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JUBILEU do Senhor Bom Jesus de Matosinhos

conceição do mato dentro minas gerais


iniciativa Paróquia Nossa Senhora da Conceição Pe. Eduardo Ribeiro C.Ss.R organização Dulce Azeredo Senra Ricardo Senra projeto editorial Fernando Rios Ricardo Senra preparação de texto e redação Fernando Rios edição Pe. Eduardo Ribeiro C.Ss.R Fernando Rios

autores Pe. Eduardo Ribeiro C.Ss.R Antonio Fernando Batista dos Santos Fabiano Lopes de Paula Fernando Rios Graziela Armelao Jácome João Caixeta Olinto Rodrigues dos Santos fotografias Almir Roman Lucia Fazzanaro Passarini Rosângela de Lourdes Veiga Domingues Geraldo Ribeiro de Miranda (p. 22 e 23) revisão Vicente Cardoso Júnior

ficha técnica | restauração projeto gráfico e diagramação AMI Comunicação & Design capa Ricardo Senra e AMI Comunicação & Design edição de fotografia Pe. Eduardo Ribeiro C.Ss.R Lucia Fazzanaro Passarini Ricardo Senra Rosângela de Lourdes Veiga Domingues consultores Pe. Eduardo Ribeiro C.Ss.R Olinto Rodrigues dos Santos

empresa responsável Cantaria Conservação e Restauração Ltda. coordenação técnica Dulce Azeredo Senra coordenação administrativa Ricardo Senra conservadores - restauradores Ângela Duarte Carvalho Geraldo Eustáquio Mendes de Araújo Lucia Fazzanaro Passarini Pedro Bui Rosângela de Lourdes Veiga Domingues Sandra Godoy

auxiliares técnicos de restauração Beatriz Cassimira de Assis Betânia Cassimira de Assis Denise Aparecida Machado Pereira Kirley Aparecida de Oliveira Ferreira Farias Naryan Machado Pereira Thomaz Oliveira Silva trabalhos complementares Irmã Joana Angélica de Mattos (Confecção do drapeado no Cetim do Sacrário) Tone Majó (Confecção das articulações em couro da imagem do Senhor Bom Jesus) consultores Pe. Eduardo Ribeiro C.Ss.R Restaurador Antonio Fernando Batista dos Santos Engenheiro Luiz Mauro Resende agradecimentos Equipe do Santuário do Senhor Bom Jesus de Matosinhos Construtora Minas Moderna Ltda. capa Imagem do Bom Jesus de Matosinhos Madeira entalhada e policromada Século XVIII, 180 cm de altura Santuário do Senhor Bom Jesus de Matosinhos em Conceição do Mato Dentro


“A alegria do Senhor é a vossa força” (Ne 8,10)


sumário 11

“Beleza sempre antiga, sempre nova”

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Uma tradição de religiosidade e alegria

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Um escravo encontra uma imagem do Cristo Crucificado

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Um espetáculo de tradição e fé entre a terra e o céu

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Os votos, ex-votos na renovação da fé

restauração

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Um culto que começou em Portugal, à beira mar

A Igreja Católica e a proteção do patrimônio sagrado

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Os espaços do Sagrado

A importância do patrimônio na história de uma região


“Beleza sempre antiga, sempre nova” pe. eduardo ribeiro c.ss.r

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uando entramos neste Santuário, a primeira imagem que atrai nosso olhar é a do Senhor crucificado. O Senhor Bom Jesus na cruz, em seu belo altar. “Beleza sempre antiga e sempre nova”. Santo Agostinho diz que Jesus, o Verbo Encarnado, é o caminho para se chegar à beleza. “Ele assumiu nossa vida, veio viver como nós, atraiu-nos à eterna beleza que é Deus.” O Senhor Bom Jesus nos revela a imagem bela e atraente de Deus. Deus próximo e parceiro de nossa vida, capaz de nos atrair e de nos encantar. É verdade que a beleza nos atrai! Tudo começou em 1734, quando um negro escravo, chamado Antônio Angola, encontrou a primitiva imagem de Jesus crucificado em um capão de

