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PARAÍSOS FISCAIS NATURA NO EXTERIOR ORÇAMENTOS 2009 A CAMINHO DO AZUL RESERVAS EM XEQUE ENTRE A OCDE E A CRISE

BRASIL www.americaeconomia.com.br 15 DE DEZEMBRO, 2008

O MAL DE

DETROIT

CRISE DA INDÚSTRIA AUTOMOBILÍSTICA DOS EUA IMPACTA MÉXICO E BRASIL

Nº 370

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NESTA EDIÇÃO

Nº 370 / 15 DE DEZEMBRO, 2008

DEBATES 48 Orçamentos 2009 Os governos latino-americanos ainda não conseguem efetivar uma política fiscal contracíclica.

51 Palavra de Nobel Joseph Stiglitz e Edmund Phelps avaliam o desempenho brasileiro em política macroeconômica.

52 Uma escapadinha Em um cenário de crise mundial, os paraísos fiscais podem se converter nos grandes ganhadores.

54 Vento contra Os furacões acabaram com a última festa de aniversário da Revolução Cubana. E ainda há a crise mundial para piorar.

26

À espera do socorro O setor automobilístico do México e do Brasil sofrem com a agonia do trio dinâmico de Detroit: GM, Ford e Chrysler

56 América Central O istmo se transforma na nova terra das oportunidades, diz Abraham Lowenthal, em um balanço depois de 25 anos de sua última viagem à região.

59 Quinta coluna Para Susan Kaufman, o capitalismo deve ser uma opção mais atraente do que o populismo para os setores mais desprotegidos.

62 As grandes jogadas de

8 Índice 10 Memo 12 Cartas 14 Pistas 16 Editorial 18 Movimentos 36 Ferramentas 69 Capital Aberto 73 Negócio Fechado 74 Linha Direta

NEGÓCIOS 30 Modelo sustentável Brasileira Natura quer chegar ao azul nas operações internacionais. 4 AMÉRICAECONOMIA / 15 DE DEZEMBRO, 2008

O Wal-Mart do México soube cuidar-se na bonança e agora joga com vantagem frente aos concorrentes.

PMES GLOBAIS 35 Aposta na temporada Estender sua empresa às cidades de veraneio pode ser lucrativo, mas demanda um bom planejamento.

37 ESPECIAL Os principais temas que marcarão a agenda de 2009 e as projeções macro para os países latino-americanos.

2008

Conheça as maiores fusões e aquisições do ano, e a opinião de banqueiros de investimento sobre como será 2009.

68 Opinião A recessão não será profunda e os cenários pessimistas para a região já podem ser descartados, diz John Edmunds.

I-BIZ 70 Cômputo digital As empresas saem à busca de processadores e equipamentos de baixo consumo elétrico, mas alta capacidade de processamento.

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SEÇÕES

33 Bem-posicionado


americaeconomia.com / 2.0 O site de negócios globais da América Latina

OPORTUNIDADES PARA MINERAÇÃO

VIZINHOS PROBLEMÁTICOS Se já é preciso manter relações amigáveis com nossos vizinhos em momentos de vacas gordas, em situações de crise financeira, como a atual, é ainda mais essencial mantê-los próximos. Contudo, não é o que estão fazendo os países da América do Sul, que atualmente estão passando por tensões diplomáticas pelos temas mais variados. O Brasil, por exemplo, é centro de vários conflitos, como as ameaças de calotes do Equador junto ao BNDES, o dilema sobre o Tratado de Itaipu com o Paraguai, além de divergências com a Argentina sobre medidas protecionistas do Mercosul. Confira em nosso site como esses conflitos políticos afetam as relações comerciais entre os países.

Adiamento de projetos, encerramentos de trabalhos, demissões em massa. A mineração mundial não tem escapado do impacto da crise financeira global. No entanto, este é um momento que pode ser muito proveitoso para companhias que ainda contam cVom liquidez. O presidente da Antofagasta Minerals, Marcelo Awad, aponta que há no mercado ativos subvalorizados, abrindo espaço para novas fusões e aquisições, especialmente na produção de cobre. Mas, explicou, é preciso tomar decisões de investimento em um contexto de longo prazo, “visando um horizonte amplo, para os anos 2020 e 2050”. No entanto, reconheceu que restrições ao crédito são uma barreira.

AINDA NÃO RECEBE? LEIA O QUE ACONTECE NOS PRINCIPAIS SETORES DA ECONOMIA E DOS NEGÓCIOS REGIONAIS EM SEU E-MAIL. ASSINE. 6 AMÉRICAECONOMIA / 15 DE DEZEMBRO, 2008

INTEGRAÇÃO BENÉFICA? Em entrevista à AméricaEconomia, Lia Valls Pereira, economista do IBRE-FGV, disse que a integração dos países sul-americanos não avançou de forma mais profunda porque ainda não são consenso os benefícios efetivos do processo. Para a economista, os países relutam em avançar nas negociações que irão exigir certa perda de autonomia das políticas nacionais, mas destacou projetos como a Iniciativa para a Integração da Infra-Estrutura SulAmericana e a criação do Fundo para a Convergência Estrutural do Mercosul, porque saem do âmbito comercial. Segundo ela, a internacionalização das empresas brasileiras também é importante para aproximar os países.


Tesouro Direto Segurança e rentabilidade, esse é o nosso papel.

Para o Governo Federal, democratizar também é oferecer acesso aos títulos públicos para todos os brasileiros. Por isso, criou o Tesouro Direto, um programa de venda de títulos da dívida pública pela internet com a garantia do Tesouro Nacional. Uma excelente opção de investimento, a curto, médio ou longo prazo, também para você.

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Secretaria do Tesouro Nacional

Ministério da Fazenda


ÍNDICE DE EMPRESAS OS NÚMEROS REFEREM-SE À PRIMEIRA PÁGINA EM QUE AS EMPRESAS SÁO CITADAS. EXCLUI AS EMPRESAS QUE FIGURAM EM GRÁFICOS E RANKINGS

a-b Abertis .......................................64 Aços Villares .............................64 ACS ...........................................64 Actinver .....................................34 Advent International México ....62 AIG ...........................................64 Alog Data Centers .....................71 AMD .........................................71 Amnet Telecomunicaciones ......64 Anadarko Petroleum .................63 Anglo-American .......................63 Anima Estudios .........................20 Antofagasta Minerals ............6, 64 Apple .........................................69 Aracruz ................................24, 63 ArcelorMittal.............................63 ArcelorMittal Inox Brasil..........63 Autopista del Aconcagua ..........64 Autopista del Itata .....................64 AXA Group...............................64 Baker Tilly International ...........20 Banco Bradesco ..................64, 70 Banco de Venezuela ..................64 Banco do Brasil .........................63 Banco Fator ...............................31 Banco Itaú .................................63 Banco Nossa Caixa ...................63 Bancomext ................................64 BBVA ........................................64 BBVA Bancomer.......................33 Belleskin ...................................35 BM&F Bovespa ........................64 BNDES .....................................64 Bodega Aurrerá .........................34 Brasil Telecom ..........................63 c-d Caja Madrid ..............................64 Carrefour .............................31, 34 CCR Rodovias ..........................24 Cemex .......................................64 Cemex Venezuela ......................64 Cencosud .............................64, 69 Cepsa .........................................64 Chevron Texaco ........................64 Chocolates Kopenhagen ............35 Chrysler .....................................27 CHT Auditores e Consultores ...53 Codelco .....................................49 Colliers ABR.............................69

Colliers International ................69 Comerci .....................................33 Compaq .....................................69 Consultora ABECEB ................40 Copel .........................................24 Corporación Aceros DM ...........64 Cosan.........................................64 CSN ...........................................63 Cummins Filtración ..................29 Cummins Inc. ............................29 D-link ........................................71 Dell......................................45, 71 e-f EBX Group ...............................64 Ecopetrol ...................................64 Edelaysen ..................................64 Epson.........................................45 Esso Brasileira de Petróleo .......64 ExxonMobil ..............................64 Farmasa .....................................64 FCC ...........................................64 Fidelity Investments ..................42 First Reserve Corporation .........64 Ford ...........................................27 Fresnillo ....................................63 Frontel .......................................64 g-h Gartner ......................................71 General Motors .........................27 Gerdau .......................................64 Gigante ......................................33 Global Crossing ........................71 Global Insight............................29 Google .................................18, 71 Gran Tierra Energy ...................64 Grupo Bertin .............................64 Grupo Financiero Inbursa .........63 Grupo MMX .............................63 Grupo Peñoles ...........................63 Grupo Santander .......................64 Grupo Simec .............................64 Grupo Ultra ...............................64 Hewlett-Packard ........................69 Holcim Sement..........................64 Honda ........................................27 HP .............................................71 Hupecol .....................................64 Hypermarcas .............................64

i-j IBM ...........................................71 IDC............................................45 Industrias CH ............................64 Infupa ........................................62 Instituto Ethos ...........................24 Intel ...........................................70 Invin ..........................................64 Iochpe-Maxion ..........................24 IronX .........................................63 Itochu ........................................63 IXE Grupo Financiero...............29 JBS ............................................64 JFE Steel ...................................63 k-l Kobe Steel .................................63 Kroll ..........................................49 Kroll Infoamericas ....................39 La Exquisita ..............................37 Lehman Brothers.................48, 71 LLX Logística ...........................64 London Mining Brasil ...............64 Los Grobo .................................64 m-n Mamoré Mineração ...................64 Manpower .................................41 Marfrig ......................................64 Marubeni Corporation...............64 Massimo Randó ........................20 Maxxi ........................................34 Microsoft .............................69, 71 Millicom....................................64 Mineração Taboca S.A. .............64 Minsur .......................................64 Morgan y Morgan .....................53 Motorola....................................45 Mulata Brasil.............................35 Namisa ......................................63 National Beef Packing ..............64 Natura........................................30 NComputing..............................71 Nippon Steel..............................63 Nisshin Steel .............................63 o-p OGX Petróleo e Gás..................63 Oi...............................................63 Oliver Wyman Group ................53 OSI group ..................................64

Pactual Capital Partners ............64 Pão de Açúcar ...........................34 Patagonia Austral ......................22 PDVSA..........................47, 50, 64 Pemex ........................................50 Petrobras ...................................24 Posco .........................................63 PricewaterHouseCoopers ..........62 Procesadora Industrial SAN ......64 Propilco .....................................64 PSEG .........................................64 Pyramid Research .....................18 r-s Royal Vopak ..............................64 SAESA ......................................64 Seguros ING..............................64 Sementes Selecta.......................64 Sidenor ......................................64 Sidor ..........................................63 Sincor ........................................64 Smithfield Beef .........................64 Solana Petroleum ......................64 Soriana ......................................33 Soros Fund Management ..........64 Standard Chartered Bank ..........49 StatoilHydro ..............................63 Strabag SE.................................64 Sumitomo ..................................63 Sun ............................................71 Supermercados Wong ...............64 t-u Tax Justice Network ..................53 Techint.......................................64 Telemig Celular .........................64 Tendências Consultoria .............50 Todo Dia....................................34 Total ..........................................64 Toyota........................................27 Unibanco ...................................63 Unilever .....................................31 Usiminas ...................................64 v-w-y Vale ...........................................64 Vivo Participações .....................64 Votorantim Celulose..................63 Wal-Mart México ................33, 63 WEG .........................................24 Yahoo! .......................................69

AMÉRICAECONOMIA magazine (USPS #023106) is published biweekly on March, April, May, June, September, October and November, and monthly on January, February, July, August and December in Santiago, Chile by AméricaEconomía. AméricaEconomía is distributed in the United States by DL Distribution Group, 7301 Sw 100 Ct , Miami, FL. 33173-4651 PH: (305) 595-5505. Periodicals Postage paid at Miami, Florida. POSTMASTER: send address changes to DL DISTRIBUTION GROUP 7301 Miami, FL 33173-4651.

8 AMÉRICAECONOMIA / 15 DE DEZEMBRO, 2008


MEMO DEIXANDO MARCAS

DIRETOR Elías Selman C.

MIGUEL CANDIA

VICE-PRESIDENTE-EXECUTIVA Gloria Landabur

MUITA GENTE AINDA lembra o que estava fazendo naquele dia de 1963 quando assassinaram John F. Kennedy. Ou em 1986, quando o ônibus espacial Challenger explodiu. Os almanaques econômicos e financeiros destacam o dia 26 de outubro de 1987, fatídica SegundaFeira Negra, dia em que a média industrial Dow Jones perdeu cerca de 23% de seu valor em uma só jornada. Nos almanaques do futuro, 2008 também terá um lugar entre os anos mais lembrados, que evocam vividamente lembranças terríveis ou esperançosas. Se você trabalha no mundo financeiro, será que esquecerá o dia 15 de setembro, quando foi diRodrigo: vulgada a quebra do Lehman O editor-futurólogo Brothers? E para aqueles que se interessam mais pelos temas políticos, lembra o que estava fazendo em 4 de novembro, dia em que Barack Obama foi eleito primeiro presidente afro-americano dos Estados Unidos? Outros eventos também marcaram o ano, como a explosão da bolha das commodities (nem o mais criativo roteirista de Hollywood imaginaria o barril de petróleo flutuando de US$ 140 a menos de US$ 40 em um par de meses), as Olimpíadas de Beijing, a consolidação da popularidade de Lula, a violência dos grupos narcotraficantes no México e o surgimento do Peru como exemplo de crescimento na região (AméricaEconomia também lembrará 2008 como o ano em que inaugurou uma edição local da revista nesse país). Mas nem tudo é olhar para trás. Nosso futurólogo e editor adjunto Rodrigo Lara liderou uma equipe que elencou os temas que marcarão a pauta de 2009 na região, como o caldeirão fervente na Venezuela, o fim da era da Concertación (coalizão de esquerda que governa o Chile), e os problemas fiscais na região. Em uma nota à parte, esta edição também trata do cenário de um importante setor na região: o automotriz, em momentos em que as montadoras norte-americanas se encontram sob cuidados intensivos. E deixe-me dizer-lhes que, segundo nossa agenda, 2009 será um ano que também deixará sua marca em futuros almanaques.

DIRETOR EDITORIAL Felipe Aldunate M. EDITOR ADJUNTO Rodrigo Lara DIRETOR DE ARTE Álvaro Araya Urquiza EDITORES-EXECUTIVOS Solange Monteiro, Juan Pablo Rioseco EDITOR BRASIL Dubes Sônego ASSISTENTE DE EDIÇÃO Sérgio Spagnuolo ESCRITÓRIO EDITORIAL BRASIL (55 11) 2589-3157 / 3160 EDITOR MÉXICO Marisol Rueda EDITOR MIAMI Antonio María Delgado EDITOR FINANÇAS Eduardo Thomson EDITOR DE FOTOGRAFIA Miguel Candia REPÓRTERES Arly Faundes (México) CORRESPONDENTES•ARGENTINA Juan Pablo Dalmasso •COLÔMBIA Lucía Valdés •MÉXICO Carolina Solís •PERU Cecilia Niezen•URUGUAI Guillermo Pellegrino •VENEZUELA Dorothy Kronick •AMÉRICA CENTRAL Vernic Gudiel •MIAMI Carlos Molina •WASHINGTON Antonieta Cádiz COLUNISTAS•Susan Kaufman Purcell•Félix Peña •Abraham Lowenthal •John Edmunds •Javier Santiso DIAGRAMAÇÃO Riffka Schiro-kauer J., Sebastián Caro P.

•ILUSTRADORES Daniela Guglielmetti, Rodrigo Díaz Carrizo REVISORA Adriana Casarotti

AMÉRICAECONOMIA INTELLIGENCE (Estudos e Projetos Especiais) •DIRETOR Rodrigo Díaz •COORDENADOR-GERAL Jaime Contreras •ANALISTA SÊNIOR Pablo Hernández •ANALISTA Daniela González AMÉRICAECONOMIA.COM •EDITOR Franco Piccato REPÓRTERES Marcelo García, • Magdalena Álvarez, Pablo Jamett• GERENTE DE PRODUÇÃO Constanza del Río Moreno DIRETOR DE MARKETING Marcelo Silva DIRETOR DE CIRCULAÇÃO Marcial Delcorto • GERENTE DE INFORMÁTICA E LOGÍSTICA Óscar Sánchez • BRASIL•HV2 Comercialização de Mídia •DIRETOR-GERAL Hélcio Vieira •GERENTE DE PUBLICIDADE Oscar da Silva Alves •GERENTES DE NEGÓCIOS Rosangela Bomtempo, Nícolas Cardoso Slamek •GERENTE DE MARKETING Denise Terranova Rua Cel. Arthur de Paula Ferreira, 59 - cj 111São Paulo - SP - Brasil CEP 04511-060 Tel.: 5511-3846-5588 ESCRITÓRIOS COMERCIAIS • EUA Tel: 305/648-9071 •MÉXICO Tel: 5255/5254-2400 Fax: 5254-7510 • ARGENTINA Claudia Dasso Tel: 5411/4383-8410 - 4383-8416 •CHILE Tel: 562/290-9400 Fax: 341-5687 • AMÉRICA CENTRAL Julio Lemus Tel-Fax: 502/2261-0278 • PANAMÁ Yadyra de Paz y Miño Tel: 507/271-5327 - 507/66787564 • PERU Ana Pazos Pastor Tel-Fax: 511-4211852 - Cels: 511-97897272 / 511-97622230 REPRESENTANTES INTERNACIONAIS • ALEMANHA Gerd Bielenberg (GWP International Media Service) Tel: 49211/887-2328 Fax: 887-2919 • ESCANDINÁVIA Finn Greve Isdahl (International Media Sales A/S) Tel: 4755/92-5192 Fax: 92-5190 • ESPANHA Luis Andrade (Luis Andrade Publicidad Internacional) Tel: 3491/441-6266 Fax: 441-6549 • FRANÇA Patricia Goupy (PEM Groupe PEMA) Tel: 331/4143-7057 Fax: 4738-6329 • ITÁLIA Carlo E. Calcagno (Studio Calcagno s.r.l.) Tel: 3902/670-73383 • REINO UNIDO David Todd (David Todd Associates Ltd.) Tel: 4420/7538-5811 Fax: 7538-4911 • SUÍÇA Hans Otto (Infoplus AG) Tel: 411/269-7070 REDAÇÕES • SANTIAGO: Tel 562/290-9400 • CIDADE DO MÉXICO: Tel 5255/5254-2400 • BUENOS AIRES: Tel 5411/4383-8410 • MIAMI: Tel 305/648-9071 AméricaEconomia é uma publicação quinzenal da Nanbei Ltd. •Impressa na Plural Editora e Gráfica . México, franquia paga. Publicação periódica•Registro PP09-0011 PRESIDENTE Nils Strandberg CHAIRMAN Robert R. Paradise

Felipe Aldunate M. Diretor Editorial

10 AMÉRICAECONOMIA / 15 DE DEZEMBRO, 2008

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CARTAS dos problemas que o México enfrenta.

ESPECIAL

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Discípulos de José Um painel de 140 economistas da América Latina avalia o desempenho dos gestores de finanças públicas da região e quão preparados estão para enfrentar estes tempos turbulentos AméricaEconomia Intelligence

Q

uando José interpretou o sonho do Faraó, como relata o livro do Gênesis na Bíblia, com certeza nunca imaginou que dava uma das maiores lições de finanças públicas de todos os tempos. É uma tarefa que alguns dos ministros de Finanças da região vêm repetindo, como um verdadeiro mantra: “guardar recursos para épocas de vacas magras”. E essa época chegou. No momento em que os mercados acionários mundiais sofrem uma volatilidade extrema, os países desenvolvidos encaminham-se a uma recessão e o crédito se restringe, a capacidade de administrar as finanças públicas de forma adequada será essencial para reduzir o impacto da crise em nossas economias. Quem são os mais bem-preparados? Para dar essa resposta, formamos um painel com 140 economistas da região que responderam, através de e-mail, um questionário sobre a gestão pública das finanças. Os resultados estão refletidos neste segundo ranking Melhores Ministros de Finanças, fruto da percepção dos especialistas sobre o desempenho desses gestores. Desta vez, quem leva o primeiro lugar é o ministro da Fazenda do Chile, Andrés Velasco. De acordo com os especialistas participantes, Velasco é, de longe, quem conta com as melhores ferramentas para empreender uma política anticíclica nesses tempos de crise, que no país se reflete na queda do preço do cobre, principal produto de exportação do Chile, de US$ 3,2 a US$ 1,8 a libra. Tal fato não afetou o humor do ministro. O país conta com dois fundos de reserva que – em 30 de junho – somavam US$ 21,22 bilhões (12,6 do PIB). Pela primeira vez o Chile terá um orçamento expansivo em época de recessão. E apesar de a idéia do superávit estrutural ser atribuída à equipe financeira do governo anterior, Velasco tem levado esse princípio com o mesmo rigor que José no Egito. O segundo lugar é do mexicano Agustín Carstens, um dos principais promotores da reforma tributária e energética que o Estado mexicano finalmente conseguiu levar adiante. O terceiro lugar do ranking é de Luis Valdivieso, do Peru, que,

7,8

apesar de estar a poucos meses no cargo, já conseguiu transmitir confiança ao mercado de que o país continuará avançando em uma administração cuidadosa da macroeconomia e impulsionando reformas. Já o quarto lugar ficou com Guido Mantega, do Brasil, que apesar de não demonstrar a mesma liderança identificada em seu antecessor, Antonio Palocci, transmitiu a confiança necessária para levar o País ao grau de investimento conquistado este ano.

Avaliação ministerial Notas de desempenho ;DCI:/E6>C:A9::HE:8>6A>HI6H!6BwG>86:8DCDB>6>CI:AA><:C8: h^\aVhgZ[ZgZb"hZ|ZmiZchdjhVYVeVgV^YZci^ÄXVgdeV†hcV^ciZgcZi

10 9 8

7,8 7,4 7,0

7

6,7 6,7 6,1 6,1 5,9 5,9 5,9

6

5,1 4,9

5 3,8

4

3,5 3,4

3,2

2,8 2,8

3 2 1 .cl .mx .pe .br .co .gt .uy .cr .pa .sv .do .py .hn .ni .bo .ec .ve .ar

Os especialistas convidados a formar o painel tiveram que avaliar a gestão dos ministros com notas entre 1 e 10, em cinco aspectos: estabilidade macroeconômica, impulso a reformas prócompetitividade (crescimento), liderança da equipe econômica e envio de sinais de confiança à cidadania, aos empresários e aos investidores. Este último ponto é extremamente relevante em

Andrés Velasco,

Agustín Carstens,

ministro da Fazenda, Chile

secretário da Fazenda e Crédito Público, México

O país conta com a melhor política fiscal anticíclica da região, com reservas de mais de US$ 21 bilhões.

7,4

É valorizado por impulsionar a reforma tributária e a energética que modernizará a Pemex.

22 AMÉRICAECONOMIA / 17 DE NOVEMBRO, 2008

Ranking de Ministros I

Sou hondurenha e sempre leio a sua revista. Entretanto, me parece um erro que sua publicação tenha considerado a nossa ministra de Finanças, Rebeca Santos, como uma das piores da América Latina. Dizer que Rebeca não está preparada para o período de crise que atravessamos é desconhecer a história hondurenha e os avanços que temos alcançado nos últimos tempos. María Rendón Tegucigalpa, Honduras

Ranking de Ministros II

Andrés Velasco o melhor ministro de Finanças da América Latina? Isso é fácil. Dado o esquema institucional que a economia chilena possui e o nível de consenso alcançado pelos atores políticos no país é fácil ser um bom ministro de Finanças Públicas. O difícil é sê-lo em um ambiente com condições complicadas. Por isso, o melhor ministro de finanças da região deveria ser Agustín Cartens, do México, quem tem conseguido dar uma nova cara ao Ministério, apesar

Com só

um clique, novos serviços da

AméricaEconomia 12 AMÉRICAECONOMIA / 15 DE DEZEMBRO, 2008

Francisco Morales G. Monterrey, México

Ranking de Ministros III

Surpreendeu-me muito o ranking de Ministros de Finanças da América Latina. Os resultados são discutíveis, mas com certeza são um excelente alimento para o debate intelectual sobre as economias latino-americanas. Chamou-me muito a atenção que tenham incluído o Ministro do meu país, a Argentina. Mais além do que diga seu título, Carlos Fernández não é o Ministro de Economia e Finanças Públicas da Argentina. Quem está a cargo dessa pasta é Cristina Fernández de Kirchner. É ela quem toma realmente as decisões. No próximo ano a incluam no ranking e não o Fernández, que só está preenchendo espaço. José Luis González Buenos Aires, Argentina

Na alegria e na tristeza

Quero parabenizá-los por sua publicação que tem me servido de guia durante este ano nas minhas reflexões empresariais e como ferramenta em minhas decisões. Conheci sua publicação graças a um amigo no começo do ano, que me presen-

teou uma assinatura. E desde então, se transformou em um bom companheiro para estes tempos de incerteza. Portanto, lhes desejo um próspero 2009, tanto para a sua edição impressa como à on-line. Adolfo Narváez Bogotá, Colômbia

Focos nas oportunidades

Todos dizem: as crises dão oportunidades, mas não as vemos nas páginas das revistas de negócios onde estão apostando os que realmente as estão buscando. Creio que há muitas queixas e lamentos e bem poucas páginas dedicadas às oportunidades que se abrem. Convido-os a fazer a diferença e a nos contar quais serão as histórias de negócios que se destacarão durante 2009. Ramiro Giordano La Paz, Bolívia

Do Peru

Leio sua revista há anos e estou bastante surpreso pelo interessante resultado a sua edição local no Peru. A AméricaEconomia Peru se tornou um referencial da imprensa de negócios deste país e combina de maneira perfeita a inteligência regional com o conhecimento local. Felicito-os por seu projeto e lhes desejo o melhor. Jorge E. Rey Lima, Peru

atencionclientes@americaeconomia.com suscribase@americaeconomia.com cartas@americaeconomia.com


SEGUINDO A PISTA LET ME TRY AGAIN PUBLICAMOS: A derrota no referendo constitucional - apesar de grande parte da receita recorde que a petrolífera estatal Pdvsa tem registrado ser destinada a programas sociais, e que indica que o apoio das Forças Armadas Nacionais não é incondicional -, relativiza os sonhos de Chávez de governar até 2050. E, de quebra, obrigará uma mudança de estilo para 2008, que vem como novas eleições no país. (“Os limites de Chávez”, AméricaEconomia Nº 352, 10 de dezembro, 2007) O NOVO: No começo de dezembro, o presidente venezuelano pediu a seus partidários que preparem até fevereiro uma emenda constitucional que permita sua reeleição indefinidamente. Chávez, entretanto, não definiu quando se realizaria o referendo necessário para sua aprovação. O último referendo rechaçado em 2007 incluía entre os itens de reforma da Constituição a ampliação das competências do Poder Executivo. Dessa vez, Chávez afirmou que a única mudança em jogo nessa nova emenda constitucional seria a reeleição, argumentando que a amplitude da proposta feita em 2007 fez com que a população “não a entendesse bem”.

RECEITA DE UM MILIONÁRIO PUBLICAMOS: Com um contrato de US$ 1,5 bilhão e participação de 25% no projeto do metrô da capital mexicana, a companhia Carso, de Carlos Slim, avança na tática criada pelo empresário de focar-se em setores com alto potencial de crescimento. (“Em construção”, AméricaEconomia Nº 362, 11 de agosto, 2008) O NOVO: A turbulência dos mercados fez com que o mexicano começasse a exercer outra das estratégias que o tornaram milionário: comprar participações em companhias com problemas financeiros. Entre suas principais cartadas recentes estão aumentar sua participação na loja de produtos de luxo Saks a 18%, tornando-se o maior investidor da companhia, e a compra de US$ 150 milhões em ações do Citigroup, através de seu grupo financeiro Inbursa.

