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Sinop se Cass McKenna prefere a companhia dos fantasmas a dos vivos. Fantasmas não são complicados e dependentes, e eles sabem os segredos de todos... E Cass adora saber os podres. Ela está na missão de explorar os segredos sujos de seus colegas de escola. Mas quando o vice-presidente do conselho estudantil descobre seu segredo, todo o esquema da Cass fica em perigo. Tim quer a ajuda dela para fazer contato com sua recém falecida mãe e Cass relutantemente concorda. Quando Cass começa a ficar irresistivelmente ligada a vida de Tim, ela se surpreende ao perceber que ele não é tão ruim quanto ela pensava – e que ele precisa de mais ajuda do que qualquer um pode imaginar. E talvez esteja na hora de dar outra chance para os vivos.

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Para mamãe e papai, que me deram um amor por histórias antes que eu pudesse escrever uma única palavra.

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Capítulo 1 Você pensaria que seria fácil conviver com uma pessoa depois que ela está morta. Não Paige. Ela leva suas obrigações de irmã mais velha muito a sério. Faz quatro anos desde que ela se afogou, e ela ainda está no meu pé. — Você não está realmente usando isso para a escola — ela disse, empoleirada no ar logo acima da cabeceira da cama de ferro forjado da minha cama, seus tornozelos cruzados e inclinados para o lado. Era o jeito que ela costumava se sentar à mesa, quando fingia estar interessada em cada palavra do papai enquanto sua mente se afastava para tópicos escolhidos. Porém esses dias ela fazia isso sem uma cadeira. — O que há de errado com eles? — eu perguntei, fechando o zíper do meu jeans. Ela estava vestindo jeans, também. Claro, seu jeans era apertado, capris de baixo corte. Os meus eram grandes e largos. Eu pisei na bainha tantas vezes que eles eram tão esganiçados como o meu tapete violeta, mas ei, eles eram confortáveis. Paige franziu seu nariz petulante e sacudiu a cabeça. Era muito pouco as coisas que a faziam trabalhar, tais como o meu inexplorado senso de moda. Na maioria das vezes, ela tinha esse aspecto desbotado de lenço de papel, tão translúcida que eu podia ver através dela. Entretanto, bastava apenas chamar a sua atenção, e ela se iluminava como uma lanterna chinesa. Logo em seguida ela estava radiante, desde os cabelos loiros descoloridos até suas sandálias de tiras. Alguns anos atrás isso me deixaria zangada. Nesses dias, eu estava acostumada. Era como um jogo: quão mandona ela poderia ficar, quão malcriada eu poderia ficar. Brincando de ser normal. — Você nunca olha para si mesma, Cassie? — Paige disse. — Você tem coisas mais agradáveis no seu armário. É como se você quisesse ser uma relaxada.

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the — Há coisas mais importantes do que roupa, você sabe. — Você poderia ao menos escovar o cabelo. Por favor.

Eu mordi meu lábio para tirar a franja dos meus olhos e sorri. — Tudo bem, se é tão importante para você. Eu encontrei minha escova na pilha de revistas em quadrinhos, pratos sujos, e trocados em cima da minha cômoda e passei através da confusão de lama marrom do meu cabelo. Paige flutuou, sua mão roçando a minha cabeça com um formigamento leve. O cheiro de maçãs carameladas e canela saíam de seus dedos. — Você pode ser bonita, Cassie — murmurou ela. — Você tem uma figura bonita, se você se vestisse para mostrar isso... um pouco de maquiagem, eu aposto que seus olhos poderiam parecer muito verdes, se você fizesse certo, e um novo corte de cabelo... — Por que se preocupar? Paige suspirou. — Você quer ter amigos, não é? Pessoas se importam com essas coisas. Você tem boa aparência, eles são legais para você. Você parece uma bagunça, eles estão rindo sobre isso nas suas costas. Meu sorriso morreu. Eu puxei a escova através de um nó, estremecendo. Pelo que eu havia visto, boa aparência não impedia que as pessoas fizessem piada de você. Eu me vestia muito decente no colégio, e isso com certeza não me ajudou. Mas isso é história antiga. As crianças em Frazer Collegiate não riam de mim agora. E eu tinha bastante sujeira de todos eles para ter certeza que ficasse dessa maneira. Não que eu pudesse dizer isso a Paige. Se ela soubesse o que se passou na escola, ela estaria dez vezes mais assustada do que ela estava com o meu jeans. — Você ri nas minhas costas?— eu perguntei, em vez disso. Paige me deu o seu melhor olhar de irmã mais velha: sobrancelhas arqueadas e os lábios franzidos. Considerando que ela era a mesma, com doce dezesseis anos, de quando ela morreu e eu teria dezessete em poucos meses, estava ficando mais difícil levar aquele olhar a sério. — Claro que não — ela disse. — Você é minha irmã. Eu tenho que olhar por você.

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the — Puxa, obrigada. Aliás, ninguém está fazendo piada de mim. — Mas...

Eu arqueei minhas sobrancelhas de volta a ela. — Confie em mim, eles não estão. — Ok, ok. — Seu lábio inferior se enrolou em um muxoxo. — Eu só estou preocupada. Você deve cuidar de si mesma. Você costumava... eu acho que você costumava se maquiar, se arrumar. Não costumava? Eu desviei o olhar. Paige quase nunca falava sobre coisas passadas. Mas ela estava certa, se este fosse o início da sétima série, eu teria experimentado meia dúzia de roupas, passado batom fraco o suficiente para que a mamãe não notasse, me preparando para mais um dia de risada com meus amigos e corando perto dos meninos. Muita coisa mudou desde então. Muito que Paige não quis ver quando ela estava viva, e agora provavelmente nunca entenderia. — Eu estou sobrevivendo muito bem com isso — eu disse, puxando meus cabelos em um elástico. — Podemos falar sobre outra coisa? Além disso, você deveria estar contente. Eu poderia ter um bilhão de amigos e sair toda noite, e então você ficaria entediada. Paige pairou sobre mim enquanto eu colocava o dever de casa de ontem à noite na minha mochila. Ela não disse nada, apenas me assistiu com seus olhos preocupados e sua testa enrugada. Isso me fazia sentir toda torcida no interior. Mesmo após quatro anos, parecia estranho que às vezes ela prestasse tanta atenção em mim. Logo antes de morrer, Paige e eu tínhamos uma relação bastante defeituosa. Na maior parte era constituída comigo tentando me enfiar em seu caminho, e Paige fazendo o seu melhor para me evitar. Ela virou uma princesa adolescente na escola, e eu era uma adolescente desajeitada que restringia seu estilo. Eu não entendia porque ela não me queria saindo mais com ela. Ela não entendia porque eu não podia deixá-la sozinha. Eu acho que foi sorte não ter ficado assim. A morte deixou o sentido de moda de Paige intacto, mas ela ferrou a maior parte de sua memória. Aqui e ali, o tempo ficou preso. Algumas coisas ela fala como se quatro anos atrás fossem ontem. Quando meu pai transformou o antigo quarto dela em uma oficina, demorou um mês antes de a mudança funcionar em sua cabeça. Até então, ela se trancava no meu quarto uma vez ou duas por dia, lamentando sobre como alguém havia

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roubado todas as suas coisas. Eu lhe disse o que estava acontecendo, ela se acalmou, e então oito horas depois ela havia esquecido e surtado mais uma vez. Mas, eventualmente, Paige notava as coisas que ficaram diferentes, como a sala, como eu envelhecendo, e a escrita de agora sobre a de antes. Em sua mente, agora temos sido melhores amigas para sempre. E realmente, apesar dela ser irritante, eu tinha amigos muito piores do que ela. Pelo menos ela dizia o que ela estava pensando em vez de escondê-lo sob sorrisos e doces conversas. Os mortos, talvez porque eles não têm nada a perder, sempre são honestos. Coloquei minha mão no rádio. — Qual estação você quer? — Eu não sei. — Paige olhou para fora da janela tristemente, seu brilho escurecendo. — Que tal uma de hip-hop? — Claro. — Virei o disco e defini o volume baixo o bastante para que papai não percebesse que eu o havia deixado ligado. Paige não se mexeu. Quando olhei, ela estava tão desbotada que eu podia ver através dela até a pintura rachada na moldura da janela. — Volto logo — eu a lembrei. — Papai deve estar ao redor. E mamãe... — eu percebi que não sabia onde mamãe estava. Um caroço como uma cereja ficou preso na minha garganta. Bem, essa era a maneira que eu lidava com a mamãe esses dias. Mas Paige iria realmente brilhar até que ela voltasse. — Eu sei — disse Paige, e sorriu. — Obrigada. O piso do corredor rangeu. Nós duas ficamos quietas. Então veio a marca do bater de papai na porta: um, um-dois-três. — Sim? — eu disse. Paige começou a se afastar. Papai e mamãe não podiam ver ou ouvi-la. Ela ainda sai com eles às vezes, principalmente com mamãe, naqueles breves momentos em casa, entre as assinaturas de revista, mas isso parecia deixá-la desconfortável. Papai abriu a porta. — Olá — ele disse, estudando-me através de seus óculos oval. Ele esfregou o estreito lugar manchado no topo de sua cabeça com seus dedos manchados. — Começou a pintura? — eu perguntei. Papai pegava uma série de projetos diferentes, mas seus desenhos favoritos eram com a tinta preta lisa. Nos últimos dias, ele vinha trabalhando em um estudo autorizado da Igreja de São Michael, tão embrulhado nele que ele saía apenas para as refeições e nosso tempo habitual de

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TV depois do jantar, quando cedíamos à nossa fraqueza comum por seriados antigos. Ele acenou. — Os ladrilhos do mosaico são bastante desafiadores. — Você vai ter que me mostrar logo que estiver pronto. — É claro — ele disse, e então, — você está parecendo bem. Curvei minha cabeça. — Obrigada. O engraçado foi que papai quis dizer isso. Eu acho que eu poderia ter um ninho de vespa no meu cabelo e ele ainda pensaria que eu era linda. Para um artista, ele tinha uma estranha concepção de beleza. — Eu pensei... — ele começou, e limpou a garganta. — Eu preciso ir ao centro pegar alguns suprimentos. Quer uma carona para a escola? Olhei pela janela. Estava chovendo, uma garoa lenta e contínua. Por outro lado, o pigarro sugeria que ele estava trabalhando para uma conversa embaraçosa. Eu hesitei, e imediatamente me senti como uma idiota. Papai era a última pessoa que merecia ser desprezada. — Claro — eu disse. — Isso seria ótimo. Quando você vai sair? — Agora, eu estava esperando — ele disse. — Mas eu posso esperar se for muito cedo. — Nah, tudo bem. Deixe-me pegar minhas coisas. Peguei minha mochila e me apressei até a sala da frente. Papai colocou seu chapéu enquanto eu amarrava minhas botas. Ele tilintava suas chaves contra a palma da mão com a mesma melodia que ele costumava bater: Jing, Jing, Jing-JingJing. — Então, sua mãe estará em casa para o fim de semana — ele disse. — Nós vamos ver um pouco dela. Eu acho que ela tem outra assinatura a partir de segunda-feira. Eu encolhi os ombros. — Tanto faz. — Como se dois dias brincando de dona de casa feliz pudessem compensar os dez dias que ela estava fora. Ela mal vivia mais com a gente.

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Papai ficou em silêncio enquanto caminhávamos para o carro, mas foi o tipo mais alto de silêncio, aquele que estava cheio de coisas prestes a serem ditas. A chuva escorria na minha franja, e a camiseta começou a grudar na minha pele. Pensei em caminhar. Então eu pensei sobre sentar por quatro aulas com roupas úmidas. Papai abriu a porta do lado do passageiro pelo lado de dentro, e eu entrei. — Ela sente sua falta, você sabe — ele disse, quando colocou o pé no acelerador. O velho Ford se arrastou para fora da garagem. — Ela queria poder estar mais em casa. Claro que ela queria. Mamãe free-lance. Ela tem que decidir quais as assinaturas pegar e quais não. Depois que Paige morreu, ela começou a escrever mais e mais para a revista de viagens, que só passou a exigir que ela viajasse a cada duas semanas. Se ela queria estar mais em casa, ela não poderia ter feito menos para fazer isso acontecer. — É difícil para ela trabalhar em casa, estar sempre em casa. — Papai continuou quando eu fiquei quieta. — Isso a lembra... ela pensa muito sobre sua irmã. Isso a ajuda a passar um tempo longe. — Não é grande coisa — eu disse. — Estou acostumada a isso. De qualquer jeito, você está sempre aqui. Os edifícios deslizavam pelas janelas enquanto rodávamos para Frazer. Papai aperta os freios para a luz vermelha, e nós ficamos em um impasse. Ele olhou para mim. Os lados de sua boca se esforçavam para impedir o franzir da testa. — Sinto muito — ele disse, como se fosse culpa dele e não dela. — Ela já está tentando conseguir mais trabalhos locais. No verão, eu acho que você vai vê-la muito mais. Eu estive ouvindo essa história há vários anos. Algo sempre vinha à tona, algo excitante que ela precisava perseguir, e ela ia novamente. Essa era minha mãe. — Claro — eu disse. Frazer apareceu à vista, agachado no gramado da escola como um zagueiro gigante. As costas retangulares das alas leste e oeste curvado sobre toda a cúpula redonda, com o auditório acima e a cafeteria abaixo. Minha mão já estava na porta antes de chegarmos à frente. O carro deu uma guinada em um buraco e parou. Saltei para a calçada, arrastando minha mochila atrás de mim. — Obrigada pela carona! Boa sorte com a tinta.

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Fechei a porta antes que ele pudesse responder. Ele acenou para mim pela janela e seguiu em frente. O zelador da manhã estava para fora no gramado, cutucando sacos de batatas fritas e latas de refrigerante. Corri por ele para a porta da frente e me dirigi até as escadas. Como sempre, havia muitos respiradores nos corredores, empurrões, risinhos e beijinho-beijinho nos cantos. Eles eram grudados em grupos, obstruindo o tráfego. Eu não podia dar dois passos sem o cotovelo de um cara colidir com minhas costelas ou o cabelo de alguma menina com xampu morango-kiwi acertasse meu rosto. A umidade só piorava a situação. Sob tudo isso, eu peguei um cheiro de algo que só eu podia sentir: óleo de cabelo antiquado. Ficou mais forte enquanto a multidão diluía pelo beco sem saída do corredor, passando o escritório de matemática, onde era meu armário. Eu sorri. Ao longo dos anos, Norris deve ter gasto muito tempo aperfeiçoando seu desleixo. Ele se encostou contra os armários, na beira, mas não muito dentro. Você poderia quase acreditar que ele era real, vivo, de quatorze anos de idade, preso pela parede. Ele ergueu sua mão translúcida para mim enquanto eu me espremia pelo último grupo de calouros rindo, então se endireitou, flutuando alguns centímetros acima do chão. Ele gostava de imaginar que ele era mais alto do que eu. — Ei, Cass, como vai você? — ele disse em uma voz que teria sido mais suave se não quebrasse em todas as poucas palavras. Ele escorregou uma mão sobre seus cabelos negros e puxou a gola da sua jaqueta camuflada para frente. Norris não fala muito sobre datas, mas eu vi o suficiente de filmes antigos para fixá-lo como um cara dos anos setenta no momento que o conheci. Ele prefere o termo rebelde. — Eu estaria melhor se eu não precisasse estar aqui — eu disse. Girei o botão na fechadura e abri a porta do armário, para que ela escondesse o movimento da boca do resto do corredor. — Você? — Tudo velho. Mas, ei — Norris sorriu, — as crianças têm estado ocupadas. Espere até você ouvir o que eu consegui hoje.

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Capítulo 2 Fazia sentido que os mortos acabassem sabendo muito sobre todo mundo. Eles passavam a maior parte do tempo deles assistindo as pessoas, porque, realmente, o que mais eles poderiam fazer? Eles eram invisíveis e inaudíveis para os outros vivos. As coisas que as pessoas faziam quando elas pensavam que estavam sozinhas, os segredos sussurrados entre amigos, toda a sujeira que ninguém queria mexer: era visto e ouvido. E se eles achassem um ser vivente com ouvidos abertos, eles estavam mais do que contentes de contar tudo o que sabiam. Por um longo tempo, eu nem tentava ouvir. Nas primeiras vezes que reagi aos fantasmas nos corredores, me marcaram como a garota maluca, acima de todo o resto. E então, um dia, era como se algo que eu estivesse prendendo firme dentro de mim escorregasse dos meus dedos e se quebrasse. Mamãe havia acabado de sair para um cruzeiro de oito dias. Eu estava passando pelo corredor com os olhares e as risadinhas de sempre, muito ciente de como a minha vizinha de armário murmurava alguma desculpa e saía correndo quando eu a cumprimentava. Os garotos que me seguiram do ensino fundamental para o Frazer fizeram o trabalho deles muito bem. Todos aqui sabiam que eu era uma louca, a ladra de garotos, a amiga gananciosa, e qualquer que fossem os rumores que nasceram desde então. Não que eles se incomodassem em descobrir se alguma dessas coisas eram verdade. Norris e Bitzy estavam passando tempo no beco sem saída perto do meu armário. Eles estavam fazendo muito isso desde que eles descobriram uns meses atrás que eu podia vê-los. Eu os ignorei enquanto pegava as coisas que eu precisava para as aulas da manhã, mas não podia evitar escutá-los. — Me deixa tão brava! — Bitzy estava dizendo, batendo seu pé. — Eles fingem que ainda são amigos na frente da Mary, mas é só fingimento agora, e ela nem percebe. Quem ela acha que contou para aquele cara que ela gosta dele para que então ele pudesse tirar sarro dela? Quem ela acha que jogou a roupa íntima dela no lixo?

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Minhas entranhas se apertaram. Eu enfiei o livro que estava na minha mão dentro da minha bolsa e me agachei lá, escutando. — Como eles conseguiram pegar a roupa íntima dela? — Norris perguntou, se concentrando, é claro, na parte mais importante da situação. — Foi durante a aula de natação. — Talvez eu devesse fazer uma pequena fiscalização no vestiário. — Ah, credo! — Blitzy repreendeu. — Eu nem sei por que eu ainda falo com você. — Tudo bem, eu entendi, é uma droga. Você tem algum outro ponto fora isso? Blitzy suspirou. — Eu só desejava poder falar algo para ela. Por que não funciona igual aos filmes? Eu não posso escrever em espelhos, não importa o quão embaçado eles estejam. — Só esqueça. As pessoas não prestam. É a vida. As pessoas não prestam. Durante todo o ensino fundamental: as risadinhas, os murmúrios, as provocações rabiscadas no meu armário, os empurrões no corredor. O telefone tocando sem atender só em caso de ser outro trote. Os livros segurados firmemente no meu colo para que ninguém pudesse derrubá-los da minha mesa. Só porque minha suposta melhor amiga decidiu que eu não merecia sua amizade ou a de ninguém, e todo mundo havia concordado com o que ela disse, felizes por não estarem na mira. É a vida. Poderia haver algo pior do que ficar do jeito que eu estava, um capacho da escola novamente? Eu me levantei, e olhei para a Blitzy e o Norris. A voz que saiu da minha boca dificilmente parecia com a minha. — Eu digo algo. Só me diga quem é. As coisas ficaram bem diferentes desde então. O que quer que fosse que o Norris tivesse desta vez deveria ser grande. Ele estava cabisbaixo, com os polegares pendurados nas presilhas da calça, tentando ser indiferente, mas ele brilhava como uma lâmpada. — Então, me diga de uma vez — eu disse. Eu me apoiei no meu armário, deslocando pilhas de papel em busca do meu livro de geografia.

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— Certo. — Norris se apoiou contra a parede e inclinou a cabeça. — Você sabe a sala dos calouros do outro lado do escritório de matemática? Há aquele grupo de meninas lá, Brande e Carady, e elas sempre falando tão alto que você pode ouvi-las do outro lado da escola? Mas mesmo assim, meio bonitinhas, especialmente aquela, Doreen. — Até a primavera, o Norris já teria aprendido o nome de todos os calouros, mesmo tendo trezentos deles. Ele se lembrava das bonitinhas particularmente bem. Eu remexi nos meus arquivos mentais. Brenda, Carady e Doreen. Sim. Brincando com as barras de suas saias ao redor do sr. Travers como se um relampejo de coxa pudesse fazer com que elas ganhassem alguns pontos extras na próxima prova de matemática. Não que elas fizessem muito do trabalho delas sozinhas. Quando chegava a hora de fazerem suas tarefas semanais, elas puxavam o saco de uma menina nerd chamada Lisa, até que ela deixasse elas copiarem. Eu aposto que elas não falavam alto demais sobre isso quando o sr. Travers estava por perto. Norris estava encarando o nada, sem dúvida perdido em pensamentos de bochechas com covinhas e quadris curvilíneos. — Certo — eu disse, chamando sua atenção novamente. — O que elas fizeram agora? Abusaram da Lisa novamente? — Assim que elas conseguiam o que queriam da inteligente sem noção, as meninas acharam muito divertido imitar o jeito de andar de pomba dela e sua voz rouca para qualquer um que pudesse rir. Realmente gracioso para a pessoa que mantinha as notas delas altas. — Pior. Elas estavam... — Norris franziu a sobrancelha. Ele encarou o chão, arrastando o pé contra o linóleo como se ele tentasse engatar sua memória. Quando se tratava de material novo, ele tinha seus momentos instáveis, mas ele era melhor do que Paige. Ele conseguia segurar as coisas por alguns dias, às vezes. Pelo que eu vi, quanto mais tempo uma pessoa estava morta, melhor elas se lembravam do seu pós-vida. Não me pergunte por quê. Talvez a prática leva a perfeição. — Ontem à tarde — ele disse, lentamente, — sim, no laboratório de informática, eu só estava andando por lá porque eu as ouvi dando risadinhas, e elas estavam ao redor de um computador, sussurrando e tal, olhando sob os ombros como se elas estivessem com medo de alguém pegá-las. A sra. Richmond não estava lá. Então eu fui até lá para ver o que elas estavam fazendo. Elas estavam com uma daquelas páginas abertas, sabe, onde as pessoas colocam fotos delas e falam sobre coisas que elas gostam e escrevem comentários para os amigos. — Como um blog? — eu forneci.

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Norris deu de ombros. — Claro. De qualquer fora, eu acho que esse pertencia àquela garota, Lisa. Havia um monte de desenhos lá, bem legais, sério, e poemas, e aquele tipo de coisa. E a Brenda estava escrevendo comentários sobre eles. Coisas realmente horríveis. Dizendo que o mijo de cachorro era mais bonito e ela era uma completa idiota se ela pensava que ela poderia ser uma artista, fazendo novos poemas usando as mesmas palavras, mas jogando junto xingamentos e coisas sujas... e elas riam o tempo todo. E então a sra. Richmond voltou, e elas o fecharam rapidamente. Um arrepio tomou conta de mim. Meus pensamentos vacilaram de volta para os comentários que eu vi na tela do meu computador anos atrás: — Que fura-olho! Como você conseguiu, inventou alguma história, ou talvez ficasse depois da aula...? — Eca, e então foi atrás do cara de sua amiga. Você poderia ser mais patética? — Todos anônimos, claro. Mas eu sabia quem os havia mandado. — Parece que vale a pena dar uma investigada — eu disse, mantendo a minha voz firme. Lisa não teria ideia de quem teria feito isso, não mais do que ela sabia sobre a provocação que acontecia quando ela não estava por perto. E ela se preocupava com bastantes coisas sem precisar ser assediada pelas tão chamadas amigas dela. Norris uma vez a viu soluçando na mesa, se agarrando a uma prova que ela havia acabado de receber faltando poucos pontos para o perfeito 100 por cento. — Eu verei o que posso fazer. — Eu tenho outra coisa — Norris disse. — Peguei alguns malucos tentando se proteger dos seus poderes psíquicos. — Ah, é? O que eles estavam armando desta vez? — Imãs — ele disse. — Eles supostamente deveriam mexer com a sua energia mental, ou algo assim. Eu imagino que eles só sejam loucos. Um tanto deles, Theodore e Sandy e outros, tentavam colar aqueles imãs quadradinhos nos bonés. E então o vice-diretor chegou e os lembrou que eles não devem usar bonés dentro da escola. Então lá se foi o brilhante plano. Eu ri. — Ei, pelo menos eles estão esticando o cérebro deles um pouco. Algo novo com o esquadrão de tecnologia? — Um bando de veteranos havia decidido que eu deveria estar usando escutas, e passaram o ano inteiro procurando nas salas de aula pelas escutas. Até agora tudo o que eles acharam foram centopéias. — Não, não os vejo há um tempo. Talvez eles finalmente perceberam a beleza daquilo que você faz. Quer dizer, sério, você está prestando um serviço a esta escola, e o valor do entretenimento vale muito a pena.

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the — Ei, é tanto você quanto eu.

Norris balançou a cabeça. — Você é o general, Cass. Eu estou honrado de ser o seu fiel tenente. — Isso me lembra — eu disse. — Há alguns filmes de guerra dos anos setenta passando com desconto no cinema no sábado. Você quer ir? — Filmes de guerra não eram realmente uma coisa minha, mas valia o valor do ingresso ver o quão submerso Norris ficava, e escutar a excitação em sua voz depois. — Isso seria legal — Norris disse, casualmente, mas eu vi um brilho em seus olhos. E então seu olhar se desviou. — Olhe, aqui vem a gangue da risadinha agora. — Eba. — Eu me virei para ver. Brenda, Carady, Doreen e umas duas outras garotas que sempre estavam com elas desfilavam pelo corredor, passando um tubo de gloss de mão em mão. Bocas brilhavam com um brilho extremo, elas congregavam em um semicírculo na frente de seus armários. A forma como as risadinhas explodiam pelo grupo, você imaginaria que chegar à escola seria um ato máximo de comédia. Eu me posicionei contra a parede do outro lado da porta da sala de matemática e fiz cara de que eu estava fascinada pelo meu livro de geografia. Quando a diversão delas diminuiu, elas caíram em um duro debate sobre quais os atores nos seus programas de TV favoritos era o mais sexy. Eu dei uma olhada nelas por cima do livro, e uma dor aguda atingiu meu peito. Nós éramos daquele jeito, no ensino fundamental: Danielle, eu e outras, ficávamos de pé ao redor dos armários, fofocando sobre alguma separação de estrelas do cinema ou novos estilos de se vestir. Rindo e se inclinando juntas, vozes agudas. Minha garganta se engasgou com saudade, e meus olhos pareciam que iam transbordar. Eu pisquei rapidamente, apertando meus dentes e empurrando as memórias para longe. Deus, eu era tão estúpida. Pensar que nós falávamos sobre coisas importantes. Pensar no fato de que se nós falávamos daquela forma juntas, significaria alguma coisa. E aqui estava eu, ainda sentindo falta de como as coisas eram. Até mais estúpida. Algumas palavras escaparam do falatório e me trouxeram de volta a realidade.

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the — Você pode acreditar... aquele dever. — Eu sei, é tão insano.

Eu me aproximei um pouco mais. Hora do dever de casa queria dizer fazer de conta que eram amigas da Lisa. Elas poderiam realmente sorrir na cara dela depois de terem zoado tanto com ela ontem? Parecia que eu estava prestes a descobrir. Uma garota alta, em uma saia longa e larga estava se mexendo pelo corredor em direção a fileira de armários. Sua camiseta estava abotoada errada e sua franja apontava em diferentes direções. Eu me peguei imaginando se ela possuía um espelho, e então me lembrei da minha conversa com a Paige naquela manhã. Talvez a Lisa apenas tivesse outras coisas que ela pensava ser mais importante. Entretanto, hoje havia algo diferente nela. Ela andava mais devagar, seus ombros caídos, e enquanto ela passava, as outras garotas chegaram ao seu armário, eu podia ver que os olhos dela estavam inchados. E então Carady chamou, — Ei, Lisa! — e o rosto de Lisa se iluminou tanto que você poderia pensar que acabara de ser indicada para oradora da turma. Ela sorriu timidamente, seus ombros se endireitando enquanto Brenda e as outras passearam até ela, e um nó de dúvida se formou dentro de mim. Realmente a ajudaria saber que as garotas, que obviamente ela admirava, eram aquelas que a atacavam? Ou isso só a faria ficar ainda mais miserável? Ela merece saber, eu disse a mim mesma. E elas merecem saber que elas não podem se safar disso. As garotas se juntaram ao redor da Lisa; Doreen brincava com o cabelo encaracolado de Lisa, Carady dava tapinhas em seu braço, Brenda fazendo o esforço de até emprestar o sagrado gloss. Lisa ficou vermelha enquanto ela o passava. Todas estavam sorrindo, sorrindo com muitos dentes até. — Então, Lisa — Brenda disse, simplória, — você quer sair conosco depois da aula hoje? Talvez nós pudéssemos conferir nossos deveres, e então ir comer algumas fritas ou algo assim. Seria tão divertido. Tradução: As outras garotas copiariam o dever da Lisa, fazendo pequenos erros para que não ficasse totalmente óbvio, e então elas de repente perceberiam que tinham coisas mais importantes para fazer.

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Mas lá estava Lisa, radiante, sua boca já aberta em um círculo. — Engraçado — eu disse, — não era isso que vocês falavam ontem. As garotas ficaram em silêncio. Brenda cruzou os braços em cima do peito, sua mandíbula se contraindo. Hoje em dia, minha reputação tinha os seus benefícios. Elas sabiam quem eu era. Cass McKenna, aquela garota louca que sabia sujeira de todo mundo. — Quem estava falando com você? — Brenda disse, revirando os olhos, mas sua voz vacilou e suas amigas deram risadinhas nervosas. — Eu estou falando com você — eu disse. — E eu acho bem estranho que você esteja sendo tão amigável com a Lisa depois do que aconteceu ontem. Ou você sempre espera favores das pessoas que você fala mal? O olhar de Lisa disparou das garotas para mim e de volta para elas, sua expressão mostrando nada mais do que confusão. — Eu não sei o que você quer dizer — Brenda disse. — Nós somos amigas. Nós nos ajudamos. Certo, Lisa? — Sim, claro — Lisa murmurou. Eu ergui minhas sobrancelhas. — Eu acho que você precisa de uma sacudida na memória. O mijo do meu cachorro é mais bonito que isso. Você é uma idiota, não uma artista. Lembra alguma coisa? Um pequeno choro escapou da boca de Lisa. — Você não tem provas — Brenda repreendeu. De repente todas as amigas dela acharam o piso inexplicavelmente fascinante. — Nós poderíamos ir até o laboratório de computação e ver qual de vocês logou no computador ontem e se tem certo blog no histórico de visitas — eu ofereci. Doreen então não se aguentou. — Não! — ela reclamou. — Nós sentimos muito, sério, nós não faremos de novo. Só não conte para os professores. Minha mãe... — Cala boca! — Brenda disse tarde demais. Lisa fechou com força seu armário e correu para longe delas, seus ombros trêmulos. — Lisa! — Brenda gritou para ela.

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— Me deixe em paz! — Lisa gritou de volta, e abriu a porta do banheiro com força e tropeçou para dentro. Brenda se virou. — É melhor você se cuidar — ela disse para mim. Como se fosse minha culpa ela ser uma esnobe enganadora e mentirosa. Eu apertei meus dentes. — Talvez você devesse se cuidar. A raiva no rosto dela vacilou. Ela não fazia ideia do que mais eu poderia saber. Ninguém estava disposto a correr o risco. — Ah, meu Deus! — uma das garotas gritou enquanto eu me afastava. — Como nós vamos fazer o dever agora? Norris pairava no lugar onde eu o havia deixado, se acabando de rir. Eu peguei o meu livro de geografia. — Gostou daquilo? — Ah, sim. Pá! Pá! — Ele deu dois ganchos de boxeador no ar. — Se você não fosse uma garota, eu teria que dizer. Você é o cara. — Obrigada. — Eu encarei a porta de alumínio do armário com suas manchas de chiclete seco e canetas permanentes. As coisas ficariam melhores para a Lisa agora? Ou as garotas achariam alguma forma de serem boazinhas e ela cairia na lábia delas novamente? Algumas pessoas davam um tempo. Algumas vezes funcionava. Mas algumas vezes elas só ficavam mais espertas sobre as suas mentiras. Eu olhei em direção ao banheiro. Lisa deve estar chorando até não querer mais. E então o sinal de aviso tocou, lembrando a todos que eles tinham cinco minutos para chegar à sala de aula, e eu sacudi o desconforto para fora. — É melhor eu ir — eu disse. — Claro. Você voltará mais tarde? Eu olhei para o Norris, e ele baixou o olhar. — Não que seja grande coisa se você não voltar — ele adicionou.

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— Norris — eu disse, — eu passo um tempo com você quando você quiser. Você é praticamente a única pessoa com algum senso nessa escola inteira. O que está acontecendo? Você não está falando com a Bitzy? — Ela não está falando comigo — ele disse. — Não? O que, você a chamou de gorda de novo? — ele baixou sua cabeça, e eu grunhi. — Norris, você sabe como ela se sente sobre a palavra com a letra G. Você quer que ela pare de falar com você para sempre? Isso vai acontecer se você não impedir estas besteiras de saírem da sua boca. Norris sorriu. — Ela estava me enchendo o saco sobre o armário. Não é minha culpa. Eu balancei minha cabeça para ele. — Bem, você vai ter que começar a achar melhores formas para conversar. Eu vejo se eu consigo acalmá-la. Mas você tem que se desculpar. E da próxima vez, você está por si só.

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Capítulo 3 Graças ao incidente de Lisa eu precisei adiar minha habitual inspeção com Bitzy até o almoço. Descendo o corredor em direção ao ginásio, a ouvi resmungar antes que eu pudesse vê-la. — Onde ela está? Onde ela está agora? A garota estava um pouco impaciente. Eu corri pela curva do corredor e lá estava ela, subindo e descendo na ponta dos pés pela porta do ginásio. Bitzy alegava que era uma bailarina desde que nasceu. Ela não podia permanecer em um local sem estender as pernas, ou girar fazendo uma pirueta. Por toda essa prática, ela não era a pessoa mais graciosa que eu já encontrei. — Cass! — ela gritou, enquanto eu me aproximava mais. Ela arremessou-se através da sala até mim. Um dos professores da academia passou diretamente através dela, ela nem mesmo piscou. Eu encontrei seus olhos, e atirei um olhar para o telefone publico na cabine ao lado da vitrine de troféus. Ela me seguiu. — Oh meu Deus, oh meu Deus, oh meu Deus! — ela sussurrou por todo o caminho até lá, pontuando isto com pequenos gritos de excitação. Ela ergueu os braços acima da cabeça, e deu os últimos passos na ponta dos pés, acrescentando uma pirueta vacilante no final, o aroma de limão de madeira polida fluiu com ela. A ponta de seu rabo de cavalo brilhava. Ou Bitzy havia tropeçado na mais suculenta fofoca conhecida pela humanidade, ou ela estava prestes a virar uma supernova1. Ainda sim, a primeira coisa que ela me disse quando peguei o telefone foi: — Norris é como um pervertido. Você sabia que ele estava pendurado no armário da sala das meninas de novo? Alguém devia socá-lo. 1

Supernova: estrela que explode tornando seu brilho muito maior, ofuscante.

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Eu troquei o fone de ouvido para que o som de discagem zumbisse em meu cabelo, e eu fingisse que estava falando com alguém do outro lado. — Você sabe Bitzy, o que ele estava dizendo sobre o pai dele, acho que ele já foi punido o bastante. Diabos, o cara estava morto, e olhar as meninas adolescentes seminuas alimentava seus hormônios tanto quanto a evasão de Bitzy do refeitório diminuía sua cintura. — É apenas um hábito. — Acrescentei. — Ele não pode se impedir. — Bem, eu não gosto disso. — Ela disse. — Ele... ele foi realmente sórdido comigo. Eu fiz uma careta. Eu não podia discutir com isso. — Sim, ele mencionou isso. Mas você sabe que às vezes Norris fala mais do que pensa. Vocês dois já vêm partilhando a escola por quantos anos? — Eu estava aqui primeiro. — Ela disse. — E eu não aturarei mais as pessoas falando maldades ao meu redor. — Você está certa. Ele realmente não deveria falar assim com você. Eu disse a ele para parar com isso. E ele parecia arrependido. — É? — a voz de Bitzy suavizou. — Bem, eu ainda não sinto como se fosse falar com ele hoje. — Ei, isto é sobre você. Talvez se Norris levasse um gelo por alguns dias, ele se lembrasse de prestar atenção no que fala da próxima vez. — Eu relaxei as costas contra a parede. — Então, qual é a grande novidade? O rosto de Bitzy se iluminou como se um interruptor tivesse sido ligado. — Oh, Cass, você vai apenas morrer. Tem haver com ela. — Ela? Danielle. Bitzy continuou falando, mas eu quase não a ouvi. Só de pensar em Danielle senti a mesma sensação de anos atrás, em uma viagem para a Flórida, quando uma onda arrastou meus pés de baixo de mim e eu bati no fundo do mar. A corrente passando em minhas orelhas, o meu peito doendo por conter a respiração. As memórias me invadem: jogando pipoca uma na outra em noites de festa de pijama, dando risadas de nossas idiotices, experimentando biquínis no shopping. Importunando uma a outra sobre o louco cabelo que fez... E então meu estômago

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afunda, ao ouvir meu nome saindo pelo sistema PA2, numa manhã de inverno tardio na sétima série. Eu iria para a competição estadual de debate... ela não. E eu iria com o cara que ela estava de olho durante todos os anos, o cara pelo qual ela havia se unido ao grupo de debate em primeiro lugar. Houve algumas horas, em meio aos parabéns, que eu pensei que meu medo era infundado. Ela era minha amiga. E ficaria feliz por mim. E eu ia falar com ela sobre Cameron, e estaríamos todos felizes. Há, há, há. Mas nem mesmo o terror havia me preparado para o quão rápido e quão difícil foi. As imagens eram como reflexos de cacos de vidro: seu sarcasmo contra o brilho bronzeado de seus cabelos, as notas enrugadas de mão em mão ao redor da minha mesa, as costas viradas com ela no meio, da forma mais alta. O salto de seu sapato esmagando meus dedos do pé no corredor; o estouro da garrafa sendo esvaziada sobre as coisas do meu armário, o qual apenas ela tinha a combinação. As palavras rabiscadas, em uma caligrafia que eu conhecia quase tão bem quanto a minha própria, sobre a parede do banheiro para que todos pudessem ver: CASS É UM LIXO. E foi apenas o começo. Por que um professor me escolheu acima dela? Por que eu acidentalmente capturei um pouco da atenção dela? A injustiça disso, mesmo quatro anos depois, fazia minha garganta apertar. Eu tossi e suguei ar. — Cass? — Bitzy estava dizendo. — Ei, Cass? Você não quer ouvir isso? — ela pulava de um lado para o outro como se ela estivesse preste a fazer xixi nas calças. Eu respirei, engoli, e respirei novamente. A sensação de cair se foi. O fone havia escorregado até meu ombro. Algumas meninas me encararam quando elas passaram rebolando, e eu trouxe o telefone de volta a minha boca. — Claro. — Eu disse. — Despeje. — Certo. Então você sabe que ela tem saído com Paul, como sempre. Bem, eu estava assistindo a prática dos rapazes na pista essa manhã, e Paul está nela. Esta garota, ela tinha loucas luzes no cabelo, vestia esses jeans formidáveis e apertados e um top baby-doll... — Ela fez uma pausa enrugando a testa. — Sharry! Foi assim que ele a chamou. Ela veio até a cerca para assistir, ela é uma estudante do segundo ano, eu acho.

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PA: sistema de endereço público, sistema de auto-falantes geralmente utilizados em locais pequenos, como escolas, para anunciações.

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— Sharon Lietzer. — Eu murmurei. Como qualquer cara poderia resistir a uma menina conhecida pelas coisas que ela podia fazer com sua língua? Paul andou com ela no ano passado antes de Danielle colocar seu olhar sobre ele. — De qualquer forma. — Bitzy disse. — Ela veio e acenou para ele, e depois que o treinador o dispensou, Paul dirigiu-se para falar com ela. Movendo o quadril, fazendo flexões e outras coisas, tentando impressioná-la. Em cerca de cinco minutos, eles se esconderam na barraca de equipamentos atrás das arquibancadas, se pegando por toda à parte, e depois de um tempo ela diz: E quanto a Danielle? Ele ri e diz: Eu não conto se você não contar. Então eles quase fizeram. — Fizeram aquilo? — eu perguntei. — Você quer dizer que ele ia fazer sexo com ela? — Bem... — Bitzy corou e olhou para seus pés. Para alguém que adorava esse tipo de fofoca ela poderia ser um pouco menos puritana sobre isso. — Toda a roupa ficou. Então eu acho que eles realmente não... fizeram. Mas eu acho que eles teriam se o sinal não tivesse tocado. Eles realmente estavam a caminho. — Uau. — Minha pele estava fria e úmida, como se eu estivesse nadando no oceano, mas por dentro eu estava queimando. Isto era como um presente entregue apenas para mim. Um passe livre para zombar da cara vazia de Danielle. Eu a ouvi no corredor, tão alto que eu não precisava de Bitzy ou Norris para isso, vangloriando-se para Jordana e o resto de suas amigas sobre Paul. Ele é um cavaleiro, você sabe. Ela despejava. Ele nunca me pressiona. Totalmente bem com a espera. Ele sempre diz o quão sortudo ele é por estar comigo. De vez em quando alguém podia perguntar: ele não saía com Sharon Lietzer? Danielle sorria. Ele deu uma olhada em mim e nunca mais olhou para trás. Ela pode ter todos os caras que quiser, eu tenho o mais doce da escola. Claro que sim, tão doce que até amanhã de manhã Sharon pode ter comido ele. A memória passou pela minha mente: sexta série, a dança de natal, o rosto de Danielle vermelho de tanto chorar depois que seu par passou a noite inteira de braço dado com outra garota. Então novamente, eu a havia consolado. Naquela época ela podia ter me consolado. Eu engulo o caroço em minha garganta. Pobre Danielle, parece que você não pode ter tudo, afinal. Você roubou o cara de alguém, por que ela não deveria tentar roubar ele de volta? Acho que o cavaleiro está mais interessado em enfiar suas mãos nas calças de uma garota do que esperar por aquele momento perfeito. Ele enganou você tão facilmente como você me enganou. No fim ela fez isso a si mesma. Eu apenas acelerei o processo.

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Eu mordisquei meu lábio ressecado. Não era como se eu estivesse indo jogar tudo no colo dela. Danielle merecia algum tempo se contorcendo. Ela havia desenhado minha tortura ao longo dos anos. Por que eu deveria pegar leve com ela? — O que você vai fazer? — Bitzy sussurra. — Imediatamente? Apenas voar ao redor um pouco. — Eu desliguei o telefone. — Acho que vou começar agora. Bitzy se abraçou e virou em um pé. — Oh, eu mal posso esperar, eu estou indo também. Eu andei a distância entre o refeitório e o telefone tantas vezes que já sabia os passos de cor. Vinte para o canto, mais quinze até a porta. A cada passo a expectativa se transformou em excitação, meus pés começando a saltitar. As minhas mãos sujam as portas de vidro quando eu empurro para dentro. Bitzy permaneceu na porta. —Você vem? — eu murmurei. — Vamos Bitzy você pode atravessar paredes, estar perto de comida que não presta não te engordará. Ela franze a testa. — Eu sei. — Ela disse. — Eu sei que eu não posso comê-la. Mas eu ainda quero. E querer me faz sentir como um balde de banha. — Tudo bem. — Eu disse. — Mas nunca vai haver outro como este. Quando eu a deixei, uma voz desesperada chamou de um local próximo das portas. — Bilhetes para o baile? Cinquenta por cento de desconto! Isso era o quanto o espírito escolar sugava Frazer, não conseguiam nem vender pontos de mesa para o baile. Os veteranos preferiram voar num jato até Cancun em vez disso. Eu olhei para o pobre garoto que colocaram para vender os bilhetes, no meu bom humor, atirei-lhe um sorriso de simpatia. Ele me olhou fixamente por um segundo, em seguida, voltou a estudar, muito ocupadamente a pilha de bilhetes. Eu desviei meu olhar; se ele não evitava você, ele ria de você, eu me lembrei. Faça a sua escolha. Eu andei ao redor das filas de cadeiras mais afastadas da lanchonete. O teto era tão baixo que um jogador profissional de basquete teria que se curvar, e fazia todo o lugar parecer escuro, mesmo com o excesso de painéis florescentes. Fiz uma pausa em um dos pilares laterais, considerando a melhor abordagem. Um par de

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meninas olhou para mim e o volume de sua conversa baixou, como se eu as tivesse ouvindo. Tudo que eu ouvia era meu batimento cardíaco. Morto a frente estava o pilar central, rodeado por uma mesa larga e sem pernas. A mesa do centro pertencia às pessoas muito importantes, um grupo que em momentos pode incluir: líderes estudantis, o pessoal do jornal, estrelas de esportes e seu seguidores mais dedicados. Eles não eram nem a metade importante para o resto da escola como eram para si mesmos, e não era como se alguém quisesse a mesa de qualquer forma, o modo como ela foi construída não dava para ver metade das pessoas sentadas sem tencionar o pescoço. Nenhum deles olhou para cima quando eu me aproximei, muito fascinados com eles mesmos. Eu conhecia os rostos dos frequentadores da mesa do centro tão bem que eu mal precisava consultar meus arquivos mentais: 1. Tim, vice-presidente do conselho estudantil. Muito popular entre as garotas, ainda mais agora que ele estava de luto pela morte de sua mãe. No entanto, não parecia ter uma namorada real. Provavelmente um jogador. 2. Flo, editora-chefe do jornal da escola. Mantendo uma reputação bem merecida por meter o nariz onde não é da sua conta. Tinha uma queda por Leon. 3. Leon, o secretário do conselho estudantil. constantemente, mas tinha dito a ele que lhe daria um cão.

Flertava

com

Flo

4. Jordana, representante da classe júnior. Falsa de supostos amigos. Conversa até com outros caras para fazer ciúmes ao namorado, então fica ofendida quando ele fica chateado. 5. Matti, o namorado de Jordana, o cabeça da associação atlética de estudantes, pegajoso. Tentava vender cópias de exame falso, furtivamente, logo que eu entrei. Também um falso. 6. Paul, namorado de Danielle, velocista, capitão do time de basquete, e suposto cavalheiro. Amante de Sharon Lietzer. 7. A permanente e polida Danielle Purry, todos ao redor da garota popular, a maior falsa de todos eles. Todos presentes e contabilizados. Meu pulso realmente estava batendo então, mas não era difícil adivinhar o que estavam dizendo. Em todas as horas de almoço eles tinham a mesma conversa.