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mato, no topo desta colina. O escravo, admirado com tal achado, levou consigo a imagem de Jesus. Começou assim a mística história de fé e religiosidade. A antiga imagem continua aqui. Uma nova imagem veio de Portugal para representar o Cristo crucificado. Milhares de passantes e peregrinos acorrem a esta mesma colina para rezarem junto ao Senhor Bom Jesus. São mais de 200 anos de fé e devoção. O esplêndido altar principal do Santuário do Senhor Bom Jesus de Matosinhos nos aproxima de Jesus Cristo, de sua cruz e de sua paixão. Esse encontro é decisivo para nossa fé, pois, ao nos colocarmos diante do altar, somos tocados pela beleza de Cristo e sua cruz, sentimo-nos atraídos, desejamos segui-lo, fazemo-nos seus discípulos. Convidamos você para reviver, com seus próprios olhos, aquele olhar de espanto, admiração, fé e louvor de Antônio Angola, quando ele viu a imagem do Bom Jesus do alto desta colina pela primeira vez. E que você, ao contemplar a imagem do Cristo crucificado em seu novo altar, carregue essa bela lembrança para sempre em seu coração e a renove a cada dia em suas orações.

Padre Eduardo Ribeiro C.Ss.R é pároco na Paróquia de Nossa Senhora da Conceição e reitor do Santuário do Senhor Bom Jesus de Matosinhos em Conceição do Mato Dentro

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Todo o Santuário do Senhor Bom Jesus de Matosinhos tem a vocação de sensibilizar o fiel peregrino a deixar-se envolver pela beleza que Deus revela em seu Filho Jesus. É preciso olhar de maneira diferente, ter um novo olhar, para além, para perceber o mistério de Deus que se revela a todo momento em toda criação.


Ao nos colocarmos diante do altar, somos tocados pela beleza de Cristo e sua cruz.


Contemplar em detalhes a colina e o Santuário do Senhor Bom Jesus através das belas imagens é sentir-se enlevado, é deixar-se encantar pela mística da vida, para, por meio da religiosidade e da fé, “fazer de nossas vidas lugares da beleza”, como declarou o pontífice Bento XVI.


Assim nos diz o Papa Bento XVI: “O que é que pode voltar a dar entusiasmo e confiança, o que é que pode encorajar o ânimo humano a reencontrar o seu caminho, a erguer o olhar além do horizonte imediato, a sonhar uma vida digna da sua vocação, se não a beleza?” “O belo é a porta para Deus.”


Uma tradição de religiosidade e alegria

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história de Conceição do Mato Dentro, em Minas Gerais, começa nos primeiros anos do Século XVIII, com a busca desenfreada por ouro. Contudo, os primeiros bandeirantes e habitantes também tinham temor a Deus e forte sentimento religioso. Havia muito ouro. Mas havia religiosidade, fé e esperança. O ouro acabou. Porém, a religiosidade, a fé e a esperança aumentaram. Hoje, Conceição do Mato Dentro é um exemplo de religiosidade católica para todo o País. A história da cidade começa em 1701, quando Gabriel Ponce de Leon, que fazia parte de um grupo de bandeirantes, descobriu ricas lavras de ouro na região. Em 1702, Gabriel Ponce de Leon, num ato de devoção a Nossa Senhora da Conceição, ergueu uma pequena capela onde, mais tarde, seria construída a Igreja Matriz de Nossa Senhora da Conceição.

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O Santuário do Senhor Bom Jesus de Matosinhos, de outra época, abriga duas imagens do Cristo crucificado: uma descoberta pelo escravo Antônio Angola, em 1734, e outra vinda de Portugal, em 1773. Elas representam dois antigos objetos de devoção, no ponto principal das romarias que acontecem no Jubileu do Senhor Bom Jesus de Matosinhos, durante o mês de junho. A tradição do Jubileu aparece no Velho Testamento, registrada no Levítico (Lv 25,11; Lc 4,18 s) como um ano de ação de graças. Já naqueles tempos, acontecia o Ano Jubilar: havia redistribuição das terras, perdão das dívidas, libertação de escravos. Jubileu é tempo de perdão, de redenção. Essa antiga tradição faz parte da religiosidade desta região. Todo ano, dia 13 de junho, inicia-se, no Santuário do Senhor Bom Jesus de Matosinhos, em Conceição do Mato Dentro, o Santo Jubileu. São onze dias de louvor e fé, no alto da colina do Santuário do Senhor Bom Jesus, que abençoa a cidade e os devotos romeiros que chegam de outras cidades, estados e até mesmo de fora do Brasil.

