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RANKING DE INFRA-ESTRUTURA PAÍS POR PAÍS, TIJOLO POR TIJOLO

ESPECIAL TECNOLOGIA PROBLEMA NA MATRIX

BRASIL www.americaeconomia.com.br 30 DE NOVEMBRO, 2008

Miragem estatal VERBAS DO GOVERNO NÃO TORNAM PAC IMUNE À CRISE Nº 369

R$ 10


NESTA EDIÇÃO

Nº 369 / 30 DE NOVEMBRO, 2008 SEÇÕES 10 Índice 12 Memo 14 Cartas 16 Pistas 17 Editorial 18 Movimentos 49 Ferramentas 62 Capital Aberto 63 Negócio Fechado 72 Raio X 73 Visões 74 Linha Direta

ESPECIAL INFRA-ESTRUTURA 24 Marcha lenta A América Latina volta a mostrar poucos avanços no desenvolvimento do setor.

30 Top ten Os principais projetos anunciados em 2008.

32 Futuro árido Falta de normas e de obras faz capital mexicana sofrer o risco de ficar sem água.

40 Portos abertos Nova geração de navios demanda portos adaptados. E o de Rio Grande se prepara para o futuro.

42 Aquém das expectativas Cresce o acesso à banda larga na América Latina. Mas a falta de concorrência faz com que ela deixe a desejar.

NEGÓCIOS 44 Japão em recessão Oportunidade para a América Latina?

46 Visão verde

Miragem estatal 35 Mesmo com as garantias oferecidas pelo governo, obras do PAC poderão ser afetadas pela crise

4 AMÉRICAECONOMIA / 30 DE NOVEMBRO, 2008

Impacto socioambiental pode influir na concessão de créditos. E isso é bom.

47 Orgânicos em baixa Crise econômica afeta o mercado, sobretudo nos EUA.


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NESTA EDIÇÃO

Nº 369 / 30 DE NOVEMBRO, 2008

PMES GLOBAIS 50 Mão na roda Terceirizar frotas para reduzir custos.

DEBATES 51 Tabaré diz não ao aborto O veto presidencial no Uruguai: golpe final?

52 Os tratados na era Obama Permanecem as dúvidas se democratas podem mudar sua difícil relação com o livre comércio.

32

47

54 E não estava morto O PRI recobra força no México.

56 Reforma energética Finalmente, a estatal Pemex ganha autonomia. Resta saber se saberá usá-la.

58 Opinião Felix Peña afirma que, reformulado, o Mercosul pode cumprir um importante papel na estabilidade regional.

FINANÇAS 59 Opinião Pela primeira vez alguns países da região controlam seus destinos, diz John Edmunds.

52

60 E o G20? Não salvou o mundo financeiro, mas a última reunião em Washington tampouco foi de todo desperdiçada.

I-BIZ 64 Especial tecnologia Problemas na matrix.

70 Clics&Chips YouTube em 50 polegadas.

71 Interfaces Não basta um carro com i-Pod; é preciso encontrar o i-Pod dos carros.

6 AMÉRICAECONOMIA / 30 DE NOVEMBRO, 2008

60


americaeconomia.com / 2.0 O site de negócios globais da América Latina

FALHA DE SEGURANÇA AO INVESTIDOR A expulsão da Odebrecht do Equador expôs a falta de proteção dos investimentos de empresas nacionais no exterior. Como o Brasil não tem ratificado nenhum acordo bilateral neste sentido, a estratégia adotada pelas empresas é fechar contratos a partir das filiais instaladas em países que ofereçam alguma proteção para minimizar esse risco. “Os investidores brasileiros não têm segurança”, afirmou o sócio do escritório L.O. Baptista Advogados, Eduardo Felipe Matias. O advogado conta que o Brasil assinou 14 tratados relacionados a esse tipo de proteção, mas não ratificou nenhum. Já países como Argentina e Chile contam com mais de 30 tratados celebrados com diversos países que garantem, entre outros aspectos, a repatriação dos lucros. Membros da Comissão de Constituição e Justiça da Câmara avaliaram que a posição do Brasil tem sido pouco enfática para a resolução desses problemas, o que pode abrir espaço para a eclosão de outros conflitos, como no caso da reivindicação do governo paraguaio de revisão dos contratos da hidrelétrica binacional Itaipu. Para o deputado Efraim Filho (DEM), “ou o governo brasileiro desmascara a verve autoritária do governo dos seus vizinhos ou assume que adota uma política externa equivocada em relação a eles”.

A NOVA WALL STREET

“BRETTON WOODS” EUROPEU

Reunidos por AméricaEconomia, executivos e especialistas latino-americanos analisaram a crise global e seu impacto na região. O encontro aconteceu em Lima, paralelamente à Apec. Na conferência, a revista divulgou um estudo que aponta que, apesar da crise, empresas asiáticas gastaram US$ 4,6 bilhões em 2008 para comprar companhias latinas. Confira a cobertura do evento em nosso site.

Por que o melhor caminho para superar a atual crise financeira global foi indicado pela Europa e não por Washington? Porque os EUA não são mais o centro econômico do planeta. Caberia à Europa liderar o processo de retomada da credibilidade nos mercados podendo até convocar “um novo Bretton Woods”. Leia o artigo completo da advogada e professora da USP, Maristela Basso, na AméricaEconomia. com.br.

AINDA NÃO RECEBE? LEIA O QUE ACONTECE NOS PRINCIPAIS SETORES DA ECONOMIA E DOS NEGÓCIOS REGIONAIS EM SEU E-MAIL. ASSINE. 8 AMÉRICAECONOMIA / 30 DE NOVEMBRO, 2008


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ÍNDICE DE EMPRESAS OS NÚMEROS REFEREM-SE À PRIMEIRA PÁGINA EM QUE AS EMPRESAS SÁO CITADAS. EXCLUI AS EMPRESAS QUE FIGURAM EM GRÁFICOS E RANKINGS

a-b

e-f

Kroll Associates Iberia ..............72

Puma .........................................19

Accenture ..................................50

Estrela Guia...............................20

Kroll InfoAmericas ...................72

r-s

AIG ...........................................62

Facebook ...................................20

L.O. Baptista Advogados ............8

Real Obra Sustentável ...............46

Aires de Campo.........................47

Facileasing ................................50

LAN ..........................................49

Renault ......................................71

Aliança Navegação e Logística .41

Feminice....................................20

Latinamerican Trading ..............23

RGX ..........................................49

Amazon .....................................71

FiduPerú ....................................19

Leasing Corporation..................50

Sabesp .......................................29

American Airlines .....................48

Fitch Ratings .............................62

Lehman Brothers.......................62

SafeBike

Arnet .........................................42

Ford ...........................................71

Louis Vuitton.............................44

Asia America Equity Exchange 21

g-h

m-n

Sanyo.........................................45

Avis Fleet Services ....................50

Gartner ................................42, 65

Marco Consultoria ....................65

SAP ...........................................49

Avon ..........................................50

General Motors .........................71

Mastersaf ...................................66

Scotiabank .................................50

Banco do Brasil .........................67

Giorgio Armani .........................44

Mintel International ..................47

SecondLife ................................20

Banco Real ................................46

Global Plus Investment

Internacional .......................21

Mitsubishi ...........................45, 71

Select .........................................64

Bear Stearns ..............................62

Management.......................62

MySpace ...................................20

Sumisho Auto............................50

Bem Leve ..................................20

GlobalThink Technology ..........42

Nestlé ........................................50

t-u

Bodega Marichal .......................21

Google .......................................71

Netcard ......................................20

Tata ............................................71

Bolsa de Mulher ........................20

Green Equity Investors..............47

New Ventures ............................46

Telecom .....................................42

Bradesco....................................67

Grupo Bancolombia ..................19

Nike ...........................................19

Telefónica ............................19, 42

c-d

Grupo Linx ................................64

Nissan........................................71

Televisa .....................................19

Cartoon Network .......................23

Grupo Santander .................46, 50

Northwest ..................................48

The Competitive

Cemex .......................................23

Grupo Wilson, Sons ..................41

Novartis .....................................50

CG/LA.......................................24

Gucci .........................................44

o-p

Toyota........................................44

Charlie Yankee Air Pub ............49

Hering .......................................37

Odebrecht ....................................8

Trevisan

China Beijing

Hewlett Packard ........................71

OfiXXI ......................................20

Consultoria ..........................41

Intelligence Unit..................42

Equity Exchange .................21

Hino...........................................45

OmnicomMediaGroup ..............23

Tvlucion.com ............................19

CIBC World Markets ................45

Hitachi Chemical ......................45

Organic Monitor........................47

Universobit.com ........................20

Cisco ....................................42,71

Honda Motors ...........................45

Orkut .........................................20

v-w-y

Citigroup ...................................62

Honda ........................................71

Panasonic ..................................70

Visa ...........................................68

Claro..........................................67

i-j

Pemex Exploración y

VKS Partex ...............................40

ComScore..................................68

IBM ...........................................66

Producción ..........................57

Volkswagen-Audi ......................71

Continental Airlines ..................48

IDC............................................65

Petróleos Mexicanos (Pemex) ...56

VTR...........................................42

Chrysler .....................................71

Indra ..........................................64

Pfizer .........................................50

Wachovia ...................................62

Delta ..........................................48

Intel ...........................................71

PHH Arval.................................50

Washington Mutual ...................62

DHL Express.............................49

k-l

Pioneer ......................................70

Whole Foods .............................47

DMB Peru .................................49

Karsten ......................................37

Procter & Gamble .....................42

YouTube ..............................19, 70

AMÉRICAECONOMIA magazine (USPS #023106) is published biweekly on March, April, May, June, September, October and November, and monthly on January, February, July, August and December in Santiago, Chile by AméricaEconomía. AméricaEconomía is distributed in the United States by DL Distribution Group, 7301 Sw 100 Ct , Miami, FL. 33173-4651 PH: (305) 595-5505. Periodicals Postage paid at Miami, Florida. POSTMASTER: send address changes to DL DISTRIBUTION GROUP 7301 Miami, FL 33173-4651.

10 AMÉRICAECONOMIA / 30 DE NOVEMBRO, 2008


MEMO APOSTA NA INFRA

DIRETOR Elías Selman C.

GILBERTO CONTRERAS

VICE-PRESIDENTE-EXECUTIVA Gloria Landabur

SEM UMA BOA gestão em infra-estrutura, as sociedades podem ruir. De verdade. É o que acontece na Cidade do México, como nos conta a jornalista Arly Faundes na história “Futuro árido” sobre os graves problemas enfrentados pela cidade que possui a maior concentração urbana da América Latina para administrar seus recursos hídricos. Situação que colabora para o afundamento da cidade. Os países latino-americanos não costumam ser bons gestores de projetos de infra-estrutura. Com exceção do Chile de 1995-2005 e atualmente do Panamá, que Arly na Plaza del Ángel: se transforma na mesma A cidade afunda velocidade em que o Canal é ampliado, são poucos os países da região que podem apresentar bons resultados em planejamento, execução e financiamento de projetos em infra-estrutura. Mas há os que estão melhor que outros. Isso é o que analisamos nesta edição, juntamente com a empresa norte-americana CG/LA: observamos conjuntamente diversas variáveis de infra-estrutura e capacidade de execução dos países para formular nossa terceira edição do ranking de competitividade em infraestrutura. Este é um tema que a cada dia se torna mais relevante, pois muitos governos dos países da região querem investir em infra-estrutura como ferramenta produtiva para absorver o choque econômico causado pela crise financeira global. De Felipe Calderón no México, passando pelo colombiano Álvaro Uribe, pelo peruano Alan García e especialmente pelo brasileiro Lula, todos estão apostando na mesma direção. Mas, para que isso seja efetivo, é preciso saber investir e gerar modelos de financiamento adequados para construir e manter os projetos. “Uma das causas do problema de água no México são as falhas no pagamento por seu uso, o que gera uma seqüência de problemas cujo resultado é a falta de recursos para investir”, diz a chilena Arly, que vive no México desde meados de 2007. “Hoje, as soluções chegam tarde, as redes de água continuam estourando, e a cidade continua afundando.”

DIRETOR EDITORIAL Felipe Aldunate M. EDITOR ADJUNTO Rodrigo Lara DIRETOR DE ARTE Álvaro Araya Urquiza EDITORES-EXECUTIVOS Solange Monteiro, Juan Pablo Rioseco EDITOR BRASIL Dubes Sônego ESCRITÓRIO EDITORIAL BRASIL (55 11) 2589-3157 / 3160 EDITOR MÉXICO Marisol Rueda EDITOR MIAMI Antonio María Delgado EDITOR FINANÇAS Eduardo Thomson EDITOR DE FOTOGRAFIA Miguel Candia REPÓRTERES Arly Faundes (México) CORRESPONDENTES•ARGENTINA Juan Pablo Dalmasso •COLÔMBIA Lucía Valdés •MÉXICO Carolina Solís •PERU Cecilia Niezen•URUGUAI Guillermo Pellegrino •VENEZUELA Dorothy Kronick •AMÉRICA CENTRAL Vernic Gudiel •MIAMI Carlos Molina •WASHINGTON Antonieta Cádiz COLUNISTAS•Susan Kaufman Purcell•Félix Peña •Abraham Lowenthal •John Edmunds •Javier Santiso DIAGRAMAÇÃO Riffka Schiro-kauer J., Sebastián Caro P.

•ILUSTRADORES Daniela Guglielmetti, Rodrigo Díaz Carrizo REVISORA Adriana Casarotti

AMÉRICAECONOMIA INTELLIGENCE (Estudos e Projetos Especiais) •DIRETOR Rodrigo Díaz COORDENADOR-GERAL Jaime Contreras • •ANALISTA SÊNIOR Pablo Hernández ANALISTA Daniela González • AMÉRICAECONOMIA.COM

•EDITOR Franco Piccato

•REPÓRTERES Marcelo García, Magdalena Álvarez, Pablo Jamett• GERENTE DE PRODUÇÃO Constanza del Río Moreno DIRETOR DE MARKETING Marcelo Silva DIRETOR DE CIRCULAÇÃO Marcial Delcorto • GERENTE DE INFORMÁTICA E LOGÍSTICA Óscar Sánchez • BRASIL•HV2 Comercialização de Mídia •DIRETOR-GERAL Hélcio Vieira •GERENTE DE PUBLICIDADE Oscar da Silva Alves •GERENTES DE NEGÓCIOS Rosangela Bomtempo, Nícolas Cardoso Slamek •GERENTE DE MARKETING Denise Terranova Rua Cel. Arthur de Paula Ferreira, 59 - cj 111São Paulo - SP - Brasil CEP 04511-060 Tel.: 5511-3846-5588 ESCRITÓRIOS COMERCIAIS • EUA Tel: 305/648-9071 •MÉXICO Tel: 5255/5254-2400 Fax: 5254-7510 • ARGENTINA Claudia Dasso Tel: 5411/4383-8410 - 4383-8416 •CHILE Tel: 562/290-9400 Fax: 341-5687 • AMÉRICA CENTRAL Julio Lemus Tel-Fax: 502/2261-0278 • PANAMÁ Yadyra de Paz y Miño Tel: 507/271-5327 - 507/66787564 • PERU Ana Pazos Pastor Tel-Fax: 511-4211852 - Cels: 511-97897272 / 511-97622230 REPRESENTANTES INTERNACIONAIS • ALEMANHA Gerd Bielenberg (GWP International Media Service) Tel: 49211/887-2328 Fax: 887-2919 • ESCANDINÁVIA Finn Greve Isdahl (International Media Sales A/S) Tel: 4755/92-5192 Fax: 92-5190 • ESPANHA Luis Andrade (Luis Andrade Publicidad Internacional) Tel: 3491/441-6266 Fax: 441-6549 • FRANÇA Patricia Goupy (PEM Groupe PEMA) Tel: 331/4143-7057 Fax: 4738-6329 • ITÁLIA Carlo E. Calcagno (Studio Calcagno s.r.l.) Tel: 3902/670-73383 • REINO UNIDO David Todd (David Todd Associates Ltd.) Tel: 4420/7538-5811 Fax: 7538-4911 • SUÍÇA Hans Otto (Infoplus AG) Tel: 411/269-7070 REDAÇÕES • SANTIAGO: Tel 562/290-9400 • CIDADE DO MÉXICO: Tel 5255/5254-2400 • BUENOS AIRES: Tel 5411/4383-8410 • MIAMI: Tel 305/648-9071 AméricaEconomia é uma publicação quinzenal da Nanbei Ltd. •Impressa na Plural Editora e Gráfica . México, franquia paga. Publicação periódica•Registro PP09-0011 PRESIDENTE Nils Strandberg CHAIRMAN Robert R. Paradise

Felipe Aldunate M. Diretor Editorial

12 AMÉRICAECONOMIA / 30 DE NOVEMBRO, 2008

Certificado Licitud de Título Nº 4090 . Certificado Licitud de Contenido Nº 3346 . AméricaEconomía is a Nanbei Ltd. biweekly publication


MOVISTAR OPEN

VIÑA DEL MAR, CHILE

31 DE JAN A 8 DE FEV, 2009

www.movistaropen.cl

BRASIL OPEN DE TÊNIS

COSTA DO SAUÍPE, BAHIA, BRASIL

07 A 15 DE FEVEREIRO, 2009

www.tenisbrasil.com.br/brasilopen

COPA TELMEX

BUENOS AIRES, ARGENTINA

14 A 22 DE FEVEREIRO, 2009

www.CopaTelmex.com

ABERTO MEXICANO TELCEL APRESENTADO PELO HSBC www.abiertomexicanodetenis.com

ACAPULCO, MEXICO

23 A 28 DE FEVEREIRO, 2009


CARTAS Pedintes

É incrível que, enquanto a comunidade internacional se preocupa em conseguir fundos para ajudar a milhões de famílias que ficaram sem teto e sem trabalho, empresas automotivas que faturam bilhões de dólares ao ano, espalhadas por vários países ao redor do globo, também peçam ajuda ao governo para cobrir os desacertos de sua gestão! É um absurdo. As companhias automotivas norte-americanas se esqueceram das lições de William Edwards Deming, economista norte-americano nascido em 1900 que explicou a diferença entre as empresas japonesas e as dos Estados Unidos? As japonesas não se esqueceram de seu diferencial, e por isso agora não precisam pedir a vergonhosa ajuda a seu governo para cobrir e justificar sua ineficiência, porque continuam sendo eficientes.

Ministros bons e ministros maus

Parabenizo a revista pela análise feita dos responsáveis pelas políticas econômicas e as finanças públicas de nossos países. Nesse momento de enorme incerteza, é relevante conhecer a potencialidade de nossos ministros. No caso de meu país, acho que a análise é correta e me confirma que a única saída para a crise no país é o aeroporto de Ezeiza. Mariano Castro Buenos Aires, Argentina

Alberto Rodríguez Genta Caracas, Venezuela

Apoio a Obama I

Sempre é interessante conhecer as posições das revistas que se lê sobre temas importantes. Os argumentos que vocês apresentaram para defender Barack Obama entre os candidatos a presidente dos Estados Unidos

Com só

um clique, novos serviços da

AméricaEconomia 14 AMÉRICAECONOMIA / 30 DE NOVEMBRO, 2008

me parecem corretos: apesar de que sempre concordei com os argumentos de base das políticas econômicas republicanas, os Estados Unidos hoje necessitam uma revolução moral, uma revolução simbólica e de significados. Isso só quem pode dar é o candidato que vocês apoiaram e que finalmente ganhou. Alejandro García Miami, EUA

Apoio a Obama II

Considero um erro, sendo latino-americano, apoiar ao então candidato Barack Obama. O recém-eleito presidente dos Estados Unidos tem poucas credenciais para demonstrar-se capaz de tratar de temas relevantes para a América Latina: imigração, comércio, relações políticas, etanol, etc. O republicano McCain, por sua vez, era forte em todos eles. Acho errado que sua prestigiada publicação tenha se focado em uma coisa tão irracional como o carisma de um candidato e outras abstrações para dar seu apoio. Com o candidato republicano teríamos muitas coisas claras. Com Barack, hoje as dúvidas são tão grandes quanto as que tínhamos antes de ele ser eleito. Fernando Ortiz, Cidade do México

A visão do BBVA

Excelente a entrevista com Francisco González, presidente do BBVA (“O bom da crise foi que ela aconteceu”, AméricaEconomia N° 368, 17 de novembro, 2008). Nem sempre os espanhóis se destacaram pelo estilo de gestão de suas empresas, mas a visão desse executivo é admirável. Não é só interessante para seu intelecto, mas também para os acionistas. Se no mundo houvesse mais banqueiros como ele, certamente o sistema financeiro global teria um comportamento muito diferente e não teriam acontecido nem os resgates, nem as perdas milionárias. Angélica Olivares Miami, Estados Unidos

Inadimplente?

Seria terrível para o paísirmão Equador decidir não pagar sua dívida externa

atencionclientes@americaeconomia.com suscribase@americaeconomia.com cartas@americaeconomia.com


CARTAS neste contexto de profunda crise internacional, somada à pouca credibilidade do governo do sr. Correa. As portas da ajuda, a cooperação e qualquer outro tipo de negociação com o mundo econômico se bloquearão instantaneamente. Sabemos que o resultado desse tipo de política é o retrocesso. Isso já aconteceu com outros países. Muitas empresas equatorianas chegam ao Peru afugentadas por seu governo, quando o ideal seria que viessem em um clima de paz e confiança, acreditando em seu país e pensando apenas numa expansão de seu negócio. Espero que não seja muito tarde quando o sr. Correa se der conta do mal que está fazendo ao seu país. Hugo Huamán Takayama Peru

Inadimplente II

O proceder de Correa é desculpa de mal pagador. O que me admira é a confiança que ele tem de que a Venezuela terá todo o dinheiro que Chávez diz distribuir. O deterioro das contas públicas desse país denuncia o desastre que se aproxima. Isso, Correa, liquide com seu país. Suje a imagem internacional de sua pátria!

isolado do âmbito financeiro internacional e financiando o orçamento do próximo ano (aprovado tomando o preço do barril de petróleo a US$ 80). Seu sorriso ridículo não lhe bastará.

Marcelo Sommer Uruguai

Inadimplente III O “companheiro” presidente agora sim decidiu liquidar o Equador com esse salto ao vazio. Pensa que dessa forma o país ganhará “dignidade” e que todos o agradeceremos. Quero vê-lo

!MPLIE

Conspiração

Parece-me que tudo isso da “crise” foi montado, porque ninguém demonstrou que os bancos “gastaram” mais do que o que foi orçado.

SUAVISÎODE

Por outro lado, os bancos hipotecários não souberam administrar de forma inteligente suas carteiras de cobrança, renegociando o pagamento das hipotecas de seus clientes, e preferiram embargar os bens imóveis sem prevenir a queda do valor das propriedades. Sequer souberam vender tais propriedades, ainda que fosse pelo valor residual que cada banco registra, para cada propriedade, em seus arquivos. Se os bancos tivessem “renegociado” os saldos devedores com seus clientes, nada disso teria acontecido. Ao que parece, o órgão fiscalizador dos bancos não atuou adequadamente de forma oportuna. Ricardo Soto Vásquez Costa Rica

NEGØCIOS

2EVISTA !MÏRICA%CONOMIA ENTREGAQUINZENALMENTE AINFORMA¥ÎOMAISCOMPLETA SOBREOSFATOSEANÉLISE DOSNEGØCIOSNA AMÏRICALATINA


SEGUINDO A PISTA CRÉDITO CHINÊS PUBLICAMOS: Os bancos chineses tampouco querem perder a festa, e como seu mercado de capitais está muito menos desenvolvido que o japonês, a opção para eles é ir àqueles onde as empresas chinesas já têm operações de extração de matérias-primas, como Brasil e Peru, em busca de oportunidades. “De fato, o estatal Bank of China está trabalhando para abrir um escritório em São Paulo”, afirma Paul Liu, da Câmara Brasil-China de Desenvolvimento Econômico. (Dor asiática, AméricaEconomia Nº 367, 27 de outubro, 2008) O NOVO: Dia 11 de novembro o presidente Lula assinou um decreto autori-

“SORTE”: CRÉDITO LOCAL

zando a atuação do Banco da China do Brasil. O embaixador Chen Duging afirmou que as operações deverão ser iniciadas no começo de 2009. Estima-se o capital inicial do Banco em US$ 100 milhões, que serão destinados prioritariamente à concessão de créditos para empresas chinesas interessadas em atuar no País.

SEM FREIO PUBLICAMOS: Mas a chilena Cencosud não é a única que planeja uma forte expansão na região. A Falabella também segue somando novos países, depois de ver sua fusão com a D&S fracassar. (“A batalha continua”, AméricaEconomia Nº 361, 21de julho, 2008)

O NOVO: Mesmo com a incerteza do panorama internacional, o grupo Falabella não detém seus planos de expansão. Em novembro, fechou um acordo com o governo colombiano para alugar as cinco lojas da rede Casa Estrella, em Cali e Bogotá, que pertenceram à Sears. Com isso, soma nove lojas no país, além de 15 lojas Sodimac, de produtos de reforma de casa. O grupo também já soma 500 mil adesões a seu cartão de crédito CMR.

16 AMÉRICAECONOMIA / 30 DE NOVEMBRO, 2008

NA JUSTIÇA PUBLICAMOS: A Aracruz, maior produtora mundial de celulose de eucalipto, revelava que sua exposição em contratos de target foward poderia ser o dobro dos derivativos atrelados ao pré-pagamento de exportações. Uma situação crítica que só teve um sinal consistente em 4 de novembro, quando a empresa finalmente revelou o valor total da perda – US$ 2,13 bilhões, o maior anunciado –, e que esta já estava sendo renegociada com os bancos, eliminando com isso a exposição em 97% desses papéis. (“Quem mandou apostar?”, AméricaEconomia Nº 368, 17 de novembro, 2008) O NOVO: Acionistas da Aracruz nos Estados Unidos entraram com uma ação civil pública conta a empresa, exigindo uma indenização por danos causados pela violação das leis norte-americanas de mercados de capitais, devido à realização de operações com derivativos cambiais. A companhia brasileira, por sua vez, encontrou um bode expiatório: decidiu

O AZTECA ATACA NOVAMENTE PUBLICAMOS: A América Latina tem sido um dos destinos favoritos das empresas mexicanas. Em março deste ano, a varejista Elektra estreou no Brasil com a abertura de uma loja e uma sucursal do Banco Azteca. (“Com passo firme”, AméricaEconomia Nº 360, 23 de junho, 2008) O NOVO: O vice-presidente do conselho de administração do Banco Azteca, Luis Niño, afirmou em novembro que até o fim do ano espera ter a aprovação governamental para operar em El Salvador e na Argentina. No Peru, onde entrou em janeiro, o banco já possui 149 sucursais e, no Brasil, 12. Em todos os países onde opera mantém o modelo de negócio exercido no México, de crédito à baixa renda.


