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O clube do tric么


O clube do tricô Kate Jacobs

Tradução de Carol Mesquita


Título original em inglês: The friday night knitting club Copyright © 2007 by Kathleen Jacobs. Todos os direitos reservados. Amarilys é um selo editorial Manole. Este livro contempla as regras do Acordo Ortográfico de 1990, que entrou em vigor no Brasil. Capa Departamento de arte da Editora Manole Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) (Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil) Jacobs, Kate O clube do tricô / Kate Jacobs; tradução Carol Mesquita. – Barueri, SP: Manole, 2010. Título original: The friday night knitting club ISBN 978-85-204-3003-3 1. Ficção norte-americana. I. Título. 10-00013

CDD-813 Índices para catálogo sistemático: 1. Ficção: literatura norte-americana 813

Todos os direitos reservados. Nenhuma parte deste livro poderá ser reproduzida, por qualquer processo, sem a permissão expressa dos editores. É proibida a reprodução por xerox. A Editora Manole é filiada à ABDR – Associação Brasileira de Direitos Reprográficos. 1a edição brasileira – 2010 Direitos em língua portuguesa adquiridos pela: Editora Manole Ltda. Av. Ceci, 672 – Tamboré 06460-120 – Barueri – SP – Brasil Tel. (11) 4196-6000 – Fax (11) 4196-6021 www.manole.com.br / www.amarilyseditora.com.br info@amarilyseditora.com.br Impresso no Brasil Printed in Brazil


a reunião

R

Escolher lã é algo que entontece pelas possibilidades: as ondas de cores e texturas nos tentam com visões de um suéter ou um gorro (e todos os elogios que esperamos ganhar com eles). O problema é que não revelam o trabalho duro que será necessário para chegar até lá. Paciência e atenção aos detalhes fazem toda a diferença — além de disposição. O desafio mantém o interesse vivo, mas não escolha um modelo que esteja muito além de suas habilidades. Sempre escolha a melhor lã que puder comprar. E use o tipo de agulha que melhor se adaptar à sua mão; eu sempre uso as de bambu. Até hoje me parece surpreendente que reunindo um conjunto heterogêneo — lã macia, agulhas afiadas, uma receita, uma agulha de crochê e qualidades intangíveis de criatividade, humanidade e imaginação — seja possível criar algo capaz de abrigar um pedaço da sua alma. Mas é.

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U um

Aberto de terça a sábado, das 10h–20h. Sem exceção!

O

horário de funcionamento da walker and daughter: tricô estava disposto claramente em letras multicoloridas em uma placa-sanduíche colocada sobre o apoio do patamar da escada. Porém Georgia Walker — em geral preocupada em fechar o caixa e apanhar do chão os fios de lã soltos — raramente fazia qualquer movimento para trancar a porta antes de no mínimo oito e quinze da noite… ou até mais. Em vez disso, ela ficava sentada no banquinho atrás do balcão, desligada do barulho do trânsito da avenida agitada que passava mais abaixo, a nova-iorquina Broadway. Ela refletia sobre as vendas do dia, ou preparava a aula de tricô para iniciantes que ministrava todas as tardes para donas de casa em busca de algum sinal aparente de autêntica maternidade. Mastigava os números com um lápis e papel e suspirava. Os negócios iam bem, mas sempre dava para melhorar. Ela puxava seus longos cachos castanho-claros, um hábito antigo de que nunca conseguira se livrar, e, por conta disso, no fim do dia, eles via de regra estavam lisos. 2


