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O conteúdo desta publicação pode e deve ser reproduzido, desde que atribuídos os créditos.

Equipe de redação: Carla Pedrosa, Ana Cláudia Paschoal, Pabline Felix, Raíssa Pena e Ronei Sampaio. Edição: Maurício Guilherme Silva Jr. Projeto Gráfico e diagramação: Ronei Sampaio, Raíssa Pena, Pabline Felix Capa: fotografia de Raíssa Pena e intervenção gráfica de Ronei Sampaio Colaboradores: Fabrícia Batista, Guiga Guimarães, Luís Henrique do Carmo, Cliff Korman e Thiago Scap. Primeira tiragem: 10 exemplares Impressão: Gráfica Futura


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a bordo. Nas próximas páginas, você vai encontrar textos saborosos e belas Bem-vindo imagens, capazes de apresentar um novo olhar sobre a cultura urbana de Belo Horizonte, uma perspectiva que enxerga o movimento cultural para além dos eventos com hora e data marcada. A experiência urbana acontece também nos intervalos, em esquinas, becos, viadutos e mesas de bar. Deriva: te convida, pois, a caminhar sem roteiro pela cidade, aguçar os sentidos, permitir os afetos. Nesta primeira edição, você encontrará relatos sobre o interior do tradicional Edifício Mariana, sobre o pagode que acontece no final da feira hippie, a música tradicional do bairro Calafate e a vida em preto-e-branco do bairro São Francisco. Apresentamos ainda entrevista inédita e bastante esclarecedora com uma agulha de costura. A reportagem de capa apresenta abordagem completa sobre as implicações do Circuito Cultural da Praça da Liberdade. E os artistas da cidade também estão por aqui. Você vai conhecer as intervenções urbanas do Poro e o processo criativo da artista plástica Ângela Andrade. O fotógrafo Guiga Guimarães traduz em imagens uma canção de Milton Nascimento e a obra de Nina Simone é discutida por um pianista e um grafiteiro. Parece muito, mas é apenas um recorte. Belo Horizonte abriga inúmeros espaços a serem ocupados, retratados e compartilhados. Oferecemos um mapa a ser explorado, lugar de experiência e errância urbana. Ao transpor as próximas páginas, nosso convite é amplo: (re)visite a cidade em que vive. Boa leitura! A deriva começa agora.

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Hรก dez anos entre trabalhadores, visitantes e moradores de rua, turma do pagode canta clรกssicos e sucessos com e para quem chegar na Feira da Afonso Pena


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para quem chegar

chegando texto de Pabline Felix fotos de Pabline Felix e Ronei Sampaio


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No fim de feira, quase não se vende nada. As mercadorias que restam nas bancas só agradam a consumidores atrasados e mendigos, que têm no prazo de validade iminente um bom argumento para conseguir dos feirantes alguma caridade. Mesmo assim, o tumulto na seção de alimentação não diminui. Há dez anos, domingo sim, domingo não, Charlinho, Léo e Dentinho reúnem-se na Feira de Artesanato da Afonso Pena – a propalada Feira Hippie – para chamar os amigos, tomar uma cerveja e realizar, ali mesmo, um animado pagode. Mesmo não sendo unanimidade, a reunião faz sucesso – ou ao menos atrai a atenção – entre feirantes, mendigos, transeuntes e até a Prefeitura.


No meio do furacão Dona Penha trabalha na feira hippie há 21 anos, e conhece muito da rotina do local e das pessoas que ali circulam. Ela tem barraca desde a época da feira na Praça da Liberdade, local que hospedou o evento desde sua fundação, em 1969, até 1991. Na Afonso Pena, Dona Penha não trabalha sozinha. Marido, filhos e netos fazem parte do time escalado para montar e desmontar, todos os domingos, a sua barraca, carregar a Caravan 1983 e levar de volta para casa o que restou do dia de trabalho. Há dez anos, por detrás do balcão, ela viu o filho Éder juntar-se aos amigos Charles Davidson Martins – o Charlinho – e Leonardo Rodrigo dos Reis – o Léo – para começar a “brinca-

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deira” musical. “Mas o Éder casou e arrumou emprego, não vem mais para tocar com os meninos”, informa a mãe, que não percebe que a frase soa um pouco preconceituosa. Hoje, em seu lugar, está Carlos Alexandre Morais – o Dentinho, ou Ronaldinho Gaúcho, ou qualquer outro apelido depreciativo presente nas brincadeiras dos amigos sobre seus dentes –, que ajuda na percussão.

Todos os domingos Dona Penha marca presença no início da “feira hippie”. Atrás da sua barraca, o pagode reúne a galera.

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No lugar, o clima é de festa de família. Todo mundo parece se conhecer. Já chegam falando os nomes e dando tapas “carinhosos” nas costas uns dos outros, alguns também cumprimentando os feirantes próximos. A convivência prolongada acabou por aproximar muitos que nem se conheciam e lhes deu uma história em comum. “Quando a gente começou, todo mundo estava aprendendo a tocar. Aí, a gente trazia os instrumentos para cá e começava a batucar. O pessoal foi se juntando, apareceu mais gente pra ajudar, e a gente ficou”, diz Charles. O encontro não tem repertório preparado, nem convidados, nem divulgação, mas é garantido pela parceria. E se o violão toca, logo os visitantes da feira se achegam à música e a festa fica animada. A “seleção” sonora do local não é sofisticada, não busca resgatar raiz de nada, nem exige dos músicos habilidade muito grande. As principais canções interpretadas aos domingos são versões de sucessos das rádios, geralmente na boca da galera. “Sempre que a gente começa, o pessoal vai chegando e pedindo aquela, e aquela outra que estão mais frescas na memória. Todo mundo aqui cresceu no samba, sabe de várias antigas, mas na hora de tocar, o pessoal prefere as famosas”, opina Léo. Dona Penha, de longe, agrada-se e desagrada da movimentação: “Eles ficam aqui junto da gente, então o cliente não pode chegar. Quem acha que por 12

causa da música a gente vende mais, é mentira. Isso vende cerveja, e meu produto principal é o salgado”, reclama ela, que assume perder a esportiva de vez em quando e “apelar”, como diz. Isso não cria problema, é coisa típica de mãe.


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Os pagodeiros espremem-se entre as barracas para fazer a sua festa, que conta com representantes de vĂĄrias localidades de Belo Horizonte - e atĂŠ de cidades vizinhas.


Músicos, famosos, feirantes, transeuntes e moradores de rua: todos têm espaço na roda de música.

Palco de muitos O pagode de feira, apesar de simples, já teve personagens ilustres e presenças de famosos, como conta Léo. “Aqui já passou muita gente boa, que hoje está famosa. O Fumaça, d’Os Neguinhos [banda de pagode da capital que começa a ganhar projeção], já ficou aqui um tempo, mas tudo é ‘indo e vindo’. Não tem planejamento”, conta. Logo, logo, uma musa aparece no meio da roda de músicos e toma a atenção. Não pela beleza: são os movimentos largos de braços e pernas da moradora de rua, cujo nome na quis revela, que capturam os olhares. Um senhor com trajes gaúchos também se junta ao grupo, que, nesse momento, tem violão, 14

pandeiro, tamborim, acordeom, passista e público de cerca de 50 pessoas. São mais de duas da tarde e o som do pagode começa a ser abafado pela metaleira das barracas em processo de desmonte, aqui e lá. O animado grupo de pessoas, ainda assim, não vai embora. É quando chega a Prefeitura.

Afinal, toda unanimidade é burra Na feira, em geral, o que mais se vê são jovens, o que se repete no pagode. Eles se juntam ali para conversar, conhecer gente nova e se distrair. Léo, Charlinho e Dentinho, por exemplo, trabalham com outras coisas durante a semana, e cedem à música a experiência do “relaxo”. Encostada em uma quina, bebericando uma cerveja na companhia de mais duas amigas e de um feijão tropeiro, Denise Batista vem do Barreiro só para se distrair no “evento”. Ela conta que não costumava visitar a Feira até descobrir a música e os amigos que dela vieram. “Aqui a gente se sente à vontade. Toca Belo, Sorriso Maroto, é coisa da gente”, declara.


Contudo, nem todos estão contentes. Enquanto o pagode acontece, passam vários fiscais, responsáveis por garantir a ordem, a presença e a regularidade dos produtos comercializados no local. Pelos rádios comunicadores, uma conversa atrai o gerente fiscal de atividades especiais da Regional Centro-Sul da Prefeitura, Cristiano Nicomedes, que solicita aos “pagodeiros” a mudança de local. Um feirante próximo apóia a ação que, segundo ele, só vem para garantir que todos tenham um espaço definido para fazer seu negócio. Uns reclamam, outros gostam. As opiniões divergem, mas os instrumentos nem se movem do lugar. “A feira é um local público e eu quero ver quem vai me tirar. Eles não podem fazer isso. Até três da tarde, a rua é dos feirantes”, diz Charles. Apesar do clima pesado que toma conta do lugar, nada mais acontece. Os feirantes já estão mais preocupados em guardar seus pertences e aproveitar o resto do domingo. Em poucos minutos, o grupo de garis que espera escorado nas grades do Parque Municipal e colore o ambiente de um laranja vivo vai invadir o espaço até então tomado por barracas, trabalhadores, famílias e histórias diversas, de modo a limpar do chão o rastro de sujeira e desordem que combina pouco com a Avenida Afonso Pena, onde reside a Prefeitura Municipal, o Conservatório da Universidade, o Palácio das Artes e outras tantas construções nobres, empertigadas.

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Avenida Afonso Pena, às três horas da tarde de domingo.

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texto e fotos de RaĂ­ssa Pena


Na Afonso Pena, mais precisamente no número 526, encontrei o mundo das pérolas falsas e dos véus de cinco metros de comprimento. Todas as noivas de Belo Horizonte já visitaram, ouviram falar ou consideraram a possibilidade de ir ao Edifício Mariana. São nove andares repletos de vestidos para madrinhas, damas de honra, pajens, noiva, noivo, empresas de cerimonial, de vídeo e de fotografia, salões de beleza e agências de viagem para lua-de-mel. Dá para resolver a vida ali dentro. Erigido junto a outras construções art déco do hipercentro, como o Acaiaca (inaugurado em 1943), o Ed. Mariana nasceu na fase de verticalização da cidade nos anos 1930 e 1940. Belo Horizonte vivia a atmosfera de desenvolvimento e modernidade a jato, propostos pelo então prefeito Juscelino Kubitscheck. Hoje, porém, quase ninguém sabe que o segundo pavimento do prédio das noivas abrigou a Exposição de Arte Moderna de 1944. Obras de Tarsila do Amaral, Anita Malfatti e Cândido Portinari representavam o esforço de trazer à jovem cidade as discussões e inquietações artísticas do eixo Rio-São Paulo. No entanto, a efervescência cultural do prédio é, atualmente, de outra ordem. Nada de quadros famosos, inquietações acadêmicas ou críticos e curadores importados de São Paulo. Está instaurado ali um espaço que financia, em até dez prestações sem juros, todo o aparato, o valor sócio-cultural e a simbologia do matrimônio. Para adquirir este pacote, porém, é preciso ter paciência, disposição e algum dinheiro no bolso.

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Está instaurado ali um espaço que financia, em até dez prestações sem juros, todo o aparato, o valor sócio-cultural e a simbologia do matrimônio.


Pelos corredores E são as mulheres quem tem disposição. Noivas, mães

Caminhando pelo sexto andar, vi um salão de beleza.

de noivas, sobrinhas, cunhadas e amigas aos bandos.

