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acham relativamente distantes da percepção, são em si mesmos destituídos de qualidade e inconscientes, e só atingem sua capacidade para se tornarem conscientes através de ligação com os resíduos de percepções de palavras. Mas as apresentações da palavra, também, por seu lado, se originam das percepções sensoriais, da mesma forma que as apresentações da coisa; poderse-ia, portanto, perguntar por que as apresentações de objetos não podem tornar-se conscientes por intermédio de seus próprios resíduos perceptivos. Provavelmente, contudo, o pensamento prossegue em sistemas tão distantes dos resíduos perceptivos originais, que já não retêm coisa alguma das qualidades desses resíduos, e, para se tornarem conscientes, precisam ser reforçados por novas qualidades. Além disso, estando ligadas a palavras, as catexias podem ser dotadas de qualidade mesmo quando representem apenas relações entre apresentações de objetos, sendo assim incapazes de extrair qualquer qualidade das percepções. Tais relações, que só se tornam compreensíveis através de palavras, constituem uma das principais partes dos nossos processos do pensamento. Como podemos ver, estar ligado às apresentações da palavra ainda não é a mesma coisa que tornar-se consciente, mas limita-se a possibilitar que isso aconteça; é, portanto, algo característico do sistema Pcs., e somente desse sistema. Com essas apreciações, contudo, evidentemente nos afastamos de nosso assunto propriamente dito e mergulhamos em problemas concernentes ao pré-consciente e ao consciente, que por boas razões estamos reservando para uma apreciação isolada. Quanto à esquizofrenia, que apenas abordamos na medida em que parece indispensável a uma compreensão geral do Ics., devemos indagar se o processo denominado aqui de repressão tem alguma coisa em comum com a repressão que se verifica nas neuroses de transferência. A fórmula segundo a qual a repressão é um processo que ocorre entre os sistemas Ics. e Pcs. (ou Cs.), resultando em manter-se algo à distância da consciência [ver em [1]], deve, de qualquer maneira, ser modificada, a fim de também poder incluir o caso da demência precoce e outras afecções narcisistas. Mas a tentativa de fuga do ego, que se expressa na retirada da catexia consciente, permanece, não obstante, um fator comum [às duas classes de neurose]. A mais superficial das reflexões nos revela quão mais radical e profundamente essa tentativa de fuga, essa fuga do ego, é posta em funcionamento nas neuroses narcisistas. Se, na esquizofrenia, essa fuga consiste na retirada da catexia instintual dos pontos que representam a apresentação inconsciente do objeto, pode parecer estranho que a parte da apresentação desse objeto pertencente ao sistema Pcs. - a saber, as apresentações da palavra que lhe correspondem - deva, pelo contrário, receber uma catexia mais intensa. Deveríamos antes esperar que a apresentação da palavra, sendo a parte pré-consciente, tivesse de suportar o primeiro impacto da repressão e fosse totalmente incatexizável depois que a repressão tivesse chegado às apresentações inconscientes da coisa. Isso, é verdade, é algo difícil de compreender. Acontece que a catexia da apresentação da palavra não faz parte do ato de repressão, mas representa a primeira das tentativas de recuperação ou de cura que tão manifestamente dominam o quadro clínico da esquizofrenia. Essas tentativas são dirigidas para a recuperação do objeto

Freud, sigmund obras completas (imago) vol 14 (1914 1916)  
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