Depois de colocar o livro-caixa em ordem, ela ajeitava os cabelos e limpava qualquer resto de borracha que tivesse ficado no jeans e na blusa de malha macia, com o rosto um pouco pálido devido ao esforço de concentração e à falta de sol. Então se levantava no alto de seu um metro e oitenta e dois (graças aos saltos oito de suas surradas botas caubói de couro marrom). Devagar andava pela loja, correndo as mãos de leve pelas pilhas de novelos meticulosamente arrumados por cor — do verde-limão ao bandeira, do vermelho-queimado ao rosado, do azulcobalto ao azul-claro cinzento, do laranja ao âmbar, além de filas e mais filas de tons de cinza, creme, preto e branco. Toda aquela lã, que ia do deliciosamente macio e felpudo ao áspero e rugoso, era dela. E de Dakota também, claro. Dakota, que aos doze anos de idade costumava ignorar as orientações da mãe e adorava cruzar seus olhos escuros e saborear a aparência bagunçada das cores se misturando, como um arco-íris mesclado. Dakota era a mascote da loja, uma de suas principais consultoras de cor e, sinceramente, já uma ótima tricoteira. Georgia percebia a rapidez com que a filha terminava seus projetos e como ela ia adquirindo um toque pessoal na firmeza dos pontos. Mais de uma vez ela se surpreendera ao ver sua menininha (que já não era mais tão pequena assim) abordar uma cliente que aguardava e dizer com confiança: “Ah, se quiser posso ajudar. Aqui, vamos pegar essa agulha de crochê e consertar esse erro...” A loja era um projeto em andamento; Dakota era a única coisa que ela tinha certeza de ter acertado em cheio. E, no entanto, quando Georgia finalmente ia apagar as luzes da loja, era muitas vezes abordada por alguma cliente em potencial, de testa franzida e sem fôlego por ter subido correndo a escadaria íngreme até a loja situada no segundo andar, e por seu pedido aparentemente inofensivo de “posso dar só uma olhadinha rápida, um minuto?”, disparado antes mesmo que Georgia pudesse sequer insistir que, por hoje, o expediente estava encerrado. Ela então entreabria um pouco mais a porta, sabendo muito bem 3


o que era conciliar trabalho e filhos e um pouco de tempo para si mesma — para ler um livro, pintar o cabelo na pia do banheiro ou tirar um cochilo. Entre, pegue o que precisa, dizia ela, adiando mais um pouco a ida para seu apartamento parcamente decorado situado no andar de cima. Ela nunca deixava, porém, que uma dessas clientes de última hora se demorasse até depois das nove da noite nos dias de semana, porque precisava enxotar Dakota da mesa de canto onde a menina fazia o dever de casa. Entretanto, Georgia jamais dispensava uma venda em potencial. Ela nunca dispensaria alguém, absolutamente.

T — Pode ir, Anita — dizia Georgia por cima do ombro para a amiga de confiança que trabalhava ao seu lado na loja. Anita sempre ficava até a hora de fechar e dava uma espiada nos estudos de Dakota enquanto Georgia ficava na dúvida se mantinha ou não a mulher ali até tão tarde. Mas, embora tivesse a oportunidade de ir embora, Anita (que ainda parecia tão fresca em seu terninho Chanel quanto no início de seu turno, às três da tarde) simplesmente sorria e balançava a cabeça, fazendo o cabelo chanel grisalho cair de volta no lugar de forma impecável. Então Georgia dava um passo para fora, abrindo espaço para a cliente entrar, e um sorriso resignado, revelando o início de umas ruguinhas finas ao redor dos olhos verdes tranquilos: lá vamos nós de novo, parecia dizer seu rosto. Entretanto, ela era grata por cada pessoa que entrava por aquela porta e se dedicava a atender suas necessidades da melhor forma possível. — Toda venda é também uma futura venda, se você agradar o cliente — Georgia chateava Dakota com suas muitas teorias sobre negócios. — O boca-a-boca é a melhor propaganda. Sua maior incentivadora, porém, era Anita, que percebia quando o dia fora comprido demais para Georgia e se adiantava para ajudar. 4


