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da qual conhecemos inúmeros casos (por exemplo, os casos coligidos na monografia de Bleuler [1911]), que podem ser reduzidos a uma fórmula definida. Na esquizofrenia, as palavras estão sujeitas a um processo igual ao que interpreta as imagensoníricas dos pensamentos oníricos latentes - que chamamos de processo psíquico primário. Passam por uma condensação, e por meio de deslocamento transferem integralmente suas catexias de umas para as outras. O processo pode ir tão longe, que uma única palavra, se for especialmente adequada devido a suas numerosas conexões, assume a representação de todo um encadeamento de pensamento. As obras de Bleuler, de Jung e de seus discípulos oferecem grande quantidade de material que apóia particularmente essa assertiva. Antes de tirarmos qualquer conclusão de impressões como essas, consideremos ainda as distinções entre a formação de substitutos na esquizofrenia, por um lado, e na histeria e neurose obsessiva, por outro - distinções sutis que, não obstante, causam uma estranha impressão. Um paciente, que no momento tenho sob observação, permitiu-se ficar afastado de todos os interesses da vida em virtude do mau estado da pele de seu rosto. Afirma ter cravos e profundos orifícios no rosto que todo mundo nota. A análise demonstra que ele faz da pele o palco de seu complexo de castração. De início, atacava esses cravos sem piedade e ficava muito satisfeito ao espremê-los, porque, como dizia, algo esguichava quando o fazia. Começou então a pensar que surgia uma profunda cavidade cada vez que se livrava de um cravo, e se censurava com a maior veemência por ter arruinado a pele para sempre ‘por não saber deixar as mãos sossegadas’. Espremer o conteúdo dos cravos é para ele, nitidamente, um substituto da masturbação. A cavidade que então surge por sua culpa é o órgão genital feminino, isto é, a realização da ameaça de castração (ou a fantasia que representa essa ameaça) provocada pela sua masturbação. Essa formação substitutiva, apesar de seu caráter hipocondríaco, assemelha-se consideravelmente a uma conversão histérica; contudo, temos a sensação de que algo diferente deve estar ocorrendo aqui, que uma formação substitutiva como essa não pode ser atribuída à histeria, mesmo antes que possamos dizer em que consiste a diferença. Uma cavidade tão minúscula como um poro de pele dificilmente seria utilizada por um histérico como símbolo da vagina, símbolo este que, de outra forma, ele está pronto para comparar com todo objeto imaginável que encerre um espaço oco. Além disso, devemos esperar que a multiplicidade dessas pequenas cavidades o impeça de empregá-las como substituto do órgão genital feminino. A mesma coisa se aplica ao caso de um paciente jovem encaminhado por Tausk há alguns anos à Sociedade Psicanalítica de Viena. Esse paciente se comportava, sob outros aspectos, exatamente como se sofresse de uma neurose obsessiva; levava horas para tomar banho e se vestir, e assim por diante. Tornou-se observável, contudo, que ele era capaz de fornecer o significado de suas inibições sem qualquer resistência. Ao calçar as meias, por exemplo, ficava perturbado pela idéia de que ia separar os pontos da malha, isto é, os furos, e para ele cada furo era um símbolo do orifício genital feminino. Isso, mais uma vez, é algo que não podemos atribuir a um neurótico obsessivo. Reitler observou um paciente desse último tipo, que também sofria por ter de levar muito tempo para calçar as meias; esse

Freud, sigmund obras completas (imago) vol 14 (1914 1916)