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Sigmund Freud NEU TRANSF

SES DE UMA C A : SÍNTESE

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Com Ensaio de ILSE GRUBRICH-SIMITIS e Posfácio à Ed. Brasileira de ABRAM J. EKSTERMAN

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Dos doze ensaios fundamentais de Sigmund Freud, redigidos em 1915, para estabelecer as bases teóricas de Psicanálise, chegaram ao público somente cinco, entre os quais os textos clássicos "O inconsciente", assim como "Luto e melancolia". Os sete trabalhos restantes são considerados perdidos. Surpreendentemente foi descoberto agora o rascunho do décimo segundo ensaio metapsicológico. Esse manuscrito aqui impresso como fac-simile contém, entre outras coisas (na forma ) de uma audaciosa "fantasia filogenética" sobre as origens evolutivas da neurose e da psicose) uma continuação das hipóteses antropológico-culturais desenvolvidas em Totem e Tabu sobre o assassinato do pai primitivo e a origem do sentimento de culpa.

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NEUROSES

FREUD

DE TRANSFERÊNCIA: UMA SíNTESE

(Manuscrito

Recém-Descoberto)

Organização, Notas e Ensaio Complementar:

Ilse Grubrich-Simítis


SIGMUND FREUD

NEUROSES

DE TRANSFERÊNCIA: UMA SíNTESE

(Manuscrito Recém-Descoberto)

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Organização, Notas e Ensaio Complementar:

Ilse Grubrich-Simitis

Série Analytica

Direção CIP-Brasil. Catalogação-na-fonte. Sindicato Nacional dos Editores de Livros, RJ.

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Freud, Sigmund, 1856-1939. Neuroses de transferência: uma síntese (manuscrito recém-descoberto) / Sigmund Freud; organização, notas e ensaio complementar I1se Grubrich-Símitís; posfácio à edição brasileira e tradução do alemão Abram Eksterman. - Rio de Janeiro: Imago, 1987.

1. Psiconeuroses. I. Grubrich-Simitis, Série. 87-0456

Tradução e Posfácio à Edição Brasileira

Abram Eksterman

(Série Analytica) Tradução de: übersicht Bibliografia.

/AYME SALOMÃO

der übertragungsneurosen.

2. Psicanálise. 3. Transferência (Psicanálise). Ilse 11. Eksterman, Abram IH. Título. IV.

CDD - 616.852 CDU -616.85

IMAGO EDITORA LTDA. Rio de Janeiro


Título original alemão Obersicht der Ubertragungsneurosen

Copyright © 1985 Sigmund Freud Copyrights, Ltd., Colchester and Ilse Grubrich-Sirnitis, Kõnigstein, 1985 for her essay and editorial matter.

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Produção editorial: Celso Fernandes Copidesque: Carlos Alberto Pavanelli Revisão: Ricardo Cruz e 1II

Regina Célia de Araújo Ferreira Capa: Perez Zambelli

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Direitos adquiridos por IMAGO EDITORA LTDA. Rua Santos Rodrigues, 201-A - Estácio CEP 20250 - Rio de Janeiro - RJ Tels.: 293-1098 - 293-1092

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Todos os direitos de reprodução, divulgação e tradução são reservados. Nenhuma parte desta obra poderá ser reproduzida por fotocópia, microfilme ou outro processo fotomecânico.

Impresso no Brasil

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Nota Preliminar

Sigmund Freud trabalhou de novembro de 1914 até o verão de 1915 adentro numa série de ensaios, os quais ele pretendeu inicialmente publicar como livro sob o título Subsídios à Preparação de uma Metapslcologia. Ele mesmo formulou o objetivo dos trabalhos numa anotação em um desses textos aparecidos em 1917, a saber, "Suplemento Metapsicológico à Teoria dos Sonhos" (1917cl 119151), onde escreve: a intenção desta série o esclarecimento e o aprofundamento das suposiç os teóricas que se poderiam colocar como a base do sistema psicanalític (p. 179). Também pertence a essa série "Luto e Melancolia" (1917 119151), publicado pela primeira vez em 1917. Em contrapartida, os trôs outros trabalhos, escritos durante a guerra, nos primeiros meses do an de 1915, foram publicados antes, em números sucessivos da Lnternationalen Zeitschrift jür iirztliche Psychoanalyse ) mais precisamente no ano de seu nascimento. Trata-se dos clássicos escritos psicanalíticos básicos: "Pulsões e os Destinos das Pulsões" (1915c); "A Repressão" (1915d) "O Inconsciente" (1915e). [ames Strachey (1957b, p. 121) simplesmcnte classificou os cinco ensaios como os trabalhos teóricos mais importantes de Freud. Por sua correspondência, ficamos sabendoê que Freud, além d cinco textos mencionados, tinha mais ou menos terminado, até m daquele ano, mais sete estudos metapsicológicos, os quais deveriam irr •

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V. 3. cadernos

2 a 5.

2 Isso já foi reconstruídc por Ernest fones (1962(1, 'p, 223 e scg.), O 11III examinou, para sua biografia de Freud, pela primeira vez a correspondêncln nuqucle tempo ainda não publicada em sua maior parte. Cp. também f. lJ·ochl.!Y (1957a).

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28.7.1

ti ndar o número de trabalhos da sene para formar um livro com doze apítulos, Ele, porém, nunca publicou esse livro. Como os sete manusCaro amigo,

ritos desapareceram sem deixar vestígios, supõe-se hoje que Freud os tCl'!a destruído mais tarde. Ainda uma vez, de acordo com [ames Strachey, "nós mal podemos avaliar que grande perda nos foi causada pelo desaparecimento desses ensaios. Naquele tempo em que Freud os escreveu, existia uma conjunção única de fatores favoráveis. A grande apresentação teórica anterior de Freud (o Capítulo 7 da Interpretação dos Sonhos 11900al) tinha sido escrita quinze anos antes, portanto numa fase relativamente precoce de seus estudos psicológicos. Agora, porém, já em 1915, passara por vinte e cinco anos de experiência psicanalítica, nos quais ele podia basear suas construções teóricas, ao mesmo tempo que se encontrava no zênite de sua força intelectual." (1957a, p. 72)

Envio ao senhor, aqui, o rascunho do [ensaio] XII, o qual c rtamente irá lhe interessar. Pode jogar fora ou guardar. O text passado a limpo o segue frase por frase e dele se afasta muit pouco. Juntei as páginas 21 a 23 depois de sua carta, a qual aguardava. Seu reparo excelente havia por sorte sido previsto.l Agora vou fazer uma pausa, antes de elaborar definitivamente o Cs [Consciente] e Angústia. Estou sofrendo muito de incômodos de Karlsbad.2 Cordiais

Quando eu, no ano passado, em Londres em conexão com os preparativos para a publicação da correspondência entre Sigmund Freud e seu discípulo e colaborador húngaro Sándor Ferenczi -, passei em revista uma velha mala com papéis, entre os quais algumas folhas que foram dadas <10 psicanalista Michael Balint, também de origem húngara, por seu professor e amigo Ferenczi, encontrei, surpresa, um manuscrito do próprio punho de freud, o qual pelo título e pelo conteúdo não consegui ligar a nenhuma de suas obras publicadas. Com a ajuda de uma pequena carta, escrita por Freud no verso da última folha do manuscrito, tornou-se patente para mim que se tratava do rascunho 1 do décimo segundo ensaio metapsicológico. A carta diz:2

saudações, Freud.

A carta possibilita identificar com segurança o manuscrito.3 Não a única correspondência regular do ano de 1915 entre Freud e Fercnczl sobre o projeto de uma metapsicologia. Desta, como de outras correspondências, podemos extrair algo sobre os temas dos sete capítulos perdid entre eles consciência, angústia, ou seja, histeria de angústia - o trabalho desses dois textos é expressamente mencionado na carta citada que acompanhou a remessa - e, ainda, histeria de conversão, neurose obsessiva. como também uma síntese das neuroses de transferência." E agor tomamos conhecimento pela primeira vez do conteúdo dessa síntes , através da forma do rascunho de Neuroses de Transjerência: uma sintee .

1 Seu aparecimento possibilitou-me uma modificação nas observações feitas por mim (1977, p. 40) na edição fac-similada do ensaio de Freud sobre "O Tema da Escolha do Escrínio"· com relação ao seu processo de escrever, a saber, que ele pouco corrigia seus manuscritos, tendo o costume de imediatamente escrever a versão definitiva. Essas afirmações basearam-se em informações de Anna Freud e na revisão dos manuscritos de Freud, conservados desde 1914. Esses manuscritos são redações passadas a limpo. Possivelmente existiram também para a maioria deles rascunhos que Freud não guardou. Finalmente, ele também não guardou o rascunho encontrado agora. Ao contrário, deixou a critério de Ferenczi, 110 bilhete reproduzido em seguida, jogá-lo fora ou guardá-Io com ele. Como Ferenczi o guardou, sabemos agora que Freud escrevia rascunhos e, como demonstra especialmente a segunda parte, podiam tomar quase a forma definitiva, tendo poucas correções. 2 Adiante. na p. 61, em Iac-sírnile. A reprodução segue as regras aplicadas na versão editada de todo o manuscrito, explicadas na "nota à versão editada". p. 63.

1 Para mais pormenores, veja adiante, p. 91. 2 Doenças do intestino. 3 Mais argumentos para este aspecto no tópico adiante "O Contexto r • fico". p. 89 e segs. • [Designação que inspirou o título em português, efetivamente mal zente com o conteúdo. A tradução literal do título deveria ser "Vista !' 1 Neuroses de Transferência" ou "Sinopse das Neuroses de Transferência". chcv, em sua introdução à Metapsicologia, menciona um trabalho metapslcol perdido que deveria ter o título de "Neuroses de Transferência em Geral". do T.)l

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estaria

de agradecer

a Ingeborg Meyer-Palmedo, Frankfurt-sobreno preparo da publicação,especialmente n trabalho de transcrição literalmente fiel. A Enid Balint, Londres, ue tornou possível o manuscrito original ser copiado, prestando louvável ajuda.

-Mcno, pelo apoio incansável

Novembro

de 1984 Ilse Grubrich-Simitis

SIGMUND

FREUD

Adetulo à edição brasileira: Gostaria de agradecer ao prof. Abram Eksterrnan, responsável pela cuidadosa tradução para o português, e ao editor J ayme Salomão por seus extraordinários méritos pela presente edição.

Neuroses de Transferência: uma Síntese

Janeiro de 1987 I.G.-S.

[Rascunho do décimo segundo de 19151

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ensaio

metapsicológico


Fac-simile e Transcrição

Nota para o fac-símile Dentro do envelope, endereçado a Sándor Ferenczi com a nota "registrado" e uma etiqueta adesiva correspondente, estava o manuscrito, dobrado pelo meio da folha e que em seguida também foi fac-similado, O canto com o selo foi arrancado e falta o selo. Com isso, algumas letras de alguma inscrição também foram rasgadas. Do restante, p 10 fac-símile reconhecível, poderíamos concluir que Freud quis antes entregar o escrito a um portador que pretendia visitar Ferenczi (à primeira vista, poderíamos pensar em "Miss Do i ... 1", a poeta americana Hilda Doolittle, com a qual, no entanto, Freud naquela época ainda não tinha contato). Não é claro o sentido dos demais rabiscos no envelope. O manuscrito do rascunho consiste em folhas escritas a tinta n verso e anverso, em papel de formato de 21,3 por 33,7 centímetro I portanto diminuído no fac-símile. Freud anotou a numeração das p Iginas com lápis de cor marrom-avermelhada. As linhas diagonais e m as quais os blocos do texto aparecem rabiscados estão no original tarnb n em cor marrom-avermelhada. Freud provavelmente marcou dessa man 11" as partes que sucessivamente foram passadas a limpo, textos estes, !TI ele frisa na carta que acompanhou o manuscrito para Ferenczi (11 V'I'· 50 da última folha reproduzida no fac-símile), em que seguiu o rascunh "frase por frase". As palavras, letras ou abreviaturas impressas em III lineal encontram-se no manuscrito em letras latinas.

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Übersicht der Übertraggsneurosen

Vorbereitung. Nach Detailuntersuchg versuchen Charaktere zusamenfassen, Abgrenzg von anderen, ver- , gleichende Durchführg der einzelnen Momente. ~omente sind::r.erd~!lErsatz u Symptbildung, Gegenbesetzun Ver altnis z. Sexualfunktion Regression, Disposition. Beschranken auf die 3 Typen Angsthy, Konvhy und Zs«. a) ~ findet bei allen 3 an Grenze des ubw u vbw Systems statt, besteht in Abziehung oder Verweigerung vbw Besetzung, wird gesichert durch Art von Gegenbesetzung. Bei Zw in spateren Stadien verschiebt sie sich auf Grenze zwischen Vbw u Bw. Werden hõren, daf in nachster Gruppe die Vdgg, andere Topik hat, sie erweitert sich dann zum Begriff d. Spaltung. Topische Gesichtspunkt darf nicht in dem Sinn überschatzt werden, da6 etwa jeder Verkehr zwischen beiden Systemen durch sie unterbrochen würde. Es wird also wesentlicher an welchen Elementen diese Schranke eingeführt wird. I

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Erfolg u Abgeschlo6enheit hangen insof zusamen, als Miserfolg zu weiteren Bemühungen nõtigt. Erfolg variirt bei den 3 N eurosen u in einzel Stadien derselben. Erfolg am geringsten bei Angsthy, beschrankt sich darauf, da6 keine vbw u (bw) Repraesentanz zu Stande koriit. Spater, da6 anstatt der anstôíiigen eine Ersatz vbw u bw wird. Endlich bei Phobiebildg erreicht er Zweck, in Hemg des Unlustaffekts

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durch gro6en Verzicht, ausgiebig Fluchtversuch. q Absicht der Vdgg ist iriier Unlustvermeidg. Schicksal der Repraeséntanz ist nur ein Zeichen deskri tiv statt syst. des Vorgangs. Die scheinbare erlegg des abzuwehrenden Vorgangs in Vorstellg und Affekt (Repraes. u quantit Faktor) ergiebt sich eben daraus, da6 Vdgg in Verweigerg der Wortvorstellg besteht, also aus topisch Charakter der Vdgg. • Bei Zw ist Erfolg zuerst ein voller, aber kein dauernder. Prozef noch weniger abgeschlo6en Er setzt sich nach erster erfolgreicher Phase durch zwei weitere fort, von denen erstere (sek. Vdgg) sich wie Angsthy mit Ersetzg der Repraesentanz begnügt, spatere (tertiare) der Phobie entsprech. Verzichte u Einschrankg produzirt aber zum Unterschied mit logisch Mitteln arbeitet. Im Gegensatz hiezu ist Erfolg der Konvershy von Anfang ein ein voller, aber durch starke Ersatzbildg erkaufter. Prozef des einzeln Vdggvorgangs abgeschlo6ener. Bildg der Zwvorste g. Kampf geg. Zwvorstellg b) "t&i)1' MriPJAS#)!sYg! Gegenbesetzung Bei Angsthy fehlt sie zuerst reine r Fluchtversuch, wirft sich dan auf Ersatzvorstellg u bes. in dritter Phase auf Umgebg derselben, um von da aus Bandigg der Unlustentbindg zu sichern, als Wachsamkeit Aulmerksamkeit. Repraesentirt den Ameil der vbw, also den Aufwand, den Neurose kostet. Bei Zv«, wo es sich von Anfang um Abwehr eines ambivalem Trieb handelt, besorgt sie die erste glückende Vdgg, leistet dann Reaktionsbildung dank der Ambivalenz giebt dann in tertiarer Phase die Aufmerk


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samkeit, die Zwvorst. auszeichnet u besorgt die logische Arbeit, also 2 u 3 Phase ganz wie bei Angst Unterschied in 1 Phase, wo bei Angst nichts, bei Zw alles leistet. Imer sichert sie Vdgg entsp Anteil des Vbw. Bei Hy glückl Charakter dadurch ermoglicht, daG Gegenbes von Anfang an Zusamentreffen mit Triebbesetzg sucht u sich zum Komprornif I mit ihr einigt, auswalende Bestimg auf Repraesentanz trifft. c) Ersatz u Symptombildg. Entspricht der Wiederkehr Vdgten, Mislingen der Vdgg. Eine Weile zu sondern, spater flieGt mit ihr zusamen. am vollkomensten bei Konvhy: Ersatz = Symptom, nichts weiter zu trennen. Ebenso bei Angsthy, Ersatzbildg ermoglicht dem Vdgt die erste Wiederkehr. Bei Zw sondert sich scharf, indem erste Ersatzbildg von Verdrgend durch Gegenbesetzg geliefert u nicht zu Symptomen gerechnet wird. Dafür sind spateren Symptome der Zw. oft vorwiegend Wiederkehr des verdrangten, Anteil des Verdrgd an ihnen gennger. Symtombildg, von der unser Studium ausgeht, fallt iifier mit Wiederkehr des Vdgten zusamen u geschieht mit Hilfe der Regression und der disponirenden Fixirungen. Ein allgem. Gesetz sagt aus, daG die Regression bis zur Fixirg zurückgeht und von dort aus Wiederkehr des Verdrangten sich durchsetzt d) Verhaltnis z. Sexualfunktion Für dies bleibt bestehen, daG verdrgte Triebregung stets eine libidinose dem Sexualleben angehórige isto


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wahrend Verdrgg vom Ich ausgeht aus verschiedenen Motiven, die sich aIs ein nicht Kõnnen (wegen Uberstarke) oder Nichtwollen zusamenfassen laísen. Das letztere geht auf Unvertraglichkeir rnit den Ichidealen oder auf andersartige befürchtete Schadigg des Ichs zurück. Das Nichtkônnen entspricht auch einer Schadigg. Verdunkelt wird diese fundamentale Thatsache durch zwei Momente, erstens hat es oft Anschein, aIs ob Vdgg durch Konflikt zweier Regungen beide libidinõs sind angeregt würde. Dies lõst sich durch die Erwagg, da6 die eine davon ichgerecht ist u in dem Konflikt die Hilfe der vom Ich ausgehenden Vdgg anrufen kann. Zweitens, indem nicht nur libid sondem auch Ichstrebg unter den verdrangt angetroffen werden, bes. haufig u deutlich bei langerern Bestand und fortgeschritt Entwicklg der Neurose. Letztere komt so zu Stande, da6 die vdgte lib. Regung sich auf dem Umweg durch eine Ichstrebg, der sie eine Komponente geliehen hat, durchzusetzen sucht, ihr Energie überrragt und nun diese mit in die Vdgg rei6t, was im gro6en Umfange geschehen kann. An Allgemeingiltigkeit jenes Satzes wird dadurch nichts geandert. Begreifliche Forderg. daf man Einsichten aus den Anfangsstadien der Neurosen schõpfe, Bei Hy und Zw evident, da6 sich Vdgg gegen üasdie Sexualfunktion in definitiver Form, in der es Anspruch der Fortpflanzung repraesentirt richtet. Am deutlichsten wieder bei Konversionshy weil ohne Komplikationen, bei Zw erst Regression. Indef diese Beziehg nicht über-


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treiben, nicht etwa annehmen, daB Vdgg erst mit diesem Stadium der Libido in Wirksamkeit tritt. 1m Gegenteil zeigt ja gerade Zs«, daB Vdgg allgemeiner Vorgang, nicht libidinos abhangig weil hier gegen Vorstuie gerichtet. Ebenso in Entwicklg, daB Vdgg auch gegen perverse Reggen in Anspruch genomen. Frage, warum Vdgg hier gelingt, sonst nicht, in Natur libid Strebg sehr vertretgsfahig, so daB bei Vdgg der normal die perversen verstarkt werden u umgekehrt. Zur Sexualfunkt. Vdgg kein anderes Verhaltnis, ais daís sie zu ihrer Abwehr bemüht wird wie Regression u andere Triebschicksale. Bei Angsthy ist Verhaltnis zur Sexualf. undeutlicher aus Gründ, die bei Behandlg der Angst zum Vorschein gekomen. Scheint, daB Angsthy jene Falle umíaíit, in denen Sextriebanspruch ais zu groB wie Gefahr abgewehrt. Keine bes. Bedingg aus Libidoorganisation. e) Regression. Das interessanteste Moment und Triebschicksal. Von Angsthy aus keinen AnlaB es zu erraten. Konnte sagen, daB hier nicht in Betracht komt, vielleicht weil jede spatere Angsthy so deutlich auf eine infainile regredirt (die vorbildliche Disposition der N) und 'diese letztere so frühzeitig im Leben auftritt. Dagegen die beiden anderen schonste Beispiele von Regression, aber diese spielt bei jeder andere Rolle in Struktur der Neurose. Bei Convhy ist es eine starke Ichregression, Rückkehr zu Phase ohne Scheidg von Vbw und Ubw, also ohne Sprache und Zensur. Die Regression dient aber der Symptombildg u Wiederkehr des Vdgt. Die Triebregung die vom


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aktuellen Ich nicnt akzeptirt, rekurnrt auf ein früheres, von dem aus sie Abfuhr freilich in anderer Weise findet. DaB es dabei 'virtuell zu einer Art Libidoregress komt, schon erwahnt. Bei Zw ist es anders. Die Regression ist eine Libidoregression, dient nicht der Wiederkehr sondem der V dgg u wird durch eine starke konstit Fixirg oder ,unvollkomene Ausbildg errnoglicht. In der That fallt hier erster Schritt der Abwehr der Regression zu, wo es sich mehr um Regression als auf Entwicklgshemg handelt, und die regressive libidin Organis unterliegt dann erst einer typischen Verdrangg, die aber erfolglos bleibt. Ein Stück Ichregression wird von der Libido aus Ich aufgezwungen oder ist in der unvollkomenen Entwicklg des Ichs, die hier mit Libphase zusamenhangt, gegeben. (Treiig d. Ambivalenzen) f). Hinter Regression verhüllen sich die Probleme der Fixirung u Disposition. Die Regression kann man allgemein sagen reicht so weit zurück bis zu einer Fixirungsstelle, entweder in Ich- oder Libentwicklg., u diese stellt die Disposition dar. Dies ist also das maBgebendste, die Entscheidg über Neurosenwal vermittelnde Moment. Lohnt also dabei zu verweilen. Fixirung komt durch Phase d. Entwicklg zu Stande, die zu stark ausgepragt war oder vielleicht auch zu lange angehalten hat, um restIos in die nachste überzugehen. Klarere Vorstellg, worin, in welchen


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Veranderg die Fixirg besteht, wirdam besten nicht verlangen. Aber über Herkunft etwas sagen. Besteht sowol die Moglichkeit, da6 solche Fixirg rein mitgebracht sowie daf sie durch frühzeitige Eindrücke herbeigeIührt und endlich, da6 beide Faktoren zusamenwirken. Umsomehr da man behaupten darf, beiderlei Momente seien eigentlich ubiquitar, da alle Dispositionen konstitutionell vorhanden sind im Kinde u anderseits die wirksamen Eindrücke sehr vielen Kindern gleicher Weise zu teil werden. Handelt sich also um mehr oder weniger und ein wirksames Zusamentreffen. Da niemand konstit. Mornente bestreiten geneigt ist, fallt es \li A zu auch das Anrecht der frühinfantil Erwerbg kraftig zu vertreten. Bei Zw ist übrigens das konstit Moment weit deutlicher erkannt, als bei KHy das akzidentelle, tias ist zuzugeben. Detailverteilg imer noch zweifelhaft. Wo das konstit Moment der Fixirung in Betracht komt, damit Erwerbg nicht beseitigt, sie ríickt nur in noch frühere Vorzeit, da man mit Recht behaupten darf, da6 die ererbten Dispositionen Reste der Erwerbung der Vorahnen sind. Hiemit sto6t man an Problem der phylogenetischen Disposition hinter der individuell oder ontogenetischen, und darf keinen Widerspruch finden, wenn das lndivid zu seiner ererbten Disposition auf Grund früheren Erlebens neue Dispositionen aus eigenem Erleben hinzufügt. Warum sollte der

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Prozeíl, der Disposition auf Grund von Erleben schafft, gerade an dem Individ, dessen Neurose man untersucht, erlóschen? Oder dieses Disposition für seine Nachkomen schaffen, sie aber nicht für sich erwerben kônnen. Scheint vielmehr notwendige Erganzung Wie weit die phylogenetische Disposition das Verstandnis der Neuros beitragen kann, ist noch nicht zu übersehen. Es gehorte dazu auch, da6 Betrachtg über enge Gebiet der Ubenraggsneuros hinausgeht. Der wichtigste unterscheidende Charakter der Ubertraggsn konnte in dieser Ubersicht ohnedief nicht gewürdigt werden, weil er ihnen ja gemeinsam nicht auffallt und erst bei Herbeiziehg der narziíit Neuros durch Kontrast auffallen würde. Er liegt in der Festhaltung des Objekts. Verhiiltnis des Ieh zum Objekt. Bei dieser Vergroíierg des Horizonts würde Verhaltnis von Ich zu Objekt Vordergrund rücken und Festhaltg des Objekts sich ais gemeinsam Unterscheidendes ergeben. Gewi6e Vorbereitung hier gestattet. Hoffe der Leser, der sonst auch an Langweile vieler Abschnitte gemerkt hat, wie sehr alles auf sorgfaltiger u mühseliger Beobachtg aufgebaut, wird Nachsicht üben, wenn auch einmal die Kritik vor der Phantasie zuríicktritt u ungesicherte Dinge vorgetragen werden blos weil sie anregend sind und Blick in die Ferne eroffnen. Es ist noch legitim anzunehmen da6 auch die Neurosen Zeugnis von der seelischen Entwicklgsgeschichte des


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Menschen ablegen müíien. Ich glaube nun in Auísatz (Uber zwei Prinzipien) gezeigt zu haben, -daf wir den Sexualstrebgen des Menschen eine andere Entwicklg zuschreiben dürfen als den Ichstrebgen. Der Grund wesentlich daB die ersteren ganze WeiIe autoerotisch befriedigt werden konnen, wahrend Ichstrebgen von Anfang auf Objekt u darnit auf Realitat angewiesen sind. Welches die Entwicklg .der merischIichen Sexuallebens glauben wir in groBen Zügen gelemt zu haben (Drei Abhandlg z. Sexualtheorie) Die des menschlichen Ichs, dh der Selbsterhaltgsfunktionen u der von ihnen abgeleiteten Bildgen ist schwieriger zu durchschauen. Ich kenne nur den einzigen Versuch von Ferenczi, der '\la Erfahrungen zu diesem Zwecke verwertet. unsere Aufgabe ware natürlich sehr erleichtert, wenn uns die Entwicklgsgeschichte des Ichs anderswoher gegeben ware, die Neurosen zu verstehen, anstatt daB wir ---------jetzt urngekehrt verfahren rnüBen. Man bekomt dabei den Eindruck, daB, die Entwicklgsgeschichte der Libido ein weit alteres Stück der Entwicklg wiederholt aIs die des Ichs, erstere vielleicht VerhaltniBe des Wirbeltierstarnes wiederholt, wahrend letztere von der Geschichte der Menschenart abhangig ist.' Es existirt nun eine Reihe, an welche man verschiedene weitgehende Gedanken anknüpfen kann. Sie entsteht, wenn rnan die 'l'neurosen (nicht die UbeI-traggsneurosen allein) nach der Zeit anordnet, zu , punkt welchern sie im individ Leben aufzutreten pflegen. Dann ist die Angsthysterie