— Pois não, será um prazer ajudá-la — costumava dizer Anita, apressando-se a tomar a dianteira para atender a cliente de última hora e convidá-la a entrar. Anita conhecia as texturas e padronagens da lã tão bem quanto Georgia; as duas haviam aprendido as técnicas com avós ansiosas por compartilhar seus segredos. Uma das maiores paixões de Anita era conversar sobre tricô com as clientes na Walker and Daughter — paixão que só era superada pela de se lançar ela mesma às agulhas. Anita se sentiu atraída pelo tricô desde o momento em que, quando ainda era uma menina bochechuda, sua avó lhe pediu para segurar uma meada de lã grossa e cálida. Ela observava a avó manusear as agulhas com rapidez, transformando o fio verde-militar em um cardigã pequeno e macio. Com botões grossos, para que os dedinhos pudessem pegá-los. E, quando aquela mesma avó presenteou Anita com o suéter finalizado... bem, nasceu uma tricoteira. Logo ela estava colocando as mãos sobre as da avó para aprender como era trabalhar a lã; em seguida já dava seu primeiro nó corrediço e saboreava a empolgação de colocar o fio na agulha pela primeira vez. Quando jovem, Anita tricotava os twinsets angorá que desejava vestir e seus pais não tinham dinheiro para lhe comprar e, mais tarde, tricotava para envolver seus bebês com cobertores espessos e sapatinhos, enquanto o marido se dedicava a construir seu negócio. Ela simplesmente continuou tricotando — até mesmo bem depois de não mais precisar fazer roupas para a família, depois que seu marido dera duro para construir uma vida mais do que confortável. Então, quando já estava bem adiantada na meia-idade, jogou fora os livros de receitas de tricô e começou a experimentar suas próprias receitas e cores, a fim de criar modelos exclusivos. Mãe de três filhos crescidos e avó de sete netos lindos e inteligentes, Anita se surpreendeu ao somar os anos e perceber que trabalhara com lã durante a maior parte de seus setenta e dois anos de vida. “Anita é uma artista e o tricô é seu meio”, seu marido, Stan, costumava dizer às pes­soas que admiravam os coletes coloridos que ele insistia em usar no 5


trabalho. Stan. Ele tinha muito orgulho dela; foi quem a encorajou a trabalhar com Georgia anos e anos atrás. Ela começou indo à loja um dia por semana, como experiência. Anita não precisava do dinheiro e temia parecer tola, trabalhando naquela idade. — Isso faz você feliz? — Stan havia lhe perguntado depois do primeiro dia, e ela admitira que sim, fazia sim, enquanto se aninhava nos braços dele. — Então vá em frente — murmurou ele, — vá em frente. Com o tempo, a jovem Dakota começou a se tornar mais uma neta (especialmente querida, porque Anita podia vê-la sempre que quisesse, ao contrário de seus netos de verdade, que moravam longe, em lugares como Israel, Zurique e Atlanta). Havia os cartões e os telefonemas, claro, mas não era a mesma coisa; há tempos Anita tinha medo de avião, um medo que nem todos os psicólogos e todos os calmantes do mundo conseguiram resolver. Seus netos cresciam tanto de uma visita para a outra que era como se ela conhecesse pessoas novas a cada vez que os via.

T Então um dia Stan também se foi. Um beijo rápido enquanto ela estava à mesa do café da manhã, com migalhas de torrada ainda nos lábios, um súbito ataque do coração no elevador a caminho do escritório na cobertura, um telefonema pedindo que ela pegasse um táxi até Beth Israel naquele instante e depois o aviso de que não havia mais nada que pudesse ser feito: assim foi. Stan havia cuidado de todos os detalhes, como sempre, por isso ela não tinha motivos para se preocupar com as contas. Mas a segurança financeira não era tudo. Anita estava só. Verdadeiramente só. Ela chorava deitada na cama, dormindo ou rodeada por pilhas de revistas. E então, um mês após o funeral, ela se levantou, passou batom, colocou suas pérolas e se pôs a caminho da loja de Georgia.

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— Cada dia tem mais clientes por aqui e você vai atrasar as encomendas, Georgia — dissera ela. — Você precisa de alguém o dia inteiro e eu preciso me ocupar mais, em vez de vir só um dia por semana. Era verdade. Dakota tinha dois anos na época, e Georgia havia acabado de expandir os negócios, deixando de fazer apenas trabalhos sob encomenda para passar também a vender lãs e outros itens relacionados ao tricô. Ela tinha dado duro para fazer o negócio engrenar, chegando até a trabalhar das seis às doze para Marty, na delicatéssen que ficava no térreo do edifício, tostando bagels e servindo café para viagem. Começar a vender significava que ela talvez pudesse logo largar o segundo emprego e passar mais tempo com Dakota. Elas acertaram que Anita viria no turno da tarde durante a semana. E, quando Georgia insistiu em combinarem o salário, Anita foi inflexível e disse que só trabalharia em troca de lã. — Quando a loja for um sucesso estrondoso, aí você pode me pagar — sugerira ela então, dez anos atrás. A loja, claro — com planejamento cuidadoso, crescimento controlado e muita esperança —, se tornara praticamente um sucesso. Ao longo dos anos, chegou a ser mencionada até em jornais e coisas assim; recentemente um artigo na New York sobre empreendimentos comandados por mães citara a Walker and Daughter. — Claro, isso pode atrair suas colegas e as mães delas para a loja — dissera Georgia a Dakota quando a filha quis mostrar a matéria na escola. Ela havia planejado deixar a filhinha na porta da escola como fazia todas as manhãs (um abraço rápido e um até mais, como de costume) e depois voltar para casa para abrir a loja. Em vez disso, Dakota surpreendeu a mãe girando, com o casaco de inverno já aberto, para revelar o suéter azul-turquesa que ressaltava sua pele cor de café-com-leite. Era uma das criações de Georgia. Dakota falou alguma coisa apontando para a matéria com orgulho e depois disparou porta adentro antes que o sinal tocasse. Georgia mal conseguia se lembrar como foi o caminho de vol7