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Flo: Gazeta Frazer precisa de mais suco. Dê-me alguma coisa para enfiar meu nariz. Leon: Negócios de conselho de estudante são confidenciais, mas porque é você, aqui está um boato e uma piscadela. Jordana agita os seus cílios: Uh-oh, e se eu bisbilhotar para você? Matti: Como ousa agitar os seus cílios para outra pessoa! Você não sabe que dez meninas tentaram me levar para casa ontem à noite? Danielle: Você caras devem terminar já. Vocês não podem ver que Paul e eu somos os únicos em amor verdadeiro? Paul: Isso é correto, baby. Deixe-nos provar chupando nossas línguas. Tim, com o seu patenteado aflito-mas-sorriso corajoso: Minha mamãe morreu. Pensar não parece bom para mim? Todos os outros: Pobre Tim! Flo: Mas eu já usei essa história. Danielle: Eu estou entediada. Onde está aquela língua, garoto amante? Para Danielle o almoço consistiu quase inteiramente da saliva de Paul. Deve ter sido como ela permanecia tão magrinha. Ou isso, ou ela se fazia vomitar em casa onde Bitzy não podia pegá-la, não no meio das outras meninas em Frazer. Eu odiava admitir, mas ela era mais esperta que a maioria. Mesmo com Norris e Bitzy rondando sobre ela, tudo que conseguiram até agora foi um pouco de briga de garotas. Ela sempre parecia limpar seu lixo antes que eu tropeçasse nele. Mesmo que ela tenha gastado todo o seu tempo na escola fingindo que eu não existia, ela deve ter percebido que não me escapou muito esses dias. Eu me inclinei na mesa mais próxima esperando ela parar de trocar cuspe tempo suficiente para eu introduzir o assunto. Enquanto observava, uma pequena garota caloura, com presilhas e batom rosa-chiclete, se colocou ao lado da mesa, ela tinha uma barra de chocolate embrulhada e a pressionou contra o peito. — Tim. — Ela disse em voz suave, inclinando a cabeça como se ela estivesse se dirigindo a um deus. — A máquina me deu duas barras por engano. Pensei, talvez, talvez você queira uma.

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Tim forçou um sorriso novamente. Ele não chega a atingir as bordas dos seus lábios. Sempre sorria da mesma maneira, como se ensaiasse todas as noites para produzir máxima simpatia. Tenho certeza que realmente ele estava em pedaços por sua mãe. Ninguém precisava me dizer o quanto sugava ter alguém próximo de você morto. Mas não importa o quão triste ele estava, não era desculpa para usar isso para trabalhar com as garotas. Ou manter a companhia que ele criou. Ele inclinou a cabeça para que seu cabelo loiro caísse até a metade de sua testa e semifechou os olhos. — Obrigado. — Ele disse. — Realmente. — E levou a barra de chocolate. A menina balançou sobre seus pés e correu para longe. — Patético. — Disse Danielle jogando seus cabelos. O bronze em destaque brilhando e meus dedos se enroscaram. Enfiei as mãos nos bolsos para que ela não os visse tremer e expirei em um fluxo lento. Meu coração estava trovejando em minha cabeça como um touro rouco, mas minha voz... minha voz era firme. — Ei, Paul. — Eu disse, me apressando para a mesa. Ele se virou em sua cadeira, as sobrancelhas levantadas, seus lábios preparados para algum comentário mordaz. Então seus olhos encontraram os meus. A sua expressão ficou incerta. O pânico brilhou em seu rosto. — O quê? — ele diz, tentando recriar sua aparência de indiferença casual. Suas mãos sobre as costas da cadeira ainda estavam fechadas, os nós dos dedos ficaram brancos. Eu o tinha, e ele sabia. E Danielle ia saber, também. Todos eles olhavam para mim agora. Minha boca estava seca. Mas eu precisava fazer desse jeito, então todos ouviriam, e todos fofocariam sobre ela, desta vez. Eu forcei meus lábios num sorriso. — Como está indo? — Bem. — Ele disse. Sua mão escorregou para agarrar Danielle. Ela olhou para mim, a boca apertada. — Caia fora, Cassie. — Tão zangado e com medo que sua voz arranha. A mesa havia virado. Ela pediu por isso no momento em que ela sussurrou as primeiras palavras ruins sobre mim ao redor da escola, a partir do momento que ela havia levantado o nariz para mim como se eu fosse a maior escória do planeta, porque alguém se atreveu a me dar algo que ela queria. — Então. — Eu disse a Paul arrastando uma respiração. — Eu soube que você tem gozado da prática de pista ultimamente. — Eu acho. O que é isso para você?

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Ele deve ter pensado que era valente, empurrando o problema. Uma estupidez. —Bem... o domínio pertence a todos, então tudo que acontece lá, é tanto meu negócio quanto seu. O sangue correu para o rosto de Paul explodindo em suas bochechas, as unhas cor de pérola de Danielle afundando em seu braço. — Sim? — ele disse. Eu sustentei minha cabeça, o tremor em minhas mãos, o bater do meu coração, nada disso importava agora. — Então seja cuidadoso para não estar gozando da barraca de materiais um pouco demais. Você sabe o que eu quero dizer. O momento foi brilhantemente claro. Danielle mudando, sua boca abrindo. Paul escancarado, sem palavras. Congelados. Perfeito. — Vejo vocês mais tarde. — Eu disse, ele piscou. A multidão na lanchonete me engoliu antes que qualquer um deles pudesse dizer uma palavra.

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Capítulo 4 Eu rastejei ao longo do dia, a antecipação de vitória dissolvendo-se na minha boca como um caramelo doce. Tudo isso começou com Danielle. Talvez se ela caísse murcha e desgraçada, eu poderia finalmente esquecê-la e tudo que ela fizera. Durante o meu último período na sala de estudos, eu parei no meu armário para ver Norris antes de ir embora. Ele não estava lá. Minha mente começou a repetir o choque no rosto de Danielle quando eu abri a fechadura, razão pela qual eu não percebi o que esvoaçou das lâminas de ventilação na porta do armário. Fez barulho quando bateu no chão. Olhei para baixo. Um pedaço de papel, dobrado, estava ao lado do pé da minha bota. No exterior dizia Cass em uma estreita e irregular escrita. Terror azedou minha boca. Não, este era o ensino médio. Nestes dias, Cass McKenna poderia lidar com uma pequena nota. Talvez eu tivesse um admirador secreto. Ha. Apanhei-a e desdobrei. O rabisco ficou mais estreito. Eu sei como você sabe. Encontre-me nas quadras de basquete, sino final, esta tarde. — O que é isso? Norris saiu da parede e olhou por cima do meu ombro. Antes que ele pudesse ler, eu amasso o bilhete em uma bola e enfio no bolso. — Apenas a mensagem mais vaga na história do universo. — Eu disse, lançando dois livros no fundo do meu armário. Obviamente, alguém estava tentando me intimidar. Talvez Brenda querendo se vingar de mim por esta manhã? — Oh. Bem, ele parecia uma espécie de cara vago — Norris disse.

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Parei em meio a um arremesso, um fichário balançando entre meus dedos. — Você viu quem colocou isso aqui? — Claro — disse Norris, massageando seu cabelo. Como se ele fosse suavizar aquele topete agora. — Foi aquele cara, Tim. Você o conhece; alto, magro, com um olhar sombrio. Um dos caras do conselho estudantil. — Sim, eu conheço — eu disse, olhando para Norris. — O que diabos aconteceu? — Bem, primeiro ele veio andando por aqui, todo casual, bem na hora do fim do almoço. — Norris percorreu o corredor em imitação. — Quando o sino soou e todos gritaram, ele pareceu pensar que era seguro deslizar a coisa no seu armário. Mal sabia ele — concluiu Norris, empurrando a gola de seu casaco, — nada escapa ao grande e poderoso Norris. Nada exceto uma razão sã para Tim Reed estar enfiando notas em meu armário. O homem das senhoras secretamente se correspondendo com o terror de Frazer Collegiate? A qualquer segundo, o teto iria quebrar em nossas cabeças. Eu joguei a pasta em meu armário, franzindo a testa. — Ele é aquele que a mãe morreu, né? — Norris disse. — Sim — respondi. — É ele. — Houve um alarde sobre ele que até mesmo Norris lembrou. Os professores dando tapinhas nas costas de Tim e oferecendo-lhe extensões de suas atribuições; as professoras envolvendo-o em abraços estranhos. Toda garota, caloura do ensino médio, atirando-lhe olhares brilhantes, olhos de simpatia e uma chance com suas virgindades (ou falta delas). Lamentei por alguém ter que perder sua mãe, incluindo ele. Mas, realmente, quem precisava de sua dor ser completamente tornada pública em uma escola com líderes de torcida gritando Nãoooo ao câncer!? Não ajudou que o tempo todo eu não conseguisse parar de pensar em Paige. Como a sua morte foi a maior notícia e assim todos em Washington Junior High deveriam saber que eu havia perdido minha irmã. E nenhum dos meus colegas disse uma palavra. — Eu não entendo. Ele tem a escola toda em volta de seu dedo. Porque ele está me incomodando? — Talvez ele tenha feito alguma coisa e esteja tentando chegar até você antes de você chegar a ele — sugeriu Norris.

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the — Você viu alguma coisa?

— Não... qualquer coisa que ele tenha feito com todas aquelas garotas que o perseguem, ele não fez aqui. Corri através dos meus arquivos mentais. Bitzy viu Tim amassar o carro de um cara no estacionamento da escola há um tempo atrás, mas ele jogou de bom rapaz e escreveu um cheque. Então me acertou. — Claro. — O quê? — Norris disse. — Você tem algo sobre ele? — Não exatamente — eu disse. — Ele é amigo de um cara com quem eu tive uma pequena conversa esta manhã. Provavelmente pensa que pode conversar comigo sem dizer a coisa toda. —Talvez ele tenha percebido que tudo que teria que fazer era dar seu sorriso doloroso para mim e dizer poucas palavras solenes, e eu cairia para agradá-lo como qualquer outra garota. Nada provável. Eu tinha assentos na primeira fila para assistir Danielle descobrir o que era ser traída, e eu não iria dá-los por nada. — Obrigada por manter um olho nas coisas, Norris — eu disse, fechando a porta do armário. — Não é um problema. Eu faço o que posso. — Você sabe, há algo mais que você poderia fazer, se você não se importar. — Ei, qualquer coisa — disse ele, afundando cada vez mais. — Eu disse para você manter um olho em Danielle antes, certo? E em seu namorado? — Sim, lembro-me. Danielle e Paul. E os outros perdedores, seus amigos... — Não se preocupe com os amigos agora — eu disse, olhando-o diretamente nos olhos, para que ele soubesse o quão importante isso era. — Você pode manter um olho extra colado em Paul, especialmente ao redor da prática da trilha? Norris hesitou. — Bitzy gosta de ficar em volta do campo na parte da manhã.

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— Sim, bem, talvez você tenha que rastejar um pouco. Acho que ela apreciaria isso. — Eu levantei minhas sobrancelhas para ele. — Não seja um dos idiotas. Isso é realmente importante, e dois pares de olhos são melhores do que um. — Ok, ok. Vou lidar com isso. — Obrigada. Vamos conversar mais amanhã, certo? E vamos sábado? — Definitivamente — Norris disse, me dando um sinal de positivo. Eu inclinei minha cabeça para ele e me dirigi ao fundo do corredor. Desculpe Tim, mas eu não estou disponível para qualquer sessão pedinte a Paul no momento. Deixe-o fazer o seu próprio caso, se ele se importa. Lá fora, eu arrastei uma respiração. Eu não queria caminhar ao redor para ver o que Tim tinha a dizer, mas eu não estava no humor de ir para casa para as dicas de maquiagem de Paige ou a preocupação muda de meu pai. Por pouco tempo seria bom ter um lugar onde não houvesse ninguém além de mim. A brisa se levantou por cima de mim trazendo o cheiro do lago, ao longo de todo o caminho até a baía. Sem pensar, eu segui o cheiro. Enquanto eu vagueava ao sul, meu olhar caía sobre as janelas das casas. Em uma ou duas em cada rua, eu vislumbrava rostos que não estavam certos. Eles se inclinavam para a direita através do vidro ou pairavam com a luz solar passando através deles em vez de bater em suas peles. Uma pequena menina translúcida acenou para mim de uma sacada, mas eu fingi que não podia ver. Ela não esperava que eu visse. Depois disso, eu mantive meus olhos na calçada. Finalmente, cheguei à estrada de quatro pistas ocupadas que separava a baía dos bairros residenciais do parque. Os carros rugiam enquanto eu esperava o sinal abrir. Vários veículos que mais pareciam caixas de papelão do que carros parados em suas rodas no estéril estacionamento da praia, esperando os proprietários que provavelmente foram visitar o centro de idosos nas proximidades. Era cedo demais para corredores após o trabalho e muito tarde para babás levarem suas cargas gritantes para o parquinho. A hora perfeita. Eu segui as linhas paralelas, verde e azul no meio do caminho de bicicleta até o parquinho, onde eu me apertei através dos brinquedos e deixei-me cair no único balanço desembaraçado. Há muito tempo atrás, este era o local preferido de Paige. Ela descia para a praia o tempo todo, com seus amigos, com seu namorado, Larry, mostrando seu novo maiô ou rodando ao redor em seus patins. Sempre acabava pulando na água.

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Antes de ela decidir que eu era a criança mais chata do planeta, ela costumava me deixar ir junto. Eu balancei de um lado para o outro batendo contra as outras balanças. O lago estava atrás de mim, longe da vista, mas eu podia ouvi-lo. As ondas subindo e caindo na areia como a respiração de uma pessoa que está dormindo. Para o leste, onde a praia está cheia de pedaços de pedras, havia uma cerca de madeira agredida tão inclinada que tocava o chão. Bem além do muro estava a cabana de pescadores e sua doca, serpenteando vinte, talvez trinta, pés na água. Ninguém pescava mais no lago, a maioria dos peixes sucumbiu à chuva ácida, mas isso não impediu que a cabana fedesse como a lixeira de um restaurante de frutos do mar. Você precisava sair da doca para ficar longe disso. Fora para onde as tábuas cederam e rangiam com manchas de podridão e estilhaços. Bem perto do final da doca, havia um prego onde ela pendurou suas roupas antes de mergulhar. Ela não sabia que o vento se agitaria, arrancaria seu vestido e o lançaria para as ondas. Havia seis deles lá, e nenhum deles pensou que o início de uma tempestade de raios poderia ser uma má hora para ir nadar nu. Fechei os olhos, mas o som das ondas do mar ficou mais alto. Foi estúpido vir aqui. Claro, eu estava sozinha. Os fantasmas criados pelo lago estavam apenas na minha cabeça, o único lugar que eu não poderia andar para longe. Depois de um tempo, a brisa começou a esfriar, levantando pequenos arrepios em meus braços. Risos cresceram no parquinho. Eu abri meus olhos quando um bando de crianças da escola primária correu pelas pedras, reivindicando os balanços restantes. Devem ter vindo da escola pública da rua. Eu fiquei sentada lá toda a minha hora livre. O sino final já teria tocado em Frazer. Chega de ficar me lastimando ao redor. Se não voltar para casa logo, Paige começaria a surtar sobre como eu estava atrasada. Enquanto caminhava ao longo do trajeto de bicicleta, sapatos raspavam a grama atrás de mim. Os passos combinados com meu ritmo. Um estacionamento entrou na minha linha de visão, e eu andei um pouco mais rápido. A pessoa atrás de mim acelerou também. Ótimo. Algum piadista estava tentando me assustar. Rangendo meus dentes, eu me virei para lhe dizer para se afastar. Eu quase tropecei em meus pés.

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Vindo de uma parada em um pedaço de gramado, suas mãos ossudas enfiadas em seus bolsos de sua calça cáqui e os olhos fixos em mim, estava o próprio sr. VP3. A última vez que fui seguida foi na oitava série, por um bando de caras que pensavam que seria engraçado atirar pedras em minhas pernas e ver se eu poderia evitá-los. Outras garotas, talvez, estariam lisonjeadas pela determinação de Tim. Mas essa era eu, e tudo que eu sentia era pavor. — O que você está fazendo aqui? — eu perguntei. — Você está me perseguindo ou algo assim? — O quê? Não. É... é que... — Tim pigarreou e encolheu os ombros para trás, parecendo ainda mais alto do que ele era. O sol atrás dele branqueava seus cabelos. Ele deu um passo em minha direção. — Olha, eu estava matando aula de história — ele disse, — e eu vi você saindo. Aquela nota - você pegou a nota? Eu queria conversar com você, e parecia que você não ia ficar por perto. Então eu segui você. Claramente as nossas definições de perseguição eram diferentes. Eu olhei para ele. — E então você estava ao redor me observando? Muito legal. — Você, tipo, parece como... — ele começou, então revisou. — Não parece que você quer alguém te incomodando. Então, eu esperei. — Bem, adivinhe? Eu ainda não quero alguém me incomodando. Teria sido uma grande saída dramática, eu indo embora com meu queixo alto, se Tim não tivesse se movido na minha frente e bloqueado meu caminho, com os braços estendidos. — Eu gostaria de ir embora agora — eu disse, tentando manobrar em torno dele. Ele se moveu comigo. — Espere, um minuto, por favor. — Ele semicerrou os olhos do jeito que ele fizera quando a menina lhe deu a barra de chocolate: pálpebras pesadas com dor. — Você não pode me dizer nada que vai me impedir de delatar Paul — eu disse, — então você pode parar com isso.

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VP: Vice Presidente. Era a posição ocupado por Tim na escola.

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Ele piscou. Suas sobrancelhas se aproximaram, em seguida, separaram quando ele riu. — Você acha que eu estou aqui por causa daquele idiota? Você pode golpear Paul o quanto quiser. Parece que ele sabia que isso ia acontecer. — Oh. — Eu mudei o meu equilíbrio de um pé para o outro, olhando para ele. — O que você quer, então? O riso o havia deixado sorridente, de verdade, não a expressão usual de dor. Eu podia ver como ele poderia ter encantado milhares de meninas, sorrindo assim. Isso sugeriu que estávamos envolvidos nisso juntos, alguma piada sobre Paul. Por um segundo, eu meio acreditei que ele queria me ajudar a pôr fim à porcaria daquele cara. Curiosidade me segurou lá, esperando para ouvir o que ele diria. — Você sabe coisas — ele disse. — Você descobre tudo o que acontece em Frazer e ninguém sabe como. — Sim? — eu disse. — Bem, como você faz isso? — Eu pensei que você já soubesse — eu disse. — Não é isso que dizia a sua nota? — Bem, algumas pessoas dizem que talvez você seja psíquica, ou talvez tenha alguma mágica estranha, como bruxaria. Tem que ser alguma coisa. Desta vez, eu ri. — Você acha que eu sou uma bruxa? — Eu não sei — ele disse, uma pitada de frustração rastejou em sua voz. Seu sorriso desapareceu. — É por isso que eu estou perguntando a você. — Ele moveuse para frente, e eu para trás, deslocando-me para ter um caminho claro em direção ao estacionamento. — Então você mentiu? — eu disse. — Isso realmente me faz querer falar com você. — Eu não achei que você me escutaria se eu não dissesse algo que pudesse chamar sua atenção.... eu acho que você não está realmente ouvindo de qualquer jeito. Sinto muito, ok? Eu só, você obviamente pode fazer algo que ninguém mais pode, e eu pensei, isso parecia... eu só quero saber o que você faz. — E por que você acha que eu diria? Essa é a parte que eu não estou entendendo.

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Megan Crewe

the — Eu... eu preciso saber — ele disse, sem jeito.

— Ok — eu disse. — Tanto faz. Você quer me dizer o que há, pelo menos? — O quê? — O que você quer saber? — eu perguntei. — Qual é o negócio para você entrar em todo este problema? Ele suspirou. — É apenas... é importante. — Oh, vamos — eu disse. — Você não costuma esperar que as pessoas com as quais nunca falou exponham sua intimidade assim, não é? Por que você quer saber? — Eu te disse, é importante. Você não pode simplesmente acreditar em mim? — Ei, foi você que me seguiu por todo o caminho até aqui. Se você não pode se incomodar em me dizer... Ele se aproximou novamente, dando-me uma desculpa para aproximar-me do estacionamento. — Você está fazendo isso realmente difícil, você sabe. E isso foi o fim da minha paciência. Isto era, claro, tudo sobre ele. Ele tinha o direito de me seguir, de me observar, de exigir respostas, mas eu não tinha o direito de fazer a pergunta mais óbvia. Quem diabos ele pensava que era? — Por que eu deveria fazer isso mais fácil? — eu perguntei, me distanciando mais. — Você não me deu nenhum motivo para dizer qualquer coisa a você. Eu mal te conheço. Nós nunca conversamos antes. Tim olhou para mim. Aparentemente, ele achava que sua pergunta deveria ser razão suficiente. — Tudo bem — ele disse, sua voz tremendo. — Se você quer fazer isso difícil, eu posso lidar com isso. Você quer que eu jure segredo? Eu juro pelo túmulo da minha mãe. Será que isso fará você feliz? A alça de sua mochila escorregou pelo seu braço, e eu ganhei um comprimento de um carro quando ele puxou de volta para o seu ombro. Meus pés escorregaram na grama e na calçada do estacionamento. Ele andava atrás de mim, seu rosto apertado.

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Megan Crewe

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Eu não podia acreditar nele. Com raiva de mim, como se eu estivesse de alguma forma lhe perseguindo. E trazer sua mãe para que eu tenha pena, ele tentava ganhar um prêmio por cretinice, ou o quê? — Ei — eu disse. — Eu não devo te dizer. Eu não devo nada a você. Portanto, há uma pessoa no mundo que não salta quando você estala os dedos. Lide com isso. Então eu me virei e fui embora. Eu tentei fazer esse último pequeno discurso brutal o suficiente para impedilo. Mas eu estava apenas do outro lado do estacionamento quando seus tênis bateram no asfalto atrás de mim, correndo para me alcançar. O ar se deslocou quando chegou a mim. — Ok, olha, se você esperar um segundo... Minhas mãos apertaram em frustração. Ele não me deixaria sozinha. Instinto me puxou para frente. Eu não queria mais ouvir. Eu só queria fugir. Cabeça para baixo, eu corri em direção ao semáforo. As luzes estavam mudando para o vermelho quando eu pulei por cima do canteiro e corri em direção à escola primária. Uma buzina soou, e eu percebi que Tim correu através da luz vermelha atrás de mim. O que seria necessário para esse cara desistir? Eu fiz a única coisa que eu conseguia pensar: eu corri mais rápido. — Cass — ele gritou, — você vai parar? Isso é estúpido. Eu só... — ele perdeu o resto de sua sentença em um suspiro de ar. Eu evitei uma barraca na calçada, derrapando sobre a polpa de um tomate que havia caído. Quando eu subia sobre o meio-fio, uma mulher empurrou seu carrinho na esquina e tropeçou em meu caminho. Tropecei para o lado, braços agitando-se para conseguir equilíbrio, e Tim pegou no meu ombro. A base do carrinho bateu em seu joelho. O bebê começou a gritar como se o mundo estivesse acabando, e Tim tombou como uma árvore, sua bolsa voando. Ele se segurou antes de bater os joelhos na calçada e se agachou ali, ofegante. A bolsa bateu no cimento poucos metros à distância. Um par de livros caiu. Olhei para eles, deitada voltada para cima na calçada, e congelei. Um deles era Treze Conversas com o Morto. O outro, O Guia do Idiota para a Vida Após a Morte. Nuvens pavorosas decoravam as capas, atravessadas por feixes de luz da lua, aqui uma bola de cristal, lá uma árvore torta. Meu estômago torceu.

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— S... sinto muito. — Tim estava dizendo para a moça do carrinho. Sua voz ecoou, do jeito que sons fazem quando você está a quilômetros de distância dentro de sua cabeça. Tudo o que eu vi foram os livros. Engolindo o gosto ácido em minha boca, eu me ajoelhei para escolher um. O índice parecia como um elegante caso de TV: Lidando com os Mortos, O Mistério do Médium, Sinais dos Espíritos. A ilustração mostrava uma mulher cigana sentada em uma mesa com uma tigela de água, figuras fantasmagóricas girando no ar acima dela como fumaça de uma torta que ela deixara no forno por muito tempo. Em qualquer outro momento eu teria rido e jogado o livro para longe. Aquela mulher e eu não tínhamos nada em comum. Mas o cara que estava carregando isso havia acabado de me perseguir por duas quadras como um maníaco. Ele não poderia saber. Era impossível... não era? Levantei-me, cautelosamente. Tim estava encurvado, ajudando à senhora do carrinho a fixar uma roda que ficou meio presa. Ela se arrumou no lugar, olhou para mim como se fosse minha culpa algum cara decidir aterrorizar-me, e levou o gritante bebê embora. Tim pegou sua bolsa, guardando o outro livro. Eu observei e esperei, meus dentes tão cerrados que meu maxilar começou a doer. Ele se virou, olhou para mim, e viu o livro na minha mão. — Você acha que é muito esperto, não é?— eu explodi. — Fingir que não sabe de nada, agir como se não tivesse pistas. O que são esses livros, então? Sua boca ficou tensa. — Dê-me isso. Eu só estava... não é da sua conta. — Não é da minha conta? Desculpe-me, não foi você quem me perseguiu até aqui? Ele estava me olhando como se ele não tivesse ideia do que eu quis dizer. Merda. Talvez ele não soubesse. E eu quase... — Não importa — eu disse. — Esqueça isso. Vou sair daqui. Eu joguei o livro, virei de costas e peguei o caminho de casa. Desta vez, ele me deixou ir, apenas o seu olhar me perseguindo. Eu podia senti-lo nas minhas costas. De certa forma, era pior do que se ele tivesse corrido atrás de mim novamente. Eu não sabia o que ele estava pensando, mas eu podia dizer que o que quer que fosse, significava apenas problema.

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Capítulo 5 Paige entrou de supetão no meu quarto na outra manhã enquanto eu me vestia. — Talvez a aparência seja a coisa errada para se concentrar. Eu acho que você precisa de um novo hobby — ela anunciou. — Ou achar um lugar legal para ir. Eu não gostei do som disso. — Para quê? — Se você fizer algo interessante, as pessoas vão querer te conhecer. Talvez você fosse mais feliz. — Quem disse que eu não sou feliz? Paige revirou os olhos. — Por favor. Eu sou a sua irmã, eu consigo notar. Quando foi a última vez que seus amigos vieram aqui ou foi a uma festa? — Talvez eu prefira a companhia que eu já tenho — eu disse. O tipo que falava comigo sem se importar com o que eu estava vestindo ou o que falavam sobre mim. O tipo que eu podia contar que não mudaria de repente de ideia e me abandonaria. — Claro — Paige disse, suspirando. — De qualquer forma, primeiro você deveria... Antes que ela pudesse continuar, eu me enfiei dentro do guarda-roupa onde eu podia fingir que era surda. No escuro empoeirado, apertada entre um moletom e veludos cotelês, minhas respiração estava mais alta que a voz dela. Tudo lá cheirava como amaciante de roupas que a mamãe usava desde que eu era um bebê, suave e com cheiro de talco. Quando eu era pequena, ela lavava meus lençóis toda a semana e toda a minha cama cheirava dessa forma. Era o cheiro de dias doentes, deitada na cama com a mamãe em cima de mim, soprando ar frio como um beijo de fantasma na minha testa febril. Se eu ficasse aqui por tempo suficiente, o aperto quente das roupas faria com que eu me sentisse febril de verdade.

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Dessa vez, lembrando daqueles momentos com a mamãe me fez pensar no Tim. Ou melhor, na mãe morta do Tim. Claro, aquela coisa toda ontem deveria ter sido por causa dela. Era para isso que servia os livros. Mas ele foi muito persistente sobre falar comigo. Quanto ele sabia? E como ele ficou sabendo de algo? O lado do meu rosto pinicou enquanto Paige atravessava as roupas e se inclinava para perto de mim. — Você está bem, Cassie? — ela perguntou. Eu me reboquei para fora do guarda-roupa com um capuz vinho e calças pretas. — Estou bem — eu disse. Era possível que Tim tenha visto a sua mãe da mesma forma que eu vi Paige da primeira vez? E se sim, era por isso que ele queria falar comigo? Mas estas questões só me guiaram de volta para a primeira pergunta, como ele sabia para implicar comigo? Se eu estraguei as coisas o bastante para que ele tenha descoberto alguma coisa, as outras pessoas descobriram também? Paige estava fazendo uma careta para a minha escolha de roupas. — Você sempre usa estas coisas tão escuras — ela disse. — É depressivo. Que tal um pouquinho de cor para variar? — Sim, sim — eu disse, hesitando enquanto eu colocava as calças, — e não se esqueça de lavar atrás das orelhas e passar o fio dental depois do café da manhã. Eu já tenho uma mãe, obrigada. Paige me encarou, seus olhos arregalados, seu brilho diminuindo. E então ela piscou e voou em direção ao chão. — Sinto muito — eu disse rapidamente. Eu não podia ver a expressão dela, mas eu não precisava. Eu a vi ir atrás da mamãe ao redor da casa. Eu estive lá toda vez que ela estourou para dentro do quarto, em prantos. — Ela não fala comigo! Por que ela não fala comigo? — se jogando no chão. Aquele fato demorou eternamente para Paige aprender. Eu tinha uma mãe, e ela não, não mais. — Ela esteve fora por um longo tempo, não é? — Paige disse. Ela olhou para mim, seus olhos mergulhados nas sombras de suas bochechas. Eu podia sentir meus braços pendurados desajeitadamente de cada lado. Como eu podia confortar alguém que eu não podia tocar?

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— Sim — eu disse. — Como sempre. Papai disse que ela estará em casa para o final de semana. Está no calendário. — Certo. Como sempre. — Seus lábios sorriram, mas o resto do seu rosto não. Não que importasse quando a mamãe voltava. Ela estaria tão longe de Paige como agora. Como todos que estavam vivendo, menos eu. Eu estive tão brava com Paige por me empurrar para fora da vida dela naquela época, e agora ela era tudo o que eu tinha. Isso não era exatamente como eu queria que fosse. Ou o que Paige escolheria, se o lago tivesse dado essa escolha para ela. — Sabe — eu disse, — eu acho que essa roupa precisa de algo. — Eu abri duas gavetas da cômoda, procurando lá dentro até encontrar. Um cachecol de algodão, azul da cor do céu, que a mamãe trouxera da Grécia ou da Suécia ou de algum lugar. Paige se iluminou enquanto eu o enrolava ao redor do meu pescoço. Eu me mostrei. — Que tal isso de cor? Eu tinha certeza que ele não combinava com a camiseta, e eu tinha certeza que Paige havia notado, mas ela sorriu do mesmo jeito. — Perfeito. Ela deslizou comigo para o topo das escadas, e parou. Papai estava lá embaixo na cozinha, cortando algo para a sua omelete do café da manhã. — Até mais — eu sussurrei, e segui para baixo e para a porta da frente. Do lado de fora, tudo cheirava como terra, fazendo enrugar o meu nariz. Choveu de novo ontem à noite, e o ar parecia uma toalha fria e molhada contra a minha pele. Eu me apressei em direção a Frazier, tentando não pensar sobre o fato de que eu estaria presa no mesmo prédio que o Tim o dia todo. Tantas oportunidades para ele me encurralar. Tantas coisas que me davam receio quando eu tentava imaginar discuti-las com ele. Se ele sabia, se mais alguém sabia, o que importava era, como eu iria lidar com isso? Seria melhor negar tudo? Eu virei à esquina e o prédio da escola ficou visível. Uma tropa de veteranos tomou as escadas laterais. Eles se inclinavam contra a grade, passando um baseado de mãos em mãos. Eu hesito na beira do gramado, de repente sem vontade de enfrentar ninguém. Por hábito meu olhar se derivou para o pequeno freixo4 que 4

Freixo: árvore da família das Oleáceas, a mesma família a que pertence à oliveira.

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estava perto da beirada da calçada. Seus galhos se balançavam com a brisa, o espaço embaixo dela estava vazio. Se eu forçasse os olhos, eu podia quase ver o Chester. Suas costas duras e retas embaixo de sua camiseta branca engomada, seus braços empertigados cruzados através de uma mesa que não estava lá. Estranho lugar para se imaginar uma mesa, mas o freixo havia sido seu lugar favorito. Cada pessoa morta parecia ter um lugar que ela mais gostava. Eles podem as deixar por umas horas de vez em quando, mas elas nunca ficavam longe por muito tempo. Para a Paige era a nossa casa, para o Norris era o terceiro andar de Frazer, para a Blitzy era o corredor do lado de fora do ginásio, e para o Chester, o gramado da frente, especialmente aquela árvore. Ele era um cara legal, o Chester. Ele pegava todas as fofocas sobre os pais, escutava os burburinhos trocados no carro enquanto eles deixavam os seus filhos. Eu acho que ele gostava de fingir que eles eram os seus pais, também. Algumas vezes ele até perambulava para a casa com os garotos depois da escola, mas ele nunca falava sobre o que ele via. — Essas coisas deveriam permanecer particulares — ele me disse uma vez, seu rosto fino ainda mais sério do que o normal, quando nós estávamos sentados embaixo da árvore na hora do almoço como nós fazíamos frequentemente. Ele tinha muitas opiniões sobre certo e errado dessa forma, e ele não temia dividilas. Era meio legal. Os garotos em Frazer, os vivos, poderiam ter aprendido muito com ele em questão de honestidade. De qualquer um dos mortos, na verdade. Em junho passado, ele esteve aqui. Até no verão, eu perambulei algumas vezes para pegar uma brisa. Mas em setembro, eu andei até a árvore no primeiro dia da escola, e ele tinha ido embora. O cheiro fraco de chá que sempre ficava no ar, mesmo quando ele não estava perto da árvore, isso tinha ido embora também. Eu nunca mais vi ele. Eu acho que fazia sentido que os mortos fossem para algum lugar, eventualmente. Quer dizer, a maioria das pessoas desapareciam para o grande desconhecido no segundo que eles paravam de respirar. Mas ele foi a única pessoa morta que eu conheci que esteve lá e então não mais. Parada lá no gramado da escola, esfregando uma das folhas contra o meu dedo, eu senti meus olhos ficarem molhados. Eu balancei minha cabeça, tentando sair dessa. Este não era o lugar para começar a chorar.

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Megan Crewe

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Os veteranos nas escadas começaram a se mover. Um matou uma barata no canto, e todos eles foram em grupos para dentro da escola. Eu suspirei. Eu podia lidar com o que for que acontecesse, eu já havia lidado com pior. Minhas botas chapinharam na lama enquanto eu andava para a porta. Eu me empurrei para dentro e fui para as escadas. O corredor do lado de fora do ginásio estava vazio, mas o treino de basquete, sempre de manhã, estava em andamento. Os gritos do treinador ecoavam pelas portas e as bolas esmurravam no piso de madeira. Uma menina saiu da academia e correu para a fonte de água, o rosto brilhante de suor. Eu passei por ela, para o orelhão. Blitzy se atirou pela parede como se ela tivesse sido lançada de uma catapulta. Ela se virou com um pé só e seguiu com um plie5. — Eu sabia que você estaria aqui — ela disse. — Eu só sabia. Eu bocejei, cobrindo minha boca com a minha mão. — Estou aqui — eu concordei. — Cedo demais. — Bem, eu tenho coisas para te contar. — Ela colocou as mãos nos quadris e torceu a cintura de um lado e depois do outro. — Não tão bem quanto ontem, claro, mas é difícil superar aquilo, né? — Certo — eu disse, meu humor se elevando. A coisa com o Tim me desviou tanto que eu quase esqueci o quão perto eu estava de ver a Danielle se ferrar. — Então o que aconteceu? — Bem, tem esse cara, cabeça raspada, músculos bons, usa um moletom de time de beisebol sempre? Ele estava me contando que os amigos dele... Enquanto ela falava, uma porta se abriu rangendo no corredor. Quem quer que estivesse segurando-a parou e se inclinou contra ela, o ângulo afiado de um ombro aparecendo pela janela. Uma voz feminina gorjeou — Ah, eu não sei. O que você acha, Tim? Eu cortei a frase da Blitzy com um shhhh. Ela se inclinou para dar uma olhada. — O quê? — ela disse, cintilando com curiosidade. — Esqueça. Eu tenho que ir.

5

Plie: Passo de balé.

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Megan Crewe

the — Eu volto depois, e nós falaremos bastante. Eu prometo. — É melhor mesmo.

Eu cortei caminho pela cafeteria e fui para o meu armário. Meu coração estava batendo forte. Calma, eu disse para mim mesma. Não era como se ele estivesse correndo pela escola atrás de mim. E então as pessoas, cujas opiniões importavam para ele, poderiam vê-lo. Eu andei por alguns calouros já espalhados pelo corredor. O cheiro de óleo para cabelo do Norris ainda estava pendurado no ar, mas o garoto não estava em nenhum lugar para ser visto. Lá fora, assistindo o treino de corrida, eu esperava. Ele se lembraria disso por uns dois dias, e então ele teria que se lembrar novamente. Poderia demorar um pouco para conseguir algo que pudéssemos usar. Paul poderia estar apenas há algumas tentativas de fazer com a Sharry, mas agora a Danielle estaria no alerta vermelho. Ele tentaria se afastar do equipamento perdido, eu apostaria nisso. Eu abri meu armário e encarei os conteúdos. Que aulas eu tinha hoje, de qualquer forma? Havia muita coisa acontecendo; eu mal podia pensar. Eu fechei os meus olhos e tentei me afastar de tudo, só por um momento. Tênis guincharam no linóleo virando uma esquina. Os passos suaves e compassados de alguém alto mas leve no pé. Eu me virei. Tim se angulou ao redor da curva, parando abruptamente quando me viu. Minhas opções passaram rapidamente pela minha cabeça como folhas em uma rajada de vento. Eu podia sair fora novamente. Eu podia dar um passa fora nele antes que ele começasse. Mas... Eu olhei para ele parado lá, sem graça, suas mãos em seus bolsos, e todos os comentários mordazes que eu estava formando morreram na minha garganta. O que quer que fosse que Tim acreditasse das coisas que o pessoal dizia sobre mim, aqui estava ele na minha frente, no horário escolar, onde as pessoas podiam vê-lo. Eu precisava dar um crédito para ele por isso. Se ele quisesse tentar outra vez me contar o que diabos ele queria comigo, talvez eu poderia dar uma chance para ele. Eu não precisava dizer nada sobre mim se eu não pensasse que eu podia confiar nele. — Oi — eu disse.

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Megan Crewe

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— Uh, oi. — Tim mexeu no pouco de franja que escovava suas sobrancelhas pálidas. — Eu... olhe, eu realmente sinto muito sobre ontem. Eu não queria... eu fiquei meio doido. — Sim, ficou. — Nós podemos... você me daria outra chance para explicar? — Claro. Desembucha. — Ninguém está usando o escritório do Conselho Estudantil agora — ele disse. — Nós podemos conversar lá. Eu o segui pelo corredor e virando o corredor, passando as salas de aula para o pequeno corredor lateral onde o conselho estudantil fazia o seu trabalho. Tim puxou uma chave de seu bolso e destrancou a porta. Ele a segurou aberta para mim para entrar. Havia dois sofás e uma mesa de café entre eles, um computador em uma mesa no canto, e um frigobar do lado. Eu sentei em um dos sofás, limpando as migalhas para o lado. Tim sentou do meu lado oposto. Ele se inclinou para frente, seus cotovelos descansando em seus joelhos. — Tudo bem — eu disse, para nos guiar para o caminho certo, — então isso é sobre a sua mãe, certo? Por uns segundos, ele perdeu a fala. Ele respirou fundo, profundamente. — Eu acho que você sabe, uns dois meses atrás... — Ela morreu — eu disse, acenando. — O que você acha que isso tem a ver comigo? Ele olhou para as mãos, e então para mim novamente. Não havia traço do sorriso de ontem. — Eu acho — ele disse cuidadosamente, — que você sabe alguma coisa sobre aqueles livros que eu estava carregando. Correto? Eu o olhei e não disse nada. Eu concordei em ouvir, não conversar. — Então, tipo, você pode fazer? Tipo, contatar o outro lado? Ou talvez você saiba um jeito, ou você conhece alguém que saiba... eu sei que não é realmente da minha conta, mas... é realmente importante para mim. Ele soava desesperado. Realmente desesperado. Um sentimento que eu conhecia. Eu corri meus dedos ao longo da mesinha de café, assistindo-o.

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Megan Crewe

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— Se houvesse algum jeito que eu pudesse conversar com ela — ele continuou, as palavras saindo rápidas agora, — entrar em contato com ela, vê-la, de qualquer forma que funcione, eu faria qualquer coisa. Eu sei que é uma coisa estranha para se pedir. Eu só pensei que há uma chance de você ter alguma ideia... Eu segurei minha mão para cima, e sua boca se fechou de uma vez. Então ele não a via, ou ouvia. Ele só queria fazer isso. E ele não sabia que eu podia fazer, só que eu podia fazer algo psíquico ou mágico, nada específico, só o bastante para deixar ele se perguntando. Eu mordi meu lábio. Eu podia notar que ele não sabia que o que eu fazia não tinha nada a ver com isso, que ele deveria tentar o que for que aqueles livros falavam para ele fazer, e talvez pudesse funcionar. Ele havia perdido a mãe, e eu sentia muito por ele, mas ele também era o Tim Reed, Vice-Presidente. O Tim que era bom amigo para o Matti e o Paul e a Danielle e o resto deles. Algo clicou, e as engrenagens no meu cérebro começaram a funcionar tão rapidamente que eu quase podia ouvi-las. Tim saberia coisas sobre o Paul, sobre a Danielle, coisas que o Norris e a Blitzy nunca poderiam descobrir. Isso era a chave para o cofre, entregada de bandeja para mim. Se eu fizesse as coisas direito, eu poderia ter o bastante para mostrar a todos – para mostrar a Danielle – o quão longe de perfeita ela era. E o Tim conseguiria o que ele queria ao mesmo tempo. Ambos, felizes. Que tipo de idiota passaria uma chance como essa? Eu seria o tipo de idiota que preferiria manter algumas coisas em segredo do Vice-Presidente. — Você contou para alguém? — eu disse. Sua testa se enrugou. — Contou? — Sobre o negócio de entrar em contato com os mortos. Ele teve o nervo de rir. — Você está louca? Dizer as pessoas que eu estou tentando entrar em contato com a minha mãe morta? Sim, certo. Claro que não. — Eu não quis dizer isso — eu disse. — Eu quero dizer sobre mim. — Eu não disse nada sobre você.

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— Nem uma dica? Por que os seus amigos acham que você está me incomodando? — Você acha que eles sabem? — ele disse. — Eles nem ligariam. De qualquer forma, isso não tem nada a ver com eles. Olha, eu não vou dizer nada para ninguém sobre nada disso. Ele tinha todos os sintomas da sinceridade também: as mãos apertadas, o olhar sem piscar, o queixo erguido. — Nós temos que deixar claro — eu disse. — Se eu escutar você falando sobre mim, e eu vou saber se você falar, você conseguirá o oposto de ajuda. Tudo bem? Ele concordou. — E eu quero que você faça algumas coisas em troca. — Eu hesitei e decidi deixar assim. Era mais fácil ele deixar escapar algo sobre os amigos dele se ele não soubesse que eu estava atrás. — Claro — ele disse. — É justo. — Eu não posso garantir nada — eu continuei, mensurando minhas palavras. — Você tem alguma razão para pensar que a sua mãe está por aqui? — Eu... eu não sei. — Bem, eu não posso só estalar os meus dedos. Várias pessoas só vão, e é isso. As chances são grandes de que você não encontrará nada. — Está bem — Tim disse, esperança cintilando em seus olhos. — Eu só quero tentar. Eu soltei a minha respiração. — Contanto que você esteja pronto. Ela poderia ter sido a melhor mãe do mundo e ainda ter ido direto para outro plano de existência sem pensar duas vezes. Eles apenas fazem isso. Tim acenou, mas seu rosto mudou. A parte de cima, ao redor dos olhos, começaram a ceder, ao mesmo tempo que a sua boca e o queixo ficaram tensos. Aquele momento selou o acordo. Eu olhei para ele, e era igual a Paige novamente. Paige fazendo aquela cara há quatro anos atrás, toda vez que ela gritava bobamente tentando chamar a atenção da mamãe para fazer com que a escutasse.

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Paige fazendo isso esta manhã, quando ela lembrou que a mamãe havia viajado, de novo, como sempre. Parte de mim dizia que Tim não tinha direito de parecer assim, tão perdido. Ele tinha um pai, ele tinha toneladas de amigos, ele tinha esperança. Se ele tinha alguma pista de como era isso, de ser realmente abandonado, da forma que a Paige foi, como ninguém exceto eu e nenhuma das pessoas que ela queria... Mas tudo em mim sabia que não dava para fingir aquele rosto. Nem em um milhão de anos. Tudo o que ele falara, ele estava sendo sincero. — Tudo bem — eu disse. — Estou dentro. Por agora. — Obrigado — Tim disse. — Sério, obrigado. Eu já tenho um monte de coisas... obviamente nós não podemos fazer nada aqui. — Ele se virou no sofá e olhou para o relógio na parede. Eu acho que ele teria me arrastado na mesma hora se ele pudesse. — Perder matemática iria me matar, mas eu posso matar a tarde — ele disse. — Te pego no começo do almoço? Eu dei de ombros. Se o sr. Vice-Presidente podia matar umas duas aulas, eu não iria me fazer de CDF. — Tudo bem por mim.

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Capítulo 6 Duas horas depois, eu estava sentada na aula de história, ouvindo a palestra do sr. Minopoplis sobre a Guerra Civil, e meu estômago trabalhando em sua própria pequena rebelião. Que diabos eu fiz? Tim olhou para mim com aqueles olhos tristes e eu disse sim e concordei em ajudá-lo. Tim que tinha dezenas de meninas o bajulando, que podia ter qualquer coisa que queria. Exceto isso. Quem mais poderia dizer se sua mãe permanecera ao redor. Eu provavelmente deveria ter mantido minha boca fechada. E se eu não a encontrasse? Ele ficaria desapontado, talvez até com raiva, apesar de todas as suas garantias. Quem foi que disse que ele não iria falar sobre mim, então? Mesmo se eu não encontrar a mãe dele, então o que? O que eu sabia sobre a relação mãe-filho poderia compartilhar o espaço de um único neurônio com o meu entendimento de manutenção do motor a vapor. Provavelmente eu sabia mais sobre os motores a vapor. Eu tentei fazer o contrário uma vez. Houve uma menina saindo da minha escola secundária, uma das primeiras pessoas que eu vi morta depois de Paige. Eu não fazia ideia do que estava fazendo, mas esta pequena estava sempre a chatearme para que fizesse seus pais saberem que ela ainda estava ao redor, e havia me deixado mais louca do que eu já me senti. Então eu cacei o endereço de e-mail de sua mãe e tentei entrar em contato. A mãe, sem surpresa, ficou ainda menos certa da minha sanidade do que eu. Ela enviou uma mensagem de volta gritando, ameaçando chamar a polícia para mim se eu mencionasse a filha novamente. Olha para Paige e mamãe. Estava eu fazendo isso com Tim, sabendo que sua mãe estava lá, mas nunca sendo capaz de falar com ela, ouvi-la, reconhecê-la? Eu apertei as palmas de minhas mãos contra a minha testa. Eu precisava sair daqui, me dar um pouco de tempo para pensar. Era quase hora do almoço. Eu poderia provavelmente me afastar com uma corrida de vômito.

