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deveria se assentar era mais uma vez vista como sendo o eu subjetivo. Mas esse era bem o eu de um intelectual francês. Só existia enquanto pensava. Sentimentos, percepções e assim por diante — tudo isso era passível de ilusão. O “eu” subjetivo podia saber que existia, mas não podia saber mais nada com certeza. Era deixado nu e indefeso, exposto aos elementos enganosos: “o homem não acomodado”, escreveu Shakespeare, “não passa de um pobre e desnudo animal de casco fendido”. Foi o filósofo alemão Kant quem afinal arranjou moradia adequada para abrigar essa pobre criatura indefesa. Ele construiu uma grandiosa mansão sob a forma de um sistema filosófico que a tudo abrangia, baseado na razão, que acomodava o “eu” subjetivo com majestoso esplendor. Kant foi seguido por Hegel, que ergueu um sistema abrangente ainda mais grandioso, baseado na noção de que “tudo que é racional é real e tudo que é real é racional”. Mas de alguma forma tanto Kant como Hegel perderam de vista a questão original. Seus sistemas não deram resposta satisfatória à questão subjetiva: “O que é a existência?” Um sistema racional

01 kierkegaard em 90 minutos paul strathern  
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