Poltronas de couro preto rasgadas, cadeiras de madeira,

Deu para contar nos dedos quantos homens vi por lá:

bancadas brancas meio antigas, espelhos enormes e um

foram quatro (contando com o porteiro). No quarto

pouco manchados de ferrugem. As lâmpadas estavam

andar, passei por um noivo entediado, sentado sozinho

apagadas, mas as janelas enormes e totalmente abertas

no pufe cor-de-rosa de uma loja de vestidos. Até vi

deixavam entrar a luz lá de fora. Só vi mulheres mais

alguns ternos masculinos para alugar, mas, sem dúvida,

velhas, tanto funcionárias quanto freguesas. E elas

lá é o reino das mulheres. Tudo é feito para e por elas.

conversavam com muita calma, rindo, fazendo as unhas

Ao deduzir que eu era mais uma noiva ansiosa à

e os cabelos umas das outras.

procura do vestido mais Cinderela possível, as vende-

De modo a contrariar minhas expectativas e os avisos

doras olhavam-me com cara de compaixão. Tentavam

das amigas de minha mãe, visitei o prédio num dia

me tranqüilizar, me fazendo sentar nos pufes cor-de-

calmo. Às terças-feiras, não há correria, nem sacolas

-rosa. Quando falei para uma funcionária que não era

balançando, nem mulheres desesperadas. Logo perguntei

noiva – posso estar enganada –, mas acho que ela até

para outra funcionária: “Mas maio não é o mês das

relaxou. Afinal, fazia os ajustes num vestido enquanto

noivas?”. Curiosamente, essa não é a época mais agitada

me contava casos engraçados sobre as clientes. A loja

no edifício. O pessoal por lá comenta que o movimento

onde Jael trabalha conta com filiais nos bairros de

é mais intenso em setembro. Primeiro, porque o clima

Lourdes e Floresta. Segundo a funcionária, as noivas do

é bom, ameno, e as noivas não precisam sofrer com o

Mariana têm situação financeira “mais difícil”, mas os

frio de maio. Depois, porque quase ninguém se casa em

dramas são os mesmos das noivas ricas. Gente que faz

agosto. Este não é o mês do cachorro louco? Tem sempre

muito regime e desmaia na prova do vestido, noivo cuja

uma tia para lembrar que “casar em agosto dá desgosto”.

traição é descoberta às vésperas do casamento, amigos

Bom para as noivas não-supersticiosas, que aproveitam

gays que dão palpites na roupa da família toda e, até

os preços pela metade no mês mal-agourado.

mesmo, noiva com mais de 80 anos.

As vitrines do Mariana prometem cerimônias elegantes e festas animadas

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A pérola do prédio Do pátio interno do nono andar olhei para baixo e vi o enorme labirinto de corredores que tinha subido a pé. Resolvi usar a tecnologia para descer. Foi quando entrei no elevador e conheci a estrela do edifício: Xuxa, a ascensorista, que, segundo diz, trabalha no Ed. Mariana há 23 anos. Apesar de uma funcionária que entrou no sétimo andar afirmar que Xuxa está lá há 40 anos. Outra moça, passageira a partir do sexto andar, disse que foi Xuxa quem serviu marmita para os pedreiros que construíram o prédio. Acreditei em todas as versões. Quando o elevador já estava cheio de mulheres, entrou um senhor e pediu: “Pára no quarto, por favor?”. Xuxa apertou os olhos maliciosamente e perguntou-lhe: “Você que ir para o quarto? Mas a gente pode tomar uma cervejinha antes?”. Gargalhada geral! Ao chegar ao térreo, não resisti e falei com Xuxa que faria mais uma viagem até o nono andar, só para conversar mais com ela, que achou ótima a proposta. No caminho, me contou que já foi convidada para vários casamentos das noivas do Mariana. Claro que compareceu a todos, dos buffets aos churrascos no quintal. Contou, também, O semblante sereno esconde a personalidade expansiva de Xuxa (acima); vista do pátio interno do edifício (à esquerda).

que inventou apelidos para quase todas as funcionárias do prédio, que os corredores do Mariana parecem um “mar de cabeças” aos sábados e que um jornalista argentino tirou muitas fotos dela no ano passado. Quando chegamos novamente ao térreo, desci, despedi-me e ela gritou lá de dentro: “Vem aqui semana que vem pra eu te contar por que meu apelido é Xuxa”. Fiquei curiosa.

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Vou ter que voltar lá.

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saídas e bandeiras A música de Milton Nascimento e Fernando Brant é tomada como inspiração pelo fotógrafo Guiga Guimarães


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O que vocês diriam dessa coisa Que não dá mais pé? O que vocês fariam pra sair desta maré? O que era sonho vira terra Quem vai ser o primeiro a me responder? Sair desta cidade ter a vida onde ela é Subir novas montanhas diamantes procurar No fim da estrada e da poeira Um rio com seus frutos me alimentar.


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texto de Ronei Sampaio.fotos de Pabline Felix

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O que encontrar no armário da artista plástica Ângela Andrade? Objetos de casa. Organizados, alinhados e compostos. Há também linhas de nanquim ou grafite. No interior desse armário, uma trajetória artística composta de descobertas. Mais que o desenho pronto, o processo que se desenrola no tempo e uma constante reflexão acerca de sua própria linguagem artística.


nanquim sobre papel. 2003.

Afetos e vontades. Talvez essas duas palavras sejam as mais pertinentes para o início de um texto que pretende dizer da trajetória de uma artista, coisa de 18 anos e ainda em construção. Nos trabalhos, há elementos que surgem, que desaparecem e, em certo momento, ressurgem sempre relidos, ligados a novas ou antigas referências. Na casa de Ângela, no bairro Caiçara, que é também seu ateliê, há pequenos objetos: miniaturas de cerâmica, objetos de casa, mesmo. Na sala, um armário azul de madeira. Os objetos lá dentro estão dispostos numa composição que poderia ser a de um desenho ou a diagramação de uma página. Um armário de vó: preenchido com pequenas coisas, objetos de se pegar na palma da mão. Sobre a mesa, além de seus trabalhos, dois livros de francês e um de arquitetura. “Uma linha muita precisa, uma única intensidade”. Eis a linha da caneta nanquim segundo Ângela. A artista já começava a desenvolver uma linguagem particular em seu desenho nos períodos iniciais do curso de Belas Artes da UFMG. Em seu trabalho, “há o registro do momento e do gesto”. A representação da perspectiva não aparece como uma obrigação e é, na maioria das vezes, suprimida. “São escolhas que fazemos durante o percurso da proposta”, conta Ângela. Apesar da preferência pelo desenho, graduou-se em gravura, em 1996, e em pintura, em 1998, opções que justifica como uma oportunidade de aprender técnicas pouco acessíveis fora de uma grande estrutura, como a da Universidade.

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O que Ângela tira de seu armário? Primeiro, sua dissertação: um compêndio e uma busca. Compilação de pensamentos, ideias e conclusões sobre seu próprio processo artístico. Pouco a pouco, desvelam-se temas caros, como os objetos da vida cotidiana, o urbanismo, a arquitetura e a ocupação do espaço. Separados por séries, os trabalhos da artista vão de desenhos extremamente sintéticos, em que traços simples e rápidos aliam-se a palavras e frases para composições em variados suportes, a cadernos e desenhos em formatos maiores. Tudo é texto e tudo é desenho. As palavras e frases têm origem em leituras de que a artista gosta.

s/título, nanquim, grafite e giz de cera sobre papel, 13,1 x 22 cm, 1996.

s/título, nanquim e grafite sobre papel, 22,1 x 19,6 cm,

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caderno: detalhe de página, nanquim e letra set sobre papel, 27,1 x 22,2 cm, 2003. s/título, nanquim e grafite sobre papel, 16 x 15 cm, 1996.

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A letra perpassa os trabalhos. Num primeiro momento, aparece manuscrita, autoral. Depois, Ângela adota a escrita impressa, tipográfica. Segundo a artista, ela começou a aparecer em 1995 e, depois disso, foi incorporada de vez aos desenhos.


O que Ângela tira do armário, logo em seguida, são seus cadernos. Encadernadas, as seqüências de desenho vão conformando narrativas diversas. “A simplicidade da linha, sem variação de espessura ou tom”, vai compondo desenhos que se associam livremente. “Nunca me preocupei muito com um significado prévio dos elementos do desenho”. Em outro momento, o texto perde vai cada vez legibilidade. Texto é agora textura. Nos cadernos, páginas são diagramadas, espaços ocupados, desenhos antigos reaparecem e, até mesmo, livros são transcritos e incorporados. Os cadernos podem ser mesmo como os armários: as páginas em seqüência, uma prateleira sobre a outra, a página entintada e as superfícies ocupadas.

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Página espelhada, sem título. À esquerda, tinta acrílica, nanquim e lápis dermatográfico sobre papel. Á direita, bastão a óleo sobre papel. 23,5x30,8 cm, 2000.

Na página da direita, nanquim e letra set sobre papel. 2006.


sem título, nanquim sobre papel. 2006

No armário de Ângela, também há desenhos em formatos maiores. Com o nanquim, a artista, pacientemente, preenche as grandes extensões do papel. O texto ainda aparece como elemento da composição, às vezes explícito e, noutras, encoberto. Os trabalhos são marcados pelos cheios e vazios, pelas ausências e presenças do branco e do preto.

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Ângela nos fala sobre o tempo em que morou na casa da avó. Casa grande, da década de sessenta, de arquitetura moderna, no bairro Funcionários. Durante grande parte da sua vida, ela conviveu com a casa e seus objetos, com os objetos do cotidiano. Tudo isso se faz presente em sua obra, deixa sua marca na caminhada objetiva traçada no papel.

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sem título, nanquim sobre papel. 2006

Quando fecha seu armário, temos a impressão de que Ângela falou de sua vida e de seu processo artístico com a mesma sinceridade que, minutos antes, ela mesma havia destacado no desenho: “Linguagem que vai se construindo na hora, sem disfarces”.

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sem tĂ­tulo, nanquim e letra set sobre papel. 2006


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“ embala ”

O dia assusta, mas a noite texto de Pabline Felix.fotos de Pabline Felix e Ronei Sampaio

A madrugada,o violão,a bebida no copo, a vontade de encontrar os amigos e aproveitar a noite ao máximo. Desde o século XIX, esses e outros fatores são livremente associados à boemia, estilo de vida difícil de conceituar, mas fácil de compreender. Especialmente para aqueles que compartilham do modo de vida. Os ambientes noturnos agradaram a intelectuais, artistas e vagabundos, deixou a Europa, tomou o Rio de Janeiro, considerado o reduto boêmio brasileiro, e também chegou às Minas Gerais. Na capital mineira, a infinidade de bares foi – e ainda é – ambiente propício para a reprodução da famosa boemia.

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Já passa das onze da noite de um domingo, quando chegamos à rua Padre Marinho, número 30, no bairro Santa Efigênia. As janelas mostram as paredes internas pintadas de laranja, que rebatem o som agradável do grupo de choro Piolho de Cobra. A banda não Há sete anos, a banda Piolho de Cobra anima o fim do final de semana n’A Casa de Cultura, local que reúne jovens artistas, apreciadores da boa música e pessoas desocupadas.

é famosa, mas conta com nomes de peso da velha guarda do choro mineiro, como Seu Tião do Bandolim e Mozart, ao violão. Com mais de 70 anos, boa parte deles dedicados à música, ambos passaram a vida entre bons vivants e, vez por outra, incluem-se entre eles. Mozart Secundino de Oliveira, como foi batizado, tem 87 anos e toca em bares de BH há 60. Programas de auditório da Rádio Guarani e o “Beco do Choro”, na Savassi, também já viram o charme do artista. “Ele é sempre perfumado, cheiro de acácias e lírios. Tem perfume de música, arte e cultura. Sabia que é cidadão honorário de Belo Horizonte? Ele e os seus cabelos

“Boemia é gostar da noite, e por ela eu sou apaixonado”, declara o violonista Mozart. Respeitado como um “cobra” do choro, ele já recebeu até título de cidadão honorário de Belo Horizonte

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de algodão doce”, opina uma fã que interrompe a entrevista. O elogio é bem vindo: “São essas e outras que ajudam a gente a viver”, brinca Mozart.