EDITORIAL

A

América Latina ganhou uma visita ilustre na última semana de novembro: o presidente da Rússia Dmitri A. Medvedev. Em sua passagem por diversos países da região, Medvedev cumpriu uma agenda intensa em laços econômicos, comerciais e contratos de insumos militares. Promover o intercâmbio comercial de bens e serviços não tem nada de mal. De fato, é muito bom. Mas não são poucos os indícios de que juntamente a isso está o plano de fortalecer a presença russa na América Latina, como parte do jogo estratégico do país frente aos Estados Unidos. E os países latino-americanos precisam ser extremamente cautelosos. E não só por isso. A Rússia pós-soviética, tanto quanto a soviética e a czarista, mostra inegáveis tendências autocráticas. Sua admiração pelos “homens fortes” tanto na política quanto nos negócios não é retórica. Tampouco é retórica sua falta de gentileza com a mídia independente e a tendência de intervir nos assuntos internos de nações mais frágeis. Considerando isso, as calorosas boas-vindas do presidente Hugo Chávez, que não oculta seu interesse de que a Rússia tome algumas das posições que os EUA têm na região, refletiu novamente o antiquado – e triste – da visão de mundo do governante venezuelano, que parece acreditar que o planeta equivale a um clube em forma de ringue, onde caudilhos ou homens providenciais resolvem conflitos entre palavrões, rixas públicas e um ou mais drinques. Se alguma vez o foi, já não é mais assim. Por isso, na região, o Brasil é o jogador que tem que equilibrar, estender e articular da forma mais sofisticada possível sua relação com o gigante euroasiático. Isso porque o Brasil, juntamente com o México, é a única nação latino-americana que pode pretender uma relação de igual para igual em poder e influência em um futuro mundo multipolar. Quanto às aspirações comerciais russas, pode ser que estas não cheguem tão longe quanto a Rússia espera. A América Latina compete com ela nos mercados internacionais de commodities e sua complementaridade econômica é tanta quanto a que existe entre a tequila e a vodka. Mas podemos aprender muito das indústrias rus-

AFP

A VISITA RUSSA sas com base em sua engenharia e tecnologia, bem como eles podem aprender muito da agroindústria latino-americana. E temos que trabalhar juntos para não arruinar o planeta (apesar de que a Rússia ainda tem que dar um sinal claro de que suas autoridades não têm uma posição passiva frente ao aquecimento global). Assim, ǙȢȕȤȢ ȣȢȚȔȟȢȖȔȦȰ ȗȢȥȣȢȘȜȡ ǤȤșțȜȘșȡȦ. Seja bem-vindo à América Latina, senhor Medvedev. Mas não nos considere dentro dos velhos códigos com que seu país continua vendo a política global. LIMPAR A QUEM LIMPA No México, a Operação Limpeza terá que comprovar sua própria higiene. O plano promovido pelo presidente Felipe Calderón, pela Procuradoria Geral da República, com o objetivo de terminar com a corrupção na administração pública, derivou na prisão de altos funcionários da própria Procuradoria e do Ministério de Segurança Pública. Isso porque, dentro de algumas de suas unidades, detectou-se infiltração do narcotráfico, especialmente do cartel dos Beltrán Leyva. Segundo o procurador-geral do México, Eduardo Medina Mora, um alto funcionário da Subprocuradoria de Investigações Especializadas em Delinqüência Organizada (Siedo) recebia US$ 450 mil mensais em troca de informações sobre investigações e ações que os organismos de segurança do país realizavam para combater o cartel do Pacífico. Como Medina Mora não percebeu que um subordinado realizou essa transferência de informação durante 19 meses é algo que terá que ser explicado, bem como as dúvidas sobre a probidade do ministro de Segurança Pública, a quem funcionários da polícia acusaram em várias ocasiões de protetor do cartel de Sinaloa, e quem o presidente Felipe Calderón chegou a defender. Para limpar, é preciso usar panos limpos. E Calderón tem uma árdua tarefa pela frente. Abrir toda a informação disponível para provar a honradez de seu corpo de segurança e derrubar a complexa trama de infiltrações que jaz nas instituições. O presidente terá que mostrar que a Operação Limpeza efetivamente será pulcra. Q

30 DE NOVEMBRO, 2008 / AMÉRICAECONOMIA 17


MOVIMENTOS

Tequila NINGUÉM DUVIDA que a tequila tem efeitos secundários – sobretudo se exagerar na dose. Mas pode gerar diamantes? A resposta é sim. Ao menos segundo os pesquisadores da Universidade Nacional Autônoma do México (Unam), que descobriram que a composição da tequila permite gerar partículas de diamante a partir de 40% de etanol e 60% de água, “e me chamou a atenção porque é a mesma proporção que a das bebidas alcoólicas”, diz Miguel Apatiga, da Unam. “Comprei uma pequena garrafa e trabalhamos nas mesmas condições que com etanol e água, e saiu bem.” Segundo Apatiga, a chave é que a tequila tem a composição exata de átomos de carbono, hidrogênio e oxigênio para produzir películas de diamante. Ainda que até agora essa seja uma produção em laboratório, esperam passar à escala industrial em um par de anos. ARLY FAUNDES B. / CIDADE DO MÉXICO

18 AMÉRICAECONOMIA / 30 DE NOVEMBRO, 2008

DESEJA SEU DIAMANTE COM LIMÃO E SAL?

FERNANDO CARRASCO / POSTAL DEL DÍA

bruta


MOVIMENTOS Salva-vidas fiduciário O COLOMBIANO FUAD VELASCO sabe que no Peru o mercado de fideicomissos está em pleno desenvolvimento, e o momento para entrar nesse negócio não pode ser melhor. Para o presidente do conselho da empresa de serviços fiduciários FiduPerú, os fideicomissos de garantia são a melhor alternativa frente à iminente crise financeira para que as empresas possam ter acesso a financiamento para seus projetos de investimento, sobretudo em um país onde o déficit de infra-estrutura é de US$ 23 bilhões, segundo o Ministério de Transportes e Comunicações. “No Peru existe um grande potencial para desenvolver o mercado fiduciário”, diz Fuad Velasco, da FiduPerú, pertencente ao Grupo Bancolombia. “Enquanto nesse país há US$ 6,3 bilhões de ativos envolvidos, na Colômbia essa cifra chega a US$ 54 bilhões.” Além disso, o ritmo de crescimento do mercado fiduciário nos últimos anos é de 15% a 20%. Este ano, estima-se que cresça 17% e feche o ano com US$ 7,6 bilhões em ativos. NATÁLIA VERA / LIMA

AGORA, ESCADA ABAIXO

Foi dada a largada

NOVEMBRO É O MÊS em que os santiaguinos fazem as pazes com o calor e a atividade física, e ninguém sabe melhor disso que as fabricantes de artigos esportivos. A Nike atraiu 12 mil pessoas para as ruas da capital chilena em sua tradicional corrida de 10 km. Já a Puma decidiu selecionar um centésimo desse total para um desafio diferente: subir os 34 andares - 140 metros - da torre da Telefónica, um dos edifícios emblemáticos da cidade. “É o segundo ano que promovemos o Puma Run Up e o primeiro em que abrimos algumas vagas para as pessoas que quisessem se inscrever pela internet”, conta José Arias, gerente geral da Puma no Chile, acrescentando que a idéia foi inspirada em uma corrida semelhante realizada no Empire State Building, em Nova York. “O interesse foi tanto que tivemos que bloquear o acesso pouco tempo depois.” Planos para replicar a idéia em outro país latino-americano. “Não descartamos a idéia, mas sabemos que isso depende da associação com os responsáveis por um arranha-céu como este”, afirma, sem revelar quais seriam os possíveis candidatos.

VELASCO: A EXPANDIR OS FIDEICOMISSOS

Novos negócios NÃO CONTENTE COM seu papel dominante no México, a Televisa investiu em uma agressiva campanha de expansão que está levando a empresa mexicana multimídia a incursionar em novos ter-renos. Com o lançamento do tvlucion. com, site de vídeos gratuitos, a empresa passa a concorrer diretamente com o YouTube, apresentando não só conteúdos criados por seus próprios usuários como colocando à disposição dos internautas um programa de notícias, duas séries exclusivas, além de vídeos que fazem parte do extenso arquivo da Televisa. Além disso, a empresa também incursiona pelo Oriente com a estréia da versão chinesa de La fea más bella, novela escrita pelo colombiano Fernando Gaitán e produzida pela Televisa no México. E está negociando outras quatro novelas: La madrastra, La intrusa, Esmeralda e Las tontas no van al cielo. “Esse projeto vem de uma expansão internacional da Televisa. A decisão foi ter uma presença muito mais importante em um mercado como o chinês e com mais abertura”, diz Arturo Cazares, conselheiro da Televisa para os mercados asiáticos. MARISOL RUEDA / CIDADE DO MÉXICO

SOLANGE MONTEIRO / SANTIAGO

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MOVIMENTOS Mulheres em rede DIZ A LENDA que se pode encontrar - ou perder - qualquer coisa na bolsa de uma mulher. Mas isso incluiria uma rede social? Aparentemente, sim. A companhia brasileira Bolsa de Mulher transformou-se em meados do ano passado em uma rede social só para mulheres, cujos contatos vão sendo criados em torno de interesses comuns. Hoje, o Bolsa de Mu-lher combina uma rede social com diferentes páginas de conteúdo e serviços de e-commerce. “Atualmente, quem usa Facebook, Orkut ou MySpace se relaciona com pessoas que conhece”, diz Andiara Petterle, PETTERLE: CEO da Bolsa de Mulher, no REDES SÓ Brasil. “Em nosso caso, tePARA ELAS mos 6 milhões de acessos ao mês no Brasil, de pessoas que não necessariamente se conhecem pessoalmente, mas se relacionam porque estão passando por momentos semelhantes na vida.” Devido ao sucesso da idéia, o Bolsa de Mulher acaba de começar sua expansão para Argentina, Chile e México. Recentemente, adquiriu outros sites, como Estrela Guia – de astrologia –, Feminice – seu principal rival –, Bem Leve e Netcard, e começará a oferecer conteúdo e serviços para celulares. “Há um universo de cerca de 30 milhões de mulheres internautas na América Latina, excluindo o Brasil”, diz Petterle. E que já se transformaram em alvo. ARLY FAUNDES B. / CIDADE DO MÉXICO

Escritórios virtuais vs SecondLife INSPIRADO NA POPULARIDADE de mundos virtuais como SecondLife, o argentino Leonardo Savelli, fundador da Universobit.com, decidiu levar esse conceito ao mundo corporativo com um serviço de escritórios e edifícios onde se podem realizar reuniões virtuais, teleconferências e sessões de capacitação pela internet. A OfiXXI é uma aplicação muito mais leve que o SecondLife, e conta “com design mais apropriado para a imagem corporativa que um avatar”, diz Savelli, presidente da nova empresa. Mas o cliente deverá ter seus próprios arquitetos, engenheiros e equipes para replicar sua imagem e conectar os aplicativos de sua própria organização. A OfiXXi oferece uma planilha básica e o sistema onde montar o projeto, bem como a promoção dos edifícios através de eventos virtuais e da interconexão dos sistemas de comunidades 2.0. Somente o tempo dirá se a iniciativa conseguirá replicar o sucesso do SecondLife. Mas o Ministério do Trabalho, a Câmara de Software e Serviços Informáticos da Argentina e outras 11 empresas já alugaram seus espaços. JUAN DALMASSO / BUENOS AIRES

20 AMÉRICAECONOMIA / 30 DE NOVEMBRO, 2008

vai

&

vem

RICARDO VILLELA MARINO

Ricardo Villela Marino, diretor de assuntos latino-americanos da Federação Brasileira de Bancos (Febraban) e presidente de operações latino-americanas do Banco Itaú, foi nomeado presidente da Federação Latino-americana de Bancos, Felaban, para o período 2008-2010. José Manuel Berruecos foi nomeado diretor da Cisco para América Central, norte da América do Sul e Caribe da Cisco, cargo antes ocupado por Rodrigo Abreu, que agora irá para a Cisco Brasil. Berruecos esteve antes a cargo da operação latino-americana da EDS, além de ter ocupado posições chave na Sun e na HP. O brasileiro Marcos Souza assumirá o comando da start up Avancera para a América Latina. Seu desafio é desenvolver o mercado de Server Based Computing através da representação exclusiva da solução ThinLinc em toda a região. Márcia Peres assumiu a diretoria de operações da Third IT Solutions, no Brasil. A criação do cargo deveu-se ao forte crescimento da empresa nos últimos anos. Após sete anos de experiência na Sonda Procwork, Gutembergue de Lima Rodrigues, ex-gerente da regional do Rio de Janeiro, é nomeado diretor da unidade da empresa em Minas Gerais. O novo executivo tem como desafio ampliar o atendimento ao mercado mineiro,


MOVIMENTOS U-ru-onde? MUITA gente fora da América Latina tem dificuldades para localizar o Uruguai no mapa. Os próprios uruguaios confessam que quando viajam ao exterior ouvem a irritante pergunta: “Não é parte da Argentina?” Para os vinicultores uruguaios, entretanto, essa relação poderia ajudar a driblar o escasso reconhecimento do país como produtor de vinho e abrir caminho em mercados premium. Por isso, associações que agrupam mais de 240 fabricantes de vinho no Uruguai negociaram URUGUAI: BERÇO recentemente com o governo DO TANNAT, TÁ? o investimento para reforçar a imagem do Uruguai como “produtor do Tannat”, sua cepa mais famosa, e posicionar seus vinhos entre os grandes conhecedores. O motivo é simples: “Não temos capacidade de concorrer em volume de produção com países como Argentina e Chile; por isso, temos que buscar esses 15% do mercado mundial que gostam de consumir vinhos premium”, afirma Juan Andrés Marichal, enólogo da Bodega Marichal. Ele conta que o projeto poderá render frutos em três anos. Até lá o Uruguai espera que, pelo menos entre os amantes do vinho, o país seja mais fácil de localizar. EDUARDO THOMSON / SANTIAGO

Bolso cheio

EM BUSCA DE OPORTUNIDADES

A CHINA ESTÁ BUSCANDO novas oportunidades de investimento no novo mundo. O China Beijing Equity Exchange (CBEX), instituição que tem realizado os maiors leilões de ativos chineses privatizados, uniu-se ao Asia America Equity Exchange (AAEE) para investir grandes montantes em projetos canadenses, norte-americanos e latinoamericanos. “Nossa meta é que no prazo de um ano todas as nossas divisões estejam funcionando e que possamos captar um volume de negócios de dezenas de bilhões de dólares ao ano”, diz Slenda Chang, presidente da AAEE, instituição que inaugurou em novembro um escritório de representação em Miami. A nova sucursal é a que se encar-regará de canalizar novos projetos para que empresas e fundos soberanos chineses invistam. Dois setores geram especial interesse: mineração e energia. A quantidade de recursos à disposição dos chineses para investir é impressionante. Os fundos soberanos do Estado ultrapassam os US$ 2 trilhões, muitos dos quais foram colocados em bônus do Tesouro dos Estados Unidos que vencem em alguns meses.

NÃO SE ENGANE: ISTO É PROTEÇÃO

Motociclismo com airbags SE ESCUTAR ALGUM motociclista falando de airbags, não se surpreenda. Estes já fazem parte do regulamento do Rally Dakar, e são uma realidade de mercado que a hispano-venezuelana SafeBike Internacional lançou na Venezuela e no Brasil, enquanto busca expandir-se ao restante da região. Mas não consistem em bolsas que saem do volante e se inflam no caso de alguma colisão. São jaquetas infláveis que amortecem as pancadas no pescoço, nas costas e nas articulações. Elas têm um aspecto normal, mas possuem um dispositivo conectado à moto que, ao ser subitamente acionado pela força do corpo quando projetado, infla os sistemas, como se o motorista fosse um ouriço. Cada unidade custa entre 300 euros (US$ 375) e 660 euros (US$ 825), que a SafeBike espera vender através de órgãos oficiais como departamentos de trânsito, policiais e bombeiros. “Vemos que os governos, como o venezuelano, estão muito interessados em regulamentar seu uso como obrigatório, levando em conta que mundialmente as mortes em motocicleta cresceram 30%”, observa Juan Martinez, diretor comercial para a América Latina, que estima vender 5 mil unidades no primeiro trimestre de 2009. JUAN DALMASSO / BUENOS AIRES

ANTONIO MARÍA DELGADO / MIAMI

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Latin America’s Global Business Magazine Global Perspective, Regional Focus, Local Intelligence

www.americaeconomia.com


MOVIMENTOS Gay power

Vida digital MAIS DE 1,3 MILHÃO DE AVATARES, de diferentes formas e cores. Esse número de seres digitais corresponde à quantidade de adolescentes latino-americanos registrados na versão 2.0 do site do Cartoon Network até o final de outubro – 474 mil somente do Brasil. “É uma boa notícia, pois nossa meta era fechar o ano com 1 milhão”, afirma Pablo Zuccarino, diretor de mídia digital do Cartoon Network. A nova experiência desfrutada pelos jovens internautas – que inclui a possibilidade de compartilhar jogos entre usuários e expressar opiniões – elevou o número de entradas únicas mensais em quase 20%, a 3,5 milhões. Mas esse não é o único motivo da empresa para comemorar. “Por sorte o lançamos este ano, pois o modelo multiplataforma também nos dá a possibilidade de oferecer diferentes formatos de publicidade, aproveitando o mundo virtual criado, com vídeo, personagens e até a criação de planetas”, afirma, demonstrando sua preocupação com a retração dos orçamentos publicitários para 2009 e, conseqüentemente, a maior concorrência para atraí-los. “Esperamos que os anunciantes se mantenham, mas certamente terão projetos menos ambiciosos e buscarão alcançar o mesmo resultados com menos dinheiro”, afirma.

SE VOCÊ GERENCIA uma marca de roupa, um restaurante ou uma produtora de espetáculos, comece a pensar em como comunicar-se com o universo gay. Os homossexuais latino-americanos destinam a maior parte de seu orçamento a roupas, idas a restaurantes, espetáculos e produtos de estética. Quarenta e cinco por cento preferem produtos que dirijam sua publicidade ao mundo gay. Além disso, 61% dos entrevistados para uma pesquisa da OmnicomMediaGroup (OMD) acham que há cada vez mais produtos e publicidade voltados para eles, e 65% afirmam que a melhor publicidade é feita pelas marcas de perfume e de roupa. Eles adoram comprar (61% declararam uma alta preferência por sair às compras e 78% não se sentem discriminados ao fazê-lo) e, apesar de preferirem marcas finas e reconhecidas, muitos (41%) estão abertos a provar novos nomes. Os cami-nhos para abordar esse segmento - que em geral têm alto poder aquisitivo - são sugeridos pelo estudo “Entre o público e o privado” que conclui que já existem várias marcas tradicionais investindo em uma linha de comunicação dupla: heterossexual em meios massivos e gay na mídia segmentada. JUAN PABLO RIOSECO / SANTIAGO

SOLANGE MONTEIRO / SANTIAGO

Guerra do cimento

CIMENTO: SUFICIENTE PARA O PERU?

A BATALHA entre a mexicana Cemex e as empresas peruanas agrupadas na Associação de Produtores de Cimento (Asocem) ainda vai longe. A Latinamerican Trading, filial da Cemex no Peru – que planeja fechar o ano com uma participação de mercado de 2,5% –, anunciou que sua aposta para investir US$ 120 milhões na instalação de uma fábrica no país continua de pé. E a

FERNANDO CHEVARRÍA LEÓN / LIMA

empresa garante que é um bom momento para isso, já que a crescente demanda de cimento no Peru está levando as empresas locais ao limite de sua capacidade instalada, e inclusive poderia ocasionar futuros problemas de abastecimento. “As ampliações anunciadas pelas empresas locais não estariam prontas para atender à demanda de 2009”, diz Miguel Vargas,

gerente financeiro da Latinamerican Trading. O que a Asocem acha disso? A associação afirma que o consumo nacional de cimento chegará este ano a 7 milhões de toneladas métricas (TM), menos que a capacidade instalada de suas associadas, que é de 10,22 milhões de TM por ano. “No ano que vem não haverá problemas de abastecimento”, garantem seus representantes.

30 DE NOVEMBRO, 2008 / AMÉRICAECONOMIA 23


ESPECIAL

INFRA-ESTRUTURA

Procura-se um modelo O presente ano não foi bom para o setor de infra-estrutura latino-americano: poucos anúncios de projetos e poucas reformas fizeram com que os países quase não avançassem nesta nova edição do Ranking de InfraEstrutura da América Latina. Mas há exceções: o Brasil, o Peru e as telecomunicações. Equipe AméricaEconomia infra-estrutura cria emprego. A infra-estrutura Resultados no tempo

24 AMÉRICAECONOMIA / 30 DE NOVEMBRO, 2008

Pontuação e posição dos países em 2007 e 2008 FONTE: CG/LA e AméricaEconomia

90 75 60 45 30 15

PONTUAÇÃO 2008 PONTUAÇÃO 2007

CHILE COLÔMBIA MÉXICO PANAMÁ TRIN. E TOB. BRASIL URUGUAI REP. DOM JAMAICA COSTA RICA PERU EL SALVADOR ARGENTINA CUBA VENEZUELA PARAGUAI GUATEMALA BOLÍVIA HONDURAS BELIZE EQUADOR NICARÁGUA HAITI

A

melhora a competitividade de um país e a qualidade de vida de seus cidadãos. A infraestrutura gera conhecimentos, cria redes empresariais e resolve problemas reais. Por isso é adotada por políticos como bandeira de campanha. Os benefícios indiretos dos investimentos em infra-estrutura são consideráveis e por isso não há muita polêmica quando um país avança no desenvolvimento de projetos do setor. E nestes tempos de crise financeira, são muitos os que dizem que o investimento em infra-estrutura poderia ser a melhor política econômica contracíclica. Mas essa é uma tarefa que demanda muito trabalho. É preciso atrair muito capital, capacidade de execução e disponibilidade para esperar pelo retorno até que o projeto esteja concluído. Hoje, o maior desafio não está na engenharia técnica que permite construir a ponte, o porto ou a refinaria: está na engenharia financeira que se requer para atrair o invesGERAL PONTUAÇÃO timento que o projeto ne1 Chile 67,96 cessita. Ou seja, na criação 2 Panamá 63,93 de modelos de negócios por 3 México 62,57 trás de cada projeto que ga4 Colômbia 60,99 rantam a sua rentabilidade e a criação de um marco legal 5 Brasil 60,62 adequado para assegurar aos 6 Trin. e Tob. 60,59 investidores que os acordos 7 Rep. Dom. 55,71 assinados serão respeitados. 8 Peru 55,69 A questão é que a América 9 Uruguai 51,94 Latina tem sido pouco exitosa 47,26 em resolver esses problemas, 10 El Salvador 42,58 tanto que seu investimento em 11 Costa Rica infra-estrutura alcança ape- 12 Argentina 40,90 nas o equivalente a 1,3% do 13 Venezuela 39,91 Produto Interno Bruto (PIB), 14 Guatemala 39,75 enquanto a média mundial é 15 Cuba 39,14 de 2,2%, e na Ásia supera os 16 Jamaica 36,69 5%. Mas nem todos os países 36,00 estão igualmente capacitados 17 Honduras para executar projetos de infra- 18 Paraguai 35,14 estrutura. Essa é a conclusão 19 Equador 34,72 desta terceira edição do nosso 20 Belize 32,06 Ranking de Infra-Estrutura da 21 Bolívia 32,02 América Latina. Elaborado 22 Nicarágua 30,80 em parceria com a consul23 Haiti 21,11 toria especializada CG/LA,

de Washington, analisamos quão bem-preparados estão os países da região para atrair investimento em infra-estrutura. “Investir consideravelmente em infra-estrutura pode amortecer o impacto da crise financeira sobre as economias reais”, diz Norman Anderson, presidente e fundador da CG/LA. “Hoje em dia, analisar a capacidade de um país para desenvolver projetos do setor equivale a analisar a sua capacidade para enfrentar a crise.” A metodologia deste ranking, elaborada pela CG/LA, coloca parâmetros e compara uma enorme quantidade de dados sobre a infra-estrutura dos países da América Latina, que são organizados em três grandes dimensões. A primeira é o estoque existente, ou a capacidade da infra-estrutura atual de cada país para sustentar a produtividade e competitividade dos negócios. Esta categoria inclui também os sucessos passados, especificamente o desenvolvimento de projetos que geram experiência e conhecimento no mercado local. A segunda dimensão é a situação macroeconômica do país. É um fator de alta relevância: se as contas não estão em ordem, é pouco provável que o país possa realizar os investimentos necessários. A terceira dimensão é a capacidade futura de construir, que

A maior dificuldade que o setor enfrentra está na engenharia financeira que se requer para atrair o investimento que os projetos demandam


ESPECIAL

INFRA-ESTRUTURA Quanto de cada?

O Peru foi um país vencedor, já que registra o maior crescimento da região este ano, subindo do posto 11 ao 8

Ranking geral 2008 detalhado por componentes FONTE: CG/LA e AméricaEconomia

CHILE PANAMÁ MÉXICO COLÔMBIA BRASIL TRIN. E TOB. REP. DOM. PERU URUGUAI EL SALVADOR COSTA RICA ARGENTINA VENEZUELA GUATEMALA CUBA JAMAICA HONDURAS PARAGUAI EQUADOR BELIZE BOLÍVIA NICARÁGUA HAITI 10

20

30

40

50 Economia

60

70

Cap. de futuro

80 Estoque infra

reúne um conjunto de atributos que se relacionam à capacidade dos países de atrair investimentos, como a visão dos líderes sobre o futuro e a infra-estrutura, a existência de conhecimento técnico local e a capacidade do setor público para executar seus projetos, entre outros (ver metodologia pág. 29). O Chile continua encabeçando o ranking, embora com uma margem decrescente. O país não tem mantido a extraordinária imaginação que o caracterizou no período 1995-2005. No entanto, encontra-se muito acima do restante da América Latina – embora abaixo dos líderes mundiais na matéria, como Coréia do Sul e Espanha. Como no ano passado, o Chile lidera em transporte e sistema sanitário. À continuação vem o Panamá e sua enorme transformação desde que anunciou a ampliação do canal que une o Pacífico com o Atlântico. Este não só é o projeto mais relevante de infra-estrutura estratégica em todo o hemisfério, como também posiciona o Panamá acima de outros países quanto à porcentagem do PIB investido em infra-estrutura – o dobro do Chile, que, por sua vez, dobra ao seu concorrente mais próximo. De grande relevância é que, assim como as companhias chilenas de infra-estrutura têm se expandido até a Argentina, Peru e Colômbia, o Panamá está adquirindo o tipo de experiência que lhe permitirá construir projetos similares, em breve, em países vizinhos. Na seqüência estão quatro países em virtual empate: México, Colômbia, Brasil e Trinidad e Tobago. O Brasil está pela primeira vez entre os Top 5, principalmente devido a uma positiva situação macroeconômica e aos avanços do PAC, o Programa de Acele-

ração do Crescimento que o presidente Lula vem promovendo há alguns anos e que já está mostrando resultados concretos. O México e a Colômbia não têm histórias tão positivas. Como o Chile, têm perdido pontos no último ano: a Colômbia, mais de 11, e o México, 6. No caso mexicano, a decepção deve ser dobrada, pois Felipe Calderón declarou que seu sexênio seria o da infra-estrutura, que começaria com um importante plano de casas populares e uma renovação da infra-estrutura nacional. Mas, entre problemas de gestão e mudança de prioridades (provavelmente este será o sexênio da guerra contra os narcotráfico e da crise, mais que o das obras públicas), os planos têm demorado a se concretizar em grande parte dos governos. O seguinte grupo de países é liderado pelo gigante energético Trinidad e Tobago, um país que se apronta para transformar-se em um centro financeiro para a região. Para consegui-lo, vai ser preciso um investimento considerável em infra-estrutura digital, já que o país não entra nem no Top 10 nesse item. A verdadeira notícia neste aspecto, no entanto, é que o Peru avança tanto em sua pontuação global (mais de 3 pontos) como no ranking geral, do 11º lugar ao 7º lugar, o maior crescimento neste ano. Tanto o Peru como a República Dominicana têm melhorado a sua pontuação geral, enquanto o restante dos países tem visto a sua pontuELÉTRICO PONTUAÇÃO ação cair abruptamente nesta categoria. 1 México 21,00 A Costa Rica perdeu 10 2 Colômbia 18,59 pontos, principalmente pela 3 Chile 18,17 sua falta de habilidade para 4 Peru 17,96 lograr avanços em projetos 5 Trin. e Tob. prioritários. Este grupo de 16,70 países vai precisar de uma 6 Brasil 15,86 considerável ajuda para es7 Bolívia 15,54 capar dos piores efeitos da 8 Panamá 14,81 crise – principalmente junto 9 Argentina 14,60 aos órgãos multilaterais. 10 Uruguai 14,18 Os últimos cinco países do 11 Paraguai 14,00 ranking vão precisar de assistência extrema para sobreviver 12 Costa Rica 13,55 à crise que se aproxima. O 13 Venezuela 12,92 novo presidente do Paraguai, 14 Cuba 12,81 Fernando Lugo, tem bastante 15 Honduras 12,60 trabalho pela frente. Na pon16 Guatemala 11,30 tuação geral, o Paraguai caiu 17 El Salvador 10,82 7 pontos e passou do 16º ao 18 Jamaica 10,50 19º lugar no ranking. O Haiti continua a ser o último, com 19 R. Dom. 10,08 uma ampla margem em relação 20 Equador 10,08 a países que, de fato, estão em 21 Nicarágua 9,87 uma péssima situação. 22 Belize 8,61 As posições no ranking 23 Haiti 7,56 variam de acordo com a área 30 DE NOVEMBRO, 2008 / AMÉRICAECONOMIA 25


ESPECIAL

INFRA-ESTRUTURA México lidera o ranking elétrico pelo terceiro ano consecutivo; Colômbia se aferra ao segundo lugar por sua matriz diversificada, e Chile fica para trás

O último apaga a luz Consumo elétrico (kHw per capita) FONTE: Autoridades elétricas de cada país

ESTADOS UNIDOS CORÉIA DO SUL ESPANHA TRIN. E TOB. CHILE VENEZUELA JAMAICA ARGENTINA BRASIL URUGUAI 0

2.750

5.500

8.250

11.000

13.750

O toque ecológico Projeção de consumo de energia renovável FONTE: ENERGY INFORMATION ADMINISTRATION

BILHÕES DE BTUS

8.000 6.000 4.000 2.000 0 2003

2010

2015

2020

2025 BRASIL

2030 MÉXICO

OUTROS

da infra-estrutura que a análise aponta. Este estudo considera quatro: eletricidade, malha viária e logística, saneamento e infra-estrutura digital. No ranking de energia elétrica, o México mantém o primeiro lugar na América Latina, pelo terceiro ano consecutivo. Esse resultado se deve em grande parte às contínuas melhoras em todos os aspectos da rede elétrica federal. A chave continua sendo a habilidade e determinação da CFE de diversificar a matriz de geração para garantir o abastecimento – incluindo a inauguração, este ano, da planta GNL Manzanillo, que levará gás do campo de Camisea no Peru. A Colômbia continua no segundo lugar no ranking de eletricidade, graças à sua matriz fortemente diversificada (carvão e gás natural produzidos no interior do país, bem como hidroeletricidade). Já o Chile continua em um impasse surpreendente. É o único país do Top 5 que carece de uma importante fonte local de combustível, que lhe permita ser capaz de cobrir suas próprias necessidades básicas. A instável dependência do gás natural argentino continua afetando o país – e, pior ainda, apresentando um fator de insegurança que origina um cenário pouco propício para os negócios. O Peru este ano é o astro da cena, logrando finalmente conectar o combustível de Camisea à matriz energética, bem

26 AMÉRICAECONOMIA / 30 DE NOVEMBRO, 2008

como desenvolvendo importantes projetos hidroelétricos. A sua ascensão no ranking se deve principalmente a uma margem de reserva maior, 12%, em comparação com o 7% do ano passado, assim como às boas notícias em relação ao projeto hidroelétrico e de irrigação Electropampas/PampasVerdes de US$ 2 bilhões em Ayacucho, e ao apoio de multilaterais como a CAF para os projetos elétricos no Peru. O Brasil continua atrasado apesar de ser, ao mesmo tempo, uma grande promessa. Os problemas que tem tido para diversificar a sua matriz, que depende principalmente da hidroeletricidade, têm sido atenuados graças aos novos investimentos em gás natural e a um agressivo programa de energias verdes. Este programa é de nível mundial e promete incorporar 14.400 MW ao sistema até 2020, o que cobriria até 15% da matriz energética do país. No entanto, o sistema brasileiro, assim como o chileno, se encontra cheio de incertezas – uma verdadeira falta de incentivo para os investimentos de longo prazo. Tanto o Panamá quanto a Argentina destacam-se nesta categoria, embora por razões diferentes. O Panamá está desenvolvendo agressivamente a sua capacidade de geração, como um mecanismo para sustentar a sua economia. A Argentina, que já chegou a ter um dos melhores sistemas elétricos LOGÍSTICA PONTUAÇÃO da América Latina, baseado 1 Chile 15,44 tanto em abundante geração 2 Colômbia 12,37 hidroelétrica quanto em seu 3 Panamá 11,88 próprio abastecimento de gás 11,39 natural, a um custo muito bai- 4 Jamaica 10,41 xo, no entanto, tem hoje o pior 5 Uruguai sistema de todos os grandes 6 Argentina 10,39 países da região. 7 Rep. Dom. 10,05 DE OLHO NA ESTRADA A crise, ao que parece, bateu antecipadamente no setor de estradas rodoviárias e logística, pois 2008 foi um ano que careceu de grandes projetos. Em matéria de transporte, 2008 poderia ser lembrado como o ano das postergações. O setor, conformado pelos portos e sistemas logísticos associados – incluindo transporte urbano, estradas, vias ferroviárias e hidrovias – é crítico para a competitividade da América Latina. O Chile é novamente o primeiro nesta categoria.

