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vila brás | são leopoldo | junho/2013 | edição 140

enfoque

cidadania

Ocupação Educação Mobilidade

Saúde

Cultura

Segurança

Emprego, negócio próprio e o sonho da loteria

Conhecer vai além de ensinar e aprender

Como andam os caminhos da Brás

Carências geram queixas e soluções emergenciais

Faltam opções, sobram talentos

Polícia de menos, problemas em excesso

Páginas 2 a 4

Páginas 6 e 7

Páginas 8 e 9

Páginas 10 e 11

Páginas 12 e 13

Páginas 14 a 16

Nathalie Abrahão

Temas da

Esta edição reúne assuntos apresentados ao longo do tempo pelos moradores da Vila Brás


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Opinião

Enfoque - Vila Brás, São Leopoldo - Junho de 2013

Carta ao leitor A terceira edição do Enfoque expõe expectativas de cidadania por ações que deveriam ser mais frequentes e, assim, transformadoras das rotinas de quem vive na Vila Brás. Um dos temas mais preocupantes da atualidade, as drogas, é um dos problemas enfrentados no bairro. O quadro, não muito distinto, de outros lugares, interfere na vida dos habitantes do lugar. A edição também mostra o lado das oportunidades da comunidade, que ocupam muitos jovens e traçam soluções singulares para quem busca uma carreira sólida e de sucesso. A mobilidade urbana também é abordada, evidenciando problemas no trânsito e uma tendência: a bicicleta como meio de transporte. Os problemas com a saúde parecem insolucionáveis, já que pais encontram dificuldades na busca por pediatras no bairro, mas, em contrapartida, há os medicamentos alternativos, que podem reduzir consideravelmente o custo de um tratamento específico. O tema educação não passou despercebido: a falta de vagas nas escolas parece ser um problema crônico e longe de uma solução. Torcemos para que essa edição sirva de reflexão para os gestores públicos e assim faça com que eles tomem atitudes que de fato possam solucionar problemas e moldar as oportunidades que lá habitam. GABRIEL DOS REIS Editor-chefe

O Enfoque é um jornal direcionado aos moradores da Vila Brás, em São Leopoldo/RS. A produção é dos alunos das disciplinas de Redação Experimental em Jornal e Fotojornalismo do Curso de Jornalismo da Unisinos. Fale conosco! (51) 3590 8463 / 3590 8466

enfoque

Universitários abordam gêneros jornalísticos com estudantes da Brás DA REDAÇÃO

U

m grupo de 60 estudantes de Ensino Fundamental, moradores da Vila Brás, participou de oficinas sobre gêneros textuais, ministradas com a participação de alunos da Unisinos. Os encontros, totalizando 16 horas/aula, foram realizados nos dias 24 e 31 de maio, em salas do Centro de Ciências da Comunicação, por colaboração dos cursos de pós-graduação em Linguística e de graduação em Jornalismo. A iniciativa partiu de Renata Garcia Marques, na dupla condição de aluna do Mestrado em Letras e de professora na Escola Estadual João Belchior Marques Goulart, de São Leopoldo. Os universitários, atualmente nos semestres finais do curso de Jornalismo, compartilharam com os estudantes da Vila Brás temas como a escolha do assunto a ser trabalhado como notícia, entrevista ou reportagem e das pessoas a serem entrevistadas em cada tema, além da importância de pluralidade na abordagem das matérias. Também evidenciaram as diferenças existentes nos tipos de textos para jornal, revista, rádio, televisão e internet e entre os gêneros tra-

Av. Unisinos, 950 - Agexcom/Área 3 - São Leopoldo/RS

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13 de abril

4 de maio

Junho

Letícia Rossa Luís Francisco Caselani Marcos Reche Ávila Matheus Kiesling Nádia Strate Natália Silveira Priscila da Silva Renata Santos Rita Rodrigues Yngrid Lessa [FOTOGRAFIA] Orientação: Flávio Dutra Fotos: Amanda Moura Amanda Nunes Ana Elisa Oliveira Bárbara Muller Camila Weber Cristina Link Daiane Trein Diego da Costa Diogo Rossi Eduarda Rocha Fabricia Bogoni

tados nas oficinas. Os alunos que ministraram as oficinas coordenadas pela professora Renata Garcia Marques e com a colaboração do professor responsável pela disciplina de Redação Experimental em Jornal, Nikão Duarte, foram Ananda Franco Garcia, Andressa Almeida Barros, Cristiane Aparecida Fernandes de Abreu, Daiane Dalle Tese Nunes, Dyeison Gomes Martins, Letícia Borba da Silveira, Letícia Franciele Rossa, Marcos Reche Avila, Mariana Staudt, Maurício Montano Reis Ott, Ná-