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die fast voraussetzungslose die früheste, ihr schlieíit die Konvhy (vom 4 J etwa) an, noch etwas spater in der Vorpubertãt (9-10) tritt bei Kindern die Zw auf. Die narziílt. Neurosen fehlen der Kindheit. Von diesen ist die Dem pr in klassischer Form Erkrankg der Pubertatsjahre, die Par nahert sich den Jahren der Reife, und Mel-Manie auch dems. Zeitabschnitt, sonst unbestiiiibar Die Reihe lautet also: Angsthy - Konv.hy -Zw - Dem pr - ParanoiaDie Fixirungsdispositionen - Mel-Manie dieser Affektionen scheinen auch eine Reihe zu ergeben, die aber gegenlaufig isto Deutlieh bes. wenn man libido Disposition in Betracht zieht. Es ergabe sich also, je spater die Neurose auftritt, auf desta frühere Libidophase muf sie regrediren. Dies gilt indef nur in gro6en Zügen. Unzweifelhaft richtet sich Khy gegen Primat d. Genitalien die Zw gegen die sadist. Vorstufe, alle 3 Übertraggsneuros gegen vollzogene Libidoentwicklg. Die narziíst Neuros aber gehen auf Phasen vor Objektfindg zurück, die Dem pr regredirt bis zum AUtoerotis die Paranoia bis zur narziíit homosex. Objektwal, der Melliegt narziíit Identif mit dem Objekt zu Grunde. Die Differenzen liegen darin, da6 die Dem unzweifelhaft früher auftritt aIs die Par, obwol ihre lib. Disposition weiter zurückreicht und da6 MelManie keine sichere zeitliche Einreihg gestatten. Man kann es also nicht festhalten, da6 die sicher vorhanden


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Zeitreihe der 'P N allein durch die Libentwicklg bestiifít wâre. Soweit dies zutrifft würde man die umgekehrte Beziehg zwischen beiden betonen. Es ist auch bekannt daB mit Altersfortschritt Hy oder Zw in Dem sich umsetzen kann, nie koint das Umgekehrte vor. Man kann aber eine andere phylogenet. Reihe aufstellen, die wirklich mit der Zeitreihe der Neuros gleichlãufig isto Nur muB man dabei weit ausholen u sich manches hypothetische Zwischenglied gefallen laBen. Von Dr Wittels ist zuerst die Idee ausgesprochen worden, daB das U rmenschentier seine Existenz in einem überaus reichen, alIe Bediírfniíle befriedigenden Milieu hingebracht, dessen NachhalI wir im Mythus vom uranfanglichen Paradies erhalten haben. Dort mag es die Periodizitãt der Libido überwunden haben, die den Saugetieren noch anhaftet. Ferenczi hat dann in der bereitserwãhnten gedankenreichen Arbeit die Ideeausgesprochen, daB die weitere Entwicklg dieses Urmenschen unter dem EinfluB der geologischerí Erdschicksale erfolgt ist, und daB insbesondere die Not der Eiszeiten ihm die Anregung zur Kulturentwicklg gebracht hat. Es wird ja alIgemein zugegeben, daB die Menschenart zur Eiszeit bereits bestand und ihre Einwirkg an sich erfahren hat. Greifen wir die Ideevon Ferenczi auf, so liegt die Versuchung sehr nahe, in den 3 Dispositionen zur Angsthy, Konversionshy und Zwangs Regressionen auf Phasen zu sehee, erkennen,we1che


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dereinst die ganze Menschenart vom Beginne bis zum Ende der Eiszeiten durchzumachen hatte, so daB damals alle Menschen so waren wie heute nur ein Anteil kraft seiner erblichen Veranlagung und durch Neuerwerbung isto Die Bilder kõnnen sich natürlich nicht võllig decken, denn die Neurose enthalt mehr als was die Regression mit sich bringt. Sie ist auch der Ausdruck des Straubens gegen diese Regression und ein Kompromif zwischen dem urzeitlich Alten und dem Anspruch des kulturell Neuen. Am starksten wird sich diese Differenz bei der Zwneurose auspragen miiíien, welche wie keine andere unter dem Zeichen der inneren Gegensatzlichkeit steht. Doch muíi die Neurose, soweit das Verihr. h'at, d as urzeit. I'1C h e d rângte in geslegt Bild wiederbringen. Unsere erste Auístellung würde also behaupten, daB die Menschheit unter dem EinfluB der Entbehrungen, welche ihr die hereinbrechende Eiszeit auferlegte allgemein angstlich geworden isto Die bisher vorwiegend freundliche, jede Befriedigg spendende Auísenwelt verwandelte sich in eine Haufung von drohenden Gefahren. Es war aller Grund zur Realangst vor allem Neuen gegeben. Die sex Libido verlor allerdings zunachst ihre Objekre, die ja menschliche sind, nicht, aber es laBt sich denken, daB das in seiner Existenz bedrohte Ich von der Objektbesetzung


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einigermaíien absah ttntl die Libido im Ich erhielt und so in Realangst verwandelte, was vorher Objektlibido gewesen war. An der infantilen Angst sehen wir nun, daB das Kind die Objektlibido im Falle der Unbefriedigg in Realangst vor dem Fremden verwandelt, aber auch, daB es übhpt dazu neigt, sich vor allem Neuen zu ãngstigen. Wir haben einen langen Streit darüber geführt, ob die Realangst oder die Sehnsuchtangst das ursprünglichere ist, ob das Kind seine Libido in Realangst wandelt, weil es für zu groíl, gefahrlich erachtet u so übhpt zur Vorstellg der Gefahr komt, oder ob es vielmehr einer allgemeinen Ãngstlichkeit nachgiebt und aus dieser lernt, sich auch vor seiner unbefriedigten Libido zu fürchten. Unsere Neigung gieng dahin das erstere anzunehmen, die Sehnsuchtangst voranzustellen, aber dazu fehIte uns eine besondere Disposition. Wir muílten es für eine allgemein-kindliche Neigung erklaren. Die phylogenetische Uberlegung scheint nun diesen Streit zu Gunsten der Realangst zu schlichten u l:iBt uns annehmen, daB ein Anteil der Kinder die Angstlichkeit des Beginns der Eiszeiten mitbringt und nun durch sie verleitet wird die unbefriedigte Libido wieeine auílere Gefahr zu behandeln.rDas relative Ubermaf der Libido würde aber derselben Anlage entspringen u die Neuerwerbung der di~ponirten Ãngstlichkeit ermõglichen. Imerhin würde die Diskussion der Angsthysterie das Ubergewicht

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der phylogenetischen Disposition über alle anderen Momente befürworten. 2). Mit dem Fortschritt der harten Zeiten muílte sich den in ihrer Existenz bedrohten Urmenschen der Konflikt zwischen Selbsterhaltung und Fortpflanzungslust ergeben, welcher in den meisten Eillefll typischen von Hysterie seinen Ausdruck findet. Die Nahrungsmittel reichten nicht hin, eine Vermehrung der menschlichen Horden zu gestatten und die Krafte des Einzelnen reichten nicht aus, soviele der Hilflosen am Leben zu erhalten. Die Tõdtung der Geborenen fand sicherlich einen Widerstand an der Liebe besonders der Mütt~iBtischen. Somit wurde es soziale Pflicht, die Fortpflanzung zu beschranken, Die perversen nicht zur Kinderzeugg führenden Befriediggen entgiengen diesem Verbot, was eine gewiBe Regression auf die Libidophase vor dem Primat der Genitalien befõrderte, Die Einschrankg muíite das Abstinenz

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Weib harter treffen als den um die Folgen des Sexualverkehrs eher unbekümmerten Mann. Diese ganze Situation entspricht offenkundig den Bedinggen der Konversionshysterie. Aus der Symptomatik. derselben schlieBen wir, daB der Mensch noch sprachlos war, alser sich aus der unbezwungenen Not das Verbot der Fortpflanzung auferlegte, also auch noch nicht das System des Vbw über seinem Ubw aufgebaut hatte. Auf die Konvershy regredirt dann auch der dazu Disponirte, spezielldas Weib


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unter dem Einflu6 der Verbote, welche die GenitaIfunktion ausschalten wollen, wahrend stark erregende frühzeitige Eindrücke zur Genitalbetãtigg drangen. 3). Die weitere Entwicklg ist leicht zu konstruiren. Sie betraf vorwiegend den Mann. Nachdem er gelernt hatte an der Libido zu sparen und die Sexualtatigkeit durch Regression auf eine frühere Phase zu erniedrigen, gewann die Betatigg der Intelligenz für ihn die Hauptrolle. Er lernte forschen, die Welt feindIiche etwas verstehen und sich durch Erfindungen eine erste Herrschaft über sie zu sichern. Er entwickelte sich unter dem Zeichen der Energie, bildete die Anfange der Sprache aus u muíite den Neuerwerbungen gr06e Bedeutg zuIegen. Die Sprache war ihm Zauber, seine Gedanken erschienen ihm ailmachtig, er verstand die Welt nach seinem Ich. Es ist die Zeit der anirnistischen Weltanschauung u ihrer magischen Technik. Zum Lohn für seine Kraft, so vielen anderen hilfIosen Lebenssicherung zu schaffen, maíite er sich die uneingeschrànkte Herrschaft über sie an, vertrat durch seine Personlichkeit die beiden ersten Setzungen, da6 er selbst unverletzIich sei und da6 ihm die Verfügung über die Frauen nicht bestritten werden dürfe. Zu Ende dieses Zeitabschnitts war das Menschengeschlecht in einzelne Horden zerfallen, die von einem starken und brutaIen Mann als Vater beherrscht wurden. Es ist mõglich, daf die egoistisch eifersüchtige u rücksichtslose Natur, die wir nach võlkerpsychologischen Erwaggen dem U rvater der Menschenhorde zuschreiben

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, nicht von Anfang an vorhanden war, sondem sich im Laufe der schweren Eiszeiten ais Resultat der Anpassung an die Not herausgebildet hat. Die Charaktere dieser Menschheitsphase wiederholt nun die Mensehheitsp Zwangsneurose, einen Teil derselben negativ, da 8 ja die Neurose dem Strauben gegen Reaktionsbildgen diese Wiederkehr rnitentspricht. Die Überbet~nung des Denkens, die riesige Energie, 10

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die ais Zwang wiederkehrt, die Allmacht der Gedanken, sind unverwandelte Züge. Aber gegen die brutalen Impulse, welche das Liebesleben ersetzen wollen, erhebt sich der Widerstand spaterer Entwicklungen die Nei un zu unverbrüchder von dem libidinõsen lichen Gesetze Konflikt aus endlich die Lebensenergie des Individuums Iahmt und nur die auf Geringfugiges verschobenen Impulse aIs Zwang bestehen la6t, übrig. 50 geht dieser für die Kulturentwicklg wertvollste menschliche Typus an den Ansprüchen des Liebeslebens zu Grunde in seiner Wiederkehr, wie der grofsartige Typus des Urvaters selbst, der spater aIs Gottheit wiederkehrte, an den farniliaren Verhaltniílen, die er sich schuf, in der Wirklichkeit zu Grunde gegangen isto 4). Soweit waren wir in der Erfüllg eines von Ferenczi vorhergesehenen Programs »die neurotischen Regressionstypen mit den Etappen der 5tamesgeschichte der Menschheit in Einklang zu bringen- gekomen, vielleicht ohne in allzu gewagte Spekulationen abzuirren. Für die weiteren und spater

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Zeitlang

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auftretenden narziíltischen Neurosen fehlte uns aber jede Anknüpfg, wenn uns nicht die Annahme zu Hilfe kame, daB die Disposition zu ihnen von einer zweiten Generation erworben worden ist, deren Entwicklg in eine neue Phase menschlicher Kultur hinüberleitet. Diese zweite Generation hebt mit den Sôhnen an welchen der eifersüchtige Urvater nicht gewahren laBt. Wir haben an anderer Stelle (T u T) eingesetzt, daB er sie vertreibt, wenn sie das Alter der Pubertat erreicht haben. W A Erfahrungen mahnen aber eine andere u grausamere Lõsung an die Stelle zu setzen, namlich daB er sie ihrer Mannheit beraubt, wonach sie ais unschadliche Hilfsarbeiter in der Horde bleiben kõnnen. Den Effekt der Kastration in jener Urzeit dürfen wir uns wol als Erlõschen der Libido und Stehenbleiben in der indiv Entwicklg vorstellen. Solchen Zustand scheint die Dem pr. zu wiederholen, die zumal als Hebephrenie zum Aufgeben jedes Liebesobjekts, Rück- , bildg aller Sublimirungen und Rückkehr zum Autoerotismus führt. Was Das jugendliche Individ verhãlt sich so, als ob es die Kastration erlitten hatte: ja Selh· wirkliche Selbstkastrationen sind hei dieser Affektion nicht selten. Was die Krankheit .sonst auszeichnet, die Sprachverandergen, u halluzinat Stürme darf man in das phylogenet. Bild nicht einbeziehen, denn sie entsprechen den Heilungsversuchen, den vielfãltigen Bemühungen, das Objekt wiederzugewiiien, die im Krankheitsbilde beinahe auffalliger ) sind als die Rückbildgserscheinungen.


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Mit der Annahme einer solchen Behandlg der Sõhne hãngt eine Frage zusamen, die im Vorübergehen zu beantworten isto Woher komt den Urvatern Nachfolge und Ersatz, wenn sie sich der Sõhne in solcher Weise entledigen. Schon Atkinson hat den Weg gewiesen, indem er hervorhob, daB nur die alteren Sõhne die volle Verfolgg des Vaters zu befürchten hatten, daB aber der jüngste - schematisch gedacht wel dank der Furbitte der Mutter vor allem aber infolge des Alterns und de des Vaters u seiner Hilfsbedürfigkeit Aussicht hatte, diesem Schicksal zu entgehen und der Nachfolger des Vaters zu werden. Dieser Vorzug des jüngsten wurde in der nachstkofiienden sozialen Gestaltung gründlich beseitigt und durch das Vorrecht des Altesten ersetzt. 1m Mythus u im Marchen ist er aber sehr gut kenntlich erhalten. 5). Die nachste Wandlg konnte nur darin bestehen, daB die bedrohten Sõhne sich der Kastration durch die Flucht entzogen und lernten mit einander verbündet den Kampf des Lebens auf sich zu nehmen. Dies Zusaiiienleben rnuílte sozialen Gefüle zeitigen und konnte auf homosexueller Sexualbefriedigg aufgebaut sein. Es ist sehr mõglich, daB in der Vererbung dieser Zustandsphase die lange gesuchte hered. Disposition der Homosexualitát zu erblicken isto Die hier entstandenen aus der Homosex sublimirten sozialen Gefüle wurden aber zum dauernden Menschheitsbesitz und zur Grundlage jeder .spateren Gesellschaft. Diese Zustandsphase bringt aber

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ersichtlich die Par wieder; richtiger gegen die Wiederkehrders. wehrt sich die Par, 3 bei der die geheimenBündniBe nicht fehlen und der Verfolger eine groBartige Rolle spielt. Die Par. sucht die Homasex. abzuwehren, welche die Grundlage der Brüderorganisation war, und muf 8 dabei den Befallenen aus der 9 _ Gesellschaft treiben, seine sozialen 10 Sublimirgen zerstõren und . . 11 6). Die Einreihung der Mel-Manie in diesen 12 Zusamenhang scheint auf die Schwierig13 keit zu stoílen, daB eine Normalzeit 14 für das individuelle Auftreten dieses 15 neurotischen Leidens nicht sicher anzugeben 16 isto Doch steht es fest, daB sie eher dem Alter 17 der Reife angehõrt áls der Kindheit 18 faBt ~an charakterist. Abwechslung 19 von Depression und Hochstimung ins Auge, 20 so ist es schwer sich an nicht die so ahnliche 21 Aufeinanderfolge von Triumph und 22 Trauer zu erinnern, welche regelmaíiigen 23 Bestand religiôser Festlichkeiten bildet. 24 Trauer über den Tod des Gottes, Triumph25 freude iiber seine Wiederaufstehung. 26 Dieses religiõse Zeremoniell wiederholt 27 aber nur, wie wir aus den Angaben 28 der Võlkerpsychologie erraten haben, 29 in umkehrender Richtung das Ver30 halten der Mitglieder des Briider31 klans, nachdem sie den Urvater über32 fallen waltigt und getõdret hatten: 33 Triumph über seinen Tod und dann 34 Trauer darüber, da sie ihn doch alie 35 aIs;../'Vorbild verehrt hatten. 50 gabe dieses 36 /groBe Ereignis der Menschengeschichte 37 welches der Urhorde ein Ende machte


und sie durch die siegreiche Brüderorganisation ersetzte, die Praedisposition für die eigentümliche Stimungsfolge, die wir als besondere narziíltische Affektion 4 neben den Paraphrenien anerkennen. um Die Trauer tihet- den Urvater geht aus der Identifizirung mir ihm vor, und solche Identifizirg haben wir als die Bedingung des melancholischen Mechanismus nachge10 wiesen. 11 Zusamenfassend kõnnen wir sagen. Wenn 12 die Dispositionen zu den 3 Ubertraggs13 neurosen im Kampf mit der Not der 14 Eiszeiten erworben wurden, so stamen IS die Fixirungen, welche den narziíitischen 16 N eurosen zu Grunde liegen aus der 17 Bedrangung durch den Vater, welcher 18 nach Ablauf der Eiszeit deren Rolle gleichsam gegen die zweite Generation über20 nimt, fortsetzt. Wie der erste Kampf 21 zur patriarchalischen Kulturstufe führt, 22 so der zweite zur sozialen, aber aus beiden 23 ergeben sich die Fixirungen, die in ihrer 24 Wiederkehr nach Jahrtausenden zur 25 Disposition der zwei Gruppen von Neurosen 26 werden. Auch in diesem Sinne ist also 27 die Neurose ein Kulturerwerb 28 Ob die hier entworfene Parallele 29 mehr ist aIs eine spielerische Ver30 gleichung, in welchem MãBe sie die 31 noch nicht gelosten Ratsel der Neurosen 32 zu beleuchten mag, darf fügIich 33 ferneren Untersuchungen und der 34 Beleuchtg durch neue Erfahrungen 35 überlassen werden ----

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Nun ist Zéit Reihe Einwendungen zu denken, die mahnen, daB wir dieerreichten Zurückführgen nicht uberschatzen sollen. Zunachst jedem aufdrangen, daB die zweite Reihe der Dispositionen, die der zweiten Generation, nur von Mannem (ais Sôhnen) erworb werden konnten, wahrend Dem pr, Paran u Mel ebensowol von Frauen produzirt werden. Frauen in Urzeiten unter noch mehr verschiedenen Bedingg gelebt ais heute. Sodann haftet an diesen Dispositionen eine Schwierigkeit, von der die ersten Reihe frei sind: Sie scheinen unter Bedinggen erworb zu werden, die Vererbung ausschlieBen. Es ist evident, daB die kastrirten u eingeschüchterten Sõhne nicht zur Fortpflanzg komen, also ihre Disposition nicht fortsetzen kônnen (Dem pr). Aber ebensowenig kann der 'tjJ Zustand der ausgetriebenen in Homosex verbundenen Sõhne EinfluB auf die nachsten Generationen nehmen da sie aIs unfruchtbare Seitenzweige der Familie erlõschen, so lange sie nicht über den Vater triumphirt haben. Bringen sie es aber zu diesem Triumph, so ist es Erlebnis einer Generation, dem man die notwendige unbegrenzte Vervielfaltigg absprechen muB. Wie Wie sich denken laBt, braucht man auf so dunkeln Gebieten um Auskuníte nicht verlegen zu sein. Die Schwierigkeit fallt . ja im Grunde rnit einer früher aufgeworf~ zusamen, wie sich der brutale Vater der Eiszeit, der ja nicht unsterblich war wie sein gõttliches Nachbild, fortgesetzt. Wieder bietet sich der jüngere Sohn, der spater zum Vater wird, der zwar nicht selbst kastrirt wird, aber das Schicksal seiner alteren


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Brüder kennt u für sich befürchtet, an den die Versuchung herangetreten sein muf wie die . glucklicheren von ihnen zu fliehen u auf das Weib zu verzichten. 50 bliebe neben den als unfruchtbar abfallenden Mannern imer eine Kette von anderen, die an ihrer Person die Schicksale des Mannergeschlechts durchmachen u als Dispositionen vererben kõnnen. Der wesentliche Gesichtspunkt bleibt bestehen, daB sich für ihn die Not der Zeiten durch den Druck des Vaters ersetzt. Der Triumph über den Vater muf ungezalte Generationen hindurch geplant u phantasirt worden sein ehe es gelang ihn zu realisiren. DÍe Ausbreitg der durch den Vaterdruck erzeugten Dispositionen' auf das Weib scheint selbst groBere 5chwierigkeit zu bereiten. Die Schicksale des Weibes in diesen Urzeiten sind uns durch besonderes DunkeI verhíillt. 50 môgen Lebensverhaltniíse in Betracht komen, die wir nicht erkannt haben. Der grôbsten Schwierigkeit uberhebt uns aber die Bemerkg, daB wir der Bisexualit des Menschen nicht vergeísen dürfen. 50 kann das Weib die vom Mann erworb Dispositionen übernehmen und selbst an sich zum Vorschein bringen. Indef machen wir uns klar, daf wir mit diesen Auskünften im Grund nichts anderes erreicht ais unsere wissensch. Phantasien dem Vorwurf der Absurditar entzogen zu haben. Im Ganzen behalten sie ihren Wert ais heilsame Ernüchtergen, wenn wir vielleicht auf Wege waren, die phylogent. Disposition über alies andere zu setzen. Es geht aIso nicht so zu, daB in vielleicht gesetzrnãílig festgestellter Verhaltniszal archaiische

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23

Konstitution an den neuen Indiv wiederkehren und sie durch den Konflikt mit den Ansprüchen der Gegenwart in Neurose dràngen. Es bleibt Raum für N euerwerbg und für EinflüBe, die wir nicht kennen. 1m Ganzen sind wir nicht am Ende, sondem zu Anfang eines Verstandniíies dieses phylogenet. Faktors.

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[Rückseite

des letzten

Manuskriptblatts:]

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Lieber Freund Ich schicke Ihnen hier den Entwurf der XII der Sie gewiB interessiren wird. Sie kõnnen ' ihn wegwerfen oder behalten. Die Reinschrift folgt ihm Satz für Satz u weicht nur wenig von ihm ab. Seite 21-23 sind nach Ihrem Brief hinzugefügt, auf den ich gewartet hatte. Ihr ausgezeichneter Einwand war zum Glück vorgesehen worden. Ich werde nun eine Pause eintreten lassen, ehe ich Bw u Angst endgiltig ausarbeite. Ich lei de viel an Karlsbader Beschwerden. Herzl Gruf Ihr Freud

[Briefu~schlag,

in dem Freud

(verkleinert).]

,

das Manuskript

an Ferenczi

sandte


,

\ \

A Versão Editada

Nota

para a versão editada

o

manuscrito está cheio de abreviaturas, especialmente com relação às desinências das palavras, como mostram o Iac-símile e a transcrição literal. Elas foram transcritas por extenso na versão editada do texto, no interesse da legibilidade, sem maiores explicações. (Salvo nos' lugares onde pudesse haver dúvidas, as formas por extenso se acham identificadas entre barras, como acréscimo da editoraçâo.) Foram mantidas apcna as abreviaturas particularmente características de Freud, como "ics" (inconsciente) e "pcs" (pré-consciente), "cs" (consciente), "iPA" (Psicanálise). Contudo, não pretendemos desfazer o estilo em palavras-chav do original, através de acréscimos editoriais, sobretudo na primeira part , que trata da sistematização, pois afinal trata-se de um rascunho e I de um texto passado, a limpo. Apenas em uns poucos lugares 1 nt intercalar algumas escassas palavras para facilitar a compreensão, 111 1'· cadas entre barras como acréscimos da editoração, entre outras c I O porque nem sempre tive certeza de estar correta. Com relação à I'· tografia e à pontuação, foi feita uma adaptação cautelosa aos \l1. fies modernos sem qualquer justificativa. Chamamos a atençã 11', algumas particularidades do original assinaladas em notas de l' d 1i editoriais, que pedem dessa forma ser localizadas pelo leitor no Iec-síu 1 I sem grandes

esforços.

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I. ," . Sándor Ferenczi e Sigmund Freud no verão de 1917, durante uma estadia no Tatra.


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XII

Neuroses de T ransferêncía: uma Síntese

Preparação Após exame pormenorizado, tentar resumir caracteres, delimitá-los com relação aos outros e comparar cada um dos elementos. Os elementos são os seguintes: repressão. contra-investimento.i .formação de substitutos e sintomas, a relação com a função sexual, regressão e disposiçã Restringir aos três tipos: histeria de angústia, histeria de conversão neurose obsessiva. a) A repressão ocorre em todos os três tipos de neurose, no limiar do sistemas ics e pcs. Consiste na subtração ou negação [do] investiment pcs, e é assegurada por uma espécie de contra-investimento. Em estad . mais avançado da neurose obsessiva o .contra-investimento .se desloc para o limiar do pcs com o cs. Observar-se-á que a repressão no grupo seguinte2 tem um significad diferente, quando seu conceito se amplia para o de divisão.

t [Originariamente "contra-investimento" ficava no terceiro lugar dest meração: através do sinal de inversão Freud posteriormente colocou a palavr segunda posição. Cp. o fac-símile do manuscrito (f. 1, linhas 6e 7).1 2 [Ouer se referir certamente às psicoses que foram parte do rascunho. ou seja, às neuroses narcisistas, na Entretanto, não as descreveu pormenorizadamente com específicos de defesa; talvez possamos citar uma passagem psicológico à Teoria dos Sonhos" (1917d 119151, p. 190 e

11\1. 1111

abordadas na S RlIIIU terminologia do "lId. relação aos' proe no "Suplemento M I • segs.j.]


o

ponto de vista tópico não deve ser superestimado no sentido de que qualquer trânsito eventual entre os dois sistemas seja por ela interrompido. Dessa forma, é mais essencial destacar em que elementos essa barreira está sendo introduzida. O sucesso e o término estão vinculados, de modo que o insucesso obriga a novos esforços. O sucesso varia conforme as três neuroses e de acordo com cada um de seus estágios. Na histeria de angústia, o sucesso da repressão é menor e se restringe ao fato de que não se realiza nenhuma representação pcs (e cs). Mais tarde, em lugar da idéia repulsiva, um substituto [representação] torna-se pcs e cs. Por fim, o sucesso alcança seu objetivo na formação de fobias, inibindo o afeto do desprazer através de intensa renúncia e [toda uma] tentativa de fuga. A intenção da repressão é sempre evitar o desprazer. O destino da representação limita-se a ser apenas um sinal do processo. A aparente dissecção! em representação e afeto (representação e fator quantitativo) do acontecimento que deve ser rejeitado resulta exatamente do fato de que a repressão consiste na denegação da apresentação da palavra, ou seja, [no] caráter tópico da repressão. O sucesso da repressão na neurose obsessiva é inicialmente completo, mas não é permanente. O processo está ainda menos concluído. Ele continua, após uma primeira fase bem-sucedida, através de mais duas fases. A primeira (repressão secundária]: 12 formação de idéias' obsessivas, luta contra idéias obsessivas) contenta-se com a substituição da representação, da mesma forma [que ai histeria de angústia. [fase] seguinte (lrepressão] terciáría) produz renúncias e limitaçõels] correspondentes a fobia, mas, diferentemente, trabalha com recursos lógicos. Contrastando com isso, o sucesso da repressão na histeria de C011versão é sempre completo, desde o corneço.ã conquanto seja alcançado graças à intensa formação de substitutos. O processo de cada ato da repressão é terminal.