8 México 9 Brasil 10 Trin. e Tob.

10,00 9,92 9,80

11 Cuba

7,72

12 Costa Rica

6,98

13 Venezuela

6,37

14 Paraguai

6,00

15 Guatemala

5,76

16 Bolívia

5,39

17 El Salvador

4,90

18 Honduras

4,66

19 Equador

4,29

20 Peru

4,17

21 Belize

3,19

22 Haiti

2,70

23 Nicarágua

2,21


ESPECIAL

INFRA-ESTRUTURA Contudo, este ano o país adiou uma série de projetos e ainda 1 Chile 10,03 lhe dói o fracasso do Transan2 Colômbia 7,93 tiago, o polêmico sistema de 3 Uruguai 7,67 transporte urbano da capital 4 Cuba 6,46 que tem absorvido quase todos os seus recursos na procura de 5 Trin. e Tob. 6,09 uma solução. 6 Brasil 5,99 A Colômbia é o país com 7 México 5,93 maior potencial em transporte 8 Peru 5,78 na região. Com portos tanto no 9 Costa Rica 5,67 Atlântico como no Pacífico, e 10 Panamá 5,46 um território interior que exi11 Equador 5,41 ge maior conectividade com os portos e sistemas de acesso 12 Belize 4,88 logístico – especialmente um 13 Argentina 4,73 sistema intermodal – o país pa14 Venezuela 4,67 rece estar pronto para explorar 15 Rep. Dom. 4,46 novos terrenos em infra-estrutura 16 Jamaica 4,20 de transportes. Mas algo o está 17 El Salvador 3,62 atrasando e a sua pontuação 18 Bolívia cai 13% nesta categoria, em 3,41 relação a 2007. 19 Honduras 3,26 O Panamá é o primeiro em 20 Guatemala 3,20 infra-estrutura portuária e lo21 Paraguai 2,57 gística, em todo o hemisfério22 Nicarágua 2,42 inclusive portos no litoral do 23 Haiti 0,68 Golfo e no litoral Leste dos Estados Unidos estão investindo em preparação para a explosão de embarcações Post-Panamax que deverá acontecer assim que o Canal estiver pronto, em 2014. A Jamaica continua ocupando uma posição relativamente elevada em nosso ranking, seguido pela estréia do Uruguai dentro dos Top 5. Os seguintes cinco países são importantes. O Brasil subiu um degrau, da décima à nona posição, melhorando a sua pontuação em quase 20%, um dos incrementos mais importantes de qualquer país, em qualquer categoria, neste ranking. Grande parte deste avanço se deve a melhoras em logística. Ao mesmo tempo, as concessões de autopistas e os projetos de transporte urbano continuam avançando aceleradamente, assim como os investimentos privados, como o projeto do Porto de Açu, de Eike Batista. Tanto a República Dominicana, quanto o México têm uma série de projetos ambiciosos pendentes, que foram adiados em 2008 e deverão se realizar em 2009. Na República Dominicana, o projeto para a autopista Santo Domingo – Samaná, que une os litorais Norte e Sul da ilha, deverá continuar; e no México, uma série de iniciativas rodoviárias e portuárias chaves, incluindo o projeto Punta Colonet, que já vem aí e contempla um investimento de US$ 8 bilhões, deverão avançar em 2009. ÁGUAS

PONTUAÇÃO

HORIZONTE NEGRO O setor sanitário (que combina as redes de água potável e esgotos) encontra-se em graves apuros na América Latina. À exceção do Chile, as pontuações de cada país na região têm sido menores – de forma precipitada no caso da Argentina, que

Conectados Host de internet cada 10 mil habitantes FONTE: CG/LA

ESTADOS UNIDOS URUGUAI MÉXICO ESPANHA ARGENTINA CHILE BRASIL CORÉIA DO SUL COLÔMBIA TRIN. E TOB. 2.000

4.000

6.000

8.000

10.000

abandona completamente o Top 10 desta categoria, apesar de ter ocupado o 5º lugar há um ano. Isto pressagia um ano ruim para 2009, já que os investimentos em águas e esgotos tendem a avançar nos bons tempos, e a cair de forma dramática em períodos de dificuldades financeiras. Por exemplo, numa das maiores cidades da América Latina – que se caracteriza por graves problemas de água – o orçamento do setor para 2009 foi diminuído em 25%. A mensagem é a de que o setor de água potável e esgotos na América Latina se encontra em crise, e que esta situação vai piorar devido a que os investimentos estão condicionados ao nível das tarifas e impostos sobre bens raízes. TELECOM PONTUAÇÃO Os países que têm rea1 Brasil 15,82 lizado os maiores esforços 2 Chile 14,00 nos últimos anos, são os que obtêm as mais altas pontu3 Colômbia 13,58 ações: Chile, Colômbia e 4 Rep. Dom. 13,44 Uruguai. São países que não 5 Uruguai 13,44 só reconhecem a importância 6 México 13,30 da água potável para a saúde 7 Argentina 13,16 pública como têm incorpo8 Belize 12,88 rado modelos financeiros 9 Peru 12,18 para garantir a operabilidade e manutenção de sistemas 10 Costa Rica 11,48 de água – os quais, porém, 11 Venezuela 11,40 continuam a apresentar níveis 12 Jamaica 10,50 muito abaixo dos sistemas do 13 Paraguai 10,22 primeiro mundo. 14 El Salvador 10,08 O Uruguai entra no Top 15 Honduras 9,24 5 este ano, principalmente 16 Nicarágua em função de projetos de 9,10 melhora na distribuição de 17 Trin. e Tob. 8,96 água potável, incluindo o 18 Panamá 8,96 projeto de Modernização e 19 Guatemala 8,26 Reabilitação dos sistemas de 20 Equador 6,44 Obras Sanitárias do Estado, 21 Bolívia 6,16 com o respaldo do Banco 22 Cuba 4,90 Mundial. O Brasil e o México têm 23 Haiti 2,66 grandes planos, assim como grandes necessidades e constantes postergações. Cada um tem abordado de forma

30 DE NOVEMBRO, 2008 / AMÉRICAECONOMIA 27


ESPECIAL

INFRA-ESTRUTURA Infra-estrutura Brasil histórico Pontuação final do Brasil, por ano FONTE:CG/LA

70 60

56,92

60,59

60,62

2007

2008

50 40

2006

Ranking saneamento básico Pontuação final do Brasil, por ano FONTE:CG/LA

20 15 10 6,41

7,19

2006

2007

5,99

5 0

2008

Ranking transporte Pontuação final do Brasil, por ano FONTE:CG/LA

20 15 10

8,94

7,84

9,92

5 0

2006

2007

2008

Ranking eletricidade Pontuação final do Brasil, por ano FONTE:CG/LA

20 15

17,74 13,89

15,86

FONTE:CG/LA

20

10

15

5 0

Ranking digital/telecomunicações Pontuação final do Brasil, por ano

13,58

13,86

2006

2007

15,82

10 2006

2007

2008

5 0

2008

País encolhido

S

e soltássemos a imaginação e definíssemos a forma dos países não mais por sua geografia e área, mas pelo índice de infraestrutura, a América Latina ficaria como se vê acima. Dessa forma, o Brasil teria seu tamanho reduzido, já que nesta versão do ranking de infra-estrutura da CG/LA ele obtém a quinta posição. Se esse exercício tivesse sido feito há dois anos, o país teria ficado ainda menor, já que desde a primeira versão do ranking o

28 AMÉRICAECONOMIA / 30 DE NOVEMBRO, 2008

Brasil aumentou seu índice de infra-estrutura em 3,7 pontos. Apesar de ter melhorado sua posição, quando se trata de infra-estrutura, o Brasil e a região em geral crescem lentos. Dentro desse jogo, os países que se vêem favorecidos são Chile, Panamá e México, que obtêm os três primeiros lugares. Já Bolívia, Nicarágua e Haiti também sofrem uma redução de suas superfícies.


ESPECIAL

INFRA-ESTRUTURA A infra-estrutura digital mostrou grandes avanços em 2008 pela disponibilidade de financiamento para novos investimentos. O Brasil leva a dianteira nesse setor diferente o problema sanitário. O Brasil tem descentralizado um sistema estatal, enquanto o México possui um sistema federal. Porém, os resultados são os mesmos: uma batalha para articular ou financiar projetos, e atrasos constantes nas obras (ver história na pág. 35). A Cedae, entidade sanitária do estado do Rio de Janeiro (e que apresenta um dos piores desempenhos da região), se prepara para realizar a sua oferta pública inicial de ações, seguindo a tendência imposta pela Sabesp. A administração atual está investindo fortemente para melhorar a eficiência e reduzir as perdas de água potável, tanto as físicas, quanto as comerciais - de faturamento. Observa-se também que os esforços do Peru para incrementar o seu rendimento no setor sanitário têm gerado resultados impressionantes – logrando um avanço do 15º ao 8º lugar em um ano. Isto também demonstra a precariedade do setor na América Latina, assim como o rápido avanço que se poderia alcançar com esforço e perseverança. SEM CONEXÃO… DE NOVO A área de infra-estrutura digital mostra um rendimento diametralmente oposto ao do setor sanitário, ainda gera investimentos e é facilmente financiada por meio das tarifas de acesso e em direta correlação com a produtividade. As pontuações melhoraram de forma significativa em 2008 em todos os países. O Brasil continua no primeiro lugar, elevando a sua pontuação nesta categoria em 12%. De fato, o Brasil está progredindo significativamente em matéria digital – particularmente em novos serviços de valor agregado. Vêm a seguir o Chile e a Colômbia, que têm desenvolvido sistemas bem projetados, que servem de plataforma para os negócios, com poucas interrupções ou perdas de sinal. A República Dominicana continua subindo no ranking, do 5º ao 4º lugar em um ano, melhorando a sua pontuação em 11%. O grande assunto deste país é seu movimento agressivo no ingresso e processamento de dados, baseado em um crescimento estável e uma importante população bilíngüe – o que representa uma considerável vantagem. O México surpreende, mantendo a 6ª posição, principalmente devido ao elevado custo das ligações e à falta de inovação – produto de um sistema de telefonia monopólico. Um dos poucos que tem caído neste aspecto é a Costa Rica, do 7º ao 10º lugar, devido ao fracasso na liberalização de seu sistema estatal. Muitos dos serviços digitais disponíveis em toda a América Latina simplesmente não estão disponíveis na Costa Rica. Q

VEJA OS RESULTADOS COMPLETOS DO RANKING EM WWW.AMERICAECONOMIA.COM.BR

METODOLOGIA E FONTES Para realizar este ranking, a CG/LA recolheu as informações e analisou 40 variáveis separadas, que se dividiram em variáveis ‘infra-estruturais’ e econômicas/administrativas. As primeiras são aquelas que descrevem a capacidade física e o desempenho de um país –como estradas asfaltadas por cada 1.000 habitantes. As segundas são aquelas que descrevem as condições gerais sob as quais os projetos são concebidos e levados adiante. A coleta dos dados se fez durante um período de seis meses, para os 23 países incluídos na reportagem. Também se considera na metodologia uma terceira dimensão de variáveis, que é composta por: visão estratégica das áreas gerais nas quais um país, região ou cidade pode ser mais competitivo; capacidade de planificação técnica do setor público; capacidade estratégica do setor público, ou seja, de levar adiante um projeto; tamanho dos projetos de infra-estrutura nos quais se compromete o país e quanto estes contribuem para a competitividade; capacidade de liderança nas políticas e financiamentos para que os projetos se completem; desempenho no longo prazo dos projetos; a existência de fortes empresas locais de engenharia, busca e construção (EPC é sua sigla em inglês); e a presença de investidores institucionais locais, como fundos de pensão, que ajudem a financiar os projetos com um horizonte no longo prazo. Os oito requisitos acima mencionados devem funcionar de forma sincronizada para que um país obtenha um crescimento sustentável no longo prazo em sua infra-estrutura e são sintetizados em um indicador.

Projetar um país Indicador de capacidade de construir o futuro FONTE: CG/LA e AméricaEconomia

PANAMÁ CHILE TRIN. E TOB. MÉXICO COLÔMBIA REP. DOM PERU BRASIL EL SALVADOR GUATEMALA JAMAICA CUBA HONDURAS VENEZUELA ARGENTINA EQUADOR NICARÁGUA PARAGUAI HAITI BOLÍVIA

0

10

20

30

40

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ESPECIAL

INFRA-ESTRUTURA O estudo de AméricaEconomia e CG/LA identifica os projetos anunciados em 2008 que modificarão o perfil da infra-estrutura na América Latina. Estes são os dez principais:

6

Planta de trat. de águas servidas La Chira – Peru Valor: US$ 384 milhões

O projeto inclui o desenho, financiamento, construção, operação e manutenção de uma estação de tratamento de água. A planta terá capacidade média de 6,5 m3/s e máxima de 11,3 m3 /s. A concessão para sua operação será por 25 anos.

8

Reestruturação da Termoelétrica Valle de México – México Valor: US$ 800 milhões

O projeto foi licitado pela Comissão Federal de Eletricidade em meados de 2008 e, completo, terá capacidade de 1.170 MW. A iniciativa, que fornecerá energia elétrica para uma das regiões urbanas mais populosas do planeta, será desenvolvida pelo setor privado através do sistema de licitações públicas do país.

9

Autopista Ruta del Sol – Colômbia Valor: US$ 2,5 bilhões

A Ruta del Sol é o maior projeto que o governo colombiano empreenderá durante esta década. A estrada, que terá 900 km de extensão, conectará Bogotá com o porto de Santa Marta, na costa Atlântica. Será um dos maiores projetos de infra-estrutura na América Latina e a principal iniciativa do setor de transporte na Colômbia. Os termos da licitação estão sendo definidos pelas autoridades.

10

Extensão da linha FerroNorte – Brasil Valor do Projeto: por definir

Postergado durante mais de uma década, o projeto estenderá os 900 km de linha férrea existentes em São Paulo para mais de 5 mil km. Este megainvestimento logístico permitirá unir as regiões produtivas do interior com o Porto de Santos. O custo dos primeiros 400 km é estimado em US$ 1,1 bilhão.

BUSCAM-SE

7

Porto de Itaqui – Brasil Valor: US$ 100 milhões (estimado)

A expansão do porto de Itaqui é parte do PAC (Programa de Aceleração do Crescimento) do governo brasileiro e envolve uma expansão significativa do parque industrial. Atualmente, conta com quatro terminais. A expansão contempla entregar a construção de um terminal multipropósito em concessão. Estima-se o custo em US$ 100 milhões, incluindo a dragagem, mas o mais provável é que se supere essa cifra. A construção do porto ajudará a descongestionar os portos de Santos e Paranaguá.

Apesar desses exemplos, a infra-estrutura da América Latina ainda requer muito investimento futuro. O estudo da CG/LA identifica alguns dos principais projetos demandados na região que permanecem, em alguns casos, em fase de estudo, mas que são de vital importância para o desenvolvimento da região. Estes incluem: a construção do porto de Punta Colonet na costa pacífica do México (avaliado em US$ 2 bilhões); a estrada Oaxaca-Puerto Escondido-Huatulco (US$ 450 milhões); a expansão e concessão dos portos de Moín e Limón, na Costa Rica (US$ 350 milhões); a construção do metrô de Bogotá; a expansão do porto e da ferrovia de Santos, no Brasil (US$ 5,4 bilhões); a reabilitação e expansão da ferrovia a Belgrano, na Argentina (US$ 1,1 bilhão); o projeto petrolífero Ku-Maloob Zaap no México (US$ 4 bilhões); o trem-bala entre Rio de Janeiro e São Paulo (US$ 11 bilhões); e o projeto hidroelétrico Santo Antônio, no Brasil (US$ 1 bilhão).

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ESPECIAL

INFRA-ESTRUTURA O estudo de AméricaEconomia e CG/LA identifica os projetos anunciados em 2008 que modificarão o perfil da infra-estrutura na América Latina. Estes são os dez principais:

6

Planta de trat. de águas servidas La Chira – Peru Valor: US$ 384 milhões

O projeto inclui o desenho, financiamento, construção, operação e manutenção de uma estação de tratamento de água. A planta terá capacidade média de 6,5 m3/s e máxima de 11,3 m3 /s. A concessão para sua operação será por 25 anos.

8

Reestruturação da Termoelétrica Valle de México – México Valor: US$ 800 milhões

O projeto foi licitado pela Comissão Federal de Eletricidade em meados de 2008 e, completo, terá capacidade de 1.170 MW. A iniciativa, que fornecerá energia elétrica para uma das regiões urbanas mais populosas do planeta, será desenvolvida pelo setor privado através do sistema de licitações públicas do país.

9

Autopista Ruta del Sol – Colômbia Valor: US$ 2,5 bilhões

A Ruta del Sol é o maior projeto que o governo colombiano empreenderá durante esta década. A estrada, que terá 900 km de extensão, conectará Bogotá com o porto de Santa Marta, na costa Atlântica. Será um dos maiores projetos de infra-estrutura na América Latina e a principal iniciativa do setor de transporte na Colômbia. Os termos da licitação estão sendo definidos pelas autoridades.

10

Extensão da linha FerroNorte – Brasil Valor do Projeto: por definir

Postergado durante mais de uma década, o projeto estenderá os 900 km de linha férrea existentes em São Paulo para mais de 5 mil km. Este megainvestimento logístico permitirá unir as regiões produtivas do interior com o Porto de Santos. O custo dos primeiros 400 km é estimado em US$ 1,1 bilhão.

BUSCAM-SE

7

Porto de Itaqui – Brasil Valor: US$ 100 milhões (estimado)

A expansão do porto de Itaqui é parte do PAC (Programa de Aceleração do Crescimento) do governo brasileiro e envolve uma expansão significativa do parque industrial. Atualmente, conta com quatro terminais. A expansão contempla entregar a construção de um terminal multipropósito em concessão. Estima-se o custo em US$ 100 milhões, incluindo a dragagem, mas o mais provável é que se supere essa cifra. A construção do porto ajudará a descongestionar os portos de Santos e Paranaguá.

Apesar desses exemplos, a infra-estrutura da América Latina ainda requer muito investimento futuro. O estudo da CG/LA identifica alguns dos principais projetos demandados na região que permanecem, em alguns casos, em fase de estudo, mas que são de vital importância para o desenvolvimento da região. Estes incluem: a construção do porto de Punta Colonet na costa pacífica do México (avaliado em US$ 2 bilhões); a estrada Oaxaca-Puerto Escondido-Huatulco (US$ 450 milhões); a expansão e concessão dos portos de Moín e Limón, na Costa Rica (US$ 350 milhões); a construção do metrô de Bogotá; a expansão do porto e da ferrovia de Santos, no Brasil (US$ 5,4 bilhões); a reabilitação e expansão da ferrovia a Belgrano, na Argentina (US$ 1,1 bilhão); o projeto petrolífero Ku-Maloob Zaap no México (US$ 4 bilhões); o trem-bala entre Rio de Janeiro e São Paulo (US$ 11 bilhões); e o projeto hidroelétrico Santo Antônio, no Brasil (US$ 1 bilhão).

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ESPECIAL

INFRA-ESTRUTURA

Futuro รกrido

32 AMร‰RICAECONOMIA / 30 DE NOVEMBRO, 2008


ESPECIAL

INFRA-ESTRUTURA

O

s astecas que no século XIV fundaram seu império sobre as pequenas ilhas de Tenochtitlan e Tlatelolco, no meio de cinco lagos, certamente não se surpreenderiam se soubessem que, quase 500 anos após ter sido conquistada, sua capital imperial continua sendo muito maior e mais populosa que a capital dos conquistadores espanhóis. Na época já era assim, e hoje a Cidade do México continua se caracterizando por ser uma das maiores concentrações urbanas do mundo. O fato que, sim, lhes chamaria a atenção, é o desaparecimento da água dessa cidade. De toda a água. Com 22 milhões de habitantes, 20% do total da população do país, o Distrito Federal (DF) mexicano e seus arredores foram construídos sobre o que foi um paraíso aquático que, com o correr do tempo, foi transformado quase num deserto. A população atual carece cada vez mais do abastecimento local deste recurso. Hoje, a água que alimenta a capital deve ser transportada de outros estados através de complexos sistemas. Segundo a Comissão Nacional da Água, na Zona Metropolitana do Vale do México – que compreende o DF e os municípios ao redor do estado do México – 92,5% da população têm acesso à água potável encanada, mas esta porcentagem é cada vez mais difícil de ser mantida.

média de 10 cm de afundamento por ano, provocando danos graves na rede hidráulica, o que explica e perda de 30% a 40% da água transportada. Segundo dados da Conagua, a Zona Metropolitana do Vale do México recebe 63 m3 (63 mil litros) de água por segundo para uso urbano. Deste total, 19,5 m3 vêm do Sistema Cutzamala e Lerma (do estado do México e Michoacán, respectivamente), 1,5 m3 de rios e mananciais e uma quantidade considerável, 42 m3, dos lençóis aqüíferos. Além disso, conforme é necessário aumentar a profundidade de exploração, encontra-se maior concentração de metais; a cor e o cheiro do líquido começam a mudar. Assim, a água chega cada vez menos apropriada para o consumo. Parte fundamental desta superexploração é o grande consumo per capita de água potável do Vale: uma média de 325 litros diários por habitante. Muito mais alto que em outras cidades como Monterrey ou Águas Calientes, onde a média de consumo por habitante é de 250 litros por dia. “Não temos uma cultura de consumo consciente de água porque aqui é muito barata”, explica Villalón. Segundo a Conagua, o custo de extração da represa em Cutzamala, incluindo o tratamento para torná-la potável, é de 6,70 pesos mexicanos (US$ 0,4) por m3. No entanto, os serviços de transporte e tratamento das águas – constitucionalmente, no México não se pode

A falta de normas tarifárias, infra-estrutura e disponibilidade de água colocam a Cidade do México e seus arredores em perigo

LATINSTOCK/EDITADA POR AMÉRICAECONOMIA

Arly Faundes Berkhoff, Cidade do México

A demanda cresce tanto quanto a população, num ritmo de 2% no DF e de 5,6% no estado do México. Este aumento deveria ser passível de controle. O problema é, por um lado, que tal aumento acontece em um entorno ambiental onde, em termos absolutos, a disponibilidade de água começa a se reduzir a níveis críticos. E, por outro, que os incentivos socioeconômicos não estão aplicados para reverter esta realidade, fazendo com que cidadãos e empresas não melhorem a forma como a utilizam. De fato, o sistema de abastecimento requer uma infraestrutura que possibilite um maior investimento. Além disso, os sistemas aqüíferos estão sendo superexplorados, afetando diretamente a qualidade da água e o risco de afundamento da cidade. Pior ainda, a estrutura dos preços não fomenta um consumo mais consciente. E as redes de abastecimento de água apresentam importantes vazamentos, resultando numa grande perda da água que abastece a Zona Metropolitana. Jorge Efrén Villalón, diretor da Bacia Águas do Vale do México, da Comissão Nacional da Água (Conagua), explica que “como neste terreno antes existia um lago, o terreno é lamacento e instável e tende a afundar”. E essa predisposição já está se convertendo em realidade: a região apresenta uma

cobrar pela água em si – são vendidos a 4,21 pesos (US$ 0,3) aos governos do estado do México e do DF. “No ano passado aumentamos em 18% o preço e foi um problema. Todos se queixaram, embora ninguém tenha chegado a pensar que o custo ainda continua muito acima do que estamos cobrando”, acrescenta. Segundo Villalón, o problema é que, como o país nunca teve um sistema eficiente de cobrança da água, determinar um preço real de um dia para outro é muito mais difícil. Mas esta intrincada cadeia da água não termina aí. Em nível nacional, depois de receber a água da Conagua, os Estados a distribuem aos seus municípios, que têm seus próprios órgãos para administrar os sistemas de água (instituições públicas). No caso do DF, que não está dividido em municípios, os operadores de água dependem do Serviço de Água da Cidade do México, o qual por sua vez depende do Governo do DF. E, embora se suponha que este tenha autonomia para operar e, portanto, para regularizar tarifas, na prática isso não funciona assim. Segundo explica Roberto Olivares, presidente da Associação Nacional de Empresas de Água e Saneamento (Aneas), que agrupa os operadores dos sistemas 30 DE NOVEMBRO, 2008 / AMÉRICAECONOMIA 33


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ESPECIAL

Contraponto estatal Especialistas afirmam que, mesmo com garantias de crédito do governo brasileiro, a crise poderá afetar cronograma de obras do PAC Dubes Sônego, São Paulo

J

á se tornou quase um mantra do Governo Federal brasileiro. Desde que estourou a crise financeira nos Estados Unidos, o Ministro da Fazenda, Guido Mantega, repete com a mesma freqüência com que é questionado por jornalistas que não faltará crédito para as obras do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC). Grandes projetos de infraestrutura são uma das principais bandeiras do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, e também de outros presidentes latinoamericanos, para garantir a geração de empregos e manter as engrenagens da economia resistentes à retração. No caso do PAC, porém, fechar a equação que garantirá o investimento

dos R$ 503,9 bilhões previstos em obras de infra-estrutura até o final de 2010 não dependerá apenas da boa vontade política. Segundo especialistas, a crise pode ter comprometido a demanda por instrumentos de crédito fundamentais na estruturação de financiamento de algumas obras, ou mesmo colocado de sobreaviso potenciais interessados em estabelecer parcerias com o Estado. Pelo menos, no curto prazo. “O governo está injetando recursos, mas certos projetos, como o de algumas PPPs, por exemplo, demandam estruturas financeiras sofisticadas, que não sabemos se podem ser erguidas neste momento de crise”, afirma Rogério Sobreira, professor de 30 DE NOVEMBRO, 2008 / AMÉRICAECONOMIA 35

