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as sementes do relativismo atual, com sua rejeição de toda a noção de verdade objetiva. Kierkegaard também antecipa a fenomenologia do século XX, que vê todas as formas de consciência como “intencionais” — em outras palavras, a consciência tem sempre um propósito. Vemos o mundo do jeito que vemos em função do que pretendemos fazer com ele. Como observa Wittgenstein: “O mundo do homem feliz é diferente do mundo do infeliz”, cuja aparente banalidade adquire um caráter mais profundo quando se percebe que se trata aqui do exercício da vontade. Como percebeu Kierkegaard, o indivíduo vê o mundo que quer ver, o que depende dos valores que escolheu previamente, aqueles segundo os quais ele vive, que fazem dele o que ele é. Kierkegaard argumenta, assim, que os valores que fazem do indivíduo o que é também fazem o mundo. O ponto de vista fenomenológico pode ser verdadeiro para o

01 kierkegaard em 90 minutos paul strathern