IAI

1 [Neste lugar encontra-se interpolado entre a terceira e a quarta linhas no manuscrito (f. 2), decifrável com dificuldade: "descritivo em vez de sistlematicamente]", forr-ul=cões que Freud também usa em "O Inconsciente" (l91Se, p. 131)·1 2 10s demais itens, especificados até o final do. !,""!\nteses, estão no manuscrito (f. 2) no fim do parágrafo antes de b, colocados evidentemente depois. porém através ae uma linha claramente assinalada no lugar acima indicado.] 3 INo manuscrito (f. 2, I. 20), por engano, ·'ein".1 IN. do T.: Que tira o sentido da expressão 1Ion Anlang an, pois ein significa "dentro", "para dentro"; e an significa "em diante", "para diante"]

66

b) Contra-investimento: I 10 contra-investimento] está primeiramente ausente na histeria de 0.11 t1 tíaj.] Trata-se de uma pura tentativa de fuga e que se Iança, em 5 uldo, para a formação de idéias substitutivas. Especialmente numa tere Ir fase, nas proximidades dessas mesmas idéias. utiliza a2 vigilância atenção para assegurar que seja contida a liberação do desprazer. RCP1' senta participação do [investimento] pcs, isto é, a aplicação que neurose gasta. à

Na neurose obsessiva, que desde o início é uma defesa contra um impulso ambivalente, o contra-investimento fornece a primeira repress bem-sucedida; em seguida, graças à ambivalência, produz formação rcativa; finalmente, na fase terciária, [ele] dá a atenção, que é característica da idéia obsessiva, fornece o trabalho. lógico. Portanto, a segunda C ti terceira fases são idênticas às da histeria de angústia. A diferença existe na primeira fase, na qual contra-investimento nada faz na histeria do: angústia e tudo realiza na neurose obsessiva.

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10 contra-investimento]" sempre assegura repressão [a] resplectiv participação do pcs. Na histeria [de conversão] o caráter mais favoráv 1 é possibilitado pelo fato de que o contra-investimento, desde o cornec procurando um encontro com o investimento da pulsão, une-se C 111 ele numa solução de compromisso, o que determina a escolha da r " presentação. c) Formação de substitutos e sintomas: Corresponde à volta [do] reprimido, quer dizer, repressão mal-sucedido. Por pouco tempo [são ambas] separáveis, depois jas formações de su à

titutos e de sintomas Essa confluência to = sintoma.

I

confluem. é mais perfeita

na histeria

de conversão:

substitu-

Nada mais resta separado.

1 [Aqui está no manuscrito (f. 2, I. 24), riscado, "formação de substitui e sintomas';.' Evidentemente, Freud decidiu neste ponto da minuta tratar d le mento contra-investimento antes da formação de substitutos e sintomas. V lu u mudança da colocação correspondente na enumeração no começo do ensal .1 2 [Esta palavra (ais) não é decifrável com segurança. Compare O Caco (I\) 1 do manuscrito (f. 2, I. 30).1 • Acréscimo do Tradutor. 3 [Também esta palavra (glücklicher) não é decifrável com segurança, p. Iac-sírnile do manuscrito (f. 3, 1. 6).1


Da mesma forma,na histeria de angústia, permite ao reprimido seu primeiro retorno.

a formação

de substitutos

Na neurçse obsessiva, separam-se com nitidez Ia formação de substitutos da formação de sintomas.] sendo a primeira formação de substitutos fornecida [pelo] repressor mediante contra-investimento, não sendo considerada sintoma. Ao passo que [os] sintomas tardios da neurose obsessiva são com freqüência preponderantemente ó retorno do reprimido, sendo menor neles a participação do repressor. A formação de sintomas, da qual parte o nosso estudo, coincide sempre com o retorno do reprimido e ocorre com a ajuda da regressão e das fixações deterrninantes. Uma lei geral afirma que a regressão retrocede até a fixação e de lá se impõe ao retorno do reprimido. Relação com ajunção

d)

sexual:

Para esse [elemento]," contínua válido o dito de que o impulso ativo rFprimido é sempre libidinoso, pertence à vida sexual, enquanto a rf(pressão derivada do eu se dá por vários motivos, que podem ser resu-' midos em um não-poder (devido a uma força superior) ou a um nãoquerer. Este último remonta a uma incompatibilidade com os ideais do eu ou a uma outra temida lesão do eu. O não-poder também corresponde a uma lesão. Esse fato fundamental é ocultado por dois elementos: em primeiro lugar, parece que freqüentemente a repressão é estimulada pelo conflito de duas manifestações, ambas libidinosas. Esse conflito se desfaz pela ponderação de que uma das manifestações é ego-sintônica e no conflito pode apelar pela ajuda da repressão derivada do eu. Em segundo lugar, por serem muitas vezes e com evidência significativa encontradas no reprimido não somente aspirações libidinosas, mas também' aspirações do eu em estado prolongado e avançado da neurose. Por fim, isso realiza-se pela manifestação libidinosa reprimida, que lenta se impor um atalho através das [aspirações do eu], e, dessa forma, a libido, emprestando ao eu um componente ao qual transferiu energia, arrasta uma parte do eu para a repressão, o que pode oc~rrer em grande escala. Com isse, nada se altera no quadro geral daquela tese, Compreende-se' a exigência por que se devem extrair conhecimentos dos estágios iniciais

pC;~

qª:;i neuroses.

I

. .. É evidente que, na 'histeria e na neurose õbs~ssiva, a reprcsss O dirige contra at função sexual em' sua forma definitiva, na qual 11 representa seu direito à procriação. Enquanto esse processo é nftl I na histeria de conversão, porque não tem complicações, ele é prcccdld pela. regressão na neurose obsessiva. Entretanto, não exageremos rela~l~namento, supondo que a repressão seja apenas efetiva nesse cstãg! da libido. A neurose obsessiva mostra, ao contrário, que a. reprcssã um processo geral não dependente da libido, dirigido contra estados prccoces. Da mesma forma, a repressão é exigida contra as manifestaç perversas no curso do desenvolvimento. Pergunta-se: Por que a repress ~e~s~ caso ~em ê~ito e nos outros não? Na natureza, as aspíraçõ libidinosas sao facilmente substituíveis, de modo que, reprimindo-se a aspirações normais, ficam Iortalecidas as perversas, e více-versa. A r • pressão não [tem] com a função sexual nenhum outro relacionamento senão ser instalada para repeli-Ia, da mesma forma como a regressão ~ outros destinos dos impulsos. . O relacionamento com a função sexual é menos claro na angústia, pelas razões que surgiram quando tratamos desta. Parece que a histeria de ang~stia c.ompreende aqueles casos nos quais a exigência do impulso ' sexual e considerada muito grande e dessa forma iélrepelido como am a. ça. Não, há nenhuma condição especial na organização da libido. e)

Regressão:

É o. element~ e o destino dos impulsos mais interessantes. Da p r '. pecnva da histeria de engústia, não existe motivo para decifra Poderia dizer que. neste contexto não cabe cogitar da regressão pOI' li t~lve~ q.ualqu~r histeria de angústia tardia claramente regride a un I histeria infantil (o modelo de disposição a neurose) e porque esta SUl' tão cedo na vida. Ao contrário, as duas outras [neuroses de tran f I' ncia] são os ~ais belos exemplos de régressão, a qual, porém, desernp nhu [um] papel diferente na estrutura da neurose. Essa regressão é, na hi t 1'11 1 'Primeiro esteve neste lugar das ( ... da(!, sicil Verdrdngung gegan lu '" (T~lve.z Freud quisesse escrever das Sexualleben - "a vida sexual".) A p ilnVI'\ esta nscada e substituída por "die - "a". Cp, o fac-símile do manuscrit A I. 33).' ' ·t,

r

'No origin~1 (L. 4. I. 34) está escrito aqui es (in der es Anspru li II r reprasentiern, Cp. a nota de rodapé anterior.' 'N. do T.: a, li' • nome pessoal correspondente à combinação de preposição com artlgo cl fi 11 I 10 2

Fortpjanzung

Acréscimo

do Tradutor.

"das"]

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de conversão, uma poderosa regressão do eu, voltando a uma fase onde não há separações entre pcs e ics, portanto sem linguagem e sem censura. A regressão serve, entretanto, à formação de sintomas e ao retorno do reprimido. As manifestações da pulsão que não [são] aceitas pelo eu atual recorrem a um eu anterior, de onde elas são repelidas então de maneira diferente. Já foi mencionado que nisso ocorre virtualmente uma espécie de regressão da libido. Na neurose obsessiva é diferente. A regressão é uma regressão da libido que não serve ao retorno ido reprimido] mas à repressão possibilitada por uma intensa fixação constitucional ou por um desenvolvimento incompleto. De fato, cabe aqui à regressão o primeiro passo da defesa e se trata 1 mais de regressão que de desenvolvimento, assim como a organização libidinosa regressiva subjaz apenas a uma e' típica regressão, a qual contudo fica sem sucesso. Uma parte da regressão [do] eu é imposta pela libido, ou deriva do desenvolvimento incompleto do eu, o qual está interligado à fase do desenvolvimento da libido (dissociação e ambivalência), IDisposição]: Atrás da regressão, estão encobertos os problemas de fixação e de disposição. Podemos afirmar de uma maneira geral que a regressão retrocede até um ponto de fixação do desenvolvimento do eu ou da libido. Isso representa a disposição.2 Ê, portanto, o elemento mais influente que intervém na decisão sobre lal escolha da neurose. Por isso vale a pena demorar-se neste aspecto. A fixação é produzida pela fase do desenvolvimentc que foi tão demasiadamente marcada, ou talvez detida por. um tempo excessivamente longo para que possa passar toda para a fase seguinte. Melhor não exigir idéias mais claras em que, ou em cujas mudanças, consiste a fixação. Mas podemos dizer alguma coisa a respeito de sua origem. Tanto pode haver a possibilidade de que tal fixação simplesmente [seja] congênita, como produzida por impressões precoces e, finalmente, de que ambos os fatores estejam asf)

[Esta parte obscura da frase parece ter melhor sentido com outra posição de seus elementos verbais. I iN. do T.: A organizadora, IIse Grubrich-Simitis, sugere a seguinte modificação da frase em alemão, o que não altera significativamente o texto em português: do original 'wo es sich inehr um Regression ais au] Entwlcklungshemmung hantlclt", para "ivo es sicli um mehr ais Regression au] Entwicklungshcmmung handelt" ... i 2 IEm "A Disposição à Neurose Obsessiva" (1913i, p. 110), Freud esclarece com franqueza: "Assim, nossas disposiçoes são inibições de desenvolvimento."]

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saciados. Tanto mais porque, pode-se afirmar, ambo efetivamente ubíquos. já que, [por um lado.] existem n criança todas as disposições e, pelo outro, as impressões igualmente a muitíssimas crianças. Trata-se, portanto, d um P UC ninl disso ou daquilo, além de um encontro mais eficaz. Como nin u 11 e 1 inclinado Ia! negar os elementos constitucionais, compele à 1//A dcf .nd 'I' o direito às aquisições infantis precoces. Deve ser admitido uc, I\U neurose obsessiva, o fator constitucional é mais claramente identifico I que 0 fator acidental na histeria de conversão. Ainda persistem dúvld« sobre as minúcias de distribuição. Onde se leva em consideração o elemento constitucional de fi aç. não !sei afasta o adquirido: retrcage para um passado ainda mais rcmoto, já que se pode justamente afirmar que disposições herdadas SL restos das aquisições dos antepassados. Com isso, chega-se ao problema da disposição filogenética atrás da individual, ou ontogenética, nu há contradição 1 quando o indivíduo adiciona às suas disposições herdadas, baseadas em vivência anterior, as disposições recentes derivadas d vivências próprias. Por que haveria de se desvanecer justamente n indivíduo cuja neurose examinamos o processo que cria disposições baseadas em vivências? Ou por que não haveria lesse indivíduo], qu cria disposições para seus descendentes, de adquiri-Ias para si pr I ri '? Parece muito mais uma complementação necessária. Ainda é imprevisível até que ponto a disposição filogenética p I' 2 contribuir para a compreensão dajs] neurosels]. Para tanto, seria tambén necessário que a reflexão ultrapassasse o domínio estreito das nem s U transferência. Além disso, a mais importante característica discrimiuatlv I das neuroses de transferência não pode ser considerada nesta s III ' porque, não se salientando no conjunto, só se destacarias por cornr I 1 com as neuroses narcisistas. Com essa ampliação do horizonte, ch gUI' 11 [ao] primeiro plano o relacionamento do eu com o objeto - o (lJ

1 INo meio da palavra, Freud escreveu (p. 7, I. 32) em vez de P I 1'1111 I j um t - talvez pretendendo a palavra "resistência", corrigindo-se depois.] /N, 10 '1',1 Widerspruch - "Contradição" e Widerstand - "resistência"] 2 INo manuscrito (f. 8, I. 9): "Wie weit die phylogenetische Dispas/t/oll 111111 Verstándnis 'der Neurosein) ... ·' está em vez de Z1//11 ("para a"), das ("li" 3 [Aqui seguem no manuscrito (f. 8, I. 18-20) duas partes de Ira C I' 'I 111 I "Ela está no apego do objeto. Relacionamento do eu com o objeto"] IN, di I',: As frases. em alemão são: "Er liegt in der Festhaltung des Objetas. V'rfullllll des lch zum Obiekt". O sujeito na primeira frase, er, refere-se à palnvrn "'1\1' I' terística"]

,I

/I


do objeto apareceria como o elemento discriminador comum. Vale aqui uma' elaboração preliminar; ,.... Espero que tendo notado pela forma maçante de muitos parágrafos como, as observações foram montadas de maneira penosa e feitas com muito cuidado, seja tolerante, permitindo que a crítica ceda ltigar à fantasia na apresentação de coisas incertas.vembora estimulantes, o ..que justifico, na medida em que se pode, assim, abrir novas perspec-

o"i~J!or,

tivas .. Ainda é legítimo supor que também as neuroses têm de prestar seu testemunho sobre a história do desenvolvimento da alma humana. Acredito agora ter demonstrado, no ensaio (Sobre os Dois Princípios 1) , que devemos atribuir aos impulsos sexuais do ser humano um desenvolvimento diferente dos impulsos do eu. A razão dessa diferença baseia-se essencialmente no fato de que os primeiros podem, durante um bom tempo, ser satisfeitos auto-eroticamente, enquanto os impulsos do eu não podem, desde o começo, prescindir do objeto e, com isso, da realidade. Creio termos aprendido em linhas gerais qual é o desenvolvimento da2 vida sexual do ser humano (Três Ensaios sobre a Teoria Sexual, 1190Sdl). Ê mais difícil perscrutar o desenvolvimento do eu humano,' isto é, das funções de autopreservação bem como das formações derivadas delas; ., Conheço somente a tentativa única de Ferenczi,3 que. aproveita para essa finalidade a experiência da 1j/ A. Naturalmente, nossa tarefa de com.l?rf:!ender as neuroses ficaria muito facilitada se a história do desenvolviinenfo<'do eu partisse de outra fonte, em vez de tomarmos direção inversa como precisamos proceder+ agora, Fica-se com a impressão de que a

I"Formulações sobre os Dois Princípios do Processo Mental", 11911bl IN. do T.: Veja o título original em alemão: Formulierungen iiber die zwei Prinzipien des psychischen Geschehensi 2 INo' manuscrito (I. 9, I. 10) der; Freud primeiro quis supostamente escrever "da sexualidade humana"] IN. do T.: der é o artigo definido feminirio genitivo: corresponderia, segundo a sugestão da organizadora, a der menschlichen Sexua• .litdt em vez de des menschlichen Sexuallebens, como ficou no texto editade.] 3 [Sándor Ferenczi (1913).1 . .-4 [Certamente o sentido é: "Nossa tarefa de compreender as neuroses ficaria muito facilitada se nos fosse dada li história da. evolução do eu a partir de outro lugar, em vez de termos de proceder agora na .díreção inversa" (isto é, tirando conclusões da pesquisa das neuroses para a história do desenvolvimento do eu). Possivelmente, Freud interpolou a parte da frase "compreender as neuroses" posteriormente no texto corrido, como era dc seu ·CQS\!1.w.e.'porém deixou de acrescentar um sinal de inversão.I'·

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história

do desenvolvimento da libido repete uma parte do desenvolvlmento [filogenético] bem mais antiga do que o do eu, o primeiro tLll~ z repetindo as condições dos animais vertebrados, enquarito o últim depende da história da espécie humana. Existe uma série à qual p d _ mos atar várias idéias de longo alcance. Essa série aparece quand colocamos as IPneuroses (não somente as neuroses de , transfer nela) .numa ordem de acordo com o momento! em que costumam se apr _ sentar na vida individual. Nesse caso, temos como a mais precoc ' neurose de angústia, a quase incondicional; segue-se-lhe a histeria- d conversão (mais ou menos a partir do quarto ano); e ainda um pouc mais tarde, na pré-puberdade (9-10 anos), aparece, nas crianças, 'a n ttrose obsessiva, Não há neuroses narcisistas na infância, Destas, a d _ mência precoce, em sua forma mais clássica, é [urna] doença da puberdade; a paranóia aproxima-se dos anos de maturidade como também a melancolia-mania. Não há precisão além desses casos. Portanto, a seqüência é a seguinte: Histeria de angústia Histeria de conversão Neurose obsessiva Demência precoce Paranóia MelancoliaMania. ,

As fixações inerentes às disposições dessas enfermidades também parecem organizar-se numa seqüência em que, no entanto, correm m sentido contrário,2 especialmente quando é considerada a disposição libidinosa. Em conseqüência, quanto mais tarde a neurose se apresentar, tanto mais a libido regridirá para uma fase mais precoce, Este aspect válido apenas em traços gerais. Sem dúvida, a histeria de conver I orienta-se contra o primado dos genitais; a neurose obsessiva, contr fase anterior sádica; todas as três neuroses de transferência, contra O 1. no desenvolvimento da libido. As neuroses narcisistas, por sua vez, 'trocedem às fases anteriores ao encontro do objeto: a demência pl' regride atéo auto-erotismo: a paranóia, até.a escolha homossexual C 111.11'. cisista de objeto; a melancolia baseia-se na identificação narcisista n .1 INo manuscrito (f. 9, I. 10) se lê der, pois' Freud escreveu prlm 11' "depois do tempo" c adicionou posteriormente punkt entre as linhas o mldu a modificação do artigo], IN. do T: O trecho assinalado em alemão 6: ",11, ,11 dem Zeitpunkt", Der refere-se ao artigo definido no caso dativo feminln ; Z /I é "tempc" c composto com- punkt transforma-se em, "momento". A rnodlfl uç do artigo foi para salvar a concordância. I ' 2 ' [Nêste lugar encontra-se no manuscrito (f. 10, I. 15) um DeLlI I/cll 101" mente ríscado.]

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objeto. As diferenças consistem em que, sem dúvida, a demência aparece mais cedo que a paranóia, embora sua disposição libidinosa retroceda a estádios mais primitivos, enquanto que a melancolia-mania não permite uma classificação temporal segura. Não se pode, portanto, sustentar que a série cronológica, seguramente existente, das Pneuroses seja somente determinada pelo desenvolvimento da libido. Até onde isso for procedente, poderíamos acentuar a relação inversa entre arribas. Também é conhecido o fato de que, com o avanço da idade, a histeria ou a neurose obsessiva podem se transformar em demência, mas nunca ocorre o contrário. Pode-se, no entanto, estabelecer uma outra seqüência, esta filogenética, que ocorre realmente em paralelo com a seqüência cronológica das neuroses. Apenas, para isso, é necessário divagar, bastando-se alguns elos hipotéticos. Foi o Dr. Wittelsl quem primeiro enunciou a idéia de que o primata teria passado sua existência num ambiente extremamente rico, satisfazendo todas as suas necessidades. O eco dessa situação temos no mito do paraíso original. Lá, ele pode ter superado a periodicidade da libido, que é ainda inerente aos mamíferos. Ferenczi,2 naquele trabalho mencionado, rico de pensamentos, expôs que o desenvolvimento ulterior desse homem primitivo realizou-se sob a influência dos destinos geológicos da Terra e especialmente as agruras dos tempos glaciais teriam exercido o estímulo para o seu desenvolvimento cultural. Pois é amplamente admitido que a espécie humana já existia na era glacial, tendo experimentado sua influência. Apresentando a idéia de Ferenczi, fica-se tentado a reconhecer ,3 nas três disposições para a histeria de angústia, a histeria de conversão e a neurose obsessiva, regressões a fases pelas quais toda a espécie humana teve que passar do começo ao fim dos tempos glaciais. Assim como naquela época todos os homens passavam por essa experiência, hoje somente uma parcela passa em virtude da predisposição herdada acionada por novas experiências. Os quadros não podem naturalmente ser superponíveis, porque a neurose contém mais do que a regressão traz consigo.

1 2

[Fritz Wittels (1912). Cp. especialmente" introdução, p. 1·19.! INo manuscrito (f. 11, I. 22), o nome é sublinhado neste lugar. Nas redações passadas a limpo, que serviam como modelo para a composição. Freud costumava destacar os nomes, sublinhando-os, para o compositor gráfico.] 3 [No manuscrito (I. 11, I. 38) está antes de "reconhecer" um "ver" riscado.]

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Ela é também a expressão da resistência contra t:SS8 rcgrcssã , um ' 11 promisso entre as coisas antigas dos tempos primitivos e a exi ÚI1(.:1 Id culturalmente novo. Essa diferença cunhar-se-á de maneira mais lntcn I na neurose obsessiva, a qual, como nenhuma outra, fica sob O signo di contradição interna. A neurose deve resgatar o quadro primitivo a~é li I o reprimido nela conseguiu vencer.

