Page 1

6 AN.destaque

TERÇA-FEIRA - 30/11/2010

Um programa “de Exército” Ana Carolina empacou no meio do trajeto que cumpria todos os dias na Expoville. Não queria mais andar. Teimosa, cruzou os braços e olhou para a mãe com um quê de revolta. “Por que a Sally pode fazer só o que ela quer e eu tenho que fazer o que vocês mandam?” Gina tomou para si a missão de explicar. “Filha, você tem que correr assim com a mamãe porque você nasceu com um probleminha. Isso vai ser bom para o seu futuro”. Um ano antes, Gina e Waldir deram início a um intenso programa de estimulação, que previa atividades diárias, tanto de sensibilização muscular, como neurológica. O “Método Veras” era uma criação do médico carioca José Carlos Veras, que liderou o tratamento. Antes do nascimento de Ana, os pais adotavam uma rotina de atividade física. Ela era professora de educação física. Ele era oficial de Exército. A menina teria motivos de sobra para não ficar parada. Hoje, Waldir circula com uma das cartilhas com números e de instruções nas mãos, como um troféu. “Eles davam exercícios a mais. Nós não sabíamos disso e fazíamos tudo, até o fim. Era exaustivo, mas valia a pena”. Para dar conta da programação, que envolvia

natação, jazz e aulas extras de matemática, Gina abandonou o trabalho como professora. Sua tarefa era ser mãe 24 horas por dia. Praticamente um general, quando se tratava de exigir. “Um dia a professora pediu para ela desenhar a família e ela esqueceu justo de mim. Acho que naquela época ela me via como um general, porque eu tinha que cobrar”. Gina não queria que Ana cansasse. Por isso, buscava criatividade para transformar a obrigação em brincadeira. Na atividade em que a menina tinha de rastejar, ela se fazia de bruxa. Pedia para a princesa fugir antes que fosse pega. Mesmo em meio à rotina de cobranças e rigidez, o amor sempre esteve em primeiro plano na família. E crescia cada vez mais, sem limites. “Diziam que a rigidez do método poderia destruir um casal. Com a gente foi o contrário. Nos uniu ainda mais”, diz Waldir. Da união, nasceram mais e mais vitórias. Aos nove anos, teve alta. A tarefa final foi dar uma pequena palestra sobre um assunto qualquer. Ela escolheu a dança. Falou por vinte minutos. Dançou com a irmã. Emocinou os pais e os médicos. “Alguém tem dúvidas de que ela está pronta?”, perguntou o líder da equipe. A plateia silenciou. Ninguém tinha dúvidas.

De cima para baixo: Ana fazendo carinho na irmã mais nova, Sally; aproveitando o embalo de um dos brinquedos da casa e fazendo pose para a foto; com o uniforme da escola, antes de mais um dia de aula; com a mãe e a irmã em Foz do Iguaçu; e no tão esperado dia da formatura

Eles davam exercícios a mais. Nós não sabíamos disso e fazíamos tudo até o fim. Era exaustivo, mas valia a pena. WALDIR FRUIT, pai de Ana Carolina

Mais vitórias para a família A alta que a família tanto esperava não foi a última vitória de Ana. Em 2003, ela decidiu fazer vestibular para pedagogia. Passou na primeira tentativa. Dos 131 candidatos, ficou em 62º lugar. Mais um ponto para ela. “Eu passei o verão estudando, enquanto minha mãe e minha irmã iam a praia se divertir”, brinca. Entrou para aprender, mas também para ensinar. “Numa aula sobre educação inclusiva, a professora não sabia que tinha uma aluna especial na turma”. A formatura foi em 2006, com toda a pompa que a circunstância exigia. Vestido verde, longo. Maquiagem e cabelo impecáveis. Álbum de fotos com todos os parentes reunidos. Champagne na hora do brinde. Surpresa. “Foi emocionante quando me anunciaram como a amiga da turma. Eu não esperava a homenagem”. Depois da formatura, ainda veio a especialização, que ela concluiu no ano passado. “To-

dos nós temos faculdade, mas nenhum fez pós. Ela deixou todo mundo para trás”, conta a mãe. A outra vitória veio com o primeiro emprego, na Câmara dos Vereadores. Hoje ela está no segundo, na Embraco. Ana mora com os pais, mas é independente. Anda de ônibus sozinha. Para o espanto de muitos, escolhe as próprias roupas. Ressentese da falta do brinco esquecido, que a deixaria mais bonita na foto. Ela é vaidosa e linda. Sorri de verdade, não para fazer pose. Por onde Ana Carolina andou, muitos duvidaram da doença. Até mesmo alguns médicos custaram a acreditar na síndrome de Down. Os pais vibraram com cada conquista e não derramaram sequer uma lágrima de desânimo. Hoje são cheios de orgulho de uma história que deu certo porque teve amor, paciência e cuidado. A resposta de toda essa soma não poderia ser outra.

Deu em AN

Em dezembro de 2008, Ana Carolina foi personagem de uma reportagem do “Anexo D”, sobre a diversidade e a superação de problemas. De lá para cá, ela teve ainda mais conquistas e vitórias para comemorar.

3d  

Eles davam exercícios a mais. Nós não sabíamos disso e fazíamos tudo até o fim. Era exaustivo, mas valia a pena. 6 TERÇA-FEIRA - 30/11/2010...