizesse. Só quando coloquei minha faca contra a janela do passageiro que seus olhos enevoados agitaram em direção ao som e ele se lançou do outro lado do banco. Quando ele se grudou na janela, o vidro audivelmente inclinou sobre o seu peso e com um ligeiro crack começou a rachar. Novamente, ele bateu sua cara na janela, seus dentes rangendo, sua língua – um pedaço de carne seca e pútrida – deslizando pelo vidro, fazendo meu estômago dar voltas. Conforme prendia sua atenção total, Alex pega uma arma para usar como faca e abre a porta, depois da um passo para trás e a ergue. Quando o cheiro de carne humana fresca flutuou para dentro da cabine

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do caminhão, o infectado parecu dar uma pausa em ficar se atirando, sua cabeça girando em outra direção. Ao mesmo tempo ele rosna e grunhi, se jogando na direção de Alex. Alheio ao desnível entre a cabine e o chão, a coisa desaba de cabeça para baixo e prontamente sai da minha vista. Com sua faca ainda erguida, Alex se apoiou em seus joelhos e um doentio ruido de algo esmagado ecoou no ar, seguido por um estampido. Quando rodeio o caminhão, ainda segurando minha faca na minha frente, pronta para usar se necessário, encontro Alex se levantando, sua faca em uma mão, de onde pingava um lodo vermelho e negro e na outra um molho de chaves. O infectado permanece com a cara no chão a seus pés, completamente parado. Dando uma olhada para dentro da cabine, olho para o banco, o banco estava totalmente coberto de sangue seco e uma gosma nãoidentificável. E o cheiro, o cheiro era deplorável, tipo uma combinação de esgoto num sol escaldante, junto com o fedor doentio de morte que todos os infectados carregavam com eles. Similar a carne apodrecida, porém indescritivelmente pior. “Isso é nojento”, Leisel fala, vindo parar ao meu lado. “O banco de trás é meu, vi primeiro”. Com uma bufada, começo a rir. “Seja minha convidada”, digo, apontando para o pequeno assento traseiro onde uma carcaça humana repousava em uma pilha contorcida de forma anormal. Era só um esqueleto, tinha sido privado da maioria de seus órgãos e entranhas, apesar da meleca pegajosa que restava espalhada e seca por todo o banco e assoalho. “Oh!” ela exclama, dando um passo para trás. “Deixa para lá”. Grunhindo de irritação, Alex para entre nós e balança sua cabeça. Abre a porta para o banco traseiro, então agarrou o pé do esqueleto e o arrastou para fora. Há um barulho alto e depois um audível crack e, de repente Alex cambaleia para trás, tropeçando sobre o corpo que

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ainda estava esticado na terra, caindo de bunda no chão. Leisel coloca uma mão sobre sua boca, enquanto eu gargalho ao vê-lo no chão segurando um pé do esqueleto em cada mão. Levantando os olhos em nossa direção, fecha a cara, o que só me fez rir ainda mais. “Oh Meu Deus!” Leisel exclama, secando lágrimas em seus olhos. “Você precisa de uma mãozinha ai?” ela pergunta, oferecendo sua mão. “Esta fazendo graça, Leisel?” Alex replica, uma sobrancelha levantada. Antes que ela pudesse responder, Alex atira os pés do esqueleto para o lado e agarra a mão dela, a puxando para baixo. Colocando-a sobre ele, os rola, invertendo suas posições e cobrindo o corpo de Leisel com o seu. E então ele a beija. Sendo deixada ali, totalmente esquecida, encaro-os boquiaberta, meu rosto começando a ficar quente. Isto era tão diferente da Leisel que eu conhecia, o jeito que ela o beija com tamanho selvagem abandono, cheia de paixão e bem ao lado do corpo de um infectado recentemente falecido, pior ainda. Mesmo com Thomas, um homem por quem era completamente apaixonada, ela nunca foi dada a demonstrações de afeto em publico, e isto… Sentindo-me esquisita, tusso e me afasto enquanto eles se separam. Alex pula de pé, puxando Leisel com ele. Apesar das bochechas dela estar vermelha e corada, ela sorri para ele, um sorriso genuinamente feliz, o tipo que nunca vi agraciar seu lindo rosto em muito tempo. Alex não estava sorrindo – não que alguma vez estivesse – embora ele a estivesse encarando, suas feições normalmente duras estavam relaxadas com um tipo de contentamento do qual me vi com ciúmes. Sabia como Alex se sentia em relação a ela, mas Leisel, apesar de sua proximidade com ele por todos estes anos, mal o conhecia. E ainda assim, lá estava ela, se permitindo aproveitar o momento pela primeira vez na vida. O que me deixa confusa, com pensamentos e emoções correndo enlouquecidos, e o pior de tudo, sentindo-me sozinha e completamente sem o luxo de viver o momento com alguém. Devia ter ficado feliz por ela e na maior parte estava contente por ela. Contente por ter finalmente experimentado o tipo de liberdade da

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qual ela se privou por tanto tempo, mas, ao mesmo tempo, fui deixada me perguntando onde eu caberia. Quem me tornei nessa equação e estava precisando mesmo de algo além? “Se vocês dois já terminaram o namorico”, eu digo, tentando manter minha voz leve, “precisamos ver se essa coisa ainda anda”. Os dois olham para mim. Alex parece surpreso e Leisel um pouco envergonhada, como se só agora tivessem se lembrado de que eu ainda estava ali. Apontando meu dedo polegar em direção ao caminhão, levanto uma sobrancelha. Com sua cara dura de volta ao lugar, Alex esfrega uma mão em seu pescoço conforme suspirava pesadamente, então se dirige ao caminhão. Ignorando o sangue coagulado que cobria o banco, deslizou para dentro. Sua primeira tentativa de ligar o motor não deu em nada, só um zunido desesperado das engrenagens do caminhão tentando rodar. Ele tenta de novo, pisando nos pedais diversas vezes até que eventualmente o caminhão ruge para a vida, uma explosão de fumaça negra saindo do escapamento. Olhando em nossa direção, aponta com o queixo. “Entrem”. Leisel e eu trocamos um olhar, nenhuma de nós queria fazer qualquer movimento em direção ao caminhão. Apontando para o corpo ainda no banco de trás, balanço minha cabeça. “Nem pensar, não até isso sair dai”. “O que?” ele pergunta. “Você esta esperando que eu limpe isso? Que leve ao lava jato? Talvez uma limpeza minuciosa enquanto estou aqui?” “Quem sabe só tirar o corpo dali de trás?” Leisel sugere suavemente, seu nariz contorcendo de nojo. Suspirando com nervoso, Alex salta da cabine e puxa com força o banco da frente. Se inclinando para trás, exibindo a parte de baixo e a traseira de suas calças manchadas de sangue, ele energicamente retira o esqueleto remanescente do banco e o lança para fora do caminhão. O esqueleto rompe no ar, os ossos se espalhando quando se quebra no

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chão. “Esta bom agora?” pergunta, revirando os olhos.

*** As estradas eram esburacadas e desconfortáveis e, obviamente, não foram utilizadas há muito tempo. Escombros as cobriam – tudo, de árvores a carros quebrados. Quando passamos pelos arredores de outra cidade, um trilho de poeira flutuava em nossa passagem, o único movimento que tínhamos visto em horas. O dia estava escaldante. O suor gotejava debaixo dos meus seios, fazendo me sentir ainda mais desconfortável em minha camisola rosa, me deixando com calor e grudenta, faminta e morrendo de sede e com vontade de urinar ao mesmo tempo. Sentada atrás de mim, Leisel encara para fora de sua janela aberta, entorpecida. Ela enrolou seu longo cabelo castanho em um tipo de rabo de cavalo, me lembrando da vez em que cortou em um Longbob8 pontudo e chorou por semanas. Ele cresceu bem desde então, levando os quatro anos desde o começo desse pesadelo para voltar ao comprimento que ela sempre amou. Quatro longos anos… Suspiro alto, atraindo a atenção de Alex. Ignorando-o, fecho os olhos, meus pensamentos se distanciando. Ao falar sobre o passado, Leisel abriu uma ferida dentro de mim que ainda não tinha curado de verdade, me forçando a relembrar coisas que não me permitia recordar, tempos mais felizes que eram inúteis para mim agora. Ainda assim não conseguia parar o fluxo de memórias, a imagem de Shawn descansando na cama ao meu lado, roncando suavemente, um sorriso bobo em suas feições relaxadas depois de uma noite inteira fazendo amor. E de Leisel, 8

Corte irregular com pontas alongadas na frente.

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o jeito que ela sempre contorcia o nariz de desgosto quando eu tentava cozinhar e de como comia a comida apesar do gosto. Cada parte disso. Penso em minha mãe, meu pai, meu irmão caçula delinquente juvenil, o cheiro de pinheiro e biscoitos na época de Natal, a areia quente debaixo dos meus dedos durante os verões passados me espreguiçando na praia, do senso de moda horrível de Leisel e o jeito que Thomas nunca, nem uma vez sequer, olhou para ela com menos que absoluta adoração. Quantas coisas simples haviam sido e quão ingênuos nós todos éramos por causa disso, reclamando sobre coisas mundanas como contas e consultas no dentista. O que eu não daria para ter tudo aquilo de volta, onde minha única preocupação real era me certificar de pagar minha hipoteca em dia.

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Capítulo Vinte e Um Leisel

Dirigimos eternamente, só parando para comer, dormir e quando Alex caçava ou pegava água. Dirigimos por rodovias tristes e desoladas e estradas secundarias, muitas para contar, sempre tomando o cuidado de evitar cidades, não importava quão vazia ou debilitada parecesse à distância. Não, tínhamos aprendido nossa lição e não iríamos cometer o mesmo erro duas vezes. Continuamos a dirigir, parando a noite para dormir e só dormindo em turnos. Alex ou Evelyn permaneceriam acordados, montando guarda do lado de fora do caminhão, enquanto eu sempre tinha uma boa noite de sono. Quando a manhã chegava, Alex ou Evelyn dirigiam à medida que o outro dormia. E lá estaria eu, me sentindo mais e mais inútil a cada dia que passava. Na maior parte, os estados por onde passávamos pareciam estar em um tipo de impotência, sem nenhum sinal de vida para ser visto ou ouvido. Ocasionalmente, passávamos por pequenos e sonolentos grupos de infectados que, assim que passávamos por eles dirigindo, se tornavam rapidamente desinteressados em nós. Procuramos veículos abandonados, pegando tudo que pudesse ser útil para nós – roupas, ferramentas, qualquer coisa que pudesse ser usada como arma e depois dávamos o fora, evitando vizinhanças e áreas que tivessem uma vez sido povoadas a qualquer custo. Durante um longo trecho de terra, onde as manchas de floresta

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eram poucas e mais espaçadas e a caça era escassa, fomos forçados a parar duas vezes em busca de comida. Uma vez em uma área de acostamento fora da interestadual e uma vez em um posto de gasolina nos arredores de uma grande cidade. Ambos os lugares foram invadidos por infectados, algo que não percebemos de antemão. E ambas às vezes, Alex e Evelyn correram para fora dos prédios, atirando e gritando para mim “DIRIJA!” Com apenas tempo suficiente enquanto os grupos de infectados corriam atrás deles, eu pulava para o banco do motorista. Assim quando Alex fechasse a porta do passageiro atrás dele e de Evelyn e os infectados estivessem jogando seus corpos mutilados na lateral do caminhão, eu pisaria no pedal e fugiria em uma nuvem de fumaça. E tudo isso só por um saco de açúcar que não tinha estragado e por um minúsculo pedaço de carne seca tão duro que mal conseguia cravar meus dentes nele. Depois mandei que me deixassem dirigir, permitindo também que Alex ou Evelyn dormissem conforme eu ficava de turno. Até mesmo me ofereci para ficar de guarda durante a noite, mas fui rapidamente derrotada pelos dois, minha melhor amiga e… meu namorado? Era isso que Alex era, ou estava se tornando? Por enquanto, não havia muito tempo para conversas, ao menos não da variedade pessoal, então mantinha minhas perguntas e minhas imaginações para mim mesma. Nas noites que Alex não estava de guarda, eu dormia em seus braços e nas noites que ele estava, sentia falta do seu calor. Roubávamos beijos aqui e ali, toques gentis e abraços doces, mas somente quando Evelyn estava dormindo ou fora, se aliviando na privacidade. Quando pegamos nosso caminho para o Sul, as folhas das árvores ficam mais verdes, mais cheias, as noites frias e temperaturas baixas recuam e dão lugar a noites quentes e dias mais quentes ainda. Além de me sentir nojenta e suja, estava impaciente, fisicamente e mentalmente. Eu quero ter alguma privacidade com Alex para levar nosso relacionamento florescente a outro nível de intimidade. Estou

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cansada de só beijar, cheia de ser segurada com tanto cuidado por ele. Na verdade, estou cheia dos dois, Alex e Evelyn, nunca me deixar fazer nada. Um ou os dois sempre parecem estar ao meu lado, nunca me dando um momento para mim. Somente três dias depois de alcançar um clima mais quente, acabamos ficando sem gasolina e uma pequena parte de mim, agitada e piorando a cada dia que passa, crua de tanto pensar e precisando de mais de… qualquer coisa, estava contente por isso. Estávamos famintos, com calor e desconfortáveis, estressados por ter passado tanto tempo vivendo basicamente em cima um do outro. Nenhum de nós estava com humor particularmente agradável, mas Alex e Evelyn pareciam obcecados em jogar suas frustrações um em cima do outro, me deixando presa no meio. “Deveríamos ter parado naquele celeiro”, Evelyn resmunga enquanto enxuga o suor em sua sobrancelha. Desço do caminhão atrás dela dando uma olhada em nossos novos arredores. Está quente aqui, muito mais quente que no Norte, a temperatura aumentava a cada quilômetro que viajávamos. Três dias atrás tirei a camiseta de mangas compridas, trocando por um dos vestidos de verão que encontramos na cabana. Era de um tipo fino de linho, de cor verde-oliva com alcinhas finas e a barra terminava abaixo do meu joelho. Completei o look com o cinto de utilidades de Alex, o mesmo que deram a ele em Fredericksville. Nele, Alex substituiu o coldre de sua arma por um estojo de faca da sua bota e agora minha pequena faca descansava seguramente em meus quadris. Meu cabelo está sujo e oleoso, por que lavá-lo sem shampoo não adiantaria muito, então eu o empilhei no topo da minha cabeça em um coque bagunçado parcialmente trançado. Mas mesmo assim, ainda me sentia péssima, com coceira do suor seco e da grossa camada de sujeira que cobria a todos nós. Eu estava desesperada por uma boa e longa

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imersão com ao menos uma lasca de sabonete. Todos nós estávamos. “Havia infectados por todo o lugar!” Alex grita batendo a porta do caminhão. “Sabe se lá quantos mais estavam do lado de dentro”. “Está ótimo então”, Evelyn estala, suas mãos em seus quadris. “E agora estamos há sabe se lá quantos quilômetros longe de qualquer lugar! Com nada só… só…” ela se vira em volta, acenando para o interminável trecho de trigo dourado que nos rodeava em ambos os lados. “Só grama!” “Trigo”, eu a corrijo concisamente, irritada com ela e Alex e suas discussões sem fim. “O que?” ela exigi. “Quem liga para o que é isso, Lei!” Dou de ombros. “Você deveria ligar”. “Por quê?” exigi, praticamente gritando a palavra para mim. “Porque”, grito de volta, sentindo minha calma diminuir. “Podemos comer isso, Eve!” Isso parece fazer com que ela desse uma pausa e lentamente a raiva escoa de suas feições. “Podemos?” Reviro meus olhos. “Sim. Podemos comer os grãos. Temos de ensopá-los primeiro, mas depois disso vão ser comestíveis”. “Como sabe?” Evelyn pergunta. Estreita seus olhos desconfiados para mim, como se eu tivesse propositadamente guardado esse segredo do trigo dela por nossa amizade inteira por alguma intenção perversa e ter só agora revelado esse abominável conhecimento significa que eu tinha mais segredos, talvez maiores, piores, segredos que poderiam possivelmente mudar o curso do mundo inteiro. Rosno minha resposta. “Costumava ler, lembra? Livros? Lembrase deles?” “PORRA!” Alex berra de repente, me surpreendendo. Em silêncio agora, Evelyn e eu observamos quando seus punhos mergulharam no capô do caminhão. “Porra!” ele grita de novo e outra vez bateu com seu

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punho. “Que maravilha, merda”, Evelyn cuspe. Se virando, nos deu suas costas. Olho entre os dois. Em Evelyn, que está basicamente fazendo beicinho em um canto e Alex que está fazendo birra de adulto, descarregando em nosso único meio de transporte. Com gasolina ou não, a coisa ainda andava. Dou uma inspiração profunda que não serviu para acalmar, cheia de ar quente e fumaça de caminhão, o que só serviu para aumentar minha agitação. Viro-me, olho para a rodovia, procurando por qualquer coisa, algum tipo de abrigo onde pudéssemos descansar e nos recuperar, talvez conseguir alguma privacidade um do outro. Só que não havia nada. Um trecho infindável de nada. Suspirando, dou um passo em direção ao trigo, os caules dourados com ao menos um metro e vinte de altura, quase alcançando meu peito e corro minha mão sobre o topo de seus caules macios e sedosos. Levaria dez, talvez doze horas para encharcá-los, mas assim eles seriam comestíveis. E alguma coisa era sempre melhor que nada. Aperto meus dentes, minha mão de repente agarrando ao redor dos caules. Amassando os grãos em minha mão, me pergunto quantas vezes teria de dizer a mim mesma aquilo, para tentar me convencer antes que eu começasse a acreditar. Quantos mais testes de sobrevivência seriamos forçados a suportar? Isso cessaria? Haveria algum lugar seguro para ir? Sobrou alguma coisa nisso tudo? Enquanto estou parada ali, com raiva do mundo e sentindo pena de mim, algo toca a ponta do meu tênis e um rosnado baixo estoura dos caules espessos do trigo. Ao ver os dedos enegrecidos e ossudos tentando me alcançar, o braço quase sem pele, sujo, saindo completamente dos trigos, pulo para trás, um grito se formando em meus lábios. Mas o grito nunca saiu. O infectado era pouco mais que um esqueleto, sério. A maioria da

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pele em seu rosto estava faltando, assim como um olho e estava usando a terra para se empurrar em minha direção. Quando as pontas de seus dedos encontraram apoio no chão e ele começou a se deslizar até a vista, percebo que ele não tem mais pernas, ou mesmo um torso. Onde sua caixa torácica termina pouco ainda resta, somente tiras curtidas de carne pendurada e vísceras ressecadas. Conforme ele vinha até mim, continuei andando para trás. A cada centímetro que ele ganhava, eu dispunha de um passo de distância, todo o tempo o encarando, me sentindo apavorada, mas era algo mais que somente medo. A sensação de crueza retorna para mim, a impressão de que minhas entranhas, minhas emoções, tudo foi lixado, raspado da sua camada protetora e deixado aberta, exposto e sangrando. Raiva, pura e ira intocada começa a nascer dentro de mim, fazendo-me sentir muito pequena para meu corpo, minha pele repentinamente muito apertada, me sentindo perto de explodir. Sei que não poderia dar outro passo para trás, digerir outra decepção antes de explodir. Porque isto não podia ser tudo o que restou, só esta putrefação e podridão, esta abominação do que uma vez foi, tudo isto… tudo isto… abandonado por Deus – porque sim, se houvesse um Deus, claramente abandonou a todos nós – nada. Nada. Não havia restado nada. Só eu, Evelyn e Alex, procurando por algo que nunca iríamos encontrar e esta coisa, este monstro de pesadelos se arrastando em um lindo campo de trigo, tendo em vista somente uma coisa. Destruir, destruir, destruir. O que importa mais? O que tudo isso significa? Quanto tempo mais até não haver mais comida para encontrar, antes que todos os abrigos afundassem na poeira? Quanto tempo teríamos antes de sucumbirmos a morte deste mundo? Meu grito, que estava esperando na ponta da minha língua, finalmente borbulhou para fora. Uma maciça e confusa explosão de raiva e sofrimento – mas principalmente ira – rompeu seu caminho através de meus pulmões, cantando e queimando por tudo o que tocava e estava sendo enviado para o mundo. Depois puxo minha faca do meu cinto, caio sobre os meus joelhos

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e a enfio direto na caveira exposta do infectado. Não uma vez, não duas, nem três. A dor, a fúria, o medo, isso tudo rompeu para fora, consumindo e controlando e minha mão, apertando com força aquela pequena faca, a enfiei dentro da caveira daquele monstro um incontável número de vezes. De novo e de novo até que pude finalmente sentir alguma coisa dentro de mim estalar, romper, rasgar e então… não me senti mais tão presa, tão desconfortável dentro de minha própria pele. Respirando com força, parcialmente cega pelo suor pingando dentro dos meus olhos, me levanto e embainho minha faca. Ambos, Evelyn e Alex, estavam instantaneamente ao meu lado. Alex chuta o infectado morto, se assegurando de que estava verdadeiramente morto e Evelyn envolve seus braços ao meu redor. Eles esperam lágrimas, supus, ou que me jogasse fraca em seus braços, precisando de conforto e consolo. E aí eles iriam me enfiar ‘oh tão docemente’ no banco traseiro do caminhão, mencionando para mim coisas como tirar um cochilo e me sentir melhor quando acordar. Mas não choro, eu não estou triste. E quando me alcançam, me afasto deles, passo por eles e me dirijo ao caminhão. Apressadamente, agarro os poucos artigos que nos apropriamos ao longo de nossa jornada, coloco a mochila esfarrapada sobre os ombros, envolvo minha mão ao redor de uma embalagem plástica de leite com um terço preenchida com água suja, enfio um martelo em meu cinto e depois viro o rosto para eles. Ainda estavam onde os deixei parados no meio da estrada, o infectado morto caído aos seus pés. E juro para mim mesma que se um deles dissesse uma palavra, fosse ela consoladora ou confortadora ou cheia de falsa positividade, eu ia enfiar minha faquinha diretamente nos pés deles. “Vamos”, digo, minha voz inabalável e particularmente dura, mesmo aos meus ouvidos. “O sol vai se por logo e precisamos de luz para matar aqueles infectados”. “O celeiro?” Alex pergunta, me analisando com curiosidade e para

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o meu divertimento, com cautela. Assinto firmemente. “O celeiro”.

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Capítulo Vinte e Dois Evelyn

Marchamos adiante, um atrás do outro, cada um de nós em nossos respectivos lugares já que não queríamos ficar perto um do outro. A única coisa boa em estar enfiado no meio do nada é justamente que estávamos no meio do nada e era improvável que algo fosse nos atacar. Eu não podia dizer que estava calma, mas enquanto caminhava, ou melhor, socava o chão com meus pés, percebi que a tensão em meus ombros começava a desaparecer. O ar fresco, o calor do sol batendo em mim, era algo confortador depois de ficar enfiada dentro do caminhão apertado e imundo, respirando aquele ar suado e sujo por longas horas. O fedor do corpo do morto e o infectado que ficou preso lá dentro ainda não tinha saído do caminhão e apesar da janela aberta, o cheiro grudou na nossa pele. Estar do lado de fora, no ar fresco, era revigorante e inspirei aquele ar profundamente várias vezes, me sentindo mais calma e melhor quando o cheiro finalmente deixou meu nariz. Observo os passos confiantes de Leisel à medida que ela segue atrás de Alex e me descubro sorrindo levemente. Ele silenciosamente recusou deixá-la pegar a dianteira, andando propositadamente mais rápido toda vez que ela tentava tomar a frente, sua teimosia quase pesando mais que a dela. Eventualmente ela cedeu, mas sua carranca continuou. Eu a conheço bem o bastante para saber que estava vendo muito mais na situação, levando o comportamento dele como um insulto pessoal contra ela, quando na realidade, ele se importava com ela muito

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mais do que ela percebia. Para um homem como Alex, proteger o que importava para ele era a forma como expressava seus sentimentos, mas isso me deixava nervosa também. Não podia culpá-la por querer ser forte e lutar suas próprias batalhas. Aceitar que ela não precisava de mim tanto quanto já precisou uma vez não era uma tarefa fácil. A construção de seu relacionamento com Alex e seu próprio desejo de finalmente exercer alguma independência veio como uma surpresa e no começo não soube como lidar com o mix de emoções que seu novo comportamento agitou. E eu estava lutando com o lugar onde caberia, em nosso pequeno grupo assim como neste mundo. Para ser honesta, eu não estava certa se tinha entendido, ou se restava algo mais para entender. Chutando uma pedra, observo de forma apática enquanto pula pela estrada, ultrapassando Leisel e Alex, mas nenhum deles percebe por estarem tão consumidos em seus frustrados passos rápidos. Revirando meus olhos e querendo atirar pedras na cabeça dos dois, fico bem para trás deles. Já havia passado uma hora ou por ai antes do celeiro enfim entrar em nossa vista. Ainda rodeado por infectados, muitos para contar, parece ter até mesmo mais desde quando passamos por ali mais cedo. Lembro-me da cabana e dos infectados que a tomaram. Deve haver alguma razão para estarem aglomerados nesse celeiro, desesperados para entrar. Algo os tinha atraído para cá, a mesma razão que ainda os estava mantendo aqui. Dando uma parada abrupta a quinze metros do celeiro, Alex vira para olhar Leisel e eu, esperando até que nós duas o alcançássemos para só então começar a falar. “Alguma coisa está atraindo eles para cá”, ele fala, dando voz a meus pensamentos. “Mas o sol vai se por logo e não temos nenhuma maldita ideia de onde estamos. Ou nós limpamos isso, ou voltamos e passamos a noite no caminhão… outra vez”. Ele faz uma careta. O pensamento de passar outra noite no caminhão, com quase nenhum espaço para se mexer, com nenhuma escolha a não ser deixar as portas trancadas e as janelas fechadas, nos trancando com aquele cheiro asqueroso, me fez encolher. Alex e Leisel parecem compartilhar

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dos meus sentimentos, todos parecíamos nauseados com aquela ideia. “Sem caminhão”, Leisel estala. “Nós precisamos limpar o celeiro”. Os olhos apertados de Alex aterrizam nela. “Você matou um infectado e agora está pronta para derrubar um grupo inteiro deles?” As delicadas narinas de Leisel se abrem em resposta. “Estou tão nervosa agora”, ela grita, “que poderia derrubar você!” Ela bate forte no peito dele, mas ele mal recua com o contato. Com seus braços cruzados em seu peito, Alex não responde, só a encara. Rangendo seus dentes, Leisel segura o olhar dele, nenhum deles querendo voltar atrás. Olho de um para o outro, percebendo que ninguém iria voluntariamente desistir da sua ridícula batalha de egos, então dou um passo a frente, entrando na linha de visão deles e lanço minhas mãos no ar. “Podemos guardar essa briga de namorados para depois de limpar o celeiro?” eu digo, murchando. “Assim, depois que for seguro aqui vou poder me afastar de vocês o máximo possível?” Leisel contorce seus lábios em um rosnado feioso que parecia tão fora de lugar em suas feições inocentes que quase rio alto. Alex, diferente de Leisel, parece grato com a minha distração. Suspirando, olha na direção do celeiro. “Eu não tenho certeza se deveríamos nos arriscar”. Percebo então que ele estava ansioso, para não dizer completamente nervoso com a ideia de pegarmos tantos infectados. Fiquei tão acostumada ao seu comportamento rude e normalmente absurdo, que ouvi-lo soar tão apreensivo faz me sentir insegura de repente sobre tentarmos limpar este lugar. “Talvez possamos tirá-los de alguma forma?” Leisel sugere com um suspiro, embora ainda parecesse aborrecida. “São muitos agora”, Alex fala, balançando sua cabeça. “Muito mais do que tinha antes”. Levanto uma sobrancelha, mas não dou voz a minha irritação. Antes de tudo, eu sugeri que parássemos mais cedo quando passamos

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por lá da primeira vez. “Eles não são novos”, oferto, ao invés. “Não vão ser rápidos. Acho que podemos dar conta”. Esfregando uma mão na sua barba curta, Alex comprimi seus lábios em uma linha fina. Seus olhos estão mais escuros que o normal, sua incerteza escorrendo em sua expressão. “Se qualquer coisa der errado, vocês correm”, ele anuncia, seu olhar pousando em Leisel. “Entendeu? Vocês correm, porra”. Olha para mim então e fiquei agradecida por não ser negligenciada, que ele também queria que eu me salvasse, mesmo se isso fosse meramente por saber que Leisel não sobreviveria sozinha. Isso me trouxe de volta um sentido de propósito. Leisel aperta seus olhos em resposta, mas em vez de retrucar com outra resposta sabichona, simplesmente assente com a cabeça em concordância. Olhando para mim, ela dá um leve aceno de cabeça e sabia que não havia nenhuma possibilidade de ela correr, não sem mim, pelo menos. Eu era sua melhor amiga, sua única família restante e ela nunca me deixaria em nenhum lugar, assim como eu não a deixaria. Alex de alguma maneira foi absorvido para dentro de nossa família também, apesar de que seu lugar dentro dela ainda estava um pouco incerto para mim. Confio nele, até mesmo o respeito, assim como os sentimentos de Leisel para com ele, mas se aquilo desse errado, escolheria Leisel ao invés dele. E esperava que ela fizesse o mesmo comigo. “Então vamos fazer isso”, Alex diz, puxando uma barra de ferro de seu cinto de utilidades. Mesmo ele ainda carregava seu rifle, não tinha balas, a arma era mais para mostrar do que qualquer outra coisa. Quando pego minha faca e Leisel, o seu martelo, nós três começamos a nos mover para frente. Quanto mais nos arrastávamos para perto do celeiro, mais conscientes os infectados ficavam da nossa presença e lentamente começavam a cambalear em nossa direção. Uma súbita adrenalina queimou em minha barriga, fazendo o meu corpo inteiro tremer de nervoso. Olho para Leisel, me perguntando

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sobre seu bem-estar, mas a encontro parecendo mais determinada do que eu. “Dividam-se!” Alex grita, corre para o lado assim que o primeiro infectado se aproxima. Era uma coisa horrorosa de se olhar, o gênero não era mais distinguível na massa de pele apodrecida e ossos sobressaindo. Alex o cerca, enfiando a ponta da sua barra de ferro na nuca dele, matando aquela coisa antes que tivesse a chance de virar totalmente e o encarar. Arrancado rapidamente a arma, Alex empurra o infectado amassado para o chão e depois girou para esquerda, metendo o ferro direto na cara de outro infectado que se aproximava, rasgando a bochecha dele e o fazendo cambalear para o lado. Foi a última coisa que vi dele quando repentinamente encaro minha própria batalha. Dois infectados rapidamente se aproximaram de mim e quando grito para alertar Leisel descubro que ela não está mais ao meu lado, mas sim correndo em um arco aberto ao redor dos dois que vinham para mim, se dirigindo direto para um terceiro que estava se esgueirando para nós. Meu coração salta por ela, mas não há nada que eu possa fazer, não com aqueles dois ainda vindo me pegar. Evitando seus dentes rangendo, empurro o primeiro deles, jogando-o para trás. Ele cambaleia, colide no segundo, apesar de não derrubar como tinha esperado. sou forçada a correr ao redor dele, enfio minha faca na cabeça do segundo, deixando muito pouco tempo para liberar minha arma antes do primeiro conseguir se virar totalmente. Gritando, rompo minha faca da cabeça dele, empurrando o corpo inclinado do segundo infectado para cima do primeiro, felizmente com força o bastante para fazê-lo cair para frente. Estou me inclinando para baixo e colocando fim as suas misérias, quando sinto algo pontudo raspar meu braço e me viro rapidamente para dar de cara com outro. Eu o golpeio selvagemente, a ponta da minha faca despedaçando a pele restante em sua garganta em tiras de carne endurecida, fazendo uma graxa espessa e negra escorrer de dentro. As feridas que infligi não fizeram nada para desviar a atenção dele de mim. Enquanto ele continua a vir para mim, me lanço para trás, sem olhar para onde estava indo e acabo prendendo a parte de trás do meu

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pé em alguma coisa. Olho para baixo, só por um segundo, mas longo o bastante para entender que tropecei nos dois infectados anteriores, um morto e outro ainda vivo por baixo dele. Foi só uma questão de segundos, o tempo que gastei olhando para baixo, acertando meu equilíbrio para evitar os dentes do infectado prensado debaixo do outro, mas foi tempo suficiente para o que estava se aproximando me alcançar, enrolar sua mão apodrecida em torno do meu pulso e balançar para frente. Gritando, bati em seu peito, desesperada para evitar seus dentes. Ele quase me morde, seu queixo raspando meu antebraço conforme lutava para me libertar de seu aperto. Sinto um puxão na perna da minha calça e depois na outra e quando lancei um olhar para o chão, descobri que o infectado que estava prensado conseguiu de alguma forma se soltar sozinho e seus dentes barulhentos estavam quase tirando um pedaço da minha perna. Ainda gritando, aperto a garganta do infectado, sua pele ressecada e borrachuda debaixo dos meus dedos. Puxo e jogo nós dois esparramados para a direita, onde caímos em uma pilha de membros emaranhados. A coisa retorceu em cima de mim e quando penso que não tinha mais jeito, sua cara desfigurada há poucos centímetros da minha, houve um turbilhão de movimento, um estrondo e um baque e embora seu corpo ainda permanecesse sobre mim, sua cabeça repentinamente sumiu. Acima de mim estava Leisel, segurando seu martelo firmemente com as duas mãos enlaçadas. Estava coberta de suor, mas seus olhos castanhos estavam brilhantes. “Você está bem?” ela pergunta, ofegante. Empurrando o corpo sem cabeça de cima de mim, rolo e pulo de pé. Dou a Leisel um sussurro de agradecimento, depois observo a área à procura de Alex, descobrindo-o cercado por seis infectados, com muitos outros indo em direção a ele. “Vamos!” berro, decolando sobre o campo. O que costumava ser uma mulher se arrastou em nosso caminho,

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seu vestido esfarrapado balançando no corpo ossudo. Aquilo rosnou alto, parecendo com dor e o som enviou arrepios em minha coluna. Correndo por trás dela, bato minha faca na base do seu pescoço e apesar de ter caído no chão, ela continuou a se contorcer e grunhir. Por trás de mim, Leisel veio para frente e enfiou seu martelo na têmpora da infectada, esmagando como uma melancia. Um lodo negro derramou do meio dos pedaços esmagados do crânio dela e um cheiro de sujeira tóxica foi liberado. Mais grunhidos surgiram a nossa esquerda de um pequeno grupo tomando seu caminho em nossa direção. Acenando freneticamente para Leisel, gesticulo para ela ajudar Alex conforme eu corria em sentido contrário. Enquanto estava correndo, abaixo e envolvo meu braço ao redor da cintura do primeiro infectado do grupo. Com um grunhido, eu o empurro para cima dos que estavam atrás e eles caíram como pinos de boliche, um por um, ficando todos empilhados um sobre o outro. Após secar o suor em meus olhos, me inclinei para baixo e peguei o primeiro da pilha, metendo minha faca entre seus olhos e torcendo. Depois disso, foi uma fácil colheita. Um depois do outro, enfiava minha faca dentro de suas cabeças e finalizava rapidamente. Virando, avisto Alex e Leisel derrubando os dois últimos infectados, um que andava e um que rastejava. Leisel estava inclinada na grama alta, seu martelo levantado acima de sua cabeça, aguardando à medida que o rastejante se aproximava em direção a ela antes de enfiar a ponta do martelo no topo de sua cabeça, despedaçando o que restava de seu crânio. Alex estava lutando com o andante que costumava ser um homem, alto e largo e não tão apodrecido quanto os outros. Não havia espaço suficiente entre eles para conseguir um bom equilíbrio com o ferro. Grunhindo, Alex acerta um soco na base da mandíbula dele, o derrubando alguns passos para trás e dando a ele o espaço que precisava para levantar a barra de ferro sobre a cabeça e enfiar a

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extremidade dela diretamente no topo da cabeça do infectado. Pele rasgada e sangue pútrido, ambos pretos e vermelhos, que espirraram da batida, um sinal de que esse infectado se transformou recentemente. Com um grito, Alex ergue seu braço, protegendo seu rosto dos respingos. Inabalado e apesar do sangue correndo em seu rosto, o infectado continuava indo em direção a ele. Quando estava começando a me preocupar, meu estômago embrulhando quando ele rapidamente alcançou Alex, Leisel aparece por trás, metendo seu martelo na lateral dele. Ele virou para encará-la, se dirigindo a ela quando Alex se endireita e de novo desceu sua barra de ferro na cabeça. Dessa vez, o crânio dele se parte em dois e depois de balançar por um momento, seu corpo largo se curva e esparrama no chão. Sem os grunhidos e rosnados do infectado, fica assustadoramente quieto de repente enquanto nós três vamos de encontro um do outro. Suando, todos respirando com dificuldade, nos juntamos em um abraço esquisito, Leisel apertada como um sanduíche entre Alex e eu. Leisel estava rindo, seus olhos acesos com uma excitação que estava certa de nunca ter visto nela antes, ao mesmo tempo em que Alex a encarava estupefato. Compartilhava dos sentimentos dele, completamente pega de surpresa por quão bem ela lutou, quão determinada foi e como ela sozinha salvou a nós dois. “Nós conseguimos!” ela exclama e posso dizer que estava mais orgulhosa de si mesma do que qualquer um de nós. “Conseguimos”, eu falo, sorrindo para ela. “E você estava certa, Eve”, ela diz, ainda sorrindo. “Foi fodidamente incrível!” Engasgo rindo. Leisel quase nunca falava palavrões e ouvi-la falando assim tornava ainda mais evidente o quanto longe ela chegou e o quanto mudou. A Leisel tímida que conheci estava lentamente desaparecendo enquanto uma mulher mais forte e mais independente aparecia em frente aos meus olhos e eu estava orgulhosa de

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testemunhar isso. Alex se afasta de nós, seus olhos se erguendo sobre minha cabeça e além. “Ainda tem o celeiro e tudo o que está dentro dele”. Do outro lado, o celeiro emergia assustadoramente sobre nós, o sol se pondo a distância fazia a estrutura dilapidada lançar uma sombra larga sobre o campo. Um arrepio em resposta subiu por minha coluna. “Acha que tem pessoas lá dentro?” Leisel pergunta. “Se tiver”, Alex diz, seus olhos fixos no celeiro, “então são filhos da puta por não ter nos ajudado”. “Eles podem ter sido mordidos. Talvez transformados?” Leisel sugere inocentemente. “Só tem um jeito de descobrir”, falo. Enfiando meus dedos entre os delas, segurei sua mão apertada. “Pronta?”

*** Colocando uma orelha contra as grandes portas duplas do celeiro, Alex ouviu atentamente qualquer som vindo de dentro conforme Leisel e eu aguardávamos em silêncio atrás dele. Parecendo satisfeito, tentou puxar as portas, apenas descobrindo que estavam trancadas por dentro. Olhando por cima do seu ombro, fez uma careta. “Tem alguém ai dentro”, ele diz, abaixando a voz. “Ou alguma… coisa está ai dentro”. Fechando sua mão em um soco, ele a levou até a porta e martelou a madeira. “Você pode sair!” ele grita. “Está seguro agora!” Alex dá um passo para trás, sua barra de ferro pronta para bater, então gesticulou para o seguirmos. Segundos passaram enquanto

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esperamos por algum tipo de ruido, ainda assim nada veio. Apertando seus dentes, Alex bate contra a porta novamente. Ao olhar para a minguante luz do sol, sua cara carrancuda ficou ainda mais profunda. Sei como ele se sente. Estávamos cansados, famintos, morrendo de sede, precisando mais que nunca de um lugar seguro para deitar nossos corpos doloridos apenas por um momento. “Vou contar até três!” Alex grita. “E depois vou invadir! Um! D-” As portas mexem, o som o interrompe. Imediatamente ele dá um passo para trás, seu corpo nos protegendo de qualquer coisa que estivesse lá dentro. Outro som soou, parecido com o tinir de correntes e então uma das portas lentamente abre, revelando a face pálida e suja de um garoto adolescente. Um homem apareceu atrás dele, mais velho, no meio dos seus quarenta anos, com longos cabelos escuros listrados de cinza e uma barba igualmente longa. Os dois estavam carrancudos, parecendo nada satisfeitos em nos ver. Preocupação percorre o meu corpo e seguro com mais força a mão de Leisel. Se eles tivessem armas… Como se somente agora notasse Leisel e eu, a cara carrancuda do homem mais velho se afrouxa em um sorriso. “Bem, bem, bem”, disse, saindo de trás do garoto conforme seus olhos nos media da cabeça aos pés. “É extremamente encantador vocês, lindas moças, virem e salvarem nossas pobres bundas”. Seus olhos voltam para Alex e seu sorriso desaparece. “Sou Bryce”, ele continua, estendendo a mão. “Este aqui é Mike”. Cautelosamente, Alex pega a mão dele, dando uma forte balançada antes de soltá-la. “Alex”, grunhi. “Elas são suas?” Mike pergunta, olha por cima de Bryce para Leisel e eu. “Ou são para trocar?” Ao meu lado, Leisel prende sua respiração, as pontas de seus dedos cavando na pele da minha mão. Lembrando do que Alex tinha nos dito – que mulheres eram moeda – meu peito de repente aperta enquanto meu coração começa a martelar dolorosamente dentro dele. “As duas são minhas”, Alex rosna. A mão segurando sua barra de

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ferro começou a contrair, suas articulações ficam brancas conforme seu corpo todo tensiona. “Esquece o garoto”, Bryce fala, dando a Mike um empurrão para trás. “Ele não tem as malditas boas maneiras. Maldita vergonha, no entanto”, Sugando seu lábio inferior com dentes amarelados por trás, Bryce sorri para mim. “Esta é uma olhada acima do meu beco”. Apesar de tudo, fecho a cara para ele, o que apenas me rendeu uma risadinha dos dois, Bryce e Mike. “Como vocês ficaram presos aqui?” Alex questiona, entre dentes. Bryce dá de ombros. “Estávamos procurando por suprimentos quando o Mike tropeçou aqui e cortou sua maldita perna. Antes de percebermos isso, tínhamos os malditos farrapos vindo de todas as direções. Não podíamos encontrar nenhum lugar para parar e enfaixar a ferida, não até chegarmos aqui, mas logo tínhamos uma bagunça total nos seguindo”. “Então se trancaram por dentro”, eu digo, secamente. “Vocês são muito espertos”. Bryce olha para mim com um sorriso apreciativo. “Foi o que fizemos, querida. Não tínhamos muita certeza de como iríamos cair fora daqui, também. Falando assim, deveríamos todos ficar do lado de dentro”. Empurrando Mike para trás, Bryce se dirige de volta para dentro do celeiro, gesticulando para que o seguíssemos. Nós três dividimos um olhar desconfiado, mas tendo poucas opções, eventualmente seguimos. Estava escuro lá dentro, sombrio, e imundo, sujeira e poeira grudada em tudo. Um pequeno trator à esquerda, fardos mofados de palha empilhados à direita e acima de nós havia um mezanino, a escada para ele estava pendurada, estilhaçada e quebrada. “Tem um barril de água da chuva por ai, moças”, Bryce diz, apontando para as profundezas escuras do celeiro. “Algo com o que se limpar, pelo menos enquanto nós, homens, temos uma conversinha”. Mesmo a luz fraca, posso vê-lo rindo e tive de morder minha língua para não responder com algo mordaz. Agarrando a mão de

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Leisel, eu a puxo para a escuridão, deixando Alex para trás. O barril era velho, a água dentro dele cheirava mal, mas era água e estávamos imundas. Olho para trás para me assegurar de que ninguém pudesse nos ver, retiro meu top pela minha cabeça e mergulho dentro do barril, usando para limpar meu rosto e tronco. Apesar de quente e pegajosa, a água estava surpreendentemente fresca e refrescante. Seguindo meu exemplo, Leisel desce seu vestido em sua cintura e depois começa a encher a mão de água para derramar sob seu peito nu. “Você acha que é seguro?” ela sussurra, recolocando seu vestido. “Não sei”, respondo honestamente. “Mas é mais seguro que ficar lá fora”. “E quando formos dormir?” ela pergunta, desconfiada, deixando claro que não aprova a nossa estadia, não confia naqueles homens e se desse merda, Alex e eu seriamos os culpados. “Durma com um olho aberto”, ironizo, evitando o olhar dela de propósito. Eventualmente Alex se junta a nós, ocupando o espaço entre Leisel e eu e rapidamente retira sua camiseta que enfia na água e levou o tecido encharcado até seu peito, esfregando e deixando a água escorregar por seu corpo. Leisel, sua preocupação repentinamente esquecida, olha abertamente perplexa para ele, assistindo com olhos arregalados seus bíceps flexionarem a cada um de seus movimentos. A água escorre em seu abdômen trincado e fico preocupada de que a qualquer momento ela comece a babar. Embora eu quisesse rir de sua expressão, não a culpava. Alex é um homem atraente, jovem e musculoso, com feições angulosas e distintas. Em Fredericksville nunca dei a ele uma segunda olhada; sempre pareceu muito limpinho para o meu gosto. Mas agora, tendo conhecido ele, começo a apreciá-lo. A barba definitivamente ajudou. “Eu acho que eles são bons”, ele murmura, voltando a olhar para nós. “Disseram que tem um grande acampamento não muito longe

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daqui, onde podemos carregar com suprimentos”. Meus olhos arregalaram a essa revelação. “Acampamento? Você confia neles?” “Não confio em ninguém”, ele diz com um dar de ombros. “Mas parecem inofensivos”. “Inofensivos?” Leisei resmunga com raiva. “Você viu o jeito que ele estava olhando para nós? Nós temos de continuar seguindo em frente. Eu não confio neles”. “Tentei contar a vocês”, Alex silva, soando igualmente nervoso, como Leisel. “O mundo está quebrado. Eu vi lugares piores que Fredericksville, mulheres sendo negociadas como comida. Mas isso não muda o fato de que precisamos de gasolina, comida, armas e roupas…” Com suas mãos segurando as bordas do barril, olha entre nós, sua expressão torcida em frustração, suas narinas dilatando enquanto tentava e falhava em se recompor. “Merda!” ele murmura. “Precisamos de tudo!” Senti empatia por ele, por que como um homem neste mundo ele tinha uma grande vantagem sobre as mulheres e apesar de verdadeiramente odiar esse conceito, não tinha escolha a não ser aceitar que é assim que as coisas são agora. Mas aquela vantagem também pesava muito sobre ele. Toda opção que tínhamos poderia ser uma opção perigosa, um fardo que ele carregaria por sua conta. Dando a volta no barril, pouso minha mão no braço de Leisel. “Vamos só ver como nos sentimos pela manhã. Alex está certo – precisamos muito e nesse momento não podemos ir muito longe sem suprimentos”. Olhando para Alex e depois para Leisel, dou a ela um olhar indicativo. “Confio na opinião de Alex”, revelo, “vamos só ver como isso se desenrola”. Leisel dá um olhar profundo para mim, como se eu acabasse de quebrar a regra número um do código de honra das garotas escolhendo o lado de um homem ao invés do dela. Implacável, seguro seu olhar, encarando de volta até ela suspirar e revirar os olhos. “Certo”, ela estala, retirando seu braço. “Mas não vou dormir em nenhum lugar perto deles”. Se virando abruptamente, sai marchando

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e desaparece em um canto escuro, o mais longe possível de onde deixamos Bryce e Mike. Dando-me um exasperado, mas agradecido, olhar, Alex veste de volta sua camiseta encharcada antes de sair à procura dela. Suspirando, afundo minha mão novamente no barril e trago uma mão cheia de água ao meu rosto. Inclinando a frente, assisto as gotas pingarem lentamente de volta a água, fazendo ondas circulares conforme rezava para que Alex e eu não estivéssemos errados ao confiar naqueles homens.

