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UNIVERSIDADE PRESBITERIANA MACKENZIE - CENTRO DE COMUNICAÇÃO E LETRAS

Publicação feita pelos alunos do segundo semestre de Jornalismo - Ed 176 - Ano XII - Abril 2017

Cultura na Casa das Rosas

Com programação gratuita, o local oferece várias opções de lazer na região da Avenida Paulista. Página 8


A cultura no seu bolso

Como a internet expandiu o consumo cultural e seus reflexos na sociedade Lara Faria Maria Gabriela Maglio

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e você quer ir ao teatro, a alguma exposição, e até assistir a um filme, você consegue ter acesso a programações e à compra de ingressos, sem sair de casa, com apenas alguns cliques. A internet transformou a maneira como as pessoas consomem cultura atualmente. Exemplo disso é a estudante de direito Julia Dias, 26 anos, que falou que apesar de não ser um hábito corriqueiro, já comprou ingressos online. Entretanto, a jovem trouxe à tona a necessidade que as pessoas têm de saber usar a ferramenta, pois muitas coisas chegam sem filtro, por isso é necessário ter precaução com o que se consome online. A dica de Julia é buscar seu próprio interesse, e não ficar só consumindo cultura de massa de um jeito não pensado. Ela consegue consumir muitas informações graças à facilidade da internet. “Eu fico sabendo de muita coisa por Facebook, WhatsApp e por Instagram, que é isso, né, a gente fica o tempo inteiro conectado”. A estudante de direito Heloíse Campos, 19 anos, reforça a opinião de Julia no que diz respeito à praticidade: “A internet facilita muito o acesso a diversas fontes de cultura. Por meio dela, consigo em poucos minutos me conectar a jornais dos quais eu gosto, mas não teria a iniciativa de comprá-los impressos. Além disso, através das compras

virtuais de ingressos, frequento muito mais eventos como teatros, musicais e shows”. Quando o assunto é conexão, hoje tudo se encontra online, a leitura inclusive é outro universo muito explorado. Ler livros pela web já se tornou mais que natural. A autora Julia Vilarim, 19 anos, divulgou e teve seu livro, "Geração de Corações Partidos", lido pela internet. Ela afirma que muitos autores na última década tiveram seus trabalhos consumidos por várias pessoas em plataformas digitais e que ela é muito grata a essa nova maneira de acesso à leitura: “Desde 2008 eu posto minhas histórias. Comecei no finado Orkut, mas já rodei em vários sites de fanfics”. Esta última, inclusive, é uma novidade do universo digital. Fanfics nada mais são do que histórias fictícias publicadas por fãs em blogs e sites a partir de um enredo já conhecido de séries, filmes e livros. Hoje, a Julia tem seu livro publicado no Clube de Autores, uma rede que publica livros de maneira gratuita na internet. Ela acha que a rede é democrática em todos os assuntos, e que a literatura não poderia ficar de fora do mundo digital. Outra coisa que não poderia ficar de fora são as manifestações teatrais. Em conversa com o ator e dramaturgo da Cia Dom Caixote, Professores da disciplina: José Alves Trigo (Editoração e Design) e André Santoro (Pauta e Apuração)

Universidade Presbiteriana Mackenzie

Centro de Comunicação e Letras

Diretor: Marcos Nepomuceno Coordenador: Rafael Fonseca Supervisor de Publicações: José Alves Trigo

Equipe: Amanda Oliveira, Ana Gabriela Domingues, Fernanda Antônia, Júlia Gabriello, Julia Taschetto, Karolline Alves, Lara Faria, Maria Gabriela Maglio, Priscila Augusto, Rodrigo Loturco, Ronaldo Noda, Victor Caruzo, Victória Theonila.

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Estudante Heloíse checando as notícias

Campos

Paulinho Rocco, 38 anos, ele comentou a importância da internet para a divulgação do trabalho deles: “O processo é quase que totalmente feito apenas pela internet”. Antigamente eles investiam em guias, jornais e panfletos. Era impossível fazer uma peça sem material impresso. Mas a tecnologia mudou esse cenário. O dramaturgo mencionou ainda que, com a divulgação na internet, a procura pelo teatro não teve uma melhora significativa, e que apesar de as pessoas verem um post sobre suas produções no Facebook, é muito difícil que elas cheguem a ir. Com isso, ele ressaltou a importância da ida ao teatro: “Teatro é ritual, é ancestralidade, é contato. Lazer cultural pode ser visto pela internet, filmes, livros e tal, porém o que está sendo deixado pra trás é o contato físico”. Jornal-Laboratório dos alunos do segundo semestre do curso de Jornalismo do Centro de Comunicação e Letras da Universidade Presbiteriana Mackenzie. Foto de capa: Júlia Gabriello e Julia Taschetto. Impressão: Gráfica Mackenzie Tiragem: 200 exemplares.