Músico de todos os tempos, ele vê a boemia sofrer

se embriagar. “A bebida é desculpa. O ambiente pode

com as mudanças sociais, a exemplo do aumento da

até favorecer, mas cada um sabe da sua vida. Como

violência. “Antigamente, os boêmios tinham mais

eu sempre trabalhei como motorista, e saía dos bares

tranqüilidade na noite. Não havia marginalização, a

direto para o trabalho, bebida é uma coisa que nunca

gente andava a pé de um lugar a outro”.

me atraiu”, relata.

Os tempos são outros não só do lado de fora. Seu Tião,

Tião acaba se atrapalhando com o rumo da conversa e

com 71 anos, acha que “essa nova geração só quer

nos faz lembrar que, muitas vezes, a vida do boêmio é

beijar, mas não sabe aproveitar o que há de melhor.

relacionada à má fama do malandro: “Meus anos são

Veja só: ninguém está dançando. Eles só se preocupam

de dedicação à música, não à farra. O músico boêmio

em beber e sair daqui acompanhado”, declara. Para ele,

é aquele que, depois do serviço, ainda vai procurar

responsabilidade é palavra de ordem, na música e nos

uma mesa de bar para terminar a noite. Eu sempre fui

bares. Apesar de ter passado a “vida toda na noite”,

trabalhador”. Passada a confusão, fique calmo, Seu

como diz, jura nunca ter bebido e garante que o estilo

Tião, a gente explica que boemia, farra e malandragem

de vida boêmio está muito além da possibilidade de

não se misturam.

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Aos domingos, A Casa é reduto do choro, considerado o ritmo da boemia. Inaugurada há 12 anos, o lugar é frequentado por jovens artistas e apreciadores da boa música.


Elegãncia ou bebedeira? Uma aproximação comum, mas enganosa, dá-se entre os conceitos de boemia, farra e malandragem. O primeiro diz do compartilhar da experiência sensitiva e intelectual com o outro e, por isso, envolve a conversa, a disponibilidade de tempo e, muitas vezes, a amizade, que surge entre encontros e desencontros nos botequins. O segundo está relacionado a tirar proveito, fisicamente, do que a noite oferece e, portanto, pode ser associado às bebedeiras e aos fins de noite “acompanhados”, se é que vocês me entendem. As farras não se importam com a conseqüência das atitudes e divergem da “filosofia boêmica”. Já a malandragem referese ao modo de vida baseado em pequenos golpes, à “esperteza“, ao homem que circula nas rodas de samba, é galante, cavalheiro e um amante invejável, mas não acredita no trabalho como um modo de vida confiável.

Com essa explicação, não dá mais para se confundir, Seu Tião.

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Importância ao que merece Sentados em uma mesa no meio da sala d’A Casa, a poetisa Letícia Brito, o sambista Mestre Jonas, do Samba da Madrugada, e o músico Willian Senra definem a boemia como “essa busca de encontrar no social as respostas para o universo”. A conclusão

Portas, vitrôs, cortinas e origamis. A decoração favorece o clima aconchegante entre os amigos da noite

profundíssima revela-se uma brincadeira com fundo de verdade. “Nessa intensidade do relacionamento, a noite permite que a gente encontre as melhores opiniões sobre nossa vida. O bar é esse ambiente fértil para a sensibilidade”, diz Letícia, para que, aliás, a boemia não pode estar em boates. Compromissada com a comunhão de ideias, de alegrias e, eventualmente, de tristezas, a noite é escolhida como refúgio por sua capacidade de acolhimento. Afinal, do outro lado da moeda está a pressão do dia, cenário da burocracia e da cotidianidade. “O dia assusta, mas a noite embala. Por isso preferimos inverter a ordem das coisas”, assegura Jonas. Da boca de William Senra vem a melhor ilustração da noite: “Dizem que, ao chegar em um bar, um indiano não precisa perguntar quem é ou quem não é artista. Ele sente pela semelhança de vibrações. A boemia é isso. É estar na mesma sintonia”. Ator, compositor e músico, Sérgio Pererê atribui à serenidade a vivência da boemia: “Alguém só pode fazer parte deste universo se estiver ali por inteiro, sereno e disposto a repartir”. Os amigos merecem destaque na boemia. Sérgio Pererê conta que conheceu muitos dos seus atuais companheiros em conversas de bar. “Geralmente, é sempre o mesmo pessoal que circula nesse meio. Acabamos trocando contatos e fazendo parcerias”, informa. Rubens Costa, percussionista do Piolho de Cobra, também relata que, nas rodas de choro, é comum que todos sejam amigos e toquem juntos: “Os lugares boêmios de BH concentram-se nos bairros Santa Efigênia, Santa Tereza, Caiçara e Padre Eustáquio. Acabamos sempre trombando”. A bebida, apesar de constante, não é o que proporciona a troca de ideias. Ela ser, apenas, como facilitadora. “A gente bebe, fica um pouco mais solto e conversa melhor. Mas é possível sair, ter uma excelente noite boêmia sem ter colocado um gole de álcool na boca”, garante Letícia.

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ilustração de Fabrícia Batista


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texto de Ana Cláudia Paschoal

Às vésperas de iniciar sua programação, a Bienal do Livro de Minas fomenta o debate e a reflexão sobre a realidade literária do País e mostra a importância de sua consolidação no cenário cultural do Estado.


O universo dos livros , ainda pouco explorado pela maioria dos brasileiros, transforma-se em personagem principal durante mais de uma semana na capital mineira. Trata-se da Bienal do Livro de Minas, que está prestes a iniciar sua segunda edição, após uma bem sucedida estréia na agenda cultural da cidade. Surpreendendo até os organizadores, a primeira edição do evento recebeu a visita de 225 mil pessoas, ansiosas por conferir mais de 130 estandes, que expuseram 20 mil títulos ao longo de 10 dias. A organização da Bienal, animada com os resultados de 2008, investe pesado nesta edição, e conta com um orçamento 25% maior do que o anterior, quando foram aplicados cerca de R$ 3 milhões. O dinheiro destina-se à ampliação do espaço físico do encontro, que passará a ocupar a área total do Expominas, local que sediará o evento durante os dias 14 e 23 de maio. O alto investimento na Bienal do Livro de Minas reflete a preocupação dos organizadores em fazer com que o evento ganhe destaque na agenda cultural da cidade, consolidando-se como um dos mais importantes projetos literários do Estado. Tal fato anima não só o mercado editorial, como também os ávidos pela fomentação da cultura no País, que acreditam na leitura como ferramenta de difusão do conhecimento.

Programação estratégica

52 Foto: Carol Reis

Atenta às questões contemporâneas do país e do mundo, Guiomar de Grammont, curadora da Bienal, formula a programação do evento tendo em vista os temas mais discutidos na atualidade. A revolução cultural promovida pela internet, os e-books, e a Copa do Mundo são alguns dos assuntos de destaque presentes na programação deste ano, que conta com o Café Literário, a Arena Jovem, o Circo das Letras e um novo espaço, a Goleada Literária. Na lista das personalidades convidadas para o evento, Moacyr Scliar, Ruy Castro, Zuenir Ventura, Mary Del Priori, Dado Villa-Lobos e Paulo César Araújo, importantes nomes da literatura nacional, que, segundo Guiomar, também exercem papel estratégico na Bienal. “Muitas vezes, as pessoas vêm para ver personalidades conhecidas e acabam por adquirir livros de autores que antes desconheciam, sendo eles, muitas vezes, da própria cidade. É por isso que procuro envolver ao menos dois terços da programação com autores de Minas”.


João Gabriel de Lima, escritor, editor-chefe da Revista Bravo! e um dos convidados da Bienal do Livro de Minas, também aponta a importância do evento para a fomentação da cultura regional. “O Brasil é um país muito interessante porque, para além do fato de o Rio de Janeiro ser considerada a capital cultural do País, e São Paulo a econômica, há uma cultura regional muito forte em diversos estados, entre os quais Minas Gerais. Todos os lugares que possuem essa característica precisam de eventos como esse para celebrar a cultura e interagir com a de outros lugares”, avalia. Ao pensar na consolidação da Bienal dentro do circuito cultural do País, Guiomar de Grammont não se esquece de incluir na programação do evento personalidades de fora do estado. “Para mim, trazer autores de fora é só uma forma de chamar a atenção para os autores daqui, fazendo com que as pessoas que vêm à Bienal entrem em contato com nossos escritores”.

Os primeiros passos A Bienal do Livro de Minas ainda dá seus primeiros passos rumo ao já “crescido” universo de eventos similares, em outros pontos do país. A versão de São Paulo, por exemplo, já está em sua 21ª edição, marcada para agosto deste ano. Com apenas uma edição de vida na bagagem, o evento mineiro ainda busca consolidação e espaço na cena literária do país. Contudo, não há como evitar. Diante desse universo de bienais, que conta com edições locais espalhadas por todo o país, as comparações surgem e, com elas, as inevitáveis críticas. Presente à primeira edição da Bienal do Livro de Minas, além dos eventos de São Paulo e Rio de Janeiro, Débora Resende, gerente de marketing da Editora Leitura, nota falhas no evento mineiro. Ela aponta a pouca divulgação, a falta de apoio das autoridades públicas e, até mesmo, a famosa desconfiança da população de Minas Gerais. “O mineiro é muito desconfiado. Se um lançamento é bem sucedido por aqui, pode virar sucesso em diversos outros lugares. Por isso, acredito que a empresa que realiza o evento, a mesma que organiza a Bienal do Rio de Janeiro, deveria contar com equipe constituída de mineiros, assim saberia lidar melhor com as pessoas e demandas daqui”.

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Segundo Débora, certos detalhes podem comprometer o acesso do grande público à Bienal, como o preço da entrada para o evento, que varia de R$ 10 a R$ 8 a inteira, e o alto custo do estacionamento, cujo valor único é de R$ 15. Uma família de pai, mãe e filho, por exemplo, gasta cerca de R$ 45 só para entrar. “Acho que, para instaurar a cultura de bienais por aqui, precisaríamos começar com um preço mais baixo, além de divulgação extrema, como acontece no Rio de Janeiro. Lá, há faixas espalhadas por toda a cidade, além de personalidades públicas e globais presentes no evento para chamar a atenção do público”. José de Alencar Mayrink, presidente da Câmara Mineira do Livro, uma das instituições organizadoras da Bienal, atenta para as dificuldades de se promover um evento de tal grandeza. “O custo do espaço é elevado e o estacionamento é terceirizado. A organização da Bienal não pode interferir nesses fatores. O grande problema, na verdade, é a falta de apoio e incentivo de empresas, que poderiam subsidiar esses serviços, amenizando, de alguma forma, os preços. Sinto que ainda há grande discriminação ao livro em relação a essa luta por incentivos”.

Formação de leitores Historicamente marcada como um dos principais instrumentos de difusão do conhecimento e da cultura 54

no mundo, a leitura não é tão influente na educação e nos costumes sócio-culturais do Brasil. De acordo com a pesquisa “Retratos da Leitura no Brasil”, realizada pelo instituto Pró-Livro e pelo Ibope (Instituto Brasileiro de Opinião Pública e Estatística), a média de leitura do brasileiro é de 4,7 livros por ano, incluídos aí os didáticos. Considerando apenas os livros lidos independentemente da escola, esse índice cai para 1,3, enquanto nos países desenvolvidos chega a 10 livros por ano. Dessa forma, e tendo em vista os fatores sociais que contribuem para essa realidade, toda iniciativa que busca promover o acesso e a divulgação da leitura deveria ter destaque na programação cultural de qualquer cidade. Uma das grandes preocupações dos organizadores é promover maior contato com os livros por parte da população mineira. Além de facilitar o acesso a grande parte da produção literária, já que reúne, em um mesmo espaço, títulos de diversos gêneros e preços, a Bienal ainda foca grande parte de suas atrações no público infantil, reconhecidamente a faixa etária de maior importância para a criação de uma cultura de leitura.