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Capítulo Vinte e Três Leisel

Eu não confiava neles, não gostava deles e não queria estar em nenhum lugar perto deles ou de seus olhares de merda. Ambos, Mike e Bryce eram simpáticos demais, parecendo nervosos e apreensivos. Estavam sempre avaliando Evelyn e eu e não de um jeito bom. Eu não queria passar a noite no celeiro com eles e definitivamente não queria viajar a pé com eles até o seu tão falado acampamento no meio do nada. Mas foi exatamente o que fiz, o que nós todos fizemos, tomando o risco necessário para obter os suprimentos que desesperadamente necessitávamos. Assim que a manhã chega, o sol alto e quente no céu, nos dirigimos para fora, passando pelo nosso caminhão ao longo do caminho. Andamos por horas, o sol queimando em nossas costas já escaldantes e quando já estava para acusá-los de mentirem, me perguntando a que tipo de armadilha estávamos cegamente caminhando de novo, o “acampamento” deles entrou em vista. Acampamento é um diabo de um eufemismo. Aquilo não é um acampamento, é uma cidade industrial. Muitos acres estavam preenchidos por prédios de fábricas velhas, alguns acima de dez andares enquanto outros assentavam atarracados e largos por baixo delas. Um portão alto e pesado com uma aparência formidável, coberto por arame farpado, parecia cercar o complexo inteiro. Uma faísca no portão chamou minha atenção, seguida por um zunido, estalo, estouro. Cercas elétricas, ponderei, me sentindo ao mesmo tempo

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impressionada e desconfiada. “Os deixa bem crocantes”, Bryce fala, levantando suas sobrancelhas para mim. “Mantém eles cozinhando até alguém vir e meter um maldito buraco neles”. Evelyn e eu dividimos um olhar e poderia dizer que ela estava apreensiva também. Portões como aqueles não apenas mantém os infectados do lado de fora, mantém os vivos dentro. Portões daqueles eram um pouco similar demais aos muros de Fredericksville para o meu gosto. “Quem está no comando?” Alex pergunta. “Um homem chamado Jeffers”, Bryce responde. “Ele e sua velha senhora mandam em tudo. Vocês vão conhecer logo. Eles gostam de cumprimentar cada recém-chegado pessoalmente”. Há uma nota de orgulho na voz de Bryce e não consegui não pensar que talvez este pudesse ser um lugar decente, especialmente com uma mulher no comando. Por que com uma mulher a cargo, as coisas não podem ser tão ruins para as mulheres de dentro, certo? Deus, espero que sim. Conforme nos aproximávamos do acampamento começo a contar, estimando que houvessem dez, quinze, não, quase trinta prédios ao todo, provavelmente mais que eu não conseguia ver ainda. Veículos por todo lugar, considerando as numerosas vagas de estacionamento e dispersos no gramado. E intercalados através disso tudo estavam pessoas. Centenas e centenas de pessoas. Vagando em volta, correndo, andando, conversando, rindo e gritando. Um conjunto de tendas estava alinhado entre as construções, algumas grandes, outras pequenas, mas pelos gritos pelo caminho, aquilo parecia como uma feira de rua, com vendedores vendendo suas mercadorias. E distante, no lado oposto da propriedade, podia ver diversas dúzias de fileiras de turbinas de vento, as lâminas virando vagarosamente com a brisa. “Este lugar é grande”, Alex murmura. Ele parecia tranquilo, mas seu olhar estava por toda a parte, atirando a esquerda e a direita em um ritmo acelerado. E sua linguagem corporal estava tensa e rígida,

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sua postura bem ereta, tudo o que negava seu exterior calmo e relaxado. “Entrada é por aqui”, Mike diz, olhando por sobre seu ombro. Seu olhar encontrou o meu e ele me deu um sorriso cheio de dentes. Tento sorrir, mas provavelmente só consigo emitir um sorriso forçado. Mike pode ser jovem, mas está na idade onde sexualidade é o primeiro e primordial pensamento sobre qualquer coisa além. Seus olhos vagabundos se movendo acima e abaixo em meu corpo me fizeram querer dar um tapa nele e mandá-lo para a sua mãe. Mas ele provavelmente nem tinha uma, ao menos não mais e foi forçado a crescer ao redor de homens como Bryce. Desviando meus olhos, afasto um tremor. “Bryce! Homem, nós te enviamos para buscar suprimentos e você nos trouxe bucetas ao invés disso!” Três homens aparecem do lado oposto da cerca, muito perto, mas cuidadosos em não tocar a armadilha elétrica mortal. Eram todos velhos, com barbas pesadas, no fim de seus quarenta ou cinquenta anos. Do nosso ponto de vantagem na estrada, eles pareciam ser trigêmeos, todos peludos, acima do peso e carregando dois ou três grandes rifles cada. “Elas não são minhas!” Bryce ri para seus amigos. “O Paul Bunyan9 aqui é o dono”. Imediatamente todos os três conjuntos de olhos famintos procuram Alex. “Quanto, cara?” um pergunta. “Eu tenho um estoque de ferros lindos”, outro chama. “Você me faz um dois-por-um e monto um para você realmente legal”. Rapidamente me aproximo de Evelyn, que estava também fechando a distância entre nós. Nossas mãos se encontram, nossos dedos entrelaçados conforme balançamos a mão uma da outra bem

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Lendário lenhador gigantesco que aparece em alguns relatos tradicionais do folclore dos Estados Unidos

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apertada, silenciosamente expressando nossa preocupação e medo. De repente, meu outrora modesto vestido parece insuficiente, como se fosse minha culpa por expor tanta pele, pele que estava começando a rastejar de pavor. “Alex!” silvo por entre minha respiração. “Alex!” Mas Alex não está olhando para mim. Ainda caminhando, fixs seu olhar de pedra nos três homens na cerca enquanto eles andam em compasso com nosso pequeno grupo, depois dá de ombros. “Não estão a venda”, ele berrs. “Tenho um caminhão, no entanto. Quebrado uns quilômetros por ali. Boa condição, só precisa de gasolina”. “Tenho caminhões suficientes para uma vida inteira”, o homem responde. “Mas não vejo uma ruiva verdadeira em anos”. Seu olhar redondo desloca para Evelyn e seus lábios curvam em um sorriso sujo. “O carpete combina com as cortinas, docinho?” Alex congela a meio passo, sua mão em sua arma e vira para encarar o homem na cerca. “Elas não estão à venda”, disse lentamente, vigorosamente, cuspindo cada palavra entre dentes com tanto veneno que os finos pelos em meus braços e pescoço arrepiaram. Sabia que Alex era incrível, até mesmo perigoso e poderia aguentar bem. Mas esta mostra de dominância sobre aqueles homens, sua reclamação para nos proteger dos perigos desse mundo novo, fez florescer um tipo novo de apreciação dentro de mim. Ele não era só nosso salvador e nosso protetor, era mais que isso. Ele era o tipo de homem que defendia o que acreditava, um homem de verdade que fazia tudo que podia para prevenir que a maldade se alastrasse sobre as sobras do bem. Era um homem como Thomas foi, apesar de sua jovem idade, um homem inteiramente honrado. E não consegui evitar pensar que Thomas gostaria dele. “Eu disse a vocês”, Bryce fala alegremente. “Não podem me culpar”. Os

homens

resmungam

por

baixo

de

suas

respirações,

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balançando as cabeças, suas expressões transmitindo desapontamento e irritação. Um a um, se afastam, não mais interessados em negociar com Alex. “Só mais um pouco”. Bryce gesticula para uma pequena curva na cerca, onde ao redor da cerca dúzias de homens pesadamente armados usando uniformes estão ajuntados. “Não ligue para a artilharia, precisamos manter esse lugar seguro de algum modo”. “Sabe as regras, Bryce”, um dos soldados grita, vindo nos cumprimentar. “Tirar as roupas ou ficar fora”. “O que?” Evelyn pergunta, seus olhos escancarados. Bryce, já desabotoando seus jeans, dá a ela um olhar de desculpas. “É assim que é, criança. Vamos mostrar alguma pele, toda a sua pele, se quiser entrar”. Horrorizada, olho para ele com olhos esbugalhados e a boca aberta. “Por quê?” “Procurando por mordidas”, o soldado diz, seu olhar de aço sobre mim. “Ou qualquer sinal de infecção”. “Não t-tem algum lugar p-p-privado?” gaguejo, minha voz tremendo. “Menos aberto?” “Ordens do chefe”, outro soldado fala, vindo parar ao lado do primeiro. “Ninguém é permitido entrar até que prove que está limpo”. Ele me dá um sorriso de tubarão conforme deliberadamente corre seu olhar de cima a baixo em meu corpo. Aperto meus lábios, desviando da plateia de homens que rapidamente se aglomerava e procuro por Alex. Ele não parece feliz, na verdade, parece muito irritado e pronto para arrancar a cabeça de qualquer um que ousasse se aproximar de mim. Ainda assim, ele já estava tirando sua camiseta. “Vamos só seguir com isso, Lei”, Evelyn resmunga, balançando minha mão. “Eles podem olhar o que quiserem, mas ninguém vai ser tocado, tudo bem?” Não, não estava bem. Nada disso estava certo. Entendia a

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necessidade daquilo, em manter qualquer sinal de infecção fora de uma área tão populosa, considerando quão rapidamente ela se espalhava. Mas isso era excessivo. Ao menos eles poderiam ter algum tipo de abrigo improvisado do lado de fora do perímetro, dando as pessoas uma aparência de privacidade. Com um suspiro, Evelyn soltou minha mão e começou a desabotoar suas calças. Assobios e vaias imediatamente começaram e insinuações sexualmente explícitas e vulgares emergiram do crescente grupo de homens. Mulheres também, eu notei. Continuei parada ali, totalmente vestida, mesmo depois de Alex e Evelyn se livrarem da última peça de roupa, em conjunto com os igualmente nus, Bryce e Mike e se arrastarem para perto da cerca para sua inspeção. “Braços para cima”, um soldado ordena, lambendo seus beiços enquanto avalia Evelyn. “Afaste eles e se incline para frente”. Ele ri, seus olhos firmemente fixados nela. “Levante seu cabelo, princesa”, outro soldado fala, se arrastando para mais perto de Evelyn. Ela faz o que disseram, seus olhos azuis queimando com um fogo que prometia retribuição se alguém encostasse a mão nela. Não que pudessem, o portão prevenia qualquer contato. Mas uma vez que aqueles portões fossem abertos… Enjoada e desorientada, me afasto e aperto uma mão contra meu estômago. Não posso fazer isso; eu não posso me despir para uma multidão inteira de pessoas, olhando com malícia e zombando de mim como se fosse algum tipo de atração animal. Eu era uma pessoa, uma mulher; tinha sentimentos e emoções e orgulho. Oh Deus, porque ninguém parecia entender mais aquilo? Ou se importar ao menos? Onde estava a humanidade? Morta, pensei com amargura. Morta como tudo o mais. “Se aquela não se despir, ou sair, nos próximos dois minutos, vou

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mandar uma bala através da cabeça dela”. Aperto meus olhos, fechando meus punhos em pequenas bolas apertadas. Eu não posso fazer isso; apenas não consigo. Já fui submetida a tormentos e torturas suficientes para durar uma vida inteira e eu seria amaldiçoada antes de ser submetida a isso voluntariamente. “Você me ouviu, querida?” a mesma voz grita. “Estou contando, começando agora!” “Lei…” Abro meus olhos para ver Alex parado na minha frente. Já vestido de novo, me olha com seus olhos escuros cheios de compaixão. “Lei”, ele repete, seu tom era gentil. “Estarei bem ali do seu lado. Você não tem que olhar para eles, só olha para mim, certo?” Respirações trêmulas fazem minha boca tremer. “Não precisamos desse lugar”, sussurro. “Nós não precisamos deles. Estamos bem sozinhos”. Mas mesmo eu sabia que estava mentindo. Nós estávamos muito distantes de bem. Diariamente tínhamos que sair para vasculhar, normalmente sem encontrar nada de útil. Não tínhamos um lugar seguro, nem garantias, nada a não ser as roupas em nossos corpos e um ao outro. Alex balança sua cabeça. “Nós precisamos. Desejava que não, mas precisamos”. Sua voz estava desesperada, seus olhos implorando para mim. Ele não gosta disso também e eu posso dizer que o estava matando ter de admitir derrota, especialmente depois de percorrer esta distância com só nós três. Mas mesmo um rei sabia que não poderia sobreviver sem seus súditos e enquanto que Alex era muito como um rei neste novo mundo, poderoso ainda que correto, também sabia quando precisava de ajuda. Fecho meus olhos de novo, tentando encontrar algum lugar dentro de mim onde pudesse ir, onde pudesse me esconder dentro de minha própria pele para conseguir atravessar os próximos minutos. Eu

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já tinha vergonha suficiente para durar por várias vidas e o pensamento de adicionar mais a isso era doentio. “Um minuto!” a voz grita. “Lei, por favor”. Alex soa apavorado agora, se era pelo seu medo de nunca encontrar outro lugar como este, ou seu medo de eu ser derrubada por uma bala como um infectado, ou talvez ambos, não sabia. “Não posso te perder”, ele sussurra intensamente. “Você mal me conhece”, estalo, tentando me libertar de seu aperto. Apertando com mais força o meu braço, inclina sua cabeça próximo a minha, me forçando a olhar para ele. “Eu conheço você”, ele silva. “Sei que você cantarola músicas dos anos sessenta e setenta quando está entediada ou triste. Eu sei que na maioria das noites você chora para dormir. Sei que você está normalmente pensando em Thomas quando sorri. Lei, eu sei onde cada marca e corte no seu corpo está e o que os causou e também sei que Eve é a única pessoa no planeta que te faz se sentir segura. Eu conheço você, Leisel”. Chocada, eu o encaro enquanto meu corpo inteiro treme. “Você me faz sentir segura também”, sussurro conforme lágrimas perfuram meus olhos. Ele engole em seco. “Não tire isso de mim”, sussurra de volta. “Trinta segundos!” o guarda uiva. Libertando-me do aperto de Alex, viro e marcho com destinação para os portões. Intencionalmente, evito encontrar os olhos de Evelyn, parte de mim odiando que ela parecia sempre ser capaz de fazer o que eu não conseguia. Mantendo meu olhar firmemente plantado no chão, deixo meu cinto cair primeiro. Depois, me posicionando, começo a lutar com os botões nas costas do meu vestido. Enquanto continuo a me atrapalhar, silenciosamente amaldiçoando ambos, eu mesma e essa situação terrível, Alex aparece a minha esquerda e Evelyn a minha direita. Afastando a minha mão, Evelyn começa a trabalhar nos botões ao

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mesmo tempo em que Alex mantinha seus olhos firmemente focados nos meus. Quando meu vestido caiu, me deixando parada com nada a não ser um par de roupas íntimas roubadas, não consigo segurar um tremor de corpo inteiro. Mantendo meu olhar em Alex, tremendo da cabeça aos pés, enfiei meus polegares dentro das minhas peças de baixo e as puxei para baixo. “Vire-se e levante seus braços”, o soldado ordena. Engolindo em seco com força, lutando com a urgência de cobrir meus seios, viro lentamente, dando minhas costas a plateia aglomerada. Eles não foram nem de perto tão fervorosos comigo como foram com Evelyn, algo que atribui a minhas cicatrizes e numerosas manchas. Apesar da maioria delas terem se tornado uma feia forma amarelada e roxa, ainda estavam visíveis. Por aquilo, estava agradecida. Se a plateia tivesse sido tão grosseira comigo quanto foram com Evelyn, eu teria saído correndo. “Abra suas pernas”, o soldado diz, “depois se incline para frente e toque os dedos dos seus pés”. Eu fiz como ordenado, sentindo minhas bochechas queimarem pela posição humilhante. Fiquei daquele jeito por muitos segundos, minhas pernas abertas, minha bunda enfiada no ar conforme tentava alcançar meus dedos do pé. “Limpa!” ele grita e eu levanto, fechando minhas pernas e colocando minhas mãos sobre meus seios. Alex ainda parado ao meu lado, já tinha começado a me ajudar a voltar para dentro do meu vestido. “O que aconteceu com ela?” ouço alguém perguntar. Ainda ocupada com minha calcinha, não viro para responder. “Um homem”, ouço Evelyn estalar. “Que homem?” a voz pergunta. “Aquele homem?” Eu me viro então, encarando diversos soldados e a plateia de expectadores por trás deles. “Não”, digo de forma mordaz. “Outro

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homem fez isto. E o matei por isso”. Nem uma pessoa que me ouviu pareceu surpresa com a minha resposta, maioria deles desinteressados de nós agora que estávamos vestidos de novo. Somente um soldado, a voz por trás da pergunta, me encarou de volta. Ele era jovem, talvez em torno da minha idade, com cabelos castanhos claros espetados em todas as direções e olhos vazios muito azuis. “Bem-vindos ao Purgatório”, ele diz monotonamente. “Armas são permitidas, mas se você matar alguém dentro desses portões vai responder por isso. Você entendeu?” “Entendi”, Alex responde concisamente. “Estou falando com ela”, o soldado diz, seus olhos ainda sobre mim. “A autoproclamada assassina”. “Entendi isso”, eu falo calmamente. Levantando seus dois dedos, o soldado fez um círculo invisível no ar. “Deixa eles entrarem!” ele exclama e o portão começa a abrir, as dobradiças gritando em protesto. Quando o portão estava totalmente aberto e não havia perigo de ser eletrocutado, entramos como um grupo. Bryce e Mike seguiram juntos, desaparecendo dentro de uma área de mercado lotada, enquanto Alex, Evelyn e eu ficamos em um círculo apertado, inseguros do que fazer ou aonde ir. “Por aqui”. O soldado que nos recebeu inclina sua cabeça. “Hora de conhecer o chefe”. À medida que o seguimos pelo caminho lotado, a multidão ficando maior e mais barulhenta, não consigo evitar pensar no porque nomeariam um lugar seguro como algo tão ruim quanto Purgatório? Porque essa era a última parada antes do céu ou do inferno? Um lugar de julgamento que testaria nossa determinação e força? Ou estava implícito. Purgatório, um lugar ou estado de sofrimento. Por toda a eternidade. Por trás da gente, os portões fecharam com um baque e um clique,

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fagulhas elétricas atirando de todas as direções. Afasto-me, ainda seguindo nosso guia armado. Eu presumo que descobriria em breve, de um jeito ou de outro.

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Capítulo Vinte e Quatro Evelyn

Meu coração está batendo furiosamente em meu peito, raiva e frustração ainda queima através de mim quando agarro a mão de Leisel, prendendo os dedos dela com os meus. Ficar pelada não é nada para mim. Ser observada, encarada, cobiçada e avaliada, isso tudo não significa nada… para mim. Sim, odiei todos eles encarando, é claro que odiei, porém fiquei mais enfurecida que envergonhada. Contudo para Leisel, alguém cujo corpo foi repetidamente usado como uma ferramenta para envergonhá-la e humilhá-la, é tudo. E depois de tudo que aquele bastardo Lawrence a fez passar, seu corpo é finalmente seu e odiei que aqueles homens tenham feito a sentir diferente disso. Alex caminha a nossa frente, com Leisel e eu sigo bem de perto atrás dele e como um pequeno triângulo andamos atrás do guarda. Ainda nem conheci esse chefe, porém já o odeio, pela recepção desconfortável que seus homens nos deram. Mas enquanto olho ao redor, assimilando nossos novos ambientes, eu não consigo negar que o respeito também. Ele tinha feito muito nesse lugar, especialmente segurança, e aquilo valia minha admiração. A vida literalmente pula de cada canto deste lugar, como se Purgatório fosse uma calçada da ocupada Nova Iorque, não um velho complexo industrial enfiado no meio de lugar nenhum. É ao mesmo tempo fascinante e apavorante, tanta vida em um lugar, preenchida com gente que não parecia aterrorizada como os cidadãos em Fredericksville. Na verdade, estas pessoas parecem o oposto, sorrindo e brincando como se este fosse apenas qualquer outro dia, não quatro anos no desmoronar da civilização. Olhos nos seguem conforme passamos, rostos sujos nos

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avaliando da cabeça aos pés. Algumas pessoas nos oferecem sorrisos amigáveis, outras estão mais apreensivas. Mas os homens todos têm o mesmo olhar em seus olhos – cobiça – evidente em seus sorrisinhos lascivos, suas mãos se esfregando uma na outra, articulações das mãos estalando, seus olhos avaliadores correndo para cima e para baixo em nossa extensão. De queixo erguido, ignoro os assobios, os tremores que correm do braço de Leisel para o meu. Acertando nosso passo, garanto que fiquemos diretamente atrás de Alex, com uma distância não maior de dois passos de cada vez. Mesmo assim, a presença de Alex não me acalma como eu esperava que acontecesse, não quando ainda posso ver aqueles olhos cobiçosos. Eventualmente, no final da área aberta, viramos em uma esquina quieta e entramos em um prédio alto. Do nosso outro lado, as paredes são grosseiramente pintadas com nomes e datas, imagens de ambos, passado e presente. Os corredores ladeados com grandes cilindros de metal, homens os enchem com algum tipo de líquido amarelado, como se preparando para alguma coisa. O lugar todo é surpreendentemente mais limpo do que pensei que poderia ser, o chão livre de resíduos, itens empilhados e organizados em prateleiras ou ordenadamente em contêineres. Admirada, continuo a encarar, me perguntando quantos suprimentos diferentes eles devem ter em um lugar deste tamanho e como obtinham isso tudo. Finalmente nos aproximamos de um lance de degraus de concreto que guia a uma pesada porta de ferro, com dois guardas armados parados em baixo. “Ele está ai?” nosso acompanhante pergunta aos guardas, agitando seu queixo na direção da porta. Um dos guardas responde, um homem baixo e encorpado com impactantes cabelos vermelhos. “Sim, você conhece a prática, bata e espere antes de entrar”. Começamos a subir as escadas, apenas para sermos parados por

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um dos guardas colocando uma mão firme no peito de Alex. “O que você precisa?” este guarda era mais alto que o outro e esbelto, mas seu olhar é duro e ameaçador. Inclinando sua cabeça para um lado, Alex encara o homem com desdém. “Tudo”, ele profere. O olhar do soldado deslizou para longe de Alex, pousando sobre mim. Ao vê-lo, o olhar em seus olhos, soube o que está para acontecer e um tremor de ansiedade escorre em minha coluna. “Posso dar a você qualquer coisa por uma noite com aquela ali”. Mordendo seu lábio inferior, o guarda alternou sua apreciação em direção a Leisel. “Ou aquela outra”, ele continua. “Não temos uma buceta fresca aqui há meses e gostaria de um exercício com elas antes que terminem na Caverna”. Olha para Alex, sua sobrancelha arqueada em questionamento. “Elas não estão à venda”, Alex responde, os músculos de suas costas tensionam. “Esta comendo as duas?” o soldado ri uma vez antes de olhar de volta para mim. “Ele satisfaz vocês?” Seu olhar alterna entre Leisel e eu. “As duas?” É Alex quem responde. “Estou”, ele praticamente rosna. O guarda solta uma golfada de ar insatisfeita, contudo seu sorriso permanece. Passando para o lado, indica a porta, permitindo acesso a nós. Um por um, subimos as escadas e por razões desconhecidas, dou um olhar para trás. Ambos os guardas ainda estão nos observando, sorrindo abertamente e não consigo evitar pensar que talvez cometemos um grande erro, que talvez não devêssemos querer descobrir o que estava por trás da porta. Quando passamos pela porta, demos de cara com outro lance de escadas que leva a um corredor, depois mais dois lances de escadas. Finalmente chegamos a um longo salão escuro ladeado por janelas

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quebradas. Uma porta solitária no final, pintada com um vermelho brilhante. Enquanto descíamos pelo corredor lentamente, não consigo evitar pensar em espiar pelas janelas. Do nosso ponto de vantagem aqui, bem acima do acampamento, somo capazes de ver a extensão inteira e mesmo eu tinha que admitir estar ligeiramente assustada com tudo aquilo. O lugar era grande, muito maior que Fredericksvill, não muito Truman Show10, com uma vibração mais Mad Max11. Paramos em frente da opulenta porta vermelha onde nosso acompanhante levanta seu punho e bate duas vezes. Incontáveis batidas de coração passam, fazendo minha preocupação aumentar e então uma resposta rouca e inaudível soa de dentro. Dou à mão de Leisel outra sacudida; ela parece que precisa daquilo. Na verdade, olha para baixo petrificada e sabe que aquele era todo o incentivo que eu preciso para digerir meus próprios medos e reservas. “Nós vamos ficar bem”, digo a ela calmamente e solto um suspiro de alívio quando assente em resposta. “Juntas, ok?” sorrio para ela. “Sempre juntas, eu prometo”. O cômodo em que entramos é grande e amplo, grossas pilastras de concreto sobem do chão ao telhado, espaçadas uniformemente por todo o lugar. Seções de espaço são divididas por um cordão de isolamento para criar o ambiente de uma casa de verdade e é isso – acolhedor, ainda que de um jeito fodido. Há uma área de estar que consiste de três sofás, nenhum deles combinando, todos com uma insana variedade de tons coloridos e almofadas descoordenadas. A área do quarto é coberta de espelhos – as paredes, o teto, até mesmo a cabeceira. Próximo a uma linha de janelas parcialmente cobertas por tábuas vejo uma área de banheiro com uma grande banheira de pés em garras, o que me faz encolher em simpatia a quem seja que foi o responsável por carregar isso por pelas 10 11

Filme de comédia de 1998. Filme pós-apocalíptico de1979.

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escadas. Como o resto do prédio, o lugar é limpo ainda que eclético, com cores espirradas sobre as paredes e uma variedade de tapetes jogados de diferentes tamanhos e formas dispersos pelo chão. Visualmente dissonante e estranhamente acolhedor ao mesmo tempo. No centro disso tudo, um homem e uma mulher nos encaram, surpreendendo minhas expectativas sobre suas aparências. O homem é grande, não só musculoso, mas evidentemente grande, coberto de músculos. E enquanto ele continua a vir em direção a nós, uma feroz carranca em seu rosto e seu peito nu a mostra, fico ligeiramente mais impressionada pela força pura que ele irradia pelo lugar de onde preside. Uma faixa grossa de cinza cai em seus cabelos, fazendo me perguntar se ele colocou aquilo intencionalmente. Mas quanto mais perto fica, mais óbvio é que era natural. Com um palito encravado entre seus dois dentes da frente, sua cara carrancuda se aprofunda conforme se aproxima de nós, brevemente me pergunto se deveríamos apenas dizer dane-se e correr. A mulher ao lado dele é menos imponente, ainda que a sua presença sugue todo o ar do cômodo, fazendo-a parecer ainda mais assustadora do que ele. Ela é esbelta, com uma cintura fina, braços totalmente tatuados e cabelos no comprimento do queixo que foram tingidos de um rosa brilhante. Alguém de seu tamanho e estatura não pareceria tão assustador, ainda assim havia algo nela, algo que sugeria uma irritação crua, como se uma violência adormecida espreitasse por baixo de sua superfície. Nós estávamos observando eles e eles estavam nos observando, ao mesmo tempo em que aquela mulher pendurava em seu homem como uma sanguessuga, seu piercing no nariz cintilando toda vez que ela fazia qualquer movimento. Tensos minutos passam lentamente e quando já pensava que não conseguiria aguentar outro segundo em silêncio, quando estava me sentindo como se fosse sufocar debaixo do olhar dessa pequena mulher – não do homem, por que os olhos dele não saiam de Alex – Leisel fala,

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chocando a todos no cômodo. “Não sei vocês, mas eu realmente gostaria de sentar”, ela diz encolhendo os ombros. Solto uma risada nervosa, tentando parecer segura, tentando quebrar o gelo nesta situação esquisita onde nos encontrávamos. “Andamos o dia todo, evitando os infectados”, ela continua. “Eu juro, é como se tivesse um maldito apocalipse acontecendo lá”. Oferece outra risada suave, seu olhar mirando o meu. Tentando não paralisar com sua audácia e ruim tentativa de fazer piada, me pergunto sobre quão estranhamente calma ela parece, enquanto eu estou aqui, sentindo como se pudesse vomitar de ansiedade. Ainda mais estranho estava o homem, que começa a rir do piar estranho de Leisel. Seu sorriso abre até puxar o palito de trás dos seus dentes e rir de orelha a orelha. De repente seu sorriso se torna uma risada de doer a barriga o que faz com que nós três fiquemos nos contorcendo desconfortavelmente. Parecendo perplexa e mais que um pouco irritada, a mulher de cabelos cor de rosa encara seu homem. Quando nota os olhos dela sobre ele, o homem vira para encará-la e depois de ver o olhar de confuso desdém torcendo no rosto dela, seu sorriso rapidamente some. “Venham. Sentem nessa porra”, ele diz, sua voz cheia de cascalho, seu rosnado original novamente firme no lugar. Juntos, embora a mulher estivesse claramente guiando o show, o casal parte para os sofás. Alex olha primeiro para mim, depois para Leisel, seus olhos queimando com perguntas que não pode ousar dar voz. Não aqui, não ainda. Dando de ombros ligeiramente, ele se dirige para os sofás também, deixando a mim e a Leisel pouca escolha a não ser segui-lo. Como ovelhas indo para o matadouro, um por um, nós tomamos um assento, Leisel a esquerda de Alex, eu a direita dele. Não gosto do arranjo no sofá, claro que Leisel deveria ficar no meio, protegida por nós dois. Mas este lugar, este mundo, não é nossa realidade. É a realidade deles, este mundo novo onde homens eram donos de

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mulheres como se fossem suas propriedades. Apenas consegui presumir que estamos sentados assim por que Alex sente isso e age de acordo. Os segundos palpitam, um por um e mesmo assim ninguém fala até Alex finalmente romper o silêncio. “Nós, uh, ajudamos dois de seus homens a escaparem de uma horda de infectados. Em troca...” “Jeffers”, o homem diz, interrompendo Alex, depois enfia o palito de volta no lugar. “O que?” Alex pergunta. “O nome dele é Jeffers”, a mulher explica, sua voz áspera com um sotaque que não reconheço. “E eu sou Liv”. De repente ela sorri para mim e chega um centímetro mais perto de Jeffers. Cobrindo a perna musculosa e grossa dele com sua longa e magra perna, uma coxa aparecendo um pouco demais e a notável curva de sua bunda revelada no processo, ela arqueia sobre ele e atira sua língua para fora, dando uma longa e sem pressa lambida na extensão do pescoço de Jeffers. É tudo muito vulgar, o ato me lembra um cachorro mijando em uma árvore para marcar seu território. Instantaneamente concluo que não gosto dela. “Vocês viveram na selva esse tempo todo?” Jeffers pergunta, sua sobrancelha enrugada. “Sim”, Alex murmura. “De qualquer forma… Jeffers… ajudamos dois de seus homens..” “Vocês três?” Jeffers olha para Leisel e eu, seus olhos apertam. Alex assente, claramente incomodado com a interrupção. “Sim, nós três ajudamos dois dos seus homens. Eles estavam presos dentro de um celeiro, o lugar inteiro estava tomado por infectados e nós..” “Os resgataram?” Liv oferece, levantando uma de suas sobrancelhas finas. Seu olhar dissimulado aterriza em Jeffers. “Você ouviu isso, bebê? Estes três ratos selvagens resgataram dois dos nossos garotos”. Se virando na minha direção, ela sorri de novo. “Quem era? Os

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homens que resgataram? Quais eram os nomes deles?” O tom de Liv se torna desafiador. Ela passa sua língua em seu lábio inferior, de vez em quando dando uma mordida nele. Não consigo dizer se ela só não gostava de mim tanto quanto eu dela e estava brincando comigo por causa disso, ou se isso era alguma estranha tentativa de flertar comigo. Tudo que sabia é que não confiava nela. Não totalmente. “Bryce”, respondo com hesitação, meu olhar sobre ela, férreo e duro. “E Mike”. Seu corpo ainda vestindo o de Jeffers, Liv começa a gargalhar, uma gargalhada aguda, curta e zombeteira que faz calafrios correrem em meus braços. “Jeffers, bebê”, ela cantarola, um pouco dócil demais. “Estas damas resgataram dois de nossos garotos. Significa que temos uma dupla de vadias duronas prontas para serem colhidas, não temos?” Jeffers parece muito pouco impressionado, seu rosto ainda duro e ilegível. De vez em quando os músculos em seu peito e braços contraem, um compasso nervoso e instável que não fazia nada apenas aumentar a já desconfortável situação. Eventualmente ele se inclina para frente, seus cotovelos descansando em seus joelhos. Levando seu palito para a esquerda e para a direita com a língua, seu olhar frio decai sobre Alex. “Vou querer fechar esse placar”, ele fala sombriamente. “Fechar o placar?” exclamo audivelmente. Os olhos de Jeffers movem languidamente em minha direção. “Mantenha sua boca fechada a menos que te peçam e talvez te deixe ficar”. Ele se volta para Alex. “Você luta? Ou é só grande e inútil?” A mão de Leisel subitamente encontra meu braço, suas unhas cavando dolorosamente em minha pele e eu estou bem ali com ela, ambas cuspindo fogo para esse homem audacioso e temerosas do que ele guarda para nós. “Eu sei lutar”, Alex diz, sua voz rasa. As unhas de Leisel estão

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cavando pequenos buracos na minha carne e tenho de suprimir um grunhido de dor. “Você luta, você fica”, Jeffers anuncia. Esticando seus braços por cima das almofadas, se inclina para trás e encosta-se ao sofá. Liv o segue, se curvando em torno do grande corpo dele como um gato faminto pedindo atenção. Ignorando Liv, Jeffers olha entre Leisel e mim. “Vale para vocês duas também. Tragam alguma coisa para a mesa ou são inúteis para mim”. O eu te disse de Leisel ecoa dentro da minha cabeça, eclipsando o zumbido em meus ouvidos causado pela raiva. Olho para este homem e seu ridículo brinquedo de cabelos cor-de-rosa, minha humilhação queima dentro de mim. Ele sabe que não temos nada, a não ser nossos corpos e eu morreria antes de deixar outro homem machucar Leisel daquele jeito. “Vou lutar por todos nós”, Alex diz, suas palavras saem rápidas e duras enquanto luto para controlar sua ira. Se desprendendo de Jeffers, Liv vira para Alex. “Sinto muito, gostosão”, ronrona sedutoramente, correndo seus dedos para cima e para baixo no corpo dele, parecido com o que ela tinha feito com a língua no pescoço de Jeffers. “Não é assim que funciona aqui. Ninguém é responsável por ninguém. Você se cuida sozinho ou está fora”. Aquela vadia dominadora. Quero socá-la, fincar minha unha de cima a baixo em sua cara, entalhar seus olhos com as pontas dos meus dedos, arrancar seus toscos cabelos cor-de-rosa do seu couro cabeludo e fazê-la sufocar com eles. Mas não faço nada, só fico sentada ali ao lado de Alex, interpretando o papel da mulherzinha boa que sabia seu lugar, à medida que rezo para que Alex fale em nossa defesa. “Elas não estão à venda”, Alex diz e se levanta. Olha para Jeffers e Liv. “E se esta é nossa única opção, então acabamos por aqui”. Jeffers levanta também, sustentando o olhar de Alex. “Você pode ter acabado aqui, mas eu disse que tem um placar para fechar e vou

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ter a minha luta”. Os homens encararam um ao outro, ambos totalmente bombeados com testosterona e ego, nenhum deles querendo se dobrar ao outro. É uma situação perigosa, Alex com apenas duas pequenas mulheres em seu canto e Jeffers com um exército inteiro. “Então essa buceta não vai trabalhar”, Liv fala, se inclinando para frente com um sorriso divertido no rosto. “É esse o problema? Elas só tem olhos para você?” Sem esperar que Alex respondesse, ela dá de ombros. “Então vamos encontrar algo mais para elas fazerem”. Seus olhos pousam em Leisel. “Gosta de dançar, ratinha?” Ao meu lado, Leisel hesita e posso dizer que está a meros segundos de se perder completamente. Sua respiração frenética, seu aperto em mim machucava. “Eu posso lutar”, diz de repente, atraindo toda a atenção para mim. A boca de Liv curva em um sorriso cruel, fazendo meu estômago afundar. No que tinha me metido? “Estava esperando que você dissesse isso”, ela desdenha. Virando para Leisel, seu sorrisinho cresce mais maléfico. “E você, ratinha? Pode lutar como esta linda gatinha, pode?” “Não”, Alex rosna, se movendo para parar diretamente em frente à Leisel, bloqueando-a da linha de visão de Liv. “Ah…” Jeffers arrasta com ar sabedor. Olhando para Liv, trocam um olhar astuto. Repentinamente me sinto pior, minha ansiedade aumenta de novo. Eles agora sabem como Alex se sente em relação à Leisel e não posso imaginá-los respeitando estes sentimentos. No mais, aquelas eram o tipo de pessoas que tiram vantagem disso. “Deve haver algo mais que ela possa fazer”, Alex fala. “Limpar ou cozinhar…” Liv ergue seu dedo indicador no ar e balança de um lado para o

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outro como um metrônomo. “Ah, ah, ah”, diz, sorrindo. “Nós não cozinhamos para as massas aqui. Algumas pessoas têm recursos e montaram restaurantes, enquanto os outros têm seus rendimentos ou terminam cuidando de si próprios. Sobre a limpeza, reservamos esses trabalhos para os idosos. Os homens e mulheres que não tem mais força para lutar, ou o sex appeal para vender a si mesmos”. Solto-me com um suspiro resignado, Leisel levanta e desliza para fora do enquadramento de Alex. “Eu sei dançar”, ela diz.

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Capítulo Vinte e Cinco Leisel

“Não, Lei, absolutamente não! Quatro anos de balé intermediário quando era adolescente não é o que aquelas pessoas têm em mente para você!” Evelyn esteve gritando comigo por, pelo menos, uma hora, só parando seus guinchos agudos para me ignorar, antes de começar a gritar novamete. E eu estava ficando com uma forte dor de cabeça devido a isso tudo. “Quatro anos de balé”, eu digo concisamente. “Dois anos de dança moderna, seis anos de hip-hop e três de zumba, Eve. Lembra? Você ia às aulas comigo. Eu sei dançar”. “Aulas, Leisel, aulas! Isto não é uma aula cheia de garotas e mulheres, isto é você usando quase nada e dançando em uma gaiola para uma audiência masculina! Nem conseguiu tirar suas roupas nos portões sem ter um ataque de pânico!” Suspiro audivelmente. Sim, isto era muito diferente de tudo a que estou acostumada, ou confortável, nesse sentido. Mas Liv me garantiu que não estaria pelada, não que eu confiasse naquela maltrapilha de forma alguma, e que as dançarinas da gaiola eram apenas aquilo, dançarinas. Contanto que Evelyn e eu garantíssemos nossas marcas de propriedades concluídas antes de começarmos a trabalhar, tatuagem que seria idêntica a uma que Alex estava atualmente fazendo, nenhum homem poderia nos tocar sem a permissão de Alex. Considerando o jeito que Alex estava agindo – recusando a olhar para mim e sua expressão matadora – não vislumbrei isso como sendo um

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problema. Ele me vender para outro homem, isso é. “Não temos a porra de uma escolha”, cuspo, aumentando minha agitação com seu ataque de mãe interminável. “Este lugar não é exatamente um pilar dos direitos femininos!” “Quem é você?” ela grita, seu rosto de repente muito perto do meu. “O que é esse transtorno de personalidade? Um minuto está se escondendo, no próximo está matando um infectado, no outro você está chorando e depois está desejando dançar para homens? Eu não conheço você, Leisel. Não conheço essa pessoa e não entendo isso!” “Estou fazendo o que eu tenho que fazer!” berro. Sem pensar, bato minha mão no peito dela e a empurro para trás. “Estou tentando me ajustar! Estou tentando, Eve, eu estou tentando!” “Não quero que você se ajuste!” Eve choraminga e me empurra também. Seguro-me para não cair e quando levanto a cabeça para encarar Evelyn, vejo lágrimas se formando em seus grandes olhos azuis. “Você estava bem do jeito que era!” ela diz com a voz estridente. “Era carinhosa e doce, a única pessoa boa de verdade que restava neste mundo!” “Eu não estava bem!” grito, a visão de suas lágrimas fazem as minhas próprias também caírem. “Eu era fraca, era fraca e estúpida e por causa disso acabei casando com um homem como Lawrence! Ele sabia disso, podia ver isso em mim, ver que eu era um capacho que ele poderia pisar em cima. Não quero ser um capacho mais, Eve, eu quero ser forte! Quero ser forte como você é”. Pessoas estavam começando a parar e encarar, abertamente olhando estupefatos para Evelyn e eu quando passavam por nós no corredor. O prédio que estávamos é um dos pequenos, cheio do que parecia ser escritórios comerciais. Agora são lugares separados de negócios. Evelyn e eu estamos paradas do lado de fora de uma porta ridiculamente marcada Marcação. “Eu costumava querer que fosse mais forte”, Evelyn sussurra de forma instável, se arrastando para perto de mim. “E então… agora… é como se não soubesse quem eu sou se não tiver que me preocupar com você. Qual é o propósito aqui, Lei, se eu não tiver ninguém para

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cuidar?” Apesar de suas lágrimas e seu tom agora quieto, seus olhos estão selvagens, frenéticos mesmo. Pensei que suas oscilações de humor tinham acalmado um pouco, mas parece que a semana passada foi a calmaria antes da tempestade, uma tempestade que está começando a se formar. “Oh, Eve”, murmuro, me esticando até ela. Quando a pego em meus braços, apertando com força, dois homens passam, desacelerando seus passos ao nos ver. Os dois têm sorrisos doentios; um deles pisca e o outro agita as sobrancelhas. Enojada, enfio meu rosto no ombro de Evelyn. Quão facilmente o mundo volta ao que foi uma vez, onde homens se apropriavam das mulheres e as tratavam como se fossem um pouco mais que gado. De uma forma, o novo mundo é como o velho Oeste, cheio de cowboys armados, perigo em cada esquina, onde uma mulher só está segura se tiver sido reclamada por alguém. Se não, é objeto menosprezado. Deveria sentir gratidão por Evelyn e eu termos Alex e estou, ainda assim não consigo conter a raiva que continua despertando. Raiva, por que eu não deveria ter que me sentir desse jeito e por causa do quão longe chegamos como nação, somente para perder tudo em apenas quatro anos. “Estamos seguros agora”, falo de forma reconfortante. “Nós temos cercas elétricas e um exército inteiro mantendo os infectados fora. Nós temos Alex nos protegendo. Você não tem que ser forte neste momento, Eve, pode dar uma respirada. Você pode dar centenas de respiradas”. Minhas palavras são gentis e o mais sincero que consegui dizer em nossas atuais circunstâncias. Espero que Evelyn estivesse muito cabisbaixa para perceber a dúvida que eu sinto, que ela não conseguisse pescar as pequenas mentiras brancas enlaçadas entre as verdades. Porque nós não estamos seguros, não mesmo. Segurança agora é uma coisa do passado, um pedido a uma estrela cadente, o tipo de sonho que você nunca quer acordar. Nesse nosso pesadelo acordado,

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tudo pode acontecer. Alex pode morrer, nos deixando sozinhas, duas mulheres maduras para serem colhidas mais uma vez. Ou os infectados podem vir, muitos, para que estes portões segurem a enxurrada e então este forte cairia, nos deixando como comida de infectados, ou novamente sozinhas no enorme aberto. “Você está certa”. Evelyn se solta do meu abraço, fungando e enxugando as lágrimas em suas bochechas. “Estou sendo ridícula. Provavelmente é aquela época do mês”. Ela tenta um sorriso e eu também, mas nossas fachadas rapidamente evaporaram assim que a porta abre, revelando um Alex muito chateado. Ele levanta seu pulso, revelando sua marca. Dois As idênticos em negrito foram tatuados em sua pele com dois círculos os envolvendo. “A-A?” pergunto. “Alexander Adams”, responde entre dentes, seu olhar duro conforme me encara. “Meu nome”. “Um A a mais e você poderia começar um clube de viagem”, Evelyn brinca sem humor, mas nem Alex nem eu ao menos tentamos um sorriso. Não há nada engraçado nisso. “Quem é o próximo?” Alex pergunta. Olho para Evelyn, que dá de ombros em retorno. “Eu vou”, ela diz. “Vocês dois precisam conversar”. Enquanto ela desaparece dentro da sala, batendo a porta atrás dela, repentinamente não consigo olhar para Alex. Ele está me encarando, não, seus olhos tentando estão apunhalar meu coração. E mesmo que soubesse que não devia a ele uma explicação pela minha decisão, seu comportamento está me fazendo sentir como se eu devesse. “Poderia ser pior”, digo calmamente olhando para o chão. “Poderia fazer strip-tease, ou…” finalmente levanto os olhos para ele e ergo meus braços em um gesto impotente. “Não sei lutar, Alex! O que queria que eu fizesse?” Ele não responde, só continua a encarar, aqueles olhos escuros

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queimando buracos raivosos através de mim. “Alex”, sussurro, meu tom apresentando um toque de desespero. “Diz alguma coisa!” Ele não diz, é claro, mas minhas palavras parecem ativar alguma coisa nele. Seus ombros caem curvados e sua carranca desaparece. Balançando sua cabeça, se inclina contra a parede atrás dele e cruza seus braços em seu peito. Suspiro e me estico para alcançá-lo, tentando soltar seus braços. São diversas puxadas, comigo não chegando a lugar nenhum contra sua força até que ele finalmente escolhe ceder. Derrubando seus braços, me permite envolver os meus em sua cintura e me pressionar contra ele. Muitos momentos passam, sua teimosia sem limites, eu o segurando apertado e ele se recusando a fazer o mesmo. Mas não desisto, não permito que algo tão insignificante separe nosso pequeno grupo. Beijo seu peito, enfio meus dedos em suas costas e o beijo de novo e novamente através de sua camiseta suja até finalmente ele suspirar. Relutante, levanta seus braços e me envolve com eles. Outro momento passa e então ele me levanta em seus braços, me segurando tão apertado que mal consigo respirar.

*** Conforme sigo atrás de nossa nova guia, uma prostituta chamada Bethany que não deve ter mais de vinte anos e está notavelmente nua por baixo de seu robe quase transparente, reparo no que é um dos muitos quartos do Purgatório. Este prédio em particular tem cinco andares de altura, parece um alojamento de faculdade com porta atrás de porta e poucas janelas. Mas este está muito longe de um dormitório, as paredes decoradas com uma estranha mistura de tinta spray e arte emoldurada, as pinturas são todas facilmente reconhecidas como

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trabalhos de pintores famosos do passado. E há cadeados em quase toda porta. “As maçanetas não dão conta”, Bethany oferta quando me pega encarando. “Muitos arrombamentos”. Engasgo, me perguntando o que alguém ainda tinha nestes dias que poderia valer a pena ser roubado e porque as pessoas desejariam se arriscar tanto. Talvez eu apenas seja ingênua sobre isso tudo, mas as regras do Purgatório foram expostas para nós por Liv e são rigorosas e duras. A primeira vez que você roubar, perde uma mão. Na segunda vez que você roubar, é colocado numa jaula infectado e deixado para se transformar. Pegou a mulher de outro homem, você perde outra parte vital do corpo e é enfiado em uma jaula, infectado, e deixado para se transformar. Cada incidente tinha o mesmo desfecho. Você se torna um infectado e era deixado em uma jaula para apodrecer. Ainda não vi nenhuma jaula ou infectado, mas era uma morte horrível e dolorosa para contemplar e um terrível lembrete para alguém não roubar ou causar problema, ainda assim aparentemente não era um impedimento completo. “Quando você estiver em casa”, ela continua, “ Deixe sua porta trancada por dentro e quando sair, se certifique de que trancou do lado de fora”. Nós a seguimos em silêncio, os três simplesmente reparando nos arredores. Passamos por um par de crianças brincando sozinhas em um corredor com um conjunto de blocos coloridos. Ofereço a elas um sorriso que ambas retornam com olhares apreensivos, o que só faz escurecer ainda mais o meu humor. “Já que você tem duas reclamadas, Liv quis todos no prédio familiar”. Bethany encolhe os ombros, dramaticamente jogando seus longos cabelos negros sobre seu ombro. Desacelerando seus passos, vira para olhar por cima de seu ombro, dando a Alex um longo e estimado olhar. “Se estiver procurando por outra garota, ficarei mais que feliz em

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dar a você um brinde, dar a você uma mostra do paraíso, querido”. Ela para de andar, forçando o resto de nós a parar também. Colocando sua mão aberta no peito de Alex, corre seus dedos com unhas pintadas de vermelho na camiseta dele. Sua língua move, deslizando lentamente sobre seu lábio inferior. “É assim que chamam minha buceta por aqui”, ela sussurra enquanto escorrega sua mão para baixo da barriga dele. Chocada, assisto com mais do que uma raivinha alimentada pelo ciúme conforme audaciosamente leva a mão cheia para a virilha de Alex. “Paraíso”, ela ronrono de forma gutural, seus dedos flexionando. Minha respiração fica superficial, segundos parecendo horas enquanto meu coração bate em um ritmo instável dentro do meu peito. Porque não empurrá-la para longe, ou melhor, pegá-la por sua garganta vulgar e apertá-la até a vida se esvair dela? A indignação se alastra dentro de mim e luta para contar minha irritação com ambos, ela e ele. A mão de Alex cobre a dela e a desencosta, antes de empurrá-la e dar um passo para trás. “Talvez outra hora”, ele diz, duro, felizmente parecendo tão enojado quando eu estou me sentindo. O desapontamento de Bethany é palpável. Amuada, dá a Evelyn e a mim um olhar mordaz, que nos grita como é que ela está se sentindo. Quem éramos nós? O que é tão especial que um homem como Alex nos reclamou não a ela? Eu me descubro sentindo mal por ela, minha raiva amua quase tão rápido quanto havia inflamado. Ao invés disso, estou me sentindo triste por suas circunstâncias e apesar dessa mulher não querer minha piedade, sinto mesmo assim. Tire Alex da equação e Evelyn e eu, ambas, estaríamos em seus pés, desesperadas por algum sentido de segurança e prontas para fazer qualquer coisa que nos fizesse obter isso. “Que seja”, ela murmura, então se vira, deixando todos com uma visão de perto e muito pessoal da sua bunda. “Estamos aqui de

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qualquer jeito”. Move sua mão cuidadosamente em direção a uma porta à direita. Como as outras, era também equipada com um enorme cadeado. Uma chave aparece na mão dela – onde esteve escondendo isso? — e assim, sem virar para olhar para ele, oferece-a a Alex. “Vou voltar esta noite”, ela diz petulante em nossa direção. “Certifique-se de tomar banho antes do trabalho. O banheiro é no primeiro andar”. Com outra jogada de seus cabelos em seus ombros, Bethany dispara entre Evelyn e eu, seu ombro propositalmente colide com o de Evelyn. E logo ela se foi, desceu o corredor e eventualmente saiu de vista. Enquanto Alex lidava com o cadeado, Evelyn e eu trocamos olhares desconfortáveis. Estou preocupada com você, os olhos dela me disseram. Também estou preocupada comigo, mas em vez de expressar isso, olho para longe, meu olhar pousa nas duas crianças que ainda brincavam no corredor. Não havia muito para estar agradecida neste novo mundo, só Evelyn e agora Alex, ainda assim me descubro de repente agradecida por não ser capaz de conceber uma criança. Nem com Thomas e nem com Lawrence. Este mundo não é para crianças, não é favorável para crescer e aprender e definitivamente não ensina moralidade. Aquelas duas crianças não conheceriam nada a não ser violência e morte e me considerava grata por nunca carregar a culpa de trazer vida para dentro desse mundo já morto. “Lar doce lar”, Alex murmura conforme empurra a porta para abrir. Um cheiro de mofo flutua de dentro para o corredor, misturado com produtos de limpeza. Um a um, nós entramos, dando uma olhada em nossa nova residência. É um cômodo pequeno, não maior que um quarto. À direita, um colchão manchado foi jogado aleatoriamente sobre o chão e a esquerda estava uma maltratada poltrona velha, puída e faltando um braço. Uma bancada de má qualidade ladeava a parede abaixo de uma linha de janelas, todas rachadas e cobertas por fitas

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adesivas. Mas as paredes são outro enredo. Pendurados sobre o trabalho porco da pintura, de uma doente cor verde, estão diversas cópias de arte famosas. A Monalisa, Noite Estrelada e O Grito todos pendurados lado a lado, um estranho tipo de mistura. Encaro O Grito, pensando o quanto de acordo aquilo está. Também me ocorre o pensamento de que, assim como crianças, arte parecia ter pouco lugar neste mundo.

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Capítulo Vinte e Seis Evelyn

“E agora?” Leisel está empoleirada na beirada da cadeira sem braço, olhando de Alex para mim e de mim para Alex. Seus olhos suplicam para dar a ela alguma coisa de substância para se prender dentro deste estranho lugar, mas tudo que eu posso fazer é encolher os ombros. Só estávamos ali há poucas horas e já estou irritada e doente para explodir com tudo. Anoiteceria em breve e o pensamento de estar em um lugar atrás de muros, cercas, barreiras… seja lá como você quiser chamar isso, me deixa desconfortável. Deveria me sentir segura agora, ainda assim não sinto nada. Alex ficou em silêncio por horas, desde que Leisel insistiu que dançaria. Claramente, ele odiou a ideia, repudiou e quase posso sentir o gosto da sua ira a ideia de outros homens olhando para ela. Se recusando até mesmo a sentar, ele fica parado em frente a uma janela, olhando através do vidro quebrado para o mundo lá embaixo desde que entramos em nosso quarto. Lançando minha cabeça na direção de Alex, dou a Leisel um olhar indicador, silenciosamente comunicando a ela para levantar a bunda e ir falar com ele. Murmurando a palavra não, balança sua cabeça e em retorno eu a encaro, de novo lançando minha cabeça na direção dele. Relutantemente, ela finalmente levanta e caminha lentamente pelo

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cômodo antes de alcançá-lo. Hesitantemente, chega nele, gentilmente colocando sua mão em suas costas, somente para vê-lo se encolher para se afastar dela. Fechando seus olhos, Leisel dá uma profunda e trêmula respiração, antes de abri-los e tentar de novo. Dessa vez, Alex continua parado, permitindo que o tocasse e eventualmente ela começa gentilmente a esfregar suas costas e ele visivelmente a relaxar. Mordendo seu lábio inferior, ela olha para mim com uma expressão em seu rosto que claramente dizia, o que eu faço agora? Sorrindo suavemente, simplesmente balanço minha cabeça e viro para sair. Há só uma coisa que eu sei fazer para vencer um homem. Use seu corpo. “Onde está indo?” Alex diz, me fazendo pular de susto. Congelo no lugar, minha mão quase pegando na maçaneta. Olhando por cima do meu ombro, o vejo olhando para mim, sua cara profundamente fechada ainda no lugar. “É perigoso ai fora”, rosna, sua carranca e fúria misturadas em uma expressão ameaçadora. “Você não reclamou sua propriedade sobre mim de verdade”, relato a ele, minha voz era enfática. “Então, se estiver tudo certo para você, estou indo dar uma checada neste lugar. Além disso, tenho que encontrar alguma comida para gente”. Descendo os olhos em mim, enrugo meu nariz. “Talvez até mesmo algumas roupas que me sirvam. E definitivamente preciso de um banho e não preciso de um acompanhante, não com suas inicias eternamente marcadas em minha pele”. Minhas últimas palavras são ditas como a entonação da amargura que eu estou sentindo. Levantando meu braço, mostro a Alex suas iniciais que estavam agora marcadas para sempre em meu pulso. Os olhos de Alex escurecem com algo próximo a culpa e posso dizer que ele se sente mal sobre a marcação. Não estou chateada com ele por que aquilo não era sua culpa, mas permaneço em silêncio, deixando-o remoer sua culpa. “Certo”, ele eventualmente estala, rosnando. Depois olha para

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Leisel e sua cara fecha ainda mais. “Você deveria ir também”, diz a ela, sua voz mais áspera do que já escutei nele antes. “Precisa se lavar para esta noite, certo?” ele ri uma vez, um rosnado agudo e sem humor, depois dá as costas para ela, seus olhos mais uma vez trilhando pelo chão lá embaixo. Revirando meus olhos, suspiro audivelmente. O humor de Alex está me dando chicotadas. O que está provavelmente combinando, considerando o quão irritante deve ter sido para ele ter que lidar com Leisel, eu e nossos constantes altos e baixos durante as últimas semanas. Parada, Leisel parece como se estivesse prestes a chorar; seu queixo tremia e suas mãos começaram a tremer. Eu ia dizer alguma coisa irritante de volta, algo para acender o humor, até que percebo o fogo em seus olhos. É pequeno, escondido atrás de lágrimas e temores. Aquele fogo cria uma sensação calorosa profundamente em minha barriga, me fazendo sorrir de orgulho. “E seu título de posse sobre nós – sobre mim?” ela fala, sua voz surpreendentemente irritada. “Tem certeza de que quer que eu vague por ai sem você e sua coleira?” Ela está tentando demonstrar raiva, mas nunca demonstrou raiva muito bem, se saindo ao invés disso como uma criança teimosa e birrenta. Alex vira, encarando-a, seus olhos suavizando à medida que observa sua tentativa de manter esta fachada de raiva tola. Eventualmente as feições dele se tornam gentis e então ela ergue os olhos para ele daquele jeito suplicante que me lembrava de antes. Quando queria algo novo para a casa, algo caro que Thomas acreditava que fosse frívolo ou extravagante demais. Ele sempre caia. Sempre. E Alex não era diferente. Somente um momento passa antes dos ombros de Alex cair em derrota. Ela se estica para ele novamente e dessa vez ele não se encolhe para se afastar dela. Dessa vez envolve um braço ao redor da cintura dela e a puxa contra seu peito. Ela levanta seu rosto e ele abaixa o dele e olham dentro dos olhos um do outro de um jeito que me faz sentir

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como se fosse uma Voyeur12 invadindo um momento privado e íntimo. Sorrindo para mim mesma, começo a deixar o quarto quando Alex de repente grita um protesto atrás de mim. “Eve! Pare! Se está morrendo para sair, então vamos todos sair para dar uma olhada por ai”. Viro para olhar para ele, um pouco aturdida que estou cedendo tão facilmente. Embora conhecesse em primeira mão o efeito que Leisel tinha naqueles que a amam. “Até que saibamos que tipo de pessoas eles são”, ele continua. “Acho que precisamos ficar colados um no outro”. Franze o cenho para mim e franzo para ele de volta. “Quer dizer que quer que eu fique colada em você”, digo diretamente. Dobrando seus braços em seu peito, ele me encara. “Se isso significar que você estará mais segura, então sim, é exatamente o que quero dizer”. Abro minha boca para protestar quando Leisel dá um passo a frente, interrompendo nossa discussão antes mesmo de começar. “Acho que ele tem razão, Eve. Eu me sentiria mais segura se nós todos estivermos juntos”. Bufando de irritação, viro meus olhos para o telhado, irritada por ela escolher jogar aquela carta contra mim. Ela sabe que nunca a rejeitaria, que jamais recusaria o que ela sentia. Sempre desejo que ela se sinta segura; na verdade preciso que ela se sinta assim. “Tá”, estalo. “Certo”.

*** O ar está mais fresco do lado de fora, a luz do dia dando lugar 12

Indivíduo que experimenta prazer sexual ao ver estímulos sexuais.

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para o anoitecer, abandonando o sufocante calor do sol em favor da lua. Está mais quieto agora, luzes brilhando de dentro dos diversos prédios. O lugar é mais assustador agora que a noite se aproxima, agora que está mais quieto e quase deserto, independente das pessoas estranhas indo de um prédio para outro. Sombras, grandes e escuras, lançam sobre nós conforme passamos pelo que, de repente, me parece assustador como uma cidade deserta, estruturas altas levantando sobre nós por todos os lados. Isso me faz relativamente surtar, parecendo similar demais a quando a epidemia começou. Nossa cidade natal estava sempre ocupada, sempre movimentada e com vida, até a infecção acabar com tudo. Então rápido demais tudo ficou quieto, cada rua parecendo mais escura que a outra. Este lugar – Purgatório – há não muito tempo atrás estava repleto de vida e mesmo assim com o pôr do sol ficou quase em silêncio. O único som que consigo facilmente discernir é uma batida baixa, uma mistura de som baixo e palavras sussurradas, vindo de algum lugar dentro de uma dessas estruturas. Olho para Alex e descubro suas feições crispadas de irritação, como se a música provocasse algo nele e a cada passo em direção a ela, parece ficar ainda mais distante. Mesmo assim continuamos a seguir a batida, tomando nossa trajetória através de caminhos sinuosos entre os prédios, caçando a fonte do barulho até nos encontrarmos em frente a um prédio menor aninhado entre dois prédios maiores. Olho para esse prédio com admiração. Não escuto música há um bom tempo, mesmo em Fredericksville, por medo de que isso atraísse os infectados. Mas estas pessoas são quase descaradas com seus níveis de barulho. Aquilo me assusta, ainda que ao mesmo tempo, não consigo negar a excitação que nasce dentro de mim. Viro para Alex e Leisel, descobrindo a mesma expressão excitada e maravilhada em seus rostos, apesar de Alex parecer mais irritado do que nunca, o estresse rola sobre ele em ondas. A mão dele está presa na de Leisel, seus dedos entrelaçados.