11.)1 Como primeira colocação, afirmaria, portanto, que sob u in· fluência das privações impostas pelo desencadeamento da era glacial 11 humanidade em geral tornou-se angustiada. O mundo externo, que 1'(1 até então preponderantemente amistoso, propiciando qualquer satisf'aç transformou-se num acúmulo de riscos iminentes. Havia toda razão pUI' \ a angústia real diante de qualquer fato novo. A libido sexual, contud , não perdeu de imediato seus objetos, sabidamente humanos, porém compreende-se que o eu ameaçado na sua existência acabaria desistindo, até certo ponto,1 do investimento objetal. Mantendo a libido no eu, transformou em angústia real o que antes havia sido libido objetal. Vemo, pois, na angústia infantil, que a criança, no caso de ausência de sati ' fação, não só transforma a libido objetal em angústia real diante de al estranho, como também tende em geral a angustiar-se diante de qualquer coisa nova. Temos sustentado uma longa discussão a respeito de qual é a primeira: a angústia real ou a angústia nostálgica. Se a criança trans formar sua libido em angústia real, é porque para [ela] sua líbid : demasiadamente grande, perigosa, chegando assim à representaçã perigo; ou, ao contrário, cede a uma angústia de natureza mais UI'11 e por esta aprende a temer sua libido insatisfeita. Inclinamo-nos a accl lI!' a primeira, antepondo a angústia nostálgica, mas para isso falta-nos unn disposição especial. Teríamos de explicá-Ia como uma inclinação infuII11I geral. Contudo, a consideração filogenética parece reconciliar cstu 11 cussão em favor da angústia real c faz-nos supor que uma pare 'lu ItI crianças traz consigo aquele temor primitivo da era glacial, o qu IpUI'tI induz a tratar a libido insatisfeita como um perigo externo. cxc o relativo de libido proviria da mesma base, possibilitando novas nqul ções à angústia. Pelo menos, a discussão sobre a histeria de UI1I (I I I falaria a favor da preponderância da disposição filogenética sobre I 11 os demais fatores. 1 [Neste riscado.]

lugar não há no manuscrito

(F. 13, 1. I) uma vírgula, p 1'6m UIIl

I'


-- ~- --- -~-----

2) Com a continuação dos tempos difíceis, o homem primitivo. ameaçado em sua existência, precisou resignar-se diante do conflito entre a autopreservação e o prazer de procriar, o que encontra expressão na maioria dos casos típicost de histeria. Os gêneros alimentícios não eram suficientes para permitir um aumento das hordas humanas, e as forças individuais eram insuficientes para manter vivos os desamparados. A matanca dos recém-nascidos certamente encontrou resistência no amor, \ '. ., particularmente das mães narcisistas.2 Daí, a limitação da procriação tornou-se um dever social. As satisfações perversas, que não levam à procriação; escaparam às proibições, o que promoveu uma certa regressão para a fase de libido anterior ao primado dos genitais. A limitação tinhaã de afetar às mulheres mais duramente que aos homens, estes menos preocupados com a conseqüência da relação sexual. Essa situação toda corresponde evidentemente às condições da histeria de conversão. Da sintomatologia da mesma deduzimos que o homem ainda não possuía a fala, quando, vencido pela necessidade, se impôs 'não procriar, portanto ainda não havia erguido o sistema pcs acima do ics. Sob a influência das proibições regridem para a histeria de conversão os qtle estiverem com essa disposição, especialmente a mulher. Essas proibições pretendem desligar a função genital, enquanto impressões precoces, muito estimulantes, pressionam para a atividade genital. 3) O desenvolvimento seguinte é fácil de construir. Refere-se principalmente ao homem. Depois de ter aprendido a poupar sua libido e .2 reduzir sua atividade sexual através da regressão a uma fase anterior, a inteligência ganhou para ele o papel principal. Aprendeu a pesquisar, a entender de alguma maneira o mundo adverso+ e a assegurar para si _ 'através das invenções um primeiro domínio sobre esse mundo. Desenvolveu-se sob o signo da energia, formava os princípios da linguagem e precisava prestar grande importância às novas conquistas. A linguagem era para ele magia; seus pensamentos pareciam-lhe onipotentes; com1 [Esta palavra encontra-se no manuscrito (f 14, I. 7) depois da palavra Fallen ("casos"), porém foi colocada no lugar certo através do sinal de inversào.] 2 [Também aqui esta palavra "narcisistas" consta n.o manuscrito (f. 14, I. 15) da forma escrita na nota anterior, colocada em posposição.] 3 [Neste lugar encontra-se no manuscrito (f. 14,: entre as I. 22 e 23) a palavra "abstinência"] 4 [Aqui no original está (f. 15, I. 11 e 12) "mundo hostil", isto é, de novo Freud colocou o adjetivo depois do substantivo, sem assinalar a inversão.] IN. do T.: contrariando exigência da gramática alemã (Welt [eindliche ao invés de [einâliche Welt).1

==----...,

preendia o mundo através de seu próprio eu. E a época 'da cone r anímica do mundo e de sua técnica mágica. Como recompensa p 1 poder de proporcionar proteção de vida a tantos desamparados, arr \va-se domínio ilimitado sobre eles, defendendo, através de sua pcrs 110lidade, as duas primeiras .norrnas: sua inviolabilidade e que não pud ser negado a ele dispor.' das mulheres. No fim dessa época, a .humanldade era dividida em. hordas isoladas, as quais eram dominadas p r um homem sábio.l forte e brutal, como pai. É possível que a naturezadesconsiderada, ciumenta e egoísta,2 que as ponderações ,d~ psicol gia popular atribuem ao pai primitivo da horda humana, não existisse desde o começo, senão que, adaptando-se às necessidades, moldaram-se no percurso dos difíceis tempos glaciais. Ora, a neurose obsessiva repete as características des~n'~fase da humanidade, uma parte da mesma de forma negativa já queé- neuros , [na configuração I da formaçâoz de [suas] reações, também representa ti resistência contra esse retorno. São traços não modificados: acentuação exagerada do pensar; a energia gigantesca, retomando n~4 compulsão: a onipotência do pensamento; a tendência para. leis> invioláveis. Porém, contra os impulsos brutais, os quais querem substituir a vida sexual, opõe-se a resistência de desenvolvimentos posteriores. Estes partem d conflito libidinoso, paralisam a energia vital do indivíduo e consent m apenas naqueles restos de impulsos através da obsessividade, deslocad s para insignificâncias. Assim como o tipo grandioso do pai primitivo, qu

[Freud acrescentou no manuscrito (f. 15, I. 33) "sábio" (weisen), no margem, e assinalou que essa palavra deveria ficar antes da palavra "brutol" (bruta/en)·1

2 ICr. uma passagem em Psicologia' de Grupo e a Análise do Ego (I I, p, 115), em que Freud diz do pai da horda primeva "que seu ego possuía pcu vínculos libidinais; ele não amava ninguém, a não ser a si próprio, ou li utr pessoas, na medida em que atendiam a suas necessidades"] 3 INo manuscrito (F. 16, L 9), está a expressão "formação de reações" (I~(l(lk. tionsbildungen) escrita acima e de forma enviesada no começo da <linhn hr diese Wiederkehr ("este retorno"). Entretanto, Freud não indicou em que lUI1\ essa palavra deveria ser interposta.] 4 [Freud escreveu (I. 16, 1. 11) primeiro ais ("como"), palavra qll riscou e substituiu por im ("na").1 5 [Lembrou-se Freud, um pouco mais tarde, do quarto elernent enumeração: "a inclinação para leis invioláveis". Conforme seu hábito, rcglstr então no texto corrente depois de "evoluções", grifou-o e o situou no lugllr com um traço. Compare o fac-símile do manuscrito (f. 16, I. 12-17).1

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realmente sucumbiu nas relações familiares criadas por ele próprio, ressuscita depois como divindade, assim também sucumbe esse tipo humano, o mais valioso para o desenvolvimento da cultura, em seu retorno, diante das exigências da vida sexual. 4) Chegamos até este ponto na realização do programa previsto por Ferenczi de "colocar em harmonia os tipos neuróticos regressivos com a história do gênero humano",1 talvez sem nos perdermos em especulações demasiadamente ousadas. Mas para as demais neuroses narcisistas, que surgem ainda mais tarde, faltaria, porém, uma ligação. Precisaríamos recorrer à hipótese de que a disposição para elas é adquirida de uma segunda geração, cujo desenvolvimento nos transporta para uma nova fase da cultura humana. Essa segunda geração começa com os filhos, aos quais o pai primitivo, ciumento, nada permite. Expusemos, em outro lugar (TeT),2 que pie os expulsa quando chegam à idade púbere, em substituição a essa solução. A experiência da 1JI A nos adverte, porém, sobre uma outra, ainda mais cruel, isto' é, a de que ele os despoja de sua virilidade, dessa forma podendo permanecer na horda como inofensivos trabalhadores auxiliares. Podemos certamente imaginar o efeito da castração naquele tempo primitivo como uma extinção de libido e uma parada no desenvolvimento individual. A demência precoce parece repetir esse estado de coisas, e, principalmente na forma hebefrênica, leva à desistência de qualquer objeto de amor, involução de todas as sublimações e volta ao auto-erotismo. O jovem comporta-se como se tivesse sofridoa castração; na verdade, não são raras as autocastrações reais nessa afecção. Os outros aspectos da doença, como as alterações da fala, os surtos alucinatórios, não devem ser referidos ao quadro filogcnético, pois correspondem à tentativa de cura, aos diversos esforços para recuperar o objeto, os quais, durante [algum] tempo,3 no quadro sintomático da doença, quase se destacam mais que os fenômenos da regressão. Há uma questão ligada a tal tratamento dispensado aos filhos que deve ser respondida de passagem. Como ocorreriam a sucessão e a substi1 IS. Ferenczi,

1913, p. 161. O trecho citado é um pouco diferente:

"Provavelmente conseguiremos um dia colocar em paralelo cada uma das etapas da evolução do eu e os tipos neuróticos regressivos com as etapas filogenéticas da humanidade" .1 2 ITotem e Tabu (1912-13).1 3 [Esta palavra está no original (f. 17, I. 37) acrescentada na margem. Não é claramente visível, no manuscrito, onde Freud a quis interpor.]

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tuição dos pais primitivos, caso se livrassem dos filhos dessa maneira P l , á Atkinson 119031 mostrou o caminho, destacando que somente os filho mais velhos tinham de temer as perseguições do pai, Enquanto o mais jovem de maneira esquemática - graças à intercessão da mãe antes de mais nada, pelo envelhecimento do pai e de seu conseqüent desamparo, tinha a chance de escapar a esse destino e tornar-se sucessor do pai. Esta preferência pelo mais jovem foi basicamente afastada na , estrutura social subseqüente e substituída pelo privilégio do mais velh . No mito e no conto de fadas, contudo, permanece ainda bem reconhccível. 5.) O passo

seguinte poderia consistir apenas na fuga dos filhos ameaçados de castração, 'aprendendo a assumir juntos a luta pela vida. Essa convivência tinha de produzir [os] sentimentos sociais e podia estar edificada na base de satisfações homossexuais. É bem possível que nos deparemos com a tão procurada disposição hereditária à homossexualidade na transmissão das condições dessa fase. Os sentimentos sociais. assim produzidos na sublimação da homosexualidade, tornam-se mais tarde propriedade permanente da humanidade e a base de toda sociedade futura .. A paranóia recupera visivelmente as condições dessa fase; melhor dito, a paranóia defende-se contra o retorno da mesma, na qual-não falt~m alianças secretas e o perseguidor representa um magnífico papel. A paranóia tenta repelir a homossexualidade, que era a base dessa fraternidade e, ao mesmo tempo, tem de expulsar da socicdade o acometido de homossexualidade e2 destruir suas sublimações sociais. da melancolia-mania nesse contexto esbarra com a dificuldade de que não é possível determinar com certeza a épo fi normal para o aparecimento individual desses sofrimentos neuróticos. Mas, seguramente, é mais na idade adulta que na infância. Se observarmos bem a mudanca característica da depressão para :;1 euforia, é difícil ;-/

6.) A classificação

1 IA isso refere-se 11 indicação de Freud na carta que acompanhou O 111 • nuscrito (atrás, p. 9) onde o reparo de Ferenczi teria sido acolhido. Para mal pormenores compare o trabalho "Metapsicologia c Metabiologia" a seguir, p. 8 .1 2 [Este "e" tund) está no manuscrito (f. 19, I. 10) no fim do parágrn] . Supostamente Freud quis interpolá-lo no lugar acima; falta porém o sinal u invcrsão.]

3 i"Neurótico" neste lugar é evidentemente rose e não de neurose de transferência.]

usado no sentido

de p I

neu-

7


/ não! nos lembrarmos da sucessão semelhante de triunfo e luto que forma o conteúdo regular das festividades religiosas. Luto pela morte de Deus; alegria triunfal na sua ressurreição. Concluímos, a partir do que a:irm_a ~ psicologia dos povos, que esse cerimonial apenas repete na direção inversa o comportamento da fraternidade, após terem. dorninadoã e 1:1ata~0 o pai primitivo; triunfo sobre sua morte e em seguida luto, 'pOIS todos o admiravam como tipo ideal. Assim, esse grande acontecimento da história da humanidade, que pôs fim à horda primitiva e a substi.tuiu ~ela fraternidade"vito~'ios~:daria origem às predisposições da peculiar .sucessão de estado deãflii~bl!1qi.te reconhecemos como particular~s afecções narcisistas ao lado das parafrenias. O luto peloõ pai priminvo emana da identificação c6iTI elefé tal identificação provamos ser a condição do mecanismo da melancolia.4 ~

Resumindo, podemos dizer o seguinte: se as disposições para as três neuroses de transferência foram adquiridas na luta contra as necessidades dos tempos glaciais, então as fixações, nas quais se baseiam as neuroses narcisistas, originaram-se da opressão do pai, o qual, após o término da era glacial assume, continua, por assim dizer.> tal papel contra a segunda geração. Da mesma forma como a primeira luta leva para a fase cultural patriarcal, a segunda leva à social. Ambas, contudo, produzem as fixaçõesrasquais, em seu retorno, após milênios, transformamse nas disposições dos dois grupos de neurose. Portanto, neste sentido, a neurose é também uma aquisição cultural. Se o paralelo aqui esbocado não é mais que' uma comparação lúdica na medida em que não consegue iluminar; o enigma das neuroses, deve ceder o esclarecimento às futuras pesquisas e novas experiências.e

l INo original (p'" ''l:g, I. 20) "em não" (an uicht); Freud não acrescentou seu sinal de inversão.] 2 iFreud escreveu aqui (f. 19, I. 32), primeiro iiberiallen ("assaltado"), riscou [allen e a substituiu por wáltigt (produzindo assim "vencido", "dornlnado'ü.] 3 [Freud escreveu antes (f. 20, I. 6) em lugar de um ("pelo") iiber ("sobre").! ' '4 IEm "Luto e Melancolia" (1917e !19151), um outro trabalho metapsicológico de 1915,.que já estava encerrado quando Freud escreveu o presente rascunho.] '. 5 [Este "por assim dizer'('(gleichsam) foi evidentemente anotado depois, na margem esquerda da folha dcmanuscrito (p,20, I. 19). Não é claramente iclentificável onde Freud quis interpolã-lo.] ' 6 jNo manuscrito (f. 20, I. 35) está aqui em longo traço horizontal, sinal de Freud para indicar o fim do manuscrito, O que se segue, agora, é o acréscimo

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Agora é O momento de se pens~r [numa] sene de objeções, lembrando que não devemos superestimar as deduções às quais chegamo. Antes de tudo, qualquer' um pode [se dar] conta de que a segunda sérí de disposição ligada à segunda geração só de homens (como filhos) não poderia procriar, enquanto a-demência precoce, a paranóia e a melancolia, da mesma forma, poderiam ser produzidas por mulheres. As mulheres viveram nos tempos primitivos em condições ainda mais desiguais, que hoje. Dessa forma, há nessas disposições uma dificuldade da qual as [do] primeiro grupo estão livres: elas parecem ser adquiridas emcondições que excluem a hereditariedade. Ê evidente que os filhos castrados e intimidados não chegam a procriar e, portanto, não podem propagar sua disposição (demência precoce). Tampouco pode o estado 'P dos filhos expulsos, ligados entre si pela homossexualidade, influenciar as gerações subseqüentes, pois, enquanto não triunfarem sobre o pai, extinguem-se como ramos colaterais inférteis da família, Havendo esse [ri nfo, deverá ser uma experiência de uma geração.Fna medida em que se torn+â forçoso impedir 'i! multiplicação ilimitada. Como podemos facilmente imaginar, não precisamos ficar intimidados por esse beco escuro. No fundo, a dificuldade coincide com uma outra já levantada anteriormente, ou seja, como esse pai ciumento da era glacial teve continuidade uma vez; que, obviamente, não era imortal como sua cópia divina. Mais uma vez, apresenta l-se I o filho mais jovem que vÚ'á a se' tornar pai, e, embora-não tenha sido castrado, conhece o destino dos irmãos mais velhos e o teme para si próprio. Da mesma forma, deve ter enfrentado a tentação, renunciando à mulher, ou fugindo como seus irmãos mais velhos. Assim, ficava ao Iado dos homens decaídos e inférteis uma outra cadeia, a qual, constituída por indivíduos qu , mesmo passando pelo destino dos homens, podiam legar esse déstin I bem como a disposição. Continua válido o ponto de vista de que, para ele 10 filho mais jovem], fica substituída a penúria da época pela opressã i,:

paterna. O triunfo sobre o pai deve ter sido fantasiado-e planejado atrav de gerações, antes de sua realização. Estender à mulher as disposl õ produzidas pela opressão paterna parece criar ainda maiores diíiculd • des. Os destinos da mulher naqueles tempos primitivos ocultam-se pnr nós num mistério especial. _Assim queremos levar em consideração O I·

anunciado na carta que acompanhou o manuscrito (p. 9), uma reação à curtn Ferenczi. Para maiores detalhes, compare outra vez, adiante, p. 91.1

d

81


i

dições de vida que não conhecemos. Mas a mais grosseira dificuldade é-tlQs ensoberbada pela observação de que não devemos esquecer a bissexualidade da humanidade. É assim que a mulher pode herdar as disposições adquiridas pelo homem, assumi-Ias e mostrá-Ias nela mesma. Entretanto, fique evidente que com esses esclarecimentos nãoconsegÚlremos senão salvar nossas' fantasias científicas da censura de que são absurdas. Em todo caso, elas mantêm seu valor como desilusão saudável, se, indo por lesse! caminho: pusermos a disposição' filogenética acima de túdo. As coisas nãoí se passam de maneira a que as constituições areaicas retomem hoje.em indivíduos, por exemplo, em proporções pré-estabelecídas, empurrando-os para a neurose. através do conflito com as exigências atuais. Há lugar para novas aquisições e novas influêncías.tas quais não conhecemos. Contudo, não alcançamos um ponto final; antes, estamos no princípio de uma compreensão desses fatores filogenéticos. -,

ILSE GRUBRICH-SIMITIS

Metapsícología

e Metabíologia

Para o rascunho de Sigmund Freud sobre "Neuroses de Transferência: uma Síntese"

1 JNo manuscrito (f. 22, I. 37) este "não" colocado antes do começo da linha.j

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(nicht)

foi talvez mais tarde


Um texto de Sigrnund Freud, até agora desconhecido, de uma de sua fases .de criação mais produtivas, será certamente, em pouco tempo, objeto de cuidadosa exegese, apesar de tratar-se apenas de um rascunho fragmentário e não do texto passado a limpo do perdido décimo segundo trabalho metapsicológico de 1915. Para facilitar a compreensão e o acompanhamento desta primeira publicação, vou esboçar o contexto em três níveis parcialmente sobrepostos: o contexto biográfico; o contexto da própria obra e o contexto histórico-científico.

o

contexto

biográfico

A primeira guerra mundial durava já alguns meses, quando Freud, no final de 1914, fez menção pela primeira vez, em cartas dirigidas a seus colaboradores e discípulos, de seu projeto de uma série de trabalhos sobre metapsicologia, os quais havia começado a escrever após o términ do estudo sobre narcisismo (1914c) e do caso clínico do homem cl lobos (1918b /1914/). ALou Andreas-Salomé menciona vagamente ainda em 25 de novembro: "Eu trabalho em segredo em coisas avultadas possivelmente substanciosas" (1966a, p. 23). Mal se passara um m , e já se encontra em uma carta dirigida a Karl Abraham um qu dr conciso dos assuntos centrais do plano da metapsicologia: "Recentern nt obtive um conceito dos dois sistemas, conscientes (cs) e inconsci li! (ics), tornando-os quase palpáveis e com cuja ajuda penso que enc ntr I uma solução simples para a relação da demência precoce com a r 011dade. Todos os investimentos em coisas formam o sistema ics, enquant a ligação dessas representações ics com as representações de palavr I traz a possibilidade de torná-Ias cs. A repressão nas neuroses d tr II • ferência consiste na retração da libido do sistema cs, isto. é, na scp I' das representações de coisas das representações de palavras. A r pr


nas neuroses narcisistas,. pela subtração da libido das representações de coisas ics, apresenta, naturalmente, uma perturbação muito mais profunda. Por isso, a demência precoce altera em primeiro lugar a linguagem e trata a totalidade das, representações de palavra como a histeria trata as representações de coisas, ou seja, submetendo-as ao processo primário através da condensação, deslocamento, descarga, etc ... " Resumindo e antecipando o resultado final, continua: "Uma teoria das neuroses com capítulos sobre os destinos da pulsão e da regressão e sobre o ics poderia ser levada a cabo se o prazer de trabalhar não for vencido pelo mau humor." (1965a, p. 198). De fato, Freud julgava, durante essa fase, sua capacidade de trabalho permanentemente ameaçada pelo mau humor. Suas ligações internacionais minguaram ou romperam-se completamente. A maioria de seus colaboradores foi chamada para o serviço militar. Confessou aLou Andreas-Salorné que se sentia "freqüentemente tão só como nos primeiros dez anos, quando havia um deserto ao meu redor, embora es, tivesse mais jovem e ainda dotado de infinita energia e perseverança" (1966a, p. 35). E numa carta para Ernest [ones de 25 de dezembro de 1914, diagnosticou: "Para mim está bem claro que o tempo de florescimento de nossa ciência foi, agora, bruscamente interrompido e estamos indo ao encontro de um mau período no qual nada mais nos resta, senão manter as brasas em algumas lareiras isoladas até que um vento mais favorável permita reacendê-las numa grande fogueira." Na mesma carta, Freud se queixa sobre uma outra razão para o seu mau humor, isto é, sobre o drástico recesso de seu consultório analítico: "Como pode imaginar, meu trabalho como médico reduziu-se para um tempo diminuto de duas a três horas diárias 1 ... 1 Suporto essa restrição com a máxima dificuldade, uma vez que há vinte anos acostumei-me a trabalhar abundantemente e não me é possível utilizar mais do que uma fração de meu tempo para a produção científica."l Finalmente, uma terceira razão para estar tão "casmurro": pela falta de novos manuscritos, Freud temia pela sobrevivência das revistas especializadas em psicanálise, como a lntemationalen Zeitschrijt jür iirztliche Psychoanalyse e a lmago:

1 Devemos gradecer a Sigmund Freud Copyrights Ltd., Colchester, pela permissão do exame desta carta, parcialmente ainda não publicada. (A ortografia e a pontuação foram ajustadas com cuidado aos costumes modernos; as abreviaturas foram, na maioria dos casos, escritas por extenso; os acréscimos editoriais foram colocados entre barras. Isso vale também para todas as demais citações.)

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"Arnbasdevem suas vidas à misericórdia de um editor honrado, 1111 r \ instável" (l966a, p. 38 e seg.). Começando no final de 1914 a se!' v I' a série de seus trabalhos meta psicológicos, Freud combateu, a m m tempo, as várias causas de seu mau humor. Com tanta ênfase, que I mencionava de forma autocrítica que "todos esses trabalhos pau I sob a falta de meu bom humor e de sua função de auto-atordoam nto" (ib., p. 39). Apesar de o vestígio dessa fadiga se encontrar na maior part d sua correspondência, em lugar algum ela está tão profundamente gravad como nas cartas que Freud trocara naquele tempo com o psicanali ta húngaro Sándor Ferenczi. Em 31 de julho de 1915, logo após enviar :a Ferenczi seu rascunho sobre Neuroses de Transferência: uma Sinte a, .ç,Qmenta Freud: "0 senhor é o único que ainda trabalha ao meu lado." Os extratos da correspondência inédita, indispensáveis para a compreensão do texto descoberto, mostram em que grande escala Ferenczi, por sua maneira dc pensar e sua formação cultural, estava predestinado O ser o interlocutor indispensável de Freud, especialmente nas reflexõe sobre o tópica da filogenética do manuscrito.t Na mesma data da já referida carta aLou Andreas-Salomé, Frcud mencionou a Ferenczi seu novo projeto com um misto de prazer e mistério, algo que "estaria se formando e sobre o que ainda não se podcrla falar" "Apenas quero lhe confidencial' que, finalmente, por carninh há muito batidos, encontrei a decifração do enigma do tempo e do e paço e do mecanismo há tanto procurado do desencadeamento da angústia." Entretanto, poucos dias depois, em 2 de dezembro de 1 14, teve de admitir: "Aconteceu comigo algo parecido com o que acontcc I aos alemães na guerra. Os primeiros sucessos foram sui preenderucrn li! grandes e fáceis, seduzindo-me para continuar o avanço. Agora che LI I a coisas tão duras e opacas que não tenho certeza se vou ultrapassá-Ia ,li Contudo, logo poderemos ler, em 15 de novembro, que seu trabnll ( volta a progredir, com mais otimismo, retomando aquela metáf ra I lica com certa alegria que hoje nos soaria estranha, dizendo que "y 11 novamente bem com o trabalho". "Vivo, como meu irmão diz, m 111. nhas trincheiras particulares. Refletindo e escrevendo, rompi c 111 II I após duras lutas, a primeira linha de enigmas e dificuldades. A 811 í I I,

1 Devemos agradecer a Sigmund Freud Copyrights, Colchestcr: ""Id Londres, e à Sra. Iudith Dupont, Paris, pela permissão de citar a transcrlç revisão de seu texto literal com as cartas originais não foi possível).

n I

11111, 11111 ,

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a histeria e a paranoia capitularam. Vamos ver até onde poderemos levar os êxitos. Com isso, muita coisa bonita apareceu: a escolha da neurose, as regressões completamente elaboradas I .. ·1." Pelo ano-novo de 1915, Ferenczi convidou Freud "para variar I .. ·1 nestes tempos opressivos e difíceis" para uma visita a Budapeste. Freud declinou telegraficamente e justificou-se numa carta de 11 de janeiro, dizendo que "sur itamente írrompeu uma erupção de, idéias I,.. ·1 depois de uma longa pausa, de conteúdo tão significativo que fiquei ao primeiro instante ofuscado. I'ratava-se nada menos que da metapsicologia da consciência I ~ .. 1. Quando, dois dias depois, pus mãos à obra, veio' a desilusão. O assunto era tão refratário a qualquer exposição e mostrava tantas lacunas c dificuldades que desisti I ... '1". No dia 18 de fevereiro, Freud enviou a Ferenczi uma "página sobre melancolia", pelo visto um rascunho dos pensamentos que mais tarde foram elaborados em "Luto e Melancolia" (1917e 11915j) e, no dia 8 de abril, se lê o seguinte: "Terminei I ... i o segundo artigo de minha série sintética. Trata da repressão (1915d). O primeiro foi 'Pulsões e os Destinos das Pulsões' (1915c), mas o que mais terá minha afeição será o terceiro, onde se trata 'do inconsciente" (1915e)," Já em 23 de abril, segue a notícia: "A série: pulsão, repressão e inconsciente está pronta. A primeira peça que já foi composta pela Zeitschrift está em suas mãos; as outras duas estão na pasta da redação. A introdução sobre 'pulsões' não é lá muito tentadora, mas em continuação vem muita coisa. Tornouse necessário um quarto trabalho, que já está esboçado, no qual compara-se o sonho com a demência precoce) Vai junto com a metapsicologia. A revista está por mim abasteci da por um ano. Vivant Sequentes."*-Mal dois meses se passaram e Freud, em 21 de junho, pôde anunciar mais uma expansão da série: "Dez dos doze ensaios estão prontos, dois dos quais (consciência e angústia), entretanto, precisam de um remanejo. Acabo de terminar a histeria de conversão, faltando ainda a neurose obsessiva e a síntese das neuroses de transferência. Embora tenha certas peculiaridades, há qualquer coisa aí, mas não o acabamento certo." Em carta de 10 de julho, pôde Freud constatar que somente onze dos doze ensaios estavam terminados - "ou mais ou menos isso". Dois dias mais tarde, pela primeira vez ele se estende detalhadamente sobre o décimo segundo ensaio. Para possibilitar a comparação

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"Suplemento Metapsicológico para a Teoria dos Sonhos" [Em latim: "Que vivam os seguintes" (N. do T.).!