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Calcula-se que mais de 40 mil romeiros se reúnem em Conceição do Mato Dentro para visitar o Santuário durante o Jubileu. Mais de 800 barracas são armadas na colina do Santuário. Existem romeiros que contam 30, 40, 50 e até 60 anos ininterruptos de peregrinação ao Santuário do Senhor Bom Jesus de Matosinhos para o Santo Jubileu.


Durante o Jubileu, Conceição do Mato Dentro se transforma para receber os milhares de romeiros. No último dia, a imagem do Bom Jesus sai em procissão, encerrando o evento, no qual acontecem cavalgadas, rodeios, shows e bailes. Há que se reverenciar a Deus, a Seu Filho Bom Jesus e ao Espírito Santo, com respeito, seriedade e devoção. Mas há ainda que se demonstrar que a alegria e a felicidade também são dons que devemos buscar e cultivar, e pelos quais devemos agradecer a Deus. E pedir que cada vez mais pessoas possam desfrutar deles. Conceição do Mato Dentro, anualmente, prova que isso é possível com o seu emocionante Jubileu do Senhor Bom Jesus de Matosinhos.


Um escravo encontra uma imagem do Cristo Crucificado

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erto dia de 1734, o negro escravo Antônio Angola, pertencente ao senhor Manuel Santiago, saiu à procura de lenha para os serviços da senzala. Muito mais do que lenha, Antônio Angola encontrou uma imagem de madeira de Jesus crucificado. O vigário Pe. Manuel de Amorim Coelho benzeu a imagem e a colocou na matriz. Um habitante da cidade, o português José Corrêa Porto, doente de “zamparina” – uma espécie de gripe muito forte que atacava o sistema nervoso e as articulações, comprometendo os movimentos de braços e pernas –, fez uma promessa: se ficasse curado, construiria, no alto do morro, uma capela para abrigar a imagem encontrada por Antônio Angola. José Corrêa Porto se curou e construiu a primitiva igreja. Dizem, foi o primeiro milagre do Senhor Bom Jesus na cidade.

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Certa vez, uma terrível seca tomou conta da região. Depois de muitos dias sem água, alguém se lembrou de fazer um pedido ao Senhor Bom Jesus e realizar uma procissão com a imagem. Na volta, quando subiam a Rua Direita, em direção à igreja, caiu uma forte chuva. Conta-se que ela durou 15 dias. O povo molhado rendia graças aos céus, agradecendo ao santo aquele segundo milagre. Em 16 de junho de 1743, o bispo do Rio de Janeiro, Dom Frei João da Cruz, em visita pastoral a Conceição do Mato Dentro, recomendou ao vigário da freguesia, Pe. Miguel de Carvalho Almeida Matos, que construísse uma capela nova para a milagrosa imagem. Em 1750, foi fundada a irmandade do Bom Jesus de Matosinhos, que decidiu, em 1759, construir uma nova igreja, com aproveitamento da primitiva capela, que passaria a servir de capela-mor. Em 1787, o papa Pio VI concedeu indulgência plenária a todos os devotos que participassem piedosamente do Jubileu do Senhor Bom Jesus de Matosinhos. A contar dessa data, são mais de 200 anos de celebração do Santo Jubileu.

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Em 1787, o papa Pio VI concedeu indulgĂŞncia plenĂĄria aos devotos que participassem piedosamente do Jubileu.