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Se você corre da classe com a mão sobre sua boca, os professores assumem que está a ponto de esvaziar suas entranhas em um vaso sanitário e te perdoará por não voltar. Sobretudo se, como o sr. Minopoplis sabe que você sabe que eles roubaram uma das TVs da escola no ano passado. Com o jeito que meu estômago estava se debatendo, eu não estava totalmente fingindo. Enfiei meu braço em uma das alças do meu ombro e verifiquei para ver se o sr. M notou a minha preparação. Ele estava ocupado escrevendo um monte de datas no quadro-negro. Saltando para cima, eu balançava minha mochila no ombro, levei as mãos à boca, e corri. Eu estava fora da sala antes que sr. M, mesmo se virasse. Eu continuei correndo até chegar às escadas, no caso de alguém espreitar para ver onde eu estava indo. A caminho do meu armário, eu desacelero uma corrida. Meu coração batia forte contra o aperto no meu peito. Quando cheguei ao fim do corredor, eu fechei os olhos e inclinei a cabeça contra o aço frio. Suspirando, queria que meu corpo relaxasse. Norris escoou para fora da parede, tão perto que sua jaqueta formigava através do lado do meu braço. — Você está adiantada. — Disse ele. Eu me ajeitei e abri meus olhos. — Escapei fora da classe. — Legal. Ele encolheu os ombros, sua gola do casaco escovando seus ouvidos. — Algo errado que eu deveria saber? — Tenho uma pequena viagem de campo acontecendo em poucos minutos. Seus olhos se iluminaram. — Onde você está indo? — Eu não tenho certeza. Eu estou indo a uma caça ao fantasma da mãe morta de alguém, assim pode acabar em qualquer lugar. Eu ergui minha mochila, em seguida, atirei a coisa toda no meu armário. A tarde ia ser difícil o suficiente sem precisar arrastar aquela coisa ao redor. Para o inferno com o dever de casa. Norris flutuou em torno de mim. — Caçar um fantasma? — Disse ele. — Para quê? — Não foi ideia minha. — Eu disse. — Eu acho que não. Quem é esse alguém, afinal?

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Megan Crewe

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— Tim. — Eu disse. — Você se lembra da nota... e esta manhã. — Norris ficou me olhando. — Não é o cara que tem um monte de gente fazendo favores para ele? Eu pensei que ele estava perto do topo da lista dos atingidos. — Pois bem... — eu fiz uma carranca para meu armário. — Ele continuou me incomodando. E eu percebi que eu poderia conseguir alguma sujeira disto tudo. E mesmo assim, não é como se qualquer outra pessoa pudesse fazer este favor para ele. — Ei, se você acha que vale a pena. O que vai fazer se encontrá-la? — Eu não sei. — Eu admiti. — Eu estou com um pouco de esperança de que ela não esteja por aqui. As chances, pelo menos, estavam a meu favor. Se ao menos um quarto das pessoas que morreram nesta cidade tivesse decidido ficar por perto, eu teria sido enterrada por elas. Norris deu de ombros. — Sim, eu aposto que ela já partiu para o grande além. Não se preocupe. — Ele disse isto casualmente, mas a amargura penetrou em sua voz de qualquer maneira. Norris não sabia o que era o grande além melhor do que eu, e eu duvidava que ele se importasse por estar aqui e não lá. Era o que ele escutou de seu pai. No meu primeiro ano na Frazer, Norris vomitou um monte de palavras duras, como, Eu fui recebido com espancamentos a partir do dia em que nasci e Esse garoto precisa ser estapeado com eu fui. Fazia como se ele fosse melhor por isto. Seu pai, eu tirei dele um dia, foi até a Summerlea Geral, e esteve com uma daquelas doenças que leva o seu tempo para matar você. Norris desaparecia por algumas horas de vez em quando para visitar. Então, na primavera passada, eu encontrei Norris se escondendo dentro e fora dos armários, tão escuro que eu poderia ter confundido-o com uma sombra. Ele morreu, disse ele. O bastardo finalmente morreu, e ele não apareceu. Ele acabou de sair. Ele foi embora. Eu acho que ele queria ter uma última conversa com seu pai, definir algumas coisas simples. Eu acho que ele estava esperando por isso. E ele não entendeu. Lembrando que eu senti um golpe de aborrecimento com Tim. Por que ele deveria receber o que todo mundo precisava fazer sozinho? A morte deveria ser

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difícil. A vida deveria ser difícil. Deveria ser, mesmo se a morte se inclinou sobre esse cara. — Só me prometa que não vai ser suave com essas crianças. — Disse Norris. Eu ri. — Não há muita chance disso. — Bom. Foi um longo tempo antes que você viesse, Cass. Eu mal me lembro, mas... eu sei que era muito chato. Ele esmaeceu como ele disse, e eu me aproximei dele sem pensar. Em um pouco mais de um ano eu estaria fora daqui. Mas eu não queria lembrá-lo disso. — Você quer vir para o estacionamento um pouco? — Eu disse. — Eu tenho que encontrar o filho chorão em frente a seu carro. O brilho voltou aos olhos. — Claro. Você tem um plano? Eu pensei sobre isso enquanto fomos levados para a escadaria. — Nah. Só posso usar o apoio moral. — Aposto que posso fazer melhor que isso. — Saímos para o sol. As nuvens esfumaçando, deixando o céu impecavelmente branco. O estacionamento estava à direita, quatro fileiras de carros brilhantes pela chuva cercados por poças d'água tremeluzentes. Eu pulei sobre o guard-rail6 entre o gramado e o lote. É o Oldsmobile7 azul. Tim dissera. Não tem como você perder. Ele estava certo. A volta traseira retangular do Oldsmobile se estendia um pé mais longe do que qualquer outro carro, e tinha mais amassados do que a máquina pública de café. Não era o carro azul usual: fundo, brilhante, e real. Não, estamos falando de um pálido, pastoso azul pastel. Tim estava encostado no porta-malas, que era tão baixo que ele poderia ter sentado sobre ele e mantido os pés no chão. Ele se levantou enquanto eu me aproximava, o carro rangeu. Norris flutuava ao meu lado, correndo os dedos ansiosamente para baixo do capô de um elegante carro conversível. Ele olhou para mim, piscou e em seguida, mergulhou de cabeça no Oldsmobile. Ele deslizou pelo tronco e se pendurou ali, com o rosto imerso, como se ele estivesse mergulhando nele. 6

Guard-rail: Uma mureta ou rail é uma proteção que geralmente aparece nas margens de pistas de automobilismo e em muitas estradas públicas. 7

Oldsmobile: marca de veículo, não necessariamente o nome de uma linha. (Exemplo: Ford, Fiat). Não existe mais.

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O sol estava do meu lado, assim Tim precisava apertar os olhos para me olhar. Suas mãos pareciam dar a ele um tempo difícil. Ele as puxou da cintura para uma coceira no pescoço, recusando-se a ficar parado. — Ótimas rodas. — Eu disse. — Isto costumava ser do meu tio-avô. — Cara, Cass, você não iria acreditar em todo o lixo que esse cara tem. — Norris gritou, erguendo a cabeça. — Vamos ver. — Ele mergulhou de volta para dentro. — Muitas velas brancas. Incensos. Jogos. Uma grande folha branca... parece seda. Ótimo gravador, espelho todo em bronze. Algumas fotos e uma caixa de... cartas de tarô? Meus lábios curvaram. — Algo engraçado? — Tim perguntou, enfiando as mãos nos bolsos da calça jeans. Eu levantei minhas sobrancelhas. — Você trouxe material suficiente. Pensava em conseguir uma sessão? Tim corou. — O que você quer dizer? — Velas, cartas, objetos pessoais... Você me vê carregando alguma coisa dessas? Confie em mim, se precisasse, eu teria dito. — Ok, ok. — Disse Tim, de expressão mais escura. — Eu não sabia. Pensei que deveria conseguir algumas coisas, no caso. Como você... Quando eu encolhi os ombros, ele olhou para o carro, as sobrancelhas se unindo. Norris, esparramado, com o tronco para fora, deu-lhe um aceno. — Você tem que mexer um pouco com esse cara, Cass. — Disse Norris. — Ele está apenas pedindo por isso. E eu quero ouvir tudo sobre isso amanhã. Eu dei-lhe um breve aceno. Ele flutuou entre o estacionamento e através dos tijolos da parede exterior da escola. Tim correu os dedos pelos cabelos. — Então, uh, o que vamos fazer? — disse ele. — Quero dizer, como você vai encontrá-la? Ou é alguém, que você conhece? — Sou apenas eu. — Eu disse. — E eu vou apenas olhar onde ela passou a maior parte de seu tempo quando ela era viva, como, o seu tempo livre?

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Tim respondeu rapidamente. — Casa. Quero dizer, ela tinha amigos e trabalho, apenas em tempo parcial, mas gostava de estar em casa mais do que qualquer coisa. — Ele parecia certo. Bom. Havia alguma esperança de que ele não iria puxar-me para meia dúzia de lugares se eu não encontrá-la no primeiro ponto, então. — Tudo bem. — Eu disse. — É aonde nós vamos. Será que está limpo lá? Ninguém em casa? — Eu acho que... — Seus olhos vidrados por um segundo. — Sim, isso vai estar bem. Vamos lá. Jogando de cavalheiro, abriu a porta do lado do passageiro para mim. Eu pulei dentro. O interior do carro parecia dez vezes menor do que o lado de fora, todo de couro cinza apertado. Cheirava a Pine-Sol. Tim dobrou-se no banco do motorista, suas pernas tocando na parte inferior do volante. Ele se afastou rápido do amplo espaço, e o pára-choque acertou o guard-rail. Isso explica os amassados. Quando o carro deu uma guinada fora do lote, Tim ligou o rádio sintonizado em alguma estação de novos country melosos. Ele bateu no volante no tempo da música, mas seus dedos continuavam a perder o ritmo. Apenas longe da escola, quando chegou a um sinal vermelho, e ele olhou para mim. — Se ela estiver lá. — Disse ele. — Na casa... eu serei capaz de vê-la? Eu hesitei. Estávamos ficando cada vez mais perto da questão do que exatamente eu poderia fazer. Bem, ele descobriria logo, logo, não era? — Provavelmente não. — Eu disse. — Quantas pessoas que você viu na área de estacionamento? — Bem, duas: eu e você. Ah... — Ele piscou para o pára-brisa, em seguida, olhou para mim. — Então... é assim que você sabia o que eu tinha? Havia alguém ali? — Você disse que não viu ninguém. — Disse, levantando os joelhos para que eu pudesse deslizar para baixo no assento. O couro antigo era realmente muito macio e confortável. — Mas alguém, eu quero dizer... morto. Eu não sei do que você os chama. Um fantasma, eu acho? — Se isso é como você quer chamá-los.

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Tim fez uma careta. — Eu não sei. Eu acho que nós estabelecemos que eu não tenho a menor ideia sobre nada disso. — Você age como você tivesse. — Eu apontei. — Eu posso apostar que as pessoas em Frazer dizem todas essas coisas assustadoras sobre mim. No entanto, não sei como você não procurou primeiro bruxas e médiuns para falar com os mortos. Ou você acredita que seria algum tipo de magia? O carro atrás de nós buzinou. A luz ficara verde. Tim olhou para longe e acelerou. — Não havia outra coisa. — Disse ele, olhando para a estrada. — Quando todos começaram a falar de você, depois da coisa com o Paul ontem, lembrei-me. Esta vez, como há um ano, eu saí da classe e segui em frente, e você estava sentada embaixo daquela árvore, perto da calçada, falando realmente baixinho. Você ficou mais ao seu lado como se houvesse alguém sentado lá, mas eu não podia ver ninguém. A minha pele esfriou. Será que eu realmente havia sido descuidada? Graças a Deus não foi uma professora que me viu, ou eu poderia terminar voltando para a terapia, ou pior. — Não é que eu tivesse a certeza. — Tim continuou. — Mas acreditei que valeria um tiro, quero dizer, obviamente, você pode fazer algo que a maioria das pessoas não consegue. Não é como se houvesse alguém de qualquer forma, mas eu sei que há uma possibilidade e até mesmo uma pequena chance... — Então por que é tão importante que você fale com ela? — eu perguntei. — Ela escondeu um bilhete de loteria premiado antes de morrer ou algo assim? — É tão estranho que eu sinta falta dela? — Tim perguntou. Sua voz saiu embargada. — Não. Mas a maioria das pessoas tem este problema e não vai tentando fazer algo que é considerado impossível. — Tentei imaginar mamãe ou o papai chamando médiuns da TV ou recebendo livros como os de Tim fora da biblioteca. — Normalmente, eles só... aceitam. — Acho que não percebi até depois que ela morreu que eu sentiria muito a falta dela. — Ele fez uma pausa. — As coisas começaram a mudar, as pessoas mudaram após ela ficar doente. Todo mundo me olha diferente, falam de forma diferente É como se eu realmente nunca os conhecesse. Se tivesse acontecido antes, eu teria ido com ela... Ela sempre sabia como lidar com tudo. Ela estava

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sempre lá. Mas, obviamente, agora... só de saber que ela ainda está aqui, se ela estiver, eu sei que isso iria tornar as coisas melhores. — Você não pode apenas falar com seu pai? — eu perguntei. — Seria o diabo de muito mais fácil. Tim ficou em silêncio enquanto ele virava em uma esquina. — Eu não posso. — Disse ele. — E ele não iria. — Ele parou em frente de uma casa de dois andares. — Bem, aqui estamos nós. Eu olhei para cima, através da janela. De alguma forma, eu esperava uma mansão da Playboy, com um deck enorme e uma banheira de água quente para namorar as senhoras, mas era uma casa normal, sem graça, bege e marinho, com um par de telhas tortas e um pouco de crosta de tinta descamando fora do alpendre. Só servia para mostrar que você não pode acreditar na programação televisiva adolescente. Quem diria, talvez Tim não fosse muito da ninhada da senhorita-assassina, também. Eu saí do carro antes que Tim pudesse tentar abrir a porta para mim. Depois que ele trancou o carro, pisou na calçada e me olhou como se estivesse esperando por algo. — Oh. — Eu disse, pegando a deixa. — Não, ninguém aqui fora. — Ok. Segui-o aos degraus da porta da frente. Havia um pequeno sinal pendurado na parede da varanda, pintado com folhas de outono e a palavra bem-vindo em um desenho florido. Da forma como os olhos de Tim plissaram quando ele viu, sua mãe deve ter feito isso. Meu pai tem o mesmo olhar quando ele passa na nossa lareira e olha o cavalo de barro que Paige esmagou em fôrma na terceira série. Eu suponho que não importa a razão do luto, a reação é a mesma. — Bem, é isso. — Disse Tim, empurrando a porta aberta. O salão da frente era fraco. À esquerda, as escadas divagavam até o segundo andar em um corredor marrom. Através da porta estreita do lado direito, um sofá de camurça marrom combinando estava na sombra, debaixo de uma janela com cortinas pesadas. A única luz, austera e artificial, vinha da cozinha, sempre em frente. — Ele deixou as luzes acesas. — Tim murmurou para si mesmo. Ouvi-o engolir. Ele me deu um sorriso duro em torno das bordas. — Você quer uma bebida? — Não, obrigada.

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Eu lancei minhas botas na sapateira de plástico enquanto Tim ia adiante. Se fizéssemos a casa toda escura como a sala de estar, encontrar uma pessoa morta devia ser uma brisa. Ela se destacaria como uma luz noturna. Olhei sobre as escadas e corrimão, a mesa do lado com o seu vaso de flores secas, as formas sombrias de mobiliário na sala de estar, e respirei profundamente. A sala cheirava a couro empoeirado. A menos que a mãe de Tim tenha sido secretamente uma dominatrix8, tive a sensação de que o cheiro não vinha dela. Entrei no forte brilho amarelo da cozinha. Pela aparência das coisas, ninguém cozinhou lá em tempos. Uma linha de panelas reluzentes pendia de uma prateleira em cima do fogão sem manchas. Os contadores e armários brilhavam. Um doce aroma pairava no ar, como uma memória de biscoitos assados anos atrás. O silêncio começava a levantar arrepios em meus braços. — Ela gostava de cozinhar? — Eu disse, virando-me para Tim. — Nada muito complicado. — Disse Tim. — Ela amava as tortas, no entanto. Ela fazia um merengue de limão incrível. Ele pegou uma garrafa de gin do congelador. Parecia água quando ele derramou em seu vidro, mas cheirava azedo. Cobriu-a com club soda9 e tomou um longo gole. Então era isso que ele quis dizer com uma bebida. Parecia um pouco cedo para começar a beber, mas eu não estava prestes a começar uma palestra para ele. — Nada aqui? — ele perguntou. — Não neste piso. — Continuemos... para cima ou para baixo? — Vou verificar seu quarto primeiro. — Disse eu, embora realmente, qualquer lugar que não fosse a cozinha teria sido bom. O falso brilho causava mais assombro do que as trevas. — Acima. — Disse Tim, e ergueu a taça para as escadas. Ele acendeu um interruptor enquanto nós íamos ao fundo do corredor. A luz piscou para além da cozinha. — Papai quer manter as luzes apagadas o tempo todo para economizar energia elétrica. — Ele disse, como se fosse uma piada de mau gosto. 8 9

Dominatrix: Mulher que exerce o papel “dominadora” em práticas de BDSM. Club-soda: Variação de água tônica servida pura ou acompanhada de uísque.

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A escada rangia um pouco menos do que o Oldsmobile, o que não dizia muito. No andar de cima as cortinas estavam fechadas e a luz do sol ao redor aquecia os quartos. Tim tocou a porta no final do corredor. — Este é o quarto dela. Eu coloquei a minha cabeça em sua entrada. O quarto parecia vivo: as colchas marfim amarrotadas, uma camisa pendurada em um dos puxadores da cômoda de bronze. Uma camisa de homem. Claro que sim. O pai de Tim ainda dormia aqui. — Sra. Reed? — Eu disse, passando por cima do limite. Tim se sentou na cama, cautelosamente, e colocou seu copo no final da mesa. Nada mais mudou. Se a mãe de Tim estava ao redor, eu teria esperado que ela aparecesse no segundo em que ouviu o seu nome. Na verdade, eu teria esperado que ela nos encontrasse na porta. Os mortos não têm o hábito de se esconder. É o oposto, na verdade, eles seguem a vida em todo o lugar. Quero dizer, pense nisso: 1. Normalmente, ninguém pode vê-los de qualquer maneira. 2. Eles estão entediados fora de suas mentes, e os vivos são a única coisa remotamente interessante. 3. Se alguém puder vê-los, eles ficam muito animados por ter finalmente alguém para falar que você tem sorte se puder fazê-los se calar. Com a minha cabeça virada de modo que Tim não conseguisse ver, eu soltei um suspiro de alívio em silêncio. Parecia que ela ia ser um não show. Eu ainda precisava agir como se eu estivesse procurando, no entanto, ou Tim não seria convencido. E eu nem havia tentado qualquer escavação ainda. Eu estava aqui, eu estava fazendo o que Tim pediu, o qual poderia devolver o favor. — O jeito que você falou sobre Paul ontem, eu acho que ele deve aprontar muito. — Disse, cutucando e abrindo o armário. Sem mamães lá. Apenas um lote inteiro de suas roupas: brancas, amarelas e vermelhas, as cores com as quais ela encheu a casa. — Eu não sei. Não é como se ele me dissesse sobre isso. — Tim rodou enquanto eu levantava a barra da cama. — Então, você vê alguma, como, sinais? Que ela está por perto? — Não tão longe. Tudo o que vi debaixo da cama foi um monte de poeira e um monte de caixas de sapato. — Eu espirrei enquanto eu me levantava. — Mas, quero dizer, você já ouviu coisas. Sobre Paul.

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Tim deu de ombros. — Ele fez alguns comentários, quando Danielle ainda não havia chegado lá, mas é difícil dizer quão sério ele é. Eu acho que mamãe não está aqui? — Não. — Vamos tentar o meu quarto. — Por que não? O quarto dele mal tinha espaço para sua cama, o que não deixava muitos lugares para alguém se esconder. Eu peguei a foto emoldurada da mesa do computador que estava espremida entre o pé da cama e a parede. O menino devia ser Tim, com seis ou mais anos. Cabelos com a mesma luz, mesmo sorriso encantador, um pouco mais redondo na cara. Ele estava sentado no colo de uma mulher, e ambos descansavam em um cobertor debaixo de uma castanheira, pratos e copos de isopor espalhados ao redor deles. A mulher, eu imaginei, era sua mãe. A cabeça de Tim estava um pouco aninhada no arco de seu pescoço e queixo, e seus cabelos cor de mel escovavam sua bochecha. Eles estavam vesgos, com os rostos brilhantes com o sol, e sorrindo para quem estava atrás da câmera. O pai de Tim, provavelmente. Um piquenique familiar feliz. Tim pairava ao meu lado. — Então, você acha que... Eu balancei minha cabeça. — Não parece muito bom. — Disse. — Mas ainda há lá embaixo. Eu empurrei o meu cabelo para trás da minha cara, perguntando se eu poderia tirar algo de Tim, sem ser demasiado óbvio. Talvez se eu começasse com algo casual e geral, como, O que vocês falam em todas as horas do almoço, afinal?, e corresse com o que ele me desse. Eu trabalhava o texto e voltava para a porta quando eu a vi. Foi apenas um rosto, saindo da parede, pálido e emoldurado por cabelos dourados. Seus olhos azul-acinzentados encontraram os meus. As sobrancelhas delicadas se aproximaram, os lábios entreabertos, e então ela puxou de volta para a parede com tamanha rapidez que me deixou atordoada e piscando. Minha respiração prendeu na minha garganta. — O que foi isso? — Tim perguntou. Ele se inclinou para trás de mim para ver onde eu estava procurando.

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— Eu não sei. — Foi muito rápido. Eu não podia ter certeza se ela era a mulher na foto. Fui até a porta, e olhei para cima e para baixo no corredor. Quem quer que tenha sido, correu por ele, logo que percebeu que eu poderia vê-la. Estranho. Mas ela deixou algo para trás. Enquanto eu respirava, eu senti o cheiro, leve e doce como o açúcar em pó. A doçura na cozinha era ela. Inclinei-me sobre o parapeito, e ficou mais forte. — Bem, vamos lá. — Disse Tim. Ele desceu os primeiros passos, depois hesitou e olhou para mim. — Quero dizer, tudo bem, certo? Ou devemos esperar? Você acha que ela está nervosa? — Eu nem sei se é sua mãe. — Eu disse, sentindo-me desconfortável. Qual foi do jogo de esconde-esconde? Eu veria como um grande favor ao seu filho, se fosse ela, e ela fugiu de mim? — Vá em frente. — Disse Tim. Corri atrás dele para baixo, parando na parte inferior da escada. A sala estava tão quieta e vazia como antes. Eu olhei para as salas escuras, franzindo a testa. O cheiro adocicado estava desaparecendo. Em poucos minutos, seria apenas um tom sutil, tão fraco que eu quase o perdi ao chegar porque eu não conhecia a aparência dele. Eu marchei para a sala. A poeira rodopiava. O sofá, o armário de TV, a madeira escura com manchas deram nenhuma sugestão dela. Eu rocei as cadeiras ao redor da mesa de jantar, e ali, um fio de cabelo loiro e vestido branco, desaparecendo na cozinha, o sabor do açúcar em pó na minha língua. Eu rasguei ao redor da mesa e pela porta. A figura escapou por uma porta fechada, um pouco além da borda do balcão. — Este caminho. — Eu disse com um soco do meu dedo. — Podemos ir? — Claro. É apenas o porão. Eu agarrei a maçaneta e abri, Tim veio atrás de mim. Ele tocou no meu braço. — O que está acontecendo? — disse ele. — É como se estivéssemos correndo atrás dela. Será que ela está fugindo? — Não se preocupe com isso. — Disse eu, apesar de que era exatamente o que estávamos fazendo. Por que ela não queria que eu a visse? Houve alguma página do livro de etiqueta fantasma que eu havia perdido, de alguma forma eu quebrei as regras, ofendi? Corri escada abaixo. Acima de mim, Tim acendeu a luz do porão. Meus pés chocaram frios sobre o piso de concreto que circulava a

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lavanderia, parando uma vez a espreitar para dentro da máquina de lavar. Tim passou por mim, indo para uma porta na parede painéis. — Talvez a sala de recreação? A porta se abriu para ele. — Eu pensei ter ouvido alguém lá em cima. — Um homem se inclinou para fora, olhando a Tim e depois para mim. Ele esfregou o nariz grande e o bigode eriçado abaixo. — Pois bem. Você trouxe uma nova amiga. Tim ficou duro, apertou as mãos atrás das costas. — Pai. — Ele disse em uma voz firme. — Você chegou cedo em casa. — Então você. — A aula acabou mais cedo. — Tim respondeu, de forma tão suave que eu teria acreditado nele, se eu não soubesse que ele estava mentindo. — De qualquer forma, estávamos indo embora. O pai de Tim deu-lhe um longo olhar. Seus olhos eram redondos e cabisbaixos, como um basset hound10. Em seguida, ele assentiu. — Prazer em conhecê-la. — Ele me disse, e desapareceu novamente na sala de recreação. Tim virou-se e pisou as escadas, mas eu fiquei para trás. Ela esteve lá, com seu pai, eu tinha certeza. Ela sabia que não iria seguir. Por que ela não queria falar comigo? Isso não fazia sentido. A menos que eu realmente fizera algo errado, sem querer. Eu engoli em seco e segui para cima. — Que azar. — Tim estava reclamando quando cheguei à cozinha. Seu rosto abrandou, um pouco, quando ele me viu. — Desculpe. Se eu soubesse que ele estaria em casa, eu não teria desperdiçado o seu tempo. — Tecnicamente, era a pessoa morta que havia perdido o meu tempo, mas eu preferi que Tim pensasse que tudo estava sob controle. — Esta é uma casa antiga. — Eu disse. — Pode não ser ela. Poderia ser alguém de séculos atrás. — Fiz uma pausa. — Acende a luz? Tim apertou o interruptor e olhou para mim com expectativa. Olhei novamente para ele. Mesmo sob a luz amarelada, os olhos dele eram um fresco

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Basset hound: é uma raça de cães de patas curtas e grossas e baixa estatura, criada para caçar pelo faro. Cujo olhar parece extremamente triste.

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azul-acinzentado. O mesmo que o dela. Eu deixei o meu olhar e deixei o meu cabelo cair sobre meu rosto. — Eu vou indo. — Eu disse. — Claro, claro. — Tim parecia nervoso de repente. Imaginando o que eu havia visto dentro de sua cabeça, talvez. — Você mora longe? Eu poderia levá-la. — É um pouco mais além da Earl Street. — Disse. — Eu vou a pé. — Pois bem... aqui. — Ele pegou um bloco de papel e uma caneta da mesa do vestíbulo e anotou algo. — Meu número de celular Apenas no caso de você pensar de algo, ou... Eu balancei a cabeça, e enfiei-o no bolso. Eu esperava um milhão de perguntas enquanto eu amarrava minhas botas, mas ele ficou em silêncio, encostado no corrimão da escada. Quando ele me viu, ele disse, Obrigado, em vez de adeus, com uma voz como se eu tivesse lhe doado um pulmão. Não perguntou se eu voltaria para tentar novamente, ou se eu achava que da próxima vez poderíamos encontrá-la. Ele deve ter pensado isso. Eu acho que ele estava assustado, eu diria que não, se ele empurrasse. A coisa era que eu mesmo não sabia como eu iria responder quando ele o fizesse.

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Capítulo 7 Os nossos vizinhos do lado, os Guzmans, tinham uma enorme van cinzenta, até o ponto que eu poderia dizer que nunca deixou a garagem. É totalmente escondida da nossa casa para alguém vindo do lado oeste. Portanto, não foi até que eu dei uma longa caminhada, que eu vi Paige na frente do nosso gramado e parei, surpresa. Ela estava pendurada sobre a espreguiçadeira do jardim que Mamãe deixou perto em uma de suas breves visitas domiciliares, deslizando a mão pelas tulipas e margaridas, de forma fraca que o cabelo dela e o rosto se confundiam. Olhei para cima e para baixo na rua. Nada mudou, exceto os pardais descendo entre o bordo vermelho dos Stevensons e o carvalho do Sr. Bradley. Ninguém que vivia em Earl Street sai às duas da tarde. Paige caiu de costas e ali ficou, com os braços cruzados sobre o peito, três metros acima do solo. Se ela estava tentando me assustar com sua impressão de cadáver, estava fazendo um bom trabalho. — Ei, Paige — eu disse, correndo para perto dela para que eu pudesse falar calmamente. — O que está acontecendo? — Cassie? — Paige murmurou. Ela não se preocupou em olhar para cima. — Não, o vingador mascarado. — Ela também não sorriu. Com um suspiro alto, ela rolou para o lado. Olhou para as mechas de cabelo que caíram sobre seu braço e começou a torcer um deles entre os dedos. — Você acha que Larry ainda se lembra de mim? — Ela disse. Oh, não. Foi a um longo tempo desde a última vez que ficara deprimida por Larry, eu pensei que ela havia superado. — Claro que ele lembra — eu disse, tentando parecer tão convincente que eu não poderia planejar. Larry teria esquecido o seu sobrenome, antes que se

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esquecesse de Paige. Assistir uma equipe de resgate transportar para fora do fundo de um lago o corpo da sua namorada morta é uma daquelas coisas que vai ficar com você. Mas não acho que era dessa forma que Paige queria ser lembrada. Paige murmurou incoerentemente e enterrou seu rosto em seus braços. Abaixei-me sobre a grama ao lado dela. — Ei, Paige, é claro que ele se lembra de você. Você se lembra de todos os caras que namorou certo? E você e Larry saíram por um ano. — Sim — disse Paige. — Mas os meninos são diferentes. — Não tão diferentes. Ninguém se esqueceu de você, Paige. — Ela espiou-me sobre o braço, os olhos enormes e escuros no rosto confuso. — O que há com você hoje? — eu perguntei. — Por que você está preocupada com Larry? Ela hesitou. — Eu fui a sua casa — ela disse. — Eu... você sabe, queria ver como ele está e... — E? — eu me preparei para o pior. Às vezes, Paige não sabia quando deixar as coisas em paz. Foi um pesadelo quando ela o pegou batendo um de seus examigos um mês após o funeral. Graças a Deus por ela não ter a memória da morte terrível, ou ela ainda estaria histérica sobre isso. — Ele se foi! — sua voz tremeu. — Todas as coisas dele... seu quarto inteiro, está vazio, a mãe dele estava lá repintando. Eu não sei aonde ele foi. — Oh — eu disse. — Bem, ele estaria com 21 agora, não é? Ele deve ter se mudado para um apartamento em algum lugar. Talvez ele esteja indo para a faculdade em outro estado. Tenho certeza que ele está bem. Paige olhou para mim. — Faculdade — ela disse. Que era o lugar onde ela estaria, se não tivesse... — Não se preocupe — eu disse muito alto. Um melro11 estremeceu em cima da linha telefônica. — Não é grande coisa. Vamos para dentro. Eu vou assistir alguns programas de TV com você. — Não — lamentou Paige. — Não, não, não. — Ela esmagou o rosto em seus braços, sacudindo os ombros. Tanto quanto eu sabia, os mortos não podem produzir lágrimas, mas isso não impediu que Paige tivesse a intenção de chorar. — Eu quero a mamãe — disse ela. — Onde está mamãe?

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Melro: Um pássaro preto de bico amarelo.

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Onde mamãe estava? Mamãe estava desligada de todo o mundo apenas para evitar pensar em Paige. Eu era a única aqui com Paige, em cada drama vivido, e com seus choros durante os últimos quatro anos. Isso não conta? Mesmo com o flash de raiva, eu sabia que não. Ontem à noite com Paige, quatro anos atrás, era mamãe que vibrava ao redor dela, rindo com ela e tocando seus cabelos. Eu sabia por que as ouvia através da parede do quarto de Paige e o banheiro, onde estava sentada na borda da banheira, rasgando os fios da toalha de mão. Eu havia corrido e me jogado na minha cama, no escuro, odiando Paige por ter tudo, por não perceber o que estava acontecendo comigo na escola, por não se importar, a odiava tanto que desejava que ela desaparecesse e nunca voltasse. Culpa inchou no meu estômago. — Ela vai estar em casa logo — eu disse. Não que Paige fosse receber qualquer conforto quando mamãe voltasse. O que ela fazia, naquela época, quando Paige ficava chateada? Eu não poderia repetir o abraço ou a voz calmante. Mesmo que Paige gostasse de um refrigerante, ela não poderia beber um agora. A brisa se levantou, soprando em meu rosto e cheirava a margaridas e as roseiras da mamãe da porta ao lado. Flores. Que foi outro de seus rituais: Mãe e Paige passeavam até a loja de flores, escolhendo o melhor buquê e dividindo-o entre a mesa da sala de jantar e a mesa de Paige. Nada deixava Paige mais radiante do que um buquê de flores frescas para enterrar o rosto. Enfiei minhas mãos dentro dos bolsos. O dinheiro do lanche, 50$. Eu gastei a maior parte da mesada da semana na loja do Exército da Salvação comprando estas botas estúpidas. Inferno, era primavera. Qualquer idiota podia encontrar flores de graça. Uma pequena surpresa para animar Paige, eu poderia gerenciar isso. — Vá lá dentro — disse a ela. — Fique em casa com papai. Volto daqui a pouco. Paige arrastou-se de lado. — Papai foi para uma reunião, ia almoçar com um cliente. — Bem, vá para casa de qualquer maneira. Meu rádio está ligado, não é? Ouça algumas músicas. Volto em meia hora, no máximo. — Tudo bem — ela disse, com voz carregada de melancolia e flutuou em direção à varanda. Corri em volta da casa para pegar a velha bicicleta da garagem. Quando voltei pela estrada, Paige estava simplesmente desaparecendo na parede. Eu saí com a bicicleta e deslizei na estrada, passando por cinco casas antes que eu começasse a pedalar. Na esquina, eu virei à esquerda na Avenida Mabel. Seis quarteirões acima, no pátio da escola pública Rockefeller, a minha antiga

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escola primária, limitado em um parque da cidade. A equipe do parque só se preocupava em cortar a grama a cada mês ou dois, e na maioria das vezes eles perdiam a margem do corte. Quando eu freei fora do parque, as rodas rangeram, Melvin estava fazendo sua ronda habitual. Ele era um velho estranho, com sobrancelhas espessas e bigode mole, tão turvo que teria desaparecido no cenário se não fosse por seu terno amarelo brilhante. Ele era a única pessoa morta que eu conheci que estava sempre errante, às vezes no pátio da escola, fora do shopping center, a poucos quarteirões para cima, às vezes na rua à direita após a minha casa. Chamei-o Melvin na minha cabeça, porque ele parecia um Melvin12, mas não fazia ideia de qual era seu nome verdadeiro. A única vez que eu tentei iniciar uma conversa, ele me cutucou com sua bengala e cuspiu algo sobre, Corrupção de uma metrópole decadente ruir sobre a cabeça das massas. Eu praticamente o deixei consigo mesmo depois disso. Agora, ele balançava a bengala como em um clube de golfe, ele passou por mim, acertando-o através da cerca de arame que rodeava os campos de tênis à esquerda do pátio da escola. Eu acenei, e ele estreitou os olhos. Quando ele seguiu em frente, inclinei a minha bicicleta contra o muro e me arrastei ao longo da borda do campo de tênis. O gramado ali tinha cores variadas com raminhos de violetas selvagens, trevos, campainhas, e laços da rainha Anne. Eu ajoelhei e comecei a escolher. Depois de alguns tropeços, eu encontrei um sistema: Escolher com a mão direita, segurar com a esquerda. Eu arranquei um monte de tudo, mas o dente de leão, para Paige, eram mais ervas daninhas do que flores. Quando eu cheguei ao fim da cerca, meus dedos estavam pegajosos com a seiva marrom esverdeada. Voltei para o parque e parei pela rampa de madeira escorregando para avaliar o meu buquê. As cores e formas misturadas em um pesadelo para um florista, mas o grupo era grande e brilhante. Cheirava a doce quando abaixei meu nariz nele. Segurei-o na minha frente, avaliei, e decidi o que faria. Atrás de mim, em cima da área pavimentada do lado da escola, sapatos começaram a bater na calçada no ritmo com a bola de basquete. A rede assoviou. Sentei-me na relva, colocando as flores no meu colo. O truque seria leválas para casa de bicicleta sem perder as pétalas no caminho. Eu puxei a barra da minha camisa, tentando descobrir se eu poderia cobri-las todas juntas. Iria dar trabalho, se eu mantivesse a mão sobre elas. Encostada ao lado da rampa, comecei a ficar de pé. Uma voz tímida, um pouco anasalada, flutuou a distância.

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Melvin também conhecido como Melvin o Superhero Guy , um boneco ventríloquo de Jeff Dunham, veste um traje de super-herói azul, e é usado para ridicularizar os super-heróis http://content9.flixster.com/poll/16/82/168227_std.jpg.

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— À espera de alguém? — Hesitei ainda meio agachada. Era uma voz que eu conhecia. A bola de basquete hesitou, também. — Ei você aí, linda — disse outra voz familiar. — Eu estava imaginando se você nunca iria chegar aqui. Eu esgueirei e olhei por cima da rampa. Danielle e Paul estavam entrelaçados na calçada perto da entrada da escola, os cabelos dela caindo sobre seus bíceps viris. Eles faziam isso de maneira tão entusiasmada que você poderia dizer que eles estavam usando suas línguas mesmo de onde eu me sentava. Ainda bem que as crianças pequenas não saíram ainda, as suas mentes inocentes seriam marcadas por toda a vida. Fazia tanto tempo desde que eu frequentava a casa de Danielle, que nem sequer me ocorreu que ela morava perto da escola Rockefeller. Sua casa era metade de um quarteirão da Mabel, você podia ver o topo do prédio da escola da janela do quarto de seus pais. Nós costumávamos vagabundear após a escola, pegar alguns biscoitos da cozinha e andar com Barbies envolta do seu quarto. Antes, quando nós éramos as garotas inocentes. Danielle se afastou de Paul, jogando a bola de basquete longe. Ela riu quando ele se lançou atrás dela. — Falta. — Ele disse. — Lance livre para a equipe da casa. Inclinou-se para outro jogo de guerra de línguas. Olhei para o cascalho e lutei contra o impulso de vomitar. Depois de um século ou dois, eles se separaram. — Eu precisava entregar o ensaio final para a sra. Corning — disse Danielle, sem fôlego. — Eu juro que ela estava se escondendo de mim. Fui em todas as direções de Frazer procurando por ela. Então, você vai vir? Meus pais não vão estar em casa até as seis. — Agora, isso é um convite que não posso recusar — Paul respondeu. — Você não precisa pegar seus irmãos? — Eles irão para a casa de um amigo hoje — disse ela. — Somos apenas nós. — Esse é o jeito que eu gosto. — Ele enfiou o braço livre ao redor de seus ombros, e andaram tranquilamente para o pavimento e através da quadra. Eu caí contra as tábuas de pinho da rampa. Minhas boas palavras de ontem fizeram efeito. Claro, Danielle pensava que eu era a sujeira do cachorro, então por que ela se importou com o que eu disse? E Paul podia ser muito esperto, eu acho. Ele provavelmente a convenceu que eu inventava coisas para chegar até ela.

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Eu não havia dado nenhum detalhe, nenhum nome. Muito fácil de imaginar tudo isso. Nos últimos dois anos ela praticou muito a arte de me ignorar. — Vadia — eu murmurei. As flores farfalharam quando eu cerrei minhas mãos. Ela supostamente deveria estar irritada com isso. Mal humorada, enquanto tentava descobrir o que ele havia feito. Mas não, nada podia parar a srta. Danielle Perry de ser doce como xarope barato. Para todos, menos eu. Baixei a cabeça, respirando o perfume que agora cheirava enjoativo. De qualquer maneira, será que se eu fizer isso, se eu a forçar a encarar os fatos, resultará em algo bom? Será que realmente iria compensar tudo o que ela havia feito? Não. Claro que não. Mas esse não era o ponto. O ponto era que ela precisava sentir como é receber um tapa na cara de alguém que você confiava. Para que todos pensem – não sei – ela merecia isso. Se ela apenas sentisse o gostinho, de alguma maneira, estaríamos quites. Levantei-me, minhas pernas bambas. Eu não perdi ainda. Eu ainda tinha os detalhes e os nomes. Eu poderia conseguir mais. Norris e Bitzy estavam à espreita e eu mal comecei com Tim. Talvez eu devesse ser franca e dizer-lhe o que eu queria. Ele não parecia se preocupar muito com Paul. Inferno, ele poderia até aprovar. Ele já havia me surpreendido algumas vezes. De dentro da escola, o sino tocou. Em um segundo, o pátio estava inundado com crianças pequenas. Eu corri para minha bicicleta. As flores empacotadas dentro da minha camisa, embaladas com o meu braço. Então, pedalei com uma mão, e fui para casa.

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Capítulo 8 Paige sorriu alegremente quando eu mostrei para ela as flores e pairou a noite inteira perto do vaso que eu coloquei na minha cômoda. Ela até me deu um beijo de boa noite, com um beijo de ar na minha bochecha. Mas quando eu acordei na manhã seguinte com o estridente bip do meu alarme, ela estava farejando algo embaixo da mesa. Ela ficou a toa em meu quarto enquanto eu me vestia para a escola, pulando a reclamação habitual dela sobre a minha escolha de roupas, remexendo em seu cabelo e suspirando. Quando eu perguntei para ela que estação de rádio ela queria, ela só deu de ombros. — Tanto faz. Não importa. Eu derramei um copo de água fresca no vaso. As flores já estavam murchando. Na hora que eu saí pela porta, eu senti como se a palavra inadequado estivesse incrustada na minha testa. E encontrar o Tim parado nos pés do alpendre não melhorou o meu humor. — Ei — ele disse, quando eu parei no degrau da porta e o encarei. Ele acenou, apertando os olhos para mim. Seu rosto estava todo pálido exceto pelas manchas debaixo dos olhos. — Ei — eu respondi. Atrás dele, o Oldsmobile estava estacionado em um canto da entrada da garagem. Um dos pneus traseiros havia raspado a beirada do gramado. Tim seguiu o meu olhar. — Oh. Desculpa. Estou meio fora do ar hoje. Enxaqueca maldita. — Ele esfregou a sua testa e fez o seu sorriso doloroso para mim. — Eu ficarei melhor com um pouco de café em mim. Eu pensei... uh, o meu pai está indo trabalhar, daqui à uma hora por aí, mas eu queria te pegar antes de você ir para a escola. Então eu te compro café da manhã e então, nós tentamos de novo?

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the — Está tudo bem, Cassie? — papai chamou do andar de cima.

— Sim, sem problemas. — Eu desci para o alpendre e deixei a porta se fechar. — Como você encontrou a minha casa? — eu perguntei ao Tim. — Bem, você me contou que morava na Earl Street — ele disse. — Não há tantos McKennas na lista telefônica. Para um cara que dizia que não era um perseguidor, ele certamente conhecia os segredos do negócio. — Então, vamos? — Tim disse, trocando de um pé para o outro. — Eu supostamente tenho que ir para a escola — eu o lembrei. — E eu tenho quase certeza que você, também. — Você não teve problema em matar aula ontem. — Bem, você deveria dar um pequeno aviso para a pessoa antes de você aparecer querendo arrastá-la para outro lugar. Do jeito que você fala parece que você estala os dedos e eu devo pular. Ele engoliu audivelmente. — Eu... eu não quis dizer. Eu só pensei... — Esqueça. — Eu não estava irritada com ele. Era só outra rachadura em um dia que parecia que já desmoronava antes mesmo de começar. Então ele queria que eu fosse novamente a casa dele, encontrar a mulher que não queria nem que eu a visse. Eu me lembrei da caçada de ontem, a maneira que ela escapava, fugindo de mim, meu peito se apertou. Minha boca começou a formar um não, mas eu me parei a tempo. Não pense sobre isso. Pense sobre Danielle. Eu fazia isso pelo Tim, mesmo com a mãe dele fugindo ou decidindo falar, e eu podia perguntar uma coisa em retorno. Isso seria justo, não seria? Isso faria valer a pena. — Se eu continuar te ajudando — eu disse, — eu preciso que você faça algo por mim. Certo? — Claro — Tim disse. — Tanto faz. Quer dizer, eu disse que faria, só me diz o que você quer.

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Isso não era o tipo de discussão que eu queria que o papai escutasse. E Tim parecia pronto para cair dos degraus. — Que tal você pegar aquele café para você e nós falaremos disso quando você estiver consciente. Ele começou a rir e se retraiu. — Eu gosto deste plano. — Tudo bem. — Eu olhei para o carro. — Só para você saber, eu vou andando. — Sim, isso não é uma má ideia. Eu acho que vi uma cafeteria virando a esquina. Está tudo bem se eu deixar o carro estacionado aqui? — Claro. Vai ajudar meu pai a te achar se você decidir me sequestrar no meio do caminho. O único problema de andar era que Tim não conseguia dar um passo ou dois sem vacilar ou segurar a cabeça. Deveria ter levado dois minutos, mas com ele foi dez. — Por que você não toma algum analgésico ou algo assim? — eu disse, quando finalmente chegamos à porta do Café de Lite. — Já tomei — Tim disse. — Não se preocupe. Um café expresso faz milagres. Eu acho que o sr. Bebe-Gin-ao-Meio-Dia sabia do que ele estava falando. Nós sentamos em uma mesa de pernas finas no pátio de concreto, eu com um mocaccino e um muffin de amora, e ele com o seu expresso e a sua cor melhorada a cada gole. Quando eu cheguei ao final da minha xícara, ele já estava em seu segundo e mais animado do que nunca. — Ok — ele disse. — Eu estou cem por cento acordado agora. Então o que era que você queria? Eu engoli uma boca cheia de muffin e decidi falar tudo. — Tudo o que você sabe sobre o Paul, e Danielle. Tudo. Ele inclinou a cabeça. — Você pode ser um pouco mais específica? Eu posso te falar a data de aniversário do Paul, ou a cor favorita da Danielle, mas eu não acho que seja isso que você procura. Essa era uma reação melhor do que eu esperava. Ele parecia ok com tudo, só cuidadoso. Talvez, Tim não fosse tão ruim, pelo menos quando você tiver algo que ele quisesse.