ÁLVARO ARAYA URQUIZA

INFRA-ESTRUTURA


ESPECIAL

INFRA-ESTRUTURA economia e finanças da FGV. Sobreira se refere a instrumentos de securitização e derivativos, que provavelmente não teriam demanda atualmente, por serem identificados como vilões da crise que colocou diversos grandes bancos de joelhos. “São obras, inclusive, que não poderiam ser tocadas exclusivamente com recursos do sistema financeiro nacional. Porque o Banco Central impõe limitações ao volume de recursos empenhados por uma instituição em apenas um projeto”, diz. Sobreira chama a atenção ainda para o fato de que parte das obras do PAC são tocadas em parceria com a iniciativa privada. Face à crise, ele acredita que muitos empresários e executivos podem relutar em se associar ao governo em projetos cujo desempenho futuro dependa fortemente do crescimento do PIB, ou que necessitem de um montante grande de recursos iniciais. “Não que a crise vá levar ao cancelamento, mas pode adiar a realização de certos projetos de infra-estrutura”, diz o acadêmico. O projeto do trem-bala, que prevê a ligação entre as cidades de São Paulo, Campinas e Rio de Janeiro, seria um exemplo. Estimada em algo entre US$ 10 bilhões e US$ 15 bilhões, a obra teve o leilão adiado do primeiro para o segundo semestre de 2009 em função da crise. A ministra Dilma Rousseff, da Casa Civil, justificou a decisão dizendo que um projeto de tal dimensão exige um nível de precisão técnica bastante aguçado. Para Sobreira, porém, o adiamento da licitação já é um sinal de problemas: “são riscos não triviais, que podem levar à postergação”. Em função disso, merecem atenção grandes leilões previstos para o próximo ano, como a terceira etapa de concessões rodoviárias, marcada para o dia 23 de março. O investimento previsto nos 2066 km dos trechos das BRs 040, 116 e 381, nos estados de Minas Gerais e Goiás, é de R$ 1,6 bilhão, até 2010. Após o período, seriam necessários outros R$ 6,6 bilhões. Este ano, em dezembro, também deverá ser lançado na Bovespa o edital de sub-concessão da Ferrovia Oeste-Leste. Orçado em R$ 3,3 bilhões, a serem investidos até 2010 – outros R$ 2,7 bilhões são previstos para obras posteriores –, o projeto ligará Ilhéus, na Bahia, a Figueirópolis, no Tocantins, cobrindo 1,5 mil km. Na área de energia, foi marcado para outubro de 2009 o leilão da usina de Belo Monte, no Pará, que aproveitará o potencial de geração hidrelétrica do Rio Xingu, gerando 11,1 mil MW. O projeto prevê investimento de R$ 7 bilhões, dos quais R$ 2,8 bilhões programados para acontecer até 2010. O temor da iniciativa privada em assumir riscos num momento de escassez de liquidez como o atual é compreensível. “A área de infra-estrutura tem um lado perverso”, diz Gin Kwan Yue, professor do departamento de administração da PUC-SP, especialista em operações e logística. “Mesmo que a economia permaneça aquecida por dez anos, o retorno da maioria dos projetos acontece depois de 20 anos. Por isso, é necessário contar com grande volume de recursos no início.” Levando-se em consideração o percentual de participação direta da iniciativa privada e de empresas estatais no conjunto do PAC, a capacidade de levantar financiamentos pode ser crucial. Dos R$ 503,9 bilhões que o governo espera ver transformados 36 AMÉRICAECONOMIA / 30 DE NOVEMBRO, 2008

em infra-estrutura até 2010, somente R$ 67,8 bilhões sairão diretamente do bolso da União. Até agora, porém, dos quase R$ 33 bilhões aprovados nos orçamentos de 2007 e 2008, apenas cerca de um terço foi efetivamente desembolsado, segundo levantamento realizado pela ONG Contas Abertas em dados do Sistema Integrado de Administração Financeira do Governo Federal (Siafi). De janeiro a junho deste ano, por exemplo, dos R$ 6,6 bilhões autorizados para rodovias, saíram dos cofres públicos somente R$ 235 milhões, ou 4,3%, além de R$ 1,8 bilhão de restos a pagar. Em 2007, os percentuais de desembolso efetivo em ferrovias, portos e infra-estrutura energética foram, respectivamente, de 23,48%, 38,35% e 20,58%. Somente em aeroportos, por conta do caos aéreo que vive o País, foi investida a totalidade dos recursos previstos. E ainda há muito a ser feito. De acordo com o último balanço do programa, que cobre o período que vai do seu início até 30 de setembro deste ano, de um total de 2198 obras monitoradas, 1829 estão em ritmo de execução adequado. Mas, apenas 194 foram concluídas, não muito mais que o total de obras que merecem atenção ou estão em estado considerado preocupante: 175. Na área de infra-estrutura energética, por exemplo, 32% dos projetos ainda estavam em fase de licitação de obra, projeto ou licenciamento. Em infra-estrutura logística, o percentual era

Garófalo: “O governo está pondo muita responsabilidade nas costas da iniciativa privada... ela nem sempre vai se aventurar” de 26%, enquanto em infra-estrutura social e urbana, 66%. “O governo está pondo muita responsabilidade sobre as costas da iniciativa privada. Nesse cenário, ela nem sempre vai se aventurar”, diz Gilson de Lima Garófalo, professor do departamento de economia da PUC-SP e membro do Núcleo de Análise Econômica. Além disso, diz ele, fusões e aquisições são tendências em outros setores, não apenas no financeiro, e podem drenar recursos que de outra forma talvez fossem direcionados a projetos de infra-estrutura. E algumas empresas já estão parando projetos que podem ser interrompidos, num claro sinal de indisposição para a tomada de riscos frente a um quadro econômico pouco cristalino. Para Adriano Biava, especialista em finanças e professor da FEA-USP “o setor privado não vai ter tanto capital assim”. E, “o setor público vai ter que pensar um pouco mais sobre quais recursos públicos pode dispor”. Uma das alternativas, segundo ele, seria a “contribuição de melhoria”, uma taxa cobrada de proprietários diretamente beneficiados por uma obra – a valorização de um imóvel próximo a um metrô, por exemplo. Mas, não haveria interesse político para tanto. O que exige atenção redobrada com as finanças públicas para garantir os recursos


ESPECIAL

ABr

INFRA-ESTRUTURA

necessários à continuidade do programa. “A receita é defasada. Estamos arrecadando o correspondente há três ou seis meses. É bom tomar cuidado para o ano que vem. Há o alerta sobre a possibilidade de redução do ritmo de atividade econômica”, diz. É algo que preocupa também outros economistas. Para Sobreira, da FGV, está claro que uma redução do crescimento do PIB para 3%, como é a previsão atual para 2009, terá impacto sobre a arrecadação. E o governo será pego numa situação de aumento dos gastos públicos, justamente num momento em que seria desejável maior margem de manobra. “Na época em que fazia sol, o governo teve a oportunidade de fazer o ajuste fiscal e não fez”, afirma o acadêmico, que lembra que reduzir as metas de superávit não seria a solução para o problema, uma vez que a medida seria encarada como aventureira, derrubando a confiança na sustentabilidade da dívida do País. Garófalo, da PUC-SP, faz avaliação semelhante. “O governo vai ter queda de arrecadação e acaba de mostrar relativa generosidade com o funcionalismo público, que teve reajustes salariais”, diz o economista. ENTRAVES BUROCRÁTICOS Mas, mesmo em áreas nas quais o governo tem o dinheiro pronto para oferecer, podem acontecer problemas. Em meados de novembro, Leodegar Tiscoski, secretário do Ministério das Cidades, apresentou um balanço dos recursos solicitados pela

São Pedro X PAC

N

o Sul do Brasil, não é só a crise que pode atrapalhar o andamento das obras do PAC. As chuvas que castigaram o estado de Santa Catarina durante os meses de outubro e novembro causaram estragos suficientes para provocar o que o secretário de Infra-Estrutura local, Romualdo Theophanes França, classificou como “problemas sérios” nas sete obras rodoviárias em andamento na região. A chuva, que provocou enchentes e desmoronamentos, chegando a romper um duto do gasoduto Brasil-Bolívia, teria mudado a estabilidade do solo. Em função disso, serão necessárias adequações

iniciativa privada para obras de saneamento básico. Dos R$ 8 bilhões disponíveis, foram habilitados apenas R$ 2 bilhões. Questionada sobre o que o governo classificou como “falta de interesse” das empresas do setor, a Associação Brasileira de Infra-Estrutura e Indústria de Base (Abdib) reagiu apontando como razão para o fato a baixa demanda por projetos do gênero em prefeituras e estados. A abertura de licitações andaria a passos lentos, mesmo havendo dinheiro, por escassez de profissionais habilitados para colocar de pé os projetos. É um caso emblemático da dificuldade que o Brasil tem de dar andamento aos contratos. Maurício Portugal Ribeiro, consultor do setor de infra-estrutura na International Finance Corpotarion (IFC), ligada ao Banco Mundial, explica quais os trâmites tradicionais de um projeto. “É preciso fazer um edital de contratação de uma consultoria para fazer o projeto e, depois, um edital de obra, para realização do projeto em si. O processo todo pode levar dois anos, supondo que o poder público tenha gente para conduzir esses projetos”, diz. Segundo ele, muitos dos projetos que evoluíram até agora já estavam contratados ou já havia, pelo menos, um estudo pronto para a obra. Em função disso, existe a possibilidade de que o que vier pela frente ande mais devagar. Em grandes hidrelétricas de Jirau e Estreito, na região Norte, existe ainda protestos de ambientalistas. Até agora, o governo contornou o problema, mas Estreito chegou a ser paralisada, em meados do ano, por uma liminar concedida por um juiz federal de Imperatriz (MA), que acolheu a denúncia do Ministério Público. Segundo levantamento realizado pela ONG Contas Abertas junto a Advocacia Geral da União (AGU), as obras do PAC já receberam mais de 900 ações judiciais, a maioria relativas à desapropriação de terras que serão inundadas por lagos de hidrelétricas ou cortadas por rodovias. Independente das ressalvas feitas ao programa, todos os entrevistados consideram a execução dos projetos incluídos no PAC de vital importância. E lembram que, bem ou mal, a coisa está andando. “Pior do que estava, não vai ficar. Bem ou mal, os investimentos estão sendo feitos e existe disposição do governo de investir”, diz Ribeiro, do IFC. Q

no cronograma de execução, nos projetos e metodologias de construção, para garantir a segurança das obras. Os estragos foram tão significativos que João Paulo Kleinubing, prefeito de Blumenau, a cidade mais atingida de Santa Catarina, estima que a recuperação de toda a infra-estrutura local poderá levar até dois anos. Blumenau é um dos principais pólos têxteis do País, abrigando principalmente empresas fabricantes de malhas e produtos de cama, mesa e banho. Entre as empresas com origem na região estão Hering e Karsten.

30 DE NOVEMBRO, 2008 / AMÉRICAECONOMIA 37


SOCIAL AMÉRICAECONOMIA ENTREGA PRÊMIOS EXCELENCIA 2008 AméricaEconomia premiou a empresários, personalidades e executivos que movimentaram os negócios na América Latina em 2008, em um almoço de reconhecimento no dia 20 de novembro, no Hotel Miraflores Park, em Lima, no Peru. O evento – que celebrou o 20° aniversário dos Prêmios Excelência e foi realizado paralelamente a APEC CEO Summit – contou com a presença dos mais destacados empresários da região, que também participaram da conferência “A Nova Wall Street. Quais as mudanças nos serviços financeiros na América Latina e na Ásia Pacífico?”.

John Edmunds, profesor da Babson Collage; Enrique García, CEO da Corporación Andina de Fomento Francisco Aristeguieta, presidente do Citibank Co- CAF; Pedro Pablo Kuczynski, ex-primeiro-ministro do Peru; Francisco Aristeguieta, presidente do Citibank lombia. Colombia e Guillermo Larraín, superintendente de Valores e Seguros de Chile.

Enrique García, CEO da Corporación Andina de Fomento CAF.

Alberto Alemán, Administrador da Autoridad del Canal de Panamá recebe o prêmio das mãos de Norman Anderson, CEO da GG-LA

Cristiano Sampaio, gerente da AmBev Perú recebe o prêmio representando Carlos Brito, CEO da Inbev. Quem faz a entrega é Fernando Chevarría, editor executivo da AméricaEconomía Perú.

Rodrigo Paz, presidente da Liga Deportiva Universitaria de Quito recebe o prêmio das mãos de Gloria Landabur, vice-presidenta executiva da AméricaEconomía.

Felipe Aldunate, diretor editorial da AméricaEconomía faz a entrega do prêmio a José Rubens de La Rosa, CEO da Marcopolo.

Nils Strandberg, presidente da AméricaEconomia, faz a entrega do prêmio a Germán Freyre, gerente da Incalpaca.

Guillermo Larraín, superintendente de Valores e Seguros de Chile, recebe o prêmio das mãos de Juan Ignacio de Zabala, gerente da AméricaEconomía Perú.


Francisco Aristeguieta, presidente do Citibank Colombia, recebe o prêmio representando Manuel Medina Mora, presidente e diretor do grupo Citi. John Edmunds, professor da Babson Collage, faz a entrega.

José Alberto Vélez, presidente da Cementos Argos recebe o prêmio das mãos de Juan Ignacio de Zabala, gerente da AméricaEconomía Perú.

Nils Strandberg, presidente da AméricaEconomía faz a entrega do prêmio a José Alberto Zuccardi, presidente da La Agrícola.

Fernando Chevarría, editor executivo da AméricaEconomía Perú faz a entrega do prêmio a Raúl Obregón, gerente da Bimbo Peru, que representou Daniel Servitje, diretor do Grupo Bimbo.

Max Novoa, presidente da Publimobil, recebe o prêmio das mãos de Fernando Chevarría, editor executivo da AméricaEconomía Perú.

Luc Gerard, presidente da Tribecapital Partners.

Pedro Pablo Kuczynski, ex-primeiro-ministro do Peru.

Gloria Landabur, vice-presidenta executiva da AméricaEconomía faz a entrega do prêmio a Flavio Balestrín, diretor de Expansão Internacional do Grupo TOTVS, que representou Laercio Consentino, presidente da TOTVS.

Carlos Rodriguez-Pastor, CEO da Interbank recebe o prêmio das mãos de Nils Felipe Aldunate, diretor editorial da AméricaEconomía faz a entrega do prêmio a Strandberg, presidente AméricaEconomía. Gustavo Grobocopatel, CEO do Grupo Los Grobo.


ESPECIAL

INFRA-ESTRUTURA

Rotas profundas

As novas gerações de navios exigem da América Latina portos mais bem-preparado Dubes Sônego, São Paulo

D

as janelas do bimotor de fabricação tcheca Let 410 UVP-E20, de 19 lugares, a Lagoa dos Patos, no Rio Grande do Sul, parece um mar, de tão ampla. No horizonte, percebe-se que a terra firme estende-se de forma análoga: é plana como a massa de água lá embaixo; se diferencia apenas pela coloração esverdeada e pela textura. Em poucos minutos mais, surge um centro urbano, e a aeronave aterrissa no pequeno aeroporto de Rio Grande. Esta pequena cidade gaúcha, de cerca de 200 mil habitantes, foi fundada em 1737, como posto de defesa no extremo sul do país, no canal de acesso à lagoa. É a mais antiga do estado, mas só há poucos anos voltou a assumir posição de relevância econômica nacional. E a pleitear um papel de maior destaque: o de porto do Mercosul. A aposta tem razão de ser. Na última década, começaram a entrar em operação navios de transporte de contêineres de uma nova geração, conhecida como Post Panamax. O nome vem do fato de serem grandes demais para atravessar o canal que liga o Atlântico ao Pacífico na região do Caribe. Mas, esta não é a única limitação que enfrentam. Carregados, esses cargueiros gigantes exigem que os portos interessados em recebê-los ofereçam 40 AMÉRICAECONOMIA / 30 DE NOVEMBRO, 2008

cais mais profundos que os encontrados na maioria dos casos. Uma exigência pode forçar o rearranjo das rotas marítimas na América Latina e, de quebra, beneficiar Rio Grande. Hoje, os maiores navios do mundo, como o Emma Maersk, com 397 metros de comprimento e capacidade de 11 mil TEUs (unidade equivalente a um contêiner de 20 pés), fazem as grandes rotas do eixo horizontal, que ligam os EUA à Ásia e os EUA à Europa. O volume é quase o dobro do carregado pelos maiores navios que escalam a costa brasileira. À medida que novas embarcações Post Panamax entram em operação, porém, as que operavam as rotas que ligam o Leste ao Oeste são transferidas as do eixo Norte-Sul, fazendo escalas na América Latina, diz o consultor de portos Marcos Vendramini, sócio-diretor da VKS Partex, “é o efeito cascata.” O problema é que muitos portos importantes da região, como o de Buenos Aires, o quinto maior da América Latina e do Caribe de acordo com a Comissão para a América Latina e o Caribe (Cepal), das Nações Unidas, não têm calado suficiente para receber os navios das novas gerações. E é pouquíssimo provável que venham a ter. No caso de Buenos Aires, alter-


ESPECIAL

INFRA-ESTRUTURA nativas como a dragagem não são viáveis economicamente, uma vez que seria necessário aprofundar todo o trecho do Rio da Prata que separa a capital argentina do oceano. O porto de Itajaí, localizado na foz do rio Itajaí Açu, no litoral de Santa Catarina, no Sul do Brasil, é outro que enfrenta problema semelhante, por causa do assoreamento. Seu calado de 10,5 metros é suficiente para receber apenas navios de pouco mais de 4 mil TEUs. Além do que, a cidade ao redor dificulta a expansão de áreas para movimentar e armazenar cargas. Com grandes áreas livres e planas, posição geográfica privilegiada, próxima de grandes centros industriais, como Porto Alegre, a cidade de Rio Grande é uma das que vêem nas dificuldades dos concorrentes oportunidades. “Alguns navios começam a não chegar a Buenos Aires. Em algum momento, os argentinos terão que fazer o transbordo das cargas para navios maiores, na costa brasileira. Somos o centro geográfico do Mercosul e queremos ser uma desses pontos”, diz Sérgio Fischer de Castro, diretor de terminais do Grupo Wilson,Sons, que administra o terminal de contêineres local. Concessionária do porto desde 1997, a empresa recentemente investiu US$ 50 milhões na ampliação do cais e na compra de guindastes em forma de trave (RTGs), que permitiram o aumento da capacidade de movimentação de cargas de 700 mil TEUs para 1,13 milhão de TEUs, por ano. Hoje, Rio Grande ocupa a 18ª posição no ranking de portos da Cepal, duas posições atrás de Itajaí, por exemplo. Mas, para o futuro, conta com a vantagem de ter maior calado (12,5 metros, expansíveis), áreas livres para construção de vias de acesso, movimentação e armazenagem de cargas. Não é um caso único na América Latina. Segundo Ricardo Sánchez, especialista em infra-estrutura da Cepal, um dos portos com grande calado em melhores condições para crescer no México é justamente o mais novo e um dos menos movimentados na lista dos 30 maiores portos da região: o de Lázaro Cárdenas. Ele já recebe navios de 6,6 mil TEUs, vindos da Ásia, e tem capacidade de receber navios de até 8 mil TEUs. “Manzanillo (hoje, o mais movimentado do País) está cercado pela cidade, tem problemas para crescer. Lázaro sim tem para onde se expandir, capacidade de manejo de cargas e um terminal grande. Este vai ser o grande porto para o futuro”, diz. No Chile, Valparaiso e San Antonio, respectivamente 10º e 17º do ranking da Cepal, são os portos apontados por Sánchez como destaques em termos de preparação para os novos tempos, apesar de problemas de acesso por terra. No Panamá, MIT, o segundo, atrás apenas de Santos, e Balboa, o quarto, são outros exemplos citados de preocupação com eficiência. “Deve haver uns oito portos em toda a América Latina que têm profundidade e guindastes para receber os grandes navios das novas gerações”, diz o especialista. E acrescenta: “a maioria está preparada apenas para navios Panamax, de até 4,5 mil TEUs. Têm problemas de calado, gruas pequenas e antigas, ou nem mesmo têm gruas, como Callao (maior porto do Peru e 8º no ranking da Cepal)”. Portos mais bem preparados como os citados tendem a assumir o papel de hub ports. O conceito, importado da aviação, já é usado na Ásia e no Norte da Europa. Grandes aeroportos, como o de Frankfurt, na Alemanha, são o ponto de chegada

e partida tanto de aviões pequenos, que cobrem rotas curtas, quanto de aviões grandes, que voam trechos intercontinentais. E servem para a concentração ou distribuição de cargas e passageiros, sendo chamados de hubs. “Eles ainda não existem por aqui”, diz Olivier Girardi, sócio-diretor de transporte, logística e infra-estrutura da Trevisan Consultoria. “Mas, com a chegada dos Post Panamax, existe a idéia de fazer hub ports”. A preocupação em receber navios de grande porte não é um simples capricho. “É uma questão de economia de escala. Quanto maior o navio, menor o custo por contêiner”, diz Girardi. “Nós já estamos fora das grandes rotas do hemisfério Norte. Se não usarmos hub ports, ficaremos ainda mais limitados em termos de competitividade”. Além disso, segundo José Antonio Balau, diretor de operações e cabotagem da Aliança Navegação e Logística, um porto não escolhe que navios receber. “Se não houver calado, a navegação simplesmente não virá.” Incluído no Programa Nacional de Dragagem, do Governo Federal Brasileiro, o canal de acesso a Lagoa dos Patos permitirá em breve a passagem de navios de mais de 10 mil TEUs, colocando Rio Grande no seleto grupo de portos brasileiros capazes de receber os navios Post Panamax, ao lado de Sepetiba (Rio de Janeiro), Suape (Pernambuco), Pecém (Ceará), Itaqui

Quanto maior a embarcação, menor o custo por contêiner do transporte. E um porto não pode escolher quais navios receber: sem calado, será eliminado (Maranhão), Itapoá (Santa Catarina) e Santos (São Paulo), os dois últimos também após dragagem. As estimativas variam um pouco, mas, com calados de pelo menos 15 metros, esses portos deverão ser capazes de atender a escalada no tamanho dos navios até por volta de 2013 ou 2015, quando atracarão na região embarcações de 9 mil a 10 mil TEUs de capacidade. Porém, pelo menos no Brasil, para que o modelo de hub ports funcione, o executivo da Aliança diz que será necessária a criação de mecanismos que dêem agilidade a liberação de cargas vindas de outros portos brasileiros na alfândega. “O reembarque chega a demorar uma semana”, diz Balau. “Ainda é exigida a verificação física da carga e a alfândega não trabalha 24 horas por dia. Tentamos implantar um sistema do tipo em 2006 e não fomos bem sucedidos. Já melhorou muito. Mas, por conta da burocracia, não conseguíamos que uma carga saísse de Itajaí na segunda, chegasse a Santos na terça e embarcasse na quarta”, conta o executivo. A julgar pelo crescimento das embarcações, é possível que, em breve, surjam novas iniciativas. Resta saber quais serão, entre os portos latino-americanos, os escolhidos pelos gigantes. Além da profundidade do cais, diz Girardi, pesarão na escolha a proximidade de grandes centros produtores e consumidores. Se assim for, sairão em vantagem grandes cidades capazes de abrir espaço para o crescimento de seus portos. Q Com Arly Faundes Berkhoff, Cidade do México. 30 DE NOVEMBRO, 2008 / AMÉRICAECONOMIA 41


ESPECIAL

INFRA-ESTRUTURA

Aquém das A penetração da banda larga cresce a toda velocidade pela América Latina. Mas a falta de concorrência faz com que essa largura deixe a desejar Juan Pablo Dalmasso, Córdoba

Freqüentemente lhe cai a conexão?... Ah... Você tem o modem redondinho, que parece uma tartaruga? Sim? Então esse é o problema.” Essa era a resposta que o serviço técnico da Arnet, unidade de negócios de internet da argentina Telecom, dava a muitos de seus usuários há um ano. Poderia ter sido o caso de um simples mortal, mas não: o problema era massivo e a falha, reconhecida abertamente: o modem Huawey, que a empresa entregava a seus clientes junto ao serviço oferecido, cortava a comunicação. Na seguinte promoção feita pela companhia, esse problema já estava resolvido mas, infelizmente, não era o único que invadia o mercado. Quando estabeleceram o programa de benefícios Work from home na Procter & Gamble (P&G), perceberam que existiam problemas reais quando a conexão de ADSL selecionada para o executivo não correspondia à operadora da parte Norte (Telecom) ou Sul (Telefónica) do país. “Tivemos que tomar a decisão de contratar um serviço local”, queixa-se Pablo Vásquez, responsável pela infra-estrutura de redes e comunicações da P&G em Buenos Aires, mostrando que nem tudo cheira bem na florescente banda larga argentina. O crescimento do mercado é galopante, a um ritmo de 46% ao ano, segundo o estudo “Barômetro Cisco da Banda Larga”: os backbones nacionais e internacionais estão mais que bons, “mas não existe concor-rência suficiente para que haja um serviço de qualidade. “E não somente na Argentina, mas em toda a região”, diz, em Oregon, o argentino Juan Pablo Fernández, do Gartner. Com exceção do Chile, que é o único país da América Latina, junto a Cuba, que obriga a interconexão de serviços, a concorrência não será o melhor brilho da rede. O Brasil é semelhante à Argentina, garante o especialista, e a situação no México é ainda pior. Apesar de que as companhias de TV a cabo mexicanas podiam prover esse serviço até pouco tempo atrás, dando início ao processo de consolidação, “não se constituíram em uma opção real”, afirma. A prática de fazer grandes promoções e deixar os investimentos para depois tem sido comum entre as operadoras da região. Sua conseqüência é a saturação das centrais e a queda de qualidade do serviço. Para piorar, a última milha é precisamente uma parte do negócio sensível à manutenção, ainda mais levando em conta que em muitas regiões as ligas de cobre não são precisamente novas. “A experiência não é boa e lhe obriga a 42 AMÉRICAECONOMIA / 30 DE NOVEMBRO, 2008

contratar o dobro de largura de banda que o requerido para obter algo satisfatório”, observa Diego Ghione, presidente de GlobalThink Technology, pequena empresa tecnológica de Córdoba dedicada ao desenvolvimento de tecnologias para VoIP. Uma pesquisa realizada pelo IDC entre executivos de telecom presentes no evento Futurecom 2008, em São Paulo, mostra que a desconfiança entre eles é grande. Quando se perguntou sobre o desenvolvimento do 3G como alternativa competitiva, 92% afirmaram que essas inovações elevarão o tráfego de dados, mas 56% consideraram que os operadores não estão preparados para enfrentar esse aumento. Ainda que o futuro possa ser alentador devido ao crescimento acelerado, inclusive da largura de banda oferecida, para alguns analistas é preciso considerar que ainda estamos longe do primeiro mundo. “Não apenas pelo índice de penetração por cada 100 habitantes, que na média da região é de 4,5% e nos países desenvolvidos é de 25%, como também pelas capacidades oferecidas”, adverte o mexicano Gonzalo Rojón, diretor de ICT Research da consultoria The Competitive Intelligence Unit, na Cidade do México. E não é uma comparação absurda. Os serviços online são universais e os latino-americanos ainda pedalam um triciclo. Nesse sentido, as projeções estatísticas e de mercado se unem em um ponto de saturação. Por um lado, segundo cálculos do IDC publicados no “Barômetro Cisco da Banda Larga”, a Argentina se colocava como a provedora de maior largura de banda, com mais de 80% das conexões superando os 512 kbps e mais de 40% superando a capacidade do megabit por segundo (mbps) em junho de 2008. No mesmo período, o Brasil

CORRIDA DE TARTARUGAS País

Conexões de mais de 512 kbps (%)

Conexões de mais de 1mbps (%)

Argentina

82

41

Brasil

59

28

Venezuela

54

14

Chile

50

13

Colômbia

35

8

Peru

29

4

FONTE: IDC, BARÔMETRO CISCO DA BANDA LARGA 2008


ESPECIAL E SPECIAL

INFRA-ESTRUTURA IN NFRA-ESTRUTURA

expectativas registrava quase 60% das conexões superando os 512 kbps e 28% superando 1 mbps. O problema é que 512 kbps a esta altura do campeonato significam mais uma conexão sempre on do que realmente banda larga. “Uma conexão corporativa parte de 2 mbps; uma internet com VoiP e vídeo, entre 1 e 2 mbps funciona bem, e se falamos de triple play, já deveríamos considerar de 4 a 6 mbps”, diz Daniel Gemse, gerente de engenharia de sistemas da Cisco para Argentina, Uruguai e Paraguai. A Cisco ainda prevê um crescimento feroz de conteúdos para 2012. Somente entre consumidores finais da América Latina, espera-se que o tráfego IP supere os 32 hexabytes (mil à oitava)

LATINSTOCK/EDITADA POR AMÉRICAECONOMIA

Em recente pesquisa realizada entre executivos do setor de telecom em São Paulo, 92% afirmaram que o 3G elevará o tráfego de dados, mas 56% consideraram que as operadoras não estão preparadas para o aumento. mensais para 2012. Apesar de que a maior parte do consumo atual de tráfego IP seja de dados, o vinculado com a IPTV (TV sobre internet) e com o VoD (vídeo on demand) terá uma taxa de aumento anual na região de mais de 68%, chegando a ser de 90% do tráfego total que corre pela rede. Se é que a largura de banda suporte. O que fazer? Certamente, abrir a concorrência para acelerar o crescimento não foi uma má idéia, até o momento. Além disso, a internet é um dos pilares para que o negócio das telecom continue crescendo, alentando o 3G e o WiMax para ter alternativas de última milha. E inclusive adequar a qualidade

aos custos. “Certamente não podemos pagar um serviço de primeiro mundo, mas pelo menos mais do que nos oferecem”, diz Juan Pablo Fernández, diretor de pesquisa para telecomunicações da Gartner. Q 30 DE NOVIEMBRO, 2008 / AMÉRICAECONOMIA 43


Toyota: 3 mil empregados a menos no Japão

RECESSÃO PRODUTIVA

Em contração econômica e com o iene supervalorizado, Japão vê na América Latina plataforma de produção atraente para suas empresas Eduardo

Thomson, Tóquio

P

ela Rua Omotesando, em Tóquio, costumam passar jovens vestidos com roupas das mais bizarras tribos urbanas que passeiam carregando sacolas de produtos Gucci, Giorgio Armani e Louis Vuitton, enquanto teclam com rara habilidade mensagens de texto em seus celulares coloridos de última geração. “Agora carregam menos sacolas”, diz Cedric

Leherle, um fotógrafo francês que está há 20 anos morando em Tóquio, enquanto tira fotos dos pedestres. O motivo é que o arquipélago asiático está oficialmente em recessão. O que está causando demissões e afetando o fraco consumo interno. Alguns economistas até prevêem uma retração de 1% na economia em 2009. Mas essa pode ser uma boa notícia para a América

44 AMÉRICAECONOMIA / 30 DE NOVEMBRO, 2008

Latina, pois está forçando as empresas do país a transferirem a localização de muitas de suas atividades produtivas e a analisar novos mercados. A isso é preciso somar a força da moeda japonesa, o iene, que golpeou em cheio as empresas exportadoras locais. Ainda que algumas pessoas acreditem que a situação cambial não será uma tendência no longo prazo e poderá enfraquecer-se, ela é

sim um fator que as empresas japonesas estão levando em conta ao considerar instalar novas plataformas de produção. A América Latina pode aproveitar para fortalecer ainda mais sua posição de plataforma produtiva, beneficiando-se de sua proximidade de vários mercados e sua mão-de-obra cada vez mais qualificada. A montadora Toyota, por exemplo, parece estar fazendo

AFP

NEGÓCIOS INDÚSTRIA


uma mudança geográfica em sua estrutura produtiva. Apesar do mau tempo, a empresa indicou que vai construir sua segunda fábrica de automóveis no Brasil, na cidade de Sorocaba, no Estado de São Paulo, com a contratação de 2.500 trabalhadores. Tudo isso enquanto demite cerca de 3 mil empregados temporários no Japão e 120 em sua fábrica na Virgínia Ocidental, Estados Unidos, ao que se somam fechamentos temporários de fábricas neste país. Aliás, os empregados de uma unidade da Toyota em San Antonio, Texas, aproveitaram um fechamento temporário da fábrica para trabalhar na limpeza de praças públicas.