Entre 1931 e 1934, como a Igreja se encontrasse em péssimo estado de conservação, foi totalmente demolida e substituída por outro edifício. Conservaram-se apenas o altar principal e dois altares laterais restaurados recentemente. O atual santuário do Senhor Bom Jesus de Matosinhos substituiu um dos mais antigos monumentos religiosos locais.


A entronização da imagem do Bom Jesus vinda de Portugal no novo Santuário acontece em 12 de maio de 1934.


Detalhe da Imagem do Bom Jesus do Santuรกrio de Matosinhos em Portugal.


Um culto que começou em Portugal, à beira mar olinto santos “Pus-me a jogar as cartas Com o Senhor de Matosinhos Ele ganhou minha alma E eu ganhei os seus espinhos” (Quadra popular da região do Douro, Portugal)

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ma antiga lenda portuguesa conta que Nicodemos, o fariseu que ajudou José de Arimateia a retirar o corpo de Cristo da cruz, se retirou para lugar ermo e esculpiu três imagens de Cristo em madeira. Uma das três imagens teria sido embarcada em um navio sem tripulação, para que não fosse apreendida pelos romanos. O barco cruzou o mar Mediterrâneo, entrou no Atlântico e chegou à praia do Espinheiro, nas proximidades da cidade de Matosinhos, norte de Portugal, perto da cidade do Porto. Recolhida por pescadores, a imagem, à qual faltava um braço, foi considerada milagrosa. Os pescadores, ao fazerem uma fogueira para se aquecerem,

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notaram que um pedaço de madeira não pegava fogo. Foram verificar e constataram que se tratava do braço perdido da imagem. Ela, então, foi levada ao Convento de Bouças, na Freguesia de Matosinhos, onde permaneceu durante séculos, conhecida como Senhor de Bouças. O convento entrou em decadência, desmoronou, e a imagem milagrosa foi levada para uma nova matriz da Freguesia de Matosinhos, onde até hoje é venerada. Em 1733, no dia 4 de maio, após reforma e decoração da igreja, a imagem foi reentronizada com longa procissão. A festa durou três dias. Desde então, realizam-se festas na data da invenção da Santa Cruz (3 de maio) e no domingo de Pentecostes ou Espírito Santo, com milhares de fiéis, missa pontifical, procissão, barraquinhas de comidas, bebidas e outros produtos e grande queima de fogos. Na ocasião da descoberta do ouro das Minas Gerais, em fins do século XVII e início do século XVIII, grande parte da população do norte de Portugal migrou para as Minas, e com eles veio o culto ao Senhor de Matosinhos. A semelhança entre as duas imagens – Cristo crucificado de madeira, encontrado de modo misterioso – fez com que os habitantes estendessem à imagem brasileira o nome de Matosinhos.

Olinto Rodrigues dos Santos é pesquisador do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN)

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“Os romeiros vinham a pé, de cavalo com alforges, tinha caminhão pau-de-arara, tampado com plástico, lona, aquele friiiiiiio... muita poeira.” Dona Zuita, moradora da cidade


De frente para o mar, o Santuário Matriz de Matosinhos viu grandes levas de habitantes partirem das províncias do Minho e do Douro para tentar a sorte nas recém-descobertas minas de ouro do Brasil. Ele tornou-se o protetor dos marinheiros nas longas viagens cruzando o Atlântico, como atestam os ex-votos marítimos conservados na Casa de Milagres de Matosinhos.


Os espaços do Sagrado fabiano lopes de paula

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agrado é algo que sai da rotina. É um encontro com a fé e com a esperança, um crédito a suas possibilidades. A fé e a esperança são poderosas e mobilizadoras. Espaços sagrados são lugares, sítios naturais, construções, monumentos, catacumbas e outros locais para onde as pessoas acorrem em busca daquilo que é abençoado e transcendente. São ambientes onde se realizam ritos, onde fiéis manifestam a fé, fazem pedidos, buscam a cura e agradecem, tudo em contato com Deus, ou divindades, separados de um mundo profano. Em Minas Gerais, muitos são os caminhos da fé. Em Conceição do Mato Dentro, acontece, anualmente, o Jubileu do Bom Jesus de Matosinhos; em Caeté, ocorre uma das maiores festas religiosas do estado em homenagem a Nossa Senhora da Piedade; em Congonhas do Campo, existe a romaria à Igreja de Bom Jesus.

