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dos anos, deixando atrás de si apenas um pequeno resíduo. O dotado autor de seu próprio caso clínico não poderia ter adivinhado que, nele, revelara um fator patogênico típico. Essa revolta contra a castração ou uma atitude feminina foi arrancada de seu contexto orgânico por Alfred Adler. Ele a vinculou superficial ou falsamente ao anseio de poder e postulou-a de um ‘protesto masculino’ independente. De vez que uma neurose só pode originar-se de um conflito entre duas tendências, é tão justificável enxergar a causa de ‘toda’ neurose no protetor masculino quanto vê-la na atitude feminina contra a qual o protesto é feito. É inteiramente verídico que esse protesto masculino desempenha papel regular na formação do caráter - em certos tipos de pessoas, um papel muito grande - e que o encontramos na análise de homens neuróticos como vigorosa resistência. A psicanálise concedeu a importância devida ao protesto masculino em vinculação com o complexo de castração, sem poder aceitar sua onipotência ou sua onipresença nas neuroses. O caso mais acentuado de protesto masculino, com todas as suas reações manifestas e traços de caráter, com que me defrontei na análise, foi o de um paciente que me procurou para tratamento por causa de uma neurose obsessiva em cujos sintomas o conflito não solucionado entre uma atitude masculina e outra feminina (medo da castração e desejo da castração) encontrava clara expressão. Ademais, o paciente havia desenvolvido fantasias masoquistas, derivadas inteiramente de um desejo de aceitar a castração, e fora mesmo além dessas fantasias, à satisfação real em situações pervertidas. A totalidade de seu estado repousava - como a própria teoria de Adler - na repressão e negação de primitivas fixações infantis de amor.O Senatspräsident Schreber encontrou o caminho da cura quando decidiu abandonar sua resistência à castração e acomodar-se ao papel feminino que lhe fora estabelecido por Deus. Passado isso, ficou lúcido e calmo, foi capaz de levar a cabo sua própria alta do asilo e levou uma vida normal com a única exceção de dedicar algumas horas de cada dia ao cultivo de sua própria feminilidade, de cujo avanço gradual no sentido do objetivo determinado por Deus permaneceu convencido. IV - OS DOIS COMPROMISSOS Um pormenor notável na história de nosso pintor é a declaração de que ele assinou dois compromissos diferentes com o Demônio. O primeiro, escrito a tinta preta, dizia o seguinte: ‘Eu, Chr., H., subscrevo-me a este Senhor como seu filho obrigado, até o nono ano.’ O segundo, redigido com sangue, dizia: ‘Chr. H. Assino um compromisso com este Satã, de ser seu filho obrigado, e, no nono ano, pertencer-lhe em corpo e alma.’ Diz-se que os originais de ambos estiveram nos arquivos de Mariazell quando o Trophaeum foi compilado, e ambos portam a mesma data: 1669. Já fiz certo número de referências aos dois compromissos e agora me proponho tratar deles com mais detalhe, embora seja exatamente aqui que o perigo de supervalorizar

Freud, sigmund obras completas (imago) vol 19 (1923 1925)  
Freud, sigmund obras completas (imago) vol 19 (1923 1925)  
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