(1917d

!19151>.

do texto com o rascunho e para facilitar a compreensão do cont discussão que se segue, essa carta será aqui reproduzida em seu teor)

J1

12 de julho de 1 1 Caro amigo No preparo de Neuroses de Transferência: uma Síntese, tenh me ocupado com fantasias que me perturbam e que dificilment resultarão em algo para o público. Portanto, observe: dispost em ordem cronológica de aparecimento, existe uma seqüência relacionada com doentes singulares, cujo percurso é o seguint : Histeria de angústia - Histeria de conversão - Neuros obsessiva Demência precoce Paranóia M lancolia-Mania, As respectivas disposições libidinosas correm, em geral, 11 direção inversa, isto é, nas primeiras, a fixação localiza-se nas fases tardias do desenvolvimento; e nas últimas, em fases prccoces, o que não ocorre de forma irrepreensível. Em contrapartida, parece que essa seqüência repete filogen ticamente um desenrolar histórico. O que hoje são neur a eram fases do estado da humanidade. Com o advento das privações da era glacial, os homens t01'l1 ram-se angustiados, uma vez que tinham motivos de s br 1 para transformarem libido em angústia. Quando aprenderam que a procriação era agora inimiga I manutenção e que precisavam se limitar, tornaram-se - alnd , sem linguagem - histéricos. Depois de terem desenvolvido fala e inteligência na dui cola das eras glaciais - essencialmente os homens - f rm I ram a horda primeva com as duas proibições do pai prlmltlv , enquanto a vida libidinosa tinha de continuar agressiv -

1 Ela Ia carta! já foi anteriormente impressa no v. 3 da biografia d I',' 'I I. de Ernest [ones (1962b, p. 385 e segs.), contudo dentro de urna apl' S nlll,' 111 unilateral do papel de Ferenczi corno colaborador, nessa época.


tica. Contra esse retorno defende-se a neurose obsessiva. As neuroses seguintes pertencem à era nova e foram adquiridas pelos filhos. Foram, em primeiro lugar, coagidos sobretudo a renunciar ao mesmo objeto sexual, eventualmente através da castração, privados ele-toda libido: demência precoce. Expulsos pelo pai, aprenderam a se organizar em base homossexual. Contra isso, se defende a paranóia. Finalmente subjugaram o pai, superaram-no pela identificação, triunfaram sobre ele e ficaram enlutados por ele: melancolia-mania. Pessoalmente, além disso, nada tenho de novo. Seus direitos autorais, no acima exposto, são evidentes. \

Cumprimento-o

cordialmente, Freud

Três dias mais tarde, Ferenczi mencionava em sua carta-resposta o "maravilhoso encadeamento de todos os tipos de neurose, pensadas como fases do desenvolvimento da humanidade", de Freud. Em tão poucas palavras, demonstrando que Freud não havia ficado satisfeito, exorta o amigo, em 18 de julho: "teria gostado de ouvir mais sobre sua opinião a respeito da fantasia filogenética." A reação de Ferenczi vem prontamente em 24 de julho: "Sua observação de que teria gostado de ouvir mais sobre o plano de trabalho que o senhor chama fantasia filogenética é justa. Limitava-me a expressar minha alegria quanto a que minhas fantasias ontogenéticast ganharam tão rapidamente uma irmã filogenética. Também por ora não posso dizer muito mais, mas acho que a analogia entre as supostas fases da situação da humanidade e2 as neuroses é extraordinariamente sedutora." Tecendo, adiante, a fantasia filogenética de Freud, com a missão secularizante da psicanálise, esboça na verdade a form de uma utopia iluminista: "A fase de angústia, a fase de histeria I Refere-se ao trabalho de Ferenczi sobre "Etapas do Desenvolvimento do Sentido da Realidade" (1913), indicado por Freud anteriormente no rascunho para Neuroses de Transierência: uma Sintese (p. 73 e p. 78 e segs.) e também aos estudos "bioanalíticos" de uma teoria do coito, os quais muito o ocuparam naquela época, referindo-se a Freud ocasionalmente nas cartas desse tempo. Esses estudos, porém, foram somente publicados em 1924 no Ensaio sobre uma Teoria Genital. Ver adiante na parte intitulada "Sobre o Contexto da Obra". 2 Na transcrição neste lugar está: mit ("com").

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e a fase obsessiva - aliás já supostas na criança - pareceram-me li diatamente evidentes. Inteiramente nova e surpreendente é a colo e t em paralelo da luta contra o pai com os tipos de neurose mais tardios, fase religiosa da humanidade (na qual ela ainda se encontra metida), c J1l a consciência exagerada do pecado, parece-me ser a última ramifícaç da melancolia. A psicanálise significa o começo da convalescença da humanidade, sua libertação da religião, da autoridade (injustificada) da revolta exagerada contra a mesma, portanto, o começo da fase cicntífica (objetiva)." Em seguida, ele formula uma objeção.l assim como alguns elem n· tos complementares: "Apenas a analogia entre a demência precoce e a castração não me parece evidente. Os castrados, claro, não podem ter-s reproduzido e seu estado ter-se fixado filogeneticamente. Certamente, o senhor se refere ao medo da castração. Pois a perda da mãe pode ter causado nos filhos expulsos completa perplexidade e regressão para o narcisismo. Pergunta-se, porém, como essa fase poderia ter-se fixado filogeneticamente, assim como fica enigmática a fixação da homossexualidade se não se presumir que alguns homossexuais continuaram biss xuais e conseguiram procriar. Ou então poderia ser que cada uma dessas fases tenha criado alguns 'criminosos', os quais, sem entrarem pela tcndência da época, copulavam com a mulher (mãe) livremente. (Bdipo, rapto das Sabinas.)"2 Freud agradeceu brevemente em 27 de julho: "Seu depoim nt , muito aguardado, sobre a seqüência filogenética, foi muito bern-vind adiantou ainda mais o assunto." No outro dia, ele enviou a Fercnczl o rascunho. E no dia 31 de julho, encontrarno-lo encerrando o assunt : "A resposta a sua crítica da seqüência filogenética o senhor encontrur no rascunho que lhe envio." Ferenczi visivelmente reagiu a isso I uma carta longa e interessante, pedindo a Freud que a devolvesse, J J nela constavam pensamentos que ele pretendia desenvolver em cstud próprios. Freud atendeu a esse pedido em 9 de agosto: "A contra L .devolvo ao senhor sua carta cheia de conteúdo, na qual reconheço I E o reparo que Freud, em sua pequena carta no verso da última Colh(\ I rascunho (p. ~h,designa como: "Por sorte sido previsto". 2 Freud tentou desfazer essas dúvidas com uma lógica por vezes um 11 sofisticada, acrescentando uma nova parte ao seu rascunho, mais prccl 1111 111 as folhas 21 e 23 do manuscrito (como Freud indica na carta que acom] 11111 \I as remessas). Essas folhas correspondem às passagens nas p. 81-2, 11 P \l'III' I "Agora é o momento ... " até o fim do texto.


oe

triz de alguns trabalhos importantes." fim: "Os doze ensaios estão prontos,

1 Laconicamente,

lê-se então,

no

por, assim dizer."

Depois, cresce na correspondência o silêncio sobre os escritos metapsicológicos. Em 31 de outubro, quando Freud sugere a Ferenczi "meter no próximo tomo anual" seus planejados trabalhos bicanalíticos no sentido de que o mesmo possa ser completado e assim editado, não menciona qualquer palavra sobre seus próprios ensaios ainda não publicados. No dia 6 de dezembro, entretanto, dá notícia de "um grande sucesso diplomático", pois teria convencido seu editor Hugo Heller "a aceitar meus dois livros e com isso manter a Zeitschri]t": Relativamente aos dois livros, referia-se às Conferências Introdutórias sobre Psicanálise (1916-17 11915-171), nas quais Freud tinha começado a trabalhar no segundo semestre de 1915, assim como à metapsicologia. Entretanto, em relação ao último, acrescenta que Heller "pretende editá-Io depois de algum tempo". A discussão sobre metapsicologia deve ter continuado oralmente entre os dois amigos. Pois, em 24 de março do ano seguinte, Freud pede a Ferenczi que lhe devolva, por ocasião de uma visita a Viena, manuscritos de trabalhos não publicados que ele lhe havia entregado para leitura: "Penso em largar o trabalho sobre o cs e substituí-lo por um mais adequado, por exemplo, 'Os Três Pontos de Vista da M tp' (Metapsicologia)." Portanto, não era só,o editor que hesitava, mas o próprio Freud também estava insatisfeito, Com disposição sombria às vezes "preciso lutar por longo tempo até que recupere minha superioridade" -, cheio de pensamentos de morte, comunica-se com Ferenczi um ano mais tarde, em 20 de novembro de 1917: "Num certo impulso de arrumar a casa entreguei dois trabalhos sobre metapsicologia ('Luto e Melancolia' e 'Suplemento Metapsicológico à Teoria dos Sonhos') ao Sachs, para o último caderno da revista (sobre o resto prefiro silenciar)." Nessa posição de Freud com relação ao "resto" nada veio a mudar. Nos últimos meses de guerra, em 17 de março de 1918, informando a Ferenczi a respeito de seus mais novos planos de publicações, não mencionou a metapsicologia. E mais, quando Lou Andreas-Salomé, em 18 de março de 1919, insiste mais uma vez em indagar, declara, SUl'-

1 Aparentemente Ferenczi mais tarde a jogou fora, pois, pelo menos, ela não consta mais na transcrição da correspondência de Freud com Ferenczi.

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prendendo à primeira vista: 1 "Onde está minha metapsícologia? P enquanto continua a não ser escrita" (1966a, p. 105). O que sígnífi que, após o fim da guerra, considerava o estabelecido nos sete escrit não publicados não mais como uma síntese feliz de suas percepç teóricas, desistindo do plane do livro.

11

Podemos especular sobre alguns motivos dessa mudança de intenções. De menor peso deve ter sido o fato de que os textos não foram em parte definitivamente redigidos e não foram colocados em concordância uns aos outros, o que deixou de satisfazer ~1S altas exigências formais do escritor Freud. Essa deficiência poderia' ser facilmente remediada se outras razões, de maior peso, não houvessem falado contra a publicação. Ainda que Freud em todas as suas fases criativas sempre houvesse sido um grande e intrépido sistematizador esintetizador, não deu a esse traço intelectual de seu temperamento muito valor, tendo-o aparentemente até repudiado. Preferia destacar seu modo empírico e indutivo de proceder. Ainda enquanto escrevia seus ensaios metapsicológicos, fez notar a [ames J. Putnam, em uma carta de 7 de junho de 1915, sua "limitação ao mais imediato, ao mais palpável e mesmo ao meis mesquinho a grande insegurança me assusta; sou antes medroso que audaz e gosto de fazer sacrifícios em troca de estar em terra firme" (1971aI1906-161, p. 375). Várias vezes, Freud explicou aLou ÁndreasSalomé como estava trabalhando "passo a passo", como se lê em uma carta de 13 de julho de 1917, "sem necessidade íntima de terminar, sempre sob a pressão de um problema bem presente, esforçando-mo penosamente para respeitar cada uma das instâncias". Naquela cart posterior, já citada, de 2 de abril de 1919, na qual declara francarnent a metapsicologia como "não escrita", continua, como para se justificar: "Não me é possível o trabalho sistemático nesse assunto: a natur z fragmentária de minhas experiência e o caráter esporádico de min! n idéias não o permitem."

I. ··1

Entre os sete ensaios não publicados e posteriormente perdid considerando ser o décimo segundo o rascunho, deve ter sido este o qu ,

1 Comunicou-lhe em carta de 25 de maio de 1916: "um livro, que ecn t em doze redações deste tipo, não poderá ser impresso antes do fim d u rr • E quem sabe por quanto tempo mais após esse momento tão ansiosamente 8 • rado."


na sua segunda parte, mais se distanciou das expenencias clínicas. 1 Desde o' começo, Freud reconhecia o caráter especulativo de seus pensamentos filogenéticos, como ele próprio os designava. Não apenas nas cartas a Ferenczi. Nesse sentido, no próprio rascunho, ao qual o texto passado a limpo seguiu "frase por frase", está acentuado que o leitor, quanto à argumentação do autor, "aceite certas hipóteses intermediárias" e que se trata de "fantasias científicas".

,.,'

Na carta de 12 de julho de 1915, transcrita acima em seu pleno teor, na qual Freud esboça para Ferenczi, pela primeira vez, o conteúdo do seu Neuroses de Transferência: uma Síntese, lê-se logo no começo que ele teria de se haver com fantasias que o perturbaram - poderíamOS acrescentar: perturbaram a quem com sacrifício tinha aprendido a "domar inclinações especulativas" (1914d, p. 60) justamente porque se tratava de fantasias. Assim, num outro contexto - mas de um modo como se quisesse chamar indiretamente a atenção a si mesmo sobre o manuscrito do rascunho -, afirma numa carta enviada a Ferenczi três dias após a remessa de Neuroses de Transferência: uma Síntese: "Sustento que não se devam fabricar mais teorias - elas precisam entrar em nossas casas como visitantes não convidados, enquanto se está ocupado na pesquisa de pormenores I ... 1." Alguns meses antes, em 8 de abril de 1915, em meio à tarefa de seus 'ensaios metapsicológicos, Freud descreveu a Ferenczi o "mecanismo" da criatividade científica, de forma precisa e preciosa, como "uma seqüência entre o jogo audacioso da fantasia e a crítica implacável da realidade". Podemos supor que o jogo audaz demasiadamente audaz - da fantasia da segunda parte do décimo segundo ensaio metapsicológico não resistiu, em seqüência, à crítica implacável da realidade. Porém, o que o levou também finalmente a condenar outros textos, provavelmente muito menos especulativos? Depois da guerra, quando pôde por fim publicar seu livro introdutório à metapsicologia, Freud já estava ocupado com pensamentos teóricos bem diferentes, e teria sido 'necessária uma revisão completa dos capítulos, nessa altura ultrapassa-

dos. Desde março de 1919, já trabalhava num primeiro esboço d Além do Princípio do Prazer (1920g), no qual ele introduziu o n V dualismo das pulsões de vida c de morte, enquanto os ensaios metal" i· cológicos ainda partem da classificação anterior - pulsão sexual e d eu. Do pano de fundo de sua compreensão interna do funcionament inconsciente dos mecanismos de defesa, começaram a se cristalizar a formas de sua teoria estrutural e da psicologia do eu, não sendo portanto de admirar que Freud ficasse 'insatisfeito especialmente com O capítulo sobre o consciente. Mal-estar semelhante deve ter sentido com relação ao ensaio sobre angústia, pois deve ter-se ainda baseado amplamente em sua primeira teoria toxicológica da angústia. O que nós podemos deduzir, através das exposições sobre angústia contidas no rascunho de Neuroses de Transferência: uma Síntese, que agora chega ao nosso conhecimento.1 .>

""

Sobre o Contexto

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da Obra

Que ele se movia "em caminhos muito batidos" Freud já havia advertido a Ferenczi na carta de 25 de novembro de 1914, dando-lhe conta de seus ensaios metapsicológicos. Sem querer reconstruir aqui as várias etapas do desenvolvimento da metapsicologia de Freud,2 queremos rclembrar que a expressão aparece pela primeira vez nas cartas para Wilhelm Fliess, mais precisamente numa carta de 13 de fevereiro de 1896, depois pormenorizadamente comentada numa carta de 10 de març de 1898, onde se lê no contexto de uma observação ao livro dos sonh (1900a): "Parece-me que, com a teoria da realização dos desejos, é Icrecida somente uma solução psicológica, não biológica, ou melhor, m • tapsíquica (aliás eu te perguntaria seriamente se eu posso usar p r a minha psicologia que conduz para trás do consciente o nome de M • tapsicologia)." (1950a 11887-19021, p. 211.) Que ele tinha a int I consciente, com a escolha do nome, de traçar um paralelo com Xl' tafísica, deixou Freud claro em sua A Psicopatologia da Vida Coüdiaua (1901b):

1 Isto é confirrnável, pelo menos em relação aos demais textos, cujos temas são mencionados por Freud em suas cartas, ou seja, consciente, angústia, histeria de conversão e neurose obsessiva. [ames Strachey (1957a, p. 72) supõe que os outros dois trabalhos tenham tratado da sublimação e da projeção (ou paranóia) ; também, portanto, de problemas clínicos.

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"Acredito

realmente

que uma grande

parte do conceito

1

1 Entretanto, em, "O Inconsciente" (1915e, p. 142), o conceito é rcdll~11 . insinuado então como sinal de desenvolvimento de angústia utilizável. 2 Cp., por' exemplo, H. Nagera (1974), p. 337 e segs.


lógico do mundo, que cvança até penetrar nas mais modernas religiões, outra coisa não é senão psicologia projetada no mundo exterior. O conhecimento obscuro (por assim dizer, percepção endopsíquica) de fatores e relações psíquicas do inconsciente reflete-se ( ... ) na construção de uma realidade sobrenatural, a qual deverá ser transformada pela ciência em psicologia do inconsciente. Poderíamos nos atrever' a transcrever os mitos do paraíso e do pecado original, de Deus, do bem t: do mal, da imortalidade, e coisas tais, e converter a metafísica em metapsicologia" (p. 287 e segs.).

A estrutura do texto demonstra uma marcada divisão em dua partes. Ela sugere prosseguir em dois passos, submetendo a qucsn primeiro para uma e depois para a outra parte. A primeira parte abran comparação sistemática dos seis elementos ativos nas três neuroses d transferência. Ê o que o título do décimo segundo ensaio prom t , procedendo indutivamente e erguendo constatações sobre a base d "observações atentas e laboriosas" e estreitamente limitadas ao plan ontogenético. Freud achava ter de atestar a esse trecho o atributo "tédio", talvez como uma ressonância à sua própria condição psíquica durante a .redação. A partir da página 70, com o' sexto elemento, o da participação da disposição herdada na etiologia das neuroses, como que se arremessa, continuando então com a segunda parte relativa à reconstrução filogenética, o que forçou a abrangente "chamada para a inclusão das neuroses narcisistas", rompendo o título do trabalho. Pelo menos, no instante em que escreveu, permitiu-se Freud, como ele mesmo constata, "deixar a crítica por trás da fantasia" e trazer adiante "coisas não asseguradas", obtidas por dedução. De fato, na primeira parte, a grande quantidade de palavras omitidas e o uso de abreviaturas indicam que ele se movimentava em solo completamente familiar, estando bem mais nitidamente redigicla que a segunda, com palavras-chave.I É como Freud diz, começando O rascunho, que era seu objetivo resumir e comparar, antecedendo a isso "um exame pormenorizado". Como já foi mencionado nos outros seis ensaios meta psicológicos perdidos, foram estudadas a histeria de ano gústia, a histeria de conversão e a neurose obsessiva, de modo qu Freud, na Síntese, podia se limitar a lembrar ao leitor cada um d elementos através da descrição breve das características de cada 1-mento. Mesmo sem conhecer os textos perdidos, não há grandes dlílculdades em seguir os caminhos do pensamento de Freud. Reprcs , contra-investimento, formação de substitutos e sintomas, função' sexual, regressão, fixação e disposição esses seis elementos são COmO fi do tear no tecido da obra completa, jamais abandonados e quan I

O que a metapsícologia deveria exatamente SIgnificar, Freud somente definiu em 1915 no ensaio metapsicológico central sobre "O Inconsciente" (1915e), de um modo que continua válido para a Psicanálise: "Proponho que uma apresentação seja denominadametapsicológica, quando conseguirmos descrever um processo psíquico segundo suas relações dinâmicas, tópicas e econômicas" (p. 140). Certamente, mesmo assim, nem todas as obras nas quais Freud descreveu processos psíquicos desse modo podem ser denominadas metapsicológicas. Pelo contrário, tornou-se hoje usual só incluir nas principais obras metapsicológicasaqueles escritos nos quais ele, explícita, exclusiva e minuciosamente com "a perfeição da pesquisa psicanalítica" (ib.) ~ desdobra, no mais alto grau de abstração, suas idéias teóricas. São os seguintes: "Esboço de uma Psicologia" (1950a 11887-19021), o qual pertence ainda ao período pré-analítico, o sétimo capítulo da A Interpretação dos Sonhos (1900a), "Formulação dos Dois Princípios do Processo Mental" (1911b), "Sobre Narcisismo: uma Introdução" (1914c), os cinco ensaios meta psicológicos publicados, de 1915, Além do Princípio do Prazer (1920g), e O Ego e o ld (1923b).1 Se nos perguntarmos onde o Neuroses de Transferência: uma Síntese. deveria sér urdido no tecido de sua obra integral, e se, quando Freud definitivamente a desaprovou, largou para sempre os fios ou os recolheu mais tarde. em outros escritos, então a resposta logo após o ressurgimento 40 rascunho .não pode nos levar senão " especulações sobre alguns conjuntos temáticos.

1 Isto é muito mais evidente no manuscrito (veja o fac-símile) e na (I' 1\ crição ao pé da letra do que na versão editada IN. do T.: Versão t 111 aqui só se encontra na tradução em português], na qual as abreviaturas f 1'11111 simplesmente eliminadas no interesse da legibilidade. Na redação passada li 111nl I, elaborada portanto, as proporções entre as duas partes poderiam ser dif r nt ,A primeira parte, que corresponde ao título do ensaio, deveria ter sid mul v lumosa.

1 Evidentemente, pode-se ampliar o conceito como, por exemplo, o fizeram os editores da Studienausgabe [edição para estudo], os quais incluem na metapsicologia também outros escritos de Freud que estão rio v. 3 da Edição Gesammelte Schrijten [coleção de obras].

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J

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muito completados, variando no percurso das decisivas inovações conceituais.I Romperia os limites das presentes ponderações seguir o rastro dessas mudanças nas obras de Freud, nascidas aproximadamente ao mesmo tempo, como nas Conferências Introdutárias sobre Psicanálise (1916191711915-171), onde se encontram formulações semelhantes até naescolha das palavras do rascunho, como também em seus escritos mais tardios, por exemplo, Inibição, Sintoma e Angústia (1926d), onde Freud compara outra vez as três neuroses de transferênca, relativamente a cada um dos elementos entre si, de uma maneira bem parecida com a da Síntese.2 Quem incluir os cinco ensaios meta psicológicos publicados em 1915 poderá fazer uma idéia melhor, separando os assuntos, de qual o contexto em que a Síntese entra na formação teórica de Freud. Além disso, em "Repressão" (1915d) e em "O Inconsciente" (1915e), cinco desses seis elementos, de uma forma ou de outra, já são _!llais ou menos examinados em pormenores. Em "Repressão", encontra-se no final até um estudo comparativo do processo de repressão nas três neuroses de transferência.ã como mais tarde na Síntese as questões sobre sucesso e insucesso, a relação da formação de sinsomas e substitutos, a ligação com o destino das pulsões da regressão são consideradas em conjunto. Na verdade, no parágrafo final de "Repressão", lê-se, como se fora uma previsão para alguns dos sete ensaios perdidos, especialmente para a

1 Assim nós temos, na Síntese, para mencionar um só exemplo, de lidar ainda com o conceito amplo de repressão, no sentido geral de defesa. Só mais tarde (1916d), Freud o limitou tendo em vista os mecanismos de defesa específicos da histeria. Entretanto, já se encontra em "Repressão" (1915d, p. 114) uma referência a essa diferenciação. 2 Por exemplo, num dos aditamentos relativos ao contra-investimento (p. 295 e segs.) ou no Capítulo 5, relativo à formação de sintomas. Lá se encontram também, como na Síntese, a indicação de uma seqüência cronológica do aparecimento das três afecções na infância, assim como no contexto dualístico da cronologia da vida sexual humana com as considerações filogenéticas. Tudo indica que Freud, anos mais tarde, tivesse conscientemente aproveitado muitos pensamentos da primeira parte do rejeitado décimo segundo ensaio metapsicológico, enriquecidos pelos conceitos da teoria estrutural, conquistada nesse meio-tempo, retomando-os e elaborando-os como material para desdobrar sua segunda teoria da angústia em Inibição, Sintoma e Angústia. Seria até possível pensar que esse aproveitamento de algo antigo nos dê uma explicação para a estranha disparidade desse livro, criticada com muita justiça por [ames Strachey (1959, p. 229). 3 Verifique-se também uma tentativa de comparação semelhante no final da Seção 4 sobre "tópica c dinâmica da repressão" em "O Inconsciente" (1915e, p. 140 e segs.).

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primeira parte comparativa do décimo segundo: "O extraordinárl utrelaçamento de todos os elementos que têm que ser considerados d 1 o. nos somente um caminho livre para a exposição. Precisamos eéooll I' ora um, ora outro ponto de vista e o perseguir através do raateríal, nquanto sua aplicação parece fazer efeito. Em si, cada um desses trabalhos ficará incompleto, sem poder evitar, falta de clareza onde 1 atingirem zonas intocadas; porém, podemo~ ter a esperança de que a síntese final levará a uma boa compreerisão." Mesmo nos fartando o text passado a limpo da "composição final" na-forma da primeira parte d Neuroses Transferência: uma Sintese; pode-se presumir, com alguma segurança, com base no rascunho e tendo. em vista o conteúdo dos cio textos de rrietapsicologia publicados de 1915, que pensamentos teóricos fundamentalmente novos não foram perdidos de vez pela perda das set peças.I .

de

Aquele dos seis elementos, parcamente mencionado nos ensaios motapsicológicos de 1915, é por Freud referido em último lugar na primeira parte do rascunho. Trata-se da disposição, "o elemento mais importante que contribui para a decisão sobre a escolha da neurose." Ele menciona de passagem em "Pulsões e Destinos das Pulsões" (1915c, p. 84) que movimentos musculares que demonstram ser adequados para vencer estímulos externos tornar-se-iam "disposições hereditárias"; mas os "estímulos de pulsões originadas no interior do organismo não podem ser resolvidos dessa maneira." Todavia, "nada nos impede supor que as 1 De interesse particular parecem ser no capítulo especial sobre I" gressão - algumas breves observações sobre a regressão do eu na histeria li' conversão, mais precisamente na discussão mais recente sobre histeria (cp., I I,' exemplo, as idéias defendidas no painel sobre histeria no XXVIII Congress ti I International Psychoanalytical Association, ocorrido em Paris em 1973, ou as 1 8 8 de Masud R. Khan de 1974). Alguns desses autores ligam-se expressamcnt 1\ conceito anterior de histeria de Freud. Quando, em seu rascunho, Freud Ialu IIlI volta a um nível psíquico "sem separação de pcs e ics, portanto sem linguol:I IH nem censura", ele se refere a modalidades da função do eu relativas I Il pré-verbal da díade mãe-filho (justificando, no entanto, essa regressão d Uillll maneira diferente daquela dos autores citados, ou seja, pela dinâmica d '1m. pulsos, a serviçc do retorno do reprimido). Khan, por exemplo, transf'cr P 11'1\ essa fase do desenvolvimento precoce do eu a causa do adoecer histéric , 1\1 a vê como uma insuficiência da mãe em reconhecer e satisfazer as nece I lud do eu da criança. Além disso, vê- a como uma tentativa da mesma paro as necessidades psíquicas ou psicofísicas provocadas pela sexualização prc seja, através de uma intensificação das experiências do eu corporal, n do desenvolvimento das funções mentais do eu.