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— Coisas que a maioria das pessoas não saberia — eu disse. — Coisas que os dois não queiram que as outras pessoas saibam. Mesmo que seja algo que você só ouviu e não tenha certeza. Está tudo bem. — E eu acho que isso é mais daquele negócio de vingadora que você faz. — Sim, você pode dizer isso. Ele virou a xícara nas mãos, fazendo a espuma mexer. — Sabe, Paul e eu não somos tão chegados. Talvez nós costumássemos sair mais, mas mesmo então... não é como se nós conversássemos sobre um monte de coisas secretas. Por que ele e a Danielle, de qualquer forma? — Danielle e eu temos história — eu disse. — Eu devo algumas a ela. — Então isso não é sobre o bem do mundo no final das contas. É pessoal. Eu enrijeci. — Eu acho que o mundo se beneficia em ter as merdas das pessoas abertas para todos. Então você vai me ajudar? — eu comecei a levantar. — Por que se não, eu tenho uma aula para ir. — Ei, sente aí — Tim disse. — Não é tão grande coisa. Eu escolheria a mamãe no lugar deles em qualquer dia. E eu acho que eu já te devo por ontem. Eu sentei, e dobrei meus braços em cima da mesa, pronta para escutar. Tim baixou sua xícara. — O que eu sei sobre o Paul... ele faz muitas piadas sobre aprontar com outras garotas, mas eu não acho que ele realmente faça isso, pelo menos não por um tempo. Nunca mencionou ninguém ou data específica. — Ele pausou. — Ele começou sim, a chamar o seu carro de o carro do amor, então talvez algo aconteça lá. — Que tipo de carro? — Mustang GT — Tim disse. — Vermelho. Com capota, não conversível. Ele geralmente o estaciona na rua ao invés do estacionamento da escola. Com medo de que algum estudante descuidado como eu possa bater nele. — Bem, isso é algo. — Eu teria que falar para o Norris e a Blitzy ficarem de olho naquele carro. Quem sabe do que ele estaria se livrando lá? — Algo mais? Não tem que ser só coisa sobre garotas.

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Tim considerou, cutucando a xícara em círculos lentos com o dedão. — Fora a Danielle, e fazer piadas, tudo o que ele fala é sobre esportes. Ele está no time de basquete e na equipe de corrida, você provavelmente já sabia disso. Hum, ele estava bem puto por não conseguir entrar na lista de atleta do ano, já que este é o último ano dele aqui em Frazer. Meus lábios se levantaram. — O quê? — Tim disse. — Isso é bom? — Eu somente sei de algumas coisas que Paul não sabe. — Como que ele originalmente estava na lista de indicados. Como os amigos dele tiraram o nome dele. — Então, e sobre a Danielle? — Não há muito para contar. Eu na maioria das vezes a via quando nós estávamos todos juntos. Ela disse que irá concorrer ao conselho estudantil no ano que vem, e tinha um emprego em um shopping que não deu certo. Ela parecia chateada sobre isso. Fora isso — ele balançou a cabeça, — isso é tudo o que eu tenho. Honestamente, sim, ela é meio má algumas vezes, mas eu também já a vi fazer coisas como passar o horário do almoço inteiro ajudando uma garota que ela mal conhecia a tirar uma mancha da camiseta. Naturalmente Danielle mostrava o seu generoso espírito quando as pessoas que importavam estavam perto para ver. Eu ergui minhas sobrancelhas. — Só isso? Você passa todo o tempo com aquele pessoal... Tim fez uma careta, e eu senti um pequeno soluço de culpa. E então, lentamente, um vestígio de sorriso surgiu em seu rosto. Deixou-me mais desconfortável do que a careta. — Sabe — ele disse, — tem uma festa na casa do Matti amanhã à noite. Eu não estava planejando ir, eu já vejo este pessoal o bastante, mas se você for... — Eu? Uma festa? — a coisa mais próxima de uma festa que eu fui em quatro anos foi aquele último baile no segundo ano, quando todas as garotas se recusaram a ficar menos de dez metros de mim e os garotos revezavam em turnos soprando bolas de cuspe em mim e murmurando comentários lascivos enquanto passavam se encostando. — Mas... eu... eles nem vão me deixar entrar, vão? — Claro, se você vier comigo. — Ele me olhou curiosamente. — Eu imaginei que você poderia cavar todas as fofocas que quisesse. E eu não ficaria preso só com eles de companhia. Mas não é como se você tivesse que ir. É só uma ideia.

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Ótimo, agora ele achava que eu era medrosa. Eu rangi os dentes. Qual era o meu problema? Seria espetacular. Todos os grandes metidos em uma casa, ficando bêbados e chapados, com as defesas baixas. Eu poderia arrumar mais coisas em uma noite do que eu consegui em um ano. E ainda o meu coração estava batendo descompassadamente na base da minha garganta. — Eu vou pensar nisso — eu disse. — Você deveria vir — ele disse, seu sorriso aumentando. — Seria... interessante, de qualquer forma. A atendente do Café se aproximou e recolheu as nossas canecas. — Você quer mais alguma coisa? — Tim perguntou. — Nem, eu estou pronta para sair daqui. Ele hesitou. — Então, ah, minha casa? Um pensamento chegou de supetão em minha mente: Eu tinha tudo o que ele podia me dar, eu poderia ir embora sem olhar para trás, sem ter que lidar com esta pessoa morta que não queria nada comigo. Logo que veio o pensamento, eu o espantei. Tim fizera a sua parte, e eu seria tão ruim quanto eles se eu não cumprisse a minha. — Por que não? — eu disse. Alívio inundou o rosto dele tão rápido que eu quase achei que ele começaria a gritar. — Eu farei o possível — eu acrescentei rapidamente. — Ela foi um pouco... tímida, da última vez. Eu não posso te prometer que isso vai funcionar. — Ei — Tim disse, erguendo as mãos, — eu não sou exigente. Eu aceito o que você puder conseguir. Você confia em mim para dirigir agora? — Eu acho. — Eu confiava nele o bastante que eu preferia arriscar cinco minutos com ele no carro do que outra meia hora de conversa estranha. Naturalmente, Tim conseguiu espantar toda a estranheza para longe. — Se você não se importar com a minha pergunta — ele disse, empurrando a cadeira para se levantar, — sobre os espíritos e tal. Como isso funciona? Você só os vê? Sempre?

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Minha garganta se fechou, e eu me virei enquanto levantava para que ele não pudesse ver o meu rosto. Meus dedos transformaram as últimas migalhas de muffin em pó. — Sim, eu os vejo — eu disse. — Não, não foi sempre assim. — Somente desde a manhã depois do baile do segundo ano da Paige. Eu repassei a memória tantas vezes que parecia um filme na minha cabeça. Naquela noite, eu fiquei acordada até as primeiras horas da manhã escutando e esperando o clique na porta e o barulho dos sapatos da Paige no corredor, e então acordei tarde e grogue de manhã, ela estava lá. Eu só a vi de relance, enrolada em sua própria cama, soluçando tão alto que eu pensei ser possível escutá-la no final da rua. Nada novo. Alguma tragédia no baile, eu imaginei; Larry terminou com ela, ou beijou outra garota, ou ela derramou ponche em seu lindo vestido. Estranho a mamãe não estar aqui a acalmando, mas talvez Paige estivesse inconsolável. Já aconteceu antes. E então eu alcancei o final das escadas e escutei a mamãe chorando na sala de jantar. Minha pele começou a formigar. A mamãe nunca chorava, não onde todos podiam vê-la. Onde o papai estava? O pânico me alcançou, e eu corri para a sala de jantar. O papai estava lá, de pé atrás da mamãe, apertando os ombros dela. A mamãe limpava os olhos com um lenço. — Oh, Cassie — ela disse. O papai assumiu. — Cassie — a voz dele se quebrou, — sua irmã... O quê? Paige estava doente? Machucada? Mas ela ficaria bem, ela sempre ficava. Ele limpou a garganta. — Sua irmã... morreu ontem à noite. Eu os encarei. As palavras bateram em mim e ficaram. Eles não podiam enfiar isso direito na minha cabeça. A mamãe e o papai estavam errados. Paige não estava morta. Ela estava lá em cima. Eu acabei de vê-la, eu não acabei de vê-la? — Cassie — a mamãe murmurou. Eu voei, de volta para cima, para a porta da Paige, e olhei para dentro. Lá estava ela. Soluçando, silenciosamente agora, em seu travesseiro. Eu abri à porta, me preparando para dizer para ela descer a bunda lá embaixo e esclarecer as coisas, e foi aí que eu notei. A beirada do travesseiro, os lençóis com rosas, eles

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mostravam através dela. Ela sentou-se enquanto a porta encostava-se à parede, e eu pude ver a cabeceira de bordo através de seu rosto tingido de rosa. — Cassie? — ela disse. — Cassie, todos estão loucos! Eles não falam comigo; eles nem olham para mim. Você pode perguntar para a mamãe o que está errado? Eu não consigo fazer com que ela me fale... Eu recebi o meu recém-descoberto talento ao fechar com força a porta e correr direto para o meu guarda-roupa, onde tudo era escuro e sólido, e nada do lado de fora parecia real. Eu fiz isso, eu continuei pensando, eu queria que ela fosse embora, e agora ela foi. Para todos, menos eu. Eu fiz isso. — Cass? Ei, Cass? — Tim estava dizendo. Eu ergui minha cabeça para cima. Nós estávamos na esquina da Earl Street, cheguei aqui de alguma forma. — Eu só estava pensando — eu disse. — Sim, eu percebi. — Ele abaixou a cabeça. — Quer dizer, me desculpa ter perguntado, eu não quis... — Está tudo bem. Você queria saber quando aconteceu. Quatro anos atrás. Logo depois que a minha irmã morreu. A parte do como, eu não sei. Não veio com um manual. Eu empurrei meu cabelo para trás das orelhas e comecei a andar em direção a minha casa tão rapidamente que deixei Tim para trás. Depois de um segundo, ele me alcançou. — Uau — ele disse. — Deve ter sido difícil. Sinto muito sobre a sua irmã. Os seus pais sabem? Eu arrisquei uma risada. — O que você acha? Eu estava tão assustada no começo que eu tentei contar para eles, e isso só fez com que eles me mandassem para um psiquiatra. Até onde eles sabem, foi um episódio breve, ocasionado pelo pesar, que nunca mais vai se repetir. — Havia algumas coisas que os pais não foram criados para aguentar. Ter uma filha de doze anos tagarelando que ela pode ver o fantasma da irmã era uma delas. No carro, Tim destrancou a porta do passageiro primeiro. Eu queria me enfiar no assento e encostar minha cabeça contra a janela, mas não com Tim assistindo. Ele já me olhava engraçado. Eu precisava me recompor. — O que há com você, toda essa coisa, de qualquer forma? — eu disse.

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— É interessante. — Ele virou a chave na ignição, e o motor tossiu. — Eu não conheço muitas pessoas que podem falar com os mortos, sabe. Você... há outras coisas também, que você... — Eu posso procurar pela sua mãe. Isso é o que importa para você, não é? Eu não sou um show de aberrações ambulante. — Eu não acho que você seja uma aberração. — Certo. — Bem, eu não acho. — Ele pausou por um segundo para checar o seu ponto cego enquanto ele saía devagar da entrada de carros. — Interessante e aberração não são a mesma coisa. Minha mãe costumava dizer, Cada pessoa que você conhecer é como uma história fascinante que você nunca leu antes. — Isso é muito sábio — eu disse. — Eu não sei se ela era sábia — Tim disse. — Mas ela era... boa. Se você precisasse dela, ela largava tudo. Ela sempre estava lá. Isso é mais do que eu posso dizer de qualquer pessoa que eu conheça. — Deve ter sido legal. E era só você, sem irmãos ou irmãs? Ele acenou. — Ela disse que cada família que ela conhecia com mais de um filho, os pais sempre acabavam tendo favoritos, mesmo se eles não tivessem intenção de fazer isso. Ela não queria que isso acontecesse. Bem, eu podia apoiá-la nisso. — Então ela era boa, altruísta e tudo, ela não fazia nada que ela quisesse? — Era para ela. Ela realmente gostava de ajudar, estar lá para as pessoas; ela trabalhava em uma casa de repouso para idosos, era voluntária em um abrigo para desabrigados nos feriados. É tão difícil acreditar que alguém queira fazer isso? Eu dei de ombros. — É difícil de acreditar que ela não fazia algo que fosse só por ela. — Bem... — os olhos dele ficaram distantes enquanto ele observava a estrada. — Ela gostava de música. Eu costumava chegar em casa e ela estava cantando músicas de álbuns antigos. E ela teve aulas de piano por um tempo. Eu acho que o teclado ainda está lá no porão...

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A voz dele falhou, e eu me lembrei do que, ou melhor, quem, encontramos no porão ontem. — Já que estamos falando de histórias fascinantes — eu disse, — o que é isso entre o seu pai e você? Tim bateu nos freios bem antes do sinal de parar, me lançando contra a parte de trás do meu assento. Enquanto ele esperava que o outro carro virasse para a esquerda, ele flexionou os dedos contra o volante. — O que você quer dizer? — ele disse, sua voz se endurecendo. — Eu não sou cega. Ontem parecia que você preferia esfaqueá-lo a dizer oi. E você me contou que não podia falar com ele. — Sim, bem, eu não quero falar sobre ele também, ok? — Você acha que eu vivo para dividir histórias de como eu vejo pessoas mortas? — Só deixe quieto — ele estourou. Eu inclinei minha cabeça para trás e olhei para cima, para o gasto teto cinza do carro. — O que você quiser. O carro se arremessou para frente, Tim encarando com uma careta para frente. Imaginei. Era como aquele dia no parque, tudo de novo. Ele estava todo animado para ouvir sobre as partes bizarras da minha vida, mas umas perguntinhas sobre os problemas familiares dele... — Ele foi embora — Tim disse, de repente. Ele parou, e eu esperei. — Quando a mamãe ficou doente, e nós sabíamos que ela não ia melhorar, ele não aguentou. Dizia que era muito difícil para ele, a ver ficar mais fraca... então ele foi embora. O hospital a trouxe de volta para casa perto do final, e ele se mudou. Ficou em um hotel, em algum lugar. Eu não o vi por meses. Ele só voltou quando ela estava no hospital novamente para os últimos dias. Ok? Minha boca se abriu, mas estava vazia. Eu não tinha palavras para isso. — Ele... você ficou sozinho? — eu consegui falar. — Bem, havia uma enfermeira na casa dez horas por dia, e a minha tia, irmã da minha mãe, passou várias noites. Ajudou tê-la aqui.

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the — Que idiota. Você deve odiá-lo.

Tim não disse nada, seus olhos fixos no pára-brisa. Uma faixa de nuvens foi deslizando pelo lago, brancas, com uma barriga cinzenta. Ele virou a esquina da rua dele suavemente, e estacionou do lado de fora de sua casa em silêncio. Eu respirei fundo. Depois daquela conversa-que-se-tornou-confessionário, eu me sentia arrebentada como um pano de prato. Hora de sair dessa, se concentrar. A mãe do Tim não podia escapar para o porão dessa vez, mas nada a pararia de se afundar nas paredes ou flutuar pelo teto. Talvez eu tenha feito algo para assustá-la ontem, mas ela não se lembraria disso hoje, de qualquer forma. Talvez ela só estivesse com medo das pessoas em geral. Eu precisava presumir que não importava o que eu fizesse, ela poderia não ficar lá por muito tempo depois que eu entrasse. Eu tenho que começar a ajudar o meu caso no segundo que entrar pela porta. — Eu acho que você deveria ficar do lado de fora agora — eu disse para o Tim. — Me dê uma chance de explicar as coisas para ela. Tim fez careta. — Você não pode explicar comigo lá? — Se ela estiver nervosa, quanto mais pessoas estiverem lá, mais difícil será ela escutar. Logo que ela estiver pronta, eu grito você. — Tudo bem. — Saindo do carro, Tim olhou para a casa, sua boca fechada. — Mas logo que você puder... — Claro — eu disse. — Sobre o que eu tenho que falar com ela? Eu esperei perto do carro enquanto ele passava rapidamente pela entrada da garagem para checar a garagem. — Ele definitivamente não está aqui — ele gritou de volta para mim. — Nós estamos prontos para ir. Nós andamos até o alpendre, e ele me entregou as chaves. — Vá em frente. É a grande e prata. Eu vou esperar aqui. Eu agitei levemente as chaves até encontrar aquela que eu precisava. A fechadura travou por um momento, e então abriu. A porta tomou impulso e se abriu. — Sra. Reed? — eu chamei, pulando da entrada para a escuridão do corredor. Um punhado de açúcar em pó permanecia sob a poeira. Deixei cair o molho de chaves na sapateira, empurrando a porta com o pé e baixando a minha voz. — Sra.

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Reed, eu preciso que você saia por um minuto, para o Tim. Eu sei que você pode me ouvir, e se você quiser falar comigo eu posso te ouvir, também. É só para o Tim, eu prometo. Eu acho que ele quer saber que você está... bem, ou algo. Agora que ele acha que você está aqui, eu não acho que ele vai desistir, então vamos terminar com isso, tudo bem? O gosto de açucar atiçou a minha língua, e a sala se iluminou fracamente. Eu andei pela entrada. — Sra. Reed? O sala se encheu com um brilho etéreo, e dentro do brilho uma mulher flutuava. O seu vestido de verão branco encobria todo o seu corpo esbelto. Ela flutuou em minha direção, parando na soleira com as suas mãos entrelaçadas na frente dela. Embaixo dos cachos de seu cabelo loiro-mel, o seu rosto era fino e pálido. Ela me encarou com olhos do mesmo tom azul-acinzentado do Tim. Ela era a pessoa morta mais bonita que eu já vira. Se eu não soubesse, eu poderia ter pensado que ela era um anjo. — Quem é você? — ela disse, sua voz branda, mas inquieta. Eu expirei lentamente. — Eu sou... uma espécie de amiga do Tim. Nós dois estudamos na Frazer. Ele me pediu para vir. — Por quê? O que você quer? — Eu não quero nada — eu disse. — É o Tim, foi ideia dele. Ele só quer... bem, eu não sei exatamente o que ele quer, mas eu acho que ele quer falar com você, sabendo que você está aqui. Ele está esperando lá fora. Você fica aqui enquanto eu o chamo? Sua testa se franziu. — Essa não é uma boa ideia. Você não deveria deixá-lo entrar... — Ei, espere um segundo. — Eu ergui minhas mãos. — Eu não o deixei nada. Eu só estou aqui porque ele me fez vir. Seu filho é um cara teimoso, sabia. Ela esmaeceu, as sombras passando por ela. — Eu sei — ela disse. — Sinto muito. Você não entende. Eu vejo ele procurando por mim, fica sentado lá no meu quarto ou aqui embaixo, desperdiçando todo aquele tempo quando ele deveria estar saindo com os amigos, ou se preparando para a faculdade, ou... está machucando ele, e é minha culpa. Se eu pudesse ir, se eu nem estivesse aqui... Ela não tinha controle da mesma forma que Paige e os outros, claro. Apesar de eu não conseguir parar de me perguntar se isso poderia ter algo a ver com ela,

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algo que ela não percebia. Se ela estava preocupada por Tim a segurar aqui, da mesma forma, ele não podia deixá-la ir. Claro, que pessoa morta não tinha preocupações. Mas se ela soubesse o quão desajustado ele ficaria, entre o seu pai indo embora e os seus amigos se afastando... Talvez a dor em seu rosto foi o bastante para fazer qualquer um querer ficar e cuidar dele. Eu dispensei esses pensamentos. Não havia como eu saber, e não mudaria nada da mesma forma. — Poderia acontecer se ele falar com você, ele se sentirá melhor sobre isso — eu sugeri. — Eu posso falar para ele que ele só tem cinco minutos. Você escuta por esse tempo, e então nós terminamos, todo mundo volta para a sua... vida. — Mas... se ele souber que eu estou aqui, pode ser ainda mais difícil para ele... — Seguir em frente? — eu queria dizer para ela que não tinha jeito, agora que Tim estava decidido, ele não iria seguir em frente até encontrá-la, mas o desespero na expressão dela fez com que eu hesitasse. Havia apenas uma coisa que eu podia dizer que poderia ajudar. — Se você quiser, eu posso dizer para ele que eu estava errada, que você não está aqui. As mãos dela se trançaram. — Não — ela disse. — Eu nunca menti para ele, e eu não quero começar. Você poderia apenas dizer a ele que eu estou aqui? Que eu quero que ele comece a pensar em si mesmo, ao invés de mim? — Eu não acho que isso vai ser suficiente para ele — eu disse. — Sério, se você puder, eu prefiro dessa forma. Mas se você mesma não escutá-lo, eu acho que ele continuará tentando, e talvez acabe pior. Nós nos olhamos por um longo momento, e então ela baixou o olhar. — Tudo bem — ela disse, quietamente. — Nós tentaremos. Cinco minutos. A porta da frente rangeu, e Tim enfiou sua cabeça para dentro. — Cass? O que está acontecendo? — Eu te falei para esperar — eu disse, olhando para a mãe dele. O olhar dela passou de mim para a porta. Depois de um segundo, ela acenou. — Demorou eternamente — Tim estava dizendo. — Você conseguiu... — Tudo bem, tudo bem. — Eu me afundei no sofá. — Entre. Ela está aqui.

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Tim se espreitou até o meio da sala, a porta batendo ao se fechar atrás dele. Ele remexeu os pés, examinando as sombras. A mãe dele pairava ao seu lado. A luz que vinha dela relampejando. — Você não vai ser capaz de vê-la — eu o lembrei. — Certo. — A boca dele abriu, fechou e abriu de novo. — Lá. — Eu apontei a minha cabeça na direção dela. — Você deveria começar, o que quer que seja que você queira falar para ela. Nós temos cinco minutos. — Cinco minutos? Por quê? — Ela quase não ficou aqui. Ela disse que você está pensando muito nela. Está a incomodando. — Pensando nela? — a sua sobrancelha franziu. — Mãe? — ele disse. — Claro que eu estou pensando em você. Você está bem? Quer dizer, não machuca mais, não é? — Sem dor — ela murmurou, sorrindo. — Ela disse que a dor se foi — eu disse. — Bom. — Ele olhou para mim. — Me desculpa, não é que eu não acredite em você, é só que... eu preciso saber com certeza que é ela. Eu dei de ombros e ergui minhas sobrancelhas para a mãe dele. Ela deslizou para frente, somente perto o bastante para roçar no ombro dele com seus dedos. O olhar dela nunca deixou o rosto dele. — Antes de eu ir para o hospital pela última vez, eu dei a ele o meu anel de casamento para ele guardar, então eu saberia que ele estaria seguro. — Ela disse que você está com o anel de casamento dela. Os olhos dele se arregalaram. — Ela... ela está realmente aqui. — Ele se virou, como se ele pudesse pegar um lampejo dela se ele se movesse rápido o bastante. — Ok. Ok. O anel... você quer que eu o entregue para o papai? Ele não perguntou sobre ele, mas eu acho que ele sabe que está comigo. — É seu agora. Faça o que você achar melhor com ele.

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— Você pode ficar com ele. Ou o que você achar melhor. — Eu olhei o meu relógio. O tempo dele estava na metade, mas talvez a mãe dele desse uma chance para ele, dando a ele um tempo extra. — Você vai ficar aqui? — Tim perguntou para as sombras. O sorriso dela se quebrou, caindo para um lado. — Eu não sei. Eu não acho que seja minha decisão. — Ela não sabe. Não parece que seja decisão deles — eu adicionei. — Até onde eu sei. — Oh. Eu... há... — a sua voz falhou, e ele encarou o chão. Ocorreu-me que ele poderia ter algo para dizer que ele não queria que eu ouvisse, algo somente entre ele e a mãe. Bem, eu não podia ajudá-lo com isso. — Eu deveria ir. — Sua mãe disse. — Ei, tem mais um minuto. — Eu disse para ela. E então para o Tim, — se há mais alguma coisa, você deveria dizer rápido. — Como eu posso... o que eu devo fazer? — ele deixou escapar, sua voz tão rouca que eu ergui o olhar do meu relógio. O rosto dele havia ficado rosa e manchado. — Todo mundo... está diferente agora. As pessoas falam ao redor de mim ao invés de falar comigo, eles agem como se não fosse nada, apenas uma desculpa para agir com pena e se sentir bem, fingindo que se importam, entretanto, eles nem sequer percebem como eu estou me sentindo. E o papai, eu não posso confiar nele. E a Tia Nancy foi para casa, claro. Não há ninguém. Eu não sei o que fazer. A mãe dele se esticou, tocando a bochecha dele. — Diga a ele... diga a ele que eu perdoo o pai dele, e que ele deveria tentar fazer isso também. Diga para ele que ele deve viver a vida da maneira que ele quiser e ficar perto das pessoas que se importam com ele. Há pessoas que se importam. E, por favor, ele precisa se cuidar. Ele mal está dormindo. Eu acho que ele — ela balançou a cabeça. — Eu não gosto disso. Ela beijou os dedos e roçou-os sobre a testa dele. — Eu estou aqui. Eu estou bem. Cuide de você agora. — Ela se desvaneceu para a parede. Eu repeti as palavras para Tim. Ele não olhou para cima. Depois de um minuto de silêncio, eu disse: — Ela foi embora. Da sala, quer dizer.

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Ele caiu na cadeira do canto, os seus ombros se afundando. Eu me ocupei cutucando o tecido que cobria o estofamento do sofá. Um cheiro fino e de mofo começava a se desprender das almofadas. Tim limpou a garganta, mas nada saiu. Nós sentamos lá no escuro, com as coisas que ele disse, as coisas que ela disse, as coisas que eu tenho certeza que ele gostaria que eu não tivesse escutado, até eu achar que tudo iria me sufocar. — Eu vou — eu disse, ficando de pé, — tentar pegar as aulas da tarde. Tim se virou para me encarar. A cor havia se normalizado em seu rosto e os seus olhos estavam claros, não lacrimejantes. Ele se levantou sem muito esforço. Mas quando ele sorriu, parecia que o seu rosto ia quebrar no meio e se despedaçar. — Obrigado — ele disse. — Quer dizer, obrigado não cobre nem a metade, mas eu não sei o que mais dizer. — Não se preocupe com isso — eu disse. — É só algo que eu posso fazer, só isso. — Eu me abracei, meus braços cruzando no peito. Eu não podia culpá-lo se ele se descontrolasse logo, mas eu não achava que nenhum de nós queria me ver aqui para ver isso. Não havia nada que eu pudesse dizer que faria as coisas ficarem melhor. Eu não podia nem confortar a Paige sobre a nossa mãe, e eu a conhecia melhor do que qualquer um. — Algo que ninguém pode fazer — ele disse, e riu de uma maneira meio chiada. — Então eu acho que te pego as nove amanhã? Certo. A festa. Eu abri minha boca para protestar, mas algo sobre o jeito como ele me olhava, aquele sorriso quebrado, impediu aquelas palavras de saírem. — Tudo bem — eu disse. — As nove então.

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Capítulo 9 Para Tim ser tão irreverente sobre matar aulas, eu supunha que a secretária estava sendo permissiva com ele por compaixão. Eu, eu perdi quatro, e eu tenho o sr. Gerry, o conselheiro de orientação, respirando no meu pescoço. Sr. Gerry e eu fomos amigos desde meu primeiro dia de Frazer. Mamãe e papai pensaram, o que com a minha histeria com a morte de Paige e depois meu miserável desempenho escolar, que eu deveria receber orientação de um pseudopsiquiatra. Então, enquanto todo mundo ficava sentado no primeiro período, eu tive que sentar em uma poltrona flácida e ouvir este pequeno homem idiota falar como minha vida ia ser. Seu rosto era como uma maçã, todas as faces e uma saliência no queixo, com uma confusão de cachos na parte superior. Enquanto ele me garantia que se trabalhássemos juntos o meu tempo em Frazer seria agradável e produtivo, por outro lado sorria com àquela cara de maçã, tentando parecer o cara mais confiante do universo. — Não tenha medo de pedir ajuda. — Ele disse, apertando as mãos muito grandes juntas sobre os joelhos. — Isso é pelo que estou aqui. Ele com certeza esteve muito aqui. Ele andava por todo o meu ano de calouro, espreitando em minha sala de aula e me olhando na hora do almoço, irritado porque eu não estava fazendo nenhum amigo que ele pudesse ver, e eu estava fazendo um monte de inimigos. Eu provoquei um tumulto. Eu insultei alguém, e ele me chamava em seu escritório. — Por que você se esforça para alienar seus pares? — Ele lamentava, praticamente torcendo as mãos gigantes. Eu não sei, eu meio que queria dizer. Por que eles tentaram arduamente alienar-me? No fim eu fui a única que recebeu isto. Mas que não se encaixava na versão do sr. Gerry do universo, onde todos se davam bem e todo mundo estava feliz. Depois de um tempo, é claro, as crianças descobriram que era mais seguro deixar-me sozinha do que ficar na minha cara. E Norris pegou o sr. Gerry quebrando a política da escola e uma lei ou duas no estacionamento de professores

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no subterrâneo. Chegamos a um entendimento. Ele ainda se afligia com minhas ausentes amizades, mas eu não estava entrando em brigas mais, e acho que ele começava a ver que era o melhor que ele iria ter. Naquela sexta-feira, um dia após minha conversa com a mãe de Tim, ele deve ter se sentido especialmente obediente. Eu dormi até mais tarde e tive que correr para chegar a escola a tempo. Faltavam cinco minutos antes da campainha final e as salas estavam lotadas. Como os corpos pressionados me arrastaram passando o escritório da orientação, o sr. Gerry correu para fora. Com um casal de rapazes gritando sobre rankings de beisebol a minha direita e um monte de meninas desabafando sobre alguma nova comédia romântica à minha esquerda, eu não o ouvi chamar meu nome até que ele agarrou o meu ombro. — Srta. McKenna. — Disse ele. — Uma palavra? — O quê? — eu me espremi para encará-lo. Estávamos bem no meio do corredor, segurando o trânsito. Sr. Gerry fez uma expressão de dor. — No meu escritório? — A aula está prestes a começar... Ele se encheu de ar, tornando-os ainda mais redondo. — Você vai ter uma tarde livre. E se você se recusar a falar comigo, eu serei obrigado a chamar seus pais e falar com eles. — Eu nunca disse que não iria. — Eu disse. Nossa, e você acha que o cara iria apreciar o meu esforço para chegar à aula a tempo. Sr. Gerry empurrou pela multidão, e eu segui seu rastro. O secretário de orientação acenou para ele enquanto se espremia para fora do salão e ia à sala de recepção. Sr. Gerry abriu a porta do escritório e acenou-me para entrar. Havia uma poltrona em frente à sua mesa, a mesma poltrona flácida que eu sentei há quase três anos. Desta vez, encostei-me ao arquivo. Sr. Gerry olhou de sua confortável cadeira de asa. Sentado, ele poderia ficar em suas poses favoritas: inclinado para frente com o queixo sobre as mãos, inclinando-se para trás com seus braços abertos. Porém, sentado, ele acabaria com metade da minha altura. Ele optou por apoiar-se desajeitadamente contra a escrivaninha cheia de papel espalhado. — Você já teve várias ausências nesta semana, srta. McKenna. — Disse ele. — Você perdeu aulas na tarde de quarta-feira e suas aulas de ontem de manhã. O

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escritório não recebeu um telefonema de seus pais, e não tive nenhuma nota apresentada. — Depois de estabelecer os fatos, ele parou para tomar um fôlego. — Você poderia me dizer o que está acontecendo? Você estava em algum problema? Talvez haja algo em que eu possa ajudá-la. Gostaria de saber se o escritório já havia chamado papai. Se ele estivesse absorvido pelo seu trabalho, ele poderia ter resmungado uma desculpa, mesmo sem ouvir. Ou talvez o sr. Gerry não tenha chamado, para que pudesse ter uma chance de falar comigo primeiro. Preocupado com sua própria pele. Eu só olhei para ele. Ele sabia que eu corria em todos os tipos de problemas. Eu geralmente frequentava as aulas no meio. O que ele esperava que eu dissesse? — Cassandra. — Começou ele. — Cass. — Eu disse. — Cass. — Ele esfregou o nariz e coçou a nuca. Seus cachos balançavam. — Suas notas são... transitáveis. Se continuar a faltar, no entanto, você pode arriscar a falhar. Você é uma garota inteligente. Tenho certeza que você pode ver que esta é uma situação difícil. — Tudo bem. — Eu disse. — Prometo não perder nenhuma aula mais. Posso ir? Ele parou com a mão em seu pescoço. — Eu estou contente de ouvir isso. — Disse ele. — Se você estiver enfrentando alguma... dificuldade que você gostaria de falar, como seu conselheiro, é claro que estou sempre aqui se precisar de mim. Como se ele realmente quisesse ouvir alguma coisa do que eu tivesse a dizer. Sim, ele estava fazendo seu trabalho. Mas eu conhecia as minhas notas, e eu não havia estado próxima a falhar desde aquele período estranho na nona série, antes que entrasse em ação. — Sr. Gerry. — Disse eu. — Eu acho que posso lidar com isso. Sempre fiz, certo? Eu não entendo o seu caso sobre as coisas que você observou na hora do almoço, assim como você, deixe-me lidar com isso, eu mesma? Olhamos um para o outro na sala por uns bons dez segundos. Então o sr. Gerry murchou em sua mesa, o olhar se afastando. Ele estendeu a mão para esfregar o nariz de novo, se conteve, e deixou cair sua mão. — O ano letivo está quase no fim. — Disse ele. — Por favor, tente manter a sua ausência o mínimo possível.

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the — Não será um problema, senhor.

O sino soou quando eu entrei no salão, mas minha turma do primeiro período estava lá em cima. Eu hesitei por um segundo. Norris estava de plantão no carro de Paul durante toda à tarde de ontem e esta manhã. Eu estava morrendo de vontade de saber se ele viu algo, mas agora não parecia ser o melhor momento para tentar a sorte e a paciência do sr. Gerry. Eu pulei em minha mesa, enquanto a senhora Waugh estava pedindo atenção. Seus olhos se viraram para mim, mas não disse nada. No espaço de dez minutos entre as aulas, corri até a esquina para meu armário. Norris flutuava pelo teto, passeando em um círculo lento. Com o queixo enfiado no casaco e a gola puxada para cima, ele parecia um urubu vegetando. Um grupo de crianças batendo seus armários ao redor, no meio do corredor. Outro grupo saía da sala de aula mais próxima. Eu escorreguei por eles e abri meu armário. — Norris, ei. Ele caiu ao meu nível, empurrando a gola de seu rosto. Um sorriso esticado na boca de uma extremidade de sua mandíbula a outra. — Você não vai acreditar nisso. — Disse ele, os olhos brilhando. — O quê? — Eu disse. — O que aconteceu? — Certo. Razoável. — Ele tossiu em sua mão e limpou a garganta, como se ele estivesse se preparando para um discurso presidencial. — Então, eu achei o bonito carro de Paul rápido ontem. Ele estacionou o num bloco fora do caminho de Frazer. Bonito conjunto de rodas. Paul apareceu com a namorada depois da escola, e após se agarrarem bastante, partiram de carro. Não é muita coisa acontecendo. Mas esta manhã. — Ele esfregou as mãos. — Eu estava passeando pelo campo que você mencionou sobre a coisa da prática da trilha. E claro a equipe veio, correu ao redor, movimentando-se e Paul estava lá, correndo do outro lado do campo para se aquecer, e esta menina se aproxima e inclina-se contra o muro. — A menina. — Eu cortei. — Era Sharon? Baixa e magra, cabelo com mechas, de todas as cores diferentes? — Sim, era ela! Paul a viu, e ficou tipo vermelho, parecendo que ele estivesse com medo de que alguém os visse. Acenou para ela, e ela foi, e eu pensei que era isso. Mas alguns minutos mais tarde, Paul disse ao treinador que esqueceu um livro

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em seu carro. Então ele sai, e adivinhe, a menina estava esperando por ele quando ele chegou lá. — Uau — eu murmurei. Ela levou, o que, quatro dias para pegá-lo onde parou? Quem sabia quanto tempo eles estavam brincando antes. E Danielle não tinha a menor ideia. Como ela poderia ter visto? Ela realmente confiava nele, eu pensei, minha garganta apertou. Ela realmente achava que ele era louco por ela. Assim como eu realmente pensei que nós éramos amigas. Minha mandíbula apertou, e eu afastei qualquer simpatia que eu tinha. As coisas que ela fez me fizeram voltar para assombrá-la. Como era justo que deveriam. — E então? — eu perguntei, levando Norris. — Certo. — Ele disse. — Então eles chegaram ao carro, e Paul disse que ele não podia ficar fora por muito tempo por que ele não queria parecer suspeito, que sua namorada ia ficar em sua cola. Sharon disse que ela podia fazer algo rápido, se ele prometesse vê-la naquele fim de semana. E, cara, ela foi rápida. Eu quase não pestanejei e ela foi para baixo. — Norris liberou. — Eu tenho que dizer, se há uma coisa que eu queria não ter perdido, são as coisas que as meninas podem fazer. — Deus — disse eu. Que idiota. Que idiota! Quando eu apenas o peguei... Deus. — Talvez ele percebeu que já que estava morto mesmo, então poderia muito bem fazer valer a pena. — Essa não é mesmo a melhor parte. — Disse Norris. — Pegue isso. Enquanto ela estava com ele, a bolsa caiu no chão do carro, e um batom foi rolando para debaixo do banco do passageiro. Nenhum deles prestou atenção, é claro. Então, ela pegou suas coisas e saiu, quem sabe onde, e ele se apressou em voltar para pista de treino, e ninguém notou. Assim, a coisa ainda está lá no carro. Minha boca aberta, mas eu estava tão cheia de temor que levou alguns segundos para obter as palavras. — Ele ferrou-se mais. Totalmente. — Oh, sim. — Isso é... muito obrigada Norris. Você é o melhor. Eu gostaria de poder ficar e conversar, mas eu tenho que correr para a aula. Eu vou passar por aqui na hora do almoço, tudo bem?

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— Excelente. — Disse ele, enquanto eu pegava meu livro de história do armário. — Ei, sabe aquela festa que você disse que está indo hoje à noite, de quem é a festa mesmo? — Matti Turuno. Você o conhece. — Sim. — Norris fez uma careta. — Eu pensei que você quisesse saber, ele estava enlouquecido com sua namorada sobre algo a ver com aquele cara Tim, parecia realmente chateado. Eu só peguei um pouco disso, mas eu acho que ouvi o seu nome, também. — Bem, fique de olho nele, eu acho. — Fechei meu armário, meu cérebro vibrando. Claro que sim. A festa. Eu poderia derrubar Danielle e Paul como um casal de dominó e todos os seus amigos estariam lá para testemunhar isso. E eu quase recusei o convite para festa. Ia ser uma festança e meia. Deixe Matti discutir a retórica o quanto ele queira. Nada menos do que o Apocalipse pode me parar agora.

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Capítulo 10 Quando a Paige começou ir a festas, as coisas ainda estavam bem entre nós. Ela me arrastava para o seu quarto, e eu me empoleirava na beirada da cama, gorjeando as minhas aprovações sobre o cabelo e as escolhas de vestidos na hora certa. Então eu fiquei velha o bastante para querer suas roupas e maquiagem emprestadas, e ela decidiu que eu um incômodo. Isso não me parou de espioná-la, claro. Eu olhava pelo buraco da fechadura ou a abertura na beirada da porta, ou escutava os seus murmúrios e suspiros com o meu ouvido pressionado tão perto da parede, até que a mamãe me encontrava e me espantava para longe. Mesmo quando eu estava tão brava, que eu queria estrangulá-la com as suas calcinhas, a curiosidade era maior. Graças a isso, tudo o que eu sabia sobre se preparar para uma festa, eu aprendi com a Paige: 1. Banho até a água quente acabar. Enrolar o cabelo na toalha e correr para dentro do quarto. 2. Arrumar a loção mais cremosa que você puder encontrar e espalhar em todo o seu corpo. 3. Se enfiar em um vestido. Decida que você está gorda. Remova o vestido. 4. Coloque uma saia e uma blusa. Decida que você parece uma caloura. Remova a saia e a blusa. 5. Se aperte dentro de uma calça de couro que você esteve escondendo na parte de trás do guarda-roupa. Decida que provavelmente papai e mamãe vão dar um escândalo ao vê-la. Enfie a calça de volta no guarda-roupa. 6. Coloque outro vestido. Verifique o decote (baixo o bastante?) e a borda do vestido (alta o bastante?). Decida que todo mundo pensará que você é uma vaca, mas você está cansada de provar outra coisa.

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7. Esmague gel no cabelo. Seque de cima para baixo para dar volume. 8. Sufoque o rosto com base, pó, sombra para olho, blush, máscara, batom, e tudo o que mais que você consegue cavar de sua gaveta de maquiagem. 9. Borrife perfume no peito, pescoço e cabelo. 10. Permaneça na cama o mais imóvel possível, para não perturbar o delicado balanço de cosméticos, até que o seu acompanhante chegue. Eu não me importava com nada exceto o número 1, porque, sério, as pessoas são bem menos suscetíveis de te ouvir quando você está sujo. Eu coloquei o mesmo jeans que eu usara na escola e peguei uma camiseta aleatória do meu guardaroupa. Deixei meu cabelo secar sozinho. Paige faria um escândalo, mas ela convenientemente flutuou para algum lugar mais cedo, deixando nada a não ser algumas maçãs caramelizadas. Ela devia estar sentindo muita falta da mamãe se ela iria bravamente esperar no aeroporto pelo avião. Olhando-me no espelho, eu decidi que não havia como a turma do Tim achar que eu me esforcei para ficar bonita para eles. Tim não chegaria por outros vinte minutos. Eu desci as escadas e pulei no sofá ao lado do papai. Ele estava assistindo Gillingan’s Island13. — Qual é a história? — eu perguntei. — O capitão acha que ele descobriu algum tipo de vodu — papai disse, rindo. Na tela, Gilligan e o capitão estavam discutindo. Os meus nervos estouravam como fogos de artifício. Eu tentei assistir, mas eu continuava perdendo o fio da meada sobre o que eles estavam discutindo. Depois de alguns minutos, eu me contorci para baixo no sofá e descansei minha cabeça no braço do sofá. O teto requeria menos concentração. O som sumiu quando o papai silenciou a TV. — Cassie? — ele disse. Eu me mexi para que eu pudesse ver o seu rosto.

13

Gilligan's Island (br.: A Ilha dos Birutas) é uma série de televisão estadunidense do gênero Comédia, produzida pela United Artists Television. Foi exibida em três temporadas no canal CBS, de 26 de setembro de 1964 até 4 de setembro de 1967. O programa contava as aventuras de sete náufragos em uma ilha tropical desconhecida e aparentemente inabitada, as dificuldades para sobreviverem e suas tentativas de voltarem à civilização.

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the — Sim?

Antes de ele falar, ele tirou os óculos, examinando-os, e deslizou-os de volta no lugar. — Isso, ah, hoje à noite, é um encontro? Eu ri. As chances de eu ter um encontro era menos que nada. Nem me ocorreu que poderia parecer um. — Nem — eu disse. — Eu estarei junto de um bando de pessoas. O cara que vem me pegar é só minha carona. — Tudo bem. — Ele sorriu, e eu me perguntei se ele estava pensando sobre Paige correndo com o seu encontro naquela última noite. Talvez ela houvesse pulado na água só para impressionar o Larry. Os pais gostam de culpar os garotos. Eu aposto que Paige faria igual, mesmo sem o namorado perto. Ela gostava de ser um pouco louca, mudar um pouco. Papai nunca soube sobre a calça de couro no fundo de seu guarda-roupa. Eu a peguei antes que ele reformulasse o quarto dela. Ela estava no fundo do meu guarda-roupa agora. — Você estará em casa por volta de meia noite? — papai perguntou. — Claro — eu disse. — Se não antes. — Bom, bom. — Não se preocupe, pai. Eu me cuido. Eu sentei e dei um abraço rápido nele. No final do corredor, a campainha soou. — Deve ser a sua carona — papai disse. — Divirta-se. E lembre-se... — O quê? O sorriso dele ficou tímido. — De se cuidar. — Claro. — Eu apertei seu braço e pulei para fora do sofá. Enquanto eu alcançava a entrada, eu tive que forçar os meus pés a irem mais devagar. Minha pele pinicava, e o meu coração pulava como um peixe na doca. É só uma festa, eu me lembrei. Só um monte de garotos juntos. Nada que eu não pudesse lidar. Claro, eu não havia estado em uma em mais de quatro anos, e uma festa de colegial era

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uma coisa bem distante de uma festa do pijama, haveria muita bebida, sem pais e aconteceria na casa de alguém que me odiava, mas, sério, o que poderia dar errado? Eu respirei lenta e profundamente, expirando o nervosismo enquanto eu andava ao longo do corredor. E então eu tirei o meu cabelo do rosto e abri a porta. — Ei. — A luz da varanda estava desligada, e as sombras suavizavam os ângulos do rosto de Tim. Sua pele tinha mais cor do que eu lembrava. Talvez falar com a mãe dele ajudou, apesar de toda a preocupação dela. Bom. Eu tentei dar um pequeno sorriso a ele, mas eu estava tão nervosa que os meus lábios se contorceram. Ele jogou as chaves de uma mão para outra. — Você está pronta para ir? — Só um segundo. — Eu coloquei os meus pés dentro das minhas botas, amarrei o cadarço, e o segui para a entrada de carro. Tim não estava tão mais arrumado do que eu: camiseta pólo e calça cáqui. Se ele viu algo errado com as minhas roupas, ele não disse nada. No carro, eu me inclinei e estiquei minhas pernas o tanto que o espaço apertado permitia, vendo as casas passando. Era real agora. Eu fazer isso. Meu coração começou a pular novamente. Dentro de alguns minutos eu poderia estar cara a cara com a Danielle. E o Matti e o Paul e algumas outras dezenas de pessoas que prefeririam me dar um chute na cabeça a qualquer hora do dia. Talvez isso fosse um erro. Era como ir ao território inimigo sem um mapa. E se eles me comessem viva? Havia suficiente deles para eles quererem. Eu engoli com dificuldade. Não. Eles não se atreveriam. Não importa o quanto deles haveria, não importa o quanto eles me odiavam, eu os assustei. Eu tinha os segredos deles. Eles não podiam me tocar. Tim se focou na estrada à frente, onde os seus faróis nadavam na névoa. — Eu falei ao Matti que você estava vindo comigo — ele disse depois de um minuto. — Já que é a festa dele. Minha mente pulou de volta para a conversa com o Norris naquela manhã. Então foi por isso que o Matti estava puto. — Ele deve ter ficado felicíssimo. — Ele estava bem chateado. Disse que eu era louco e tudo o mais. — Tim riu agudamente. — Mas eu disse para ele que já havia te convidado, e não iria voltar atrás nisso, e ele deixou quieto.