ta para casa e como remexeu a bolsa atrás das chaves da loja antes de seu rosto se encher de lágrimas lavando os anos de medo e trabalho duro, as palavras “tenho orgulho de nós, mãe” que Dakota dissera de forma tão casual ainda ecoando em seus ouvidos. Anita continuou trabalhando apenas por lã e, quando queria começar um projeto pessoal de tricô — ela ainda tricotava coletes e mais coletes, embora Stan já tivesse morrido há uma década —, ela simplesmente ia até a prateleira e escolhia algo maravilhoso. Quando queria um abraço, envolvia Dakota com os braços. E isso era tudo. Era o bastante. Assim, Anita sempre respirava fundo ao ver uma cliente de última hora deslizar para dentro da loja e sentia o bolo no estômago começar a se desfazer. Alguns minutos mais, um pequeno adiamento para sua volta ao apartamento em San Remo, que continuava grande e vazio demais. — Oh, entre — dizia ela ante os protestos suaves de Georgia, andando até a cliente para atendê-la. — Como posso ajudá-la? E assim, a porta na Walker and Daughter sempre ficava aberta até um pouquinho mais tarde, e às vezes até bem mais que um pouquinho. Não demorou para que, no final de uma longa semana de trabalho, algumas clientes regulares começassem a aparecer com seus trabalhos de tricô — suéteres, cachecóis, meias de celulares — fazendo perguntas sobre os erros que haviam cometido enquanto tricotavam no metrô. — Não consigo acertar a casa do botão. — Por que eu sempre deixo cair os pontos? — Você acha que eu consigo terminar até o Natal? Sem uma placa que anunciasse a criação de um clube de tricô, essas mulheres começaram a aparecer com frequência à noitinha e a perambular por ali. Conversavam umas com as outras, falavam com Anita, reuniam-se à grande mesa redonda no meio da loja, retomavam seus trabalhos do ponto em que os haviam deixado na semana anterior. E então, numa sexta-feira à noite, a coisa se tornou oficial. Quer dizer, mais ou menos. 8


Lucie, uma mulher marcante de cabelos loiro-escuros curtos, óculos com armação de tartaruga, grandes olhos azuis e roupas coloridas e estilosas, era uma cliente ocasional da Walker and Daughter. Ela vinha a cada alguns meses e estava sempre trabalhando na mesma peça, um suéter grosso de ponto trançado — uma peça masculina. Havia muitas mulheres daquele tipo, pessoas cujas ambições no tricô estavam muito descompassadas com suas habilidades ou com sabe-se lá quais razões misteriosas que as impediam de sentar-se para acabar suas peças. Mas Lucie começou a aparecer cada vez com mais frequência, sempre no início da noite, e olhava desejosa as melhores lãs, acabando por escolher quase sempre alguma lã de boa qualidade que estivesse mais barata. Algumas vezes, ela entrava devagar, com uma pasta de couro e um paletó pendurados no braço, como se houvesse acabado de sair de uma reunião importante. Outras, ela parecia à vontade em calças cigarrete justas e bolsa tiracolo. Mas sempre trazia uma sacola de compras (com ingredientes para um jantar simples), a qual ela colocava com todo o cuidado sobre o balcão enquanto pagava pela lã. Depois de conversar com Lucie em várias de suas visitas, Anita se deu conta de que a mulher era bastante boa com as agulhas, apenas não conseguia encontrar tempo para tricotar. — Você poderia vir tricotar aqui — sugeriu Anita sem pensar, falando só por falar. E então numa sexta-feira Lucie simplesmente puxou uma cadeira, sentou-se à mesa e começou a tricotar ali mesmo. Dakota, que estivera às voltas por ali ociosa, revirando os olhos impaciente, reclamando que estava entediada e queria ir ao cinema, sentou-se ao lado dela. — Que bonito — disse Dakota, estendendo a mão num impulso para tocar a gema brilhante do anel que Lucie usava na mão direita. — É, eu mesma comprei para mim — respondeu Lucie, com um sorriso que lembrava tempos felizes, mas não dava maiores ex-

