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dentro. A observação revela que os sonhos são instigados por resíduos do dia anterior - catexias do pensamento que não foram submetidas à retirada geral das catexias, mas retiveram, apesar disso, certa quantidade de interesse libidinal ou de outra natureza. Assim, o narcisismo do sono, desde o início, teve de abrir uma exceção nesse ponto, e é aqui que começa a formação de sonhos. Na análise, tomamos conhecimento desses ‘resíduos do dia’ sob a forma de pensamentos oníricos latentes e, por causa tanto de sua natureza quanto de toda a situação, devemos considerá-los como idéias pré-conscientes, pertencentes ao sistema Pcs. Não podemos prosseguir com a explicação da formação dos sonhos até que certas dificuldades tenham sido superadas. O narcisismo do estado de sono implica uma retirada da catexia de todas as idéias de objetos, das parcelas tanto inconscientes quanto pré-conscientes dessas idéias. Então, se certos resíduos do dia retêm sua catexia, hesitamos em supor que, durante a noite, adquiram energia suficiente para exigir a atenção da consciência; ficaríamos mais inclinados a supor que a catexia retida é muito mais fraca do que a que possuíam durante o dia. Aqui a análise nos poupa ulteriores especulações, porquanto revela que, se esses resíduos do dia quiserem figurar como construtores de sonhos, devem receber um esforço que tem sua fonte nos impulsos instintuais inconscientes. Essa hipótese não apresenta dificuldades imediatas, pois temos todos os motivos para supor que, no sono, a censura entre o Pcs. e o Ics. fica grandemente reduzida, o que faz com que a comunicação entre os dois sistemas se torne mais fácil. Mas há outra dúvida, sobre a qual não devemos silenciar. Se o estado narcisista do sono tiver resultado numa retração de todas as catexias dos sistemas Ics. e Pcs., então já não haverá qualquer possibilidade de que os resíduos pré-conscientes do dia venham a ser reforçados por impulsos instintuais inconscientes, visto que estes cederam suas catexias ao ego. Aqui, a teoria da formação dos sonhos termina numa contradição, a menos que possamos salvá-la mediante uma modificação em nossa suposição sobre o narcisismo do sono. Uma modificação restritiva dessa natureza, como veremos posteriormente, também é necessária na teoria da demência precoce. Presumivelmente isso se deve ao fato de que a parcela reprimida do sistema Ics. não atende ao desejo de dormir proveniente do ego, de que retém sua catexia no todo ou em parte, e de que, em geral, em conseqüência da repressão, adquire certa independência do ego. Em conseqüência, também, parte do que é dispendido na repressão (anticatexia) - teria de ser mantida durante a noite inteira, a fim de fazer face ao perigo instintual embora a inacessibilidade de todos os caminhos que levam a uma liberação do afeto e à motilidade possa reduzir consideravelmente a altura da anticatexia necessária. Assim, deveríamos configurar a situação que conduz à formação de sonhos da seguinte maneira. O desejo de dormir esforça-se por absorver todas as catexias transmitidas pelo ego e por estabelecer um narcisismo absoluto. Isso só pode ter um sucesso parcial, pois o que é reprimido no sistema Ics. não obedece ao desejo de dormir. Portanto, uma parte das anticatexias tem de ser mantida, e a censura entre o Ics. e o Pcs. deve permanecer, mesmo que não seja com toda a sua força. Até onde se estende o domínio do ego, todos os sistemas ficam esvaziados de catexias. Quanto mais fortes forem as

Freud, sigmund obras completas (imago) vol 14 (1914 1916)  
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