À DISTÂNCIA Outro fator que está levando as empresas japonesas a olharem à América Latina para a produção de bens e serviço é o alto custo do transporte. A proximidade com os Estados Unidos - que está em recessão agora, mas é e seguramente continuará a ser um grande país consumidor - e o fato de que muitos economistas prevêem que os preços dos combustíveis voltarão a subir também jogam a favor da América Latina. O tema foi discutido em profundidade durante uma conferência organizada em Tóquio recentemente pelo Banco Interamericano de Desenvolvimento. Nela, Hiroshi Watanabe, presidente e gerente-geral do Japan Bank for International Cooperation (JBIC) comentou que os preços altos de energia e transporte continuarão pesando cada vez mais no comércio (os recentes preços baixos do petróleo se devem mais a temores de curto prazo pela recessão do que aos fundamentos econômicos, segundo ele). Essa importante barreira

para a logística internacional está forçando a se considerar plataformas de produção mais próximas de novos mercados. É a nova tendência conhecida como near-sourcing, ou seja, produzir mais perto dos consumidores finais. De fato, segundo um estudo da CIBC World Markets, os custos de transportes de bens para os Estados Unidos equivalem a uma tarifa de 9% em todas as importações. Há instituições que identificaram essa necessidade de inserir a América Latina como uma plataforma, seja para cadeias globais de produção ou para casos de near-sourcing. Gabriel Barrera, diretor da unidade de desenvolvimento da Proméxico, organismo encarregado de promover o comércio exterior mexicano,

provém de empresas japonesas. Akira Kudo, ex-diretor das operações da Mitsubishi na América do Sul e atualmente assessor de estratégia global, considera vital que a América Latina trabalhe para reforçar a integração regional e global para se converter em uma plataforma de produção atraente para as empresas japonesas. “O Brasil por si só é um mercado suficientemente grande, mas os outros países devem trabalhar na integração de seus mercados para atrair mais atividades produtivas japonesas, comenta. “Por exemplo, a Mitsubishi fabrica partes de automóveis no Brasil e elevadores na Colômbia, mas gostaríamos de produzir mais. As empresas japonesas reconhecem que devem concentrar seus esforços manufatureiros nos produtos

cipal motor na forma em que serão desenhados os acordos de comércio regionais”, comenta. Um exemplo disso é a iniciativa do Arco do Pacífico, proposto recentemente para integrar os países com litoral no Pacífico e que comercializam com a Ásia. Alguns meios de comunicação internacional estão acentuando que o novo cenário de crise financeira, recessão e near-sourcing será o réquiem da globalização. Que esses produtos eletrônicos, como o iPhone, produzidos a partir de componentes elaborados em diversos continentes por 30 empresas diferentes, montados na Ásia e depois vendidos nos Estados Unidos ou Europa, serão algo do passado. Agora tudo será produzido e montado próximo ao mercado final.

O alto custo do transporte da Ásia e a proximidade com os EUA também são atrativos para as japonesas instalarem-se na região. afirma que diferentes entidades assumiram essa questão como uma de suas tarefas centrais. “Um dos temas principais que as entidades promovedoras do comércio na América Latina estão analisando é como atrair mais investimentos estrangeiros para a região com o objetivo de fortalecer as redes de produção na região”, diz Barrera. Ele completa que para esse propósito, tais instituições programaram uma conferência no Peru para o início de dezembro. Mas há tarefas importantes nas quais a região deve trabalhar para poder acelerar o investimento estrangeiro direto, particularmente se ele

de maior tecnologia. Produtos com tecnologias mais comuns, é melhor fabricar em outros países, como os da América Latina.” E no futuro serão os interesses privados de empresas como a Mitsubishi que definirão a agenda de integração comercial para promover o comércio e a produção. Antoni Estevadeordal, gerente do setor de comércio de integração do BID, explicou na conferência em Tóquio que é preciso reconhecer que o setor privado está se tornando a força dominante para a integração regional em vez das políticas governamentais. “A integração do setor produtivo será o prin-

Talvez seja muito cedo para dizer se será o fim da globalização -- há tempos a globalização tem inimigos --, mas que as empresas japonesas estão aumentando sua presença na região é inegável. A Sanyo aumentará a capacidade de uma fábrica de painéis solares no México. A Hitachi Chemical abrirá uma fábrica de autopeças no mesmo país. A Honda Motors recentemente terminou a construção de uma fábrica de moto-táxis em Iquitos, Peru, e a fabricante japonesa de caminhões Hino planeja uma nova fábrica no México. É hora de acentuar a integração regional para garantir que não mudem de opinião e partam. Q

30 DE NOVEMBRO, 2008 / AMÉRICAECONOMIA 45


VISÃO VERDE afaundes@americaeconomia.com

QUESTÃO DE RISCO No Banco Real, a receita bem-sucedida de concessão de crédito é uma só: avaliar o impacto socioambiental

Fluxo sustentável 1

PER

GUN

TAS

TAS

POS

RES

Envia-se um questionário ao cliente com perguntas sobre a situação sócioambiental de seu negócio.

2 O analista de crédito revisa as respostas e confirma a veracidade das informações.

3 A equipe de evaliação de risco sócioambiental revisa a análise creditícia anterior.

4 Informa-se o resultado ao cliente para que este faça as mudanças necessárias.

5 Uma vez aprovado o crédito, o cliente deve responder o questionário anualmente. VICTOR JAQUE

APESAR DE AINDA ser pouco evidente para algumas empresas, o impacto socioambiental de seus projetos pode ter implicações financeiras. E os bancos não estão alheios a esse assunto na hora de emprestar dinheiro. No Brasil, um dos casos emblemáticos, e por isso sempre lembrado, é o do Banco Real. Integrado recentemente ao Grupo Santander, o Real desenvolveu um sistema de avaliação de risco que inclui impactos socioambientais das empresas candidatas a uma linha de financiamento. Esse sistema se soma ao conceito global de sustentabilidade adotado pela instituição, que a tornou conhecida no Brasil como “banco verde”. “Um banco que não inclui perguntas sobre temas ambientais não está incorporando a preocupação ‘verde’ em seu core business”, diz André Carvalho, diretor da incubadora de negócios sustentáveis New Ventures. O HSBC faz algo semelhante em suas filiais no México e na Argentina, além de seguir os Princípios do Equador, que proporcionam um conjunto de alinhamentos voluntários para que as instituições financeiras e seus clientes minimizem os impactos dos projetos em grande escala. O Real concede créditos a cerca de 3 mil empresas por ano; destas, pelo menos 10% precisam fazer alguma mudança em sua estrutura para mitigar o impacto socioambiental e, assim, conseguir

Arly Faundes Berkhoff

o crédito. Para avaliar esse risco, o Real envia ao cliente um questionário com 11 perguntas. As respostas são confirmadas por um analista junto aos órgãos públicos pertinentes. Depois, a equipe de Cristopher Wells - gerente de risco ambiental do banco - faz uma nova re-

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visão dos dados para decidir se aprovam plenamente, com condições especiais ou simplesmente recusam conceder o crédito à empresa. Segundo o executivo, há muitos riscos que não aparecem nos informes financeiros das empresas que podem afetar a rentabilidade de um

negócio. “Se uma empresa conta com más condições de trabalho e isso é divulgado na mídia, o comprador ou importador pode ameaçar suspender as compras até que a empresa tome medidas para melhorar tais condições”, diz Wells. Somado a isso, o Real tem um acordo com o IFC, braço financeiro do Banco Mundial, de US$ 300 milhões para financiar iniciativas sustentáveis. Também possui uma consultoria que se chama Real Obra Sustentável, que avalia se as empresas estão adequadas aos critérios de sustentabilidade do banco. “Dessa forma é possível reduzir os custos e os riscos da obra, ganhando um diferencial de mercado”, explica Maria Luiza Pinto, diretora executiva de desenvolvimento sustentável do Grupo Santander, no Brasil. E o banco também dá o exemplo. As agências são “ecoeficientes”, construídas com tijolos reciclados, usando tintas sem solventes, com piso e móveis feitos de madeira certificada, aproveitamento da luz solar e uso de ar condicionado que não provoca danos à camada de ozônio, entre outras características. Anualmente o Banco Real realiza um inventário das emissões de gases do efeito estufa de sua operação. Em 2005, a média de emissões por funcionário foi de 2,02 toneladas; em 2007, essa média caiu para 1,51 tonelada. E este ano esperam que se situe entre 1,18 e 1,22 toneladas. Q


NEGÓCIOS ALIMENTOS

O PREÇO DO LUXO As pessoas já não querem pagar mais caro por alimentos orgânicos María Soledad Gómez, Santiago

D

FERNANDO CARRASCO POSTALDELDÍA

esde sua época de universitária, Kristen Gambetta, jovem fisioterapeuta de 25 anos, só comia alimentos orgânicos. A possibilidade de consumir produtos elaborados com pesticidas e outros aditivos químicos não tinha lugar em seus princípios de vida saudável. Mas a atual situação econômica fez essa moradora de Houston, Texas, restringir os produtos orgânicos ao leite, às verduras e às frutas,

“especialmente as que como com casca”, conta. Tampouco a surpreende que nos últimos tempos os mercados que antes só vendiam alimentos naturais tenham cometido a “heresia” de incluir alimentos convencionais em suas estantes. “As pessoas estão cada vez mais preocupadas com a economia e menos com o que comem.” O mercado global de produtos orgâ-

Retração: produtos para poucos

nicos não é imune às incertezas econômicas, que fizeram os alimentos elaborados sob estritos padrões de qualidade voltarem ao status de produtos de luxo. E os produtores latino-americanos também já notaram essa mudança. A empresa de análise de mercado Mintel International divulgou recentemente um estudo no qual descreve uma queda na demanda entre os consumidores de produtos orgânicos nos EUA. “Alguns preferem continuar com o leite, a carne e alguns produtos frescos, mas deixaram de comprar cereais, bolachas e doces orgânicos”, diz. O motivo? Amarjit Sahota, diretor do Organic Monitor, explica: “Enquanto o leite e algumas verduras como a cenoura podem custar entre 15% e 20% mais, produtos processados ou mais sofisticados como a manga podem custar o dobro”, diz. Na América Latina. Onde se produz boa parte dos alimentos orgânicos vendidos nos EUA e Europa, alguns produtores já verificam uma diminuição nos pedidos internacionais. Carmen García, diretora de exportações da ProAgro, no Peru, afirma que as vendas de orgânicos “estão sendo afetadas pelo aumento de preço”. E as empresas só podem optar por reduzir seus custos. No México, Guadalupe Latapi, que vende produtos de diferentes provedores sob a marca Aires de Campo, diz que, em seu caso, a situação se complicou. “Trabalhamos com uma margem 20% acima do preço de um produto não-orgânico”, afirma. E a maior parte das exportações orgânicas que saem do México tem como destino os EUA, destino que

deixou de ser uma oportunidade. Apesar de a venda de orgânicos nos EUA ter aumentado 140% entre 2003 e 2008, de US$ 3 bilhões a US$ 7,1 bilhões, segundo a Mintel, as projeções indicam que 2009 será lento. No ano que vem, as vendas de orgânicos, que até 2006 cresciam acima de 20% ao ano, deverão ter seu crescimento reduzido pela metade, para 10%. Algo semelhante acontece na Europa e no Reino Unido. “Esperamos, em alguns casos, crescimento zero”, diz Sahota, do Organic Monitor. Mas o especialista acha que, passada a crise, o segmento recuperará o ritmo. “A demanda cairá temporariamente entre 3% e 4%, mas quando a confiança voltar aos mercados, voltará a se acelerar.” As dificuldades enfrentadas atualmente já deixaram vítimas. Recentemente, a rede norte-americana Whole Foods, especializada em produtos orgânicos, teve que ser resgatada da crise com uma injeção de capital do fundo privado Green Equity Investors. De qualquer forma, estimase que esse mercado continuará em ascensão quando o panorama melhorar. Segundo Sahota, esse fenômeno não é novo: algo semelhante foi visto há alguns anos na Alemanha. “A economia sofreu uma queda e as vendas do setor se estagnaram, para depois voltar a crescer entre 15% e 20% ao ano”, lembra. A mexicana Guadalupe diz que já conta com estratégias para enfrentar a crise: baixar os preços dos produtos básicos e aperfeiçoar seu site para facilitar o contato com potenciais clientes internacionais. O resultado, entretanto, dependerá de quão afetado será o bolso do consumidor. Q

30 DE NOVEMBRO, 2008 / AMÉRICAECONOMIA 47


NEGÓCIOS AVIAÇÃO

LINDO CÉU

Pressionadas por problemas em seu mercado de origem, companhias aéreas norte-americanas viajam à América Latina Antonio María Delgado, Miami

AP

Continental: líder dos EUA em vôos ao México

O

s últimos 12 meses foram particularmente turbulentos para as companhias aéreas norte-americanas. Primeiro tiveram que enfrentar os exorbitantes preços dos combustíveis, quando o barril de petróleo acima dos US$ 130 ameaçava levar vários ícones dessa indústria rumo à quebra. Logo surgiu o fantasma da recessão mundial que, apesar de ter levado os preços dos combustíveis de volta a níveis mais razoáveis, agora ameaça afetar a demanda por passagens. E a América Latina, que até agora tem se mostrado

exceção à essa regra, já se transformou em alvo também dessas companhias, cujos executivos se mantêm otimistas projetando formas de atender um maior número de latinoamericanos. “Estamos focados em crescer na região”, diz Alfredo González, diretor regional para América do Sul da American Airlines. “Obviamente, para 2009 não sabemos qual será o impacto da crise econômica, ninguém sabe, mas continuamos buscando oportunidades para crescer aí.” E parece que encontraram algumas. A American Airlines

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abriu em novembro várias rotas novas a Salvador, Recife e Belo Horizonte e, para dezembro, a empresa prevê agregar um segundo vôo para cobrir a rota Nova York-Buenos Aires. Recife e Buenos Aires parecem ser particularmente atraentes para as companhias norte-americanas, já que a Delta também está organizando novos vôos para atender essas cidades. O mercado brasileiro gera muito interesse para a Delta – que se converteu na maior do mundo ao fundir-se este ano com a Northwest–, já que a recente revisão de um acordo bilateral entre Estados

Unidos e Brasil está gerando novas oportunidades. “Tínhamos um acordo bilateral entre EUA e Brasil muito limitante”, diz Christophe Didier, vice-presidente de vendas da Delta para a América Latina. “Em junho, ele foi revisado pela primeira vez em 11 anos. Eles nos deram mais pontos para servir, com mais freqüências. Além de São Paulo e Rio, vamos atender Recife, Fortaleza e Manaus.” A Delta também está expandindo suas operações em Buenos Aires, e prepara novos vôos a Tegucigalpa, Bogotá, Guayaquil, Santiago (República Dominicana), Cancún e Bonaire. A fusão recém-concretizada está colocando a Delta em um ponto privilegiado para atender ao crescente tráfego entre América Latina e Ásia, devido ao alto número de rotas que a Northwest possui ao Oriente. O executivo acrescenta que o recente fortalecimento do dólar frente a várias das principais moedas da região impactou o tráfego aéreo. Não obstante, destaca que a demanda deverá continuar robusta sempre e quando os países da região consigam manter seus ritmos de crescimento. Os executivos da Continental Airlines também se mostram otimistas quanto às perspectivas para a América Latina. E apesar de não estar projetando novos vôos para a região, a companhia continua sendo a norte-americana que oferece maior número de vôos ao México e à América Central. “A Continental não é uma recém-chegada na América Latina”, diz a empresa, por email. “Operamos aproximadamente 1,5 mil vôos semanais à América Latina e ao Caribe, que representam 55% de nosso alcance internacional.” Q


[FERRAMENTAS] PMES GLOBAIS CONECTADO, MAS NEM TANTO Apesar de reconhecer a importância de estar na Internet, os pequenos e médios exportadores latinoamericanos ainda não aproveitam as potencialidades da rede para aumentar suas vendas externas. Essa é a conclusão de um estudo realizado pela empresa RGX, em associação com DHL Express e SAP, com 721 pequenas e médias empresas (PMEs) de 15 países da região. Segundo o estudo, três em cada quatro empresas exportadoras entrevistadas possuem um site corporativo. Entretanto, somente 11% oferecem a possibilidade de compras em seus sites, 28% adaptaram a página para receber pedidos online, e apenas 21% disponibilizam seus produtos para serem vendidos em outros sites ou portais. “De fato, 25% dos entrevistados afirmam que a internet atualmente não colabora na captação de novos clientes”, afirma Diego Frediani, diretor geral da RGX, na apresentação do estudo, em Santiago do Chile. Para Frediani, as PMEs não podem perder a oportunidade de reforçar esse canal, sobretudo focando a geração de confiança e valor agregado. Alguns exemplos desse esforço são oferecer informações detalhadas e atualizações freqüentes, além de conteúdos adicionais sobre produtos ou serviços.

Não deixe de sorrir Conselho para os pequenos empresários desanimados com o panorama para 2009: não deixe que os funcionários identifiquem em sua cara motivos para se sentirem inseguros com relação a seu emprego. Quem dá o alerta é a consultora Inés Temple, da DMB Peru, que afirma que a incerteza é o maior inimigo da produtividade e da retenção de talentos. Para defender essa tese, a especialista compilou uma série de dados retirados de vários estudos. Entre eles: • 79% dos empregados afirmam que saem de um trabalho por falta de reconhecimento (fonte: Society for Human Resource Management). • Para 66% das pessoas, o reconhecimento influi significativamente em seu desempenho, enquanto somente 15% mencionam o salário (fonte: Watson Wyatt). • 30% do lucro de uma empresa depende do ambiente de trabalho (Harvard Business School). • 70% do clima laboral depende do chefe imediato (Harvard Business School).

TERRENO VIRTUAL

PMEs que promovem seus negócios na internet: EQUADOR

Yanko e Victor: prestes a decolar

67%

BRASIL

53%

CHILE

VENTO A FAVOR

48%

BOLÍVIA

45%

MÉXICO

44%

0%

10%

20%

30%

40%

50%

60%

70%

80%

PMEs que oferecem seus produtos à venda em outros sites: PERU

42%

EQUADOR

37%

COLÔMBIA

32%

MÉXICO

28%

HONDURAS 0% FONTE: RGX

20% 5%

10%

15%

20%

25%

30%

35%

40%

45%

Serviço de bordo de primeira classe. Esse é o objetivo do chileno Victor Herrera, que depois de trabalhar por quase 30 anos com transporte terrestre de tripulação para a compa-nhia LAN realizou seu sonho empreendedor: comprar o último Boeing 737 em operação na companhia aérea chilena e transformá-lo em um pub, inaugurado no início de novembro. O projeto Herrera implicou vários desafios de engenharia – entre eles, o de transportar o avião à sua localização atual, nos arredores de Santiago – até a criação da réplica de uma torre de controle onde funciona o bar e um salão VIP. “É um negócio pioneiro na América Latina, ao qual nos dedicamos nos mínimos detalhes”, diz Herrera, que trabalha em sociedade com seu filho, Yanko. A capacidade total do Charlie Yankee Air Pub, dentro do avião e na torre, é de 120 pessoas. Entre os diferenciais oferecidos pelos empresários está a possibilidade de o cliente escolher e reservar sua mesa através do site (www.pubcharlieyankee.cl), como se fosse um check-in, e uma ampla oferta de drinks, para que o passageiro possa aproveitar a noite sem medo de turbulência. 30 DE NOVEMBRO, 2008 / AMÉRICAECONOMIA 49


PMES GLOBAIS

POR UM BOM CAMINHO

Empresa mexicana cresce oferecendo terceirização do manejo de frotas corporativas Arly Faundes Berkhoff, Cidade do México

O

s pequenos comércios do México se transformaram em um campo de batalha de grandes companhias. “Se você não chega a tempo para oferecer seu produto, a concorrência toma seu lugar”, conta José Rodríguez, gerente da frota da Nestlé na Cidade do México. Como a Nestlé, muitas outras empresas necessitam enfrentar a mesma batalha diária, e reconhecem que parte desse trabalho logístico pode desviar o foco do negócio principal. No caso da empresa suíça, essa tarefa implica garantir o bom funcionamento de uma frota de 2 mil caminhões que circulam pelas ruas do México. “Refletimos e chegamos à conclusão de que o melhor era buscar alguém com experiência no assunto”, diz o executivo. Hoje, quem cuida da frota da Nestlé é a mexicana Facileasing. Há 20 anos a empresa aluga veículos sob o sistema de leasing (ou seja, com direito a compra), e há dez resolveu ampliar seu negócio oferecendo o serviço de administração de frota, que inclui de manutenção e temas legais à gasolina. A empresa tem um contact center de mecânicos e um sistema CRM que faz o acompanhamento de cada veículo. Dessa forma, os clientes podem ter controle completo da

Cuenca: amplo mercado

frota através do sistema Fleet Online. A vantagem que a empresa oferece é clara: negociar preços e garantias diretamente com as montadoras. Se o veServiço conjuga um instrumento financeiro com a vantagem da associação estratégica

ículo não rende a quantidade prometida de quilômetros por litro, o provedor responde pela diferença. Assim, as empresas se fixam na tarefa de desenhar as melhores rotas e escolher os motoristas de sua confiança.