Renata Garcia Marques durante aula de Redação Experimental em Jornal

dia Regina Strate e Yngrid Lessa da Costa. Textos selecionados, produzidos pelos alunos da Vila Brás a partir do que foi abordado nas oficinas, serão publicados nas edições do Enfoque no segundo semestre deste ano.

ARTIGO

enfoquevilabras@gmail.com

Confira quando circulam as edições deste primeiro semestre:

[REDAÇÃO] Orientação: Luiz Antônio Duarte Edição e Reportagem: Alessandra Fedeski Camila Capelão Fernanda Schmidt Gabriel dos Reis (Editor-chefe) Juliana Fogaça Letícia da Silveira Mariana Staudt Maurício Montano Ott Reportagem: Ananda Franco Garcia Andressa Barros Angélica Pinheiro Cristiane Abreu Daiane Dalle Tese Dyeison Martins Fabrício Romio Fernanda Kern Greice Nichele Guilherme Endler Helena Caliari Jorge Leite

Alunos do Enfoque ministram oficinas

Felipe Gaedke Fernanda Kern Jacson Dantas Jéssica Pedroso Joana Dias Jonas Pilz José Francisco Matheus D’Ávila Michele Mendonça Midian Almeida Natália Scholz Nathalie Abrahão Rayra Krajewski Roberto Caloni Saimon Bianchini [ARTE] Agência Experimental de Comunicação (Agexcom). Projeto gráfico e supervisão técnica: Marcelo Garcia Diagramação: Amanda Heredia

Universidade do Vale do Rio dos Sinos - UNISINOS Av. Unisinos, 950, Bairro Cristo Rei - São Leopoldo/RS Telefone: (51) 3591 1122. E-mail: unisinos@unisinos.br Reitor: Marcelo Fernandes de Aquino. Vice-reitor: José Ivo Follmann. Pró-reitor Acadêmico: Pedro Gilberto Gomes. Pró-reitor de Administração: João Zani. Diretor da Unidade de Graduação: Gustavo Borba. Gerente de Bacharelados: Gustavo Fischer. Coordenador do Curso de Jornalismo: Edelberto Behs.

Redundâncias e contradições jornalísticas Luiz Antonio Nikão Duarte (Professor) O Jornalismo envolve algumas redundâncias, em contradição à sua perseguição pela objetividade. Uma delas refere-se ao uso de denominações iguais para situações diferentes. É assim com reportagem, usada tanto para designar a forma com que um assunto é abordado e o seu texto elaborado, quanto na referência à equipe de profissionais de um meio de comunicação. Idem com entrevista, palavra a expressar o ato de indagar alguém sobre o assunto de seu domínio, mas válido também para a apresentação de seu conteúdo, na forma de pergunta-e-resposta. Aqui no Enfoque, o fruto visível da disciplina de Redação Experimental em Jornal, do curso de Jornalismo da Unisinos, vive-se, também, esse pleonasmo como abordado acima – e, ainda, na própria prática, que resulta em três edições a cada semestre, a partir de saídas

regulares, de apuração, na Vila Brás, bairro cinquentão de São Leopoldo, na divisa com Novo Hamburgo, abrigo de cerca de 20 mil habitantes. São reconhecidas ao Jornalismo suas tarefas de revelar, traduzir e comunicar, em meio às quais é preciso superar etapas como selecionar assuntos, entrevistar, pesquisar e, quando for o caso, especular, denunciar. O Jornalismo, portanto, é naturalmente investigativo, porque se vale de técnicas apurativas; comunitário, porque exercido por delegação da sociedade e a ela (ou a parcelas dela) direcionado; e popular, por traduzir para uma linguagem comum termos que, na origem, podem ser herméticos e ininteligíveis. Sendo comunitário e popular por vocação, o Jornalismo, por consequência, é exercido na direção da cidadania. Denominar o Jornalismo como Investigativo, Comunitário, Popular ou Cidadão é, portanto, outra forma de redundância com a qual convivemos - inclusive neste exercício curricular.

