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espíritos recém-nascidos em demônios maus que tinham de ser temidos. As modificações [físicas] acarretadas pela morte lhe sugeriram a divisão do indivíduo em corpo e alma - originalmente várias almas. Dessa maneira, seu encadeamento de pensamento corria paralelo ao processo de desintegração que sobrevém com a morte. Sua persistente lembrança dos mortos tornou-se a base para a suposição de outras formas de existência, fornecendo-lhe a concepção de uma vida que continua após morte aparente. De início, essas existências subseqüentes não passavam de apêndices à existência à qual a morte pusera termo - sombrias, vazias de conteúdo e de pouca valia até épocas ulteriores; traziam, ainda, o caráter de desventurados artifícios. Podemos relembrar a resposta dada a Ulisses pela alma de Aquiles: ‘Pois desde outrora, quando estavas vivo, nós os argivos te honrávamos mesmo como a um deus, e agora que estás aqui, governas soberanamente sobre os mortos. Portanto, não lamentes absolutamente estares morto, Aquiles.’ Assim falei, e ele imediatamente respondeu, dizendo: ‘Não, não procures falar-me brandamente da morte, glorioso Ulisses. Eu escolheria, para que pudesse viver na terra, antes ser o servo de outrem, de algum homem sem fortuna cujos recursos fossem os mais parcos, do que ser o senhor de todos os mortos que pereceram.’ Ou na poderosa e amarga paródia de Heine: Der Kleinste lebendige PhilisterZu Stuckert am NeckarViel glücklicher ist erAls ich, der Pelide, der tote Held,Der Schattenfürst in der Unterwelt. Só mais tarde as religiões conseguiram representar essa vida futura como a mais desejável, a única verdadeiramente válida, a reduzir a vida que termina com a morte a uma mera preparação. Depois disso, passou a ser apenas coerente estender a vida para trás até o passado, elaborar a noção de existências pretéritas, da transmigração das almas e da reencarnação, tudo com a finalidade de despojar a morte do seu significado de término da vida. Assim, a origem da negação da morte, que descrevemos [ver em [1]] como uma ‘atitude convencional e cultural’, remonta aos tempos mais antigos. Ao lado do corpo sem vida do ente amado, passou a existir não só a doutrina da alma, a crença na imortalidade e uma poderosa fonte de sentimento de culpa do homem, mas também os primeiros mandamentos éticos. A primeira e mais importante proibição feita pela consciência que despertava foi: ‘Não matarás’. Surgiu em relação a pessoas mortas que eram amadas, como uma reação contra a satisfação do ódio que se ocultava sob o pesar, estendendo-se gradativamente a estranhos que não eram amados e, finalmente, até mesmo a inimigos. Essa extensão final do mandamento já não é experimentada pelo homem civilizado. Quando a furiosa luta da guerra atual for decidida, cada um dos combatentes vitoriosos retornará alegremente à pátria, para sua esposa e seus filhos, sem ser questionado nem perturbado por pensamentos sobre os inimigos que, quer de perto, quer de longe, matou. É digno de nota que as

Freud, sigmund obras completas (imago) vol 14 (1914 1916)  
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