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AN.destaque O exemplo de TEXTO: AMANDA MIRANDA FOTOS: JESSÉ GIOTTI

Vencer foi a palavra de ordem na criação de Ana Carolina Fruit, 29 anos, que cresceu com uma certeza: nada é impossível para quem se propõe a lutar

A

mãe bateu na porta com delicadeza, mas queria explodir de tanta felicidade. Ouviu a médica pedir que ela entrasse e deu apenas um passo à frente, como quem prepara uma surpresa. “Oi, doutora!”, cumprimentou, sendo ultrapassada por uma figurinha de poucos centímetros de altura, franzina, de vestido florido e chuquinhas no cabelo. Ana Carolina Fruit entou na sala como um meteoro, andando rapidamente, com o corpo dando os primeiros sinais de equilíbrio. “A senhora não falou que ela demoraria a andar?”, questinou Gina, a mãe mais orgulhosa do mundo. “Pois então, aí está o resultado”, concluiu. Gina lembra da fisionomia de espanto da médica que frustrou boa parte dos seus planos quando examinou Ana, portadora da síndrome de Down. Disse que o bebê demoraria a falar, a andar, a fazer suas coisas sozinhas. Antes, ouviu, ainda na maternidade, que a filha seria uma sucessão de fracassos. Quem inventou essa palavra jamais deveria direcioná-la para uma mãe de primeira viagem. Com um ano e um mês, Ana deu os primeiros passos. Falou pouco tempo depois. Aos oito, entrou na primeira

série. Aos 25, formou-se pedagoga. Aos 29, concluiu um curso de especialização. Tudo exatamente como nos sonhos de Gina e Waldir, campeões na arte de não desistir. Nenhum superlativo é capaz de definir o tamanho do amor desses pais. Amam um ao outro. Amam as duas filhas, sem qualquer tipo de distinção ou medida. A mais velha, Ana, está no centro das melhores histórias que eles conseguem contar. E repetir, milhares e milhares de vezes, sempre que alguém precisa ouvi-la. Era 12 de outubro de 1981 quando Ana chegou. O diagnóstico de síndrome de Down deixou os pais atordoados, sem saber o que fazer. “Levou um tempo para o chão voltar. Mas tínhamos duas opções: ou nos entregávamos ou íamos a luta. Ficamos com a segunda”, conta Waldir. A palavra que lhes daria absoluta certeza de que a criança tinha uma alteração na estrutura genética era totalmente desconhecida para o casal: cariótipo. O exame, uma espécie de fotografia dos cromossomos que confirma a síndrome, foi feito em Curitiba, onde encontraram o primeiro anjo da guarda, dos tantos que viriam a cruzar os seus caminhos. “Se vocês não quiserem uma situação deplorável para a filha de vocês, comecem imediatamente a estimulála”, disse o doutor Marçalo, como em uma sentença que ficaria marcada para sempre no destino dos três.

A casa era cheia de balões, de brinquedos estimulantes, de cores. Parecia um parque de diversões. Com um ano e um mês, ela andou. WALDIR FRUIT, pai de Ana Carolina Fruit

Uma casa mágica “Doutor Marçalo era um anjo, uma pessoa suave. Era bom estar perto dele e sentir aquela leveza toda”, lembra Waldir. E foi ele quem deu as primeiras dicas para o tratamento de Ana Carolina, ainda um bebê. Transforme sua casa num ambiente neurotizante. Invista em luz, em cor, em som, em barulho. Pau que nasce torto não precisa morrer torto, ensinou. A frase não ofendeu Gina. Muito pelo contário. Serviu como estímulo, como mola para um pulo ainda mais alto. Não escondam a menina. Não deixem ela num cantinho, como

se fosse quebrar. Ela precisa conviver com outras pessoas. As dicas do médico não paravam um segundo sequer de ressoar na cabeça dos pais. “A casa era cheia de balões, de brinquedos estimulantes, de cores. Parecia um parque de diversões. Com um ano e um mês, ela andou”, recorda o pai. O gesto impulsivo de Gina de levar a menina para mostrar para a médica era movido por uma certeza: não há batalha que não possa ser vencida. E essa era apenas a primeira vitória de um casal que, dali para frente, dificilmente teria motivos para chorar.

AN.com.br ■ Assista aos vídeos da série de reportagens.

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