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Ele soou tão determinado sobre isso que eu me encontrei dizendo: — Você não precisava fazer isso. Não voltar atrás, eu digo. Ele me olhou de relance. — Você não quer ir? — Bem. — Poderia facilmente ser a melhor e a pior noite da minha vida, tudo em uma só. Mas ele olhava para mim, falava, como se fosse importante para ele, e de repente meu coração estava pulando por uma razão totalmente diferente. O papai havia perguntado, Tim não poderia pensar, ele sabia que era apenas o meu passaporte para esse negócio, nada mais do que isso, certo? — E quanto ao resto deles? — eu disse rapidamente. — Todos eles sabem? — Matti falou sobre isso no almoço, então muitos na Frazer que estarão lá sabem que eu vou levar você. Isso importa? — Não — eu disse. Não importava, não é? Danielle ainda iria, Paul ainda iria. Eles não iriam admitir que ficavam nervosos comigo. Deus, ainda bem que eles não sabiam quão nervosa eu estava. Não pense assim. Fique concentrada, é só uma festa estúpida. Pense no rosto dela quando você enfiar a verdade nele. É por isso que você está aqui, porque ela merece. Tim me assistiu por mais um momento antes de virar seu olhar novamente para a estrada. Eu fingi que não notei. Eu não podia pensar nele, ou sobre nada exceto fazer logo isso, não até que acabasse. A casa de Matti se levantou do meio da quadra, todas as cortinas levantadas e as janelas cintilantes. Era um prédio grande de três andares, com uma grande entrada para carros que já estava cheia. Tim estacionou o carro em uma esquina e ao lado oposto da rua. Enquanto eu subia na calçada, ele se virou para pegar uma bolsa de bebida do banco de trás. Fios de música flutuavam para fora da casa. A batida era tão leve depois de alguns segundos, que eu não podia dizer se eu ainda estava escutando alguma coisa mais fora o meu pulso retumbando na minha cabeça. Eu reconheci os carros sob os postes de iluminação: o fusca amarelo da Jordana, o Corolla cor queimado da mãe da Flo, e o Mustang do Paul, vermelho como uma maçã madura. Leon não dirigia para ir à escola, mas ele estava lá, a pé

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ou em um dos outros carros que eu não reconheci. Danielle deve ter vindo com o Paul. Nós cruzamos a rua, a bolsa do Tim tilintando. Eu fiquei para trás enquanto ele tocava a campainha. Um cara que eu não conhecia abriu a porta, ele era de outra escola, eu acho. — Saúde — ele disse, segurando uma garrafa de cerveja para cima. Um chumaço de pêlo do peito se mostrava onde ele havia deixado a camisa desabotoada. O seu olhar caiu na bolsa do Tim. — Excelente, você nos trouxe coisas boas. Vamos ver o que temos. Ele seguiu pelo corredor antes que nós chegássemos ao degrau de entrada, e quando Tim fechou a porta atrás de nós, ele seguiu atrás. Acordes de guitarra explodiam dos auto-falantes da sala, misturando as vozes do filme que berrava do andar de cima. Tim não se importou em tirar os sapatos, então eu fiquei com as minhas botas e segui ao longo da parede da sala. Jordana e três outras garotas se espremeram no sofá de couro. Elas falavam alto uma com a outra por cima da música. Jordana guinchava com risos. Leon estava de pé em um canto, verificando o sistema de som enquanto ele tomava a sua bebida. Dois veteranos de Frazer estavam agachados no chão com o vídeo game de Matti, com os olhos grudados na TV. Eles pontuavam cada soco em seus controles com gritos sem sentido. O olhar da Jordana vacilou na minha direção brevemente e então ela continuou dando risadinhas com as outras garotas como se ela não tivesse me visto. Tim estava na cozinha, eu imaginei, inventando algumas bebidas. Só uma idiota patética iria ficar nos seus calcanhares. Ele me fez o favor de me trazer aqui; agora eu estava sozinha. Passando o sistema de som, eu pude ver um canto da sala de jantar onde as latas de refrigerante e os pacotes de salgadinhos estavam espalhados em um buffet. Eu cruzei o cômodo, minhas botas fazendo barulho no chão de madeira, e peguei uma cerveja preta. Abrindo-a, eu me acomodei contra a mesa. Um bando de caras havia montado um jogo de hockey aéreo em um canto da sala de jantar. — Ei, olha isso — um deles disse, jogando a tampa de uma cerveja no ringue. Chacoalhou para frente e para trás algumas vezes antes de sair voando e pousar no chão. Matti apontou sua cabeça da cozinha. Ele riu com os caras e disse algo que eu não pude ouvir. E então ele me viu.

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Sua boca se fechou na hora, e ele me estudou por um momento, seus olhos tão estreitos como a linha de pêlos finos em seu queixo, onde ele estava tentando deixar crescer uma barba. Ele deu um soco no ombro de um dos caras do hockey aéreo, gritou algo para outro, e desapareceu novamente na cozinha. Enquanto eu içava minha cabeça para verificar Jordana no outro cômodo, Matti, Tim, e o sr. Peito peludo passaram no corredor principal subindo as escadas. Tim olhou ao redor e pegou o meu olhar, me lançando um sorriso rápido. Matti o cutucou para seguir em frente, reclamando. Jordana sacudiu seus dedos para ele. Quando ele saiu da visão com os outros, ela se inclinou para ver uma revista que as suas amigas haviam aberto. Fora aquele olhar estranho do Matti, era como se eu não estivesse lá. Talvez fosse assim quando morríamos, invisíveis. Enquanto eu roçava as minhas botas no chão, uma sensação incômoda se arrastou até os meus ombros, fazendo-me contrair. Eu tentei engolir de uma vez a minha cerveja preta como se eu estivesse perfeitamente contente onde eu estava. Minha mão tremeu. Eu abaixei a lata. E então Flo veio andando. Quando ela me viu, ela sorriu e se aconchegou como se fôssemos melhores amigas. — Cass McKenna! — ela disse, suas sobrancelhas arqueando, o seu sorrindo cheio de dentes. — Eu ouvi que você viria, mas eu não acreditei até agora. Gostando da festa? A boa e velha Flo. Talvez fosse hora de ela descobrir como era ter alguém se metendo nos negócios dela. — Está boa — eu disse. — Eu sempre pensei, aquela Cass, ela seria uma garota legal para se conhecer. Aposto que você tem todos os tipos de histórias legais. Você já pensou em escrevêlas? Grande surpresa, ela estava me bombardeando para conseguir histórias para o jornal. Engraçado como ela estava tão ansiosa para falar comigo agora, quando ela nunca disse uma palavra para mim em quase três anos que nós estudamos juntas. Eu poderia estar lisonjeada se eu não soubesse que ela só estava me deixando mais mole para que ela pudesse arrancar a informação que ela quer de mim. Eu dei de ombros. — Eu não estou certa que os professores gostariam dos tipos de artigos que eu escreveria.

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— Ah, eu dou um jeito de passar por eles. Talvez lidando com tópicos mais gerais ao invés de pessoas específicas, mas ainda há muito conteúdo nisso. — Flo acenou sua mão dramaticamente. — Você pode imaginar? Seríamos o jornal estudantil mais legal do mundo, com o tipo de revelações que você se especializou. Nada como a verdade brutal para remexer as coisas um pouco. Agora que ela estava relaxada, o seu sorriso era mais amigável do que predatório. Talvez ela estivesse sendo sincera, ao final das contas. Eu a olhei. — Você realmente quer que eu escreva para o Gazette? — Claro — ela disse. — Infernos, eu teria vindo falar contigo antes, mas... você não é exatamente acessível, sabe? Mas você está aqui, então eu pensei, melhor chance que eu vou ter. Eu estava sem palavras. Esta honestidade não combinava com a garota que eu esperava, dado o que eu sabia. Ela parecia tomar o meu silêncio como indecisão. — Bem, pense sobre isso, ok? Você quer conversar, estou certa que você pode me encontrar na escola. Pegando uma mão cheia de salgadinhos, ela seguiu para olhar o Leon. Eu soltei a respiração e peguei a minha cerveja preta. Bem, isso não foi exatamente como eu esperava. Alguém colocou bondade na bebida dela? Os caras do hockey aéreo me atiravam olhares estranhos. Eu acho que não era legal passar a noite inteira perto da mesa dos salgadinhos. Hora de partir, então. Enquanto eu saía do buffet, Danielle veio caminhando pela sala. Ela pulou em um pequeno espaço que abrira no sofá ao lado de Jordana. Ela havia se arrumado para a festa, claro: um vestido brilhante com uma cintura empírica no mesmo verde agudo de seus olhos, e uma gargantilha banhado em ouro falso. O seu cabelo estava empapado de mousse, os pés descalços, cada unha pintada com um rosa coral. Paige teria aprovado. O meu estômago se revirou, e eu desviei o olhar. Eu não estava pronta para ela ainda. Meus dedos se apertaram em volta da lata, passei pelos jogadores de hockey aéreo e fui para a cozinha. Dois caras do segundo ano de Frazer pescavam umas pizzas das caixas no balcão, e outros dois passavam pelas garrafas na geladeira. O cômodo cinza

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perolado cheirava a óleo e queijo frito. A minha bota se encharcou em uma poça de soda. Eu me apertei até chegar a pia e a encarei, como se eu estivesse procurando por algo. Claro que ela estaria aqui, eu disse para mim mesma. Você sabia que ela estaria aqui. Essa era a razão. Se recomponha. — Há copos limpos na lava-louças. — Matti apontou com a cabeça para o aparelho pontilhado a minha direita, apontando um olhar para mim. Os segundanistas se espalharam para longe da geladeira, e ele se inclinou nela, pegando uma garrafa, os seus olhos nunca deixando os meus. Com os cachos escuros e a carinha de bebê, estou certa que ele pareceria um verdadeiro fofo se não fosse pela pseudo-barba rala e as adagas em seus olhos. Ele provavelmente queria me intimidar, mas ao invés disso eu me senti firme. Hostilidade eu podia lidar. — Você quer uma bebida? — ele perguntou, como se ele estivesse me oferecendo um sanduíche de punho. — Já tenho — eu disse, erguendo minha lata. — Obrigada de qualquer jeito. Ele fechou a geladeira e abaixou a garrafa, sem abri-la. A sua mão se apertou no balcão. — Olha — ele disse, — eu não sei o que você acha que está fazendo aqui... — Talvez você devesse perguntar ao Tim — eu sugeri. — Foi ideia dele. — Sim, claro, e macacos saem voando da minha bunda. — Isso seria interessante de se ver. Ele me encarou. — O negócio é, aqui não é a escola. Esta é a minha casa. Eu aposto que você está com todos os seus segredinhos prontos para jogar na cara de todo mundo, bem, ninguém liga pra isso aqui. Se você até olhar engraçado para alguém aqui, eu vou te expulsar daqui tão rápido que você pensará que nunca saiu de casa. Eu não podia culpar o Matti por ser ranzinza. Lá atrás, quando eu comecei no Frazer, ele e uns dois amigos faturavam uma grana vendendo cópias feitas das provas de inverno dos calouros. A pior coisa era, Norris escutou eles se vangloriando sobre como estavam enganando os alunos novos. As cópias dos

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exames não eram reais, eles mesmos inventavam as questões. Os garotos estavam pagando pelo privilégio de reprovar. Naquela época, eu não havia aprendido ainda que era melhor para mim e mais humilhante para eles se eu mantivesse os negócios de estudantes entre estudantes. Os professores se envolveram, os pais foram chamados, e algumas pessoas acabaram temporariamente suspensas. Sim, eu fui burra. Mas Matti foi mais se ele imaginou que podia se queimar apenas uma vez. — Me expulsar? — eu peguei um salgadinho aleatório. — Então será igual quando você fez o Paul ser expulso da lista de atletas do ano? Engraçado isso, porque ele ainda parece pensar que você é o melhor amigo dele. O rosto de Matti se contorceu e sua boca se apertou. Ele segurou o meu olhar, fazendo cara feia. — Ei — eu disse, — eu ainda estou aqui. — Você não vai contar para ele. — Tente me empurrar porta afora e nós veremos o que eu posso fazer. Uma hora vai acontecer. Ele olhou para baixo, abriu a tampa da garrafa, e deu um longo gole. Depois de alguns goles, ele a bateu no balcão. — Você sabe o que é patético? — Eu tenho a impressão que você vai me contar — eu disse, me preparando. — O que é patético — ele disse, — é uma rejeitada como você tentando chantagear um cara qualquer para ser o seu namorado. Eu o encarei. — Do que você está falando? — Oh, vamos lá. Tem que ser isso. Você encontrou alguma sujeira sobre o Tim, e você está aproveitando o máximo possível. Ou talvez você colocou algum feitiço nele. O que quer que seja, é patético. Claramente, ele não era só um idiota, mas também completamente louco.

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— Para que eu iria querer o Tim? — eu disse. — Eu nem... ele veio atrás de mim. — Sim, sim, e ele não se atreverá a negar isso. — Ele apontou a boca da garrafa para mim, zombeteiro. — Você finge que você é toda poderosa, mas você é a pior de todos nós. — Espera. Eu não quero nada com o Tim. Eu provavelmente nunca mais vou falar com ele depois de hoje à noite. — Bom. É melhor mesmo. Se você não deixar ele em paz, então... Eu dobrei meus braços sobre o meu peito. — E se ele não quiser me deixar em paz? — Não vai acontecer. Não tem jeito. — Matti balançou a cabeça. — E se você não der um tempo, então alguém terá que fazer algo sobre isso. Ele tirou um cigarro do bolso de sua camisa e andou em direção a porta dos fundos. Na sala, a música definhava enquanto a lista de músicas terminava. As vozes pararam de repente em um silêncio repentino. Minha boca estava totalmente seca. Eu bebi o resto da minha cerveja preta, mas isso só fez a minha garganta ficar mais grudenta. Eu fui uma idiota. Claro que eles presumiram que eu estava manipulando o Tim. Esqueceram que tudo o que eu já havia feito era jogar as verdades lá fora para as pessoas lidarem, que eu nunca forcei ninguém a nada, exceto talvez os fatos reais. Somente não havia lugar suficiente no cômodo pequeno de seus cérebros para a ideia de que o Tim poderia querer ter algo comigo. E até mesmo o papai havia me perguntado se isso era um encontro. Maravilha. Eu parecia como qualquer outra tonta da escola, lutando para colocar as minhas garras no VIP. Eles pensavam que eu o obriguei a me trazer para a festa, o que mais eles poderiam imaginar que nós estávamos fazendo? Eu me encolhi. Enquadrando os meus ombros, eu joguei a lata na pia. Eles podiam pensar o que quisessem. Não era como se eu pudesse mudar a ideia deles sem entrar em uma grande explicação sobre os mortos e tal, que eles não acreditariam de qualquer forma. Mas eu podia fazer o Matti se arrepender de me ameaçar. Eu estive segurando aquela sujeira, esperando pelo momento certo, quando o Paul estava mais propenso a ouvir, mas se o Matti queria tirar isso de mim agora, deixeo.

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Eu andei a passos largos até a sala. Onde estava o Paul? Ele deveria estar aqui em algum lugar. Um grupo de meninas acabara de chegar, se empinando através da porta, jogando os cabelos como um bando de cavalos de desfile, eu me afastei para a sala de estar para deixá-las passar. Enquanto eu inclinava minha cabeça em direção às escadas para escutar a voz do Paul, uma mão deu um tapinha no meu ombro. — O quê? — eu disse, me virando. A primeira coisa que eu vi foi uma mecha de cabelo bronze. Meu coração caiu. — Eu preciso falar contigo — Danielle disse. Sua voz estava calma, mas eu podia ouvir o desafio nela. Eu me virei para encará-la, minha pulsação desigual. Ótimo. Se ela queria um pedaço de mim agora, deixe-a vir e tentar pegá-lo. — Então fale — eu disse. Ela revirou os olhos e gesticulou para as portas no segundo andar. — Não aqui. Venha... — Eu não vou para lugar nenhum — eu disse. Como se eu fosse deixá-la me encurralar em algum lugar para me xingar, se ela queria ser uma vaca, ela poderia fazer na frente dos amigos para eles verem. — Se você quer conversar, fale agora. Ela olhou em volta. Todos estavam muito envolvidos em suas próprias conversas para prestar muita atenção em nós. Cruzando os braços em cima do corpete pregueado do vestido dela, ela se virou para mais perto da parede. Eu a segui. — Tudo bem — ela disse. — Mas eu não quero ouvir seus estúpidos comentários que não significam nada. Vamos para o negócio sério. O que você sabe? Eu quase não consegui segurar o meu espanto. Ela estava me pedindo para falar tudo o que eu sei? Aqui, cercada de pessoas para as quais ela se vestiu a fim de impressionar? Desde quando, até mesmo ela, acreditava que eu tinha algo verdadeiro para contar? Ela deve ter lido a confusão no meu rosto. — Você obviamente está aqui por uma razão — ela disse. — Depois que o Paul ouviu que você viria, ele de repente pensou que haveria coisas mais interessantes que nós poderíamos fazer. Então eu só quero saber o que está acontecendo. Bem o tipo da Danielle. Sabendo o que viria, determinada a fazer do jeito dela, não do meu. Eu não iria fazer isso ser tão fácil para ela.

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Eu abaixei minha cabeça, examinando as unhas da minha mão. — Que parte você quer saber? O que aconteceu na segunda, ou o que aconteceu hoje? Danielle hesitou. Na mesma hora, Paul entrou na sala de estar, gesticulando na direção do Leon. Ele nos viu e congelou. A cor sumiu do rosto dele. E então ele começou a cruzar a sala em nossa direção. — Dani, nós falamos sobre isso. Ela só... — Feche a boca, Paul — Danielle estourou. — Eu estou perguntando para a Cassie. Paul parou, pasmo. Tiros soaram da TV no andar de cima. As garrafas de cerveja tilintavam na sala de jantar, os pacotes de salgadinho fazendo barulho, a geladeira se abrindo e fechando. Mas as garotas no sofá, os caras com os seus controles do vídeo game, as novatas perambulando pelo corredor, todos eles abaixaram suas vozes, assistindo. Eu olhei para a Danielle. Ela queria que tudo isso fosse secreto e silencioso, mas não havia chance para isso agora. Eu esperei que ela desse alguma desculpa e fosse embora, mas ela cerrou a mandíbula e deu de ombros. Este era o momento. Eu deveria estar tremendo de alegria, mas tudo o que eu podia sentir era um arrepio frio que enrugava até o fundo das minhas entranhas. Talvez fosse por causa da situação estranha com o Tim; talvez fosse a bondade que a Flo havia oferecido; eu não sabia. Mas de repente fazer isso desta forma, na frente de todos, não parecia como justiça. Só parecia horrível. Eu virei de costas para ela, para eles, e fui até a porta onde a Danielle havia gesticulado anteriormente. Ela abriu para uma pequena toca, mesa de computador, prateleiras de livros, silêncio. Danielle veio atrás de mim, fazendo careta. — Olha — ela disse, fechando a porta — estou cansada de dicas e insinuações. Só cuspa fora. Tudo. Lembre-se da sétima série, eu disse para mim mesma. Lembre-se da primeira vez que ela virou as costas. Eu respirei arrastadamente, e duramente minha boca formou um pequeno sorriso. — Bem — eu disse, — eu não tenho alguns detalhes importantes, como por que o seu namorado é tão disputado quando ele passa a maior parte do tempo dele

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sendo um idiota, mas basicamente... Na segunda de manhã ele estava passando a mão na Sharon Lietzer no galpão de equipamentos depois do treino. E nesta manhã ele a convidou para o carro dele, e ela, hum, providenciou um pouco de ação para baixo do cinto. Manchas de cor subiram nas bochechas de Danielle. — Se você estiver inventando isso... — ela disse, sua voz trêmula. Eu olhei diretamente nos olhos dela. — Eu não faria isso — eu disse. — Não é assim que eu trabalho, diferentemente de algumas pessoas. E se você está preocupada com isso, você pode sempre checar embaixo do banco do passageiro. Sharon deixou o seu batom para trás. Enquanto as palavras saíam da minha boca, a porta abriu repentinamente. Paul nos encarou. Se o rosto pálido dele dizia alguma coisa, ele havia escutado bastante coisa para saber que estava ferrado. — Eu, uh, eu acho que vocês ainda estão ocupadas — ele disse, começando a se afastar. — Paul — Danielle disse, — fique bem aí ou eu vou te largar sem você nem mesmo perceber. — Só... eu não queria interromper — ele murmurou, ficando parado. Danielle apontou sua longa unha feita para mim. — Você ama isso, não é, Cassie? Você dá os seus ganchos em todo mundo e se vangloria por isso, e uau, isso deve ser tão divertido. — Não, eu... — eu odiava, eu quase disse. Eu odeio que vocês não podem apenas assumir o que fizeram. Eu odeio que se eu não faço nada a respeito, ninguém fará. Naquele momento, eu até odiava a dor em seu rosto, eu odiava que o Paul preferia traí-la por aí ao invés de só terminar com ela de uma vez, eu odiava que eu teria que ser a pessoa a contar para ela. Era tudo um nó doentio no meu estômago e uma dor de vazio em meu peito. — Você é tão cheia de merda, você esperava que ninguém fosse notar? — eu disse. — Uma pessoa te enfrenta, e... Danielle jogou seu cabelo. — Por favor, me poupe. Você só está brava comigo. Eu não gosto muito de você também, então está tudo bem. Mas não tente fingir que isso não é sua estúpida vingança por coisas que aconteceram a milhões de anos atrás. Nós estamos no colegial agora. Cresça e esqueça isso. Ela saiu do escritório e parou, a mão na direção da porta. — Vamos, Paul. Sharon vai querer o batom dela de volta.

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Paul se moveu para parecer feroz, mas logo que a Danielle alcançou a porta ele saiu correndo atrás dela. As vozes deles entraram baixas pelo lado de fora: — Amor, Dani, não era uma grande coisa. — E Danielle deu uma risada. Leon aumentou a música novamente na sala de estar, e as fofocas flutuaram por sobre a música. Eu deslizei para o corredor e me apoiei contra a parede, a sentindo dura e suave contra o meu lado. Estava feito. Eu a peguei. Então onde está a alegria? Onde está a libertação? Minha boca queimou como se eu fosse vomitar. Eu respirei profundamente o cheiro de rodelas de cebola e quase vomitei. Tim surgiu de um grupo de garotos na base da escada. Eu olhei para ele sem levantar a cabeça. Se Tim soubesse o que havia acontecido, ou ligava, ele não demonstrou. Ele olhou em direção à porta e fez um sorriso doloroso que eu sempre odiava. Pela primeira vez, parecia combinar com a situação. — Aí está você — ele disse, e inclinou a cabeça. — Hora de ir? Eu só acabei com três de seus melhores amigos. Em um mundo que fazia sentido, ele estaria me dizendo para sair fora. Mas eu não ia discutir. — Sim — eu disse. — Vamos sair daqui.

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Capítulo 11 A noite avançou na cidade enquanto nós estávamos dentro. A rua ficou ainda mais escura enquanto nós nos afastávamos do brilho da casa. O Mustang do Paul havia sumido, deixando um retângulo vazio na entrada de paralelepípedos. A Danielle deve ter decidido que eles já fizeram um espetáculo o suficiente. O Oldsmobile do Tim estava embaixo de uma lâmpada do poste, cintilando o seu brilhante azul bebê. Eu deixei o Tim segurar a porta aberta para mim. O ar frio me seguiu para dentro, e o assento de couro me deu as boas vindas. Quantas vezes eu sentei aqui na última semana? Eu estava muito acabada para contar. Nesse momento era bom só sentir algo familiar. Descansando o lado da minha cabeça contra a parte de trás do meu assento, eu olhei para fora da janela. Atrás do círculo da lâmpada, o mundo era de um negro sólido. Como se fosse somente Tim, eu e o velho carro barulhento. Tim ligou a ignição. O motor engasgou algumas vezes e se acomodou em um zumbido contínuo. Ele descansou sua mão na marcha, ainda estacionado. — Alguém disse que você e a Danielle eram amigas? — ele perguntou. Nas sombras do carro, os olhos dele estavam cinza. — Ela nunca mencionou. — Não é algo que ela goste que as pessoas saibam. — Pelo que eu percebi acabou mal então. Eu dei de ombros. Na casa, eles seriam capazes de olhar para fora pela janela da sala e nos ver sentados lá. — Nós podemos somente ir? — Tudo bem, sem problemas.

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Ele soou ofendido. Como ele podia não ligar para o que eles estavam dizendo? Deveria incomodar ele mais do que eu. Talvez ele não tivesse percebido o que eles estavam falando agora. Enquanto ele ia para a estrada, eu me mexi mais para o fundo do meu assento e coloquei os meus joelhos contra o painel do carro. Para qualquer um do lado de fora, pareceria que eu nem estava lá. Talvez se eu fechasse os meus olhos, eu não estaria. — Então, você apenas não vai me contar — Tim disse, abruptamente. — Eu terei que perguntar a Danielle. Meus olhos se abriram repentinamente, e eu o olhei. Sua expressão era vazia. — O que você quiser — eu disse. — Tudo bem. Eu acreditarei no que ela dizer, então. O que era isso, segunda série? — Se você acha que isso é uma boa maneira de me fazer contar alguma coisa — eu disse calmamente, — você deve achar que eu sou uma idiota. — Eu não acho que você é uma idiota. — Tim soltou o ar agudamente. — Você não percebe que você é uma pessoa muito difícil para se conversar? Eu só estou tentando achar uma maneira que funcione, tudo bem? — Bem, me emboscar não é a maneira. — E se eu dissesse que eu quero entender, sabe, porque isso é importante para você? — Porque é uma história fascinante? — eu funguei. — Ok, veja dessa maneira, então. Se alguém com quem eu ando, como a Danielle, fez algo tão ruim que você iria querer se vingar dela... bem, eu gostaria de saber. Quer dizer, eu deveria estar me cuidando? — Seus lábios se curvaram. — Talvez ela seja uma assassina ou uma mentirosa compulsiva ou uma cleptomaníaca. Como eu vou saber, se você não me contar? — Aí — eu disse. — Pelo menos essa é uma razão que faz sentido. Tudo bem. Eu pensei em tagarelar sobre os fatos de forma rápida e mal-humorada, aparar a situação até o motivo mais cru, deixando o extra de fora. Mas enquanto eu

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abria minha boca, emoção se acumulou em minha garganta, e eu não podia falar. Era muito para espremer de uma maneira facilmente digerível. Eu tive que dar um passo atrás. — Nós começamos a sair na terceira série — eu disse, encarando o espaço escuro além do pára-brisa. — Foi quando o pai dela foi transferido de Chicago para aqui. Nós nos demos bem, sabe, como crianças se dão. Minha mãe costumava dizer que ela não conseguia nos separar nem com um pé-de-cabra. Nós éramos melhores amigas, se você consegue acreditar. Até o ensino fundamental. No ensino fundamental havia a Jordana e esta outra garota que acabou indo para a Mountview ao invés de Frazer, a Sloane, e nós nos chamávamos de melhores amigas. Era assim que o ensino fundamental funcionava. Você se agrupava. Um grupo podia se dar bem com o outro às vezes, dependendo dos humores e das disputas, mas era garantido que você estivesse em um grupo de três ou quatro ou cinco amigos, para ficar nos corredores, para dividir os almoços, para ir ao shopping depois da escola. O tempo inteiro, no entanto, eu continuava pensando que a Danielle era a minha melhor amiga. Nós tínhamos quatro anos a mais entre nós, aquela história profunda de braceletes de amizade, dormir na casa da outra e dividir segredos. Jordana passava muito tempo levantando a saia dela para os meninos, e a Sloane não tinha nada na cabeça até que você colocasse uma ideia lá. Danielle era a que fazia as coisas seguirem, quem decidia que corredores nós ficaríamos e em que lojas nós iríamos. Sim, ela era mandona às vezes. A incomodava que o sr. Hesse havia me dado mais solos no coral, então eu mudei para a banda. Sem problemas. Nós éramos amigas; você somente faz essas coisas. E ela era sempre divertida de se ter por perto. Ela tinha um sexto sentido para onde a ação iria acontecer, e se não havia nada acontecendo, ela começaria algo. Nunca me ocorreu que algum dia ela sentiria a necessidade de começar algo contra mim. — Então o quê? — Tim perguntou. — Vocês brigaram? — Não. Não foi assim. É... difícil de explicar. Uma briga teria sido melhor. Se ela tivesse jogado na minha cara, me insultado, eu poderia ter discutido, eu poderia ter explicado. Mas então ela pareceria uma vaca. Então ela mediu sua guerra contra mim em sussurros e notinhas passadas, frases horríveis escritas no quadro-negro, olhares atirados do outro lado da sala. E ela fez isso com um exército. Dentro de uma semana, parecia

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que toda garota dava risadinhas enquanto elas acidentalmente pisavam nos meus pés ou na mesa e chutavam os livros que elas arrancavam dos meus braços. Todo mundo estava fazendo, por que não participar? Eu comecei a andar perto das paredes e sentar no canto das salas de aula. E se eu fosse até a Danielle, tudo o que eu conseguia eram as costas dela. Não havia nada para brigar. — Parece bobeira — eu disse. — Nós estávamos na equipe de debate juntas, isso era uma grande coisa na escola, e havia esse cara na equipe que a Danielle gostava. O professor no comando me escolheu para ir às finais estaduais, com aquele cara. Eu nem sabia, até que estava nos anúncios. Mas a Danielle deve ter achado que eu escondi isso dela, talvez até convencesse o sr. Bridges para me escolher ao invés dela... eu não sei. Todo mundo estava fazendo tão grande coisa sobre isso, me parabenizando, e então o cara me chamou para comer, para celebrar quando ela estava bem ali... — Incomodou ela que você estava ganhando toda a atenção. Minhas costas ficaram paralisadas. Eu me contorci para cima no assento. — Eu não sei exatamente o que aconteceu na cabeça dela. Ela parou de falar comigo. Eu disse para o sr. Bridges que eu não conseguiria ir para o estadual, e eu rejeitei o cara, mas era tarde demais. Ela já havia se decidido. E ela nunca fazia as coisas pela metade. Tim virou o volante, mão sobre mão, e parou com uma suavidade que me surpreendeu tanto que eu levei alguns segundos para perceber que eu estava na entrada da minha casa. O papai havia deixado a luz da frente acesa. Fazia listras amarelas pela grade até o gramado. As janelas estavam escuras. Eu me perguntei se ele estava deitado lá dentro meio acordado, esperando por aquele clique na porta antes que ele pudesse dormir de vez, da maneira que ele costumava esperar pela Paige. — E todo mundo entrou na onda dela? — Tim disse. Ele se virou de lado no assento, puxando uma de suas pernas para que o tornozelo cruzasse o joelho oposto. Ficando confortável, como se ele pensasse que nós iríamos ficar aqui por um tempo. Meu couro cabeludo formigou. Por que ele estava tão interessado, de qualquer forma? Eu queria que ele soubesse de tudo isso? — As pessoas gostavam da Danielle — eu disse rapidamente. — Ela conversava com todo mundo, ela sorria com muitos dentes. Sabe. — Eu hesitei. — Não ajudou que um mês depois eu estava vendo pessoas mortas nos corredores e ficando louca sobre a minha irmã. Ninguém precisava ser convencido que havia algo errado comigo depois disso. De qualquer forma, sempre havia alguém que pegava no pé, não é? Então quando alguém era escolhido, e não era você... que iria

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se prontificar e ser o novo alvo? Não é como se todas as pessoas estivessem me importunando, mas quem não estava... eles só se afastavam, ficavam longe. Tim acenou. — As garotas são estranhas dessa forma. Com os caras, vocês só se socam até que alguém desista, e no próximo dia tudo terminou. — Depende. Eu vi caras em Frazer fazer tanta merda quanto às garotas. Todo mundo faz merda. — Eu olhei para as minhas mãos, meus dedos se revirando no meu colo. — Eu estou surpresa que você não notou. Seus amigos são cheios disso. O olhar do Tim caiu. Ele fez uma careta para a marcha, coçando a parte de trás do pescoço. — Sim, bem — ele disse, — eu estive notando bem mais desde que a mamãe morreu. Eles são idiotas a maior parte do tempo. Eu sei. Você sabe, eles mal vinham até a minha casa depois que ela ficou doente. É como se eu nem pudesse falar sobre ela. Eles só tinham aquele olhar no rosto deles, e eu podia notar que eles não queriam lidar, eles não queriam ouvir sobre isso. Eles nem queriam saber que... — Ele engoliu com dificuldade. — Eu só não sei o que fazer sobre isso. Talvez seja uma boa coisa que há alguém como você para colocar eles no lugar deles de vez em quando. — De qualquer forma, eu não acho que eles concordem com você. — Bem, danem-se eles, então. — Ele pausou. — É estranho. Eu acho que eu presumi que eles eram bons amigos. Nós saíamos, nós falávamos sobre coisas que eu acho que realmente não eram importantes, eles estavam lá quando era fácil. Mas agora ficou muito óbvio que algo estava faltando... Como se alguma vez os amigos dele foram boas pessoas. Ele decidiu não ver o que eles eram até que era ele recebendo o frio tratamento. — Ei — eu disse, — você que continua saindo com eles. E já que estamos falando nisso, o Matti está me assustando. Talvez você pudesse dizer para ele na próxima que vocês se falarem que eu não estou tentando roubar tua alma ou algo assim. — Sim — Tim disse. — Ele estava me enchendo o saco na festa. Eu vou dizer algo para ele. Quer dizer, inferno, porque eu não deveria falar contigo? Você é a única, na verdade, que diz o que está pensando, não só o que você pensa que será menos desconfortável. Ninguém mais me perguntou nada sobre ela, ou o que aconteceu, somente como eu estou indo, e aqui está uma falsa simpatia e agora vamos mudar de assunto. — Ele sorriu. — Eu agradeço isso, sabe.

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O carro, de repente, parecia muito pequeno. — Eu, uh, de nada, eu acho — eu murmurei. — Bem, nós chegamos. — Espera. — Ele alcançou algo no banco de trás, onde a sua bolsa estava jogada no chão, e procurou por algo em um de seus bolsos. — Você vai achar isso muito idiota — ele disse, — eu sei. Mas o comitê está quase desistindo de vender o resto então eles deram alguns de graça para todos no conselho estudantil, e, tipo, todo mundo que eu conheço já tem um, e, bem, aqui. Ele me entregou um cartão impresso retangular. Eu olhei para o cartão e quase mordi a língua. O papel era levemente texturizado, com letras negras inclinadas com um fundo creme. O 64º Baile Anual de Frazer. Igual ao da Paige, exceto que o dela foi o 60º. Eu acho que eles imprimiam os convites do baile todo ano no mesmo lugar. Tim pairava em algum lugar nas beiradas da minha visão, eu não conseguia ter forças para me fazer erguer os olhos. — Você quer que eu vá para o baile — eu disse, tentando fazer parecer como uma risada. Soou mais como se eu estivesse engasgando em algo. — Eu só... eu tenho uns ingressos extras, quer dizer, por que não, certo? Você não tem que ir. Eu nem tenho certeza se eu vou. Mas, se eu for... não seria uma coisa tão ruim se lá estivesse alguém mais que não seja um idiota total, certo? O que você sabe, eu queria perguntar a ele, sobre quem é um idiota e quem não é? Algo se apertou dentro de mim. Não parecia certo, ele não deveria me dar coisas assim, dizer coisas assim, eu não deveria estar aceitando. Eu não tinha o direito. O que eu fiz, exceto o que ele havia me atormentado a fazer, porque eu pensei que poderia conseguir algo para mim mesma com isso? Talvez seus antigos amigos não fossem ótimos, mas eu não era amiga dele também. Eu nem saberia como ser. Eu mal sabia como ser amiga das pessoas que estavam mortas há décadas. — Bem, obrigada — eu disse. — Por... isso, e a carona. Eu deveria entrar. — Você está bem? — ele me observou, seus olhos se arredondando com preocupação. — Estou bem. — Minha mão escorregou na maçaneta. Eu a agarrei e empurrei. A porta abriu e eu corri para o ar úmido. Eu estava cansada quando eu fui embora do Matti. Agora eu estava exausta.

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— Tenha uma boa volta — eu disse, e fechei a porta. O degrau do meio chiou enquanto eu tropeçava até o pórtico, tentando sentir a minha chave no bolso. O Oldsmobile estava silencioso. Eu enfiei a chave na fechadura e explodi para dentro do corredor, empurrando a porta fechada atrás de mim. Meu coração pulando, eu me inclinei contra a porta. Depois de um momento, eu escutei o ranger de pneus no asfalto e o barulho do motor desaparecendo. No andar de cima, eu percebi que eu ainda estava com o ingresso do baile preso na minha mão. Eu o derrubei na gaveta da mesa e o enfiei fora de vista. Tirando as minhas roupas no escuro, eu tateei ao longo da cama em busca do pijama. A casa inteira estava silenciosa, um vácuo deixado pela ausência da Paige. Meu cérebro começou a preencher com o seu próprio barulho: as ameaças do Matti, a risada de Danielle, as últimas palavras do Tim. Você está bem? Meus olhos começaram a queimar. Eu me enterrei na cama e abracei o meu travesseiro. Quando eu dormisse, tudo terminaria, tudo isso. O ar acima estava frio. Um brilho caiu ao longo do meu rosto. — Cassie? — A voz de Paige chamou. — O quê? — eu murmurei no travesseiro, esperando que ela confundisse com um ronco e me deixasse sozinha, dessa vez. — Onde você esteve? — ela perguntou, mergulhando em cima de mim. O brilho nas minhas pálpebras brilhou ainda mais. — Eu comecei a me sentir grudenta no aeroporto então eu voltei para casa, e você não estava aqui, e então o papai foi para a cama, e tudo estava escuro... eu saí para te procurar. Eu estava preocupada. Eu me virei de costas e abri os meus olhos. A luz de Paige tremulou em cima do pé da mesa, os seus joelhos fantasmagóricos puxados para o seu peito e seus braços ao redor deles. Ela me encarou, sem piscar. — Eu saí — eu disse. Todas as minhas palavras, parecia, haviam secado. — Para um negócio. — Que tipo de negócio? — Um monte de metidos saindo junto, esse tipo de coisa. Não se preocupe. Eu estou bem. — Tão bem quanto uma pessoa poderia estar depois de contar a vida dela inteira para um cara que ela nunca teria tido um minuto do dia a uma semana atrás. Oh, e então tendo um ataque de pânico por causa de um convite para o baile. Sim, eu estava bem.

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Paige enfiou sua cabeça atrás dos joelhos. Seu cabelo se espalhou na frente de seu rosto. — Eu sei — ela disse, sua voz petulante e envergonhada ao mesmo tempo. — É só que você está sempre aqui. Como eu iria saber o que estava acontecendo? Você poderia estar em qualquer lugar. De qualquer forma, não há nada para fazer quando você sai. Eu bocejei. — Eu teria te dito antes se você estivesse aqui depois da escola. — Eu estava esperando pela mamãe. O calendário disse que o avião dela estava vindo as cinco, mas eu nunca a vi. — Ela suspirou. — Aeroportos são confusos. — É somente um atraso — eu disse. — Há sempre atrasos. Ela estará aqui. Ela só não ficaria. — Ela estava fora há um longo tempo. Pelo menos, parecia assim... — Paige parou de falar, confusa por suas memórias embaralhadas. — Eu sei — eu disse. — Papai disse que ela estará aqui pelo final de semana inteiro. — Oh, bom. — Paige sorriu. — É bom ver ela, apesar... — o sorriso vacilou. — Eu sei — eu disse novamente. Não havia nada que eu pudesse fazer sobre isso. Minha mente começou a se afastar. Paige deslizou ao longo da cama, sumindo para uma luz difusa. Ela flutuou em cima de mim até que os meus olhos se fecharam, e então ela sussurrou, timidamente: — Cassie? Eu pisquei. — O quê? — Eu só pensei... — ela hesitou, e eu quase podia ouvi-la respirando ao meu lado, exceto que ela não respirava mais. — Você se lembra como nós costumávamos a ter festas do pijama? Ficar acordada até bem tarde, comer pipoca, assistir filmes antigos na TV? Você acha que nós poderíamos fazer isso de novo alguma vez? Era tão divertido. Claro, eu lembrava. Particularmente, eu me lembrei da última vez, quando eu tinha onze e ela quinze, e eu tive que implorar para ela para se sentar comigo para assistir um filme. Ela havia feito toda uma produção de suspirar impacientemente

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e pintar suas unhas durante as melhores partes que eu nunca pedi para ela de novo. Mas agora ela estava pedindo para mim. Levantei-me e procurei na minha mesa pelo o controle remoto. A TV se ligou retumbando. Eu tateei o controle do volume trocando para o canal de programações. Engraçado, esta era a TV que nós costumávamos a ver antes. Eu nunca tive uma própria até o papai limpar o quarto da Paige e me dar a dela. — Isso será ótimo! — Paige se esticou na cama contra a parede. Eu fui uns poucos centímetros para o lado, como se ela precisasse de espaço. — Eu acho que não tem porque fazer pipoca — ela disse. — Sempre deixava os lençóis oleosos, de qualquer maneira. — Eu assisti o guia de canais deslizar para cima. — Tem um filme da Katharine Hepburn que acabou de começar. — Ooooh, vamos ver este. Eu passei rapidamente pelos canais até chegar no filme, e então me afundei para que a minha cabeça descansasse contra o travesseiro. Paige se contorceu ao meu lado como uma garotinha de cinco anos na véspera de Natal. Depois de uma bagunça na festa, era um pequeno alívio saber que pelo menos isso, eu poderia fazer direito. Ela sorriu enquanto a atriz atirava uma frase astuta de diálogo, e a sua pálida mão cobriu a minha, a passando com um formigamento. Meus olhos pareciam tão pesados que eu sabia que eu não iria aguentar o filme inteiro. A Paige não se incomodaria. Cepas de violino flutuaram dos auto-falantes. As minhas pálpebras caíram. Por um momento, Paige era somente um acúmulo de luz entre os meus cílios, e então eu estava dormindo.

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Capítulo 12 De todas as coisas terríveis com as quais eu poderia ter acordado em qualquer manhã que fosse, a pior precisava ser a voz da minha mãe, quando ela tinha aquele tom como se eu tivesse conseguido ferrar com o universo sem nem estar consciente. — Cassie. Cassie! — ela estava dizendo. Eu abri um olho e a olhei através do meu cabelo. Ela estava parada de pé na entrada do meu quarto com sua mala aos seus pés, seus lábios pressionados em uma linha acetinada e seu cabelo chanel ruivo arrumado e lisinho. Ou ela se enfeitou no táxi ou ela, secretamente, aperfeiçoou a arte do teletransporte. Eu adivinhei que ela imaginou que se ela estivesse perfeita quando estivesse aqui, iria compensar por todas as vezes que ela não estava. Ela bateu na moldura da porta, as pontas dos dedos chacoalhando contra a madeira. Aquele som fez meus ossos tremerem. Eu bocejei e me ergui num cotovelo. — Oi, Mãe. Ela cruzou seus braços bronzeados e ergueu suas sobrancelhas. — Quantas vezes eu tenho que lembrar a você de desligar a TV antes de ir dormir? Você sabe que o meu editor tem andado cortando o seu pessoal de freelance14. A última coisa que eu preciso me preocupar é com a conta de eletricidade. Bem, olá e bom dia pra você também. Eu me reboquei por cima do travesseiro e peguei o controle remoto. As cores pastéis de um desenho animado da manhã de sábado piscou para a escuridão. Se mamãe estava em qualquer perigo de perder seu emprego, eu duvidava que a revista estivesse pagando para ela voar ao redor do mundo toda semana, mas era mais fácil não discutir. 14

Profissional autônomo que trabalha em vários lugares ao mesmo tempo.

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— Você chegou agora? — eu perguntei. O relógio dizia sete horas. — Eles acabaram cancelando meu voo, problemas mecânicos. Eu tive que esperar pelo voo da madrugada. Eu liguei para o seu pai para avisá-lo. — O pai estava na cama quando eu cheguei em casa — eu disse, esfregando o sono dos meus olhos. As sobrancelhas de mamãe subiram duas vezes mais alto do que antes. — Não foi nada — eu interrompi antes que ela pudesse começar uma barricada de perguntas. — Eu só me encontrei com umas pessoas da escola, bebi uma vaca preta15. — Bem, eu estou feliz de ouvir que você está finalmente tentando desenvolver uma vida social. — Ela ergueu sua mala. — Você parece cansada. Durma mais um pouco. Se ela não tivesse sugerido, eu talvez tivesse apagado de uma vez, mas no segundo que as palavras saíram da boca dela, eu comecei a me sentir inquieta. Não era tão ruim quando ela estava em casa durante a semana e eu estava na escola a maior parte do dia, mas um fim de semana inteiro de nada além de mamãe... Só tempo suficiente para ela ficar toda super-maternal para cima de mim e satisfazer sua culpa antes dela fazer as malas de novo. Eu caí de volta na cama e estiquei meus braços por cima da minha cabeça. Paige desapareceu. Eu aposto que ela estava no quarto de nosso pai e mãe, ansiosa para ouvir mamãe discorrer sobre a viagem. A comida estava boa, mas a atmosfera era sem graça. O serviço de hotel era amigável, mas faltava pizza no restaurante da casa. Ou o contrário. Mesmo quando mamãe era enviada para lugares interessantes, como as celebrações de MardiGras16 ou as Olimpíadas, na hora que ela chegava em casa ela não tinha muito mais a dizer além do quão barulhentas as pessoas eram, o quão lotadas as ruas, o quão errático o seu horário. Qualquer entusiasmo restante, ela colocava nos seus artigos. Eu fiquei deitada ali até eu estar certa que não conseguiria voltar a dormir, e então eu me esgueirei até o andar de baixo para fazer café. Se eu me apressasse, eu poderia comer antes que mamãe descesse e começasse a me dar sermões a cerca

Uma espécie de milk-shake preparada à base de sorvete e refrigerante. O nome pode mudar por ser sempre indicativo de coloração (exemplo: vaca preta por ser feito de coca-cola). 16 É o nome do Carnaval americano. Com forte representação no Estado de New Orleans, tem baile de máscaras e desfile. Existe o hábito de oferecer colares de contas ás moças e em troca elas mostram os seios. 15

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de nutrição apropriada. Eu não via porque ela comprava bacon se ela não queria que eu comesse. Enquanto a gordura chiava na frigideira, eu larguei uma fatia de pão na torradeira e reconsiderei os eventos da noite anterior. Não foi tão mal, sério. Eu dei o meu melhor para a oportunidade. E aí se nenhum grande peso tivesse saído dos meus ombros agora que eu havia confrontado Danielle, eu fui tola em pensar que iria. Eu viveria, como eu sempre fiz. Mamãe desceu enquanto eu terminava minha torrada. Os degraus rangeram, e eu empurrei o último pedaço de crosta na minha boca, ficando de pé num pulo para enfiar meu prato na lavadora de louça. Não rápida o bastante. Eu me virei, e ali estava ela na entrada. Ótimo. Hora da Inquisição. — Eu vou fazer um pouco de chá — ela disse, ajeitando seu cabelo para trás. Ela mudou de sua saia e blazer elegantes para um vestido de linho, e seu chanel estava um pouquinho desalinhado. — Você quer? Você poderia tentar aquele que se supõe ser bom para a pele. E aqui estava eu pensando que a minha pele estava parecendo muito bem ultimamente. Eu toquei minha bochecha. — Hum, não obrigada. Eu ia começar a fazer meu dever de casa. — Você tem o fim de semana inteiro para isso. Fique um pouco. Eu quero ouvir tudo a respeito do que você esteve aprontando ontem à noite. — Ela passou por mim, puxando a chaleira do balcão e mergulhando debaixo da torneira. Mamãe não entendia que havia inúmeras razões válidas para que eu não contasse a ela sobre ontem à noite, para o próprio bem dela. Para começar: 1. A simples ideia de um garoto me convidar para uma festa causaria tamanha explosão de alegria que ela teria um ataque do coração. 2. Mesmo no meio do dito ataque do coração, ela teria que me fazer todos os tipos de perguntas embaraçosas, tipo, se eu e o garoto estávamos nos encontrando, quando nós íamos sair de novo, e se eu ganhei um beijo de boa noite. 3. As respostas para essas perguntas (Há! Eu acredito que por volta do tempo que o inferno congelar, e Não, graças a Deus!) iriam enfiá-la em tamanho desespero que o coração dela pararia de uma vez só e ela morreria na hora.