A segunda casa de todo Nerd Confira três lugares Geek escondidos no centro de São Paulo Rodrigo Loturco

Amanda Oliveira Rodrigo Loturco

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cultura Geek tem crescido em São Paulo de maneira discreta, contudo conquistadora. Também chamada de cultura Nerd por alguns, essa tribo engloba desde aficcionados por quadrinhos aos mais viciados em séries ou filmes. Para tanto, listamos aqui três lojas essenciais localizadas no centro da cidade para todo Geek de carteirinha. E não podia ser diferente que o primeiro estabelecimento levasse o mesmo nome dessa tribo tão mesclada. A loja Geek, projeto da livraria Cultura, abrange produtos dos mais diversos, desde videogames e gibis até bonecos baseados em famosos filmes e séries televisivas. São dois andares recheados de conteúdo nerd, pronto para ser explorado e apreciado. Lá também ocorre, em dias especiais, eventos de jogatina, onde campeonatos de videogame são organizados, atraindo vários jovens e adultos que passeiam pela Paulista. Para quem curte colecionáveis, a Limited Edition possui uma variedade de bonecos e objetos de séries, desenhos, filmes, livros e quadrinhos. Localizada na rua da Consolação, a loja conta com eventos para o público e acervo online disponível no site. Segundo Danilo Salvaia, 23 anos, vendedor da Limited Edition, as vendas começaram pelo Mercado Livre e, com o aumento da procura pelos bonecos colecionáveis, o dono do negócio viu a oportunidade de investir e abrir uma loja física. Atualmente, a loja conta com bonecos raros em seu acervo. “Tem o Falcon, o Raynor, a Harley Quinn. São peças únicas que outras lojas não têm”, comenta Danilo, que ainda apon-

Colecionaveis expostos no estande da loja Limited Edition

ta que os frequentadores em sua maioria são nerds, “mas também vêm pessoas que querem comprar presente para o primo ou mães que compram para o filho ou marido que curtem certo filme ou série. Dificilmente entra criança”. Ainda no centro de São Paulo, a loja Comix, localizada na Alameda Jaú, conta com dois andares e um estoque imenso de histórias em quadrinhos. Tendo começado como uma banca de revista, se tornou uma loja física quando o público e as vendas de HQs aumentaram. A loja promove eventos e lançamentos exclusivos por meio de parcerias com editoras, além de revistas antigas de edições raras para os colecionadores. E para quem pensa que apenas os jovens frequentam a loja, Sidarta Pacheco, 26 anos, vendedor da Comix e frequentador ávido desde os 14 anos, explica que quase 60%

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do público que frequenta a loja é composto por adultos. Ele afirma que “o pessoal pensa que aqui tem muito jovem. Mas o nosso público não são apenas jovens, e sim adultos acima dos 30 anos”. E apesar de histórias em quadrinhos serem a especialidade da loja, é possível encontrar também outros produtos. “A gente também trabalha com boneco, DVD, Blue Ray e Card Game”, completa Sidarta. As lojas especializadas em tal público têm se tornado uma atração à parte, justamente por atrair curiosos que nem mesmo constituem essa tribo diferenciada. De longe, tais estabelecimentos já chamam a atenção pelo conteúdo difícil de se encontrar em lojas mais comuns, muitos desses produtos ainda sem estarem traduzidos para o português, o que por um lado é bom, por outro só torna os mesmos mais caros e limitados.


