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de certas considerações, só se tornam importantes quando se pode reivindicar para elas uma aplicação universal. Na literatura psiquiátrica, por certo, não faltam casos em que o paciente se imagina perseguido por uma pessoa de sexo oposto. Uma coisa, contudo, é ler a respeito de tais casos, e outra bem diversa é entrar em contato pessoal com um deles. Minhas próprias observações e análises, e as dos meus amigos, haviam até então confirmado a relação entre a paranóia e o homossexualismo sem qualquer dificuldade. Mas o presente caso contradizia isso com toda ênfase. A moça parecia estar-se defendendo contra o amor por um homem, transformando diretamente o amante num perseguidor: não havia sinais da influência de uma mulher, nenhum vestígio de luta contra uma ligação homossexual. Nessas circunstâncias, a coisa mais simples teria sido abandonar a teoria de que o delírio de perseguição invariavelmente depende do homossexualismo, abandonando ao mesmo tempo tudo o que decorria dessa teoria. Ou abandonamos a teoria, ou, em vista desse afastamento de nossas expectativas, devemos tomar o partido do advogado e presumir que não se tratavam de uma combinação paranóica, mas de uma experiência real que fora corretamente interpretada. Contudo, vi outra saída, pela qual um veredicto final poderia ser momentaneamente adiado. Recordei-me de quantas vezes são adotados conceitos errôneos sobre pessoas psiquicamente doentes, simplesmente porque o médico não as estudou suficientemente e, assim, não aprendeu o bastante a seu respeito. Por conseguinte, disse que não podia formar uma opinião imediata, e pedi à paciente que me fizesse outra visita, quando então poderia relatar-me sua história mais uma vez, com maior amplitude, e acrescentar quaisquer detalhes subsidiários que talvez tivessem sido omitidos. Graças à influência do advogado, consegui essa promessa da relutante paciente; ele ainda me ajudou de outra maneira, dizendo que em nosso segundo encontro sua presença seria desnecessária. A história que me foi narrada pela paciente nessa segunda ocasião não entrou em choque com a anterior, mas os detalhes adicionais que ela forneceu dissiparam todas as dúvidas e dificuldades. Para começar, ela visitara o jovem em seus aposentos não uma, mas duas vezes. Foi na segunda ocasião que ela ficou perturbada com o ruído suspeito: em sua história original ela suprimiu, ou deixou de mencionar, a primeira visita porque não lhe parecera importante. Nessa primeira visita, não aconteceu nada digno de nota, mas no dia seguinte aconteceu. Seu departamento na firma era dirigido por uma senhora idosa, por ela descrita da seguinte forma: ‘Ela tem cabelos brancos como minha mãe’. Essa chefe idosa tinha grande apreço por ela e a tratava com afeição, embora algumas vezes implicasse com ela: a moça se considerava como de sua predileção especial. No dia subseqüente à sua primeira visita aos aposentos do jovem, ele apareceu no escritório para discutir um assunto de natureza comercial com essa senhora idosa. Enquanto conversavam em voz baixa, a paciente de súbito se convenceu de que ele falava de sua aventura do dia anterior - na realidade, de que os dois vinham tendo há algum tempo um caso amoroso, do qual, até então, ela não se tinha apercebido. A maternal e idosa senhora de cabelos brancos agora sabia de tudo, e sua conversa e conduta no decorrer do dia confirmaram a suspeita

Freud, sigmund obras completas (imago) vol 14 (1914 1916)  
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