DEVO, NÃO NEGO? PUBLICAMOS: A campanha eleitoral trouxe à baila uma discussão que deve deixar brasileiros e argentinos de cabelo em pé: os contratos de energia das usinas binacionais Itaipu e Yaciretá. O tema foi proposto pelo bispo Lugo. (“O bispo e o general”, AmericaEconomia Nº 351, 26 de novembro, 2007)

O NOVO: Itaipu não sai da cabeça do presidente Lugo. Depois de o Equador questionar a legalidade de parte de sua dívida externa, agora o Paraguai anunciou a criação de uma comissão para o mesmo propósito. Recentemente, Lugo declarou que incluirá nesse estudo a dívida relacionada à construção da Itaipu binacional – cujos US$ 19 bilhões restantes deveriam ser saldados até 2023, e cujo credor é a Eletrobras.

14 AMÉRICAECONOMÍA / 15 DE DEZEMBRO, 2008

MOVIDA A ÁLCOOL PUBLICAMOS: José Sergio Gabrielli não quer ser apenas o principal distribuidor e comercializador de etanol. Também quer produzi-lo. “Estamos discutindo como integrar o processo de produção”, disse. (“A nova cor da Petrobras”, AméricaEconomia Nº 338, 2 de abril, 2007) O NOVO: A Petrobras anunciou que fechará 2008 com exportações de etanol de 605 milhões de litros, 400% a mais do que em 2007. A maioria (500 milhões) teve como destino os EUA. A estatal também divulgou que estuda a possibilidade de formar parceria com investidores estrangeiros para comprar participações em usinas. Segundo Alan Kardec, presidente da Petrobras Biocombustíveis, estuda-se a aquisição não só de novos projetos como de companhias já consolidadas.


MÉXICO AO EXTREMO “

A discussão em Coahuila não é a pena de morte, mas como vamos matar. Se vamos fuzilar, degolar, se vamos enforcar ou fazer algo ‘light’, que pode ser uma injeção letal. Mas você acha que um desgraçado que faz isso merece alguma consideração?” Esta declaração não é de um cidadão mexicano atemorizado pelos mil seqüestros registrados em 2008 no país (o dobro de 2006), mas do governador do estado de Coahuila, que conseguiu que a Câmara estadual aprovasse a reintrodução da pena de morte no caso de seqüestros seguidos de assassinato. As palavras de Humberto Moreira – homem do PRI, que não teve o apoio do PAN nem do PRD para eleger-se –, ainda que não tenha efeitos práticos para evitar os seqüestros, mostra que a sociedade mexicana começa a aceitar medidas extremas como um caminho a se tentar, tendo em vista a impotência do aparelho estatal de segurança para ao menos inibir esses delitos. E que o presidente Calderón, além de bradar sua guerra aberta aos narcos, têm de dedicar mais esforços – juntamente com os governadores – para reinventar ao menos algumas unidades-chave das polícias do México, para que estas possam escapar da cultura de cumplicidade com o delito já instalada.

BRASIL: PAZ DOMÉSTICA, PROBLEMAS NA VIZINHANÇA Onde, ao contrário, uma nova cultura– também negativa – começa a eclodir é na relação entre o Brasil e vários de seus vizinhos. Os cada vez mais regulares conflitos entre o Planalto e Paraguai, Bolívia e Equador por temas creditícios, energéticos e de investimentos parecem mostrar que – além de casos pitorescos ou interesses políticos de curto prazo – a disparidade de riqueza e poder entre o Brasil e esses países começa a gerar ressentimento. Às vezes, fundamentado nos efeitos provocados pelas mudanças geradas com os investimentos. No Paraguai, o cultivo massivo de soja por parte dos “brasiguaios” no leste do país levou à migração de quase 100 mil camponeses a outras regiões e cidades. As autoridades brasileiras têm sido cautelosas, mas nada indica que manterão esse tom se o ato de culpar o governo ou as

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empresas brasileiras se converter em costume. Ajudaria a evitá-lo se empresas e governos chegassem a um consenso sobre um mecanismo de mediação para o trabalho em áreas estratégicas como a energética ou em áreas fronteiriças, o que ainda facilitaria o desenvolvimento da necessária integração empresarial regional. Não obstante, em tempos duros, também há boas notícias chegando do Brasil: a popularidade do presidente Lula, que não pára de subir. Uma pesquisa do Datafolha realizada em novembro, em meio à crise econômica mundial, mostrou que 70% dos brasileiros consideram seu governo bom ou excelente. É impossível negar que o presidente brasileiro possui uma virtude tão sutil quanto poderosa: conseguir convencer a população de que o manejo dos assuntos públicos de um país tão complexo quanto o Brasil é mais simples do que realmente é. Seu estilo resulta modesto, até em seus arroubos de mau humor com a seleção de futebol. Tal resistência ao melodrama ou à tendência a uma paranóia de culpar pode ser considerada uma notável virtude cívica, e escassa, em uma região onde se alternam presidentes de uma extroversão digna de afãs artísticos com outros que acreditam servir à majestade do cargo com um afastamento e incapacidade de comover e comover-se que se mostram incapazes de inspirar seus cidadãos. Também deve-se elogiar a reação pública do mandatário brasileiro frente aos primeiros sinais da crise financeira. Sua popularidade resulta tão efetiva que 78% dos entrevistados indicaram que confiavam que sua vida melhoraria em 2009. Apenas 3% responderam que sua situação econômica se veria afetada negativamente. E surpreendentes 27% confessaram não saber que havia uma crise em curso. É certo que parte dessas avaliações se vinculam ao rastro de otimismo geral existente no Brasil antes da explosão da crise. Cabe então a pergunta: se a região lutou para melhorar em tantos campos, por que deixará que lhe arrebatem tão rapidamente toda a boa expectativa pelos efeitos de uma crise pela qual não é responsável? Talvez não fosse ruim que os países latino-americanos importassem um pouco da confiança e alegria brasileiras. Q

AFP

EDITORIAL


MOVIMENTOS

A crise não navega O ACESSO À Internet cresce a passos largos na América Latina. Nos próximos cinco anos, o número de internautas crescerá mais que o dobro superando os 270 milhões na região. Desse total, 60%, ou 160 milhões, navegarão na web de suas casas, segundo prognósticos do último estudo da empresa Pyramid Research. O relatório, realizado a pedido do Google, conclui que os negócios vinculados à rede apenas começaram. O mercado da publicidade on-line se triplicará, chegando a US$ 31 bilhões em 2013, enquanto o e-commerce, que atualmente movimenta US$ 13 bilhões, registrará um crescimento composto de 33% anuais no mesmo período. E, ao invés de ser afetado negativamente, o auge da internet se beneficiaria com a retração econômica global, diz Alexandre Hohagen, diretor geral do Google Latinoamérica. “À medida que a crise se tornar mais aguda, os consumidores recorrerão mais à web em busca de melhores preços e oportunidades. Ter menos dinheiro obriga a pensar para investir melhor. Aí radica a possibilidade de transformar uma crise em oportunidade para milhares de empresas grandes, médias e pequenas”, garante. MARISOL RUEDA / CIDADE DO MÉXICO

LATINSTOCK

INTERNET: 270 MILHÕES DE USUÁRIOS DAQUI A CINCO ANOS

18 AMÉRICAECONOMIA / 15 DE DEZEMBRO, 2008


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MOVIMENTOS Rio revolto

LEZAETA: MAIS ALTURA.

TRISTEZA DE UNS, ALEGRIA de outros. E quem não pode reclamar da crise é a rede internacional de auditores Baker Tilly International, que agrupa consultores independentes em todo o mundo, e que recentemente reuniu seus delegados latino-americanos em Santiago do Chile para discutir estratégias e novos padrões, como as normas IFRS. “Em tempos de crise, o valor de um bom serviço de auditoria aumenta, já que os investidores e reguladores ficam mais atentos”, comenta Jim Castellano, presidente do Conselho da Baker Tilly International. “Não estamos totalmente à prova de recessões, mas 2007 foi particularmente bom para o setor”. A Baker Tilly International, oitava maior empresa desse setor em todo o mundo, registrou um aumento de 18% em sua receita global, para pouco menos de US$ 3 bilhões. E a empresa está buscando crescer na América Latina. “Temos sócios locais em todos os países da América do Sul, salvo Costa Rica e El Salvador, onde também estamos buscando parceiros. E nos interessa o mercado cubano, onde vemos muito potencial”, comentou. EDUARDO THOMSON / SANTIAGO

A importância de crescer CLAUDIA LEZAETA está confiante em sua incursão no mercado chileno. A empresária, que deve o crescimento de sua empresa à baixa estatura de seus clientes, espera faturar US$ 200 mil em 2009 no país com a venda de sapatos adaptados para proporcionar ao usuário alguns centímetros de altura adicionais. Claudia aterrissa em Santiago depois de colecionar um fracasso no México, quando trabalhava com a franquia do designer Max Denegri, segundo ela, devido à falta de disciplina do autor. Por isso, decidiu fabricar sua própria linha para manter a franquia, mas agora com sua própria marca: Massimo Randó. Atualmente com vendas anuais de US$ 500 mil em duas lojas no México e através do site, Claudia tampouco quer parar no Chile. “O plano é cobrir de forma mais eficiente possível toda a América Latina e algumas regiões dos Estados Unidos que tenham presença latina.” Depois do Chile, a rota da empresária será Colômbia, Guatemala, Costa Rica, Argentina, o restante do México, Texas e Miami”, afirma. MARÍA SOLEDAD GÓMEZ / SANTIAGO

ISSO, ISSO: CHÁVEZ JÁ CHEGOU AOS EUA

Negócio animado IMORTALIZAR O PERSONAGEM Chávez em uma série de desenhos animados foi o golpe de mestre da produtora mexicana Anima Estudios. A série, criada há apenas dois anos, já é vista em praticamente toda a América Latina e sua estréia nos EUA foi bem recebida. José Carlos García de Letona, vice-presidente executivo de produção e desenvolvimento da Anima, afirma que em janeiro lançará no México o terceiro filme do personagem. “O ‘Agente 00-P2’ é muito mais ambicioso que os dois filmes anteriores, com orçamento que ronda os US$ 2,5 milhões”, conta García de Letona. As duas primeiras produções, ‘Magos y Gigantes’ e ‘Imaginum’, contaram com orçamento de US$ 1 milhão e US$ 1,6 milhão, respectivamente, e até o momento registram lucro de entre 25% e 30%. O montante do investimento nesses projetos está longe dos US$ 90 milhões de uma produção norte-americana semelhante, mas não deixa de ser motivo de comemoração para a produtora. “Com esse orçamento e a desvalorização do dólar, podemos fazer produtos ainda mais competitivos para este mercado”, diz García de Letona. MARISOL RUEDA / CIDADE DO MÉXICO

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MOVIMENTOS vai

vem

Promoção integrada TROCAR INFORMAÇÕES entre empresas do mesmo setor em mercados diferentes pode ampliar as perspectivas de crescimento em mercados locais. Com isso em mente, as associações de marketing promocional do Brasil, México, Argentina, Chile e Uruguai acabam de criar a Federação Iberoamericana de Marketing Promocional (Fimapro). Segundo Guilherme de Almeida Prado, vice-presidente da Fimapro, a reunião facilitará o intercâmbio de MARKETING experiências em questões como PROMOCIONAL: modelos de remuneração, certifiCONTRA A CRISE cação de campanhas, registro de idéias em concorrências e direitos autorais. Existe ainda a possibilidade de elaboração de panoramas de mercado, como o já realizado com base no PIB dos países integrantes. O Brasil encabeça a lista, com faturamento estimado de R$ 23 bilhões em 2007, seguido pelo México, com R$ 19,9 bilhões. Argentina, Chile e Uruguai aparecem com R$ 10,5 bilhões, R$ 3 bilhões e R$ 700 milhões, respectivamente. Em meio à crise, boas práticas podem ser fundamentais. “A atividade de marketing promocional é anticíclica. Mas este não será um período fácil”, diz Prado. DUBES SÔNEGO / SÃO PAULO

Manjar do sul O CHILENO JORGE LUKSIC é mais conhecido pela centolla (tipo de caranguejo), principal exportação de sua empresa, a Patagonia Austral. Mas agora o empresário e chef tem outro desafio: produzir presunto de javali alimentado com bellota (fruto do roble, parecido com uma noz). “A bellota dá um sabor especial à carne e uma gordura que derrete a baixas temperaturas”, afirma. Com apoio financeiro da instituição de fomento LUKSIC: local (Corfo), o empresário conseguiu sisteTRADIÇÃO E BOA MESA matizar todo o processo de produção. “Hoje há um boom turístico de pessoas ávidas a conhecer coisas diferentes, e temos uma tradição a resgatar, que chegou com a imigração Croata, há 110 anos”, afirma. “Temos condições climáticas – de temperatura e umidade – naturais para produzi-lo, e podemos transformar nossa região na zona do presunto do Chile.” Ainda que consiga aumentar a produção de presunto de javali, este continuará sendo um manjar para poucos. Segundo Luksic, uma perna de 6 kg custa cerca de US$ 450 mais IVA. A quem tem cacife para apreciá-lo, o chef sugere a companhia de uma boa baguete e um vinho Sirah. SOLANGE MONTEIRO / SANTIAGO

22 AMÉRICAECONOMIA / 15 DE DEZEMBRO, 2008

&

MARCELO MEDEIROS

Como parte de sua expansão na América do Sul, a empresa chinesa de PCs Lenovo nomeou Marcelo Medeiros presidente dos nove países nos quais opera no continente. Tomas Oliveira, que ocupava um posto nos Estados Unidos, ficará no lugar deixado por Medeiros, como presidente da Lenovo Brasil. Pouco menos de dois anos depois de assumir a presidência da cervejaria Schincariol, o executivo Fernando Terni deixa a companhia. Ele será substituído por seu antecessor, Adriano Schincariol, principal acionista da empresa. Especula-se que sua saída esteja relacionada ao fato de Terni não ter conseguido cumprir metas de aumento de participação de mercado. A estatal brasileira Petrobras anunciou que Daniel Teixeira Machado será o novo gerente encarregado da expansão da Refinaria de Paulínia (Replan). O engenheiro substitui Raymundo Cerqueira, que estará a cargo da refinaria da empresa em Pasadena, Estados Unidos. A Orange Business Services nomeou Javier Semerene como vicepresidente de vendas para América Latina. Sua experiência de mais de 20 anos em telecomunicações o respalda para liderar o crescimento da empresa na região. O chileno Laurence Golborne renunciou ao posto de gerente geral corporativo do grupo chileno Cencosud por desavenças com o Conselho, que por sua vez nomeou Manfred Paulmann, filho do patriarca Horst Paulmann, como vice-presidente.


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MOVIMENTOS Má nota

A PETROBRAS FECHOU o ano com uma notícia ruidosa: sua exclusão da carteira do Índice de Sustentabilidade Empresarial (ISE) da Bovespa, composto por ações de empresas que apresentam alto compromisso com a sustentabilidade e a Responsabilidade Social Empresarial (RSE). Sua saída se deve ao não-cumprimento de uma ordem de reduzir o conteúdo de enxofre no diesel comercializado no Brasil. “A Petrobras demonstrou uma posição pouco ética e transparente”, diz Ricardo Young, presidente do Instituto Ethos. “Não quis reconhecer o problema, e depois passou a justificá-lo, demonstrando que não tinha intenção de resolvê-lo.” Ainda que tenha sido a mais polêmica, não foi a única baixa do ISE - Aracruz, CCR Rodovias, Copel, Iochpe-Maxion e WEG - que vem registrando uma redução de sua carteira. Mau sinal? “De jeito nenhum”, responde Young. “O número de candidatos ultrapassa os cem ao ano. O que acontece é que agora a vara está mais alta, os critérios foram aperfeiçoados. Agora, além da declaração da empresa, são avaliados documentos comprobatórios, valorizando ainda mais o índice”, afirma.

VAIVÉM VERDE Evolução dos números do ISE 2008

2007

2006

30 Nº de empresas 38 Nº de ativos 370 bilhões Valor total ativos (R$) 30,7 % total de cap. da Bovespa

32 40 927 bilhões 39,6

34 43 700,7 bilhões 48,5

Fonte: BM&FBovespa

SOLANGE MONTEIRO / SANTIAGO

Papai Noel não vai de táxi

Café dormido EM CASA DE FERREIRO, ESPETO DE PAU. O dito popular tem um significado especial na Colômbia, país que, apesar de contar com uma posição privilegiada na produção mundial de café, tem registrado uma queda no consumo da bebida. Pesquisas recentes indicam que os colombianos tomam apenas 2,9 xícaras de café por dia, quantidade semelhante à registrada em 1994 e muito menor que a de 1997, quando era de 3,4 xícaras por pessoa. A situação já gera inquietação entre os membros da Federação Nacional de Cafeicultores e motivou a criação de uma campanha para estimular a demanda doméstica. “A primeira meta do programa é frear a queda no consumo”, explica Luis Fernando Samper, diretor de propriedade intelectual da federação e encarregado do programa. O plano contempla o uso de um selo, um slogan e elementos de marketing que reforçam o convite para que os colombianos tomem mais café em mais ocasiões e em todas as idades. O programa considera replicar uma iniciativa adotada no Brasil, onde o governo distribui café com leite a milhões de estudantes em escolas públicas. LUCIA LEZACA / BOGOTÁ

24 AMÉRICAECONOMIA / 15 DE DEZEMBRO, 2008

OS TAXISTAS “PORTENHOS” têm reconhecido prestígio. E a população de motoristas que trabalham para outros taxistas ou empresas proprietárias de frota cresceu de forma acelerada nos últimos anos. Hoje, em Buenos Aires, somam 33 mil. O anúncio de que cerca de 6 mil poderiam ficar sem trabalho levou seu sindicato a ameaçar uma greve no período do Natal e Ano Novo. “Vamos parar”, garante Jorge Omar Viviani, representante da organização, que se queixa que as empresas lucram há cinco anos e que apenas começaram a ver-se afetadas em abril, quando o conflito entre o governo e o campo deteve o crescimento da economia. E, agora, “demitem sem piedade”. A demanda por táxis caiu entre 30% e 40% nos últimos meses e, em janeiro e fevereiro, costuma baixar outros 20%. Para os taxistas, o verão deve começar nublado. RODRIGO LARA / BUENOS AIRES


NEGÓCIOS INDÚSTRIA

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EFEITO EM CADEIA

A crise do trio de Detroit põe em apuros a indústria automobilística no México e no Brasil Marisol Rueda, Cidade do México 26 AMÉRICAECONOMIA / 15 DE DEZEMBRO, 2008


O

idílio vivido durante três décadas pela América Latina como potente mercado das três grandes fabricantes de automóveis norte-americanas General Motors, Ford e Chrysler, passou por momento difíceis, mas nenhum como o atual. A crise que atualmente aflige o trio de Detroit chegou ao último elo da cadeia no México e no Brasil, as maiores plataformas de exportação do setor automotivo na região. As fábricas locais das montadoras e milhares de empresas de autopeças estão vivendo na carne o próprio colapso da indústria. Embora a produção de autos vá crescer 4% no México este ano frente às 2.022.241 unidades de 2007, em 2009 haverá uma queda de 12%. E apenas em 2010 se prevê uma recuperação. A filial da General Motors no país despediu 660 funcionários este ano, suas vendas caíram 17% em outubro e para dezembro há previsão de paralisações técnicas em praticamente todas as plantas. A Chrysler México também está reestruturando suas operações. Já no Brasil, apesar do fato de que 2008 deverá ser o melhor ano da história do setor, por conta das vendas entre janeiro e setembro, a produção de veículos caiu 34,4% em novembro frente a outubro. Jackson Schneider, presidente da Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea), diz que, até agora, nenhuma montadora voltou atrás com seus investimentos. Mas muitas estão dando férias coletivas a empregados para reduzir estoques nos pátios. A indústria de autopeças será muito afetada em ambos os países. Em 2007, as vendas do setor no México chegaram

a US$ 28,630 bilhões, cifra que será 5% menor em 2008 e 10% menor em 2009, segundo prognósticos da Indústria Nacional de Autopeças (INA). “Vendemos mais de 60% de nossa produção para o México e EUA [ao trio de Detroit]”, explica Augustín Ríos, presidente da INA. “Como eles perderam volume nos EUA, temos sentido os efeitos aqui”. As pequenas empresas de autopeças do país – por volta de 20% do total – estão entre as mais afetadas, junto com as que produzem componentes para grandes automóveis que consomem mais combustível, justamente o tipo de veículo que os norte-americanos evitam comprar agora. O

reduziu a expectativa de crescimento para 2008, de 9,6% a 6,3%. “O primeiro trimestre será muito difícil”, disse em um comunicado Paulo Butori, presidente do Sindipeças. “Temos que levar em conta que os acontecimentos e algumas decisões das empresas mudam diariamente e a situação pode piorar”. A crise também afetou os investimentos. Segundo o comunicado, das 95 empresas consultadas pelo sindicado, 46%, ou 43 empresas, reduzirão os investimentos em 2009, e apenas 6% aumentarão. As fornecedoras de autopeças também paralisarão a produção este mês, por pelo menos 16 dias, e demissões são esperadas. “Sem dúvida

empresas que mais dependem do mercado norte-americano. Só GM, Ford e Chrysler, juntas, são responsáveis por 54% da produção nacional de veículos e 53,8% das vendas, e empregam diretamente 24.634 pessoas e cerca de 225.000 indiretamente. Para o México, será fundamental que as três grandes montadoras consigam sair da profunda crise que atravessam, o que ainda não está certo. Embora a desaceleração no setor norte-americano tenha começado há oito anos, as más notícias pioraram em novembro. Nos EUA, as vendas da General Motors retrocederam 41% em relação ao mesmo mês de 2007;

Os fabricantes de autopeças do mercado brasileiro reduziram suas expectativas de crescimento em 2009 de 9,6% para 6,3%. E são esperadas demissões. presidente da INA explica que algumas empresas do setor fecharam, outras paralisaram a produção e outras mais efetuaram demissões. No final deste ano, a indústria mexicana de autopeças estima perder 8 mil empregos. A este número podem ser somados 2 mil mais, devido à possibilidade de empresas internacionais fecharem fábricas em breve, explica Ríos, sem revelar o nome das companhias. No gigante sul-americano o panorama é parecido. A indústria de autopeças brasileira é responsável por mais de 220 mil empregos, além de um faturamento de US$ 36 bilhões em 2007. Recentemente, o Sindicato Nacional da Indústria de Componentes para Veículos (Sindipeças)

há uma grande preocupação do setor de autopeças, porque estão totalmente vinculados à produção. Estão preocupados na mesma proporção,” disse Rogelio Golfarb, diretor de assuntos corporativos da Ford Brasil.

O IRMÃO MENOR A indústria automobilística mexicana é uma das mais vinculadas ao mercado norteamericano. Lá, 70% dos automóveis e cerca de 60% das autopeças produzidas têm os EUA como destino. O setor gera 3% do Produto Interno Bruto (PIB), 14% da produção manufatureira, 20,6% das exportações e 6% do investimento estrangeiro direto. O momento crítico começou com a alta dos combustíveis e já impactou de maneira direta as

as da Chrysler, 47% e as da Ford, 31%. Um dos piores resultados em 26 anos. As vendas de suas concorrentes estrangeiras também caíram: as da Toyota diminuíram 34% e as da Honda, 32%. Várias pessoas, incluindo o presidente eleito dos EUA, Barack Obama, criticaram o trio por continuar fabricando automóveis de alto consumo de combustível, sabendo que uma crise era iminente. As três companhias solicitaram ao Congresso um plano de resgate de US$ 34 bilhões, que foi reduzido a US$ 15 bilhões disponíveis no curto prazo, para reestruturação cambial, corte de modelos e empregos, e uma maior consolidação de suas operações. No fechamento desta edição, líderes democra-

15 DE DEZEMBRO, 2008 / AMÉRICAECONOMIA 27


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NEGOCIOS INDÚSTRIA tas e a Casa Branca estavam dispostos a fazer um acordo sobre o plano, mas a iniciativa enfrentava grande oposição entre líderes republicanos, que ameaçavam bloquear a medida no Congresso. Alguns analistas previram que este montante não será suficiente para evitar uma quebra nos próximos anos e afirmam que o resgate poderia custar até US$ 125 bilhões. “A quebra seria muito provavelmente um duro golpe na indústria automotiva do México”, diz Lucía Martín Rivero, analista do IXE Grupo Financiero. General Motors e Chrysler estão em piores condições. A primeira pediu um financiamento de US$ 12 bilhões, incluindo US$ 4 bilhões imediatamente, e uma linha de crédito de US$ 6 bilhões. A Chrysler pediu um empréstimo de US$ 7 bilhões. Embora uma quebra não signifique a paralisação de atividades nas fábricas, o processo de reorganização afetaria suas operações na América Latina.