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Examina o prédio atentamente, engolindo lentamente, seu pomo de Adão move em sua garganta. “Devemos voltar para o quarto”, ele diz, já virando para sair e puxando Leisel junto com ele. “Alex”, ela protesta, fincando seus pés no chão. “Sério?” estalo. “Ir embora? É isso?” Ele vira de volta, seus ombros já afundando em derrota quando olha para Leisel e vê o desapontamento vincando em suas feições. “É barulhento ai”, ele fala, ao que reviro meus olhos. “Isso poderia ser perigoso. Não conhecemos essas pessoas”. Bufando, aponto para o céu com meus braços abertos. “Alex, olha para onde a gente está. Este lugar inteiro é perigoso, este mundo maldito inteiro é perigoso!” Sua boca comprime em uma fina e dura linha. “Isto é diferente”, ele diz, sem rodeios. Ele é um homem de poucas palavras, sempre usando simples sentenças diretas, muito raramente demonstrando qualquer tipo de emoção, apesar de agora poder dizer que eu o estava irritando. Ele olha para Leisel, para sua expressão suplicante, aquela que sempre conseguiu a ela exatamente o que queria quando estava com Thomas. Seguro um sorriso, esperando e assistindo conforme a força de vontade de Alex começa a desmoronar. “Por favor, Alex?” ela murmura com doçura, doce demais, até mesmo para Leisel. “Podemos só dar uma olhada por ai. Vamos sair se você não gostar. Eu prometo”. Alex olha entre Leisel e eu, um ruído frustrado emerge de trás de sua garganta. Frustrado e ainda por cima vencido. “Certo” admite, infeliz, “mas fiquem perto de mim o tempo todo”. “Fechado”, respondo. Mesmo que odiasse ter que responder a alguém, eu faria se isso significasse poder ouvir música, pela primeira

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vez no que parecia uma eternidade. Fechando a cara para mim, Alex balança sua cabeça e se move para a porta. Dentro era escuro como esperei que fosse. Na verdade, é iluminado por todo o corredor, como se a iluminação servisse para nos guiar a uma cova subterrânea. Seguimos o caminho descendo um lance de escadas, passando por outras pessoas, casais que mal nos deram um segundo olhar. Seus olhos estavam vidrados e suas mãos ocupadas demais para notar, ou se importar, com o nosso pequeno trio. No fim do segundo corredor, o espaço estreito abruptamente se abre em um grande, ainda que infinitamente mais escuro, cômodo e meus olhos lutam para se ajustar a luz opaca e sombria. Apesar do espaço, está apertado, empilhado pelos cantos, cheio de corpos pressionados uns contra os outros em uma estranha e macabra dança, movendo juntos em um perfeito, mas ainda, caótico tumulto. O calor emana da multidão dançante em ondas, densa e sufocante, porém, mesmo assim, a batida me faz relaxar, os sons de uma vida anterior dançando assustadoramente sobre minha pele como um fantasma, levantando os pelos dos meus braços e os da minha nuca. Quando alcançamos a borda da multidão pulsante, Alex segura minha mão enquanto margea para mais perto de Leisel, apertando-a contra ele. Entendi seu medo. Este lugar é estranhamente intoxicante. Eu posso já sentir isso – o ambiente – nos fazendo esquecer, nos separando. De repente, estou mais solitária que nunca em uma sala cheia de pessoas. “Podemos dançar?” Leisel grita. Seus olhos estavam redondos; estava obviamente eletrificada com a vista. Ela sempre amou dançar, ainda que nunca em público. Esta seria uma primeira vez para ela… se Alex permitisse. Antes de Alex responder, a multidão explode contra nós, nos batendo para trás e soltando minha mão de Alex. Agarrando o braço de alguém, consigo facilmente me equilibrar, mas perco Alex e Leisel de

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vista completamente. Continuo procurando, empurrando e abrindo meu trajeto através da massa de pessoas, corpos suados apertando em mim enquanto o suor escorre em minhas costas. Uma respiração quente dança contra a minha orelha. “Você não deveria estar aqui”. Assustada, me viro, chocando com a vista de olhos muito negros encontrando os meus, olhos que pareciam sugar o ar direto dos meus pulmões. Ele é um homem grande, duas vezes o meu tamanho, até mesmo mais alto que Alex. Seus braços são totalmente tatuados com imagens escuras que corre de cima a baixo pela extensão deles. Seu pescoço mais grosso que a minha coxa, cabeços raspados em um moicano que começava no meio da sua têmpora, terminando em seu pescoço. Uma barba tão escura quanto seu cabelo emoldura uma mandíbula quadrada e dura. Em suma, um homem intimidante, mas são seus olhos que me aterroriza. Duas brasas negras, sombrias e raivosas, com uma intensidade enraizada que faz meu estômago começar a doer. Olho em volta, procurando por Alex e Leisel, mas não encontro nenhum deles. Olhando de volta para o homem, suas feições quase perdidas na escuridão, engulo com força. “Sei cuidar de mim mesma”. Um lento sorriso surge em sua boca. “Não duvido disso”. Alguma coisa parecida com orgulho acende a vida dentro de mim. Talvez tivesse sido o que ele tinha dito – acreditado que eu poderia de verdade cuidar de mim – ou talvez fosse o jeito que ele falou. De qualquer jeito, eu me vejo sorrindo para o elogio e minhas bochechas coram. Inclinando sua cabeça, ele faz um gesto para que o seguisse e por alguma razão assim o faço. Apesar de saber que é ridículo seguir este homem – um completo

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estranho e um cara intimidante – não consigo parar a mim mesma. Trilhando atrás dele, assisto sua grande figura mover através da multidão conforme as pessoas de todos os lugares rapidamente saem de seu caminho. Quem é ele, por que o respeitavam desse jeito? Seria medo? Ou consideração? Paramos em uma mesa, uma das muitas assentadas na ponta do lugar. Ele senta primeiro, me observando emergir da espessa multidão. Quente e suada, passo uma mão em minha testa, sentindo um tipo de nervosismo, mas infinitamente mais imprudente. Aquele lugar é uma droga, um afrodisíaco me tentando a um caminho que sei ser errado. Pegando o assento oposto ao dele, observo apoiar seus antebraços sobre a mesa, favorecendo que eu visse claramente suas muitas tattoos. Numerosas caveiras manchavam seus dois braços, desaparecendo debaixo das mangas de sua camiseta. Ele parece até maior agora que estava sentado, sua estatura imponente engolfando tanto a cadeira quanto a mesa entre nós. Meus olhos miram para cima para encontrar os dele e o encontro me observando atentamente com uma estranha expressão em seu rosto, uma mistura de desejo e ira. “Montes de caveiras”, digo, sem convicção, meu olhar caindo em seus braços. “Uma para cada morte”, ele revela, sem emoção, como se isso fosse algo que toda pessoa fizesse quando matava um infectado. Meus pensamentos seguem, então levanto uma sobrancelha. “Infectados?” pergunto. “Ou pessoas?” Seus lábios curvam em um sorriso, mesmo não se incomodando em responder. Uma mulher vestida de forma escassa aparece em nossa mesa, desviando sua atenção enquanto descia um drinque na frente dele. Pega o copo e dá um longo gole, depois oferece a mim. Consigo sentir o cheiro de onde estava, o gosto amargo que emana de toda bebida alcoólica, sabendo que este não era o tipo de homem de quem você simplesmente aceita um drinque. Ele é perigoso; eu sei isso só de olhar para ele. Mas à medida que continuo a estudá-lo, percebo

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que não é só perigoso, ele literalmente irradia perigo. Violência. De cada poro em sua pele, de cada músculo volumoso e tenso em seu corpo. E ainda assim, eu me vejo esticando para o outro lado da mesa, aceitando o que ele oferece, depois levando até meus lábios e engulo o líquido quente com cheiro de sujo. Sinto-me esquisita como Alice no país das maravilhas, lambo uma gota que desliza em meu lábio enquanto o restante da golada queima uma estrada quente em minha garganta. “Essa é minha”. Olho para cima, surpresa em encontrar Alex e Leisel parados ao meu lado. Pegando meu braço, Alex puxa a manga da minha camiseta, mostrando ao homem a marca no meu pulso. Meu olhar voa para Leisel, seus grandes olhos castanhos me observando, irradiando alguma coisa parecida com piedade. Engulo uma onda de vergonha. Ela me conhece, sabia como eu funcionava, como sempre funcionei, as coisas que eu fazia para preencher o vazio de dentro de mim. Apesar da minha culpa e vergonha serem óbvias, minha raiva provavelmente não é. E fico subitamente muito irada. Olhando para o lado, avisto o homem do outro lado, de onde estava olhando para Alex antes de olhar novamente para mim. Dou de ombros me desculpando, de repente me sentindo como uma imbecil por esquecer o meu lugar. É imperativo que as pessoas aqui acreditem que eu pertenço de verdade a Alex. Para a minha proteção e para a de Leisel. Com as narinas dilatando selvagemente, o homem levanta da mesa e lança olhares duros para ambos, Alex e eu, antes de se afastar, suas formas instantaneamente sendo engolidas pela multidão pulsante. Observando ele, meu peito começa a doer – pela liberdade que ele tem, poder apenas se levantar e sair. Se perder em uma multidão, na escuridão. “Estamos indo”, Alex diz, sua expressão não admitia discussões.

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Nem Leisel nem eu protestamos.

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Capítulo Vinte e Sete Leisel

“Eve?” sussurro, cutucando o ombro de Evelyn de leve. Um murmúrio incompreensível sai de seus lábios em resposta, sinalizando para mim que estava profundamente adormecida. Suspirando, incapaz de conseguir dormir, me viro no colchão mofado e analiso o quarto escuro. Descobrindo Alex sentado ereto na cadeira, sua cabeça despencada para um lado e seus olhos fechados, rolo para fora do colchão e nas pontas dos pés cuidadosamente cruzo o chão. “Hey”, sussurro, me inclinando para baixo e colocando minha mão gentilmente em seu joelho. Os olhos de Alex abrem e ele dá um pulo em sua cadeira, me assustando e me fazendo cair para trás. “O que?” diz muito alto, seus olhos atirando selvagemente para um lado e para o outro. “O que esta acontecendo?” “Nada!” murmuro. Levantando, eu o encaro. “Shh! Vai acordar Eve”. Quando o entendimento aparece em seu rosto, seus ombros relaxam e sua expressão assustada se transforma em confusão. “Por que está acordada?” ele pergunta. “Você está bem?” Esticando-me até ele, assinto ligeiramente. “Não consegui dormir”, falo e encaixo meu corpo contra o dele. Seus braços me envolvem e nos move para trás, afundando na cadeira e me carregando com ele. Curvando-me em seu colo, enrolo os braços ao redor do seu pescoço e pressiono um beijo em sua mandíbula. “Esta começando a

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parecer com um homem das montanhas”, digo suavemente, sorrindo contra sua barba. “Não gosto disso aqui”, ele diz em resposta enquanto encara o outro lado do quarto. “Quero tentar e obter o máximo que pudermos o mais rápido possível e depois continuar em movimento. Eu não confio neste lugar”. “É melhor que nada”, me afasto dele, praguejando para mim mesma por sua falta de resposta ao meu beijo. Não confio naquele lugar também, mas, pelo menos, posso dizer que não há casamentos forçados aqui, nem fanáticos religiosos alimentando os mortos com os vivos. E a marca dolorida em meu pulso me dava um senso de conforto que nunca pensei ser aceitável em uma tattoo. Cada um de nós tinha que trabalhar para ficar, contribuir, porém podíamos carregar uma arma para nos proteger, temos uma cama para dormir e a promessa de comida e água vinha amanhã. É quase bom demais para ser verdade, ainda assim me descubro não querendo pensar no que poderia dar mal, para, pelo menos, uma vez não ser consumida pelo medo do desconhecido. Alex não responde. Seu olhar permanece fixo nas sombras lançadas pela luz da lua na parede oposta, mas levanto sua mão e escorrego por baixo da minha blusa, terminando na minha cintura. Seu toque quente e confortante faz um pequeno suspiro de prazer escapar de mim. Arqueando meu pescoço, me mexo para beijá-lo outra vez quando Evelyn emite um pequeno ruído em seu sono, as molas do colchão rangendo alto, conforme rola inquieta, para então se aninhar contra a parede. “Estou preocupada com ela”, sussurro, observando as pernas dela se contraírem. O olhar de Alex move para a sua forma agitada. Franzindo o cenho profundamente, balança sua cabeça. “Ela foi estúpida esta noite”. “Você não a entende”, murmuro. “Ela precisa…” mordo meu lábio inferior, incapaz de encontrar as palavras para transmitir o porquê Evelyn faz as coisas que faz sem fazê-la parecer uma puta. Apesar de saber que Alex está certo, ela foi estúpida esta noite, eu

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também reconheço o quão solitária ela está, ainda sofrendo a perda de Jami. É como ela lida com isso, usando os homens – usando o corpo dela para preencher a perda. É assim que continua seguindo. “Não”, ele diz categoricamente. “Eu a entendo. Jami não foi o primeiro guarda que ela pegou. E não teria sido o último. Todos eles falavam sobre ela -” “Não”, estalo, me sentando ereta e expulsando sua mão de minhas costas. “Não pode falar assim dela. Você não a entende”. Os olhos duros de Alex focam em mim. “Lei”, ele fala gentilmente, “Eu entendo. Lidamos com as merdas de forma diferente. Mas ela não pode fazer isso aqui. Pode se machucar. Pode colocar a todos nós em perigo. Aquele cara estava chateado. Deveria ter sido franca com ele”. Sentindo-me mais calma, relaxo em seu colo, aninhando minha cabeça na curva do seu pescoço. “Ela não sabe como é sem um homem”, sussurro. “Isso não é culpa dela”. Novamente, sua mão encontra minhas costas, viajando para cima, mais alto que antes, as pontas dos dedos dele arrastando em cada protuberância de minha coluna. Arrepio-me ligeiramente com seu toque, envolvendo meu braço ao redor de sua cintura. Ainda sinto o mesmo tipo de agitação de quando estávamos na estrada, me coçando para ter algo mais com Alex. Mas quando ele simplesmente se aconchega para mais perto, continuando sua gentil exploração em minhas costas, sei que não conseguiria isso, não sem expressar exatamente o que estava querendo. Isso significa ser ousada, mais do que já fui antes e cuidar do assunto com minhas próprias mãos, algo que eu não estou acostumada a fazer no que diz respeito ao sexo oposto. “Durma um pouco, Lei”, Alex murmura, depois afunda seu rosto em meu cabelo. “Todos nós precisamos disso”. “Alex…” me afasto, olhando para ele com olhos semicerrados, repentinamente me sentindo boba. Quando olha para mim, com seu olhar questionador, engulo em seco com força e limpo minha garganta. “Não quero dormir”, eu digo e pressiono meus dedos em sua pele, desejando que ele entendesse. “Estamos seguros agora”. Contente pela

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escuridão, contente por ele não poder ver a vermelhidão que posso sentir subindo em meu pescoço, colorindo minhas bochechas, falo, “Eve está dormindo...” Os olhos de Alex encontram os meus, um sorriso conhecedor curva em seus lábios. Sua mão solta da minha camiseta e se ergue até minha nuca, envolvendo-a. Eu me inclino para frente, ansiosa por sua boca, minha mão cavando mais profundamente na pele da lateral de sua cintura. Nossas bocas se encontram suavemente, suave demais para o que eu estava sentindo e instantaneamente aprofundo o beijo enquanto manobro meu corpo até estar sentada por cima dele. A cadeira quebrada debaixo de nós pende precariamente, mas não posso me importar menos, já estou perdida por ele, para o que me faz sentir quando me beija, me toca. Ele fica duro por baixo de mim e o conhecimento daquilo só reforça meu desejo. Por vontade própria meus lábios mexem mais rápidos, minha língua procura profundamente conforme puxo sua camiseta sobre seu abdômen, depois avidamente corro minhas mãos sobre os músculos trincados cobrindo sua barriga. Alex tem um corpo lindo, macio, mas duro, poderoso e forte e eu preciso de mais, mais dele do que me deu até então. Dou um espaço entre nós, me atrapalho com seu cinto, o desejo do meu corpo sobrepondo qualquer constrangimento. Continuo a beijá-lo, tiro seu cinto, suavemente embalando meus quadris sobre os dele. “Lei”. Interrompendo nossos beijos, ele segura meus pulsos e puxa minhas mãos de sua calça. Respirando forte, pisco, focando em seu rosto. “Não”, sussurro. “Não me faça parar de novo”. Lágrimas formam em meus olhos, nascidas da frustração sem um escape. Fico instantaneamente embaraçada, porém mais nervosa do que tudo. Soltando meus braços de seu aperto, tento me libertar

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sozinha, mas seu aperto só aumenta. “Não com Eve no quarto”, ele diz. “Ela está dormindo!” silvo. “Não vai ligar”. “Ela vai ligar”, ele retruca. “Você sabe que vai”. Meu corpo fica frouxo, o desapontamento me faz afundar apaticamente contra ele. Ele está certo; ela ligaria. E depois da noite passada, com ela sendo tão descuidada com um homem estranho, se acontecesse de acordar… “Maldição”, murmuro, enquanto uma lágrima escorre. Meu corpo dói conforme meus pensamentos giram selvagemente. Eu queria deixar rolar, por um momento, sentir em vez de pensar, me perder no tornado que Alex criava dentro de mim sempre que nos beijávamos. “Lei, não”. Liberando meus pulsos, Alex me abraça apertado, me fazendo descarregar contra ele. Tento lutar com ele, me afastar, a proximidade com ele só aumenta, o redemoinho de necessidade ainda se agita em mim, mas ele não cede, pressionando meu corpo forte contra o dele. “Shh”, sussurra, sua voz estridente, mais afetada pelas circunstâncias do que pensei. Seus quadris levantam ligeiramente, pressionando a frente entre minhas coxas, me fazendo choramingar ao mesmo tempo em que a dor latejante fica mais forte. Se possível, o aperto dele em mim fica ainda maior, fazendo a minha respiração já curta ficar mais rápida e difícil. Seus quadris recuam e retornam conforme arrasta a extensão de si mesmo propositalmente contra mim. Mordendo meu lábio inferior, enfio meu rosto em seu ombro, permitindo a meu corpo relaxar o melhor que pude. Ele repete aqueles mesmos movimentos, atiçando o já furioso fogo dentro de mim a uma intensidade estrondosa, me levando aquela borda que desejo, de tempo em tempo novamente até eu finalmente alcançar e cair como uma pena do precipício. Flutuo no ar, meu corpo pulsando, zumbindo, enquanto caia dentro do esquecimento. À medida que me curvo contra ele, afrouxa seu aperto sobre mim

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e por um momento ninguém fala, ambos respirando com dificuldade quando o som da minha própria batida de coração ecoa sonoramente em minhas orelhas. “E você?” eventualmente consigo murmurar. Ele ainda está duro debaixo de mim, seu corpo ainda pulsando, estremecendo mesmo que bem levemente. Com uma risada silenciosa, deixa um beijo no topo da minha cabeça. “Fazem três anos”, ele diz, sua voz cheia de humor. “Posso esperar outro dia”. Afasto-me um pouco dele e endireito minha postura, encontrando seu olhar escuro. Seus olhos estavam baixos, analisando, meu peito ofegante e minhas pernas trêmulas, antes de retornar ao meu rosto. “Três anos?” cochicho, chocada. “Não ficou com alguém… em Fredericksville?” Alex não diz nada, facilmente voltando ao seu silêncio típico. Mas palavras não eram necessárias naquele momento; seus olhos falam o suficiente. Seus sentimentos por mim, só consegui ter uma ideia, é mais profundo do que eu percebi, ou pudesse ter imaginado. Sem saber como responder, abaixo a cabeça, apertando minha bochecha contra seu peito enquanto fecho meus olhos.

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Capítulo Vinte e Oito Evelyn

Eu estou faminta. Estava sempre faminta, mas esta é uma necessidade de um tipo diferente, uma fome raivosa que consigo sentir em meus ossos. Parte de mim está com medo de ter que lutar, porém, ainda assim, a outra parte está ansiosa para bater em alguém – bater, chutar, arranhar, fazer seja lá que porra fosse para me livrar da minha ira. A dor com que luto diariamente me deixa mais do que irada, irritada comigo mesma e os demais. Minha montanha russa emocional e minha frustração com este mundo ferrado estão vazando, tentando romper a superfície. Tudo isso é demais, como uma panela de água fervendo borbulhando acima da borda, que a qualquer momento transbordaria, fazendo uma bagunça quente demais para limpar. Ouvi Leisel e Alex na noite passada, seus sussurros acalorados, escutei suas respirações ofegantes preenchidas por luxúria. Não desejava ter ouvido, mas uma vez que acordei fui incapaz de cair no sono novamente. E assim fiquei deitada lá, meus cílios úmidos com lágrimas silenciosas, meus pensamentos sombrios e nervosos, sentindo frio e solidão até a manhã finalmente chegar. Silenciosamente, me arrastei para fora do colchão e depois de deslizar meus pés para dentro das minhas botas, tornei a olhar para eles. Estavam curvados juntos na cadeira, Leisel parecendo pequena nos braços de Alex. Eles eram perfeitos um para o outro, complementares, o yin do yang do outro e estava feliz por eles. Feliz por terem se encontrado em tal mundo horrível e cheio de merda. Ele iria ser bom para ela do jeito que ela merecia, do jeito que Thomas tinha

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sido. Com meu queixo tremendo, rapidamente sai do quarto, fechando a porta silenciosamente atrás de mim. Encostei-me contra ela, a percepção de que não mais precisava me levantar por Leisel era uma coisa estranha para mim. Saber que agora só precisava ser forte por mim, que poderia finalmente dar uma respirada, dar milhares de respiradas se precisasse, era uma mudança incrivelmente difícil. Eu imagino que é de algum jeito parecido com o que pais experimentam no momento em que percebem que seus filhos estão crescendo, não são mais dependentes deles como foram um dia. É um tipo de vazio e inexplicavelmente solitário também. Corro pelos corredores para as escadas, de repente desesperada por ar fresco. Mas quando me coloco do lado de fora das portas pesadas, sou recebida pelo cheiro de fumaça e o ácido sabor de corpos suados, o cheiro ocre de álcool e o inconfundível cheiro de sexo, tudo condensado no ar. Continuo seguindo, sentindo olhos me encarando por toda parte, me observando, me medindo da cabeça aos pés como se eu fosse uma peça de carne em um açougue. Desencorajada, ando, me recusando a olhar para baixo, para qualquer lugar que não fosse diretamente a minha frente. Eles podem olhar tudo que quiserem, me medir como se eu fosse pouco mais que um objeto para ser trocado, mas enxergo diferente.Sou uma mulher, uma sobrevivente, como todos os outros aqui. Mesmo se recusem me tratar com o respeito que eu mereço, estava determinada a não ser vítima. Enquanto exploro a área, andando ao redor dos prédios, indo além de onde fomos à noite passada, me surpreendo ao descobrir que Purgatório era ainda maior do que imaginei. Há ruas em todo lugar, por entre os prédios e algo acontece em cada esquina. Isso é impressionante no começo, especialmente depois de ficar por conta própria com infinitos quilômetros de nada nos rodeando. Mesmo em Fredericksville, não foi assim. As coisas eram quietas e organizadas, tudo e todos em seus lugares certos. Isto é muito

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diferente, um tipo organizado de caos. É barulhento, fedido e louco, cheio de pessoas de diferentes estilos de vida, todos simplesmente tentando sobreviver. Subitamente, não estou mais com raiva deles, nem mesmo dos homens me encarando conforme passo. Ao invés disso compartilho um sentimento em comum. Nenhuns de nós têm mais nada e estamos todos fazendo o que podemos para compensar – compensar viver no horror, mesmo se aquilo signifique usar a única coisa que temos para trocar. Homens têm punhos; mulheres seus corpos. Nós usamos, abusamos, assim como no velho mundo, mas ao menos aqui, isto parece estar acompanhado com algum elemento de controle. Ao menos aqui é um honesto e franco estilo de vida. Eles não escondem o que são ou o que querem, não como em Fredericksville onde tudo era feito por trás de portas fechadas. Aqui não há classes altas, média e nem baixa, estamos todos em pé de igualdade e há um surpreendente estranho conforto nesse fato. Parando, encaro os corpinhos de animais assando em cima de um barril de metal que foi equipado com uma grelha, chamas queimavam dentro. A pele deles foi retirada, revelando a suave carne de baixo e o cheiro saindo de seus corpos crocantes é absolutamente delicioso. Atrás do barril, um homem e uma mulher estão trabalhando na grelha, virando os animais, substituindo os já assados por carne rosada nova. Eu os assisto trabalhar por um momento, notando que a mulher tem uma marca similar em seu pulso, assim como uma aliança de casamento no dedo. Ela é bonita de um jeito básico, limpa e pálida, com longos cabelos castanhos amarrados em um rabo de cavalo. “Você é da selva?” ela pergunta, sua voz áspera me surpreende, como a de alguém que fumava um maço de cigarros por dia. “Selva?” pergunto, olhando avidamente a carne. Jeffers disse algo similar, mas não tinha ideia do que era. “Fora daqui”, o homem responde e olha para trás de mim, para

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além das cercas elétricas, por trás dos portões. “A selva”. Ele está barbeado e consegui ver as pequenas cicatrizes que cobriam seu queixo e pescoço. Ele me observa por um momento, parecendo pensativo conforme corre sua língua ao longo da borda de dentes tortos e amarelos. “Oh”, respondo. “Sim, eu sou”. “Como é isso?” a mulher pergunta, suas mãos ainda trabalhando na grelha. Está no processo de despelar um rato, habilmente soltando a pele enrugada do pequeno corpo, revelando os músculos por baixo e colocando a pele em uma pilha junto com o resto. “Continue...” “Você sabe como é”, o homem interrompe rudemente, dando a ela um olhar duro. “Não faça perguntas estúpidas”. Ele vira para mim, sua irritação evidente. “Vai comprar?” “Eu, hum, como compro alguma coisa?” rato ou não, eu estou faminta. “Não tenho nada”. “Então não vai comprar”, ele responde severamente, virando sua atenção para uma pequena multidão que se formou atrás de mim. Enquanto meu estômago continua a roncar, a mulher me lança um olhar de perdão antes de retomar seu trabalho. Desejando que eu tivesse bolsos para enfiar minhas mãos com raiva, me afasto, retomando minha caminhada. Passo por barracas de roupas, bijuterias caseiras a venda, apetrechos de todos os tipos, até mesmo pequenos cafés que exibem cerveja caseira. Ao mero pensamento de uma cerveja gelada, o líquido espumoso descendo em minha garganta, minha boca começa a salivar. “Hey!” uma voz profunda chama por trás de mim. “Hey, mulher!” Uma mão pesada pousa em meu ombro e recuo. Arrancando a mão que estava me segurando, eu a torço, empurrando para trás. Pulando e me virando, descubro o homem barbudo da noite passada tropeçando para trás. À medida que ele recupera o equilíbrio, todo o tempo me encarando, percebo a comida em sua mão – dois ratos

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grelhados nos espetos. “Oh merda”, murmuro. “Eu sinto muito, não sabia. Estou um pouco nervosa”. Risos abafados emergem ao nosso redor, fazendo a expressão já mortal do homem ficar ainda mais sombria. Com raiva, enfia um rato assado na minha direção, rosnando para eu aceitar. E eu almejo, realmente queria, mas como poderia? Como poderia confiar nele? Nada é grátis, não mais. Nem mesmo o que parece ser um simples ato de gentileza. Mas estou faminta, Deus, como estou faminta. Ainda assim este homem não parece ser o tipo de pessoa para quem eu quero dever alguma coisa. “Não estou com fome”, minto, segurando seu olhar, apesar dos meus olhos queimarem com a necessidade de olhar para longe. “Come isso”, ele resmunga. “Esta magra demais”. Ele baixa seus olhos, propositalmente varrendo seu olhar pesado de cima a baixo em meu corpo e de novo enfia o rato em oferenda. Olho para aquilo, para a gordura do corpo encharcando os dedos grossos e sujos do homem, fazendo reluzirem na luz do sol. Então olho para o rosto dele, me perguntando o que mãos como as dele podem fazer, que tipo de dor podem infligir. “Eu disse que não estou com fome”, repito, empinando meu queixo, ainda que minha voz fosse um mero sussurro. Sua barba contorce enquanto ele combate a urgência de sorrir. “Você é a lutadora, certo?” pergunta. “A garota nova da selva?” Ainda o encarando, só consigo assentir em resposta. “Portanto preciso que você coma, por que vou apostar em você”. Rindo, fixa seus olhos nos meus ao mesmo tempo em que dá uma mordida em um rato, afundando seus dentes na carne, facilmente rasgando a carne dos ossinhos. Decido então que o sorriso dele o deixa bonito, não de um jeito típico como Alex. Não, este homem parecia

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ameaçador demais para ser simplesmente considerado bonito. “Sou de outra pessoa”, eu digo e mostro a ele minha marca como Alex fez na noite passada, repentinamente feliz de ter aquilo ali. “Como você sabe”. “Estou ciente”, ele diz sem rodeios e outra vez enfia a carne na minha frente. Meu estômago decide aproveitar aquele momento para roncar sonoramente, algo que o homem achou extremamente divertido. Com a boca ainda cheia de rato, começa a rir. “Só pega a porra da comida, mulher. Não vou te perguntar de novo”. Com o meu estômago queimando de fome, cedo e aceito o rato. Mas bem na hora que o levo até a minha boca, pronta para tirar um pedaço, ele fala novamente. “É melhor vencer para mim, Wildcat13”. Atirando outro sorriso, ele vira e se afasta. “É Evelyn”, grito para ele obstinadamente. “Nem fodendo que é Wildcat”. Fico encarando ele se afastar por um momento antes de me tocar de que ainda tinha comida em minha mão e instantaneamente o homem é esquecido. Mordiscando o rato, o gosto de carne bem assada explodindo em minha boca, gemo alto. Faminta, dou outra mordida, depois outra, sorrindo enquanto limpava uma gota de gordura que escorre em meu queixo, depois lambo meus dedos. Logo não sobrou nada, só um par de mãos engorduradas e uma pequena pilha de ossos. Agradavelmente cheia, caminho, procurando uma lata de lixo ou algo do tipo para jogar os ossos. “Um minuto nos lábios, uma vida inteira nos quadris”, uma voz

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Algo como Gato Selvagem.

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ofegante anuncia por trás de mim. Pulo de susto e me viro, dando de cara com uma mulher no batente de uma porta escura, seu corpo aparecia distorcido pelas sombras. “Sou Dori”, ela diz com um enorme sorriso em seus lábios cor de rosa. Uma mão delicada se liberando da escuridão é oferecida e eu a pego. Seu olhar cai em minha marca e ainda segurando minha mão, ela assente. “Parece fresca”. “E é”, falo a ela. “Acabei de chegar aqui”. Tentando puxar minha mão, descubro que seu aperto era estranhamente forte e inflexível. “Que vergonha”, ela diz, finalmente me soltando. A mão dela pende no ar entre nós, seu olhar pousa nos ossos em minha outra mão. Sorrindo amplamente, gesticula para que eu os entregue. Com um franzir de cenho, entrego, assistindo conforme ela sugava avidamente o tutano dos pequenos ossos, me lembrando de mim mesma alguns minutos atrás. Desconfortável, me viro para sair e é somente ai que sou capaz de finalmente vê-la, ela toda quando a luz do sol remanescente perfurou as sombras. Estava quase nua, seu top era tão transparente que conseguia ver seus dois mamilos rosados aparecendo. Meus olhos viajaram para baixo, então se alargaram consideravelmente. “Não julgue”, fala, então se virou para frente e entrou em vista. “Não estava, eu, eu…” eu estou desesperadamente tentando não encarar o espaço vazio onde suas pernas deveriam estar, mas quanto mais tento afastar os olhos, mais me encontro olhando. “Claro que você estava”, ela emite com uma gargalhada. “Está tudo bem. Tenho sorte por ainda ter um buraco para esses babacas ocuparem”. Ela ri de novo, uma delicada risada que combinava com suas delicadas mãos e seu rosto bonito. O entendimento me bate na cara. Um buraco para eles preencherem… e meu estômago começa a agitar. “Não é como se uma garota como eu fosse boa para estar em um lugar como este, mas ficaria surpresa com o que os homens gostam

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nestes dias”. Ela sorri de novo e de repente me sinto francamente doente. Meu recém-digerido rato estava rapidamente se transformando em pedra nas profundezas da minha barriga. Luto para pensar em uma resposta, o silêncio entre nós é desconfortável e esquisito. “O que você fazia antes?” digo, instantaneamente desejando poder tomar as palavras de volta. “Era uma cheerleader14 profissional”, responde, sem se incomodar com a minha pergunta. Ela ri novamente, mais alto dessa vez, como se sua resposta fosse a coisa mais engraçada que já revelou e não consegui evitar rir junto com ela. Se eu não tivesse sorrido, provavelmente teria chorado. No meio da nossa risada, uma sombra cai sobre mim e me viro para encontrar um homem andando discretamente ao meu lado. Ele é magro, não com a aparência desnutrida que alguns homens tinham por ali, mas realmente magro, sua pele era marcada e oleosa. Enquanto ele me olha de cima a baixo, um sorriso desconfiado aparece em seu rosto. “Uh-uh”. Dori o alfineta imediatamente. “Esta não, Steven, esta tem dono”. Em um relâmpago o sorriso dele desaparece, substituído por uma carranca. “Bebê, não faça careta”, ela murmura. “Sabe que sempre cuido bem de você. O que me trouxe hoje?” Ele ergue uma pequena e suja garrafa de água, apesar de que não posso dizer se era a água dentro ou a garrafa que estava suja. “E?” Dori pergunta com um sorriso suave. Esticando sua outra mão, ele revela um pequeno pacote de pó

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Animadora de torcida

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branco. Um ganancioso e ansioso sorriso acende na expressão dele. “Perfeito”, Dori ronrona, abrindo sua blusa. Os olhos de Steven estão agora unicamente sobre ela, encarando conforme sua língua desliza lentamente em seu lábio inferior. Quando volto a olhar para Dori, vejo que sua mão desapareceu em algum lugar debaixo das camadas de tecido em sua cintura. Enquanto passava por mim, Steven esfregou uma mão em minha bunda e então juntos, os dois desapareceram dentro do prédio. Fico encarando eles por um momento, ainda passando mal com o meu estômago. “Em que porra que a gente se meteu?” murmuro para mim mesma.

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Capitulo Vinte e Nove Leisel

“Você vai servir”, Bethany diz, empinando seu queixo e farejando o ar ao meu redor. “Ao menos não esta mais cheirando como lixo de uma semana”. Aperto meus olhos, me afasto da garota antes que pudesse ver o rosnado retorcendo em meus lábios. Já é ruim o bastante que em poucos minutos dançaria para uma plateia de bêbados pervertidos. Eu não preciso adicionar complicações com minhas colegas de trabalho na massa. Bethany não é dançarina, mas ainda trabalha para a plateia, dando para qualquer um que pudesse pagar a ela. Analisando o vestiário lotado, o que é mais ou menos um armário de vassouras, percebo meu reflexo em um dos três espelhos de corpo inteiro na parede. Engulo uma onda de nervosismo, passo minhas mãos pelo material fino cobrindo meu corpo. Aquilo deveria ser um vestido, mas na realidade era mais um meio vestido. Apesar das mangas serem compridas e a gola alta, o frágil e quase totalmente transparente tecido mal cobre meu traseiro. Por baixo dele estou usando um conjunto de calcinha e tanga de renda que me deram, ambos de um vermelho profundo. No geral, combinando com o meu cabelo recém-lavado escovado que brilhava com perfeição e meus olhos esfumaçados e batom vermelho, era uma imagem muito sensual. Até mesmo sexual, sem ser totalmente vulgar… caso fosse algo que estivesse compartilhando com um único homem, não com uma sala cheia. Entretanto, eu tenho um plano, um pequeno truque que descobri graças à crueldade de Lawrence. Aconteceu por acidente da primeira vez, durante uma de suas muitas surras. Repentinamente escorreguei para longe, me vendo emocionalmente e mentalmente separada do meu corpo, como se eu estivesse assistindo o abuso em vez de experimentá-

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lo em primeira mão. Planejo aplicar esse mesmo método, fugir desse meu aqui e agora, para dançar esta noite. Fecharia meus olhos, encontraria uma memória feliz dentro de mim e usaria como meu escudo, conforme assistia de fora. “Dançarinas! Se preparem para pegar seus lugares!” Uma mulher mais velha chamada Mattie, com longos cabelos negros misturados com faixas brilhantes de prata, junta suas mãos com seriedade. Ela é, por falta de uma palavra melhor, minha chefe e mais importante, a Cafetina de Purgatório. Lida com todas as mulheres, mais ou menos, responsável por designá-las para determinadas áreas do complexo para se venderem. Também distribuí o pagamento das garotas, assim como roupas e acessórios, praticamente todas as coisas que uma madame do velho mundo tinha feito, Mattie faz também. Ela é surpreendentemente gentil, uma mulher que já foi bonita com uma margem afiada sobre ela que instantaneamente apreciei. De uma forma, me lembra Evelyn, linda, ainda que de personalidade forte, com uma couraça áspera, mas com um coração de ouro. “Garota nova!” ela chama, acenando para mim com dois dedos. “Você primeiro”. Quando ninguém mais faz menção de se movimentar em direção a ela, olho ao meu redor, buscando nas outras garotas uma ideia do porque eu iria ser a primeira. Seria isso uma espécie de cruel iniciação de novatas? “Vai, ratinha”, Bethany diz, obviamente pegando dicas com Liv enquanto me dá um empurrão no ombro não muito gentil. “Não tem ninguém ainda, as portas abrem em cinco. E vai precisar de um minuto para se ajustar”. Meu estômago dá um tipo engraçado de mergulho direto em meus intestinos enquanto a minha, já alta, ansiedade dispara. Ajustar o que, me pergunto. As possibilidades são infinitas e a minha imaginação corre solta, todas parecendo uma mais horrível que a outra. Apesar dos meus medos, obediente, coloco um pé na frente do outro, agradecida por não ser obrigada a usar saltos altos. Consigo

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dançar, sim, mas em saltos? Definitivamente não. Embora não estivesse muito segura do quão higiênico seria ficar andando descalça por Purgatório, ao menos não tenho que me preocupar em cair de cara no chão. Juntas, Mattie e eu deixamos o vestiário e entramos no bar, apropriadamente chamado Drunk Tank15, que ainda está silencioso e vazio, com exceção de vários homens que ocupavam atrás do bar. O espaço é grande, do tamanho de um ginásio escolar e foi recheado com longos candelabros pendurados que não combinam entre si. Cheio de mesas de todos os tamanhos e tipos, pintadas como o resto de Purgatório, em um arco-íris de cores sem razão. “Abaixem as gaiolas!” Mattie grita, estalando seus dedos. Um dos bartenders, um homem robusto com a cabeça raspada e os braços cobertos de tattoos, pula por cima do bar. Com uma saudação na direção de Mattie, se dirige para o que parece ser um conjunto de engrenagens fixadas na parede. Com seus músculos inchados, ele levanta uma alavanca pesada e as engrenagens começaram a rodar, lentamente no começo, gradualmente aumentando a velocidade. Um som de moagem estala acima de mim e assisto grandes gaiolas de ferro fundido descendo em cascata do alto teto curvado. Fecho minha mão sobre minha boca e cambaleeio para trás, novamente agradecida pela ausência de saltos. Metade das gaiolas estão vazias, mas a outra metade… não estava. “Não tenha medo”, Mattie fala gentilmente. “Eles não podem te machucar”. Ao olhar para as gaiolas ocupadas, sufoco um som por trás da minha mão. Não, eles definitivamente não podem me machucar. Estava faltando a metade de suas faces, suas mandíbulas parecem ter sido serradas completamente e seus olhos arrancados de suas cabeças, mas

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Tanque bêbado.

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nenhum destes fatos tornava tal sinistra visão menos horrível. Examino as gaiolas com os infectados, notando que todos foram mulheres. Algumas estão peladas, seus peitos afundados e genitais apodrecidos expostos a quem se dignasse a olhar, enquanto as outras estão expostas em roupas pequenas e sensuais, muito parecidas com o conjunto que estou usando. No geral, é uma visão de partir o coração. Sim, elas não são mais humanas. Sim, são monstros agora que se tiverem a chance, destruiriam cada um de nós. Mas uma vez de volta, quando o mundo era algo que valia a pena recordar, elas foram pessoas – mulheres. Mães, irmãs, filhas e amigas. Porque aquelas pessoas não conseguem ver isso? Eles não lembram? Não ligam? “Mas por quê?” balbucio entre dentes cerrados. “Porque nada fica impune por aqui e os homens gostam de ser vitoriosos sobre suas conquistas”. Franzo a testa com força com a minha cabeça começando a pesar. O que está tão errado naquelas pessoas que pensam que está tudo certo com tudo isto? Acham aquilo sexualmente satisfatório? Ver mulheres engaioladas e apodrecidas de longe? Sinto-me doente do estômago, abraço minha barriga conforme minhas entranhas reviram, combinando com o medo que escala a minha coluna. “Ouça”, Mattie diz vigorosamente, segurando meus ombros em um forte aperto. “Se você chorar, vai arruinar a maquiagem. Maquiagem é difícil nestes dias, reservada somente as minhas garotas mais bonitas. Odiaria ter que punir um rosto tão lindo por algo tão trivial quanto maquiagem”. Quando ouço suas palavras, as lágrimas nascendo por trás dos meus olhos congelam. Pisco repetidamente, tentando esmagar qualquer gota errante que ouse se libertar. “Disseram-me que você é da selva”, Mattie fala, franzindo o cenho para mim. “Perdoa-me, querida, mas não me convence de que é forte o bastante para sobreviver entre os canalhas”. Com os lábios apertados e as narinas dilatadas, engulo de volta o

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último pedaço de dor que estou sentindo pelos infectados engaiolados. “Eu sou da selva”, falo com voz rude. “Só não sou um animal”. Mattie estala sua língua para mim. “É ai que você se engana”, ela diz tão macia como manteiga derretida. “Nós todos somos animais. Sempre fomos. A única diferença é que não estamos mais enjaulados”. Uma visão de Lawrence, roncando pacificamente em nossa cama, dança frente aos meus olhos. E então uma visão de mim, segurando aquela faca sobre o corpo dele, meus olhos escancarados, minhas mãos tremendo, meu coração queimando… Cruzando meus braços em meu peito, limpo minha garganta e olho ao redor. “Qual gaiola é a minha?” Mattie sorri. “Muito bem, garota”.

*** Aquilo é uma coisa sinistra, uma estranha aglomeração do passado e presente – residentes deste mundo novo, dançando e bebendo, rindo e gritando aos ritmos do velho mundo. É como uma colisão frontal do que era e do que nunca mais seria, assim como as pinturas famosas alinhadas nas paredes desfiguradas por grafites. Parece errado, sinto como se fosse errado, como um sonho que você não consegue acordar. Você acorda de novo e de novo, somente para cair no sono e voltar onde parou. O momento em que as portas abriram e a plateia barulhenta derramou para dentro, um estranho tipo de névoa me envolveu, me fazendo sentir surreal, como se estivesse flutuando junto com a brisa, com uma essência incorpórea e tudo ao meu redor… fosse apenas uma

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miragem. Ainda assim, eu dancei. Dancei, dancei e dancei com as batidas de antigamente. De rap para hip-hop, músicas de show e estranhas gravações tiradas de comerciais de carro e créditos finais de programas de televisão. De vez em quando um homem com aparência selvagem pulava em cima do bar, gritando coisas obscenas em um microfone, pulando na multidão ao ponto em que, mesmo tão bárbaro como era, estava contente de estar presa em uma gaiola pendurada fora de alcance. Tudo ao meu redor, homens e mulheres estão amontoados juntos, alguns meio pelados, outros inteiramente nus, seus cabelos grudados em seus rostos, seus corpos suados estendidos. Eles dançam e cantam conforme bebem avidamente, drinque após drinque, apalpando o outro. Alguns até mesmo decidem fazer sexo ali mesmo – sobre o chão, contra a parede, inclinado sobre uma mesa ou no bar – seus pudores foram deixados na porta ao entrar. Mesmo totalmente sóbria, me sinto sugada por isso tudo… a atmosfera, a violência mal contida, a sexualidade fervente transpirando de cada poro de cada pessoa. Em algum lugar naquela sala cheia de corpos estão Alex e Evelyn, já que ambos insistiram que estariam presentes além dos meus protestos. Pensei, no começo, que a presença deles faria a já horrível situação ficar ainda pior para mim, como ter uma audiência para a minha vergonha. Só que agora, incapaz de apontar a cara de alguém ou mesmo distinguir entre os sexos, não mais me importo. Na verdade, estou alegre por isso. Contente que em algum lugar entre toda esta insanidade há uma corda para o que restou da minha sanidade. E então eu danço. Danço lentamente, danço selvagemente, sexualmente. Ergo meus braços acima da minha cabeça e danço na minha própria batida. Desço minhas mãos pelo meu corpo, sentindo meu caminho através da música e os desejos da plateia barulhenta. Eu danço e ignoro todos eles. Gritam para eu tirar as roupas, para jogar minha calcinha para o lado, para mostrar meus seios a eles. Ignoro os copos e cigarros acesos atirados na minha gaiola, assim como ignoro meu parceiro de dança, o infectado pendurado a não mais de um metro

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de mim, cambaleando por ali em uma ávida batida que só eu posso ouvir. Ignoro e apenas danço, me perdendo disso tudo e ainda assim estranhamente sinto como se tivesse encontrado alguma peça perdida há muito tempo de mim mesma no meio disso tudo. Quando o sol finalmente sai, o bar esvazia exceto por alguns empregados. Minha gaiola é abaixada e Alex está lá me esperando. “Oi”, sussurro conforme cambaleio para frente. Os olhos escuros de Alex queimam. Ele parece tão incrivelmente vivo naquele momento, como se tivesse realmente acendido por dentro, seu fogo irradia de dentro para fora. “Diga alguma coisa”, falo suavemente, colocando minha mão em seu peito. Debaixo da minha palma, consigo sentir a velocidade do seu coração. “Eu queria odiar isso”, ele diz lentamente, entre dentes. “Você lá em cima presa em uma gaiola parecendo… assim”. Seus olhos febris me medem, avaliando cada centímetro em exposição. Meu estômago deu voltas e quase me endireito pela sua admiração, mesmo tão cheia de obscenidade. “E essas merdas doentes assistindo você”, continua com o seu olhar vidrado. “Querendo te tocar e…” ele engole com força, seus olhos sempre em mim. “Mas você não odiou isso”, finalizo amavelmente por ele. Com seus dentes apertados, balança sua cabeça lentamente. “Não odiei isso”. “E?” incito-o, querendo – não, precisando – ouvir o que ele parece não querer se deixar falar. “Não sou como eles, Leisel”, ele expele, seus olhos cintilando de raiva quando reforça em mim. “Eu sei que não sou como eles”. Minha mão empunha a camiseta dele e o puxo para baixo até nossos rostos quase se tocar. “Eu sei”, sussurro. “Mas você pode me dizer. Pode dizer que gostou

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e isso não vai mudar nada”. Preciso ouvir isso dele, senti isso, desesperadamente, no fundo do meu estômago. Ele encara dentro dos meus olhos, seu coração palpitando furioso debaixo da minha mão. Então sua mão desliza das minhas costas para a minha bunda onde ele me segura, me pegando rapidamente contra o seu corpo, sua mão apertando possessivamente. Eu posso senti-lo, todo ele, duro e ansioso, seu corpo tenso, ainda trêmulo debaixo da superfície. Sei que estávamos sendo observados, posso ouvir as risadinhas sussurradas de algumas das outras garotas, mas não ligo. Nada mais importa neste momento. “Eu gostei”, ele admite com a voz rouca. Solto um suspiro de alívio e fadiga. Eu estou exausta, cansada e ferida ao ponto que sei que não conseguiria ficar ereta por muito tempo. Mas aquele momento, é importante, um ponto de virada em nossas vidas, minha e de Alex, em nosso relacionamento florescente, em descobrir nossos lugares em um mundo que odiamos e não quero perder isso ou ele. “Alex”, eu falo, arqueando meu pescoço e varrendo meus lábios contra os dele. “Gostei que você gostou”. O que eu não disse, o que não podia nem mesmo admitir para mim mesma, era que uma pequena parte de mim adorou aquilo também. Apesar de que, pela minha própria vida, não conseguia entender o porquê.