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plicações. Dakota deu de ombros e depois se inclinou para olhar o suéter grande e grosso que Lucie tricotava com agulhas circulares. — Sou bastante boa nisso, sabe — disse Dakota, fazendo um sinal afirmativo com a cabeça e estendendo a mão para olhar melhor os pontos de Lucie. A outra riu e seguiu tricotando. — Aposto que é mesmo — respondeu Lucie, sem sequer levantar os olhos do que fazia. Então Anita se sentou ostensivamente para manter Dakota na linha, e outras clientes se juntaram a elas à mesa, e de repente um grupo estava formado. Do nada, Lucie sacou uma caixa de biscoitos caseiros que ela havia acabado de comprar na Fairway e que planejava saborear no fim de semana, mas em vez disso os ofereceu a todas. Os educados “não-obrigada” ecoaram por toda a parte, até Dakota dizer que ela com certeza aceitaria um biscoitinho. Aí a risada geral acabou com o estranhamento e todas aceitaram um biscoito, depois mais um e mais um. E, de alguma forma, entre uma mordida e outra, elas começaram a mostrar umas às outras os projetos nos quais estavam trabalhando. Anita falou sobre casas de botão e pontos perdidos, depois se ofereceu para preparar um bule de café nos fundos. Vários biscoitos e muita conversa depois, e já era tarde, muito tarde na verdade, para ainda estarem ali, e as mulheres começaram a reunir suas bolsas e fazer menção de ir embora, mas continuaram ali, relutando em partir. Foi Dakota quem declarou que traria muffins no próximo encontro. Próximo encontro? Todas se disseram possivelmente ocupadas. Outras não queriam se comprometer. Uma foi consultar a agenda. Porém, na semana seguinte, Lucie apareceu. Dakota trouxe os muffins que prometera. Até Georgia se sentou com elas. E assim surgiu o clube do tricô. Seis meses depois, o clube continuava mais forte do que nunca, mesmo com o inverno chegando ao fim. Lucie terminara seu suéter e começara outro; Dakota fazia uma bagunça constante na cozinha do apartamento na sobreloja, experimentando tudo, de bolachinhas em espiral a blondies e bolinhos decorados. 10


— Já ouviu falar de June Cleaver? — provocava Georgia. Sua filhinha de doces olhos castanhos que não parava de crescer só suspirava. — Já, mãe; já assisti a TV Land. E então: — É para o clube, mãe, as moças chegam com fome! O que você acha de vender minhas invenções culinárias? Ah, ela havia conseguido criar outra mulher de negócios independente e com visão. Como aquela sensação era boa.

T Os planos de vender os biscoitos e bolos de Dakota nunca se concretizaram — Não, Dakota, esta Walker aqui ainda manda na filha! — mas o grupo continuava a crescer mesmo assim. O boca-a-boca se espalhou entre as amigas, e as mulheres davam uma passada por ali depois de se encontrarem para um drinque ou um lanche. Ir ao clube do tricô virou um programa: diferente o bastante para ser divertido e renovador porque não era mais um lugar para caçar homens. Uma dessas paraquedistas — uma mulher que viera uma vez e nunca mais voltou — mencionou a loja casualmente à prima, Darwin Chiu, que chegou certa noite, conversou em voz baixa com Georgia, depois se sentou à mesa com uma expressão séria e um bloco de notas. Ela não era uma cliente comum; na verdade, Dar­ win nem sequer tricotava. Ela fazia pós-graduação e estava em busca de um tema para sua tese de doutorado em estudos femininos. O clube do tricô tornou-se sua fonte primária de pesquisas para a tese. A americana de ascendência oriental já próxima dos trinta era puro profissionalismo. No começo, ela mal sorria; só ficava escrevendo enlouquecida; mais tarde, passou a entrevistar os membros do clube sobre sua “obsessão em tricotar”.

