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para levar a cabo seu propósito de manter a paciente à distância dos homens. Assim, no fim da primeira fase do conflito, a paciente se tinha afastado da mãe sem se ter passado definitivamente para o homem. Na realidade, ambos tramavam contra ela. Em seguida, os vigorosos esforços do homem conseguiram atraí-la decisivamente para ele. Ela superou a oposição da mãe em sua mente e estava disposta a conceder ao amante um segundo encontro. No desenrolar ulterior dos acontecimentos, a mãe não reapareceu, mas podemos insistir com segurança que, nessa [primeira] fase, o amante não se convertera diretamente no perseguidor, mas através da mãe e em virtude da relação dele com a mãe, que desempenhara o papel principal no primeiro delírio. Pensaríamos que agora a resistência estava definitivamente superada, que a moça, até então vinculada à mãe, conseguira chegar a amar um homem. Mas, após a segunda visita, surgiu um novo delírio, que, fazendo uso engenhoso de algumas circunstâncias acidentais, destruiu esse amor e assim atingiu com êxito o propósito do complexo materno. Ainda parece estranho que uma mulher tenha de se proteger de amar um homem por meio de um delírio paranóico; antes, porém, de examinarmos mais detidamente esse estado de coisas, lancemos um olhar às circunstâncias acidentais que formaram a base desse segundo delírio, exclusivamente dirigido contra o homem. Deitada parcialmente despida no sofá ao lado do amante, ela ouviu um ruído semelhante a um estalido ou batida. Não conhecia a sua causa, mas atinou com uma interpretação após ter-se encontrado com dois homens na escada, um dos quais carregava algo que parecia uma caixa tampada. Convenceu-se de que alguém, agindo segundo instruções do amante, a observara e fotografara durante seu íntimo tête-à-tête. Nem por um momento imaginou, naturalmente, que, se o malfadado ruído não tivesse ocorrido, o delírio não se teria formado; pelo contrário, deve-se ver algo de inevitável por trás dessa circunstância acidental, algo destinado a afirmar-se compulsivamente na paciente, assim como sua suposição de que havia uma liaison entre o amante e a chefe idosa, a substituta de sua mãe. Entre o acervo de fantasias inconscientes de todos os neuróticos, e provavelmente de todos os seres humanos, existe uma que raramente se acha ausente e que pode ser revelada pela análise: é a fantasia de observar as relações sexuais dos pais. Chamo tais fantasias - da observação do ato sexual dos pais, da sedução, da castração e outras - de ‘fantasias primevas’; examinarei, em outro lugar, com detalhes, sua origem e sua relação com a experiência individual. O ruído acidental, assim, desempenhou meramente o papel de um fator provocador que ativou a fantasia típica de estar sendo ouvida sem saber, o que consistiu um componente do complexo parental. Na realidade, é duvidoso que corretamente possamos dominar o ruído de ‘acidental’. Conforme Otto Rank teve ocasião de observar para mim, tais ruídos constituem, pelo contrário, parte indispensável da fantasia de escutar, e reproduzem ou os sons que traem o coito parental ou aqueles pelos quais a criança que escuta teme trair-se. Agora, porém, sabemos de imediato onde nos encontramos. O amante da paciente ainda era o pai dela, e ela própria havia tomado o lugar da mãe. O papel de ouvinte tinha de ser atribuído a uma terceira pessoa. Podemos ver por que meio a moça se libertou de sua dependência homossexual em relação à mãe. Foi por meio de uma pequena regressão: em vez de escolher sua mãe como

Freud, sigmund obras completas (imago) vol 14 (1914 1916)  
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