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Capítulo Trinta Evelyn

Era meio-dia quando Leisel finalmente começou a se mexer e Alex ainda não tinha dormido. Depois de carregá-la de volta para nosso quarto, embalada contra o peito dele, ele a tinha segurado por horas, a observando dormir, a encarando tão atentamente, tão cheio de energia sexual que mal o reconheci. O homem silencioso, na dele e normalmente mal-humorado que salvou nossas vidas havia sumido. Esta é uma versão infinitamente mais sexual de Alex, parecendo um homem possessivo. Quanto a mim, não fui capaz de aguentar uma noite inteira assistindo Leisel dançar naquela gaiola bizarra, vendo os homens e mulheres embaixo usarem o corpo dela como estimulante sexual, se satisfazendo conforme a encaravam. Mas Alex foi o oposto, aparentemente cego para todos os outros no lugar, para todos menos ela. Com suas mãos enfiadas em seus bolsos, seu olhar vidrado de pura fascinação enquanto simplesmente a encarava. Ele ainda estava encarando. Leisel não teve energia nem mesmo para trocar de roupas quando voltamos para nosso quarto. Esparramada no colchão sujo, ainda está usando o mesmo uniforme provocante e Alex ainda não conseguiu tirar seus olhos dela. Eu, entretanto, estou observando a entrega que chegou poucas horas atrás para Leisel. As roupas velhas de Leisel e seu pagamento pelos serviços prestados – uma patética bolsa de comida enlatada, água engarrafada e uma camiseta com o logo de uma companhia de caminhão estampada. Aquele é o seu salário por uma noite inteira dançando quase nua, por dar aqueles bastardos gananciosos uma parte dela que nunca deveria ter que dar. E como tinha sido paga? Com

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virtualmente nada. Sua alma e seu orgulho só valiam um pouco de comida e uma camiseta perdida. Ainda pior era o fluxo de visitantes que tínhamos tido. Mattie apareceu primeiro, nos informando que Leisel trabalharia de novo esta noite. Depois disso, dois homens bateram a porta, querendo falar com Alex. Não falei a ele o que queriam, como tentaram barganhar o corpo de Leisel. Então Liv nos agraciou com sua horrível presença, simplesmente para nos informar que Alex e eu estaríamos ambos participando das lutas de hoje. Apesar disso tudo, Leisel tinha dormido. “Acha que devemos acordá-la?” pergunto a Alex suavemente. “Não”, ele responde sem se incomodar em olhar para mim, seu olhar fixo na figura adormecida dela. Baixo meus ombros, volto para o insultante pagamento de Leisel e caio no silêncio novamente, me perguntando como seria ser um homem neste novo mundo em vez de uma mulher. Desejando, não pela primeira vez, que Leisel e eu não tivéssemos de contar com Alex para nos proteger, incapazes de confiar em algo ou alguém. “Você vai ficar bem?” Alex pergunta de repente e me viro para olhar para ele, surpresa. “O que?” “A luta”, ele expressa, finalmente tirando os olhos de cima de Leisel. “Vai ficar bem?” Levanto as sobrancelhas; estou chocada até mesmo por ele ter perguntado. “Acho que sim”, digo lentamente. “Acho que isso depende dos meus oponentes”. O que não revelei foi que estava me questionando se aquilo valia à pena. Depois de ver os ganhos de Leisel, não consegui evitar duvidar disso. Aquilo tornou mais claro para mim que precisávamos barganhar, mendigar, ou ganhar o que pudéssemos o mais rápido possível e então

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dar o fora daqui. Mais cedo ou mais tarde. Alex se levanta repentinamente, elevando sobre mim enquanto revirava seus ombros. Sem a sua carranca usual, parecia mais jovem de algum jeito, mais como o jovem que seria se o mundo não tivesse ido para o inferno. “Você, pelo menos, sabe lutar, Eve?” ele arqueia sua sobrancelha grossa e escura em questionamento. Virando meus olhos, bufo uma risada. “Sim, Alex. Eu sei lutar”. “Mostre-me”, ele pede, se aproximando lentamente de mim, suas mãos levantadas, suas palmas para frente. Dou de ombros, entendendo que um pouco de prática poderia ser bom para mim de verdade. Vai saber que tipo de treinamento meu oponente terá? Aliás, eu não lutava há anos. Ficando em pé, coloco meu corpo em posição, levantando os braços e fechando minhas mãos em socos. Sorrindo, Alex me cerca, avaliando e julgando minha postura até se posicionar novamente na minha frente. “Você lutava antes”, ele diz com um pequeno sorriso, com apreciação queimando em seus olhos. “Três anos de kickboxing”. A voz quieta de Leisel choca a nós dois e imediatamente abaixo meus braços e corro para o seu lado. Conforme me ajoelho no chão ao lado do colchão, Alex senta ao lado dela na cama. “Então, ganhei meus milhões noite passada?” ela ri suavemente, olhando para mim. “Estou famosa agora?” “Você foi incrível”, Alex responde. Olhando por cima da cabeça dela, me dando um olhar de pedra, silenciosamente me dizendo para manter minha boca fechada em relação aos ganhos patéticos. “Mais que incrível”, falo, forçando meu sorriso de repente. “Como está se sentindo?” “Faminta”, ela responde. “Por favor, me diga que a gente tem

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alguma comida”. “Claro que temos”, me afasto, indo até a bolsa para cutucar lá dentro. Escolho uma lata em particular, principalmente por que ela parece estar em melhor estado que o resto e a puxo para fora. “Creme de milho?” respondo, dando o meu melhor para parecer animada. Os olhos de Leisel faíscam para a lata em minha mão, uma coisinha triste de se ver que provavelmente foi trocada de um lado para o outro umas mil vezes antes de chegar até nós. Ao encontrar seus olhos, vejo que uma pequena carranca surge em sua testa ao mesmo tempo em que Leisel lentamente balança sua cabeça. “Me diz que tem mais que isso”. Seus olhos ainda colados nos meus, me observando atentamente. “É claro que tem mais!” rio gentilmente. “Tem sopa de ervilha, aspargo em conserva e molho enlatado”. Com os olhos muito abertos, Leisel olha de mim para Alex. “É isso?” Engulo com força, puxo a sacola de trás de mim e a coloco sobre o colchão. “É isso”. Por um momento, Leisel só encara a sacola. Então de uma vez suas narinas começaram a dilatar e ela dá um tapa com raiva na sacola, jogando os conteúdos para o lado um a um até estar vazio. “Isso não importa...” Alex começa a falar, mas foi abruptamente cortado por Leisel, que amassa a sacola e a envia para o outro lado do quarto. Dando de ombros para Alex, ela pula de pé e grita, “Foi tudo por nada!” “Não, Lei”. Levanto e coloco minha mão sobre o braço trêmulo dela. “Não foi por nada e está tudo bem, esta ótimo”. Porque estava ótimo. Se você estivesse faminto – e nós estávamos

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– qualquer tipo de comida era ótimo e uma coisa maravilhosa. “Isso não está ótimo, Eve!” ela berra. “Isso é uma palhaçada!” Arrebatando a lata de creme de milho da minha mão, ela a envia voando para o outro lado da sala. A lata bateu na parede oposta, quase acertando as pinturas penduradas lá antes de despencar no chão e rolar para baixo da cadeira. Ociosamente, me pego pensando se era exatamente por isso que a lata ficou em tal condição lastimável, amassada e suja, com a etiqueta descascando e manchada. Inexplicavelmente me sinto estranhamente protetora em relação a esta pobre lata de milho, odiada e indesejada totalmente. Caindo de joelhos, começo a procurar seu paradeiro. “O que esta fazendo?” Leisel grita. “Procurando a estúpida lata”, grito de volta. “Deixa isso!” ela berra. “Isso é uma merda, tudo isso é uma merda!” Finalmente, consigo ver a lata. Enquanto achatava meu corpo no chão, esticando meu braço em uma tentativa de alcançá-la, ignoro uma barata que corre pelos meus dedos, assim como o repentino susto que causou, até finalmente encontrá-la, tudo acontecendo debaixo dessa cadeira igualmente triste. Envolvendo minha mão ao redor daquela pobre lata, arrasto-a para fora. Quando me levanto, percebo Leisel me encarando, indignada pelas minhas ações. Repentinamente, se arremessa contra mim, tentando alcançar a lata e rapidamente me afasto dela, recuando enquanto ela tropeça e cambaleia na cadeira. “Isso é uma idiotice!” ela grita à medida que lágrimas correm em seu rosto, manchando o pouco de maquiagem que restava. “Isto tudo é uma idiotice!” Fechando seus punhos, ela soca suas mãos em suas coxas. “Você que fez isso, Eve!” esbraveja para mim. “Você me fez vir para cá, me fez partir e agora esta é a nossa vida! Isso tudo é culpa sua!” Mordendo a parte de dentro da minha bochecha, a vergonha e a culpa fluindo dentro de mim, percebo que estava certa. Era tudo minha culpa. Eu a fiz ir para Fredericksville, depois a tinha feito partir de lá. E apesar de seus protestos e sua disposição em morrer, concordei em

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seguir Bryce e Mike até seu acampamento, até Purgatório. Isso tudo é culpa minha. A miséria dela, sua dor, esse fardo era meu. Alex está me olhando, me encarando na verdade, silenciosamente desejando que eu derrubasse a lata, mas não consegui, não posso e em vez de soltar a lata eu a aperto mais forte. Estou segurando esta lata estúpida como se fosse uma corda de salvação, essa pobre lata que ninguém quer, que ninguém ama, que só era boa para uma coisa. Esta pobre latinha que as pessoas só consideram boa para passá-la para outro alguém. “Se acalma, Lei”, Alex fala, sua voz estava surpreendentemente conciliatória. Se arrastando para o lado dela, tenta ganhar sua atenção. “Comida é comida. Isso não importa. Eve e eu vamos ambos lutar hoje, vamos ganhar mais. Entre nós três, vamos conseguir”. Ele se estica para ela só para terminar sendo repelido conforme Leisel começa a soluçar de outra vez. Fazendo um barulho sufocado profundo com sua garganta, a expressão de Alex endurece. Agarrando os pulsos de Leisel, forçosamente a empurra da cadeira para o seu colo. Ela luta no começo, tentando dar um jeito de se livrar dele, mas isso só o faz apertar mais forte, forçando ela a ficar onde está. Ela começa a chorar lágrimas de raiva, seus soluços soando mais frustrados que tristes e eventualmente desiste de lutar e se afunda contra ele, enterrando seu rosto no peito dele. “Isso não foi por nada”, ele diz, envolvendo a parte de trás de sua nuca. Leisel olha para cima e diretamente dentro dos olhos dele no instante em que Alex tenta enxugar suas lágrimas. “Você fez uma coisa incrível, Leisel, ganhou comida para gente”. Ele faz uma pausa antes de continuar. “E estava incrível para caramba fazendo aquilo”. Sem mais chorar, Leisel olha para Alex e um rubor sobe em suas bochechas. Um momento passa em silêncio e depois outro e outro. Então de repente estaão se beijando fervorosamente, as mãos de Alex enfiadas nos cabelos dela, Leisel segurando a parte de trás da camiseta

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dele. É barulhento e extremamente apaixonado e fico parada me sentindo esquisita e incrivelmente ciumenta. Não é que eu não estivesse feliz por ela, por eles, porque estava. Mas odeio estar feliz por eles e com inveja porque não tenho o que eles têm. Meus pensamentos vagam para Jami e o jeito que sempre aliviava a minha dor com suas mãos experientes e boca pecaminosa. E nesse instante, preciso dele – preciso daquilo. Necessito de algo, alguém para preencher esse vazio dentro de mim, encher este buraco que ao assistilos só fica pior. Ainda segurando forte a lata de milho, me lanço em direção à porta e fujo silenciosamente para o corredor, negando minhas lágrimas amargas de raiva. Assim que estou do lado de fora, me dirijo para o mercado, o delicioso cheiro de rato assado chamando meu nome. Mas quando chego, me sinto culpada com a ideia de trocar esta lata por algo melhor, algo com mais sustância. Não é culpa da lata que ninguém a quisesse. A lata está simplesmente fazendo o seu melhor, oferecendo o que tinha, esperando que um dia alguém iria… Olho para a lata, percebendo de repente que estou sendo ridícula. “Esta com fome, Wildcat?” Não me incomodo em virar. Senti seus olhos sobre mim no momento em que cheguei ao mercado, como se ele estivesse esperando por mim, aguardando sair do meu quarto e encontrá-lo. Como se de alguma forma já soubesse que eu precisaria dele. Eventualmente, veio parar na minha frente, não me deixando nenhuma escolha a não ser olhar para ele. Parece o mesmo do dia anterior – grande, tatuado e assustador para cacete. Sem quebrar o contato visual comigo, gesticula em direção ao homem e a mulher cuidando da grelha. Com o canto do meu olho, eu os observo, seus olhos passando entre ele e eu, até o homem silenciosamente entregar a ele dois ratos no espeto sem ele ter que pedir. Ou pagar. Ele me oferece um e enquanto eu olho para o rato, ainda segurando firme na lata, gotas de culpa traidora nascem dentro de mim ao pensamento de desistir dela. Mas ocasionalmente a ofereço em

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pagamento, esta pobre lata de milho, simplesmente por que eu sou fraca. Fraca e faminta. Rompendo o contato visual, olha para a minha lata, sua boca contraindo e seus olhos escuros dançando em uma risada. Os segundos passam, durante os quais ele ainda não pega a lata e eu não pego o rato. É ele quem terminou nosso embate, rindo e se afastando. Conforme caminha, olha por cima de seu ombro e lança seu queixo, sinalizando que deveria segui-lo. Enquanto anda, sua obscena forma enorme lançando sombras escuras na calçada, todos correm para sair do seu caminho, a reação deles me diz que aquele homem é exatamente o que imaginava que fosse. Perigoso. Vários momentos tensos passam antes de começar a andar atrás dele, parte de mim está curiosa para saber onde ele vai e por que queria que eu o seguisse. A outra parte de mim sabe exatamente o que almeja de mim e que daria isso a ele. Pouco antes de virar uma esquina, ele para, esperando que eu o alcance. Não corro, simplesmente continuo no meu passo até o alcançar, já sabendo como esse jogo funciona. Joguei isso antes de casar com Shawn e de novo depois de tê-lo perdido. De uma forma, com exceção do meu primeiro casamento, meu único casamento verdadeiro, estive jogando este jogo a minha maldita vida inteira. Mas nesse instante, não me importo. Eu precisava daquilo. Necessitava de alguém para afastar a dor e completar o vazio. Alguém para silenciar o zumbido incessante dentro da minha cabeça. Porque é isso que eu faço, esse é o meu estilo, a única forma que sabe sobreviver. O que eu faço, quem eu sou. Precisava daquela conexão para me fazer acreditar que estava completa, inteira e sã de novo, algo para imobilizar a agitação constante de emoções inúteis que fluía dentro de mim. Nós todos temos nossos métodos. Alex é quieto, eternamente internalizando seus demônios, sempre um soldado silencioso. Leisel é a vítima, constantemente confiando que alguém mais a salvaria de si

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mesma. E eu sou… Sou a puta.

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Capitulo Trinta e Um Leisel

“Você está me enganando”, acuso Alex, estreitando meus olhos para ele. Lá estava eu, arreganhada no colo dele usando nada a não ser meu sutiã vermelho de renda e uma calcinha combinando e ele está sendo tão irritantemente gentil. Enquanto seus beijos iniciais foram exigentes e cheios de fome, tinham desacelerado e suavizado, seus toques quase inexistentes conforme suas mãos mal roçavam a superfície da minha pele. Cobiço o Alex que tinha visto na noite passada, aquele com fogo nos olhos, seu corpo tenso pelo desejo. “E não diga que é por causa das manchas. Já estão quase curadas e sabe disso”. Como é típico em Alex, ele não responde, apenas continuou sentado ali, seu rosto uma máscara ilegível ao mesmo tempo em que suas mãos graciosamente seguram meus quadris. Jogando minhas mãos no ar, bufo. “Certo”, estalo, me preparando para sair de cima dele. “Para com isso”, ele diz calmamente. Paro, olhando de volta em seu rosto. “Parar o que?” “Pare de agir como Evelyn”. Arregalo os olhos. Rapidamente, saio de seu colo e levanto. “O que

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isso quer dizer?” Olha para mim, sua expressão ainda não entregando nada do que está verdadeiramente sentindo e revira seus olhos. “Você está brava, Lei. Está brava e só quer transar por que está com raiva”. “Isso não é verdade”. Só que é verdade, talvez só um pouco. Estou chateada, irritada por ter sido roubada depois de oito horas de dança continua, brava por ter que engolir meu orgulho e minhas regras mais uma vez e estressada por ter explodido com Evelyn como tinha quando ela não fez nada para merecer isso. E agora, brava com Alex por ser um grande sabe-tudo. “Você queria na noite passada!” grito, apontando para ele. “Então, qual é o problema agora? Não tem nenhum infectado ao redor para te deixar ligado? Ou eram as outras dançarinas que te deixaram no ponto? Ou talvez fosse – hey!” Segurando minha cintura, Alex me tira do chão e atravessa o quarto comigo pendurada em seus ombros. Quando me libera, aterrizo de costas no colchão e uma sonora golfada sai de meus lábios. Mas antes que possa fazer qualquer coisa, mesmo piscar, Alex está em cima de mim. “É isso que você quer?” praticamente rosna as palavras enquanto abaixa a alça do meu sutiã. Sem uma resposta pronta, simplesmente fico ali deitada, olhando para ele conforme continua de certa forma a me despir violentamente, na medida em que puxa minhas calcinhas por minhas pernas. Quando estou nua debaixo dele, pensando que iria em breve me beijar, ele me surpreende virando meu braço ao contrário e me vira de barriga para baixo. Tento me virar, mas ele já está atrás de mim, me empurrando de volta. “Quer que eu te trate como uma das putas daqui?” O pensamento não é tão mal vindo assim. Eu quero estar com ele. Depois de semanas de sessões de amassos e toda noite passando deitada em seus braços desejando que pudéssemos fazer mais, agora que podíamos, quero muito. Aspiro ser poderosa, do jeito que Evelyn

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era, o jeito que ela conseguia enrolar qualquer homem em volta do seu dedo e pegar o que queria. Eu estou cheia de ser a tímida ratinha… cheia de ser eu. “Ou quer do jeito que Whitney costumava dar a você?” Fico absolutamente parada, incapaz até de piscar enquanto tento processar o que ele acabou de me falar. O que Alex tinha dito para mim. E de repente não consegui ver direito. Tudo que compreendi é que eu estava gritando a todos pulmões e lutando desesperadamente para liberar meu corpo de debaixo dele. De algum jeito consegui, apesar de não ter ideia de como. Então eu o encaro cara a cara, ainda incapaz de ver claramente, ainda gritando. Minha mão bate em seu lindo rosto, fazendo o virar para a direita. Inabalado, ele vira de volta para mim e o estapeio de novo, dessa vez em sua outra bochecha. O segundo tapa é duro o suficiente para não apenas virar sua cabeça para o lado, mas seus ombros viram e pesam enquanto tenta se endireitar. “Se sente melhor?” pergunta, esfregando sua bochecha esquerda conforme me encara outra vez. “Não!” exclamo. Estou exatamente o oposto de melhor. Como ele pode ter me dito aquilo? O que ele estava pensando, trazendo algo – alguém – tão ruim em um momento que deveria ser só eu e ele juntos pela primeira vez. Poderia ele realmente não ser o tipo de homem que pensei que fosse? Essa era uma possibilidade; eu só recentemente consegui conhecê-lo. E considerando que sou eu e Evelyn quem mais falava enquanto Alex ou grunhia ou virava os olhos ou falava em sentenças de duas ou três palavras, era uma boa possibilidade de que não conhecia esse homem totalmente. Mas me recuso a acreditar naquilo. Eu o conheço, provavelmente melhor que qualquer um ainda vivo hoje, melhor até mesmo que aqueles que estavam mortos, simplesmente por que conhecia o Alex desse mundo, um homem que não tinha existido antes de quatro anos atrás. Este homem pode ser quieto e ridiculamente mal-humorado às vezes, mas não é estúpido. Há método em sua loucura; se é para sobreviver ou mostrar a alguém que ele se importa, há uma razão bem pensada por trás de cada uma de suas ações. Caindo de volta no colchão, dobro minhas pernas sob mim, totalmente consciente de minha nudez, mas não envergonhada o

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bastante para fazer algo sobre isso. “Por que fez isso?” pergunto silenciosamente, minha voz estava rouca. “Você precisava disso”, ele diz e deu de ombros. “Estava estressada, machucada também e quase me usou para te fazer se sentir melhor”. “Isso teria sido algo tão horrível?” pergunto, me sentindo desnorteada. “Fazer sexo comigo? Por que pensei que era onde isto estava chegando…” Deus, me escute. Duas semanas atrás, nunca teria a coragem para fazer tal pergunta. Na verdade, apenas alguns dias atrás estava morrendo de vergonha de me despir no portão de entrada. Agora, olhe para mim. Purgatório e todos os seus pecados estão começando a me corromper, ou eu estou tão irada e exausta de… tudo. Decido pelo último, entendendo que levaria mais de dois dias para corromper alguém. Ou ao menos esperava que essa fosse a verdade. Suspirando, Alex esfrega uma mão em sua mandíbula áspera. Sua penugem estava mais para barba agora, algo que nunca gostei em homens antes, mas em Alex, gosto muito. “Eu quis estar com você por anos”, ele fala, encontrando meus olhos. “E agora que tenho você, é toda minha, Leisel”. Levantando sua sobrancelha, olha para o meu pulso, onde sua marca brilhava escura sobre minha pele pálida. Seus lábios se torcem enquanto um sorriso pequeno e satisfeito aparece. “E sua primeira vez comigo não vai ser uma transa qualquer”. Ele levanta os olhos para encontrar os meus. Três coisas passam na minha mente neste momento. Primeiro, Alex acaba de dizer que quis ficar comigo por anos? E se aquele é o caso, é por isso que me ajudou a fugir? Segundo, qual é a do disparate ''você é toda minha’'' estilo homem das cavernas? E terceiro, se soubesse desmaiar apropriadamente, eu teria desmaiado. Aquilo pode ter sido falado de forma grosseira e um pouco

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chauvinista, mas foi dito com o mesmo sentido. Ele quer que nossa primeira vez signifique algo. Estou certa sobre ele. Há sempre uma razão, sempre um plano cuidadosamente construído de ação formado por trás de seus olhos escuros. “Adoro você”, digo a ele, me esticando para alcançá-lo. Segurando seu rosto, eu o puxo e o beijo amavelmente na boca. É Alex quem aprofunda o beijo, lentamente me colocando de costas até estar deitada na cama com ele apoiado sobre mim. “Eu amo você”, ele fala e então, antes que pudesse responder ou fazer alguma coisa além de engasgar com as palavras dele, ele me beija. É um beijo profundo, um beijo muito minucioso, um beijo que faz meu corpo ficar mole e fraco debaixo dele. Um beijo que me faz esquecer a minha ira, a minha fome… tudo. Ele rompe nosso beijo e relaxo contra ele, repentinamente contente em só segurá-lo. Contente em simplesmente estar perto dele. Eu não o amo, não do jeito que amei Thomas, mas então de novo, o mundo é diferente e eu também. Este é um novo mundo, cheio de pessoas apressadas por que não há mais garantias, nem arco-íris para alcançar no final. Não há ninguém para pular e exclamar, “Surpresa! Você está na câmera escondida! Desculpa por te assustar até os ossos e ter feito sofrer pelos quatro anos passados!” Isto é tudo que temos, este aqui e agora. Então decido naquele momento que não importa quanto ou de que jeito amava Alex, somente que alguma parte de mim amava.

*** “Onde está me levando?” pergunto a Alex. Correndo através da multidão de pessoas reunidas do lado de fora enquanto me puxa junto com ele e eu luto para acompanhar. Minhas pernas são muito mais curtas que as dele, então tive que trabalhar dobrado para evitar ser

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dragada para o chão atrás dele. “Você vai ver”, ele diz, olhando para mim por cima de seu ombro e sorrindo. Outro sorriso. Quantos até agora? Dois, três? Seus sorrisos, os genuínos e suas risadas plenas, são uma vista e tanto a ser observada. Eles são tão poucos e espaçados, fazendo suas duras feições suavizarem, dando a ele uma aparência jovial e divertida. Deixa-me inebriada e excitada, especialmente quando direcionados a mim, ou por minha causa. A felicidade é assim? Faz tannto tempo que experimentei algo desse tipo, que não sabia como era simplesmente segurar a mão de um homem, vê-lo sorrir para mim e me ver retribuir o sorriso. Era assim com Thomas? Tento recordar, navegar através dos últimos quatro anos de horrores pantanosos para quando tinha me casado. Recordo nosso primeiro beijo, o dia em que ele me pediu em casamento, o dia que nos casamos, o dia que descobrimos que eu não poderia ter filhos e ele me segurou bem apertado conforme eu chorava. Thomas me acalentou, tranquilizou, me disse que aquilo não importava, que eu era tudo que ele precisava. Seus sorrisos fazem minha barriga vibrar? Sim, fazem. O calor de suas mãos espalha através do meu corpo inteiro? Sim, espalha. Era um tipo estranho de sensação, essa lasca de felicidade que tinha sido enfiada inesperadamente no meu colo e junto com isso veio pontadas de culpa também, como se estivesse de alguma forma traindo Thomas ao me apaixonar por outro homem. Jogo aqueles sentimentos para longe por que se Thomas soubesse de tudo que suportei, se soubesse o que Lawrence fez comigo, ou mesmo tivesse dado um vislumbre no que o mundo era hoje, ele nunca iria me invejar de algo que me fazia sorrir, que derretia o gelo sempre presente dentro de mim. Ele foi um homem incrível, um homem gentil, um homem que colocava as necessidades e desejos dos outros antes

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das suas. Ele foi um homem… como Alex. Muitas vezes já comparei os dois homens. Thomas e Alex, mais ou menos desejando que Thomas aprovasse Alex, talvez até mesmo gostasse dele. Porém quanto mais penso em Thomas, relembrando exatamente o tipo de homem que ele foi, mais eu sei que não era só mais um desejo. Thomas teria gostado dele, simplesmente por que Alex me faz feliz. Ainda estava sorrindo, distraída das pessoas que empurravam ao passar por mim, a incessante gritaria que parece vir de cada esquina neste lugar, me lembrando um carnaval de vinte e quatro horas. Há tanto barulho, barulho demais, mas hoje isso não me incomoda nem me faz sentir como uma humilde ovelha entre gado premiado. Hoje eu estou sorrindo. Ele finalmente para no fim do complexo, do lado de fora de uma pequena, mas colorida tenda com abas pesadas caindo de todos os lados, escondendo qualquer coisa dentro. Alex pega uma aba da tenda, estou quase puxando quando um homem apareceu atrás de nós. Eu o reconheço instantaneamente, lembrando que foi um dos muitos bartenders do clube noite passada. “E ai, cara?” ele oferece a Alex sua mão e Alex solta minha mão para apertar a dele. Eles são aproximadamente do mesmo tamanho, Alex sendo um pouquinho mais alto com um bom meio centímetro a mais de massa muscular. Também pareciam estar ao redor da mesma idade, ambos no começo dos seus vinte anos, mas com a diferença que Alex era bronzeado, seus cabelos e feições escuras, este homem tinha cabelos em um loiro sujo, sua pele tão pálida quanto a minha. “Ela é sua, sim?” o homem pergunta, mirando o queixo em minha direção. Alex derruba a mão do homem. “Sim”, ele diz, rudemente, seu comportamento alegre dissipando. “Ouvi que você tem duas delas”, o homem continua. “E se a outra

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pode dançar a metade do que essa dança, estava pensando que poderia se interessar em tê-las fazendo um show particular para os caras. Deduzindo que você não se oporia a alguma ação garota com garota. Não vai ter ninguém tocando nenhuma das duas, não com a sua marca sobre elas”. Meu sorriso despenca, o desgosto faz o calor dentro de mim rapidamente esfriar. O amargo entendimento me bate de que não importa quanta felicidade pudesse conquistar para mim mesma, nada poderia verdadeiramente bloquear o estado lastimável do mundo ao meu redor. “Vai se foder”, Alex profere, sua voz estava baixa, mas ainda mortal. “Vai se foder, seu idiota”. Nem a raiva de Alex nem sua advertência parecem abalar aquele homem. Na verdade, ele sorri e balançou sua cabeça. “Você é um filho da puta guloso, não é?” ele encolhe os ombros. “Sem ofensa, cara. Sou só um cara procurando ocupar o tempo. Não tem nada, só tempo para ocupar nestes dias”. “Ocupe com outro alguém”, estalo, atraindo a atenção de ambos para mim. Encaro o homem loiro, esperando que o desgosto que sentia estivesse sendo transmitido apropriadamente. “Não sou algo para brincar”, continuo, ainda furiosa. “Sou uma mulher, uma pessoa! Você não teve uma família? Uma mãe? Uma irmã? Uma namorada? Como se sentiria se elas estivessem passando por ai como… como… como latas de creme de milho?” O homem abre a boca e depois fecha, como se estivesse tentando decidir o que falar em seguida, mas ainda não consegue encontrar as palavras. “Como eu disse”, ele eventualmente responde, seus olhos dançando com divertimento. “Sem ofensa. Também não compartilharia você”. Seu olhar pisca entre Alex e eu uma última vez e então ele se dirigiu na direção por onde viemos. “Creme de milho?” Alex pergunta, erguendo sua sobrancelha. Dou de ombros. “Estava pensando em Eve, segurando aquela

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estúpida lata. Eu não sei, isso só pulou na minha cabeça”. Ainda pensando em Evelyn, na última coisa que falei para ela antes de ela deixar o quarto, fecho meus olhos bem apertados. Aquilo era uma mentira horrível nascida da raiva e eu estava intensamente frustrada comigo mesma. “Preciso encontrá-la”, falo, abrindo meus olhos. “Preciso me desculpar”. Alex assente. “Nós vamos. Ela vai lutar hoje. Podemos ir para a arena em breve. Mas primeiro, tenho um presente para você”. Depois de pegar minha mão, puxa uma aba da tenda, revelando o que parecia ser uma pequena loja de roupas. Cabides de vestidos e saias correm em uma corda que tinha sido montada para dar a volta no espaço inteiro. Calças e blusas perfeitamente dobradas estavam empilhadas sobre diversas mesas compridas e cadeiras, enquanto pares de sapatos de todas as cores e tamanhos estavam enfiados em cada canto. “Ah! Alex, meu garoto!” uma mulher choraminga, espreitando sua cabeça de trás de uma pequena penteadeira baixa. Ela fica de pé e bate suas mãos juntas. “Eu limpei eles como queria!” Sorrindo, Alex me empurra para frente. “Lei, esta é...” “Grannie!” a mulher praticamente grita. Conforme ela sai de trás da penteadeira, reparei em seu longo e comprido vestido, que era obviamente feito a mão. Ele parece com uma colcha de patchwork que fora transformada em um vestido, completado com botões colocados de forma aleatória e paetês brilhantes. E uma echarpe igualmente colorida foi envolvida de qualquer jeito em seu pescoço no meio de quase uma dúzia de colares. Ela é uma mulher mais velha, cheia, mas não gorda e se tivesse que chutar eu diria que estava em seus sessenta anos. Seus longos cabelos cinzentos estavam empilhados no topo de sua cabeça em um coque justo, exibindo os inúmeros brincos pendurados que estava

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usando. Estendendo um braço em minha direção, ela meneia sua mão, fazendo o conjunto de braceletes que usava balançar e tilintar. Sorrindo, seguro a mão dela na minha. “Todos me chamam de Grannie!” continua excitadamente, mexendo meu braço para cima e para baixo. “E tenho algo especial para você”. Soltando-me, ela volta rápido para a penteadeira e desaparece por trás dela. Olho para Alex, me perguntando o que diabos ele tinha feito, mas se recusa a me olhar. “Ta-da!” Grannie canta enquanto saltava de trás da penteadeira, segurando em suas mãos um par de botas de pelúcia cor-de-rosa. Fico de boca aberta; apesar de Grannie dizer que tinha limpado, ainda estavam sujas e manchadas, o rosa desbotou em um tipo de cor de pêssego. Há buracos óbvios que consegui ver e pequenos remendos onde a pelúcia estava faltando completamente. E elas são absolutamente perfeitas. “Oh Meu Deus!” respiro, levando minha mão a minha boca. “Oh Meu Deus”. “Feliz aniversário…?” Alex pronuncia. “Ou feliz Natal? Que seja”, termina quase timidamente. Olho dele para Grannie e de novo para ele. “Mas não trouxemos nada para trocar”. “Agora, agora”, Grannie diz, enfiando as botas em minhas mãos. “Isto tudo já foi resolvido. Você vê, sou uma mulher apostadora e vou apostar em Alex esta noite. Ele me prometeu uma vitória e em retorno, dei a ele um desconto de cinco porcento em qualquer coisa na loja.” “Você a ouviu”, Alex fala, ainda sem olhar para mim. “Vai escolher alguma coisa. Para você e para Eve”. Olho boquiaberta para ele, balançando minha cabeça. “Quando fez isso tudo?” Ele encolhe seus ombros. “Conheci Grannie do lado de fora do

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Drunk Tank, conversamos…” “Venha, venha!” Grannie estimula com entusiasmo. “Deixe-me te mostrar o que tenho para uma linda garota como você”. Ainda sorrindo, Alex revira seus olhos. “Estarei lá fora”, avisa e se vira. Seguro seu braço antes que ele pudesse sair, puxando para mim. Equilibrando as botas em um braço, tento abraçá-lo com o outro. “Obrigada”, sussurro, me sentindo vencida. “Não sei o que dizer ou o que fazer”. Correndo sua mão em meus cabelos, puxa gentilmente, levantando meu rosto. “Pode me agradecer mais tarde”, ele diz calmamente. “Esta noite. Depois de eu vencer aquela luta”. Então sorri. “Agora são quatro”, falo, sorrindo de volta. Ou essa era a terceira? “Quatro o que?” ele pergunta e eu dou de ombros. “Deixa para lá”.

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Capítulo Trinta e Dois Evelyn

“Então você quer trocar, é isso, Wildcat?” pergunta, seu tom languido entrelaçado com divertimento. Se inclinando contra uma parede de tijolos, o homem cruza seus braços sobre seu peito. Seus olhos caem do meu rosto para a lata que eu seguro, depois volta ao meu rosto novamente. Nós dois sabemos que não estamos falando de comida. Isso é muito mais que uma simples troca; isto sou eu fazendo o que sempre fiz para me livrar da dor, o estresse, os desapontamentos sem fim. Usando meu corpo, deixando outros usarem também, para preencher o buraco, relaxar a dor. Aquilo foi tudo que conheci em muito tempo, até agora e me encontro facilmente voltando aquele papel, como um velho amigo que não via há algum tempo. Olá, como tem passado? Faz tanto tempo, senti sua falta. Vamos perder um pouco mais de dignidade, vamos? Pessoas, como Leisel, pensam que sou forte. Brava. Destemida até. Mas a verdade é que sou tão fraca e fodida como ela é. Talvez até mais. “Qual é o seu nome?” pergunto. Ele sorri vagarosamente, seu olhar escuro corre sobre mim em uma apreciação libidinosa, estrondosa e sufocante. “Isso importa?” pergunta. “Que tal me chamar do jeito que quiser, Wildcat”. Embora ainda estivesse parado ali, seus braços musculosos

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cruzam sobre seu peito largo conforme ele sorri com desdém para mim, sua resposta parece quase defensiva. O que é ridículo, que aquele grande pedaço de homem sinta a necessidade de esconder alguma parte de si mesmo de uma pequena mulher tola como eu. Reviro meus olhos, simulando confiança. “Que tal te chamar do jeito que a sua mãe te nomeou?” “Tudo bem”. Ele ri, uma risada profunda e gutural que me dá calafrios. “Eles me chamam de E por aqui”. Franzo minha testa. “Eles?” Ele assente, ainda sorrindo. “Eles”, confirma, sem nenhuma elaboração secundaria quanto a quem o elusivo eles se refere. “Eles chamam você de E?” questiono, me forçando a sorrir também. “Parece meio estranho para mim. Eles não gostam muito de você?” “Não mesmo”, fala. “Não que eu dê a mínima para quem gosta de mim ou não”. Pauso, pensando em minha resposta antes de responder. “Então, qual é o seu nome verdadeiro?” “Muitas perguntas”, diz, soando quase irritado. “Porque a porra do meu nome importa para você?” Dou de ombros, não certa do porque aquilo importa, ou do porque eu tinha perguntado para começar. É só que sempre perguntava aos meus parceiros sexuais os seus nomes primeiro; essa é a única coisa que sempre pergunto. De alguma forma isso faz o ato parecer menos barato, faz me sentir menos ordinária. “Qual é o seu nome verdadeiro?” pergunto de novo obstinadamente, precisando saber antes de qualquer avanço com isso. Ele me estuda por um momento, suas pálpebras fecham, antes de soltar um rugido áspero e irritado. “Meu nome é Adler”, ele finalmente revela. “Significa águia em

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alemão e me chamam de E16 para abreviar. Acabamos com esses questionamentos agora, Wildcat?” Ele não espera pela minha resposta. Já se afastando da parede, pousa suas mãos sobre a minha cintura e aperta. Seu toque, a sensação de suas grandes e quentes mãos em meu corpo, envia um solavanco de energia sexual abrasadora através de mim. Subindo as mãos, esfrega seus dedos polegares contra a parte de baixo dos meus seios enquanto seus dedos cavam dolorosamente na pele das minhas costas. Liberando um suspiro, permito ao meu corpo relaxar, dizendo a mim mesma que aquilo é exatamente o que eu preciso. Assim que faço isso, me sinto melhor, menos vazia. Sempre me senti melhor depois de estar com Jami. Ele levava embora o mal e o substituía com algo infinitamente preferível – não o bem, mas algo melhor que o mal. Mas E não é Jami e certamente não é Shawn. Eles tinham sido bons e gentis homens e E é o exato oposto de bom e gentil. É um terreno perigoso que estou trilhando, não conhecendo E ou qualquer coisa sobre ele, mas suas mãos que estão agora viajando pelo meu corpo faz a batida do meu coração disparar. Como uma viciada em drogas que recebe uma oferta de um tiro17, não consigo resistir a ele. A ideia do que pode fazer por mim é forte demais; sei que ele entorpecerá os sentimentos indesejados, mesmo por um pequeno instante. Girando, invertendo nossos lugares, ele me bate com força contra a parede. Eu me lembro de Jami mais uma vez, de como ele constantemente fazia algo similar e uma pontada de tristeza agita em mim. Porque Jami havia partido. Shawn havia partido. E Leisel me culpa por tudo. É só eu agora. E encontra o meu pescoço com sua boca, trilhando beijos quentes e molhados ao redor da minha garganta e sobe pelo meu queixo até 16 17

Águia em inglês é Eagle. Cocaína.

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seus lábios finalmente encontrarem os meus. Os ásperos pelos de seu rosto fazem cócegas em minha bochecha conforme sua língua desliza para dentro da minha boca. Ainda não consigo me convencer a tocá-lo, mesmo assim ele não parece se incomodar. Apalpando-me com mãos experientes, me beija com força, cheio de línguas ansiosas e dentes mordedores. “Não vou ser gentil, Wildcat”, ele avisa enquanto se afasta por um momento, suas palavras são tão ásperas e ameaçadoras quanto suas mãos. Então morde meu lábio, arfo ao mesmo tempo em que suas mãos dolorosamente apertam meus seios, como se para fortalecer seu ponto. “Você não vai gostar de mim quando terminar”, ele continua. “Mas estará satisfeita”. Se afasta de mim, me deixando sem fôlego e cheia de desejo, se livra da sua jaqueta jeans desbotada e a deixa cair no chão. Então volta suas mãos em minha cintura, apertando e amassando enquanto me traz contra sua ereção e empurra seus quadris contra os meus. Eu ainda não toco nele. Por baixo de todo o meu desejo, ainda estou com medo deste homem. Ele é excessivamente agressivo, perigoso e não me surpreenderia que fosse o tipo de homem que não aceitava um não como resposta. Uma pequena parte de mim quer fugir dele, mas a necessidade que eu sinto é maior, mesmo se isso signifique me rebaixar a este nível. Porque sentir alguma coisa é melhor que não sentir nada. As mãos dele voltam aos meus seios, com ainda mais força que antes, ele tateia e torce, pressionando eles ao ponto onde quase choro de dor. Sinto falta de Jami. Leisel não precisa mais de mim. E Shawn… oh Deus, meu doce, doce, Shawn. Coitada, coitada, autopiedade. De repente, agarro E, envolvo minhas mãos ao redor do seu pescoço impossivelmente grosso, bato minha boca na dele e o beijo do

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mesmo modo áspero e guloso que ele me beijou. As mãos dele estão agora por todo lugar, explorando, agarrando, pegando e apertando… E finalmente, o barulho na minha cabeça começa a clarear, deixando somente o aqui e o agora, eu e E, – uma sirene toca a distância, o horrível uivo tão alto, tão detestável, que me arranco instantaneamente do lugar calmo onde me encontrava. E se afasta de mim, parecendo nervoso e violento, agressão sexual frustrada irradia dele, fazendo o ar ao nosso redor parecer espesso e pesado. “Tenho que ir”, ele diz asperamente, se abaixa para pegar sua jaqueta. “O que é isso? O que é esse barulho?” pergunto, percebendo que estou fria de repente, fria até os ossos desejando seu toque. Enrolando meus braços em torno do seu corpo, esfrego seu bíceps nu, tentando me aquecer. “Isso é um alerta”, fala com a voz rouca. “O acampamento está fechando. Você tem que ficar do lado de dentro”. Passando sua jaqueta por sobre seus maciços ombros, vira e começa a se afastar sem nem mesmo um adeus. É rapidamente tragado pela multidão de pessoas, quase perdido no caos à medida que todos se mexem para pegar suas coisas. “Um alerta do que?” grito para ele. Ele para abruptamente, forçando as pessoas ao redor a desviarem do seu caminho. “Infectados”, diz, virando para olhar para mim. “Uma horda deles está se dirigindo para cá”. Continua a olhar para mim, com seu olhar duro e inabalável. “Terminamos isso mais tarde, vou te encontrar”, fala, suas palavras são uma dura promessa. Depois ele vira, a multidão o envolve outra vez. Fico parada ali, ainda trêmula das sequelas dos violentos toques de E, me sentindo barata e usada, apesar de nada ter acontecido de verdade entre nós. Mas agora estou com medo, também. Uma horda de infectados se dirigindo para cá? Eu tinha ouvido de hordas antes, em Fredericksville ouvi os guardas discutindo algumas

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das coisas que tinham visto quando estavam fora, procurando coisas. Grupos grandes de infectados vagam pelo país, crescendo em número conforme mais se adicionam a sua ambulante coleção de horrores. Uma parede de mortos, é assim que chamam. “Wildcat, precisa entrar aqui!” Olhando na direção da voz, descubro Dori se inclinando precariamente para fora de uma janela do segundo andar, gesticulando selvagemente para mim. Entendendo que ela provavelmente viu tudo que transcorreu entre E e eu, sinto minhas bochechas corarem de calor. “Meu nome é Eve”, estalo para ela, sem querer lembrar de E naquele momento. “E disse que você é Wildcat”, ela retorque, “e ninguém discute com E. Agora, entra aqui!” desaparecendo da vista, bate a janela atrás dela. Permaneço ali por um momento, ainda atordoada, não muito certa do que devo fazer. O acampamento cai no silêncio, uma sinistra quietude assolando o lugar inteiro. Lentamente, me arrasto na direção da esquina, meus passos estão silenciosos. Parando na beirada do prédio, assisto os retardatários, as pessoas remanescentes que ainda se movem e juntam suas coisas. Fogueiras estão sendo apagadas silenciosamente, a comida encaixotada e retirada. Tudo ao meu redor e acima de mim, janelas sendo fechadas, portas trancadas e em minutos o lugar está vazio e sem vida. Eu ainda estou parada ali encarando, me perguntando porque todos são tão extremistas quando uma cerca pesada, eletrificada, rodeia este lugar inteiro. Ainda assim, todos os guardas armados que sempre guarneciam a cerca desaparecem. Todos tinham só… desaparecido. Com exceção de mim. Ainda estou parada ali, embasbacada como uma retardada, quando há uma ameaça obvia se aproximando. “Merda”, praguejo, desejando que as minhas pernas entrassem

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em movimento. Tenho que voltar para Leisel, me certificar de que ela esteja dentro e protegida. Não que precise mais de mim. Não que me queira em qualquer lugar perto dela. Deixou seu desprezo por mim dolorosamente óbvio com suas palavras. Viro a esquina quando uma mão sobe dura ao meu ombro, segurando minha camiseta, o som de tecido rasgando ecoa no silêncio. Antes que possa soltar um grito, uma mão cobre minha boca e então sou arrastada para trás, meus pés tropeçam embaixo de mim enquanto sou puxada por uma porta para dentro da escuridão. Chuto de medo, esperando a qualquer minuto sentir os dentes de um infectado enfiar em minha pele, para depois começar a arrancar a minha carne dos meus ossos. “Fica calma, Wildcat!” uma voz familiar me alerta. Fico parada, piscando na escuridão, esperando que minha visão se ajuste. Finalmente isso acontece e o rosto de Dori entra em meu campo de visão. Rolando para frente em sua cadeira de rodas, agita sua mão no ar e as mãos me segurando se afastam. “Que porra é essa?” grito e quase instantaneamente uma mão espalma sobre a minha boca. Luto por um momento antes de perceber que lutar não vai me levar a lugar nenhum. Outro segundo passa e a mão me libera. Pressionando um dedo fino em seus lábios franzidos, ela sorri maliciosamente. Batendo seu dedo polegar em seu ombro, começa a descer o corredor. Olho de novo para o homem atrás de mim que me oferece um olhar em retorno, mostrando nenhum sinal de que me deixaria passar de forma alguma. Solto um suspiro frustrado, começo a seguir Dori pelo corredor. Dentro do que presumo que seja a Caverna, é ainda mais sinistro do que a cidade-fantasma do lado de fora. Há olhos em todo lugar, me espiando por trás das portas parcialmente abertas, me seguindo conforme prossigo lentamente atrás de Dori. O lugar inteiro cheira, não lixo ou mofo, mas suor e sexo. Considerando o que eu estava para fazer, aquele cheiro não é bem-vindo, só serve para me relembrar quão baixa

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e fraca sou de verdade. “Onde estamos indo?” sussurro. “Meu quarto”, ela responde simplesmente. Ao fim do corredor, viramos a esquerda, onde dois homens estão aguardando. Obedientemente eles a levantam, com cadeira de rodas e tudo e sobem por uma escada próxima. Eu sigo deprimentemente atrás dela, ainda me sentindo insegura e ansiosa para saber o porquê tinha sido forçada a continuar aqui. Quando alcançamos o segundo andar, Dori silenciosamente agradece aos homens e toma controle de sua cadeira, arrastando a si mesma ao longo de outro corredor, este era muito estreito e até mesmo mais escuro que o primeiro andar. Três portas depois, Dori finalmente para e puxa um molho de chaves. Abrindo a porta, gesticula para eu entrar primeiro. O quarto é um piche negro, a única luz vinha de uma pequena fenda nas cortinas escuras. “O que você quer?” pergunto, não escondendo minha irritação. “Vem aqui, Wildcat”, ela diz e posso ouvir o quieto som de assobio de suas rodas girando conforme se empurra em direção a janela. Revirando meus olhos, eu a sigo, observando enquanto ela puxa a cortina e deixava entrar a luz do sol. “Dá uma olhada”, murmura. Piscando pela claridade, espio a luz do dia, não vendo nada lá embaixo, só um campo vazio, pensando novamente sobre o quão sinistro isso parece, este lugar turbulento e barulhento repentinamente tão parado. Mas estou também ligeiramente impressionada do quão rápido e proficiente todos trabalham juntos para manter o lugar seguro e livre da infecção. “Olha ali”, Dori fala, apontando seu dedo. Levanto meus olhos, percorro o dedo dela passando o lugar do mercado, passando as cercas e procuro no trecho aberto de terra vazia que nos rodeia por todos os lados. Enxergo alguma coisa escura no horizonte, evocando a ideia de

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uma nuvem de tempestade longe à distância. Mas aquela não é uma nuvem de tempestade e parece estar se movendo. Meus olhos esbugalham de entendimento quando as palavras parede de mortos surge na minha garganta. “Infectados”, murmuro, depois espalmo uma mão sobre a minha boca. “Fedidos”, Dori diz, me corrigindo. “E sim, é isso”. Agitada, olho para ela enquanto o pânico se ergue em minha garganta. “Não podemos ficar sentados aqui e esperar. Vão vir direto para gente!” Ela balança sua cabeça, sorrindo gentilmente. “Contanto que fiquemos em silêncio, contanto que não nos vejam ou ouçam ou nos cheire, eles vão só passar e seguir adiante”. “Mas tem centenas”, protesto, encarando de novo o horizonte. “Milhares!” “Nós já fizemos isso antes, Wildcat. Nunca falhou. Trabalhamos juntos para mantê-los fora, para proteger um ao outro. Não somos tão ruins como você parece pensar”. Sei do que ela está falando, mas palavras – quaisquer palavras – parecem irrelevantes, não quando havia uma horda de infectados em direção ao nosso caminho. Muitos, para que, qualquer cerca ou qualquer número de armas conseguisse segurar do lado de fora. “Eu preciso pegar Leisel!” grito, passando por ela, quase tropeçando em uma das rodas de sua cadeira. “Não posso te deixar sair daqui”, ela responde. “Meus homens não vão deixar você sair, não até a horda passar. E vai passar. Você vai ficar segura”. Dando-me um pequeno sorriso, ela continua. “Ninguém sai quando uma horda está próxima, isso é para a segurança de todos”. “Mas Leisel”, eu digo, sinto lágrimas ameaçadoras. “E se ela precisar de mim?” “Ela não precisa de você, tem o homem dela”. Dori move sua cadeira para frente, em direção a uma pequena

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cama no canto mais distante do quarto. Alisando o colchão, sorri para mim. “Ela está segura com ele e você está segura aqui comigo. Vem, deita aqui, descansa um pouco”. No fundo, sei que Dori está certa. Ela apenas repete as palavras que falei para mim mesma o dia todo, que Leisel não precisa de mim. Mas não consigo evitar a dor de estômago que, não estar com ela em um momento como este, não estar lá para ela, estava me causando. E então aquilo me bate, o entendimento que apenas aprofunda a sensação nauseante de vazio em minhas entranhas. Talvez Leisel nunca precisou de mim. Talvez fosse eu quem precisou dela por todo esse tempo. Não. Balanço minha cabeça. Não. Ela precisou de mim no passado… e eu precisei dela. Ainda preciso dela. Eu iria sempre precisar dela. A única diferença é que agora ela tinha Alex e eu fui colocada de lado. Com ombros caídos e lágrimas começando a se libertar, aceito o assento oferecido por Dori em sua cama e deixo minha cabeça cair em minhas mãos. “Nós todos estamos um pouco quebrados, Wildcat, isso não é algo a se envergonhar. Só dá uma olhada no quão quebrada estou”. Ela sorri, um tipo quieto e agudo de ruído. “Não tem que voltar para ela, ou para ele. Você não precisa se sujeitar a felicidade dela. Pode ficar aqui, vou olhar por você. Nós todos vamos. Não pedimos muito em retorno, só um pedaço do seu corpo de vez em quando para ajudar a encher nossas barrigas e nos manter vestidas”. Segura de que a qualquer momento soltarei o pouco que permanece no meu estômago, levanto minha cabeça para olhar para ela. “Eu sinto muito”, digo, minha voz está trêmula. “Não é assim que eu sou, não faço… aquilo”. Mas mesmo eu conheço uma mentira quando ouço uma. Dori ainda está sorrindo para mim, um sorriso carinhoso e reconfortante, porém é também um sorriso de quem sabe de algo que

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me faz sentir exposta e desconfortável. “Uma mulher forte sabe o que ela é, Wildcat. E abraça isso”. Sorri novamente. Minhas mãos trêmulas fecham em um soco conforme pulo da cama. Olhando para ela, balanço minha cabeça. “Não”, eu digo, entre dentes. “Não, não é assim que eu sou. Vou aguardar aqui só porque tenho que esperar, mas não vou trabalhar aqui. Não vou ser uma puta para você e nem para ninguém”. Levantando seu queixo, Dori inclina a cabeça para um lado. “Você tem a marca de um homem em seu pulso, querida, ainda assim vi você com E, negociando comida por sexo. A única razão que consigo pensar sobre o que estava fazendo é se o seu homem na verdade não for seu homem”. Apertando minha mandíbula, me viro para me afastar dela e conto até dez antes de tentar falar de novo. “Eu não sou a puta de ninguém”, a encaro, rangendo meus dentes. “Ninguém”. “Se você acredita nisso”, ela emite, o evidente sarcasmo em sua voz me deixa ainda mais nervosa. “Mas só para te lembrar, você vai ser aquela que vai dizer isso a ele. E não é um homem a quem se dispensa tão facilmente”. Balanço minha cabeça. “Não tenho medo dele”. Me olha com simpatia, como se eu que fosse a pobre mulher deformada em uma cadeira de rodas e não ela. “Deveria ter”, é tudo que ela diz. “Já encontrei outros piores que ele, piores que você”, ranjo meus dentes, apesar do medo se construindo em minha barriga. A percepção do que quase realizei, com que tipo de homem eu quase fiz, começa a despontar sobre mim. “Não, querida, você não encontrou. Nunca houve um homem como ele antes. E é o único do seu tipo”. Abro minha boca para dizer alguma coisa, qualquer coisa, mas as

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palavras não vêm. Fechando minha boca, me afasto dela, fazendo o meu melhor para ignorar o pânico que se ergue dentro de mim. “E é um homem perigoso”, fala. “Ele fez coisas que… bem, coisas que nenhum homem deveria ter que fazer. Mas ele vai olhar por você e se for boa para ele, vai ser bom para você. Ele poderia ficar com uma mulher boa como você e talvez possa domesticá-lo, Wildcat. Deus sabe que nós todos tentamos. Ele não pede por muito…” ela diz, sua voz diminuindo até se tornar um sussurro ao mesmo tempo em que seu olhar despenca no chão. Meu estômago agita enquanto assisto a vergonha fluir em suas lindas feições. O que ele tinha feito para ela? Dobrando meus joelhos, coloxo minhas mãos na lateral de sua cadeira de rodas, forçando-a olhar para mim. “Eu já te disse”, falo com firmeza. “Não sou a puta de ninguém”.

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Capitulo Trinta e Três Leisel

“Não posso ficar parada aqui!” insisto, tentando não gritar. “Não consigo ficar aqui sem saber se ela está bem ou não!” Inclino-me sobre o balcão, olhando as calçadas vazias embaixo do nosso prédio, as lágrimas riscam meu rosto. Nós fomos conduzidos, forçados na verdade, a voltar para dentro dos nossos prédios e não houve tempo para procurar por Evelyn. Apesar de todos os meus protestos, os guardas armados agora parados dentro das entradas dos prédios se recusam a me deixar passar. Sinto o corpo de Alex atrás de mim enquanto alinha seu torso em minhas costas. Não pela primeira vez, seus braços descem ao redor da minha cintura, me abraçando em uma tentativa de me confortar. “Não tem ninguém do lado de fora”, ele diz diretamente. “Ela está dentro de outro prédio. Está segura, Lei, eu juro”. “Mas não me desculpei”, sussurro, depois engulo outro soluço. “Falei coisas horríveis que nem mesmo queria dizer e se alguma coisa acontecer? E se os infectados entrarem pelos portões e for tarde demais?” “Ela sabe que você não quis dizer aquilo. Sabe que você sente muito”. “Você não tem como saber!” Minhas lágrimas começam a cair mais rápido, mais duras, respingando no laminado de plástico manchado. “Não conhece ela como eu conheço”. “Está certa. Eu não tenho como saber”, ele admite. “Não com

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certeza, mas tenho que acreditar nisso”. Torço meu corpo, me virando em seus braços para que possamos nos encarar. Olhando para sua face, balanço minha cabeça. “Porque tem que acreditar nisso?” “Eu só tenho”, ele responde, desviando seus olhos. Eu o encaro, maravilhada, enxergando algo que nunca tinha visto antes. Há uma tristeza em seus olhos, em seus lábios retraídos, no jeito que seus ombros encolheram. “Alex?” sussurro, colocando minha mão em seu peito. “Converse comigo”. Ele balança sua cabeça, ainda se recusando a me olhar e então puxo sua camiseta. “Alex, você sempre esteve lá para mim, me deixe estar aqui por você. Converse comigo, por favor”. Soltando-me, Alex dá um passo para trás, depois se vira e encara a porta. Os músculos em seus braços e costas flexionam conforme troca o peso de um pé para o outro. “Minha mãe”, diz silenciosamente, sua voz quebra na última palavra. “ela não voltou para casa um dia. A infecção não tinha nos alcançado ainda… ou era o que pensávamos. Ela só tinha ido para a casa de uns amigos para ver como estavam, para entregar alguma comida e então nunca mais voltou para casa. Meu pai e eu surtamos, ligando para todo mundo, tentando encontrá-la. Dirigimos em torno de dois dias procurando por ela”. Mordendo meu lábio inferior, resisto a urgência de ir até ele. Quero confortá-lo, mostrar a ele o mesmo tipo de apoio que ele me deu, mas posso dizer, por sua linguagem corporal e o tom da sua voz, que aquele é um momento particular, que eu não sou bem-vinda ali. Então, permaneço onde estou e apenas escuto. “Meu pai… ficou meio louco depois disso. Tudo combinava, as merdas nas notícias, as pilhagens, a cidade inteira estava em pânico e meu pai… sem minha mãe… ele apenas se perdeu. Começou a me culpar por merdas que não eram minha culpa, sempre gritando comigo. Ele ficou doente, sabe, por não dormir, não comer e de ficar

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constantemente preocupado com ela. Foi quase uma semana depois de ela ter desaparecido que a infecção apareceu. Todos estavam fazendo as malas e partindo e eu estava tentando conseguir que ele fizesse o mesmo. Mas ele não queria partir, continuava dizendo que tinha que esperar por ela, estar lá para quando ela voltasse. Tentei forçá-lo, para a porra do seu próprio bem, mas era um cara grande, até mesmo maior que eu. Nós acabamos brigando…” Ele solta uma risada sem humor. “Ultima vez que vi meu pai foi quando o soquei na cara, o chamando de trouxa, disse que era um idiota por ficar esperando, que mamãe já estava morta. Então eu parti”. Minha mão voa para o seu peito, com o meu coração batendo acelerado, engulo em seco com força. Ele parece tão jovem agora, como o garoto de dezenove anos que tinha sido quando tudo mudou. Se foi o homem quieto e de palavras ásperas. Este é um adolescente de coração partido. “Fiquei sem gasolina eventualmente. Tive sorte, apesar, acabei sendo encontrado por uma caravana militar. Estavam entregando armas para qualquer um, esperando que quanto mais pessoas eles armassem, melhores chances teriam.” Ele vira, me encarando com lágrimas em seus olhos. “Nunca voltei, Lei. Eu nunca o vi de novo. Mas tenho que acreditar que ele sabia que eu não quis dizer o que disse, que ele sabia que eu o amava”. Um barulho sufocado sai da minha garganta enquanto mais lágrimas derramam em minhas bochechas. Incapaz de me abster de tocá-lo por mais um minuto, corro para frente, batendo meu corpo no dele e enrolando meus braços ao redor da sua cintura. “Ele sabia disso”, murmuro por entre as minhas lágrimas. “Sabia que você o amava, eu juro”. Olhando para mim, Alex envolve minhas bochechas e levanta meu

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rosto. Então inclina sua cabeça na minha e me beija.