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— De que maneira você acha que o tricô a conecta com seus conceitos de feminilidade? — perguntou Darwin a uma médica que passara por ali depois de um plantão. A médica nunca mais voltou. — Ser uma tricoteira mais velha faz você se sentir distante das tricoteiras mais jovens? — perguntou ela a Anita. — Não, meu amor, me faz sentir jovem — respondeu a senhora. — Quando vou começar um novo projeto, sinto o potencial de fazer algo de belo. De início, Georgia tolerava Darwin porque se divertia com a dedicação da moça e admirava a seriedade com que ela tratava seus estudos. Sem falar que sentia certo orgulho no fato de alguém ter escolhido a Walker and Daughter como lugar para fazer sua pesquisa. Não demorou muito, porém, para que ela tivesse de intervir e mostrar sua autoridade. — Você não pode importunar todo mundo que entra aqui, Darwin — explicou Georgia. — Você terá de ir embora se não parar de interrogar todo mundo. — Você não se sente abalada com o fato de essa popularidade renovada do tricô ser um atavismo alarmante? Será que as mulheres que gastam seu tempo em atividades antiquadas, como tricotar, conseguem perceber seu verdadeiro potencial profissional? — respondeu Darwin, que claramente não havia entendido nada. — Abalada? Não, acho que o termo mais correto seria estimulada. Me sinto estimulada por poder mandar Dakota para Harvard — Georgia tinha a boca crispada. O tricô fizera mais do que apenas lhe fornecer um sustento; ele consolara sua alma em mais conflitos do que ela seria capaz de contar. — Minha querida, eu me preocupo com o fato de você impedir que a minha loja desenvolva plenamente seu potencial! As duas mulheres se encararam por um bom tempo. Por fim, Darwin acabou se virando e indo embora. Duas semanas mais tarde ela voltou e ficou observando Georgia com precaução. Os seus olhos se encontraram num acor12


do não dito: ela podia ficar, desde que não perturbasse as clientes. Darwin fez um sinal afirmativo imperceptível. Escolheu um dos muffins de Dakota — de cenoura com especiarias — e o experimentou. Foi só o primeiro. — Nossa, isso está uma maravilha! Sua surpresa era genuína. Dakota foi às nuvens e lhe disse que ela poderia escolher o sabor dos muffins da semana seguinte.

T — Que bom que você voltou — disse Anita. Darwin ergueu o olhar esperando ver sarcasmo, mas só encontrou simpatia e acolhimento nos olhos de Anita. Um grande sorriso espalhou-se em seu rosto. Tinha constrangimento em admitir, mesmo que apenas para si mesma, mas sentia-se feliz por ter voltado. Sentira falta de todas. Oficialmente, Georgia estava confusa com aquela história de clube do tricô. — Vocês só ficam aí sentadas e ninguém compra nada! — dizia ela para Anita durante o dia. Às vezes, quando apareciam muitas mulheres, ela hesitava atrás do balcão. Era de enlouquecer ter aquele grupo por ali, rindo e batendo papo. Ela dedicara tanto tempo de sua vida adulta ao trabalho e à filha, que agora se sentia deslocada em ter um simples relacionamento com pes­soas de sua própria idade. Sentia-se esquisita, a menos que as ajudasse a calcular quantos novelos precisariam para este ou aquele projeto. Mas adorava saber que Anita tinha uma atividade para suas manhãs, entusiasmada que ficava com o tópico de tricô que discutiria aquela semana, e que Dakota gostava de ficar na loja na sexta à noite em vez de ir assistir TV lá em cima. O que mais importava para Georgia era manter Dakota em segurança e feliz. Na verdade, a loja era das duas, porque Dakota é quem havia começado tudo. E saborear ao fim de cada dia o fato de que elas ainda estavam no mercado (e indo muito bem, 13