A Índia é aqui Centro Cultural busca difundir cultura indiana em São Paulo

Fernanda Antônia Bernardes

Fernanda Antônia Priscila Augusto

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Centro Cultural da Índia, localizado no bairro Jardim Paulista, possibilita a imersão na cultura indiana de forma gratuita e divertida. A instituição, dirigida pelo Consulado da Índia, promove desde aulas regulares de dança, Yoga e língua Hindi a eventuais palestras, debates de filmes e aulas de culinária. Em 2011, a Embaixada da Índia, juntamente com o Indian Council for Cultural Relations (ICCR), escolheram a cidade de São Paulo para sediar o primeiro Centro Cultural da Índia da América Latina. Segundo o assistente Deus do sucesso, Ganesha, exposto na entrada do Centro Cultural Rafael Espadine, 33 anos, o aspec- sexo e nacionalidade. semana, de maior sucesso é a aula to cultural forte da capital paulista Mesmo que a comunidade in- de Yoga. Já das aulas esporádicas, foi essencial para que ela fosse es- diana em São Paulo ainda seja pe- a de culinária indiana, que ocorre colhida. Ele acrescenta que o lugar quena, há uma grande referência uma vez por mês e é dada por natié a “face da diplomacia que chega da cultura desse povo no país, que vos, recebe muitos alunos. A págiao público comum” e que o fato veio através de novelas e filmes e na no Facebook da instituição redo Brasil e Índia fazerem parte da popularização da espiritualida- cebe uma avaliação de 4,8 estrelas do bloco econômico BRICS (sigla de e atividades relaxantes. “Isso e cerca de 16 mil curtidas. Por esse para Brasil, Rússia, Índia, China plantou uma semente de cultura motivo, o centro instalado em São e África do Sul) salienta a impor- indiana, cuja influência aumentou Paulo superou as expectativas do tância de trocas culturais entre os com o passar do tempo”, conta Ra- governo e, hoje, é um dos maiores países. fael. do mundo em relação ao impacto A instituição é totalmente cusO público é em sua maioria- de atividades. teada pelo governo indiano e ofe- composto por brasileiros jovens e O Centro Cultural dá oportunirece três tipos de dança indiana: adultos e os motivos que os levam dades para quem quer aprender e a do sul (Bharatanatyam), a do a frequentar o lugar variam. Há sentir as diferenças e similaridades norte (Kathak), e a do leste (Odis- quem vá pelo valor acadêmico e há de uma cultura que, aparentemensi), além de um estilo de Yoga. As os que querem apenas se conectar te, é muito diferente. “O suposto aulas oferecidas têm a duração de com a cultura, como é o caso de exótico é tudo a mesma coisa”, um ano e oferecem o nível básico Cláudia César, 50 anos, que fez a afirma Espadine. “A Índia é difede cada atividade. Para continuar audição para a aula de Kathak. Sua rente do Brasil, mas em essência, os estudos após o término de um maior intenção, além de conhecer até em cultura, a gente acha uns ano, há a possibilidade de estudar a cultura indiana, é sentir as vibra- paralelos incríveis. E eu acho que na Índia. Os cursos têm vagas li- ções da dança no corpo. “A profes- essa é uma das grandes funções da mitadas, por isso são feitas audi- sora é indiana, ela tem mestrado cultura – fornecer essa diversidações para a selecionar os alunos. na dança, tem muita propriedade de, mas criar uma aproximação. A Entretanto, as inscrições são aber- e conhecimento”, revela. cultura realmente contribui para tas para qualquer pessoa que queiRafael diz que a atividade re- percebê-la e esse é o valor dela [da ra tentar, independente de idade, gular, ou seja, que acontece toda cultura] e do Centro Cultural”.

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Levantando voo Jovens relatam as dificuldades e benefícios de realizar um intercâmbio

Foto: Ana Gabriela Domingues

Ana Gabriela Domingues Victória Theonila

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Foto: arquivo pessoal.