*** Evelyn

“Não importa o quanto corra, o tempo não vai passar mais rápido”, Dori fala, sua voz é suave e agradável. “E pare de se preocupar, todos vão ficar bem”. As palavras dela deveriam ser tranquilizadoras, mas considerando que estava tentando me convencer a trabalhar como puta ao me dizer que eu já era uma, suas palavras não são nada. Ao invés disso, são irritantes e detestáveis, como unhas arranhando estridentemente uma lousa. Atirando um olhar em sua direção, eu a encaro, mas me abstenho de descarregar o balde de palavrões que estão na ponta da minha língua. Precisamos partir dali; consigo ver isso agora. Este lugar, estas pessoas, o jeito que vivem, é vil e corrupto, tão ruim quanto Fredericksville tinha sido, se não pior. A única coisa diferente é que neste lugar usam sua corrupção como um emblema de honra, à medida que em Fredericksville escondem as deles por trás de portas fechadas. Eventualmente este lugar irá nos arruinar. Nos mudar, endurecer ao ponto onde só estaríamos preocupados com nós mesmo. Separaria Alex de Leisel, Leisel de mim, seremos forçados a nos tornar algo que não somos. Eu me recuso a deixar isso acontecer; posso ser quebrada, mas ainda valho alguma coisa. Ao menos vou valer mais que um rato assado. Um rangido soa por trás de mim e me viro, observando a porta do

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quarto de Dori começar a abrir. Meu estômago afunda assim que vejo o perfil dele, grande e dominante, sua largura ocupa cada centímetro do batente da porta. Dou um passo para trás, me aprofundando nas sombras, desejando que o chão abrisse e me engolisse inteira. Ele é a última pessoa que desejo ver, ficar sozinha presa em um quarto escuro, especialmente desde que mudei meus pensamentos em relação a nosso pequeno acordo. A percepção de Dori sobre mim apenas me convenceu de que não negociaria nada com este homem, especialmente o meu corpo. “Fora”. A voz dele é áspera e encrespada, profunda e opressiva, não tolerando discussões. Dori responde imediatamente, tirando sua cadeira de rodas do quarto sem questionar. Quando a porta fecha atrás dela com um audível clique, minha dor de estômago apenas piora. Aquilo não é o que eu quero. Nunca quis aquilo. “Os infectados?” pergunto, minhas palavras soam ofegantes e trêmulas. “Quase aqui”, ele responde, seus olhos negros focam nos meus. Mal consigo vê-lo, mas posso sentir o ar deslocar ao meu redor quando ele anda para frente, seu corpo largo passa, seu braço raspa no meu e me faz tremer. As cortinas são repentinamente abertas e a luz flui no quarto. Esse é um sentimento bem-vindo, o calor do sol sobre a minha pele fria. Ele me aborda e quando as suas mãos fortes caem sobre os meus ombros, desejo que o meu corpo continuasse onde estava, para não correr gritando pelo corredor e alertar os infectados do nosso paradeiro. Se inclinando para baixo, ele pressiona um beijo duro na lateral do meu pescoço, sua barba grossa espeta asperamente a minha pele. “E”, sussurro, estremecendo de novo enquanto o medo me inunda. “Eu… mudei de ideia. Eu não quero mais fazer trocas com você”. Meu medo cede, rompendo as paredes duras que construí

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conforme conversava com Dori. Ela estava certa; E era perigoso e de repente minha luta parece infrutífera. Seus dedos fecham, apertando meus ombros com mais força, me fazendo contorcer o rosto. “Essa não é uma opção, Wildcat”.

*** Leisel

“Pensei que iríamos esperar?” murmuro contra a boca persistente de Alex. “Até a sua luta…” Eu estou pressionada contra a porta, o corpo largo e grande de Alex cobrindo completamente o meu. Suas mãos estão em meus cabelos e minhas mãos na parte de trás da sua camiseta, as pontas dos meus dedos cavando carinhosamente a pele macia de suas costas. Nosso pequeno beijo aumenta rapidamente. Apesar de ainda chorar e Alex estar obviamente um pouco abatido por suas emoções, ninguém parece se incomodar mais. Ele faz uma pausa, liberando minha boca e dá um passo para trás. Eu me reclino contra a porta, meu corpo superaquecido e vibrando de euforia. “Não vai ter luta esta noite”, ele diz, passando seus olhos pela extensão do meu corpo. “Não com uma horda tão perto. Eles não vão arriscar o barulho”. Seus olhos me olham ainda mais. “E… Lei?” “Sim?” “Você está incrível”. Quero rir daquilo, por que pareço muito longe disso em meu vestido sujo e meu rosto todo vermelho e inchado de tanto chorar. Mas, Oh Deus, o jeito que ele está olhando para mim. Aquilo me lembra da

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outra noite, depois de ser solta da gaiola. Aquela fome, aquele desejo, tudo está de volta. Vendo ele me observar, minha respiração diminui enquanto meu coração começa a bater mais rápido. Em um movimento fluido, ele puxa sua camiseta por sua cabeça e a atirou para o lado. Então, novamente, pressiona seu corpo contra o meu conforme desliza as tiras do meu vestido pelos meus ombros, depois dá beijos famintos na pele que tinha exposto. Estendo minha cabeça para a direita, permitindo a ele um acesso melhor enquanto sua boca explora meu pescoço. Eu me delicio com a sensação dele me tocando, me beijando, me querendo desse jeito inexplicavelmente louco que tem. “Lei”, ele fala, meu nome, um simples rosnado das profundezas da sua garganta. Atrapalha suas mãos na barra do meu vestido e então o puxa para cima, amontoando na minha cintura e o ajudo, tentando tirar o tecido do caminho ao mesmo tempo em que continua me beijando. Seus beijos – Meu Deus, seus beijos. Eu me sinto tão viva debaixo da sua boca e suas mãos, tão ligada, tão diferente de tudo que já experimentei antes. As mãos de Alex deslizam até a minha calcinha e a abaixa, os dedos dele me encontram. Em um meio beijo, meu corpo ainda parado, minha boca aberta e minha respiração congelada no lugar. Jogo minha cabeça para trás, batendo levemente na porta e logo ele se move para dentro de mim e de uma vez minha respiração se liberta em uma golfada que termina em uma arfada de prazer. Enquanto eu inspiro, expiro, meu peito arfa, meu corpo treme, a pressão do corpo de Alex é a única coisa que me mantém parada e ereta. E embora continuasse quieta, não estou, não de verdade, não profundamente dentro de mim. Eu estou caindo e voando, para depois cair de novo. Através das minhas pálpebras consingo vê-lo me observando, suas pálpebras semicerradas, seus lábios comprimidos em determinação e isso só aumenta o meu prazer, saber que ele me

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observa, sabendo que está curtindo me olhar. “Sonhei com isso”, diz de repente, sua voz, rouca e profunda. Tento me concentrar nele, mas sua mão é implacável, e de volta a esse momento me puxando da minha leveza de volta a este momento. Para ele. “Hmm?” murmuro. “Você. Esse olhar no seu rosto, por minha causa. Eu sonhei com isso milhares de vezes”. Uma lágrima desliza livremente do canto do meu olho, não de tristeza, mas por estar tão vencida, tão completamente hipnotizada por ele, por nós e por este momento em que estamos presos juntos. “Dsejava tanto você, Leisel. Desde a primeira vez, quando cheguei em Fredericksville. Você entregou roupas limpas e comida para todos os caras. Desde então…” seus dedos começam a mover mais insistentemente, como se sua memória daquele momento o estimulasse. “Fui a primeira mulher que você tinha visto em meses”, murmuro ofegantemente. “Era mais que isso”, ele fala. “Você era algo lindo e bom no meio de uma maldita zona de guerra”. Dessa vez só consigo emitir um tipo de gemido em resposta, o que está perfeitamente bom para Alex, considerando seu sorriso agora.

*** Evelyn Soltando o agarre de E, rapidamente viro para ele. “Eu disse a você, não estou negociando agora”. Empino meu queixo, com minhas mãos em punhos em desafio. Mas meus joelhos

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estão estremecendo, enviando ondas pelas minhas pernas. Dando um passo em direção a mim, com um sorriso em seu rosto robusto, E balança sua cabeça. “E falei que isso não é uma opção”. “Não quero sua maldita minhoca!” estalo furiosa. “Eu valho mais que um rato morto!” dou outro passo para trás, minhas costas batem contra a parede atrás de mim. Ainda me observando, ele levanta sua sobrancelha em questionamento. “Aonde vai, Wildcat? Eu não vou te estuprar. Jamais estuprei uma mulher e não vou começar agora”. Ele gargalha, como se o pensamento dele tendo que estuprar uma mulher fosse a coisa mais ridícula que ele já ouviu na vida. “Bem, você não vai conseguir nada de mim”, eu digo e engulo de volta o caroço em minha garganta. “O que aconteceu, Wildcat? Pensei que estivesse no jogo?” ele parece genuinamente confuso e talvez até um pouco divertido pela minha repentina mudança de humor, como se isso tudo fosse um jogo para ele. Negociar mulheres, sexo… isso não significa nada. Esticando-me por trás de mim, me atrapalho com minha mão, procurando a maçaneta da porta. “Eu estava”, digo sucinta. “Até me lembrar que eu valho mais que um pedaço de carne”. Encontrando a maçaneta, viro quando os olhos dele piscam do meu rosto para a minha mão. Ele se move rápido para um homem tão grande, me alcançando antes mesmo que tivesse a chance de abrir a porta. Empurrando a minha mão para fora da maçaneta, seus braços apoiam ao lado da minha cabeça. “Aceito”, ele anuncia, afundando sua cabeça para baixo, sua boca no meu pescoço agora. “Você vale uma tonelada de merda a mais que um pedaço de carne”. Um baixo e rouco grunhido sai dele, depois sua língua ataca minha pele. Arrasta sua língua em minha garganta, subindo pelo meu

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queixo em direção a minha boca, onde lambe meus lábios. Estreitando meus olhos, estremeço por baixo dele. “Você tem gosto de pêssego, Wildcat.” murmura. “Doce e suculento”. Ele para sua molhada exploração do meu rosto e levanta sua cabeça, seus olhos escuros me olham. “Posso ter você de qualquer jeito”. Pressionando seus quadris contra mim, ele o balança, tendo certeza de que eu soubesse o quão duro estava, o quanto queria isto – eu. Se há uma coisa que conheço bem, são homens. Não conseguirei me livrar disto; ele não vai me deixar. Mas não deixarei isto acontecer comigo por nada, por um mero rato. “Quero um caminhão”, estalo. Agradecida pelo tremor em minhas pernas ainda não ter alcançado a minha voz. Forte e segura, o completo oposto de como estava me sentindo. Levantando uma sobrancelha, ele sorri dissimuladamente para mim. “Ah é? Por quê?” Eu quero rosnar para ele, dizer que não era da sua conta, dizer a ele que pode ir para o inferno que eu nem ligo, mas ao invés disso sorrio. Dois podem jogar este jogo. “Porque”, eu digo, “Quero eu e meus amigos fora deste lugar”.

***

Leisel Ainda estou me recuperando do meu orgasmo quando Alex me levanta e me carrega pelo quarto, então me coloca no colchão. Meu vestido, arruinado, rasgado nas costas, já estava pendurado em metade do meu corpo. Com um movimento de sua mão, o que restou do vestido

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é empurrado do meu corpo e atirado pelo quarto. Sentando de joelhos entre minhas pernas abertas, desabotoando suas calças, Alex ainda está sorrindo para mim. Rindo, coro furiosamente, não por vergonha, mas por felicidade. “Sinto-me culpada”, exclamo de repente, meu sorriso desaparece. “Tem infectados por ai, Eve esta fora em algum lugar. Não sabemos o que vai acontecer se…” pauso, não querendo terminar meus pensamentos. Não querendo dizer em voz alta que podemos muito bem morrer aqui, hoje mesmo, se a horda não passar como era esperado. “Melhor ter alguma felicidade antes de morrer, certo?” ele para de tirar suas calças, me observando atentamente enquanto preocupação marca suas lindas feições. Assinto, embora de forma indiferente. “Não quero morrer”, digo suavemente e depois congelo, percebendo o que tinha falado. Não faz tanto tempo assim desde que estive preparada para morrer, preparada para apenas aceitar meu destino e deixar este mundo. Eu estou diferente agora, mudada. Não quero morrer, partir, não quando minha vida finalmente se tornou minha de novo. Não quando tinha duas pessoas que precisam de mim agora, Evelyn e Alex. Quão estranho é entender que você é necessária de verdade, quando passou anos em transe, se sentindo inútil e impotente. “Não vou te deixar morrer”, Alex promete. Derrubando suas mãos no colchão ao lado da minha cabeça, abaixa seu rosto ao meu e pressiona um suave beijo em meus lábios. Pego seu rosto entre minhas mãos, então arqueio meu corpo, pressionando meus seios nus contra o peito dele. Envolvendo seu braço ao redor das minhas costas à medida que ainda se equilibra em uma mão, Alex nos maneja para uma posição sentada, comigo arreganhada em seu colo. Beijamo-nos novamente, um profundo e prazeroso beijo, longo e duro. O cheiro dele, meu, estava tudo a nossa volta agora, o inebriante cheiro de pele e suor e corpos se espremendo. Eu me vejo

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inconscientemente embalando meus quadris sobre os dele, beijando-o com mais fervor que antes. A dor retorna, a queimação em minha barriga e a excitação serpenteia em minha coluna. Anseio mais dele, preciso de mais dele e ele parece entender isto sem eu ter que dizer uma palavra. Se afastando um pouco, termina de soltar suas calças e de algum jeito – apesar de não ter ideia de como – consegue se livrar delas sem me soltar. Então está livre, aquela parte dele que almejo desesperadamente, pressiona contra mim, para depois lentamente e gentilmente me preencher. Enfio meu rosto na curva do seu pescoço, aperto meus olhos. Tanta coisa eu relaciono à sexo e nem tudo são memórias felizes. Mas sei que isso é diferente, é real e bom. Não há cobiça nesta nossa cama, nem demônios escondidos por trás das lindas feições de Alex. “Eu tenho você”, sussurra, me apertando contra ele. “Tenho você, Lei”.

*** Evelyn

“Você vai morrer fora daqui”, E fala. “Pelo menos estarei livre”, retorno. “Livre para morrer?” “Ou para viver”, resmungo com raiva. “De uma forma ou de outra, vou dar um jeito”. Ele me observa por um minuto, claramente decidindo se eu valho isso para ele. “Um caminhão?” repete enquanto sorri para mim. “E gasolina”. “Feito”, confirma com um dar de ombros. “Do que mais precisa,

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Wildcat? Você tem uma lista nessa sua cabeça linda?” ele diz, passando uma mão em meus cabelos, deixando meus cachos caírem entre seus dedos. Assinto com a minha cabeça. “Tem um monte de coisas que nós precisamos”. Atirando sua cabeça para trás, E gargalha duro e alto, me embaraçando e fazendo me sentir tola. Continua rindo, o volume me faz perguntar se os infectados do lado de fora podem nos ouvir. Subitamente para, seus olhos novamente encontram os meus, sua expressão tranquila e séria. “É claro que tem”. Engulo novamente, o caroço em minha garganta teimando e se recusando a descer. “Quero armas, comida, água…” Um por um assinalo uma lista de sobrevivência, todas as coisas que Leisel, Alex e eu precisamos ao voltar para a selva. Parte de mim espera que ele recuse, que ria dos meus pedidos exorbitantes e ridículos; mesmo assim outra parte de mim espera que aceite minhas demandas, nos provendo com o que precisamos para ficar livres desse lugar de uma vez por todas. E talvez se eu fosse capaz de voltar para Leisel com as chaves da nossa liberdade em minhas mãos, ela me perdoará dos meus muitos erros. “Feito”. Ele sorri e levanta sua mão. Sua palma pousa em minha bochecha, seus dedos correndo pelas laterais do meu rosto e em meus cabelos. Agarrando uma mão cheia de cabelos, força minha cabeça para trás. “Você vai ter seu caminhão, Wildcat, quando eu estiver pronto e disposto a dar isso para você. Já acabou?” “Como sei se posso confiar em você?” sussurro. Seu sorriso vira uma gargalhada. “Não vai saber”, ele responde. Seus olhos estão expectantes agora, como se esperasse pela minha confirmação, um sinal de que tínhamos chegado a um acordo de mútuos benefícios e agora ele pode coletar a sua parte. Pergunto-me do porque é tão importante para ele, meu consentimento, quando nós dois sabemos que ele não precisa disso. Ele é grande o bastante, pode simplesmente pegar o que quer e não tem que me dar nada em troca. Seria a marca em meu pulso? Seria algum

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tipo de punição difundida caso você pegue a propriedade de outro homem? Mesmo se fosse, duvido que alguém irá contra um homem como E por uma mulher como eu. Dou uma profunda respiração, fecho meus olhos e assinto rapidamente. Não mais que uma batida de coração se passa antes da boca dele estar na minha, sua língua se intrometendo entre meus lábios conforme entra furiosamente na minha boca. Agarrando o cós da minha calça, ele a desabotoa, empurra pelas minhas pernas e leva minha calcinha com elas. Grosseiramente, afasta minhas coxas e então seus dedos grossos estão dentro de mim, empurrando e apalpando, me fazendo arfar com a repentina intrusão violenta. Encerra o beijo e pressiona sua testa contra a minha, sua respiração quente e irregular em meu rosto. Grunhindo, coloca sua palma contra mim, seus dedos agora trabalham mais rápido, com mais força. Mordo meu lábio inferior, seguro seus ombros e enfio minhas unhas nele, ao mesmo tempo querendo que ele pare e que continue. Eu estou tonta, desorientada, meu corpo de repente se torna um frenesi de vontade e necessidade conforme minha mente continua a protestar. Um braço forte serpenteia em volta da minha cintura, sua mão grande me segura e me levanta do chão com facilidade. Enquanto me carrega para o outro lado do quarto em direção a cama, minhas calças escorregam pelos meus tornozelos e tão rápido quanto ele me deita, agora segura a gola da minha blusa. Com um puxão violento, a blusa rasga ao meio, despindo meus seios para ele. Deitada ali, totalmente exposta, assisto E rapidamente se despindo, puxa sua camiseta por sua cabeça, revelando um abdômen compactado com camadas de ondas de músculos duros. Desabotoando seus jeans, ele os chuta para longe, depois escala a cama. Se posiciona em cima de mim, abre minhas pernas e encara a minha nudez com um sorriso indecente em seu rosto. Sinto-me curiosamente autoconsciente, tento fechar minhas pernas, mas as mãos dele estão lá e me impedem. Mantendo minhas pernas abertas, sorri para mim ao mesmo

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tempo em que se move para cima, nossos corpos agora se tocando, seus quadris alinhados aos meus.

*** Leisel

Arfo novamente, não pela primeira vez, mas alto o bastante para que Alex use sua boca para abafar o som. O que não é uma façanha fácil considerando que estou deitada de barriga para baixo, Alex em cima e profundamente enterrado dentro de mim. “Shh”, sussurra contra a minha boca. “Posso ouvi-los agora. Estão em torno dos portões”. Nós dois ficamos em silêncio, ouvindo o estranho zumbido que vem do lado de fora das janelas. No começo soa como se um enxame de mosquitos cercasse sua cabeça, mas quanto mais eu ouço, embaralhado entre a nossa respiração pesada e corações palpitantes, fica mais claro, mais distinto, soando totalmente diferente. Um coro baixo de grunhidos e rosnados, muitos para distinguir, tudo vagando junto e ecoando como um baixo zumbido para ouvidos destreinados. Embaixo de Alex, tremo. Eles estão por todo lugar agora, praticamente em cima de nós e se não seguirem adiante? E se de alguma forma nos sentissem ali dentro? E se eles... Alex sai de cima do meu corpo, instantaneamente me distraindo dos meus pensamentos, antes de retornar para mim lentamente e mergulhar novamente para dentro. “Não pense”, diz calmamente contra o lóbulo da minha orelha, depois me beija de novo. Segura meus dois pulsos, os levanta acima da minha cabeça, usando uma mão para mantê-los lá enquanto sua outra mão viaja pela

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extensão do meu corpo. Outra vez, seus quadris recuam e retornam. “Vou ficar tão dolorida”, murmuro por entre o colchão. Fizemos sexo uma vez. Alex não demorou tanto e depois de pedir desculpas, voltou direto ao trabalho para garantir que eu pudesse terminar desta vez. Ou ele está simplesmente tentando me distrair do que acontece do lado de fora. Em ambos os casos, não estou reclamando. Ao menos não ainda. Manobrando meus dedos, peço sua mão. Ele atende, soltando meus pulsos e deslizando seus dedos entre os meus. Por um momento só consigo encarar nossos pulsos, nossas marcas combinando, que eternamente me marcaria como sendo de Alex e me vejo sorrindo, gostando daquilo, gostando de pertencer a ele. Com um toque do seu nariz, varre meu cabelo para um lado. Sua boca encontra meu pescoço e então se move de novo. Lentamente no começo, seu longo deslizar dentro e fora do meu corpo me força a enfiar meu rosto no colchão e sufocar os choros de prazer que ondulava através de mim. Então mais rápido e mais rápido, seus quadris em um ritmo vertiginoso entre minhas coxas, açoitando o meu corpo inteiro a nada mais que um frenesi de necessidade. Estremeço, agitando como uma folha debaixo dele, quero soluçar, gritar em êxtase. Ao invés disso mordo o colchão e deixo meu corpo inteiro gritar por mim. Meu corpo grita até sua voz ficar gasta, até suas entranhas ressecarem, nem uma gota de hidratação restando. Uma pequena parte de mim morre esta tarde – a parte de mim que ainda se encolhe de medo ao ver um punho; a parte de mim que quer deixar este mundo, assustada e egoísta demais para perceber o que deixaria para trás, a parte de mim que está eternamente assustada, meus medos não deixando ver o que ainda está aqui, a vida que, ainda, está bem aqui, mesmo no meio de toda essa morte. Isso tudo sumiu agora, conforme meu corpo grita por si mesmo, em carne viva de alegria e prazer inimaginável. Mergulho no sono, o mais pacífico sono que tive em quatro anos, enquanto me envolvo seguramente nos braços de um bom homem. Um

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homem que me ama.

*** Evelyn

Agarrando minhas coxas, E se curva contra mim, pressionando sua ponta dura dentro da minha entrada. Solta minhas pernas, envolve suas mãos ao redor da minha cintura, seus dedos penetram furiosamente dentro da minha pele, seu aperto me segurando firmemente no lugar. Então seus olhos levantam e encontram os meus, um sarcasmo cruel retorce em seus lábios e com um alto grunhido, ele se enfia dentro de mim. Choro com a dor do seu tamanho avantajado e da selvageria dele, tento empurrar, até sua mão espalmar sobre minha boca. Seu peso me esmaga, asfixiando meu choro e impede meus movimentos. Com uma mão presa fortemente sobre minha boca, a outra segurando firme a minha cintura, estoca dentro de mim de novo e de novo. Não importa quanto tento me mexer ou girar contra ele, simplesmente controla minha surra usando seu próprio corpo, me mantendo prensada no lugar. Em toda a minha vida, nunca fui fodida daquele jeito. Ele é um homem possessivo, como se estivesse tentando me marcar internamente com o seu pau e me fazer ser dele para sempre. O tempo todo, seus olhos nunca deixam os meus, seu duro olhar cruel queima dentro de mim. Grunhindo, E me vira, pressionando seu peito contra minhas costas conforme mais uma vez se dirige profundamente entre minhas coxas. Seus dentes encontram meus ombros, mordendo, quase berro de dor. Ao invés disso, mordo o travesseiro embaixo de mim, sabendo que não há sentido em chorar mais. Tudo que ele faz, está fazendo para me

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machucar. Ele gosta de saber que está no controle, que meu corpo é seu para usar como quiser. Mas a culpa é minha; sabia exatamente no que estava me envolvendo. Fui alertada por ambos, ele e Dori e ainda assim tinha concordado. O preço que estabeleci – a liberdade de Leisel e Alex – é mais importante. Mas a dor que ele esté me causando, é mais que apenas física. Com cada estocada brutal, com cada aperto descuidado e beliscão em minha pele, cada mordida e cada choro que eu proferi e ele responde com um sorriso, está me machucando em partes que ele não deve ser capaz de alcançar. Me machucando bem na minha alma. Desesperada para fugir, libero meus pensamentos e me lembro da conversa que tive com Leisel. “Aonde você vai?” perguntei. “Quando vagueia?” “Para o passado”, ela disse simplesmente. “Volto para o passado”. Espremendo meus olhos fechados, as lágrimas vazam de trás das minhas pálpebras, faço como Leisel faria. Volto para o passado. Eu penso em Shawn, em suas feições brutalmente lindas, o jeito que sempre me fazia cócegas antes do sexo, até eu rir e implorar para que parasse e depois ele me beijaria. E os beijos dele... Seus beijos foram tudo. E pensei em Jami. Seu sorriso doce e pecaminoso, suas mãos habilidosas rasgando o prazer do meu corpo encharcado e desejoso, o jeito lindo de sempre nos movermos em sincronia, pele contra pele. Era em Jami que estava pensando enquanto E continuava a bater seu corpo no meu. “Wildcat!” E silva furiosamente. “Faça algum maldito barulho!” Bate sua mão na minha bunda, meu corpo pula em resposta, mas me recuso a chorar. Recuso-me a permitir a esse homem a satisfação de ouvir ainda mais a minha dor. Se libertando de mim, ele me vira sobre minhas costas e novamente se enterra profundamente dentro de mim. Segura minha mandíbula, me força a olhar para ele novamente.

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“Chora para mim, Wildcat”, ordena, me encarando. Olhando para além dele, foco em nada, meu pensamento recua novamente para o passado. Para Jami e então é somente Jami que eu vejo, somente Jami que sinto. “Sua puta estúpida”, E escarnece. “Você não passa de uma puta estúpida que ninguém quer”. Sei que ele está tentando me perturbar, que precisa disso, sufoco uma gargalhada amarga. “Não sou uma puta”, eu digo, “e tem um monte de gente que me ama”. E tem. Meus pais me amaram. Shawn tinha me amado, Leisel e Thomas me amaram. E Jami, talvez até mesmo tivesse me amado. Eles eram os únicos que importavam, cujas opiniões para mim importa. Não este homem; ele não importa. Nunca importará. Praguejando, E toma uma mão cheia do meu cabelo e empunha com força. Segurando-me como um cavaleiro seguraria as rédeas de um cavalo, recomeça a bombear seu corpo no meu. Mais rápido, mais forte, mais dolorido e raivoso que antes. Começo a rir então, através das minhas lágrimas e dor, me permito cair mais profundamente no esquecimento e para mais perto de Jami.

*** Leisel

Ao me soltar de Alex, pisco atordoada na semi-escuridão, então me sento e olho em torno do quarto vazio. Fico em pé, me dirijo para a

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fileira de janelas e espio lá embaixo. Não havia nenhuma horda, nenhum paredão negro de mortos a distância. Há, entretanto, diversos infectados grudados flácidos na cerca, seus corpos enegrecidos e carbonizados. Pressiono meu rosto no vidro sujo, tento ver mais adiante e descubro só mais do mesmo. Infectados, queimando até torrar pendurados aleatoriamente na cerca. Eu tenho que admitir, estou surpresa e um pouco impressionada do quão facilmente se esconderam da horda, especialmente dentro de um acampamento deste tamanho e com tantas pessoas. Retorno para a cama, sento ao lado de Alex. “Hey”, murmuro, sacudindo seu braço. “Alex, acorda”. “Hmm….” se esticando ao redor da minha cintura, alisa sua mão em minha barriga, viajando para cima até segurar meu seio, aperta conforme gentilmente passa seu dedo em meu mamilo. “De novo?” ele murmura, pressionando seus quadris em minha bunda. “Não”, advirto, sorrindo suavemente. “Pare. Esta quase escuro e Eve ainda não voltou. Acho que deveríamos procurar por ela”. Bocejando ruidosamente, Alex tenta sentar usando só uma mão, a outra ainda firmemente ligada ao meu peito. Uma vez sentado, me puxa para mais perto, quase em seu colo, ainda amassando e agarrando a pele macia. Inconscientemente, meus olhos começam a fechar, minha boca se abre em um gemido silencioso. Estico-me até ele, curvo meu braço ao redor do seu pescoço e viro minha cabeça, juntando nossas bocas. “Eu quero mais”, ele fala, deslizando sua língua em meus lábios. “Eu também”, sussurro, puxo seus cabelos e aprofundo o beijo. Deixo rolar, por um momento, antes de afastar. “Mas temos que encontrar Eve”. Com um suspiro, ele me libera, solta suas mãos. Pisco, me esforço

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para me acalmar e rolo de cima dele para fora da cama. “Você destruiu meu vestido”, eu digo, colhendo o material despedaçado e enrugando meu nariz para isso. Alex sorri para mim, algo em seu rosto que nunca cansarei de ver, tão completamente diferente de sua expressão típica de pedra. “E também consegui uma tonelada de roupas novas para você”. “Verdade”, confirmo, já alcançando a bolsa de roupas que Grannie tinha me dado. Depois de procurar dentro dela, puxo um par de calças masculinas em um azul-escuro e uma regata preta que foi remendada tantas vezes com restos de tecido colorido. Visto-me rapidamente, então escorrego para dentro das minhas novas botas cor-derosa.Parece ridícula, mas não mais ridícula que qualquer um por ali. “Você vem?” pergunto a Alex, que ainda não tinha levantado. Suspirando de novo, ele levanta, me dando uma visão frontal inteira do seu corpo nu. Reparo em tudo, da cabeça aos pés, admirando cada centímetro dele perfeitamente esculpido. “Se continuar me olhando desse jeito”, ele profere, olhando com seus olhos semicerrados e esfregando uma mão em sua mandíbula, “nunca vamos sair deste quarto”. “Não consigo evitar”, sussurro, sorrindo. “Você é realmente muito bom de apreciar”. Depois de passar uma camiseta vermelha suja em sua cabeça, seus olhos encontram os meus. A intensidade abrasadora que vi dentro deles mais cedo está de volta, me queima onde eu estou. Deus, este sentimento, esta incrível atração mutua... Jamais previ essa virada que a minha vida tomou de repente. “Vem aqui”, ele diz, sua voz mais profunda que o usual. Dou um passo à frente, minha respiração presa em antecipação, quando um estranho barulho no corredor me faz parar. Viro-me bruscamente, olhando para a porta. “Ouviu isso? Choro ou algo do tipo?” “Sim”, Alex diz com a testa franzida, ficando sério repentinamente.

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“Fica aqui”. Depois de puxar suas calças, se dirige para a porta, abre o cadeado e apertando a maçaneta. A porta abre, suavemente batendo na parede conforme Alex sai para o corredor mal iluminado. “Lei!” ele grita, sua voz parecia em pânico. “Vem aqui!” Corro atrás dele, passo pela porta e entro no corredor. Olho para baixo, vejo Evelyn sentada no chão, sua camiseta rasgada, seus seios a mostra, seus braços caídos flácidos a seu lado. Pelo que posso dizer, ela está coberta de pequenas marcas – seu pescoço, suas bochechas, seus peitos e braços. Bem familiarizada com elas por muitos anos, entendo exatamente do que eram. Eram marcas de dedos. “Eve!” choro, caindo de joelhos. Ela vira sua cabeça, seus olhos vermelhos e inchados de chorar encontram os meus. “Quem fez isso?” Mais lágrimas nascem em seus olhos, derramando em cascata por seu rosto. “Isso não importa”, sussurra por entre seus soluços sufocados. Meus olhos arregalam. “Isso não importa!” exclamo. Quero puxála para frente, pegá-la nos meus braços e segurá-la, mas não estou certa de que tocá-la pode machucá-la. Então resolvo pegar sua mão, trazendo-a ao meu rosto e pressionando um beijo em sua palma. “Quem fez isso?” repito, olhando para Alex. Seus olhos queimam, só que agora há um tipo diferente de fogo em suas profundezas. Ele não está só com raiva, está furioso. “Isso não importa”, ela diz de novo, atraindo minha atenção de volta a ela. Então me surpreende ao sorrir através de suas lágrimas. “Consegui para a gente o que precisamos, um caminhão e suprimentos”. Ela dá uma inspiração trêmula. “Vamos cair fora dessa porra”.

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Capítulo Trinta e Quatro Evelyn

A água escorrega sobre minha pele, morna, mas parece escaldante em minhas manchas e marcas de mordidas. Lavo meus machucados cuidadosamente, me encolhendo de vez em quando. Estão curando rapidamente, especialmente depois de dois dias de descanso na cama, com Leisel e Alex a postos para tudo que eu precisasse, apesar dos meus protestos. Mesmo depois da horda ter passado, por dois dias Purgatório permaneceu em silêncio, ninguém querendo se arriscar a chamar atenção de um grupo tão grande de infectados em nossos arredores. Os clubes estão fechados e o mercado vazio; o lugar inteiro perdurou parado até esta manhã. Com esse despertar tivemos um visitante, uma garota no começo da sua adolescência. Com um pedido de Liv, ela me informou que vou lutar na arena esta tarde. Ela me deu um olhar de piedade antes de sair para o corredor, me deixando com um sentimento de mau agouro no fundo do meu estômago. Desligo a água com um suspiro, me estico para pegar a toalha, enrolo fortemente em meu corpo e saio do pequeno cubículo do chuveiro. Apesar de um tubo de metal com um sistema de polias preso a uma mangueira de jardim dificilmente poder ser chamado de chuveiro, é o melhor banho que tive em semanas. Havia algumas outras mulheres comigo, uma com duas crianças pequenas, mas nenhuma delas presta atenção em ninguém. Passo pela pilha de roupas de alguém e me dirijo ao canto onde deixei as minhas. Depois de pentear com os dedos os meus cabelos limpos, porém

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molhados, visto um dos novos pares de roupas que Alex conseguiu para Leisel e eu – uma calça cargo preta e uma camiseta azul-escuro que me coube surpreendentemente bem. Uma vez vestida, encaro meu reflexo em um dos muitos espelhos quebrados que revestem a parede. Pareço pálida talvez, até mesmo, doente e muito mais magra do que já fui. Existe algo mais também, um olhar vazio em meus olhos que nunca percebi, possivelmente porque não estava aqui da última vez que dei uma boa olhada em mim mesma. Tento me lembrar da última vez que me olhei num espelho e não consegui. Apesar de cuidar da minha aparência em Fredericksville, nunca tinha me olhado. Eu jamais quis e talvez fosse por essa razão. O medo do que encontraria. Tiveram muitas vezes, no curso dos últimos quatro anos, quando me senti sem valor, inútil, pouco mais que algo para ser usado e facilmente descartado. Mas me recusava a admitir isso em voz alta, me recusava a olhar para mim mesma enquanto pensava naquelas palavras horríveis. Mas depois de E, depois do jeito que tratou a mim e ao meu corpo... Esqueço a marca em meu pulso, me sinto marcada de verdade agora. Marcada por E e marcada como uma puta. E hoje vai ser a primeira vez que eu o veria desde... Ele não me estuprou. Concordei com tudo e não tinha ninguém para culpar a não ser eu mesma – nem mesmo ele. Foi propositalmente cruel comigo, propositalmente agressivo e maldoso, mas sabia que ele seria. Engulo em seco, sinto a bile subindo em minha garganta. Não penso em E, não com a minha luta chegando. “É apenas sexo”, sussurro para o meu reflexo. “Isso é apenas sexo”, repito mais alto, desejando que me sentisse mais forte ao olhar para o meu reflexo triste e patético. Estaremos fora daqui em breve, digo a mim mesma. Com um caminhão, armas e comida. Vamos continuar viajando para o Sul, continuar a sobreviver. Como uma família. “Foda-se este lugar”, murmuro e me forço a sorrir. Recuso-me a sentir vergonha do que E tinha feito, do que eu tinha feito. Eu tenho um plano, um jeito de nos tirar daqui, um jeito de proteger Leisel e a

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mim mesma da loucura deste lugar. E isso é tudo o que importa. “Não sou a porra de uma gata selvagem”, sussurro, rindo sombriamente. “Sou uma maldita leoa”. Rio de novo, uma doce risada que não faz nada, a não ser me sentir menos como eu mesma e mais como uma estranha. “Eve? Você esta aqui?” a suave voz de Leisel viaja pelo cômodo, ecoando no azulejo de cerâmica fria. “Estou aqui”, respondo, ainda encarando meu reflexo. Quando ela para atrás de mim, meus olhos esvoaçam para o seu reflexo, observo o seu olhar pairar em torno da visível mancha em meu pescoço e braços. Ela escondeu sua reação bem, rapidamente encontrando meus olhos com um sorriso amável. Quero rir, voltando o pensamento a quantas vezes fiz o mesmo com ela, escondendo o desgosto que estava sentindo pelo homem que a machucou, escondendo a piedade que sentia por ela. Quão rapidamente nossos papéis se inverteram. Agora eu sou a que precisa ser confortada e Leisel é a que oferece isso. Se inclinando, envolve seus braços ao redor do meio do meu corpo, descansando seu queixo em meu ombro, ainda sorrindo para mim. Cubro suas mãos com as minhas, devolvo seu sorriso. Ela parece tão feliz, tão em paz e aquilo é uma coisa linda de ver. Minha dor – qualquer dor – compensa ao ver aquele contentamento fluir em suas bochechas. “Você sabe que sinto muito, certo?” ela fala suavemente. “Não quis dizer nada daquilo, nem mesmo um pouco”. “Eu sei, você me disse”. Meus olhos novamente encontram os dela. “Um monte de vezes”, sorrio. Ela assente de novo e olha para longe, aparentemente não totalmente convencida de que acreditei nela. Usa sua culpa como um crachá, visível para todos verem, como se ela acreditasse que me devia isso por ter feito me sentir mal. Quando

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na verdade, isso só faz me sentir pior. “Você esta pronta?” pergunta cuidadosamente. Ela está preocupada comigo, em relação à luta, em relação ao que aconteceu com E, mas está sendo forte por mim, tentando aliviar os fardos dos meus ombros. Aprecio aquilo mais do que ela imagina. “Quase”, eu digo, assentindo. Prendo meu cabelo em um coque apertado no topo da minha cabeça, viro para encarar Leisel. “Tem certeza de que quer estar lá?” pergunto a ela. “Tenho um sentimento de que vai ser feio”. E não quero que você fique triste, adiciono silenciosamente. Os lábios de Leisei se voltam em um surpreendente rosnado. “Nunca mais me pergunte algo tão estúpido novamente, Evelyn”. Começo a sorrir, um sorriso genuíno, enquanto me estica até ela. “Amo você, Lei”, sussurro, a espremendo contra mim, ignorando a dor que isso causa ao meu corpo. Abraçando-me de volta, ela me aperta mais forte do que já fez antes. “Eu também te amo, Eve”. “Jura?” pergunto, sufocando minha própria emoção. “Juro”, ela diz. “Sempre”.

*** A arena improvisada está localizada do lado de fora, na outra ponta do lado Sul de Purgatóri, situada a algumas poucas dúzias de quadras do portão. É um assentamento simples, várias estacas de metal saindo do chão com cordas em torno delas para criar um tipo de ringue, circulando um pequeno trecho de grama batida. Gaiolas de infectados, como as do Drunk Tank, estão lá também, ao menos quatro que consigo ver quando rapidamente analiso a área,

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tentando absorver tudo o mais rápido que pudesse. Os infectados estão selvagens, nervosos e loucos por sangue, fazendo aqueles do bar parecerem submissos. Tento não olhar para eles, para suas apodrecidas peles amareladas, cabeças carecas e bocas que se mexem rapidamente – mesmo sem dentes, tudo isso só faz meu estômago agitado piorar. Mas consigo ouvi-los, acima de todos os gritos e assovios quando entro na arena, seus grunhidos de fome sobressaindo sobre o resto. Alex está entre a multidão reunida de expectadores, esperando por nós. Leisel vai até ele, escorrega sua mão na dele e sorri enquanto escaneia a grande plateia, meus nervos estão esgotados quando meus olhos encontram E. Ele ressalta, mesmo em uma multidão daquele tamanho, sua figura grande e o moicano obscurece quase todos os outros. O rosto dele é uma máscara de calmaria, apesar de seu olhar impenetrável falar de morte e violência. Tiro meus olhos de cima dele, volto a olhar para Leisel e Alex. “Não derrame muito sangue”, Alex fala, se esforçando para sorrir. “Não quero ficar pisando nele durante a minha luta”. Tento sorrir também, mas acabamos só fazendo caretas um para o outro, nenhum de nós gosta do que temos que fazer. “Só mais alguns dias”, Leisel diz, com seus olhos mirando entre nós. “E daremos o fora daqui. Certo?” “Certo”, Alex emiti, assentindo para ela. Assinto também, puxando Leisel para um abraço rápido. “Definitivamente”, digo, mas não quero compartilhar do otimismo deles. Ainda estou na graça da misericórdia de E e quem sabe quando ele virá por mim. Conforme me dirijo ao ringue improvisado, encontro E facilmente entre a plateia novamente. Seus olhos ainda em mim, seu olhar duro e implacável parece sugar a energia de dentro dos meus ossos, fazendo meus braços e pernas parecerem geleia. Ao tentar desviar meus olhos, percebo uma dificuldade, involuntariamente olhando para ele mais e

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mais. A multidão fica mais agitada. As pessoas gritam enquanto passo por elas, com seus braços levantados, as mãos cheias de comida, roupas ou garrafas de bebidas alcoólicas caseiras. Um quadro-negro foi posicionado próximo a cerca, onde um homem desleixado estava recebendo as apostas, escrevendo nomes, chances e montantes. Um infectado engaiolado foi colocado próximo a ele, mas, mesmo assim, ele parece alheio aos seus rosnados e agitação na gaiola à medida que tenta desesperadamente alcançá-lo. Alcanço o ringue ao mesmo tempo em que Liv, seus cabelos rosa brilhavam ainda mais debaixo do sol. Suas mãos estão enroladas possessivamente ao redor do bíceps de outra mulher quando se arrasta por baixo da corda e se enfia dentro do ringue. Ela é uma coisinha ossuda, minha oponente, com um pequeno corpo de ébano e cabelos muito negros. Pelo seu comportamento, jurei que lutaria sujo, provavelmente lhe falta qualquer habilidade real. Ela olha para mim, seus olhos gélidos e vazios, enquanto Liv sorri um cruel e malicioso tipo de sorriso que sugere para mim que seria qualquer coisa, exceto uma luta justa. Atrás de Liv, Jeffers entra no ringue, seus braços abertos em boas vindas. Parece mais velho a luz do sol, mais duro e vil também, a sua idade é mais aparente na luz do dia. A faixa cinza em seu cabelo quase branca, um contraste duro e ameaçador aos seus cachos negros. “Lutadoras, prontas?” ele grita, acenando com seus dedos para que nós duas nos aproximássemos. Minha oponente e eu nos movemos para frente até estarmos próximas. A esta proximidade com ela, consigo ver as cicatrizes que cobrem seu corpo, centenas delas cruzando seu rosto, pescoço e braços e começo a me perguntar se a julguei errado. Ela claramente participou de muitas lutas e ainda está aqui. “Hoje para o prazer de vocês teremos uma nova desafiante para a nossa campeã reinante, Miiiiis-ty!” Ao ouvir seu nome, Misty soca o punho no ar. A multidão responde com um rugido diabólico, entoando seu nome repetidamente

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assim como gritando por meu sangue. Misty não está prestando atenção a eles, quase como se não pudesse ouvi-los. Seus olhos não fixam em nada em particular; olha na direção do céu, do chão, qualquer lugar menos para mim ou para a platéia. Liv, entretanto, está olhando para mim. Rindo para mim, na verdade. “Direto da selva, temos Eve!” Jeffers se volta para mim com um sorriso. “Alguns poderiam até mesmo considerá-la uma Wildcat! A multidão rosna de novo e meu estômago da cambalhotas a menção do meu apelido. Furto um olhar para onde tinha visto E da última vez, o descubro ainda no mesmo lugar, com seus braços tatuados cruzados no peito, me encarando. “Lutadoras!” Jeffers continua. “Para seus cantos!” Quando Misty recua para o lugar onde Liv a espera, retorno para o meu canto e ignoro o pequeno banco que foi colocado ali para poder vasculhar a multidão atrás de mim a procura de Leisel e Alex. Eu os encontro facilmente, notando Alex primeiro, se empurrando pela multidão quando Leisel chega correndo atrás dele. Volto-me para o ringue, ainda sentindo o olhar de E sobre mim quando a plateia cai no silêncio. Aquele é um tipo mortal de silêncio, como uma sombra escura que devora a luz, envolvendo todo mundo na escuridão. “Ding, ding!” Jeffers berra, sua voz profunda estava cheia de divertimento. A plateia estoura em outro rugido feroz, ainda cantando o nome de Misty conforme Misty se posiciona e cruza o ringue, vindo diretamente em minha direção. Vou para o lado, só um passo de distância do alcance de seu punho ossudo, apenas para receber outro soco. Seu punho acerta minha orelha esquerda e meu mundo fica instantaneamente quieto, rapidamente dando passagem para um alto rangido que me faz encolher e cambalear para trás. Ela ginga de novo, dessa vez se conectando com o meu estômago, me fazendo voar para trás, meu

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corpo esparrama nas cordas. Ela se junta a mim lá, seu punho acerta meu rosto, depois a minha barriga, seus socos são incansáveis, um em seguida do outro... Em uma tentativa de bloqueá-la, levanto meus braços, conseguindo impedir apenas alguns meros golpes. Interpretei a mulher de forma inteiramente errada; ela é rápida, poderosa e brutalmente eficiente. A pancadaria para abruptamente. Quando consigo espiar entre meus braços erguidos, vejo Misty se dirigindo de volta ao canto onde Liv está esperando por ela. Ainda sorrindo, Liv pisca na minha direção, me deixando saber que ela vencerá e que eu perderei, se certificando de que visse a doentia satisfação que ela colhe disto tudo. Quando tiro meus braços rosto, assisto Liv se virar para a plateia, procurando por E, que está agora parado ao lado da corda. Um sorriso sedoso agracia o rosto de Liv enquanto o observa, mesmo que ele não esteja olhando na direção dela. Ela segue o olhar dele pelo ringue até mim, seu sorriso então desaparece, suas narinas dilatam de raiva e percebo então que ela sabia. Sabia sobre E e eu; sabia e está ciumenta para caralho. Cambaleando de volta para o meu canto, encontro Leisel e Alex esperando por mim. Balanço minha cabeça ligeiramente, irritada por minha audição estar inconsistente; apenas com um zumbido maçante da comoção ao meu redor. Seguro meu braço, Alex me arrasta para o banco e começa a secar meu rosto com a manga da sua blusa. Sua boca está se mexendo, mas não consigo ouvir suas palavras e minha visão está embaçada e fora de foco. Entre aquilo e as dúzias de socos que eu tomei na barriga, estou certa de que vomitaria em cima de mim mesma a qualquer momento. Mas então Leisel esta lá, empurrando Alex da sua frente e se ajoelhando ao meu lado. Pega meu rosto em suas mãos, bloqueia o mundo do lado de fora, deixando somente ela e eu. Sua boca, ao mesmo tempo dura e suave, encontra a minha, pressionando um beijo em

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meus lábios. “Você me prometeu, Eve!” ela berra, sua voz quase se perde entre a gritaria. “Prometeu-me que sempre estaríamos bem! Não quebre sua promessa!” Pisco através do sangue que goteja da minha testa para dentro dos meus olhos, assinto. Ela está certa; prometi a ela. Prometi que estaríamos sempre bem e não quebrarei aquela promessa. Leisel me ajuda a ficar em pé e então se vai, rebocada por Alex. Viro-me para ver Jeffers novamente parado no centro do ringue. “Ding-ding!” grita de novo com uma risada dura e meu estômago desaba. Como um animal selvagem libertado de seu confinamento, Misty ataca. Sem dançar ao redor, sem evadir, só outro assalto pesado que não sou rápida o bastante para evitar. Seus punhos rompem contra mim novamente, partindo meus lábios e minha boca instantaneamente se enche de sangue. Ganindo caio em meus joelhos e giro ao redor, perde seu segundo ataque. Agarrando meus braços, Misty me arranca do chão com uma chave de braço e me joga contra as cordas. Quando bato nelas, quico para frente, caindo em seus braços onde prontamente chutou minhas pernas para debaixo de mim, fazendo meu corpo inteiro esparramar dolorosamente no chão. Enquanto tento recuperar o fôlego, ela levanta seu pé e o conecta em minhas costelas e o pequeno ar que havia restado em meus pulmões sai em um doloroso whoosh. Ela me chuta repetidas vezes, até não conseguir mais respirar. Desejando que ela termine aquilo de uma vez por todas, que apenas enfie aquela bota dela direto na minha cabeça e encerre isso tudo, mas, subitamente, para. Quando consigo enxergar através das pálpebras inchadas, vejo-a que andando para longe de mim. Com um grunhido, rolo de barriga para baixo, tento me arrastar no chão e voltar para o banco. Só consigo uns poucos centímetros quando Alex surge de repente, me levantando do chão e me colocando

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de volta em meu banco. “Eve!” ele esbraveja conforme segura meu queixo, me forçando a olhar para ele. Olho para ele, apesar de tudo estar difuso e de ser dolorido manter meus olhos abertos. “Ela vai te matar! Precisa revidar!” grita, seu rosto contorcido em ira. “Eu nem ligo”, murmuro, deixando minha cabeça pender para um lado, onde sou recebida pelo rosto de Leisel. Seu rosto lindo, riscado de lágrimas e de coração partido. “Você prometeu!” ela protesta. “Não posso fazer isso!” choramingo, empurrando sua mão quando tenta me alcançar. Afasto os olhos dela, não querendo ver sua dor, sua frustração, ou sua maldita piedade. Meu olhar recai sobre E e o encontrou ainda me assistindo. Seu rosto inteiro está amassado em uma carranca frustrada, seu corpo tenso e curvado de raiva. Sua raiva provavelmente provinha do fato de que eu estou perdendo – que ele apostou em mim e eu estou perdendo. “RODADA FINAL!” Jeffers ruge. “Ding, ding, filhos da puta – DING!” Eu não sei como faço isso, como consigo me levantar daquele banco e voltar ao ringue. Mas de algum jeito faço, encontro algum pedaço remanescente de vontade esquecido dentro de mim, me impelindo para frente, me empurrando para ver esta coisa acabar, mesmo se isso signifique o meu fim. Aperto meus dentes, baixo minha guarda, espero que Misty venha até mim, esperando por seus punhos mais uma vez começarem seus assaltos incessantes. E enquanto estou esperando, em algum lugar debaixo dos rugidos da plateia e dos zumbidos em meus ouvidos, ouço um grito, um alto e agudo que fragmenta meu coração. É Leisel gritando e meu estômago agita com medo e preocupação – não por mim,

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mas por ela. Você prometeu! Cuspo uma boca cheia de sangue, passo uma mão em meus olhos e preparo meus punhos. Com seu corpo sem expressão, lindo e esguio, construído para infligir dor, Misty corre para mim, seus punhos como pedras sólidas, esperando para acertar. Quando me cerca, viro com ela, meus olhos seguem seus movimentos, noto um raio de luz, um reluzir de alguma coisa brilhando em seu punho quando o sol o toca. Engulo com força, provando o sabor metálico de sangue e entendendo que Alex está certo. Ela vai me matar; não me bater até a polpa, mas encerrar de verdade a minha vida. Você prometeu! As palavras de Leisel tomam uma vida própria, impregnando em mim o conhecimento de que ela na verdade ainda precisa de mim, apesar de ter Alex. Mais que tudo, ainda me quer e eu ainda valho alguma coisa. A despeito de tudo, tudo que fizeram para mim, tudo que deixei que me fizessem, ainda valho alguma coisa para alguém. E me recuso a deixá-la para baixo de novo. Minha única vantagem neste ponto é saber quão agredida eu já estou e provavelmente pareço. Quando Misty chega mais perto, propositalmente faço um grande show de luta para respirar, cambaleando quando tento permanecer ereta. E então, quando ela se aproxima ainda mais, preparando para gingar, eu ataco, a pegando completamente desavisada com meus punhos conectando com sua cara. Os nós da minha mão doem com o impacto, mas Deus, é tão bom atacar alguém daquela forma. Apesar dos meus olhos embaçados e ouvidos zumbindo, a dor no meu estômago e nas costelas e o gosto do sangue em minha boca, parece tão bom defender a mim mesma. Surpresa, com os olhos arregalados, cambaleia para trás, mas antes que pudesse se endireitar, enfio meu pé direito em seu joelho e empurro o mais forte que consigo, enviando-a esparramada para trás. Ela bate no chão, sua nuca batendo com força na terra. A

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multidão fica silenciosa de repente conforme salto em cima dela, indo imediatamente para a pequena faca que ela trazia firme em sua mão. Enquanto que suas mãos foram machucadas em nossa luta, a minha não e somente por isso sou capaz de arrancar a faca dela. À medida que ela continua lutando embaixo de mim, eu a mantenho prensada fortemente entre minhas pernas. Levanto a faca no ar e a enfio direto em seu peito. A multidão está silenciosa agora, tão quieta que posso ouvir o cortar em sua carne, o triturar em seus ossos enquanto a faca pequena, mas mortal rompe na cavidade do seu peito e desliza facilmente em seu coração. O sangue jorra ao redor do corte conforme seus olhos revertem em sua cabeça, ficando brancos. Deixo a faca em seu peito, me levanto de cima dela, respirando com dificuldade e paro totalmente ereta, meu corpo inteiro treme de medo e fadiga. A multidão ainda está em silêncio, suas expressões divagam de choque para raiva quando os telespectadores começam a entender que perderam sua garota dourada e com ela, tudo o que tinham apostado. Liv está furiosa. Marchando para fora do ringue, indo direto a Jeffers, seus cabelos cor de rosa batendo ao redor de seu rosto como uma bola de algodão-doce presa ao vento. Imediatamente começa a gritar com ele, embora não tenha ideia do que está dizendo já que meus ouvidos continuam zumbindo. Mas ele só dá de ombros em resposta, parecendo impotente em face de sua raiva, o que me leva a pensar que não é realmente Jeffers quem manda nesse lugar, mas Liv, a raiva por trás dos músculos. A briga deles termina quase tão rápido quanto começou, com Liv dando um tapa na cara de Jeffers e se virando para me encarar. Ela está fulminante, fúria e raiva derramam dela em ondas espessas que consigo praticamente sentir emanar do outro lado do ringue. Levantando minha mão em uma desanimada tentativa de uma onda, tento sorrir de volta, mas estou muito cansada, minhas respostas faciais tão preguiçosas quanto meu corpo. Meu joelho direito desiste e quando o meu esquerdo estava seguindo o processo, braços fortes engancham ao redor da minha cintura e me levantam do chão

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inteiramente, me aninhando em um peito duro. Apesar dos meus olhos embaçados, encontro o rosto de Alex há alguns centímetros do meu, sua expressão vincada de preocupação. “Você bagunçou tudo, Eve”, ele diz, fechando a cara para mim. “Mas foi boa lá”. “Lei?” sussurro, minha voz áspera e rachada. “Bem aqui, Eve”, eu a ouço dizer e sinto sua mão segurar a minha. “Bem aqui. Sempre”.