Além disso, como lembra João Gabriel, escritor convidado da Bienal e editor-chefe da revista Bravo, o evento ganha relevância no fomento à leitura pelo simples fato de apresentar o livro como elemento central de suas atividades. “Para além das dificuldades sociais do País, há pessoas que sabem ler, que gostam de ler, mas muitas vezes não param para aproveitar esse momento de introspecção, de degustação de um texto. Mas, quando surge um evento como esse, ele passa a perceber mais a importância do livro e, consequentemente, a desejar ler mais”. Ainda que jovem e recém lançada no mercado literário brasileiro, a Bienal do Livro de Minas já está no calendário cultural de muita gente. “A importância da Bienal também está no fato de que ela se reflete, posteriormente, nas livrarias e na formação de leitores. Afinal, as pessoas leem um livro, indicam-no a outras pessoas, compram mais obras depois. Quem passa pela Bienal não será o mesmo no futuro. Não há como não se deixar contaminar pelo clima literário que reina no evento”, ressalta José de Alencar.

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Entre prateleiras: percursos Arena Jovem: “Um espaço bem-humorado e descontraído, voltado especialmente para adolescentes e jovens adultos. Escritores e personalidades de diferentes áreas – artistas, músicos, jornalistas e educadores – conversam sobre comportamento, educação, redes sociais, futebol, música, entre outros temas”. Arena Poética: “Onde o visitante poderá ter o prazer de ouvir poetas contemporâneos de Minas e de outras paragens lendo seus próprios poemas”.  Café Literário: “Sala de visitas da Bienal do Livro Minas. Espaço de interação dos leitores com autores e personalidades, onde são realizados bate-papos informais sobre os mais variados temas - como humor, cinema, preferências culturais, música e outros temas do cotidiano”. Circo das Letras: “A Bienal do Livro apresenta uma programação repleta de atividades para toda a família com muitas histórias, cantoria e diversas brincadeiras”. Goleada Literária: “Um espaço dedicado ao futebol, tema mais comentado na véspera da Copa do Mundo, a Goleada Literária é uma nova área da Bienal do Livro de Minas 2010. Em forma de “reunião de concentração”, oferecerá uma grade de palestras sobre o tema, nos finais de semana do evento.

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Fotografia: RaĂ­ssa Pena

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entre a praรงa e a liberdade texto de Carla Pedrosa

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Não é de hoje que se pensa na construção de um palco para a cultura em Belo Horizonte. A inauguração do Espaço TIM UFMG e a construção – a pleno vapor – dos demais espaços do Circuito Cultural Praça da Liberdade tornam realidade um projeto pensado desde 1997, pelo então senador Francelino Pereira. Já desincumbida de seu papel político, a Praça da Liberdade foi o local escolhido para abrigar o maior complexo de cultura e entretenimento do Brasil, como define o seu site. A destinação das monumentais construções do local, segundo Estevão Fiúza, secretário adjunto de Cultura e gerente executivo do Circuito Praça da Liberdade, não podia ser outra: “Pelas características dos prédios que estão sendo desocupados, a ocupação mais adequada para a preservação do patrimônio é a atividade cultural”. Segundo Jô Vasconcellos, arquiteta responsável pelo Espaço TIM UFMG e coordenadora dos demais projetos, todas as obras são supervisionadas pelo Instituto Estadual do Patrimônio Histórico e Artístico de Minas Gerais (Iepha-MG), cujas diretrizes buscam a preservação do patrimônio arquitetônico da Praça. O Circuito está sendo implantado pelo Governo de Minas Gerais por meio da Secretaria de Estado de Cultura e através de parcerias público-privadas. Estevão Fiúza explica que o investimento dos parceiros privados é direto e as conexões foram feitas de maneira espontânea. “As empresas que se interessaram pela discussão do Projeto se dispuseram a destinar recursos”, esclarece Fiúza. Nos novos espaços de lazer e conhecimento, escolas públicas, organizações não-governamentais (ONGs) e outras entidades terão entrada gratuita, garante o secretário adjunto. A população também terá acesso liberado em apenas um dia da semana, ainda a ser definido. Nos outros dias, a cobrança de bilheteria – cujo valor ainda não foi decidido – será 58

uma forma de arrecadar recursos para a manutenção do Circuito. O Palácio da Liberdade, que já possui acesso gratuito no último domingo do mês, pode ser aberto à visitação em mais dias, proposta que vem sendo estudada pela comissão que administra o empreendimento. Outros espaços também serão mantidos, como a Biblioteca Pública Estadual Luiz de Bessa, o Museu Mineiro e o Arquivo Público Mineiro. Os demais prédios do entorno da Praça da Liberdade abrigarão outros espaços culturais. Há, ainda, três novos ambientes para serem montados, anunciados em março deste ano: o Museu do Automóvel, que será construído nos fundos do Palácio da Liberdade, o Museu do Homem Brasileiro e o Hotel de Luxo, que ocupará o antigo prédio do Ipsemg. Os projetos deverão ser levados à consulta pública até junho e, a partir de então, serão abertas as licitações.


Fachada do futuro Centro Cultural Banco do Brasil

Espaço TIM UFMG: o pioneiro Único ambiente aberto à visitação até o momento, o Espaço TIM UFMG é uma amostra do que será o Circuito Cultural, da arquitetura ao conteúdo de suas exposições. A arquiteta Jô Vasconcellos explica que toda a fachada do prédio foi desmontada, e só a superestrutura – vigas, pilares e lajes – será aproveitada. “Reforçamos as lajes, depois trouxemos uma nova pele para a fachada, que receberá projeções de vídeos sobre ciências, conhecimento e cultura”, diz Jô. Indagada se a projeção, por ter um cunho mais futurista, não irá descaracterizar a Praça, Jô explica que foram respeitadas as diretrizes que garantem a manutenção da volumetria, da altura e da discrição do prédio: “A fachada não tem brilho e não reflete. Ela é normal. Só se transforma numa projeção quando há necessidade de passar informação institucional do museu à população”. A previsão de inauguração do Circuito, sem incluir o Museu do Automóvel, o Museu do Homem Brasileiro e o Hotel de Luxo, é para o segundo semestre de 2011, quando serão finalizadas as obras do Centro Cultural Banco do Brasil.

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Antes: Secretaria de Estado de Defesa Social Agora: Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB) Atrações: áreas para exposições temporárias; teatro com capacidade para 300 lugares; espaços para atividade audiovisual, música, dança e teatro; espaços multiuso para debates, conferências, oficinas, palestras e atividades interativas e educacionais; espaços de convivência, lazer e alimentação; loja para comercialização de produtos culturais Projeto Arquitetônico: Eneida Bretas e Jaime Wesley Projeto Museográfico: Flávio Grilo Patrocínio: Banco do Brasil Investimento: R$ 21 milhões Foto: Lúcia Sebe

Investimento total previsto: aproximadamente R$ 90 milhões (garantido por parcerias com a iniciativa privada e orçamento do Estado)

Cemig e Governo de Minas: R$ 6 milhões; no Centro de Arte Popular Cemig e em outros investimentos concentrados no café localizado entre o Museu Mineiro e Arquivo Público Mineiro, no Palácio da Liberdade e no prédio Rainha da Sucata, que abrigará a sede administrativa do Circuito.

Antes: Secretaria de Estado da Fazenda Agora: Memorial de Minas Gerais Vale Atrações: ambientes virtuais reconstruindo o universo de escritores mineiros, o mundo das fazendas, das tribos indígenas e quilombos, do barroco, das festas populares, do artesanato, da política e da arqueologia do solo mineiro Projeto Arquitetônico: Flávio Grillo Projeto Museográfico: Gringo Cárdia Patrocínio: Vale Investimento: R$ 23 milhões

Foto: Lúcia Sebe

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Para conhecer o Circuito


Antes: Reitoria da UEMG

Foto: Daniel Mansur

Agora: Espaço TIM UFMG do Conhecimento Atrações: exposições reúnem passado, presente e futuro e contam a origem da vida e do homem. Planetário e Observatório astronômico. Projeções de vídeos sobre ciências, conhecimento e cultura na fachada do prédio Projeto Arquitetônico: Jô Vasconcellos Projeto Museográfico: Paulo Schmidt Patrocínio: TIM e UFMG Investimento: R$ 13,6 milhões Horário de funcionamento: de terça a domingo, das

Foto: Daniel Mansur

11h às 17h, com entrada franca até as 16h Foto: Daniel Mansur

Antes: Antigo Hospital São Tarcísio, localizado na Rua Gonçalves Dias, a poucos metros da Praça da Liberdade. Agora: Centro de Arte Popular Cemig. Atrações: obras de artista de várias regiões do Estado, como o Vale do Jequitinhonha. Utilização de recursos interativos e audiovisuais. Salas de exposição temporária para mostrar obras de artistas não só de Minas, mas de todo o país. Projeto Arquitetônico: Janete Costa. Projeto Museográfico: Eliane Guglielme e Mário Santos. Patrocínio: Cemig. Investimento: R$ 6 milhões.

Foto: Lúcia Sebe

Antes: Secretaria de Estado da Educação Agora: Museu das Minas e do Metal e Museu de Mineralogia Djalma Guimarães Atrações: acervo sobre mineração e metalurgia, tecnologia de ponta mostrando o universo das rochas, os processos de transformação dos minérios Projeto arquitetônico: Paulo Mendes Projeto museográfico: Marcello Dantas Patrocínio: Grupo EBX Investimento: R$ 25 milhões.

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Faz parte da nossa tradição Liberdade ainda que tardia. O lema da Inconfidência Mineira ressoa em todos os cantos de Minas Gerais e integra um dos marcos de Belo Horizonte: a Praça da Liberdade. Construída à época da fundação da nova capital mineira, entre 1895 e 1897, a Praça adotou o nome de uma das vias de seu entorno, a Avenida Liberdade, hoje João Pinheiro. Dessa forma, transformou-se, ao mesmo tempo, em centro do Poder Estadual e em referência da identidade libertária do povo mineiro, um dos principais ícones da “mineiridade”. Localizada no bairro Funcionários, no encontro de quatro grandes avenidas – Cristóvão Colombo, João Pinheiro, Brasil e Bias Fortes –, a Praça da Liberdade, além de ambiente propício à reunião popular, fora idealizada para abrigar a sede da administração política de Minas Gerais, composta pelo Palácio do Governo e pelas Secretarias de Estado. A planta de Belo Horizonte, bem como a da Praça da Liberdade, inspiraram-se na ideologia do movimento republicano e anti-clerical. Tal sistema de ideias traduziu-se na simetria do traçado da cidade, em rede, e na localização dos 62

equipamentos públicos, evidenciando a monumentalidade do Poder do Governo, superior ao da Igreja. Deve-se a essa pretensa superioridade laica o fato de o Palácio da Liberdade encontrar-se em ponto mais alto do que a Matriz Nossa Senhora da Boa Viagem. Com coreto e fontes luminosas, a Praça – inspirada no traçado e nos jardins do Palácio de Versalhes, concebidos pelo paisagista Paul Villon – abriga, em seu entorno, um complexo arquitetônico, com prédios que vão do estilo neoclássico ao moderno. Tida como espaço de vasta diversidade arquitetônica e centro do poder político e público mineiros, a Praça da Liberdade é também o ambiente onde população exerce a prática de esportes, a sociabilidade e o lazer, além de realizar intervenções comerciais e culturais.