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De certo modo, era culpa de Paige. De jeito nenhum eu poderia me comparar a própria Senhorita Popularidade. Eu estou certa que parecia óbvio para mamãe Paige feliz, Cassie não tão feliz; Paige princesinha sociável, Cassie leprosa social; por conseguinte, princesinha sociável igual à feliz. Como se isso fosse a única diferença entre ela e eu. Para início de conversa, Paige não tinha um parente morto vivendo no quarto dela. Eu não podia sair agora sem começar uma cena, o que teria sido pior em longo prazo. Então eu improvisei. — Era para a escola, na verdade — eu disse. — Nós temos que fazer apresentação em grupo para, hum, a aula de geografia. Nós seis nos juntamos de tardinha para ver isso, pedimos umas pizzas, basicamente isso. — Parece que não foi só trabalho então. Deve ter sido uma boa oportunidade para fazer amigos. Eu espero que você tenha feito um pouquinho de esforço. Eu tenho amigos, eu queria dizer a ela. Você apenas não acreditaria que eles existem. Ela se curvou para remexer pela gaveta de chá em busca de Earl Grey 17. — Se vocês precisarem se encontrar de novo, você deveria convidá-los para vir aqui em casa. As pessoas apreciam esse tipo de gesto. — Nós estamos a ponto de acabar — eu disse. — A última parte, nós temos que fazer na aula de qualquer forma. — Bem, se você quiser convidar alguém alguma vez só por diversão... — Eu sei, mãe. — O que ela achava que era isso, a pré-escola? Na verdade, ela provavelmente gostaria disso. Ela poderia ligar para os outros pais e programar visitas e organizar amigos na minha vida, sem nem mesmo ter que falar comigo sobre isso. — Eu estava pensando — ela disse, — talvez você não esteja conhecendo as pessoas que tem muito em comum com você. Tem sempre muita coisa acontecendo naquele centro recreativo em Granmore. Nós podíamos nos inscrever como sócios, ou algum tipo de aula. — Eu não sei — eu disse. — Vou dar uma olhada. Eu não conseguia pensar em nada que eu quisesse aprender. A arte de administração da morte?

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É todo tipo de chá com aroma de óleo de bergamota, embora o mais comum deles seja o chá preto. O nome vem em homenagem à um primeiro-ministro britânico que levou esse tipo de chá ao Reino Unido.

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A chaleira começou a apitar, e enquanto mamãe estava distraída, eu deslizei para fora da cozinha. Pegando uns dois graphic novel que eu não consegui ler ainda, eu me sentei com as pernas dobradas numa cadeira no pátio de trás. Com um pouquinho de sorte, não lhe ocorreria procurar por mim lá até que eu já tivesse ido ver aquele filme com Norris. Fora um pouco de insistência a respeito das ideias de aulas no jantar e umas duas perguntas a respeito do filme (bem, Norris amou), mamãe me deixou em paz pelo resto do sábado. Pela manhã de domingo, começava a parecer que eu passaria o final de semana inteiro sem um sermão dos diabos. Eu me perguntei se papai estava realmente certo dessa vez. Talvez ela estivesse tentando ir com calma. Então o telefone tocou. Mamãe atendeu, sua luminosa e altiva voz subindo pelas escadas. — Alô? Oh, sim, só um minuto. Eu vou chamá-la. Seus passos abafados subiram as escadas, e ela deu uma espiada no meu quarto. — Cassie — ela sussurrou, como se a pessoa que ligou pudesse nos ouvir, — tem um garoto no telefone para você. Aqui estava um momento para os livros de história: minha primeira ligação de um membro do sexo oposto. Sem dúvida ela banharia o telefone em bronze em memória à ocasião. — Está certo — eu disse, lhe dando a minha voz mais entediada, assim ela saberia que não era um namorado em potencial ou algo do gênero, e avancei para o meu telefone. Mamãe saiu voando para dividir a excitação com papai. Eu estava muito ocupada ficando irritada para pensar no que mamãe disse e como havia apenas um garoto no universo que sabia o meu número na lista telefônica. Então quando eu apertei o botão da chamada, disse oi e a voz do Tim veio ecoando da parte do ouvido, eu quase desliguei de surpresa. — Ei, Cass — ele disse. — O que tem feito? Todo casual, como se isso fosse o seu telefonema regular de todo dia. Eu tive que abrir e fechar minha boca umas tantas vezes antes que o meu cérebro pegasse no tranco.

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— Não muito — eu disse cuidadosamente. Ele estava ligando apenas para jogar conversa fora? Eu estava um pouco fora de prática com essa coisa de bater papo no telefone. Apenas finja que é Norris, eu disse a mim mesma. — E você? — Bem, eu, hum... meu pai está fora da cidade pelos próximos dias a trabalho. Eu pensei... você poderia me ajudar a falar com a minha mãe de novo? Oh. É claro. Eu sou muito estúpida por pensar que isso tinha alguma coisa a ver com qualquer outra coisa. — Eu pensei que nós tínhamos acabado com isso — eu disse. — Só mais uma vez, tá bom? Tudo o que eu quero saber é se ela ainda está aqui. — É claro que ela está aí. Por que ela não estaria? — Eu não sei. — Ele engoliu em seco audivelmente. — Eu não tenho como saber, você sabe. Não é como se eu pudesse vê-la ou ouvi-la ou algo assim. Parece como se ela tivesse ido. — É — eu disse. — Isso é normal. — Mas eu não quero que seja. Está bem, eu sei que não vou ser capaz de vê-la como você. Mas quando você estava conversando com ela, era quase como se eu pudesse sentir ela parada de pé ali. Uma tábua grunhiu no corredor. Eu olhei rápido por cima do meu ombro para a porta. Silêncio. Era a mamãe espiando por ali, esperando pegar algumas palavras, se perguntando por qual mágica um garoto foi induzido a falar com sua filha? Eu não ia parar de ouvir isso por semanas. Já era ruim o suficiente que todo mundo na escola estivesse especulando sobre eu e Tim sem a mamãe se metendo nisso também. — Então, você vem? — Tim perguntou. — Eu prometo que eu não vou pedir de novo. Até que ele começasse a sentir de novo que ela tinha ido. Eu pensei em Paige, se arrastando pelos cantos enquanto ela esperava pelo retorno de mamãe para que pudesse pairar por perto sem tocar, sem falar. — Olha — eu disse, baixando minha voz. — Eu realmente não acho que essa seja uma boa ideia. Você sabe, a sua mãe não estava feliz com isso nem mesmo da primeira vez.

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— Bem, nós podíamos tentar. Quero dizer, eu estou certo de que ela iria querer que... — Tim — eu disse firmemente, — ela não quer que você faça isso. E sabendo disso, eu tampouco quero fazer. Está certo? A voz dele ficou um tanto crua. — Ela vai falar comigo. Ela só não... Olha, o que você quer? É disso que se trata, certo? Você não iria simplesmente me ajudar por que... Eu te contei o que eu sabia sobre o Paul, eu te levei a festa... Eu até disse para o Matti se mancar como você me pediu. O que mais? O que é preciso? Havia um negócio na minha garganta, e por uns segundos eu não consegui falar. Ele sequer podia me ouvir? Eu estava tentando ajudá-lo, tentando impedi-lo de... Do que fosse que a mãe dele viu que a assustou, e ele pensando que eu só precisava ser recompensada. Bem, ele que se ferre. — Que tal me deixar em paz? — eu disparei. Tim ficou quieto do outro lado por um momento. — Está bem — ele disse, lentamente. — Se é isso o que você quer, eu posso fazer isso. Mais cinco minutos do seu tempo, e eu não vou mais chegar perto de você de novo. Eu não vou falar com você, eu nem sequer vou olhar para você se estiver passando por mim no corredor. Que tal isso? — Não é isso... — eu me parei antes que eu pudesse dar ainda mais mancada. Havia uma pontada no meu peito de pensar em Tim passando por mim sem nem mesmo uma olhadela de reconhecimento, mas não era como se ele teria olhado para mim antes disso tudo. As coisas voltariam ao modo que elas eram antes, quando a pior coisa que eu teria de me preocupar era fazer com que Norris e Bitzy voltassem a se falar. Ele estava me oferecendo uma saída. Porque raios eu não pegava? Mais cinco minutos não poderia ser tão ruim assim. Eu me lembrei da angústia no rosto de sua mãe e mordi meu lábio. Desde que fosse realmente só mais essa vez. — Está certo — eu disse. — Mas você tem que estar certo. Essa é a última vez. Você me enche sobre isso de novo e eu vou... eu vou dizer ao seu pai como você tem matado aula, e tudo. — Está bem — ele disse. Alívio suavizou a raiva da voz dele. — Você quer que eu vá te buscar?

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Isso não iria fazer mamãe ficar nas alturas? — Não, obrigada — eu disse. — Eu vou andando. Me dá meia hora. Eu desliguei o telefone e me encostei de volta na cadeira, ouvindo. Com certeza absoluta, houve um rangido e um silvo das meias de mamãe deslizando pelo carpete enquanto ela voltava de mansinho pelo corredor. Eu andei até a porta e olhei lá fora. A porta do banheiro estava fechando. Bom. Ela não deve ter esperado que eu fosse tentar escapar tão rapidamente. Pisando de lado nos espaços rangentes, eu me apressei pelo corredor e pelas escadas. Para ganhar tempo, eu me enfiei nos meus tênis velhos com os cadarços permanentemente amarrados. Se eu pudesse apenas dar o fora daqui e acabar com isso, eu iria falar com ela por uma hora quando eu chegasse em casa. Os canos na parede gorgolejaram. Eu passei correndo pela sala de estar, lançando um: — Estou saindo. Estarei em casa para o jantar — para Papai, e me lancei para fora pelos fundos. — Cassie? Ela estava chamando do alto da escada, mas do lado de fora eu poderia fingir que não conseguia ouvir. Eu dei uma corridinha pela entrada e na calçada. Livre de casa. Eu poderia ter meus ouvidos cheios quando eu chegasse em casa, mas pelo menos até lá eu teria uma história convincente. — É só um cara que precisava de ajuda num dever de casa de geografia. — Exceto que eu usei geografia ontem, e essa era uma matéria que ninguém jamais pediria minha ajuda. — Nós ficamos responsáveis de fazer um projeto juntos. Para, uh, Inglês. — Essa deveria dar. Desde que eu não contasse a ela que fui falar com uma pessoa morta, qualquer coisa serviria. Quando eu cheguei à casa de Tim, ele abriu a porta antes que eu tivesse uma chance de tocar a campainha. Nós nos encaramos, e o meu estômago deu uma volta. Ele parecia diferente, vagamente, como ele tivesse esmorecido nas beiradas. Seu cabelo estava grudado na sua testa com uns dois tufos saindo por trás. Se a teia de aranha de amassados na sua camiseta fosse algum indicativo, ele dormiu com essas roupas. Eu podia ver porque a mãe dele estava preocupada. Não era minha culpa. Eu não queria estar aqui, fazendo isso, ajudando isso a acontecer. Se ele não tivesse... — Você está aqui — ele disse. Eu inspirei e me concentrei. — Você esperava mais alguém?

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— Eu não estava muito certo — Tim disse, — que você viesse, quero dizer. — Eu já menti para você? — Bem, não, que eu saiba. Ele se afastou e eu entrei varrendo a entrada com os olhos. Nenhuma pessoa morta ali, mas o cheiro de açúcar de confeiteiro impregnado no ar. Eu saí perseguindo na sala de estar, e Tim veio me seguindo por trás. — Ela está aqui? — ele perguntou. Suas mãos se torceram. — Em algum lugar — eu me afastei. — Sra. Reed! — eu chamei. — Sra... Ela despencou pelo teto como uma folha de outono e flutuou até parar na minha frente, a barra do vestido dela ondulando ao redor dos seus calcanhares. Quando nossos olhos se encontraram, e ela percebeu que eu podia vê-la, a sua luz piscou em surpresa. Foram a três dias, de jeito nenhum ela se lembraria de mim. Seus lábios se contraíram. — Quem é você? — ela exigiu. — E porque você está incomodando Tim? Ótimo. Mais outra pessoa que entendeu tudo errado. — Ele me pediu para vir — eu disse. — Bem, ele não deveria. — Ela deu meia volta, seus ombros tensos, como se ela estivesse a ponto de marchar para fora do aposento, mas ela só ficou ali de pé, tremendo. — Não é bom pra ele — ela murmurou. — Quem me dera eu soubesse como mostrar a ele... — É só dessa vez — eu disse. Ela estava ainda mais chateada do que da última vez. Eu não esperei por isso. — Confie em mim, eu não vou voltar. — O que está acontecendo? — Tim entrou na conversa. — Ela não quer conversar? — ele olhava fixamente para as paredes, tentando seguir o meu olhar. — Ela está preocupada com você. Como eu te disse. — Eu estiquei minha mão para o sofá. — Senta. Relaxa. Com você se remexendo desse jeito, não admira que ela esteja nervosa.

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A sra. Reed levantou sua voz. — Talvez você possa ajudar. Diga a ele para parar. Você tem que dizer para ele... Ele tem que parar! — Parar com o quê? — eu disse. Ela virou de lado para mim, olhando do corredor para a escada. — Ele tem que parar de aguentar. Parar de esperar. Eu não posso voltar. Ele nunca liga para os amigos, nunca fala com ninguém. Se você o visse... ele não está dormindo. A noite inteira, ele apenas senta ali e olha, espera, levanta, vaga, mas ele não dorme. Eu não consigo me lembrar da última vez que eu o vi comer qualquer coisa. Ele fica indo para o armário de bebidas, e eu sei que ele tem bebido. Ele está se deixando adoecer. Eu sou a mãe dele, eu sei a diferença. Ele está se machucando. E não há nada que eu possa fazer. Se ela tivesse arrebentado o peito de Tim aberto e começasse a apontar suas tripas para mim, eu não acho que eu teria me sentido mais desconfortável. Não me diga isso, eu queria dizer. É problema dele, não meu. Ele não iria querer que eu soubesse... Tim se agitou, se equilibrando na beirada do sofá, me observando. Eu tive que me esforçar para engolir. — O que você quer que eu faça? — eu consegui dizer. — Eu não sei — ela disse. — Se eu soubesse que existe alguém que poderia ajudá-lo, se ele pudesse conversar com alguém, o pai dele, ou Nancy... Eu me agarrei ao último nome como num colete salva-vidas. — Nancy é a sua tia, certo? — eu perguntei a Tim. Ele franziu. — É. Por quê? O que tem ela? — A sua mãe acha que você deveria conversar com ela. Com Nancy. — E que bem isso vai fazer? A tia Nancy está a três horas de distância daqui, ela tem seus próprios filhos. De qualquer modo, isso não tem nada a ver com ela. Eu tentei deixar claro tudo o que a mãe dele disse numa explicação coerente. — Você sabe que eu te disse que a sua mãe estava toda preocupada com você da última vez. Bem, ela ainda está. Mais, até. Ela acha que você não está dormindo e comendo o suficiente, que você fica procurando por ela ao invés de... qualquer outra coisa. Eu acho que ela imagina que se você falasse com a sua tia, você iria se sentir melhor, ser capaz de... enfrentar isso.

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— Então o quê, eu devo apenas esquecer? Como todo o resto quer que eu faça? Funciona para os mortos, eu pensei. — Bem, ela parece pensar que você está se desgastando. Eu apenas estou te contando o que ela está dizendo. Tim se abalou, abaixando sua cabeça em suas mãos. — Mãe, eu estou tentando, eu apenas não posso... — ele parou de repente, sua voz irregular Seu corpo inteiro ficou rígido como se ele estivesse tentando o máximo que ele conseguia para segurar as lágrimas. Um caroço subiu na minha garganta. O instinto me disse para dar meia volta, me afastar. Esse lugar não era para mim. Eu mudei o peso de perna, então parei. Eu enfrentei Danielle, Matti, uma centena de outras pessoas pelos últimos anos. Porque eu não podia me enfrentar? Eu não gostava de ver Tim desse jeito. Ele não era um cara mal. Em quatro anos, ele fora a única pessoa que se incomodou em descobrir o que realmente aconteceu entre mim e Danielle. E não importa quantas vezes eu teria lhe dito para sumir, ou afastá-lo, ele iria ouvir isso e continuar voltando. Se havia alguma coisa que eu pudesse fazer que fosse impedi-lo de se machucar... Talvez, dessa vez, eu devesse ampará-lo. Eu dei um passo em frente, avançando na direção dele. — Tim — eu disse. Ele soltou o ar tremulamente. — O quê? — Eu... — o que eu podia dizer? Você está bem? Eu podia ver por mim mesma que ele não estava. Vai ficar tudo bem? Mas não ficaria, provavelmente não por um longo tempo. Não era como com Paige ou Norris ou Bitzy. Se eu dissesse a coisa errada para eles, eles esqueceriam em um ou dois dias. Com Tim, eu precisava acertar da primeira vez. E eu não fazia ideia do que fosse certo. Talvez fosse melhor não dizer nada. Eu desdobrei meus dedos e os coloquei no seu ombro, com o que eu esperava que fosse uma quantidade de pressão confortante, observando-o, pronta para me afastar se parecesse que eu pressionava mais do que ajudava. Ele não se desvencilhou. Minha boca abriu, e eu me descobri disparando a primeira coisa estúpida que surgiu na minha cabeça.

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— As coisas estão sempre mudando, certo? Então, se elas enchem o saco bem agora, eventualmente eles têm que encher menos. Tim soltou alguma coisa quase como uma risada e começou a levantar sua cabeça. No mesmo momento, alguma coisa piscou pela sala. Minha mão deslizou do seu ombro enquanto eu me virava. A mãe de Tim estava olhando para ele, para nós, seu cabelo e vestido flutuando ao redor dela, seus lábios se partindo e então, tão delicadamente, formando alguma coisa como um sorriso. Eu vi isso por apenas um segundo antes dela desaparecer. Ela não zuniu para o nada ou desvaneceu fora de vista. Era como se a imagem dela se transformasse em fumaça, um milhão de minúsculas partículas de repente espalhadas por uma brisa. Uma sensação como eletricidade estática ondulou pelo ar e pela minha pele. Eu pisquei, e quando eu olhei de novo, não havia nada dela para trás. Eu estava de boca aberta. Eu não conseguia achar meios para fechá-la. Tim se agitou ao meu lado. — O quê? — ele disse. — O que aconteceu? — Eu... não sei. — Eu andei, lentamente, para o lugar onde eu a vi por último. O cômodo não parecia diferente, não o sentia diferente... o cheiro. Eu inspirei profundamente. Meu nariz confirmou. Poeira, café velho, couro... nem um grão de açúcar. Se ela tivesse apenas soprado por um momento, ainda deveria estar forte. A casa esteve preenchida com ele antes, por mais fraco. Meu quarto nunca parava de cheirar como as maçãs do amor de Paige, mesmo quando ela vagava por horas. A sra. Reed partiu. — Ela já se foi? — Tim estava perguntando. — Eu achei que ainda tinha um pouco mais de tempo. Se essa é a última... — Espera aí — eu disse. Eu caminhei pela sala de jantar, na cozinha, no corredor, puxando ar, puxando ar de novo. Mais poeira, um tantinho de bolor. Nada doce. Sem perguntar a Tim se ele se incomodava, eu pulei as escadas. — O que é? — ele chamou por mim, pânico entrelaçando na sua voz. — O que há de errado?

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Eu não respondi. Eu não conseguia responder, não até que eu soubesse com certeza. O corredor do andar de cima cheirava à loção pós-barba e pasta de dente. Eu abri cada porta, uma por uma, e inspirei. Nem mesmo um tiquinho de açúcar, um prolongar tão fraco que eu poderia engabelar a mim mesma em acreditar que era ela. Era como se ela nunca tivesse estado aqui. Tim esperava aos pés da escada. Assim que eu olhei para ele, a náusea passou por mim. Eu já podia ver como o seu rosto iria se contorcer, seu queixo tremer, seus olhos marejando. Eu não conseguia suportar isso. Não aqui, não agora. Eu não tinha nenhum arquivo do cara parado na minha frente, ou de como lidar com ele ou de como lidar com isso. Eu desci me arrastando pelos degraus, parando incerta embaixo. — Ela não está aqui — eu disse. — Eu não sei para onde ela foi. Mas eu... eu acho que ela não irá voltar. Eu sinto muito. — O quê? O que você quer dizer, não irá voltar? — Eu sinto muito — eu disse de novo, e eu realmente sentia. Tanto que eu sentia como se as minhas entranhas tivessem se amarrado num nó gigante. — Eu... não tem nada que eu possa fazer. Meus pés, sem consultarem o resto de mim, se viraram na direção dele, mas ele deu um passo para trás, me encarando. — Mas ela estava bem aqui, não estava? — Ela estava. Mas ela não está agora. Ele vacilou e colocou sua mão contra a parede para se equilibrar. — Ela não iria apenas... É claro que ela voltará. Não, ela não vai, eu pensei, mas eu não conseguia me forçar a apresentar isso tão horrivelmente. – Tim, é que... ela... — Você deveria ir — ele disse inexpressivamente. Ele virou na direção da porta. — Você fez o que eu te pedi para fazer. Obrigado. — Mas... — Só vai, está bem? Seja o que for que você ia dizer, eu não quero ouvir nesse momento. Eu tenho que pensar. — Ele não olhou para mim, apenas abriu a porta e

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ficou parado ali, franzindo para sua mão na maçaneta. Quando eu não me movi, sua voz ficou um tanto afiada. — Adeus. Eu não sabia o que mais fazer. Então eu fui. Eu dei um passo para a varanda e olhei de volta em tempo de ver a porta se fechando nos meus calcanhares. Eu hesitei ali, na sombra da casa, a luminosa tarde de primavera ali além dos degraus parecendo completamente irreal. Ele queria ficar sozinho. Tudo bem. Pelo menos isso, eu poderia dar a ele.

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Capítulo 13 É provável que as minhas pernas tenham seguido a ordem de Tim de deixá-lo em paz, mas a minha mente tinha outras ideias. Durante toda a hora do jantar, o meu estômago estava instável, meus pensamentos inquietos. Eu mordisquei a minha costeleta de porco e reorganizei as minhas ervilhas, chutando a perna da minha cadeira. É claro que Tim não queria que eu ficasse. Ele precisava lidar com a perda da sua mãe novamente, e quem era eu? Uma garota qualquer, com quem ele nunca sequer falou até uma semana atrás. Eu tinha a sensação no fundo das minhas entranhas que havia falas que eu deveria ter dito, gestos que eu deveria ter feito, que deixaria as coisas melhores. Mas olhando para trás, eu não sabia o que elas eram. Como amiga, eu era basicamente inútil, aparentemente. Minha garganta se fechou, e eu não conseguia engolir a colherada que eu estivera mastigando. Mamãe, com sua impecável noção de tempo, escolheu aquele momento para falar comigo. — Você sabe — ela disse enquanto sua faca riscava seu prato, — eu gostaria que você fosse um pouco mais consciente quando você for sair, mesmo se for para a escola. Eu dei um jeito de forçar a comida pra baixo. — O quê? — Você saiu hoje sem contar a mim ou seu pai onde você estava indo ou com quem. E você deveria ter contado ao seu pai exatamente onde você estava indo na sexta, também. Nós precisamos saber dessas coisas. Você tem que ser cuidadosa.

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Num minuto ela estava exageradamente feliz por eu passar dois segundos fora da escola com alguém da minha idade, no seguinte ela ficava toda agente da condicional para cima de mim. Eu não tinha a energia para discutir sobre isso. Não era como se eu estivesse planejando em ir a mais alguma festa. E as chances de Tim me convidar de novo... Meu estômago se apertou. — Claro — eu disse. — Hum, eu não me sinto muito bem. Eu posso me retirar? — Você mal comeu. — Ponha na geladeira — papai sugeriu. — Se você se sentir melhor mais tarde, você pode comer então. Eu o agradeci com um sorriso fraco. No meu quarto no andar de cima, eu desabei na minha cama. Mamãe e suas preocupações. Ela e a sra. Reed tinham isso em comum. Eu virei de lado, me curvando com a minha cabeça no meu braço. Sra. Reed. Eu estive tentando não pensar naquela parte dos eventos da tarde, mas ali estava. Ela estivera na sala de estar, um sopro sem preocupações, e então, o quê? Por nenhuma razão, sem nenhum aviso, se fora. Como Chester no último verão. Mas deveria haver uma razão, não deveria? As coisas não aconteciam simplesmente do nada, o mundo não funcionava desse jeito. Eu pensei novamente naquele último momento, olhando para ela antes dela se espalhar para o nada. O jeito que ela sorriu. Olhando para mim, para Tim, para nós dois parados juntos. Um calafrio passou pelo meu coração. Ela disse que queria apenas saber se ele estava bem. Saber que havia alguém que estaria ali por ele. Ela não poderia ter pensado que eu seria essa pessoa para ele, apenas eu? Não havia motivo para ela acreditar que eu poderia, ou assumir que Tim poderia querer que eu... Porque ele iria quando eu era tão obviamente incompetente? Paige entrou pela porta num estalo, seu cabelo deslizando atrás dela. — Cassie! — ela sussurrou, como se alguém pudesse ouvi-la. — Você ouviu? Eu empurrei meu corpo para cima. — Ouviu o quê?

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Ela pairou acima da escrivaninha. — Mamãe estava falando com papai no andar de baixo, ela disse que a revista para qual ela mais trabalha está curta de dinheiro. E se eles a demitirem? Um problema fácil, um problema que eu sabia como lidar. Eu soltei o ar, tremulamente, e afastei os outros pensamentos para longe. — Eles não podem demiti-la — eu disse. — Ela faz freelance. Eu acho que eles poderiam meio que deixá-la de lado, parar de lhe dar tantas atribuições, mas ela tem sido regular por anos. Eles iriam se livrar de todo o resto antes dela. Você conhece mamãe. Ela só gosta de se preocupar. — Eu espero que sim. Parecia só como se a revista pudesse fechar. Se não tem revista, ninguém vai escrever para ela. Ela disse que eles já estão fazendo com que pague muito mais das despesas dela. — Talvez ela não esteja partindo mais o tempo todo, então. Paige franziu. — Eu não gosto que mamãe fique longe, mas não é como se eu quisesse que ela perdesse o emprego. Ela ama isso, você sabe. Você pode imaginar o quão triste ela ficaria... — Não se preocupe — eu disse. — Ela vai ficar bem. Ela tem um monte de conexões, certo? Mesmo se alguma coisa der errado realmente com esse trabalho, ela ainda estaria escrevendo. — Você está certa — Paige disse, concordando mais com ela mesma do que comigo. — Ela vai ficar bem. Eu joguei minha cabeça para trás enquanto ela flutuava ali, e me peguei estudando-a de um jeito que eu não fiz em muito tempo. Como hoje, eu conhecia duas pessoas que ficaram e depois partiram. Uma permaneceu por aí talvez uns oito anos, e a outra, mal oito dias. Qual era a diferença? Foi algo que eu fiz? Havia alguma coisa que eu deveria fazer por Paige que eu nem sequer percebi? Mas eu não estive em lugar algum perto de Chester quando ele desapareceu. E... mesmo enquanto a ideia me encucava, eu quase não conseguia acreditar que a sra. Reed teria se sentido confortável deixando seu filho em minhas mãos. Talvez ela apenas soubesse que ele ficaria bem agora. Talvez fosse ele, não eu. Ela viu alguma coisa nele que lhe disse que sairia dessa, que ele superaria. Isso

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fazia mais sentido. E considerando o quão bem foi a minha tentativa de ser uma amiga, seria muito melhor para ele. Oh, por favor, faça com que seja isso. Paige desceu flutuando ao meu lado. Eu olhei de relance para ela. Se havia alguma coisa prendendo-a aqui, do jeito que a preocupação da sra. Reed pelo Tim a prendeu, se isso era o que a prendeu, eu esfreguei minha testa com as bases das minhas mãos. Tentar entender isso estava me dando apenas uma dor de cabeça. Eu aceitei, tempos atrás, que havia algumas partes da morte que eu apenas não conseguia entender, que tudo o que eu poderia fazer era me juntar a confusão com o que eu sabia. Nada mudou isso. Eu apenas juntei à lista de mistérios. Ainda, eu não conseguia impedir a pergunta de escapar. — Paige, porque você está aqui? Ela parou de chofre, uns sessenta centímetros fora da cama. — Eu queria te contar sobre a mamãe — ela disse, soando magoada. — Por que você acha? — Não, eu quero dizer, aqui na verdade. — O quê? — Bem... — eu fiz uma careta, desejando que eu não estivesse me enfiando numa saia justa. — É só que, nem todo mundo fica, depois. Como a vovó McKenna e o vovô Finch. Você não os vê por aqui. Eles apenas se foram. Mas você está aqui. É isso que eu quero dizer. Paige estivera enrolando uma mecha do seu cabelo ao redor do dedo. Agora a mão dela caiu no seu colo. — Você não me quer aqui? — Não, não. É claro que eu quero. — Eu me virei na direção dela, incapaz de falar por um momento. — Eu só quero saber por quê. No caso de... — no caso de poder fazê-la mais feliz. No caso de poder ajudá-la a seguir em frente, se houvesse alguma coisa na qual ela se segurava. Eu engoli em seco com força. Eu não conseguia imaginar esse quarto sem Paige. Acordar e não ter a sua luz aquecendo o quarto, seu sorriso iluminando seu rosto... Mas não era para ela estar aqui. Eu sabia disso. Os mortos deveriam estar aonde quer que eles todos fossem, no fim das contas. Seria tão egoísta da minha parte não me preocupar, não fazer o que eu pudesse por ela, só porque eu iria sentir a sua falta.

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— Eu não tenho ideia — Paige disse. — Eu estou aqui porque estou aqui. Eu não decidi isso. Porque você está perguntando essas coisas? Eu não imaginei que ela fosse curtir a história do Tim e da mãe dele. — E sobre, já conversou alguma vez com outras pessoas, pessoas como você? Você já não perguntou? Ela começou a fungar, e eu me senti uma verdadeira vaca. Como eu poderia explicar que eu perguntava apenas para o bem dela? Eu me aproximei dela, tão perto quanto eu poderia ficar se fosse abraçá-la. — Cassie — ela disse. — A única pessoa que fala comigo é você. Eu ergui meus joelhos e deitei minha cabeça nos meus braços, olhando para ela. Norris e Bitzy dividiam um prédio, conheciam um ao outro, e ainda podiam ficar meses sem mal falar uma palavra ente si a não ser que eu interviesse. É claro que Paige não iria pensar em ir interrogar algum morto estranho por respostas. Como se algum deles tivesse mais respostas do que ela. — Eu sinto muito — eu disse. — Eu apenas estou tentando entender. Paige flutuou para um canto. Ela me observou de lá, seus olhos escuros. — Eu não acho que tenha algo para entender — ela murmurou. — As coisas são do jeito que elas são. — Então ela deslizou através da parede, e eu estava sozinha.

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Capítulo 14 Na manhã seguinte eu fiz minha rotina de tomar café da manhã e arrumar minhas coisas para a escola, minha cabeça um nevoeiro. Eu veria Tim na escola hoje. Mesmo se ele não quisesse falar comigo, eu poderia pelo menos saber que estava tudo bem. Talvez agora, que sua mãe realmente foi embora, ele lidasse com isso em vez de ficar procurando o que ele havia perdido. Talvez ele começasse a ficar melhor. Eu esperava isso tão fortemente que meu peito doía. Enquanto eu caminhava até o Frazer, eu não poderia deixar de olhar para a árvore cinza de Chester. Eu parei de caminhar para as portas dianteiras e andei vagarosamente para uma visita. As folhas verdes pálidas balançaram nos ramos, tão magros como os braços de Chester tinham sido. Eu toquei no tronco, passando meus dedos para cima e para baixo na casca lisa. Havia apenas silêncio, a árvore e eu. Chester não voltaria. Nenhum sorriso tímido, nenhum olhar de cobiça sobre os carros que queríamos, não mais. Minha mão caiu no meu lado. Eu sabia disso. Talvez ele tenha encontrado alguma coisa, alguma coisa que tenha preenchido o que continuava o mantendo aqui, algo que o libertou. Com sorte, ele estava feliz onde quer que ele tenha terminado. Com sorte, igualmente foi com a sra. Reed. Dentro da escola, tudo parecia o mesmo, o mesmo som, o mesmo cheiro, mas um mal-estar arrepiava minha pele. Corri as escadas do terceiro andar, dizendo a mim mesma que era só nervosismo e se eu ignorasse o sentimento iria embora. E quase foi.

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Então eu saí do corredor e vi Norris parado me esperando. Não embaixo do meu armário como o usual. Bem embaixo das escadas, ele queria me achar o mais cedo possível. Ele brilhou fracamente e levantou as mãos como se pensasse que poderia me bloquear de passar. — Eu tentei pará-lo — ele disse, — eu... ah cara, você não sabe o quanto eu oscilei a sua cabeça. Eu teria o agredido com uma pasta, eu juro isso, Cass... Minha boca ficou seca. O sinal tocou e os estudantes ainda continuavam em volta dos seus próprios armários pegando suas coisas e caminharam para a sala de aula. Mesmo com sua pressa eu vi olhares de relance para mim. Eu abaixei minha cabeça e passei por eles. Isso não poderia ser tão mal. Não poderia ser tão mal quanto antes. Nada poderia ser tão mal quanto aquilo. E não foi, claro. Mas de certa forma, foi quase pior. Eu olhei para o meu armário enquanto os últimos retardados olhavam meu caminho, então as suas aulas começaram. A combinação tinha sido arrancada, a porta estava aberta por uma fresta. Não o suficiente para ver dentro, mas o suficiente para me fazer hesitar em abrir. A fechadura estava na sua frente, em uma poça de material preto que parecia ter escorrido de dentro. A mesma coisa preta manchava a borda das portas. Quem havia feito isso foi muito cuidadoso para não deixar uma gota tocar nos armários próximos. Isso foi para mim. Eu dei um passo mais perto, toquei uma das manchas. Era grosso e pegajoso, e quando eu trouxe meu dedo para perto do meu rosto isso cheirava a asfalto. Alcatrão. Alguém decorou meu armário com alcatrão. Com o mesmo dedo, eu cutuquei a porta abrindo totalmente. Minha respiração prendeu. Alcatrão escorria pelo armário, revestindo as paredes e todas as coisas dentro com uma camada preta viscosa. Um livro aberto sobre uma pilha de coisas no fundo. O material manchou entre as paginas e através da capa. Estava arruinado. Tudo ali estava arruinado. A camisa que eu havia deixado ali para um dia quente da primavera que se tornasse agradável, as pastas cheias de anotações que eu precisava para os exames... Meu olhar se moveu, e pela primeira vez, eu notei o fundo do armário. As letras pintadas começaram a escorrer, mas eu podia continuar a ler sem problemas.

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the ÚLTIMA CHANCE. AFASTE-SE.

Eu cerrei meus dentes. Claro. Quem mais poderia fazer isso, senão Matti? Nenhuma dúvida que os amigos de Tim continuavam atrás dele. Norris pairava atrás de mim, como se estivesse aterrorizado com o que eu faria se ele falasse. Agora ele encontrou sua voz. — Foi esse cara, Matti. Ele veio assim que os faxineiros abriram as portas, ninguém estava ao redor, eu gostaria de matá-lo se eu pudesse, você sabe disso, Cass... — Eu sei. — Eu disse, estupidamente. Eu pensei que as coisas tinham mudado. Mas talvez elas não tenham. Talvez nada tivesse mudado. Eu ainda era a menina assustadora que chamara a atenção do garoto errado. Você vê? Eu pensei, não sabendo se eu falava de Paige, mamãe, ou eu mesma. Você vê? É por isso que eu não gosto de mexer com pessoas vivas. Porque os vivos são confusos e complicados e as coisas viram um inferno sempre, de um jeito ou de outro. Eu balancei minha cabeça e me forcei a concentrar. Avançar. Não deixá-lo ver que ele me abalou. Eu tenho três anotações na minha mochila e outras duas em casa. Isso equivale a três aulas das anotações destruídas. Eu poderia sobreviver com os livros, e inventar alguma desculpa para precisar de novas anotações. Obviamente eu teria que pesquisar um pouco na internet para saber como se remove alcatrão, se eu pudesse limpar tudo isso antes, sem que um administrador encontrasse, minha vida poderia ser muito mais simples. Mas agora, neste momento, talvez tenha trinta segundos antes de o sinal tocar, e eu deveria estar sentada na minha mesa de biologia no térreo. Outra falta inexplicada e sr. Gerry talvez quisesse compartilhar sua preocupação com meus pais. O resto poderia esperar. Eu empurrei meu armário, fechando-o, e corri pelo corredor. Estava no meio do caminho para a escada quando Tim saiu dela. Eu congelei instintivamente. Assim como minha preocupação e o quanto eu contava vê-lo aqui hoje, de repente tudo que eu queria fazer era me esconder, mas estava no meio do corredor vazio, todo mundo nas salas onde nós supostamente deveríamos estar, ele deveria ser cego para não me ver. Ele acenou para mim, caminhando, lentamente, e parou na minha frente, balançando como se não encontrasse seu equilíbrio. Eu engoli seco. Cara, ele parecia horrível.

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— Oi Cass. — Ele disse e esfregou os olhos. Isso pareceu como se cada partícula de cor do resto do seu rosto havia se reunido embaixo deles. Eu não sabia como poderia conseguir círculos tão escuros. — Você parece horrível. — Eu deixei escapar. — Deveria ter ficado em casa se está desse jeito. — Eu estou bem. Sua voz estava diferente: estava mais chiada do que o Oldsmobile. Ele puxou uma garrafa de suco para fora da sua mochila, sem tampa e engoliu, uma, duas vezes. O conteúdo dentro tinha a cor âmbar de suco de maçã, mas quando ele abaixou a garrafa, meu nariz enrugou com o cheiro de álcool. Ele golpeou a testa com a mão. Sua franja caía na sua pele como capim morto. — Bem — ele disse, mais suave agora. O último sinal tocou. Minhas mãos fecharam. Cada segundo que passava agora era outro segundo mais próximo da sra. Canning terminar a chamada, enviando a pasta para o escritório com um A de ausente marcado perto do meu nome. Mas não existia nenhuma maneira de eu deixar Tim assim. — Você será suspenso, levando essas coisas para a escola. — Você vai dizer a eles? — Não, mas... — Bom. — Ele jogou a garrafa dentro da mochila e balançou a cabeça em direção a escadas. - Vamos lá... Ele pegou o meu braço e eu me esquivei facilmente. Sua mira estava tão ruim que ele provavelmente teria me perdido parado ali. — Espere. — Eu disse. — Ir aonde? Do que você está falando? — Casa. — Ele disse. — Nós estamos indo para casa. Ela continua lá, certo? Eu preciso ter certeza. Não preciso falar com ela. Só preciso saber. Não, ela não estaria de volta. Ela não poderia estar, por causa de alguma razão estúpida ela aparentemente decidiu que o mundo estava certo, que o tempo passou, quando claramente Tim se afundava mais e mais. Porque havia sido eu a pessoa que deixada lidando com isso, parada aqui com a minha garganta presa e sem ideia do que fazer?

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— Nós não fizemos um acordo que você não iria me perguntar sobre isso mais? Tim sorriu fracamente. — Meu pai vai ficar fora até quarta-feira. Você não pode contar nada a ele. Eu parei. — Eu não posso contar nada a você também. Ela se foi, Tim. Você deveria ir para casa. Comer alguma coisa. Descansar um pouco. Parar de beber essa droga. — Primeiro você vem. — Ele disse. — Depois eu faço tudo isso. Prometo. — Você está me ouvindo? Não vai fazer nenhum bem. — Eu toquei seu cotovelo, empurrando em direção as escadas. — Eu sei que isso é realmente difícil e você está realmente chateado, talvez se você falasse com alguém... — Não quero falar com ninguém. Todo mundo tem me ligado. Desliguei meu celular. Como se dessem à mínima. — Sua mãe queria que você falasse com a sua tia. Você vai fazer isso? Ele balançou a sua cabeça. — Só venha. — Ele disse. — Por favor. Por favor. Por favor. — Sua voz quebrou na repetição e por um momento horrível de torção no estômago eu pensei que ele começaria a chorar bem ali no meio da escola, comigo. Então ele piscou, o brilho de lágrimas desapareceu dos olhos. Ele começou a encarar os sapatos, olhando como uma criança desesperadamente perdida como do Save the Children18. A luz de cima batia no seu rosto como se talvez pudesse quebrá-lo. Meus dedos tremiam. Parte de mim queria o envolver com os meus braços, como se ele realmente fosse uma daquelas crianças. Abraçá–lo e dizer que tudo ia ficar bem, ele só tem que passar por isso. Mas eu não sabia como dizer isso de um jeito que ele ouvisse. A única coisa que eu sabia era falar com os mortos e foi o que nos meteu nesse desastre. E se eu desistisse novamente, se eu o deixasse manter a esperança, ele poderia no final se machucar muito mais a longo prazo. Quanto mais rápido ele aceitar as coisas como eram, melhor ele ficará.

18

Save the Children (International Save the Children Alliance) é uma organização não governamental de defesa dos direitos da criança no mundo, ativa desde 1919, dedicando-se tanto a prestar ajuda humanitária de urgência como ao desenvolvimento de longo prazo, através do apadrinhamento de crianças. O apadrinhamento humanitário consiste em prover as necessidades da criança, permitindo que continue no seu meio familiar, sua cultura e seu país.

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— Não — eu disse. — Isso não vai acontecer, Tim. Não tem sentido. Ela se foi, completamente. Eles não desaparecem assim e depois voltam. Acredite. Eu conheço a diferença. — Você não tem certeza — ele insistiu. — Você não olhou em todos os lugares. Você poderia ter perdido... — Eu não perdi nada — eu disse. — Eu sinto muito, realmente eu sinto, mas isso é perda de tempo. Supere, como ela queria que você fizesse. — Passos abafados vieram de uma porta e o barulho de uma fechadura clicando. Um professor nos ouviu. Eu pulei em direção as escadas. — Vamos ou nós iremos pegar uma detenção juntos. Tim abriu a porta e eu fechei depois que ele passou. Nós corremos para o segundo andar, Tim tropeçando na curva. Eu continuei seguindo. No primeiro andar, eu fico entre a entrada e o gramado, o sol quente no topo da minha cabeça. Tim sai cambaleando um segundo depois, segurando a cabeça com a mão. — Ai. — Ele diz, sentando no degrau com um baque. — Olha — eu digo. — Isso é tudo que eu sei, tudo que eu posso contar. Sua mãe, por alguma razão, foi embora, desapareceu no submundo. E quando ela vai, cada traço dela vai junto, também. Quando uma pessoa morta ronda um local por muito tempo e você os conhece como eu, você pode perceber. Existe uma sensação no ar, um sabor, um cheiro. Isso fica, não importando aonde eles vão, o que é completamente irritante porque você não pode levar para fora como às folhas ou pulverizá-los com um purificador de ar. E isso foi embora ontem. Significa que sua mãe foi embora. Se eu pudesse consertar as coisas eu, eu faria. Mas eu não posso fazer nada. Eu juro, não posso. Ele olhou para mim, estremecendo com a luz solar. — Por quê? — Porque eu não sei de nada que eu possa fazer. — Não. Porque ela se foi? — Eu não sei. — Eu disse. Eu não faria nenhum bem para ele deixando escapar as teorias idiotas que passavam na minha mente desde então. — A maioria das pessoas, quando morrem, vão para um lugar que elas supostamente deveriam ir diretamente. Isso só acontece. Há alguns que continuam aqui, o que é estranho. Eu acho que onde quer que ela esteja agora, é o lugar certo para ela. É melhor para ela estar lá do que aqui.

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— Mas, isso significa… que foi minha culpa? Porque eu estava tentando me comunicar com ela? Ela não queria... — Não. Talvez essa não seja a razão. — Talvez ela tenha pensado que o deixou em boas mãos. Ha. — Ela estava sorrindo. — Eu ofereci. — Quando ela desapareceu. Ela não estava mais preocupada ou aborrecida. Ele parecia me ouvir. — Ela se foi — ele disse para si mesmo. — Ela realmente se foi. Eu não sei o que eu vou fazer. — Ele encarou a rua. — É engraçado, sabe. Eu continuo pensando sobre coisas estúpidas. Quando eu tinha doze anos e meu hamster de estimação morreu. Isso realmente me tocou. Mas você não fica chateado por causa de um hamster quando você tem doze anos. Então, eu agi como se não ligasse. Mas mamãe sabia. Ela veio e sentou comigo e não disse coisas estúpidas como, Ele está em um lugar melhor agora. Ela só disse que sentia saudade de assisti-lo fugir para os bares e eu disse que sentia saudade de vê-lo comendo na minha mão, e eu soube que era normal me sentir triste. Houve um longo momento que eu não poderia pensar em nada para dizer. — Claro que é normal para você estar triste. Quero dizer, é a sua mãe. — Isso não é... isso não é a maneira que qualquer um parece agir. Todos eles fazem seus pequenos fingimentos de luto e então, quando isso supostamente não acaba, vira um problema se você não quer sair ou partir ou qualquer outra coisa. — Ele balançou a sua cabeça e então abaixou até descansar em suas mãos, balançando lentamente. — Isso é tanto. Porque ela precisava ir desse jeito? Porque ela não poderia apenas ter ficado...? Eu preciso dela. A dor no meu peito se espalhou enquanto eu o assistia, uma dor que parecia chegar até aos meus ossos. O que de bom estava fazendo? Nada que eu disse estava fazendo a menor diferença. Eu não era boa com as coisas das pessoas vivas. Falar baixo com Bitzy, animar Norris, claro, sem problema. Os mortos eram simples, eles faziam sentido, foi por isso que eu me apeguei a eles. Eu fiz o que Tim me pediu. Eu tentei e agora ele estava infeliz. Teria sido melhor se eu nunca o levasse tão longe como aquele primeiro dia no parque. Seria melhor para ele se nunca soubesse que sua mãe havia escorregado entre seus dedos, e melhor para mim nunca ter me envolvido em um problema em que eu não poderia resolver, isso machucava e eu não sabia como curar. Seria melhor eu ir embora agora antes de provocar problemas ainda maiores.