LUZ NO FIM DO TÚNEL Mas nem tudo está perdido. A Ford, a menos afetada do trio, pediu ao Congresso crédito de US$ 9 bilhões só caso a situação piore em 2009. A empresa possui liquidez de US$ 30 bilhões, incluindo linhas de crédito, e está reforçando sua estratégia de produzir mais automóveis híbridos e compactos. Durante novembro, lançou seis veículos em Los Angeles, Califórnia, dos quais dois são as versões híbridas do Fusion e Mercury Milan. Estes carros foram produzidos no México exclusivamente para o mercado norte-americano e outros três para o mercado local. Embora vá paralisar uma

PASSO ATRÁS

PRODUÇÃO DE AUTOMÓVEIS NO MÉXICO FONTE: ASSOCIAÇÃO MEXICANA DA INDÚSTRIA AUTOMOBILÍSTICA

2.500.000 2.000.000 1.500.000

1.540.565

1.507.175

2003

2004

1.978.771

2.022.241

2006

2007

2.123.353 1.868.551

1.607.376

1.000.000 500.000 0

2005

2008

2009

PRODUÇÃO MEXICANA PARA EXPORTAÇÃO EMPRESAS

NOVEMBRO 2008 TOTAL

VAR % NOV 2007

Chrysler

13.869

-43,2

Ford Motor

21.360

-25,4

General Motors

40.581

24,4

Honda

2.325

-21,2

Nissan

29.928

20,1

4.094

46,4

Toyota Volkswagen Total

32.707

0,3

144.864

-2,8

FONTE: ASSOCIAÇÃO MEXICANA DA INDÚSTRIA AUTOMOBILÍSTICA

fábrica em janeiro, a companhia seguirá adiante com o plano de investimento de US$ 3 bilhões anunciado em março. “No tema de produção há boas notícias para o México”, afirma Herman Morfin, gerente de relações públicas da Ford no México. A companhia registrou uma queda de 15% nas vendas no mercado mexicano em outubro passado e disse que, globalmente, espera registrar ganhos em 2011. No Brasil, os planos da Ford também continuam. Aplicações de cerca de US$ 2,2 bilhões na América do Sul serão realizadas até 2012. “Todos os investimentos no Brasil e América do Sul são decididos com base na nossa capacida-

de local”, afirma Golfarb, da Ford Brasil. “Nossa operação é auto-sustentável”. Enquanto isso, a agência de promoção de investimentos ProMéxico trabalha para atrair mais players do setor automotivo para o mercado local, e mantém conversas com Fiat e Hyundai, entre outras. “Queremos mais montadoras aqui”, relata Abraham Hernández, chefe da Unidade de Inteligência da ProMéxico. Também busca vincular as montadoras locais a outras regiões, como Ásia e Europa, para diversificar sua carteira de clientes. “Temos que olhar além dos próximos seis meses. O mercado de automóveis se recuperará em dois ou três anos aos níveis

que estava no ano passado”, prevê Hernández. “Estabelecer uma fábrica é um plano de longo prazo”. O mercado de autopeças também tem uma pequena vantagem devido ao segmento de carros usados. “Uma parte importante de sua produção é para reposição”, diz Lúcia Rivero, analista do IXE. O prognóstico de vendas da Cummins Filtración, filial mexicana da fabricante norteamericana de motores Cummins, foi reduzido em 10% este ano. “Estamos crescendo, mas não chegando ao número que tínhamos como objetivo. Pensávamos crescer 20% em 2008”, explica Pedro Zermeño, diretor comercial da subsidiária. Mas a empresa tem um plano B. Como seu principal mercado – de reposições para caminhões que transportam automóveis fabricados no México para os EUA – caiu, agora busca novos clientes em setores como mineração e construção, e ampliará sua lista de provedores internos para reduzir importações. “Buscamos aumentar nossa participação de mercado”, diz Zermeño. “As vendas aos nossos clientes não vão crescer, temos que arrumar novos”. Seja como for, a recuperação vai demorar. Analistas estimam que o mercado norteamericano vai se recuperar no começo de 2010, ainda que tudo dependa de quão profunda seja a recessão. “Antecipamos um ano de 2009 muito difícil e estimamos que a economia dos EUA possa se recuperar em 2010”, diz Rebecca Lindland, analista da Global Insight. Mas, sem dúvida, a reação em cadeia vai golpear a América Latina. Q Com Sérgio Spagnuolo, São Paulo

15 DE DEZEMBRO, 2008 / AMÉRICAECONOMIA 29


NEGÓCIOS CONSUMO

FERNANDO CARRASCO POSTALDELDÍA

MUDANÇA DE COR

Depois de ordenar a casa, brasileira Natura agora busca tirar as operações internacionais do vermelho Solange Monteiro

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Desculpe se pareço cansado, mas é que às seis da manhã já estava no aeroporto”, dizia o argentino Axel Moricz em uma tarde de novembro, depois da viagem a São Paulo da qual voltou nomeado gerente geral da operação chilena da brasileira Natura, onde há três anos exercia o cargo de gerente comercial. Moricz desembarcou em Santiago com sua meta na ponta da língua: “Tanto no Chile quando no restante da América Latina, o objetivo da empresa é consolidar mais a marca, mostrar-se socialmente responsável, financeiramente viável e gerar sinergia.” Sinergia é a palavra mágica que chegou à boca de todos os executivos da empresa de cosméticos este ano e que deu base a uma forte reestruturação operacional vivida pela companhia dentro do Brasil, depois de perceber que o modelo que a transformou em ícone indiscutível de sustentabilidade ambiental não era acompanhado de uma gestão que desse conta de seu crescimento rápido de forma também sustentável. “O grande problema da Natura foi crescer absurdamente de forma quantitativa, enquanto o lado qualitativo não acompanhava esse desempenho”, diz Alexandre Fialho, diretor de relações institucionais e mercado da Fundação Dom Cabral, em Belo Horizonte. E isso começou a golpear os números. “A companhia estava com um crescimento pequeno, inferior ao do mercado, perdendo market share, dando um sinal aos investidores que a projeção de crescimento futuro não iria acontecer”, diz Pedro Villares, diretor de operações para a América Latina da companhia. Assim, em 2008, a Natura


tratou de reagir rapidamente. No início do ano, anunciou um forte plano de reestruturação, que culminou com a redução, em outubro, de 200 postos de trabalho, parte deles realocado nas novas divisões da empresa. “Agora eliminamos o retrabalho e ordenamos a Natura por processo (regiões de venda) e unidades de negócio. É como se você tivesse a Unilever e o Carrefour na mesma operação, enquanto no mercado em geral o varejo tenta tirar valor da indústria e vice-versa”, explica Marcelo Cardoso, vice-presidente de desenvolvimento organizacional da companhia. “Eles tiveram total disposição de fazê-lo. Prova disso é o afastamento de todos os vice-presidentes anteriores, que tinham a cultura de focar unicamente em suas operações individuais, sem pensar de forma sistêmica”, avalia Fialho. Um relatório emitido pelo Banco Fator aponta ainda a redução do portfólio de produtos da empresa (atualmente em 851 unidades, com projeção de fechar o ano em 780) como outro item positivo nesse processo. “Além de focar-nos na qualidade, isso reduz a complexidade operacional”, explica Cardoso. Os ganhos de eficiência e produtividade compensaram o aumento do investimento de marketing em R$ 55,2 milhões nos primeiros nove meses do ano (adicionais ao plano de investimentos de R$ 400 milhões no período 20082010), para recuperar a perda de participação de mercado de 22,5% no primeiro semestre de 2007 a 21,8% no mesmo período deste ano. Os resultados não demoraram a aparecer. No terceiro trimestre do ano, a receita líquida consolidada foi de R$ 921 milhões, um crescimento

de 22,3% em relação ao terceiro trimestre de 2007 (contra uma estimativa do Banco Fator de 14,1%). E a margem Ebitda aumentou para 24,7%, contra 23,8% em 2007. Além disso, a Natura transformouse em um dos destaques do ano na Bovespa. Em meio à onda de baixas que assolou a bolsa, a companhia despontou como uma das poucas novas do mercado de capitais que resistiam aos efeitos da crise. Em novembro, suas ações ordinárias acumulavam ganho de 30,39% no ano, depois

ou cinco anos. “Temos custos fixos que não variam muito. Nosso negócio passa a gerar lucratividade quando há ganho de escala, quando temos mais consultoras (que somam 111 mil nos países latino-americanos) para cada promotora de vendas”, explica. “No Brasil, para cada promotora, temos cerca de 600 consultoras; na América Latina, essa média é de 150. Ou seja, se uma consultora da América Latina vendesse o mesmo que uma no Brasil, ainda assim me geraria um custo quatro

em Santiago. Chile, Argentina e Peru, que formam parte do grupo de países chamado “em consolidação” – onde a empresa registrou receita líquida de R$ 108,8 milhões nos primeiros nove meses do ano – são os que estão mais perto de alcançar o break even, com uma margem Ebitda de (-1,8%) no mesmo período. “Nesse grupo a gente vai fechar o ano com 1,2% de margem. Não é negativo, mas é muito baixo. Nosso apetite é 20%, 22%, como no Brasil”, diz.

Momentos de retração econômica não afetam fortemente a operação da empresa, já que a venda direta é uma boa fonte de renda extra. de terem caído mais de 40% em 2007.

TAREFA PENDENTE Mas, apesar do reconhecimento dos bons sinais emitidos pela companhia, o mercado ainda está atento a outra tarefa pendente da empresa: a de tornar as operações internacionais (seis países latino-americanos, além de um escritório na França) rentáveis. Isso porque, há mais de dez anos fora do país – ainda que somente metade deles com um plano estruturado de internacionalização – a Natura ainda funciona no vermelho, mesmo registrando um crescimento médio acima de 30% ao ano. Ainda que alguns analistas critiquem a estratégia da empresa, Villares afirma que, em um modelo de negócio de venda direta como o da Natura, é normal que o break even chegue depois de quatro

vezes maior.” A empresa, entretanto, mostra-se mais pró-ativa para acelerar esses resultados. A primeira iniciativa nesse sentido foi cancelar, por tempo indeterminado, o plano de instalar-se nos Estados Unidos, previsto inicialmente para 2009. “No restante das operações, na verdade, não temos grandes correções a serem feitas; temos apenas que evitar erros. Ou seja, poder crescer 40% no próximo ano em volume de itens sem que isso signifique gerar estruturas pesadas nem no Brasil, nem nas regiões”, diz Villares. Isso para alcançar a meta de ganhar 5% de participação de mercado na América Latina até 2012 com o melhor rendimento possível. “Aqui não temos prevista uma reestruturação como a do Brasil. Mas certamente vamos parar e refletir para crescer de forma ordenada”, diz Moricz,

Uma das estratégias definidas pela empresa para acelerar esse processo é buscar acordos regionais. “Hoje, por exemplo, temos uma mesma fornecedora de call center, com a qual temos cinco, seis contratos diferentes. Agora preciso buscar um só que me proporcione melhoria no nível de serviço a um custo inferior”, exemplifica Villares. Outro ponto que jogará a favor dos resultados, segundo o executivo, é o câmbio. “Antes trabalhávamos com um câmbio de R$ 1,65 e agora o projetamos a R$ 2,10. Esse era um fator exógeno à companhia, mas que no caso de uma empresa exportadora como a nossa nos tira pontos de margem preciosos.” Temor à crise econômica global? Não, segundo o executivo. “Nesses cenários de retração, há duas alavancas que nos ajudam. A primeira é a migração do gasto em bens

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NEGÓCIOS CONSUMO duráveis para não-duráveis, ou seja, as pessoas deixam de comprar um carro mas gastarão mais em alimentos e cosméticos, por exemplo. E a segunda é que os momentos de recessão fazem o papel da revendedora ganhar valor, pois é uma renda adicional importante dentro da família”, afirma.

US$ 57 e no Brasil, US$ 74”, compara José Concha, diretor executivo da Andi. “E somos o segundo país exportador de cosmético da região, perdendo apenas para o México.” Já no México, que soma

pele”, diz Villares. “Tampouco temos uma linha de cosméticos para combater aí”, conta, afirmando que os produtos para esse mercado já estão em fase de aprovação, podendo ser lançados em 2009.

OUTRO RITMO Ainda que essas iniciativas ajudem a dinamizar o processo no exterior, as estimativas para chegar a um resultado azul na Venezuela, México e Colômbia (denominado grupo em desenvolvimento, onde a margem Ebitda registrada nos primeiros nove meses do ano foi de -93,1%, com receita líquida de R$ 29 milhões), são mais ponderadas. “Na Venezuela, cuja operação foi inaugurada em 2007, como ainda temos dúvidas quanto às questões políticas e macroeconômicas do país, optamos por manter uma operação pequena, que não superará os R$ 4,5 milhões e poderá chegar ao break even já em 2009”, diz Villares. Colômbia e México, entretanto, não verão o lucro antes de 2011, segundo estimativas da Natura. “Isso não é ruim, porque nesses países decidimos optar por ganhar velocidade, já que são mercados interessantes”, garante o executivo. Segundo a associação colombiana do setor (Andi), o mercado colombiano de cosmética e asseio soma US$ 2,5 bilhões e, graças ao crescimento econômico registrado nos últimos anos no país, há muito potencial a ser explorado. “Sobretudo se toma em conta que o consumo per capita anual de cosméticos na Colômbia é de US$ 37, enquanto no México é de US$ 60, na Venezuela

Villares: estudando a possibilidade de fabricar fora do Brasil. um mercado de US$ 7 bilhões, o desafio da Natura ainda é adequar seus produtos ao gosto do consumidor. “Nossos perfumes não condizem com a preferência das mexicanas, que querem uma fragrância mais doce e que dure mais na

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E essa necessidade de criar alternativas novas para os mercados estrangeiros está encaminhando a Natura a outra mudança que poderá fazer diferença em sua estratégia: a possibilidade de produzir fora do Brasil. “É uma decisão que

não tem prazo para acontecer e nem sabemos se será uma fábrica própria ou não. Mas em nossa primeira pesquisa pudemos identificar empresas com qualificação técnica suficiente para fabricar boa parte de nosso portfólio”, afirma Villares. “Nesse sentido, estamos pesquisando alguns fornecedores de fragrâncias no México e de maquiagem na Argentina. Também estamos avaliando outra possibilidade na Colômbia, e torcendo para que isso dê certo”, diz. Para Fialho, as tentações que cruzarão o caminho da Natura serão demasiadas para que ela se contente em associar-se e não opte por uma fusão ou aquisição. “Sobretudo no México, onde os valores dos ativos baixaram, pois há empresas do setor que também se viram afetadas pela exposição a derivativos cambiais e que sonhariam em ser incorporadas pela Natura”, afirma o consultor. Carlos Berzunza, diretor da associação de produtores de cosméticos do México (Canipec), não confirma tal informação sobre as empresas mexicanas, em geral de capital fechado. “Até hoje, isso não foi colocado como tema de discussão na Câmara”, garante. Seja como for, Fialho reforça que hoje a Natura se encontra bem-posicionada em caixa e alavancagem, e essa seria uma ótima oportunidade de mudar o perfil de sua estratégia de negócios, “deixando de investir em despesas para investir em ativos”. Além do mais, “seria um bom aprendizado, pois até hoje sua fórmula de crescimento não saiu do feijão-com-arroz”, afirma, incentivando a companhia a beber outras águas e, dessa forma, dar mais um passo para robustecer e dinamizar sua internacionalização. Q


GILBERTO CONTRERAS

NEGÓCIOS VAREJO

Conquista do consumidor: Wal-Mart está na frente

TEMPO DE COLHEITA

O Wal-Mart do México agora tira proveito de suas políticas conservadoras Marisol Rueda, Cidade do México

M

ovimentos adiantados para tomar o controle do tabuleiro e proteger o rei são táticas que ampliam a possibilidade de um xeque-mate. E, desta vez, quem se mostra um campeão nesse xadrez é o Wal-Mart do México. Com uma nula exposição a instrumentos derivados como torre do tabuleiro, uma prudente política financeira no papel de rainha, e um rei com boa

liquidez, a companhia varejista está mais bem-posicionada que seus concorrentes para enfrentar a crise. E poderá ganhar inclusive acima da média do setor. Seus concorrentes mais próximos, que durante os últimos anos se endividaram para expandir-se diante de um negócio que parecia crescente, hoje enfrentam altas taxas de juros e o bolso golpeado dos

mexicanos frente a um cenário inflacionário. A Soriana, segunda maior rede de supermercados do México, está absorvendo a compra da rede Gigante, feita no ano passado, por US$ 1,35 bilhão. “Temos que destinar um montante maior que o originalmente planejado, devido ao pagamento de juros”, diz Rodrigo Benet, gerente de Relação com os Investidores

da Soriana. “As condições econômicas em nível mundial e a baixa liquidez nos mercados de dívida fizeram com que os níveis de taxas de financiamento aumentassem consideravelmente nos últimos meses.” Já a Comercial Mexicana, terceira maior varejista do país, está em sérias dificuldades. No fechamento desta edição, a holding à qual pertence, a Controladora Comercial Mexicana (Comerci), negociava passivos de cerca de US$ 2,2 bilhões. Tudo como conseqüência de uma superexposição a instrumentos derivativos que tomou a companhia de surpresa em setembro, quando o peso mexicano se desvalorizou. Alguns credores já se mobilizaram. O banco BBVA

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NEGÓCIOS VAREJO pontos da bandeira Bodega Aurrerá em todo o país. “O Wal-Mart continuará adaptando seu portfólio para atacar um segmento do mercado mais baixo e atender um consumidor mais cauteloso”, diz Savín, da Actinver. “Essa estratégia atenua os efeitos em matéria de menor poder aquisitivo, bem como o deterioro na confiança do consumidor frente à piora das condições econômicas e à maior incerteza para 2009”, afirma.

COMO RELÓGIO A empresa tampouco se esqueceu da eficiência. Fortaleceu sua relação com fornecedores e eliminou intermediários. “Temos visto uma estratégia mais ativa e a oferta de esquemas alternativos que claramente atacam a Comerci tirando proveito da situação que esta enfrenta”, explica Savín. Este ano, a empresa criará 16 mil empregos formais, muito menos que os 21 mil previstos em fevereiro, e 15 mil vagas temporárias para a época do Natal. O Wal-Mart do México respondeu imediatamente à queda de 0,7% em suas vendas em unidades semelhantes

àquelas que estão há mais de um ano em operação (em setembro, em relação ao mesmo período do ano anterior). “Desenvolvemos uma campanha de comunicação muito atraente e agressiva dizendo às pessoas que somos uma fonte de boas notícias para sua família”, afirma Ocaranza. Além de suas conhecidas estratégias de desconto e prestações sem juros, a companhia congelou os preços de 108 produtos estratégicos de sua marca própria até 31 de dezembro e lançou bonificações em compras feitas durante a época do Natal, entre outros. “São preços e produtos que geram uma grande expectativa e um movimento adicional em nossas lojas”, diz Ocaranza. O incremento no tráfego compensa as quedas no valor médio de compras por cliente que se registrou nos trimestres anteriores. Até novembro, o tíquete médio do Wal-Mart do México registrou um ligeiro aumento de 1%, contra 2,1% no mesmo período de 2007. Pese o difícil entorno econômico, as vendas em unidades iguais em novembro cresceram 5,6% em relação ao mesmo período de 2007.

As notícias sobre seu plano de investimentos para 2009 só chegarão em fevereiro de 2009. “O compromisso que temos com o país é de longo prazo e as conjunturas não são algo que afeta isso”, garante Ocaranza. Para isso, a filial mexicana do gigante norte-americano continuará reinvestindo o lucro em sua operação. Entre 2003 e 2007, o montante do lucro investido foi de US$ 3,87 bilhões. Ainda que os analistas esperem que as vendas do setor cresçam apenas 2% em 2009, o Wal-Mart de México, como também a Soriana, avançarão acima da média do mercado. A segunda deverá seguir integrando as operações adquiridas e ir reduzindo o que concebe como endividamento administrável – no fechamento do terceiro trimestre, divulgou que 29% de sua dívida era de curto prazo. “Esperamos que ambas as redes ganhem participação de mercado, ou seja, que experimentem crescimentos mais altos em relação ao geral do setor”, diz Savín, da Actinver. Mas o rei do tabuleiro continuará sendo o WalMart. Q

De olho na base da pirâmide

O

crescimento da renda nos extratos que formam a base da pirâmide social brasileira nos últimos anos tampouco passou despercebido à filial brasileira do Wal-Mart. Criar lojas que atendam especificamente às necessidades das classes C, D e E é um dos principais objetivos da rede varejista americana no País no curto prazo. Recentemente, a companhia anunciou que mais da metade das entre 80 e 90 lojas que o Wal-Mart Brasil planeja abrir em 2009 – parte de um projeto de investimento de R$

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1,8 bilhão – terá as bandeiras Todo Dia e Maxxi, de perfil popular. As novas unidades seguirão um conceito de “loja de comunidade”, oferecendo serviços agregados como atendimento médico e cursos profissionalizantes. O mix de serviços dependerá da demanda em cada região. A companhia acha que com isso poderá aumentar a freqüência de consumidores nas lojas, alavancando as vendas feitas por conveniência. Hoje, a maior parte das lojas com a bandeira Todo Dia fica na região Nordeste e a com

a bandeira Maxxi, no Sul. Com a expansão, porém, o modelo e as duas bandeiras deverão ser levados para as outras regiões do País onde o Wal-Mart está presente. De acordo com a última edição do ranking da Associação Brasileira de Supermercados, em 2007 o Wal-Mart ocupava a terceira posição no ranking do setor, com vendas de R$ 15 bilhões, 11% do mercado e 313 lojas. Os dois primeiros da lista eram Carrefour e Pão de Açúcar, respectivamente.

Dubes Sônego, São Paulo

GILBERTO CONTRERAS

Bancomer, por exemplo, embargou alguns bens da Comerci em resposta a uma dívida de US$ 100 milhões. Outros demandaram a empresa nos EUA. Apesar de a Comercial Mexicana ter sido ativa em promoções para incentivar o consumo, seus problemas conjunturais a puseram em condições de desvantagem em relação a suas concorrentes. O Wal-Mart do México, maior rede de supermercados do país, aproveitou a oportunidade para atacar em todas as frentes. O varejista norte-americano tem um futuro invejável, segundo analistas, graças aos frutos colhidos com suas estratégias agressivas. “Isso lhe permitirá ganhar participação de mercado”, diz Francisco Suárez Savín, diretor de análise e estratégia da corretora Actinver. “Ela tem condições de incrementar seu piso de vendas em 11% para 2009, recomprar ações, e outorgar a seus acionistas um retorno do dividendo de pouco menos de 2%.” Savín acha que a inevitável queda do consumo será o momento perfeito para reforçar sua tradicional campanha “Preços baixos todos os dias”. “Vemos essa conjuntura como um chamado a fazer o que sabemos fazer melhor, ou seja, gerar economia”, diz Antonio Ocaranza, diretor de comunicação corporativa do Wal-Mart do México. A companhia opera quatro diferentes formatos de supermercados no México, mas seu maior esforço se concentrará na Bodega Aurrerá, focada em atender o segmento de baixa renda. “É um formato com grande vocação de atender às famílias com maior necessidade de economia”, diz Ocaranza. Até novembro, a empresa abriu cem novos


PMES GLOBAIS

ALEXANDRE BATTIBUGLI

Djalma Moreira, da Belleskin: de olho nos turistas

NEGÓCIO DE VERANEIO

Levar sua empresa às estâncias de férias demanda planejamento Marcelo Galli e Solange Monteiro

D

esde dezembro de 2004, quando chega o verão, Djalma Moreira mantém a mesma rotina: migra da capital paulista ao Litoral Norte, onde fica até o final de fevereiro, alta temporada na costa atlântica brasileira. Férias prolongadas? Não. O empresário da Belleskin leva para as principais praias da região o serviço de tatuagem temporária feita com aerógrafo, que ele representa de uma companhia norte-americana. “É um produto hipoalergênico que tem feito sucesso”, afirma. Já que desfilar um desenho na pele quase sempre demanda pouca roupa, a estratégia de Moreira de buscar as praias é fundamental. Os três meses de verão correspondem a cerca de 40% das vendas totais com tatuagem – a Belleskin também

representa outros produtos –, que em 2007 foram de R$ 1,5 milhão. “Instalamos quiosques em shoppings, e oferecemos alternativas que vão de R$ 5 a R$ 20.” Para quem vê o negócio de Moreira – que no restante do ano mantém suas operações em três parques temáticos –, parece tentador aproveitar o movimento das cidades de veraneio para ganhar um dinheiro extra. “Da mesma forma que os jornais, que oferecem uma assinatura móvel para não perder o cliente, alguns empreendedores querem compensar a queda nas vendas quando a maioria viaja de férias”, diz Wlamir Bello, consultor do Serviço de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae). O negócio, entretanto, pode se tornar um risco para

as finanças da empresa se não for estudado detalhadamente. “Muitas vezes o empresário quer algo dentro da linha de conforto dele e deixa o planejamento de lado.” Para o consultor, é recomendável um planejamento com seis meses de antecedência. “É importante estabelecer o ponto de equilíbrio do negócio para calcular sua viabilidade, e a necessidade de adaptar a produção para essa demanda”, diz. Um dos primeiros passos é fazer uma pesquisa básica na Secretaria de Turismo da cidade de interesse, para basear sua projeção no número de turistas que recebe e seu gasto médio, além de certificar-se das licenças necessárias para instalar-se no lugar. E não deixar de lado custos como os de transporte e moradia, além da escolha de funcionários, que têm que adequar-se ao perfil do negócio. “No meu caso, se tivesse que bancar tudo do meu bolso, sairia no prejuízo”, conta Patricia Izar, franqueada da Chocolates Kopenhagen, que recebeu apoio da franqueadora

para operar um quiosque no shopping sazonal Market Plaza, em Campos do Jordão. A cidade serrana recebe 700 mil visitantes somente no mês de julho, com um gasto médio per capita de R$ 200 diários. “Às vezes a estimativa de vendas não se cumpre”, diz, contando que no último inverno esperava um crescimento de vendas de 30%, mas registrou apenas 10%.” Já para Moreira, uma das principais dificuldades ao instalar-se no litoral foi o treinamento de mão-de-obra. “É preciso ganhar técnica para manejar o aerógrafo, e por isso buscamos ajuda das prefeituras para fazer a capacitação”, conta. Com a experiência adquirida, ele aprendeu que dentro do orçamento é preciso incluir os custos de rotatividade de mãode-obra temporária “que já chegou a quase 40%” e de um adicional no valor do aluguel na temporada seguinte, “pois se as vendas foram boas, o aluguel costuma sofrer uma alta”. Para ampliar o negócio além dos pontos próprios em São Paulo, Moreira passou a trabalhar com o sistema de comodato, somando atualmente 130 pontos-de-venda em mais oito estados brasileiros. E quem não quer envolverse de cara em um investimento alto, mas sim testar o mercado, pode fazer como a empresa de biquínis Mulata Brasil, que aluga a diária de um bar na praia de Maresias, no litoral paulista, para fazer queima de estoque. “Vendemos bastante e muitos clientes nos procuraram depois em nossa loja, em São Paulo”, diz Flávia Almeida, sócia da empresa, revelando que a estratégia tornou sua marca mais conhecida. Q

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PMES GLOBAIS [FERRAMENTAS] Bateu a fome? La Exquisita pode estar aí

Inspiração da crise

Lindstrom: Ousar com os sentidos

ATREVA-SE Quem deseja ter seu produto ou serviço colado na mente do consumidor precisa atrever-se a diversificar. Esse foi o conselho de Martin Lindstrom, especialista de neuromarketing, em visita a Santiago do Chile. Para Lindstrom, o pequeno e médio empresário não pode limitar-se a criar uma logomarca; precisa trabalhar com todos os sentidos do consumidor, deixando em cada um deles um sinal para que este identifique seu produto sem a necessidade de ver a marca. “Isso passa por iniciativas simples, como ter uma música de introdução no site da empresa, a outras mais ousadas como testar novas texturas e formatos em embalagens”, exemplifica. “Quanto mais regiões do cérebro conseguir estimular, melhor.” Lindstrom também advertiu que atualmente as pessoas estão mais estressadas, o que as incentiva a ser mais supersticiosas e a comprar mais produtos que em sua mente sejam identificados como formadores de espaços de segurança. “Dessa forma, um produto será mais bem-sucedido quanto mais valores relacionados à fé religiosa ele tiver”, afirma. Entre eles, oferecer um sentido de pertinência, rituais (como o de fumar um cigarro), um inimigo claro (um produto de beleza contra o envelhecimento, por exemplo), e estar envolvido em mistério e símbolos. 36 AMÉRICAECONOMIA / 15 DE DEZEMBRO, 2008

Era 2001 e a uruguaia Patricia López trabalhava como professora de inglês. O reflexo da crise argentina na economia do país a fez buscar uma fonte de renda adicional, cozinhando por encomenda. E o que era negócio secundário rapidamente levou Patricia a se transformar em empresária. Juntamente com seu sócio, Mario Santellán, desde 2002 Patricia lidera a La Exquisita, que atualmente possui 16 funcionários e fornece cerca de 900 porções diárias de comida embalada a estações de serviço em postos de gasolina, como sanduíches em pão croissant, tortas de verdura e saladas. E como fazer um negócio que nasceu da crise sobreviver a outra retração econômica? “Acho que seria pouco realista dizer que não seremos afetados, mas vamos trabalhar muito mais para manter a mesma relação qualidade/ preço”, afirma. Outro ingrediente usado pela empresária, considerado indispensável em qualquer cenário, é a inovação. “Recém-lançamos uma linha premium, com novos ingredientes e apresentação, aproveitando o aumento de demanda no verão, sobretudo com a chegada de turistas”, diz. “E em maio de 2009 iremos inaugurar uma linha de doces, aproveitando o apelo do inverno.”

