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arte + cultura SebastiĂŁo Salgado novembro 2017

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Universo Particular R$ 35,00


carta da editora A Matiz está e movimento constante. Em nossas últimas edições ampliamos nossas editorias, remodelamos nosso projeto gráfico e experimentamos diferentes gramaturas, formatos e tipos de papel. Tudo isso sem perder nossa essência: continuar sendo uma revista visual e levar informação para abastecer você com ideias. Desta vez o desafio foi partir para caminhos pouco explorados. A capa traz o trabalho do fotógrafo Sebastião Salgado, que encontrou na fotografia uma maneira de retratar a realidade de forma poética e sensível. O artigo Universo Paralelo retrata por meio de uma entrevista inspiradora o trabalho de duas artistas plásticas e designer gráficas que fazem trabalhos incríveis com cerâmica e ilustração. Na seção arquitetura mostramos o trabalho de Guto Requena e toda tecnologia envolvida em seu processo criativo. Temos também entrevista com a maravilhosa Bruna Linzmeyer e uma matéria incrível sobra artistas ativistas! Não esqueçam de conferir as dicas na seção portfólio e música, que traz a banda Tramundo em destaque. Aproveite todas as novidades da Matiz! Texto Virgínia Woolf Editora Chefe

Ilustração Sara Herranz


Designer gráfico.

Lucas Di Salvo

EDITORA CHEFE Virgínia Woolf REDAÇÃO GRÁFICA, EDIÇÃO, PREPARAÇÃO E REVISÃO DE TEXTOS Amanda Paluzzi, Bárbara F. Nudelmann, Letícia Faria, Lucas di

Marcela Goraieb

Salvo e Marcela Goraieb. Arquiteta e designer gráfico.

Bárbara Nudelman

Designer gráfico.

Designer gráfico e fotógrafa.

Amanda Paluzzi

colaboradores

expediente

AGRADECIMENTOS ESPECIAIS Fabiana Grassano Tereza Bettinardi PARA ANUNCIAR marketing@revistamatiz.com.br IMPRESSÃO Gráfica Duo Paper

ASSINE JÁ 1 ano (4 edições) R$160,00 2 anos (8 edições) R$300,00 3 anos (12 edições) R$420,00 19 9 9875 1234 | 19 3214 5698 contato@revistamatiz.com.br

.com.br 4

Escritora.

Virgínia Woolf

Letícia Faria

Arquiteta e designer gráfico.

Campinas-SP FONTES Tungsten, Chronicle, Whitney, Bree Serif ESPECIALIZAÇÃO EM DESIGN GRÁFICO - UNICAMP novembro de 2017


sumário 20

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38

12

24 34

08 _

portfólio

10 _

tramundo

12 _

sebastião salgado

20 _

universo paralelo

24 _

fotolivro

30 _

guto requena

34 _

a arte da guerrilha

38 _

torna-te quem tu és

42 _ a mulher e a patroa 5


Agenda

4.

11. VERMELHO

BIENAL DE SP

MATILHA

Na história criada pelo autor, Mark Rothko (Antônio Fagundes), recebe em seu ateliê, um jovem assistente, Ken (Bruno Fagundes), também pintor, mas ainda inexperiente no mundo das artes. A partir da pergunta “O que você vê?”, inicia-se um eletrizante embate entre os dois, que de maneira surpreendente, afeta cada um de nós.

A 32a Bienal de SP. Com 330 obras e 81 artistas - mais da metade mulheres!, voilátem como tema da edição este ano “Incerteza Viva”: instabilidade política e econômica, o futuro da natureza, as migrações atuais, questões indígenas, e outras incertezas da vida contemporânea, para onde estamos indo, onde vamos parar?

O Estúdio Bijari, de criação em artes visuais e multimídia, em parceria com o coreógrafo Diogo Granato, apresenta a instalação “Matilha”, o primeiro projeto de vídeo-dança em 360º produzido no Brasil. O público poderá interagir com a instalação por meio de óculos de realidade virtual, assistindo 70 bailarinos, acrobatas e parkours.