intercâmbio é um sonho comum entre jovens e adolescentes, sendo uma experiência cada vez mais procurada, como relata o site da agência de intercambio STB. Isso se deve, principalmente, à oportunidade de vivenciar outro idioma, costumes, valores e histórias da nação escolhida, o que é culturalmente enriquecedor, numa espécie de troca de relações entre países. A viagem motiva também o autoconhecimento, confiança e a relação Painel de exposição da agência de intercâmbio STB com o diferente, além de ser um bônus valorizado no currículo atuintercambista tenha a consciência tágio voluntário, programas como almente. sobre seu impacto e importância Au Pair, High School e até a graA experiência de fazer interno mundo, podendo fazer a dife- duação no curso desejado. Victor câmbio em um novo ambiente é rença. Além disso, com o tempo optou por cursar a graduação no desafiadora, pois é preciso deiele vai se adaptando, aprenden- exterior e hoje é aluno de cinema xar sua zona de conforto para um do e vivendo essa nova realidade, e engenharia química em Los Anaprendizado completamente dicomo retrata Vitória Andrade Car- geles, Califórnia. Ao ser questioferente do qual está habituado. nier, de 17 anos e aluna do pro- nado sobre a sua visão da cultura Victor Medeiros, de 18 anos, bragrama UWCSEA (United World brasileira estando em outro país, a sileiro e estudante nos EUA, afirCollege of South East Asia), em resposta surpreende “Antes, Brama que “só nos adaptamos a uma Singapura. “O processo de adap- sil para mim era somente Brasil, cultura quando estamos abertos tação é no mínimo difícil. Quando nada mais. Hoje, tenho orgulho a construirmos o nosso ‘eu’ funvocê chega num lugar totalmente de responder quando alguém me damentado no mundo, ou seja, estranho e não tem ninguém para pergunta: “Where are you from?”, temos que estar abertos ao novo”. te dizer exatamente o que fazer, “I’m from Brazil”. E ao relatar soAos poucos, o contato direto com existe um medo constante de estar bre sua experiência cultural, afirinúmeras culturas faz com que o fazendo algo “errado”. Mas com ma: "adaptar-se a uma cultura é se o tempo tudo se ajeita, você se transformar. Se tornar mais toleadapta e aprende a conviver com rante. Mais plural”. as diferenças culturais e comporAo optar por realizar o intertamentais da população”. câmbio é necessário se manter Quando o assunto é intercâm- aberto e disposto. A jornada no bio, o Canadá é o destino mais novo ambiente pode não lhe agraprocurado pelos brasileiros – em dar a princípio, mas a bagagem 2015 e no começo de 2016. O que cultural, intelectual e o amadurecontribui para esse resultado, se- cimento são pontos que sempre gundo a entrevista de Cauê Cardo- estarão a seu favor. Como relata so, gerente de cursos no exterior e Victor, que quer trazer ao Brasil vistos da Travelmate, à EXAME, toda sua experiência e conhecié a abertura do país e a permis- mento: “O meu objetivo primorsão de trabalho para os estudan- dial é adquirir experiência na edutes. Existem diversos programas cação em um outro país a fim de possíveis para se realizar um in- aplicá-las na educação do Brasil, Victor ao descobrir que passou tercâmbio, cursos de idiomas, es- reestruturando-a”. no vestibular norte-americano

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O centro e seus teatros

Apresentações na região central de São Paulo atraem diferentes públicos Karolline Alves Karolline Alves

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região Consolação/Paulista em São Paulo é conhecida por ser palco de grandes eventos e locais culturais. É possível achar diversos cinemas, museus, restaurantes, lojas e muitos teatros. Encontra-se teatros grandes, como o Teatro Folha, mas há também teatros pequenos como o Comunne e o Tusp. Opções de teatro não faltam para os paulistanos que frequentam a região. Temos o teatro Aliança Francesa, perto dele temos o Teatro da Memória e o Teatro de Arena, que são do governo do Estado de São Paulo. Outra opção bem interessante é o Teatro Commune, que oferecea diversas opções, como cursos de teatro musical, galeria de exposições e também um café-bar. Já o Teatro do Jaraguá conta com pacotes culturais com os quais você poderá, além de assistir a um espetáculo de qualidade, hospedar-se no hotel localizado no mesmo prédio. Ir ao teatro é uma ótima opção para quem quer fazer um passeio cultural diferente, pois cada teatro tem a sua história e particularidade. O Teatro Folha, que já foi considerado um dos melhores de São Paulo pelo portal da revista Veja, mantém um catálogo de peças bastante variado, seu espaço interno não é grande, mas consegue comportar todo o público com conforto. Outro teatro muito importante da região é o Teatro Frei Caneca. Devido ao seu extenso palco, a casa recebe produções mais elaboradas, como o musical Rent e o espetáculo de comédia que já rodou o Brasil "5x Comédia". Na praça Roosevelt temos a Escola de Teatro de São Pau-