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Nesses lugares, os peregrinos devolvem, de modo concreto, seus agradecimentos pelas graças recebidas. São os ex-votos, expostos na sala dos milagres, como testemunho da graça recebida. Gratidão, promessas, sacrifícios, entrega, adoração: são muitos os sentimentos e as emoções daqueles que pedem e esperam por aquilo que os acompanha no mais íntimo da alma. A fé é ampliada pelas inúmeras celebrações de missas, confissões comunitárias ou individuais, que têm o poder de reconciliar o homem com Deus e com a vida. Essa reconciliação se dá também entre os participantes da festa: é um momento de encontros espirituais. Incontáveis velas são oferecidas e seu lume parece encaminhar aos céus os sonhos e agradecimentos dos corações aflitos, esperançosos ou felizes. O sagrado acontece como manifestação individual e coletiva, explicável apenas pela necessidade de um ser humano finito render homenagem a um ser superior e infinito. É isso que os peregrinos e sua fé concretizam no Jubileu do Senhor Bom Jesus de Matosinhos, em Conceição do Mato Dentro.

Fabiano Lopes de Paula é doutor em Quaternário, Materiais e Culturas; mestre em Arqueologia; pesquisador do Instituto Estadual do Patrimônio Histórico e Artístico de Minas Gerais (IEPHA-MG), e foi superintendente do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN)

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“Tomai e comei. Tomai e bebei.”


A graça se conquista pela penitência, pela oferenda de ações, pela visita a locais santos. É preciso abrir mão de alguma coisa para se conseguir o dom da graça, é preciso percorrer um caminho longo, é necessário ser penitente. O sofrimento e as privações depuram o espírito, lavam a alma, e isso é necessário para o recebimento de bênçãos e dádivas.


Muitas são as vias que conduzem à fé: sofrimentos, doenças, boas experiências, relatos exemplares de vida, desejos, amores. Os caminhos são vários e o valor na crença viva contribui para a ocorrência de milagres. Assim, o espaço sagrado torna-se encantado e se converte em uma fonte de energia.


Um espetáculo de tradição e fé entre a terra e o céu graziela armelao jácome

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spetáculo vem do Latim espetaculum, que significa cenas para o público ver. Mas que público? O público da Terra ou o público do Céu? Todos os anos, Conceição do Mato Dentro abre passagem para milhares de romeiros, gente simples de muita religiosidade e fé, que pede e agradece ao Jesus de Matosinhos as boas esperanças para a vida. E que transmite sua infinita fé de geração para geração. Aos poucos, essas pessoas de fé, com seus pés cansados, tocam a terra e miram o céu. Vêm de muitas cidades em direção ao Santuário do Bom Jesus, comprovando para si mesmas a “fé nossa de cada dia”. Fazem romarias sem fim para saudar o Nosso Senhor. Sobem a escadaria em direção ao “alto” porque acreditam na lei do retorno de quem faz o bem. E acreditam no sacrifício como louvor.

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Carregam crianças, ensinando-lhes a fé desde cedo! Enfrentam o frio, agasalhados sobretudo pelo calor do Senhor. Arrastam barracas, sacolas e sacos com simplicidade comovedora. Badalam bules de café, panelas, copos e pratos; acendem fogo de chão. Não há distâncias que os separem do inverno de junho. Não há frio em madrugadas e fogos de roqueiras que não os faça levantar mais cedo para prestar homenagens ao Senhor. Não há dificuldade que os impeça de ali chegarem: vêm de ônibus, carroças, cavalos, caronas, um sem fim de ir e vir em nome do Divino Bom Senhor. Acreditam no milagre: chegar até ali e subir as escadarias daquelas vias significa alcançar o mundo sagrado das bênçãos celestiais. E quanto maior a dor, maior o milagre. Por isso é preciso calar e observar, é preciso “jubilar”, como diz o povo daquele lugar. Descer a rua, subir ao céu, ouvir a missa, o choro e o riso de quem é fiel. Essas são as gentes romeiras que fazem da tradição do Bom Senhor uma festa de fé do Matosinhos do amor.

