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memória inconscientes dos objetos e daí à percepção, aceitamos essa percepção como real. Assim, a alucinação traz consigo a crença na realidade. Agora temos de nos perguntar o que é que determina a formação de uma alucinação. A primeira resposta seria a regressão, e isso substituiria o problema da origem da alucinação pelo do mecanismo da regressão. No tocante aos sonhos, esse último problema não precisa permanecer por muito tempo sem resposta. A regressão dos pensamentos oníricos do Pcs. às imagens mnêmicas das coisas constitui claramente o resultado da atração que os representantes instintuais do Ics. - por exemplo, lembranças reprimidas de experiências - exercem sobre os pensamentos postos em palavras. Mas logo percebemos que estamos numa pista falsa. Se o segredo da alucinação nada mais é que o da regressão, toda regressão com intensidade suficiente produziria alucinação com crença em sua realidade. Estamos, no entanto, bem familiarizados com situações nas quais em processo de reflexão regressiva traz à consciência imagens visuais mnêmicas muito claras, embora nem por isso as consideremos, por um momento que seja, como percepções reais. Além disso, poderíamos muito bem imaginar a elaboração de sonhos penetrando em imagens mnêmicas dessa natureza, tornando consciente para nós o que era previamente incon sciente, e nos expondo uma fantasia carregada de desejo que desperte nosso anseio, mas que não devemos considerar como uma real satisfação do desejo. A alucinação, portanto, deve ser algo mais que a revivescência regressiva de imagens mnêmicas que em si mesmas são Ics. Além disso, tenhamos ainda em mente a grande importância prática de distinguir as percepções das idéias, por mais intensamente que sejam recordadas. Toda a nossa relação com o mundo externo, com a realidade, depende de nossa capacidade nesse sentido. Formulamos a ficção de que nem sempre possuímos essa capacidade e de que, no começo de nossa vida mental, de fato alucinamos o objeto que nos satisfaria quando sentimos necessidade disso. Mas em tal situação a satisfação não ocorreu, e essa falha deve ter feito com que logo criássemos algum dispositivo com a ajuda do qual fosse possível distinguir tais percepções carregadas de desejo de uma real satisfação e evitá-las no futuro. Em outras palavras, desistimos da satisfação alucinatória de nossos desejos ainda muito cedo e estabelecemos uma espécie de ‘teste da realidade’. Precisamos saber agora em que é que consistia esse teste da realidade e como a psicose alucinatória carregada de desejo que aparece nos sonhos, na amência e em condições semelhantes, consegue aboli-lo e restabelecer a antiga modalidade de satisfação. A resposta poderá ser dada se agora passarmos a definir mais precisamente o terceiro de nossos sistemas psíquicos, o sistema Cs., que até o momento não distinguimos nitidamente do Pcs. Em A Interpretação de Sonhos já tínhamos sido levados a considerar a percepção consciente como a função de um sistema especial, ao qual atribuímos certas propriedades curiosas, e ao qual teremos agora bons motivos para atribuir também outras características. Podemos considerar esse sistema, lá denominado Pcpt., como coincidindo com o sistema Cs., de cuja atividade o tornar-se consciente em geral depende. Não obstante, mesmo assim, o fato de uma coisa se tornar consciente ainda não coincide inteiramente com o fato de ela pertencer a um sistema, pois

Freud, sigmund obras completas (imago) vol 14 (1914 1916)  
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