PALAVRA DE EMPREENDEDOR “Uma crise, como a atual, não pode ser solucionada com fórmulas individuais e muito menos com a redução de pessoal. Assim como o sucesso chega com o trabalho em equipe, as crises também têm que ser enfrentadas em equipe. Aumentar a receita através da criatividade, da qualidade do que se oferece e do bom serviço ao cliente são fórmulas que devem ser usadas antes de reduzir a folha de pagamentos.” Osvaldo Lau, Panamá “O sucesso se conquista quando se trabalha em equipe e não como grupo, ou seja, em perfeita comunhão, onde existam verdadeiros líderes e não os mal denominados ‘chefes’. Cada tarefa, não importa a área, deve ser motivada e estar de acordo com um plano de incentivos com base em um sistema de metas. O capital humano é o ativo mais valioso que toda empresa possui.” Joselo Peña Herrera, Equador Participe: http://blogs.americaeconomia.com/pymes/


WORLD ECONOMIC FORUM

AGENDA 2009 World Economic Forum A agenda de 2009

GUIA PARA UM ANO INCERTO Um agitado 2008 chega ao fim, ano que deixou profundas cicatrizes em praticamente todas as economias desenvolvidas do mundo e acentuou o nervosismo frente ao ano que se avizinha. Além da evidente tarefa dos Estados Unidos, sob a presidência de Barack Obama, de restabelecer pontes com todo o mundo – incluindo a América Latina –, quais serão os temas, conflitos e personagens que se destacarão no próximo ano? Nas próximas páginas, enumeramos algumas dessas tendências, como afetarão a região e por quê. E entregamos as projeções macroeconômicas de AméricaEconomia Intelligence para 2009.

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WORLD ECONOMIC FORUM

AGENDA 2009 BRASIL

NARCOTRÁFICO

ESTRELA SEM HERDEIRO O próximo ano será de desafios para o Partido dos Trabalhadores no Brasil. Sem um candidato natural para suceder o presidente Lula nas eleições de 2010, a legenda do governo vive uma situação paradoxal: quanto mais o mandatário sobe nas pesquisas de opinião, mais Dilma Rousseff, ministra da Casa Civil, parece estar longe de consolidar-se como sua sucessora. “Ainda é cedo para ter certeza. Sem un nome natural, uma figura de alcance nacional que possa destacar-se dentro do PT, Lula está colocando Dilma à frente de todas as políticas ativas do governo para posicioná-la como promotora do crescimento”, diz Rachel Meneguello, coordenadora do Centro de Estudos de Opinião Pública da Unicamp. Se Dilma ou qualquer outro nome escolhido pelo partido não decolar, o Brasil verá à frente uma quebra da polaridade PT-PSDB (partido do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso e do governador de São Paulo José Serra) que já dura mais de 10 anos em disputas presidenciais. O que ocorrerá com o cenário brasileiro? “É uma grande dúvida, já que o PMDB tampouco demonstra capacidade de ser protagonista de nível nacional”, explica Meneguello. Frente a um panorama como este, a cientista política crê que a única saída de Lula será voltar-se ao partido para crescer suas bases, e tentar transferir à estrela eleita o brilho que apenas ele carrega. Q

38 AMÉRICAECONOMIA / 15 DE DEZEMBRO, 2008

Com os assassinatos ligados ao narcotráfico registrando aumento de 117% (5.376) em 2008, não é de estranhar que 2009 marcará uma virada negativa. E a perspectiva ainda tende a piorar: “o risco que o México corre de se transformar em um Estado falido, em sua intenção por diminuir a influência do narcotráfico, está cada vez mais patente”, diz Edgardo Buscaglia, conselheiro do Instituto de Investigação e Formação das Nações Unidas e professor convidado do Itam. “Há cidades onde impostos estão sendo pagos, um quantia que chega até US$ 45.000 anuais, a grupos criminosos para que os empresários possam se sentir protegidos”, revela Buscaglia. “É um típico sintoma de que está se tornando um Estado falido.” O problema parece ser que, no México, apenas são aplicados um dos quatro pilares para combater efetivamente o narcotráfico: maior repressão. Falta ao Estado mexicano atuar efetivamente para desmantelar a economia criminal, combater a corrupção política com toda

AFP

Rousseff: eclipse de Lula

ABr

MÉXICO INFILTRADO

a força da lei e estabelecer um plano nacional de prevenção contra drogas. Mesmo que o governo do presidente Felipe Calderón tenha detido funcionários supostamente ligados às organizações e feito algumas apreensões de armas e dinheiro, vários analistas afirmam que estas atitudes são mais midiáticas. “Não há país que tenha saído dessa situação sem limpar sua classe política e os funcionários técnico-operativos do Estado, e isso ainda não é visto no México”, acrescenta Buscaglia. Assim sendo, a tendência pode ficar mais clara à medida que as organizações de drogas continuem se infiltrando nas instituições do Estado, como têm feito até agora. Q

MATÉRIAS-PRIMAS

INVERNO PARA AS COMMODITIES A notícia boa é que um mistério foi resolvido. A China não será mais o dragão esfomeado de matérias-primas que alimentará outro boom de commodities. Não da maioria dos produtos, pelo menos. No estudo “The commodity boom: the long-term prospects”, o Banco Mundial mostra que – entre 2002 e 2007 – a demanda do gigante asiático só foi substancial no alumínio, cobre e carbono, e medianamente importante sobre petróleo. Essa demanda registrou baixa quanto ao trigo e negativa quanto ao arroz. “Além dos fortes ganhos no PIB e o crescimento da receita nos países em desenvolvimento, a demanda de grãos não se acelerou de maneira apreciável por sua demanda, sejam considerados em conjunto ou somente no caso da China.” Quanto ao milho, o etanol foi o grande responsável pelas altas, motivo de 47% a 70% da alta nominal dos preços. Enquanto a alta do trigo e do arroz, como ou-


WORLD ECONOMIC FORUM

AGENDA 2009 ECONOMIA

Com a desaceleração e até a redução do crescimento provocados pela crise, o ano que vem pode ser o momento vocad certo para transformar um mau presente num bom futuro. Como Como? Melhorando a “qualidade” do crescimento. “Na América Latina crescemos muito, mas, em geral, isso não serviu para melhorar drasticamente o bem-estar”, diz servi a ec economista Victoria Giarrizo, do centro de estudos CERX. O crescimento acelerado, além disso, serviu CE para atrasar “reformas necessárias vinculadas à arpa rrecadação e ao gasto”. Na região, durante a última ddécada, a maior parte das pessoas “mudou de problema: antes era não ter trabalho; o que foi convertido em ma ‘minha renda não é suficiente’. Ou, no caso do Chile, por ‘minh

exemplo, ‘não é suficiente para ter um bom plano de saúde’”. A lógica por trás desta visão é que “nos países emergentes há muitas coisas para melhorar”. Por isso, se a qualidade de vida for privilegiada “pode-se crescer menos e isso não precisa ser um problema”, à medida que se tem um gasto mais eficiente e “mais concentrado no tecido produtivo”. Por isso, a base da recuperação, argumenta Giarrizo, não deveria estar concentrada em impulsionar o consumo na base do endividamento das pessoas. Q

VENEZUELA, COLISÃO À VISTA

POLÍTICA

QUALIDADE DO CRESCIMENTO Q

“Pelos próximos dois ou três anos, os preços do petróleo se manterão baixos. Se as grandes economias do mundo estão funcionando com taxas de crescimento abaixo do normal, o petróleo custará menos.” O prognóstico do Prêmio Nobel Edmund Phelps não afetará apenas os traders e o bolso dos motoristas. Pode ser a chave para o futuro da Venezuela. A correlação entre o valor do ouro negro e as reservas do Banco Central venezuelano, unida à inflexibilidade na redução de gastos do governo Chávez, aumenta as possibilidades de uma desvalorização. Tal cenário reativou os desejos do mandatário de obter o direito de reeleição indefinida. Por quê? A chegada de nuvens no horizonte da economia venezuelana pode afetar sua aceitação popular. Analistas acreditam que ai jaz o motivo da apressada iniciativa de submeter novamente a questão a um referendo. Obviamente, a iniciativa atiçou a oposição, que não só considera a medida ilegal como assegura que pode trazer risco de violência. “Não podem existir dúvidas sobre o empenho de Hugo Chávez para perpetuar-se como mandatário supremo a qualquer custo”, escreveu em sua coluna no diário El Nacional o analista político Aníbal Romero. É válido reconhecer que um referendo habilitará um clima de enfrentamentos violentos entre partidários e adversários de Chávez, que converteu a política de seu país em um jogo trágico sem resultados. Q

DESVALORIZAÇÕES

SÓ MOEDAS A desvalorização que parece ter afetado as moedas latino-americanas provavelmente se estenderá por 2009. O motivo? O fim do auge das commodities terminou também com a onda de investimentos de 2007 e 2008. Segundo um relatório recente da Kroll Infoamericas, os modelos de negócios construídos sobre uma projeção de moedas fortes poderão ser inviáveis. E para Argentina, Venezuela e Equador, o diagnóstico poderá ser pior. O primeiro tem chance de ver uma ddeterioração maior de suas divisas com o avanço dda crise; o segundo estaria destinado à desvalorização, e o terceiro sentirá pressões a partir de 2010 para abandonar a dolarização, já que a falta de receita o levaria a buscar uma flexibilidade maior para obter financiamento. Q

Rafael Ramírez, ministro de Energia da Venezuela: maus tempos

AFP

tras commodities alimentícias, a alta é relacionada a um efeito multicasual, no qual a valorização do petróleo foi o fator mais importante, bem como a especulação de parte dos produtores de reter seus produtos e dos compradores ávidos por adquirirem mais, antecipando uma série de altas. O futuro? Por um lado, no caso da China, a intensidade do uso de matérias-primas tende a baixar à medida que o PIB começar a aumentar com a oferta de serviços. Além disso, com renda per capita superior a US$ 3 mil, a demanda extra de grãos tende a cair a zero. Do outro lado estão as imprescindíveis mudanças tecnológicas, passíveis de aumentar ou diminuir a demanda e a oferta. Uma coisa é clara: “nos países em desenvolvimento, projeta-se que a renda per capita triplicará de US$ 1.550 para US$ 4.650 entre 2004 e 2030. Isto significa que, enquanto a demanda de grãos e alguns metais tende a desacelerar, a demanda por energia tende a se fortalecer”. Vendedores de energia, agüentem a crise e prosperarão. Q

15 DE DEZEMBRO, 2008 / AMÉRICAECONOMIA 39


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AGENDA 2009

GASTO AGRICULTURA

CONTROLE DE EXPECTATIVAS

SOJA COM PROGNÓSTICO RESERVADO A queda na cotação da soja, de US$ 600 a tonelada para cerca de US$ 300, é uma desgraça para milhares de agricultores do Brasil, Argentina, Paraguai e Uruguai (além de um problema para as balanças comerciais). Mas é uma oportunidade de sobrevivência para produtores de outros cultivos que dependem do extenso sistema de arrendamento de terras e que estavam sendo dispensados pelos produtores de soja. E também para as comunidades indígenas que foram expulsas, às vezes com métodos violentos. Somente nos últimos anos, uma área equivalente à da Califórnia passou de selva, mata e pasto natural para o cultivo da soja. Segundo o grupo Base, 85% do leste do Paraguai, antes da chegada de produtores brasileiros e argentinos, eram compostos de matas. Atualmente, apenas 12% permanecem intactos. Na Argentina, a safra de 2008-09 produzirá cerca de 90 milhões de toneladas de grãos, dos quais 50 milhões de soja. Alguns analistas estimam que a febre da soja passou. Aos baixos preços, aos agrotóxicos mais caros, à contaminação e à monocultura, soma-se o fato de que seu consumo não é adequado a menos de cinco anos (pela presença de hormônios vegetais). “Houve muito barulho especulativo que inflou o preço. E os produtores deverão se apertar, mas não sei. O obituário está para sair em uma data mais distante”, diz o economista Eduardo Cúria. “Em dois anos saberemos.” Q

AFP

POBREZA

BLUES DO HAITI Trata-se de uma prática comum: as famílias extremamente pobres entregam um de seus filhos, ou vários, a famílias ricas. Em troca, embora sejam alimentados, os pequenos são usados para todo tipo de serviço. E abusos. Com 54% de seus 9 milhões de habitantes vivendo em extrema pobreza e 80% na pobreza, é compreensível por

40 AMÉRICAECONOMIA / 15 DE DEZEMBRO, 2008

que no Haiti não dá para lutar contra esse costume. Em 2009, a primeira república da América deverá mostrar que pode sustentar o frágil equilíbrio político e econômico construído com apoio internacional. A perspectiva é ruim. O país cresceu apenas 3,5% em 2007 e o pacote de reformas do FMI é insuficiente para o crescimento de uma nação tão devastada ecologicamente, e com sua deficiente infra-estrutura afetada pela passagem de quatro furacões este ano. A missão fracassou? “O mandato era para estabelecer a paz”, diz Rosendo Fraga, diretor do Centro de Estudos Unión para La Nueva Mayoría. “Não de reconstruir o Estado, que é a questão crucial no Haiti.” E que segue pendente. Q

A Argentina anuncia que entregará US$ 320 milhões para financiar a compra de 10 milveículos novos de baixo custo. O México garante que seu plano de infra-estrutura dará origem a 300 mil empregos. No Chile, o Banco Central antecipa cortes nas taxas de juro para o primeiro trimestre de 2009. À medida que o inverno da recessão sopra seus ventos gelados na América Latina, cada país apresenta seus planos. Para o ano que vem, tudo parece indicar que até os mais relutantes em reconhecer suas necessidades, Brasil e Peru, deverão promover “refúgios” focados em indústrias específicas. No Brasil, as obras do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) vão representar uma potente injeção na economia através de obras de infraestrutura. Mas é das empresas públicas e privadas que deverá vir a maior parte dos US$ 200 bilhões previstos para o programa até 2010. Na primeira metade de 2009, as expectativas serão determinantes. “O mais importante é atuar sobre as expectativas”, assegura Mariano Lamote, economista-chefe da Consultoria ABECEB, em Buenos Aires. Por isso, seja na Argentina ou em outro país, “a implantação deve ser feita o mais rápido possível para que isso aconteça”. O plano argentino é de US$ 3,85 bilhões e concentra-se em sustentar o consumo interno. É suficiente? O governo diz que a receita crescerá 4%. “Nossa estimativa é de 1,5% a 3%”, diz Lamote. Q


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AGENDA 2009 DÍVIDA

O uso do BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Social e Econômico) como ferramenta de integração regional corre o risco de ser deixado de lado em 2009. No começo de dezembro, o chanceler brasileiro Celso Amorim declarou que o Brasil poderia deixar de conceder crédito a seus vizinhos se o Equador questionar na Câmara de Comércio Internacional, em Paris, a dívida de US$ 243 milhões que tem com o BNDES. Também avisou aos membros da Alternativa Bolivariana para as Américas (Alba) que tal atitude poderia limitar empréstimos aos

EMPREGO

SEGURANÇA POLÍTICA

MENOS ARMAS, MENOS DELITOS

Raúl Castro: infeliz aniversário

CUBA E INESPERADOS 51 ANOS Com mais de meio milhão de moradias destruídas pela ação de três furacões, a queda do preço do níquel e a possibilidade de uma queda no fluxo turístico europeu, canadense e latino-americano, a recuperação da economia cubana enfrenta desafios para o próximo ano. Barack Obama, Hugo Chávez e Dmitri Medvedev, nessa ordem, serão as figuras que definirão grande parte do destino da ilha em 2009. Veja a reportagem “A ressaca dos furacões”, nesta edição. Q

AFP

MARÉ BAIXA Se há um tema tratado com mais intensidade na crise, este tema é o desemprego. Embora haja consenso de que aumentará, ninguém sabe em que medida os pacotes de estímulo e os acordos trabalhistas moderarão a alta. No México, pesquisa feita pela empresa Manpower mostrou que apenas 17% das empresas diminuirão a oferta de postos de trabalho, contra 65% que dizem que a manterão, e surpreendentes 15% que contratarão pessoas no primeiro trimestre de 2009. No Brasil, o emprego na indústria caiu 0,2% em outubro frente a setembro. Na Argentina, a central sindical CGT disse que cerca de 14 mil trabalhadores já perderam seus cargos devido à crise. Para evitar o pânico, os sindicatos, as empresas e o governo concordaram com a criação de um Observatório de Emprego, antes de realizar um acordo de estabilidade trabalhista em troca de perdas salariais. O problema é que, com o altíssimo nível de informalidade, o maior impacto do desemprego na região estará fora da medição e das medidas institucionais. Q

integrantes do bloco. Uma postura semelhante foi adotada pelo Paraguai, que considera injusta sua dívida de US$ 19 bilhões com o Brasil. “Em caso de não-pagamento, talvez a integração política deixe de ser o fator mais relevante”, antecipa Fátima Cristina Bonassa Bucker, professora de direito em relações exteriores da ESPM, em São Paulo. Por enquanto, o Brasil buscará uma saída conciliadora. Mas os próximos governos poderão ficar tentados a exercer represálias mais duras. Hoje, o Brasil é credor de US$ 2,5 bilhões de seus vizinhos apenas em créditos para exportação. Q

A crise financeira e econômica mundial, como em todas as épocas de escassez, fornecerá combustível extra para a delinqüência. Os desafios maiores são enfrentados por México, Honduras, Guatemala, Colômbia e Brasil. Neles, as organizações criminais conseguiram operar com armas de guerra e coordenar-se para atuar no exterior. E também contam com proteção policial. Após meio quarto de século de fracasso na aplicação de “políticas de magnitude” (mais polícia, condenações maiores, poderes mais amplos), talvez seja o momento de testar algo novo. “As polícias precisam ser menores e mais bempagas”, diz Gustavo Palmieri, encarregado de Segurança Cidadã no CELS, na Argentina. A América Latina conta com níveis de prisão preventiva e efetiva mais altos que na Europa. Também possui prisões que servem para operar centros de reprodução de culturas criminais. Uma medida aponta o mínimo de resultados imediatos: a proibição total nas mãos dos civis de armas de alto calibre e coordenação regional para acabar com o escandaloso mercado seminegro de armas. Q AFP

Luciano Coutinho, do BNDES: menos generosidade

ABr

CRÉDITO EM RISCO

15 DE DEZEMBRO, 2008 / AMÉRICAECONOMIA 41


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AGENDA 2009 INFLAÇÃO

DEMOCRACIA

Em uma das mudanças mais vertiginosas da história econômica recente, o primeiro trimestre de 2009, antes imaginado como um momento chave na luta antiinflacionária global, passou a ser o contrário: o momento no qual poderá ser avaliado se o mundo caminha ou não a uma baixa generalizada nos preços: a temida deflação. Analistas como Trevor Greetham, da Fidelity Investments, acreditam que haja mais possibilidades de uma “reflação”: a queda da inflação em um tempo de atividade escassa, mas não negativa. A queda em massa de todos os preços, característica da deflação, resulta na pior notícia possível: de que poderiam vir novas crises financeiras, com pessoas e companhias incapazes de gerar receitas para pagar suas dívidas. O fechamento das minas de pellets de ferro da Vale é um exemplo do que ocorre nas deflações. Por enquanto os sinais não são claros. O Equador registrou uma deflação de -0,16% em novembro (em 2007 havia sido de 0,5%), mas um pingüim não faz inverno. Na Argentina, em outro exemplo claro, no varejo: o quilo de tomates passou de US$ 4,6 em outubro de 2007 para US$ 0,28 em dezembro (com o preço em julho de US$ 1,8). Sinal de que a demanda está em queda. Q

AFP

TEMPORADA DE PREÇOS BAIXOS

A PROVA DA NICARÁGUA Na Nicarágua, o gabinete presidencial real e a sede da Frente Sandinista estão no mesmo lugar: a casa particular de Daniel Ortega, o presidente do país. Trata-se de um imóvel que pertenceu ao atual vice-presidente, o ex-banqueiro liberal Jaime Morales Carazo, quando ele era inimigo mortal de Ortega e exercia, nos anos 1980, em Washington, um forte lobby a favor dos “contras”, na guerra civil financiada pelo então presidente Ronald Regan. O fato é um sinal da complexidade do cenário político nicaragüense, onde o governo de unidade nacional

orteguista encerrou a divisão entre os antigos sandinistas e os antigos liberais. As manipulações abusivas do governo nas recentes eleições municipais (com a proibição da entrada de observadores da OEA e de Jimmy Carter) alimentam as acusações de fraude. Frente a esta evidência, a União Européia e os EUA suspenderam o dinheiro da cooperação internacional (US$ 43 milhões no primeiro caso), ao mesmo tempo que diversas linhas de crédito, num montante de US$ 40 milhões, dependem da aprovação parlamentar de vários acordos que a oposição deseja bloquear. Desta forma, a Nicarágua se converteu em um ponto simbólico importante para 2009. Um ponto de vista diz que Ortega violou a Carta Democrática Interamericana e o resto dos países da América deveria sancioná-lo. Mas isso supões acusá-lo de efetuar um auto-golpe através de eleições municipais e isolar economicamente a segunda nação mais pobre das Américas, quando Hugo Chávez ofereceu o máximo de apoio. Por isso, a Nicarágua será uma dura e inevitável prova para a habilidade e vigor da diplomacia dos governos latino-americanos e a nova administração de Barack Obama nos EUA. Provas que darão um sinal de como, ou não, lidar com as tentações autocráticas eternamente renovadas na região. Q

RECEITA

POBREZA Com o emprego estável ou em leve queda e as remunerações reais em uma situação parecida, 2009 caminha para ser um novo ano perdido na luta interminável, não para acabar, e sim para moderar, a pobreza na região. “As previsões indicam uma deterioração na renda dos lares, que se concentraria em trabalhadores autônomos e assalariados informais”, prevê o último relatório sobre a pobreza da CEPAL. Com 71

42 AMÉRICAECONOMIA / 15 DE DEZEMBRO, 2008


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AGENDA 2009 SUSTENTABILIDADE

FINANCIAMENTO

AFP

Como em todas as crises financeiras, a atual é vista como uma oportunidade para reformar a arquitetura financeira mundial. Por que não começar em casa? A criação de um fundo de reserva latino-americano, com recursos destinados aos seus países, será um tema que rondará, Teremos nosso próprio Strauss-kahn? se não a agenda, pelo menos as discussões em 2009. Muito foi falado do Bando do Sul como um complemento da Corporação Andina de Fomento, mas a desconfiança do Brasil sobre as intenções da Venezuela e os diversos trâmites burocráticos colocaram a idéia no limbo. Mas isso não quer dizer que não seja um conceito prático. Tanto que os países da Asean, no sudeste asiático, criaram um. “É uma idéia bastante recente”, diz Norberto Iannelli, diretor do Escritório Regional da Secretaria Geral Iberoamericana. “É preciso ver se a quantidade das reservas disponíveis é suficiente para ter um banco capaz de ser aproveitado pelas urgências do dia”, afirma. Um desafio extra seria amortecer a participação (ou não) no banco de todos os organismos que existem hoje (FMI, Banco Mundial, CAF, BID). “Cada um tem um perfil e mecanismos próprios.” E, claro, concordar de onde virá o dinheiro. Q

milhões de indigentes e 182 milhões de pobres (33,2% dos habitantes), a América Latina ostenta um recorde penoso. De fato, em 2008, a indigência aumentou 0,3% (12,6% a 12,9%). Somente na rica Argentina vivem hoje 2,1 milhões de pessoas que nem sempre têm o que comer, o que explica que oito crianças menores de 5 anos morram diariamente por conta dos efeitos da desnutrição. A cifra, revelada por Juan Carr, titular da Rede Solidária e membro do Centro de Luta contra a Fome da Faculdade de Veterinária da Universidade de Buenos Aires (UBA), é inferior ao número de 12 crianças que morreriam por estes motivos cinco anos atrás, “mas oito é um número muito alto para nos conformarmos”, lamenta-se. Q

AP

FUNDO MONETÁRIO LATINO-AMERICANO

AMAZÔNIA SOB PRESSÃO

A regulamentação das propriedades e a delimitação de zonas agroecológicas para o cultivo da cana-de-açúcar, excluindo sua expansão até o Amazonas e o Pantanal, são duas metas da ofensiva do governo brasileiro para 2009, que busca algo hoje impossível: a sobrevivência da selva e uma agricultura e pecuária sustentáveis ao mesmo tempo. Seria possível pensar que a crise econômica dará um respiro ao desmatamento, que em 2008 voltou a crescer em intensidade, após anos de queda. Mas, “imaginar que a crise levará a uma redução das pressões dos setores agropecuários é desconhecer as forças principais por trás de tudo”, desmente Antonio Marcio Buainain, do Núcleo de Economia Agrícola e Meio Ambiente do Instituto de Economia da Unicamp. “Estas forças são: a insegurança jurídica (quanto mais rápido alguém ocupa uma área, maior é a chance virar dono dela) e a tradição da derrubada constante para a criação de gado.” Segundo o especialista, dada a situação, cultivos como a soja e o algodão contribuirão mais para preservar as selvas do que as demais forças, acentuadas em momentos de crise, já que a desestruturação das economias em regiões de fronteira com selvas tende, literalmente, a lançar milhares de famílias para dentro das matas, as quais, sem alternativas, simplesmente acabam com a flora para praticar agricultura de subsistência. No médio prazo, o mundo poderia sobreviver sem o Amazonas; mas não está claro se o Brasil pode. O impacto brutal de sua desapropriação iria para o sistema hídrico e de fertilidade dos solos, o que poderia – como aconteceu no Haiti – destruir o sustento material da economia. Q

15 DE DEZEMBRO, 2008 / AMÉRICAECONOMIA 43


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AGENDA 2009 ELEIÇÕES

IMPOSTOS

MENOS CARGA, POR FAVOR No encontro anual entre empresários chilenos com a presidente Michelle Bachelet, surgiu um pedido de alívio frente à crise: baixar o imposto sobre valor agregado (hoje em 19%). A idéia mostra que, sempre que há crise, o fantasma das reduções tributárias para estimular o investimento e o gasto começa a rondar. “Desde 1994 não se vê um aumento

Piñera: por cima

Após quase 20 anos no timão, é provável que 2009 seja o último ano da Concertación à frente do governo do Chile. Nascido no fim os anos 1980, o pacto político de centro-esquerda recebeu o poder das mãos do próprio Augusto Pinochet. Mas hoje seu encanto foi diluído entre denúncias de corrupção e desgaste pela permanência no poder. Muitos de seus detratores o comparam com o PRI mexicano. Tudo isso permitiu que o empresário Sebastián Piñera, dono da linha aérea Lan, tenha visto crescer sua popularidade quase na mesma medida de seu patrimônio. Embora tenha perdido nas eleições de 2005 para Michelle Bachelet, hoje as pesquisas dão respaldo a ele. Segundo uma pesquisa de opinião feita pela Adimark em novembro, apenas 15,7% aprovavam a gestão do partido governista, e 21,76%, a Aliança do Chile, coalizão de direita encabeçada pelo empresário. Não há dúvida que a ascensão de Piñera ao poder será uma grande notícia sociopolítica para o Chile, país acostumado, desde 1860 até 1973, à alternância de poder. A grande pergunta é se a legenda poderá levar a cabo políticas inovadoras, tanto em profundidade como em sintonia, também na área social, como a promoção de empreendedores e inovação, onde tradicionalmente não se destacou. Q

44 AMÉRICAECONOMIA / 15 DE DEZEMBRO, 2008

CONSTRUÇÃO

SURFANDO A ONDA DO CIMENTO O próximo ano poderia ser denominado como o ano da construção no Peru, pois o plano anti-crise do ministro de Economia e Finanças, Luis Valdivieso, busca dar prioridade às obras para manter os empregos estáveis. É previsto que as exportações peruanas tenham uma forte desaceleração por conta de uma menor demanda e preços mais baixos das commodities. Assim, o governo destinará nada menos que US$ 1 bilhão para garantir créditos hipotecários em programas de construção e anunciou a disponibilidade de créditos de outros quase US$ 10 bilhões com organismos internacionais que podem ser destinados ao financiamento público de grandes obras de infra-estrutura, cuja lacuna é avaliada em US$ 30 bilhões. Se no papel o plano soa coerente, a burocracia pode fazer com que só haja boas intenções. Além disso, Valdivieso – assim como seu antecessor Luis Carranza – já começa a gozar da antipatia do presidente Alan García e dos demais ministros, devido a sua negativa de ceder a pedidos por mais itens. Felizmente, recentemente foi publicado o regulamento das associações público-privadas, elemento que facilitará a implantação da iniciativa. Mas ainda há o fator tempo. A cristalização de projetos de construção pode demorar meses, enquanto a crise ameaça mais rápida e fortemente do que se esperava. O tanque de oxigênio chegará antes da morte do paciente? Em 2009 isso será esclarecido. Q García: impulso à infra