ONDE Teatro Tuca QUANDO até 04/12

ONDE Pavilhão da Bienal QUANDO até 11/12

ONDE Praça das artes QUANDO até 15/12

23. CALDER Você certamente conhece os móbiles de Alexander Calder. Lúdicos, quase como brinquedos, as esculturas de Calder quebraram a relação de hierarquia entre a obra e o público. Calder convida o publico a brincar com suas esculturas metálicas. ONDE Itau Cultural QUANDO até 23/12

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15.


Portfรณlio

Leandro Lassmar

behance.net/lassmar

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Havi Cruz behance.net/havicruz

T Wei behance.net/t-wei

Barbara LĂźdde behance.net/gwaendo

Edgar Rozo behance.net/melgarozo

Claudia Souza behance.net/claudiasouza

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Nota visual

Colagens feitas para encarte de disco Tramundo

TRAMUNDO Colagens Márcio Bulk Texto Yan Porcé

ramundo teve início no Natal de 2014. Era para ser apenas uma canção. Meu presente para Jorge. Naquele ano, nós decidimos criar presentes imateriais, guardados apenas pela memória, pelo afeto. A canção, que mais tarde viria a se chamar “Desterro”, falava sobre a incapacidade de lidar com a saudade da terra natal — a querência — e sobre Nanã, a orixá da lama, da vida e da morte. A música acabou não ficando pronta a tempo. Entretanto, trabalhar com esses temas despertou em mim um desejo imenso de pesquisa e aprofundamento.

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Márcio Bulk é artista visual e músico. Seu trabalho transita entre diversas áreas criativas


No começo, pensei em criar uma cidade fictícia do interior, localizada no Sul do Brasil e povoada, em sua maioria, por negros de descendência iorubá. Uma terra onde eu pudesse desenvolver narrativas que envolvessem tanto a cultura de matriz africana quanto os arquétipos e fábulas relacionados ao inverno e ao frio. Jorge era do Sul e vivia me contando da importância da comunidade negra em sua terra, Porto Alegre. Entretanto, senti um pouco de desconforto em lidar apenas com o imaginário gaúcho. Por suas especificidades e pelo meu distanciamento, tanto geográfico quanto cultural, decidi que deveria buscar uma nova abordagem. Dessa ideia inicial, trouxe comigo a questão negra e uma vontade um tanto vaga de trabalhar com cenários ermos e frios. Estes últimos me aproximaram dos filmes de Bergman e de seus diretores de fotografia. Desloquei o Rio Grande do Sul para a ilha de Fårö. Suas paisagens foram certamente a principal referência para o tratamento das fotos da Chapada Diamantina que utilizei nas colagens que fiz posteriormente.

“Crio colagens para ilustrar memórias irreais”

Em meio ao ruído Inicialmente pensei em ir pra esses lugares, pros interiores, pras grutas. Mas não sou bom disso, acabei entendendo que, como o projeto parte da ideia de apropriação, podia me apropriar desses lugares e ressignificá-los.

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Instante


SEBASTIÃO SALGADO UM HOMEM DE CONTRADIÇÕES

Texto Francisco Quintero Pires Fotos Sebastião Salgado - Gênesis

COM GÊNESIS, SEU PROJETO MAIS AMBICIOSO, DEDICADO A RETRATAR REGIÕES DO PLANETA QUE ABRIGAM UMA NATUREZA INTOCADA OU GRUPOS HUMANOS ISOLADOS DA CIVILIZAÇÃO, SEBASTIÃO SALGADO ATINGIU VISIBILIDADE INÉDITA PARA UM FOTÓGRAFO BRASILEIRO. 13


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Instante

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Design

UNIVERSO PARTICULAR GUIADAS PELO DESIGN, DUAS IRMÃS TRADUZEM O MUNDO PELAS ARTES VISUAIS

Texto Giulia Garcia Fotos Uinverso

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rincando com as palavras inverso e universo, Uinverso é um duo de design formado por Nadiuska e Priscila Furtado, cujos trabalhos, sempre autorais, têm como marca a simplicidade e a harmonia das formas. De desenhos a peças de cerâmica, as criações traduzem os interesses e as influências artísticas das irmãs. Cores, formas e texturas compõem a coleção das irmãs, que trazem grande força a representatividade feminina no meio. Representam por meio de suas peças suas perspectivas e interesses, de dentro para fora.

