Page 181

antes, voltar atrás e reconhecer a verdade? Não seria melhor dar à morte o lugar na realidade e em nossos pensamentos que lhe é devido, e dar um pouco mais de proeminência à atitude inconsciente para com a morte, que, até agora, tão cuidadosamente suprimimos? Isso dificilmente parece um progresso no sentido de uma realização mais elevada, mas antes, sob certos aspectos, um passo atrás - uma regressão; mas tem a vantagem de levar mais em conta a verdade e de novamente tornar a vida mais tolerável para nós. Tolerar a vida continua a ser, afinal de contas, o primeiro dever de todos os seres vivos. A ilusão perderá todo o seu valor, se tornar isso mais difícil para nós. Lembramo-nos do velho ditado: Si vis pacem, para bellum. Se queres preservar a paz, prepara-te para a guerra. Estaria de acordo com o tempo em que vivemos alterá-lo para: Si vis vitam, para mortem. Se queres suportar a vida, preparar-te para a morte. APÊNDICE: CARTA A FREDERIK VAN EEDEN [Esta carta foi escrita por Freud no fim de 1914, alguns meses depois de deflagrada a Primeira Guerra Mundial e alguns meses antes da elaboração de suas ‘Reflexões para os Tempos de Guerra e Morte.’ Van Eeden, a quem a carta foi endereçada, era um psicopatologista holandês, mais conhecido, contudo, como homem de letras. Embora velho conhecido de Freud, nunca aceitou seus conceitos. A carta foi publicada pela primeira vez em alemão por Van Eeden num semanário de Amsterdam, De Amsterdammer, a 17 de janeiro de 1915 (Nº 1960, pág. 3). Parece que até agora não foi reimpressa em alemão. Uma tradução para o inglês está incluída no segundo volume da vida de Freud escrita pelo Dr. Ernest Jones (1955, 413), e a versão que se segue é a mesma, exceto algumas mudanças verbais.] Viena, 28 de dezembro de 1914. Prezado Dr. Van Eeden, Aventuro-me, sob o impacto da guerra, a lembrar-lhe duas teses formuladas pela psicanálise e que, sem dúvida, contribuíram para sua impopularidade. A psicanálise inferiu dos sonhos e das parapraxias das pessoas saudáveis, bem como dos sintomas dos neuróticos, que os impulsos primitivos, selvagens e maus da humanidade não desapareceram em qualquer de seus membros individuais, mas persistem, embora num estado reprimido, no inconsciente (para empregar nossos termos técnicos) e aguardam as oportunidades para se tornarem ativos mais uma vez. Ela nos ensinou, ainda, que nosso intelecto é algo débil e dependente, um joguete e um instrumento de nossos instintos e afetos, e que todos nós somos compelidos a nos comportar inteligente ou estupidamente, de acordo com as ordens de nossas atitudes [emocionais] e resistências internas. Se, agora, o senhor observar o que está acontecendo na presente guerra - as crueldades e as injustiças pelas quais as nações mais civilizadas são responsáveis, a maneira distinta pela qual

Freud, sigmund obras completas (imago) vol 14 (1914 1916)  
Read more
Read more
Similar to
Popular now
Just for you