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— Eu tenho que voltar para as aulas — eu disse. As palavras soaram estranhas vindas da minha boca. — Só... fale com a sua tia, ou alguém, por favor, tudo bem? Tim se mexeu, mas não levantou a cabeça. Eu limpei a minha garganta. — E... eu estou indo. Eu não falei mais nada enquanto andava até os degraus e agarrei a maçaneta da porta. Eu já falei demais. Uma interessante experiência, lidando com os vivos, mas uma análise com resultados desconfortáveis. A porta bateu fechada e ali, atrás de mim, havia apenas o silêncio. Nem um pio de Tim. Eu enterrei as minhas unhas em minhas mãos e me forcei a continuar andando.

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Capítulo 15 Eu mantive um olho nas costas o dia inteiro, enquanto corria entre as aulas e tentava limpar meu armário. Eu não o vi nenhuma vez. Talvez ele tenha voltado para casa, eu disse para mim mesma. Eu esperava que ele estivesse tendo tempo para se recuperar e não... eu não quero pensar sobre o que talvez ele esteja fazendo. Isso não era como se eu não tivesse coisas para fazer. Quando eu vi Matti, minhas mãos se fecharam em punhos, mas eu me mantive bem e simplesmente o ignorei. De qualquer maneira, em algumas semanas ele estaria formado e eu nunca mais teria que vê-lo de novo. Vi Danielle e Paul no refeitório, sentados em lados opostos da mesa; Danielle rindo com Jordana, Paul entre Matti e Flo, a qual lançava olhares em volta da pilastra onde devia ser capaz de ver o brilho do seu cabelo, e eu não me senti nem um pouco vitoriosa. Paul a enganou. Eu deveria deixar Danielle saber. Agora eles terminaram. Isso provavelmente aconteceria do mesmo jeito sem mim, apenas um pouco mais tarde. Eu não poderia mudar o que ela fizera, voltar para o jeito de antes. Isso não mudaria nada. Na manhã seguinte eu andei no estacionamento para checar o Oldsmobile azul-bebê. Ele não estava ali. Eu mordi meu lábio e fui para a escola. Norris esperava no escritório de matemática, como de costume. Sentei de costas para o meu armário aberto e ele se agachou ao meu lado. Poderia ter conversado com ele um pouco antes da aula, mas toda vez que eu abria a boca, eu via o estacionamento e o local vazio onde o carro de Tim deveria estar. — Norris. — Eu disse. — Pode me fazer um favor? Norris levantou as sobrancelhas. — Eu vou me arrepender se disser sim? — Bem, eu... — meu rosto ficou quente. — Qual é, Cass — Norris disse. — Como se eu tivesse alguma coisa melhor para fazer? O que você precisa?

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— Isso pode soar estúpido — eu disse. Ele deu os ombros. — Eu não sei se você se lembra, mas eu ajudei o Tim, o vice-presidente, um pouco, e agora... você poderia ir na casa dele, checá-lo, só por alguns minutos, então eu sei... — eu parei. O que exatamente eu queria saber? O que ele pensaria se ele soubesse que eu estava o espionando? Mas eu precisava saber. Se eu não soubesse como ele estava indo, eu ficaria maluca. — Você tem alguma coisa com ele? Talvez seja bom. — Não. Isso é uma longa história. Ele está passando por uma espécie de bagunça e não veio à escola. Eu só quero saber se ele está bem. Você pode fazer isso? Você não tem que fazer. Norris bufou. — Não se preocupe sobre isso. Conte comigo. Eu dei a ele o endereço quando o sinal tocou. Ele escapuliu através dos armários antes de eu fechar o meu. Observando ele ir, meu estômago remexeu. Eu desejei não ter comido tantos pedaços de bacon no café da manhã. Na aula de química, srta. Taisley nos fez assistir mais um de seus vídeos loucos sobre ligações químicas, onde todos os elementos eram desenhos de pessoas e eles compartilhavam as substancias juntos de uma forma complexa. Eu fiquei esperando a tabela periódica se transformar em uma grande orgia. As luzes estavam apagadas, então quando Norris atravessou a porta, brilhava fracamente, eu o notei na hora. Ele deslizou ao lado da minha mesa, esfregando as mãos. — Missão completa. Quer ouvir sobre isso agora? Eu acenei, fingindo estar absorvida com o vídeo. — Encontrei o cara na sala. — Norris disse. — Ele estava deitado no sofá. Primeiro, eu achei que ele estava dormindo. E então ele chamou pela sua mãe, mas ninguém veio. Eu não vi ninguém na casa. Acho que ele está doente. Eu fiz um gesto para meu caderno, que tinha mais rabiscos que anotações, e escrevi, ele estava bebendo?

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— Você quer dizer álcool? Eu não vi nada. Eu acho que ele poderia ter bebido tequila. Pelo que eu soube, a maioria dos caras ficam agressivos quando estão bêbados. Isso soou como se Tim não estava muito pior do que ele estava no fim de semana. A qualquer momento agora, sua pai poderia chegar em casa e veria que tinha alguma coisa errada com Tim ou algo assim. Eu expirei lentamente. Obrigada, eu escrevi. — Por nada. — Norris disse. Ele agachou na borda da mesa e viu o resto do filme comigo, dando seus comentários sobre o quão ridículo isso era. Andando para casa a tarde, eu vi um carro na nossa garagem. Mamãe havia dirigido para sua última reunião, mas ela não estava liberada para voltar até amanhã. Voltando a andar, eu olhei para a janela lateral. Seu estojo de maquiagem de couro estava jogado no banco do passageiro. Quando eu me endireitei, mamãe bateu a porta. A gola da sua blusa estava presa em um lado e a outra estava desigual. Quando ela caminhou, descendo os degraus, a bainha da calça subiu revelando uma meia cinza e outra de brim azul. Nada estava bem no mundo de mamãe. — Para dentro, Cassie. — Ela disse categoricamente, roçando em mim quando eu passei ao lado dela. — Sente-se à mesa de jantar e fique lá. Precisamos conversar. Isso não soou promissor. Ela havia acabado de chegar em casa, o que, possivelmente, poderia ter acontecido para ela me irritar? Suspirando baixo, eu entrei. Ela me fez esperar. Joguei-me na cadeira girando meus tornozelos enquanto ela carregava sua mala de rodinhas para cima: thump thump thump thump thump. A água pingava no banheiro. Ela passou pela porta, sua cabeça firme, e sacudiu cubos de gelo na cozinha. Uma chave clicando no armário de bebidas. Mamãe nunca bebe antes do jantar. Nos ainda nem começamos a falar e isso já se preparava para ser uma catástrofe de conversa. Eu ponderei as consequências de sair correndo pela porta. Antes que eu chegasse muito longe, ela entrou na sala com toda a graça de um furacão. Ela

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deixou sua bebida, sua favorita, um Long Island iced tea19, e sentou com os cotovelos na mesa, suas mãos juntas na sua frente. Eu vi o gelo derreter no seu copo. Isso me fez pensar em Tim, seu gin gelado e sua estúpida garrafa de suco. Eu olhei para mamãe e fiz uma careta, — Você veio mais cedo só para falar comigo? — eu disse. — Qual é o grande problema? Sua boca apertou, sulcando as laterais. — Eu vim cedo para casa porque a revista reduziu meu departamento. — Ela disse. — Acontece que o telefone estava tocando quando eu entrei pela porta. Seu orientador tinha algumas coisas a dizer. Sr. Gerry, aquele fuinha. — Ele estava particularmente preocupado sobre sua presença e suas matérias — mamãe continuou. — Aparentemente você está matando um monte de aulas. — Isso não é verdade. Eu não tenho perdido nenhuma desde... — desde que ele me falou sobre isso na semana passada, eu ia dizer, e então algo me veio. Eu perdi metade da aula de biologia ontem enquanto conversava com Tim. Caí para trás na cadeira. — Hum. — Mamãe falou, como se eu tivesse dado tudo que precisava. — Eu não quero ouvir nenhuma desculpa. Esse ano esta quase acabando. Você tem as provas chegando. Você terá todo o verão para evitar a escola, então faça isso depois. Eu joguei as palavras sem pensar. — E você é a especialista para falar sobre como evitar as coisas. Os ombros de mamãe enrijeceram. — O que você disse? Eu fui longe demais. Mesmo com a frustração que ela despertou dentro de mim, eu sabia que não valia à pena lutar. Então eu disse. — Desculpe. Esqueça. — E empurrei a minha cadeira para me levantar. Se mamãe não tivesse me empurrado de volta, nenhuma outra palavra teria saído. — Espere ai. — Ela disse, apontando um dedo para mim. Sua mão tremia. — Eu ainda não terminei. Para começar essa sua atitude é desrespeitosa, rancorosa e eu quero que ela pare agora. 19

Long Island Iced Tea: (também conhecido como Texas Tea, em português o "chá do Texas"), é um coquetel feito com vodka, gim, tequila e rum.

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Se ela soubesse, se ela tivesse a menor ideia do que estava passando... Eu me levantei de qualquer maneira, segurando isso dentro. Eu puxei a cadeira e a empurrei ficando atrás dela, agarrando a parte de trás como se eu precisasse disso para me manter em pé. — Atitude? — Sim. Isso, agora. Parecendo uma idiota. Escondendo-se. Ignorando-nos. Não acha que o seu pai não percebe também. Talvez você tenha dezesseis anos, mas eu continuo sendo sua mãe e eu quero um oi quando eu chego em casa e uma resposta civilizada quando eu pergunto algo a você. Que conveniente para ela esquecer que na metade do tempo ela esquece o oi e vai direto me atormentar. Minha mandíbula apertada. — Talvez se você fizesse mais do que encher o meu saco, eu poderia querer falar com você. — Encher o seu saco? — as mãos delas saltaram no ar movimentando-se em volta. — Isso não é pegar no seu pé, Cassie. Isso é uma discussão e disciplina. Esse é o meu trabalho. — Oh. — Eu disse. — Então, eu acho que também é o seu trabalho apontar tudo que está errado comigo e me incomodar o tempo todo porque eu não sou do jeito que você quer. — Cassie. — Sua respiração chiou ao sair. — Eu estou tentando fazer com que você olhe para fora. Se você agir assim sua vida inteira, você nunca vai fazer amigos. As faculdades não querem alguém como você. Ninguém vai te dar trabalho. Você está se transformando você mesma em algo horrível, solitária. Olhe para você. Você vai para a escola com essas roupas sujas, seu cabelo uma bagunça, sempre carrancuda. Você tem que chegar lá fora, com a melhor apresentação, experimentar coisas novas. Viver. Ser como a Paige. Ser a filha que ela realmente quer. Se fosse eu que estivesse morta e Paige continuasse aqui, ela nunca teria uma palestra como essa. Minha raiva transbordou e eu cuspi as palavras. — E o que você está fazendo com a sua vida? Você nunca fica em lugar nenhum por mais de uma semana, nem mesmo aqui. Tudo que você está fazendo é reclamar dos lugares onde você esteve, da comida que sobrou na geladeira e sobre eu não ser boa o suficiente.

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Seu rosto se tornou branco e sua boca abriu, mas eu estava falando tão rápido para ela me interromper. O momento não me deixava ir devagar. — É a Paige. — Eu disse. — Você acha que eu não sei? Você finge que isso não te incomoda mais, coloca seu spray no cabelo, faz sua maquiagem e coloca suas roupas perfeitas, mais isso é tão óbvio. Te incomoda tanto que você não suporta ficar aqui comigo e com papai. Onde estão seus amigos? Onde está sua vida? Você está tão ocupada tentando não pensar sobre a morte de Paige que talvez você esteja morta também. — Cassie — ela tentou. — Não. Cala a boca. Você não sabe de nada. Talvez a revista vá demiti-la. Você está fugindo de tudo. Quem quer contratar alguém assim? Pelo menos eu não estou fingindo. Eu tirei a minha mão da cadeira, meu rosto quente e meus olhos ainda mais. Eu saí da sala de jantar e subi as escadas, sabendo que mamãe iria gritar o meu nome, me arrastar para baixo e me dar uma palestra para acabar com todas as palestras sobre mim. Exceto que ela não fez. De algum modo, eu vou para meu quarto encurvada. Desabando na minha cama, eu limpei meus olhos e minhas bochechas. Elas estavam molhadas. Meu batimento cardíaco batendo nas minhas costelas como um martelo. Queria saber se sangue pode quebrar ossos. GAROTA MORRE POR SUA PROPRIA PULSAÇÃO. Está seria a manchete que Flo morreria para ter. Eu rolei, olhando para o teto enquanto lágrimas escorriam pelos lados do meu rosto e no meu cabelo. Eu falei demais. Eu não deveria ter... Mas era tarde demais para isso. Mamãe apenas ignoraria isso como todo o resto. Ela iria embora para outra viagem e quando voltasse seria como se eu não tivesse dito aquilo. Caso contrário, ela teria que pensar no que disse. Se ela fizesse isso também precisava considerar: 1. Que talvez tenha uma boa razão para estar perdendo essas aulas. 2. Que talvez eu ainda tivesse amigos se todo mundo não decidisse, não por minha culpa, que eles não queriam nada comigo. 3. Eu talvez tenha uma vida melhor que Paige teve. Quero dizer, até agora eu não consegui me afogar. Isso não conta em alguma coisa?

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4. Quando eu rolei enterrando meu rosto no travesseiro, a voz de Paige saiu do fundo do corredor. — Cassie! — eu limpei meus olhos e sentei quando ela passou pela porta. — Cassie? — ela disse, deslizando na borda da cama. Ela estava enrolando o cabelo com todos os dedos da sua mão direita. Se ela não estivesse morta e não soubesse tudo sobre as leis de cosmético como a raiz do cabelo e uma unha polonesa rachada, ela teria terminado com a cabeça cheia de nós. Ela sentou muito silenciosamente, mas o brilho dela ainda tremia. Culpa subiu na minha garganta. Eu não pensei nela ouvindo tudo da briga entre mamãe e eu. Eu dissera coisas sobre a Paige. Eu tossi, esperando que ela não percebesse o eu-estive-chorando na minha voz. — O que aconteceu? Paige olhou para seu cabelo, seus dedos e os soltou. As mechas flutuaram sobre o seu ombro caindo como um véu em seu rosto. — Mamãe está chorando. — Ela disse. — O que aconteceu? Ela está bem? Mamãe chorando? Eu não poderia imaginar isso. Eu não vi uma lágrima nos seus olhos desde o funeral de Paige. — Eu disse algumas coisas para ela. — Eu disse, me virando de lado. — Ela estava me humilhando, então eu disse coisas de volta. — Oh, Cassie. — Paige suspirou com o suspiro super-irmã, como se ela não gritasse com mamãe o tempo todo por causa de namorados, festas que ela poderia ir e até que horas ela poderia ficar acordada: Eu odeio você! Você não entende nada! A única diferença era que eu quis dizer o que eu havia dito. — Você deve ter dito algo realmente ruim. — Paige estava dizendo. — Eu nunca a vi tão triste. Porque você não vai se desculpar? Se Paige não ouviu a coisa toda, eu não iria explicar. — Eu só disse a ela que estava indo longe demais. — Eu disse. — E ela reclama demais. E isso é verdade, então porque eu devia me desculpar? Eu fui má com ela. As pessoas dizem coisas. Isso acontece. — Eu acho melhor você pedir desculpa. Ela parece realmente magoada.

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Talvez mamãe deva se sentir um pouco magoada. Como ela me fez sentir, deixando a casa todo esse tempo, sabendo que quando ela voltasse seria apenas para me lembrar que eu não estava vivendo segundo suas expectativas? Eu estava para falar alguma coisa quando o telefone começou a tocar.

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Capítulo 16 Uma coisa estranha aconteceu. Eu atendi o telefone. Essa era provavelmente a primeira vez que eu atendo um telefone tocando desde o colegial, quando as crianças começam com a mania de ligar e então todos pararam de ligar. Meu braço, sem consultar meu cérebro, assumiu que era Tim e agarrou o aparelho como se o fato do destino do mundo dependesse do que ele falaria. A última voz que eu esperava ouvir era a de Danielle. — Cassie? — Ela disse, antes que o oi tivesse terminado de sair da minha boca, e um deja vu tomou conta de mim, voltando ao tempo da sétima série, antes da zombaria e das anotações, antes de tudo, quando eu ligar para Danielle era tão comum quanto um questionário na aula de matemática. Eu não podia falar. — Cassie? É você, não é? — ela disse. Eu retornei ao presente. A última vez que eu falei com Danielle, ela me disse quão patética eu era. Eu imaginei que, depois de tudo, ela guardou o número do meu telefone, só no caso de precisar. — Sim. — Eu respondi mais rispidamente que eu queria. Eu envolvi meu braço livre em torno da minha barriga, me segurando. Houve um murmúrio, um fraco murmúrio, como se seus irmãos mais novos estivessem correndo. Eu me perguntei se ela ligou só para me dar um tratamento de silêncio. — Olha — ela finalmente disse. — Eu não queria falar com você também. — Só há uma solução para isso. Não disque o número. — Bem, alguns precisam saber coisas mais importantes do que o quanto você detesta todo mundo.

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— Ótimo. — Eu me deixei cair de costas na cama, assim eu podia encostar contra a cabeceira da cama. — Então me conte o que é essa coisa tão importante e assim podemos parar de nos falar. Ela parou, suspirando. — Quando foi a última vez que falou com Tim? O que, ela estava tentando determinar com quantas garras eu o prendia? — Ontem. — Eu disse. — Ontem — ela repetiu. — Então, isso foi quando, depois da escola? — Não, primeiro período. Qual é o problema? Ela ignorou minha pergunta, — Mas ele não foi para a escola ontem. — Eu não alucino muito. — Eu disse. — Foi onde eu o vi. — Ele não foi para a aula. Ninguém o viu... — Ela parou e eu pensei que nós percebemos a mesma coisa. Tim foi à escola só para me ver. Para Danielle, provavelmente, isso era só outra prova de evidência contra mim. Não poderia possivelmente acontecer a menos que eu tivesse enfeitiçado ele para ir. — Você não o tem visto desde então? — ela perguntou. — Você disse a última vez. Essa foi a última. — Eu acho que saber por pessoas mortas não conta. — Você nem mesmo falou com ele? No telefone? — Você sabe. — Eu disse. — Talvez se você me contasse quando tornou da sua conta como e quando eu falo com alguém. — Quando Tim desapareceu da face da Terra. — Sua voz vacilou. — Então você falou? — Não. — Eu olhei para o telefone. — O que você diz com desapareceu? Ele só matou aula, não foi? — Se fosse isso, você acha que eu estaria ligando para você? Não. Eu estava surpresa que ela tivesse se incomodado comigo, não importa o tipo de problema que ela pensou que ele estivesse.

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the — Ele não está em casa? — eu perguntei. — Eu não sei. Esse é o porquê de perguntar a você.

— Bem, o máximo que eu sei, é onde ele deve estar. Nós terminamos? — Cassie… eu não sei se você entendeu, certo? — Eu poderia quase a ouvir mordendo o lábio inferior, um dos poucos maus hábitos de Danielle. — Nós estamos tentando o achar desde domingo. Seu celular tem estado desligado todo esse tempo. Ninguém atende ao telefone de casa. Jordana, Leon e eu fomos lá, batemos na porta e ninguém atendeu. — Ele disse que o seu pai estava fora essa semana. — Eu ofereci. — Talvez ele esteja aproveitando para ficar sozinho. — Mas ele não iria ignorar tudo. Leon o conhece há anos, ele disse que nunca o viu assim antes. Nós deixamos mensagens dizendo que estamos preocupados. Ele não é assim. Alguma coisa está errada. Seu pânico rastejou através do meu ouvido e infectou meu cérebro. Muita coisa poderia ter acontecido desde as seis horas que Norris havia checado Tim. E se ele tivesse tropeçado ao descer todas as escadas e quebrou todos os seus ossos? E se ele desmaiou na banheira e começou a se afogar. Espere. Uma memória puxou meus pensamentos, seguido por um uma confiança. Tim me disse que ele havia desligado o telefone porque não queria falar com ninguém, disse que não acreditava que eles estavam realmente ligando, murmurou o quanto idiotas seus amigos estavam sendo. Danielle estava certa, ele não era assim. Porque Tim não estava sendo ele mesmo assim. Ele precisava parar e ver quem eram seus verdadeiros amigos. Por que ele não deveria excluí-los, se ele quisesse? Não significava que estivesse algo errado com ele. — Talvez ele só não esteja interessado em falar com você. — Eu disse. — Já pensaram nisso? — Mas… nós somos seus amigos. Porque ele estaria pirando, a menos... — sua voz endureceu. — Isso é por sua causa, não é? Foi ideia sua. Eu comecei a rir, mas engasguei no fim. — Sim. Isso foi minha culpa. Não tem nada a ver com a possibilidade de o grupo de vocês serem de pessoas podres que

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andam por aí atrapalhando a vida de qualquer pessoa e arrombando armários de quem é amigável com alguém. Ele não é cego. Houve uma pausa. — O que você quer dizer, arrombando os armários das pessoas? — Ah, qual é. Ontem de manhã. Matti precisava mostrar que eu não poderia simplesmente humilhá-lo e o resto de vocês batiam palmas. — Eu não sabia nada sobre isso! — Danielle protestou. — Então era por isso... eu achei que ele estava muito convencido, mas eu não sabia porque, e se Jordana soubesse, ela teria contado para mim, e Leon e Flo realmente também não pareciam saber do que estava acontecendo. O que quer que ele tenha feito, foi apenas o Matti, não o resto de nós. — Claro, tanto faz. — Eu disse. — Mesmo que isso for verdade, é apenas um exemplo. Tim nem mesmo sabia sobre isso, eu não contei a ele. Ele já estava farto de vocês desde a primeira vez que ele falou comigo. Eu não estou surpresa que ele tenha decidido parar de falar com vocês. Eu estou surpresa de que ele tenha demorado tanto. — O quê? Por quê? Quero dizer, eu sei que as coisas têm estado estranhas desde a morte da sua mãe, mas o que você esperava, não é como... — Você terá que perguntar a ele quando ele estiver disposto a conversar com vocês — eu disse. — Isso não tem nada haver comigo. Então eu imagino que nós acabamos, posso ir? — Espere. — Ela sussurrou. — Eu sinto muito que o Matti estragou qualquer porcaria sua. Eu sinto muito eu ter assumido que isso era sua culpa. Podemos deixar de olhar o passado por um segundo? — O que você quer que eu veja? — Eu liguei, sobretudo porque nós, bem, alguns de nós, queremos que você tente falar com o Tim. Ver como as coisas estão indo. Nada mudou nisso. — Espera aí. — Eu disse, franzindo a testa para a colcha. — Todos vocês me odeiam, mas agora vocês querem que eu seja amiga do Tim? Que diabos está acontecendo? — Não seja idiota. — Danielle disse, mas não havia ódio na sua voz, apenas um cansaço sombrio. — Eu não sei o que realmente está acontecendo, mas é óbvio

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que existe algo entre ele e você. Algo grande o suficiente para de repente ele passar mais tempo com você do que com o resto de nós juntos. Mesmo se ele não quer falar conosco, nós achamos que talvez ele fale com você. Diga qualquer coisa para ele. Só tenha certeza que ele está bem. Isso é tudo que queremos saber. Acredite em mim, eu pensei, relembrando como ele estava frágil quando ele apareceu ontem de manhã, eu gostaria de saber isso também. — Eu não posso prometer nada. — Eu disse. — Eu não achei que iria. O telefone clicou, e o som de número discado buzinou no meu ouvido. Ela havia desligado. Eu deveria ter desligado na cara dela primeiro. Eu bati o telefone e o empurrei para trás na mesa. É engraçado. Tim caiu em pedaços desde a morte da sua mãe e só agora quando ele se distanciou completamente dos seus amigos que eles finalmente notaram. — Quem era? — Paige perguntou em cima de mim e eu quase caí da cama. Eu esqueci completamente que ela estava ali. — O que você está fazendo aí? — eu disse, levantando meu pescoço. Ela flutuou passando por mim e sentando-se à mesa com as pernas cruzadas. — Ouvindo — ela disse. — Eu não queria distrair você. Isso soou muito intenso. Então, quem era? — Danielle. Era a Danielle. — Agora que sua voz não estava no meu ouvido, à conversa parecia irreal. Mas aqui estava Paige me interrogando sobre isso, então obviamente eu não imaginei toda a coisa. Isso poderia ter levado um longo tempo, mas os amigos de Tim estavam muito preocupados, se eles resolveram me ligar, agora. E se algo realmente aconteceu com ele? — Danielle? — Paige disse, me trazendo de volta para o presente. Ela franziu o cenho. — Você soou tão má, eu sei que você não fala mais com ela, mas... vocês não costumavam ser amigas? O que está havendo? Eu olhei para ela. Claro. Nós nunca falamos sobre a Danielle. Ela não sabia. Porque Danielle me expulsou da sua vida bem antes de Paige começar a me achar interessante e esse não era exatamente um tema que eu trouxesse por vontade própria. — Nós não somos mais amigas. — Eu disse. — É por isso que nós não saímos mais. Isso tem muito tempo, não é uma grande coisa recente.

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— Mas o que aconteceu? — ela se inclinou na minha direção, virando à medida que ia caindo se a gravidade se aplicasse a ela. — Vocês tiveram uma briga? Por quê? — Isso não importa. — Eu disse. O dia da frustação, da preocupação com Tim, da briga com mamãe, de tentar me manter a frente de Danielle, tudo começou a inchar dentro de mim. Mas isso não era verdade para a Paige, eu sabia disso. Eu apertei o cerco e tentei enviar para longe. — Olha, eu só não quero falar sobre isso. Mas Paige precisava ir para o modo irmã mais velha. — Você está irritada com as pessoas, Cassie. — Ela disse. — Aposto que quando você falar com ela, disser que está arrependida, vocês vão ser amigas de novo. — Por que você tem certeza que isso é minha culpa? — eu apertei minhas mãos no travesseiro. O que houve com o mundo hoje? — Ela me abandonou, Paige. Ela foi horrível. Você não tem ideia. Eu não quero ser sua amiga de novo, mesmo se ela por algum milagre se ajoelhasse e me implorasse por perdão. — Ela sempre pareceu legal quando vinha aqui. — Ela disse duvidosamente. — Você tem certeza que não é apenas um mal entendido? — Não existe muito espaço para entender mal as coisas quando sua melhor amiga começa a te tratar como lixo. — Eu disse. — Eu não ligo quão legal ela parece. Ela é horrível. Ela fez toda a escola me odiar. — Porque eu não soube disso? Minha voz falhou. — Porque você estava muito ocupada com as suas coisas. Você fazia parecer à coisa mais chata quando mamãe te mandava passar um tempo comigo. Eu queria falar com você sobre a Danielle. Eu queria falar sobre tudo. Eu parei e fechei meus olhos, apertando as costas da minha mão fria contra minhas pálpebras. Eu não iria chorar de novo. — Você sabe que se fosse algo realmente importante eu teria escutado. — Paige disse. — Você deveria ter me contado. Eu teria tentado te ajudar. Eu sei que eu teria. Eu dei os ombros. Isso não importava mais. Se Paige agora fosse alguma coisa parecida com Paige de antes, talvez ela realmente tivesse me escutado. Era um pouco tarde para descobrir. — Você nunca realmente me daria a chance. — Eu disse fracamente.

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— Talvez você nunca tivesse me dado a chance. Você não pode esperar que as pessoas saibam as coisas se você não tentar contar para elas. — Eu sei. — Eu disse. Eu sabia que eu não deveria ter a odiado naquela época. Eu sabia que havia me fechado no final, como ela fez comigo. — Eu deveria ter te falado. E eu sei que você preferiria que fosse a mamãe e não eu a falar com você agora. — Uma onda de emoção tomou conta de mim. Meu estômago parecia estar cheio de pregos, pesado, formigando e duro. Eu levantei, vacilando antes de pegar o equilíbrio. Aqui estava eu, deprimida por quatro anos de julgamentos, enquanto Tim estava desaparecido em algum lugar. — Eu tenho que ir. — Eu disse. — Eu só... eu preciso sair daqui por enquanto. — Cassie. — Paige disse, mas eu me virei e tropecei na porta. Desci as escadas, mergulhando meus pés nos meus tênis, passei na cozinha e saí pela porta dos fundos. A primeira coisa que eu vi foi minha bicicleta. Agarrei e pulei em cima.

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Capítulo 17 Não parei de pedalar até eu alcançar a esquina da Conway com a Nassau, o que pareceu como um milhão de anos depois. Minha cabeça estava latejando. Freando na esquina, eu apertei as bases das minhas mãos na minha testa, esperando enquanto minha respiração diminuía. Não ajudaria Tim se eu aparecesse parecendo como se o mundo estivesse acabando. Uma pontada nervosa subiu ao meu peito, mas eu o ignorei. No meio do seu discursar, Danielle tinha um bom ponto. Tim veio até mim acima de outras pessoas. Mesmo que eu não fosse exatamente o que ele precisava, mesmo se eu não conseguisse compensar pelo desaparecimento da sua mãe, eu precisava pensar que talvez ele fosse querer me ver. Para saber que pelo menos eu queria que ele estivesse bem. Impulsionando de novo, eu pedalei os últimos quarteirões para a casa do Tim em um ritmo mais tranquilo, com menos pânico. Quando eu cheguei lá, eu subi até a calçada e larguei a bicicleta na grama dele. Meu coração afundou. O Oldsmobile não estava. O espaço da rua na frente da casa deles estava vago, e a entrada também. Eu me esgueirei por trás para verificar a garagem. A baixa construção marrom mal parecia grande o suficiente para colocar o carro. Olhando através de uma das janelas sujas, eu vi poeira flutuando num feixe de luz, umas duas latas de tinta, uma caixa enferrujada de ferramentas, um ancinho, e um chão de puro cimento. As chances do carro de Tim sumir sem o Tim nele, eu imaginei, eram cerca de tão mínimas quanto as chances de Danielle se apaixonar perdidamente pelo sr. Minopoplis. Só por segurança, eu subi os degraus da varanda e apertei a campainha. Enquanto eu esperava pela resposta que eu não achava que viria, eu dei uma olhadela por dentro através da janela da porta. Nada se moveu lá dentro. A casa estava vazia. Mas havia algo parado no meio do chão da cozinha.

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Eu apertei os olhos através das sombras. Era uma garrafa de vinho. Sua base estava circulada com líquido escuro. De outra forma, estava tão vazia quanto a casa. Minha respiração ficou presa na minha garganta. A imagem se formou na minha mente, tão clara como se eu a estivesse vendo: Tim sentado ali no chão há apenas umas duas horas, enquanto eu estava sentada na minha cadeira na sala, o nível de vinho despencando gradualmente do gargalo até a base com cada gole. E depois ele saiu para dar um passeio. Do jeito que ele dirigia mesmo quando estava sóbrio, ele teria sorte se não tivesse batido numa árvore, ou esmagado entre outro carro, ou aprisionado no fundo de um lago. Talvez ele estivesse. Meu estômago se revirou como se eu tivesse sido aquela bebendo demais. Eu afundei no chão do degrau mais alto e cobri meus olhos. Ele era um tremendo idiota. O que eu deveria fazer agora? Rodar de bicicleta pela cidade procurando por ele? Ele poderia estar em qualquer lugar. Isso importava? Eu estava preocupada demais para não tentar. Eu subi na minha bicicleta e segui descendo a Nassau. Quando alcancei o fim da rua, eu olhei dos dois lados e decidi descer em direção ao lago. Eu já estivera um monte de vezes naquela área. Criancinhas estavam apostando corrida pelas calçadas em motinhas e triciclos, gritando umas com as outras acima do ruído das rodas. O sol reluzia acima das folhas verdes escuríssimas da primavera tardia. Era um desses dias que deveriam dar a sensação de que nada ruim poderia possivelmente acontecer. Meu pulso estava por todo lugar, um minuto acelerando, quase parando assim que eu virava a esquina, me preparando para ver um carro azul destruído na rua. Apenas outra fila de SUV, nenhum Olds à vista. Meu coração começou a bater de novo. Ninguém poderia dizer que eu não fui meticulosa. Eu costurei cuidadosamente acima e abaixo das ruas, e passava da hora do jantar quando eu senti minha primeira lufada da brisa da praia. Pessoas estavam fazendo churrasco nas churrasqueiras do parque, e no ar sentia-se o gosto de carvão e hambúrgueres recém-tostados. Meu estômago resmungou. O sol estava descendo, quase tocando os telhados das casas de dois andares, e as minhas batatas da perna começavam a doer de tanto pedalar. Apenas mais algumas ruas, e eu atingiria o lago. Eu não fazia ideia de onde eu iria depois disso.

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Eu quase o alcancei quando eu ouvi a buzina. Um beeeeeeeep prolongado guinchou pelas fileiras de casas, e eu me encolhi no meu banco. Em algum lugar lá embaixo perto da praia, pneus freando assim que eles desviavam de curso. Depois outro beep-beep-beeeeeeeeeep. Um homem berrou: — Dá o fora da pista, cara! Afastando-me pela próxima esquina, eu segui reto para o lago. Minha nuca se arrepiou enquanto eu varria as ruas com os olhos. A buzina ficou mais alta. Abruptamente, a pista terminou e eu me encontrei na Avenida Lakeside, a última estrada entre a cidade e o parque. Eu freei, meio em pé em cima dos pedais para ver por cima dos tetos dos carros estacionados. Um cara estava parado no meio da pista de costas para mim, mais acima na Lakeside. Eu não vi o Olds em lugar nenhum, mas o cara era muito alto, muito pálido, e muito magricela para ser alguém exceto Tim. Ele acenava para os carros enquanto eles buzinavam e davam a volta por ele, tropeçou para um lado, se recuperou, e balançou para o outro. — Vai se ferrar, seu maníaco! — alguém berrou de um carro esportivo assim que passava voando por ele. Os cabelos de Tim se bagunçaram. O tráfego se acalmou por um segundo, e eu disparei para o outro lado da rua, onde o retorno estava vazio. Largando a bicicleta, eu subi correndo a calçada. — Tim! — eu gritei. — Tim! — De novo e de novo. Eu não sabia o que mais dizer. Se eu tivesse parado, eu acho que a minha garganta teria explodido e eu teria apenas gritado. A quinta e a sexta vez que eu chamei seu nome, ele se virou. Eu parei na calçada na direção dele, impaciente na beirada. Ele me olhou, e sua boca deslizouse em um sorriso torto. — Bem, aqui está Cass — ele disse. Depois, para o sedã ancião passando sem pressa ao redor dele: — Essa é a Cass. A motorista lhe deu um olhar amedrontado e acelerou para longe. — Porque ninguém quer brincar? — ele disse, jogando os braços para o ar. — Tim — eu disse. Minha respiração raspou entre minhas palavras. — Você poderia... vir aqui? Por um minuto? Miraculosamente, ele veio. No retorno, ele tropeçou e eu peguei seu braço. As palmas da mão dele estavam arranhadas e sujas de terra. Algum tempo mais cedo, não havia ninguém para segurá-lo. Ele me olhou de lado, sua cabeça afundando. — O que você está fazendo? — eu perguntei, minha voz estridente. — Você está doido? Você poderia ter morrido.

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the Tim arrancou seu braço para longe. — O que há com você?

— Do que você está falando? Olha, sai dessa, está bem? Isso só é estúpido. — Você disse que eu poderia ter morrido — ele disse, lentamente. — O que isso iria importar para você? Como se eu tivesse passado as últimas duas horas procurando por ele para que assim pudéssemos discutir o meu direito de falar com ele. — Não seja idiota — eu disparei. — Eu não quero que você morra. Você acha que eu quero mais pessoas mortas na minha vida? Você sabe, eu aposto que alguém te denunciou para polícia. Porque nós não vamos... — Não — ele disse. — Eu não vou a lugar nenhum com você. O cara me persegue pela cidade a semana toda, e agora que eu realmente quero fazer alguma coisa por ele, é como se eu estivesse com a peste negra. Perfeito. Ele fez como se ele fosse andar de volta para a pista, então eu fiquei no caminho dele. — Sinto muito, eu não estou te dando escolha. Por um longo momento, ele apenas me encarou, como se eu tivesse antenas saindo da minha cabeça. Depois ele bufou. — Isso — ele disse, — é muito irritante. Tudo o que eu estou tentando fazer é comungar com os carros. Não sei por que você está aqui. Nunca me pareceu querer ir a algum lugar que eu estivesse antes. Eu queria... eu pensei que nos poderíamos ser amigos, ou alguma coisa, mas você deixou bem claro que você tem coisas melhores a fazer. Além do mais, você me disse que as coisas não podem voltar atrás, ela não vai voltar, então eu vou até ela. Porque infernos você está me impedindo? Tentando fazer minha vida ainda mais miserável? Eu me enrolei toda antes de poder falar. — Você ficará ainda mais miserável se um desses carros passar por cima de você. E eu nunca disse que eu tinha coisas melhores, porque você sequer... As palavras se confundiam na minha cabeça assim que o que ele disse fez sentido. Tudo bem, então eu tinha sido difícil com ele a respeito de um monte de coisas. O que ele esperava? Ele não sabia que eu estava fazendo dez vezes mais por ele do que eu fizera por alguém vivo em anos? Eu não falava com mais ninguém de jeito nenhum. Eu não contatava os parentes mortos de mais ninguém para eles. Eu

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certamente não corria por toda a cidade tentando salvá-los. Se eu não os evito, eu os corto em pedaços. Eu poderia ter a escola inteira rindo dele, o envergonhado além da conta, não poderia? Mas eu não tinha. Então como ele poderia seriamente pensar que eu o odiava? — Você vê? — Tim disse. — Eu te disse. — Ele se virou e saiu pisando forte na calçada, como se ele estivesse andando através de lama. Não era difícil de alcançar. O que Paige disse? Você não pode esperar que as pessoas saibam coisas que você não diz a elas. Seria tudo por causa disso, eu precisava soletrar isso para ele? Bem, valia a pena tentar. As minhas táticas atuais estavam me levando a lugar nenhum. — Está bem — eu disse, me mantendo do lado assim que ele vacilava para um lado e para o outro. — Então eu não era sempre a pessoa mais amigável. Mas e a cerca de todo o resto? — Que resto? — Eu ajudei você a encontrar sua mãe e falar com ela. Três vezes. — Assim eu iria parar de encher você — Tim disse. Ele deu uma guinada do lado de um casal passeando e bateu seu ombro num poste de telefone. Ele nem mesmo se retraiu. — Essa não é a única razão. E eu não contei a ninguém na escola a respeito da coisa doida que você estava fazendo. — Porque você pensou que eu diria a eles o que você faz. E ele me acusava de ser difícil. — E isso aqui? — eu disse. — Eu estou aqui, não estou? Eu passei pela sua casa porque estava preocupada com você. E quando eu vi que seu carro havia sumido, eu fiquei preocupada o suficiente que fui procurar por você. Porque eu faria isso se não quisesse ter nada a ver com você? Ele parou, encostando-se a uma grade de fora do estacionamento da praia. Do lado mais distante, o Oldsmobile se espalhava por três vagas de estacionamento. Eu imaginei que era sorte o carro ter chegado até a vaga no fim das contas. Tim cambaleou e sentou-se na grade, seu rosto molhado com suor. Sua pele parecia translúcida, traços de vermelho e azul aparecendo por onde os vasos

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sanguíneos passavam próximos à superfície. Seu maxilar se apertou. Ele virou de repente, e se escorou pelo outro canto do estacionamento. Eu olhei para longe, fechando bem meus olhos. Sua respiração deu uma sacudida, e vômito se espalhou na calçada. Eu não olhei até ouvi-lo se ajeitar. Ele se afundou para frente, seus braços descansando nos seus joelhos, mas um fraco jorro de cor voltou as suas bochechas. Eu fiquei ali, deslocada, enquanto ele encarava a calçada. Quando ele finalmente levantou os olhos, seu olhar parecia mais focado. — Eu não sei — ele disse, sua voz rouca. — Porque você está aqui? — Eu te disse — eu falei. — Estava preocupada. Danielle me ligou dizendo que todo mundo estava pirando e ninguém conseguia te encontrar. Ela me pediu se eu podia tentar falar com você. Você sabe como eu me sinto a respeito de Danielle, se eu mesma não estivesse preocupada o suficiente, sem chance de que eu teria feito alguma coisa por ela. Mas eu estava preocupada. Eu queria saber que você estava bem. Tim abaixou sua cabeça. Ele esfregou sua nuca. — Não — ele disse. — Não acredito em você. Tem que haver alguma outra razão. Ele levantou e deu uns poucos passos trêmulos dentro do estacionamento, testando seu equilíbrio. — Não importa — ele disse de longe, sem olhar novamente para mim. — Eu vou entrar no meu carro e acertar uma árvore, ou sair de uma ponte, e então eu verei minha mãe de novo, e não todos esses idiotas ao meu redor, e será melhor desse jeito. — Epa! — eu me atropelei por cima da grade, muito rápido. Meu pé deslizou, e eu distendi meu ombro assim que eu me encontrei de frente ao poste. Chiando por causa da dor, eu corri atrás dele. — Como isso é melhor? — eu disse, ficando ao lado dele. — Talvez você a veja, talvez não, eu não sei, então não tem como você saber. E você perde todo o resto. Sério, eu tenho falado com o suficiente deles. Ninguém é mais feliz estando morto. Ele deu de ombros. — O que há a perder? Eu pensei... eu era burro. Se eu não fosse Vice Presidente, se eu não conhecesse as pessoas certas, ninguém sequer iria falar comigo. Todo mundo está fazendo isso por si mesmo; ninguém pensa em mais ninguém. Eu não quero estar nisso. Eu estou cheio disso. Eu tentei passar na frente dele, mas ele passou direto por mim, seguindo direto para o carro. Ele realmente estava indo fazer isso. Meu ar saiu com tudo de

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mim como se alguém tivesse esmagado meu peito com uma marreta. Eu agarrei seu cotovelo. — Olha — eu disse. — Você quer uma prova de que não é todo mundo? Não sou eu. Eu não estou aqui por causa de quem você é ou quem você conhece. Você quer que eu diga que sou toda problemática? Eu sou. Eu era tão cheia de merda quanto o resto deles. Todo mundo estava caidinho por você, e eu queria que você soubesse que eu não era desse jeito. Então eu era uma vaca. Isso não significa que eu... Calor varreu o meu rosto e brotou nos meus olhos. Eu me engasguei com as palavras. Baixando minha cabeça, eu deixei meu cabelo deslizar pelo meu rosto. Essa não era uma boa hora para ser uma inútil. Eu precisava pensar, não chorar. — O quê? — Tim disse, suspeitando. — É isso? Ele havia parado. Eu ia despistar, mas ele havia parado de andar. Bem, quantas vezes ele quase não chorou na minha frente? Para o inferno com isso. Eu me preparei e levantei meu queixo. O mundo parecia aguado, mas a brisa esfriou minhas bochechas. — Você quer que alguém realmente se importe? — eu disse. — Eu me importo. Está bem? Há quatro anos que eu não gosto de ninguém que não estivesse morto. Eu estou fora de prática. Eu agi como uma cretina. Mas eu estou te dizendo agora. Isso tem que contar para alguma coisa. — Eu enxuguei meus olhos. — De qualquer modo, isso não vai contar se você vai e se mata. Tim não estava se movendo na direção do carro, mas, tampouco, ele estava dizendo alguma coisa. — Você estava certo, eu achava que todo mundo era perdedor e fingido, e não havia ninguém que se merecesse gostar. — Eu disse, tentando sorrir. — Mas eu admito, eu estava errada. Pode ser que você esteja também. Sua cabeça despencou. — Eu não sei — ele disse. Ele soava cansado, — eu já me sinto morto. — Isso vai acontecer quando você entornar uma garrafa inteira de vinho. — Tem mais no carro. — Ele deu um passo à frente, mas eu era mais rápida. Eu marchei para o Oldsmobile e me coloquei contra a porta do lado do motorista. — Você não vai entrar — eu disse.

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— E se quiser apenas ir para casa? — ele perguntou, me avaliando. Se questionando, provavelmente, se ele conseguiria me arrastar dessa. — Como se você estivesse sóbrio o suficiente e eu fosse confiar em você para não bater numa árvore por engano. — De repente eu desejei que eu tivesse deixado mamãe me convencer de tirar minha carteira quando ela me deu o, você terá que aprender em algum momento, discurso, uns poucos meses atrás. — Chame um táxi. Vá de ônibus. Ande. Eu não vou a lugar nenhum. Ele balançou as chaves no seu bolso. Quando ele tirou a mão, ela estava vazia. Depois de um momento, ele avançou e tocou meu cabelo, como se ele estivesse se assegurando de que eu realmente estava ali. — Se você tem certeza — ele disse, — você não vai contar a ninguém, certo? Eu não quero... eu não quero que você fale sobre isso com os meus amigos de merda, com meu pai... nunca com meu pai. — Sua voz tremeu. — Você tem que prometer. — Tim... — Prometa! Eu puxei o ar. Não havia como eu saber que ele não iria afogar a si mesmo em outra garrafa de vinho amanhã e dar um passeio em algum lugar onde eu não pudesse encontrá-lo. Minha amizade não era o suficiente para solucionar um problema desse tamanho. Eu sabia que deveria ir até alguém, mas ainda poderia fazer essa promessa. — Tudo bem — eu disse cuidadosamente. — Eu prometo não dizer aos seus amigos ou seu pai. Por um momento nós apenas nos olhamos. Depois ele se virou. Eu me mantive perto do carro enquanto ele arrastava os pés pelo estacionamento e descia a rua. Meus ouvidos atentos para o som de buzina. Dez minutos passaram com apenas o zunir de carros correndo por mim. Eu comecei a relaxar, mas eu não fui embora. A sombra do Oldsmobile passava debaixo dos meus pés, e tocava uma minivan quatro vagas de distância depois. Um caminhão de sorvete passou fazendo barulho da sua última volta da quadra da escola fundamental.

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Era quase verão. Eu havia perdido minha noção de tempo. A última semana parecia como se devesse ter sido um ano. Cautelosamente, me levantei novamente. Meu ombro doía de quando eu quase tropeçara, e havia uma pontada de culpa no meu estômago por mamãe e Paige. De algum modo eu havia esperado que tivesse um buraco ali, também, um espaço em branco deixado por qualquer coisa que eu havia tagarelado para Tim. Ao invés, eu me sentia normal. Se eu ainda não estivesse preocupada com Tim, me sentiria até melhor. Quando o sol atingiu as árvores do outro lado do lago, eu encontrei minha bicicleta e segui para casa.