“Linguagem visual é a única que sei falar”

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Design

Qual sua maior motivação para criar? O que te inspira? Poder trabalhar em diferentes áreas, com diversos materiais, de forma não convencional é o mais motivador. Você está sempre aprendendo algo novo. Linguagem visual é a única que sei falar, na verdade. Com as palavras sempre me enrolo. Os mistérios do universo me inspiram mais que qualquer coisa. O que você faz no seu dia-a-dia para se manter criativa? Ter que trabalhar com criação, não existe receita pronta, mas você cria meio que exercícios para ter ideias para os outros ou para os projetos autorais. Nesses últimos tenho mais liberdade e tempo, o que melhora 90% da produção. Então primeiro é desapegar da perfeição e apenas fazer. Tento ficar imersa nesse mundo que criei junto com minha irmã, através de livros, documentários, filme, exposições, músicas… basicamente fazer o que gosto. Entrei nesse mundo porque passar horas observando essas coisas me faz bem. Acho que assim existe mais chance de sair algo bem feito. Você teve algum marco importante na sua carreira ou um momento decisivo? Como isso influenciou a sua trajetória? Acho que o maior marco foi quando decidi dedicar todo meu tempo a ser freelancer e fazer trabalho autorais, em 2013. E ter iniciado de forma natural, os estudos em cerâmica. Isso fez com que expandisse mais meus interesses e me fez pensar diferente quanto aos desenhos. Ter trazido algo tão tradicional como a cerâmica, para meu presente nada tradicional, é o tipo de contradição que me interessa.

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“Os mistérios do universo me inspiram mais que qualquer coisa” Quais são suas influências, inspirações ou artistas preferidos? Como isso se reflete no seu trabalho? Não seria justo listar apenas alguns, por serem tantos! Das civilizações antigas à artistas que acompanho na internet, ou artistas locais. São pessoas de diversas áreas que vão da escultura à animação, ciência… que me fazem repensar como abordar minhas ideias, querer evoluir e não ficar me repetindo. Quais dicas você daria para outras mulheres potencializarem sua criação? Tentar se conhecer e focar no que acredita, dos valores às formas de trabalho e não se levar por tendências efêmeras só para se sentir inclusa. Use a inspiração para fazer algo diferente e não se limite a fazer exatamente as mesmas coisas que vê por aí. Ainda existe algum preconceito em relação a mulher se expressar livremente? Você sente isso no seu trabalho? Acredito que existe predefinições encrustadas na cabeça da sociedade brasileira, provavelmente formadas por preconceitos, e acabaram por definindo algumas áreas com mais espaço para homens do que para mulheres. Ainda hoje herdamos essa cultura machista que aos poucos está sendo superada.


Substrato

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O VALOR DO GERRY BADGER APRESENTA ESTE TIPO DE PUBLICAÇÃO, EM QUE A FOTOGRAFIA EXPRESSA SEU VERDADEIRO POTENCIAL CRIATIVO. Texto Gerry Badger

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Pag. 25 - 26 Fotolivro (Shashin yo sayonara, 1972), de Daido Moriyama

os últimos anos, o fotolivro – um tipo particular de livro fotográfico, em que as imagens predominam sobre o texto e em que o trabalho conjunto do fotógrafo, do editor e do designer gráfico contribui para a construção de uma narrativa visual – vem recebendo uma atenção inaudita, seja com o lançamento de histórias e antologias, seja com o florescente mercado de colecionadores. Para ser notado, todo jovem fotógrafo que pretende construir um nome precisa publicar um fotolivro. Inúmeras carreiras importantes foram impulsionadas por um fotolivro de sucesso – dos americanos Alec Soth e Ryan McGinley a Doug Rickard e a espanhola Cristina de Middel.

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Substrato

A tecnologia digital pôs essa possibilidade ao alcance de qualquer um, e, ao que parece, todo mundo está preparando um fotolivro. A tecnologia digital pôs essa possibilidade ao alcance de qualquer um, e, ao que parece, todo mundo está preparando um fotolivro. O interesse por esse tipo de obra tende a persistir, a despeito de toda uma gama de publicações ruins, dignas de esquecimento. Por que, então, de repente o fotolivro passou a ser tão prestigiado? Ele existe quase desde o nascimento da própria fotografia, em 1839 – foi inventado mais ou menos como um meio de publicação, e, já por volta de 1843, pioneiros vitorianos como Anna Atkins e William Henry Fox Talbot começavam a colar fotografias em álbuns e livros. Contudo, foi apenas recentemente que se percebeu o real significado desse tipo de livro. Em 1938, o Museu de Arte Moderna de Nova York, então relativamente novo, dedicou sua primeira exposição individual de fotografia a um jovem chamado Walker Evans, que chegara à fotografia depois de estudar literatura, sobretudo a escola realista francesa do século 19. As fotos, ampliadas em formato pequeno e enfileiradas nas paredes do Rockefeller Center, onde ficava então o MoMA, foram em grande parte esquecidas (a não ser pelo fato de o museu possuir aquela que é, provavelmente, a mais bela coleção de fotos antigas de