50 AMÉRICAECONOMIA / 30 DE NOVEMBRO, 2008

“Esse serviço me proporciona um custo variável porque pago por unidade de consertos, conto com uma equipe reduzida e nos preocupamos somente com o operacional”, diz Rodríguez. O negócio da Facileasing registra uma onda de expansão no México e na América Latina. “Esse tipo de administração busca reduzir o custo total de propriedade e isso vai além do sistema de leasing”, diz Luis Cuenca, diretor comercial da Facileasing. “Não são muitas as empresas que se dedicam a isso, ainda que exista uma tendência

crescente de aproveitar ferramentas financeiras como o leasing”, diz Manuel Estrada, acadêmico do Departamento de Operações do Ipade, na Cidade do México. Para ele, o mérito da empresa está em integrar um instrumento financeiro com outro de serviços e associações estratégicas. “Criaram um produto mais robusto para cobrir uma necessidade completa”, diz. Além da Nestlé, a Facileasing tem entre seus 180 clientes companhias como Pfizer e Novartis, Avon, Scotiabank, Santander e Accenture. E mantém aliança global com empresas como PHH Arval, Avis Fleet Services, Sumisho Auto e Leasing Corporation, administrando 1,8 milhão de veículos. Desde que começou a oferecer esse serviço, a empresa registra média de crescimento de 18% ao ano. No primeiro semestre deste ano, o aumento chegou a 33% em relação ao mesmo período de 2007, totalizando um faturamento de US$ 16 milhões. Para Cuenca, a atual crise é uma oportunidade. “As tesourarias das grandes empresas vão cuidar do fluxo efetivo, e o leasing e aluguel serão uma alternativa de financiamento.” Ainda que não tenha um registro preciso da economia conquistada – já que o trabalho com a Facileasing começou em abril – Rodríguez afirma já ter percebido avanços. Antes, por exemplo, tinham que estar em contato com 500 mecânicos espalhados pelo México. “Hoje já não pensamos nisso; dedicamos tempo à estratégia”, diz. Assim, na Facileasing os empresários seguem em boa rota, e seus clientes abrem caminho para serem os primeiros a chegar. Q


DEBATES ABORTO

O EFEITO “CARTÃO VERMELHO DE TABARÉ”

Os grupos pró-aborto no Uruguai sofreram um duro golpe com o veto presidencial, mas há quem acredite que a legalização será inevitável no longo prazo Rodrigo Lara Serrano

O

veto recentemente imposto pelo presidente uruguaio Tabaré Vásquez à uma lei de saúde reprodutiva que autoriza o aborto durante os três primeiros meses de gravidez em casos de perigo para a vida da mãe e “penúrias econômicas”, foi tão surpreendente quanto complexo. Primeiramente, porque Vásquez bloqueou uma norma aprovada por seu próprio partido no Congresso. E depois porque – dada sua tripla condição de líder partidário, titular do Executivo e médico – é possível avaliar que se encontrava em uma posição única para negociar uma lei restritiva, que habilitasse o aborto ante risco de morte, incesto ou violação

de mulheres com problemas mentais ou não, e que bloqueasse as outras opções, se é que estas causavam repugnância a sua consciência pessoal ou a suas crenças religiosas. O que aconteceu no Uruguai (onde a mulher que aborta é punida com três a nove meses de prisão – também há pena para quem o executa –, a menos que seja para “salvar a própria honra”, cuja definição fica a critério do juiz) poderia antecipar uma onda de demandas por leis favoráveis ao aborto? De acordo com Elena Prada, pesquisadora sênior do Guttmacher Institute na Colômbia, não. “Em vez de promover um avanço, pode gerar um retrocesso”, afirma. Isso porque, como um efeito

bumerangue, quem se opõe à legalização poderia “abraçar essa bandeira e protagonizar casos como o da Nicarágua, onde se permitia o aborto quando havia risco para a saúde da mulher”. Segundo Elena, “Isso acabou sendo abolido em 2006, levando à situação absurda de que nenhuma mulher que sofra uma hemorragia, muitas vezes causada por um aborto espontâneo, possa ser atendida por nenhuma instituição de saúde”, fato que levou a mortalidade materna a disparar no país. Na Argentina, Luciana Peker, especialista em temas sobre a mulher, tampouco acha que outros países tentarão aprovar leis semelhantes. Ao contrário, “o veto de Tabaré

AP

Uruguaios protestam contra a decisão governamental

poderá gerar um ‘efeito castigo’ no restante dos países. Um ‘se lá não pode, aqui menos ainda’”. Enquanto a batalha verbal corre, os abortos continuam acontecendo. Calcula-se que em toda a América Latina eles somem 4 milhões ao ano. Uma pesquisa comparativa mundial publicada por Susheela Singh, vice-presidente de Pesquisa do Guttmacher Institute, revelou que Chile, República Dominicana, Peru e Guatemala possuíam as taxas mais altas (nessa ordem) de hospitalizações por complicações derivadas de abortos entre cada mil mulheres. Nesse sentido, o Uruguai volta a surpreender. A mortalidade materna é baixa “devido a um bom programa pós-aborto”, comenta Peker. Trata-se de um plano geral e prático que permite “que os problemas ocasionados por abortos clandestinos sejam tratados de forma adequada nos hospitais públicos”. Fátima Juárez, coordenadora do Doutorado em Estudos de População e doutora em Saúde Pública do Colegio de México, destaca que “entre 1990 e 2006 se observa que o aborto induzido (ilegal) aumentou 64% no México, de 536 mil para 875 mil”. Essa universalização real e crescente do aborto clandestino poderá ser central na aceitação do aborto na capital mexicana, onde hoje é legal e sem restrições até as primeiras doze semanas de gestação. A massificação do aborto, somada à mudança do papel da mulher na sociedade, segundo Fátima, poderia levar “aquelas organizações favoráveis a garantir a saúde da mulher a continuar lutando (mesmo com o veto no Uruguai). Não acho que elas desanimarão com um resultado negativo”, diz. Q

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DEBATES COMÉRCIO

COMÉRCIO NA ERA OBAMA

A vitória democrata nas eleições dos Estados Unidos ameaça impedir a aprovação de novos tratados de livre comércio com a América Latina Antonio María Delgado / Miami

N

ão é uma condenação à morte, mas os defensores do livre comércio nos Estados Unidos acabam de perder grande parte de seu poder de manobra. A ampla maioria democrata no Congresso deverá restringir seriamente qualquer iniciati-

va para continuar avançando com a agenda de abertura comercial iniciada há quase 20 anos. E, embora seja verdade que existe certo consenso em Washington de que uma maior integração comercial com a América Latina é crucial para preservar os interesses do país

52 AMÉRICAECONOMIA / 30 DE NOVEMBRO, 2008

na região, a crise econômica e uma presença maior de legisladores contrários aos TLCs conteriam qualquer esforço do presidente recém-eleito, Barack Obama, de seguir com o processo. “A abertura comercial entrará em um processo de

desaceleração”, diz Claude Barfield, especialista em comércio do centro de estudos American Enterprise Institute. “Isso se deverá principalmente ao fato de que a crise econômico-financeira levará muito tempo para ser resolvida e, depois, independente do tipo

AP

Obama: popular, carismático e protecionista


de política que Obama decida adotar, ele sabe que tem um partido profundamente dividido, e introduzir temas relacionados ao comércio só iria causar desaprovação por parte das poderosas associações sindicais e de outros setores tradicionalmente contrários à abertura comercial.” Esses setores tiveram um papel importante na eleição de Obama, que durante a campanha criticou duramente os tratados de abertura comercial assinados pelos Estados Unidos, afirmando que tinham proporcionado o êxodo de postos de trabalho para o exterior. No caso do TLC com o México e o Canadá, o agora presidenteeleito, disse na campanha que era um acordo ruim para os Estados Unidos e prometeu modificá-lo a fim de “refletir o conceito de que nosso comércio não deve ser bom apenas para Wall Street, mas para o resto do povo”. Entretanto alguns especialistas não dão muita importância a declarações como essa, alegando que são simplesmente atitudes eleitorais vazias e que é amplamente aceito entre as instituições de Washington que o livre comércio não só gera mais benefícios que custos para os norte-americanos, mas que também é uma das melhores ferramentas com que os Estados Unidos contam para ajudar os países latino-americanos a reduzir seus níveis de pobreza e, por conseguinte, avançar em alguns dos maiores desafios que o país enfrenta na região, como o narcotráfico, a imigração ilegal e o crescente sentimento antiamericano. Também há muito espaço para fortalecer as relações entre Washington e a América Latina, em momentos

em que países como China e Rússia começam a desfrutar de uma presença maior na região. “Isso é parte do novo cenário, no qual os países têm alternativas ao Tio Sam”, afirma o professor de ciências políticas do Davidson College, Russell Crandall, um dos assessores de Obama em questões internacionais. “E creio que estamos vendo que esses países que estão se desviando, digamos, dessa relação homogênea com os Estados Unidos, se deram conta de que não só podem sobreviver, mas também prosperar, fora da órbita de Washington.” Para Roger Noriega, exsubsecretário de Estado para Questões do Hemisfério Ocidental, o recente anúncio do presidente colombiano Álvaro

vará o tratado de livre comércio com o Panamá. Até existe a possibilidade de que o isso ocorra no atual período de sessões, assim que o deputado Pedro Miguel González, líder político acusado de ter participação no assassinato de um soldado norte-americano em 1992, deixar a presidência da Assembléia do Panamá. E Obama eventualmente teria um grande incentivo para lutar dentro de seu partido a fim de conseguir o apoio para o tratado comercial com Bogotá, já que não vai querer passar à história como “o presidente que perdeu a Colômbia”. “É uma decisão que tem de ser tomada”, diz Barfield, do American Enterprise Institute. “Há a parte geopolítica, que creio que será o fator que

adiante teria de ir contra boa parte de seu próprio partido. O presidente-eleito derrotou seu rival, o senador republicano John McCain, graças em grande parte ao forte apoio dos movimentos sindicais e do chamado grupo de consumidores, que são obstinados opositores da abertura comercial. E, o que talvez seja pior para o processo, muitos dos congressistas democratas recém-eleitos ganharam seus mandatos com plataformas políticas que eram contra a globalização. Qualquer iniciativa de abertura comercial por parte de Obama receberia uma acolhida melhor entre as fileiras do oposicionista Partido Republicano, organização tradicionalmente mais receptiva aos temas de abertura comercial.

Muitos legisladores recém-eleitos pelo partido do futuro presidente ganharam votos com plataformas contra a globalização Uribe, considerado um dos mais próximos aliados de Washington na região, de que pretende visitar a Rússia causou especial preocupação e acentua a necessidade de que o Congresso norte-americano aprove o tratado de livre comércio com a nação andina. Contudo o pacto enfrenta uma forte oposição dos congressistas, principalmente entre as fileiras do partido democrata, diante das acusações de que Bogotá está fazendo muito pouco para deter a violência contra os sindicalistas e há bem pouca probabilidade de ele ser aprovado antes que termine o atual período de sessões do Congresso. Analistas acreditam que finalmente o Congresso apro-

eventualmente decidirá se será feito ou não. Mas também há a posição natural dentro da liderança democrata, contrária ao tratado comercial. No final, creio que se decidirá por apresentar o acordo no Congresso por motivos de política regional. Aí sim, vai depender muito do que ocorre na Colômbia. Se houver novos escândalos de violações dos direitos humanos, como os que vimos recentemente, eles darão munição a quem está contra esse tipo de acordo.” Mas a Colômbia seria o final do processo de abertura comercial entre os Estados Unidos e a América Latina, pelo menos no que concerne ao primeiro governo do presidente Obama, que para seguir

Mas a ajuda que receberia ali seria relativamente pequena, já que esse partido sofreu uma grande erosão em seus quadros no Congresso. Atualmente conta com 40 cadeiras no Senado, ante 58 do Partido Democrata, e 175 cadeiras na Câmara Baixa frente aos 255 do partido do governo. E também existe a deterioração do tema aos olhos da opinião pública. As últimas pesquisas de opinião indicam que é cada vez menor o número de norte-americanos que vêem com bons olhos a assinatura de acordos comerciais. Isso não quer dizer que as forças contrárias à globalização são maioria, mas certamente a rejeição à abertura comercial aumentou. Q

30 DE NOVEMBRO, 2008 / AMÉRICAECONOMIA 53


AFP

DEBATES POLÍTICA

A VOLTA DOS DINOSSAUROS

A crise da esquerda e do governo de Calderón fortalecem o partido que governou o México durante 71 anos Marisol Rueda, Cidade do México

A

pesar de sempre ter votado pelo Partido Ação Nacional (PAN), o jovem advogado mexicano José Luis Velasco está pensando seriamente em mudar de opção nas próximas eleições presidenciais, em 2012. “O PAN me decepcionou, não tem um candidato e a economia vai mal”, diz Velasco, de 34 anos. “Tudo depende de como as coisas aconteçam, mas poderia votar pelo PRI.” A resposta é chocante, já que a “nova” escolha de Velasco se trata do Partido Revolucionário Institucional, o dinossauro que foi derrubado em 2000 depois de 71 anos à frente do país. A conjuntura político-econô-

mica, somada a certa falta de memória histórica, está levando muitos mexicanos a tomar o caminho escolhido por Velasco, o que poderia revigorar o partido que foi expulso da cadeira presidencial com o voto do cansaço. Somente nas eleições deste ano, o PRI conseguiu ganhar 116 governos municipais dos 198 que estavam em disputa. Hoje governa 18 dos 31 estados mexicanos e controla 21,2% da Câmara dos Deputados e 25,7% do Senado. Tudo isso tem aberto a trilha para que o PRI capitalize o descontentamento social da população devido à onda de violência gerada pelo narcotrá-

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fico, à desaceleração econômica e à crise na qual a esquerda se encontra submersa, encabeçada pelo Partido da Revolução Democrática (PRD). O dinossauro que grande parte dos mexicanos acreditava extinto quer deixar para trás sua imagem antiga e protagonizar as próximas eleições. “Sem dúvida o PRI quer voltar a Los Pinos”, diz José Antonio Aguilar, doutor em Ciência Política do centro de Pesquisa e Docência Econômica (Cide). E para conquistá-lo está pensando em um extreme make over. Nos últimos anos lançou novos candidatos, ainda que por trás destes esteja a velha

política do partido. Mas o esforço deu frutos. Há menos de quatro anos era impossível ver jovens do partido em cargos executivos, como Enrique Peña Nieto, Ivonne Ortega, Ismael Alfredo Hernández e Félix González Canto. O primeiro, que aspira à Presidência, investiu forte na mídia para posicionar-se nacionalmente. Afirma-se que pode ser a “nova” cara do PRI, apesar de que dentro do partido alguns não o queiram como candidato. Como primeiro passo, o partido já está num corpo-a-corpo com outros grupos, disputando espaço nas ruas para lançar seus nomes às eleições de julho de 2009 que renovarão a Câmara dos Deputados e o governo de seis estados. “Tudo aponta a que haverá uma reação do PRI”, diz Aguilar, afirmando que essas eleições refletirão a avaliação dos mexicanos ao desempenho do presidente Felipe Calderón, do PAN.


Uma das vantagens do PRI é sua força territorial. Uma reforma eleitoral recentemente aprovada limita as campanhas na mídia, e o PRI pode tirar proveito do fato de governar muitas cidades e usar os espaços públicos para comícios. Além disso, tem a conjuntura econômica a seu favor, já que as pessoas começam a sentir no bolso o impacto da crise global e da desaceleração dos EUA nas exportações, remessas e na receita petrolífera. Os prognósticos do Banco Central indicam que o PIB deste ano crescerá somente 2%, e, em 2009, entre 0,5% e 1,5%. A isso é preciso somar a crescente onda de violência gerada pelo narcotráfico. Muitos criticaram o confronto direto adotado por Calderón sem antes ter feito uma lim-

peza interna para eliminar as infiltrações desses grupos em instituições federais. “Talvez um segmento da população manifeste um voto de castigo por este tipo de política”, diz Gerardo Esquivel, pesquisador do Colegio de México. “É o momento de resolver de forma urgente os temas que são reclamados pela sociedade”, diz Erick Fernández, pesquisador da Universidade Iberoamericana. “Se os problemas continuarem sendo postergados, vão se acumular. E um ano de eleições, como 2009 não parece ser o melhor para começar a agir.”

AINDA HÁ CHANCE Apesar de as projeções apontarem que o PRI ganhará as eleições do próximo ano, PAN e PRD ainda podem reverter

essa tendência para 2012. Tudo dependerá de como o atual governo administre a crise econômica e dos resultados do combate ao narcotráfico, além de quão capaz seja a esquerda mexicana de se reunificar. “O PAN tem que enviar uma resposta através dos governos que lidera para ir eliminando os saldos negativos, especialmente em segurança”, diz Fernández. “Já o PRD tem que apresentar uma mensagem consistente e não pensar no curto prazo.” O certo é que, apesar de os três maiores partidos do país desejarem a cadeira presidencial, o triunfo também dependerá dos candidatos que apresentem. O PAN não possui um candidato forte; e o PRD tampouco vislumbra um nome tão potente quanto o de Andrés Manuel López Obrador

nas eleições de 2006. O atual prefeito da Cidade do México, Marcelo Ebrard, fará de tudo para ser candidato à Presidência, mas não tem uma base política própria dentro do PRD e um setor do partido não o vê como seu candidato. Além disso, “não dispõe dos recursos do PRI”, diz Aguilar, do Cide. Nas eleições intermediárias, como são chamadas as que antecedem à presidencial, do ex-presidente Vicente Fox, o PRI foi vencedor, mas nas presidenciais de 2006 o vencedor foi o candidato do PAN. “Os resultados de Fox eram medíocres, mas seu partido voltou a ganhar as eleições, ainda que por uma margem estreita”, diz Aguilar. “Assim, se os resultados não forem catastróficos, o PAN ainda tem uma chance.” Q


DEBATES ENERGIA

AFP

Pemex: em busca de novas fontes

PEMEX 2.0

Maior autonomia trará novos desafios e oportunidades à petrolífera estatal mexicana Marisol Rueda, Cidade do México 56 AMÉRICAECONOMIA / 30 DE NOVEMBRO, 2008

D

urante vários anos, o campo de petróleo de Chicontepec, localizado no estado mexicano de Veracruz, permaneceu relegado a segundo plano pela estatal Petróleos Mexicanos (Pemex). Suas complexas condições geológicas, o elevado custo

de extração e a escassez de recursos dificultavam sua exploração. Mas hoje a petrolífera mexicana planeja investir no campo graças às vantagens que espera conquistar com a reforma energética recentemente aprovada. Chicontepec é uma das apostas da Pemex para compensar o declínio da produção do gigantesco campo Cantarell. Este, depois de ter alcançado produção de 2 milhões de barris de petróleo por dia em 2004, hoje produz somente 902 mil barris. O aumento nos investimentos em Chicontepec será possível graças ao fato de a Pemex ter ganhado autonomia orçamentária e poder oferecer contratos com incentivos extras às suas contrapartes com base em desempenho. Estas são algumas das conquistas com a reforma energética no México, cujas principais conseqüências recaem sobre a Pemex. Sua aprovação, por ampla maioria, foi um bálsamo em meio às crises econômica e de segurança enfrentadas pelo presidente Felipe Calderón: finalmente o governo teve êxito em uma iniciativa que – embora tenha gerado atritos no interior dos partidos políticos – nenhum dos governos antecessores havia conseguido. “É a reforma mais importante e transcendente no setor desde a nacionalização da indústria petrolífera, em 1938”, diz Alejandro Díaz-Bautista, pesquisador do Departamento de Estudos Econômicos do Colégio da Fronteira Norte. Conceder à Pemex maior autonomia de gestão e mais recursos para investir são medidas crucias frente às novas condições da indústria energética mexicana. As atuais descobertas de petróleo da estatal já não têm o mesmo tamanho nem a facilidade de


exploração das encontradas há 30 anos. “Agora temos campos menores e menos produtivos”, diz Carlos Morales Gil, diretor geral da Pemex Exploração e Produção. “Hoje é preciso perfurar muito mais poços, e fazê-lo com o esquema (anterior à reforma) de lei de Obras Públicas e Serviços simplesmente não tinha nenhum futuro.” Gerava burocracia e rigidez, afirmam os analistas.

MAIS FLEXÍVEL A nova legislação proporciona mais flexibilidade na gestão de contratos. Antes, a empresa não podia modificar as condições iniciais destes durante a sua vigência. “Por isso, muitas obras ficaram pela metade”, afirma David Shields, especialista em assuntos energéticos. Se o preço do aço subia, por exemplo, não havia flexibilidade para repassar esse aumento de custo para o contrato. “Isso fazia com que os projetos ficassem inacabados”, diz Shields. A lei também permitirá a incorporação de novas tecnologias ou práticas operacionais em um projeto depois da assinatura do contrato, algo que antes estava limitado. Além disso, a reforma reduz a carga fiscal para as explorações em zonas difíceis, o que incentiva a Pemex a continuar explorando – como vai fazer com Chicontepec. Considerando esses fatores, espera-se que a companhia amplie sua capacidade de execução. “Hoje, estamos perfurando 700 poços ao ano com muitos problemas, porque temos capacidade de execução limitada”, diz Morales, da Pemex. “Com estes novos contratos, poderemos perfurar mais de 1,5 mil poços de extração por ano.” A empresa também terá

mais flexibilidade para decidir quanta dívida pode emitir para financiar projetos. “Isto terá um impacto muito grande entre 2015 e 2020 porque, se administrar bem suas finanças, a estatal poderá investir mais em exploração e produção”, afirma Duncan Wood, pesquisador do Instituto Tecnológico Autônomo do México (Itam). As expectativas são de que Chicontepec, que hoje produz 33 mil barris diários, eleve sua participação a 600

com 100 mil barris por dia, os quais farão parte de um total de 3 milhões de barris diários projetados para essa época, de acordo com a nova reforma. Sem o novo regime “teríamos caído a menos de 2,4 milhões de barris por dia, inferior aos atuais 2,8 milhões”, diz Morales. Outros dos benefícios contidos na reforma são mudanças no Conselho da Pemex, para incluir mais especialistas em petróleo e negócios, bem co-

lativa e de governo formada por partidos de esquerda, tem argumentado que a reforma é privatizadora. “E é assim, no sentido que fortalece e amplia a participação do setor privado nas atividades que compõem a indústria petrolífera”, afirma Víctor Rodríguez Padilla, doutor em economia e política de energia da Universidade Nacional Autônoma do México (Unam). Os integrantes do FAP sustentam a sua argumentação

Ainda que alguns desconfiem da capacidade da Pemex de tomar decisões corretas, todos apóiam a autonomia de gestão da estatal. mil barris por dia em 2015. Outros campos importantes para compensar o declínio de Cantarell são Ku-Maloob-Zaap, Sihil e Ayatsil. Num curto prazo, entre 2009 e 2011, a Pemex vai trabalhar em KuMaloob-Zaap e desenvolverá Sihil e Ayatsil, além de tentar conter a queda da produção em Cantarell. O campo de Ayatsil conta com 500 milhões de barris de reservas provadas, enquanto Sihil tem 350 milhões. “São estruturas menores, mas têm um rendimento que vai nos ajudar a manter os níveis de produção”, diz Morales. Ku-Maloob-Zaap, por exemplo, contribuiu com 690 mil barris diários, em média, nos primeiros dez meses deste ano, volume 39% superior ao obtido no mesmo período do ano passado. E assim terá que ser até 2015, quando as operações de águas profundas começarem a mostrar resultados. Prevê-se que para essa data contribuam

mo a criação de um Conselho Nacional de Energia, que vai estabelecer e supervisionar a política energética do país, e uma Comissão Nacional de Hidrocarbonetos, para regular e supervisionar a exploração e extração de hidrocarbonetos que poderão ser encontrados em lençóis ou jazidas. Antes, o Conselho Administrativo era composto por 11 membros, cinco do sindicato da Pemex e seis do Governo Federal. “Com quatro novos conselheiros temos um equilíbrio muito mais a favor do governo para que a Pemex possa ter maior autonomia com respeito ao que diz o sindicato”, diz Wood, do Itam.

RISPIDEZ Embora a reforma petrolífera tenha sido aprovada por ampla maioria no Congresso, algumas facções dos partidos de esquerda ficaram inconformadas com a resolução. A Frente Ampla Progressista (FAP), uma coalizão legis-

no fato de que companhias privadas estarão presentes ao longo de toda a cadeia de valor através do sistema de contratos e de licenças, com exceção da área de refino. E são esses olhos os que zelarão pela correta aplicação da nova reforma energética no México. Alguns analistas ainda demonstram certa reserva com respeito à capacidade que a Pemex demonstrará na hora de tomar as decisões apropriadas para financiar projetos. “Não tenho tanta confiança em que possam tomar as decisões corretas”, afirma Wood, do Itam. “Mas vamos ver o que acontece”, acrescenta. Embora manifeste abertamente certas dúvidas, o especialista acredita que a reforma é o primeiro passo para pensar em futuras modificações na indústria petrolífera mexicana. E, quem sabe, daqui a alguns anos, poderão ser muitos os Chicontepecs que estarão em plena atividade de exploração. Q

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DEBATES OPINIÃO

Félix Peña

Hora de revisão? UM DENSO TECIDO de instituições e regras contribui para que o comércio mundial seja previsível. Algumas são multilaterais e globais, como as desenvolvidas nos 60 anos do sistema GATT-OMC. Outras são regionais ou resultam da crescente rede de acordos bilaterais. São bens públicos internacionais que facilitam os intercâmbios de bens e serviços, o desenvolvimento de redes transnacionais de valor e a solução de eventuais diferenças. As instituições e regras existentes estão longe da perfeição. Inclusive em alguns casos não conseguiram alcançar os ambiciosos objetivos iniciais. Mas elas existem e seu desenvolvimento custou muito esforço. Além disso, cumprem uma função que no complexo cenário econômico atual tem um valor significativo. São escudos protetores frente à recorrente tentação de fechar os mercados, como já aconteceu durante a Grande Depressão da década de 30. Não foi essa a causa dos desastres produzidos pela Segunda Guerra Mundial. Mas facilitou que estes acontecessem. Por isso hoje é prioridade preservar tais regras e instituições. Mas para isso se requer que estas sejam adaptadas a novas realidades. Preservar o existente não exclui a necessidade de revisar e, eventualmente, refazer suas agendas, instrumentos e métodos de trabalho. No caso da OMC, o debate sobre essa revisão já está acontecendo. As dificuldades para concluir a Rodada Doha tornam essa necessidade evidente. Por um lado, são muitos os países membros e é difícil conquistar equilíbrios entre os diversos interesses, às vezes contrapostos. Por outro lado, não é fácil visualizar os benefícios do deterioro do atual sistema multilateral do comércio mundial, que poderia resultar do imobilismo. Uma das chaves da OMC é colocar um limite ao protecionismo dos mercados e aos instrumentos que distorcem as condições em que o comércio mundial se desenvolve. A consolidação das tarifas máximas que os países membros podem aplicar e o teto para os subsídios à produção agrícola são alguns dos exemplos. Inclusive há quem se questiona, com razão, se não teria sido conveniente che-

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gar a um acordo em julho passado. As bases propostas podiam estar longe das ambições originais e dos equilíbrios necessários mas, se tivessem sido aprovadas, permitiriam domesticar melhor as tendência protecionistas que agora emergem como resultado da crise econômica mundial. Concluir Doha não significa eliminar a necessidade de continuar negociando condições para um sistema mais funcional ao desenvolvimento econômico de todos os países membros da OMC. Ao contrário, permitiria concentrar os esforços futuros na necessária reformulação de métodos das negociações comerciais multilaterais, a fim de torná-los mais eficazes e mais equilibrados em seus resultados. Isso requer que a conclusão da Rodada Doha inclua uma agenda de revisões na OMC. Também no Mercosul se observa a necessidade de reformas. O bloco é identificado por determinados setores econômicos de seus próprios países como carente de eficácia. É considerado insuficiente para orientar decisões de investimento que tenham o objetivo de projetar ao mundo a capacidade de produzir bens e prestar serviços que sejam competitivos. Em um contexto global de múltiplas oportunidades e opções para a inserção de qualquer país que tenha estratégias comerciais ofensivas, é visto como uma espécie de camisa-de-força. É difícil imaginar uma opção crível para o atual Mercosul. Parar e começar do zero não é um caminho recomendável, se se levar em conta as múltiplas dimensões de um processo de integração que transcende o comercial. Já se for renovado, poderá cumprir uma função relevante na estabilidade política de uma região na qual operam forças centrífugas. Como a OMC, o Mercosul também requer combinar preservação e revisões. Q

Em um contexto global de múltiplas oportunidades e opções para qualquer país que tenha estratégias comerciais ofensivas, o Mercosul é visto como uma espécie de camisa-de-força. É difícil imaginar uma solução crível para o bloco.

Diretor do Instituto de Comércio Internacional da Fundação Standard Bank e professor de Relações Comerciais Internacionais da Universidade Nacional de Tres de Febrero, Argentina.


FINANÇAS OPINIÃO

John C. Edmunds

Recursos internos AS NOTÍCIAS DE REVISÃO nas estimativas de crescimento econômico em 2009 já se converteram no pão de cada dia e a América Latina não é exceção à essa tendência. Mas se alguém estuda as cifras da região atenciosamente, alguns países latino-americanos se encontram em uma posição favorável para manter o crescimento econômico. Destes, os casos de Peru, Chile e Brasil são particularmente destacáveis. O Peru tem se revelado um aluno muito aplicado. Reduziu sua dívida externa de US$ 25,6 bilhões em 1995 para US$ 18,6 bilhões em setembro deste ano. Nesse período, seu PIB continuou crescendo, assim a carga relativa à dívida se tornou muito menor. Suas reservas em moeda estrangeira cresceram para US$ 31 bilhões, e por isso conta com dinheiro suficiente para não apenas pagar as dívidas como também suas importações, mesmo frente a uma queda das exportações. O Peru conta com múltiplas oportunidades para realizar proveitosos investimentos em infra-estrutura e suficiente receita advinda de impostos para financiá-los. A arrecadação tributária aumentou 17,1% em setembro de 2008 comparado com o mesmo mês de 2007. As projeções indicam que em 2009 se alcançará um superávit primário fiscal de 3,6% do PIB, enquanto em 2010 e 2011 esse excedente chegará a 3,5% e 3,3% do PIB, respectivamente. Conseqüentemente, o gasto público não superará o nível de receita tributária. Os investimentos estão orientados às exportações, mas também desenvolverão o mercado interno e proporcionarão mais renda aos peruanos. O país prognostica um déficit de conta corrente de 2,6%, 2,5% e 2,2% do PIB para os próximos três anos, mas não serão suficientemente grandes para desviar as projeções de crescimento de 7% para 2009 e de 7,2% e 7,5% para 2010 e 2011. O Chile também é um caso a destacar, apesar do país atravessar um período de dúvidas. Recentemente o Banco Central reduziu sua previsão de crescimento a 2,5% em 2009 e 4% para 2010, mas essas projeções talvez sejam muito baixas. As finanças públicas do país estão em tão boa ordem que o país poderia manter um maior nível de investimento que o que mostrou até agora. O governo ainda não sabe o que fazer com suas enormes reservas

em divisas e sua flexibilidade fiscal sem precedentes. Se as discussões em torno deste tema durarem muito, é bem provável que o país só cresça 2,5% em 2009, mas há cenários mais otimistas que também têm de ser considerados. Já o Brasil é um caso exemplar porque encontra formar de continuar crescendo, apesar da desaceleração dos mercados aos quais exporta. Seu crescimento se projeta em 3,5% em 2009, não muito menor que as taxas de crescimento dos anos anteriores. O motivo é que o setor exportador atualmente representa somente 10% do PIB. Além disso, o Brasil conta com grandes reservas em moeda estrangeira, que superam a demanda de converter reais a dólares. O sistema financeiro do país é hoje muito diferente daquele que se contagiou facilmente em 1994, 1998 e 2001. Hoje os brasileiros investem suas economias em fundos mútuos, que são muito mais transparentes que os bancos comerciais. Houve rumores de uma alta exposição a derivativos de divisas. Em crises anteriores, tais rumores teriam sido suficientes para engatilhar pânico. Desta vez, entretanto, o dano foi menor, já que os investidores puderam avaliar as perdas e ver que os recursos disponíveis eram mais que suficientes para cobri-las. O mercado de bônus confirma essa visão de prudência. Desde o início de 2008, os investidores em dólares sofreram perdas de 12,8% em bônus peruanos e 7,8% em bônus brasileiros. Durante esse mesmo período, os bônus argentinos caíram 66% e os bônus corporativos “podres”, 28%. Qual de todas essas diferentes estimativas será a correta? O Peru pode continuar crescendo a taxas de 7%, enquanto o Chile cresce menos de 3%? O Brasil conseguirá superar-se e exceder 3,5% da expansão projetada? A resposta depende, em parte, de quão rapidamente a crise internacional seja resolvida e quanto dano implicará à economia real dos países industrializados. Mas, mais que isso, dependerá de como os países latino-americanos manterão seus níveis de investimento em capacidade produtiva, apontando a seus mercados internos, e quão bem-sucedidos sejam em impulsionar aumentos de produtividade. A notícia realmente boa é que, pela primeira vez, esses países têm o controle de seus próprios destinos econômicos. Q

As estimativas dependerão de como os países latinoamericanos manterão seus níveis de investimento em capacidade produtiva e impulsionarão aumentos de produtividade.