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Capítulo 18 No momento em que cheguei em casa, já passava das oito, mas parecia que mamãe acabara de começar o jantar. Eu a vi inclinando-se sobre o fogão através da porta de tela. O cheiro de manjericão e tomate flutuava pela varanda. Ela olhou para cima quando eu entrei, e sua colher ressoou no interior da panela. Senti-me preparando para entrar no modo casual: dizer oi, chutar meu sapato e agir como se nada tivesse acontecido. Firmei-me. O ar estava pesado e o silêncio constrangedor, porque alguma coisa havia acontecido. — Cassie — mamãe disse, vindo à porta. Ela tinha uma mancha de molho de tomate no rosto e uma coloração rosada em torno dos olhos. Olhamos uma para a outra por um minuto, sentindo o espaço entre nós. Então eu disse, calmamente: — Eu sinto muito. Mamãe assentiu. — Sinto muito, também. — Eu não quis dizer tudo aquilo. Eu disse muitas coisas, mas sei que algumas não eram justas. Eu estava realmente nervosa. — Bem — ela disse, nós esperamos você para o jantar. Por que não come e depois podemos falar sobre as partes que você quis dizer. Ok? Eu respirei fundo o ar parecia mais leve. Eu poderia fazer isso e então poderia fazer o que precisava fazer por Tim, e talvez tudo ficasse bem. — Parece bom — eu disse. Após o jantar, meu pai cuidou dos pratos enquanto a mamãe e eu nos sentamos na sala. — Por que você não começa — disse a mãe. Ela deu um sorriso um pouco forçado. Eu não podia culpá-la se estava nervosa sobre o que poderia sair da minha boca. Eu estava nervosa. — Eu... — Engoli em seco. Agora que eu não estava zangada, era difícil dizer qualquer coisa na sua cara. Eu estava segurando os sentimentos por dentro há tanto tempo, era como se tivesse crescido dentro de mim, e eu precisava retirá-los pela raiz. — Eu me sinto como se você dificilmente ficasse aqui. E então quando você está aqui, você me julga muito. Como se você não gostasse do jeito que eu sou.

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Mas isso é só... o jeito que eu sou. Talvez se você estivesse mais perto, você veria que estou bem. O rosto de mamãe relaxou. — Você acha que quero que você seja mais parecida com Paige — disse ela. — Sim, parece que é isso. — Cassie. — Ela suspirou. — Paige não era perfeita. Havia coisas que eu julgava nela, também. — Mas ela tinha muitos amigos — disse eu. — Você sempre está me incomodando em fazer amigos. — Bem, Paige perdeu a chance de fazer um monte de coisas. Acho que tenho medo que você possa perder, também, porque você não dá a si mesma uma oportunidade. — Quando ela coloca dessa maneira, eu poderia ver seu ponto. — Você não precisa ser tão social como Paige, ela continuou. — Mas você parece gastar muito tempo aqui, sozinha. — Você me incomoda sobre outras coisas — eu apontei. — Como quando eu saí no final de semana. — Eu não posso deixar de ficar um pouco super protetora. Eu sou sua mãe. — Ela se aproximou e colocou a mão sobre a minha. — Eu não quero que você ache que eu estou decepcionada com você. Eu não estou. Eu só quero que você seja tão feliz quanto você pode ser. Eu queria dizer a ela que estava feliz, mas naquele momento, não estava realmente certa. Qual era a felicidade, afinal? Aquela sensação boa quando consegui toda a sujeira de Paul? Que havia desaparecido tão rápido. Como eu poderia saber se estava feliz se não me lembro qual é a sensação? Na pausa, minha mãe disse: — Eu conversei com meu editor na Viagem de última hora a alguns dias atrás sobre pegar menos trabalhos à distância. Estarei em casa nas próximas semanas. E se eu prometer que não vou criticá-la sobre qualquer coisa na primeira semana? Nós vamos levar algum tempo para conseguir conhecer uma a outra novamente. — Ok — eu disse. — Eu vou lembrá-la se você se enganar de qualquer forma. — É claro — disse ela. — Você sabe, eu estarei viajando às vezes. Talvez durante o verão, você poderia vir comigo e ver como é. — Talvez. — Eu estava irritada com a mamãe por ficar longe, mas agora a ideia de ela estar ao redor me deixou nervosa. Acostumei a ser só eu e meu pai. Mas imaginei que ela trabalharia fora se realmente começar a agir como uma mãe e

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não como acusadora. Parecia que ela estava tentando de qualquer maneira. Isso era algo. Talvez. . . eu pudesse tentar ser menos dura com ela, também. Depois, subi escadas para meu quarto. Eu hesitei por um momento, então me sentei na cama e coloquei o telefone no meu colo. Minha mão tremia quando peguei o fone. Eu passei por isso na minha cabeça um milhão de vezes na última hora. Eu não conseguiria seguir ao redor de Tim o resto de sua vida, pulando na frente dele quando tentasse algo estúpido. Eu não podia envolver seu pai (eu prometi bastante). Mas Tim deu a impressão de que gostava de sua tia, e sua mãe o encorajou a ir até ela. O problema era que eu sabia apenas o primeiro nome dela, e Tim não era susceptível a entregar de mão beijada todas as informações para mim. Mas. . . ele disse que ela havia ficado com ele enquanto sua mãe estava doente. Seus amigos provavelmente a conheceram. Havia uma chance de que ela teria dado a eles alguma forma de entrar em contato com ela. Ou que pelo menos eles saberem mais sobre ela, então eu poderia descobrir por mim mesma. Estabilizando-me, disco o número que eu nunca consegui esquecer. Alguém atendeu ao segundo toque. —... Oi, Cassie. Minha respiração trava. Identificador de chamadas, eu me lembrei. Mas entre o meu nervosismo, a nitidez da voz de Danielle, uma resposta ágil bateu para fora antes que eu pudesse mordê-la de volta. — Eu me chamo Cass agora. Talvez você não tenha percebido. — É por isso que você está ligando? Para me dizer como dizer seu nome? — Não, eu... me forcei a respirar. — Eu preciso falar com a tia do Tim, Nancy? Ela ficou com ele antes, eu pensei que talvez... se algum de vocês tem o telefone dela, ou sabe onde ela mora... — Por quê? — Danielle me cortou. — O que aconteceu? Ele está bem? — Sim — eu disse, esperando que fosse verdade agora. — Eu só... é complicado, eu não posso explicar... — Por que não? Você não pode simplesmente pedir coisas como essa e... Minhas unhas apertaram minha palma. — Danielle — eu disse, — eu quero falar com a tia do Tim, Nancy. Isso é tudo. Pode me ajudar ou não? Por um longo momento, o ar ficou pendurado entre nós. Eu recuava muitas vezes antes, eu pensei. Joguei as regras que você fez. Desta vez, você pode fazer algo para mim. Ela quebrou o silêncio primeiro.

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— Tudo bem — disse ela. — Eu acho que... acho que ela deu seu número de celular para Leon, caso ocorresse algo. Espere que vou ligar para ele depois te ligo de volta. — Claro — eu disse, com mais calor do que eu esperava reunir. — Obrigada. Levou apenas um minuto para que o telefone tocasse novamente. — Pronto? ela perguntou, e recitou o número. Fiquei olhando para o meu rabisco na parte de trás do caderno que eu peguei, o meu coração batendo. Ela fez uma pausa. — Você sabe, Cassie... Cass... lamento muito o que aconteceu no colegial, eu não quis que as coisas acabassem daquele jeito. Eu estava louca, e fiz algumas coisas podres, e depois todos os outros... se juntaram, e as coisas enlouqueceram. Depois de um tempo, eu nem estava mais com raiva, mas não era como se fosse para mim o que fizeram, sabe? — Tudo bem — eu disse. Não havia mais nada que eu pudesse dizer sobre isso. Nós ficamos ali por um minuto, não inimigas, apenas duas pessoas, e eu pensei, agora está feito. Quase. Eu tinha mais uma ligação a fazer. Na manhã seguinte, acordei cedo, apenas o brilho fraco da luz do sol espreitava pela minha janela. Meu coração estava batendo, de repente incerto. Tentei segurar a memória da minha conversa com a tia de Tim, a garantia que senti na sua voz, mas as perguntas inundaram de qualquer maneira. E se Tim ainda não tivesse ido para casa na noite passada? E se ele voltasse para o carro antes de estar completamente sóbrio? Eu deveria ter ficado, eu deveria ter ido com ele, eu deveria ter... Rolei e pressionei meu rosto no travesseiro. Eu era apenas uma pessoa, e chamar sua tia foi à melhor coisa que poderia ter feito. Ela disse que viria hoje para vê-lo. Isso deveria ser o suficiente. Se eu pudesse ter certeza de que ele veria as coisas dessa maneira, também. Ele havia sido tão intenso, tão insistente que ninguém soubesse. E se eu tivesse feito as coisas piorarem tudo de novo? Mordi meu lábio e me arrastei para fora da cama. As preocupações me seguiriam para a escola, com um nó na garganta e um nó no estômago. Eu poderia muito bem ter dormido durante minhas aulas, tudo o que os professores disseram parecia flutuar por mim. Pela última vez o sino tocou, era tudo que poderia fazer para me lembrar qual era o meu armário. Torci a combinação errada três vezes antes de finalmente consegui abri-la. Norris passeou enquanto eu olhava dentro do armário. — Ei, Cass — disse ele, alisando a palma da mão sobre o cabelo, — eu tenho um bem selvagem. O principal, certo, ele...

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Engoli em seco. — Norris, eu não acho que quero ouvir a sujeira das pessoas hoje. — Fiz uma pausa, e a certeza me atingiu com um sentimento arrebatador de alívio. — Na verdade, acho que nunca mais quero ouvir algo sobre alguém. Norris ficou boquiaberto comigo. — O quê? Mas... você tem a sua missão. Chamá-las de lixo, fazendo-os enfrentá-la. Você só está desistindo disso? — Eu tenho o suficiente de outras coisas para pensar — eu disse. — De qualquer forma, como muitos deles deixaram de ser idiotas por minha causa? — Ok, não muitos. Mas, cara... Lá se vai a razão da minha existência pós-vida. — Você pode continuar a vigiá-los o quanto quiser. Eu só não quero ouvir sobre isso. E nós ainda vamos conversar. Consegui um sorriso fino. — Eu tenho história contemporânea no próximo ano. Você pode me ajudar com meu dever de casa. — Certo. Direto da fonte! Quando eu não respondi, ele escorregou para perto do armário, para que pudesse me olhar cara a cara, e inclinou a cabeça. — Você está bem, Cass? — Estou bem — eu disse. Só que eu estava tão perto de bem como a Antártida estava perto de Nova York, e eu sabia disso. Por que estava mentindo? Para impressionar um cara morto com a minha mortalidade legal? Desde quando era uma poseur20? Eu não tinha certeza se queria a resposta para isso. — Você tem certeza? — Norris estava dizendo. — Porque sem ofensa, mas você não está tão afiada. Eu balancei minha cabeça. — Não, você está certo. É justo, esse cara que eu... somos, tipo amigos, ele realmente falava sério sobre... se matar, ontem. Então, estou estressada. Muito. — Uau — disse Norris. — Você acha que ele realmente fez isso? — Ele já estava tentando. Eu não sei se ele vai tentar mais uma vez. Eu disse a alguém, mesmo que ele não quisesse... acho que ela vai fazer com que ele receba ajuda, mas ele provavelmente me odeia agora. Norris deu de ombros. — Melhor irritado e vivo do que simplesmente morto, certo? Encostei-me nos armários vizinhos e esfreguei os olhos. — É claro. eu só... — eu só me importava. Não havia nada de errado com isso, havia? E como uma pessoa 20

Poseur: pessoa que tenta impressionar as outras.

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que se importava, certamente não havia nada de errado passar pela sua casa, só para ver se, bem, não havia algo para ver? Verificar se sua tia tinha vindo, certificar se havia sobrevivido desde a ultima vez que o vi, que ele estava em boas mãos agora. — O quê? — Norris disse, e eu percebi que estava sorrindo de verdade agora. — Nada — eu disse. — Apenas... eu tenho que ir. Vejo você amanhã! Meu coração disparou ao descer as escadas, ameaçando explodir no meu peito. Eu meio andei, meio corri para casa, onde peguei minha bicicleta e parti para a casa de Tim. Quando eu dobrava a esquina em Nassau, minha respiração parou. O Oldsmobile estava estacionado em frente. Isso significava que havia chances de Tim ainda estar lá, também. Travei na frente da casa. Ele já poderia ter ido embora. Sua tia poderia ter vindo, pegado ele... Então vi a parte de trás da cabeça e o brilho do cabelo loiro na luz através da janela da sala. Meu pulso acelerou. Alguém estava sentado no sofá. Eu hesitei, e no mesmo momento, a cabeça se voltou para olhar para fora. Nossos olhos se encontraram. O rosto de Tim estava tenso. Ele se levantou e saiu de vista. Hesitei na calçada por mais um minuto. Tim não voltou. Eu sabia que ele estava em casa, pelo menos, e não em um hospital. Eu poderia ir embora. Em vez disso joguei a minha bicicleta no gramado e atravessei a rua até sua casa. Momentos depois toquei a campainha, a porta de madeira se abriu. Ainda meio por trás da porta, Tim olhava para mim. Não era bem um brilho, mas não havia nada amigável no olhar dele. Sua pele parecia pálida, os dedos finos de aranha. — Oi. — Foi o melhor que eu consegui. Tim não disse nada. Moveu-se para frente, e eu fui para trás quando ele saiu para a varanda. — A sua tia veio? — Ela está a caminho — ele disse. — Ela está vindo me buscar para ficar em sua casa por alguns dias. — Oh. Bom. Isso foi bom, certo? — Ela parecia pensar que não era seguro para mim, eu mesmo dirigir. Ele fez uma pausa. — Você ligou para ela. Eu não podia ver qualquer ponto em negá-lo. — Eu estava preocupada, eu disse. — Eu não sabia mais o que fazer. — Você poderia ter me deixado sozinho, eu pedi para você... você prometeu... — Com o seu pai e seus amigos. Eu não disse nada sobre ela.

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— Você sabia que queria dizer a todos. — Ele fechou a boca com força, os olhos desafiadores. Eu não conseguia respirar, mas me recusei a abaixar meu olhar. — Era mais importante você ficar vivo. — Engraçado, realmente não estou convencido. — Olha — eu disse. — Eu sei que você está chateado com os seus amigos, e você sente como se todo mundo fosse uma merda, e eu sei como é isso, mas não é todo mundo. Você tem sua tia. Você tem... bem, você tem a mim, se isso importar. Existem milhares de pessoas lá fora que não são Paul ou Matti... você pode fazer novos amigos, melhores amigos. Vai ficar mais fácil. — Você ainda acredita nisso? — ele perguntou. — Você acha que o mundo inteiro está cheio de porcaria. Você me disse. — Sim, e eu também lhe disse que estava errada. — Então, eu faço o que você quer. — E porque é verdade. Ele ergueu as sobrancelhas. — Então você está saindo e começando a fazer amigos também, está? Realmente fala com as pessoas na escola, mais do que apenas as coisas estúpidas que eles fizeram? — Eu... eu acho. — Eu não pensei tão longe, mesmo a ideia de tentar tagarelar com algum dos meus colegas enviou um arrepio de pânico através de mim. Eu pressionei. — Eu não estou mais ouvindo a sujeira das pessoas. — Então o que você está dizendo é que você está realmente conversando com as pessoas inferiores agora. — O que importa? — Eu disse. — Isto não é sobre mim. Isto é sobre você. Não sou eu que anda no trânsito. — Claro que isso é sobre você — disse curto e grosso. — Você está me dizendo que vale à pena viver, que as pessoas não são tão más... que eu estar vivo é mais importante que as pessoas pensando que sou louco. Como você pode dizer que tenho que tentar quando você não tenta? — Eu estou tentando — eu disse. — Eu estou aqui. Você quer que eu fale com cada pessoa que eu ver na escola amanhã? Bem. Eu vou, se isso significa que você vai parar de falar assim e tentar, também.

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— Será que você vai realmente? — ele disse. — Ou será que é uma franguinha21? Minhas mãos se apertam. — Olha — eu disse, não sabendo exatamente o que ia sair, até que ouvi as palavras. — Gostaria de ir ao baile, se isso significar que eu saiba que você irá ficar bem. Certo? — Ele me olhou com curiosidade, e seus lábios curvaram. — Agora, eu realmente não acredito em você. — Você quer apostar? Vá. Eu estarei lá. Nós seguramos o olhar alguns segundos a mais. Ele desviou o olhar primeiro. Eu não poderia dizer se o que disse fez qualquer diferença. Agarrei na única coisa que me restava. — Você sabe — eu disse hesitante, — sua mãe... — Sua cabeça ergueu, e a incerteza apertou minha garganta. — Eu disse que não entendo como essas coisas funcionam. Mas, quando ela desapareceu, ela realmente estava sorrindo. Foi quando eu estava tentando... te dizer que as coisas iriam melhorar. Eu não acho que ela poderia ir se não acreditasse que você poderia passar por isso, que havia pessoas que iriam ajudá-lo. — Você está dizendo que a mamãe desapareceu porque ela pensou que iria me ajudar? — Não. Eu não sei. Havia provavelmente todos os tipos de fatores. E ela provavelmente não tinha controle sobre nenhum deles. Mas eu acho que foi pelo menos um pedacinho. Sua mão apertou no parapeito da varanda, deixando seus dedos brancos. — Mas por que ela... — Esse não é o ponto — eu o cortei. — Não é sobre porque ela desapareceu. Não há nenhuma maneira que nós possamos saber. Com os mortos... — As palavras de Paige, de quando eu perguntei-lhe quase a mesma coisa, ecoaram na minha mente. — Com os mortos, as coisas são do jeito que são. Eu sei que você sente falta dela, e talvez isso não melhore nada, mas ela estava bem feliz, e... — Eu não posso mais falar sobre isso — ele disse abruptamente, virando-se. — O quê? — Eu não quero falar. Não é sobre ela, ou sobre você, ou qualquer outra coisa. Você não sabe nada sobre ela. Ok? Basta... simplesmente vai embora. 21

No original “chicken out”, que é uma gíria para quem perde a fé em si mesmo ou a coragem de fazer algo.

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Ele entrou na casa. A porta de tela se fechou atrás dele, e caminhou pelo corredor sem olhar para trás. Ouvi a voz de seu pai, fracamente, e apoiado pelos degraus. Ele ficaria bem, disse a mim mesma. Sua tia estava chegando, ele havia aceitado isso. Ela gostaria de encontrar uma maneira de ajudá-lo. Eu fiz isso por ele. E ele me odiava. Eu respirei fundo e corri para a minha bicicleta. Empurrando, pedalei tão rápido quanto meus pés podiam me levar, até que o vento fez água nos meus olhos.

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Capítulo 19 Tim não se apresentou na escola pelo resto da semana, mas eu sabia que ele estava na casa de sua tia e a preocupação desapareceu. Sexta-feira á tarde, todos os Frazer se amontoaram no auditório para a tradicional reunião de final de ano escolar. Vi o conselho estudantil executar sua peça de teatro, sem Tim, e me perguntei se eu voltaria a vê-lo outra vez. Ele ia voltar para as provas finais? O diretor lhe faria uma exceção? Ele estava graduado, teoricamente. Talvez essa última visão que eu tinha conseguido de suas costas enquanto ele se retirava, fosse a última que eu teria. Esse pensamento parecia como um bloco de gelo em meu estomago. Contanto ele esteja bem, eu disse a mim mesma. Isso é a única coisa que importa. Mas não era a única coisa que me importava. Não foi ate mais tarde nesta noite, quando eu estava tentando estudar para a prova final de química e segunda-feira – que neste momento implicava, principalmente, em como Tim estava com sua tia, e em quanto tempo poderia continuar me odiando pela minha promessa – então eu pensei na outra promessa que havia lhe feito. Eu estava procurando em minha escrivaninha um apontador, com Paige me ajudando de cima, e abri a gaveta onde tinha jogado o bilhete de entrada do baile. Minha mão caiu ao meu lado. Fiquei olhando o bilhete de entrada, me lembrando do desafio que havia jogado fora. Venha, vou estar lá. Paige ficou em choque, um segundo depois ela disse: — Cassie! — gritou. — Você vai ao baile de formatura? Porque não tinha me dito? Isso é espantoso! Quando é? — Na próxima sexta-feira. — eu lhe disse. Minha boca estava seca. Tinha um milhão de razões para não ir. Para começar:

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1 – Eu tinha gritado os podres de, provavelmente, metade das pessoas que iam estar lá. Pelo menos; 2 – A metade das pessoas que iam estar lá me odiava, e; 3 – Eu estaria presa em uma mesa com pelo menos alguns deles. Falando sobre o desconfortável que seria... Não mencionando; 4 – Se eu for obrigada a dançar, tropeçarei em meus próprios pés em dois passos e quebrarei o pescoço. O qual sugere; 5 – Que eu ficaria melhor estando em casa cortando minhas unhas dos pés. Mas havia um fato que superava isso. Eu prometo a Tim que estaria lá. Eu lhe disse que fosse para poder prová-lo. E realmente, realmente esperava que o fizesse. Encontrei-me com o dedo ao redor da ponta do bilhete, meu estomago se contorceu. Mas o ponto não era se ele saberia ou não a verdade? Talvez ele tenha razão. Talvez não devesse ter estado lhe dizendo que desse outra chance para a vida quando eu não tinha tido ainda a oportunidade de cumprimentar ninguém da escola. Eu realmente queria ser a mesma, quem havia fugido de Tim nesse dia quando ele tinha pedido minha ajuda, que havia assumido ser o pior de todos? Eu tenho que ir porque prometi a Tim. Porque eu queria ser suficientemente corajosa para lhe dar uma oportunidade? — Serie muito estranho se eu fosse sozinha? — disse. — Quero dizer. Não preciso de uma companhia ou algo do estilo...? — Não seja boba. — disse Paige. — Um monte de minhas amigas foram sozinhas. Todo mundo faz isso. Dei um sorriso torto. — Eu nem mesmo tenho amigos com quem ir. — talvez só a metade das pessoas de lá me odeie, mas o resto nem sequer me conhece. — E daí? Você vai para comer, para dançar e para se divertir, sozinha. Talvez faça amigos enquanto estiver lá. Ou o que for. Desde quando você se importa, certo? — ela me deu uma cotovelada fantasmagórica. O humor em seus olhos desapareceu ao ver que eu não sorria. — Quero dizer, você não tem que ir. — Não. — eu disse. — Eu tenho. Eu irei. Eu só... — os sentimentos eram muito bagunçados para ser colocados em palavras.

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Ela se deixou cair na cama, ao meu lado. — E se eu for com você? Então você não estaria sozinha. — eu a olhei, tentando verificar se ela estava brincando novamente. Parecia séria. Não é a primeira vez que eu me perguntei se ela se lembrava de tudo o que havíamos dito uma para a outra na quarta feira, sobre as oportunidades. Ela não podia, tinha sido muito tempo. Mas eu desejava que o fizesse. — Você quer? — POOR FAVOOR. — disse Paige, rolando os olhos. — Quando eu não quis ir a um baile? Agora vamos dizer para mamãe. Eu comecei a rir. Neste momento tudo parecia fácil.

*** Quando mamãe terminou de recolher seu queixo do chão, já estava balbuciando sobre as boutiques de lindos vestidos nas quais podia me levar. — Nada muito elegante. — lhe adverti. — Tente me transformar em um varal de lantejoulas e eu vou correr, gritando. Em seu papel de consultora de cosméticos, Paige passou cada momento livre do fim de semana dando palestras sobre pó de arroz e discutindo sobre minha escolha de sombras, quando me seguiu até a farmácia. — É este, este, vermelho rubi. — disse, apontando para o mostrador de lápis labial. — Seria incrível vê-lo em você. Seria me fazer parecer com uma prostituta, eu pensei, mas não podia dizer com a vendedora tão perto, no final do corredor. Neguei com a cabeça e o levantei. Paige suspirou. — Oh, vamos. Esta será a única vez no ano que você usará lápis labial. Quero que as pessoas sejam capazes de dizer que você esta usando. Depois de uma extensa negociação com mímicas, chegamos em comum acordo sobre um brilho labial marrom claro. No dia do baile, mamãe me empurrou para dentro da cabeleireira e disse a ela. — Faça o que puder com ela. — jogaram uma mistura na parte de cima de minha cabeça, gel e rolinhos ao redor. Parecia que tinha uma escultura de barro

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sentada em minha cabeça, mas mamãe estava feliz. Presumi que, era melhor do que o barro branco, pegajoso que tinha tido pendurado em meu rosto antes. Paige também gostou. — Você esta linda. — declarou depois que tinha terminado de se maquiar, quinze minutos antes da saída. Acho que estava exagerando um pouco. — Você sabe, seu cabelo esta realmente bom preso para cima. Toquei minha nuca cautelosamente. Parecia tão... nua. Bem, não era como se Tim viesse balançando um machado para mim. Eu, provavelmente, estava segura. Paige se estatelou junto a mim, brilhando debilmente. Minha pele estremeceu quando ela me tocou nos ombros. — Cassie. — disse. — Sinto que devo te dizer... Alegro-me que seja você a única pessoa com quem eu posso falar. Prefiro que seja você que a mamãe. Virei-me para ela, de repente minha garganta estava apertada. — Paige, você não tem que... — Não, é sério. Eu não tenho certeza do porque, mas tenho pensado muito nisso. — ela estava cada vez mais brilhante, sua voz decidida. — Se tivesse sido a mamãe, ela não teria sabido o que fazer. Ela teria se alterado por isso. Acho que teria feito mal a ela, me ver assim, e eu teria querido lidar com isso. Mas, você entende. Eu posso falar com você e parece... normal. Ela jogou seus braços ao redor e através de mim, tão rápido que perdi o fôlego. Meus ossos estremeceram de uma maneira quase reconfortante. — Você é a melhor irmã, Cassie. — Não. — eu disse sorrindo. — Você é. Estávamos sentadas ali apenas por um momento quando deram uma batida na porta. De má vontade eu me levantei para responder. — Quem é você e o que fez com a minha filha? — disse papai, fingindo surpresa quando colocou a cabeça pela porta. Eu lhe fiz uma careta. Ele apertou meu ombro. — Na verdade, você esta maravilhosa Cassie.

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— E ela não queria! — mamãe deslizou para dentro, sorrindo, ainda mais brilhante do que Paige tinha estado. Ela me piscou um olho. — Minha menina já cresceu. — Sim, sim. — queixei-me. Se eu ia fazer isto, de verdade, já era hora de me colocar a caminho. Meu pulso estava em uma corrida, meu instinto dizia para que eu corresse e me escondesse embaixo da cama até que tudo tivesse terminado. Levantei as sobrancelhas para papai. — Você esta pronto? Ele concordou com a cabeça: — Eu ia te perguntar o mesmo. Minha mãe me abraçou fortemente. Engraçado, eu nunca tinha percebido o quanto ela cheirava a Paige caramelo e especiarias, exceto que o seu cheiro era de noz moscada e o de Paige era canela. Relaxei um segundo contra ela e depois me afastei. — Muito bem, vamos. — Ao seu comando alteza. — papai fez um gesto para que eu descesse as escadas em primeiro lugar. Passei os dedos pelo vestido, segurei a barra e desci. Com a bainha do vestido descansando alto o suficiente para não me preocupar em tropeçar. Tínhamos encontrado-o em uma pequena loja de vintage: simples, de poliéster cor ameixa. Não era o vestido que mamãe estava esperando, mas era com o que eu podia viver. Paige rodava ao meu redor, deslizei meus pés em minhas sandálias novas. Ser invisível tem suas vantagens. Ela tem que ir em sua camiseta comum, sem mangas e calças capris, embora eu aposte que teria trocado de roupa comigo em um segundo, se ela pudesse. Seguimos papai até o carro. Ele abriu a porta do passageiro com um floreio. — Não seja ridículo. — eu disse enquanto me deixava cair no assento. — Eu me sinto estúpida o suficiente tal como estou. — Ah sim? — ele disse. — Pensei que era o meu dever como pai te fazer sentir tão desconfortável quanto seja possível. — Bem, esta noite seria um bom momento para pular esta parte do seu dever. — Devidamente anotado.

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No hotel onde o baile estava acontecendo, ele levou um tempo para encontrar um lugar para estacionar. Um grupo de garotos tinha alugado limusines e levava anos para sair deles. Paige se inclinou sobre mim, olhando pela janela, brilhando de emoção. As garotas agrupadas em tafetá e cetim enquanto os garotos estavam em seus smokings de pinguins idênticos e os pais tiravam fotos. Vocês teriam pensado que era o Oscar e não um baile da escola. Eu não conseguia parar de explorar as cabeças com esses penteados familiares. Entre a distância e a roupa de luxo, não podia ver ninguém que me conhecia. Finalmente papai estacionou na calçada. — Que você tenha um bom momento. — ele disse. — Vou estar aqui a meia noite, mas se quiser que eu venha antes, basta me telefonar. Mesmo que seja dez minutos a partir de agora. — Eu já sei. — eu disse. — Obrigada. — dei-lhe um beijo rápido e me dirigi para a porta principal. Meu bilhete de entrada, dentro da pequena bolsa branca que mamãe tinha me emprestado, eu o procurei com minhas ruidosas sandálias pela escada, fazendo barulho suficiente de três pares de pés, algumas das garotas viraram para me ver, mas a única coisa que fizeram foi sorrir. Ninguém esperava ver Cass McKenna e ninguém nunca havia me visto assim. Eles não sabiam quem eu era, o que provavelmente era melhor. Eu também não reconhecia a maioria dos rostos ao meu redor. O brilho dourado das luzes do hotel os transformou todos em estranhos. No terceiro piso, um tipo na mesa de comidas pegou o bilhete de entrada e olhou o que estava impresso. Paige resmungou. — Esse é o irmão de Kailey Mickelson, Bernard. — ela disse. — Wow, ele é muito mais alto do que me lembrava. E muito mais bonito também. — Você esta na mesa dezoito. — disse Bernard. — É a direita, eu acho. — lancei um olhar para Paige e ela flutuou ao meu lado, sorrindo loucamente por cima dos ombros dele. Dentro da sala de recepção, dúzias de mesas estavam com toalhas brancas, talheres e velas acesas. Sentei-me cuidadosamente jogando a bolsa no encosto da cadeira. Não tinha muita na sala ainda. Danielle e Jordana estavam de pé próximas a uma área elevada com um pódio de madeira de carvalho na entrada da sala, com as mãos gesticulando tão rápido como a boca. Engraçado pensar que se algumas coisas tivessem sido de outra forma, naquela época, eu poderia estar lá com elas. Ainda mais engraçado era que agora ao pensar nisso, não me fez sentir raiva.

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— Eu me pergunto que tipo de prêmio eles darão este ano. — disse Paige, com os olhos muito abertos. Arqueei uma sobrancelha para ela. — O conselho estudantil sempre tem nas mãos, um monte de prêmios ridículos, como o casal mais bonito e o comediante mais louco. Você pode adivinhar qual eu e Larry ganhamos. Meu olhar desviou-se novamente para o pódio e meu coração tombou. Se Tim voltou, este poderia ser o único lugar onde eu o veria. — Vou fazer um tour por ai. — disse Paige. Ela riu e deu giros pelo ar. — Isto é tão divertido! Quer vir comigo? Neguei com a cabeça. Se voltasse a ficar em pé, não seria capaz de parar sem cambalear. Quando Paige disparou para fora, brilhante como uma estrela cadente, me sentei ali, olhando ao meu redor e tentando não hiperventilar. Comecei a ver os garotos da minha classe, espalhados em torno das mesas: o garoto da minha classe de inglês que parecia um aluno do oitavo ano, a garota ruiva que mascava chiclete muito alto na aula de matemática, o cara com o queixo furado que estava sempre a aula de geografia cedo porque conhecia quase todos os países. Nem idiotas e nem exibidos, apenas pessoas. E até agora, nenhum sinal de Tim. Mas isso não significava nada. Talvez ele fosse, elegantemente, chegar tarde. Um par de garotas passou diante de mim com uma nuvem de perfume cítrico e se jogaram nas cadeiras do outro lado da mesa. Uma se curvou rindo, enquanto a outra ajudava a tirar uma mecha de cabelo da gola do seu vestido halter. As reconheci vagamente. Ambas, alunas do segundo ano e a garota da direita estava na equipe de hockey de campo. Ela me olhou e sua amiga se endireitou. — Você ficou presa em nossa mesa? — disse. — Isso é bom. Eu sou Meredith. — Cass. — Legal. — ela disse. A outra garota sorriu o suficiente para mostrar seu aparelho multicolorido. — Eu sou Ilsa. Você esta aqui sozinha? — Hm, sim. — eu disse. — Foi uma coisa de último minuto.

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— Estou tão emocionada. — disse Meredith, se retorcendo na cadeira. — Nunca estive em uma festa tão formal. Eu me pergunto, quando iremos dançar? — Não sei. — Provavelmente comeremos primeiro, certo? — disse Ilsa. Olhei o cardápio curiosamente, que consistia em dois pratos principais, duas saladas e duas sobremesas. Bastante curta em matéria de leitura. Não tenho certeza de como eu me lembrei de que é uma pequena piada. Os namorados me salvaram. Jogando-se sobre as garotas, lançando suas jaquetas encima das cadeiras e se apoiando nelas. Garotos mais velhos, eu poderia ter encontrado seus nomes se tivesse cavado um pouco em minha memória. As garotas se colocaram a trabalhar batendo seus cílios e se esquecendo de mim. Outro casal se junto na mesa justo quando o garçom chegou. Ele gabaritou os pedidos de cada um e saiu, e os recém-chegados se sentaram. A garota começou conversando com Meredith e Ilsa, mas o garoto colocando seu cabelo liso atrás das orelhas e me olhou. Olhei para baixo, para a mesa, brincando com o garfo. Keith, eu pensei. Ele estava no comitê dos atletas com Matti e Paul. Oh, Deus! E agora começa o linchamento. — Você não é...? — ele começou. — Hey, Keith. — um dos outros garotos lhe interrompeu. — Seus pais permitiram você trazer o carro ou o que? Seu olhar deslizou para longe de mim. — Sim, finalmente eu os convenci. Eles pensavam que eu tinha três anos, pela forma com que me viam. Como se eu já não estivesse dirigindo nesse ano e meio. Larguei meu garfo e olhei para a porta. A qualquer momento ele acabaria essa pergunta que havia me feito. Paige deslizou ao meu lado, com alegria saindo de seus poros. — Oh, Deus meu, eu não posso acreditar como ainda conheço muitos professores. Suponho que não mudaram tanto. Cass, o que foi? Você esta bem? Neguei levemente com a cabeça. Keith me olhava outra vez. — Posso fazer alguma coisa? — Paige perguntou. — O que está errado? Talvez se formos ao banheiro, você poderia me dizer o que esta acontecendo?

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Ela se inclinou sobre o meu ombro, inspecionando os rostos ao redor da mesa como um investigador de policia. Sua mão deslizou para baixo e formigou em meu ombro. Ela não tinha ido a uma festa como esta em anos, mas bastou um olhar nervoso em meu rosto, e ela estava ali para mim, minha irmã mais velha. Olhei para ela e o pânico em meu peito aflorou. Fiquei na beirada da cadeira, não de todo pronta para fugir, não muito convencida de que não tenha que fazê-lo. Keith disparou um par de olhares para mim e logo a conversa o absorveu. Em poucos minutos o garçom tremeu novamente com as nossas saladas e eu me ocupava em comer. Paige pairava sobre mim, sua vigilância diminuiu a medida que me viu relaxar. Ela brincava sobre os garotos que ela havia reconhecido e os vestidos que ela tinha gostado, eu lhe dava uma pequena inclinação de cabeça quando considerava necessário. Depois de um tempo, eu mesma trabalhei a coragem para perguntar a Meredith o que a equipe de hockey de campo estava fazendo. Ela parecia tão feliz, já que ninguém mostrava interesse, que se derramou em detalhes, eu me sentia mal porque não tinha perguntado antes. Estava revirando o último pedaço de sorvete no fundo do meu prato de sobremesa quando uma garota saltou na plataforma e subiu ao pódio. Olhei para ela contra as luzes. Para começar, devia subir o presidente do conselho estudantil. Meu pulso estava pulando. Ela sacudiu seu cabelo por cima do ombro e sorriu diante do microfone. — Olá, Frazer! — Hey. — gritou um grupo de garotos. — Como vocês sabem. — ela disse, arrastando as palavras. — Esta noite é a noite em que honramos os maiores e mais loucos. Temo todos os nossos fantásticos prêmios... — ela arrastou o braço para uma mesa dobrável cheia de certificados e pacotes de presentes. — Agora vamos chamar nosso conselho louco e legal aqui encima! Léon e Jordana oscilaram entre as tabuas da plataforma, onde o tesoureiro e um par dos representantes da classe alta se uniram a eles. Esperei quase em respirar. Ninguém mais ficou de pé. Para começar, ela aclarou a garganta e os membros do conselho tomaram seus lugares para anunciar os prêmios. Afundei-me em meu assento. Então, ele não havia chegado. Bem, ele provavelmente ainda estava irritado com todos. Deve ter assumido que tinha sido uma brincadeira, ou estava muito irritado comigo para averiguar. Dei um chute na perna da mesa. Não valia a pena ficar agora. Ei tinha vindo, eu provei, eu tinha

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demonstrado que podia fazê-lo. Ele provavelmente nunca acreditaria em mim se eu lhe dissesse. Bom, Paige gostaria de ficar aqui pelo menos até que comece o baile. Se eu sobrevivi tanto tempo, poderia aguentar outra meia hora. Quando o último prêmio havia sido entregue e os garçons se apressaram em recolher os pratos de sobremesa, todo mundo se colocou de pé e inundou as portas. Na sala, eu me separei da multidão e me aproximei da escada, acomodando meus cotovelos no corrimão, me inclinei para ver as pessoas perambulando para cima e para baixo. Paige se inclinou comigo, mesmo que ela não soubesse o que eu estava procurando. O estúdio de fotografia tinha criado uma tela no patamar e as paredes onduladas com flashes de luz. Dentro da sala de recepção, o DJ esmaeceu o cômodo e colocou a música. Luzes vermelhas e azuis piscavam. Esfreguei os olhos e olhei ao meu redor. Todo mundo estava vindo de novo para a sala, alguns já se balançavam com a música. Paige pulou para as portas. — Vamos, Cass! Esta é a melhor parte. Eu me contive, os vestidos suaves, brilhantes e luxuosos ondulando por mim. Meu peito estava apertado. Este não era o meu lugar. Podem pintar o meu rosto da testa até o queixo e me envolver em seda, e eu ainda não pertencerei a este lugar. Uma música, eu pensei. Ficarei durante uma música, que Paige se divirta e se Tim realmente não aparecer por lá, vou ligar para papai e irei embora. Arrastei-me novamente para a sala. As margens cheias de garotos não de todo prontos para a festa. A pista de dança envolvida em saias e membros girando como manchas em um arco iris de luzes. Paige enfiou-se no meio dela, balançandose com a melodia. Todas as mesas tinham sido empurradas para um lado. Arrasteime ao longo das margens. As luzes estroboscópicas brilharam e me pareceu ver o brilho do cabelo de Danielle. Os rostos brilharam azul, rosa e verde, para então voltar a normalidade. No momento em que a primeira música se mistura com a segunda, só havia um grosso anel de nós, os perdedores, que continuávamos em pé ao lado da pista de dança. Mudei, olhando na escuridão, procurando a cadeira na qual eu tinha colocado minha bolsa. Talvez do outro lado. Deslizei em torno de um par de mesas e a encontrei. Balançando-a por cima de meu ombro, me virei para a porta e meus olhos caíram em Tim.

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Ele estava de pé, na porta, recortada pelas luzes na sala atrás dele, com uma mão segurando o batente da porta. Eu mal podia distinguir suas feições. Não poderia ter me visto, absolutamente. Pisquei e fui retrocedendo. Eu tinha a boca retorcida, os olhos brancos com o pânico. Um instante depois, ele desapareceu de vista. Eu parei; gelada, meu coração batia mais rápido que a música. Eu o tinha imaginado? Antes que o meu cérebro tivesse a oportunidade de examinar a questão, minhas pernas já estavam me empurrando para a porta. Fui para fora, a luz ofuscava meus olhos. Os sapatos estavam rangendo nas escadas de mármore. — Tim? — eu chamei; hesitante. Alguns casais ainda estavam debruçados no patamar, tentando tirar algumas fotografias. Seus olhos me seguiam, tropecei escada abaixo o mais rápido que as sandálias me deixaram. Os saltos batiam contra o mármore, mais forte até que o meu pulso batendo em meus ouvidos. Eu não podia mais ouvir esse barulho. Na metade do último lance de escadas, eu o vi por cima da grade e o vi caminhando pela varanda para a porta principal do hotel. — Tim! — eu gritei. Seus passos vacilaram. Ele se virou lentamente, como se não estivesse seguro de que queria ver quem era. Seus ombros estavam curvados, com as mãos nos bolsos, a camisa e as calças largas em seu corpo magro. Tinha preparado seu rosto: a boca apertada, os olhos desafiadores. Então ele me viu e se desfez. Suas sobrancelhas se juntaram em sinal de confusão. Por um segundo ele não me reconheceu. Mas só por um segundo. Seus ombros ficaram tensos e seu queixo caiu. Eu me aproveitei de sua surpresa e tropecei até a parte inferior da escada. O funcionário atrás do balcão de recepção nos olhava com suavidade e logo se recostou seu sua cadeira e continuou murmurando no telefone. — Cassie! — gritou Paige de algum lugar de cima. Ela saltou para o térreo, parando alguns metros acima do chão com uma sacudida. — Você já vai? Devia ter me dito. Tentei te encontrar e você não estava lá. Eu continuava olhando para Tim e ele continuava me olhando. Paige olhava de mim para ele. — Oh! — ela disse em voz baixa. — Bem. Hm, eu acho que vou esperar lá fora. — disse e escapuliu através da parede.

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— Você veio. — disse Tim. Sua voz era áspera. Queria acreditar que não era tão concisa como tinha sido da última vez que eu tinha falado com ele, mas talvez isso fosse uma ilusão. — Sim. — eu disse, me sentindo desconfortável com o estúpido vestido e as estúpidas sandálias e meu estúpido penteado e ao mesmo tempo, tão feliz de vê-lo que o meu coração praticamente ia saltar de meu peito. — Não tenho certeza se era a melhor ideia, mas eu te disse que viria e não era como se permitisse você estar certo sobre mim. Tinha uma contradição em seus lábios. Suficientemente próximo de um sorriso e eu me sentia encorajada para acrescentar. — Eu não sabia se o conseguiria depois. Ele abaixou os olhos. — Sim, bem... Eu pensei, se Cass MacKenna vai a festa de formatura, eu não posso ficar em casa, certo? Eu acho que você fez melhor que eu. Eu nem sequer o entrei no salão. — Você não perdeu muita coisa. Ele encolheu os ombros, ainda estava estudando o chão. O silêncio era tenso entre nós. Cheguei para trás para segurar o corrimão da escada. — Se você vai... Eu quero dizer, eu não quero te incomodar. — Cass. — ele me interrompeu. Raspava os pés contra o tapete. — Eu estive pensando e falando com a minha tia, e eu pude ver porque você fez isso. Você realmente estava preocupada. — É claro que eu me preocupava. — eu disse. — Como você pôde? — enrolei meus dedos em minhas mãos. — Eu ainda estou preocupada. Eu devo? — Creio que não. — ele disse. — Eu não tenho bebido. Minha tia me ajudou a encontrar um conselheiro, ela acha que isso vai me ajudar, também. Eu tenho me sentido muito melhor, na maior a parte do tempo. É tudo tão... difícil. Mas não tão difícil como eu pensei que seria. Ele me olhou então, seus olhos azuis brilhantes sob os candelabros de cristal, ainda com tanta dor, minha garganta estava apertada. — Obrigado. — ele disse. Eu não podia acreditar no que tinha ouvido. — Pelo quê? — eu perguntei cautelosamente.

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the — Você precisa que eu soletre?

Pensei em como ele havia me empurrado no estacionamento, o ceticismo em seu rosto, mesmo quando minha lagrimas corriam, em como eu me encontrava em minha varanda enquanto ele caminhava para sua casa, seu “Vai embora” ecoando em meus ouvidos e eu engolindo disse: “Sim, eu vou”. — Você sabe, não tem sido fácil falar com você. — eu disse em tom irritado e divertido ao mesmo tempo. — Obrigado por tentar ajudar, mesmo eu dizendo que não. A tensão tinha sido como um balão tão grande, causando asfixia interiormente. Essas palavras apareceram. Eu sabia que estava sorrindo como uma louca, mas não parecia poder me conter, então decidi não prestar atenção. — De nada. — disse. — Prometo tentar em um futuro, principalmente quando você estiver me dizendo que não. Um sorriso deslizou pelo rosto de Tim. Não era o sorriso desconfortável, doloroso ou o sorriso terrivelmente desesperado que eu tinha visto muitas vezes antes, era um verdadeiro sorriso, suave nos cantos. — Combinado. — ele disse e estendeu sua mão para eu poder apertá-la. — Você vai para casa? — perguntei. Ele olhou atrás de mim, para as escadas e seu rosto ficou tenso novamente. — Não quero vê-los ainda. — Eu também não tenho vontade de continuar vendo nada mais deles. — apontei com a cabeça para a porta principal. — Vi um cafeteria na mesma rua. Você esta preparado para um expresso? — quando ele titubeou, acrescentei rapidamente. — Se você quiser ir embora... — Não. — ele disse. — Acho que posso lidar com um café. Caminhamos juntos para fora, com o brilho que se derramava nos degraus da escada. Paige se empoleirou sobre a cobertura. Ela sorriu quando me viu e me fez sinal com ambos os polegares para cima. Os sons do baile se afastavam atrás de nós e Tim relaxou os ombros. Eu respirei profundamente, deixando que o ar quente enchesse meus pulmões. Esta noite era uma noite em que coisas estranhas podiam acontecer. Uma noite em que eu pude compartilhar a mesa com o

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presidente do conselho estudantil e minha irmĂŁ morta tambĂŠm, nĂŁo para negociar ou para provar um ponto, mas simplesmente porque eu quis.

Fim

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Megan Crewe

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Como muitos autores de ficção, Megan Crewe acha escrever sobre si mesma muito mais difícil do que inventar coisas. Alguns fatos definitivos: ela vive em Toronto, Canadá, com o marido e dois gatos (e de vez em quando diz 'eh'), ela é tutora de crianças e adolescentes com necessidades especiais, e ainda lhe falta fazer amizade com um fantasma, embora ela dê boasvindas à oportunidade.

http://www.megancrewe.com ~ 190 ~


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Give Up The Ghost - Megan Crewe  
Give Up The Ghost - Megan Crewe  
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