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Evans hoje existente), mas a publicação que acompanhava a mostra, não. Fotografias americanas (American Photographs, 1938) pode ser considerado o mais importante de todos os fotolivros. Ele não só deu uma ideia do que um fotolivro era capaz de fazer, mas também do que a própria fotografia podia ser – um meio que não era apenas um método de documentação ou um acessório à arte “de verdade”, e sim, ele próprio, uma arte dotada de estrutura intricada e de coerência intelectual. Fotografias americanas demonstrou, como pretendia Evans, que a fotografia era em essência uma arte literária, na qual fotos ordenadas em uma sequência específica podiam dizer algo mais que a mera soma de suas partes isoladas. No Japão, a exuberância e complexidade da visão caleidoscópica da cidade era muito presente, principalmente na grande cultura do fotolivro que é o país. A cidade contemporânea aparecia como um tema caro à fotografia japonesa, porque tinha implicações pessoais e políticas para a arte produzida no país, provenientes do relacionamento difícil do Japão com os Estados Unidos – um sentimento que poderia ser descrito como amor e ódio. Os jovens japoneses sentiam-se fortemente estimulados por certos aspectos da cultura norte-americana, mas eram também bastante críticos da política externa dos Estados Unidos (no Vietnã, por exemplo), além de carregarem consigo a eterna lembrança de Hiroshima e Nagasaki. Armados do estilo cru e direto de Frank e Klein, muitos fotolivros japoneses exploraram ativamente a atitude algo esquizoide que a população experimentava em relação aos Estados Unidos. Isso também se aplica a muitos fotolivros da América Latina.


Kitarubeki kotoba no tame ni, 1970, de Takuma Nakahira

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Instante

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Substrato

Assim, publicações como Por uma linguagem futura (Kitarubeki kotoba no tame ni, 1970), de Takuma Nakahira, e Adeus, fotografia (Shashin yo sayonara, 1972), de Daido Moriyama, conduzem a linguagem expressiva de Klein à beira da incoerência. Sua atmosfera psicológica é incerta, borrando as fronteiras entre realidade e irrealidade, entre júbilo e angústia. Não sabemos se estamos experimentando a cidade em sonho ou em pesadelo. Os dois livros são ostensivamente não políticos, mas sua mensagem política – o compósito norte-americano de bondade e maldade – revela-se sob a superfície ambígua de sua expressiva poesia. Mas agora convém recuar. Comecei a falar do fotolivro em termos políticos porque sinto que esse é um dos grandes motivos pelos quais ele é tão significativo. Não necessariamente porque ele deva ser político, no sentido ideológico e estabelecido do termo, mas porque tem aptidão para refletir a visão de mundo do autor. Costumo citar o fotógrafo norte-americano John Gossage e sua definição de fotolivro, que consta do primeiro volume da história dessa publicação que organizei com o fotógrafo Martin Parr, em 2004. Gossage enumerou os quatro critérios necessários ao sucesso no gênero: “Em primeiro lugar, o fotolivro deve conter um excelente trabalho. Em seguida, precisa fazer que esse trabalho funcione como um mundo conciso dentro do próprio livro. Depois, é necessário que possua um projeto gráfico que enalteça o que está sendo tratado. Por fim, ele deve tratar de conteúdo que mantenha o interesse do leitor”. Notem que conter um “excelente trabalho” é o primeiro critério. Com isso, concordo inteiramente. Contudo, o último dos critérios mencionados por Gossage também é crucial para mim: “ele deve tratar de conteúdo que mantenha o interesse do leitor”. Em outras palavras, o grande fotolivro não se constitui simplesmente de um punhado de fotos feitas por um único e mesmo fotógrafo, não importa quão boa cada uma delas seja. O grande fotolivro precisa ter um tema, uma ideia abrangente, e deve funcionar, como me disse Gossage numa conversa, como “um mundo próprio”. Ou seja, ele deve mostrar uma voz autoral única – talvez única apenas para esse volume em particular. Indo além na definição do fotolivro, quando se olha para trás, para os livros de Evans, Frank, Klein e para os demais que mencionei, eles tratam: 1) do fotógrafo, refletindo suas opiniões; 2) do meio, ajudando de alguma forma a ampliar suas fronteiras; e 3) do mundo, das questões que preocupam o autor. Pag. 23-24, 43, Shashin yo sayonara, 1972, de Daido Moriyama