obrigada!) era um triunfo para Georgia. Ela entrara em pânico ao descobrir que estava grávida, pois mal tinha acabado de se formar e recebia um salário miserável como assistente de um amorfo conglomerado editorial. Seu namorado, James, a deixara um mês antes, dizendo que “simplesmente não estava a fim de exclusividade”. A verdade é que ele já estava saindo com uma mulher do seu trabalho. E não era uma mulher qualquer: ele estava transando com a chefe, a arquiteta número um de um dos maiores escritórios de arquitetura de Manhattan. Georgia tinha desejado James desde a primeira vez em que o viu no Le Bar Bat, quando se sentiu atraída por aquele negro alto e bonitão. Ela ajeitou os cachos, se aproximou dele e disparou a pergunta: — Gosto de comer ovos mexidos no café da manhã. E você? Era uma deixa. James a olhou com um ar gelado de superioridade; mas gostou do que viu e a seduziu com seu sorriso maroto. Primeiro no balcão, esperando para apanhar bebidas, depois afastado num canto conversando com ela aos gritos até de madrugada. Foram embora juntos naquela noite, algo que ela sempre fora cautelosa em fazer, e Georgia sentia-se como se tivesse sido a escolhida, acreditando que todos a olhavam com inveja. Sem discutir muito o assunto, tornaram-se um casal. Iam a festas, ao cinema e encontravam-se para comer rolinho primavera depois do trabalho. James era dinâmico e cheio de grandes ideias; adorava economizar durante mais de um mês para irem depois a restaurantes chiques como o Le Cirque ou ficar na fila para comprar ingressos da Broadway pela metade do preço. Outras noites, ficavam em casa: Georgia lia originais na cama enquanto James trabalhava na velha prancheta surrada que ocupava a maior parte da sala de sua casa. Eram jovens, estavam quase sempre sem grana e possuíam toda a energia e paixão que pairam no ar de Nova York. O relacionamento dos dois era fácil, tranquilo, empolgante, como era esperado que fosse. Durante oito meses se revezaram no apartamento um do outro, discutiram noites aden14


tro sobre quais móveis conservariam quando fossem morar juntos, andaram de mãos dadas pelas ruas da cidade imaginando onde iriam morar. Decidiram que seria no Upper West Side. Geor­ gia se recordava de algumas noites na cama com James nas quais traçava linhas com sua mão branca sobre o peito escuro dele e perguntava cantarolante: — Será que a sua família vai se chatear muuuuito com o fato de eu ser branca? Ao que ele ria e respondia: — Nossa, claro! Os dois caíam na risada em meio a cócegas, fortalecidos pela intensidade do amor que haviam acabado de fazer e sem acreditar que um dia seu relacionamento enfrentaria algum desafio.

T Ela nunca chegou a conhecer os pais dele. Só se deu conta disso depois que ele a deixou.

T E então James se foi, depois de passar no apartamento dela durante o dia para apanhar suas roupas e devolver as coisas de Georgia que estavam na casa dele, deixando-as empilhadas no sofá. A cabeça de Georgia não parava de rodar. Ela telefonou para ele, gritou, implorou que voltasse. Parou de comer, parou de dormir, depois começou a comer demais. Chocolates Snickers, batatas Pringles, bagels gigantescos com cream cheese, refrigerante, sorvete, pizza, biscoitos. Comia qualquer coisa que lhe caísse nas mãos. Qualquer coisa barata e que saciasse sua fome. — Se continuar comendo assim, todo mundo vai achar que você está grávida — observou a colega magrela e pé no saco com quem compartilhava um cubículo.