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Liberdade? “Chegada é a hora de rezarmos ó mineiros, por alma da que foi a Praça da Liberdade, em sua forma e em seu caráter. Pois passou o tempo das praças, e chegou o tempo dos shows mirabolantes, junto a auto-estradas delirantes.” Carlos Drummond Andrade

Para os estudiosos que pensam histórica e turisticamente a cidade de Belo Horizonte, a discussão acerca do Circuito Cultural está muito além da apresentação do projeto. Um primeiro questionamento deve ser feito em torno da própria maneira como o espaço foi planejado, sem consulta à sociedade. Nas palavras da professora de turismo da UFMG e coordenadora do setor de ações educativas do Espaço TIM UFMG, Márcia Lousada: “Uma proposta autoritária, que vem do Governo Aécio com mãos de ferro”. De fato, a única pesquisa em torno do Circuito foi feita pela Vox Populi em 2004. O resultado do levantamento de dados revela uma aprovação quase unânime ao projeto. Cabe aqui uma sábia frase de Nelson Rodrigues: “Toda unanimidade é burra”. Afinal, como foi feita a pesquisa? A população ajudou na escolha dos espaços? Esta é uma das indagações feitas por José Newton Coelho Meneses, coordenador do Colegiado de Pós-Graduação do curso de História da UFMG. Ele chama atenção para o fato de os próprios espaços culturais não terem sido escolhidos democraticamente. Estevão Fiúza, gerente executivo do Circuito, discorda da necessidade de consulta à população e propõe um caminho inverso, com propostas desafiadoras. “Muitas vezes, as pessoas não têm interesse nesses espaços porque não têm conhecimento. A ideia é que se o povo não conhecer, ele só vai ficar curtindo Axé. Sem nenhum juízo de valor, mas, para não ficar só na cultura de consumo mais imediato, que não agrega nada, é preciso fazer com que todos tenham acesso a coisas com um pouco mais de substância”, argumenta.

Espaço de intervenção 64

Outro ponto a ser pensado em relação ao Circuito é se ele irá preservar a Praça da Liberdade como um espaço para o lazer e para as mais diversas intervenções culturais, comerciais e artísticas. A turismóloga Márcia Lousada enfatiza que, “se hoje em dia já é complexo você realizar um evento na praça, uma manifestação, o que quer que seja, imagina como vai ser com esse tanto de atores envolvidos [menção à Vale, ao Banco do Brasil e à TIM, financiadores dos projetos], principalmente do setor privado. Todos eles não desejarão que essas intervenções os comprometam”. De fato, a parceria público-privada é problemática em vários aspectos, e a própria experiência entre a TIM e a UFMG já apresenta dificuldades. O principal problema, segundo Márcia, é a divergência de objetivos entre as interfaces do projeto. “Um exemplo é o respeito aos monitores da UFMG e às suas condições de trabalho. Se os monitores são a cara do projeto, se o contato do público se dá, na maior parte do tempo, com eles, por que essas condições de trabalho não estão sendo promovidas e respeitadas da forma como foi acordado?”, indaga.


A própria construção de um Circuito na Praça da Liberdade deve ser repensada. É uma boa opção centralizar espaços culturais na já efervescente região Sul? Para Márcia Lousada, centros periféricos, como o do Alto Vera Cruz e do Taquaril, é que deveriam ser o foco do investimento público e privado. “Precisamos descentralizar, ao invés de centralizar ainda mais a cultura”, sugere. Não é assim que pensa o nosso secretário adjunto de Cultura. Estevão Fiúza diz que “o fato de estar na região central é uma forma mais eficiente de democratizar o acesso do que espalhar pequenos equipamentos ao longo da cidade porque, dessa forma, não se cria sinergia”. Quanto aos centros periféricos, ele afirma haver outras políticas pertinentes ao assunto, como o Fundo Estadual de Cultura (FEC) e a Lei de Incentivo Cultural do Governo. Jô Vasconcellos também defende a construção do Circuito e diz que sua ideia “é contaminar a cidade; dar às regiões próximas uma qualificação cultural. Esperamos que se espalhe bem isso por aí, pela cidade afora”.

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Toda cidade tem uma história para contar. Belo Horizonte também. E como tem! A gente é que não se apropriou dela.

História A própria história não está sendo levada em consideração. Belo Horizonte é a primeira cidade planejada da Era Republicana, com discurso republicano e positivista. Para o historiador José Newton, “O projeto do Circuito desconstrói essa função da praça da Liberdade de reunir o Governo, de ser um espaço do Executivo e do poder civil”, afirma. Isso porque não houve uma preocupação em interpretar o patrimônio histórico da Praça da Liberdade antes de pensar os espaços culturais. A memória da Praça da Liberdade como símbolo do Governo poderia ser, inclusive, explorada como turismo cultural. “Quer um turismo mais interessante e condizente com o que é nosso? Toda cidade tem uma história para contar. Belo Horizonte também. E como tem! A gente é que não se apropriou dela”, aponta Márcia Lousada. As únicas medidas para se preservar a memória da Praça como sede do Governo serão a manutenção das funções cerimoniais do Palácio da Liberdade e a construção de um Memorial de Minas Gerais na antiga Secretaria de Estado da Fazenda, onde a história do Estado será valorizada. José Newton analisa tais iniciativas do Governo com cautela, já que são “uma possibilidade de lugar de memória, mas correm o risco de serem frustradas caso não seja feita uma interpretação adequada do

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patrimônio histórico do local”.

Evento militar na Praça da Liberdade, em 1900 (Autor desconhecido)


Calçamento de um trecho da Praça, em 1930 (Gines Gea Ribera)

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Identidade cultural Por fim, outro importante aspecto a se considerar é a

rios administrativos que geriam o Estado e o discurso

identidade de Belo Horizonte. Afinal, não é somente o

republicano”. Para suprir essa “genuinidade”, o centro

Circuito que vai salvar o turismo cultural de Belo Hori-

cultural realiza altos investimentos em tecnologia. A

zonte. Ele deve ser pensado de forma integrada, combi-

virtualidade, no entanto, exige que sejam sempre cons-

nado à vivência gastronômica do Mercado Central,

truídos novos eventos e atrativos para os lugares, já que

à possibilidade de o visitante conhecer a Serra do

as pessoas não retornam a ambientes tecnológicos que

Cipó, de ir a Inhotim, de passar por Ouro Preto. Para

não atraem mais a atenção. “É muito mais fácil atrair

Márcia Lousada, não é apenas o fato de Rio de Janeiro

pelo cotidiano, pela vivência do espaço em si. Quando

e São Paulo exibirem circuitos expressivos o que atrai,

se perde essa identidade, corre-se o risco de perder o

digamos, turistas culturais. “Temos que pensar: qual,

sentido. É muito complexo mudar a função histórica

de fato, é a cara de BH? O que é nosso? O que é ímpar

dos lugares. E, quando isso é feito de forma autoritária,

da gente?”, sugere Márcia.

pior ainda”, lamenta José Newton. Mas para o histo-

Preservar a identidade de Belo Horizonte também é algo

riador ainda há tempo de resgatar a memória da praça.

fundamental para José Newton: “É como conservar

“O Circuito não teve a base necessária de construção

o espírito da cidade”. Ao refletir sobre o projeto do

interpretativa do patrimônio histórico. Nada impede,

Circuito Cultural, o historiador diz que “foi retirada

contudo, que o projeto tenha tal preocupação daqui

a alma da Praça da Liberdade: o corpo de funcioná-

para frente”, completa.

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texto e fotos de Ana Clรกudia Paschoal


Transformações econômicas, desenvolvimento da infra-estrutura, crescimento populacional. Praticamente todos os bairros de Belo Horizonte passaram por profundas mudanças desde que a capital mineira foi fundada, em 1897. Com origem tão antiga quanto a própria cidade, o bairro Calafate viu de perto as grandes modificações geradas pelo desenvolvimento urbano da metrópole mineira, que hoje comporta mais de dois milhões de habitantes. No contratempo dessas transformações, contudo, há quem ainda preserve, de forma natural, a história daquele que um dia já foi chamado de “Núcleo Suburbano do Calafate”. Se depender dos ilustres moradores que apresento nesta reportagem – Haroldo, Nonô Leite, João Mendonça e Beto Rodrigues –, certamente a história irá se confundir com a música, sem deixar brechas para que uma seja contada sem a presença da outra.

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Bairro bom, turma boa de lá

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Rua Calcedônia, número 109, domingo à tarde. Ao iniciar

batendo muito papo e, claro, cantando boleros, sambas,

minhas pesquisas sobre a música do bairro Calafate, esses

sambas-canções e tudo o que uma boa memória musical

foram o endereço, a data e a hora sugeridos para o encontro

é capaz de revelar.

com a verdadeira história musical do bairro. Sem pesta-

O bar, que sedia o sempre aguardado encontro semanal,

nejar, lá estava eu, em pleno domingo, diante do bar. Para

localiza-se hoje na casa do Agostinho, e representa

minha surpresa, após adentrar os cômodos da casa, chego

a continuidade de um movimento iniciado há muito

a um quintal dominado por senhores e senhoras que,

tempo no Calafate. Beto e Haroldo, músicos que tocam

apesar da idade avançada, mostram vitalidade e alegria.

recorrentemente nas rodas musicais do local, acompa-

Embalados ao som de violões, pandeiro, repique e da bela

nharam de perto a história da turma e de lá e explicam

voz da cantora que empunhava o microfone, os clientes

que antes do bar do Agostinho, os movimentos musicais

assíduos do Bar do Agostinho mostram a que vieram,

do bairro já aconteciam frequentemente nos botequins

riscando o salão em suas danças ora sensuais, ora despre-

da região. Antes os pontos eram os bares Don Fernando

tensiosas, bebendo sua cerveja, comendo seus petiscos,

e Canto da Alvorada.


Na companhia de seu violão e dos anos de experiência nas rodas de música, Beto anima a turma

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“A gente fazia música todo domingo no Canto da Alvo-

mais de seis músicos passaram pelos instrumentos,

rada. Mas houve um contratempo e acabamos indo

e mais de quatro vozes entoaram suas canções ao

para o Agostinho. Trouxemos músicos de outros bares

microfone. Uma delas é a de Nonô Leite, integrante

para tocar aqui e começamos a fazer encontros todas

da velha guarda musical do bairro, que já passou por

as sextas e domingos, até chegar às reuniões de hoje.

dois conjuntos do Calafate e garante ser ainda consi-

Adotamos este bar como o reduto da música aqui no

derado o cantor predileto para eventos organizados na

bairro”, explica Haroldo.

região. “Já estou com meus 70 anos. Canto aqui porque

Beto brinca que ganhou o dono do bar pela insistência.

gosto muito de cantar e ainda tenho voz para isso. Nós,

“Havia uma época em que não havia música no Agos-

da velha guarda, é que fizemos esse lugar, por amor à

tinho. Quer dizer, quando havia, era só o violonista

música e para divulgar o nosso Calafate”, declara.

Chiquinho Freitas, integrante de um conjunto chamado Amigos da Lua”. A insistência deu certo e, sem dúvida, rendeu bons frutos. No domingo em que conheci o bar,


Se o amor ao local pode ser expresso pela música, é nas composições de João Mendonça que ele encontra seu maior aliado. Reverenciado por todos os entrevistados do domingo, o ilustre cidadão não esteve presente no dia, mas pelo telefone revelou a razão do respeito cultivado pelos companheiros. Com quase 79 anos de idade, ao ser questionado sobre as composições preferidas, João Mendonça revirou o baú de músicas guardadas na memória e fez questão de interpretar versos de uma canção que fez para uma amiga, o que ainda lhe proporciona grande prazer: “Você prometeu dar-me aquela flor/ Tempos de criança / Mas depois cresceu, desapareceu / Nem uma lembrança. / Eu também cresci / Nunca mais a vi / Vivo da esperança de encontrar você / E ganhar a flor / Flor do seu amor” Considerado um dos maiores compositores da turma, João deixou marcado em suas composições um pouco da história do bairro que tanto ama, cujo nome, e isso ele fez questão de repetir duas vezes, “vem de um pássaro, o pássaro Calafate”. Talvez inspirado pelo fato, João Mendonça e os outros músicos da região ainda entoam de forma inspiradora uma de suas letras, que passou a “Você precisa conhecer o Calafate. / Bairro bom, turma boa de lá. /

Você precisa conhecer o Calafate. / Melhor que o Calafate outro lugar

não há. / O Calafate é nesse mundo um pedacinho do céu. / Se falam

Conceição, como é conhecida, canta clássicos do samba, do bolero e tudo mais que a memória permite

nele tiro logo o chapéu. / Deus sorrindo disse: o Calafate é ali. / Eu vou

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pra lá, não fico mais aqui”

ser considerada o Hino do Calafate.