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Arquitetura

GUTO REQUENA PARA O ARQUITETO, TECNOLOGIA E AMOR SÃO O FUTURO DO DESIGN.

Texto Winnie Bastian Foto Fernanda Ligabue

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riar produtos, arquiteturas e espaços a partir de uma lógica completamente nova: a emocional, construída a partir de afetos e sentimentos. Esse é o desafio a que o arquiteto e designer Guto Requena tem se proposto nos últimos tempos, e foi também o tema da palestra “Sobre amor, ciborgues e a cidade”, que ele apresentou no último dia da programação de Casa Vogue Experience 2017. Guto, que este ano já apresentou mais de 15 palestras internacionais, em países como França, Alemanha, Espanha, Portugal, Rússia e Estados Unidos. Ele aborda, ainda, o conceito de lar expandido, que emerge nos tempos atuais, em que

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PAVILHÃO DANÇANTE, 2016 Sensores captam a música e agitação das pessoas dançando, e assim, movimentam motores com espelhos na fachada do edifício.

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Arquitetura

EU ESTOU, 2015 As pessoas eram perguntadas sobre como se sentiam no momento, e, ao escolher uma das seis opções de resposta (amando, triste, feliz, medo, surpresa, raiva), era fotografada e então sua foto era projetada na fachada do prédio da Fiesp, com a cor associada ao sentimento que ela tinha indicado na resposta.

LOVE PROJECT, 2013 Durante uma narrativa de amor, dados são coletados a partir da voz, da atividade cerebral e dos batimentos cardíacos, gerando um objeto impresso em 3D. Mais recentemente, Guto criou o aplicativo, Aura Pendant, no qual as pessoas podem gravar suas histórias de amor, e ver o desenho formado podendo encomendar um pendente.

ME CONTA UM SEGREDO, 2015 Uma praça no bairro do Bom Retiro, em São Paulo, recebeu uma cabine telefônica onde as pessoas contavam um segredo e cinco peças de mobiliário onde as pessoas, quando sentadas, escutavam os segredos gravados, gerando interações entre as pessoas presentes.

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“O lar torna-se um sentimento que eu carrego comigo.“ nos deslocamos muito mais pelo planeta. “Até algum tempo atrás, o lar era considerado um lugar físico, onde estavam minhas coisas. Se eu consigo carregar esse conteúdo afetivo, essas memórias (minhas músicas, minhas fotos, minhas lembranças), eu posso me deslocar para qualquer lugar. O lar se torna um sentimento, que eu carrego comigo.” Nessa nova realidade, a casa se torna a nossa cidade, acredita Guto. Em por isso, ele tem dado a sua contribuição para tornar a cidade um lugar mais interessante e, assim, incentivar a apropriação da rua e dos espaços públicos pelas pessoas. É o caso dos projetos Eu Estou e Me Conta Uma Segredo?, realizados em São Paulo em 2015 e 2016, respectivamente. Guto é autor de outros projetos, com propostas diversas, mas sempre com uma coisa em comum: o uso da tecnologia de uma forma mais humanizada. É o caso do projeto do Pavilhão Dançante, criado para uma marca de cerveja durante as Olimpíadas do Rio, no qual as luzes da pista de dança se modificam conforme as emoções do público presente, ou da fachada interativa criada para o WZ Hotel, em São Paulo,