pulsões mesmas fossem, pelo menos em parte, precipitadas dos efeitos de estímulos externos, os quais no percurso da filogênese atuam sobre a substância viva, modificando-a." Unias poucas páginas adiante (p. 94), continua com mais uma frase sobre a vida das pulsões nos "tempos primitivos", relacionando-a ao que Freud chamou de "partilha arcaica". Em "Luto e Melancolia" (1917e,119151), menciona-se ainda como conclusão exigida "pela teoria", à qual ainda faltava entretanto a confirmação empírica, que "a disposição para o adoecer melancólico" deve estar na perspectiva da "predominância do tipo narcisista de escolha objetal" (p. 204). No parágrafo seguinte, fala-se de passagem também da "disposição para a neurose obsessiva") Em ambas as vezes no sentido ontogenétíco. Mas, poucas linhas adiante, atribui-se ao conflito da ambivalência "ora uma origem mais real, ora mais constitutiva" (p. 205). "Constitutivo" ou "constitucional" (p. 210) aqui significam apenas que se trata, em determinado indivídJo vivendo normalmente, de uma inclinação normalmente existente para o conflito. No entanto, em "O Inconsciente" (1915e, p. 154), lê-se: "pode-se comparar o conteúdo do inconsciente com uma população psíquica primitiva. Se houver no homem formações psíquicas herdadas, algo análogo ao instinto dos animais, então isso representa o núcleo do ics.!" Essa é a única referência de relevo nos cinco ensaios metapsicológicos publicados de 1915, indicativa daquela dimensão filogenética profunda, na qual Freud se dispôs a penetrar na segunda parte do décimo segundo ensaio. Com -o segundo e o terceiro parágrafos da Seção f), ele está como que preparando o palco para o breve e envolvente drama filogenético que se desenrola nos primórdios de nossa genealogia, em dois atos e seis cenas, como poderíamos parafrasear essa segunda parte da Síntese, tão diferente, capaz de nos tirar o fôlego com sua "ampliação de horizontes". No primeiro ato, desencadeia-se, transposto o antigo tempo paradisíaco, a "luta com a calamidade dos tempos glaciais", que leva à "época cultural patriarcal". Nessas três cenas narram-se, com a força de uma pintura, acontecimentos, bem como suas fases, as quais se sedimen1 Trata-se de um eco do título do trabalho de Freud do mesmo nome, editado dois anos antes (1913í), o qual, como diz o subtítulo, já oferece "uma contribuição ao problema da escolha da neurose", que já ocupava Freud desde os anos 90, visto por ele desde o começo por uma perspectiva biológico-evolucionista. * 10 trecho é encontrado na Standard Edition inglesa, v. 14, p. 195, e na brasileira, v. 14, p. 223. Há uma importante nota de rodapé do editor assinalando que neste lugar Freud usa em alemão a palavra lnstinkt e não a forma usual Trieb (N. do T.).I

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taram hereditariamente na disposição para as três neuroses de tr • ferência (histeria de angústia, histeria de conversão e neurose obs ssivu). O tema das- três cenas seguintes do segundo ato é o aparecimento cll' • mático das fixações, base filogenética das três neuroses narcisistas (d • mência precoce, paranóia, melancolia-mania). Desenrola-se, após O d • c~r~o dos tempos glaciais, na fase da opressão produzida pelo pai prlmitívo que se torna tirânico e narra o desenvolvimento da época só íocultural que vem substituir a patriarcal. Ao contrário da primeira parte do rascunho, Freud deu na segunda algumas índicações para o contexto da obra. Ele menciona três de seus escritos. Primeiramente, o escrito sobre "Os Dois Princípios do Processo Mental" (191lb). Precisamente no contexto onde constata que as intenções sexuais do homem devem ser atribuídas a, um desenvolvimento diferente das tendências do eu. De fato, fala-se nas passagens correspon?entes, assim como no rascunho, de disposição e escolha de neurose, porem novamente no sentido ontogenético. . É diretamente esclarece dor, para o contexto da obra, que Freud c~te Totem e Tabu (1912-1913), sua primeira grande contribuição teórico-cultural, Essa indicação bibliográfica não é feita por acaso no lugar o~d~, o rascunho fala dos filhos, "aos quais o pai ciumento nada permite . Trata-se do que se tornou pela primeira vez conhecido em Totem e Tabu como o "grande acontecimento, com o qual começou a cultura, e que desde então não deu mais sossego à humanidade" (1912-13, p. 429)! da "tragédia primitiva" (p. 439), que ele desdobra no rascunh • Lá, Freud estabelece no quarto ensaio a ligação entre as fobias das criemças por animais e os motivos da origem do totemismo e faz ent referências à tese de Darwin (1871) sobre o estado primitivo' da • ciedade, sobre a humanidade remota, que vivia em pequenas herda , para finalme~t~ chegar às pegadas de [ames [asper Atkinson (1903)1 de sua suposiçao aparentemente monstruosa da subjugação e do assa inato. do pai tirânico pela união dos filhos expulsos", suposição 1 calorosamente debatida (p. 246, nota 2) e na qual insiste teimosarrÍ 1 t durante toda a sua vidaê como se fora um depoimento básico sob!' 1 Cp. especificamente com o segundo e o terceiro capítulos .ondo s de parricídal críme,p. 225. Veja também adiante a nota 3 da p. 115. 2 Cp., por exemplo, 1921c, p. 114 e segs .. p. 126 e segs.: 1930a, p. p. 257 e seg.; 1939a 11934-381, p. 575 e sego Na última obra citada (p. encontra-se um comentário tardio para sua recusa de modificar qualqu r

rol 0,

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agressividade humana. Em To/em e Tabu ele, entretatno, leva, em alguns lugares, para campo de disputa, escrúpulos metodológicos e admite que .essa hipótese poderia "parecer fantástica" (p. 425); acentua claramente "as inseguranças de nossas pressuposições" (p. 440), onde também ele se ocupa da transmissão hereditária do sentimento de culpa resultante do assassinato, "Condescendemos em primeiro lugar em que a consciência de culpa por um feito sobreviveu por muitos milênios e continuou operativa em gerações que nenhum conhecimento tiveram desse feito. Condescendemos em que um processo emocional, como o que se desenvolveu em gerações de filhos que foram maltratados por seus pais homens, propagou-se para as novas gerações que estavam livres desse tratamento pela simples razão de que seus pais haviam sido eliminados. t ... t Levantam-se assim duas t··· t perguntas: o quanto podemos atribuir à continuidade psíquica na seqüência de gerações e quais são os meios e os caminhos que uma geração usa para transferir seus estados mentais para a próxima. Não vou afirmar que esses problemas estejam bem esclarecidos ou que a comunicação direta e a tradição - que são as primeiras coisas que nos ocorrem - são suficientes para atender à exigência. I ... t Uma parte dessa tarefa parece ser resolvida pela transmissão hereditária de disposições psíquicas, as quais, entretanto, precisam. de um certo ímpeto da vida do indivíduo para que se reativern" (p. 440 e seg.). De fato, podemos ler nos fundamentos dessas formulações a fantasia filogenética de Neuroses de Transferência: uma Síntese, como uma variação do grande tema abordado em Totem e Tabu. A terceira obra pessoal mencionada por Freud é Três Ensaios sobre a Teoria da Sexualidade (1905d). Refere-se ela, laconicamente, ligado à constatação: "Acreditamos ter aprendido, grosso modo, qual é o desenvolvimento cÍa vida sexual humana." Numa carta a Ferenczr de 2 de dezembro de 1914, assinalava sem mais nem menos o trabalho nos escritos metapsicológicos há.pouco começados como "prosseguimento dos problemas nos quais me detive na teoria da sexualidade". A obra revolucionária deve ter estado muito presente a Freud ao redigir o "rascunho", principalmente porque ele preparara, ao mesmo tempo, a terceira edição, profundamente revista, dos Três Ensaios. Do prefácio para a

°

nas hipóteses desenvolvidas em Totem e Tabu, de acordo com os resultados mais recentes da pesquisa antropológico-cultural. Para uma apresentação ampla dessas tomadas de posição críticas relativas a essas hipóteses, dentro e fora da antropologia cultural, desde o aparecimento do livro até agora, veja E. R. WalIace (1983), especialmente o quarto e o quinto capítulos.

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nova edição de 1915: "Em todo lugar , ... , os elementos acidentais I primeiro plano, os disposicionais são deixados no fundo e o desenv lvimento ontogenético é considerado antes do filogenético. O acidental fAZ na análise o papel principal é e por ela quase completamente vencid : disposicionalaparece só em sua retaguarda como algo que é despertad pela vivência. t ... , Algo parecido domina a relação entre a onto e a fil • gênese. , , A ontogênese pode ser vista como uma repetição da filogênese. t , Mas, no fundo, a disposição é o precipitado de uma vivência anterior desse tipo, ao qual se junta a vivência mais nova do indivíduo como soma dos elementos acidentais." (p. 44)1 Essas reflexões sobre f\ história de nossos antepassados, realizadas com os trabalhos metapsicológicos, deixaram vestígios impossíveis de não serem notados, não somente no prefácio da nova edição dos Três Ensaios, mas igualmente em alguns complementos do próprio texto, por exemplo na parte final (p. 142). Também aparecem nas cartas trocadas por Freud com Ferenczi nos anos de guerra, repetidamente, os Três Ensaios. Mais precisamente, não só dentro do contexto do trabalho de revisão para a terceira edição. Ferenczi, prestando serviço militar, desde outono de 1914 no quartel da pequena cidade húngara de Pápa, traduzia então o livro para o idioma húngaro, o que o estimulava para novas e entusiasmadas leituras, desencadeando uma tempestade de idéias que convergiam para a biologia. Vendo melhor a segunda parte do rascunho, percebemos que Freudnão apenas dá indicações ao contexto de sua própria obra. Ele também o faz em relação a contextos alheios, notadamente, em dU8 vezes, refere-se à pesquisa de Ferenczi sobre "Etapas do Desenvolviment do Sentido de Realidade" (1913),tfabalho este em que, de fato, esse autor argumenta no plano ontológico, apesar de, mesmo assim, incluir r f . rências a "Transferências de Rastros de Memória da História das Ra O para o Indivíduo" (p. 152), e, no final, ousar uma "profecia científi a" (p. 161), dizendo que "as mudanças geológicas da superfície da' T J'J' com suas conseqüências catastróficas para os ancestrais da humanid d impeliram hábitos muito estimados para a repressão e para o 'descnv tvimento'. Tais catástrofes podem ter sido os lugares da repressão nu história do desenvolvimento racial e a localização temporal e a int 'n dade de tais catástrofes poderiam ter decidido sobre o caráter e a 11 ,\!roses das raças" (p. 162). Essas formulações nos fazem entender por lU 1 Sobre algo parecido, Freud. já se estendera numa carta para lander, de 1.0 de outubro de 1911 (1960a, p. 299 e seg.).

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Freud, na carta Já citada por extenso, enviada a Ferenczi em 12 de julho de 1915, concluindo o primeiro esboço de sua fantasia filogenética, acrescentou a frase: "Seus direitos autorais, no acima exposto, são evidentes." Já se mencionaram a intensidade e o modo como colaboraram os dois amigos, na época do nascimento do décimo segundo ensaio metapsicológico. Todavia, a cooperação ia além desse único projeto. Não é em correlação com o desfecho dessa discussão sobre questões básicas da biologia (ou, para usar a expressão de Ferenczi, "metabiologia") que por fim Freud o abandona. Graças à correspondência não publicada entre ambos, puderam-se reconstruir, na discussão, as ponderações para o contexto histórico-científico que vão aparecer na segunda seção do rascunho e constituem parte das peças evolutivo-biológicas da metapsicologia de Freud. Enquanto Freud trabalhava ainda nos primeiros ensaios metapsicológicos, Ferenczi queixou-se a ele em 2 de fevereiro de 1915: " ... aferreime em problemas biológicos c não consigo encontrar o caminho de volta à psicologia! ... Ê interessante notar com que grande regularidade externa-se nos dois a inatividade imposta pela guerra. Dá para entender agora os biólogos e filósofos especulativos, os quais, movendo-se sempre longe da realidade, pretendem edificar o universo todo em cima de uns poucos fatos que conhecem." Estimulado por seu· trabalho de tradução dos Três Ensaios, Ferenczi ocupava-se com reflexões -teóricas, as quais participou a Freud em 18 de março de 1915 dizendo "que se trata de uma 110va teoria do coito, a qual me parece capaz de reunir, numa unidade, todos (quase todos) os tópicos de sua teona da sexualidade. Assim que ponha mais ou menos em ordem as anotações, por enquanto soltas, irei mais uma vez a Viena para lhe apresentar o assunto." Como se vê, Freud sentia-se tão estimulado por essa troca de opiniões que escreveu a Ferenczi em 20 de julho de 1915, poucos dias após haver enviado sua carta-esboço (p. 89 e seg.): "Pensava somente fazer uma referência breve à seqüência filogenética, indicando seu trabalho com a merecida recomendação sobre suas idéias férteis e originais a respeito da influência dos destinos geológicos. Agora, porém, despertou-me a vontade de tentar uma apresentação do assunto com mais pormenores, o que pretendo mostrar-lhe, antes que eu me decida a publicá-Ia." Entrementes, Ferenczi desenvolvia "seu plano, formalmente apoiado na metapsicologia de Freud, de uma série de trabalhos sob o título Ensaios Bioanaliticos; estes deveriam chegar a mais ou menos quinze a vinte, os quais poderiam finalmente completar um livro. O 104

primeiro trabalho versaria, de uma maneira geral, sobre a justificatlv do ponto de vosta psicanalítico no contexto da ciência biológica e fUIdamentaria o modo natural e necessário de observação metapsicoló i e metabiológica." (26 de outubro de 1915) Assim como o projeto do livro de Freud, também o plano d metabiologia de Ferenczi logo estacou. Porém, os pensamentos fílogenétícos continuaram a ser perseguidos por vias indiretas. Ê assim que Frcud escreve em 6 de janeiro de 1916: "Será que nós já não conhecemo duas condições da inclinação artística? Em primeiro lugar, a riqueza d material filogeneticamente transmitido, como no neurótico; em segundo, um bom resto da antiga técnica de modificar a si próprio em vez do mundo externo (ver Lamarck, etc.)." Portanto, aqui vem, por fim, O nome daquele naturalista, cujos conceitos, especialmente em suas extensões psicolamarckistas, já obviamente tinham configurado, de forma indireta, a fantasia filogenética. De agora em diante, por um certo tempo e com freqüência crescente, Lamarck é mencionado na correspondência. Nos raros .encontros dos dois amigos, ganha forma a idéia de escrever em conjunto algo. sobre lamarckismo e psicanálise.t No fim do ano, em 22 de dezembro de 1916, lê-se numa carta de Freud que ele teria pedido "o Lamarck" na biblioteca da universidade: "Desocupado não consigo sentir-me bem, e eis que nosso pretendido trabalho' L e a PsA'* veio-me súbito à mente como algo promissor e rico de conteúdo I... 1". Poucos dias depois, em 28 de dezembro, Ferenczi confirma "o plano comum de trabalho". No primeiro dia do ano de 1917 Freud já enviava um esboço para o trabalho Lamarck,2 relatando já haver iniciado a leitura da Filosofia Zoológica (1909 118091), aquela obra que abre o desenvolvimento d uma teoria científica da origem das espécies. Segue-se uma incessant troca de cartas combinando procedimentos para conseguir bibliograíl , assim como sobre a divisão de trabalho. Notas e sugestões de redaçã são enviadas nas duas direções. Porém, o ímpeto inicial logo começou a diminuir. De um 1 d , em vista do período de guerra, surgiram dificuldades em conseguir blbliografia. De outro lado, o que foi obtido e lido antes parece t r levado à desilusão. "Tenho a impressão - admite Freud 'em 28 d J \-

* 2

Cp. também E. Ienes (1962a), p. 234 e sego [Refere-se a Lamarckismo e Psicanálise (N. do T.).I Esse trabalho aparentemente não foi guardado.

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neiro de 1917 - de que acompanhamos os psicolamarckistas, como por exemplo Pauly, e que pouco de novo teremos realmente para dizer. Seja como for, a PsA * entregou seu cartão de visitas à biologia." Finalmente, o agravamento da situação de escassez externa deve ter criado obstáculos: Freud, numa carta de 2 de março de 1917, esforça-se em sossegar as' auto-acusações de Ferenczi, assegurando "que você não precisa se preocupar com o desleixo de nosso trabalho Lamarck. Eu também não avancei mais nessas semanas de frio e escuridão, desacostumando-me do trabalho noturno. Desde então não voltei a ele." E, em 29 de maio de 1917, lê-se: "Não estou nem um pouco disposto para fazer, no verão, o trabalho Lamarck; o que eu mais gostaria era de ceder tudo isso a você."1 De fato isso acabou acontecendo. No final do ano, em 27 de dezembro, Freud manifesta-se mais uma vez de modo semelhante sobre o assunto: "Não consigo me animar para o trabalho Lamarck. Talvez esteja acontecendo conosco neste momento o que se passou com os dois nobres poloneses na hora de pagar. 'Como nenhum admitiu que o outro pagasse por ele, nenhum deles acabou pagando'."2 Em 18 de maio de 1918, Ferenczi insistiu uma última vez: "Seria bom se neste verão o trabalho Lamarck tomasse corpo." Freud deu a entender que se retirava. Pouco antes do fim da guerra, em 16 de outubro, esclareceu: "Não estou animado para o trabalho I ... i; meu grande interesse está no desfecho do drama mundial." \ A seguir separaram-se os interesses dos' dois escritores. Na primavera de 1919, Freud se reporta a novos trabalhos: "Uma Criança Está Sendo Espancada" (191ge) e, com interesse crescente, ao Além do Princípio do Prazer (1920g). De uma carta de Ferenczi de 18 de março de 1919 pode-se deduzir que nele também vinham amadurecendo planos próprios, "por exemplo, a realização final das especulações paleobiológicas": Mesmo Ferenczi precisava ainda de alguns anos antes de poder

*

IA "Psicanálise" (N. do T.).I 1 Que Freud considerava Ferenczi como o biólogo mais competente entre os seus colaboradores, ele já lhe havia assegurado, em 29 de abril de 1916, num outro contexto: "continuo afirmando que este é efetivamente seu campo de trabalho, no qual o senhor não terá concorrência." 2 Alusão ao poema de Heinrich Heine, "Zwei Ritter ("Dois Cavaleiros"), Romanzero, Livro Primeiro. - Talvez influísse no fracasso do projeto Larnarck, em um aspecto que não vamos' examinar aqui, o fato de que Ferenczi naqueles anos tentava e~ vão recomeçar com Freud sua análise didática inacabada.

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tomar a decisão de publicar seu Ensaio sobre uma Teoria Genlial (1924).1 Isso não sem antes, em 25 de julho de 1923, haver consultad Freud: "Permita-me dizer que eu 1 ... 1 (na parte biclógica) refi r -m às hipóteses construídas em Pápa ou em algum outro lugar sobre 1 • marckismo, etc ... ". Em muitos outros trechos da redação publicada d ensaio, poderemos reconhecer influências disso, por exemplo, onde F • renczi interpreta os símbolos "como vestígos historicamente importantes de fatos biológicos 'reprimidos' " (p. 393) ou onde ele, no sentido de uma "biologia profunda" (p. 390), tenta "infiltrar um novo tipo de teoria da evolução, no qual seriam simplesmente transferidas a experiência e as hipóteses psicanalíticas dos processos de desenvolvimento, do contexto psíquico para o ambiente biológico" (p. 394); ou, finalinente, onde ele explicitamente declara: "não temos qualquer base para concluir que I .. ·1 não haja a possibilidade de os efeitos das tendências dos desejos exercerem-se também fora do contexto psíquico, ou seja, no inconsciente biológico, e estamos convencidosde que, somente apoiando-se no desejo como fator do desenvolvimento, a teoria lamarckista de adaptação tom se inteligível, do que nos podemos vangloriar juntamente com Freud" (p. '396). O Ensaio sobre uma Teoria Genital é, portanto, uma especie de herdeiro do projeto Lamarck abandonado e, de certo modo, também da "fantasia tilogenética" condenada. Com essa, compartilha a beleza da aventura pelos vôos especulativos da mente, a reconstrução genial de um drama pré-histórico da humanidade, a insólita mistura de matéria-prirr fi

1 E claro que existe, entre Além do Princípio do Prazer e o Ensaio s br uma Teoria Genital, uma quantidade de interligações implícitas explícitas. ri' 'uu não duvidava de que o princípio especulativo do pensamento das discussões • 111 Ferenczi durante os anos de guerra continuasse atuando em Além do Princíplo do Prazer (especialmente p. 267 e segs.: cp. também C. Paniagua, 1982). J> 'I' • pectivas bogenéticas lamarckistas ainda continuam igualmente em O Ego e I , (1923b, na parte 3, no contexto sobre as reflexões da origem do SlIPCI' ): apesar de Freud salientar que continuava conduzindo a seqüência de pensam nl iniciados em Além do Princípio do Prazer, "não fazia novos ernpréstlm biologia, razão pela qual está redigido mais próximo da psicanálise d lU outro, e que ele leva 'antes o caráter de uma síntese do que o de Un111 p culação'" (p. 282). Cp., além disso, nessa obra (p. 302) CO,!l uma alusã tlll' 1111 à importância da era glacial para a evolução da cultura. Para a continunci 111 idéias biogenéticas e filogenéticas de Freud-Ferenczi, poucos anos mais 101' I P, M. Balint (1930). I

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científica excursões

com o trabalho literário'! Antiga fascinação de Freud pelas metapsícológico-metabíologícas do pensamento dos anos de

guerra ainda ressoa em 1933, no necrológio para Ferenczi, em outros pontos antes discordantes. Lá pode-se perceber que, na medida em que considera o Ensaio uma "obra-prima", realiza ao mesmo tempo um necrológio para a própria fantasia filogenética: "[ ... [ talvez a aplicação mais audaciosa da análise, antes jamais experimentada [... [ encontramonos enriquecidos com idéias que prometem conhecimentos profundos em amplas partes da biologia. Em vão tenta-se hoje separar o que é considerado conhecimento aceitável daquilo que tenta adivinhar conhecimentos futuros através de uma fantasia científica" (1933c, p. 268 e segs.).2 Não obstante, seria errado supor que Freud teria, por assim dizer, "cedido" a Ferenczi todo o complexo de pensamentos de sua fantasia filogenética hão publicada. Da mesma forma, como surgem não' pela primeira vez alguns assuntos na segunda parte do rascunho de Neuroses de Transferência: uma Síntese, também .aparecem lá alguns assuntos não em definitivo. Mencionamos brevemente - como um estímulo para a leitura, sobretudo nos dias atuais uma coisa: as referências para as diferenças entre sexos. f: verdade que depois ele não se deixou mais levar .a tais exageros, como o de afirmar terem sido predominantemente dos homens realizações -'- fundadoras da cultura - tais como o começo do domínio sobre a natureza, do direito, da pesquisa, do pensamento e até da fala. Certos depoimentos posteriores, porém, sobre

1 Uma forma de apresentação que, aliás, naquele -ternpo não era rara. Está caracterizada ainda mais radicalmente, por exemplo, no trabalho de Fritz Wittels (1912), também citado por Freud no rascunho, o qual tem como subtítulo simplesmente "Poema do Mundo Primitivo". 2 De fato, pode-se também, pela leitura desse livro extraordinário, ainda hoje imaginar que os biólogos do futuro poderiam algum dia redescobrir o Ensaio sobre uma Teoria Genital, como uma, por assim dizer, artística antecipação genial e abstrusa de conceitos biológicos revolucionários. Conceitos sobre os quais - é verdade - ainda quase nada se tem esboçado. Possivelmente, deverão tornar a discussão Iamarckismo/darwinismo antiquada, evidenciando o erro de seu questionamento, quando, ao serem estruturados, for possível alcançar ummveJleórie&-completamente novo_~ln relaçâc uo entendimento dos processos de. vÍQa. Isso -significaria que-Freud c Ferenczi, com suas especulações metabiológico-metapsicológicas estavam muito mais adiante da biologia daquele tempo do que a psicanálise em seu significado estrito, frente à psicologia da mesma época.

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as diferenças sexuais específicas da estrutura do superegot s gu m, com variacões mais ou menos moderadas, o que foi traçado no "1'11 • cunho". A' acentuada preponderância das declarações sobre o desenv lvimento do homem do sexo masculino caracteriza os escritos post ri l' sobre esse tema; até mesmo ao formular sobre "os destinos da rnull C1' nesses tempos primitivos", parece-nos "para nós encoberto por um estr I!lilho mistério", lembrando até na escolha das palavras dark contineni' (1926e, p. 303). f: assim que a sexualidade feminina aparecia a Freud até o fim de sua vida, mesmo sob as condições de seu tempo. Estes, porém, não são apenas assuntos singulares, comparáveis em seus textos anteriores e posteriores. O que há de novo, como fios em cadeia que perpassam O tocido de toda a obra, são as idéias básicas biogenético-lamarckistas, entre elas a idéia da herança dos extratos arcaicos do mundo simbólico.