Graziela Armelao Jácome é doutoranda em Arqueologia, Cultura e Patrimônio pela Universidade de Córdoba, na Espanha, e pesquisadora em Antropologia e Patrimonio Material e Imaterial

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Se essa romaria era somente uma tradição, transmissão de cantos, pedidos de perdão, de jejuns silenciosos, de abraços a um irmão, hoje, com o passar do tempo, as criaturas de fé têm feito dessa tradição um verdadeiro espetaculum para o público. Mas para que público? O da Terra ou o do Céu? Diferença alguma isso faz. Quem reza, reza com fé, reza para si aos pés do Senhor. Quem reza ama a Deus, Pai do Senhor.


Quem paga promessa salda uma dívida pela graça que recebeu e também pede mais um pouco. Os que fazem assim são os que moram na Terra e sonham com o céu, com as alturas do Senhor. Quem escuta os pedidos é um poderoso Senhor Bom Jesus que, segundo dizem, mora no Céu, em um plano distante, bem distante de nossa dor. Mas que nos atende em momentos de tristeza ou alegria.


Os votos, ex-votos na renovação da fé joão caixeta

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ada um dos ex-votos traz a marca de um milagre. São órgãos, partes do corpo, garrafas de bebidas, vestes, utilitários, ferramentas de trabalho, muletas. Cada objeto conta uma história. Milhares de histórias. São milhares de objetos. Ao serem vistos, as histórias ganham o mundo pelos olhos dos peregrinos: diante dos ex-votos, os romeiros têm sua esperança e sua fé reforçadas pelas provas dos milagres. Cada objeto representa uma graça alcançada, trata de assunto com significado de ordem particular. Mais do que mostrar para o Senhor Bom Jesus, elas são feitas para que a glória seja admirada concretamente ali, naquele momento, para aumentar ainda mais a fé e a esperança. De feitura quase sempre artesanal, os objetos são constituídos de materiais diversos na representação do milagre alcançado. Por vezes, objetos

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industrializados e pessoais usados revelam que seus possuidores já não precisam mais deles. Em outros casos, o objeto mostra o próprio mal que foi afastado da vida do romeiro ou de seu parente ou amigo. É o caso, por exemplo, das garrafas de bebidas alcoólicas ou dos tabacos. Entre outros, os objetos de cera, um pouco mais comuns devido à tradição e à constante procura, participam de forma destacada do acervo. A criatividade é outro ponto a ser observado, uma vez que os objetos fazem parte da narrativa das histórias ali reveladas. Histórias muitas vezes de fundo dramático, mas que, vistas de certo ponto de vista, trazem também o conteúdo do humor, fatos curiosos e até mesmo inimagináveis. Por sua vez, os objetos contam um pouco a história da fé e da religiosidade de um povo. O respeito com seu contato deve vir antes mesmo da curiosidade em sua visitação. Sua representação se faz em uma exposição na qual a homenagem se configura. O voto de confiança daquele ao depositar sua história no salão dos ex-votos se dá por ser ali um lugar consagrado à devoção.

João Caixeta é doutorando em Quaternário, Materiais e Culturas pela Universidade Trás-os-Montes e Alto Douro em Portugal e professor da Escola de Design da Universidade do Estado de Minas Gerais

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Servindo de inspiração para aqueles que por ali passam, a esperança se torna possível para muitos que contemplam os objetos, uma fé que se concretiza na prova da realização do milagre.