Continuidade A música e a vida de João Mendonça começaram a se entrelaçar graças à herança deixada pelo irmão, o violonista Paulo Mendonça. Figura marcante nos grupos musicais do Calafate que precederam a época de João, Paulo foi um dos grandes responsáveis pelo início da empreitada do irmão no universo sonoro. “Ele foi um dos principais integrantes do meio musical da época. Ao ouvir tocar os mais velhos, como ele, decidi, junto a outros companheiros, continuar essa história, tentando coisas novas, mas mantendo sempre essa herança deixada por eles”. Sem pretensão de se tornar um movimento conhecido em toda a cidade, os músicos do bairro sempre estiveram dispostos a preservar a sua história. Prova desse cuidado é o Projeto Calafate, que rendeu o registro de mais de 30 composições escritas e interpretadas por músicos que, se não eram dali, ao menos reservavam grande apreço pelo bairro. Obras de João Mendonça não poderiam faltar, ao lado das interpretações de Haroldo, Beto e Nonô, que lembram com carinho e nostalgia das gravações realizadas com o intuito de preservar a história do bairro. “A ideia do CD surgiu durante os encontros musicais no bar do Agostinho. Juntamos os músicos que costumavam tocar por aqui e fomos gravar. A qualidade não ficou tão boa. Afinal, não havia nem ensaio direito. Tocávamos umas duas ou três vezes aqui no bar e íamos gravar”, explica Beto. “Mas é que a verdadeira intenção do projeto era fazer um resgate da história do bairro, das suas músicas, das suas serestas”, completa Haroldo. Além do registro gravado, a continuidade dessa herança já começa a ganhar forma nas notas musicais de um acordeon. Lucas Viotti, sobrinho de Haroldo, conheceu ainda criança o movimento musical do bairro. Inicialmente sob o comando do pandeiro, hoje, ele acompanha tudo aquilo que os experientes “professores” interpretam nas tardes de domingo. “É bom tocar com eles e fazer parte disso aqui. Aprendo muito com esses músicos, porque vejo verdade nas coisas que eles interpretam. A experiência deles transparece na tranqüilidade e na forma enxuta com que tocam”, afirma Lucas. Para além da experiência absorvida a cada nota musical interpretada pelos artistas, contudo, Lucas garante que, a cada encontro presenciado, leva para casa um pouco da sabedoria, alegria e intensidade de viver de cada um deles. “Daqui da sala de estar, nós os ouvimos cantar com inspiração e alegria. Desejo muito que, aos 70 anos, eu tenha toda essa vitalidade”.

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Transitou pelo gospel, soul, blues, folk e atuou de forma marcante no jazz. Eunice Kathleen Waymon, cantora, pianista e compositora nascida na Carolina do Sul, criou um nome artístico para cantar blues, já que seus pais, pastores metodistas, não podiam saber que ela entoava a “música do diabo” nos bares da Filadélfia e de Nova Iorque.

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Passou a ser Nina Simone. Nina de “little one” – pequena e única – e Simone em homenagem à sua atriz preferida: a francesa Simone Signoret. Para relembrar a sutileza de Nina Simone e de sua obra, o pianista e compositor nova-iorquino Cliff Korman relatou, para Deriva:, sua experiência afetiva com as músicas da cantora. E Thiago Scap, grafiteiro belo-horizontino, traduziu em imagem a presença marcante da artista.


Apreciando

Nina Simone por Cliff Korman

Não vou falar em coisas acadêmicas, que precisam de lucidez, de uma posição neutra, ausência de emoção e paixão, uma cabeça pronta para avaliar, considerar, contextualizar, tirar conclusões apoiadas de fatos, teorias, filosofia… Não posso falar assim, porque estou ligado, como se tivesse colocado meu dedo numa tomada de 220V, ao som de Nina Simone. Estou ligado no jeito expressivo dela, na maneira da cantora interpretar a letra, buscando cores e tintas de sentido. No controle que ela usa para manipular o timbre da voz, e na conseqüente variedade de sons que consegue emitir. No humor, balanço, sofisticação, complexidade. Profundidade. Nobreza. Coragem. Para escrever este artigo, ouvi o cd The Best of Nina Simone e assisti a vídeos no YouTube. As gravações mostram que Simone usou e dominou inúmeros estilos e gêneros das décadas de 1960 e 1970, incluindo jazz, rhythm and blues e soul, cabaret, e pop. Escolhi músicas que, para mim, representam bem como Nina Simone abraçou e transformou esses

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I Love You Porgy

estilos para torná-los componentes de sua linguagem e visão artística. Da ópera Porgy and Bess, uma história que pretende captar um pouco da essência da vida do povo negro dos Estados Unidos na época de 192030. Essa é a balada principal da peça, uma declaração de amor complexa, cheia de esperança e, ao mesmo tempo, de fatalismo. Nina Simone transmite estes dois extremos de forma extremamente íntima, como oferecido pelo jazz trio.

Ne me quitte pas Simone canta em francês, mas, para meus ouvidos, com uma ginga que sutilmente lembra as cadências do sotaque negro em inglês. Talvez essa foi a maneira de Nina Simone deixar sua marca na música. See-Line Woman (também Sea-Lion Woman, She-Lying Num ritmo que parece baião, incluindo um pouco de New Orleans, Nina Simone brinca com as inflexões de blues. A música é feita para instigar o ouvinte a bater palma, dançar, participar. No entanto, a letra fala da situação de uma prostituta, fingindo prazer para ganhar dinheiro, para se sustentar.


Mississippi Goddam Ritmo de show tune americano. O ritmo é comum no teatro musical, e normalmente acompanha letras felizes, positivas. A cadência me lembra muito canções emblemáticas como Oklahoma… Mas não é nada disso. A letra da música refere-se a uma época muito difícil e perigosa para o povo afro-americano, no estado de Mississippi, no sul do país. Foi onde aconteceu muita coisa ruim nas décadas de 1950 e 1960. Foi um campo de batalha para os direitos civis dos afro-americanos. Houve muito sofrimento e morte. Essa canção, provavelmente, é uma resposta à morte de Medger Evers, um líder do movimento, e à bomba que explodiu numa igreja em Birmingham, Alabama, matando quatro crianças negras. Este contraste entre música e letra mostra a capacidade de Simone para fazer críticas políticas e sociais com inteligência e humor. Mas, pensando bem sobre essa época de luta, creio que tenha sido muito difícil para a cantora tomar essa posição, para assumir e mostrar, com medo ou não, o que ela pensava e sentia. Possivelmente, tal atitude prejudicaria a vida profissional de um artista em casas noturnas e salas de concerto. Imagino que foi assim mesmo. Depois de ouvir diversos trechos da obra de Nina Simone, eu, músico,  percebo que ela pensou muito nos detalhes de composição, interpretação, ritmo (ou, se me deixarem usar só uma frase em inglês, seria neste momento “impeccable sense of timing”). Tudo isso, com o intuito de criar as condições para a emoção, o balanço e a complexidade emergirem e fluírem no ato de performance.

81

Nas gravações ao vivo e no estúdio, Nina Simone passa, além de muitas outras coisas, um senso de confiança nela mesma, uma tranqüilidade que só pode existir quando uma pessoa sabe que fez tudo certo na fase de preparação para a performance final. Tal sentimento de confiança só é possível porque a artista reconhecia muito bem a força e o impacto que o talento e o trabalho dela tinham (e ainda têm) nos pensamentos, emoções e alma de quem tem a oportunidade de ouvi-la. Agora bateu a ironia deste texto meu… Foi ela que conseguiu a lucidez, a neutralidade, a ausência de emoção e paixão, e a mente que eu precisava para falar numa maneira “acadêmica”. Mas neste momento não posso, nem tenho vontade de falar assim. Não consigo achar uma posição neutra. Estou muito emocionado, e percebo que existe o perigo de ficar apaixonado a qualquer instante. Vou continuar ligado nessa tomada de 220V, com fones nos ouvidos, deixando o iPod tocar. Fiquei viciado. Quero mais.

:

O nova-iorquino Cliff Korman é pianista, compositor e professor do Departamento de Música da UFMG. Possui doutorado pela Manhattan School of Music (NY/EUA) e é especialista em Música Popular Brasileira.


Thiago Cardoso - o Scap -, é belo-horizontino, cursa o 7º período de Arte e Educação na Escola Guignard, trabalha com Arte e Educação na Escola Municipal Dom Bosco e com arte urbana.

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I got my eyes, I got my nose


I got my hair, I got my head 84

Ain’t got no money, ain’t got no class


“Peguei uma imagem da face da Nina Simone que carrega muito sentimento. O sentimento é o poder dela”.

I got my mouth,

I got

my smile

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I got my heart, I got my soul

And I’m gonna keep

it

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música Ain’t got no/ I got life, de Nina Simone fotos de Pabline Felix


por que as bandas mineiras não estouraram nos anos 2000? por Igor Lage

Vamos começar exercitando a memória: quais foram as bandas mineiras que estouraram nos anos 90? Acertou quem respondeu Skank, Jota Quest e Pato Fu. Agora, vamos pular um pouco no tempo: quais foram as bandas mineiras que estouraram nos anos 2000? Err... Skank, Jota Quest e Pato Fu? Pois é. Na verdade, não dá nem para usar o termo “estourar”. O que aconteceu na última década foi que nenhum grupo de Minas Gerais conseguiu se destacar no cenário musical nacional e apenas a “velha guarda” dos anos 1990 manteve-se popular. O Jota Quest deixou as batidas suingadas meio de lado para abraçar baladinhas radiofônicas como Só Hoje e Amor Maior. Vendeu mais de um milhão de discos. O Skank abandonou seu rock “caribenho” cheio de metais para assumir uma veia mais britânica, com guitarras que remetem a Beatles e ao 88

britpop. Esteve quatro vezes no primeiro lugar das paradas. Por fim, o Pato Fu continuou a fazer seu indie rock alternativo, flertando de vez em quando com o mainstream (apesar de não ter lançado nada tão pop quanto o Isopor, de 1999). “Pô, mas e as outras bandas? A nossa cena musical não se resume a essa trinca noventista!”, pode afirmar o nosso orgulho mineiro, mas, pare e pense. Realmente não surgiu outra banda de Minas que tocasse nas rádios, aparecesse na TV, fosse destaque na crítica especializada. Por quê? Primeiramente, é preciso entender que a virada do século trouxe consigo uma revolução na forma de trabalhar com música. Com a popularização da internet e o sucesso do Napster, a distribuição gratuita (e ilegal) de canções em formato digital tornou-se um fenômeno que dizimou a venda de CDs e até hoje aterroriza as gravadoras. Por outro lado, a rede foi a principal responsável pelo crescimento da cena independente, e catapultou artistas para o estrelato do dia para a noite, como Mallu Magalhães e Cansei de Ser Sexy (ambos de São Paulo).


Em todos os cantos do país, artistas começaram a

existem bandas fazendo um som legal no Rio Grande

divulgar seu trabalho e a se fazer ouvir sem necessi-

do Sul, em Goiás, Pernambuco, Mato Grosso, Pará,

dade dos grandes conglomerados de gravadoras. Alguns

Paraná e, principalmente, aqui em Minas. Os grandes

estouraram: Pitty, Los Hermanos, CPM22, Cachorro

jornais precisam plantar mais no próprio terreiro antes

Grande... Outros viraram ícones de uma recém-formada

de comprar o que vem “de fora” nas feiras. Para as

panelinha do indie: Autoramas, Los Hermanos (de

bandas, o apoio da imprensa seria fundamental: ganhar

novo), Móveis Coloniais de Acaju, Céu... Enfim, você

destaque nos jornais e revistas daqui é o primeiro passo

sabe de quem eu estou falando.

para repercutir no resto do país.