ANDINA

UM EMPRESÁRIO NO PODER

tão grande na arrecadação tributária no Brasil. Hoje, o governo espreme a iniciativa privada e as famílias com uma margem inaceitável”, diz Istvan Kasznar, professor da FGV do Rio de Janeiro. Ele acredita que é melhor que o governo reduza o imposto às empresas para estimular os investimentos. Mas nem sempre os governos estão dispostos a fazê-lo. Em épocas de


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AGENDA 2009

medo de investir o Estado precisa gastar mais e a última coisa que não quer é reduzir suas receitas, já abaladas. Mas o que muitas administrações estão dispostas a fazer é flexibilizar algumas retenções e antecipar devoluções. Um estímulo que poderá aliviar as costas de muitas Pmes em tempos de crise. É suficiente? Assim como no Brasil e no Chile, na Argentina muitos analistas pressionam por uma reforma tributária que distribua melhor os impostos também nos bons tempos para investir. Q

DIAS DE 3G

Enquanto todos tiram o pé do acelerador, Carlos Slim anunciou que sua empresa investirá mais de US$ 3 bilhões durante 2009. A maior parte será para ampliar a capacidade de redes e desenvolver a infra-estrutura 3G. Não é por acaso. A mobilidade seguirá sendo o setor dinâmico para as operadoras de telecomunicações “e um dos segmentos de oportunidades a se levar em conta em 2009”, observa Ricardo Villate, vice-presidente de análise e consultoria para a América Latina da IDC. Em 2008, de um lado, o mercado mostrou um crescimento especial dos smartphones, os quais, em mercados como o argentino, foram multiplicados por cinco, ampliando a base para a venda de serviços de dados e para ganhos maiores por usuário. De g ooutro, a banda larga móvel está em pleno crescimento. As redes 3G p nna região passaram de 25 a 36 em menos de um semestre, abrindo m um espectro de serviços que u muitos esperam ser traduzido m em maior quantidade de oferta de entretenimento, como música ou TV portátil. “Mas o que se vê até o momento, pelo menos na Argentina, é que as operadoras colocaram o 3G como um substituto à escassa cobertura do ADSL, e um complemento ideal para o laptop e a mobilidade”, detalha em Buenos Aires o especialista em telecomunicações Enrique Carrier. “Embora sejam por enquanto movimentos da oferta, teremos que ver como o mercado se desdobrará”, acrescentou. Q

TECNOLOGIA

TELECOMUNICAÇÕES

LIXO DIGITAL EM ALTA, NEGÓCIOS À VISTA Que ninguém se surpreenda se em 2009 a indústria de informática ficar ao lado do Greenpeace na causa ambientalista e os usuários começarem a receber – como os clientes da Dell no Brasil, Colômbia e México – ofertas do fabricante para reciclar gratuitamente os produtos da marca em desuso. Motorola e Epson fizeram a mesma coisa na Argentina para evitar que seus equipamentos obsoletos fossem para o lixo. Mundialmente, mais de 200 fabricantes tecnológicos se uniram para tratar do tema. Isso porque a acelerada obsolescência dos produtos informatizados transformou-se em uma ameaça ambiental e as organizações protecionistas começaram a pedir responsabilidade maior dos produtores. A América Latina não está fora do problema, cada vez maior. Um estudo elaborado pela Plataforma RELAC estima que entre 1983 e 2005 foram vendidos 94,67 milhões de computadores na região, dos quais 27% estariam fora de uso atualmente. Calcula-se que cada equipamento represente nove kg de material, o que significa 230 miltoneladas de resíduos eletrônicos, sem contar aparelhos de TV, rádios e outros dispositivos. Do total, 5% são metais pesados e altamente contaminantes. Por sorte, grande parte do material é reciclável. É possível resgatar 150 kg de cobre, 20 kg de estanho e 300 g de ouro por tonelada processada. Tudo isso atrairá um número crescente de empresas especializadas em buscar a conscientização dos grandes vendedores e dos não poucos usuários. Q 15 DE DEZEMBRO, 2008 / AMÉRICAECONOMIA 45


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AGENDA 2009

PROJEÇÕES AMÉRICAECONOMIA INTELLIGENCE 2009 AMÉRICA LATINA

25

O FIM DE UMA ERA

20 15

A violenta queda nos termos de comércio para os produtos que a região exporta provocará uma queda na atividade econômica. O volume menor de recursos que virão das exportações resultará em uma conta corrente negativa, um menor dinamismo na criação de empregos e uma moderação nos gastos das famílias, A demanda agregada tenderá a frear a alta dos preços, ainda que vários países sigam com inflação de dois dígitos.

8,7 1,7

1,4

10

8,2

5

-1,1 -5

PIB VAR. %

INFLAÇÃO %

DÍV. INTERNA VAR. %

DESEMPREGO %

CONTA CORR. %PIB

-10

ARGENTINA

A INFLAÇÃO MASCARADA Ainda que o Indec divulgue que a inflação no país é inferior a 10%, cálculos independentes a colocam entre 20% e 30%. A tendência no mundo é de queda, mas não se deverá observar necessariamente uma queda significativa, dados os anúncios do apoio ao consumo. A Argentina terá sorte se não entrar em recessão. Se a queda nas vendas do setor automobilístico se mantiverem, o desemprego poderá disparar e a demanda agregada entrar na área negativa.

25 20

18,0

15

11,5

5

1,4

PIB VAR. %

10

-2,0 INFLAÇÃO %

DÍV INTERNA VAR. %

-9,9 DESEMPREGO %

CONTA CORR. %PIB

-5 -10

BRASIL

COMBATE AO DESEMPREGO O gigante sul-americano não estará imune ao contágio internacional. O câmbio flutuante será a grande ferramenta para amortizar o choque internacional ao permitir que o país não deteriore suas contas externas. E sem a inflação como uma ameaça iminente, a política monetária poderá ser um pouco mais expansiva na luta por dinamizar a demanda interna. O crescimento esperado deverá rondar os 2%, ainda que o grande desafio das autoridades seja frear o desemprego.

25 20 15

1,8

5,5

8,0 3,0

10

7,4

5

-5 PIB VAR. %

INFLAÇÃO %

DÍV. INTERNA VAR. %

DESEMPREGO %

-10

CONTA CORR. %PIB

o CHILE

COM FUNDOS E OBRAS Nem os gordos fundos economizados no exterior impedirão que o Chile reduza seu dinamismo. Apesar de os indicadores macro serem estáveis, projetos imobiliários estão sendo paralizados, alguns exportadores de alimentos registram problemas e o preço do cobre cai. A grande dúvida é se haverá demissões no comércio no primeiro trimestre do ano. Se o Chile se salvar dessa retração, será graças a um agressivo plano de obras públicas.

25 20 15

1,8

6,0

5

0,9

-0,9 -5

PIB VAR. %

46 AMÉRICAECONOMIA / 15 DE DEZEMBRO, 2008

10

9,0

INFLAÇÃO %

DÍV. INTERNA VAR. %

DESEMPREGO %

CONTA CORR. %PIB

-10


WORLD ECONOMIC FORUM

AGENDA 2009

COLÔMBIA 25

A HORA DO FREIO O maior problema da Colômbia para 2009 deverá ser o desemprego, que poderá chegar aos 12%. Atualmente as exportações do país se concentram nos EUA, Venezuela e Equador e nenhuma dessas três economias estará bem das pernas em 2009. Isso deverá gerar o enfraquecimento das contas externas, menor dinamismo na demanda interna e um crescimento bem mais moderado que o que o país registrou no último qüinqüênio.

20 15

12,0 2,5

PIB VAR. %

5,2

INFLAÇÃO %

1,0

DÍV. INTERNA VAR. %

10

-2,2 DESEMPREGO %

CONTA CORR. %PIB

25 -5 -10

MÉXICO 25

QUANDO O SÓCIO NÃO COLABORA No terceiro trimestre de 2008 a economia do México entrou em terreno negativo. Sua extrema dependência dos EUA o impossibilita de manter-se à margem da crise. Na capital mexicana, já é notório o fechamento de pontos comerciais. A economia informal será o grande refúgio dos mexicanos em 2009, e por isso não se espera que o índice de desemprego aumente de forma significativa. As autoridades também terão que ter cuidado com as contas externas.

20 15 10

0,5

3,0

1,6

5,1

5

-7,7 PIB VAR. %

INFLAÇÃO %

DÍV. INTERNA VAR. %

DESEMPREGO %

-5 -10

CONTA CORR. %PIB

PERU 25

A OVELHA BRANCA A economia peruana tem se mostrado uma das mais dinâmicas da região nesta primeira década do século 21 e continuará assim. Apesar de que sentirá o freio tanto em suas exportações de minério quanto no consumo interno, em 2009 o país será um dos mais dinâmicos da região, com um crescimento acima dos 5%. Tudo graças à força do avanço de sua demanda interna, que lhe permitirá continuar reduzindo o nível de desemprego.

20 15

5,5

6,5

6,0

10

7,0

5

0,5 -5 PIB VAR. %

INFLAÇÃO %

DÍV. INTERNA VAR. %

DESEMPREGO %

CONTA CORR. %PIB

-10

VENEZUELA

EQUILIBRISMO COM A MOEDA A violenta queda no preço internacional do barril de petróleo vai trazer problemas a uma economia que depende excessivamente do petróleo, não somente para o financiamento do Estado como também da demanda interna. A PDVSA reduzirá suas vendas, que em 2009 não deverão superar os US$ 50 bilhões. É bem provável que haja intervenção no câmbio, seja através da desvalorização ou de uma mudança para o sistema de flutuação flexível.

40,0

40 30 20

14,5 -1,5

-0,5 PIB VAR. %

INFLAÇÃO %

DÍV. INTERNA VAR. %

10

-7,6 DESEMPREGO %

CONTA CORR. %PIB

-10

15 DE DEZEMBRO, 2008 / AMÉRICAECONOMIA 47


DEBATES POLÍTICA FISCAL

RODRIGO DÍAZ CARRIZO

ATAQUE AO PORQUINHO

Para muitos países, chegou o momento de usar os recursos acumulados em épocas de vacas gordas. Os que não economizaram, porém, enfrentarão problemas. Juan Pablo Rioseco, Santiago

O

rçamentos nacionais relativamente altos para estimular a economia em uma época de crise. A receita que vários países da América Latina ensaiam aplicar em 2009 soa perfeita para realizar uma apresentação em Power Point e convencer a todos que a

região tem uma política fiscal anticíclica. Mas não se engane: todo o produto é mais casual do que planejado. O certo é que o gasto não foi elaborado com a intenção de estimular a atividade, mas simplesmente porque os governos pensavam que teriam

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mais receita do que realmente tiveram. Quando a maioria dos países latino-americanos elaborava seus orçamentos, em setembro de 2008, as expectativas dos preços das commodities e o crescimento do PIB – a base para se calcular o gasto – eram mais altas do

que agora. Por trás da explosão da queda do Lehman Brothers, a realidade começou a enviar uma mensagem diferente: o câmbio e a atividade cairiam, o que derrubaria as receitas. E neste novo cenário, os países que conseguiram economizar em tempos de vacas gordas po-


CICLO MALDITO Os países da América Central estão entre os que apresentam as maiores dificuldades. Para começar, têm vivido o ciclo oposto ao racha dos altos preços das commodities da América do Sul. “Ao serem importadores de produtos naturais, o câmbio os castigou nos últimos cinco anos”, diz Juan Pablo Jiménez, economista da Cepal. “São os que menos aproveitaram a

A.LATINA Argentina Bolívia Brasil Chile Colômbia Costa Rica Equador El Salvador Guatemala Haiti Honduras México Nicarágua Panamá Paraguai Peru Rep. Dom. Uruguai Venezuela

2006 2007 2008* 0,1 0,4 -0,3 1,0 0,6 1,0 3,4 2,3 3,0 -2,9 -2,0 -2,6 7,7 8,8 6,9 -3,8 -3,0 -3,3 -1,1 0,6 -0,5 -0,2 -0,1 -0,1 -0,4 -0,2 0,8 -1,9 -1,5 -1,6 0,3 -1,6 -2,1 -1,1 -2,9 -1,9 0,1 0,0 0,0 0,0 0,6 -0,8 0,2 1,2 -1,0 0,5 1,0 -0,2 1,5 1,8 2,3 -1,1 0,6 -2,7 -1,0 -1,7 -1,0 0,0 3,0 -1,8

2009 * -0,1 0,9 1,8 3,7 -3,0 -1,6 -4,1 0,8 -1,7

GASTAR OU NÃO

Resultado global de governos centrais (% do PIB) FONTE: CEPAL, SOBRE CIFRAS OFICIAIS. * METAS OFICIAIS PREVISTAS NO ORÇAMENTO 2009

LIMÃO ESPREMIDO (% do PIB) FONTE: CEPAL

8%

0,0 -0,5

4% 2.4

2.3

1,3 2,3

PERCENTUAL

dem agüentar, mas os que têm seus porquinhos vazios terão que sair em busca de dinheiro lá fora. E não está nada fácil conseguir isso. “Os governos latino-americanos estão em uma situação muito difícil,” afirma Claudio Loser, sênior fellow do Diálogo Interamericano e ex-diretor do departamento do hemisfério ocidental do Fundo Monetário Internacional (FMI). Em condições normais, diz, eles poderiam dedicar-se a gastar da forma como os Estados Unidos e alguns países europeus estão fazendo. Mas nem todos têm a mesma capacidade de incorrer em déficit. Um cálculo do economista indica que a queda das exportações pode ser equivalente a cerca de 2% do PIB da região, ou a algo entre US$ 60 bilhões e US$ 70 bilhões. Três vezes o PIB de El Salvador, por exemplo. E neste difícil equilíbrio entre um gasto reanimador e pouco endividamento, o triste é que países mais bem-preparados nem sempre são os que têm mais necessidades. “A política fiscal latinoamericana é pró-cíclica: no geral, os governos gastam em períodos de auge econômico e menos em recessão,” relatou a edição Perspectivas Econômicas da América Latina 2009, publicada recentemente pela OCDE. E o próximo ano não será exceção.

1.6

1.4 0.6

0% 2004

-1,7

2006

2005

2007

2008

GASTO

MATÉRIA DILUÍDA

Receita fiscal por exploração de recursos naturais não-renováveis

FONTE: CEPAL (b) ano base; (p) cenário pessimista, com queda de 20% adicionais em relação ao ano base

2007

14.0 12.0

2008

2009 (b)

14.6 13.9

2009 (p)

11.4 10.8 10.0

10.0 8.8 8.0 6.6 5.8

6.0

4.9 3.9

4.8 4.5 4.0 2.0

3.5

3.0 2.4

7.9

7.2

8.4

8.0 5.6 4.5

2.7 2.63.0 2.2 2.0 1.6

2.92.7 2.2 1.8

0.0 ARGENTINA BOLÍVIA

CHILE

COLÔMBIA EQUADOR

festa, e hoje são os que estão com mais dificuldades em termos de pobreza, acesso a mercados e liquidez.” E também sofreram os que não têm limitado seus gastos e nem conseguido se cuidar. O Equador é o exemplo mais claro, e já está em moratória técnica. A Venezuela, no entanto, tem reservas importantes e elaborou o orçamento de 2009 com previsões conservadoras (US$ 60 o barril de petróleo). Contudo, Caracas elevou seus gastos até as nuvens nos últimos anos, para além da capacidade de absorção da economia. “Chávez terá que suspender muitos

MÉXICO

PERU

VENEZUELA

dos projetos que prometeu executar no exterior (leia-se “petrodiplomacia”), porque ele não vai aumentar impostos para cobrir o déficit”, salienta Douglas Smith, diretor de estudos da região do América Standard Chartered Bank. E se os preços do petróleo se mantiverem nestes níveis, poderia haver uma deterioração gradual do apoio a Chávez nos próximos dois anos, afirmou John Price, diretor de business intelligence da consultoria Kroll, em Miami. Na Argentina, entretanto, a economia está desacelerando e as receitas fiscais vão diminuir. Embora após

a crise de 2001 o país tenha melhorado sua relação dívida/ PIB, ele não possui reservas “e ninguém quer comprar a dívida argentina”, diz Smith. Desta forma, será muito difícil para o país financiar qualquer iniciativa de expansão fiscal. A carta debaixo da manga é, por mais questionável que seja, recorrer aos fundos de pensão. Uma espécie de economia à força, que permitiria ter um montante de reservas parecido com o do Chile – que alcança US$ 25 bilhões –, o único país que está aplicando uma política fiscal anticíclica planificada e sustentada por anos de poupança. O Chile começou, no início da década, a aplicar uma regra de balanço estrutural que o obrigou a definir o gasto público segundo um cálculo de receita em longo prazo. Isso permitiu gastos maiores quando o preço do cobre – principal matériaprima de exportação e fonte de receita da estatal Codelco – chegava a um mínimo de 60 centavos de dólar por librapeso, mas também permitiu gerar grandes economias quando o valor beirava os US$ 4. Atualmente, o ministro da Fazenda, Andrés Velasco, se gaba de não ter cedido às pressões da época para aumentar o gasto, argumentando que o país devia economizar para os períodos de vacas magras. E sempre que pode, o ministro ressalta que o país possui um fundo soberano de acerca de US$ 25 bilhões, produto dessa política. “O Chile tem guardado recursos, tem uma política fiscal cuidadosa e pode aumentar o gasto sem muito perigo porque lidou com as coisas de forma inteligente”, diz Claudio Loser. “É o único que pode adotar medidas de gasto

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DEBATES POLÍTICA FISCAL anticíclico, keynesiano, para suavizar o impacto da crise,” relata Price, da Kroll. Outros seguiram seu exemplo. Colômbia e Peru têm sido cuidadosos na política fiscal durante os últimos anos. O segundo criou o fundo de Estabilização Fiscal em 2000. De acordo com o governo, ele deveria alcançar os US$ 3,5 bilhões ao final de 2009, quando deve usá-lo para não recorrer a ajustes pró-cíclicos. “O Peru está em uma situação na qual não precisa endividar-se”, disseram autoridades. O Brasil, no entanto, tem feito mais esforços para colocar limites aos gastos do que para estabelecer regras anticíclicas. “Em um país federal, é difícil imaginar uma regra como a chilena”, diz Jiménez, da Cepal. “Nele, o ministro das finanças decide o destino de aproximadamente 40% do orçamento.” Mas isso, ao menos, tem permitido a manutenção das contas em dia, o que foi fundamental para a conquista do investment grade. Em todo caso, analistas locais sentem a necessidade de maiores avanços. Felipe Salto, analista da Tendências Consultoria, em São Paulo, disse que desde o acordo de 1999 sobre as metas de ajuste fiscal, não houve mais reformas. “Hoje o país caminha conforme o ciclo; se cresce, aumenta os gastos; se não, os reduz para alcançar a meta. Mas se hoje está bem na foto, não é só por causa de um esforço fiscal. A ampliação das receitas se deve muito mais ao aquecimento da economia do que a um plano de governo.” E o país segue mostrando um nível de endividamento alto. “Suas opções em manejo de política fiscal são um pouco mais limitadas do que as do

Emergência, emergência! lém dos ornamentos fiscais, não são poucos os países da região que lançaram programas de contingência depois do começo da crise das hipotecas nos Estados Unidos. O denominador comum é garantir a liquidez e assegurar o emprego e a atividade econômica. O México, por exemplo, lançou em outubro um plano para combater a crise: o Programa para Impulsionar o Crescimento e o Emprego. O plano se traduz em usar recursos públicos em cerca de 1% do PIB, ampliando e remanejando o gasto público, agilizando o gasto em infra-estrutura, dando apoio às Pmes e simplificando os trâmites de comércio exterior. O Brasil tem dado ênfase ao seu Plano de Aceleração do Crescimento (PAC), cujos investimentos totais alcançarão os US$ 275 bilhões. Também lançou um pacote de medidas que inclui redução do imposto de renda – que implicará uma renúncia fiscal de R$ 4,9 bilhões – e do imposto sobre venda de automóveis. O Uruguai anunciou nos primeiros dias de dezembro a devolução de impostos a exportadores, o que significará uma injeção de liquidez ao mercado de US$ 100 milhões. Além disso, o Estado entregará créditos especiais ao setor leiteiro e promoverá a participação de empresas privadas em obras de infra-estrutura, com a expectativa de investimentos de até US$ 1 bilhão. O Chile, além das medidas para dar liquidez ao sistema financeiro, anunciou um programa de US$ 850 milhões para melhorar o acesso ao financiamento de exportadoras e pequenas empresas, e outro US$ 1,15 bilhão para estimular a compra de habitações por famílias de renda média, além de ampliar o acesso de pequenas e médias empresas a recursos financeiros. A Argentina, por sua vez, já anunciou que destinará parte das reservas para conceder empréstimos ao consumo e investimento.

A

Chile, Peru e México”, explica Smith. O México, por outro lado, tem economizado, mas talvez não o suficiente. “Os governos que recebem grande parte de suas receitas através de empresas estatais que dependem dos preços das commodities, como a PDVSA, Codelco, Pemex, vão sofrer uma forte diminuição de suas receitas, talvez em até 30%”, acredita Price. “No México e na América Central, o nível de atividade depende em grande medida das exportações aos Estados Unidos, e isso vai custar caro na arrecadação”, acrescenta Loser. Jiménez realça que o país norte-americano sofrerá por

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todos os lados que uma crise poderia golpear: a economia real (exportações), as remessas, o sistema financeiro e o preço das commodities. Além disso, o país elaborou um orçamento considerando o preço do barril de petróleo bruto em cerca de US$ 80, cifra levemente mais alta do que as projeções atuais. Em todo caso, o orçamento de 2009 é assegurando contra uma queda do petróleo com operações de cobertura em mercados financeiros. Isso permite suportar um orçamento razoavelmente maior: US$ 235 bilhões frente aos US$ 200 bilhões de 2008. Não é hora de clamar vitória. O fato de que há três

meses os países estavam pensando em commodities caras e em combater a inflação é sinal de um período de incertezas. Um fator chave será a duração e profundidade da crise. Se for extrema, até o Chile terá que sair ao mercado e buscar financiamento, que será caro e escasso. Seus anos de conservadorismo permitiram ganhar a confiança dos investidores. Mas as nações mais pobres não têm essa vantagem. “Hoje os mercados estão muito mais nervosos”, diz Loser. “E os países que necessitam endividar-se terão que pagar muito mais.” Para Jiménez, da Cepal, o melhor para as nações menos solventes é renunciar a uma política de gastos altos e apertar o cinto. “Costumamos recomendar uma política fiscal anticíclica, mas, para isso, temos que ter algo guardado”, relatou. “Por querer assegurar um nível de atividade neste mês, não podemos colocar em risco a solvência fiscal intertemporal.” Contudo, excetuando-se as más notícias, o clichê de que os países estão mais bem preparados para enfrentar a atual conjuntura parece ser verdadeiro. Há 10 ou 15 anos nenhum país da região teria reservas. “Quando melhoraram as receitas, nos anos 2003, 2004 e 2005, o gasto público não aumentou na mesma proporção”, explica Jiménez. Além disso, os países estruturaram suas dívidas em prazos maiores, o que lhes permitirá, pelo menos, uma folga para manter o gasto sem ter que entrar em desgastantes rodadas de negociação com potenciais investidores. Q Com Solange Monteiro, Santiago, e Antonio Delgado, em Miami


DEBATES ENTREVISTA

Joseph Stiglitz: Mais voz para o Brasil

Edmund Phelps: Prudência monetária

ADMIRÁVEL MUNDO NOVO

O

Rio de Janeiro recebeu em dezembro a visita de dois prêmios Nobel de Economia: Joseph Stiglitz e Edmund Phelps. Em entrevista a Dubes Sônego, editor de AméricaEconomia, eles falaram sobre os acertos nas políticas macroeconômica e monetária que efetivamente fortaleceram a economia brasileira nos últimos anos, e apontaram oportunidades para o País em meio à crise. Entre as boas notícias, o Brasil pode ganhar peso no cenário político internacional.

JOSEPH STIGLITZ

O senhor é um crítico da idéia de que o mercado é capaz de se autoregular. Porém, é comum se ouvir que o Brasil e outros países estão mais bem-preparados que nunca para enfrentar a crise justamente porque seguiram os conselhos do FMI e do Banco Mundial e privatizaram grandes estatais. Não é paradoxal? Algumas coisas que eles recomendaram funcionaram e outras coisas que o Brasil fez contra os conselhos deles, também. Um exemplo. Para o FMI e o Banco Mundial, o Brasil não deveria ter o BNDES ou qualquer dos bancos de desenvolvimento que agora são alternativas aos bancos especulativos. No fundo, o que tanto o Consenso de Wa-

shington quanto o consenso geral sempre disseram é que, se você gasta mais do que ganha, terá problemas. E, em anos recentes, o Brasil passou a viver de acordo com o que ganha. Foi capaz de aumentar seu superávit, construiu reservas sólidas. E foi o que o colocou em melhor posição. O País adotou políticas que eram coincidentes com as sugeridas pelo FMI. Mas porque algumas das sugestões que lhe foram dadas estavam certas.

Como o senhor analisa as condições e as chances brasileiras de aumentar sua influência e sua inserção econômica internacional durante a crise? O fato de a discussão ter começado em uma reunião do G-20, que deveria ser uma

reunião do G-8, em Washington, deu ao Brasil uma voz que de outra maneira o País não teria. E houve considerável discussão na ocasião sobre a maior participação dos mercados emergentes. O importante para o Brasil e outros países em desenvolvimento, é ir além dos assuntos que serão obviamente discutidos: transparência, governança corporativa, etc. Também deve ser dada ênfase às reformas em instituições internacionais; às assimetrias entre políticas típicas de mercados emergentes e países desenvolvidos, que possibilitaram esse fluxo perverso de capitais, e a um comprometimento com a criação de novas instituições de crédito internacionais.

EDMUND PHELPS

O senhor defende que políticas monetárias de curto prazo para controlar a inflação levam a baixas taxas de inflação no longo prazo. Há quem defenda no Brasil que talvez fosse melhor afrouxar um pouco a política monetária para crescer mais, mesmo com um pouco mais de inflação. O senhor concorda? Essa forma de pensar faz algum sentido se você imaginar

que, em um ou dois anos, o nível de emprego crescerá fortemente suportado pela força da iniciativa privada. Poderia se dizer: vamos ter um pouco mais de inflação agora, para alavancar o emprego, e depois lidamos com um eventual aumento das expectativas de inflação. Porém, mais fortes, porque o nível de emprego estará melhor. Mas é uma aposta. Se o nível de emprego não crescer, você terá um duplo problema e estará mais fraco para lidar com ele. É um tipo de jogo muito perigoso. Não quero dizer que é sempre inapropriado. Mas é arriscado. E se compreende que um Banco Central responsável, como o brasileiro, pense duas vezes antes de entrar nesse jogo.