em que as cores da fachada foram selecionadas a partir de um processo que utilizou como base a gravação de 24 horas de áudio da avenida Rebouças, onde o hotel se localiza. À noite, 6 microfones ao redor do prédio coletam a paisagem sonora, e então as movimentam conforme essas informações recebidas. Além disso, sensores identificam a qualidade do ar e, conforme esse dado, as cores das luzes se transformam: nos dias mais poluídos, a cor da fachada tende para os tons quentes, enquanto em dias menos poluídos, predominam as cores frias. Por fim, ainda é possível interagir pelo celular, por meio de um aplicativo. “Gosto de pensar a arquitetura não só como uma casca protetora, mas como um envelope comunicante. É uma forma de estampar na cara das pessoas o que está acontecendo.” Na visão de Guto. “Independentemente do momento que a gente está, com o mundo em crise, está na nossa mão escolher o caminho que as tecnologias vão tomar. Eu prefiro pensar num futuro tecnológico que não é minimalista e branco. O futuro é cheio de sentimento, e usar a tecnologia de maneira orgânica com certeza é nossa salvação”

WZ Hotel, luzes indicam a movimentação sonora e a qualidade do ar em São Paulo.


Detalhe de cartaz para a Bienal de Veneza 2005

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Arte

A ARTE DA UMA DAS VOZES MAIS CRÍTICAS SOBRE A PARTICIPAÇÃO E REPRESENTAÇÃO DAS MULHERES NA ARTE, O COLETIVO AMERICANO GUERRILLA GIRLS GANHA RETROSPECTIVA Texto Bruna Bittencourt

Divulgação/Guerrila Girls

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Arte

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Divulgação/Guerrila Girls

Pôsteres da série Guerrilla Girls Talk Back, criados nas décadas de 1980 e 1990.

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Cotidiano

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TORNA-TE QUEM TU ÉS DE MANEIRA NATURAL TAL QUAL A SUA PRÓPRIA BELEZA, A ATRIZ BRUNA LINZMEYER INSPIRA A MUDANÇA DE PARADIGMAS DA SOCIEDADE E, COM A SUA LIBERDADE, DÁ VOZ A QUEM NÃO TEM

Texto Milly Lacombe Fotos Jorge Bispo

runa Linzmeyer tem apenas 24 anos, mas já contém multidões. Agora ela está no centro desse teatro do cotidiano não apenas por causa da arrebatadora beleza, mas por ter assumido a bissexualidade. “Eu me apaixono por pessoas”, disse recentemente durante evento na Casa Tpm, jogando à mesa quem é. “Agora sou a bissexual, a lésbica… bom, é o que eu sou e é estranho que o mundo se assuste com verdades.” O rosto de uma perfeição escandalosa não esconde a idade, mas a sabedoria com que se expressa faz parecer que Bruna é uma alma antiga. “Fico muito feliz quando encontro pessoas que me dizem que quem eu sou afeta a vida delas; mas eu só estou vivendo com o coração.” É, aliás, o que distingue celebridade e herói: um vive para si, o outro, para resgatar a sociedade. Essa enorme simplicidade com que leva a vida transborda para o jeito com que Bruna topa se mostrar, por exemplo, nas imagens que ilustram este texto, feitas por Jorge Bispo. “Ela veio com a roupa do corpo, subiu, fez a foto e foi embora. Foi uma coisa bem instantânea, que é o que ela é”, disse Bispo. “Talvez essa seja uma imagem mais crua dela, que está sempre com o bocão, essa coisa mais sensual, mas ninguém é uma coisa só, né?”, completa o fotógrafo. “Eu me lembro de falar: ‘Bispo, vou de jeans e camiseta, não vou fazer maquiagem, não vou fazer nada no cabelo, tá?’. É quem

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Cotidiano

“Faz parte da construção do que é ser mulher, a maquiagem, o salto, a roupa bonita e tudo isso é muito legal, mas desde que seja a possibilidade de uma brincadeira, não uma obrigação.”

eu sou. Faz parte da construção do que é ser mulher, a maquiagem, o salto, a roupa bonita e tudo isso é muito legal, mas desde que seja a possibilidade de uma brincadeira, não uma obrigação.” Assustada com o tsunami moralista que nos sufoca, Bruna diz que essa direita fantasiada de liberal a preocupa. “Quem tem problema com uma pessoa nua em uma performance de museu não leva o filho lá”, diz referindo-se à recente polêmica envolvendo uma exibição no Museu de Arte Moderna de São Paulo, na qual um homem nu que interagia com os presentes foi tocado em um dos pés por uma criança, causando gritaria e revolta na parcela conservadora da população, que, sufocada pelo desejo de moldar o mundo pela argila de seu dogma moral, enxergou no episódio uma sugestão à pedofilia. “A gente está falando de liberdade de expressão, de educação, de conscientização. Um homem nu com o pau mole em uma performance artística… esse cara não tá de pau duro na sacristia esperando a criancinha. É muito importante a gente entender do que a gente tá falando, e entender que a gente pode ter uma opinião diferente, mas que ainda vivemos em uma democracia.”