Ao contar os milagres, os objetos revelam sentimentos e experiências vividas como símbolo de um povo que renova sua fé. O contato com os ex-votos se faz rico porque estimula a reflexão e a oração. E traz como resultado a confirmação da imensa fé popular no Senhor Bom Jesus.


restauração “A partir do momento que na restauração entram ou são envolvidos jogos de interesse e disputas de vaidades, já não é mais restauração. Para exercer a restauração basta o conhecimento técnico-artístico, o amor e o respeito. Amor e respeito pela obra, pela história e pelas pessoas.” Jair Inácio


A Igreja Católica e a proteção do patrimônio sagrado antônio fernando batista dos santos

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estado de Minas Gerais, durante o período do Brasil Colônia, produziu grande e significativo acervo histórico, cultural e artístico, símbolo e exemplo de genialidade, engenhosidade e criatividade. Muitos desses acervos foram reconhecidos como bens culturais de importância nacional e alguns listados como bens de importância mundial no catálogo da Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura (UNESCO). Um exemplo é a cidade de Ouro Preto. A Igreja Católica foi pioneira na produção, patrocínio e promoção de atividades artísticas em todo o mundo, sendo a responsável por obras de incaculável valor cultural. Os trabalhos de conservação e restauração realizados no Santuário do Senhor Bom Jesus e na Igreja Matriz de Nossa Senhora da Conceição, em Conceição do Mato Dentro, são um belo exemplo regional desses esforços.

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A preocupação da Igreja Católica com o destino dos seus acervos artísticos e religiosos é uma atividade antiga. No ano de 447, o Papa Leão I proíbe os bispos e clérigos de oferecer, mudar ou vender objetos preciosos das Igrejas sem consenso do clero. A questão do destino desses bens da igreja é abordada pela primeira vez em Minas Gerais em 1926, na Pastoral Coletiva dos Bispos Mineiros, alertando-se para a importância de se conservarem os documentos e objetos que registram a história, por mais singelos que sejam, possibilitando assim referências concretas do passado.   A necessidade dessas medidas para a conservação resultou na criação de órgãos de proteção do patrimônio cultural, o que ocorreu em 1937, com a fundação do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN), e em 1971, com a criação do Instituto Estadual do Patrimônio Histórico e Artístico de Minas Gerais (IEPHA). A Constituição Brasileira introduziu em seu conteúdo determinações visando à necessidade de colaboração da comunidade, usuária desses bens.

Antonio Fernando Batista dos Santos é doutor em Conservação do Patrimônio Cultural pela Universidade Politécnica de Valência, Espanha, e professor da Universidade FUMEC

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Detalhe do coroamento do altar-mor antes do processo de restauração.


A importância do patrimônio na história de uma região dulce azeredo senra ângela duarte carvalho lucia fazzanaro passarini rosângela de lourdes veiga domingues sandra godoy

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monumental Santuário do Bom Jesus de Matosinhos foi erguido no início do século XX sobre a antiga Igreja. Tem uma localização privilegiada: sua torre é vista de todos os ângulos da cidade de Conceição do Mato Dentro. A construção é uma das personagens principais do Jubileu de Conceição do Mato Dentro, um patrimônio cultural religioso que faz parte da cidade. Cada cidadão conceicionense deve assumir o compromisso de cuidar desse patrimônio para que seja sempre valorizado.

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No seu interior, acabaram de ser restaurados a imagem do Bom Jesus, três altares da antiga igreja e duas pinturas em tela que representam episódios da Paixão de Cristo: Jesus no Horto das Oliveiras e a Traição de Judas.

a restauração dos altares e da imagem do senhor bom jesus de matosinhos O trabalho dos profissionais responsáveis pelo cuidado com os bens patrimoniais exige dedicação, extrema atenção e muita paciência. Muitas vezes, uma imagem ou uma parede estão recobertas por várias camadas de tinta. Para se chegar à pintura original, é necessário um delicado trabalho de remoção, feito com instrumentos específicos e substâncias distintas, com sua recuperação trazendo novamente a beleza de seu estado original sem apagar os traços do tempo. Os trabalhos de restauração no Santuário do Senhor Bom Jesus de Matosinhos levaram um ano e dois meses para serem concluídos. Foram feitos por uma equipe de profissionais que cuidaram do altar-mor, das pinturas e dos altares laterais.