A América Latina será uma importante parceira comercial para que os Estados Unidos atravessem essa crise? É apreciável o desenvolvimento de mercados latinoamericanos como a Colômbia e o Brasil. É claro que qualquer pequena contribuição ajuda. Mas não acho que será fatorchave na recuperação dos EUA. Q

15 DE DEZEMBRO, 2008 / AMÉRICAECONOMIA 51


DEBATES FINANÇAS

Ilhas fiscais: Drible no leão

ATORMENTADOS PELO PARAÍSO

Apesar de os países da OCDE reclamarem o pagamento de impostos, centros financeiros offshore poderão ganhar com a crise

RODRIGO DÍAZ CARRIZO

Soledad Gómez, Santiago

B

em poderia ser o roteiro de um filme de espionagem internacional. Um bancário em Liechtenstein roubou registros de contas e vendeu um CD de informações à polícia alemã, iniciando uma perseguição

que explicitou a maior evasão tributária da história da Europa; e, com furor, os líderes de mais de 40 países reclamaram o pagamento de impostos. O caso está tendo conseqüências muito reais para o pequeno

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principado e para os chamados paraísos fiscais. Além disso, a crise financeira impôs uma nova moda: a de buscar culpados. O vilão da vez são precisamente os paraísos tributários – países que prestam

serviços financeiros e cujas leis permitem evadir impostos em outras nações. Agora, todas as flechas apontam aos hedge funds e à trupe-fantasma que se valia de fundos inexistentes utilizando, entre outros truques, contratos de papel em centros financeiros offshore. Isso quer dizer que 2009 pode ser um ano difícil para estes pequenos esconderijos financeiros. Ou talvez o contrário. O fracasso do sistema financeiro dos países desenvolvidos, especialmente dos impenetráveis intercâmbios entre bancos europeus e norteamericanos, poderá aumentar o fluxo de recursos para esses paraísos. Na América Latina, tanto o Panamá quanto o Uruguai são constantemente saudados como centros de evasão tributária, embora ve-


nham tentando melhorar suas imagens. Segundo Álvaro Calderón, funcionário de assuntos econômicos da Cepal, os centros financeiros mais importantes na região são as Ilhas Cayman, Bermudas, Ilhas Virgens Britânicas e norte-americanas, “que permitem a realização de operações financeiras sem muito controle. Em algumas classificações aparece o Panamá, mas aí a definição é bastante ampliada”. De acordo com o especialista da Cepal, os montantes investidos nestes centros são quase impossíveis de quantificar, ainda que vários esforços sejam feitos para avaliá-los. A estimativa mais elevada é a da Tax Justice Network, que em 2005 estimou em US$ 11,5 trilhões os ativos offshore. Avaliação mais recente, do Oliver Wyman Group, coloca a cifra em US$ 8 trilhões. Mas quanto dano isso gera à economia mundial e qual relação poderia haver entre estes trilhões e a crise financeira? A Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) tem lutado durante anos contra os paraísos fiscais e, alertada pelo escândalo de Liechtenstein, declarou em outubro que os centros financeiros offshore são um perigo à estabilidade econômica mundial. O organismo conta com uma lista de 38 países que qualifica como paraísos fiscais, e já tentou convencê-los a compartilhar informações, segundo Pascal Saint-Amans, funcionário da Divisão de Cooperação e Política Fiscal da OCDE. Três foram classificados como não-cooperativos: Andorra, Mônaco e Liechtenstein. “A este grupo deve ser somado o Panamá, porque é um país que não compartilha nenhuma informação,” diz.

A classificação é considerada um absurdo pelo advogado panamenho Eduardo Morgan Jr., presidente da Morgan y Morgan e ex-embaixador do Panamá nos EUA. “Não se pode impedir evasão tributária, pois é uma competência fiscal. Da mesma forma que Hong Kong e Cingapura (que não estão incluídos na lista da OCDE), nós temos um imposto territorial.” O Panamá apenas registra as rendas produzidas no país, mas não registra as geradas internacionalmente. O advogado sustenta que a intenção da OCDE de tornar estes centros mais transparentes é uma resposta à competência que representam seus próprios sistemas bancários, agora debilitados pela crise. Contudo, Saint-Amans insiste que “não se pode continuar com o sigilo aos esquemas tributários, em tempos de turbulências financeiras evidentes.” Brasil e Argentina criticam o Uruguai pela evasão tributária de seus cidadãos através das Sociedades Anônimas Financeiras de Investimento (Safi). Calderón, da Cepal, diz que o Uruguai tentou converterse em um centro financeiro, mas fracassou por conta do tamanho de seu mercado. Gonzalo Hordeñana, sócio da CHT Auditores e Consultores, confirma que “as Safi apenas pagam um imposto ao patrimônio equivalente a 0,3% e suas ações são ao portador, sem a exigência de identificação do dono”. Entretanto, Tabaré Vásquez já estragou a festa, impedindo a criação de novas Safi e dando até 2010 para que as existentes passem a ser companhias domésticas, que pagam 25% de imposto de renda e 1,5% de imposto patrimonial. É preciso concordar que nem todos os centros financeiros são definidos como paraísos

fiscais. Antes de abandonar as distinções entre centros onshore e offshore, em julho de 2008, o FMI descrevia os segundos como “países ou jurisdições que provêem serviços financeiros a não-residentes em uma escala desproporcional ao tamanho e financiamento de sua própria economia doméstica”. Em outras palavras, países pequenos com grandes aspirações em serviços financeiros. O fato de milhares de não-residentes possuírem contas nos Estados Unidos, Suíça e outros países maiores, nunca foi tema de discussão. Embora inclua os centros financeiros offshore no plano dos demais centros

é transparência, nem o regime tributário, e sim o tamanho. Não obstante, Saint-Amans declarou que muitos desses países têm consentido em participar do Programa de Cooperação Tributária da OCDE. O Panamá o fez em 2002, mas nunca mais voltou a negociar. Quanto à possibilidade de os chamados paraísos fiscais terem algum papel na crise, Morgan é categórico: “é inaceitável que a OCDE agora trate de encobrir sua incompetência colocando a culpa do colapso nos centros que chama de offshore”. Como a crise é oriunda de seus próprios bancos, especialmente nos EUA,

Morgan: “diferença entre paraíso fiscal e centro financeiro é só o tamanho” financeiros, a declaração do FMI nada diz sobre temas tributários, frisando que “a globalização torna desnecessárias as distinções entre estes centros”. Além, disso, como salienta o advogado chileno Franco Brezovic, especialista em temas tributários, “temos que esclarecer o que são paraísos tributários e o que é segredo bancário, que podem ser temas diferentes”. Contudo, quando a OCDE tentou que todos os países de sua lista negra de 1998 adotassem uma regra e firmassem compromisso de compartilhar informações, muitos pediram que o mesmo fosse feito por suas contrapartes. A maior surpresa para a organização foi ver que tanto os EUA quanto a Suíça se negaram a fechar um acordo. Isso deixou claro, para alguns, como o advogado Morgan, que a distinção entre paraíso fiscal e centro financeiro legítimo não

que não registra investimentos estrangeiros nem compartilha nenhuma informação fiscal – exceto com o Canadá –, estes países agora vêem os centros financeiros como ameaça. Segundo Morgan, a posição do FMI é “um golpe na luta contra o que a OCDE chama de paraísos fiscais”. E já faz um ano que o então senador Barack Obama, hoje presidente eleito dos EUA, promoveu a Lei Para Deter o Abuso dos Paraísos Fiscais, calculando que os ativos offshore, especialmente os hedge funds, permitiam a evasão de mais de US$ 100 bilhões em impostos ao ano. Poucos apostam que ele combaterá esses centros financeiros, com todos os problemas em sua agenda. Ainda que o mantra de sua campanha possa ter algum efeito: “sim, nós podemos”. Q Com Eduardo Thomson, Santiago

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Afogada em problemas: Ilha enfrenta três catástrofes naturais e uma financeira

A RESSACA DOS FURACÕES

Enquanto Gustav, Ike e Paloma colocam à prova a sustentabilidade para Raúl Castro, a crise mundial chega à ilha Antonio María Delgado, Miami

H

á um ano, tudo parecia indicar que o governo cubano teria muito o que comemorar no qüinquagésimo aniversário da revolução. Imaginava-se que Fidel Castro continuaria de fora do poder diário, e também já tinham sido dissipadas as dúvidas sobre a capacidade de seu irmão Raúl de manter-se no comando. Além disso, as perspectivas econômicas eram promissoras: com os preços do níquel, produto de exportação da ilha, nas nuvens, o boom turístico

e o petróleo subsidiado por Hugo Chávez, as taxas de crescimento dispararam. Tudo mudou devido a quatro furacões. Três oriundos de problemas climáticos, e um advindo do turbilhão financeiro. Com danos que superam os US$ 10 bilhões, a passagem dos furacões Gustav, Ike e Paloma pela ilha em um intervalo de poucas semanas destroçou a já deficitária produção agrícola. Também causou extensos danos à infra-estrutura e deixou centenas de milhares de pessoas

54 AMÉRICAECONOMIA / 15 DE DEZEMBRO, 2008

desabrigadas. Paralelamente, o ciclone da recessão global abateu os preços do níquel (fonte de recursos), e ameaça afastar o fluxo turístico. Isso sem contar com os problemas previstos para Chávez. Segundo Phil Peters, vice-presidente do Lexington Institute, um think tank apartidário com sede em Washington que acompanha de perto a economia cubana, “o impacto dos furacões na ilha foi devastador. Mais de 500 mil casas foram destruídas e

a produção de alimentos foi prejudicada de três formas”. Por um lado, com a própria destruição das colheitas. De outro, “as autoridades também perderam grande quantidade de produtos quando os armazéns em que elas estavam foram destruídos”. E, finalmente, um dado que se tende a esquecer, “foram perdidas as plantações, algumas das quais requerem vários anos de crescimento antes que comecem a dar frutos”, relembra Peters. Devido a tudo isso, “há

AP

DEBATES CUBA


um verdadeiro problema de segurança no abastecimento de alimentos”, acrescentou. “Não estou dizendo que estejam passando por uma situação de fome, mas agora possuem um problema que não tinham antes.”

NA FILA A escassez começou a ser sentida nas ruas imediatamente depois da passagem dos furacões. Até em Havana, cidade que não sofreu diretamente os golpes dos três fenômenos climáticos, as pessoas foram obrigadas a passar até seis horas em filas para conseguir alguma verdura. “O tema dos alimentos toca fundo... as pessoas só perguntam por comida”, relata a dissidente Yoani Sánchez, em seu célebre blog Generación Y, que escreve a partir da capital cubana apesar da censura do governo (ela foi proibida pelas autoridades de viajar para receber o Prêmio Ortega y Gasset de Jornalismo na Espanha e o Bobs, da Deutsche Welle, na Alemanha). Mas o pior está sendo visto nas províncias de Holguín e Piñar del Rio, que sofreram os golpes mais duros dos ciclones. “Há dois ou três lugares da ilha nos quais a situação está muito difícil”, comenta Jaime Suchlicki, diretor do Instituto de Estudos Cubano e CubanoAmericano. “Há milhares de casas sem teto, há gente sem água potável e que enfrenta sérias dificuldades para conseguir alimentos”, afirma. No restante do país, dá para conseguir alimento com mais facilidade. Mas o estado de escassez é detectado nos preços dos produtos no mercado negro, onde um ovo agora custa o equivalente a um terço do salário médio dos cubanos. Os problemas de abastecimento levaram as

autoridades a tentar combater a entrada de produtos neste mercado, e recentemente centenas de pessoas foram presas sob a acusação de vender produtos sem autorização. O problema básico é que Cuba deve ser muito cuidadosa com sua conta em dólares. A destruição das colheitas deve impulsionar a importação de alimentos. Além disso, os preços do níquel, que – juntamente aos do cobalto – é uma das matérias-primas de exportação do país, caiu de US$ 50 mil a tonelada em 2007 para os atuais US$ 15 mil por tonelada. Outro item restritivo é o impacto da crise nos Estados Unidos no envio de remessas. Acredita-se que a crise mundial repercutirá no envio de

fortes desacelerações e crescimento do desemprego.

FALTAM CASAS Uma queda na receita implica que o governo terá mais dificuldades para reparar os danos causados pela passagem dos furacões. O número de casas destruídas agrava ainda mais o sério déficit habitacional que os cubanos enfrentam. Pode tudo isso levar a um descontentamento aberto? “O governo sente que pode manter-se na dianteira sem maiores percalços. Está completamente seguro que o povo não sairá às ruas. O aparato de segurança funciona. Não estão muito preocupados, porque não há grande perigo”, resume Suchlicki. Peters, por sua vez, salien-

seu “novo” amigo: a Rússia. “Os russos estão arrependidos de ter abandonado Cuba nos anos 1990 devido à evolução de sua relação com os Estados Unidos”, afirma uma fonte que acompanhou a visita de Dmitri Medvedev e prefere permanecer anônima. Poucos dias antes, Igor Sechin, vice-premiê russo, concedeu um crédito de US$ 20 milhões a Cuba para investimentos em projetos petrolíferos (prospecção de águas profundas) e de níquel. Contudo, a população tem motivos para reclamar. A escassez “tornou mais evidente as profundas diferenças sociais entre os que podem dispor de uma reserva alimentícia, tabelas e rádio a bateria, e aqueles que dependem exclu-

A queda do preço internacional do petróleo ameaça cortar a entrada de recursos nos cofres venezuelanos e sua assistência à ilha. dinheiro dos cubanos exilados, que atualmente alcança cifras entre US$ 600 milhões e US$ 800 milhões, por ano.

TURISTAS BEM-VINDOS A segunda incógnita na equação do financiamento está na atividade turística. Até o momento, o fluxo de visitantes na ilha se mantém estável. O governo de Havana informou recentemente que espera fechar o ano com um total de 2,34 milhões de visitas e superar os US$ 2,2 bilhões que obteve no ano passado como receita do setor. A tendência, contudo, pode mudar em 2009. Espanha, Itália e Canadá, principais origens de turistas na ilha, enfrentam

ta que essa estabilidade de receita do governo depende, em parte, da assistência que recebe de países amigos, como a Venezuela, cujos aportes em petróleo equivaleram a mais de US$ 3,2 bilhões este ano. Sob esse ponto de vista, a diminuição dos preços do petróleo bruto ameaça cortar severamente a entrada de recursos nos cofres venezuelanos, e ainda falta ver se o governo de Chávez continuará com a mesma disposição frente a Cuba. Mas, sob outro ponto de vista, o barril mais barato torna menos custosa a troca do insumo por serviços médicos. Além disso, Cuba possui um velho amigo que agora é

sivamente da gestão oficial”, denunciou a valente Sánchez em seu blog. “A voracidade por ter agora o que o amanhã não oferece fez com que os habitantes de um povoado de Piñar del Rio utilizassem foices para alcançar as cem telhas de amianto repartidas de um caminhão”, revelou, em um de seus textos. É um pouco irônico que, em meio século de revolução, seja um presidente negro norte-americano, e não um líder negro cubano, a principal esperança de uma vida melhor para Cuba. Em tal contexto, o fim do embargo comercial norteamericano seria um desafio benéfico para o regime da ilha. Q

15 DE DEZEMBRO, 2008 / AMÉRICAECONOMIA 55


DEBATES AMÉRICA CENTRAL

KATTIA VARGAS

Cidade da Guatemala: Muitas mudanças em 25 anos

REDESCOBRINDO O ISTMO

Nosso colunista percorre a América Central e nos adianta o que contará ao próximo governo dos EUA Abraham Lowenthal

I

magine se seu irmão gêmeo despertasse hoje de um coma de 25 anos e pedisse que você contasse sobre as principais mudanças ocorridas na América Central. O que você responderia? Minha última visita à região foi justamente há 25 anos. Passei pelo continente em diversas oportunidades, nos fins dos anos 1970 e durante o começo dos 1980, mas não

retornei nesse último quarto de século. Assim, voltar a pisar na região no final de 2008 foi quase como acordar de um coma. Imediatamente após a eleição de Barack Obama e em meio à crise econômica internacional, viajei por três semanas a Guatemala, El Salvador, Nicarágua e Panamá, com o objetivo de avaliar como estes países mudaram com o

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tempo. Meu objetivo foi pesquisar para um livro intitulado “Repensando as relações entre Estados Unidos e América Latina” e, também, adquirir uma percepção mais imediata da situação atual destes países, para poder oferecer uma opinião ao próximo governo dos EUA. A idéia principal que ficou foi: a região mudou muito e melhorou em diversas dimen-

sões nos últimos anos. Mas também há muitos desafios e problemas pendentes que podem ser agravados pela atual crise econômica. Vejamos. A grande boa-nova para meu irmão gêmeo que saiu do coma é que Nicarágua e El Salvador estão em paz, enfrentando desafios políticos, mas sem uma guerra civil à vista. Há 20 anos, a Guatemala ainda estava imersa em um cruel ciclo de insurgência rural e repressão genocida. Agora conseguiu várias transações executivas pacíficas e a inauguração, em 2008, de um governo democrata de centro liderado por Alberto Colom, que busca fortalecer os programas sociais, aumentar os impostos e fortalecer o Estado. Tudo isso era francamente


AFP

impensável há 20 anos. O Panamá, nesse período, encontrava-se sob o poder do corrupto e repressivo Coronel Manuel Noriega; agora ele está preso, a imprensa panamenha é mais livre, suas eleições são competitivas e amplamente aceitas como legítimas. No âmbito econômico e produtivo, as notícias também são excelentes. Guatemala, El Salvador e Nicarágua, em níveis distintos, diversificaram suas economias, deixando de depender excessivamente das exportações de café, açúcar, algodão e carne, para dar mais ênfase a produtos menos tradicionais (frutas, hortaliças, flores, produtos marítimos e frango). As montadoras e indústrias têxteis, de autopeças e chips de computador, o turismo e o setor de serviços, incluindo call centers, também prosperaram. O Panamá, por sua vez, obteve êxito na reversão de posse do Canal, expandindo seu porto e instalações de maneira considerável e desenvolvendo grandes centros de serviços bancários e legais. A construção está em pleno auge, o turismo se expande, e o país, estimulado pela expansão do Canal, está experimentando níveis invejáveis de crescimento, com reduções significativas no número de pessoas que vivem na miséria e pobreza extrema. Os quatro países se fortaleceram devido à expansão considerável de investimentos e ao comércio inter-regional, e pelo melhorado acesso ao mercado norte-americana através da DR-CAFTA (acordo de livre comércio entre Estados Unidos e os países da América Central e República Dominicana, no Caribe). O grande fluxo imigratório, principalmente aos Estados Unidos, especialmente a partir

As gangues, como a “mara Salvatrucha”, substituíram as guerrilhas como fonte de medo em toda a região. de El Salvador e Guatemala, aliviou a pressão sobre o emprego, forneceu um fluxo vital de remessas (que alcançam 18% do PIB no caso do primeiro país) e produziram importantes intercâmbios nãomonetários, como de idéias, técnicas e aspirações. Ainda considerando o anteriormente dito, é certo que os muitos habitantes do continente que ainda são muito pobres e historicamente excluídos, incluindo os povos indígenas da Guatemala, permanecem substancialmente em desvantagem. Mas já não são brutalmente silenciados, têm acesso a diversos canais para expressar suas necessidades e prioridades, e sua situação tem melhorado de forma lenta, porém segura. Os investimentos em educação foram expandidos significativamente e as estatísticas de alfabetização e anos

de escolaridade melhoraram bastante. Esse panorama correria o risco de ser falsamente feliz, se não ressaltássemos o fato de que cada um desses países se mantém bastante dividido, não obstante, entre as classes privilegiadas e os setores majoritários da população, mergulhados em pobreza ou pobreza extrema. Ambas as categorias chegam a compor metade da população na Guatemala e Nicarágua, mais de 30% em El Salvador e mais de 28% no Panamá, o mais rico dos quatro. Apesar de a política e as comunicações terem se democratizado, o acesso aos grandes ativos econômicos e à educação de qualidade segue extremamente restrito. Um crescimento econômico importante ocorreu desde 1990 no Panamá, El Salvador

e Guatemala, e desde 2000 também na Nicarágua, mas os benefícios do crescimento continuam sendo distribuídos de forma desigual nos quatro países. A elite guatemalteca possui mais helicópteros per capita do que qualquer outro país (admitindo o terreno montanhoso), mas os índices de desnutrição, ainda que tenham melhorado, continuam entre os piores do mundo. O contraste entre as casas e estilos de vida dos ricos e dos pobres, tanto em áreas urbanas quanto rurais, é impactante. Outra má notícia é a de que as instituições políticas em todos estes países permanecem frágeis. Os presidentes e parlamentares são eleitos em sufrágios reconhecidos e aceitos como legítimos, mas rapidamente perdem a legitimidade devido à corrupção e ineficiência. A confiança

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pública na maioria dos presidentes é baixa, e ainda mais baixa no caso do poder legislativo. Isso parece muito ruim? Pois ainda tem mais. O sistema judiciário é amplamente reconhecido como corrupto, comprometido e incapaz de encontrar responsáveis ou vencer a impunidade. Os partidos políticos são débeis, com a exceção de El Salvador, onde o conflito entre Arena e FMLN poderia polarizar o país novamente. As legendas são formadas e desaparecem com surpreendente velocidade na Guatemala, e os partidos são meros veículos pessoais na Nicarágua. Em cada um destes países, existe algum perigo de reversão para governos autoritários, com sinais mais evidentes na Nicarágua, especialmente na evidente manipulação governamental das eleições municipais em novembro para evitar o triunfo da oposição em Manágua e várias outras cidades. Vinte e cinco anos depois de que ditaduras cruéis e guerras civis não menos duras levaram medo ao istmo, felizmente agora há menos temor de uma possível intervenção militar na política. Mas a angústia agora cobrou uma cara nova: a polícia deixou de ser efetiva; agora é incapaz de prover os elementos básicos de segurança cidadã, sobretudo na Guatemala e em El Salvador. Assim como a imigração provê o benefício das remessas com uma mão, com a outra a deportação da juventude criminosa contribui ao crescimento de sanguinárias máfias juvenis conhecidas como maras, tanto em El Salvador quanto na Guatemala. O crime violento, incluindo o homicídio, é alto em am-

AFP

DEBATES AMÉRICA CENTRAL

A Nicarágua corre o risco de sucumbir ao autoritarismo. bos os países e transpassou a barreira das gangues juvenis e cartéis do narcotráfico para uma ameaça onipresente por parte do crime organizado. Antes, “corria-se risco ao dizer algo desatinado ou pertencer ao partido político equivocado”, me disseram na Guatemala, “mas hoje se pode morrer simplesmente por estar do lado errado da rua no momento errado”. O resultado? As pesquisas de opinião ao longo da região, inclusive no Panamá, mostram que os cidadãos estão preocupados com o crime e a impunidade. Em El Salvador e Guatemala, há muito mais seguranças privados que policiais. A Nicarágua parece ser o menos afetado por esse temor,

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em parte porque o país, assistido pela milícia sandinista, desenvolveu forças militares e policiais profissionais que ainda funcionam bem. No Panamá, ainda que a opinião pública esteja preocupada com o crime e o narcotráfico, também existe o medo de que algumas medidas sejam tomadas para combatê-los possam se transformar em objeto de abuso. O último, mas não menos importante, é que o papel dos EUA nestes países mudou dramaticamente desde o intenso intervencionismo dos anos 1980. Washington segue tendo influência importante neles, mas de maneira mais difusa. A época em que o presidente Ronald Regan poderia declarar irrefutavelmente que os EUA

tinham interesse vital de segurança nacional na política interna centro-americana já é passado. Mas os vínculos de interdependência, reforçados pela proximidade e o legado, fazem com que a América Central seja importante para os EUA. Não seria muito difícil para a nova administração de Obama voltar a ter um impacto positivo na região. Como? Com medidas. Algumas simples. Estendendo o status de proteção tempoária para os imigrantes salvadorenhos, por exemplo. E outras mais trabalhosas: impulsionar uma reforma migratória e levar adiante o tratado de livre comércio com o Panamá no Congresso. Não menos importante seria o efeito de trabalhar próximo às agências de cooperação internacional para melhorar o desenvolvimento econômico e a assistência em casos de desastres naturais. E, essencial, ajudar a enfrentar a pobreza extrema como parte de um programa sólido e permanente de nível mundial. Seriam investimentos modestos frente ao gigantismo dos desafios em outras regiões do planeta, mas positivos em uma comunidade de nações que de tempos em tempos, para o bem ou para o mal, reaparece na agenda da política exterior norte-americana. Q Abraham Lowenthal, professor de Relações Internacionais da Universidade de Southern California, presidente emérito e pesquisador sênior do Pacific Council on International Policy e pesquisador sênior não-residente do Brookings Institution.

leia a versão completa desta análise em WWW.AMERICAECONOMIA.COM.BR


DEBATES 5a COLUNA

Susan Kaufman Purcell

Capitalismo do Século 21 ESTÁ CLARO QUE a América Latina não poderá se isolar por completo da crise financeira mundial. O Fundo Monetário Internacional agora prevê que o crescimento econômico na região será de apenas 2,5% em 2009, em comparação com a projeção anterior de 3,2%. Os países que dependem mais da exportação de commodities serão os que sofrerão as maiores quedas no crescimento, com a Venezuela liderando a lista. Aqueles países com exportações mais diversificadas, como Brasil e México, verão menores baixas. Não há um consenso, contudo, quanto à duração da crise. Os otimistas crêem que o pior terá passado no final de 2009, enquanto os pessimistas acreditam que se estenderá até 2010 e mais à frente. Se já é difícil prever o impacto econômico que a crise terá na América Latina, será mais difícil antever os impactos que terá na arena política. Há algumas décadas, o cientista político Ted Gurr escreveu um livro chamado “Por que a gente se rebela”. Nele, dizia que as rebeliões surgem normalmente quando os períodos de crescimento e de oportunidade são revertidos subitamente. Se bem que seu argumento é mais uma hipótese do que uma regra se nos perguntarmos sobre a futura estabilidade política na América Latina. Por exemplo, a recente alta nos preços das matériasprimas levou a uma aceleração no crescimento econômico e a uma melhora nos padrões de vida, que permitiu a muita gente subir ao status de classe média ou pelo menos sonhar com isso. A América Latina também se caracteriza por uma enorme desigualdade na distribuição de renda. E, onde a tecnologia permitiu, líderes populistas moveram suas massas em protestos contra seus respectivos governos. A existência de enormes grupos não integrados à economia nacional ou ao sistema político, como alguns grupos indígenas, aumenta o potencial de mobilização destas forças. Esse potencial também é aumentado pela ausência de sistemas de apoio social que permitam mitigar os golpes de uma súbita baixa nos níveis de vida. Entretanto, nem todos os países da América Latina estão igualmente expostos à instabilidade política. Os menos vulneráveis possuem sistemas políticos bem institucionalizados

e responsáveis que não dependem de um só indivíduo para sua estabilidade. Também diversificaram suas exportações, possuem enormes reservas em moeda estrangeira e baixos níveis de dívida externa. E um ou dois que adotaram políticas fiscais anticíclicas e que reservaram parte de suas novas riquezas para os períodos de vacas magras. Para estes países, a crise representa uma oportunidade de reduzir possibilidades de maior instabilidade política no futuro, por meio da implantação de reformas que fortaleçam suas instituições políticas, elevem a produtividade e competitividade de suas economias e ofereçam oportunidades para os mais pobres. Exemplos destas reformas incluem investimentos em educação e infra-estrutura como rodovias, portos e tecnologia da informação, que por sua vez promovem empregos e geram maior crescimento econômico do que simplesmente entregar dinheiro à população. Os investimentos que melhorarem os níveis de segurança, reduzindo o crime e a corrupção, fortalecem tanto as instituições políticas como o potencial econômico do país. A crise financeira mundial também representa uma oportunidade para que aqueles países afetados por caudilhos populistas mudem de rumo. O populismo sem recursos abundantes para distribuir é difícil de manter. Há duas óbvias alternativas para esta problemática situação. Uma é manter a estabilidade por meio de métodos cada vez mais autoritários de governo. A outra é implantar políticas economicamente sustentáveis e produtivas. A recente conduta dos caudilhos populistas na região mostra que a primeira opção é mais provável que a segunda. Mas o fortalecimento dos caudilhos populistas como resultado da crise financeira mundial não é uma conclusão inelutável. Muito dependerá da conduta dos grupos de oposição democráticos e de sua capacidade de oferecer uma alternativa econômica atrativa ao populismo autoritário. As recentes eleições na Venezuela mostram que isso pode acontecer se os movimentos de oposição trabalharem juntos e se unirem sob uma bandeira de um candidato único em eleições de qualquer nível de governo. Também, o que se requer é uma alternativa econômica ao populismo – o que o analista político venezuelano Aníbal Romero chama de um programa de modernização capitalista. Isso vai demandar a reestruturação do atual sistema capitalista da América Latina, que só serve para perpetuar uma estrutura social e de distribuição de renda totalmente desigual, a um capitalismo que é mais produtivo e eficiente e que conceda emprego, renda e oportunidades de progresso a percentuais maiores da população. É uma meta difícil, mas, já que cada crise apresenta novas oportunidades, não é impossível. Q

O fortalecimento do caudilhismo como resultado da crise financeira não é uma conclusão inelutável

Diretora do Centro de Política Hemisférica da Universidade de Miami 15 DE DEZEMBRO, 2008 / AMÉRICAECONOMIA 59


SOCIAL CONFERÊNCIAS E-LAB NA AMÉRICA LATINA Visa e AméricaEconomia novamente uniram forças para pesquisar sobre o auge e as perspectivas de crescimento do comércio eletrônico, através da realização do segundo estudo “Situação e Tendências em Comércio Eletrônico” na América Latina e no Caribe. A partir dos dados e tendências do estudo, estabeleceu-se um diálogo multifuncional que incorporou os principais atores do mercado na série de conferências “As Oportunidades do Comércio Eletrônico na América Latina”, realizadas nas cidades cidades de Lima, Buenos Aires, São Paulo e Cidade do México.São Paulo.