Mas por que as bandas mineiras não estão nessa pane-

Talvez o que a gente precise mesmo seja de um movi-

linha? Porque não querem. Falta a elas uma visão mais

mento que chame a atenção para cá, como o mangue beat

empreendedora sobre o próprio trabalho, no sentido

fez com Recife na década de 1990. Agora é o melhor

de se promover, de acreditar em si mesmas e desejar

momento para que nossas bandas cresçam. E não digo

ser grandes. Várias bandas da cena local têm poten-

nem no quesito “estourar em todo o país”. Nessa época

cial e qualidade para se tornar mais que bandinhas de

em que a hegemonia perde espaço para a variedade,

fim de semana, que tocam uma vez ou outra n’A Obra

isso é cada vez mais raro. A tendência é que os grandes

e no Studio Bar. Entre elas, Transmissor, Graveola e

artistas tornem-se cada vez menores e, assim, sobre

o Lixo Polifônico, Monno e Porcas Borboletas são só

espaço para mais gente.

alguns nomes. Por isso, é hora de se organizar, de se articular e fazer Claro que, em todo o estado, há uma falta de estrutura

acontecer. Se é para criar um “montanha beat”, que seja.

que não ajuda muito. Em Belo Horizonte, por exemplo,

Só quero ver as boas bandas aqui de Minas sendo reco-

dá para contar nos dedos o número de casas de shows.

nhecidas em todo o território nacional, encabeçando

Se considerarmos só as boas, dá para contar com uma

festivais e aparecendo nas listas de melhores discos

mão só. Além disso, falta um incentivo da própria

do ano. Chega de comer quieto. É hora de a música

imprensa local, que ainda está presa à época em que

mineira parar de se esconder e ocupar de novo o lugar

a música acontecia no eixo Rio-São Paulo. Pô, também

de destaque que sempre teve no cenário nacional.

:

Igor Lage assina o blog Nova Discoteca novadiscoteca.wordpress.com Acredita em Bob Dylan e no Jornalismo

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Elis Regina, Chico Buarque, Nara Leão, 92

do público – e, sobretudo, das gravadoras –

Geraldo Vandré, Jair Rodrigues, Fagner,

quando, ainda como talentos promissores,

Milton Nascimento, Os Mutantes, Gil e

dividiam o palco com diversos outros

Caetano, Tony Tornado, Wilson Simonal,

artistas iniciantes.

Edu Lobo, Jorge Ben e até Roberto Carlos antes de conquistar sua “coroa”. É extensa a lista dos ídolos musicais

Se, no início, esses eventos se resumiam-se a concursos de jovens compositores e intérpretes, tornaram-se, ao

brasileiros que, nas décadas de 1960 e 1970,

longo dos anos, emblemas de uma geração,

ganharam projeção nacional em eventos

revelando ao país um formato inovador, que

onde não eram sequer a atração principal.

até hoje serve de plataforma para o vôo de

Estes “monstros sagrados” atraíram atenção

novos artistas.

Seja bem vindo à


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texto de Pabline Felix


Em primeira mão O formato não é moderno, nem foi criado no Brasil. O

Os animados encontros de novos artistas da música con-

primeiro registro da palavra “festival” data de 1589, em

quistaram posto importante no mercado cultural. “Eles

referência a uma festa religiosa. No Brasil, tal tipo de

romperam o ritual das gravadoras e do rádio, transfor-

atração começou a se popularizar com os programas

mando-se na grande porta para o novo”, registra Solano

de rádio, na década de 1930, que promoviam pequenas

em seu livro. Mais de 40 anos depois, as festas da músi-

mostras onde os cantores locais encantavam a platéia

ca ainda são espaços de lançamento de novos talentos.

com seus dotes vocais.

Em estruturas mais modestas e, geralmente, dedicadas

Todavia, a inovação em aplicar a grande estrutura do

a um estilo musical, este tipo de evento serve tanto

show biz aos eventos é mesmo dos festivais televisivos

como oportunidade de trazer grandes bandas à cidade,

da década de 1960, que marcaram a história da música

quanto de divulgar, junto ao público-alvo, o trabalho de

no Brasil. Organizados pelas redes de televisão – primei-

“iniciantes”. “As bandas famosas atraem as pessoas pelo

ro a Excelsior, depois a Record e, finalmente, a Globo –

nome, já que têm estrutura própria de divulgação. Isso é

entre os anos de 1965 e 1972 –, tiveram repercussão tão

complicado para quem está chegando. Mas muita gente

ampla que, além do lançamento de inúmeros artistas,

vai aos festivais e acaba gostando das bandas menores,

foram indiretamente responsáveis pela consolidação

vira fã e passa a visitar o site do grupo”, relata Welbert

do termo MPB. Na verdade, o “culpado” pelo criação

Ramos, mais conhecido pelo apelido “Bart”, da 53HC

da alcunha é Solano Ribeiro, organizador do Primeiro

Produções, organizadora de eventos em Belo Horizon-

Festival da Música Popular Brasileira, que inaugurou a

te. Para citar exemplos, Strike, Fresno, Matanza e Mó-

série na televisão. “Claro que já se tinha a ideia de uma

veis Coloniais de Acaju já foram “beneficiadas”, em início

música popular brasileira, mas só depois do festival com

da carreira, com apresentações nos festivais da 53HC.

esse nome é que a expressão passou a referir-se àquela

“Essa mistura é uma das preocupações da produtora ao

forma brasileira de fazer música”, afirma Solano no li-

convidar os artistas. A outra é responder à expectativa

vro Prepare o seu coração, publicado em 2002 pela editora

do público, que desde 2008 pode indicar seus favoritos a

Geração Editorial, onde relata a história do que chama

integrar os fests”, afirma Bart.

“ciclo dos festivais”.

IV Festival de Música Popular Brasileira

III Festival Internacional da Canção

m

br

v no

em

o br

e

ze de

m te e s

m

o br

o

I Bienal do Samba

aio

1968

Brasileira n II Festival de Música Popular ju o l da Canção br I Festival Internaciona u t u o e o ubr o br out m te se 1967 ira Festival de Música Popular Brasile o III r b tu u II Festival Internacional da Canção o ro b tu ou

Festival Nacional de Música Popular Brasileira

ho

1966

r ab

il

ira, I Festival de Música Popular Brasile

Dificilmente as bandas que acompanham grandes nomes em festivais como “atrações menores” são literalmente iniciantes. Para conseguir um lugar ao sol, é preciso mostrar qualidade no som – o que, geralmente, demanda produção musical de disco ou ensaio exaustivo –, ter experiência em eventos, comprovada por releases ou flyers de divulgação, e revelar o próprio trabalho em plataformas virtuais, como Myspace ou site próprio. “O mercado musical tem muita gente. Para aparecer, é preciso apresentar um diferencial”, garante Malu Aires, organizadora do Indie Rock.

1965

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Circuitos fechados Malu Aires é musicista e vocalista da Junkbox. Em 2008,

Malu reforça que, para as bandas independentes, a partici-

depois de sua banda receber vários “nãos” de casas de show

pação em festivais é muito importante, como forma de os

de BH, ela abriu um tópico na comunidade do Orkut da

grupos alcançarem novos mercados de shows e tornarem-

casa Matriz, residência oficial dos músicos independentes

-se conhecidos “fora do bairro”.

da capital, e reuniu pessoas que passavam pela mesma si-

Em BH, os festivais são uma forma de apresentar as bandas

tuação. Em junho do mesmo ano, estava montado o Indie

às casas de shows, que, depois, passam a incluir os artistas

Rock, festival de bandas autorais. A primeira edição teve a

em sua programação “normal”. Claudão Pilha, DJ d’A Obra e organizador do Primeiro Campeonato

participação de 18 bandas, que se apresentaram em dois dias de shows. “As bandas tiveram – e ainda têm – que se

Mas se o Indie Rock, como o nome diz, interessa aos roqueiros, e o PCMS agrada, prioritariamente, aos instrumentistas, quem reúne todos?

financiar. O festival acontece sem nenhuma ajuda, sem nenhum financiamento, a não ser das casas, que aceitam abrigá-lo em troca, apenas, de uma parcela da bilheteria”, explica Malu. O sucesso do “empreendimento” revela a importância do formato: desde 2008, já foram realizadas três edições do evento e, na última, inscreveram-se mais de cem bandas de todo o país. O blog do projeto recebe mais de mil

Mineiro de Surfe (PCMS), que reúne instrumentistas de rockabilly e psychobilly, também destaca outra função dos festivais: abrir espaço para um tipo de espetáculo que não tem lugar no circuito tradicional brasileiro. “A cena de surf music brasileira é muito respeitada na ‘gringa’, mas aqui poucos sabem apreciá-la. Temos muitos bons artistas surgindo. O PCMS aceita tanto bandas novas como grandes nomes, que acabam nem sendo famosas aqui dentro”. Mas se o Indie Rock, como o nome diz, interessa aos roqueiros, e o PCMS agra-

visitas mensais e há um edital anual para selecionar os participantes, que agora, dada a procu-

da, prioritariamente, aos instrumentistas, quem reúne to-

ra, são classificados entre bandas da Região Metropolitana

dos? No mercado dos festivais, a segmentação é uma coisa

de Belo Horizonte e de outras partes do país. “Na última

natural. “Para fortalecer o grupo, geralmente nos juntamos

edição, tivemos bandas de todos os estados. É muito bom

com quem está mais próximo, seja do som, seja fisicamen-

poder ver uma cena que se completa em vários lugares do

te. Acho que por isso os eventos são tão fechados em um

Brasil e, ao mesmo tempo, sentir a diferença nos sotaques

ritmo, em um tipo de show. Eu, sinceramente, lamento

musicais”, opina.

isso. O grupo todo poderia se beneficiar pelo intercâmbio”,

no

CICLO DE FESTIVAIS

t se

o br m e

VII Festival Internacional da Canção t se

1972

VI Festival Internacional da Canção o br m e

1971

V Festival Internacional da Canção

1970

m te e s o br m ve o n

o br

1969

br

ou

m ve

ro

tu b

o IV Festival Internacional da Cançã

V Festival de Música Popular Brasileira

declara Malu Aires.

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Time a favor Engana-se quem pensa que os hoje grandes nomes da

ajuda do público na escolha das bandas, que usam a in-

música eram os protagonistas dos festivais. A televisão

ternet como força motora de seu sucesso”, afirma Bart.

ocupou espaço central nestes eventos e tornou-se, desde

Outros incentivos também estão “à disposição” daqueles que desejam organizar um even-

a década de 1960, passagem quase obrigatória para quem desejava fazer sucesso. Essa geração também foi responsável por transformar a ligação do público com a “caixinha de elétrons”, que se tornou o veículo mais apreciado no Brasil nos anos seguintes aos primeiros even-

O lugar conquistado pela televisão nos festivais dos anos 1960 e 1970 é, hoje, ocupado pela internet.

to: são as leis de incentivo à cultura municipais, estaduais e federais. Mas a sua existência não implica, diretamente, em acesso: “A documentação e a elaboração do projeto exigidas são tão grandes que só é possível ser aprovado se você paga

tos da música brasileira, tanto por

um elaborador capacitado”, afirma

conta dos concursos, quanto das

Malu. Claudão, que aprovou a rea-

telenovelas, que se tornaram mania nacional.

lização da décima edição do PCMS, confirma a dificulda-

Longe das telinhas, os atuais festivais têm outra aliada: a

de, mas lembra que financiamento nunca foi problema

internet favorece a organização cultural através da inte-

para quem sabe se movimentar: “Fizemos nove edições

ratividade, da acessibilidade e da difusão. “Hoje, usamos

sem ajuda do governo. É possível realizar um bom even-

a internet para divulgar os eventos, contamos com a

to sem recursos públicos.