Cartaz de uma das peças do Teatro Tusp

lo, que, além de ser uma escola que oferece cursos profissionalizantes para atores e até mesmo aulas gratuitas, também conta com um teatro em suas instalações. Eles chegam a ter quatro espetáculos em cartaz ao mesmo tempo, com duração de 2 meses, cada um com três apresentações semanais. O valor dos ingressos varia de 20 a 40 reais e as sextas e sábados são os dias em que as apresentações ficam mais cheias. A escola diz que o seu maior diferencial está na metodologia de ensino: “não há uma hierarquia, artista ensina artista”. Outra escola muito importante da região é a Wolff Maya, idealização do ator e diretor Wolff Maya. Dentro da escola temos o Teatro Nair Bello, que é uma homenagem a atriz Nair Bello. A casa conta com apresentações de artistas de fora, mas também com peças dos próprios alunos. O preço dos ingressos varia de 60 a 80 reais. Uma opção para quem quer ir ao teatro, mas não quer gastar muito é o Tusp, Teatro da USP. O

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local conta sempre com apresentações dos alunos da Universidade de São Paulo, mas também com outras companhias teatrais. Vanessa Azevedo de Morais, 31 anos, funcionária do Tusp, conta que há sempre apresentações gratuitas. “É preciso chegar uma hora antes do espetáculo para retirada dos ingressos e cada pessoa pode retirar apenas um ingresso. As informações sobre as peças e quando o espaço terá sessões gratuitas estão no site do teatro”. Marli Alves, 47 anos, empresária, foi ao teatro pela primeira vez recentemente, e conta que voltou mais três dias na mesma semana. “Teatro é uma coisa maravilhosa, é incrível ter os atores ali tão pertinho de você. Agora sempre que eu puder irei ao teatro”. Para saber mais informações sobre os teatros e sobre a programação em cartaz basta ir ao site de cada um deles. Lá encontram-se informações como os horários das bilheterias e o período de funcionamento das casas.


Embatucadores: reciclando arte Com sucatas e o próprio corpo, jovens da periferia espalham arte Victor Caruzo

Victor Caruzo Ronaldo Noda

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riado em 2003, o projeto de Rafael Rip, professor de artes da rede pública, foi estimulado pela falta de recursos materiais e espaço para a música nas escolas do estado. No início, reuniram-se em um grupo de quatro alunos para praticar a percussão corporal, que basicamente é toda sonoridade produzida através de qualquer parte do corpo humano. No ano seguinte, inspirado no grupo inglês Stomp, Rafael encontrou nas sucatas a oportunidade de trazer instrumentos para o grupo que se adequassem à situação monetária da escola. “Eu comecei a catar coisas no lixo inspirado no grupo inglês, eu virei fã dos caras, e pensei, dá pra fazer isso com as crianças, dá pra começar uma história”. Baldes, cabos de vassoura, garrafas pet, canos de pvc, em-

Pietra Souza, 14 anos, em apresentação na Avenida Paulista

Ronaldo Noda

balagens em geral e outros itens reciclados fizeram e fazem parte dos instrumentos do conjunto. Equipamentos nada convencionais que geram uma produção artística tão boa quanto inovadora. O grupo aumentou em integrantes e notoriedade. Foi vencedor de diversos festivais estudantis por todo o estado de São Paulo. Os ‘’Embatucadores’’ têm como principal atributo a produção musical sem a necessidade de instrumentos tradicionais. O fomento artístico de despertar o interesse nas crianças também é uma das aspirações do professor para com seus alunos. As músicas da turma são totalmente influenciadas pelos próprios jovens. Incentivados por Rafael, em suas oficinas, eles vivem um processo de criação musical constante, o que acaba aumentando a participação de todos os colegas diretamente no trabalho final, além do forte estímulo à criatividade. A atividade extracurricular de iniciação musical é lecionada voluntariamente. Ela ocorre dentro Rafael Rip, idealizador do grupo da própria escola, em uma sala