A cada semestre, nosso desafio inclui levantar assuntos em correspondência com o interesse público; focá-los na direção dos leitores que, muitas vezes, são nossas próprias fontes; escrevê-los em linguagem acessível e tecnicamente corretos e, enfim, comunicar – numa abrangência que envolve ainda a observação crítica e resulta em notícias que, além de informar, podem agradar e desagradar leitores. Essa repetição rotineira de nossas práticas tem, no caso da atual experimentação em curso na disciplina, uma possibilidade a mais, a ser exercida nestes dias finais do semestre letivo: alguns de nossos alunos foram ministrantes voluntários em oficinas sobre gêneros textuais para estudantes de Ensino Fundamental residentes na Vila Brás – veja matéria acima. Vão ensiná-los a escolher temas, abordar fontes, realizar entrevistas e produzir textos a partir da sua realidade próxima. Com o perdão da redundância: há Jornalismo mais Cidadão do que esse?


Enfoque - Vila Brás, São Leopoldo - Junho de 2013

Empregos e Oportunidades

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Quem quer ser milionário? Apostas na loteria poderão ser feitas na Vila Brás

Elvira Ressler sonha construir um centro de recuperação de dependentes químicos

Alessandra Fedeski (Texto) JOSÉ FRANCISCO (Fotos)

A

oportunidade de apostar na loteria estará mais próxima dos moradores da Vila Brás. Nos próximos meses, a Avenida Leopoldo Wasun vai receber um novo empreendimento comercial. Um espaço a ser formado por uma farmácia, pela Ferragem Vieira e por uma lotérica. O responsável pela iniciativa é o empresário Valmo da Rosa, 37 anos, proprietário da Ferragem Vieira. “A Brás vai crescer ainda mais com as novas oportunidades de emprego e renda que estamos criando”, afirma Valmo, que vê no local a expansão do seu próprio negócio. Com a perspectiva de uma lotérica dentro da Vila, o Enfoque conversou com os moradores para saber o que cada um faria se ficasse milionário.

“Ajudo quem eu posso e com as condições que tenho”, declara. O aposentado João Ribeiro, 83 anos, tem o sonho de comprar uma fazenda e voltar para o interior de Santa Rosa, sua cidade natal para estar mais próximo dos parentes. A Vila Brás crescendo e se desenvolvendo Para a doméstica Mari Flores dos Santos o desejo maior, se ficasse milionária, é construir um centro de recuperação para dependentes químicos. “Aqui na Vila Brás tem muita gente precisando desse tipo de ajuda, a situação está difícil. Mesmo não tendo condições, eu tento ajudar a comunidade da maneira que posso”. Elvira Ressler sente um desejo semelhante ao de Edita. “Se eu tiver oportunidade de ficar rica, ajudaria aqueles que mais precisam: drogados, idosos, crianças.” João da Silva, 49 anos, tem o desejo de ver o local em que mora prosperar. “Se eu ganhasse na loteria, faria aqui uma quadra esportiva para toda a comunidade”.

Família em primeiro lugar A dona de casa Edita Bonassim, 58 anos, daria prioridade para a sua família. “Eles sempre estão precisando, seriam os primeiros a receber alguma coisa caso um dia eu venha a ganhar”, comenta. Airton da Silva Machado, 45 anos, realizaria o sonho dos familiares. Um homem bastante religioso, Airton acredita que sua fé o conduz e o faz hoje ajudar muitas pessoas.

