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orgânicas’. E, novamente, num trecho provavelmente escrito alguns meses antes do presente artigo, e acrescentado à terceira edição (publicada em 1915, mas com prefácio datado de ‘Outubro de 1914’) de seus Três Ensaios (1905d), Edição Standard Brasileira, Vol. VII, pág. 171, IMAGO Editora, 1972, descreveu o instinto como sendo ‘o representante psíquico de uma fonte de estímulo endossomática, continuamente a fluir… um conceito que se acha na fronteira entre o mental e o físico’. Essas três descrições parecem tornar claro que Freud não estabelecia qualquer distinção entre um instinto e seu ‘representante psíquico’. Aparentemente considerava o próprio instinto como sendo o representante psíquico de forças somáticas. Se agora, contudo, passarmos aos artigos ulteriores dessa série, teremos a impressão de que Freud traça uma distinção muito acentuada entre o instinto e seu representante psíquico. Isso talvez seja indicado com o máximo de clareza num trecho de ‘O Inconsciente’ (ver em [1]): ‘Um instinto jamais pode tornar-se um objeto da consciência - somente a idéia [Vorstellung] que representa o instinto é que pode. Mesmo no inconsciente, além disso, um instinto não pode ser representado de outra forma senão por uma idéia… Quando, não obstante, falamos de um impulso instintual inconsciente ou de um impulso instintual reprimido… referimo-nos apenas a um impulso instintual cujo representante ideacional é inconsciente’. Esse mesmo conceito aparece em muitos outros trechos. Por exemplo em ‘Repressão’ (ver em [1]) Freud refere-se ao ‘representante (ideacional) psíquico do instinto’ e prossegue: ‘…o representante em questão persiste inalterado e o instinto permanece ligado a ele’; e de novo, no mesmo artigo (ver em [1]), escreve sobre o representante instintual como sendo ‘uma idéia’, ou grupo de idéias, que é catexizada com uma quota definida de energia psíquica (libido, interesse) proveniente de um instinto’, e continua, dizendo que ‘além da idéia, algum outro elemento que representa o instinto tem de ser levado em conta’. Nesse segundo grupo de citações, portanto, o instinto não é mais considerado como sendo o representante psíquico de impulsos somáticos, mas antes como sendo ele próprio algo não-psíquico. Esses dois conceitos, aparentemente divergentes, da natureza de um instinto encontram-se em diversas passagens dos escritos subseqüentes de Freud, embora o segundo predomine. Pode ser, contudo, que a contradição seja mais aparente do que real, e que sua solução esteja precisamente na ambigüidade do próprio conceito - um conceito de fronteira entre o físico e o mental. Num grande número de trechos, Freud expressou sua insatisfação diante do estado do conhecimento psicológico sobre os instintos. Não muito antes, por exemplo, em seu artigo sobre narcisismo (1914c, pág. 85 acima), ele se queixava da ausência total de qualquer teoria dos instintos que nos ajude ‘a encontrar nossa orientação’. Também depois, em Beyond the Pleasure Principle (1920g), Standard Ed., 18, 34, descreveu os instintos como ‘o elemento ao mesmo tempo mais importante e mais obscuro da pesquisa psicológica’; em seu artigo na Encyclopaedia Britannica (1926f ) confessou que ‘também para a psicanálise a teoria dos instintos é uma região obscura’. O presente artigo é uma tentativa relativamente antiga de lidar com o assunto de maneira abrangente. Seus muitos sucessores corrigiram-no e suplementaram-no em vários pontos; não obstante, esse artigo permanece invicto como o relato mais claro da visão que Freud tinha dos

Freud, sigmund obras completas (imago) vol 14 (1914 1916)  
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