Doutor em Administração de Empresas pela Universidade de Harvard, professor de Finanças do Babson College de Boston e co-autor de Wealth by Association.

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FINANÇAS INTEGRAÇÃO

Merkel, Sarkozy e Bush Jr.: anfitriões pouco queridos

AFP

G7 + OUTROS 13

A recente cúpula do G20 em Washington não representou a mudança do mundo financeiro, mas destacou o maior peso das economias emergentes no cenário global Darrell Delamaide / Washington

“A

cúpula foi uma enorme decepção. Os líderes mundiais deixaramse cair e não conquistaram absolutamente nada.” Com essas palavras, o economista Desmond Lachman, pesquisador do centro de estudos American Enterprise Institute, descreve sua impressão

sobre a mais recente cúpula dos líderes do G20, marcada para discutir a crise mundial. “Enquanto isso, todo mundo está indo ao inferno.” As versões sobre o balanço da crise são contraditórias, posto que existiam grandes esperanças depositadas nesse tema. Com as economias

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desenvolvidas golpeadas, algo que fica claro é que o encontro serviu para que novos atores, como México e Brasil, aumentassem seu poder de influência no setor financeiro global. Lachman, ex-subdiretor do departamento de pesquisa e políticas do Fundo Monetá-

rio Internacional, acha que o mínimo que se podia esperar dessa cúpula era um estímulo global coordenado. “Em vez disso, discutiram sobre como prevenir uma nova crise”, diz. “Isso não é o que se faz quando se está mergulhado na pior crise econômica depois da Segunda Guerra. Primeiro,


é preciso resolver esta.” Na semana posterior à reunião, o mercado acionário dos Estados Unidos voltou a cair, a indústria automotiva implorava ao Congresso para ser resgatada, e os mercados de crédito mundiais pareciam estar prestes a viver um novo colapso. “Toda a economia está à beira do precipício”, afirma Lachman.

OTIMISTAS Outros analistas foram mais otimistas em seus balanços. “Certamente, não foi Breton Woods II, como algumas pessoas esperavam”, diz o argentino Claudio Loser, ex-chefe do departamento de América Latina do FMI. “Mas foi o suave começo de uma modificação no sistema financeiro internacional.” Este ponto foi levado ainda mais longe pelo presidente do Brasil. “Estamos falando do G20, porque o G8 já não tem motivo para existir”, declarou Lula à mídia, depois do evento. “Em outras palavras, as economias emergentes devem ser consideradas no atual contexto do mundo globalizado.” Loser, que hoje é pesquisador sênior do Diálogo InterAmericano em Washington, vê Brasil e México como países latino-americanos em condições de ocupar um papel de peso na formulação de uma agenda econômica global – não apenas dentro do G20 como também no FMI, no Banco Mundial e no Fórum de Estabilidade Financeira, este último formado por presidentes de bancos centrais e outras autoridades monetárias, fundado pelo G7, com sede no Bank of International Settlements, na Suíça. “O G7 reflete a realidade de 10 anos atrás”, diz Loser. “Esses países têm que aceitar

que o mundo mudou. Eles podem não gostar disso, mas têm que ouvir o que o Brasil tem a dizer.” O economista acha que vários países latino-americanos – Brasil, México, Chile, Colômbia e Peru – vão suportar a crise razoavelmente bem. “Eles trabalharam arduamente durante os últimos cinco a dez anos para melhorar o sistema financeiro. E acumularam reservas que lhes permitem absorver parte do golpe.” Outros países –Venezuela, Argentina e Equador – terão muito mais problemas, diz Loser. Mas não estão contaminados pela quantidade de ativos tóxicos que afetam

países latino-americanos não devem satisfazer sua costumeira vontade de culpar o resto do mundo por seus problemas. “Alguns desses países pensaram que os preços das commodities nunca cairiam, e por isso gastaram a receita”, diz. “Estes pensaram que estávamos ante um ‘novo paradigma’, em que os preços se manteriam altos”. No encontro, a América Latina foi representada pelos líderes de Brasil, México e Argentina. A declaração de 10 páginas, resultado da Cúpula sobre Mercados Financeiros e Economia Mundial, cobriu de tudo, de normativas contábeis aos famosos credit default

gerente do FMI Dominique Strauss-Khan, em coletiva de imprensa realizada depois da cúpula. “Por isso devem tomar medidas”, afirmou. Com base nos prognósticos econômicos divulgados pelo FMI pouco antes da cúpula, Strauss-Khan disse que, com a inflação em retrocesso e o surgimento da deflação como a grande ameaça nesse momento, os orçamentos deficitários deixam de ser um perigo importante, caso se gaste para estimular a economia. “Se houve alguma época da história econômica mundial em que a política fiscal e o estímulo estatal devessem ser usados, essa

Os líderes do G20 se comprometeram, em um acordo emblemático, a evitar medidas protecionistas. outras economias emergentes na Ásia e no Leste Europeu, sem falar dos mercados desenvolvidos na Europa e América do Norte. “Poderia-se descrever os países latino-americanos como vítimas inocentes”, diz Lachman. Os fundamentos de muitos países, como Brasil, são sólidos, mas se está perdendo muito dinheiro, à medida que as retiradas dos investidores obrigam os hedge funds a liquidar importantes posições em moedas locais. Nesse sentido, o presidente mexicano Felipe Calderón enfatizou a necessidade de ajudar as economias emergentes. “As instituições financeiras internacionais devem adotar um papel muito mais ativo”, disse, “apoiando países emergentes para minimizar o impacto na atividade econômica e evitar o aumento da pobreza.” Mas Loser acha que os

swaps, e o prazo mais curto definido para implementar as novas políticas é 31 de março. Muitas das ações descritas foram apresentadas como propostas de médio e longo prazo. Os líderes do G20 também se comprometeram a evitar medidas protecionistas. Loser considera essa promessa como o acordo mais emblemático da cúpula. “Isso é extremamente importante. Disseram que não seguiriam o caminho antiquado de impor restrições”, diz o economista. “É um importante sinal para os países em desenvolvimento.” O jantar na Casa Branca, na noite anterior à cúpula, também pode ter produzido compromissos importantes. “Muitos dos primeiros-ministros e chefes de Estado presentes claramente compreendem o fato de que a crise não terminou”, diz o diretor-

época é agora.” Para o FMI, uma das medidas concretas produzidas na reunião foi o anúncio do Japão de proporcionar US$ 100 bilhões em recursos. Atualmente, o fundo conta com apenas US$ 200 bilhões para gastar, pouco frente ao aumento da lista de espera de países que pedem ajuda. Também houve a sugestão de que a China e outros países com excedentes no Oriente Médio poderiam aportar outros US$ 400 bilhões ao FMI. A agência poderia destinar US$ 100 bilhões a uma instituição criada em novembro para prover liquidez de curto prazo a países que ostentem políticas adequadas, mas que foram afetados pela crise financeira. Brasil e México, bem como outros países latino-americanos, poderiam solicitar ajuda por essa via. Q

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CAPITAL ABERTO ethomson@americaeconomia.com

A CULPA É DOS BANCOS

Queda nas ações financeiras dos EUA afunda ainda mais todo o mercado acionário O FATO DE AS AÇÕES do Citigroup terem subido 60% em um dia não diz nada. Isso porque subiram de US$ 3 a US$ 5, quando no início de 2007 o preço de cada ação do grupo custava US$ 50. O Citi está tão mal assim? Ao que parece, sim. Segundo Enrique Álvarez, do IdeaGlobal em Nova York, “isso foi um erro do Tesouro dos EUA”. Quando se anunciou que o programa de resgate Tarp deixaria de comprar ativos podres, o Citi decidiu incorporar instrumentos de investimento estruturados de mais de US$ 17 bilhões que estavam fora da folha de balanço, causando uma reação negativa do mercado, que se lançou a vender no curto prazo “e como hoje não há ninguém no mercado disposto a comprar, os agentes obrigam o governo a ir ao resgate”, diz Álvarez. Para Jorge Suárez, do Global Plus Investment Management, “o mercado acha que o

Governo não deixará o Citi quebrar, mas ninguém sabe quanto se necessitará para evitar a quebra”. E quanto aos demais bancos? “Bom, ninguém está totalmente são”, diz Suárez. O sistema financeiro norteamericano em geral viu o preço de suas ações cair. Bear Stearns, Lehman Brothers, Wachovia, Washington Mutual e AIG estão na lona. E, junto com eles, o Dow Jones, que perdeu 35% de seu valor, impulsionado por um fenômeno de venda obrigado pelos bancos. Como assim? Muito simples. Os bancos norte-americanos podem emprestar uma quantidade de dinheiro equivalente a certo número de vezes o seu capital. E, cada vez que a ação de um banco cai, reduz-se o valor de capital, e portanto é preciso vender títulos para manter a relação capital-empréstimos dentro da margem exigida. Isso provocou um espiral de vendas nunca antes visto.

RIBANCEIRA

“Estamos frente a um mercado histórico”, diz Álvarez. E apesar dos planos de resgate terem ajudado, eles somente estabilizam a condição do doente para que o quadro não se agrave; não garantem que ele será curado. Até agora, os que se recuperaram foram os créditos a curto prazo no sistema financeiro, o que deveria gerar uma sensação de otimismo. Mas a maior fonte de otimismo no mercado nesse minuto se chama Obama. Para Suárez, “o mercado poderá ficar ainda mais otimista se for feita uma análise mais profunda da equipe econômica do novo presidente, porque está bem equilibrada”. Tim Geithner, que foi nomeado secretário do Tesouro, é reconhecido como grande negociador, e Lawrence Summers, que será o principal assessor econômico de Obama, é um experiente economista. Q Rodrigo Díaz DOW JONES BANK OF AMERICA WELLS FARGO CITIGROUP

Preços e ações de alguns bancos na Nyse Base 100=5 de janeiro de 2007 Fonte: Economática

140 120 100 80 60 40 20

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HÁ DINHEIRO... POR ENQUANTO Os emissores de bônus corporativos na América Latina experimentaram significativas melhoras em suas posições de liquidez desde 2003. Segundo recente informe da classificadora Fitch Ratings, isso se deve à solidez dos mercados de capital locais, uma forte

OS “TOP FIVE”

Menor posição dinheiro/ dívida de curto prazo DINH./ DÍVIDA CP ARG Fargo S.A. 0,01 Samarco Mineração BRA 0,02 CHI Viña Santa Rita 0,02 Industria Nigua 0,02 R. DOM. MÉX Proquifin 0,03 COMPANHIA

PAÍS

FONTE: FITCH RATINGS

geração de fluxo de caixa e uma significativa queda do alavancamento. Mas o relatório também menciona que nos últimos 12 meses se registrou uma queda generalizada na taxa de crescimento dos fundos provenientes de operações das mesmas empresas, além de uma queda no percentual de dinheiro disponível frente à dívida de curto prazo das empresas. Essa situação, além do adormecimento dos mercados de capitais e bancários locais, certamente colocará a solvência dos emissores de bônus corporativos à prova. O relatório ainda identificou as empresas que possuem o menor nível de dinheiro disponível em relação à sua dívida de curto prazo, um importante indicador da saúde financeira de uma companhia.


NEGÓCIO FECHADO >> ALBANESI A empresa argentina comercializadora de produtos energéticos adquiriu a Central Térmica Independencia de Centrales Térmicas del Noroeste. O montante negociado não foi revelado. O comprador instalará duas turbinas de geração de poder que acrescentarão 120 MW ao sistema. A Albanesi investirá US$ 100 milhões neste projeto que estará pronto para o primeiro trimestre de 2010. >> AZUL AZUL As ações da sociedade chilena que administra o clube Deportivo Universidad de Chile teve uma má estréia. Em sua primeira cotação na Bolsa de Comércio de Santiago, os papéis caíram mais de 18%, afetados pelo cenário crítico do mercado bursátil local e internacional. A oferta pública inicial envolveu 19,8 milhões de ativos (54,52% da companhia). No total, a firma recebeu ao redor de US$ 14,8 milhões. A operação foi coordenada por três corretoras de valores: BancoEstado, EuroAmerica e LarrainVial. >> BANCO DO BRASIL A entidade financeira brasileira anunciou a aquisição do Banco do Estado do Piauí. O Banco do Brasil emitirá 2.930.649 ações correspondentes ao Banco do Piauí com um valor econômico de US$ 38,03 milhões. Este último era controlado pelo estado do Piauí até que em 2000 foi transferido ao governo federal do Brasil. >> CEMEX A empresa de cimentos mexicana anunciou um acordo com a Cimpor

Inversiones, subsidiária espanhola de Cimpor Cimentos de Portugal SGPS para a venda de suas operações nas Ilhas Canárias. O acordo compreende os ativos de concreto e cimento da Cemex em Tenerife e 50% da propriedade da firma mexicana em duas joint ventures, Cementos Especiales de las Islas (CEISA) e Inprocoi. >> CHINA NATIONAL PETROLEUM CORPORATION A petrolífera asiática e a Recope (Refinería Costarricense de Petróleo) firmaram um acordo para criar uma joint venture com um prazo de 25 anos na Costa Rica. Assim buscam melhorar, reconstruir e expandir as 1,2 milhão toneladas por ano da refinaria Moin, para aperfeiçoar a capacidade de seus processos, a qualidade do produto e a proteção ambiental. >> COMPAÑÍA MINERA MILPO A empresa controlada pela brasileira Votorantim Metais adquiriu 100% da subsidiária peruana desta última, Votorantim Andina Perú S.A.C. Esta companhia havia sido criada recentemente para adquirir o controle da Compañía Minera Atacocha, da qual é dona de 69,75% das ações com direito a voto. >> GENERAL ATLANTIC O grupo de private equity adquiriu 40% dos ativos na corretora de seguros brasileira Grupo Qualicorp. O acordo está valorizado em US$ 100 mihões. O Grupo Qualicorp é formado por três

>> MONSANTO A companhia de alimentos dos EUA chegou a um acordo para a aquisição da brasileira Aly Participações, matriz das empresas especializadas no negócio da cana-deaçúcar CanaVialis e Alellyx, por US$ 290 milhões.

Monsanto: Aquisição no brasil

companhias; Qualicorp Corretora de Seguros, Access Clube de Benefícios e Access Administração e Serviços. >> GRUPO CAMPARI A firma italiana chegou a um acordo com a Destiladora San Nicolás para adquirir 100% da companhia mexicana por US$ 17,5 milhões. A transação será fechada no final deste ano. O acordo inclui os negócios e ativos da companhia: uma destilaria, as marcas de tequila Espolón e San Nicolás, o estoque de tequila e a plataforma de distribuição para o mercado mexicano. Além disso, a Campari assumirá os US$ 10 milhões da dívida financeira da destiladora. >> MMX MINERAÇÃO E METÁLICOS S.A A companhia de mineração brasileira adquiriu duas propriedades mineiras localizadas a 90 quilômetros de Copiapó, no norte do Chile, por US$ 26 milhões para criar novos negócios no país. Junto com a aquisição, a MMX firmou dois acordos opcionais para adquirir os direitos de exploração de ferro de outras minas próximas. O preço final poderia chegar a US$ 535 milhões se a MMX decidir executar a opção e adquirir os lotes vizinhos.

>> SOUTHWEST AIRLINES A companhia aérea norte-americana realizou um acordo comercial com a mexicana Volaris para compartilhar códigos. Este será implementado a partir de 2010 quando a norteamericana modernizar o seu sistema eletrônico de reservas. Trata-se do primeiro passo para desenvolver uma aliança comercial que permitirá aos clientes viajar a uma série de destinos nos Estados Unidos e no México mantendo as baixas tarifas de ambas companhias. >> SOLERA HOLDINGS O provedor norte-americano de software e serviços para a indústria de seguros automotivos adquiriu a brasileira Inpart Serviços Ltda., dedicada ao intercâmbio eletrônico para a compra e venda de peças de reposição para veículos no Brasil. >> SYNGENTA A empresa suíça anunciou que fechou um acordo para adquirir a SPS Argentina (SPS), companhia especializada no desenvolvimento, produção e marketing de soja, milho e girassol. A transação permitirá à Syngenta aumentar significativamente sua presença no mercado argentino. O valor da transação não foi divulgado.

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ESPECIAL

TECNOLOGIA

Problemas na Matrix

A crise freará o rápido crescimento da indústria de TI na América Latina. No mercado mexicano pode até haver queda, de 7,5%. No Brasil, porém, a desaceleração esperada é bem menos brusca Felipe Aldunate e Dubes Sônego, Santiago e São Paulo

A

conteceu em Santiago. Em um jantar privado de executivos da indústria de tecnologia da informação (TI), os presentes decidiram se abrir. “Quanto a crise vai afetar você?”, disse um. Os gerentes das maiores empresas de TI olharam um para o outro, deixaram as rivalidades de lado por um momento e comparti-lharam suas visões. “A opinião geral é a de que se mantivermos o mesmo faturamento em 2009, será um bom ano”, diz um dos executivos que particiou do encontro. Possivelmente, a conclusão seria a mesma se o encontro tivesse acontecido no México, na Colômbia ou em algum país da América Central: a indústria das empresas de TI, aquelas que se dedicam a vender softwares feitos sob medida ou padronizados, plataformas e serviços de manutenção, atualização de hardware e um sem-número de outros serviços para as quais são necessários especialistas em informática, terá um bom ano se repetir as cifras de vendas alcançadas este ano. É que a crise financeira global também afetará a indústria de hardware, códigos binários e arquiteturas digitais. “No México, a queda poderá ser de 7,5%, em 2009”, diz Saul Cruz, analista da consultoria Select, no México. No Brasil, ainda que de forma bem menos brusca, a desaceleração também será sentida. “A indústria vinha crescendo a taxas anuais de 8% no País, mas duvido muito que 64 AMÉRICAECONOMIA / 30 DE NOVEMBRO, 2008

cheguemos a essa média em 2009”, diz Fernando Meirelles, diretor do Centro de Tecnologia da Informação Aplicada (CIA), da Fundação Getúlio Vargas (FGV). “A venda de software vinha crescendo a taxas de 12%, mas esperamos crescer apenas entre 3% e 4%, em 2009”, diz José Cursellis, diretor da Associação Brasileira de Empresas de Software (Abes), que reúne cerca de 800 empresas. O golpe será sentido fortemente, dizem vários participantes da indústria, porque 2008 vinha sendo um bom ano para os empresários do setor em toda a região. Inclusive, no último trimestre deste ano, vinham sendo realizados investimentos de contratos firmados no início do ano, motivo pelo qual alguns ainda não sentiram o verdadeiro impacto da crise. “O mercado vinha embalado e muitas lojas e shoppings em construção serão inaugurados de qualquer forma”, diz Alberto Menache, diretor corporativo do Grupo Linx. “É uma indústria com muitos contratos já fechados”. Mas, além dos projetos atualmente em execução, o mundo não está tão positivo. “Já sabemos como serão as coisas”, diz o argentino Luis Cuezzo, diretor geral da espanhola Indra para Chile, Peru, Uruguai e cuja empresa tem vendas de US$ 300 milhões em serviços de TI em toda a América Latina. “Todas as decisões de investimentos serão postergadas até que haja


ESPECIAL

TECNOLOGIA maior clareza em relação à profundidade da crise: até lá, só seguirão investindo aqueles que não podem funcionar sem investir, os que buscam maior eficiência através da tecnologia”, diz Cuezzo. Por isso, são muitos os que estão esperando uma forte contração dos negócios, especialmente durante o primeiro semestre de 2009. Até lá, é pouco provável que haja sinais claros que permitam às empresas trabalhar com algum grau de certeza sobre os cenários que enfrentarão seus investimentos. A isso é preciso somar o efeito que a crise terá sobre certos setores (especialmente exportadores) que são usuários intensivos de tecnologias, sem falar das restrições de crédito geradas pela falta de liquidez. É que grande parte das vendas da indústria, especialmente a compra de ativos físicos (computadores, servidores, etc.) é feita através de operações de crédito. “A crise é principalmente uma crise de financiamento”, diz o peruano Luis Anavitarte, vice-presidente e diretor de pesquisa de mercado para mercados emergentes da Gartner, baseada em São Francisco. “Isto significa que veremos muitas empresas postergando decisões como, por exemplo, a de renovarem seu parque de PCs, do primeiro para o segundo semestre”. O segmento de hardware é provavelmente o mais crítico: enquanto a maior parte dos serviços de TI pode ser vendida já como serviços pagos mês a mês, muitas empresas ainda preferem ter os equipamentos de computação em seus escritórios e investir altas somas – o que exige mais capital. Por isso, será o item mais afetado. “Contudo, a maior parte dos investimentos continuará a ser destinada a servidores, redes, soluções de armazenamento e PCs”, diz Cristina Rivas, gerente de pesquisa para o Cone Sul da IDC. Sem falar no varejo, segmento de mercado no qual está cada vez mais difícil vender. “Para o consumidor residencial as coisas serão mais difíceis: hoje, para os consumidores é mais difícil ter acesso a uma cesta básica de produtos e serviços digitais”, diz o mexicano Luis Guarango, diretor para a América Latina da Marco Consultoria. Por exemplo, no México, diz Guarango, em maio eram necessários quase seis salários para digitalizar uma

residência. Hoje, são necessários nove salários mínimos para comprar os mesmos equipamentos, mais de 50% de aumento. No caso argentino, o aumento foi de 30%. Mas, como diz o clichê, é na crise que estão as maiores oportunidades. E na América Latina que se transformou, nos últimos anos, na região de maior crescimento em investimentos em TI do mundo e no segundo maior mercado emergente do planeta, depois da Ásia Pacífico, continuam havendo muitas delas. Miguel Pérez, presidente da Associação Chilena de Empresas de Tecnologia da Informação (ACTI), diz que “quando há crise, em geral, a área de tecnologia não sofre muito, porque implementar soluções tecnológicas permite a redução de custos”. Por este motivo, não espera uma forte redução, mas uma transferência de investimentos, já que haverá menor renovação de hardware (PCs, servidores e impressoras). “Vai haver redução no volume de investimentos em infra-estrutura e aumento em serviços, porque a tecnologia que as empresas têm provavelmente terá que durar um ano a mais”. De acordo com Cuezzo, da Indra, as empresas mudarão o foco de atuação. “Os que continuarem investindo em novos projetos de TI vão se focar naqueles que geram maior eficiência e na diminuição de custos”, diz. E, nas atuais circunstâncias, só haverá dinheiro para os que forem capazes de garantir rentabilidade imediata. Para isso, não há nada melhor que a redução de custos. A isso é preciso somar a demanda por serviços de manutenção de grandes investimentos feitos no passado ou que já estavam em andamento e não podem ser interrompidos. No Brasil, por exemplo, havia cerca de 18 milhões de computadores, em todo o país, em 2002. Hoje, a cifra é de 45 milhões, de acordo com a CIA, da FGV. A área de TI vinha consumindo cerca de metade dos investimentos realizados pelas companhias brasileiras nos últimos anos. Mas, muitos desses investimentos são contabilizados como gastos correntes, que as empresas não deixarão de fazer. “As grandes corporações continuarão a comprar tecnologia, enquanto que as PMEs estão se aproximando dos canais tradicionais de TI”, diz Guarango, da Marco Consultoria.

MENOS CONSULTORES

FOCO NAS APLICAÇÕES

EM QUAL DAS SEGUINTES ÁREAS ACHA QUE HAVERÁ ALGUM TIPO DE REDUÇÃO DE GASTO OU DE INVESTIMENTO EM 2009?

EM QUAL DOS SEGUINTES TIPOS DE SOFTWARE HAVERÁ ALGUM TIPO DE REDUÇÃO DE GASTO OU INVESTIMENTO EM 2009?

FONTE: PESQUISA DO IDC COM 164 EMPRESAS DA AMÉRICA LATINA

60%

60% 50% 40% 30% 20%

IT CONSULTING DESENV. DE APLICAÇÕES /PROG. SOB MEDIDA CAPACITAÇÃO/EDUCAÇÃO

50%

SUPORTE E MESA DE AJUDA

30%

OUTSOURCING

20%

GESTÃO DE OPERAÇÕES INTEGRAÇÃO DE SISTEMAS

10% 0%

FONTE: PESQUISA DO IDC COM 164 EMPRESAS DA AMÉRICA LATINA

APLICAÇÕES ESPECIALIZADAS COLABORAÇÃO SISTEMAS OPERACIONAIS BASE DE DADOS ERP SEGURANÇA CRM BUSINESS INTELLIGENCE PRODUTIVIDADE

40%

10% 0%

100-249

250-499

500-999 1000 ou + Média empregados

100-249

250-499

500-999 1000 ou + Média empregados

30 DE NOVEMBRO, 2008 / AMÉRICAECONOMIA 65


ESPECIAL

TECNOLOGIA “O MERCADO VINHA EM ALTA VELOCIDADE E MUITOS PROJETOS CONTINUARÃO SENDO EXECUTADOS APESAR DA CRISE”, DIZ ALBERTO MENACHE, DO GRUPO LINX. Para outros, a crise é uma oportunidade para que os hábitos de comercialização da indústria mudem para melhor. “As pessoas estão muito insatisfeitas com a forma como hoje se comercializam softwares”, diz Meirelles, da CIA-FGV. “Hoje, as empresas só usam cerca de 10% das potencialidades de um sistema de gestão integrada com que trabalham... e a exigência de hardware para qualquer software hoje é absurda. É uma coisa sem sentido”. Menos ainda em um mundo no qual o hardware se transforma em uma enorme acumulação de capital imobilizado. Foi no que apostou o brasileiro Cláudio Coli, diretor executivo da Mastersaf, uma empresa que oferece soluções tecnológicas para as áreas fiscal e tributária. Sua companhia começou a oferecer um serviço para que varejistas pudessem emitir notas fiscais eletrônicas pela internet. Pelo modelo tradicional, o cliente teria que comprar um PC, um software e contratar alguém para implantar o sistema, aumentando sua necessidade de capital inicial. Contudo, através de uma aliança com a IBM, a Mastersaf oferece a possibilidade de que a nota seja preenchida on-line e armazenada em servidores da IBM, eliminando a necessidade de um sistema interno na loja. O comerciante paga apenas pelo número de notas fiscais emitidas através da rede. Assim, também será possível começar a popularizar sistemas de venda de tecnologia que aproveitam a capacidade de computadores remotos. Trata-se de uma tendência que vinha se desenhando há alguns meses, mas que deverá ser acelerada pela crise. RIO REVOLTOSO

Quanto aos setores industriais que continuarão ativos com-

CONTINUE COM O VELHO PC EM QUAL DOS SEGUINTES TIPOS DE HARDWARE HAVERÁ REDUÇÃO DE GASTO OU INVESTIMENTO EM 2009? FONTE: PESQUISA DO IDC COM 164 EMPRESAS DA AMÉRICA LATINA

60% 50% 40% NOVO PC SERVIDOR DISP. MÓVEL IMPRESSORAS EQUIP. DE REDE ARMAZENAMENTO

ALEXANDRE BATTIBUGLI

30%

66 AMÉRICAECONOMIA / 30 DE NOVEMBRO, 2008

20% 10% 0% 100-249

250-499

500-999 1000 ou + Média empregados


ESPECIAL

TECNOLOGIA “DEU TILT”

Previsão de crescimento de gastos/investimento em TI, antes e depois da crise Peru: Brasil: Colômbia: Chile: Resto da América Latina: Argentina: México: Venezuela: Estados Unidos: Europa Ocidental: Japão: América Latina: Mundo:

8,5% / 11,9% 14,4% / 9,1% 16,6% / 8,6% 14,7% / 8,3% 15,8% / 7,5% 16,5% / 7,4% 11,7% / 5,2% 7,9% / 4,5% 4,2% / 0,9% 3,9% / 1,2% 2,3% / 1,0% 13,7% / 7,8% 5,9% / 2,6%

Previsão de crescimento de gastos/investimentos em TI, por segmento, antes e depois da crise Software: Serviços: PC/equipamentos: Armazenagem de dados: Redes: Impressão: Servidores:

12,1% / 10% 10,7% / 8,6% 15,3% / 6,6% 5,1% / 2,8% 6,6% / 2,8% 9% / 1,7% 3,1% / 2,1%

pradores de tecnologia, não há grandes surpresas: a indústria bancária latino-americana e a de telecomunicações, além da administração pública, seguirão dominando os contratos. As empresas, tanto do México quanto do Brasil e de outras partes da região, crêem também que muitas oportunidades se abrirão no mundo das pequenas e médias empresas. Rivas, do IDC no Chile, acredita que as PMEs têm uma oportunidade para investir em soluções que melhorem sua produtividade. “Estamos vendo que a questão do Saas (Software as a Service) e dos softwares, em geral, segue se desenvolvendo na América Latina”, diz. “E as PMEs continuam no processo de adoção deste tipo de aplicações, críticas para seus negócios, sem investir em infra-estrutura”. Outra área em que há um crescimento consistente é a de comércio eletrônico. Segundo Menache, da Linx, seu grupo planeja implantar um portal no qual os clientes poderão fazer leilões reversos para compra de bens e serviços produtivos e não-produtivos, de forma semelhante a que acontece em licitações públicas. “Devemos investir também muito na área de comércio B2C (vendas ao consumidor final)”, diz Menache. É que o Brasil, assim como outros países da região, atravessa um boom no comércio eletrônico, que a crise não parece capaz de interromper (ver gráfico na página 68). Além disso, não são poucos os que vêem a vantagem que estão gerando as atuais condições de comércio: a depreciação das moedas latino-americanas frente ao dólar voltou a tornar atrativa a possibilidade de exportar software e serviços de TI.