:


A cidade segmentada Em Belo Horizonte, não é só a música que se mobiliza através de festivais. Praticamente todas as artes têm seu evento específico, organizado, geralmente, por iniciativa de artistas ou instituições do próprio meio. Tais encontros musicais, por vezes, contam com atrações estrangeiras e, por isso, ganham o status de “internacionais”, apesar de pouco conhecidos fora do Brasil. Conheça alguns:

Festival Internacional de Teatro Festival Casa de Marimbondo

Festival de Corais Universitarios Festival

de Eletronika Festival Indie Cinema

Festival Brasil Sabor

Festival Internacional de Danca

Anime Festival

Festival de Arte Digital

Primeiro Campeonato Mineiro de Surfe Music

Festival Internacional de Curtas

Festival Internacional de Teatro de Objetos Festival Internacional de Teatro de Bonecos Festival Comida Di Buteco Axe Brasil Roodboss SoundSystem Pop Rock Brasil

Festival Internacional de Savassi Jazz Festival Quadrinhos Festival Mundial de Circo Conexao Vivo

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Na Idade da Pedra, seus antepassados eram feitos de ossos. Mudaram para o aço em meados da Idade Média, quando aperfeiçoados na Inglaterra. Seguindo a dinastia e com cem anos de trabalho no currículo, nossa entrevistada de honra é a agulha de costura. Logo no início da carreira, ela se dedicou às mãos da consagrada estilista francesa Coco Chanel. Não é difícil concluir que, em sua cabeça, passam muito mais coisas do que linhas para costura. Percorreremos texturas do dia a dia agitado, saberemos mais sobre o trabalho e as preferências deste importante objeto da moda. Afinal, agulha também tem alma


cada forma?

agulha: Na verdade, acho que está no meu gene. Não tenho tendência a engordar. Sou magra por natureza. E também acho que é porque sou muito dinâmica. Para passar entre os tecidos com linha, não dá pra ser muito gordinha. A gente tem sempre que manter a forma. E, como o trabalho é agitado, meu metabolismo acaba ficando mais acelerado. Quais são as vantagens e desvantagens de ser tão pequena? Caibo em qualquer lugar, qualquer buraquinho, qualquer bolsa. Posso ser transportada para onde a pessoa quiser. A desvantagem é que, como dependo de alguém, acabo por ficar esquecida: ou no fundo de uma gaveta, ou no buraco do sofá... Como é o seu dia-a-dia? Muito conturbado. Percorro várias texturas o dia inteiro. É tudo muito dinâmico. Passo de mão em mão, entre diversos tecidos e sempre acompanhada da linha. Não sou um objeto muito independente. Só existo junto às mãos, tecidos e linha. Tem um tecido preferido? Coser a seda é maravilhoso. Ela é fluida, gostosa, molinha e, ao mesmo tempo, exige uma delicadeza muito grande. Não posso furar o tecido de qualquer jeito. Tenho que ter muita sabedoria, calma e paciência, apesar de a pressa também revelar-se importante para finalizar o trabalho dentro do prazo. Passar pelos tecidos mais finos requer maturidade, cuidado e destreza muito grandes. Ao passo que, se eu for pegar uma bolsa para fazer, tenho que passar através de um couro e ser mais dura, mais resistente, mais firme... Mas também com muita calma, pois se eu furo o couro de maneira brusca, acabo com o trabalho de quem idealizou o objeto.

“ “

deriva: Como você faz para manter sua esguia e deli-

“ “

Não tenho tendência a engordar. Sou magra por natureza

Passo o dia inteiro entre várias texturas. É tudo muito dinâmico

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Na verdade, a gente tem certa rixa. Mas eu não existo sem ela. O problema é que a linha sempre aparece numa peça de roupa pronta. Eu nunca estou. Normalmente, sou esquecida. É uma carga muito grande para nós agulhas não existir no final de um trabalho. Apesar de estar presente no seu processo, não ser visível e acabar sempre esquecida no final de tudo. Na verdade, quem faz todo o trabalho somos nós, mas quem aparece é a linha, o produto final e o criador. Que atividade você considera um tédio? Como minha função é unir as coisas e fazer bordados, não existe o tédio. Existe, na verdade, o estresse de ter que fazer um trabalho com agilidade e, ao mesmo tempo, bem feito. É difícil ser ágil em trabalhos como o bordado, por exemplo, em que temos que fazer os rococozinhos bem trabalhados e estar em função de uma mão delicada. Não acho um tédio o meu trabalho; considero-o difícil por exigir paciência. A sociedade precisa entender que, para ficar bem feitas, as coisas demoram mais. O que acontece quando bate uma raivinha 102

ou cansaço? A costura sai em ziguezague, não sai reta; o bordado sai em linha frouxa; eu não uno direito os tecidos. Mas isso raramente acontece, já que não tenho muita pressa, apenas agilidade para que as coisas saiam no tempo certo. Fico com raiva só quando vejo que a coisa vai dar errado. Aí, uso do artifício de pular, de tremer um pouco, mas rapidamente a costureira desmancha a roupa e a gente entra em acordo.

Como é seu convívio com a linha?

Na verdade, quem faz todo o trabalho somos nós, mas quem aparece é a linha, o produto final e o criador


“ “

“ “

Faz parte de nosso código de ética jamais espetar alguém por espontânea vontade, por mais nervosa que estejamos

... já comecei costurando chapéus para a Chanel, e esse é um trabalho muito delicado

E como é sua relação com as mãos das costureiras? A gente depende totalmente das mãos de quem faz o trabalho. Às vezes é complicado. Apesar de percebermos que as mãos estão indo para o lugar errado, não podemos fazer nada. Então, a gente tenta brecar; pular na mão... Certas costureiras recorrem até à padroeira, Santa Catarina, para rezar porque a agulha quebrou, pulou, saiu do lugar. Elas mal sabem de nossa rebeldia, e que tudo isso são artifícios para que o trabalho saia do jeito que queremos. Você já espetou alguma mão de propósito? Não. Faz parte de nosso código de ética jamais espetar alguém por espontânea vontade, por mais nervosa que estejamos. A gente até tem vontade de espetar, quando percebemos que o trabalho não vai ficar legal. Mas temos outros artifícios, já espetar é uma agressão e somos a favor da delicadeza. Que estilistas famosos já contrataram seu trabalho? Eu tive sorte e, assim que nasci, por volta de 1910, passei a costurar chapéus para a Chanel, um trabalho muito delicado. Coco Chanel era uma mulher muito resistente, à frente do tempo. Foi muito significativo trabalhar nas mãos da estilista que rompeu diversos tabus. É muito satisfatório realizar um trabalho de vanguarda e trabalhar ao lado da Chanel foi o acontecimento mais marcante de minha carreira. Qual foi sua maior gafe até hoje? Na pressa de fazer roupas para um desfile da São Paulo Fashion Week, a costureira que fazia os reparos finais (e era nova no ramo), me esqueceu na roupa da modelo. Na passarela, acabei espetando a moça. Mas não foi minha culpa, pois me esqueceram e eu não fiz de propósito. A modelo, é claro, não saiu tão bonita na foto. Acho que isso foi uma gafe porque não era minha função, nem intenção. Não me lembro do nome da modelo, porque foi há muito tempo. Mas não era nenhuma famosa, ainda bem!

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Agulha posa ao lado de Grabrielle Chanel, uma de suas grandes referĂŞncias

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Já tem planos para esta estação, o inverno? Tenho muito trabalho agora, principalmente com as peças mais delicadas, como as echarpes, e vou ter que trabalhar com tecidos importados, mais adequados ao inverno. Como trabalho há cem anos sem parar, quero me aposentar depois deste inverno. Mas só diminuir o ritmo, pois não vou deixar de fazer o que sempre fiz, senão deixo de existir. Só não quero mais ter muito compromisso, prazo para entrega... Quero me aposentar na caixinha de uma senhora que só faz bordados finos, coisa que adoro fazer. Vou costurar por prazer. Que mensagem gostaria de transmitir aos estilistas e às agulhas em início de carreira? O importante é ter delicadeza, sutileza no trabalho. Não tenham pressa, pois, neste mundo da mecanização e produção em massa, o diferencial é ser delicado no trabalho, procurar tecidos, texturas, linhas de origem natural. A moda muda, mas a agulha se mantém no mercado. Apesar da modernização, o trabalho manual ainda tem seu lugar de destaque, contanto que seja feito com delicadeza.

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A alma da agulha Quem deu voz à agulha é a estilista Marcela Melo. Natural de São Paulo, Marcela se graduou em Moda na Faculdade Anhembi Morumbi e se especializou em design de moda na FUMEC. Residente em BH há 10 anos, Marcela é uma das donas da loja São Longuinho (saolonguinho.blogspot.com), onde desenvolve figurinos, acessórios, cenários e outros objetos da moda.


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ocupação poética do espaço fotos de Raissa Pena

Pelas ruas da cidade. Entre os carros, no sinal. Nos muros e postes. Em canteiros, flores de plástico! Dentre prédios e normatizações da metrópole, esguiando-se pelas lógicas vigentes de consumo do espaço urbano, está (ou esteve) o Poro. Constituído pela dupla de artistas Brígida Campbell e Marcelo Terça-Nada!, o Poro – interferências em arte, realiza, desde 2002, intervenções urbanas, ações que reivindicam a cidade como espaço para a arte. Nesta edição, Deriva: acompanhou o Poro em uma de suas intervenções. Nas próximas páginas, um ensaio sobre a ação “Perca tempo” e também de outras.

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“O espaço público é um campo privilegiado para execução de trabalhos poéticos e políticos, pois ao se inserirem diretamente na cidade, os trabalhos criam rico diálogo com o cotidiano, situações e contextos urbanos.”

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“Geralmente fazemos trabalhos sobre coisas ou situações ou que nos incomodam, ou que nos chamam a atenção. Gostamos de brincar um pouco com todas essas situações...”

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“O Poro realizou intervenções e participou de eventos, exposições e debates em diversas cidades de 11 estados do Brasil (MG, RJ, SP, BA, PR, SC, RS, CE, ES, MT e PE) e em países como: Brasil, Argentina, Índia, Espanha, Holanda, Eslovênia e Áustria.”

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“O processo de criação do Poro é muito simples: se inicia nas nossas inquietações com relação ao que pensamos sobre as cidades e seus espaços e se soma à poética e pesquisas visuais que viemos realizando desde 2002.”

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“O Poro é a favor dos processos colaborativos e sempre que é possível gostamos de compartilhar com os outros nossos processos... como por exemplo colocando os panfletos no site www.poro.redezero.org para download.”


Poro outros trabalhos

Desenhando no vento (2005) Tiras de papel arremessadas de partes altas da cidade em dias de vento.

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Superfície da cidade (2009) Panfleto distribuído em locais de intensa circulação de pessoas


ueta q i t e a e u q n a r r a da sua roupa

arran da su

www.poro.redezero.org

Rua Imagem Espaço (2003) Projeção de slides em muro da cidade. O projetor fica de um lado da rua, projetando do outro lado, fazendo uma ocupação momentânea do espaço público. Os slides projetados são uma seleção de imagens da história da arte que fazem referência à comida, bar, festa e afins.

a t e u q i t e a e u q n arra da sua roupa

Siga sem pensar (desde 2004) Panfleto distribuído em locais de intensa circulação de pessoas.

arran da su

www.poro.redezero.org

eta u q i t e a e u q n a r ar da sua roupa

arran da su

www.poro.redezero.org

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Jardim (2003 e 2004) 1 - Fazer flores de papel celofane vermelho 2 - Plantá-las em canteiro abandonado da cidade

Interruptores para poste de luz (desde 2005) Impressão laser em papel sobre poste


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são francisco em preto e branco ensaio fotográfico de Luís Henrique do Carmo

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Na edição inaugural de Deriva:, você teve contato com uma narrativa gráfica orientada pela realização imagética do conceito de índice, aplicado ao espaço urbano. Elementos que indicam a presença/ausência ou mesmo relações de causalidade, como o trombone abandonado na cadeira em um parque da cidade ou mesmo as interferência e marcas causadas na fotografia do semáforo. Na próxima edição, convidamos você a enviar trabalhos diversos (fotografia, desenhos, gravuras, etc) para revistaderivabh@gmail.com. O próximo tema será

PROPORÇÕES


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Revista Deriva