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Uma vez no mar

Afonso debruçou-se e vomitou mais uma vez para o mar revolto. Estava no mar há uma semana e ainda não se habituara àquelas ondulações. Os companheiros marinheiros pareciam achar-lhe graça. Ou melhor, achavam graça à indisposição dele. Eram todos marinheiros experientes e ele estava na sua primeira viagem de barco. O único que volta e meia ainda parecia mostrar alguma preocupação era o irmão, Diogo. Aliás, fora ele quem lhe arranjara o trabalho naquela casca de noz a que chamavam nau. Sempre pensara que um barco que pudesse levar homens à Índia fosse uma coisa grande, enorme, gigantesca. Mas oh como estava enganado. Nem sabia como é que aquela cosa onde estava ainda flutuava. Os calafeteiros tinham que ser muito bons. Mas também, naquele país plantado à beira-mar, tinham tido toda uma existência abençoada por Deus para se dedicarem aos afazeres do mar. Aquele dia estava particularmente dificil de se aguentar. O céu ostentava um negrume que nada de bom agoirava. O mar picado e as ondas enormes faziam a nau de velas triangulares balançar agitada. Parecia que se ia virar a qualquer momento. Mas os homens eram experientes e enquanto uns se ocupavam das velas e outros do leme, havia sempre alguém armado com um balde para tirar a água que volta e meia se começava a acumular no convés. Era, aliàs, o que Afonso deveria estar a fazer naquele momento, mas o enjoo falara mais alto e fora obrigado a correr até à amurada do barco. Acabou por passar a noite toda ali fora, a vomitar as tripas. O cozinheiro agradecia, sempre se poupavam mantimentos, dizia. Só muito raramente é que insistia para que Afonso comesse um caldo ou uns gomos de laranja. Afonso perdeu a conta às vezes que amaldiçoou el-rei D. João e as suas manias de descobrir novas terras além-mar. Então agora que suspeitava da existência de uma nova terra promissora, não descansava enquanto não tivesse as suas suspeitas confirmadas ou desfeitas. Maldito o homem, que o Diabo o levasse! Afonso moderou a sua irritação. Afinal o rei não tinha culpa das suas pernas e estômago fracos. E, verdade seja dita, trabalho não faltava para quem estivesse disposto a arriscar-se no mar. E ele estava. Ou melhor, tinha estado. Agora que sabia que o mar era mais caprichoso do que o mafarrico, começava a arrepender-se da sua decisão. 1


De qualquer forma, a aurora estava a chegar, o sol começava a despontar por entre as núvens cinzentas e o mar estava mais bem disposto. Era bom que começasse a mostrar algum serviço antes que se lembrassem de o mandar borda fora. Suspirou e agarrou num esfregão que estava ali perto. Tentando não pensar nas suas entranhas às voltas, começou a esfregar o chão do convés. Sabia que manter a higiene do barco era fundamental para não começarem a surgir doenças. Um homem doente no mar era um homem morto. E havia sempre falta de mão-de-obra nos barcos. A nau começava a despertar. Já ouvia os resmungos do cozinheiro e o bater de tachos e panelas. O piloto, Henrique Mendes, saiu da sua minúscula cabine e abriu a porta que dava para o porão. Berrou autoritariamente para que os homens se levantassem e começassem a trabalhar. Depois virou-se para Afonso com um sorriso na cara. ─ Então marujo, já de pé? ─ Reparando no ar pálido do outro acrescentou ─ Ou será ainda a pé? Afonso corou e começou a balbuciar uma resposta. ─ Pois, sabe senhor Mendes, sou novo nestas andanças, ainda fico mal disposto de vez em quando... De vez em quando era um eufemismo, que mal acabara de falar e sentiu um vómito subir-lhe à garganta. Mas conseguiu controlar-se. O piloto deu uma gargalhada. ─ Sei bem como é, rapaz! Quando tinha a tua idade e era aprendiz sofria do mesmo mal! Não te preocupes, isso com o tempo vai lá. Henrique Mendes, o homem mais respeitado do navio, deu-lhe uma pancadinha nas costas e seguiu novamente para a sua cabine, de onde regressou com complicados instrumentos para se certificar que continuavam na rota certa. Os homens começaram a surgir do porão. Bocejando e esfregando os olhos começaram com os primeiros afazeres do dia, antes que o cozinheiro os chamasse para a primeira refeição do dia. Um deles, um homem já com alguma idade e a pele gasta pelo sol e pelo sal do mar, chamado Sancho, agarrou noutro esfregão e, pondo-se ao lado de Afonso, deu início ao trabalho ritmado e aborrecido de esfregar as tábuas do convés. Afonso olhou para ele de lado, tentando copiar os movimentos experientes do homem mais velho. 2