Empreendimento já está em fase de finalização

Seu negócio ainda mais profissional Maurício Montano (Texto) DAIANE TREIN (Fotos) Lojas de roupas, bazares, lancherias, oficinas, salões de beleza. É possível encontrar vários desses pequenos negócios. São alguns exemplos dos estabelecimentos que caracterizam o comércio da Vila Brás. Aparentemente fáceis de abrir e simples de administrar. Mesmo iniciando com um investimento modesto, podem-se conseguir bons lucros. Para isso é preciso um pouco de planejamento e especialização. Jaqueline Oliveira, 22, largou a sala de aula de educação infantil para atender em sua própria loja. A Casa da Erva foi ideia do pai, mas ela é quem administra há quatro meses, desde a inauguração. O irmão auxilia na compra dos itens e apresenta os fornecedores, pois já trabalha no ramo há alguns anos. Jaqueline sabe que tudo que tirar da loja ela deve repor ao caixa em dinheiro. Pensa em um dia fazer vestibular para gestão financeira. Está no caminho certo, mas é possível aprender a planejar e tornar o negócio auto-sustentável antes de chegar à faculdade. Comprar certo, calcular preços, aprimorar atendimentos, planejar lucros e despesas, são algumas das habilidades que podem ser aprimoradas através

de cursos rápidos e de fácil acesso. Assim como Jaqueline, Carla Pol também garante que é mais lucrativo empreender do que ser empregado. De funcionária de gráfica passou à dona de seu próprio negócio. Hoje faz artes gráficas e banners para vários outros comerciantes do bairro. Ela é uma Micro Empreendedora Individual - MEI, uma das modalidades para quem quer começar. Já investiu em maquinário e construiu o local onde agora funciona o escritório e serigrafia. No momento de registrar a empresa, Carla foi instruída de como gerenciar de acordo com a classificação que ela está enquadrada, mas também não tem conhecimentos mais aprofundados sobre gestão empresarial. Quem quer empreender consegue ter acesso a palestras gratuitas, oficinas e cursos de curta duração que são oferecidos em São Leopoldo e cidades da região pelo próprio serviço que registra as empresas, o SEBRAE. É possível encontrar cursos que ensinam desde empreender até agregar valor e diferenciar o seu negócio em relação aos concorrentes. As situações de Carla e Jaqueline são semelhantes à de muitos outros comerciantes na Vila Brás. Um local onde existe muita oportunidade para empreender e crescer com profissionalismo.

Jaqueline Oliveira pensa em expandir o seu negócio estudando Gestão Financeira na faculdade

Empresa de Carla Pol faz serigrafia para os comerciantes locais


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Empregos e Oportunidades

tal fi lho

, i a p l a T

Pedreiro há mais de cinco anos, Gustavo (à direita) descobriu sua vocação através do exemplo de Pedro

Priscila da Silva (Texto) Joana Dias (Foto)

Q

uem nunca sonhou em ter a casa própria? O planejamento e a construção de moradias são atividades destinadas aos profissionais da Engenharia Civil, mas quem realmente coloca a “mão na massa” são os pedreiros. Morador de um dos maiores bairros de São Leopoldo, a Vila Brás, Gustavo da Silva Rosa, 24 anos, apesar da pouca idade, já materializou alguns sonhos na comunidade em que vive há mais de uma década. Gustavo conta que o inte-

Enfoque - Vila Brás, São Leopoldo - Junho de 2013

resse pela profissão surgiu na infância, quando começou a acompanhar seu pai, Pedro Francisco da Silva, 42 anos, em diversos trabalhos que ele realizava. Pedreiro há mais de 20 anos, Pedro se tornou referência para o filho. “Muitas pessoas pensam que pedreiro não tem valor nenhum. Pedreiro tu encontra uns dez no bar para entrevistar, mas os que trabalham de verdade são poucos”. Inconformado com o descaso de alguns colegas de profissão e sustentado no exemplo recebido do pai, Gustavo conta que algumas vezes já pensou em desistir, mas por perceber que seu trabalho é reconhecido no bairro, resolveu continuar. Segundo ele, ser pedreiro proporcionou a aquisição de sua casa, seu carro e contribuiu na formação de sua família. Casado e pai de um menino, Gustavo conta que a esposa implica com a profissão, da mesma forma que sua falecida mãe, pois ambas sempre enfatizaram a desvalorização do trabalho que realiza e o fato de residirem em uma vila. “Uma vez, recomendaram meu serviço para um senhor que não mora aqui na Brás. Ele entrou em contato comigo e