Contexto

Histórico-Científico

Já nas Conferências Introdutórias sobre Psicanálise (1916-17 [1915-17[) nascidas na mesma época, Freud continuou a trabalhar no mesmo encadeamento,2 como se vê, por exemplo, quando concisamente declara a respeito dos traços arcaicos do sonho: "Assim me parece por exempl a ligação do símbolo, jamais aprendido pelo indivíduo, merecendo s r considerado herança filogenética" (p. 204). Ou quando persegue a via de formacão de sintomas e descreve as fantasias primitivas como p 1'· tencendo 'ao domínio filogenético: "Nelas, o indivíduo transcende LI própria vivência para a vivência do passado [... [" (p. 362).3 Finalm nt , soa como uma relembrança da fantasia filogenética abandonada, qual I

Por exemplo: 1923b, p. 304; 1925j, p. 265 e seg.; 1933a, p. 564. [Em inglês, no original ("continente negro") (N. do T.).I 2 Podemos segui-Io até o princípio da obra. Cp., por exemplo, O rn \11\1 • crito B, de 8 de fevereiro de 1893, das cartas para Wilhelm Flicss (h'~ml 1950a 11887-19021, p. 67). 3 Em Totem e Tabu (1912-13), Freud ainda se expressou bem !TIO I loso: As proibições mantiveram-se então de geração para geração, 1110· 1\1 11I talvez por conta da tradição da autoridade paterna e social. Porém, nas CI' 11,1 posteriores, é possível que tenham conseguido se organizar como um I m 111 das propriedades psíquicas herdadas. Quem poderá decidir se foram as tul (tllll' inatas - se é que elas existem -. por si ou com a participação da C<.lUCII que estabeleceram o Tabu?" (p. 323); na Edição; para Estudo, como ramb 11

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H


qui ridos para os descendentes" (p. 546). Apesar disso, com impr 1· nante teimosia, ele insistiu em "não dispensar esse fato no desenv lvlmento biológico". Por que não abrir mão disso? Ele mesmo deixou transparecer 1· gumas razões. Evidentemente não conseguiu 'conceber, senão através cl mecanismos biológicos e heredogenéticos, o ímpeto, o terror patogênlc da ameaça da castração, a intensidade inexorável e imperecível do complexo de Edipo e do respectivo sentimento de culpa, ativo novament em cada geração, portanto no "rastro da memória filogenética dos tempos primitivos da família pré-histórica, quando o pai ciumento realment extirpava os genitais do filho, na medida em que este o incomodasse como rival na disputa pela mulher" (1940a 119381, p. 117n). A experiência traumática real, exposta como a etiologia da histeria na primeira fase de Freud, aparece na teoria psicanalítica plenamente desenvolvida ao ser transportada para trás, aos tempos da horda primitiva, transferindo a dimensão ontogenética para a filogenética. Visto assim, as partes da teoria psicolamarckista da metapsicologia são como um elo entre as duas fases do desenvolvimento da doutrina de Freud. Renunciar a ela provavelmente seria como tornar a psicanálise ingênu , ou pelo menos questionável na sua pretensão de afirmar com energi o valor universal de fundamentos antropológico-transculturais. Uma outra razão: tal postulado não só ajudou Freud a transpor "o abism entre a psicologia individual e a das massas", mas também o eblsmo que "em tempos anteriores a presunção humana rasgou entre O I' humano e o animal" (1939a i1934 até 19381, p. 547), pois ele viu n herança arcaica do homo sapiens o análogo do equipamento instlntlvo dos animais. Atrás disso, e não definitivamente, deve estar a pcrança de superar mais um outro abismo, Aquele que há entre as ciêncl naturais e culturais (incluindo a contradição correspondente na pró J' identidade acadêmica dele) mediante uma psicanálise alicerçada m l • psicológica e metabiologicamente.1

ele resume: "Várias vezes chegamos a suspeitar de que a psicologia das neuroses preservou mais dos fatos antigos do desenvolvimento humano que todas as outras fontes" (ib.). Pensamentos parecidos Freud expressou num adendo posteriormente incluído no caso clínico do "homem dos lobos" (l918b 119141), p. 210 e em O Ego e o Id (1923b), p. 305. Não obstante toda a crítica que a teoria de Lamarck sofreu nesse meio-tempo, Freud aferrou-se a ela até o fim. Continuou insistindo, tanto no texto póstumo Esboço de -Psicanálise (1940 119381) como no livro sobre Moisés (1939a 11934-381). "que a herança arcaica do homem não somente abrange disposições como conteúdos, vestígios de lembranças e vivências de gerações anteriores" (p. 546). Não que lhes tivesse escapado essa crítica: 1 "Com exame mais preciso somos obrigados a confessar que há muito tempo comportamo-nos como se não fosse questionável a herança de restos das memórias vividas pelos ancestrais, independente da comunicação direta e da influência através da educação pelo exemplo I .. ·1· Entretanto, nossa posição é dificultada pela situação atual da ciência biológica que nada quer saber da herança de caracteres ad-

todas as edições anteriores, por engano, em lugar de "gerações posteriores", lê-se "organizações posteriores". Na Standard Edition, v. 13, p. 31, a tradução de Strachey diz generations), De passagem, quero relernbrar aqui um modo de transmissão, discutido por Freud na mesma obra, e que deixou de ser mencionado mais tarde: "A psicanálise nos ensinou 1-. _I que cada pessoa em sua atividade mental inconsciente possui um aparelho que lhe permite interpretar as reações dos outros seres humanos, isto é, anular distorções que o outro aplicou nas manifestações dos seus sentimentos. Através do entendimento inconsciente de todos esses costumes, cerimônias e normas, que foram ligados pelo relacionamento original com o pai primitivo, as gerações posteriores podem ter conseguido a posse dessa herança afetiva" (p. 441). 1 Apesar de não se encontrar na obra de Freud nenhuma alusão a isso, parece bastante improvável que Freud não tivesse acompanhado pela margem a agitada discussão sobre as experiências do biólogo vienense Paul Kammerer. Kammerer, nos primeíros decênios do século, tinha realizado experiências com sapos e lagartos, as quais foram entendidas como tentativas de provar a herança de características adquiridas, mesmo que isso não tivesse sido sua intenção. Levantou-se sobre essas experiências a suspeita de falsificação. Arthur Koestler (1972) narrou a história de Kammerer. Freud citou Kammerer uma vez com simpatia (1919h, p. 261), sobretudo seu livro especulativo A Lei da Série (1919). Que a discussão darwinista-larnarckísta foi acompanhada pelo grupo de colaboradores vienenses de Freud provam-no, não em definitivo, as reflexões de Fritz Wittels mencionadas no projeto (1912, principalmente p. 1-19).

1 Pode-se supor que deve ter havido graves motivos inconscient 6 J'l I' Frcud ter teimado na hipótese do drama primitivo da família pré-histórica, P I' lU, nada se percebe com certeza. Poderfamos somente especular, sem fund m 01 • sobre, por exemplo, o fato de que estava prestes lt ruptura com C. ,1\111, quando ele trabalhava em Totem e Tabu, ou que Freud, 110 pensar n d '1IlI segundo ensaio metapsicológico, na solidão imposta pela guerra, poderio ti" sentido como o pai primitivo da psicanálise, abandonado por seus Iühos-c lnl I' \. dores.

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A teimosia de Freud em fechar-se a todas as dúvidas sobre a existência de uma forma lamarckista de hereditariedade, ainda dos meados ao fim dos anos trinta.l já demonstra traços de idiossincrasia, considerando que as revolucionárias descobertas genético-moleculares com relação à natureza da substância hereditária e aos mecanismos do processo hereditário só começariam nos anos quarenta. Mas isso não se pode dizer quanto à sua posição evolucionista básica, na época da redação de seu rascunho Neuroses de Transferência: uma Síntese. Além de Sándor Ferenczi, partilhou essa posição básica com muitos de seus colaboradores, como Karl Abraham e, por fim, mas não em definitivo, C. G. [ung, que comparava seus arquétipos com os instintos dos animais e os considerava heredogeneticamente fixados. Freud, como todos essms cientistas, formados em ciências naturais no terço final do século XIX e no começo do século XX, e mais tarde ocupados com a pesquisa da ~ encontrava-se numa tradição científica estritamente evolucionista que, na virada do século, havia atingido também a psicologia. Embora tivesse expressamente mostrado que em sua juventude "a então atual doutrina de Darwin" muito o atraía (1925d 119241, p. 34), essa influência evolucionista, por sua envergadura, força criadora e abrangência, vem só muito recentemente à tona, reforçando o interesse científico dos primeiros tempos de Freud. Foi Frank J. Sulloway (1982) que, depois dos trabalhos de Lucille B. Ritvo, forneceu2 a reconstrução mais detalhada até agora feita daquele pano de fundo lamarckistadarwinista, o qual transparece de forma tão manifesta no rascunho até agora desconhecido do décimo segundo ensaio meta psicológico. De acordo com a concepção de Sulloway, essas foram as raízes biológicas específicas da psicanálise, de modo algum bastante consideradas, levando-se em conta que Freud não se referia a elas de forma ininterrupta em suas obras. Longe de querer ocultar uma linha mestra de suas origens intelectuais, agia assim porque naqueles tempos pensava-se despercebidamente de forma evolucionista, dando-a como evidente, no sentido mais amplo do darwinismo, algo parecido como nós hoje estruturamos certos campos da realidade de acordo com as categorias freudianas. 1. Foi no tempo em que T. D. Lysenko, na União Soviética, começou a envidar esforços no sentido de conseguir uma base científico-naturál para a teoria social marxista, mediante modelos de herança neolamarckistas. 2 Isso continua válido, mesmo sendo justa entrementes a crítica feita a seu reducionismo psicobiológico, a suas deduções do conhecimento sociológico e a seu julgamento da originalidade de Freud.

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Ao esboçar o contexto histórico-científico, precisamos recordar qu os conceitos explica ti vos lamarckistas e darwinistas não foram no c meço considerados antagônicos.í Na ascensão do darwinismo, os pesquisas de Jean-Baptiste Lamarck foram redescobertas como "notáveis pioneirismos no caminho para uma teoria científica da evolução. Assim é a idéia vitalista segundo a qual a causa para a efetivação das adaptações deveria ser procurada num impulso de aperfeiçoamento inerente ao organismo, como a concepção, prefigurada no mito e" na Bíblia, pela qual o ambiente pode provocar mutações hereditárias por influência direta nos organismos. Esta última concepção foi compartilhada por Darwin, e tanto ele como outros cientistas de sua época empenharam-se por idéias teóricas que justificassem essa forma de herança. Nela, ele percebeu um. cumprimento dos mecanismos da evolução postulados por ele próprio: por um lado, nas variações hereditárias sem finalidade dos organismos e, por outro, na seleção natural, que favorece aquelas variantesatravés de maiores chances de procriação, que garantem a melhor adaptação, sob as condições específicas de vida do referido tipo de organismo. A moderna genética da evolução tem confirmado a teoria de Darwin em seus traços fundamentais. Ela trouxe especialmente um esclarecimento abrangente sobre a microestrutura das variações hereditárias, através das quais é mantida a variabilidade e, portanto, a capacidade evolutiva dos organismos de se transformarem. Invarivelmente, a seleção natural é um dos mecanismos decisivos da evolução. Da hipótese do Larnarck, ao contrário, diante elos conhecimentos atuais, pode-se sustentar que o ambiente realmente influencia variações no organismo, mas qu têm apenas o caráter de modificações. Mudam somente os fenótipos, permanecendo os genótipos intocados, portanto mudanças não hereditário

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Apesar de seu desenvolvimento impetuoso dos últimos anos e décadas, considera-se a teoria da evolução antes de mais nada íncornplct Gerhardt Vollmer (1984), num ensaio que descreve seu estado atual, acentuando a carência de complementação, através de contra-argum l1t críticos, mencionou a verificação de que, mediante os mecanismos d

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1 L. B. Ritvo (1972, p. 281) comprovou ainda essa coexistência na obr Carl Claus, professor .de zoologia na Universidade de Viena, em cujos IJ(' Freud se matriculara já em seu segundo semestre (S. Bernfeld, 1951, p. 17 ) que moldara de forma decisiva as idéias bíológico-evolucionistas de Freud, mo Ritvo demonstra.

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sistema psíquico e não nos sentimos com o direito de fazer supoelçõ respeito. Portanto, estamos sempre operando com um grande X g 111 retomamos, além, em cada nova fórmula" (1920g, p. 240). Em r laçt a esse ceticismo, faltam depoimentos semelhantes no tocante às idélu psicolamarckistas, sobretudo nas obras posteriores. Também, dentro cl ambiente psicanalítico pós-freudiano, o debate metapsicológico sobre s· ses elementos antiquados de sua percepção da evolução biológica p rCC não ter alcançado profundidade semelhante, nem revisto esses elemento na medida dos conhcimentosrnais recentes relativos à herança fisicalists e às concepções energéticas da neuropsicologia.I

Darwin, não poderiam ser explicados, por exemplo, o nascimento dos primeiros seres vivos, o das novas espécies, o do homem, o dos complexos sistemas de órgãos como o olho humano, ou do cérebro, e também da fala e da lógica. Desde então, especialmente para esclarecer tais processos "macroevolutivos", numerosos outros fatores da evolução foram designados. Alguns, representando o darwinismo moderno, alinham-se hoje com igual dignidade ao lado dos fatores clássicos de Darwin.l Ao contrário, não receberam confirmação aqueles pesquisadores que tentaram encaixar conceitos neolamarckistas nas lacunas que ainda persistem na construção da doutrina explicativo-causal da evolução. B verdade que diminuiu o encarniçado fanatismo, comum ainda na época de Freud, contra qualquer avanço do pensamento neolamarckista. Porém, enquanto não houver demonstração convincente da influência direta do ambiente sobre o genoma, não vale a hipótese de que" a memória genética trabalha exatamente como a memória cerebral",2 que ela aprende, logo que é infundada qualquer forma de teoria de aprendizagem segundo a qual informações do ambiente poderiam passar diretamente para dentro do ADN. IS50 não fecha a questão no sentido de que o estado das coisas não possa ser revisto.3

Mas não somente certos aspectos da teoria ressaltam na leitura do rascunho do décimo segundo ensaio meta psicológico como antiquados. O que deve também parecer ao leitor como fora de época, embora a graça estética da segunda parte também esteja ligada a isso de maneira mais intensa, é a inclinção para o esboço teórico portentoso, para a reconstrução, do mesmo estilo e ainda violentamente simplificador, da história da formação de traços fundamentais da condição humana, como, por exemplo, da fala.2 Ainda mais: na forma de encadear acontecimentos a partir de uma concepção cronológica e linear, nos dramas primitivos, enfim, idéias genialmente reducionistas, as quais hoje parecem-se na verdade mais com modelos de mitosõ do que com teoria científica.

O que significará isso, não somente para o décimo segundo ensaio metapsicológico, como enfim para a metapsicologia de Freud? Há anos vem-se advertindo que um de seus principais pilares - o princípio de constância de Fechner - não resiste aos mais recentes conhecimentos científicos. Foi provado que a concepção, segundo a qual o organismo tenderia a manter o nível predominante de excitação tão baixo quanto possível, ou eliminar completamente os estímulos, carece de fundamento biológico+ Vários autores mostraram quais os efeitos inibidores que este princípio psicobiológico, oriundo do século XIX, exerceu na metapsicologia de Freud, como por exemplo, dificultar o desenvolvimento de uma diferenciada teoria dos afetos conectada à clínica.õ O próprio Freud não teve ilusões quanto à falta de clareza e à condição de provisório de seus relevantes conceitos energéticos da metapsicologia. Acentuou "que nada sabemos sobre a natureza dos processos excitatórios nos elementos do Cp., por exemplo, Vollmer (1984) p. 288-90, p. 152-82. 2 F. Iacob (1983), p. 28. 3 Cp. H. Weiner (1965), p. 15. 4 Cp. R. R. Holt (1965), p. 108 e segs. 5 Cp. A Modell (1984), p. 218. 1

ou A. Rernane

e outros

(1980),

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1 Por exemplo, K. H. Pribram e M. M. Gill (1976). 2 Sobre os modernos e complexos acessos para o problema da evolução da fala, cp., por exemplo, I. Schwidetzky (1973). 3 Freud naturalmente sabia que as passagens de um para outro são fluiu s, tanto que uma vez falou do "mito científico da herda primitiva" (1921c, p. 12 ) e na Autobiografia (1925d 119241, p. 93) ele até chamou sua hipótese relativo no assassinato do pai primitivo de "a visão". Os primeiros psicanalistas não eram únicos representantes desse tipo de teoria. Ela era, em tempos passados, ampl \mente divulgada em escritos biológicos, etnológicos e sociológicos. Cp., por x m· plo, os autores evolucionistas orientados pela antropologia cultural, rnenclonüd • por Freud no quarto ensaio de Totem e Tabu (1912-13), cujas teses univcrsall tU8, entretanto, já estavam sob fogo cerrado ao tempo de sua redação. Especialment construtos de J. J. Atkinson relativos ao estado primitivo da convlvêncla humana, a bloody tragedy (1903, p. 231), ao old world drama (p. 232), P ('1/111 sobre o assassinato dos filhos no solitary paternal tyrant (p. 228) e o rclaüv 11 papel do amor da mãe no estabelecimento das primeiras normas quanto ti clllu mortal entre pais e filhos [Freud refere-se a filhos homens (Sôhnei, dtstlnguludu de filhas (Tochter) (N. do T.)I e no apoio pela unidade familiar através UU li)' gamia, lembram o fluxo argumentativo hipotético de To/em e Tabu.

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Poderíamos .argutamente perguntar se o rascunho para Neuroses de Transferência: uma Síntese, com sua segunda parte filogenética, acrescentaria mais um argumento para a anulação da metapsicologia de Freud. Essa é' uma exigência que é feita de uns anos para cá - com outras justificativas, porém por representantes de várias escolas, entre as quais os herrneneutas, estruturalistas, seguidores da action language; portanto por aqueles que estão em primeiro plano interessados no aspecto da fala do processo de interpretação, na Filosofia da Linguagem e na Língüística, exigência cujas conseqüências levariam a estabelecer a Psicanálise como ciência cultural, como o são a História, a Lingüística e a Sociologia, declarando a tentativa freudiana de fixar a Psicanálise nas ciências naturais, como um anistórico "auto-engano cientííico";' e levantar a âncora somatobiológica. Conquanto trata-se, na metapsicologia, de formulação de teses do mais alto grau de generalidade, basicamente de descrição e explicação de características próprias da espécie, tem-se de falar necessariamente, e não definitivamente, também de fenômnos biológicos, portanto do corpo. ~;.~ .

Certamente, o presente exame do contexto relativo ao rascunho do décimo segundo ensaio metapsicológico não é o lugar para o apreço dessa discussãuRecentemente Arnold H. Modell (1984) advogou numa síntese .crítica a contra-abolição e uma revisão da metapsicologia.2 É possível que nesse meio-tempo tenham sido superados tópicos centrais - embora continuem atuais suas funções heurísticas, tanto para o psicanalista teórico quanto para o clínico -, funções submetidas a uma análise cuidadosa por A. H. Modell, a qual acaba redundando na frase: "Sem metapsicologia não pcdemos começar a pensar" (p. 223). Dessa forma retoma o dito tardio de Freud: "Sem especulações e teorizações metapsicológicas - quase poderia dizer fantasias - não vamos aqui um passo adiante" (1937c, p. 366).3

J. Haberrnas (1968), p. 300 e segs. 2 Cp, R. R. Holt (1981) para uma outra apresentação abrangente, na qual destaca a importância dos princípios teóricos da teoria dos sistemas visando a uma revisão da metapsicologia. 3 Este é o famoso lugar no qual Freud, na frase anterior, fala da "bruxa Metapsicologia", associada à citação do Fausto: "50 mu ~ denn doch die Hexe dran." E possível ainda que nessa metáfora ande ironicamente o fantasma da bruxa Caíiizares do "Diálogo dos Cachorros" de Cervantes (1963 116131. p. 612 e scgs.). Naquele diálogo das Novelas Exemplares, o cachorro Berganza relata como a bruxa o divertia com uma teologia de grande alcance, fundamentada em pares 116

Já alguns anos antes, não muito tempo após o trabalho no rascunh de seu Neuroses de Transferência: uma Síntese, Freud havia constatad em Além do Princípio do Prazer (1920g), "com relação a nossa c p culacão sobre impulsos de vida e de morte", sem ilusões e com clarividência: "em contrapartida, queremos que fique bem claro. qu incerteza de nossa especulação foi aumentada em muito pela necessid d de tomar empréstimos da ciência biológica. A biologia é deveras um reino de possibilidades ilimitadas, do qual temos de esperar os esclar cimentos mais surpreendentes, sem poder adivinhar que respostas no dar-á às perguntas que fizermos a ela alguns decênios mais tarde. Talv z exatamente aquelas que, num sopro, derrubem toda a nossa construção 81'tificial de hipóteses" (p. 268 e seg.). Ninguém negará que a biologia, no interregno dos decênios passados, realmente revelou-se como um .','reino de possibilidades ilimitadas". Mais precisamente, não só por causa das inovacões revolucionárias na biologia molecular e genética, mas também em r;lação ao desenvolvimento no campo da teoria da cognição.! Em toda parte observam-se os começos de um enredamento teórico moderno da psique e soma,2 que aos poucos levam paulati~amente à, s.upera.~ão dos tradicionais cismas cartesianos corpo/alma, cérebro/espírito, ciencias naturais/ciências culturais. Como também parecem possibilitar+a . atenuação da dicotomia sujeito-objeto. Somente quando a reivindicação meta psicológica, e corri ela a ligação com a biologia, puder ser mantida dentro da psicanálise, poderão o )

de opostos, tais como pecado/moral, luxúria/abstinência, realidade/fantasia. N somente a metapsicologia é igualmente construída ao capricho da realidade, com Freud a seu amigo de adolescência Eduard Silberstein haviam se identificad lu· rante os anos de ginásio, de brincadeira, com os dois cachorros falantes (v ju I cartas de Freud para Silberstein, cuja publicação em alemão está sendo atunlm nt preparada). . . 1 Como ilustração, podem-se mencionar duas publicações desse tipo, a 01 rI de Iean Piaget, a Biologia e Cognição: sobre o relacionamento entre a r l{t//(I ções orgânicas e processos coghitivos (1974); e os trabalhos de Humberto MIIIII· rana sobre "Episternologia Biológica" (1982). nos quais esboça uma nova I ,'11, além dos tradicionais modelos do homem como máquina, de sistemas vlv , da dependência biologicamente estabelecida do processo cognitivo do ~uj lt , 2 Novamente dois exemplos: os escritos reunidos em O Biograma (J 7 , <l antropólogo e zoólogo Earl W. Count e a buscar por Thure von Uexküll I lllll paradigma da medicina psicossomática, operando, entre outros, com os. 11' li\! de círculo situacional, gestalt de época, realidade individual, programa, .51 t nnu lI! sinais ·(1979, capo 1 até 5, em colaboração com W. Wesiack, 1980, p. 03 •

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psicanalistas manter abertas suas percepções para esses desenvolvimentos e evitar o isolamento da herança freudiana no discurso das ciências vizinhas. Mesmo que apenas poucos possam tomar parte ativa em tais pesquisas, .podemos imaginar as boas perguntas que poderiam ser por eles apresentadas aos representantes de outras matérias, perguntas que especialmente salientam a dimensão do inconsciente, deduzi das do modo especial de conhecer na situação psicanalítica, daquele oscilar entre a intersubjetividade intuitiva e vivencial e a objetividade observadora, reflexiva, o qual caracteriza o método psicanalítico, independente dos tópicos teóricos metapsicológicos antiquados. Isso significaria abrir passagem à posição epistemológica de Freud, inteiramente inédita naquela época entre as ciências naturais e humanas. Pois ele era radical em duas direções diferentes: no ímpeto de sua crítica social e religiosa, ao fazer sua análise da cultura, como na sua tardia insistência inexorável na ancoragem de todo comportamento humano ao substrato mortal orgânico-biológico, responsável pelo prazer.l Podar a psicanálise de sua dimensão metapsicológica significaria, epistemologicamente, regredir um passo no avanço do pensamento revolucionário de Freud, portanto um novo revisionismo. Isso implicaria, também, não facilitar a compreensão dos fenômenos que estão geneticamente ligados aos processos psíquicos ou psicofísicos estruturantes, aqueles que aparecem mais cedo na vida, que resultam da matriz orgânica. Voltando ao rascunho do décimo segundo ensaio metapsicológico de 1915. Acentue-se uma última vez que Freud não deixou o texto passado a limpo chegar a público por motivos muito bem ponderados. Se agora o rascunho vem a ser publicado, mesmo contra a vontade do autor, assim como antes um outro docum~nto de uma frustração, ou seja, o fundamental "Esboço de Psicanálise" de 1895, redescoberto junto com as cartas dirigidas a Wilhelm Fliess, seja-nos permitido relacionar algumas razões para isso. O texto e a discussão com Sándor Ferenczi, esta reconstruída através da correspondência, transmitem uma imediata e rara impressão da . 1 Certamente não é por acaso que as inteligências progressistas entre seus colaboradores. como Sándor Ferenczi e Siegfried Bernfeld, perceberam esse duplo radicalismo e tentaram em suas obras dar continuidade a ele, mesmo que estudos bioanalíticos de Ferenczi e os libidométricos de Bernfeld não passassem de especulação ou se equivocassem completamente porque faltava a esses pesquisadores os adequados instrumentos conceituais.

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naturalidade do momento lúdico do processo criativo de Freud, ou mcsm da importância da imaginação na criatividade científica em geral - talvez precisamente porque não mantivesse o produto no fim; porque u "fantasia ousada mente lúdica", depois de lhe ter dado rédeas s lra , tinha sido superada mais tarde na medida de sua "crítica real e impl • cável" -, aliás um movimento que já transparece no último parágraf do rascunho. Relaxamento, curiosidade infanto-juvenil, capacidade psra maravilhar-se, para entusiasmar-se, para tolerarem-se mútua e amiga v [, mente, animando-se reciprocamente, bem como corrigindo-se de forrn incondicional, objetiva, enfim a cultura humana e dialética, caracterfstíc dessa fase de amizade Freud-Ferenczi, sugere-nos um exemplo de colaboração científica. Até onde ele traz à tona seus elementos radical e notoriamente ncolamarckistas, o rascunho poderia ensejar o impulso para uma crítica produtiva da metapsicologia, na medida em que o peso dessas problemáticas peças teóricas não passaria despercebido promovendo-se uma modernízação.! Evidentemente, entre os sete ensaios metapsicológicos rejeitados, décimo segundo tem um lugar especial na estima de Freud. O que fascinava era sua segunda parte, pois não se estendeu de forma tão detalhada e comprometida sobre nenhuma outra passagem dos sete textos perdidos nas cartas dos tempos de guerra. É certo que mesmo ainda h jlJ chegam a nos convencer algumas respostas buscadas com esforço n rascunho. Outras, porém, que posteriormente Freud não mais manipulou continuam plenamente atuais: uma delas, a idéia quanto a sab L' se aquilo que hoje se impõe como mórbido no neurótico e no psícétl limitando a vida, poderia ser na origem de seu desenvolvimento a I'CUç adaptativa necessária para a sobrevivência da espécie, diante das m di. ficações ameaçadoras das condições ambientes e diante de acontccim 'ntos traumáticos. Portanto, o esboço não é para ser lido exclusivam III como curiosidade histórica. O que Havelock Ellis (1910, p. 523) constatou em uma \. ti' I precoce do estudo de Freud sobre Leonardo (1910) parece comi 11111' bem com o até agora desconhecido rascunho de Neurose de Tran '11'1'/lcia: uma Síntese, considerando-se quantos conhecimentos há a d t 1111 IJ'

1 Uma tentativa desse tipo ;oi feita, há vinte anos, nos E.U.A., conferência interdisciplinar. Veja N. S. Greenfild e W. C. Lewis (1965).

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e a serem expostos sobre as dúvidas relacionadas ao modelo da herança lamarckista e as mudanças derivadas da moderna teoria pluralística do conhecimento. Pois Ellis acha que Freud, mesmo quando usa em suas hipóteses um fio muito fino, quase nunca perde a oportunidade de enfiar nele pérolas, e estas mantêm seu valor independentemente do fato de o fio resistir ou se romper. ABRAM EKSTERl\1AN

A Metapsicologia

de Freud

Posfácio à Edição Brasileira

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Não será pela última vez que um manuscrito desconhecido estimula a curiosidade, especialmente tratando-se de texto inédito de um dos mai influentes criadores do século XX. Aliás, a tarefa de pesquisar os segredos de Freud nestes últimos anos só deve ter sido superada pelos segredos que o próprio Freud pesquisou. Já conhecemos bem o vínculo do tipo hegeliano que mantém o segredo e a curiosidade. Desde tempo irnemoriais, acredita-se que a verdade está além dos objetos, do visto e do pronunciado, guardada em arcanos acessíveis apenas a uma minoria de eleitos. De fato, aprendemos justamente com Freud que as palavras, além de informar, desorientam; alérri de revelar, ocultam; e que precisamos estar atentos ao subentendido, ao trocadilho, ao enigma, à metáfora, para tomarmos contato mais autêntico com a verdade de cada um. De Tirésias a Fzeud, passando por Kant, aprendemos a não confiar em nossos sentidos e em nossas palavras.

