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por que não ocorre com mais freqüência. O que de fato acontece na formação de sonhos é uma marcante e imprevista sucessão de eventos. O processo, iniciado no Pcs., e reforçado pelo Ics., segue um curso às avessas, através do Ics. até a percepção, que exerce pressão sobre a consciência. Essa regressão é a terceira fase da formação de sonhos. A bem da clareza, repetiremos as duas primeiras: o reforço dos resíduos do dia do Pcs. pelo Ics. e a formação do desejo onírico. Chamaremos essa espécie de regressão de topografia, para distingui-la da regressão temporal ou de desenvolvimento mencionada previamente ver em [1]]. As duas nem sempre coincidem necessariamente, mas o fazem no exemplo específico diante de nós. A reversão do curso da excitação proveniente do Pcs., através do Ics. até a percepção, é ao mesmo tempo um retorno à etapa inicial da satisfação do desejo que ocorre na alucinação. Já descrevemos em A Interpretação de Sonhos [Edição Standard Brasileira, Vol. V, pág. 578 e segs. IMAGO Editora, 1972] a forma pela qual a regressão dos resíduos pré-conscientes do dia ocorre na formação de sonhos. Nesse processo, os pensamentos são transformados em imagens, principalmente de natureza visual; isto é, as apresentações da palavra são levadas de volta às apresentações da coisa que lhes correspondem, como se, em geral, o processo fosse dominado por considerações de representabilidade [ibid., Vol. V, ver na pág. 548]. Quando a regressão é concluída, resta grande número de catexias no sistema Ics. - catexias de lembranças de coisas. Leva-se o processo psíquico primário a relacionar-se com essas lembranças, até que, pela condensação destas e pelo deslocamento entre suas respectivas catexias, tenha plasmado o conteúdo onírico manifesto. Somente quando as apresentações da palavra que ocorrem nos resíduos do dia são resíduos recentes e costumeiros de percepções, e não a expressão de pensamentos, é que são tratadas como apresentações da coisa, e sujeitas à influência da condensação e do deslocamento. Daí, a regra formulada em A Interpretação de Sonhos [ibid., Vol. V, ver na pág. 446 e segs.], e desde então confirmada, acima de qualquer dúvida, de que as palavras e as falas no conteúdo onírico não constituem novas formações, mas seguem o modelo de falas do dia que precedeu o sonho (ou de outras impressões recentes, tal como algo que se leu). É notável quão pouco a elaboração do sonho obedece às apresentações da palavra; ela está sempre pronta a trocar uma palavra por outra até encontrar a expressão mais conveniente para representação plástica. É nesse sentido que a diferença essencial entre a elaboração de sonhos e a esquizofrenia se torna clara. Na última, o que se torna objeto de modificação pelo processo primário são as próprias palavras nas quais o pensamento pré-consciente foi expresso; nos sonhos, o que está sujeito a essa modificação não são as palavras, mas a apresentação da coisa à qual as palavras foram levadas de volta. Nos sonhos há uma regressão topográfica; na esquizofrenia, não. Nos sonhos existe livre comunicação entre catexias da palavra (Pcs.) e catexias da coisa (Ics.), enquanto é uma característica da esquizofrenia que essa comunicação seja interrompida. A impressão que essa diferença causa sobre alguém é diminuída precisamente pelas interpretações

Freud, sigmund obras completas (imago) vol 14 (1914 1916)