Graciela Schvartzman, gerente comercial da Visa Argentina, expõe na conferência realizada na Argentina.

Panorâmica da platéia durante o evento.

Guillermo Rospigliosi, diretor executivo novos canais da Visa para América Latina e o Caribe, apresenta-se na reunião realizada Lima.

José María Ayuso, diretor geral produtos da Visa América Latina.

Nils Strandberg, presidente AméricaEconomía.

Nils Strandberg, presidente de AméricaEconomia; Jaime Mourao, de Lan.com; Mario Giuffra, gerente geral da Promotik; Víctor Alarcón Ramírez, professor da Centrum Católica; Javier Draxl, diretor da Go2Peru; Juan Francisco Rosas, gerente geral de www.peru.com / www.iquiero.com, e Guillermo Rospigliosi, vice-presidente adjunto de comércio eletrônico e novos canais da Visa para América Latina e o Caribe.


Eduardo Coello, diretor geral da Visa México.

Alguns dos palestrantes da Conferência realizada em São Paulo.

Jaime Mourao, da Lan.com; Mario Guiffa, gerente geral da Promotik; Víctor Alarcón Ramirez, professor da Centrum Católica; Javier Draxl, diretor da Go2Peru; e Juan Francisco Rosas, gerente geral da www.peru.com / www.iquiero.com.

Alguns dos painelistas, no final da conferência na Cidade do México.

Raúl Diez-Canseco, fundador e presidente do Conselho da Universidade San Ignacio de Loyola, expõe no evento realizado em Lima.

Os expositores, no final do evento na Cidade do México.


ESPECIAL

NEGÓCIOS 2008

Atividade subterrânea Com tantas notícias sobre a crise econômica mundial, surpreende saber que a atividade de fusões e aquisições na América Latina continuou crescendo. E, para 2009, há quem ainda veja mais oportunidades tentadoras. Karen Hernández e Eduardo Thomson, Santiago, Lisia González, Cidade do México

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oje Wall Street pode parecer uma cidade fantasma. Os grandes bancos de investimento estão mais preocupados em anunciar demissões do que estruturar novos negócios de fusões ou aquisições. Alguns órgãos de imprensa afirmam que a atividade de M&A (acrônimo em inglês para fusões e aquisições) se contraiu mais de 20% em 2008 nos Estados Unidos em relação ao ano anterior, e que 2009 tampouco será auspicioso. A queda nos Estados Unidos faria qualquer um pensar que o panorama é o mesmo em todos os cantos do planeta, incluindo na lista a América Latina. Mas não é. De fato, a região registrou um leve aumento no número e no volume de transações na região, segundo dados do serviço de informação sobre fusões e aquisições DealWatch. O volume de operações na América Latina subiu de US$ 115,2 bilhões em 2007 a US$ 116,9 bilhões até 4 de outubro deste ano. O Brasil registrou a maior expansão no número e em volume de operações ao longo do período. Cresceu de 417 transações avaliadas em US$ 41,3 bilhões em 2007 para 562 operações, que correspondem a um valor total de US$ 61,4 bilhões em 2008. Devido a isso, não é de se surpreender que vários banqueiros de investimento e administradores de fundos que atuam na região consultados demonstrem otimismo frente às perspectivas para 2009. Por exemplo, para o setor de private equity, o panorama se apresenta positivo, garante o presidente da administradora de fundos Wamex México, Ernesto Warnholtz. 62 AMÉRICAECONOMIA / 15 DE DEZEMBRO, 2008

“ainda que soe um pouco estranho, a crise pode nos beneficiar, porque certamente o crédito será reduzido, os juros subirão e, por outro lado, existirão oportunidades de compra porque existirão empresas em dificuldades. Então, fundos de capital privado como o nosso, com os recursos que têm, poderão entrar no lugar dos bancos e dos empréstimos com participação acionária”. Entre os países mais atraentes, o Brasil permanece na dianteira. “Vemos que nos últimos anos a economia brasileira tem demonstrado mais dinamismo que a

Colômbia e Peru têm registrado taxas de crescimento muito altas nos últimos anos, o que os torna países atraentes. “Se tentássemos comparar a América Latina com a Ásia, poderíamos dizer que o Brasil é a China, e que a Colômbia é o Vietnam”, diz Héctor Cateriano, diretor geral do Fondo Transandino Colombia. Cateriano explica que a Colômbia poderia ser a terceira economia capaz de desenvolver um potencial para futuras transações de fundos de capital privado na região, depois do México e do Brasil, devido a seu mercado interno de 45 mil-

O Brasil continuará sendo um dos países mais atraentes para fusões e aquisições. Já a recente desvalorização do peso poderia motivar novos atores estrangeiros a focar-se no Chile. Colômbia e Peru registraram atraentes taxas de crescimento. mexicana, e isso continuará no próximo ano”, comenta Diego Serebrisky, managing director da administradora de fundos privados Advent International México. No caso do Chile, a recente queda no valor do peso poderia motivar novos atores estrangeiros a voltarem seus olhos ao país. “O peso desvalorizado em mais de 30% favoreceria a entrada de fundos de private equity regionais e internacionais. Durante 2008, devido à fortaleza do peso, a entrada no Chile não era suficientemente atraente”, diz Marcelo Ratafiá, da área de fusões e aquisições da PricewaterhouseCoopers no Chile.

hões de pessoas, à recente formação de uma classe média com acesso ao crédito e o avanço dos processos de paz. Menos alentadora é a opinião de Manuel Solanet, sócio do banco de investimento argentino Infupa, que garante que em seu país o anúncio de estatização das AFPs foi o tiro de misericórdia para esfriar totalmente o ânimo dos investidores. “Mundialmente, supomos que os mercados vão se tranqüilizar pouco a pouco. Com isso, o crédito e os investimentos voltarão lentamente. No âmbito local, não prevemos que haja novas notícias que estimulem o investimento”, afirma Solanet. Q


ESPECIAL

NEGÓCIOS 2008 DATA: 3 de novembro ATIVO: Itaú e Unibanco VALOR: US$ 12,2 BILHÕES PAÍS: Brasil Itaú e Unibanco, dois dos principais bancos do Brasil, anunciaram sua fusão, que criará uma das dez maiores instituições financeiras do mundo, com US$ 265 bilhões em montante de ativos. A operação, que ainda depende da aprovação do Banco Central, cria uma instituição financeira com capital acionário de US$ 23,6 bilhões.

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DATA: 25 de abril ATIVO: Brasil Telecom VALOR: US$ 3,51 BILHÕES PAÍS: Brasil COMPRADOR: Oi Depois de meses de árduas negociações, a Oi chegou a um acordo para comprar 22,3% da Brasil Telecom Participações, controladora da Brasil Telecom. A operação, entretanto, somente se concretizará depois da aprovação do governo, apesar de a lei atualmente proibir que uma companhia brasileira de telecomunicações compre outra.

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DATA: 17 de janeiro ATIVO: IronX VALOR: US$ 3,5 BILHÕES PAÍS: Brasil COMPRADOR: Anglo-American A companhia britânica Anglo-American acordou comprar 63,3% da IronX, empresa conformada por ativos de ferro do grupo MMX, do empresário Eike Batista. A IronX tem uma participação de 50% no projeto Minas-Rio e de 70% no Amapá.

Steel y Nisshin Steel. Um consórcio japonês acordou comprar 40% da Nacional Minerios S.A. (Namisa), filial da Companhia Siderúrgica Nacional (CSN). A empresa produz aproximadamente 20 milhões de toneladas de ferro ao ano. DATA: 26 de maio ATIVO: Grupo Financiero Inbursa VALOR: US$ 2,45 BILHÕES PAÍS: México COMPRADOR: La Caixa O banco espanhol La Caixa comprou 20% de grupo financeiro mexicano Inbursa. Esse, por sua vez, continuará sendo controlado pelo empresário mexicano Carlos Slim.

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DATA: 12 de junho ATIVO: OGX Petróleo e Gás VALOR: US$ 3,41 BILHÕES PAÍS: Brasil OGX Petróleo e Gás, do empresário Eike Batista, realizou a maior saída à bolsa da história do Brasil ao colocar 15,3% da empresa no mercado.

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DATA: 17 de outubro ATIVO: Namisa VALOR: US$ 3,21 BILHÕES PAÍS: Brasil COMPRADOR: Itochu, Nippon Steel, JFE Steel, Posco, Sumitomo, Kobe

DATA: 9 de maio ATIVO: Fresnillo VALOR: US$ 1,77 BILHÃO PAÍS: México O grupo mexicano Peñoles completou a saída à bolsa, colocando 22,7% de sua recentemente separada filial Fresnillo na Bolsa de Londres. Peñoles é o maior produtor de prata do mundo e o segundo produtor de ouro no México.

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DATA: 6 de agosto ATIVO: Aracruz Celulose VALOR: US$ 1,71 BILHÃO PAÍS: Brasil COMPRADOR: Votorantim Celulose e Papel A brasileira Votorantim Celulose e Papel (VCP) concluiu a compra de 12,4% da Aracruz Celulose. Com isso, aumentou sua participação no maior produtor mundial de polpa branqueada de eucalipto para 56%.

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alto mar VALOR: US$ 2,1 BILHÕES PAÍS: Brasil e EUA COMPRADOR: StatoilHydro A petrolífera norte-americana Anadarko Petroleum decidiu vender 50% do campo petrolífero Peregrino, na Bacia de Campos, e 25% do campo Kaskida, no Golfo do México. Peregrino prevê produzir 500 milhões de barris logo a partir do início de sua operação em 2010, enquanto Kaskida concentra um importante campo de hidrocarbonetos.

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Roberto Setúbal, presidente do Itaú: banco de US$ 23,6 bilhões

DATA: 20 de novembro ATIVO: Banco Nossa Caixa VALOR: US$2,28 BILHÕES PAÍS: Brasil COMPRADOR: Banco do Brasil A instituição financeira estatal Banco do Brasil anunciou a compra de 71,3% do Banco Nossa Caixa, que estava em mãos do estado de São Paulo. Com a operação, o Banco do Brasil se converterá no segundo maior banco do país em termos de ativos.

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DATA: 4 de março ATIVO: Campos de petróleo em

DATA: 6 de março ATIVO: ArcelorMittal Inox Brasil VALOR: US$ 1,66 BILHÃO PAÍS: Brasil COMPRADOR: ArcelorMittal O grupo ArcelorMittal apresentou uma oferta por 40,3% das ações que não possuía em sua filial brasileira e assim tirar esses papéis do mercado. A unidade, única produtora integrada de aço inoxidável e de aço silicone da América Latina, controla 90% do mercado brasileiro.

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DATA: 2 de agosto ATIVO: Sidor VALOR: US$ 1,65 BILHÃO PAÍS: Venezuela

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ESPECIAL

NEGÓCIOS 2008 COMPRADOR: Governo daVenezuela Depois de meses de negociações infrutíferas, o governo venezuelano acordou comprar 60% da Sidor da argentina Techint. A holding argentina fica com uma participação de 10% na Sidor, suficiente para ganhar um posto no conselho e garantir o fornecimento de insumos para suas duas outras empresas na Venezuela. DATA: 5 de maio ATIVO: Grupo Bertin VALOR: US$ 1,5 BILHÃO PAÍS: Brasil COMPRADOR: BNDES Através de uma injeção de capital, o BNDES negociou a compra de 27,5% das ações do grupo industrial Bertin. A holding, que opera várias companhias em diversos segmentos no Brasil, teria recebido previamente mais de US$ 600 milhões do banco.

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nais para o desenvolvimento do projeto Esperanza. DATA: 6 de agosto ATIVO: Banco de Venezuela VALOR: US$ 1,2 BILHÃO PAÍS: Venezuela COMPRADOR: Governo da Venezuela O governo venezuelano anunciou a nacionalização do Banco de Venezuela depois que soube da intenção do controlador, o grupo espanhol Santander, de vendê-lo a um empresário local. O banco é um dos maiores do país, com 285 sucursais e 3 milhões de clientes.

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DATA: 4 de abril ATIVO: Cemex Venezuela VALOR: US$ 920 MILHÕES PAÍS: Venezuela COMPRADOR: Governo da Venezuela O governo venezuelano decidiu nacionalizar a filial da companhia mexicana de cimentos Cemex, depois de fracassar nas negociações com a empresa para fixar um preço de compra pela operação. A Cemex Venezuela controlava quase 50% do mercado local.

DATA: 12 de fevereiro ATIVO: Seguros ING VALOR: US$ 1,5 BILHÃO PAÍS: México COMPRADOR: AXA Group O grupo holandês ING acordou vender sua operação mexicana de seguros gerais ao grupo francês AXA para focar-se em pensões e rendas vitalícias no México.

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DATA: 24 de abril ATIVO: Projetos de mineração no Norte do Chile VALOR: US$ 1,31 BILHÃO PAÍS: Chile COMPRADOR: Marubeni Corporation A chilena Antofagasta Minerals negociou a venda de 30% dos projetos de cobre Esperanza e El Tesoro ao grupo japonês. O acordo ainda inclui o compromisso de Marubeni de aportar fundos adicio-

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DATA: 18 de janeiro ATIVO: Três mineradoras de ferro VALOR: US$ 925 MILHÕES PAÍS: Brasil COMPRADOR: Usiminas A siderúrgica brasileira Usiminas adquiriu três empresas de minério de ferro: J. Mendes, Somisa Siderúrgica Oeste de Minas e Global Mineração. Com vendas de US$ 10,4 bilhões, a Usiminas é um dos maiores produtores de aço da América Latina.

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DATA: 5 de março ATIVO: Banco Bradesco VALOR: US$ 1,36 BILHÃO PAÍS: Brasil COMPRADOR: Controladores do Bradesco O grupo espanhol BBVA negociou a venda de sua participação de 5% no banco brasileiro Bradesco para assim focar-se no lançamento de sua própria plataforma de operações no país.

Eike Batista, anunciou a venda de 30% de sua filial de logística a um sócio estratégico não-revelado. A LLX administra três projetos de construção de portos no Brasil, avaliados em US$ 3,5 bilhões.

DATA: 17 de março ATIVO: Campo de petróleo Caracara VALOR: US$ 920 MILHÕES PAÍS: Colômbia COMPRADOR: Cepsa A colombiana Hupecol aceitou vender o controle do campo de petróleo Caracara à espanhola Cepsa. O acordo envolve uma área de operações de mais de 94 mil hectares.

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Lakshmi Mittal: novos ativos no Brasil

DATA: 31 de janeiro ATIVO: Sincor VALOR: US$1,1 BILHÃO PAÍS: Venezuela COMPRADOR: Governo da Venezuela O governo venezuelano negociou pagar à francesa Total e à norueguesa StatoilHydro US$ 1,1 bilhão pela redução de suas participações no projeto petrolífero Sincor.

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DATA: 15 de maio ATIVO: LLX Logística VALOR: US$ 1,05 BILHÃO PAÍS: Brasil COMPRADOR: Desconhecido O EBX Group, do empresário brasileiro

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DATA: 17 de fevereiro ATIVO: Empresas de eletricidade VALOR: US$ 887 MILHÕES PAÍS: Chile COMPRADOR: Morgan Stanley Infrastructure y Ontario Teachers’ Pension Plan (OTPP) A norte-americana PSEG decidiu sair do Chile e vender suas empresas Saesa, Frontel e Edelaysen, entre outras.

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ESPECIAL

NEGÓCIOS 2008 24

DATA: 22 de fevereiro ATIVO: Corporación Aceros DM e Procesadora Industrial SAN VALOR: US$ 850 MILHÕES PAÍS: México COMPRADOR: Grupo Simec O Grupo Simec do México, filial da Industrias CH, anunciou a compra de outras duas siderúrgicas mexicanas (Corporación Aceros DM, SA de CV e Procesadora Industrial SAN, SA de CV) para fortalecer sua posição no mercado local. DATA: 26 de novembro ATIVO: Unibanco AIG VALOR: US$ 820 MILHÕES PAÍS: Brasil COMPRADOR: Unibanco O banco brasileiro Unibanco anunciou a compra das ações que a seguradora norteamericana AIG possuía na empresa de seguros brasileira Unibanco AIG, dona de 8% do mercado local de seguros e pensões.

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DATA: 26 de maio ATIVO: Usiminas VALOR: US$ 819 MILHÕES PAÍS: Brasil A mineradora Vale anunciou a intenção de vender sua participação de 2,9% na empresa siderúrgica e distribuidora de aço Usiminas no mercado aberto.

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DATA: 15 de agosto ATIVO: Petrobras VALOR: US$ 811 MILHÕES PAÍS: Brasil COMPRADOR: Soros Fund Management O fundo comandado pelo investidor húngaro-norte-americano George Soros anunciou a compra de uma participação indeterminada, por US$ 811 milhões, na petrolífera brasileira.

DATA: 26 de maio ATIVO: Aços Villares VALOR: US$ 793 MILHÕES PAÍS: Brasil COMPRADOR: Gerdau O grupo siderúrgico Gerdau divulga a compra de uma participação de 28,9% na Aços Villares que estava nas mãos do Banco Nacional de Desenvolvimento Social (BNDES). A Sidenor Internacional também possui participação na empresa, com 58,4% do capital acionário.

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DATA: 17 de junho ATIVO: Chevron Texaco VALOR: US$ 726 MILHÕES PAÍS: Brasil COMPRADOR: Grupo Ultra O grupo petroquímico brasileiro Ultra entrou no mercado de distribuição de combustíveis através da compra da operação local da Chevron Texaco. A unidade (Chevron Brasil Ltda - Texaco) distribui combustíveis e lubrificantes e participa em trabalhos de exploração no país sul-americano.

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DATA: 20 de agosto ATIVO: London Mining Brasil VALOR: US$ 810 MILHÕES PAÍS: Brasil COMPRADOR: ArcelorMittal A siderúrgica ArcelorMittal anunciou a compra da London Mining Brasil, produtora de ferro no estado de Minas Gerais.

gimento a um gigante regional e global em mercado de valores. A nova companhia, chamada temporariamente de Nova Bolsa, terá ações inscritas dentro do segmento Novo Mercado, que exige uma maior transparência por parte da companhia. 24 de abril 32 DATA: ATIVO: Esso Brasileira de Petróleo VALOR: US$ 715 MILHÕES PAÍS: Brasil COMPRADOR: Cosan A fabricante brasileira de açúcar e etanol Cosan entrou na distribuição de combustíveis ao comprar os postos de gasolina da ExxonMobil no Brasil. A Esso Brasileira conta com 1,5 mil postos em 60 estados brasileiros, convertendo-se dessa forma no quinto maior varejista de combustíveis do país. DATA: 24 de dezembro de 2007 33 ATIVO: Propilco

VALOR: US$ 690 MILHÕES PAÍS: Colômbia COMPRADOR: Ecopetrol A petrolífera estatal colombiana Ecopetrol comprou a empresa produtora de petroquímicos Propilco dos grupos locais Valorem e Sanford. A Propilco é a produtora de polipropileno mais importante da região andina e do Caribe. DATA: 28 de julho 34 ATIVO: Solana Petroleum Explo-

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Michael Tilmant, CEO da ING: mais pensões e menos seguros

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31

DATA: 26 de março ATIVO: BM&F VALOR: US$ 717 MILHÕES PAÍS: Brasil COMPRADOR: Bovespa Este ano se concretizou a esperada fusão das bolsas Bovespa e BM&F, dando sur-

ration Colombia VALOR: US$ 583 MILHÕES PAÍS: Colômbia COMPRADOR: Gran Tierra Energy As petrolíferas canadenses Gran Tierra Energy e Solana Petroleum, com operações principalmente na Colômbia, decidiram fundir-se. A nova companhia estaria em condições de produzir 15 mil barris diários de petróleo, pois contaria com reservas de uso de 18,4 milhões de barris. DATA: 30 de junho 35 ATIVO: Invin S.L.

VALOR: US$ 582 MILHÕES PAÍS: Chile COMPRADOR: Abertis, Santander

15 DE DEZEMBRO, 2008 / AMÉRICAECONOMIA65


ESPECIAL

NEGÓCIOS 2008 Infrastructure Fund Abertis e Santander anunciaram que comprarão a parte que não tinham da operadora de estradas Invin no Chile das mãos da também espanhola ACS. A Invin detém uma participação de 48% na Sociedad Concesionaria Autopista Central e é dona de 50% das ações Sociedad Concesionaria Rutas del Pacífico. DATA: 5 de março 36 ATIVO: Smithfield Beef

VALOR: US$ 565 MILHÕES PAÍS: EUA COMPRADOR: JBS O grupo brasileiro de produtos alimentícios JBS comprou a empresa de carnes Smithfield Beef. A companhia norteamericana, que conta com quatro matadouros e uma companhia de transporte, processa anualmente 680 mil toneladas de carne. 5 de março 37 DATA: ATIVO: National Beef Packaging VALOR: US$ 560 MILHÕES PAÍS: EUA COMPRADOR: JBS No mesmo dia que anunciou a compra da Smithfield, a JBS também divulgou a aquisição de processadora de carnes norte-americana National Beef. A empresa adquirida conta com três matadouros, duas plantas de processamento e uma companhia de transporte.

zuela O governo venezuelano concluiu a nacionalização da filial local da companhia suíça Holcim Cement, que reterá 15% de participação. DATA: 23 de junho 40 ATIVO: ativos da OSI Group

VALOR: US$ 550 MILHÕES PAÍS: Brasil COMPRADOR: Marfrig A empresa brasileira de carne bovina Marfrig comprou as operações no Brasil e em vários países da Europa da norteamericana OSI Group. O acordo envolve a aquisição de seis companhias, três delas no Brasil e outras três na Europa. DATA: 12 de fevereiro 41 ATIVO: Borco

VALOR: US$ 550 MILHÕES PAÍS: Bahamas COMPRADOR: Royal Vopak e First Reserve Corp. A petrolífera estatal venezuelana PDVSA completou a venda do terminal Bahamas Oil Refining Company, ou Borco, a um consórcio formado pela Royal Vopak e a First Reserve Corporation.

18 de junho 39 DATA: ATIVO: Holcim C.A.

VALOR: US$ 552 MILHÕES PAÍS: Venezuela COMPRADOR: Governo da Vene-

66 AMÉRICAECONOMIA / 15 DE DEZEMBRO, 2008

DATA: 1 de junho ATIVO: Farmasa VALOR: US$ 537 MILHÕES PAÍS: Brasil COMPRADOR: Hypermarcas A empresa de capital privado GP Investimentos e a família Samaja negociaram a venda do laboratório Farmasa à Hypermarcas. Com a operação, a Hypermarcas obtém o controle de todas as ações da Farmasa e registrará um aumento de US$ 300 milhões em suas vendas.

43

DATA: 24 de abril ATIVO: imobiliários, na Cidade do México VALOR: US$ 520 MILHÕES PAÍS: México COMPRADOR: BBVA O banco espanhol BBVA completou a maior transação imobiliária da história do México ao vender seu edifício Bancomer e comprar duas propriedades para construir seus escritórios.

44

DATA: 22 de julho ATIVO: Amnet Telecommunications VALOR: US$ 510 MILHÕES PAÍS: Países centro-americanos COMPRADOR: Millicom A sueca Millicom chegou a um acordo para comprar a empresa de telecomunicações Amnet, que oferece serviços de TV a cabo na Costa Rica, em Honduras e El Salvador. A empresa também oferta serviços telefônicos na Guatemala e Nicarágua.

45

6 de fevereiro 38 DATA: ATIVO: Autopistas del Aconcagua e Itata VALOR: US$ 553 MILHÕES PAÍS: Chile COMPRADOR: FCC e Caja Madrid O banco mexicano Bancomext leiloou sua participação em duas auto-estradas chilenas, Aconcagua (SCADA) e Itata (SCADI), a um consórcio espanhol conformado por FCC e Caja Madrid. SCADA é uma auto-estrada de 218 km que forma parte da Carretera Panamericana. Já a SCADI tem 81 km.

COMPRADOR: Abertis A espanhola ACS chegou a um acordo para vender 49% da chilena Invin, operadora de estradas, à Abertis, que depois decidiu comprar os 51% restantes.

DATA: 17 de dezembro de 2007 ATIVO: Supermercados Wong VALOR: US$ 500 MILHÕES PAÍS: Peru COMPRADOR: Cencosud A família peruana Wong decidiu vender a principal rede de supermercados do Peru por US$ 500 milhões mais participação acionária na chilena Cencosud. Com a operação, a família se converte em um dos três principais acionistas da rede e ganha um posto no Conselho.

46

44

Francisco González, do BBVA: mudança de casa no México

42 DATA: 4 de janeiro

ATIVO: Invin VALOR: US$ 545 MILHÕES PAÍS: Chile


ESPECIAL

NEGÓCIOS 2008 DATA: 31 de julho ATIVO: Operações da Cemex na Áustria e Hungria VALOR: US$ 485 MILHÕES PAÍS: México COMPRADOR: Strabag SE A fabricante de cimento austríaca Strabag SE comprou as operações da Cemex no meio do ano. A mexicana prevê usar o dinheiro arrecadado na operação para reduzir sua dívida de US$ 19,7 bilhões.

DATA: 24 de junho 49 ATIVO: Sementes Selecta

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VALOR: US$ 455 MILHÕES PAÍS: Brasil COMPRADOR: Los Grobo e Pactual Capital Partners O grupo agroindustrial argentino Los Grobo e a empresa de capital privado Pactual Capital Partners compraram a atribulada companhia brasileira Sementes Selecta. A empresa adquirida dedica-se à produção, comercialização e distribuição de sementes.