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De Freud, foi desengavetado o "projeto" de 1895; recuperamo centenas de cartas, desde as mais íntimas à noiva Martha, até aquela dirigidas a eminentes discípulos e intelectuais da época. Procuramos, na cartas a Fliess, as origens da psicanálise e lamentamos não encontrar n respostas do próprio Fliess. Vez por outra, anuncia-se algo a ser r v • lado, que deverá reestruturar o edifício freudiano. Sempre há algu rn pesquisando a entrelinha de um rodapé desprezado, na busca de ur J perdido, descontente com a vasta bibliografia contida nos 23 v lum da Edição Standard, cujo estudo atento de seus 231 títulos dificíln 111 levaria menos de dez dedicados anos. Para o estudo básico da O I' I I Freud, na formação psicanalítica do Instituto da Sociedade Brasil Irn ti Psicanálise, salientamos tradicionalmente cinqüenta e quatro tr nlh J cujo estudo é desenvolvido durante quatro anos, tempo que tem 11\ trado insuficiente para integrar a enorme massa de informações c nt I, neles. Mesmo assim, ao longo dos anos, o atrativo pela descob ,)'t , cente continua interrompendo a disciplina regular. Ê o caso d encontrado manuscrito do décimo segundo ensaio mctapsicolõgl


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meio aos papéis deixados por M. Balint e guardadas por Enid Balint. Se o documento por si faz afirmações encontráveis em outros trabalhos e não foge do desenvolvimento das' idéias de Freud, " contudo, um poderoso estímulo para a releitura e a reavaliação das idéias psicológicas de Freud, as quais ele batizou de meta psicologia. QUalS as características da psicologia exposta por Freud, portanto de sua melapsicologia? E como adendo cabe a pergunta: quais de seus trabalhos tratam de metapsicologia? Começando com a segunda resposta, podemos percorrer o mesmo raciocínio da organizadora, Ilse-Grubrich-Simitis, desenvolvido em seu ensaio "Metapsicologia e Metabiologia", que, junto com o texto de Freud, completa este volume, tornando-o um livro da mais alta importância 'para os estudiosos de psicanálise. Com efeito, reunindo farta documentação, especialmente as cartas trocadas entre Freud e Ferenczi, a psicanalista alemã brindou-nos, através de uma minuciosa reflexão, com um magnífico' exemplo de estudo crítico dos elementos básicos da metapsicologia- face à época em que foram desenvolvidos, bem como ao contexto científico atual. Com ela concordamos quando amplia os estudos metapsicológícos de Freud, de acordo com a tendência moderna, para "Esboço para uma Psicologia" (1950a), o Capítulo 7 de A Interpretação dos Sonhos (l900a), "Formulação sobre os Dois Princípios do Processo Mental" (1911b), "Sobre Narcisismo: uma Introdução" (1914c), Além do Princípio do Prazer (1920g), O Ego e o Id (1923b), e os cinco ensaios metapsicológicos de 1915: "Pulsões e o Destino das Pulsões" (1915c), "Repressão" (1915a), "O Inconsciente" (1915e), "Suplemento Metapsicológico à Teoria dos Sonhos" (1917d) e "Luto e Melancolia" (1917e). Pela correspondência de Freud trocada com Ferenczi, temos de mencionar outros quatro trabalhos desse conjunto, a saber, "Consciência", "Angústia" ou "Histeria de Angústia", "Histeria de Conversão" e "Neurose Obsessiva". De J. Strachey, sabemos por sua introdução aos trabalhos metapsicológicos de 1915, onde, além de citar esses títulos, afirma que deveriam existir ainda um trabalho sobre "Sublimação" e talvez outro sobre "Projeção" (Standard Edition, v. 14, 106). O próprio Strachey, nessa introdução, lembra ainda o Capítulo 6 do livro sobre chistes e a terceira parte da análise sobre Schreber. Diferentemente da organizadora, contudo, creio que podemos ampliar ainda mais o conceito para incluir toda a exposição teórico-psicológica de Freud, a começar por seu trabalho de 1891 sobre afasias. A partir desse trabalho, Freud desenvolve sua reflexão fundamental sobre o

significado, fornecendo-nos subsídios para compreender o que ele ch • mou de "afasia agnósica", concepção sua de um distúrbio funcional du linguagem que compromete o vínculo associativo entre Dingvorstellun (representação de coisa ou objeto) e a Wortvorstellung (representação do palavra). A representação de coisa é aberta a novas impressões, enquan~ a de palavra é fechada, não admite impressões subseqüentes. A percep ti de objeto - da realidade exterior - fica, portanto, sempre aberta a n vas impressões. Obtém-se o significado de algo através dessa compl a associação: da representação de coisa com a representação de palavra; perde-se o significado, mediante a dissociação entre essas duas repres ntações, produzindo "afasia agnósica". Não nos é difícil reconhecer qu essa associação das duas representações produz "consciência" iBewussisein) e sua dissociação produz "inconsciência" (Umbewusstsein), Além disso, o mecanismo psicológico funcional que produz essa dissociaçã , como será explicitado claramente em 1915, e aqui no manuscrito, Neuroses de Transferência: uma Síntese, é o de repressão (Verdrangung), ou seja, a dissociação entre as duas representações, produzindo inc~ns~i~nci por ausência de significado .. E bom ter em mente que,. o slgl1lflca.d correto de Bewusstsein está ligado a "conhecer" e não à idéia neurológica de "vigilância", que é proporcionada pela atenção. Conhecer ou nã conhecer (consciência ou inconsciência) é a questão essencial da psicanálise e não, como é comum nas discussões sobre metapsicologia, problema da distribuição de energia em seus aspetos c1i~âmicos e. ec nômicos. Antes de examinarmos este último tópico, gostana de sublinhar mais uma vez a questão do conhecer ou do desconhecer como a matriz d toda discussão psicanalítica. E ela, como vimos, que está na intimidade do problema da consciência e da inconsciência. Tornar o ínconscient consciente é o objeto terapêutio e o tema central da técnica; discrimh \' o consciente do inconsciente, saber como um se transforma em outr nhecer suas propriedades, funções e conteúdos é assunto da nova p I' logia de Freud: a metapsicologia. A metapsicologia é, portanto, o arnp específico da ciência psicanalítica dedicada ao conhecimen.t~ ~o t I't'll rio mental do inconsciente e de suas relações com a consciencia, 11\ unidade biológica que o produz e com a estrutura físico-social I ntro da qual subsiste. Este é o conhecido tema topográfico da metapslc I 11, que pode ser definido como um espaço conceitual, situado entre I lógico e o físico-social, mantendo com este último tênue mernbrun \ consciência. Note-se que entramos em formulações teóricas, 11 t expostos construtos e não descrições da realidade fatual. Estam m

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pleno território formal. Com esse esclarecimento voltamos aos outros dois elementos "definidores da metapsicologia, conforme está no texto sobre "O Inconsciente" (1915e, Standard Edition, v. 19, 181). Diz Freud: "Proponho que uma apresentação seja denominada metapsicológica quando conseguirmos descrever um processo psíquico segundo suas relações dinâmicas, tópicas e econômicas." O aspecto dinâmico dessa construção teórica serve como instrumento compreensivo para as relações do sistema inconsciente com a consciência, para as relações dos componentes e conteúdos desse sistema e em suas relações com o ambiente físico-social. São afirmações inspiradas na observação clínica e pretendem configurar relações dinâmicas, portanto, de forças em operação, que podem se associar, confluir, divergir e conflitar. Tais operações tornam compreensíveis uma série de fenômenos psíquicos, normais e patológicos, especialmente um, ligado à patologia mental, qual seja o conflito psíquico, cujas nuanças estariam na origem das variadas manifestações da patologia. Essas forças em operação, por sua vez, são fornecidas pela dimensão biológica e foram descritas como instintos, ou mais precisamente, Trieb, cuja tradução mais correta é "pulsão", cuja característica, conforme o sentido da própria palavra alemã, é de impulsionar para um objeto," segundo um objetivo. Por ter características imperativas, guarda analogia com a expressão "instinto", utilizada na versão inglesa de J. Strachey, embora ele próprio tivesse feito várias ressalvas a respeito. A quantidade de energia disponível da pulsão define o aspecto econômico, portanto as relações do sistema inconsciente com a dimensão biológica, a qual é a única fornecedora de energia para as múltiplas operações mentais. Temos assim um esboço dos conteúdos da definição de Freud para a metapsicologia. Fascinado pelo aspecto energético e pelo discurso neurobiológico, apoiado no princípio de constância de Fechner, Freud estendeu-se de tal forma pelos tópicos dinâmico e econômico que o topográfico aparece reduzido como o lugar de operação dessas forças, Na verdade, ' o topográfico é o elemento definidor da metapsicologia, pois ele justamente contém o conceito de inconsciente, cuja distinção básica de outras formulações anteriores (e posteriores) não é só porque contém a qualificação dinâmica (ou seja, do que é mantido inconsciente), mas porque é o produtor mesmo da representação inconsciente, que para se tornar consciente precisa associar-se à palavra. Por essa razão primária, portanto de toda atividade mental é que Freud considera o inconsciente" a verdadeira realidade psíquica" (Edição Standard Brasileira, v. 5, 651, Imago). Vale acrescentar o trecho grifado por Freud que conti-

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nua a frase fundamental na teoria psicanalítica: "em sua natureza mal íntima, ele nos é tão desconhecido quanto a realidade do mundo exter! r e é tão incompletamente apresentado pelos dados da consciência quanto o é o mundo externo pelas comunicações de nosso órgão dos sentido ., (ib.). É secundário, para entender o inconsciente, saber se é uma qualidade psíquica, uma descrição de conteúdos que são inconscientes, s é aquilo que está além da censura ou da repressão, se é formado p I ' reprimido ou pela herança filogenética. Tais aspectos são condicionado por nossa perspectiva que ainda percebe o fenômeno mental como equivalente a conteúdos da consciência. Queremos saber, olhando do ângulo da consciência, o que é inconsciente ou inconsciência e assim produzirmos qualidades, confundindo essas qualidades com a própria natureza substantiva do fenômeno. A natureza substantiva do inconsciente é a própria realidade psíquica, da qual a própria consciência é apenas um atributo. Trata-se de uma reformulação tão completa de nossa concepção do psiquismo,que podemos aqui aplicar a noção de "corte epistemológico" proposta por Gaston Bachelard. Com efeito, todas 'as noções psicológicas anteriores ficam completamente transformadas, e nenhuma concessão conceitual pode ser feita sem corrermos o risco de perder a perspectiva aberta por Freud. Tudo, na mente, em princípio, é inconsciência. Nosso problema, portanto, não é saber como se produz a inconsciência, mas como se produz a consciência. Essa pergunta parece-me a central do" objeto psicanalítico da investigação da mente, igualmente central em sua proposta terapêutica. Não há nenhuma novidade nisso. A fórmula de Freud, exposta em O Ego e o Id (1923d), continua absolutamente válida: "Wo Es war, sollen lch weren." (Ond era id, seja ego.) A questão metapsicológica, do ponto de vista teórico, é a da d • crição do psiquismo tendo como seu eixo o inconsciente; do pont d vista prático, ou clínico, a transformação psíquica do inconsciente par I o consciente. A tarefa é tornar consciente. Duas afirmações apar C 11' como corolários: a primeira é a de que toda a obra de Freud é um en 1'0 texto metapsicológico, e não apenas alguns de seus trabalhos selecionad l a segunda é de que o tema central da metapsicologia refere-se esp Ir. camente à representação (Vorstellung). Para tornar mais clara mlnl I afirmação de que toda a obra de Freud é um texto sobre metaps! 1 I, devo encontrar os argumentos na segunda afirmação que sublh h I I representação como o centro do universo metapsicológico.


A palavra Vorstellung tem um significado bastante claro para quem pensa e se comunica em alemão. Quando se diz: "Konnen Sie sicn das vorstellen ... " pretende-se dizer, simplesmente, que "O senhor pode imaginar isso ... " Esse imaginar, no entanto, tem algumas características distint~vas. :É al~o que se apresenta na mente, na ausência do objeto sensonal, percebido do mundo exterior. Trata-se de uma fantasia, ou de ~m fantasiar. :É diferente da Wahrnehmung, ou percepção, onde o obJe!o sensoria.l está presente. Dentro do uso correto da palavra Vorstellung, ~ao faz sentido falar em Vorstellung inconsciente, pois, por definição, ela e um conteúdo da consciência. Voltando ao dito "Konnen Sie sich das v~rstellen ... " estou dizendo que "O senhor pode imaginar ... " conscIente~e?te. A ninguém passaria a idéia de que se está imaginando, ou tendo. idéias, de forma inconsciente. Freud conseguiu conceber isso o ~ue lingüisticamente não faz sentido, mas para ele fez todo o sentido. E por isso que discute, no primeiro capítulo de O Ego e o Id, demoradamente essa questão, dialogando, como costumava fazer, com opositores.eventuais (Edição Standard Brasileira, v. 19, p. 25 e seg.). O psicanalista, que concebe imaginar inconscientemente, na verdade dedica-se a dialogar com as fantasias inconscientes de seus analisandos. Sem a nova perspectiva conceitual de Freud, a atividade psicanalítica pareceria uma arrematada loucura. Assim, a impressão sensorial produz, como primeiro passo para se tornar mental, um rastro de Vorstellung "representação", criação mental de um objeto ausente. A impressão sensorial tanto pode advir dos cam.inhos :xteroceptivos, da realidade externa, como proprioceptivos, da rea!Idade m~erna .. Am,b~s produzem representações, fcrnecendo as primeiras matnzes simbólicas que produzem as informações necessárias para gerar orientação para os mecanismos adaptativos. Se o aparelho n:.ental ~u~an~ ~icasse restrito a esse nível de produção de informações, nao se distinguiria do de um outro mamífero superior. O que o torna diferente é que essa representação primitiva transforma-se em consciência ou seja, em saber, na verdade em saber consciente, revolucionando a conduta, ~~ medida em que de orientação adaptativa inconsciente, quase auto~~~Ica, abre atr~vés da' consciência 'uma nova e criativa gama de possibilidades. E atnbui à palavra esse papel de tornar consciente. A representação primitiva é a linguagem do processo primário de pensar, c a representação ligada à palavra é a do processo secundário de pensar, segundo a conhecida classificação de Freud, desde o Capítulo 7 de A Interpretação dos Sonhos (1900a). A representação primitiva é o subs128

trato igualmente dos sonhos, que toma de empréstimo elementos .v.e~"J. ~ da consciência. Esta se diferencia justamente quando a atenção se desvia de seus conteúdos e a torna pré-consciente, a qual guarda uma relaçã absoluta com a consciência e só guarda com o inconsciente a qualidad psíquica de seus conteúdos não serem conscientes. :É assim que o tema tÕI5g~ráfico é menos uma questão de espaço que de conteúdo verbal. O verbo ou a palavra é que distingue o que é consciente do que é inconsciente. :É claro que hoje podemos

abarc~r o panorama geral do pensamento de Freud sem as limitações da época, tanto suas, na medida de um discurso penosamente desenvolvido através de achados clínicos precariamente conclusivos, e da linguagem de um contexto ainda não modificado pela própria psicanálise, assim como da adversidade de uma cultura que resistia a uma transformação tão radical propiciada por essa nova psicologia. :É dessa maneira que fica mais complexo compreenderem-se os textos metapsicológicos, como foram redigidos nessas circunstâncias. Pois eles partiram da consciência para mostrar a inconsciência, e o caminho expositivo era mostrar como algo se tornava inconsciente. Dessa forma, avdefesa e, em seguida, a repressão" tornaram-se o tópico onipresente da metapsicologia. Nesse sentido, e partindo da clínica, era necessário mostrar não só como algo se tornava inconsciente, mas como algo se mantinha inconsciente. Avresposta veio óbvia: tornava-se inconsciente pela repressão e mantinha-se inconsciente pela resistência descrita como uma espécie de força que conservava algo inconsciente, a desp ito das tentativas do analista de franquear o acesso à consciência. Daí par estabelecer a equivalência entre a repressão e a. força repulsiva foi un passo. A idéia de repressão transformou-se num conceito hidráulico, sobr o que, aliás, quase todas as críticas à metapsicologia convergem. Acl que devemos retomar o sentido original, que, contudo, não exclui 1\ idéia de força, mas' que em sua versão completa fica bastante difer nt . A palavra Verdrangung quer dizer literalmente "abrir espaço para al ",

.• Continuei usando a palavra repressão, consagfada pelo uso, Não há vnntngem em se empregar a versão francesa recalcaniento, <ií.;eparece ainda men Ilfll" priada. Calcar 'em,português ainda é mais opressivo: no sentido de força, ti I palavra repressão. "Esta última tem a vantagem da tradição, a qual P d 1110 utilizar mantendo o sentido em alemão. Basta substituirmos a idéia de uma pr '0 sentido vertical por uma no sentido horizontal. Ficam sem sentido, desta "11\' .s expressões no fundo, psicologia profunda e outras similares.

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como alguém que, numa multidão, abre espaço com os cotovelos para si próprio. O sentido, portanto, é abrir espaço para si, ou, completando o significado, abrir espaço para o eu, distinguindo-o do que não é eu. O Verdrangung é um modelo dedissociação: separa do "eu" o que o sujeito não quer mais que seja considerado como "eu". O reprimido, portanto, é um "não-eu". Isso é conseguido pela dissociação entre a representação de coisa (Ding(Sache) Vorstellung) e a representação de palavra (Wortvorstellung); em outros termos, a coisa fica sem palavra, portanto sem sentido, e algo sem sentido é não-consciente ou inconsciente. Mas o reprimido associado à idéia de força estimula a se pensar que devemos procurar esse reprimido dentro do sujeito, como se ele "estivesse escondendo algo", o que traz curiosas e desagradáveis conseqüências na técnica psicanalítica. O reprimido é tido pelo próprio sujeito como algo que não tem nada a ver com ele. Um outro. O que não significa para o observador externo que esse reprimido não possa ser reconhecido como fazendo parte do sujeito. É o que permite, como primeiro passo, a reconstituição psíquica dentro da análise. Podemos entender, assim, que a repressão que produz o reprimido, configurado como não-eu, é a essência do mecanismo de projeção e a matriz de todos os mecanismos de defesa. . Continuando com a pergunta de como algo se faz consciente, entendemos agora o que significa levantar o reprimido. Significa reassociar ou associar a palavra a uma representação de coisa, ou vice-versa, pois que ambas podem ficar inconscientes, bastando para isso retirar-lhes o significado: a palavra de seu objeto, e o objeto de sua palavra. Tal é a função da interpretação do analista, ou simplesmente a palavra transformadora. Um outro acontecimento de maior importância é descrito. Refere-se a em que campo mental a representação se oferece à consciência. No território do processo primário de pensar; configura umobjeto intrapsiquico, concreto, dotado de vida independente, cujas características vão se atenuando à medida que se apresentam no campo do processo secundário onde a representação adquire a forma de pensamento abstrato, quando os objetos se transformam em memórias, podendo se distinguir de fantasias. Fica O problema de energia que é o elo entre o psíquico e o biológico. Aqui se insere a questão psicossomática. Na verdade, a energia só se faz operativa através da representação. O que funciona no espaço mental são símbolos, mais ou menos concretos, criações muito particulares da realidade biológica, expressa através de seus impulsos, ou da 130

realidade físico-social, introduzi da pelas sensopercepções. Do ponto d vista tópico, o que não se representa, ou seja, o que não é Vorstellung, simplesmente não existe. Nesse sentido, a representação do impulso não é idêntica ao próprio impulso, como a percepção não é idêntica à sensação. A realidade psíquica não é uma realidade sensorial, é antes uma recriação do mundo externo e interno. Trieb é a força motriz da representação do impulso biológico. É o que a distingue do instinto, conceito esse mais comprometido com impulso biológico. A essa última afirmação poderíamos objetar com a concepção expressa por Freud de que o impulso de morte não tem representação, ao que poderíamos contra-objetar que utiliza, portanto, as representações de eros. A idéia de representação do impulso é conferir força e direção a objetos psíquicos, bem como qualidades. Em seu pólo mais primitivo, ao nível do processo primário de pensar, é afeto ou sentimento; e no pólo mais evoluído, ao nível do processo secundário de pensar, é a palavra. É assim que a metapsicologia, em última análise, é psicologia afetivista, e somente agora, em seu desenvolvimento mais maduro, vemos a metapsicologia transfigurar-se de uma sociologia monopessoal, para a psicologia bi e multipessoal das relações objetais e, portanto, dos vínculos afetivos, que em sua primeira fase constituem a essência do estudo da transferência. A metapsicologia apresenta-se pois como a teoria das transformações psíquicas: do biólogo para o mental inconsciente, através da representação,e do inconsciente para a consciência, mediante a apresentação da palavra, e, portanto, produzindo significado. Por um lado, permitindo a visão psicodinâmica do fenômeno psicossomático, por outro, da humanização do animal-homem pela palavra e pelo significado. Numa face, psicologia; na outra, semiologia. Duas perspectivas interligadas indissociáveis, sob o risco de, separando-as, reduzirmos a questão à p 1· cofisiologia ou à lingüística. Poderia acrescentar à reflexão da organizodora, Ilse Grubrich-Simitis, em seu ensaio conclusivo deste livro, a p I· deração de que justamente a metapsicologia é o território cone ttunl atualmente disponível de encontro das ciências naturais com as ciência histórico-culturais. Se considerarmos a inetapsicologia como o texto total da obra 1 Freud, como sugeri antes, a aventura de síntese que pretendi 11 I I linhas adicionais à tradução brasileira teve apenas a apoiá-Ia o li tento de sublinhar algumas questões básicas, pretendendo colaborar m aqueles que consideram a discussão em torno da validade ou 11 da metapsicologia latu sensu como fora de propósito: Não diria o n m

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quanto a alguns de seus tópicos e muitas formas de expressá-los. Com os desenvolvimentos científicos e com os recursos conceituais modernos, ampliou-se de tal' forma a possibilidade de reorganizar a estrutura metapsicológica que, possivelmente, em breve, poderemos assistir a uma retomada da reflexão metapsicológica no sentido de emprestar-lhe roupa nova, de acordo com o padrão da época presente. Contudo, dificilmente a essência da questão levantada por Freud será abandonada. Essa parece ser uma aquisição permanente da cultura, no sentido de garantir fundamentos à pesquisa da parte mais sensível da experiência humana, a qual se revela no mito, na poesia, na arte em geral. Pois a metapsicologia está para a psicologia, assim como a metafísica está para a filosofia. É o que acentua a psicanalista Ilse Grubrich-Simitis. Com efeito, o texto extenso da jepresentação mental é um mito, o próprio mito original da criação ~ da criação do símbolo. O sonho, a fantasia, o conteúdo de nossa mente! são mitos, instrumentos primitivos com os quais pretendemos inicar a longa trajetória de revelação da verdade da natureza, da vida e de nós mesmos. Mitos que nos são caros e que mantemos como engast~s preciosos indispensáveis, os quais perdemos não sem sofrimento. E assim é a psicanálise definida por Freudcomo instrumento desilusionante, como desmitificador. Entre a representação primitiva e o símbolo verbal, estende-se a longa elaboração perpassada de desilusões, lutos e sofrimentos. Não é por acaso que a própria psicanálise de Freud começou desfazendo os mitos sintomáticos com Breuer no caso de Anna O., e terminou na grande tarefa de desilusionar a base da cultura ocidental em Moisés e a Religião Monoteísta. Dessa forma, podemos entender a segunda parte do Neuroses de Transferência: uma Síntese, na qual Freud se estende por uma "fantasia filogenética". Certamente é mais que uma fantasia. Ali encontramos o ímpeto desilusionante de Freud, seguindo as pegadas de Lamarck e Darwin, procurando fazer no plano mental o que esses autores fizeram no plano heredobiológico. Com Freud, indo além de Darwin, ficamos privados não só da nossa criação biológica divina, mas de nossa própria alma, como concebida dentro do mito religioso. Descobrimo-nos humanos, herdeiros de impressões arcaicas e dominadas ainda por impulsos sedimentados ao longo de milênios. Nossa alma, transfigurada num vasto território de mitos arcaicos, legitima-se nas malhas dessa hipótese filogenética não mais no sopro divino, mas nas duras experiências das hordas primitivas da época glacial. Se não obtiver sanção da antropo132

Iogia, terá pelo menos o aval da heurística. Sem dúvida acabamos m I a divinos, como também menos animais, mas profundamente mais human . Desejo ressaltar, nas palavras finais deste posfácio, algumas d • culpas e alguns agradecimentos. Desculpo-me com os leitores pelo fato de não ser um tradutor profissional, apenas um estudioso de Freud u teve no alemão uma espécie de segunda língua materna, por conta d uns tantos tropeços em sua experiência infantil. Ouvindo durante qua oito anos o alemão como língua doméstica, familiarizei-me com o SOl , com a construção das frases e com o sentido das palavras. Depois ficou tudo num canto qualquer da memória, nem sempre relembrada c m prazer. Passaram-se anos e, viajando pela Áustria e pela Alemanha, perc bi que entendia o alemão muito mais do que eu podia imaginar. Foi assim que, encontrando recém-publicado o livro motivo desta tradução, comprei-o e o trouxe para o Brasil pensando em estudá-Io e traduzi-lo paro os alunos do Instituto da Sociedade Brasileira de Psicanálise do Rio do Janeiro. [ayme Salomão, companheiro da Sociedade e Diretor-Presidente da Imago, resolveu adotar a idéia de uma tradução para o público da língua portuguesa em geral. Meus agradecimentos iniciais a J aymc Salomão, em seu papel de editor, por ter confiado em mim, sempr me empurrando para terminar a tarefa com o seu costumeiro entusiasm e amizade. Quando retomei da Alemanha, resolvi voltar à língua d Goethe e encontrei no professor Ferdinand Reis um guia inseparáv 1. É possível que mais unsquantos anos esteja tão familiarizado com fi língua alemã como me senti na remota infância. Com ele, o Prof. R I , realizei a aventura da tradução. Ele não conhecia a obra de Fr ud eu titubeava no alemão. Ele, muito culto em ciências humanas, for n 1 pela Universidade de Viena, tendo vivido nessa cidade com Freud ul 1938, colegial adiantado, ouvia muito falar de Freud, popular n ,u 11 época nos meios estudantis. Aprendeu comigo a gostar de Freud 1\ compreendê-lo. Assim trocamos algumas coisas. Mas a ele não p 1 I' devolver a experiência de traduzirmos estelivro, frase por frase, 1 IV 1'11 por' palavra! discutindo o âmago de significados, alguns .íncompr 11 ív I para mim até essa convivência. Não poderei devolver senão com J' to tidão, E também devo a revisão do texto em português a minha OI I I, Prof," Sylvia Perlingeiro Paixão, e a revisão final a Carlos Alb rt I \vanelli. E em especial, nós todos devemos à organizadora, Use J'U 1'1 h Simitis, a descoberta e a laboriosa versão editada do manus l'H I décimo segundo ensaie metapsicológico Neuroses de Transjerên ta: 111I11I

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Síntese. A comunidade psicanalítica tem seu débito com essa dedicada cientista que, num rasgo de pura poesia, termina seu ensaio lembrando . Havelock Ellis em seu dito sobre Freud de que este sempre compunha suas idéias como pérolas as quais permaneciam apesar de os fios eventualmente se romperem. Se, em outras épocas, esses fios se romperam, Ilse Grubrich-Simitís acabou de. refazer a enfiada de pérolas, certamente com um fio muito mais resistente.

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Freud neuroses de transferência uma síntese