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de aula que acabou se transformando em um estúdio. Lá eles ensaiam três vezes por semana ou mais. O pessoal se apresenta em diversos lugares públicos, como o Minhocão, a avenida Paulista e em lugares fechados, como escolas, empresas, teatros e eventos. O poder da arte é nítido. Entre os jovens, principalmente. A música, no caso, tem como uma de suas incontáveis funções a de guiar uma juventude. Com o desenvolvimento da autoestima dos alunos da Vila Nova Cachoeirinha, o processo de aprendizagem é importantíssimo para as crianças e sua formação. "Acima de tudo, nesses trabalhos, estamos trabalhando valores pessoais: educação, disciplina, respeito, atenção, paciência... Isso é o mais rico do trabalho”, disse Rip. Pietra Souza, 14 anos, e seu irmão Paulo Iago, 17 anos, reconhecem o resultado do grupo em suas vidas. “Trabalhamos bem juntos. Antes, brigávamos muito, mas a gente aprendeu muita coisa: a ter disciplina, ser humilde, saber trabalhar em grupo”, relatou Pietra.


Casa das Rosas oferece mais que poesia A casa de 1935 oferece programas culturais e uma arquitetura rica para serem explorados por estudantes e visitantes de todas as idades Júlia Gabriello Julia Taschetto

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m meio à Avenida Paulista, a Casa das Rosas Espaço Haroldo de Campos de Poesia e Literatura apresenta uma vasta programação de saraus aos sábados. Assim como exposições de literatura, poesia e projetos para a população. Toda a programação oferecida pela casa é gratuita. O funcionamento do espaço é de terça-feira a sábado, das 10h às 22h; Domingos e feriados, das 10h às 18h. As visitas podem ser agendadas, mas também há a possibilidade de visitas espontâneas. Um dos projetos interessantes da casa é o CAE, centro de apoio ao escritor. Trata-se de um curso anual para jovens e adultos que já escrevem, mas que possuem algum tipo de dificuldade. Nesse curso o aluno vai aprender desde formação a estrutura gramatical sintática a produção gráfica. “Para entrar você é avaliado a partir de um conto ou um texto que você escreva. Há uma curadoria para selecionar as pessoas que vão entrar”, diz Rafael Gatuzzo, responsável pelo núcleo educativo. Já o “Faz do Colo Minha Casa” é um projeto que se aplica a bebês de dois a nove meses. O objetivo é fazer um trabalho de introdução dos bebês ao museu e de sensibilizá-los sensorialmente. O acervo de 35 mil exemplares de Haroldo de Campos está na casa e todos podem ter acesso a ele. Para isso, basta entrar em uma base biblioteconômica, escolher o livro que deseja ler e então ir até a casa. “Por conter escritas de Haroldo nos livros, a pessoa receberá máscaras e lu-

O jardim foi inspirado no Castelo de Versalhes, na França

vas para entrar em contato com a obra”, diz Rafael. Em 2009/2010 é que realmente a casa veio a funcionar como hoje é conhecida. Antes disso o espaço passou por uma longa história. A casa, projetada em 1927 por Ramos de Azevedo e pronta em 1935, foi dada como presente de casamento para uma de suas filhas, Lúcia. Foi nessa época que a casa recebeu o nome popular de “casa das rosas”, pois era considerado o maior roseiral do estado de São Paulo. Teve como último morador seu neto, Ernesto de Castro, o qual realizou o processo de tombamento da casa em 1984. Foi reinaugurada como Galeria Pública do Estado de São Paulo em 1992, um dos motivos pelo qual toda a identidade visual interna da casa foi alterada. Até que em 2004 o acervo de Haroldo foi doado à Secretária de Cultura do Estado

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de São Paulo e então foi morar na casa. A partir de então ela passou a ser Casa das Rosas Espaço Haroldo de Campos de Poesia e Literatura e ter a funcionalidade de hoje. As visitas agendadas possibilitam um conhecimento mais sofisticado sobre a casa e suas ofertas. Thais Vieira, visitante constante do local, afirma que não consegue localizar explicações fáceis sobre a história do local em si: “é um lugar que eu gosto muito, mas nunca consegui explorar ela como eu gostaria. Talvez essa seja a proposta mesmo, pretendo conhecer melhor”. Thais ainda diz que é um privilégio poder ter a casa preservada em plena Avenida Paulista, “além de ser esplêndido poder acessar um imóvel tão antigo. É um dos poucos resquícios da Paulista, que nem sempre teve seu estilo ‘moderninha’”.

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Acontece 2u12 abril 2017  

Acontece 2u12 abril 2017  

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