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final da humanidade sobre nossos esforços teóricos. Existem exemplos em que a rejeição das três primeiras gerações foi corrigida pela seguinte e transformada em reconhecimento. Depois de se ter ouvido com cuidado a voz da autocrítica e de haver prestado certa atenção às críticas dos adversários, não resta mais nada a fazer senão sustentar, com todas as forças, as próprias convicções baseadas na experiência. A pessoa deve contentar-se em agir com o máximo de honestidade, não devendo assumir o papel de juiz, reservado ao futuro remoto. Dar ênfase a opiniões pessoais arbitrárias, em assuntos científicos, é mau; constitui claramente uma tentativa de questionar o direito da psicanálise de ser considerada uma ciência - aliás, depois de já ter sido esse valor depreciado pelo que foi dito antes [sobre a natureza relativa de todo o conhecimento]. Quem quer que dê grande valor ao pensamento científico procurará, antes, todos os meios e métodos possíveis para limitar o fator predileções pessoais fantasiosas tanto quanto possível, onde quer que ele desempenhe papel grande demais. Além disso, vale a pena lembrar que não tem cabimento o excessivo zelo em defendermos a nós mesmos. Esses argumentos de Adler não têm intenção séria. Destinam-se apenas a ser utilizados contra seus adversários; não se referem às suas próprias teorias, nem impediram seus seguidores de aclamá-lo como o Messias, para cujo advento a humanidade ansiosa foi preparada por grande número de precursores. O Messias certamente não é nenhum fenômeno relativo. O argumento ad captandam benevolentiam de Jung repousa na suposição demasiado otimista de que o progresso da raça humana, da civilização e do conhecimento sempre seguiu uma linha ininterrupta, como se não tivesse havido períodos de decadência, reações e restaurações após cada revolução, e gerações não tivessem dado um passo para trás e abandonado as vantagens de seus antecessores. Sua abordagem do ponto de vista das massas, sua renúncia a uma inovação que foi mal recebida, tornam a priori pouco provável que a versão jungiana da psicanálise possa com justiça pretender ser uma atitude jovem de liberação. Afinal de contas, não é a idade do autor que decide isso, mas o caráter da ação. Dos dois movimentos em discussão, o de Adler é, sem dúvida alguma, o mais importante; embora radicalmente falso, apresenta consistência e coerência. Além disso, se baseia, apesar de tudo, numa teoria dos instintos. A modificação de Jung, por outro lado, afrouxa a conexão dos fenômenos com a vida instintiva; e além disso, conforme seus críticos (p. ex. Abraham, Ferenczi e Jones) ressaltaram, é tão obscura, ininteligível e confusa a ponto de se tornar difícil assumir uma posição em relação a ela. Quando se pensa que se entendeu alguma coisa, pode-se ficar preparado para ouvir dizer que não se entendeu e não se pode saber como tirar uma conclusão correta. Tudo é formulado de uma maneira particularmente vacilante, ora como “uma divergência sutil que não justifica o escarcéu que se fez em torno dela” (Jung), ora como uma nova mensagem de salvação que irá iniciar uma nova era para a psicanálise, e mais ainda, uma nova Weltanschauung para todos. Quando se pensa nas várias incoerências reveladas em diversos pronunciamentos públicos e privados feitos pelo movimento jungiano, somos levados a perguntar quanto disso se

Freud, sigmund obras completas (imago) vol 14 (1914 1916)