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Foram executadas as etapas: limpeza; remoção das repinturas; tratamento contra cupins; preenchimento das perdas da madeira original; complementação das partes faltantes; reconstituição das pinturas perdidas; e, por último, aplicação do verniz de proteção. Para a recuperação da pintura, a técnica utilizada foi o tracejado, que consiste na execução de linhas e traços finos, paralelos ou sobrepostos, para que o trabalho pareça contínuo e próximo do original. A aplicação do verniz ao término dos trabalhos tem a função de proteger e preservar as cores. O Sacrário, uma pequena caixa que guarda a hóstia consagrada, tem seu interior revestido de cetim com uma porta ornada com motivos simbólicos. Para os trabalhos de restauração do Sacrário, foram retirados seus dois tecidos internos. Um, com a pintura do sagrado coração, teve sua recuperação feita com fios de cetim. O outro tecido, drapeado, foi substituído. Estava bastante desgastado e com manchas escuras. O drapeado foi confeccionado novamente no novo tecido. Ao final, foram recolocadas no interior da caixa as pequenas folhas em metal dourado que o decoram. No Camarim onde está o trono e a imagem do Senhor Bom Jesus, foram feitas pequenas aberturas nas paredes para se descobrir o que havia por baixo da camada de tinta. Surgiram formas que pareciam olhos, bocas e asas. As aberturas foram ampliadas para que as imagens fossem melhor identificadas. Foram encontrados doze anjos querubins, nuvens, estrelas e um resplendor envolvendo toda a cruz

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do Senhor Bom Jesus. No teto, foi encontrado um céu com nuvens e estrelas e uma pomba com resplendor, representando o Espírito Santo. Foram também restauradas as duas telas laterais do altar-mor: Jesus no Horto das Oliveiras e A Traição de Judas. O processo de restauração consistiu na limpeza para eliminação de sujeira; na desmontagem do chassi, que foi substituído por outro em cedro; na remoção do verniz antigo; nas obturações dos orifícios e rasgos; e no reforço de borda. As pinturas foram recuperadas com tintas à base de pigmentos naturais e resina. A última etapa foi a aplicação do verniz de proteção, formando uma película fina na superfície da camada pictórica. A imagem do Senhor Bom Jesus de Matosinhos é em madeira, em tamanho natural, medindo um metro e oitenta.  Representa o Cristo crucificado seminu. Tem as mãos entreabertas, pregadas à cruz com cravos. Os pés estão sobrepostos e pregados na cruz por um único cravo. Apresenta chagas e escorridos de sangue ao longo do corpo e um corte no lado direito do peito. Sua veste é branca, atada à cintura por duas cordas. Segundo relatos, a imagem veio de Portugal no final do século XVIII e, por volta de 1805, recebeu uma nova pintura. Durante os trabalhos de restauração, ficou evidente que a imagem do Bom Jesus apresentava três camadas de pintura: a original, a realizada por volta de 1805 e a realizada possivelmente na época de construção do atual santuário, por volta de 1930.

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Detalhe do início do processo de restauração do fundo do camarim do altar-mor.


Após discussões entre todas as pessoas envolvidas, tanto da equipe de restauração quanto da Igreja e da comunidade, optou-se pela remoção da camada mais recente, feita nos anos 30. Com a remoção, foi possível verificar que a representação dos cortes da imagem tinha as bordas das chagas em alto relevo, feitas com tiras de couro, e as bordas menores, com cordões de barbante. Foi observado ainda que, no corte localizado na lateral direita do tórax da imagem, existiam pequenos cristais representando a água que escorreu junto ao sangue, em uma clara referência à passagem do evangelho de São João (19. 33-34), e não somente sangue, como havia sido feito na pintura sobreposta. Diz o Evangelho: “Mas vindo a Jesus, e vendo-o já morto, não lhe quebraram as pernas. Contudo um dos soldados lhe furou o lado com uma lança, e logo saiu sangue e água”. As articulações dos ombros apresentavam-se recobertas por tiras de couro bem ressecadas e rompidas, que foram substituídas. Foram confeccionadas peças de couro para cobrir os ombros e as axilas da imagem. As áreas que tiveram perdas nas camadas de pintura foram recuperadas com tintas à base de pigmentos naturais, aplicando-se, em seguida, um verniz de proteção.

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Jubileu