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LIBERDADE,

LIBERDADE Qual a importância de artistas se posicionarem sobre assuntos polêmicos? Eu fico assustada, um pouco encantada, de como o artista tem voz. As pessoas escutam o que a gente diz e, de algum jeito, têm algum carinho. Existe um canal aberto que é um fluxo de afeto, de identificação, a gente tem que usar isso. Estamos querendo uma coisa um pouco melhor, algo mais democrático, mais igual. Alguém falou para você não falar que era bi? Muitas vezes. Fiquei assustada porque tinha um apartamento para pagar e meus pais não são ricos. Fiquei com medo de não ter dinheiro para os compromissos que tinha assumido. Morri de medo, mas ou pagava minhas contas ou tinha um câncer, tinha depressão. Não foi possível. O que você pensa desse tsunami moralista em que estamos? É um momento muito delicado, um estado de alerta diante de tudo que está acontecendo. Parece que a gente vem com um poder de liberdade, da Pablo Vittar ser ídola do país – acho isso foda e falo “ai, que bom, olha pra onde a gente tá caminhando”. Só que não! Tem uma onda contrária ocorrendo. “É preciso estar atento e forte, não temos medo de temer a morte” [cantando].

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Crônica

Texto Martha Medeiros Ilustração Gosia Herba

A MULHER E A PATROA H

á homens que têm patroa. Ela sempre está em casa quando ele chega do trabalho. O jantar é rapidamente servido à mesa. Ela recebe um apertão na bochecha. A patroa pode ser jovem e bonita, mas tem uma atitude subserviente, o que lhe confere um certo ar robusto, como se fosse uma senhora de muitos anos atrás. Há homens que têm mulher. Uma mulher que está em casa na hora que pode, às vezes chega antes dele, às vezes depois. Sua casa não é sua jaula nem seu fogão é industrial. A mulher beija seu marido na boca quando o encontra no fim do dia e recebe dele o melhor dos abraços. A mulher pode ser robusta e até meio feia, mas sua independência lhe confere um ar de garota, regente de si mesma. Há homens que têm patroa, e mesmo que ela tenha tido apenas um filho, ou um casal, parece que gerou uma ninhada, tanto as crianças a solicitam e ela lhes é devota. A patroa é uma santa, muito boa esposa e muito boa mãe, tão

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boa que é assim que o marido a chama quando não a chama de patroa: mãezinha. Há homens que têm mulher. Minha mulher, Suzana. Minha mulher, Cristina. Minha mulher, Tereza. Mulheres que têm nome, que só são chamadas de mãe pelos filhos, que não arrastam os pés pela casa nem confiscam o salário do marido, porque elas têm o dela. Não mandam nos caras, não obedecem os caras: convivem com eles. Há homens que têm patroa. Vou ligar pra patroa. Vou perguntar pra patroa. Vou buscar a patroa. É carinho, dizem. Às vezes, é deboche. Quase sempre é muito cafona. Há homens que têm mulher. Vou ligar para minha mulher. Vou perguntar para minha mulher. Vou buscar minha mulher. Não há subordinação consentida ou disfarçada. Não há patrões nem empregados. Há algo sexy no ar. Há homens que têm patroa. Há homens que têm mulher. E há mulheres que escolhem ser.


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Instante

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Profile for Amanda Paluzzi

Revista Matiz  

Trabalho de conclusão da matéria - Design Editorial (revista) - curso de especialização em design gráfico UNICAMP. Integrantes do grupo: A...

Revista Matiz  

Trabalho de conclusão da matéria - Design Editorial (revista) - curso de especialização em design gráfico UNICAMP. Integrantes do grupo: A...

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