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Capítulo Trinta e Cinco Leisel

“Por favor, não faça isso”, imploro, me recusando a soltar o braço de Alex. “Por favor, viu o que quase aconteceu com Eve e você vai lutar com dois homens. Dois homens, Alex! Dois!” A pobre Evelyn tinha meia dúzia de pontos em seu rosto, cortesia de um homem que eu espero que tivesse sido um médico de verdade em algum ponto. Embora quando perguntei a ele suas credenciais me deu um sorriso sarcástico e bufado Felizmente, médico legítimo ou não, tinha uma abundância de medicamento atrás de cadeados e chaves e uma dúzia de guardas armados. Duas pílulas misteriosas e cinco minutos depois, Evelyn estava inconsciente. Alex carregou-a para nosso quarto onde tentei limpá-la usando um pouco de água e um trapo, ao menos consegui tirar a maioria do sangue. Depois disso, simplesmente me arrastei na cama ao lado dela e murmurei com ela enquanto dormia. Agora o sol estava se pondo, as fogueiras foram acesas e uma multidão até maior se reuniu para a luta de Alex do que tinha sido para a de Evelyn. Rumores deflagrados entre os espectadores sobre a gata selvagem que derrubou a lutadora mais temida de Purgatório. Se a luta iminente de Alex já não fosse preocupante o bastante, o pensamento de Evelyn se tornando a nova fonte de entretenimento deste lugar é ainda mais. Se Jeffers e Liv quiserem que ela pegue o lugar de Misty como a campeã reinante, como vamos partir? E definitivamente queremos partir. Depois de ver o que fizeram com Evelyn, algo do qual ainda se recusa falar a respeito e depois de sua luta hoje, nenhuma cerca

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elétrica, nenhuma quantidade de guardas armados podem me convencer a ficar aqui. Isso não é melhor do que Fredericksville e aquelas marcas em nossos pulsos não significam nada. Ninguém estava a salvo mais, em lugar nenhum. O melhor que podemos esperar é continuar a dirigir para o Sul e rezar para que encontremos algum lugar seguro o bastante, isolado onde poderemos finalmente viver em paz. Estou alimentando esperanças de que tal lugar existisse? Não necessariamente. Isso parece fantasia demais, um ridículo conto de fadas, porém ao menos tenho que acreditar que algo melhor que Purgatório, melhor que Covey e melhor que Fredericksville existe. Tem que haver outros como nós, pessoas que só desejem viver o resto de suas vidas em um semblante de normalidade. Ou teria tudo e todos na verdade morrido junto com o mundo? Se isso for verdade, talvez este seja realmente o Purgatório, onde estamos todos aguardando sermos julgados. E se formos mortos nesse meio tempo, bem, então… nenhum Deus se importará se houver um pecador a menos em uma fila longa de julgamentos a serem distribuídos. Quase desejo que nunca tivéssemos deixado a plataforma de caça. “Vou ficar bem, Lei”, Alex diz, parecendo exasperado. “Olha para eles, um é baixo e gordo e o outro mal atingiu a puberdade. Ele não é nada além de pele e ossos”. Ele está certo, Mike era alto e magricelo e Bryce carrega uma pança. Mas não são os seus tamanhos que me preocupam, são as armas traziam escondidas. “Ele vai ser certeiro como a chuva, minha querida!” Grannie fala, dando a Alex um firme tapa em seus bíceps. “E estarei aqui para ver você atravessar isso”. Ela me olha, seu rosto enrugado e redondo iluminados de entusiasmo. “Você está estonteante, a propósito. Sabia que aquela cor ficaria maravilhosa em a sua pele clara”. Dando uma olhada em meu último conjunto Grannie, estonteante não era uma palavra que pudesse usar para me descrever. Eu estou usando um vestido de manga curta, feito a mão em um rosa pálido que mal alcança o meio da minha coxa, o tecido é tão fino e frágil como um

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lençol, o que é provavelmente do que havia sido feito. Eu o tinha combinado com um par de calças leggings pretas com buracos nos joelhos, tão batidas que pareciam mais um cinza desbotado. Também um par de coturnos, um tamanho e meio maior que o meu pé. O cinto de armas de Alex estava pendurado em meus quadris, minha faca colocada firmemente na lateral. Pareço totalmente descombinada, como uma jovem garota tentando ser rebelde contra as normas sociais ao mesmo tempo em que ainda tenta parecer meiga e feminina. Pior são os olhares que recebo dos homens. Apesar de não falar nada, suas expressões sugerem que eu pareço como um lindo picolé cor de rosa que querem dar uma boa e longa lambida. É um sentimento horrível, uma centena de pares de olhos sobre você como se não fosse nada mais que um prêmio a ser conquistado. Em Fredericksville, ninguém sequer olhou em minha direção sem motivo e nunca me olharam com cobiça. As mulheres não eram putas, ao menos não para as massas. Nós éramos apenas as putas dos homens com quem nos forçaram a casar. Não sei o que é pior. “Fique com ela”, Alex murmura na direção de Grannie enquanto afasta meus dedos do seu braço. Um dos braços grossos de Grannie me envolve na cintura, um aperto surpreendentemente forte vindo de uma mulher velha. “Vou ficar bem!” Alex grita por cima da algazarra da multidão. Agarrando meu rosto, ele me levanta na ponta dos pés e aperta sua boca na minha. Sua língua desliza entre meus lábios e a minha entre os deles, se embaralhando juntas em um beijo bagunçado e desesperado que não quero que termine. Nunca fui uma defensora de demonstrações públicas de afeto, ainda assim não consigo evitar me preocupar que Alex fosse passar por algo ainda pior do que Evelyn. E se fosse o caso, desejei que ele soubesse o quanto significa para mim. Eu quero mostrar a ele. Rápido demais se afasta de mim, Grannie ainda segura firme

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minha cintura conforme tento alcançá-lo. Ele me da um último olhar antes de se enfiar entre as pessoas em nossa frente e desaparecer na multidão. “Me deixa ir!” grito, me contorcendo, tentando me libertar. Eventualmente ela me solta, mas já é tarde demais. Enquanto me empurro e me enfio através da pressão de pessoas atrás de mim, pelo tempo que levo para alcançar o ringue, Alex já esta lá dentro, junto com Mike e Bryce. O corpo de Misty foi retirado, mas seu sangue continua, seco e espesso enquanto se junta com a poeira, reluzindo um vermelho ameaçador na luz trêmula do fogo. Os infectados, presos em suas gaiolas de metal, continuam ficando selvagens pelo sangue e pela carne tão perto deles, ainda que muito longe de seu alcance. “Alex!” berro, agarrando a corda conforme continuo empurrando. “Alex!” Ou ele não me ouve sobre o barulho crescente, ou se recusa a olhar para mim com medo de se distrair da luta a seguir. Puxando sua camiseta por sua cabeça, segura a gola e rasga no centro, continuando a rasgar o tecido até ter várias tiras de pano, que começa a envolver ao redor de suas mãos e falanges. Nem Mike ou Bryce fazem isso; estão totalmente cobertos e sem proteção em suas mãos e ambos encaram Alex. Seus olhares raivosos me confundem. Na última vez que os tinha visto, foram amigáveis e sorridentes. Nós os salvamos dos infectados e é assim que nos pagam? Teria tudo isso sido uma atuação? Ou era a atuação para a luta? Para o prazer visível das massas? Olho ao redor do ringue, então foco em Jeffers, decidindo que era ele que culparia. Era ele que tinha dito que o devíamos – que queria o placar fechado. Entrando no ringue, Jeffers toma lugar no centro, com suas mãos levantadas. De uma vez, a gritaria diminui para um murmúrio e então o murmúrio vira um sussurro. “Para o seu prazer!” a voz grave e profunda de Jeffers dispara

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através do silêncio. “Neste canto, dois dos meus melhores coletores, Bryce e Mike!” Agarrando a mão de Mike, Bryce enfia seus pulsos unidos no ar e a audiência fica louca. Apesar de que, ao contrário dos estrondosos aplausos que Misty recebeu, a multidão pareceu menos impressionada com estes dois. No meio da vibração havia gritos de escárnio e zombaria. “E neste canto!” Jeffers gesticula em direção a Alex. “Direto do lado de fora dos portões… um homem com não apenas uma mulher reivindicada, mas DUAS mulheres… HOMEM SELVAGEM!” À medida que a multidão continua a gritar e a berrar, Alex permanece parado, seu olhar solenemente focado em seus oponentes. Ele nem levanta seus pulsos no ar, nem mesmo vira para reconhecer a plateia. Parado ali, com seus ombros levemente curvados, suas mãos embrulhadas fechadas em punhos de pedra dura, quica levemente de um pé para outro e aguarda. “Ultima chance para fazer suas apostas!” Jeffers continua. “O pagamento para este vai ser grande!” “Três coldres dos meus melhores!” um homem mais velho grita. “No homem selvagem!” “Um AK-47 e três caixas de munição!” outro homem vocifera. “Para o homem selvagem!” “Uma semana de buceta grátis!” uma mulher escassamente vestida chamou. “Se Bryce e Mike ganhar!” Tento ridicularizá-los, de sua ganância, sua falta de moral, sua doentia e perversa necessidade de tirar prazer da dor dos outros. Eu encaro Alex, rezando para que saísse disso inteiro, rezando para que não fosse machucado. Mesmo assim, não consigo evitar imaginar o pior cenário possível – sua morte – e sem ele, a marca em meu pulso e no de Evelyn não significa nada. Sem Alex, o que acontecerá conosco? As possibilidades de tal

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destino são suficientes para me fazer tremer apesar do calor das fogueiras, me gelando os ossos. “DING, DING!” Minha respiração fica presa na garganta, meu corpo enrijece de medo. Mike corre para frente enquanto Bryce parece tomar seu tempo, como se estivesse esperando que Mike atacaque e conforme Alex estiver ocupado lutando com Mike, ele atacará. Mike nunca alcança Alex, apesar disso, pois Alex habilmente pula para os lados e para fora de sua pegada, depois vai bloquear Bryce. Agarrando o pescoço de Bryce, Alex enfia seu punho direto na cara do homem mais velho e quando está se preparando para acertá-lo novamente, Mike pula nas costas de Alex, com seu braço circulando o pescoço de Alex e depois… nunca cheguei a ver o que aconteceu em seguida. Em um minuto estava assistindo a luta com a respiração suspensa e meu coração martelando em meu peito e no seguinte uma mão bateu contra a minha boca, um braço engancha ao redor da minha cintura e eu fui dragada através da multidão. Chuto e grito, batendo selvagemente em uma tentativa de me libertar, mas não é Grannie me segurando, é um homem, um homem forte cuja força era muito maior que a minha. Foram longos e excruciantes minutos, eu sendo arrastada para longe da luta e a multidão ignorando ou planejando não notar que eu estava sendo levada. Uma vez que estamos longe do agrupamento das massas, a luz das lareiras estava minguante, fui solta e empurrada para trás. Minhas costas bateram em uma parede de tijolos acidentada, o cimento quebrado enfia dolorosamente através do fino tecido do meu vestido e em minha pele. Pisco na escuridão, tentando distinguir o rosto do meu sequestrador com apenas o auxílio da luz da lua. “Você”, sussurro pesadamente, reconhecendo como o homem que abordou Alex e eu no lado de fora da barraca de Grannie. Ele sorri para mim, várias covinhas apareceram em sua face

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bonita. “Eu”, diz, soando quase orgulhoso. “O que está fazendo?” continuo sussurrando, meu olhar voava da esquerda para a direita, esperando encontrar alguém por perto. Mas não há ninguém por ali tão tarde da noite, o local do mercado estava vazio, todos estão na luta ou no Drunk Tank. “Seu homem vai morrer lá”, ele fala, dando uma risadinha. “Jeffers não permite que seus homens sejam desbancados por qualquer um de fora. Pensei que é melhor reclamar minha posse em você antes de ser mandada para Caverna ou colocada no leilão”. “L-leilão?” pergunto, minha voz agitada com os tremores do meu corpo. “Não se preocupe, coração”, ele diz e eu assisto, horrorizada, enquanto as mãos dele descem para suas calças, já manejando desprender a fivela do seu cinto. “Vai ser fácil o bastante cobrir essa marca e colocar uma nova por cima. E não se preocupe, não vou dividir você”. Seu olhar sobe, encontrando o meu. No reflexo do luar sobre eles, posso ver a sinceridade louca de sua promessa. Ele não irá me dividir. “Sou um solitário”, ele anuncia conforme vem contra mim e achata seu corpo no meu. “Estou cheio dessas putas, cheio de ter que pagar por isso, cheio de ter que dividir mulheres com cada filho da puta deste lugar”. Apertando meus olhos, afasto minha cabeça, evitando a boca dele. Com um suspiro, seus lábios pressionam em minha bochecha e depois mais para baixo, em meu pescoço. “Eu tinha uma namorada antes”, ele murmura, seus dentes raspam a pele ao longo da minha clavícula. “Era linda... eu ia casar com ela”. Sua língua dispara, lambendo meu pescoço, parando de vez em quando para chupar minha pele enquanto ignora meu choro suave. “Parecia com você”, ele sussurra. Por trás de mim, minhas unhas estão cavando a parede ao mesmo

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tempo em que tento encontrar um jeito de sair dessa. “Você deveria esperar”, balbucio. “Esperar até ter certeza de que ele está morto”. Matou-me ter que dizer isso, até mesmo pensar em Alex morrendo, mas tenho que enrolar ele, que dizer qualquer coisa para me salvar de ser estuprada, ou pior ainda, de ser reclamada. Uma mão encontra meu peito, sua outra mão, minhas costas. Ignorando-me, continua seu ataque no meu pescoço conforme sua palpação continua mais e mais fervorosa. “Por favor”, imploro. “Por favor, precisa esperar, por favor... por favor...” As mãos dele puxam a barra do meu vestido e eu reajo, segurando seus ombros e o empurrando para longe. Enquanto ele dá um surpreso passo para trás, alcanço minha faca. Prestes a puxá-la de seu coldre, repentinamente dou de cara com o cano de uma arma. Congelo, deixando minha mão cair ao meu lado. Piscando entre as lágrimas reunidas, tento focar no homem desfocado a minha frente. “Nem mesmo sei o seu nome”, murmuro, tentando ganhar tempo. “Você tem ao menos que me dizer o seu nome”. Ainda segurando a arma, ele alcança minha faca, a solta e joga para o lado. Quando a faca tini contra o cimento várias vezes, sinalizando que estava perdida para mim, fecho meus olhos, lágrimas ameaçam se libertar. “Tão linda”, ele murmura, usando sua mão livre para limpar a umidade do meu rosto. “Tão boa e uma mulher tão doce. Não se encontram mais. Você é uma raça em extinção, coração”. A arma desaparece quando afasta sua mão, colocando o revolver na parte de trás de suas calças. Novamente, pressiona seu corpo contra o meu e de novo volta à barra do meu vestido. Seus movimentos mais rápidos agora, mais duros, conforme manuseia para abaixar minhas leggings. Quando desliza sua mão entre minhas coxas, deixo escapar um pequeno choro, que ele rapidamente

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esmaga com sua boca. “Não!” grito, fugindo do seu beijo. “Não! Por favor, alguém, me ajude! Socorro! Socorro! AJUDEM-ME!” “Não podem te ouvir, coração”, ele grunhi, agarrando a parte de trás das minhas coxas. Com um rosnado, ele me levanta do chão e então posso senti-lo, protuberante entre minhas coxas, duro e intrusivo. Meus braços debatem, minhas mãos impotentes empurram seu rosto, seus ombros, agarrando seus cabelos e puxando o mais forte que consegui, mas ele não para. Mesmo quando consigo afundar minhas unhas em sua bochecha e enfiá-las em sua pele, ele só grunhi de dor e continua a se enfiar para dentro de mim. Quanto mais empurro, mais eu luto e mais alto grito. Pegando qualquer coisa que eu conseguisse – seus braços, seus ombros, sua camiseta – puxo, empurro e grito, e... De repente encontro o cabo da arma dele aparecendo nas costas de suas calças. Agarro, a libero e a levanto até sua cabeça. Minha mão treme com ferocidade, o meu aperto na arma não era mais do que gelatina, eu a pressiono contra a sua têmpora. “Deixe-me ir ou vou te matar”, sussurro entre dentes cerrados. Ele instantaneamente para, seu corpo congelado contra o meu, a parte que conseguiu movimentar para dentro de mim pulsando nervosamente junto com sua batida rápida do coração. De uma só vez ele me derruba e teria caído de cara no chão se não fosse por minhas leggings ao redor dos meus tornozelos que me fazem tropeçar e bater de costas na parede. Mantendo a arma tremula sobre ele, sorrio amargamente enquanto as lágrimas derramam pelo meu rosto. “Sabe o que fiz com o ultimo homem que me estuprou?” Ele abre sua boca, talvez para se desculpar, talvez para implorar por sua vida, talvez para dizer alguma coisa rude e desinteressada. Mas nunca descubro. Absolutamente alheia ao que tinha para dizer, puxo o gatilho, abrindo um buraco em seu ombro. Ele cambaleia para trás,

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com seus olhos esbugalhados, leva sua mão até a ferida sangrando antes de cair de joelhos. Ainda tremendo, aponto de novo, dessa vez esperando acertar o coração dele. “Lei!” A voz de Alex me desvia do meu alvo. Sem camiseta, coberto de respingos de sangue da cabeça aos pés. Alex para apenas a alguns poucos metros de mim, seu peito arfa de raiva. Está quase irreconhecível para mim, seu cabelo é uma total bagunça, o sangue pinga de sua barba, pingando por seu peito e braços e dos seus punhos cerrados. Seu corpo está tremendo, seus olhos selvagens, surtados por sinal, lançando-se entre mim e o homem no chão, parecendo como se quisesse rasgá-lo aos pedaços com suas mãos nuas. Parecendo como se pudesse rasgá-lo aos pedaços com apenas suas mãos nuas. Ao lado dele estava Jeffers, cujos braços largos estavam posto a frente de Alex, recusando a deixá-lo seguir a frente de onde estava. Próximo a Jeffers está Liv e atrás dos três estava um tumulto crescente de pessoas, pulando e empurrando conforme tentam passar uns aos outros. “Me... ajude...” o homem pediu abafado, olhando para Jeffers com olhos suplicantes. É Liv quem responde. Dando um deliberado passo a frente, gesticula desdenhosamente para o meu atacante. Depois, não se incomodando em dar a ele um segundo olhar, sorri para mim. “Termine isso”. Ela rosna para mim, o tom de sua voz é de zombaria, suas sobrancelhas estão arqueadas pela intriga. “Estas são as nossas regras”. Estremecendo agora, com meus dentes batendo, olho de volta para Alex. Apesar dos sutis tremores que continuam a atormentar o seu corpo, está parado como uma estatua, seus olhos bem abertos e

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selvagens sobre mim agora. “Termine isso!” Liv grita. Suas pequenas feições retorcidas de fúria enquanto enfia seu dedo indicador na minha direção. “Mata ele, sua putinha fracote!” Ainda tremendo, volto a focar no homem. Sua mão está levantada agora, suas palavras murmuradas eram indistinguíveis entre seus soluços e as marteladas do meu próprio coração. Não quero matar ele. Eu não quero o sangue dele em minhas mãos, porém o que eu quero e o que sinto são duas coisas completamente diferentes. E tudo que posso sentir são suas mãos sobre mim, as mãos de Lawrence sobre mim, suas bocas, tocando e pegando, indiferentes ao que eu estava querendo, que aquilo não era algo que estava dando para eles, mas isso nunca importou, tomavam de qualquer forma. Com um grito ensurdecedor, puxo o gatilho, a bala fez seu caminho de novo e mergulha no estômago do homem. Ele berra alto, seus gritos desaparecem rapidamente em um grunhido e tomba para frente no chão. Puxo o gatilho outra vez, acertando na perna e depois de novo, acertando no estômago. Continuo puxando o gatilho, incapaz de parar, consumida pelas emoções, mesmo depois do pente estar vazio e o homem já mortalmente parado. Sinto uma mão sobre mim, sobre o meu braço e me encolho, me virando e virando a arma para quem me tocou. É Alex, percebi tardiamente, mesmo assim não consigo abaixar minha arma, parar de tremer, sentir nada apenas o frio que tinha tomado conta de mim. “Lei”, ele sussurra, colocando sua mão sobre o cano da arma. “Lei, olhe para mim”. Olho, piscando rapidamente e levanto meus olhos aos dele. A fúria que vejo em seus olhos há apenas momentos atrás havia sumido, substituída pela gentileza genuína com o qual estou familiarizada. “Sou eu”, diz suavemente. “É Alex”. Pisco de novo, tentando ver por meus olhos cheios de lágrimas. “Você está vivo...” uma nova onda de lágrimas preenche meus

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olhos. “Venceu a luta”. “Eu venci a luta”, ele diz, puxando a arma da minha mão. “E sua mulher matou um dos meus homens”. Jeffers dá um passo para frente, seus braços cruzados em seu peito e um sorriso calculista em seu rosto. “O que significa que você nos deve”. “Não te devo merda nenhuma”, Alex estala. “Lutei com seus homens, venci sua luta”. “Deixe-me reformular”, Liv interfere, dando um olhar para Jeffers. “Não apenas nos deve, como nós possuímos você”.

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Capitulo Trinta e seis Evelyn

Está escuro quando acordo. Meus olhos abrem preguiçosos, tentando tirar sentido das sombras escuras me cercando. Gradualmente, com o auxílio da luz da lua fluindo através das janelas, minha visão ajusta e com isso vem a percepção de onde estava. Eu estou em nosso quarto e sozinha. Com meus pensamentos embaralhados e minha cabeça martelando, tento me forçar a levantar da cama, mas meu corpo protesta enquanto as dores e aflições tomam vida no que parece ser cada centímetro de mim. Pisco lentamente, tentando me lembrar, tentando recordar. Levo minha mão até meu peito dolorido, meu coração de repente martela como um trem desgovernado, engasgo. Minha respiração presa e eu luto para respirar sem quase engasgar. Tentaram me matar. Liv, Jeffers e Misty. Eles todos me queriam morta. Meu estômago revira, a bile sobe em minha garganta. Por que não restaram pessoas boas neste mundo? Que diabos está errado com todos? Aperto meus olhos fechados, forçando de volta minhas lágrimas ameaçadoras conforme tento conter minha respiração. Não importa o por que. Nada disso importa. Este lugar, estas pessoas, o jeito insano que vivem, nada disso importa por que estávamos partindo. E uma vez livre deste inferno, vamos anotar na

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lousa outra lição aprendida na estrada para algum lugar mais seguro. A lição é de que não podemos confiar em ninguém. Ninguém a não ser um no outro. Escorregando minhas pernas sobre as laterais do colchão, meu corpo protestava a cada movimento, gentilmente toco meu rosto. Pontos irregulares se estendem sobre a minha bochecha esquerda, a pele ao redor dela estava macia e dolorida ao toque. Mesmo assim, poderia ter sido pior. Eu poderia ter sido a Misty. Poderia estar morta. Meus pensamentos balbuciam por uma parada. Eu a matei e não me sentia mal ou culpada; simplesmente fiz o que tinha que fazer para continuar viva. Mas a vergonha é outra história e eu a sentia muito. A vergonha da percepção de que estava me tornando como as pessoas do Purgatório, vendendo meu corpo e depois assassinando uma colega sobrevivente sem remorso. Quão fácil a transformação aconteceu, quão fácil é se tornar mais do que um monstro que jamais tinha sido. Parando agora, eu me sento tonta, levemente drogada e sedenta. Vasculho o quarto procurando por alguma coisa comestível, meu olhar pousa sobre o balcão e todos os tesouros que lá estão. Com meus olhos escancarados, cambaleio para frente, segurando as beiradas para me estabilizar. Há uma verdadeira abundância de suprimentos ali e me pego de novo vasculhando o quarto para me assegurar de que é nosso quarto mesmo, que não fui levada para outro lugar. Assim que tive o resultado positivo ao fato de que era mesmo o nosso quarto, volto ao balcão, examinando os itens. Há várias armas, munição, lâminas de todos os formatos e tamanhos, pequenas pilhas de roupas, jarros cheios de um líquido amarelo, assim como comida enlatada e fresca. Meu estômago ronca e minhas narinas dilataram quando o cheiro de rato grelhado flutua para me saudar. “Rato”, digo secamente, encarando a carne que comecei a

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desprezar tanto. “É claro que seria paga em ratos”. Apesar dos meus sentimentos sobre o parasita, pego um dos espetos. A carne tinha esfriado, mesmo assim a rasgava com gosto, engolindo sem nem mesmo mastigar. Terminando com o rato, jogo os ossos para o lado e alcanço uma das garrafas. Abrindo a tampa, cheiro o conteúdo e me afasto tossindo. Era algum tipo de licor, mas o que é exatamente, não fazia a mínima ideia. Experimentalmente, dou um gole, me contorcendo enquanto desliza uma estrada em chamas em minha garganta. Uma vez que estou segura de que aquilo não vai me matar, tomo outro gole e depois outro e então estou engolindo com vigor, saboreando a queimação e a sensação de quentura chegando a vida em meu estômago. Estou quase terminando com a garrafa quando ouço barulhos no corredor e um ruído na porta. Alcançando uma das facas no balcão, eu a seguro apertada em meus punhos e aguardo. Quando vejo que é Alex quem entra, seguido por Leisel, atiro a faca de volta no balcão com um suspiro aliviado. Corro em direção a Leisel, lançando meus braços ao redor dela e a puxando contra mim apesar da dor que isso causa. Só que ela não retorna o gesto; está rígida contra mim. Eu a empurro para trás, procurando seu rosto. Sua boca está virada para baixo e tremendo conforme tenta dar um sorriso. “O que aconteceu?” pergunto, olhando para Alex. Encostado na porta fechada, está olhando para o quarto, seu olhar desfocado. “Sua luta?” pergunto, notando os cortes cobrindo o rosto e punhos de Alex e o sangue cobrindo quase cada centímetro dele. “Eu sinto muito, não estava lá”, balbucio, me sentindo culpada, me perguntando se foi por isso que Leisel não me abraçou de volta. Ela me odiava por isso? Seria este outro item a adicionar a minha lista? Sem se incomodar em me olhar, Alex meramente acena. Confusa, volto a olhar para Leisel, porém ela rapidamente afasta o olhar, seu

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rosto pálido. “Lei, o que está errado? O que aconteceu?” “Nada”, ela sussurra. “Nada aconteceu”. Algo está muito errado; posso sentir isso em minhas entranhas. Havia duas coisas que Leisel nunca foi muito boa – a primeira era esconder os sentimentos verdadeiros e a segunda era mentir. “O que aconteceu?” repito, minhas palavras estão enlaçadas com preocupação. Com seus olhos semicerrados, Leisel olha para mim. “Nada”, ela diz. “Apenas foque em ficar melhor”. Franzo o cenho para ela, me encolhendo quando o movimento arrasta dolorosamente os meus pontos. “Nada?” Ela assente. “Sim, Alex lutou e -” “O que eles fizeram?” interrompo, me virando para Alex. “Ela é uma merda de mentirosa, Alex, então um de vocês é melhor me dizer a porra da verdade antes que eu vá descobrir -” Colocando uma mão sobre meu braço trêmulo, sua expressão está contorcida com ansiedade, Leisel me interrompe. “Um homem me agarrou -” “CARALHO!” grito, girando para longe dela. Minhas mãos se fecham em punhos nervosos e os derrubo pesadamente sobre o balcão, fazendo os meus prêmios pular e se espalhar. “Foda-se eles todos!” continuo a gritar. “Doentes, bastardos perversos!” Girando de volta, enfio um dedo na cara de Leisel. “Quem foi?” ordeno. “Você tem que me dizer quem foi para que possa matá-lo!” agarro uma faca do balcão, sacudindo no ar. “Ele já está morto”, Alex diz. É a primeira vez que fala desde que entrou e sua voz está tensa, muito mais do que jamais a ouvi antes. De uma vez, um pouco da ira que alimenta a raiva começa a vazar. Ele estava morto, seja lá quem fosse. Aquilo estava muito bom. “Você o matou”, eu falo, ainda observando Alex. “Está em

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problemas? Alguém mais sabe?” “Eu o matei”, Leisel diz suavemente. “Atirei nele. Todos estavam lá, todos eles sabem”. Pisco para ela, olhando vagamente para dentro de seus grandes olhos castanhos que estão surpreendentemente secos. Ainda irada, não muito segura do que fazer com as minhas emoções. “Dois para dois”, falo insensivelmente, com raiva de que ela foi forçada a matar dois homens agora. Homens que a machucaram. “Sim”, ela murmura, olhando para longe. “Sinto muito”, me apresso em dizer. “Eu não quis dizer aquilo. Só sinto muito que você tenha de... eu sinto muito por não ter estado lá...” Frustrada, luto para encontrar as palavras certas, me sentindo horrível por mais uma vez não ter sido eu a protegê-la e ainda pior que alguém, outro homem egoísta, tenha ousado machucá-la. Um soluço se liberta de meus lábios e rapidamente cubro minha boca, fechando meus olhos. Sentindo-me tonta de novo, minha comida recém digerida remexe em meu estômago, me curvo à frente, tropeçando pelo quarto e caindo na cadeira. Segurando minha cabeça em minhas mãos, olho para o chão, percebendo pela primeira vez que ainda estou usando meus tênis, meus tênis manchados de sangue. Meu estômago sacode novamente e tenho que lutar para não morder, não soluçar, para não bater em meu próprio sangue por causa da injustiça disso tudo. “Nós temos problemas maiores agora, Eve”, Leisel diz, se ajoelhando ao meu lado. “Por causa do que fiz, matar ele”. Levantando minha cabeça, eu a olho nos olhos. “O que?” estalo. “Que diabos temos que fazer agora?” “Qualquer coisa que Jeffers e Liv queira que façamos”, Alex interpôs. Soava exausto, porém ainda mais, soava derrotado. “Eles querem fazê-lo lutar de novo”, Leisel diz. “Amanhã à noite. Nunca vão nos deixar partir daqui, Eve. Estão dizendo que são nossos

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proprietários, por termos matado dois de seu povo”. Pulo da cadeira, a raiva vibra através de mim. “Não!” grito. “Não vamos continuar aqui, nós não vamos passar nem um dia a mais aqui!” “Nós não temos escolha”. Se afastando da porta, Alex dá de ombros. “Seja lá qual for o plano que você planejou, é besteira agora. Tenho certeza absoluta de que ninguém sai daqui a menos que seja carregado em sacos de corpos. Eles querem que pensemos que temos escolhas, quando na realidade este lugar não é melhor do que um campo de prisioneiros”. Fumaça e espelhos, penso, silenciosamente. Tudo foi uma ilusão. Há música aqui, comida, entretenimento, não pelo interesse de dar as pessoas um senso do passado, mas para mantê-los dentro dos portões, debaixo do controle de Jeffers e Liv. Sem olhar para Leisel e eu, Alex se dirige para o colchão e se derruba pesadamente sobre ele. Rolando de lado, encara a parede e seu corpo fica totalmente parado. Leisel olha entre nós, seu lábio inferior desaparece entre seus dentes, sua indecisão era clara. “Vá com ele”, falo, pegando sua mão e apertando, meus pensamentos embolam. “Preciso ir ver alguém”.

*** A noite ainda está quente, o mercado vazio e sossegado enquanto tomo meu caminho através dele. Barris de metal foram acesos por ele todo, iluminando o percurso até o meu destino. Apesar de estar sozinha, eu estou armada, uma arma enfiada na parte de trás das minhas calças e duas lâminas seguras em meus quadris. Eu não estou deixando nada ao acaso. Na verdade, não deixarei nada ao acaso nunca mais. Virando uma esquina familiar, me descubro de alguma forma perto da entrada do acampamento, mas ainda muito longe para que os

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guardas de plantão me notem. Inclinando-me contra o prédio de Dori, cruzo meus braços sobre meu peito e espero, pronta para esperar a noite toda se fosse preciso. O tempo passa lentamente, ou rápido, não posso ter certeza sem um relógio. Realmente não tem jeito de dizer as horas na calada da noite, com tudo parado e silencioso e o céu estável. Eventualmente ouço um farfalhar, um galope forte e determinado cruza o pavimento e um segundo depois E vira o quarteirão. Surpreso ao me ver, ele escancara seus olhos e diminuiu seus passos conforme um sorriso curva em seus lábios. “Você me esperando, Wildcat?” ele pergunta convencido. Se aproximando, coloco minha mão para cima. “Fique onde está”, falo, com os dentes cerrados, meu coração dando pontadas. Parando, ergue suas mãos em um gesto defensivo. “Não fique assim”, diz com um risinho. “Nós nos divertimos, não divertimos?” “Vai se foder”, rosno. Ele ri de novo, sua língua corre lentamente em seu lábio inferior. “Aqui mesmo?” ele pergunta, então com um pequeno passo a frente, seu sorriso fica mais aberto e infinitamente mais ameaçador. “Ou bem aqui?” “Novamente, vai se foder”, estalo. “Parece que foi um pouco espancada, tem certeza de que consegue me aguentar agora?” dá outro pequeno passo a frente. Minha mão vai até a minha arma, retirando de trás de mim e mirando em seu peito. “Dê outro passo, babaca,” rosno. “E será o seu ultimo”. Ele ri de novo, totalmente inabalável pela minha intimidação. “O que o homem tem que fazer para ter uma pegação com você, Wildcat?” Mantendo minha arma direcionada ao peito dele, não respondo. Não resta nada para dizer. Ele pegou o que queria e agora era hora dele me pagar. “Onde está a minha caminhonete?” finalmente pergunto. “Onde

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está tudo que você me prometeu?” Seu sorriso despenca, seus olhos sombrios ficam mais escuros. Suspirando pesadamente, enfia suas mãos em seus bolsos. “Eu já consegui”, ele fala. “Onde?” estalo. “Por que a pressa?” inclina a cabeça para um lado. “Tem lugares para ir?” “Estou partindo”, digo. “Amanhã. Primeira coisa.” Por que estou confiando a ele essa informação, eu não sei. Mas que escolha tenho? Se o caminhão não estivesse pronto, se ele não tivesse o que me prometeu, não seriamos capazes de partir. Apesar de meus prêmios terem sido abundantes, não irão durar por muito tempo. Seus olhos escuros afunilam, E dá outro passo cauteloso em minha direção. “Você tem certeza de que isso é sábio? Sei o que rolou esta noite, o que aconteceu com sua garota. De acordo com Jeffers, seu homem está em débito com ele. Partir antes do débito estar pago, não vai acabar bem para nenhum de vocês.” Ele está a três pequenos passos longe de mim agora, seu peito a uma batida de coração de distância do cano da minha arma. Estou quase oscilando com sua proximidade e do olhar indecifrável em seu rosto. Este homem é uma carta selvagem, seus olhos escuros ilegíveis, suas palavras criptografadas, suas ações cuidadosamente calculadas, todas as peças de um quebra cabeça que não se encaixam. “Estamos partindo”, eu digo, esperando soar um pouco mais forte do que me sentia. “E quero tudo que você me prometeu dentro da caminhonete e pronto para a gente pela manhã”. Ele sorri. “Você dá as ordens agora?” “Sou a que está com a arma, E,” zombo. “Este não vai ser sempre o caso, Wildcat. O fato é, não tem que ser desse jeito para você mais”. Um momento passa onde ele apenas me encara. Depois outro

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quando seus olhos encontram os meus, pelo quê eu não sei. “Eu poderia ser bom para você”, finalmente anuncia, toda a pretensão anterior desaparece. Não há sorrisos convencidos, nem intimidação em seus movimentos. Ele está perante a mim como um homem, nada mais e nada a menos. Isso é surpreendente e ao mesmo tempo... não é. “Não sou tão ruim, Wildcat”, ele continua, seu olhar era sincero. “Ao menos, não sou sempre assim”. Talvez, se esse fosse nosso começo em vez do nosso fim, minha resposta poderia ter sido diferente. Mas este não é o começo, esse é o fim, e não há nada aqui para mim, nada para encontrar com E. E ele só me ajudou a ver isso, para solidificar minha decisão. "Não me importo", eu digo, encolhendo os ombros. "Nós estamos saindo". Ele parece esperar minha resposta, sua expressão imutável, exceto pelos seus olhos. Louco e escuro, ainda diante da minha indiferença para ele e sua confissão, ficam de repente em chamas. Dá um passo atrás e ele assente. “Está certa de que não posso mudar sua decisão?” pergunta gélido, a sua expressão dura exterior está de volta no lugar. “Onde, E?” demando, ignorando sua pergunta. “Onde está a caminhonete?” Em um rápido movimento, segura o cano da minha arma, deslocando para o lado e levando meu braço com ela. Andando para frente, pressiona seu peito contra mim e abaixa sua cabeça na minha. “O que ele tem que eu não tenho?” rosna. “O que vê naquele garotinho que não posso dar a você?” Eu nem me incomodo em lutar, já sabendo que lutar contra a força dele será inútil. Ao invés disso, levanto meus olhos aos dele. “Ele é um bom homem”, sibilo suavemente. “Ele é um nada”, E retruca. “Ele é jovem, estúpido, não tem

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culhões para fazer o que é preciso para estar neste mundo”. Minha risada é meiga, ainda assim cheia de sarcasmo. “Ele tem”, eu digo. “Você sabe que ele tem. Só está com inveja por ele ser um homem melhor que você, melhor do que jamais será”. Como se eu o tivesse queimado, E solta meu braço e imediatamente vai para trás. Um músculo estala em sua mandíbula. “Estacionamento do lado Sul”, fala entre dentes. “Jeep azul escuro. As chaves estão no porta luvas. Eu dei a você tudo do melhor e isso vai fazer falta”. “E sobre todo o resto?” pergunto. Mantendo meus olhos sobre ele, dou um passo para o lado na direção por onde vim. Sem piscar, os olhos dele encontram os meus – frios, escuros e matadores. “Nunca volto atrás em uma promessa. Vai estar lá ao nascer do sol”. Respondendo com um único aceno, me viro para ir. “Wildcat?” Paro, ainda assim não me viro. “O que?” “Como vai atravessar aqueles portões? Passar pelos guardas?” Brevemente fechando meus olhos, silenciosamente praguejo a mim mesma antes de me virar para encará-lo. Ele está certo, não tenho ideia de como vamos passar pelos guardas armados e atravessar os portões,planejei dirigir direto sobre eles se caíssem. Virando, encontrei E parecendo muito presunçoso. “Poderia ajudar com isso. Há outro caminho para fora daqui...” Ele encolhe os ombros, embora esse gesto é mais ameaçador do que um simples encolher de ombros pode ser. “O que você quer?” questiono, já sabendo e temendo sua resposta. Entrelaçando seus dedos, começa a estalar suas articulações, o som agudo e duro contra o silêncio da noite, ecoando pelo muro atrás de mim. “Tudo tem um preço, Wildcat. Mas já sabe disso, não sabe?” Ele dá um passo à frente, gesticulando para o espaço que tinha

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vagado. “Aqui mesmo?” ele diz.

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Capitulo Trinta e Sete Leisel

O que sempre dizem sobre planos perfeitos? Que eles sempre dão errado? Sim, bem, então eles estão corretos. Este plano inteiro – desde deixar Fredericksville até este exato momento – agora parece ter sido condenado desde o princípio, como se cada passo que demos em direção ao progresso tenha simplesmente sido outro passo na direção errada. E agora sentamos aqui em nosso quarto em ruínas, esperando os minutos passarem até podermos encontrar a liberdade mais uma vez, ou ser punidos e mantidos contra nossa vontade. De novo. Nossa jornada inteira por enquanto parece ser uma série de erros e circunstâncias infelizes. Evelyn e eu, Alex e Jami, correndo na noite, fugindo de Fredericksville com somente a intenção de partir. E Jami morreu. Uma perda de partir o coração para a pobre Evelyn, algo que sei que ela ainda não deu a si mesma um tempo para viver o luto apropriadamente. Então nós paramos em Covey, uma cidade fantasma aparentemente destruída e tranquila, na esperança de encontrar comida, combustível e abrigo, apenas para acabar sequestrada por fanáticos religiosos e quase virar uma refeição. E mais pessoas morreram. E o homem na cabana, o com a garotinha que foi mordida. Tentei ajudá-la, tentei confortá-lo, ainda assim ela morreu do mesmo jeito e em seu luto o homem tinha desaparecido, seu destino era desconhecido. Mas apenas conseguia presumir que estava morto agora

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também. E aqui, em Purgatório, um lugar onde chegamos na esperança de encontrar suprimentos, de encontrar um jeito de continuar sobrevivendo, apenas para encontrar outra versão de Fredericksville, outra versão de Covey, outra versão do homem da cabana, perdendo sua filha... e encontrando apenas mais mortes. É apenas um ataque contínuo de morte a espreita em cada esquina. Não importa o que fizermos, não podemos correr rápido o bastante ou o suficiente para escapar disso. A dor, o sofrimento, a luta, isso nunca acaba, muito parecido com a quantidade de balas que mandei ao homem na noite passada, como o número de vezes que enfiei aquela lâmina no corpo de Lawrence, como a fartura de lágrimas que eu tinha derramado. Já deveríamos ter aprendido até agora que nada é fácil neste mundo. Ainda assim, como crianças, permanecemos eternamente esperançosos, otimistas de que ao menos uma vez algo daria certo para nós. Estávamos errados. Esse é o jeito do mundo agora e pessoas como nós, aqueles que não se livraram dos tempos antigos, que não conseguiam largar a esperança de que eventualmente algo tinha que dar e mudar para melhor, não tínhamos lugar aqui. Estamos condenados assim como os infectados estão, eternamente caminhando pela terra, tentando preencher uma necessidade – uma esperança – que pode não ser preenchida. Por isso não há o bem neste mundo de agora. Nossos pertences já reunidos, nossas armas presas em nós, nossas roupas e comidas empacotadas em mochilas conseguidas de Grannie, tudo pronto e esperando para fugirmos. E então esperamos, sentados quietamente em nosso quarto escuro, aguardando pelo que aconteceria em seguida. Com o nascer do sol veio uma batida em nossa porta. Olhamos um para o outro desconfortavelmente, a tensão é palpável. Nenhum de nós quer abrir a porta, ser aquele que deixa entrar o paralisante

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desapontamento que já sabemos o que nos espera. “Poderia ser seu amigo?” sussurro para Evelyn. “Aquele que disse que iria nos encontrar no Jeep?” Com os olhos escancarados, Evelyn olha na direção da porta, suas narinas inchadas e vermelhas se dilatam. “Não”, ela sussurra de volta. “Ele não viria aqui”. Outra batida soa, esta mais alta que a última. Suspirando, Alex puxa sua arma de suas calças e dá passos em direção a porta. Com sua mão na maçaneta, nossos olhos se encontram e neles vi todas as coisas que ele não consegue dizer, que não sabe como dar voz. Ele sentia muito por não ser o homem que desejava ser para mim. Sentia muito que não tivesse feito mais para me proteger e a todos nós. Eu o encaro de volta, esperando que ele pudesse me ler tão bem quanto eu a ele. Esperando que visse a minha gratidão, o quanto eu não o culpava, nem por uma única coisa que deu errado. Ao contrário disso, quero que ele saiba como sou grata por ele, por tudo que tinha feito, pela felicidade que me deu por simplesmente ser ele mesmo. Ele não tinha só me amado, tinha me libertado. Trouxe-me de volta a esperança, confiança e orgulho por mim. Ele me deu tudo que Lawrence estripou de mim em nosso casamento envenenado. E eu amo Alex por isso. Por me relembrar que nem todos os homens são maus, que sobraram homens como o meu amado Thomas vivos. Eu o amo por ter me ajudado a amar novamente. Alex parece entender isso, a mensagem silenciosa que desejo que recebesse. Isso parece fortalecê-lo, dar a ele coragem para abrir a porta e mais uma vez assumir qualquer fardo que nos fosse entregue. Quando a porta é aberta, apenas um garoto, não mais que dez anos de idade, com cabelos curtos e desalinhados e olhos inocentes. O garoto enfia um papel na direção de Alex sem dizer uma palavra e assim que Alex o pega dele, desce correndo o corredor mal dando um segundo olhar. Alex desdobra a folha, e conforme lê rapidamente, sua expressão enrugada de aborrecimento. “É para você”, ele diz, olhando para mim, desculpas e ira escritas

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em sua face. “Tem que trabalhar esta noite”. “Ninguém vai trabalhar esta noite”, Evelyn estala. Olha de mim para Alex. “Nós vamos partir. Você dois estão prontos?” Seu olhar está quase nos desafiando a discordar dela. Enquanto que assento entorpecida em resposta, Alex parece cético. “Quem é esse cara, Eve? Como pode ter certeza de que ele não vai nos seguir?” Nós tínhamos estado nisso muitas vezes já, com Alex repetidamente questionando Evelyn sobre quem seu amigo secreto é e Evelyn recusando dar qualquer detalhe. Tinha minhas suspeitas, principalmente de que ela tinha se negociado por um veículo e talvez por um caminho para fora daqui, mas não dei voz a eles. Seja lá o que aconteceu, mudou-a, a mudança estava escrita em seu rosto. Ela mal mantinha contato visual, se movendo para longe sempre que chegava perto demais. Sua vergonha é evidente, mas não quero pressioná-la neste âmbito. Já estamos tensos o suficiente e haverá muito tempo para conversar quando estivermos livres deste lugar. Se estivermos livres deste lugar. “Não posso ter certeza”, Evelyn responde, soando exasperada, sua expressão suaviza de alguma forma. “Mas nunca vamos saber se não tentarmos, certo?” Ela olha para mim buscando por apoio, sabendo que Alex acredita que ficar vivo é uma opção melhor do que morrer enquanto escapamos. Qualquer coisa para me manter a salvo. Muitas vezes nos últimos anos pensei que iria morrer e isso me apavorava. Mas agora, quando penso sobre a possibilidade de ser morta tentando escapar, ou pior, sendo forçada a ficar aqui e participar do leilão de Jeffers e Liv... Dando de cara com a escolha entre estas duas opções, quero e estou pronta para morrer tentando. Depois de tudo, existem destinos bem piores que a morte, a maioria deles já passamos. “Nós temos que tentar”, falo a Alex com firmeza, esticando e pousando minha mão em seu braço. “Não podemos ficar aqui. Eu não vou ficar aqui”. Seus olhos fecham de novo brevemente, a dor lava suas feições

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antes que reabra os olhos e foca em mim. “Seja lá o que acontecer, Lei”, ele diz, pegando a minha mão. “Isso já valeu a pena”. Meu coração incha com suas palavras; meu coração inteiro concorda com ele. Valeu a pena, não valeu? Não importa o que aconteça, depois de anos de miséria, valeu a pena encontrar um pingo de felicidade. Tinha valido a pena descobrir que alguém mais neste mundo, além de Evelyn e eu, que não tinha se entregado a corrupção e maldade que todos os outros parecem ter. Por que a infecção vai muito mais profundo que apenas transformar as pessoas em canibais sem cérebro. Ela destrói a alma das pessoas. “Sempre soube que você era um grande e macio marshmallow, Alex,” Evelyn fala, tentando diminuir a tensão. “Grande e forte do lado de fora, mas todo mole no meio”. Sua mão toca seus pontos subconscientemente conforme força um doloroso sorriso. Alex olha de soslaio para Evelyn. “Está me chamando de gordo?” “Sim”, ela responde, sorrindo. “Agora, vai saindo, gordo”.

*** Como planejado, para não levantar nenhuma suspeita de onde nós três estamos indo com todos os nossos pertences a reboque, Alex sai primeiro. Eu serei a próxima, seguida de perto por Evelyn. Cada um de nós tem nossa própria rota separada, mas com o mesmo destino final. “Você sabe aonde ir?” Evelyn me pergunta pelo que parece ser a centésima vez. “Lembre-se, não vá pelo mercado, há muitos olhos observando. Muitas pessoas que não podemos confiar”. Suspirando, assinto. Apesar de estar ansiosa, estou mais determinada que tudo o mais. Estou mais forte do que tenho sido em anos. “Pare de se preocupar comigo”, digo. “Consigo fazer isso”. Para provar meu ponto, dou um tapa no cinto de armas pendurado em meus

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quadris, pesados com uma pistola e uma faca. “Eu sempre vou me preocupar com você”, ela fala. Seus olhos avermelhados brilham. “Sempre, Lei”. So tão derrotada e me dói vê-la tão quebrada. Mordisco meu lábio inferior para não chorar, pego sua mão e balanço minha cabeça. “Não importa o que acontecer. Você cumpriu sua promessa a Thomas”. “Não cumpri”, ela sussurra. “Não cheguei nem perto o suficiente”. “Ainda estou aqui, não estou?” replico, apertando sua mão. “Estou viva, Eve e isso é o melhor que qualquer um de nós pode pedir”. Suas lágrimas derramam e embora sei que tenho que ir, eu a puxo para um rápido abraço, a apertando bem perto de mim. “Você me fez ficar forte, Eve”, murmuro, deixando um beijo em sua bochecha. “Fezme querer continuar seguindo em frente”. Antes que minhas próprias lágrimas pudessem cair, eu me afasto de nosso abraço e me viro, passando rapidamente pela porta para o corredor. Enquanto tento passar despercebida, mantenho um passo ágil e enérgico, esperando que não parecer tão ansiosa como eu estou. Minha bolsa está sobre o meu ombro, algumas das roupas que Alex conseguiu para mim e alguma comida, tudo jogado de forma aleatória. A bolsa está pesada, mas ajo como se não pesasse nada não querendo atrair atenção para isso. Há apenas poucas pessoas se movendo para entrar nos prédios tão cedo de manhã e aqueles que estão por perto mal me dão um segundo olhar conforme entram ou saem de seus apartamentos. As escadas estão claras enquanto desço, assim como a saída e então estou fora, pegando a esquerda e me dirigindo para longe do mercado. “Leisel! Coração!” Paro de caminhar, fechando meus olhos, sugando o ar calmante antes de me virar. Grannie está correndo pela calçada, seu quadril largo balança de um lado e para o outro conforme gesticula

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excitadamente em minha direção. “Eu estava esperando te encontrar antes de ir trabalhar esta noite!” ela diz ofegante, vindo parar atrás de mim. Alcançando-me, coloca sua mão sobre o meu ombro e dá várias respirações profundas. “O fim do mundo não é para mulheres velhas. É uma maravilha que eu tenha chegado tão longe!” Tento sorrir para ela para esconder as pontadas dos meus nervos, ainda assim meus olhos continuam mirando a esquerda e a direita enquanto espero que ninguém mais com alguma importância tenha me visto. “Tenho o vestido perfeito para você usar esta noite”, ela continua. Endireitando as costas, alisa suas mãos na frente de sua blusa. “Um vestido velho de paetês dos anos oitenta que enfeitei bastante. Imagine como você vai parecer lá em cima dançando, as luzes pegando os paetês!” Deixa sair um pequeno grunhido, bate suas mãos juntas, obviamente satisfeita consigo mesma. Eu tento sorrir para ela, ainda que não conseguisse sentir nada a não ser desgosto. Apesar de ela ter sido gentil conosco, nos fornecido roupas limpas e tal, não é melhor que qualquer outro em Purgatório. Ela está prosperando aqui, suas habilidades de costura é uma necessidade, então não está sujeita aos mesmos tipos de crueldade que mulheres jovens estão. Mesmo assim é dessa crueldade que ela depende. Ela curte as lutas, faz apostas matadoras, tudo enquanto alegremente oferece ridículos trajes para as dançarinas e prostitutas, apenas para garantir que este estilo de vida absurdo continue. É parte do problema. “Obrigada”, murmuro. “Mal posso esperar para ver”. “Não, não!”, ela exclama, se esticando para mim. “Tem que vir agora! Mal posso esperar para te mostrar!” Engulo em seco, dou um passo para longe dela. “Eu... um... eu não posso agora. Tenho que encontrar... alguém...” Deus, eu sou absolutamente a pior mentirosa restante no mundo. De alguma forma, mesmo rodeada por eles, ainda não consigo lidar

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com isso. E Grannie, apesar de sua despreocupada, pegou isso imediatamente.

inclinação

a

parecer

“O que quer dizer?” ela pergunta, sua voz estava abafada, seus olhos comicamente abertos. “Alguém como... outro homem?” “Não”, digo rapidamente, trazendo minha mochila para frente, mostrando a ela a bolsa estufada. “Vou negociar isso tudo”. “Ah”, ela fala, suspirando de alivio. “Bom Deus, querida, quase me deu um ataque do coração! Você tem um dos bons, sabe. Não iria querer vê-lo te soltar e você terminar na Caverna... ou pior!” Sim, penso realmente, não irá querer isso. “Dê-me uma hora”, eu digo, deslizando minha bolsa de volta ao meu ombro. “E vou buscar o vestido”. Sorrindo o mais aberto que consegui, eu a alcanço e toco sua mão. “Tenho certeza de que é lindo”. “Tudo certo então”, ela afirma, sorrindo de novo. Depois abaixa sua voz a um dramático sussurro. “Feliz negociação!” Aguardo onde estou, assistindo conforme ela volta na direção de onde veio, seus quadris balançando enquanto ela entoa uma melodia fora de tom que não consegui entender. Quando ela é um pouco mais que uma linha escura a distância, eu me viro, um suspiro aliviado escapa de meus pulmões à medida que eu prossigo. Fazendo como Evelyn instruiu, me aprofundo nos quarteirões, caminhando entre os prédios ao invés de ao redor deles, me mantendo fora de vista de qualquer um dos prédios principais. O complexo inteiro é um labirinto de calçadas e prédios, maiores e mais labirínticos do que parece quando parados no lado oposto dos portões. Diversas vezes, me descobri confusa e dava uma pequena volta, apenas para eventualmente seguir velhas placas de sinalização com setas direcionando para os estacionamentos do Norte e do Sul, de volta a quando a fábrica ainda estava em uso. Eventualmente as sombras lançadas pelos prédios ao meu redor me dão acesso à luz do sol. Para além de um gramado aberto, coberto

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de flores selvagens, ervas e grama, está o estacionamento Sul. Olho para a esquerda e para a direita, não vejo ninguém além de um homem velho passeando sem pressa pelas gramas altas, então me dirijo para atravessar o gramado. Ele não presta atenção, se ocupando em observar os enxames de insetos voando sobre a grama e sorrindo para si mesmo. Assim que alcanço a beirada do estacionamento, eu paro, procurando nas fileiras de veículos por Alex ou um Jeep azul escuro. Não encontro nenhum dos dois, notando que a maioria dos carros neste lote estão faltando rodas ou janelas ou ambos, alguns foram privados de seus motores e bancos. Bem na hora que o meu estômago começa a agitar de preocupação, pensando que talvez eu tivesse me perdido de novo, ou que tivéssemos sido enganados de propósito, penso ter visto alguém a distância. Protegendo meus olhos do sol, estreito meus olhos para ver o outro lado do lote, mas sou incapaz de ver com certeza quem é sem chegar mais perto. Com minha mochila nos ombros, corro para frente, rapidamente costurando ao redor das conchas de metal até finalmente ser capaz de ver claramente. E o que vejo me fez congelar no lugar. A frenética batida do meu coração dá um salto, o mundo ao meu redor imediatamente congela quando olho para a cena se desdobrando a minha frente com horror. “Não!” eu grito, colocando uma mão sobre minha boca. “Não!”