Sancho apercebeu-se e mudou ligeiramente de posição para o jovem poder ver melhor como se fazia. ─ Então, viste-as? Afonso olhou confuso para o velho. ─ Como? Vi quem? ─ As sereias rapaz! Não passaste aqui a noite a deitar as tripas fora? Consta que elas costumam aparecer durante a noite, principalmente aos marinheiros mais novos... ─ Sereias? ─ Afonso riu-se agora descrente, esquecendo-se um pouco da sua má disposição ─ Mas toda a gente sabe que as sereias são um mito! O olhar do velho espalhou-se pelo horizonte e a sua cara gasta assumiu uma expressão pensativa. ─ Mitos, hein? Também eram mitos os grandes monstros marinhos e as lulas gigantes... E agora sabemos que existem baleias, tubarões e... lulas gigantes. Porque não sereias? Mulheres meio humanas, meio peixe. Criações maléficas do demo... feitas para atrair os homens com a sua beleza e a sua voz e depois... zás! Morrem afogados a tentarem alcançar aquela beleza impossível! Afonso não tinha resposta para aquilo. Valeu-lhe o palerma do capitão que, como sempre, fora o último a levantar-se. ─ Ó Sancho deixa-te dessas conversas, que assustas o rapaz! Isso não passam de mentiras e contos de velhas amas delirantes! Deixa-o em paz. Sancho resmungou e disse que sim senhor, que ia deixar o rapaz em paz. Mas Afonso conseguiu perceber alguns dos resmungos. ─ Mentiras... o homem ainda cheira a leite e vem dizer que estou a mentir! Pfft... Afonso achou melhor não responder e continuou a esfregar assiduamente o chão até o cozinheiro os chamar para a refeição da manhã. Durante aquele dia não conseguiu pensar noutra coisa a não ser naquilo que o velho dissera. Sereias. Sempre achara que não passavam de velhas histórias que as velhas contavam às crianças. Mas até então não conhecia o mar. E agora que conhecia, que sabia o que era aquela imensidão que reflectia o céu, que descobrira o seu temperamento caprichoso e as surpresas que podia revelar... agora não lhe custava assim tanto acreditar que seres 3


demoníacos como sereias e olharapos pudessem existir. E porque não? Afinal o mar era tão vasto, havia tanto sobre ele por conhecer, tantos territórios por descobrir. Bem, pelo menos era o que dizia el-rei D. João II. A pesar das suas manias, Afonso gostava do rei. Era uma velha raposa, sabia muito. Estava convicto que havia terra para ocidente e conseguira dar a volta aos cães dos espanhóis naquele tal tratado que assinaram em Tordesilhas.

As semanas foram passando e os enjoos de Afonso foram melhorando de dia para dia. O piloto parecia ter tomado um interesse especial nele e, certa vez, perguntara-lhe se não queria tornar-se seu aprendiz. Afonso corara de felicidade. Começava a sua aprendizagem no dia seguinte. Tivera sorte, porque até se meter naquela casca de noz, os pais tinham-no impingido ao padre da aldeia, que o ensinara a ler, a escrever e a contar. Nessa noite resolvera prolongar a sua estadia no convés, oferecendo-se para ficar de vigia em primeiro lugar. Agarrou na caneca de barro com os dentes e trepou para o cesto da gávea. Pela primeira vez em semanas estava feliz. Olhou para a lua redonda e branca que brilhava baixa no céu negro. E suspirou, dando um gole na água doce. E foi então que ouviu. Uma música. Uma música suave e melancólica, uma música estranha que parecia vir de outro mundo. Nunca tinha ouvido nada tão maravilhoso. Percustou o horizonte em busca da origem daquele som algo fantasmagórico. A ocidente, o nevoeiro parecia começar a encher o mar. E foi então que viu... Numa rocha. Uma mulher-peixe de cabelos prateados que reflectiam a luz da lua. Na sua mão tinha um objecto estranho, do qual fazia brotar aquele som com os dedos. E mais além... mais além depois da criatura... seria?... Era, era! Tinha que ser! E debruçando-se no cesto do alto da gávea, Afonso, o aprendiz de piloto, berrou lá para baixo: ─ Terra à vista!!!!!!! Terra à vista!!!!!

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Uma vez no Mar