ANTES E DEPOIS

Você acha que os gastos em todos os serviços e produtos de TI de sua companhia serão maiores, menores ou iguais aos realizados nos últimos 12 meses? Respostas dadas antes e depois da explosão da crise financeira dos EUA, em setembro Antes da crise 37% Maiores 12% Menores 51% Iguais Depois da explosão da crise 23% Maiores 32% Menores 46% Iguais Fonte: Pesquisa realizada pelo IDC com 164 companhias da América Latina

Mas, as oportunidades não surgem apenas do lado das novas formas de serviços ou de setores mais dinâmicos. Não são poucas as empresas de TI que têm percebido que muitos competidores menores podem complicar-se nos próximos meses, por falta de capital de giro e, portanto, se sujeitarem a aquisições. “Já aconteceram muitas conversas entre empresas rivais neste sentido, inclusive a minha está em busca de um comprador”, diz um executivo mexicano que prefere não revelar seu nome nem o de sua empresa, para não afetar as negociações. Contudo, entre os profissionais do setor, na maior parte dos países, há muito nervosismo. Não são poucos os que lembram a enorme retração da indústria logo após a explosão da bolha de internet que reduziu drasticamente os salários e deixou vários deles na rua. Um resultado lógico em uma indústria cuja chave é a gestão de enormes quantidades de recursos humanos altamente capacitados e cujos ajustes passam principalmente por demissões. Há, porém, boas notícias no front. Grandes consumidores de TI, como os bancos brasileiros Bradesco e Banco do Brasil anunciaram a manutenção em 2009 do mesmo volume de investimentos em TI que realizaram em 2008. Em outras empresas, como a telefônica Claro, do grupo Slim, foram anunciadas altas de até 40%. Mas, pelo menos por ora, são exceções no cenário latino-americano. É que a crise aconteceu no pior momento: justo quando os altos executivos das empresas fazem o planejamento orçamentário para o ano que se aproxima. “Estão fazendo suas apostas no momento de maior incerteza, e em função disso, serão conservadores”, diz um empresário colombiano. Alguns esperam que quando terminar o carnaval brasileiro e o restante do Cone Sul regressar das férias, em março, haja uma revisão das contas e uma confirmação de investimentos que realmente possam ser feitos – e com os quais os cenários previstos poderiam recuperar-se. Mas, com as informações disponíveis, só resta apertar o cinto e rezar para que a situação não piore. E, claro, buscar as boas oportunidades. Q - Com Marisol Rueda e Arly Faundes, México, e María Soledad Gómez, Santiago 30 DE NOVEMBRO, 2008 / AMÉRICAECONOMIA 67


ESPECIAL

TECNOLOGIA

O boom do

ESTUDO REALIZADO POR:

e-commerce COMPOSIÇÃO DO E-COMMERCE 2007 US$ 10,9 BILHÕES: COMPRAS EM SITES LOCAIS E ESTRANGEIROS Fonte: AméricaEconomia Intelligence e VISA

1,9%

Brasil México Venezuela Caribe sem P. Rico Argentina Chile América Central Porto Rico

1,8%

2,0% 4,1% 4,6% 6,3%

Peru Outros Colômbia

6,8%

44,9%

7,5%

U

m dos setores que este ano não verá sinais de crise é o comércio eletrônico. A tendência de transformar documentos e relações comerciais que antes aconteciam no mundo real em eletrônicas cresce tanto em tempos de bonança quanto de crise. Afinal, momentos de retração levam à necessidade de abrir novos mercados, bem como de tornar as operações mais eficientes. Já dissemos: este ano, o comércio eletrônico na América Latina registrará vendas de US$ 16 bilhões para consumidores, uma cifra 60% maior que a de 2007. Essa estimativa é resultado de um completo estudo realizado pela empresa de cartões de crédito Visa em conjunto com AméricaEconomia Intelligence, publicada na edição de 23 de junho de AméricaEconomia. Trata-se de um trabalho que ambas as organizações vêm desenvolvendo há três anos, impulsionadas pelo enorme interesse que esse comércio gera entre os participantes da indústria de cartões de crédito e – com certeza – entre nossos leitores. De fato, pelos telefones de nossos escritórios e em nossas caixas postais chegaram uma infinidade de solicitações do estudo Visa-AméricaEconomia Intelligence. Assim, depois de ouvirmos nossos leitores, incluímos nestas páginas alguns dos resultados do estudo e aproveitamos para lembrar que sua versão completa pode ser baixada de nosso site. Um dado que acrescentamos nestas páginas é o estudo da ComScore, empresa norte-americana que mede o tráfego de sites de e-commerce em todo o mundo. A tendência que eles registraram no último ano também é positiva. Pelo menos o número de visitantes únicos que os sites de comércio eletrônico da região recebem tem registrado claro aumento: média de 26% para o ano terminado em agosto de 2008. Continuaremos revisando essa tendência regularmente para saber como esse setor evolui. Q 68 AMÉRICAECONOMIA / 30 DE NOVEMBRO, 2008

7,5% 12,6%

VIRTUDES DO E-COMMERCE

COMUNIDADE DE LEITORES, AM. LAT. 08, RESPOSTAS MÚLTIPLAS

Fonte: AméricaEconomia Intelligence e VISA Conveniência - comodidade Compro a qualquer hora Credibilidade do sistema-segurança Rapidez Maior oferta Oferta outros países Maior variedade Menor preço Nenhuma

13,3% 12,0% 11,6%

18,7% 18,1%

11,5% 10,9% 3,2% 0,0% 0%

10%

20%


ESPECIAL

TECNOLOGIA CLICS & DINHEIRO

OS MAIS REQUISITADOS

Fonte: AméricaEconomi Intelligence e VISA

Fonte: ComScore

OS SITES DE E-COMMERCE MAIS VISITADOS NA REGIÃO

GASTO TOTAL EM E-COMMERCE NA AMÉRICA LATINA (EM US$ MILHÕES) 29.638

16.025

1.866 3.066 2003

4.925

2004

2005

Visitantes Únicos (Mil)

24.000

21.954

7.783

32.000

Sites

16.000

10.908 8.000

2006

2007

08p

09p

Out-07

Mercadolibre

10p

Out-08

Var.%

26.404

31.497

19,3

Buscapé.Com inc.

6.473

9.333

44,2

Apple inc.

6.027

7.734

28,3

Ebay

8.315

5.541

-33,4

Amazon sites

4.814

4.321

-10,2

Dell

3.204

2.174

-32,2

Hewlett Packard

2.200

2.100

-4,5

Ciao Sites

2.447

1.916

-21,7

1.711

1.713

0,2

Barbie AmericanGreetings Property

1.493

1.680

12,5

CAMARÃO QUE DORME...

Uol Brasil Shopping

1.471

1.449

-1,5

Magazineluiza.com.br

1.352

1.419

4,9

Fonte: ComScore

Guiadohardware.net

1.181

1.223

3,6

2.450

1.176

-52,0

VARIAÇÃO EM VISITANTES ÚNICOS (OUT. 08/OUT. 07)

Tuparada.com 40

Paris.cl

1.280

1.118

-12,6

20

Livrariasaraiva.com.br

1.060

1.112

4,9

Grupo Falabella

1.342

1.048

-21,9

PriceGrabber

2.103

1.011

-51,9

Ticketmaster

1.100

893

-18,8

56.520

72.547

28,4

0 -20 -40 PriceGrabber

Tuparada.com

Dell

eBay

Falabella

Ciao Sites

Paris.cl

Ticketmaster

HP

Amazon

Barbie

UOL Brasil Shpping

Guiadohardware

Magazineluiza

Livrariasaraiva

AmericanGreetings

Aplle Inc

MercadoLibre

Promedio

Buscapé.com

-60

TOTAL INTERNAUTAS

O QUE COMPRO PELA INTERNET RESPOSTAS MÚLTIPLAS, COMPRAS UNITÁRIAS. COMUNIDADE DE LEITORES, LATAM. 08 Fonte: AméricaEconomia Intelligence e VISA Livros, música e filmes Turismo e viagens Eletrônicos Software Eletrodomésticos

OS 10 MAIS VISTOS Fonte: ComScore

MercadoLibre

43

21,4%

12,3% 9,1%

Serviços Flores e presentes Comida Jogos Peças de reposição Mobiliário

SITES DE E-VAREJO MAIS POPULARES ENTRE INTERNAUTAS (OUT- 2008)

BuscaPé.com Inc

13,9%

16,9%

4,1% 3,1% 2,8% 1,8% 0%

5%

7,7% 6,7%

10%

15%

20%

13

Lojas Americanas

11

Apple Inc

Para mais informações sobre este estudo, visite o site www. americaeconomia.com.br

11

eBay

8

Amazon Sites

6

Dell

3

Hewlett Packard

3

Ciao Sites

3

Barbie

2 0

10

20

30

40

50

30 DE NOVEMBRO, 2008 / AMÉRICAECONOMIA 69


CLICS & CHIPS [gadget]

Torre musical

Todoroki é o nome desse novo sistema musical da clássica marca Pioneer, que promete deleitar os mais exigentes tímpanos. O equipamento tem um subwoofer grande (30 cm) que entrega baixos mais fortes e pesados, além de uma torre de alto-falantes frontais e conexão USB. Seu preço ainda não foi divulgado. www.pioneerelectronics.com

[gadget]

Relógio móvel

O telefone LG Prada II tem um acompanhante perfeito. Trata-se do Prada Link, relógio que se conecta ao celular através de Bluetooth e que mostra informações como ligações recebidas e SMS. Tem uma tela Oled de 0.9 polegadas (120 x 56 px), pesa 51 gramas e tem autonomia de 48 horas. Custa cerca de US$ 300. www.lge.com

[.com]

Facebook para executivos

O site MeetTheBoss pretende mudar a forma como os empresários se comunicam. A página é uma rede social que permite ter os contatos necessários em nível gerencial de diferentes empresas de todo o mundo. Também oferece diversas videoconferências com líderes do universo dos negócios. A inscrição é gratuita, com algumas restrições. www.meettheboss.com

[gadget]

YouTube em 50 polegadas

A nova TV de plasma da Panasonic não se limita a lhe oferecer o filme do seu canal predileto. Ela é compatível com IPTV (TV por protocolo de internet), o que permite que serviços como os oferecidos pelo YouTube possam ser desfrutados no TH-50PZ850 de 50 polegadas. Além disso, suporta resoluções 1080p FullHD. Sua vida útil é de 100 mil horas. Custa US$ 2,7 mil. www.panasonic.com 70 AMÉRICAECONOMIA / 30 DE NOVEMBRO, 2008


INTERFACES A LOUCA VIDA COTIDIANA COM AS MÁQUINAS INTELIGENTES.

EM BUSCA DO IPOD DE CARRO ADOLFO WATERHOUSE

SOLEDAD TIRAPEGUI

É

necessário uma rede wi-fi dentro do carro ou camionete? Conquistá-la significa converter um veículo em on the edge, na crista da onda? Só o fato de que essas perguntas tenham sido consideradas relevantes há três meses demonstra por que a indústria automobilística de Detroit se encontra “tecnicamente” extinta, como os últimos mamutes que sobreviveram, em algumas ilhas do Mar de Barents, alguns milhares de anos mais que o restante. Que os tecno-acessórios fossem como as telas de GPS ou o tamanho dos veículos, as mudanças mais visíveis nos modelos da última década, é um sinal da incompreensão das companhias norte-americanas sobre o que é a inovação tecnológica. As pessoas não querem um carro com um iPod: querem que um carro seja o iPod dos carros. Isso foi o que Thomas L. Friedman, colunista do The New York Times, sinalizou ao afirmar que um eventual pacote de resgate das companhias General Motors, Chrysler e Ford deveria obrigar – como contrapartida – a contratação ad-honorem de Steve Jobs como CEO de emergência. Para alguns isso parecerá uma crítica apresentada como piada, mas não é. Tratou-se de um pedido real. Michael Cusumano, professor da MIT Sloan School of Management, pôs o dedo na ferida na semana passada. Imaginando um cenário de uma quebra administrada e de uma recuperação, disse: “Meu pior medo é que os fabricantes de automóveis dos EUA têm muita dificuldade em atrair talentos. E isso será difícil de superar”. Nas últimas duas décadas, lembrou Cusumano, os melhores estudantes do MIT em Engenharia e Management foram para Google, Intel, Cisco. Inclusive Amazon e Hewlett Packard. Mas não para a Ford. O mesmo não acontece na Europa ou na Ásia, onde trabalhar na Volkswagen-Audi ou Honda – nem

se fala em Tata –, ainda é suficiente ou muito apaixonante. Por quê? Entre outros motivos, porque em um mundo com centenas de milhões de novos usuários asiáticos e com problemas ambientais e de custo energético agudos, o carro é uma máquina que tem que ser reinventada. É o que no Brasil o economista e mestre em Engenharia Renato Cesar Pompeu e o engenheiro mecânico Carlos Eduardo Momblanch estão buscando. Eles projetaram o Pompeo. Um carro para duas pessoas que pesa apenas 380 kg. A inovação? Tirar uma das rodas traseiras e usar um motor de motocicleta. Uma loucura. De fato, igual a um reprodutor de música portátil sem auto-falantes, com todas as funções manipuláveis mediante uma única roda-tecla. Em um mercado que vende pouco mais de 1 milhão de motos por ano, um quase-carro que fará 25 km por litro (contra 10 km/l de seu equivalente em quatro rodas) faz todo o sentido para quem deseja um carro que faça bem o que todos os carros fazem: levar as pessoas de um lugar para outro, mas de forma rápida e sustentável. E que no próximo ano poderá ter sua versão elétrica. Outro brasileiro, ou brasileirolibanês, para ser mais exato, Carlos Ghosn, CEO da Nissan e da Renault, há certo tempo já afirma que o futuro dos carros será “dos veículos que se plugam na tomada” (cars with cords). Um exemplo dessa tendência, que alimenta tal esperança, é o iMiEV da Mitsubishi. Com mais de 60 CV, sua autonomia é de 100 km. É um carro intracidade, mas anuncia algo novo: mais que velocidades, em seu caso é preciso falar de “modos”. A velocidade/modo B otimiza os freios e a velocidade para que a energia cinética do veículo expanda ao máximo a vida da bateria. O iPod para música é agregado pelo motorista. Q 30 DE NOVEMBRO, 2008 / AMÉRICAECONOMIA 71


RAIO X [ESPANHA]

O CAMPEÃO DA EUROPA TROPEÇA América Latina poderá sofrer com a repatriação dos lucros das empresas espanholas obtidos no continente Sergio Saiz

TOUREIRO TOUREADO 2003

PIB US$ MILHÕES POPULAÇÃO MILHÕES

885.649

2004

2005

2006

1.046.172

1.130.628

1.233.380

40,0

40,5

41,0

41,7

22.114

25.846

27.600

29.603

VAR. % PIB

3,1

3,3

3,6

3,9

INFLAÇÃO (%)

3,1

3,1

3,4

3,6

PIB PER CÁPITA US$

DESEMPREGO (%) SALDO COMERCIAL US$ MILH. SAÍDA IED US$ MILH.

11,1

10,6

9,2

8,5

(75.716)

(96.132)

(114.975)

(131.554)

28.718

60.532

41.829

100.249

FONTES: EUROSTAT, UNCTAD. / E=ESTIMATIVAS EUROSTAT, AMÉRICAECONOMIA INTELLIGENCE.

72 AMÉRICAECONOMIA / 30 DE NOVEMBRO, 2008

a crise do que outros países de seu entorno, não só pela bolha imobiliária como também devido ao grande déficit comercial que acumula, de quase 100 bilhões de euros, ou 10% do PIB. Com tal panorama, e frente à falta de liquidez para financiar operações, as empresas espanholas frearam todos os seus planos de investimento direto tanto dentro quanto fora do país. “É época de ficar calmo”, diz Juan Carlos Martínez Lázaro, professor de macroeconomia da IE Business School. Para ele, “as companhias têm menos desejo ou possibilidades de investir porque o financiamento é caro e de difícil acesso”. Mas esse freio afetará a América Latina menos do que nos anos 1990, já que o investimento direto na região supõe apenas 5,6% dos US$ 74 bilhões que a Espanha investiu fora de suas fronteiras em 2007. No que, sim, a falta de liquidez afetará será no investimento dos resultados obtidos pelas filiais latino-americanas. Na opinião de Martínez Lázaro, “a desvalorização das divisas latino-americanas é o efeito da repatriação do lucro”, que as matrizes necessitam para sanear suas contas. 2007 2008 (E) 2009 (F) Para o especialista, “a solução 1.439.840 1.625.520 1.519.969 espanhola passa por serem mais 42,3 43,0 43,8 competitivos e venderem mais”, e para isso o governo identificou 34.002 37.769 34.736 alguns “países-chave” com os quais 3,7 1,3 -0,2 suas empresas têm que fortalecer 2,8 3,0 2,7 suas relações comerciais. Do con8,3 11,5 12,5 tinente americano, figuram nessa (132.974) (131.614) (124.750) lista Estados Unidos, México e 119.605 N.D. N.D. Brasil. Q

SOLEDAD TIRAPEGUI

C

erca de 20 mil trabalhadores do setor imobiliário e da indústria automotiva foram os primeiros a sofrer os efeitos da crise financeira na Espanha. Mas não são os únicos, já que o vírus se estendeu rapidamente. No acumulado do ano, a crise já cobrou meio milhão de postos, segundo dados do Ministério do Trabalho. Somente nos últimos três meses, foram eliminados 160 mil empregos. As previsões para 2009 são de que a taxa de desemprego chegue a 12,5%. E esse quadro terá seus reflexos na América Latina. “Quase 60% dos imigrantes latino-americanos trabalham nos setores de construção e serviços (os mais afetados pela retração), e por isso sua capacidade de envio de dinheiro reduziu-se notavelmente”, diz Jan Smith, diretor geral da Kroll InfoAmericas. Segundo as previsões de Smith e Luis R. Roger, diretor associado da Kroll Associates Iberia, é possível que o mercado de remessas se contraia10% em 2009, e até 20% em alguns casos, como o da Bolívia, onde 70% das remessas chegam da Espanha. O presidente José Luis Rodríguez Zapatero anunciou recentemente um amplo pacote de medidas para amenizar os efeitos da crise, que se resume basicamente em um aumento do gasto público. Depois de cerca de quatro anos com superávit, as contas do Estado voltam ao vermelho e o déficit orçamentário superará 3% do PIB, porcentagem que a União Européia só permite que seja superada em situações de crise. Depois de 15 anos de crescimento contínuo, no terceiro trimestre a economia espanhola se contraiu 0,2%. Em meio à tormenta, a inflação é o único dado positivo: caiu até situar-se em 2,5% graças, entre outros fatores, à queda dos preços das matérias-primas. Mas a Espanha sofre mais


VISÕES MAIS UM POUCO PODE SER MUITO

Astrofísico mostra como os sistemas mais complexos, ecossistemas ou economias se auto-organizam e caem em crise pelos motivos mais simples

Soa

raro dizê-lo. Mas é verdadeiro. Se por um estranho consenso os governos do mundo tivessem decidido não socorrer seus bancos e instituições financeiras, hoje veríamos todos os bancos do planeta quebrar. Todos? Na verdade, não. Os de China, Taiwán, de alguns países do Golfo Pérsico, Myanmar (há bancos em Myanmar?), vários da Espanha, alguns da Suécia, teriam sobrevivido. Por quê? Em Así de simple (Deep Simplicity), John Gribbin responde a essa pergunta ao mostrar o que temos aprendido sobre o funcionamento da dinâmica dos sistemas complexos. “Os economistas modernos trabalham com sistemas dinâmicos mutantes, nos quais surgem retroalimentações positivas através das quais flui uma forma de energia (neste caso, o dinheiro)”, escreve. E acrescenta que “as economias são em realidade sistemas auto-organizados que se encontram à beira do caos, com tudo o que isso implica”. A expressão “à beira do caos” não tem, neste caso, nenhuma implicância moral ou de advertência normativa. E o que “implica” é que, quando os sistemas simples – um banco nacional, seus clientes e seus dois ou três concorrentes importantes – se conectam com seus equivalentes em todo o mundo, a partir de uma “conexão x” extra, todo o sistema dá um salto em complexidade. Uma “transição de fase”. Logo, o que eram sistemas isolados se transformam em um novo sistema. O modelo desenvolvido pelos pesquisadores Meter Bak e Kim Sneppen (descrito por Gribbin) revela

Presidente Zanella Argentina

Rodolfo Enriquez Diretor de Marketing Iguazú Argentina Argentina

Quando criança passava muito tempo jogando xadrez e sempre o encontrei parecido ao mundo dos negócios. Por isso, quando descobri o livro de Garry Kasparov (How life imitate chess), não pensei duas vezes para lê-lo. Mostra a forma de avançar a um objetivo final; também, como converter uma derrota em futura vitória, como dar volta a uma situação e como preparar-se para os grandes desafios.

Hugo Morote Núñez Sócio Roselló Abogados México

Interessei-me por O estranho caso do cachorro morto, de Mark Haddon. É uma história narrada por um adolescente autista que pode explicar a teoria da relatividade e identificar os números primos até o 7.507. Apesar de seus problemas para relacionar-se com outros seres humanos, vence seus medos para resolver a intriga que dá origem à obra.

o que lêem

Ing. Walter Steiner,

A estratégia do Oceano Azul, de W. Chan Kim e Renée Mauborgne, é um excelente livro que ajuda cada empresário a elaborar sua própria estratégia. Hoje resulta mais valioso do que nunca, dado que se trata de não fixar-se no comum: no oceano vermelho, onde todos concorrem por preços e formas de pagamento.

que, “com una gama de possibilidades extremamente ampla, quaisquer que sejam as condições das quais partamos e os impactos que apliquemos aos sistemas vivos, chegamos ao estado ASÍ crítico auto-organizado DE SIMPLE que se produaz à beira John Gribbin do caos, onde até o Barcelona mais simples detona2006 US$ 38 dor pode, em certas ocasiões, produzir uma mudança muito ampla dentro do sistema”. Um terremoto. Ou a extinção de centenas de espécies. Ou bancos. Voltando ao começo. O que há em comum entre os bancos não-golpeados é seu baixo nível de conexão com os ativos de risco da rede global: seja por regulações mais estritas (como na Espanha), disposições culturais (banca islâmica) ou conduta ultraprudente depois de suportar um choque quase mortal há pouco tempo (caso da Argentina). O livro de Griffin é uma mostra de como decisões aparentemente inócuas ou benéficas, em um contexto de interconexão mundial podem ter a potência de uma explosão. Um livro obrigatório para economistas e empresários modernos de verdade. Rodrigo Lara Serrano

30 DE NOVEMBRO, 2008 / AMÉRICAECONOMIA 73


LINHA DIRETA AS LIÇÕES DE MURAKAMI Um

homem me aborda na saída da estação do metrô em Tóquio. É sábado de manhã e tinha tomado um trem para o distrito de Akasuka, conhecido como um dos mais tradicionais de Tóquio, para conhecer um pouco a cidade antes que o avião me trouxesse de volta a Santiago do Chile. “Desculpe molestá-lo, mas gostaria de praticar meu inglês com o senhor, se não se incomoda”, diz o homem, cortês e com forte sotaque. Fui pego de surpresa e minha essência latino-americana me fez imediatamente suspeitar de um possível assalto ou seqüestro, e meu reflexo foi esconder rapidamente minha câmara fotográfica digital. Mas volto à razão: não sou turista em São Paulo, Santiago ou Cidade do México. Isto é Tóquio, a capital mais segura do mundo. E é pouco provável que um cidadão natural do Japão, berço da Sony, Canon, Nikon, queira roubar minha câmara comprada no duty free de não lembro onde. “Quero conversar em inglês com você”, repete, enquanto lhe calculo entre 50 e 60 anos. Respondo seco: “Tenho poucos minutos. Não tenho nenhum problema em falar inglês com você se me acompanhar, pois quero visitar alguns lugares e tirar algumas fotos”, respondo. O homem concorda e se põe a caminhar ao meu lado. Sem mais nem menos, tinha improvisado um guia turístico – e, o melhor de tudo, grátis – para conhecer a cidade mais cara do mundo. Por um momento me senti um personagem de Haruki Murakami, best seller japonês que escreve romances a partir de encontros impossíveis nas ruas de Tóquio, entre personagens de diferentes planetas. Pergunto-lhe duas vezes seu nome, e não consigo entender. Só sei que, como Murakami, seu sobrenome começa com M, e por isso o chamarei a partir de agora de Senhor M. Apesar de querer conversar, o Senhor M era um homem de poucas palavras. Nunca tomava a iniciativa na conversa. De fato, sou eu que tenho que pedir informação a meu guia turístico: que trabalha no metrô de Tóquio como engenheiro elétrico, vai à aula de inglês uma vez ao mês, tem dois filhos, que os pais levam seus filhos a serem abençoados no templo (budista ou shinto) aos 3, 5 e 7 anos, 74 AMÉRICAECONOMIA / 30 DE NOVEMBRO, 2008

e que no Japão o futebol agora é quase tão popular quanto o beisebol. Ele me leva a vários lugares do distrito, como o templo Sensoji (budista) e o santuário Akasuka (shinto e literalmente adjacente ao templo budista, exemplo nada usual de tolerância religiosa no país, segundo ele). Caminhamos pelo bulevar Nakamise-dori, apinhado de lojas com quimonos caros (de seda) e outros nem tanto (de poliéster). Os silêncios me incomodavam, e por isso puxo assunto com o tema do dia: a crise econômica no Japão. “Há alguns anos o país atravessou uma crise muito forte, assim aprendemos a lição e estamos preparados para situações como esta”, me responde. Por fim algo familiar nesta cena. Sua resposta, rápida e quase recitada de memória, é idêntica ao discurso que escutamos mais de uma vez no passado recente da boca de ministros, analistas e porta-vozes de empresas: a América Latina está muito melhor posicionada agora e aprendeu a lição do passado. Comento que, não obstante as lições, o Japão está a ponto de cair em recessão. “Isso dizem”, reage, mirando o horizonte de arranha-céus. “Isso dizem.” Prefiro não continuar falando de economia com meu guia turístico, apesar de continuar com essa idéia dando voltas, enquanto caminho na frente de uma loja de café importado. “Se realmente todos tivessem aprendido com o passado, não haveria crise nem mais bolhas além das de sabão”, penso comigo. Num ato cortês, o Senhor M me acompanha até a estação do metrô que necessitava tomar para visitar o “Tokyo Tower”, outra atração da cidade. Despede-se com uma singela reverência e agradece a gentileza de permitir que me acompanhasse. Também lhe agradeço e dou meia volta. E lá foi ele a buscar outra cara ocidental para treinar seu inglês. E eu, a aproveitar as poucas horas que restavam antes de ter que rumar ao aeroporto. Mas uma estranha sensação percorreu minha espinha enquanto caminhava pela plataforma: como nas histórias de Murakami, ninguém parece aprender suas lições.

Eduardo Thomson



Nº 369 Edição Brasil