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DATA: 22 de setembro ATIVO: Mamore Mineração e Mineração Taboca VALOR: US$ 468 MILHÕES PAÍS: Brasil COMPRADOR: Minsur A empresa minera peruana Minsur comprou a Mamore Mineração Metalurgia Ltda. e a Mineração Taboca S.A., duas empresas brasileiras produtoras de ferro, estanho e outros minerais.

50 DATA: 15 de agosto

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Gustavo Grobocopatel: pronto para semear

ATIVO: Telemig Celular VALOR: US$ 454 MILHÕES PAÍS: Brasil COMPRADOR: Vivo Participações A Vivo aumentou sua participação na Telemig Celular através de uma oferta pública na bolsa. A compra feita na ocasião corresponde a 16% da empresa.

O melhor da

América Latina

-Os leitores da AméricaEconomia votam pelos melhores representantes de 100 categorias distintas de toda a América Latina. Um especial inédito que mostrará as preferências dos executivos na região na hora de tomar decisões de todo tipo. -Você poderá ter acesso a tudo isso nesta edição especial, preparada para que você possa tomar decisões estando bem informado e com o luxo e exclusividade que merece. Além disso: Viagens de negócios As empresas internacionais e, mais ainda, aquelas que são também multinacionais, devem atender a uma infinidade de serviços na hora de enfrentar: a distância física entre seus empregados, e a distância com seus clientes e fornecedores. Además: Uma lista completa dos eventos, conferências, seminários e mesas redondas que serão realizadas em 2009.

Data de fechamento: 31 de ezembro Data de publicação: 15 de janeiro de 2009

www.americaeconomia.com


FINANÇAS OPINIÃO

John C. Edmunds

Resgate e recuperação PARECEU UMA ETERNIDADE, mas por fim os adultos aparentemente têm o controle. A era das erráticas e incoerentes políticas econômicas e monetárias provenientes de Washington está chegando ao fim. A coisa mais surpreendente que vimos nos últimos meses foi a improvisação destas políticas, que mudavam de um dia para o outro mas não atacavam a raiz do problema. Analistas e observadores do mercado concordam que o melhor seria fornecer aos proprietários de moradias melhores termos para suas dívidas hipotecárias. Contudo, o Tesouro, ao invés de enfrentar essa realidade de forma rápida e pragmática, se enrolou em demorados e inúteis debates. Os proprietários continuaram perdendo suas casas, as taxas de embargos sobre moradias subiram a níveis sem precedentes nos últimos 29 anos – dos quais se têm dados – e os preços das casas desmoronaram. A recuperação começou quando Obama anunciou os nomes das pessoas que vão compor sua equipe econômica. Logo veio o resgate ao Citigroup, e depois o pacote de US$ 800 bilhões do Fed para comprar dos bancos suas carteiras de instrumentos respaldados por hipotecas e outros ativos “tóxicos”, que afetaram as solvências e limitaram o desejo de emprestar dinheiro. Neste mesmo dia as taxas de juros para empréstimos hipotecários com prazo de 30 anos caíram um ponto percentual, de 6% para 5%. Foi a primeira boa notícia para o mercado de moradias norte-americano desde que a crise começou. Antes de Obama anunciar sua equipe, os observadores se perguntavam como tomariam suas decisões entre tantos bons candidatos. Agora vemos que ele não se limitou a indicar pessoas a antigos cargos do passado. Como mudança, está nomeando um grande número de pessoas de primeiro nível e criou novos postos para eles, para que todos possam usar suas experiências. A boa notícia é que logo teremos mãos estáveis na direção, valendo-se de uma variedade de especialistas, incluindo aqueles com credibilidade e conhecimento para enfrentar problemas. Haverá um grande pacote de estímulo fiscal, maiores investimentos nos mercados financeiros e programas de empregos. Estas agressivas intervenções continuarão pelo tempo que for necessário para reativar a economia. A dúvida agora é quais serão os cenários realistas para a 68 AMÉRICAECONOMIA / 15 DE DEZEMBRO, 2008

América Latina? Os mais pessimistas – ou seja, uma repetição da Grande Depressão dos anos 30 – agora podem ser descartados. A recessão não será tão profunda como muita gente teme, nem durará tanto. A queda nos preços das matérias-primas continuará por algumas semanas ou meses, mas a agressiva criação de nova liquidez nos EUA chegará a um ponto de inflexão. Os participantes do mercado observarão que o risco de uma deflação é menor que o risco de a inflação ressurgir. Quando os pacotes de estímulo monetário e fiscal chegarem a este ponto, os temores de uma queda nos preços das commodities serão substituídos por uma sensação de urgência para acumular estoques. Nos mercados futuros de commodities, a estrutura de preços ainda não revela quando começará a nova fase de acumulação, mas dá algumas pistas. Por exemplo, os preços do alumínio, cobre e níquel na Bolsa de Metais de Londres mostram que um comprador pode adquirir esses contratos prontos no mercado e vendê-los no futuro com entrega para 15 meses com um ganho bruto nessas transações de armazenamento de 12,7%, 4,3% e 5,5%, respectivamente. Em comparação, o retorno da compra de ouro no mercado à vista e futuro com entrega para 15 meses era de 1,9%, e a taxa de retorno dos bônus do Tesouro para o mesmo prazo era de 1,15%. Os ganhos dos metais industriais não eram suficientes para estimular investidores a comprar, vender no mercado futuro e armazenar. O mercado de futuros para metais industriais não oferece rentabilidade muito maior do que os bônus. Mas demonstram que o mercado de futuros não está dizendo aos donos desses metais para que os vendam imediatamente. Isso aconteceria se operadores do mercado acreditassem que estamos à porta de uma grande depressão ou de uma baixa ainda mais profunda na demanda por metais industriais. Além da estrutura de preços nos mercados futuros de commodities, as autoridades na América Latina também podem observar o mercado global de bônus. No final de novembro, o rendimento de um ano do título brasileiro denominado em reais era 13,5% maior que o rendimento do bônus do Tesouro dos EUA há um ano. Esse enorme diferencial atrairá investimentos de carteira ao Brasil e quando o fluxo de dinheiro voltar ao país, o real se fortalecerá. Outras moedas latino-americanas também ganharão força, eventualmente. Q

Cenários mais pessimistas para a região já podem ser descartados. A recessão não será tão longa e profunda como se teme.

Doutor em Administração de Empresas pela Universidade de Harvard, professor de Finanças do Babson College de Boston e co-autor de Wealth by Association.


CAPITAL ABERTO ethomson@americaeconomia.com

longe, os maiores aluguéis são pagos em São Paulo, segundo a Colliers, de aproximadamente US$ 45,12 por metro quadrado ao mês. O mais barato é Lima, com um valor de aluguel por metro quadrado de US$ 16,3 ao mês. Para o futuro, a consultoria espera um aumento no nível de desocupação dos edifícios desse porte, mas não diretamente por conta da crise e sim pela entrada de novos projetos no mercado nos próximos anos. Só para Buenos Aires é esperada a entrada de 100 mil m2 de novos escritórios nos próximos anos, embora todos já estejam reservados. Em Lima, por sua vez, serão lançados 270 mil m2 em novos escritórios classe A, os quais não estão reservados, boa notícia para quem está pensando em se mudar. Q Eduardo Thomson

ALUGA-SE

Valor médio mensal do aluguel (US$/m2) vs taxa de ocupação (%)

VALOR MÉDIO DO ALUGUEL (US$/m2) OCUPAÇÃO (%)

FONTE: COLLIERS INTERNATIONAL

50

9,2%

US$ 45,1

40

9 8

US$ 36,3

7

35

US$ 30,4

30

6 US$ 26

5

25 4,2%

20 15

10

US$ 19,9

US$ 21

US$ 16,3

4 3,5%

2,6%

3 2

2,0%

10

OCUPAÇÃO %

VALOR MÉDIO DO ALUGUEL US$/m2

45

1

5

0

0,3%

0,2%

-1

0 BOGOTÁ

BUENOS AIRES

MÉXICO DF

LIMA

SAN JOSÉ

SANTIAGO

EM BAIXA

Preço das ações da Cencosud 1600 1400 1200 1000 800

08.12.08

ano (o que se traduz em US$ 41,6 e US$ 74 por metro quadrado ao mês). E na América Latina? Por enquanto o setor financeiro, um dos principais inquilinos de escritórios classe A do mundo, parece não estar sofrendo demais, se usado o mesmo parâmetro. Segundo um relatório da Colliers International, ainda continua a escassez de oferta de edifícios classe A+ e A nos conhecidos distritos financeiros e, assim, um baixo nível de desocupação; ainda há uma maior demanda por escritórios de boas especificações e se estima estabilidade nos preços de aluguéis e de venda. Cidades como Buenos Aires, Lima, Santiago e Cidade do México mostram poucas ofertas novas de escritórios Premium, enquanto em Bogotá e San José da Costa Rica registram boas oportunidades. De

20.01.08

UM LUGAR para começar a observação dos problemas no setor financeiro é no espaço dos escritórios premium, os conhecidos como classe A ou A+. Em Nova York, onde há pouco mais de um ano conseguir novos escritórios era uma tarefa difícil, a crise golpeou com força e as demissões foram tão grandes que agora sobra espaço. De fato, atualmente estão disponíveis cerca de 16 milhões de pés quadrados (1,5 milhão de m2) de espaço de escritório em 68 edifícios comerciais em Manhattan, segundo estudos da consultoria Colliers ABR. É praticamente o dobro do ano passado. E os aluguéis, conseqüentemente, também caíram. Segundo uma reportagem do New York Times, houve desvalorização entre 20% e 30% em 2008, para entre US$ 45 e US$ 80 o pé quadrado ao

Às vezes o mercado celebra, outras vezes entristece. Quando um alto executivo deixa o comando de uma empresa cujas ações são listadas em bolsa, as expectativas de ganhos acionários são afetadas. Em uma ponta, há os casos de Carly Fiona, ex-CEO da HewlettPackard e quem supervisionou a fusão com a Compaq, e de Jerry

01.09.08

Os distritos financeiros em Nova York estão apresentando taxas de desocupação cada vez maiores. Na América Latina as taxas seguem baixas... por enquanto

O PESO DE UM NOME

CLP

ESPAÇO DE TRABALHO

DATA

FONTE: ECONOMÁTICA

Yang no Yahoo!, que é culpado pelo fracasso da fusão com a Microsoft. As ações dessas empresas experimentaram certa recuperação após os executivos renunciarem. Na outra ponta, pode acontecer de as ações caírem, assim como ocorre toda vez que se especula sobre a saída de Steve Jobs da Apple. Uma empresa local que sentiu a desilusão do mercado por mudança é a chilena Cencosud, que viu a saída de seu conspícuo gerente geral Laurence Golborne, líder de um amplo processo de expansão internacional. Em 4 de dezembro, quando a renúncia foi anunciada, a empresa fechou o pregão do dia seguinte com baixa de 3%, apesar de o índice-referência ter se mantido estável. Começam a surgir dúvidas sobre uma das lustrosas empresas chilenas.

SÃO PAULO

15 DE DEZEMBRO, 2008 / AMÉRICAECONOMIA 69


I-BIZ

Computador de baixo consumo Fabricantes e CIOs correm para evitar o colapso do poder do computador buscando novas tecnologias que reduzam o consumo elétrico, mas não a capacidade de processamento Juan Pablo Dalmasso, Córdoba

ALEXANDRE BATIBUGLI

O

70 AMÉRICAECONOMIA / 15 DE DEZEMBRO, 2008

brasileiro Reinaldo Affonso, diretor de desenvolvimento tecnológico da Intel Brasil, não se surpreendeu quando o Bradesco decidiu incluir 50 mil computadores de última geração e 20 mil monitores de LCD como itens fundamentais na política de ecoeficiência. Um dos papéis do executivo é levar aos usuários as vantagens de cada desenvolvimento da companhia. Por isso, não podia ignorar o fato de que as novas máquinas consomem 44% menos de energia do que as antigas, levando o gigante do setor financeiro a economizar 3,5 Megawatts anuais, reduzir a emissão de carbono e, sem dúvida, a cortar boa parte

dos custos. E para quem quiser seguir os passos do banco brasileiro, Affonso poderia calcular resultados ainda melhores. A Intel acaba de apresentar ao mercado latino-americano os Core I7, a última geração de chips com uma capacidade de processamento 40% maior, mas sem aumentar a conta de eletricidade. “A energia se tornou um ponto crítico para as empresas, e quando algumas como o Bradesco podem economizar US$ 10 milhões em cinco anos, sem dúvida é um fator decisivo,” aponta. Para sorte do planeta, a indústria levou o assunto a sério e quem não utiliza produto


“verde” parece não estar na onda do mercado. Intel, sua rival AMD, HP, Dell, IBM, Sun e Microsoft, entre um pelotão de companhias de tecnologia, formam o Green Grid, um consórcio dedicado a promover a eficiência energética de datacenters e alcançar uma redução de 50% no consumo até 2010. O objetivo não é casual. Se para uma empresa de grande porte o tema energético é crítico, para a crescente indústria de datacenters os problemas são ainda piores. Isso pode ser confirmado por Roberto Vigo, vice-presidente de tecnologia e operação de datacenters para América Latina e Caribe da Global Crossing, que conta com 15 operações na região. “O consumo elétrico triplicou entre 2000 e o ano passado e calculamos que voltará a triplicar até 2012. Além disso, as tarifas subiram com o petróleo, mas nunca voltaram a cair,” lamenta o executivo, em Buenos Aires. E isso não é tudo. A evolução tecnológica foi multiplicada por oito em capacidade de processamento por metro quadrado e com ela a emissão de calor e a necessidade de resfriamento, fazendo com que cada watt de processamento seja acompanhado por outros dois, um dedicado ao resfriamento e outro ao sistema elétrico em geral, como reforço especial para salvá-lo em caso de queda de energia. Além disso, uma demanda crescente, a um ritmo anual de 46%, rapidamente preencheu o espaço que a tecnologia liberaria. “Em dez anos, montar um datacenter de 500 metros quadrados aumentou de US$ 7 mil a algo entre US$ 25 mil e US$ 30 mil por metro quadrado,” exemplifica. Tecnologia inteligente As propostas são variadas, mas

sem dúvida o denominador comum é que agora o software incorporado nos dispositivos é tão importante quanto o desenho dos “ferros”. A AMD, por exemplo, oferece a tecnologia PowerNow!, que permite ao sistema operacional dos servidores monitorar a atividade e desacelerar o CPU toda vez que a carga de trabalho não é utilizada, podendo reduzir o consumo em 75%, assegura a empresa. Caminho semelhante foi seguido pela IBM que, instalando ferramentas de administração energética em dez servidores da Alog Data Centers, líder de hosting no Brasil, conseguiu reduzir em 35% o consumo de energia e o resfriamento potencial das máquinas, e em até 50% o custo energético por unidade de processamento. E se o Google pensava em construir um datacenter inteiro no oceano, o certo é que ao menos a água em volta pode ser um recurso para evitar o aquecimento e a utilização de motores de ventilação. Pelo menos é isso que mostra o datacenter portátil e “prêt-à-porter” da Sun, o Modular Datacenter, instalado em Puerto Tirol, uma passagem sobre o Rio Paraná a 30 km de Resistência, capital da província argentina de Chaco. Todo o datacenter é montado em uma estrutura de contêiner de 20 pés. Os únicos requerimentos são a conexão elétrica e o cabo da rede pública. “Ele consegue economia energética de 20% se comparado com outros de características semelhantes,” afirmou Alejandro Raffaele, gerente da Sun na Argentina. O problema é que modernização requer investimento, e o contexto de crise financeira não parece ser a melhor circunstância para apostar no futuro. Se antes da queda do Lehman Brothers as projeções do IDC eram de que pelo menos

30% dos servidores seriam de última geração, o que se poderia esperar agora, quando as projeções foram corrigidas com uma desaceleração quase à metade dos investimentos previstos no início do ano? “Virtualização”, opina Vigo, da Global Crossing. Mais uma vez, é preciso inteligência para aproveitar melhor o equipamento. Especialistas concordam que um servidor típico utiliza entre 5% e 10% de sua capacidade disponível em um período de 24 horas. Com a utilização de software ou hardware, se consegue um melhor aproveitamento, redu-

não parecem ser tecnológicos. As opções são diversas: a modernização de PCs e monitores, como escolheu o Bradesco, poderia ser superada pela troca de um PC por um notebook de última geração, que “exige a décima-sétima parte de energia que um Pentium D”, segundo a Intel. Também não falta quem proponha voltar ao velho esquema dos clientes servidores, como o Desktop on demand, da Dell, ou o Sun Ruy, da Sun, cuja segunda versão oferece um consumo de apenas 4 watts por ponto de trabalho. Ou a proposta da NComputing, que virtualiza

Datacenters produzem 23% das emissões de carbono do setor, e os PCs, 39%. zindo o número de servidores utilizados anteriormente. “Uma estratégia que pode adiar crises energéticas não só por meses, mas por anos”, afirmam no Gartner. Contudo, se os datacenters concentram a maior atenção por sua escala, segundo Affonso, da Intel, produzem apenas 23% das emissões de carbono do setor de informática, enquanto PCs e monitores emitem quase o dobro: 39%. Se forem somados às redes corporativas, poderiam ser acrescentados 7% a essa conta. Só para constar como referência: um estudo realizado pela Universidade Tecnológica Nacional da Argentina concluiu que se os 7 milhões de PCs existentes no país, sem contar servidores, possuíssem chips de última geração, a Argentina teria economizado o equivalente ao gerado pela usina nuclear de Atucha. Desta forma, os problemas

sistemas operacionais de um PC no qual cada terminal consome apenas cinco watts na rede, contra 110 de um PC comum. É até mesmo possível completar o pacote acessando redes com o selo “Green”. A D-link, graças a seu sistema de detecção de conexão, pode economizar até 80% de energia que utilizava anteriormente. Mais uma vez, o inconveniente é a viabilidade comercial. Não porque os novos equipamentos sejam mais caros do que a geração anterior, e sim porque o cliente inicial, normalmente usuário de equipamentos mais antigos, pode não enxergar a eficiência energética como um diferencial na sua equação financeira. Individualmente talvez não perceba. Mas para que servem as panes nacionais de eficiência energética se não para funcionar como estimuladoras de novas tecnologias? Q

15 DE DEZEMBRO, 2008 / AMÉRICAECONOMIA 71


MOVISTAR OPEN

VIÑA DEL MAR, CHILE

31 DE JAN A 8 DE FEV, 2009

www.movistaropen.cl

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BUENOS AIRES, ARGENTINA

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ACAPULCO, MEXICO

23 A 28 DE FEVEREIRO, 2009


NEGÓCIO FECHADO colombiana de azeite vegetal e gordura animal, por cerca de US$ 23 milhões a três grupos estrangeiros: Waenne Investments, Metcalf Sondrio e Commercial International. A Lloreda possui 1.200 funcionários e vendas anuais na ordem de US$ 50 milhões. >> DIAGNÓSTICOS DA AMÉRICA A empresa de serviços médicos segue avançando no Brasil e começará a operar no Estado do Mato Grosso. Recentemente a companhia fechou a compra de quatro laboratórios nas cidades de Cuiabá e Várzea Grande, pelos quais pagará aproximadamente US$ 17 milhões.

VALE: NOVA AQUISIÇÃO

>> ALBA ALIMENTOS NICARÁGUA A Assembléia Nacional da Venezuela aprovou o desembolso de US$2,3 milhões para que o governo compre, por meio das empresas estatais PDV Caribe e Corporación Venezolana Agrária, uma participação acionária na Alba Alimentos Nicarágua. Os outros acionistas da empresa serão as empresas nicaragüenses Albanisa e Petronic. >> BANCOESTADO O banco estatal chileno informou um acordo com o francês BNP Paribas Asset Management para vender os 49,9% do BancoEstado Administradora General de Fondos por aproximadamente US$ 26 milhões. O desembolso total vai depender do desempenho da filial do BancoEstado. BNP Paribas Asset Management pertence ao banco francês BNP Paribas, e é dedicada à administração de ativos. >> BARCELÓ HOTELS Foi anunciada a compra de um hotel cinco estrelas na Cidade da Guatemala pela rede norteamericana Marriott por cerca de US$ 42 milhões. O hotel

será chamado de Barceló Guatemala City e possui 383 apartamentos. >> CGGVERITAS A companhia francesa de serviços petrolíferos informou que obteve um contrato avaliado em US$ 100 milhões junto à petroleira estatal venezuelana PDVSA para realizar atividades de exploração sísmica 3D na Venezuela. É o maior contrato de exploração sísmica já feito no país e terá duração de cerca de seis meses. >> COMERCIAL MEXICANA Foi concretizada a venda dos 50% que a Comercial possui na Prestacomer, uma empresa mexicana administradora de cartões de crédito, ao BNP Paribas Personal Finance, que já era sócio do negócio. A transação é de aproximadamente US$ 9 milhões. O BNP terá o direito exclusivo por cinco anos para operar os cartões das bandeiras Comercial Mexicana, Bodega, Mega e Sumesa. >> CORFICOLOMBIANA Foi anunciada a venda dos 56,7% de participação da Corficolombiana na Lloreda, uma empresa

>> ENTEL CHILE A empresa de telecomunicações chegou a um acordo de compra de 100% da chilena Cientec Computación por volta de US$ 23 milhões. O vendedor é o fundo de capital fechado Millenium. A Cientec se dedica aos serviços de hosting e administração de centros de TI e conta com 400 funcionários e faturamento anual de aproximadamente US$ 21 milhões. >> PARKER HANNIFIN A companhia norte-americana de produtos tecnológicos comprou a Detroit Plásticos e Metais, um produtor brasileiro de tubos, válvulas e conexões para a indústria petrolífera, petroquímica e de celulose. O valor da compra não foi informado. A Detroit possui receita anual de aproximadamente US$ 17 milhões.

>> PROLEC-GE A empresa mexicana Prolec-Ge International chegou a um acordo para comprar 54,4% da indiana Indo Tech Transformers por montante não revelado. Além disso, apresentou uma oferta pelos 20% da empresa negociados na bolsa de Mumbai. A Prolec-Ge, com sede em Monterrey, é uma produtora de transformadores. >> TACO BELL A rede norte-americana de restaurantes de comida mexicana voltará ao Peru, desta vez pelas mãos do grupo local Pelosi, dono das franquias da Pizza Hut e KFC no país. Taco Bell teve sua primeira operação no Peru nos anos 1990, sem muito êxito. >> TRANSPETRO A brasileira Transpetro, filial de logística da Petrobras, fechou um contrato com o armador Eisa, com sede no Rio de Janeiro, para a produção de quatro barcos do modelo Panamax. O contrato é parte de um programa de modernização da frota da Transpetro avaliado em US$ 2,5 bilhões, para um total de 26 navios. >> TUPER A empresa brasileira de autopeças comprou a totalidade das ações da rival Vanzin Automotive por quantia não revelada. A Vanzin possui instalações nos Estados de Santa Catarina, Paraná e São Paulo, e 485 funcionários. Em 2007, a Vanzin registrou vendas de US$ 41 milhões, enquanto a Tuper, com 1.100 funcionários, teve receita de US$ 251 milhões.

>> Vale

A mineradora adquiriu a consultora de serviços petrolíferos Petroleum Geoscience Technology (PGT), com sede no Rio de Janeiro. O valor da compra não foi informado, mas fontes da imprensa dizem que a Vale concordou em pagar US$ 6,7 milhões até 2013 em quotas anuais. A compra faz parte dos planos da Vale de explorar seus próprios campos de gás, já que é um importante consumidor de energia. 15 DE DEZEMBRO, 2008 / AMÉRICAECONOMIA 73


LINHA DIRETA [CHILE]

MIGUEL CANDIA

TRAVESTISMO DEMOCRÁTICO Nas últimas eleições municipais em Santiago, uma loira platinada chorava humilhada frente às câmaras de TV. Era um travesti – ou transexual, como alguns preferem denominá-los – que tentava fazer uso de seu direito a voto. Mas não sabia – ou quem sabe sim? – que ir vestida (o) de mulher ocasionaria uma chuva de insultos em seu local de votação por parte de seus companheiros de mesa. Porque, no Chile, os homens votam com os homens, e as mulheres votam em outros locais, com seus pares. Não tinha escapatória. No país, uma vez inscrito para votar, é obrigação fazê-lo. Se o travesti tivesse querido evitar os insultos e não ir sufragar, teria se exposto a uma pesada multa. Mas isto poderia mudar. O Congresso chileno discute uma nova lei sobre inscrição automática nos registros eleitorais, que inclui medidas como a constituição de mesas mistas – homens e mulheres – e a eliminação da obrigatoriedade do sufrágio. O que neste caso se traduz em uma pessoa menos exposta aos insultos das pessoas intolerantes a outras preferências sexuais. Não só terá a opção de não votar, senão quecomo também entre as mulheres. Este caso levou a uma discussão com meus colegas sobre o voto voluntário. Soubemos que um deles não tinha se inscrito nos registros eleitorais até quase os 30 anos. Semelhante descoberta desatou um acalorado diálogo sobre os deveres e direitos cidadãos, e as diferenças que existem nas leis eleitorais entre os países da região. O modelo mais coercitivo é o da Argentina, onde a inscrição é automática e votar é obrigatório. As sanções consistem em uma multa. No Equador, de acordo à nova Constituição, a inscrição é automática: a partir dos 16 anos o voto é voluntário, e a partir dos 18, obrigatório. Aqueles que não votam devem pagar uma multa. O certificado de votação, que se entrega depois do primeiro sufrágio é requisito indispensável para os “direitos de cidadania”. Quer dizer, a partir dos 18 anos, se alguém quiser, por exemplo, abrir 74 AMÉRICAECONOMIA / 15 DE DEZEMBRO, 2008

uma conta de banco ou tirar passaporte, deve apresentar sua cédula e seu certificado de votação em dia. O caso do Brasil é similar: quando atinge a maioridade deve se inscrever nos registros eleitorais, do contrário, terá seu castigo. Para os chilenos, até o momento, não existe nem a inscrição automática nem o voto voluntário. Recordo quando alcancei a maioridade, o primeiro que eu fiz foi ir tirar minha carteira de habilitação e me inscrever nos registros eleitorais. Um fato pouco comum entre os meus contemporâneos, já que a maioria escudava sua desconformidade com o sistema não votando. Das restrições do sistema local não se livram nem os chilenos que estão fora do país, de viagem ou radicados. À minha irmã, que mora na Holanda, a lei a impede de votar. Mas, sim lhe exige ir ao consulado para deixar constância de que está muito longe do local de votação. Caso contrário, multa. Outro colega, o mesmo que não tinha se inscrito até os 30, ainda teme as conseqüências que uma recente viagem fora do país possa lhe trazer. Ainda não foi notificado, no entanto, seus olhos se abrem, o volume de sua voz sobe levemente e suas mãos histriônicas expressam com temor do que pode vir. Quem sabe seria bom avançar a esquemas mais liberais como o do México. Através de uma colega me informei que a Constituição especifica que o voto está entre os deveres e direitos dos cidadãos. Entretanto, na prática não recebem sanções nem por não estar inscrito nem por não ir sufragar uma vez que já está. No fundo, é algo similar ao que se busca no Chile (voto voluntário), mas que no caso mexicano não se requer de novas leis para dar seu aval; digamos que é uma lei “popular voluntária”. Esperemos que para as próximas eleições presidenciais de 2009 no Chile já não haja mais loiras soluçando nas filas nem mais sanções para os folgados que, aletargados por esses dias de calor, ficaram grudados nos lençóis. Q Karin Hernández


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Nº 370 Edição Brasil  

AméricaEconomia: Revista de Economia e Negócios Latino-americana

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