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Capitulo Trinta e Oito Evelyn

Os gritos de Leisel ecoam através do labirinto de prédios, facilmente me alcançando. Meu coração gagueja quando seus choros são abruptamente cortados. Deixo cair minha mochila e meus pés afundam no chão, os prédios ao meu redor não são nada mais que um borrão conforme passo por eles. Virando o corredor final, as sombras escuras dos prédios dão caminho a luz do sol e grama exuberante, paro quando vejo Leisel a distância. Aquilo é minha culpa, penso, vasculhando a cena a minha frente, minhas pegadas agora são lentas e cautelosas. Vários homens armados parados em um círculo ao redor dos meus amigos. Alex, seus braços estavam torcidos para trás e segurados atrás dele por um homem, com outro segurando uma arma em sua testa. Leisel foi empurrada de barriga contra o capô do Jeep, enquanto o homem a segurando estava descaradamente apalpando ela, apertando seus quadris contra os dela e sorrindo. E parado no centro disso tudo, está E. Lentamente ele se vira na minha direção, seu olhar encontra o meu, o sorriso em sua face fica mais aberto a cada passo que dou. A raiva e o ódio queimam e engrossam em minhas veias, fazendo meu sangue bombear furiosamente, o som disso bate um rápido e pesado tique em meus ouvidos. Puxando minha arma de minhas calças, eu a levo a frente, pronta para atirar se fosse necessário. Encaro E, ignorando os gemidos de Leisel, ignorando a arma apontada para Alex, ignorando todos até o ambiente desaparecer,

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deixando apenas E e eu. “O que está fazendo?” falo entre dentes, com raiva de mim mesma por confiar nele. Rindo, E abre seus braços estendidos. “Mudei de ideia, Wildcat”. Ele balança sua cabeça. “Depois da noite passada, soube que tipo de homem você precisa e não é aquilo”. Aponta com seu queixo na direção de Alex. Meus dedos estremecem ao redor da minha arma e os olhos de E oscilam para a minha mão. Levanta seus olhos, seu sorriso se torna ameaçador. “Não vai precisar disso”, ele diz, oferecendo sua mão. “Não se você quiser que seus amigos vivam”. Fala tão displicentemente, como se estivesse me pedindo para dividir meu almoço com ele. Não com uma mão sobre minha arma, a única coisa parada entre Alex e Leisel viver ou morrer. “Seu bastardo”, estalo, oferecendo a arma. Tirando a arma de mim, ele encolhe os ombros uma vez antes de atirá-la para um homem parado atrás dele. O homem a pega com facilidade e a enfia em suas calças. “Tínhamos um acordo”, falo, minha respiração vem em rápidas e curtas explosões enquanto luto para conter minha raiva. “Acordos mudam o tempo todo”, ele diz, seu tom arrogante é enfático. “E tenho um muito melhor em minha mente”. “Foda-se ele, Eve!” Leisel de repente grita, levantando por detrás de seu captor. “Foda-se ele e este lugar inteiro!” O homem que a segura agarrou um punhado de seu cabelo, usando isso para batê-la de volta no capô. Ignorando-a, E continua a me observar. “Acho que você vai gostar disso”, ele anuncia. “É benéfico para todos. Vou deixar seus amigos irem, mas você vai ficar aqui comigo”. Parecendo convencido, E levanta

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sua sobrancelha. “Não!” Leisel berra, o terror em sua voz rasga meu coração. “Não, Eve!” Alex grita. “E se eu dizer não?” pergunto cuidadosamente, mantendo meus olhos em E. “Então vou matar o seu homem”, ele responde facilmente. “Deixeme facilitar para você, Wildcat. Não tem realmente uma escolha aqui, só a ilusão de uma. Então aceite o meu acordo – fique comigo e seus amigos podem ser libertados”. Colocando uma mão sobre meu braço, E vira meu rosto para o Jeep de forma grosseira. Lá dentro pude distinguir várias pilhas de caixas, apesar de não poder ver o que está dentro delas. “Tudo que te prometi, eles vão ter”, ele diz. “Eve, não!” Leisel continua a gritar. “Você prometeu! Prometeume, caralho! Nós vamos fazer isso juntas, sempre juntas!” Fechando meus olhos, meus pensamentos se afogam em seu choro conforme meu pensamento volta a Thomas – o marido de Leisel – e na noite em que ele morreu. Deitado no chão da minha sala, Leisel segurava apertado a mão dele, as lágrimas riscavam seu rosto ao mesmo tempo em que Shawn e eu ficamos parados solenemente. Velas cintilavam ao nosso redor, os cheiros quentes de baunilha fluíam delas. Mas mesmo elas não podiam esconder o cheiro da morte de Thomas que estava tão perto. Ele levantou os olhos para mim e Shawn, seus olhos avermelhados imploravam para nós. “Mantenha-a segura”, ele sussurrou com rouquidão. “Prometa-me, você vai mantê-la segura por mim”. Solucei alto, minhas lágrimas crispavam o meu rosto. Segurando a mão de Shawn com força, eu assenti. “Eu prometo”, tinha sussurrado. “Não importa o que aconteça?” “Não importa o que aconteça, Thomas, prometo. Eu vou protegê-

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la com a minha vida”. “

“Não vai chegar a isso”, Shawn tinha dito, seu pesar era palpável. Vou proteger as duas”.

Parecendo satisfeito, Thomas voltou seu olhar para a sua esposa, sussurrando coisas para ela que não consegui distinguir. Apenas momentos depois, seus olhos se tornaram anuviados, uma nevoa cinzenta os encobria. Seus pulmões agitavam sonoramente em seu peito enquanto piscava com lentidão. Sua preensão na mão de Leisel foi se afrouxando e conforme ela arfava, amparando-o com mais força, os olhos dele rolaram para trás em sua cabeça. “Não!” Leisel tinha soluçado, chacoalhando o braço dele. “Não, Thomas, não!” Enquanto Shawn a afastou do corpo dele, fiquei ali incapaz de fazer pouco mais que soluçar. Chorei pela perda do meu amigo, pela perda devastadora de Leisel, por quão sombrio nossos futuros pareciam a cada momento... e cada momento que se seguiu desde então. Voltando a E, engulo o nó em minha garganta e o olho diretamente nos olhos. “Vou fazer isso”, eu digo firmemente, pensando somente em Leisel e Thomas e em minha promessa a eles. Apesar dos soluços em resposta de Leisel, E está sorrindo, o primeiro sorriso genuíno que eu vi nele, me dando um relance talvez do homem que foi uma vez. Se alongando para tocar minha bochecha, E corre seus dedos pelo lado do meu rosto em um gesto quase romântico. “Só mais uma coisa”, ele fala e agarra o meu pescoço, usando seu aperto em mim para ancorar meu corpo contra o dele. “Uma lição, se preferir”, murmura, sua respiração é quente em minha orelha. Então me atira para o lado, do mesmo jeito que tinha me agarrado, nos braços dos mesmos homens que ele deu a minha arma. Encolhendo os ombros em sua jaqueta jeans, rolando o pescoço de um lado a outro, E se dirige a Alex, suas mãos fechadas em punhos. Ainda sendo segurado na mira da arma, Alex não mostra emoção

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quando E se aproxima dele, o encontrando olho no olho. “Você faz um movimento para me parar, Wildcat”, E atira por cima do seu ombro. “E mato ele”. “Deus, por favor, não!” Leisel berra, se debatendo selvagemente contra o homem a segurando. “Por favor, não machuque ele!” Alex endireita seus ombros o melhor que pode considerando o jeito que estava sendo segurado. “Isso não é exatamente uma luta justa”, Alex estabelece, suas narinas dilatam. E ri em resposta, uma risada perversa e amarga. “Não é para ser justo, garoto. Isso é uma lição a ser aprendida”. E então E enfia seu punho direto no estômago de Alex. Tossindo e engasgando, Alex tenta se curvar em uma tentativa de desviar da quantidade de golpes que E estava enfiando nele, mas foi um esforço inútil. E continua a bater nele como um disco riscado em repetição, seus punhos pesados conectando com o rosto de Alex, costelas e estômago de novo e novamente. O sangue vertia das feridas em seu rosto, manchas arroxeadas aparecem quase imediatamente, um olho quase fechado de inchaço e atrás disso tudo Leisel estava gritando, batendo suas mãos no teto do Jeep, ainda incapaz de se soltar. Uma vez que Alex tinha sido espancado até quase a inconsciência, seus ombros caídos e o sangue pingando de sua boca e nariz, listrando sua camiseta, E segura uma mão cheia de seus cabelos e usa isso para levantar seu rosto. “Não vai voltar atrás dela, você me ouviu?” ele diz, seu tom era de peçonha, prometendo apenas mais dor. “Ela é minha. Toda minha.” Alex pisca para ele através de um olho. “Sim”, consegue dizer entre engasgos. Arrastando uma massa de catarro do fundo de sua boca, E cospe na cara de Alex e solta sua cabeça. A cabeça dele cai para frente,

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sangue e saliva salpicam. “Esta vendo, Wildcat”, E fala, voltando a mim. “Sempre protejo o que é meu”. Segurando meu rosto entre suas mãos sangrentas, leva minha cabeça para trás e pressiona um beijo duro em meus lábios. “Esta vendo?” Assinto entorpecida. “Sim”, eu digo suavemente. Vejo muito claramente, exatamente o que esta ''lição'' tinha sido. Não foi uma lição para Alex, ou qualquer um dos homens que tentassem me tocar, era a minha lição. Estou possuída, corpo e alma. E me encara por um instante mais longo, me observando atentamente através daqueles olhos escuros dele, olhos que tinham tanto, mas ainda pareciam tão vazios. Sua expressão está dura, seus lábios comprimidos em uma linha fina e de repente o tempo parece parar completamente. Nenhum calor do sol toca a minha pele, nenhuma brisa move meus cabelos, mesmo os choros de Leisel ficam quietos. Lá está E, eu e o suave rumor dos portões elétricos me lembrando de que não estou partindo desta prisão, nunca mais. Presa eternamente em Purgatório. Liberando meu rosto, ele se vira, então coloca seus dedos em sua boca e assobia sonoramente. No meio do caminho, um homem aparece de trás de uma pequena plataforma próximo ao portão. Acenando para E, ele assente e novamente desaparece da vista. De uma vez o zumbido da cerca cessa. “Os coloca no Jeep”, E ordena a seus homens. Ele vira para Leisel e dá a ela um doentio sorriso meigo. “Precisa correr para fora daqui”, ele diz a ela. “Antes que alguém descubra que os portões foram desligados”. “Vai se foder”, ela sibila, se debatendo contra o homem a arrastando. “Vou te matar, eu vou encontrar um jeito de te matar, seu monstro!” Enquanto ela é enfiada grosseiramente no assento do motorista e Alex no do passageiro, E apenas ri para ela, rejeitando seus gritos com

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um arrogante e doentio sorriso. As portas são fechadas, então um conjunto de chaves é jogado por cima da abertura do teto para o colo de Leisel. “Liga!” um dos homens ordena, apontando sua arma pela janela na cabeça de Leisel. Se virando, ela fez como instruída e o veículo ruge para a vida com um estrondo. Caindo de costas em seu banco, Alex tenta manter sua cabeça levantada, seu olho bom estava focado em mim. Colocando sua mão contra a janela, cochicha as palavras Eu sinto muito para mim. Consentindo, aperto meus olhos, desejando que as lágrimas não caíssem. Dei uma inspiração profunda e reabro meus olhos apenas para encontrar E me olhando, seu lábio inferior está erguido em um rosnado raivoso. Queixando sobre algo incoerente, rodopia para longe e segue em direção ao Jeep. Quando agarra a faca que traz presa em seu cinto, um flash de metal cintilou a luz do sol quando ele a retira, percebo o que estava acontecendo. Gritando com o topo dos meus pulmões, corro para ele. “Não!” grito, me jogando em suas costas, enrolando meus braços ao redor de seu pescoço, minhas pernas em volta de sua cintura, tentando forçá-lo a parar. Com um grunhido de raiva, E agarra meu braço, me empurrando de cima dele. Ele me atira no chão, fazendo minha cabeça bater dolorosamente contra as pedras, depois envolve sua mão em torno da minha garganta, me prendendo no lugar. “O que eu disse?” ele rosna ameaçador. “O que porra disse a você?” Acenando para um de seus homens, joga a faca no ar. Ela voa, cabo sobre lâmina, a curta distância entre os homens e o cara a agarra com facilidade. Assistindo conforme o homem se dirige em direção ao Jeep, engasgo buscando por ar, achando difícil respirar, tamanho era

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o aperto de E em minha garganta. “N-não”, grasno. “Por favor... ele não... meu”. O aperto de E em minha garganta afrouxa. “O que?” ele esbraveja, seus olhos negros estão muito abertos. Seu rosto é uma sombra raivosa de vermelho, suas narinas dilatam selvagemente enquanto sua expressão se contorce de fúria e me pergunto se não teria apenas tornado as coisas muito pior. “Ele não é meu!”, grito com rouquidão, observando o homem puxar a porta do passageiro, pegar Alex antes que ele caísse no chão e o levantado para a posição ereta. “Não estamos juntos, E! Nunca estivemos!” O homem envia sua mão a frente, enfiando a lâmina na lateral do corpo de Alex. Uivando de dor, o sangue espirra da ferida quando o homem retira a lâmina, Alex cai de lado à medida que Leisel começa a gritar. Usando sua presão em minha garganta, E me coloca de pé e olha para mim. Sua respiração está pesada, me deixa nariz com nariz. “Nunca esteve com ele?” sussurra sombriamente. “Nunca?” Tremendo de raiva, balanço minha cabeça para os lados rapidamente. “Nunca”, sibilo. “Ele ama Leisel, seu fudido nojento!” “Tira eles daqui!” E berra para seus homens, apontando seu queixo em direção ao Jeep. O mesmo homem que esfaqueu Alex bate a porta do passageiro e E vira para mim. “Vou lidar com você depois”, ele diz, sua expressão não prometia nada além de dor. O pensamento de Leisel lá fora desprotegida, de Alex machucado e possivelmente morrendo e eu enfiada atrás desta cerca com este maníaco me impeliu a ação. Não posso ficar aqui, não com ele, não sem Leisel. Com o pânico e a dor me guiando, eu me vejo alcançando as cegas a arma presa aos quadris de E. Liberando-a, surpreendeu-o o suficiente para soltar sua pegada, tropeço para trás, abrindo fogo imediatamente, mirando o coração de E, sua cabeça, qualquer coisa que pudesse

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machucá-lo e parar sua loucura. O primeiro tiro é aberto, meu pânico permite que E mergulhe e desvie para os lados e ele corre para um dos veículos quebrados. Continuo atirando, atirando em todas as direções, fazendo os homens dele se espalharem. O tiroteio soa por todo o meu redor quando as balas rompem o ar, o barulho e o caos coloca em alerta o resto do acampamento de que alguma coisa estava errada. Sabendo que Leisel e eu não seremos capazes de lutar com o acampamento inteiro, me abaixo e corri para o Jeep, me jogando pela porta aberta de Leisel conforme ela sai do meu caminho e ia para o banco de trás. Fechando a porta atrás de mim, bato meu pé no pedal e em um turbilhão de pneus girando e gravetos voando, disparamos pelo estacionamento. “Feche os portões!” a voz raivosa de E grita. “Leisel!” berro, apenas para encontrá-la próxima a mim, apoiada entre mim e Alex. Eu lhe jogo minha arma. “O guarda no portão! Você precisa matar ele antes que feche os portões!” Agarrando a arma, ela segura as barras acima de nossas cabeças e se puxa para cima. Apesar das lágrimas estarem escorrendo em suas bochechas e seu queixo estar tremendo violentamente, mira e puxa o gatilho, deixando sair uma torrente de balas. Sua mira está fora, não ajudada pelos violentos impactos do Jeep se movendo rapidamente. O guarda deve ter percebido que sua vida estava em perigo, que iríamos bater nos portões mesmo se a eletricidade estivesse fluindo entre eles ou não, por que não vou parar, nem pelo inferno. Ao invés de tentar puxá-los, vai correndo na direção oposta. Passamos voando por ele e aceleramos direto em direção a cerca. “Mergulha!” grito, puxando Leisel quando batemos no portão, nossos pneus cantam levemente quando o Jeep bate de cabeça. Gemendo e rangendo, o metal rasga facilmente do chão, a parte em que batemos se separa do resto, depois voa por cima de nossas cabeças. Segurando a roda de direção, viro o Jeep em um arco aberto em direção a estrada. Quando dispenso um olhar em meu espelho retrovisor, vejo E correndo atrás de nós, sua larga figura gradualmente

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ficando menor e menor a distância. Olho para Alex e para a minha pobre Leisel embalando sua cabeça com seus braços e soluçando. O sangue dele está por todo lado, cobrindo ele e Leisel e o interior todo do Jeep. O gosto amargo da morte preso densamente no ar ao nosso redor. O cheiro agora familiar que parece nos seguir a todo canto.

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Capitulo Trinta e Nove Leisel

“Ajuda-me com ele”, choramingo, incapaz de sustentar o peso de Alex quando ele começa a cair pela porta aberta do Jeep. Evelyn dá a volta no veículo correndo até o meu lado e levanta o braço de Alex, cruzando em seus ombros. Eu faço o mesmo e juntas demos conta de puxá-lo para cima. “Eu sinto muito”, ele murmura, sangue e saliva espirram de seus lábios. “Sinto muito... Lei...” Nós dirigimos o mais longe que pudemos, até que ficou muito claro que Alex estava perdendo sangue demais e tivemos que parar para tentar enfaixar a ferida. Não tinha nada por quilômetros, quando muito, trechos vazios de trigo e grama crescida. Finalmente chegamos à beira de uma pequena cidade, onde tem um posto de gasolina e um velho motel degradado situado atrás dele. Aguardo no Jeep com Alex enquanto Evelyn checa o lugar, descobrindo que os quartos foram limpos muito tempo atrás. Não há mobília restando e a estrutura está cheia de ratos e insetos, mas felizmente livre de infectados. Usando seu ombro para empurrar a porta já aberta, Evelyn me ajuda a deitar Alex no carpete sujo. Chuto várias baratas do meu caminho antes de me ajoelhar ao lado dele. “Não podemos parar aqui”, Evelyn diz, seus olhos disparam em direção a porta. “E se eles nos seguiram? Não podemos estar tão longe, só alguns quilômetros no máximo”. Balanço minha cabeça, não preocupada se nos encontrarem,

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apenas me importando com Alex. Ele não irá conseguir, não se não tratássemos a ferida. “Deixa eles virem”, falo amargamente. Evelyn parece insegura, mas não dá voz a seus sentimentos. “Vou ver o que tem no Jeep”, ela diz, se afastando. “Ver se tem alguma coisa que a gente possa usar nele”. Quando ela sai apressadamente, eu cuidadosamente levanto a camiseta ensopada de sangue de Alex de sua pele. Em seu abdômen machucado e espancado, a pequena ferida ainda está sangrando muito. Por baixo do sangue que cobria cada centímetro dele, sua pele bronzeada adquiriu um doentio tom de cinza, ficando gelada ao toque e sua respiração estava começando a diminuir. “Oh Deus”, sussurro, meus olhos desfocados pelas lágrimas. “Oh Deus, não de novo, não de novo, por favor, Deus, de novo não”. Alex abre seu olho bom, focando em mim conforme tenta levantar seu braço. Ele não consegue reunir força o suficiente para fazer isso, então levanto sua mão e a coloco em meu rosto. “Eu sinto muito”, soluço, minhas lágrimas caem mais rápido, derramando em seu peito. “Sinto muito, Alex, sinto tanto”. “Lei...” ele coaxa, tentando virar sua cabeça. “Você não... tem nada que sentir muito... por...” “Não tente falar”, murmuro, alisando seus cabelos com a minha mão, tirando os fios caídos de seu rosto. “Nós vamos que fazer ficar melhor, você vai ficar melhor e tudo vai ficar bem”. Uma única lágrima que surge no canto do seu olho desliza pelo seu nariz quebrado. Eu me inclino para frente e a beijo, suavemente beijando a bochecha machucada, seu queixo ensanguentado e então finalmente, esfrego meus lábios sobre os dele. Eu mal o conheço, ainda assim perdê-lo é tão doloroso quanto foi perder Thomas. Alex, a esperança que ele tinha me dado, o amor inesperado, isso iluminou meu mundo sombrio. Agora, aquele pequeno pedaço de sol que tinha somente espiado através das nuvens escuras

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está apagando, fracassando, me deixando como tudo o mais. E a culpa é minha. Outra consequência. Ele me salvou e por causa disso está morrendo. “Valeu... a pena”, ele luta para sussurrar, sua respiração vinha em curtos sopros contra meus lábios. “Você valeu... isso”. Afastando-me dele a medida que mais lágrimas formam, nublando minha visão, balanço minha cabeça, sabendo muito bem que eu não valia aquilo, não valho aquele tanto de morte e destruição. Ninguém vale isso. “Eu te amo”, choro suavemente. “Amo você, Alex”. Eu o amo no sentido de que ele tem um lugar no meu coração, um que é solene e irrevogavelmente apenas dele . Poderia ser um tipo diferente de amor do que sentia por Thomas ou o jeito que eu amo Evelyn, mas é amor mesmo assim. Ele tenta sorrir, se encolhendo quando tenta. “Cuide... se...” ele arrasta, seu olhos fechando. Frenética, abaixo seu braço e me inclino à frente, apertando meu rosto no dele, procurando sua respiração. Colocando uma mão sobre o coração dele, espero sem respirar que ele bata e suspiro de alívio quando bate. Apesar de sua respiração estar baixa e sua batida lenta, continua respirando e seu coração ainda bate. Com o meu próprio coração batendo furiosamente, caio sobre meus tornozelos. Eu quero gritar. Bater meus punhos no chão, no meu rosto e em minhas coxas e só gritar e gritar e gritar. Isso não é justo, porra. Tudo de bom que resta neste mundo será eventualmente aspirado totalmente, um a um e não pelos infectados, mas pelas mãos das pessoas gananciosas e egoístas que tomaram o controle, que transformaram uma devastação mundial em seu playground pessoal. Em breve não haverá nada decente sobrando, somente pecado e sacrifício e meu único consolo é a esperança de que provavelmente todos matariam uns aos outros. “Saia, Lei!” Evelyn berra, correndo de volta ao quarto com seus

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braços cheios. Abaixando a mão de Alex, vou para o seu outro lado enquanto ela derruba o pacote que carrega e começa a vasculhar. “Não tem nada para limpar a ferida”, murmura. “Nada para suturar também. Eu vou enrolar o mais forte que conseguir e depois fazer uma bandagem, certo?” Ainda chorando, assinto. “O que posso fazer? Como posso ajudar?” Ela pausa em sua triagem e olha para mim, seus olhos selvagens repentinamente ficam suaves e tristes. Ao abrir sua boca, nenhum som sai e ela a fecha, depois lambe seus lábios. Conforme balançava sua cabeça lentamente, lágrimas começam a se juntar em seus olhos. “Isso é minha culpa”, ela diz, sufocando com suas palavras. “Isso é minha culpa, tudo minha culpa, Lei! Isso é tudo minha culpa!” Ela está tremendo agora, tremendo tão violentamente que me levanto, contornando Alex para me abaixar ao lado dela. Puxando seu corpo inseguro em meus braços, posso sentir o quão fria está apesar do calor, quase tão fria quanto Alex. “Não”, eu falo ferozmente. “Não! Nem uma única coisa do que aconteceu foi culpa sua! Tudo o que você fez foi lutar por nós, por mim. As ações dos outros não são sua culpa, Eve, está me ouvindo? Não é culpa sua!” Afastando-me dela, seguro seu agradável e machucado rosto em minhas mãos. “Agora, por favor,” imploro a ela. “Por favor, me ajude a salvar ele”. Comprimindo seus lábios, Evelyn aperta seus olhos cerrados e fecha suas mãos em punhos, depois balança sua cabeça. Reabrindo seus olhos, seca as lágrimas em seu rosto e aponta para uma pilha de tecido. “Ajude-me a rasgar isso”, ela diz, sua voz mais forte. “Precisamos de pedaços compridos e finos para amarrar em torno dele”. Esquecendo

nosso

pesar

e

nossos

arrependimentos,

nos

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ocupamos com a tarefa em mãos, sabendo que a única coisa que importa naquele momento é tentar fazer algo para salvar Alex. Depois de rasgar os tecidos em tiras e amarrá-los bem justo em volta do seu abdômen, continuamos a fazer uma bandagem com os tecidos que sobraram. Quando terminamos, fazemos uma cama de coisas para ele usando pedaços de materiais para um travesseiro e sua jaqueta como cobertor. Depois, quando Evelyn vai checar a área por ameaças, deito ao lado dele, pegando sua mão na minha e a segurando na altura do meu coração. Zumbindo suavemente, começo a rezar. Para quem ou o que estava rezando eu não sabia. Mas no final, todos os nossos esforços foram desperdiçados. Alex morreu quando o sol estava se pondo, enquanto raios dourados e amarelos jorravam pela janela, tocando cada pedaço do seu corpo. Parece como se estivesse brilhando, ele deu sua última respiração trêmula antes de ficar imóvel. “Obrigada”, sussurro, beijando seus lábios gelados com os meus lábios vacilantes conforme minhas lágrimas escorrem pelo rosto dele fazendo parecer como se estivesse chorando em seu sono. “Obrigada por tudo”.

*** “A gente deveria ir?” Evelyn pergunta, sua cabeça contra a parede, seus olhos na janela enquanto observa a lua gorda e cheia pendurada no céu noturno. “Deveríamos continuar a nos dirigir para o Sul? Ou Este, talvez?” Sentada ao lado dela, minha cabeça apoiada contra a mesma parede e com a cabeça de Alex no meu colo, corro minhas mãos pelos cabelos dele, assim como estive fazendo a noite toda. “Isso importa?”

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pergunto. “Não”, ela responde, soando apática e distante. “Não importa”. “Queria que a gente pudesse enterrar ele”, divago, ainda correndo meus dedos em seu cabelo. “Ao invés de só ter que deixá-lo aqui”. Vários ratos ousados já tinham começado a farejar ao redor do corpo dele, não parecendo ligar quando eu os chuto do caminho. Estão esperando, supus, que nós o deixássemos aqui para poder fazer sua refeição. “Nós podemos tentar”, Evelyn oferece, ainda encarando pela janela. “Talvez consiga encontrar algumas pedras para gente usar para cavar”. “Parece bom”, sussurro, passando meus dedos pelas bochechas sujas de Alex. “A gente deveria fazer isso”. Ficamos pensando em silêncio, o olhar de Evelyn ainda na lua e os meus em nada em particular. À medida que Evelyn continua fungando, eu não consigo chorar. É como se minhas lágrimas tivessem todas secado. É pelo tempo, penso ironicamente, que chorei em todos os outros segundos. “Lei?” “Hmm?” “Lembra do que você me disse no meu casamento? Pouco antes do momento que devia estar caminhando no corredor?” Meus lábios tentam se levantar, querendo sorrir, mas ainda assim não tive força para isso. “Sim”, falo. “Lembro que você estava surtando e eu te disse para colocar suas calcinhas de garota grande e tirar sua bunda dali”. “Não”, ela diz. “Depois disso, antes de você ter que entrar lá. Olhou por cima do seu ombro e sorriu para mim, lembra o que falou?” “Eu lembro”. “Você disse, 'se não entrar naquele corredor e casar com a melhor coisa que te aconteceu, então eu vou perder a melhor amiga que jamais

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tive. Você não pode ser amiga da ex-namorada do melhor amigo do seu marido, sabia?” Evelyn vira sua cabeça na minha direção, seus olhos azuis brilhantes pelas lágrimas. “Não queria perder a melhor amiga que eu jamais tive”, ela sussurra. “Então coloquei minhas calcinhas de garota grande e desci por aquele corredor”. Olho dentro dos seus olhos e lhe dou o melhor sorriso que consegui formar. “Eu lembro”, falo. “Também me lembro do que me disse quando descobri que não podia ter filhos”. Os olhos de Evelyn se fecham, mais lágrimas escorrem de debaixo de seus cílios. “Eu disse”, ela responde com rouquidão, “que teria bebês por nós duas”. “E Thomas perguntou se isso significava que ele faria sexo com você, lembra?” Entre suas lágrimas, Evelyn sorri. “Ele estava só brincando, porém nunca te vi tão brava”. Dou de ombros. “Não foi engraçado”. “Lei, foi engraçado. Até Shawn achou engraçado”. Balanço minha cabeça. “Não foi engraçado”. “Foi”. “Não”. Limpo minha garganta e olho para Alex. Mesmo com apenas a luz da lua, conseguiria dizer que seus lábios agora estão azulados, sua pele de um branco ceroso. Gentilmente, passo meus dedos em sua barba rala antes de voltar a olhar para Evelyn. “Na verdade, continuo irritada com ele por aquilo”. “Ele amava você. Nunca tocaria em outra mulher”. “Não é esse o ponto”. “Você é boba”. “Eu sei. E ainda assim, você me ama de qualquer jeito”. Se esticando, Evelyn coloca sua mão sobre a minha e juntas

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corremos nossos dedos pelo cabelo de Alex. “Thomas teria gostado dele”, ela sussurra. “Eu sei”. Deixando minha cabeça cair de lado em seu ombro, fecho meus olhos e solto um suspiro. “Poderia amá-lo, sabia? Não como amei Thomas, mas... eu realmente acho que poderia”. Dando um beijo na minha cabeça, Evelyn inala suavemente. “Eu sei”. “Te amo, Eve”. “Também te amo, Lei”.

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Capitulo Quarenta Evelyn

Sonho com Shawn. Nada específico, só outro dia comum em nossa vida comum juntos, perdidos na monotonia diária. Sonhei em lavar roupas e passá-las, aspirar o tapete da nossa sala, fazer compras, a sensação de seus braços fortes envolvendo meu corpo e os beijos amáveis que dividíamos. Aquilo parecia tão vivido, tão real, que quando acordei, ainda inclinada contra a parede, ancorada lateralmente em Leisel, soluço pela perda do sonho, a perda de Shawn, a perda da mulher que eu fui. A visão do quarto do motel somente me empurrou de volta a realidade com muito mais força – o carpete imundo, manchado de sangue, debaixo de mim, as paredes crespadas de sujeira, o teto acima rachado e em ruínas e o corpo de Alex, sua pele uma vez bronzeada agora pintada por manchas aparentes da rigidez cadavérica. O cheiro no quarto é horrível, o fedor da morte sempre presente, uma mistura inesquecível de fezes e urina no meio do cheiro rançoso de carne podre. Mas por baixo da imundície há sempre um toque de doçura, uma ponta de fragrância de perfume, como se na morte, por baixo de sua feia glória, permanecesse um tipo de beleza tentando agarrar seu caminho para frente. Pior são os doze ou mais ratos reunidos ao redor de nossos tornozelos, roçando e fazendo barulhos enquanto mastigam nossas calças. Afastando-me de Leisel, paro sobre pernas instáveis, chutando os ratos com toda a força que consigo reunir. Eles gritam alto conforme voam pelo quarto, um até mesmo silvou para mim no momento em que se apressava em cruzar o carpete,

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desaparecendo no pequeno banheiro. Leisel se agita em seu sono, seus lábios se abrem quando dá uma respirada barulhenta, sua mão ainda segura com força o cabelo de Alex. Asfixiando um soluço ameaçador, me viro contra ela, incapaz de assisti-la se agarrar a outra coisa que tinha perdido. Aproximando-me da janela, toco meu rosto, gentilmente apalpando meus pontos e a pele macia ao redor deles. Meu rosto está quente, quente demais, minha bochecha queimava por baixo dos meus dedos. Fechando meus olhos contra a luz do sol, me perguntei o que diabos faríamos se minhas feridas ficassem infectadas. Mesmo assim aquele é o último de nossos problemas. Para onde vamos? Vamos fazer isso por nossa conta? Sem um homem para nos proteger? Devemos voltar para Purgatório? Apesar das minhas lágrimas, quase gargalho alto. Voltar para Purgatório? Eles nos matarão com certeza, ou pior, nos escravizarão em uma vida inteira de prostituição. Nem consigo imaginar os horrores que E terá reservado para mim. Abrindo meus olhos, assisto o por do sol. Outro dia entre nós e o próximo começava, cada um pior que o outro, se torna mais e mais difícil continuar batalhando, apesar. O suave zumbido em meus ouvidos e a quietude mortal em meu coração é tudo que eu deixei, exceto pelas memórias agridoces de uma vida que nunca teria de novo. Uma exaustão, absolutamente pesada em sua intensidade, me envolve. Mas estou mais do que só cansada; eu estou dolorosamente exausta. Este mundo, esta vida – a miséria disso é interminável, a constante batalha pela sobrevivência e a fome, a tristeza, tudo amarrado junto com tão pouca felicidade entrelaçada no meio. Eu não sei quanto tempo mais posso carregar isto; o fardo é pesado demais, devorador. Não restou nada para mim aqui, nada exceto por Leisel. Nenhum lugar para ir, nada do que pudéssemos depender a não ser uma a outra. Falhei com todos eles – Shawn e Thomas, Jami e Alex, até mesmo com Leisel. Suas vidas, todas cortadas cedo demais, continuamente

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piscam em meus pensamentos como uma porra de um caleidoscópio sem fim de dor e tristeza e só quero esquecer tudo isso, ser absorvida por suas memórias, ser engolida viva. Eu quero voltar à vida com que conseguia contar, voltar às pessoas que amei, para um lugar onde estaria a salvo. Um leve toque toca o meu braço e me fez agitar de surpresa, meu coração diminuí sua batida no momento em que percebo que é apenas Leisel. Ela está imunda, o sangue seco de Alex cobre sua roupa e pele e mesmo assim, ainda está linda. Vendo seu rosto familiar, sentindo seu toque necessário, me recordo que ainda tem algo restando aqui, algo pelo qual vale a pena encarar outro dia neste mundo de merda. “Sinto muito”, sussurro com a voz rouca, meu rosto amarrotado enquanto tento parar o fluxo de lágrimas. “Eu não sei o que tem de errado comigo”. “Você não tem nada do que se desculpar”, ela diz suavemente. Pegando minha mão, ela a leva até seu rosto, dando um beijo nos nós dos meus dedos. “Mas não sei o que fazer...” sufoco outro soluço quando uma nova onda de lágrimas escorre pelas minhas bochechas, ardendo minhas feridas. “Nós não precisamos fazer nada” ela diz, balançando sua cabeça. “Mas temos!” protesto, me afastando dela. Virando para olhar o quarto, gesticule selvagemente. “Não podemos ficar aqui! E mesmo assim, não temos lugar nenhum para ir! Eu não sei o que fazer, Lei! Não sei!” Leisel aparece na minha frente. Colocando suas mãos em meus ombros, olha dentro dos meus olhos, seu olhar é duro. “A gente enterra o Alex”, fala firmemente. “Depois dirige. Não precisamos fazer mais nada, exceto dirigir. Vamos continuar dirigindo até acabar a gasolina e então caminha e continua caminhando até não conseguirmos mais andar. Encontramos outro lugar, Eve, nós vamos encontrar alguma coisa e continuar seguindo. Isso é tudo que precisamos fazer”. Seus dedos tocam a ponta do meu queixo. “Não preciso que você seja forte por mim; eu preciso que seja forte por você. Estamos vivas

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hoje por sua causa e sou grata por isso – por você. Não há nada mais que precisamos fazer exceto continuar seguindo em frente”. Ela sorri depois, seus olhos suaves, me chocando que ela tenha vontade de sorrir depois de tudo que aconteceu. “Ajude-me a enterrar ele, Eve”, ela murmura. “É o mínimo que podemos fazer depois de tudo que ele fez”. Comprimindo meus lábios, tentando parar minhas lágrimas, assinto. Estava certa, Deus, ela estava certa. Alex merece muito mais que qualquer coisa que pudermos fazer por ele agora. Merece uma vida cheia, uma família, ter sido capaz de envelhecer em um mundo que ainda tivesse um lugar para pessoas como ele. Deus, pessoas fortes, pessoas que tinham perseverado mesmo na presença de adversidades, pessoas que se sacrificavam por outras.

*** Leisel coloca a jaqueta de Alex em cima do monte de terra que o cobre e estremecendo se coloca de pé. Juntando suas palmas, ela as aperta em sua barriga e encarou solenemente a sepultura improvisada que fizemos. Ela ainda não tinha chorado. Juntas arrastamos o corpo de Alex do quarto do motel, uma tarefa meticulosa e miserável já que ele era quase 90 quilos de peso morto de cheiro nauseante. Depois, com apenas o uso de pedras e nossas facas e após várias horas exaustivas debaixo do sol escaldante, mal conseguimos cavar mais que meio metro na terra antes de perceber que era o melhor que poderíamos fazer. Cansadas e famintas, rolamos ele para o chão, usando nossas mãos nuas para cobri-lo com a grama e terra que tínhamos desencavado. Não era fundo o bastante, nem seguro o suficiente para impedir os animais de pegarem ele, mas ao menos era algo. “Deveríamos dizer algo?” pergunto calmamente. “Tipo uma

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oração?” Em Fredericksville, enterramos nossos mortos. A cidade inteira se reunia enquanto Lawrence presidia o serviço, sempre dizendo alguma coisa boa sobre o falecido, alguém que normalmente mal conhecia. Ele convidava os outros para falar depois, permitindo aqueles que conheceram o falecido um momento de recordação. Ainda assim, eu sempre senti como se fosse um tipo de espetáculo, sem nenhum sentimento real por trás disso, meramente um outro jeito para Lawrence futuramente solidificar seu lugar como nosso líder. “Não”, Leisel sussurra, seus olhos ainda abatidos. “Não há nada a dizer”. Ela me olha. “Mas poderíamos cantar. Ele gostava de música, lembra? Sentia falta disso”. “Que tipo de música ele gostava?” Leisel balança sua cabeça. “Eu não sei, nunca perguntei”. Um soluço eclode de sua garganta e ela coloca uma mão sobre sua boca, engolindo de volta. “Quão horrível é isso?” cochicha, seus olhos escancarados. “Eu nem mesmo sei por que nunca perguntei”. Curvando-me para baixo, coloco minha mão no monte de terra e sussurro um rápido obrigado antes de me levantar e ir parar ao lado de Leisel. Envolvendo meu braço no dela, eu a aconchego perto de mim. “Não acho que isso importa, Lei. Ele vai gostar de qualquer coisa que você cante”. Seu lábio inferior desaparece por baixo de seus dentes, ficando brancos pela pressão. Depois de um momento começa a cantarolar, um tom familiar que faz meus olhos umedecer. A abraçando mais forte, cantarolo com ela; suavemente no começo, até Leisel começar a cantar. E então juntas ficamos ali, cantando a letra de “The Ballad of Lucy Jordan18”. Aquela tinha sido a música favorita da mãe dela, uma música que a mulher tocava de novo e de novo em seu velho aparelho de som, com um copo de gim sempre

18

Música tema do filme Thelma e Louise

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em sua mão. Aquilo me bate depois, posso sentir profundamente, o entendimento doloroso de que aquilo não é apenas Leisel dando adeus a Alex. É Leisel dando adeus a todos que amou, a todas as coisas que nunca conheceu. E de alguma forma, saber daquilo, fez tudo parecer muito pior.

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Capitulo Quarenta e Um Leisel

“A gente devia voltar para a cabana”, sugiro, puxando outro pedaço de pêssego do jarro. Eu engulo inteiro, limpando o líquido que caia nas minhas calças sujas antes de passar o jarro para Evelyn. Sentada ao meu lado na traseira do Jeep, Evelyn pega seu pedaço, enfia em sua boca e começa a mastigar. “Ao menos ele prestou para alguma coisa”, ela murmura, encarando as frutas enlatadas. Seja lá quem fosse aquele homem horrível que tinha matado Alex, ao menos cumpriu sua palavra ao nos prover com os suprimentos. Havia combustível, armas – e munição – roupa, comida e água suficiente para durar por algumas semanas. “Eve”, eu digo, me virando para olhar para ela. “Quem era ele? Foi ele que te machucou?” Ela para de mastigar, ainda olhando para os pêssegos, encolhe os ombros. “Isso importa?” Não respondi. Ela está certa; isso não importa. Não mais. “Se formos para o Norte”, ela fala, depois engole, “Vai ser inverno em breve. Realmente quer ter que lidar com o frio e a neve? Por nossa conta? Nenhuma de nós sabe caçar”. “Ou cortar madeira”, adiciono, meus ombros curvados quando me viro. “Ou qualquer coisa disso tudo, na verdade. Não importa, é uma ideia estúpida”. “Não, não é. Foi o lugar mais seguro que cruzamos por enquanto. Se soubéssemos como, poderíamos ter fortificado ele, mas não sabia

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como”. Ela soa tão desanimada, tão vazia, tão cheia de remorso, que eu não sei o que posso dizer a ela para melhorar, que já não tivesse dito. Eu sei onde ela está, perdida, presa em um lugar dentro dela mesma, incapaz de encontrar um caminho para fora, para ver qualquer outra coisa além da causa de sua dor. Estive lá muitas vezes antes; estive pronta para morrer, para me libertar disso. Mas Evelyn não tinha deixado e me recuso a deixá-la cair também. Só não saei como conseguir isso. “Então continuamos”, finalmente diz. Notando uma sombra de movimento, estreito meus olhos para ver a distância. “Como planejamos”. “Talvez pudessemos encontrar uma praia”, ela fala, suspirando. “Aprender a pescar-” “Eve”, eu digo, interrompendo-a conforme deslizo para fora da traseira do Jeep. “Ali”. Aponto para a estrada além do posto de gasolina onde um infectado solitário está fazendo seu lento e arrastado caminho em nossa direção. Engolindo outro pedaço de pêssego, Evelyn levanta seus olhos na direção do infectado. “Deveríamos ir”, ela anuncia, apesar de ter feito um movimento para se levantar. “Pode ter mais vindo e com todo esse sangue por todo canto...” seus olhos estão vidrados, se enchendo com mais lágrimas. “Eve!” grito, batendo minha mão contra o Jeep. “Sei que tudo está um saco agora! Acredite em mim, eu sei! Mas a gente não pode fazer isso! Não podemos desmoronar agora!” Ela olha para mim com olhos lacrimosos, seus lábios e mãos tremendo, mas não diz nada, ainda parada. Soltando um suspiro abalado de frustração, alcanço a arma que pousada entre nós. Agarrando-a dou uma volta e marcho através do estacionamento e na direção do infectado. É um dos velhos, sua pele e ossos deteriorados o bastante não sabendo dizer se foi homem ou mulher até estar a seis metros de

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distância. Como tantos infectados, suas roupas foram rasgadas, expondo seu corpo mutilado. Tinha sido uma mulher uma vez, seu peito esquerdo foi quase arrancado, apenas tendões secos e aglomerados sobrava. O que havia restado de seu outro peito era pouco mais que pele enrugada, escurecida e flácida. Paro no meio da rodovia e ergo minha arma, puxando o gatilho e liberando uma bala. Mal raspa seu ombro, e a criatura continua vindo. Deixo outra bala voar, esta foi totalmente perdida. “Maldição!” grito. Levantando a arma mais alto, pisco enquanto miro. Um borrão de movimento a direita me assusta, até perceber que é Evelyn correndo atrás de mim com uma grande lâmina serrilhada em sua mão. Com os olhos esbugalhados de choque, observo quando ela me passa e vai diretamente ao infectado, empurrando com força e o derrubando. O infectado cai no pavimento com um barulho alto e então Evelyn pula sobre ele, lutando e enfiando a ponta afiada de sua faca na cara dele. Abaixando minha arma, permito aos meus braços caírem flácidos ao meu lado. Ela está gritando agora, esfaqueando o infectado novamente, na cara dele, no pescoço, no peito. Esfaqueando sem pensar acompanhada por gritos agonizantes que fazem meu estômago começar a doer. Nunca vi Evelyn perder o controle antes, não desse jeito, não tão completamente. Aquilo é totalmente desolador que drena toda a força dentro de mim, me fazendo cair de joelhos no meio da estrada. A arma cai da minha mão enfraquecida, retinindo no chão ao meu lado. Lágrimas enchem meus olhos; gordas lágrimas cheias de tristeza, que pensei que tinham secado, mas o rosto de dor de Evelyn as aumentaram dez vezes. Vários minutos passam durante a qual ela continua a gritar, esfaqueando cegamente, desesperadamente, até sua voz ficar rouca e seus gritos se transformar em soluços, a metade de cima do corpo debaixo dela era agora pouco mais que uma massa sangrenta nãoidentificável. Depois de se levantar, pega seu caminho em minha direção, seu corpo inteiro treme violentamente, suas roupas cobertas pela mesma

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lama escura que o infectado inteiro estava cheio. As lágrimas embaçam minha visão, pisco para ela, incapaz de falar, incapaz de fazer pouco mais que chorar. Desajeitadamente ela alcança os bolsos traseiros de suas calças, puxando a chave do Jeep e com uma mão trêmula oferece para mim. “Você devia dirigir”, ela sussurra.

*** Nunca tive um bom senso de direção, não faço ideia de onde estou indo ou onde diabos estávamos, especialmente já que toda a sinalização da rodovia foi perdida ou destruída pelo tempo. Independente disso, conforme Evelyn dorme irregularmente no banco do passageiro ao meu lado, continuo a dirigir sem rumo, através da noite e até o sol começar a espiar entre as nuvens. Só quando meus olhos começam a fechar, a exaustão me puxa para baixo, que puxo para o lado da estrada em que estamos, apenas outro trecho isolado da rodovia, vazia e desprovida de vida. “Eve”, eu digo, esfregando seu braço. “Eve... acorda”. Piscando sonolenta, Evelyn grasna quando o sol brilha contra seus olhos recém-abertos. “Dia”, ela fala com um bocejo. Surpreende-me com um sorriso e ainda mais pelo quão forte ela soa. “Você está bem?” pergunto, afastando um cacho de seus cabelos loiros avermelhados de seus olhos. “Se sente melhor?” Se endireitando em seu banco, estuda nossos arredores com apenas pouco interesse antes de virar de volta para mim. “Sim”, ela diz, suspirando. “Sinto muito por aquilo”. Balanço minha cabeça com um sorriso triste em meu rosto. “Nada

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para sentir muito”, sussurro. “Onde estamos?” Dou de ombros. “Não tenho nenhuma ideia. Estou procurado por água, algum lugar para gente se limpar um pouco”. “Tem montanhas por aqui”, ela fala, fazendo sombra em seus olhos enquanto olha a distância. “Provavelmente tem água também”. Concordo. “Pode dirigir? Eu não consigo manter meus olhos abertos”. Se virando para mim, ela sorri de novo. “Sim. E, Lei?” “Sim?” Pegando minha mão na dela, ela a aperta. “Vamos ficar bem. Eu prometo.” Eu não sei porque, talvez fosse o olhar pacífico em seu rosto, ou a promessa familiar, uma que ela tinha feito tantas vezes antes, ou talvez fosse uma combinação das duas. Qualquer que tenha sido a razão, totalmente acredito nela. Nós estamos juntas e contando que tivéssemos uma a outra, sei que estamos bem.

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Capitulo Quarenta e Dois Evelyn

Olhando através do teto do Jeep, assisto quando uma águia plana na brisa quente acima de nós. Ela está nos seguindo por um tempo e não consigo evitar pensar que fosse algum tipo de sinal, um sinal de que tudo iria ficar bem. Este belo pássaro gigante, voando bem acima de nós e olhando para o horror que tomou a todos, escolheu nos seguir. De vez em quando emitia um baixo grasnar, como se para anunciar que ainda está ali, ainda conosco. Leisel rapidamente adormece ao meu lado, seu rosto escondido da vista debaixo de um cobertor esfarrapado que E nos providenciou. Apesar dele ter cumprido sua palavra nos providenciando suprimentos, meu ódio por aquele homem, tempestuoso em sua intensidade, veio a vida mais uma vez ao pensamento dele e suas mãos vulgares. Mesmo agora, ao ar livre e longe de Purgatório, ainda consigo sentir a pressão dele entre minhas coxas, sentir seu corpo pressionado contra o meu. E o pobre Alex, sua vida inteira terminou por um voraz golpe da faca de E. Tantas maldades que ele praticou e nunca será punido por eles. Não quando homens como ele são a hierarquia no mundo agora. Agitando para longe meus pensamentos sobre E, aperto com mais força a barra de direção e foco unicamente na tarefa em mãos. Isso irá me fazer não pensar em tudo que tinha dado errado até agora; meu pesar e remorso quase me paralisaram. Agora estou determinada em uma coisa e uma coisa apenas – continuar sobrevivendo por Leisel e mim. Não tenho ideia de onde nós estamos ou para onde dirigimos, só que aquelas montanhas cobertas com grama selvagem verde e exuberante está surgindo além das rodovias abandonadas e poeiradas.

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Até agora passamos por muitas cidades, mas me recuso a parar, não confiando em nada nem ninguém depois de tanta tristeza e decepção. O pequeno grupo de infectados que passamos apenas reforça minha decisão de nos manter em movimento. Enquanto viajamos, a estrada vai ficando pior, repleta de carros quebrados. O asfalto irregular com grandes e feias rachaduras, a natureza novamente reclamando o que é seu por direito. Desacelerando o Jeep, continuo dirigindo o mais cuidadosamente possível entre as fissuras. A falta de ritmo eventualmente acorda Leisel. Gemendo atordoada, levanta sua cabeça de debaixo do cobertor, seus olhos encontram os meus. “Está tudo certo?” ela pergunta, se alongando. Assinto. “Por enquanto está tudo bem. Ainda dirigindo. A estrada está uma bagunça, embora”. Se livrando do cobertor, ela senta, deixando o cobertor cair aos seus pés. “Onde estamos?” Rindo, olho de lado para ela. “Não faço ideia, mas é bonito, certo? E olha...” aponto através da abertura do teto na direção da águia. “Oh Meu Deus”, ela sussurra, se sentando mais ereta. “Isso é incrível”. “Ela tem nos seguido há quase uma hora”. Sorrio para ela. “Acho que é um bom sinal”. Leisel sorri, seus olhos castanhos reluzem um dourado queimado debaixo do sol. “Concordo, isso é definitivamente um bom sinal. Apesar de...” voltando a mim, franze a testa. Olhando para ela cautelosamente, mantenho meu sorriso, me recusando a deixar ruir este momento pacifico. “O quê?” “Você esta meio fedendo”, ela sussurra, enrugando seu nariz. “E estou muito certa de que é matéria cerebral que tem na sua camiseta”. Olho para o sangue seco incrustado em cada centímetro da minha

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roupa,franzo o cenho. “Eu sei”, digo com um suspiro. “Precisamos encontrar algum lugar para limpar, mas” - olho com o canto dos olhos para ela - “Estou com medo de parar”. “Eu sei”, ela concorda suavemente, abaixando seus olhos. “Também estou”. Ela vira de costas para encarar a estrada e ficamos em silêncio, bem quando a águia acima solta outro grasnado. Abrigando seus olhos com a mão, Leisel volta seu rosto na direção do céu, assistindo conforme ela plana, suas grandes asas esticadas e seu sorriso começa lentamente a retornar. Vendo isso, meu próprio sorriso volta para mim e eu retorno a focar na estrada com um suspiro. “Tem uma placa em frente”, Leisel anuncia, se inclinando a frente para ver pelo para-brisa imundo. “Para alojamento, acho”. Outra ladeira surge ao nosso lado, nos dando uma prorrogação do sol. Desacelerando o Jeep, paro junto do sinal da estrada surpreendentemente ainda intacto que mostra uma variedade de restaurantes fast-food e hotéis. “Eu não sei”, falo, hesitante. “Parece como se fosse algum tipo de cidade de estação de esqui. Cidades significam pessoas e pessoas significam-” “Infectados”, Leisel termina. “Sei. A gente poder passar, dar uma olhada ao redor. Se virmos algum infectado, voltamos para estrada, certo?” Ela olha para mim, sua sobrancelha curvada em questionamento. Mordendo a parte de dentro da minha bochecha, sinto meus pontos repuxarem, a dor dispara para cima e por baixo dos nervos em meu rosto. “Merda”, murmuro, sabendo que preciso limpar e fazer curativos nos meus muitos ferimentos. Se apenas Alex estivesse aqui com a gente, não estaria tão apreensiva. Embora os infectados fossem uma grande ameaça, os vivos eram muito mais, os homens especialmente. “Eve”, Leisel diz, tocando meu braço. “Eventualmente vamos ter

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que parar em algum lugar. Nós não temos muita gasolina sobrando”. “Eu sei”, sussuro, olhando para ela. “Eu só -” “Vamos ficar bem”, ela fala firmemente, me dando um sorriso forte. “Eu prometo”. Sua resolução cimenta isso. Com um breve aceno de cabeça, coloco o carro a frente de novo e volto para a estrada. “Desde quando se tornou a voz da razão?” eu murmuro. “Desde que você decidiu ser a pessimista”. Rindo, volto a olhar para ela. “Pronta para esquiar?” brinco. “Espero que tenha trazido seu traje de neve”, ela graceja. “De acordo com o sinal, eles tem a melhor neve produzida do Sul”. Estamos rindo quando viro na rampa de saída, uma risada tensa, mas risada.