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Só então Georgia parou para pensar e fez as contas: sua menstruação estava atrasada. Bem atrasada. Foi então que ela soube. E agora teria de engolir o orgulho e voltar para sua cidadezinha na Pensilvânia? Seria capaz de suportar a humilhação de voltar para a casa dos pais ou de ser mãe solteira com uma carreira fracassada na cidade grande aos vinte e quatro anos de idade? Ou deveria ligar para seu médico e simplesmente fingir que aquela gravidez nunca havia acontecido? Georgia se corroía ante a falta de opções interessantes enquanto xerocava originais intermináveis, abria pilhas gigantescas de correspondências de outras pessoas ou corria para comprar os muffins light enormes que sua chefe nunca chegava a comer. Aquela indecisão toda acabou se transformando em decisão: ficou claro que ela e o bebê teriam de ficar juntos. Chegou o dia, então, em que Georgia, visivelmente grávida, fez sua derradeira peregrinação ao Central Park. Aquele seria seu último fim de semana na cidade antes de voltar para a casa dos pais. Ela havia telefonado para eles, quando já não tinha como voltar atrás, e vomitara a novidade, sentindo-se, ao mesmo tempo, corajosa e com pena de si mesma. — Vamos ficar felizes de ter você aqui em casa conosco — disse o pai, com gosto, antes de ser abafado pelos suspiros da mãe. — Você cometeu um erro idiota ao confiar nesse homem, Georgia — disse-lhe a mãe. — Está na cara que ele só queria uma coisa. E você se meteu numa estrada difícil: nem todo mundo será tão receptivo com essa criança quanto nós. Na sua mente, Georgia podia ver a expressão contrariada da mãe; aquela que já tinha visto diversas vezes na infância e na adolescência. Mal conseguiu ouvir os pais discutindo os detalhes sobre qual trem ela deveria tomar; sentia-se muito abalada tanto pela culpa como pelo enjoo. O dia estava absurdamente quente, e o ar-condicionado de seu apartamento, sem elevador, no Upper West Side havia ido

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para o beleléu, deixando-a ensopada e desconfortável. Seu cabelo escuro e ondulado estava todo rebelde e grudando na nuca; a barriga se pronunciava em seu físico magro, e seus dedos, sempre tão esguios e ágeis, estavam inchados. Seus olhos também estavam inchados e vermelhos. Georgia por fim conseguiu reunir coragem para ligar para James tarde da noite de um certo dia e revelar a gravidez. Ele ficou chocado, irritado, cheio de desculpas… Estava na cama com a nova namorada, que não, não era a sua chefe. Ele já havia encontrado outra pessoa. — Essa não é a melhor hora para você me ligar… Que tal se nos encontrássemos amanhã? No parque? E então naquela manhã ela se sentou em um banco vazio à sombra das árvores, com o cobertor semiterminado que estava tricotando para o bebê, e esperou. Mas James nunca deu as caras. — Essa padronagem que você está fazendo é magnífica — Georgia foi surpreendida por uma mulher mais velha, elegante, em pé à sua frente. Ela trajava um terno de linho novo em folha e um chapéu de verão de abas largas que lhe emoldurava o rosto. Georgia dirigiu-se a ela com um sorriso débil, constrangida por suas roupas baratas, sua barriga grande e sua juventude. Mesmo assim, a senhora se sentou e começou a falar sobre os cobertores que havia tricotado para os filhos e sobre como o trabalho com as agulhas sempre a ajudara a lidar com as emoções. Georgia só queria que ela fosse embora, mas tinha sido educada para ser uma boa menina, por isso fingiu escutar com toda atenção. Lágrimas de raiva e frustração ardiam em seus olhos. — É difícil encontrar alguém capaz de tricotar com essa precisão — Georgia ouviu a mulher dizer enquanto manuseava o trabalho. — É uma arte em extinção; e uma arte pela qual, creio eu, as pessoas pagariam — ela se inclinou e deu uma palmadinha na mão esquerda de Georgia, na qual, como a mulher já sabia, não havia nenhuma aliança. — Se eu fosse você, perguntaria por aí se alguém teria interesse em comprar suéteres ou cachecóis para dar de presente. 17


Quem sabe colocar um anúncio na loja de bebê que fica na esquina da Broadway com a Setenta e seis? Espalhe a notícia. Você também poderia anunciar nos classificados da New Yorker. Deu certo para Lillian Vernon. Georgia continuou ali sentada, muda. Seus poros destilavam dúvida e confusão. A mulher se levantou para ir embora e fez sinal para um homem à distância. — Você tem um dom, minha querida, e eu tenho olho para o talento — então estendeu um cartão de visitas de cor creme. — Só para provar o que digo, comprarei o primeiro suéter que você fizer. Faça-o de cashmere, e rápido. Espero seu telefonema quando ele estiver pronto — os saltos da senhora faziam um ruí­ do suave na calçada enquanto ela se afastava. Georgia virou o cartão. Anita Lowenstein. San Remo. 212-555-9580.

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