*** “Não acredito nisso” Leisel diz, arrastando suas palavras lentamente conforme olha em torno do quarto maravilhada. “Isso... Isso está quase intacto”. Assim como o resto da cidade, a pequena pousada que escolhemos para dar uma checada é exatamente aquilo. Inteiramente intocada e sem nenhum infectado para mencionar. Escolhemos este prédio em particular por duas razões. É uma pousada de dois andares bem no eixo principal, no topo de um barranco íngreme, escondida por árvores abundantes e não tinha sido depredada. Na verdade, não há sinais de que qualquer violência tivesse ocorrido. Ao lado de algumas janelas quebradas, as camadas de poeira cobriam tudo e os pequenos tipos de vida selvagem que fizeram seus ninhos lá dentro, a estrutura aguentou bem. Totalmente mobiliado, cada um dos quatro quartos exibia camas queen size e apesar de

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imundas, ainda com roupa de cama e arrumadas. Toalhas dobradas ordenadamente nas prateleiras e várias garrafas de água intocadas dentro dos frigobares. Escolhendo uma revista da cômoda, começo a folheá-la. “Vai ter uma excursão de tour hoje de tarde, Lei, descendo uma 'ravina natural com 50 mil metros atravessando a natureza e a vida selvagem'”, eu digo, ondulando o panfleto empoeirado no ar. “Sei o quanto você ama essa merda”. “Podemos ficar aqui por um tempo”, ela sussurra, ignorando minha piada. Seus olhos cheios de lágrimas e há um leve tremor em sua voz. “Até descobrirmos alguma coisa a mais”. “Podemos”, concordo. “Mas antes de fazermos isso, preciso me lavar”. Gesticulando para as minhas roupas, faço uma careta. O meu cheiro está me fazendo sentir um pouco tonta e absolutamente nauseada. Tirando uma jarra cheia de água do monte de suprimentos que trouxemos para dentro, me dirijo ao banheiro. Sem me incomodar em fechar a porta atrás de mim, rapidamente me livro das minhas roupas arruinadas e me inspeciono no espelho. Os ferimentos no meu rosto parecem ainda pior do que estavam de manhã, inchados e vermelhos, um fluido vazava de dentro dos pontos. Fazendo uma careta, fecho o ralo e derramo metade do jarro de água dentro da cuba. Pegando uma pequena toalha de mão do suporte, eu o balanço para tirar a poeira, depois mergulho na água e começo a meticulosa tarefa de limpar meus ferimentos.

*** Mão com mão, paramos na janela solitária, assistindo ao sol começar a encerrar outro dia. Nossas barrigas estão cheias de pêssegos, carne de rato ressecada e chocolates de cortesia dos escritórios da pousada e o cheiro de flores selvagens através da janela

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aberta, soprando em meus cabelos úmidos. É um momento verdadeiramente perfeito e não consigo evitar nos imaginar hospedadas aqui, talvez até mesmo vivendo o resto de nossas vidas aqui. “Vou para a cama”, Leisel diz, se afastando com um bocejo. Ela sorri. “Se isso estiver bem para você?” Eu assinto. Não tinha sentido esta proteção, esta segurança em nossos arredores desde que deixamos Fredericksville. “Quando você estava limpando”, falo, “movi alguns moveis lá de baixo. As portas estão bloqueadas. Se alguém, algo, tentar entrar, vamos escutar”. Enquanto ela caminha agradavelmente sobre o chão de madeira e desliza para a cama, volto para janela, desejando que a águia tivesse nos seguido até aqui, esperando que, como Leisel e eu, estivesse em algum lugar seguro. Isso é quase surreal, a visão da ravina profunda, o céu escurecido cheio de sombras silenciosas em tons de rosa e azul. E tão pacífico. Isso é tudo o que procurávamos. Depois de deixar Fredericksville, era isso que esperamos, o que planejamos. Tantas pessoas morreram apenas para que nós chegássemos a este ponto, tantos sacrifícios foram realizados, que era difícil não ser um pouco mórbida em relação a isso. Mas Alex e Jami, Shawn e Thomas, desejariam isso para nós. Eles deram suas vidas para nos manter a salvo e agora estávamos. E sinto como se tivesse finalmente cumprido a minha promessa a Thomas. Eu mantive Leisel salva. Uma onda de exaustão cai sobre mim, me fazendo esticar e segurar o parapeito. Pisco diversas vezes, minha visão estava dupla e turva, mesmo assim ainda não quero fechar meus olhos. Quero deixar

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isso tudo absorver por um pouco mais de tempo. “Obrigada”, sussurro para o céu. “Obrigada”.

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Capítulo Quarenta e Três Leisel

Estou sonhando com gritos. Gritos agudos, estridentes, de gelar o sangue, que eram tão familiares para mim, soa como se fossem os meus próprios. Procuro selvagemente por isso, correndo através da escuridão, tropeçando sobre sombras de braços e pernas que me alcançam, ainda assim não consigo encontrar nada. Apenas mais escuridão e gritaria constante. “Lei! Lei! Acorda!” Mais braços me agarram, uma mão envolve o meu pulso, unhas entram em minha pele, me chacoalhando furiosamente. “Leisel!” Eu me sacudo para cima, piscando confusa para as feições distorcidas de Evelyn. “O que?” choramingo. “O que está errado?” “Diga-me você!” ela diz. “Você me acordou gritando!” Minha boca cai aberta conforme olha ao redor do quarto, assimilando nossos arredores. “Eu…. uh….” dou um sorriso encabulado. “Eu sinto muito, estava sonhando”. Balançando sua cabeça, seus cachos vermelhos balançando, ela sorri. “Está bem, é que estava muito alto. Está bem?” Eu consinto, depois alcanço cautelosamente as feridas vermelhas em sua face. “E você? Elas parecem melhores que ontem. Parecem

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finalmente ter começado a cicatrizar”. Ela faz uma careta. “Doem como umas vadias. As cicatrizes vão ser horríveis”. Deita novamente na cama, puxa os cobertores mofados até seu queixo e riu. “Mas qual a graça de sobreviver a um apocalipse sem as cicatrizes de batalha para provar isso?” “Sempre achei que você era bonita demais”, falo, rindo enquanto deito ao lado dela. Envolvendo meu braço ao redor do centro do seu corpo, me puxei para mais perto. “Obrigada”, ela debocha, revirando seus olhos à medida que vira seu rosto contra meu peito. Aconchegada no calor do corpo de Evelyn, meus olhos começaram a fechar. É impressionante o quanto relaxada estava, dado tudo o que tinha acontecido. Considerando a nossa má sorte, era irreal encontrar um lugar como este – totalmente intocado. Não posso imaginar ficar naquele lugar para sempre, mas por agora é exatamente o que precisávamos. E são as pequenas coisas, tipo encontrar um pedaço de segurança em um mundo que enlouqueceu, que faz o resto disso não parecer tão horrível quanto é. Quase adormecendo novamente com um sorriso bobo no rosto, ouço o gemido denunciador de um infectado. Meus olhos saltam e viro minha cabeça para dar de cara com Evelyn me olhando com olhos muito abertos. “Caralho”, ela murmura, se desvencilhando de mim. “Sabia que isso era bom demais para ser verdade”. Puxando os cobertores de uma vez, desliza suas pernas para fora da cama e caminha a passos largos cruzando o quarto em direção a janela. Abrindo as persianas de qualquer jeito, espia lá embaixo. “Tem dois”, ela sussurra, olhando para mim. “Estão no Jeep. Provavelmente ouviram você gritando e agora sentiram o sangue”. “Se são apenas dois”, eu digo, me sentindo culpada por tê-los

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atraído para lá, “podemos lidar facilmente”. Rolando da cama, me movo rapidamente até parar ao lado dela. Como ela relatou, havia dois mortos-vivos ao redor do Jeep, selvagemente virando suas cabeças para os lados e se esticando ao nada. À distância, próximo de uma fileira de árvores noto mais movimento. “Tem três”, eu revelo, apontando. “Maldição”. “É um veado, Lei”, Evelyn diz, estreitando seus olhos. E após ela falar, ambos os infectados notam o movimento. Com um rosnado, vão tropeçando atrás do veado. O veado dá um salto atrás da árvore onde está se escondendo e sai correndo, os infectados continuam seguindo. “Bem”, Evelyn diz enquanto vira para mim, um sorriso em seu rosto. “Isso resolve tudo”.

*** A cidade está quieta. Além da água correndo pelo desfiladeiro próximo, o chilrear de pequenos pássaros e o som de nossos pés conforme andamos no centro da rodovia, não há nada que parece fora do normal. Nós passamos por várias pousadas e um monte de lotes vazios no meio. Na rua principal há pouco mais para ser descoberto – uma livraria, um cinema, uma loja de 1,99, uma loja de sapatos e uma pequena loja de departamento. Quando não encontramos uma farmácia, aponto para a mercearia que passamos uns minutos atrás, e Evelyn faz uma careta. “Consigo sentir o cheiro daquele lugar do outro lado da rua”, ela diz. “Dez a um, aquilo está tomado de insetos e ratos”. “Mas provavelmente tinham uma farmácia”. Encolho os ombros. “Vale a pena um chute, certo?” “Sim”. Ela faz outra cara. “Vou prender meu nariz, suponho”. Surpreendentemente, a mercearia não está cheia de comida

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estragada. Tudo tinha estragado há muito tempo e o que não foi saqueado simplesmente foi petrificado. O cheiro que ficou provavelmente impregnou nas paredes e no chão e em tudo ao alcance, é absolutamente horrível. Pior que horrível. Mesmo segurando nossos narizes, posso ainda sentir a catinga no fundo da minha garganta. Lado a lado, com nossas armas levantadas, caminhamos cautelosamente pelos corredores escuros e vazios, o chão está coberto de sacos de dormir, malas, até mesmo barracas. “Devemos pegar algumas dessas silenciosamente. “As roupas, pelo menos”.

coisas”,

Evelyn

sugere

Fazendo uma careta, balanço minha cabeça. “Prefiro checar a loja no outro quarteirão que tentar lavar o cheiro destas. Deus, o que aconteceu aqui? A cidade inteira estava acampada aqui? Onde eles foram?” “Nenhum lugar bom, suponho”. Evelyn fala sombriamente, chutando um saco de dormir em frangalhos, revelando uma mancha escura no piso por baixo dele. Foi nesse momento que noto as pegadas ensanguentadas. Estão quase indistinguíveis na sujeira, poeira e nas manchas das comidas podres, mas uma vez que as noto, parece ser tudo o que conseguia ver. Pegadas, respingos, marcas de arrastão, lugares onde sangue tinha empoçado. Um som agudo de tap-tap nos fez virar ao redor, erguendo nossas armas, apenas para dar de cara com um guaxinim parado no final do corredor. Ele nos encara na escuridão do mercado enquanto nós três congelamos no lugar, seus olhos parecem emitir um estranho brilho amarelo. “Xooo!” Evelyn grita, chutando o saco de dormir e assustando a criatura. Ele faz um barulho de alto antes de se debandar para trás e desaparecer. “Farmácia”, eu digo, gesticulando com a minha arma a um sinal ainda pendurado no teto. “Contudo, considerando todas as coisas...” olho ao redor as muitas camas improvisadas. “Não estou com muita esperança de que sobrou alguma coisa”. Continuamos indo, passando por mais pertences pessoais, uma fileira de prateleiras arremessadas, até alcançarmos o final do prédio

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onde um balcão comprido com janelas de acrílico sinalizando Farmácia. Encontrando-os seguramente trancados, espiamos dentro. A pequena sala parece ter sido roubada, mas ainda há muitas garrafas alinhadas nas estantes de baixo, junto com cestas cheias de bolsas de farmácia fechadas que continuam ao lado da caixa registradora. “O que não daria por uma destas ser aspirina”, Evelyn sussurra, sorrindo para mim. “Fodam-se os antibióticos, só quero algum alívio da dor”. “Acho que a porta para entrar é no fundo”, anuncio, acenando em direção a duas grandes portas de borracha sinalizadas Apenas Funcionários. “Ótimo”, Evelyn murmura, revirando seus olhos. “Exatamente o que eu quero fazer, passear em alguma sala de estoque escura e assustadora”. Encaramos uma a outra por um momento, como se silenciosamente decidindo como proceder. Os segundos passam enquanto espero que Evelyn se recompusesse e soube no momento que ela fez. Endireitando seus ombros, fungou imperiosamente. “Se a gente vai viver aqui, vamos ter que parar de se assustar. Não estou assustada. Você está assustada, Lei?” Eu estou apavorada, mas era um tipo diferente de medo que tinha começado a me acostumar. É um bombeador de adrenalina, um tipo de medo que aumenta a batida do coração, que não me debilita, porém me deixa mais forte. Não é o medo de que eu fosse morrer, esse nasce do pensamento de morrer. Eu quero viver, desejo continuar seguindo em frente, eu quero ser forte. E para poder fazer isso, tenho que estar apavorada; algo a menos mataria a mim ou a Evelyn. “Não estou”, eu digo, sorrindo. “Nem mesmo um pouco”. Lentamente, cuidadosamente, puxamos a porta dupla, ambas fazendo uma careta quando as portas soam um alto rangido, alto o bastante para alertar qualquer coisa que estivesse alheia a nossa presença. Aguardando um momento, apurando os ouvidos para pegar qualquer tipo de movimento e não ouvindo nada, procedemos à frente. A sala não é tão grande quanto imaginei e está cheia de paletes vazias

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e pilhas de caixas abertas. Grandes prateleiras de metal se alinham na parede, infelizmente vazias e no canto estava parada uma empilhadeira. “Por aqui”, Evelyn sussurra. “A porta é bem ali”. Bem a nossa frente estava uma pequena porta branca, novamente marcada – Farmácia – Apenas Funcionários. Deslocamos-nos por ela, constantemente checando por sobre nossos ombros por qualquer coisa que pudesse estar no escuro atrás de nós. Agarrando a maçaneta, Evelyn olhou para mim, seus olhos esbugalhados. “Por favor, deixe esta destrancada”, ela sussurrou e virou a maçaneta. A porta emitiu um suave clique e ela sorriu. “Bingo”. Sorri de volta para ela, pensando que finalmente as coisas pareciam entrar em nosso caminho pela primeira vez. Se virando, ela puxou a porta devagar, só o suficiente para olhar lá dentro. De repente a porta é puxada, assustando Evelyn e a fazendo soltar a porta e tropeçar para trás. A porta abre totalmente, batendo na parede, enquanto um infectado com o aspecto de um esqueleto, cai de barriga, se joga para frente, agarrando o tornozelo de Evelyn. Com um grito de surpresa, ela começa a chutar, tentando derrubá-lo e perde seu equilíbrio. Conforme cai para trás, sua arma tilinta no chão, o infectado segura suas duas pernas, sua mandíbula cheia de dentes apodrecidos se fechando em suas calças. “Leisel!” ela berra, suas pernas batendo selvagemente ao mesmo tempo em que tenta agarrar sua arma caída. “Atira nele!” Ergo minha arma, tentando mirar na cabeça dele, mas minhas mãos estão sacudindo e o medo está fazendo minha visão ficar nublada. Eu sou uma atiradora terrível e minhas chances de atirar em Evelyn são maiores que acertar o infectado. Enquanto Evelyn grita mais alto, abaixo minha arma, tiro minha faca do meu cinto e corro para frente. Atado em suas pernas que se debatiam, o infectado está gemendo e grunhindo, tiras de pele voam de seu corpo como cordas de cabelo comprido. Evelyn solta outro grito horrível na hora em que enfio minha

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faca no crânio daquela coisa. Solto minha faca e Evelyn rapidamente empurra o infectado de cima dela, rolando de lado antes de pular em pé. “Você esta sangrando!” choramingo, caindo de joelhos conforme alcanço sua perna. Ela arranca a perna da minha mão e gira para longe, me dando suas costas. Ela não está mais gritando, mas ainda tremia, tremia violentamente da cabeça aos pés. “Oh Deus”, ela sussurra com a voz rouca. “Oh Deus, oh Deus, oh Deus….” Levantando-me, eu a toco gentilmente. “Não fica doente pelos arranhões”, sussurro. “Não a menos que tenha trocado sangue ou saliva. Esse era dos velhos, não tem sangue. Você vai ficar -” Se virando, Evelyn levanta seus olhos cheios de lágrimas aos meus. Meu olhos abaixam na perna que ela me mostra. Se inclinando para baixo e com mãos trêmulas, levantou o tecido sangrento de suas calças, revelando a ferida em sua panturrilha, a pele ao redor completamente rasgada. Minha respiração sai de mim em uma explosão de ar, meu corpo inteiro parece desinflar de uma vez. “Não”, sussurro, balançando minha cabeça enquanto meus olhos enchem de água. “Não…. não” meus pensamentos giram e levanto minha faca. “Vamos cortar fora!” choramingo. “Agora!” Com olhos saltados, Evelyn se afasta de mim, dando vários passos vacilantes para trás. “Não”, ela sussurra. “Não, não podemos….” “Podemos!” grito. “Antes que espalhe!” “E depois o que?” grita de volta, o tremor em seu corpo inteiro fica pior. “Nós não somos médicas, Lei! Vou sangrar ou pior, isso vai infectar e vou morrer de qualquer jeito!” “Tem uma chance!” protesto, sabendo que se não fizéssemos nada não haveria chance. “Não podemos não fazer nada!” “Que bem vou ser para você com uma perna, Leisel? E machucada

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por sabe lá quanto tempo. Eu vou atrair infectados em todo lugar que formos. Vou fazer nós duas morrer e sabe disso!” Minha boca abre, mas nenhum som sai. Eu a fecho, apertando meus dedos, as lágrimas queimam em minhas bochechas repentinamente frias. Afastando-me dela, deixo minha faca cair no chão conforme fecho meus olhos e cerro minhas mãos em punhos apertados. “Não!” sussurro, balançando minha cabeça. “Não, Deus, por favor, não. Não faça isso, não faça isso conosco. Eu não posso ficar sem ela. Por favor, por favor, Deus”. “Você tem que ir”, Evelyn fala, com a voz suave, palavras encharcadas de lágrimas e mal ditas. “Tem que entrar no Jeep e ir. Volte para Purgatório, volte para Fredericksville, apenas vá para algum lugar. Vai, Leisel! Você precisa ir!” ela grita, sua voz está abafada e dolorosa. Viro-me para encará-la, sentindo-me apavorada, tremendo, desesperada, doente do estômago – uma miríade de emoções, nenhumas das quais pudesse focar. “Como se atreve!” choramingo. “Como se atreve até mesmo sugerir isso!” “Quero que você viva”, ela murmura, seus olhos abertos e vermelhos enquanto lágrimas caem deles. Alcançando-me, seus dedos envolvem meu pulso, cavando a minha pele. Apertando-me, balança meu braço. “Você precisa ir, Lei” ela implora. “Por mim, por favor, continue indo”. Balanço minha cabeça desesperadamente, meu coração palpitante quase explodindo no meu peito. “Nunca”, cuspo através de minhas lágrimas. “Eu nunca, jamais, vou deixar você!” “Você precisa”, ela geme. “Tem que fazer isso, caralho” Dando uma respiração profunda, dou um passo para frente e alcanço sua outra mão. Enfiando meus dedos entre os dela, eu a puxo para perto de mim. “Vamos voltar para a pousada”, sugiro, minha voz tremia. “A gente vai te limpar. Vamos pensar em alguma coisa, Eve,

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nós sempre pensamos em algo”. Ainda chorando, Evelyn levanta seus olhos para encontrar os meus. Posso dizer que ela quer algo a mais, me falar o que já sei, que não há nada para fazer, não para a mordida de um infectado. Dizer-me que isso era irremediável. Que ia morrer e assim que acontecer, irá se transformar. Mas ao invés disso, fecha sua boca conforme mais lágrimas caem de seus olhos e simplesmente assente. Verdade dita, não tinha nenhuma ideia do que eu faria. Só existe uma coisa que sei com certeza – que não vou deixá-la aqui ou em qualquer lugar, não agora, nem nunca. Especialmente para morrer sozinha. Porque sem Evelyn isso não mais importa, nada mais importa. Ela é meu tudo e não há nenhum outro lugar que eu quero estar a não ser aqui, com ela. Fecho meus olhos. Há um jeito, tinha que haver, sempre tem um jeito. Evelyn me provou aquilo dia após dia. Sobrevivemos, foi isso que fizemos. Esse não pode ser o fim. Não agora, não depois de tudo. Mas então, abro meus olhos e olho para ela, para a minha amiga linda e forte, com seu rosto arruinado, todo manchado, ensanguentado e machucado. Então meu olhar cai em sua perna. Ela foi mordida. E quando a amarga percepção daquela verdade finalmente afunda dentro de mim, arranca pedaços de tudo por onde toca. Não há jeito para aquilo. Não tem como sobreviver a isto. Não importa o que, Evelyn morra pela infecção que está agora queimando dentro dela, comendo cada parte dela que eu amo e levando embora a única coisa que me restou, a única pessoa que eu amo neste mundo abandonado. Sentindo-me doente, vibrando da cabeça aos pés, forço meu corpo a se mexer. Recolhendo nossas armas, entrego a Evelyn sua arma e ela a pega, olhando entorpecida para a arma como se não tivesse nenhuma ideia do que aquilo é ou o que fazer com ela. Enfio a minha nas minhas calças e embainho minha faca com mãos trêmulas, depois mais uma vez agarro sua mão e nos coloco na direção da porta de saída, empurrando cegamente por elas, sem nem ver por onde estou

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passando. Meus únicos pensamentos são levá-la de volta para a pousada, levá-la de volta ao nosso quarto, limpá-la e enfiá-la na cama. Qualquer coisa a acontecer a seguir acontecerá, mas não pensarei nisso ainda. Porque não consigo. Se pensar sobre isso, eu me perderei. E eu não posso me perder, não agora, não quando Evelyn precisa tanto de mim. “Sempre juntas, Eve”, murmuro enquanto continuo a carregá-la através do mercado. “Sempre”. Conforme passo através da entrada quebrada, as ruas estavam quietas, parecendo até mesmo mais quieta que antes, como se a cidade inteira tivesse parado junto com o meu coração, tudo congelado de medo da condenação. Caminhamos lentamente pela calçada, Evelyn inclinada levemente à medida que manca ao meu lado. Precisando de foco, tento não me perder em meus pensamentos, ficar alerta aos meus arredores. Mesmo assim não consigo evitar pensar em Thomas e Shawn. Quanto tempo eles tinham vivido depois de serem mordidos? Thomas foi dizimado, mordidas cobriam seus dois braços, sua barriga e suas costas, grandes pedaços de pele e músculo foram arrancados dele e ele pereceu muito rápido como resultado. Mas Shawn, assim como Evelyn, foi mordido só uma vez e durou três dias. Três dias... Esse é mais que provavelmente o tempo que Evelyn tem. E, Deus me ajude, não é tempo suficiente para mim. Nem mesmo perto.

*** “Lei…. Quieta”. Pulando da cama, com a mordida em sua perna agora limpa e enfaixada com gaze que peguei do kit de primeiros socorros que tive sorte em encontrar no escritório da pousada, Evelyn gesticula exaustivamente para me aproximar dela. “Vem aqui sentar do meu

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lado”, ela diz. Olho para a sua panturrilha, o sangue já permeava através da bandagem recém-feita e balanço minha cabeça. Eu não posso só ficar sentada sem fazer nada. Se sentar eu sei que perderei aquela pouca sanidade que juntei enquanto cuidava dela. Sem aquilo, a beira do abismo em que eu me segurava precariamente desmoronará e eu cairei em um poço de tristeza e dor. “Leisel?” Olho para seus olhos injetados de sangue, notando o quanto estava corada e o suor reluzindo em todo o seu corpo, todos evocativos de alguém que assisti morrer pela infecção. Engolindo em seco, tento suavizar minha expressão, não querendo dar a Evelyn o fardo adicional de minhas lágrimas, não quando ela já tem o suficiente para lidar. “Por favor, venha sentar comigo”, ela pede, sua voz pequenina e assustada. “Por favor, Lei”. Engolindo de novo, assinto rapidamente e levanto, inutilmente alisando os amassados da minha roupa. Deslizando meu lábio inferior por baixo dos meus dentes, mantenho meus olhos abertos no chão conforme vagarosamente faço meu caminho até o outro lado da cama. Eu quero chorar, até meu coração sair, mas luto contra as emoções dentro de mim, sabendo que será egoísta da minha parte perder a mim mesma. “Você está com sede?” pergunto enquanto subo na cama ao lado dela, tomando cuidado para não bater em sua perna machucada. “Com fome, cansada, frio -” “Para com isso, Lei”, ela diz, se aproximando de mim. Seu braço nu toca no meu, sua pele é uma verdadeira fornalha suada e pegajosa. Não consegui lembrar se a febre de Shawn progrediu tão rápido, mas eu não acho que tinha. Lembro dele agindo normalmente por umas boas vinte e quatro horas antes dos sintomas começar a aparecer. No segundo dia ele foi assolado pela febre, as postulas começaram a aparecer, mesmo assim ainda estava coerente.

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No terceiro dia entrou em um sono agitado antes de cair totalmente. Só fazia poucas horas que Evelyn foi mordida. O que isso significa? Nem mesmo irei ter os três dias horríveis com ela? “Isso dói”, Evelyn sussurra, deixando sua cabeça cair contra meu ombro. “É quase como se eu pudesse sentir isso se espalhando. No começo era só a mordida que doía, mas agora minha perna inteira e meu quadril também”. Não sabia o que dizer ou fazer, então em vez de falar apoio meu rosto no topo de sua cabeça e fecho meus olhos, xingando silenciosamente quando uma lágrima escapa. “Prometa-me, Lei”, ela diz, sua voz tensa de emoção. “Prometa-me que você não vai deixar eu me transformar. Que vai me matar antes que me torne perigosa”. “Shh!” murmuro, virando meu corpo para que possa envolver meu braço ao redor do seu corpo e enterrar meu rosto em seu pescoço. “Para com isso, Eve! Nós temos tempo. Não precisamos falar sobre isso”. “Precisamos”, ela protesta, tenta se libertar de mim, mas apenas me aperto mais a ela, me recusando a deixá-la ir, em mais formas que uma. “Se você me deixar transformar, Lei, poderei te machucar e não pode fazer isso comigo. Se eu te machucar, vou ter falhado. Eu prometi -” “Por favor”, imploro enquanto mais lágrimas se libertam, minha resolução em ser forte escorrega para longe. “Não consigo falar sobre isso, não ainda. Por favor, Eve, por favor, não me obrigue”. Deixando sair um suspiro pesado, o corpo de Evelyn fica flácido em meus braços. “Okay”, ela diz suavemente, afundando em meu abraço. Sua mão encontrou minhas costas, segurando com força o tecido da minha blusa. “Eu te amo”, ela sussurra. “E estou feliz que fui eu quem foi mordida e não você”. Sempre a protetora, minha protetora, é Evelyn. Sempre me colocando antes de si mesma, fazendo o que fosse necessário para me manter viva e segura. Se houvesse uma vez que eu preciso ser forte, é

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agora. Para mostrar a ela o mesmo amor que ela sempre me mostrou. “Vou fazer isso”, falo com a voz sufocada. “Eu não vou deixar você se transformar. Prometo”.

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Capítulo Quarenta e Quatro Evelyn

“Você lembra aquele vestido amarelo lindo que o Shawn trouxe para mim no nosso aniversário de casamento?” pergunto, tossindo lamentavelmente. Muco e sangue se acumulam no meu peito, entupindo minhas vias aéreas e fazendo o som da minha respiração soar irregular e rachada conforme Leisel cantarola em meus braços, reconhecendo minhas palavras. “Amava aquele vestido. Eu ainda desejava ter ele”, digo suavemente, meus olhos vidrados enquanto meus pensamentos retornam. Não sei de onde as memórias vinham, mas a imagem de usar o vestido, de sentir as mãos de Shawn apertadas em minha cintura à medida que dançávamos, o assobio do tecido macio em minhas pernas nuas…. Era quase como se estivesse lá, de volta ao pequeno bar onde celebramos nosso casamento. Estou de volta ao passado quando tudo no mundo era bom e correto. Quase posso ouvir a música tocando, o som do violão ao fundo, um suave dedilhar, de pele movendo pelo metal enquanto dedos corriam ao longo das cordas. “Eve?” Leisel pergunta, a voz dela é um eco silencioso de si mesmo. O mundo está desfocado ao mesmo tempo em que eu derivo em uma nuvem de entorpecimento. A dor excruciante que agarrou cada parte de mim foi substituída quando meus nervos começaram a morrer. Eu posso senti-los, morrendo uma morte individual um por um enquanto o torpor se espalha pelo meu corpo. O entorpecimento é uma benção, uma pequena troca por tal doloroso e horrível jeito de partir. As mãos de Leisel estão em meus ombros, posso senti-los, sentir seus dedos magros pressionando carinhosamente minha carne quente. E eu estou tentando, com tanta força, focar nela, lutando para ver seu

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rosto ao invés do borrão que via agora. Porque quero vê-la uma última vez. Eu preciso ver. “Eve! Não, não ainda! Não estou pronta!” Ela está gritando para mim, me chacoalhando agora, as suaves vibrações de suas palavras dançam sobre minha pele febril. Eu continuo tentando, querido Deus, com toda a minha força remanescente para voltar da escuridão imperiosa, para dar a ela mais tempo. Só algumas horas a mais, ou mesmo minutos. Porque isso tudo aconteceu rapidamente. Para ela e para mim. Mas não há como parar a infecção. Ela se espalha como um ácido quente, queimando através do meu corpo, infestando e infectando cada parte de mim. Eu posso me sentir escorregando para longe, tudo o que sou e o que fui e isso é assustador. Mais assustador do que tudo que já experimentei antes e muito mais apavorante do que achei que seria morrer. “Leisel”, consigo dizer antes de engasgar com o muco de novo. Minha vista clareia momentaneamente e consigo ver seu rosto se aproximar, mas a visão dela era de partir o coração. “Eu sinto muito”. Soluço, abandonando a minha autopiedade e levantando uma mão a seu rosto úmido. “Eu lembro”, ela responde, sua voz rouca. “Lembro do vestido”. Puxando-me para cima em seus braços, me puxa para mais perto até seu rosto estar na curva do meu pescoço. Sei que ela está chorando, que suas lágrimas devem estar quentes e molhadas contra a minha pele, mas não consigo senti-las. Tudo que consigo sentir é o pânico intenso que derrama sobre mim enquanto meu corpo se transforma em algo além, algo mal e cruel, algo que machucaria Leisel sem pensar. O mero pensamento de mim machucando ela me deixa amendrontada, tonta e sem ar de tanto medo. “Estava linda naquele vestido, Eve”, ela sussurra. “Shawn sempre escolhia vestidos lindos para você. Ele te amava tanto”. Suas palavras enlaçadas com uma tristeza amarga seguem quando ela começa a

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chorar com mais força. “Eu sinto muito, sinto tanto”, choramingo de novo, incapaz de ouvir minhas próprias palavras apropriadamente, meus tímpanos parecem perfurados e doloridos. “Perdoa-me. Por favor, por favor, me perdoa”. Abruptamente Leisel se afasta de mim, me forçando em uma posição ereta e me segurando conforme meu corpo não queria nada além de cair flacidamente na cama. “Você, pare com isso agora mesmo, Evelyn. Eu te amo e não tem nada que se desculpar”. Apesar de sua cascata de lágrimas, ela se inclina para frente e dá um beijo na minha testa. “Vou ficar bem, eu te prometo. Não precisa se preocupar comigo”. “Prometa-me”, falo com a voz rouca. “Me prometa que você vai ficar aqui que é seguro. Pode morar aqui, Lei. Você pode sobreviver aqui. Prometa-me que vai ficar”. Uma nova cascata de lágrimas desce por suas bochechas, mas ela concorda entre lágrimas e tenta dar um pequeno sorriso. “Eu prometo”, ela sussurra. Tento sorrir de volta, não tenho certeza se consigo já que meus músculos não estão mais respondendo. Mas anseio sorrir ao ver o seu rosto, tão cheio de força e determinação, mesmo encharcado de dor. Vê-la desse jeito me permiti uma pequena fatia de esperança por tudo que estava acontecendo – eu morrendo e tendo que deixá-la aqui sozinha. É uma libertação saber que Leisel está forte agora, que será capaz de sobreviver sem mim. Relembro de Leisel passando por cada um dos cinco estágios do luto quando ela perdeu Thomas. E agora, comigo, ela faz o mesmo, alcançando o estágio final – aceitação da situação a mão. Sua negação da situação veio primeiro, a negação de que isto está realmente acontecendo, que eu estou verdadeiramente morrendo e a deixando sozinha neste mundo. Seguindo rapidamente sua negação, ela se tornou raivosa, até mesmo furiosa por eu realmente a deixar sozinha. Porque como poderia fazer isso com ela? Se eu a amava, se

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Thomas a tinha amado, como cacete, poderíamos continuar morrendo e a deixando? Ela gritou comigo como se eu tivesse uma escolha de fato, como se eu estivesse escolhendo deixá-la. Como se pudesse de alguma forma ter decidido ficar. Mas não podia escolher; ela sabia disso. Eu estava morrendo e não apenas estava morrendo, mas estava me tornando a coisa que eu mais temia, mais que a própria morte. Porém não poderia – não iria – ficar nervosa com ela por suas emoções inconstantes, por que realmente estava deixando ela sozinha. Não havia nada que eu pudesse fazer sobre isso e a culpa disso pesava sobre mim com força, me consumindo mais que qualquer infecção possivelmente faria. Em seguida me implorou para deixá-la arrancar minha perna, tirar as duas se fosse preciso, como se isso fosse ajudar de alguma forma. Ofereceu-se para me levar de volta a Purgatório, pensando que talvez pudessem nos ajudar. Graças a Deus, no momento ainda estava forte o bastante para rir dessa sugestão. Não importa o que acontecesse, nunca voltaria lá e jamais permitiria que Leisel voltasse também. Porque ela merece coisa melhor que aquele lugar, muito mais. Certamente merece coisa melhor do que este mundo. Não importa o quanto implorou e mendigou, eu não cedi. E então as lágrimas vieram, os soluços e guinchos e com eles mais culpa se juntou ao meu já dolorido e fraturado coração. Como poderia fazer isso com ela? Ela não conseguiria sem mim. Eu morreria e depois ela morreria e então qual teria sido o ponto? O que tinha sido todos lutarem e morrerem se nenhuma de nós conseguiria? Mas agora, olhando dentro dos olhos dela e vendo a tal poderosa determinação com eles, foi como um presente de uma força desconhecida. Não de Deus, por que não acredito mais em Deus, mas talvez algo mais, definitivamente algo mais forte que qualquer um de nós. Não há mais medo ou raiva em sua expressão, há tristeza e pesar, mas, além disso, existe força e a dura e fria verdade do que está

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chegando. Era isso. Meu ato final. Nosso ato final. Juntas. “É hora”, eu sussurro, minha garganta obstruída e dolorida. “Não consigo-” Interrompida pela tosse, engasgo com mais sangue e catarro, sentindo espirrar no meu queixo. “Eu te amo”, digo, tentando novamente. “Estou….” Enquanto meu corpo inteiro ficava totalmente relaxado, minhas palavras dispersam e minha visão escurece. Um gosto de cobre preenche minha boca e subitamente estou convulsionando, meu corpo debate violentamente nos braços de Leisel. Mesmo assim não consigo sentir, não no sentido de que aquilo está acontecendo de verdade comigo. É mais como se meu corpo não fosse mais meu, como se não estivesse mais dentro dele e sim olhando para mim mesma de baixo, vendo meu próprio corpo sacudindo e sacudindo, assistindo conforme Leisel tenta me segurar, seus soluços ficando mais altos. Eu desejei que pudesse ter dito a ela quanto a amo uma última vez, quão eternamente grata sou por ter tido o privilégio de ser sua amiga. Mas mais que tudo, desejei que pudesse ter feito a ela uma outra promessa – a promessa de que a veria na próxima vida e que esperaria por ela com Shawn e Thomas. E que até aquele dia, nós três estaríamos olhando por ela. Protegendo-a. Sempre. Quando minhas convulsões começam a parar, Leisel me abraça uma última vez antes de me deixar pesadamente cair no colchão. Apertando seus lábios no topo da minha cabeça, sussurra seu último adeus. Foi quando soube que está na hora e estranhamente, estou pronta para isso. É de partir o coração e devastador ter que deixá-la, mas estou

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pronta. Eu quero ir para casa, estou até mesmo desesperada para partir, voltar a antes de tudo isto acontecer. Quero retornar para uma época mais simples cheia de risadas e amor, para quando ainda me lembrava de sentir a respiração do meu marido no meu rosto. Desejei olhar no fundo dos lindos olhos dele novamente, o jeito que olhavam para mim, tão cheios de vida e não os olhos nebulosos e desesperados que assombraram a minha alma por anos até agora. Almejei escorregar para dentro do meu vestido de seda amarelo, sentir suas mãos em torno da minha cintura, ouvir o abafado refrão do violão ecoando em meus ouvidos enquanto balançávamos juntos. Sorrindo para mim mesma, sussurro um adeus a minha amiga, a melhor amiga que uma mulher poderia ter e então fecho meus olhos, caindo de volta ao esquecimento. “Me perdoa”, ouço Leisel dizer. “Por favor, me desculpa”. E depois não há nada mais.

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Capítulo Quarenta e Cinco Leisel

Nunca fiquei sozinha antes. Não assim. Não tão completamente, absolutamente sozinha, sem nenhuma alma no mundo para conversar, dar risada, compartilhar até mesmo as coisas mais mundanas e simples. Quando os dias se tornam semanas e as semanas se meses, o silêncio é ensurdecedor; o eco dos meus próprios passos, da minha própria respiração, soando vazia e desolada. Todo dia acordava de manhã, me lavava, prendia meu cabelo em um rabo de cavalo no alto, vestia um dos dois pares de calças cargo justas e uma camiseta preta justa – uniformes que comecei a reservar especificamente para a pilhagem. Depois arrumava minha cama e então saia para o coração da cidade para coletar qualquer recurso que pudesse trazer para a pousada. Eu estava fortificando da melhor maneira que conseguia, assim como Evelyn queria que fizéssemos. Havia mais prédios seguros, algo que descobri durante uma das minhas muitas viagens a cidade, mas não conseguia deixar a pousada. Não que a pousada não tivesse suas vantagens. Ela estava fora da estrada de cascalho e a parte de trás ficava no alto da encosta de uma colina e parcialmente escondida por trás de um emaranhado de árvores. Mas mais que tudo, queria ficar por que isso mantinha a memória de Evelyn em suas paredes e não estava preparada para deixá-la ir. Primeiro, coloquei tábuas nas janelas e portas do primeiro andar, deixando apenas a entrada de serviço na parte de trás disponível. Para a minha própria paz mental, eu a equipei com uma impressionante barra improvisada, usando um bloco de madeira que fixei na parede

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que ia de um lado ao outro do batente da porta. Deixei o primeiro andar como estava, quebrado e bagunçado, uma confusão de móveis e pertences desordenados. Olhando pelo lado de fora, pareceria a alguém ou algo que estivesse passando apenas outra estrutura destruída e nada de valor. Mas por dentro, assim que alcançava o segundo andar onde fiz a minha morada, era uma autêntica fortaleza. E mais, deixei só uma das três camas, usando o resto da mobília para criar um bloqueio na escadaria e no corredor. Cada dia era tipo uma corrida de obstáculos na bagunça que tinha feito intencionalmente, mas era a proteção necessária contra qualquer tipo de intruso. Se o barulho de alguém ou algo tentando subir as escadas não me acordasse, então nada acordaria. Ainda assim, levei minhas medidas de proteção um passo a frente, criando uma cerca com algumas coisas, dúzias de bastões de esqui que peguei no pavilhão de esqui. Amarrando os pares deles juntos em um X, os espalhei por toda a pousada, o instrumento perfeito de morte para um infectado desatento e um impedimento útil a um visitante da variedade vivo não convidado também. Com o auxílio de um carrinho do mesmo supermercado onde Evelyn foi mordida, fui capaz de carregar as coisas mais pesadas para o alojamento, que de outra forma não teria tido força para carregar. Levou várias semanas para fortificar o alojamento apropriadamente do jeito exato que eu queria, de forma que me fizesse sentir segura, mas isso me mantinha ocupada. Mais importante, mantinha meus pensamentos longe do luto. Apesar de o trabalho duro manter minha dor afastada durante o dia, nada poderia impedir meu pensamento de vagar durante a noite. Era quando sentia mais falta de Evelyn, quando estava somente eu e a madrugada, o doce perfume de flores flutuando pela janela aberta na brisa. Sentia saudades dela então – o som de sua voz, o brilho em seus olhos, o jeito que sua mão caia quando seus dedos estavam entrelaçados aos meus. Mas o que sentia mais falta era a sua presença. Apenas saber que

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ela estava lá, dormindo ao meu lado, caminhando ao meu lado; não importa o que, ela sempre estava lá. E agora havia partido. Pensei em acabar com tudo, apenas deixar ir. Seria fácil enfiar uma bala na minha cabeça, rápido e indolor. Poderia estar com ela de novo, com Thomas também. Com todos que perdi. E em algumas vezes, durante noites muito escuras preenchidas por longos ataques de choro e me sentindo mais sozinha do que jamais me senti antes, quase fiz isso. Foi a culpa que me impediu em cada uma dessas vezes. As muitas vidas que foram perdidas para que pudéssemos alcançar um lugar seguro como este. Thomas e Shawn, Alex e Jami e Evelyn. Todos eles morreram tentando sobreviver, tentando garantir que todos nós sobrevivêssemos. Quão egoísta eu seria por tirar a minha vida quando deram a deles para eu estar aqui, neste lugar seguro? Isso era tudo que procurávamos. Um lugar intocado, seguro e calmo. Um lugar onde pudéssemos viver nossas vidas em paz. Não podia desperdiçar isso, não podia largar isso por nada, então foquei no fato de que tínhamos feito isso. Porque através de mim, todos eles viviam, mesmo se fosse apenas na memória. Então continuei seguindo em frente, sobrevivendo e logo os dias começaram a se misturar, um sendo igual ao anterior. Pacíficos e calmos, com exceção de um ou outro infectado que sempre me livrava rapidamente. Desenvolvi uma rotina, que aderi e podia confiar. Depois da minha caminhada pela cidade a cada manhã, fazia meu café da manhã e depois do café, lia um livro de uma grande coleção que acumulei devagar. Almoço normalmente passava do lado de fora, minhas pernas penduradas na beira da encosta inclinada, cantarolando para mim mesma e toda noite, assim que o sol se punha, jantava com Evelyn. Com o auxílio de uma pá, eu a enterrei perto do alojamento, enrolada na mesma colcha onde morreu, próximo a um pequeno

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bosque de árvores onde a grama e flores selvagens cresciam fortes e altas. Seu túmulo jazia debaixo de uma grande árvore, seus ramos pesados confortavelmente sombreando a área e seu tronco largo era perfeito para se encostar. “Preciso aprender a caçar”, eu digo, enrugando o nariz para a lata de creme de milho recentemente aberta. “Juro que essa coisa vai cair mal”. Muitas vezes planejei estabelecer uma área de prática de tiro, mas detestava gastar minhas balas e tinha ainda mais receio de que os tiros alertassem os infectados das proximidades ou vivos que estivessem de passagem. Então continuei quieta. Enfiando uma colher cheia na boca, engulo rapidamente, me apressando em pegar minha garrafa de água para lavar o gosto ruim. “Deus, sinto sua falta, Eve”, falo enquanto abaixo a lata de comida e coloco minha mão sobre a pequena pedra. “Tudo parece tão insignificante sem você aqui”. E é. Tudo isso, mesmo comer parece não ter sentido sem alguém com quem dividir a comida. A cada dia passado eu aumentava em número, mas, ao mesmo tempo, me sentia mais e mais vazia. A ideia de viver se tornou infinitamente mais difícil que nunca. “Eu só queria -” Um som não familiar me silencia – o barulho de folhas esmagadas em uma pegada, o som de pedras raspando no pavimento – e alcanço minha arma em meu quadril. Levantando-me, corro velozmente para trás da árvore, esperando pelo que estava certa de que seria um infectado. Se fosse um ou dois apenas, não me preocupava; poderia derrubá-los sem nem uma gota de suor. Porém mais que isso…. Propositalmente comecei a dar partida no Jeep uma vez por dia por essa razão, mantendo-o carregado com suprimentos, para o caso de precisar sair as pressas. Tateando meu cinto de armas, solto um suspiro de alívio quando descubro a chave pendurada ao lado do estojo

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da faca, lar de um estilete serrilhado. “Olá?” uma profunda voz chama. “Alguém ai?” A surpresa pula em meu estômago, me fazendo congelar no lugar. Não é um infectado, mas uma pessoa viva, respirando. Quantos eram? Eram do Purgatório? Eles me encontraram? Conforme o pânico aumenta, mais e mais perguntas se erguem a cada respiração desesperada que eu dava, a voz chamou de novo. “Não vou te machucar, moça. Estou sozinho, só passando por aqui, procurando comida”. Ele sabe que eu estou aqui e tinha me visto, deixou aquilo claro, então se esconder seria ridículo. “Estou abaixando minha arma”, ele fala. “Prometo que não vou te machucar. Não precisa ter medo de mim”. Espiando por trás do tronco da árvore, minha arma firme e segura, posso perceber a vista borrada de um homem parado um pouco abaixo na estrada. Para dar veracidade a sua palavra, ele se inclina para baixo, deixando cair levemente seu rifle no chão, antes de se levantar e erguer suas mãos no ar. Lentamente, segurando minha arma em minha frente, minha outra mão ao redor do cabo da minha faca, saio de trás da árvore e tomo meu caminho em direção a estrada. Escaneando as áreas adjacentes, procuro por qualquer outro sinal de vida e não encontro nada. Vindo parar na beirada da grama, deixando uns bons dez passos de distância entre nós, eu o avalio cautelosamente. Ele está imundo, coberto de poeira e sujeira, como se não visse um banho ou roupas limpas há semanas, talvez meses. Seus longos cabelos castanhos, cinzento ao redor de suas têmporas, foi puxado para trás, parecendo dreadlocks, assim como sua barba comprida. Uma grande mochila de montanhista está em suas costas, as alças cobrindo seus ombros cansados e magros e uma variedade de armas afixadas na mochila balançavam atrás dele. “Eu não vou te machucar”, ele repete, seus olhos escuros

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encontrando os meus. Não confio nele, nem por um segundo. Eu nunca serei tão estúpida de confiar às cegas em qualquer um de novo, mas havia alguma coisa nele, algo familiar que perturba as minhas memórias. Os longos cabelos castanhos, a longa barba desmazelada, o jeito que seus ombros caiam de forma triste. Embora estivesse mais magro agora, não tão robusto como eu me lembrava dele e suas feições faciais estarem meio esqueléticas, escurecidas e abatidas. E é quando isso me bate, quem ele era. “Você”, murmuro, deixo minha mão segurando a arma cair ao meu lado. Não digo nada mais, insegura do que dizer. Como cumprimentar um homem que você mal conhece, um homem cujo primeiro e único encontro com tinha resultado na morte de sua filha? Inclinando sua cabeça para um lado, abaixa um braço, mas ergue o outro para proteger seus olhos do sol ofuscante. Apertando os olhos, me olha da cabeça aos pés, seus olhos escancarando de surpresa quando ele alcança meu rosto novamente. “Você”, é tudo o que ele diz. Por um momento ficamos ali, a meros dez passos um do outro, simplesmente encarando, até que o silêncio prolongado começa a parecer esquisito. Limpando minha garganta, oscilo em meus pés e gesticulo em direção ao meu piquenique improvisado. “Com fome?” pergunto cautelosamente. “Tenho comida e água e….” corro meus olhos por suas roupas sujas e esfarrapadas uma segunda vez. “E roupas limpas”. Seu olhar varre a área atrás de mim. “É só você?” ele pergunta. “O que aconteceu com….” Ele pausa, seus olhos novamente encontrando os meus. Um segundo passa e sua expressão muda, de repente cheia de entendimento e compaixão. Balanço minha cabeça, momentaneamente desviando meus olhos. “É só eu agora”, digo calmamente. Se esticando, ele coloca sua mão em sua nuca e suspira pesadamente, seus olhos fitando o horizonte. “Vida solitária, não é?

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Porra de vida solitária”. Voltando a focar em mim, ele fala, “Tem certeza de que não se importa em ter companhia? Eu vou entender se não quiser. Nunca é demais ser cuidadoso nestes dias. Só preciso de alguma comida e uma boa noite de sono e depois posso seguir meu caminho”. Atrapalhando-me ao procurar pelas palavras certas, lutando para arranjar meus pensamentos, balanço minha cabeça novamente. “Não”, digo apressadamente. “Não, está tudo bem, pode ficar o quanto precisar. Tenho uma lata de creme de milho a mão se você quiser”. “Creme de milho?” enruga seu nariz e me dá um pequeno sorriso. “Acho que mendigos não podem ser exigentes, uh?” Sorrio de volta. “Tenho uma péssima mira, então caçar tem estado fora de questão”. Seus olhos arregalam levemente e novamente ele faz uma varredura visual na área. “É um bom lugar de caça por aqui?” Admitindo em resposta, ele levanta seu ombro e os encolhe. “Poderia te ensinar. Apontar não é difícil. Tem tudo a ver com a sua respiração”. De repente ele estende sua mão. “Então, temos um acordo, certo? Você me dá um lugar para ficar e eu te faço a maior pistoleira do Oeste?” Não o conheço, nem mesmo sei seu nome, mas algo inato me diz que talvez pudesse confiar nele. Talvez fosse o mesmo indício que disse a ele que poderia confiar na gente quando cruzamos em sua cabana nas matas naquele dia horrível. Dando um passo a frente, seguro a mão dele. “Fechado”, falo. Sua mão imunda alcança a minha, seus dedos fechando firme, mas gentilmente e me dá uma rápida e enérgica balançada. “Meu nome é Joshua”, ele diz. “E é bom para caramba ver um

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rosto amigável”. “Leisel”, respondo, sorrindo de novo. “Meu nome é Leisel”.

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Epilogo Evelyn

“Me traz um café, baby?” Shawn afasta seus olhos de Thomas e sua discussão acalorada sobre os últimos aborrecimentos em relação aos seus times favoritos, levanta uma sobrancelha para mim. “Quem precisa de café quando temos limonada?” falo enquanto me esgueiro pela porta parcialmente aberta e entro na varanda. O Labrador19 de seis meses de Leisel e Thomas corre em círculos ao meu redor, quase me derrubando conforme tento me equilibrar sobre o chão irregular com meus saltos de oito centímetros. Usando meu vestido de verão favorito, comprido e sedoso, a sombra do sol dourado, meus cachos de cabelo loiro avermelhado empilhados no topo da minha cabeça, estou carregando uma bandeja com copos e um jarro de limonada. Assentando a bandeja na mesa, junto meus lábios em um sorriso maroto e pisco para o meu marido. “Esta batizado”, eu digo, encolhendo meus ombros, de forma enfática. “É claro que você fez isso”, Thomas fala, rindo enquanto alcança um copo. “Não seria você se não fizesse”. “Obrigado, linda”, Shawn diz, me puxando para o seu colo. Enrolando meus braços ao redor do seu pescoço, propositalmente deixo minhas mãos deslizarem em seus bagunçados cabelos castanhos e juntos compartilhamos um longo beijo. Nunca me canso dele e era o 19

Raça canina.

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mesmo para ele, nossa paixão um pelo outro só cresce conforme os dias passam. A respiração de Shawn varre em meu rosto à medida que ele se afasta do nosso beijo e olho dentro dos seus olhos, sorrindo suavemente enquanto limpo uma mancha do meu batom vermelho em sua boca. “Porque sempre apanho quando faço isso?” ouço Thomas dizer em voz alta. Rindo, afasto os olhos de meu marido, olhando para o outro lado da mesa, para Thomas, que está sorrindo abertamente, mostrando o par de covinhas que Leisel adora. Seus olhos azuis claro reluzindo de humor, seus cabelos avermelhados parecendo dourados sob o sol, olhou para o assento vazio ao lado dele. “Ela nunca me deixa beijá-la em público”. “Mas deixa beijá-la quando estão sozinhos?” Shawn pergunta. “Por que isso é tudo o que importa”. O sorriso de Thomas fica ainda maior e um pouco malicioso. “Bem, acho que isso nos responde”, falo, sorrindo. “Falando nisso…. Onde está Lei? Ela não é de se atrasar”. Thomas dá de ombros. “Tinha algumas coisas para fazer que ela não conseguiu fazer”. Pensando no bolo de chocolate que fiz especialmente para ela, franzo a testa. “Não se preocupe, baby”, Shawn diz, correndo suas mãos por minhas costas. “Você vai vê-la de novo e então pode chapá-la com o seu bolo horrível de chocolate o quanto quiser”. “Hey!” grito, minha voz tinindo de gargalhadas. “Não está tão ruim assim!” “Esta sim”, Thomas retruca, confirmando com gravidade. “Está mesmo, de verdade”. Comprimindo meus lábios, tento abafar minha risada, balanço a cabeça para os dois. “Vocês são horríveis, sabiam?” fingindo raiva,

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cruzo meus braços no peito e encaro o céu. “Hey”, eu digo, apertando os olhos. “É uma águia?” “Parece”, Shawn fala. “Estranho, não? Quando que a gente viu uma águia rodando por aqui?” “Lindos pássaros”, Thomas murmura, protegendo seus olhos com as mãos para observar a águia que sobrevoava o céu acima de nós. Aconchegando-me mais perto do meu marido, não consigo evitar desejar que Leisel estivesse aqui. Ela ama coisas simples como essa. Sempre amou as coisas simples. “Ooh!” eu digo, pulando para cima. “Me dá seu celular, Tom! Temos que tirar uma foto para ela, assim a gente mostra quando chegar!” Thomas pega seu celular na mesa e eu rapidamente o ergo, deslizo meu dedo com força enquanto procurava pelo aplicativo da câmera e depois tiro várias fotos antes que a águia ficasse fora de vista. “Sim, então, antes da minha linda esposa nos interromper”, Shawn fala, sua atenção voltando a Thomas. “O que estava dizendo é que isso não é culpa do dono, é culpa dos malditos recrutadores! Se prestassem mais atenção….” Suspirando ruidosamente, me viro e me solto de Shawn. Levantando, me dirijo para a casa. Uma vez lá dentro, fechei a porta de correr atrás de mim e dou uma olhada pela minha cozinha, para o bolo de chocolate ao lado de uma garrafa aberta de vodka, para as louças do jantar acumuladas na pia e para a geladeira, coberta por fotos coloridas de amigos e parentes, tiradas ao longo dos anos e paro na minha favorita. É de Leisel e eu, ela em uma camiseta básica branca e calças cigarretes coral, eu em uma blusa estilo baby doll preta e uma saia combinando, nossos braços ligados enquanto fazíamos uma careta para a câmera com grandes sorrisos em nossos rostos. “Estou colocando a cobertura nesse bolo”, eu digo com severidade para a fotografia. “E estou guardando isso para você. Vai comer cada

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pedacinho quando chegar aqui”. Virando, me dirijo para a pia, ligo o rádio e começo a lavar a pilha de louças, conforme cantarolo junto com a melodia de “The Ballad of Lucy Jordan”.

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Série Thicker Than Blood #1 Thicker Than Blood - Madeline Sheehan  

UMA VERDADEIRA AMIZADE NUNCA MORRE. Leisel e Evelyn perderam tudo. Maridos. Famílias. Amigos. Vidas que faziam sentido. Tudo que tinha resta...

Série Thicker Than Blood #1 Thicker Than Blood - Madeline Sheehan  

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