passei os valores e os prazos, tudo direitinho. O cliente concordou com tudo, mas quando descobriu que eu morava na vila, mesmo sabendo das obras que fiz e da qualidade delas, acabou desistindo e fiquei na mão”, desabafa. Uma de suas construções pode ser localizada na Rua “Q”, esquina com a Avenida Leopoldo Wasun, principal rua do bairro. A obra está sendo realizada em parceria com seu pai e, em breve, será concluída. Além disso, em Novo Hamburgo, um prédio comercial está em fase de edificação, também pelas mãos de Gustavo. Colocação de cerâmica e azulejo, consertos de banheiros e instalações elétricas, também integram as atividades que desempenha. O acabamento é a parte da obra que ele mais gosta de fazer, pois envolve questões como pintura, reboco e outros retoques finais. “A finalização é o que realmente mostra o meu trabalho, pois é a partir dali que as pessoas conseguem visualizar aquilo que eu faço”, completa. Quem quiser contratar os serviços de Gustavo, pode entrar em contato pelo telefone (51) 8414-7447.

Mercado em plena expansão Andressa Barros (Texto) BÁRBARA MÜLLER (Fotos) Mulheres são vaidosas por natureza. Cada vez mais frequentam o salão de beleza para pintar as unhas, fazer mechas no cabelo, etc. Estão sempre querendo novidades. As empresas de cosméticos se deram conta disso e vêm investindo nos mais variados tipos de produtos. No momento, a tendência são os esmaltes, que são considerados acessórios. Hoje temos uma infinidade de tons, acabamentos e marcas. Com esse crescimento, o mercado de manicures foi ampliado. Ivanete Betinardi, 49 anos, trabalhava em uma empresa de calçados até o ano passado, quando se aposentou, e resolveu investir na carreira para complementar a renda familiar e ocupar seu tempo. “Sempre gostei de fazer unhas, quando trabalhava, dava um jeitinho de marcar as clientes ao meio dia”. Ela fez alguns cursos profissionalizantes para ir se atualizando, mesmo enquanto estava em outra área.

Ivanete conta que ainda está sendo conhecida na comunidade como manicure, mas está satisfeita com a clientela. Acredita que ainda há bastante espaço no mercado. Ana Paula Machado, 22 anos, abriu o estabelecimento próprio em janeiro deste ano. Começou a aprender, sozinha, aos treze anos e aos quinze já foi trabalhar profissionalmente. “Fazer unha, para quem gosta, é um lazer. Quem não gosta, não cresce na profissão e fica sempre

Ana Paula dispõe de uma grande variedade de produtos em seu salão

de mau humor”. Ana, que fez curso de Nail Art (Decoração para unhas), conta que a maioria das suas clientes tem preferência por unhas personalizadas: “tem cliente que faz a unha em outro salão e vem aqui para eu decorar”, complementa. Ela crê que o mercado está em expansão e cita exemplos de pessoas que moram em outras cidades, e são clientes dela. Agora, ela pretende voltar a estudar, fazer uma faculdade. “Quero crescer na Brás!”, enfatiza.


Empregos e Oportunidades

Enfoque - Vila Brás, São Leopoldo - Junho de 2013

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A confiança como condição de trabalho Nas comunidades em crescimento como a Vila Brás, a qualificação de profissionais fica em segundo plano

LETÍCIA ROSSA (Texto) Amanda Moura (Fotos)

O

s grandes centros urbanos não se diferenciam das comunidades em ascensão, como a Vila Brás, apenas no que diz respeito à dimensão de seu território e aos índices populacionais: a distinção também está na forma de trabalho. Enquanto nas regiões mais centrais dos municípios o que se mostra relevante é a qualificação dos profissionais, nas localidades em fase de crescimento o que pode cativar o empresário é a disposição e confiança no funcionário. Um exemplo visível na Brás é o de Solange Blauth. Desde que criou sua empresa há oito anos, ela dá preferência aos familiares no momento da contratação. De acordo com ela, a confiança no futuro colaborador é um item fundamental para que se estabeleça uma relação sadia entre patrão e funcionário. “Para que eu não tenha dúvidas de que minha loja esteja em boas mãos, prefiro trabalhar ao lado de minha filha e prima”, conta a proprietária da Sol Modas. O caso se repete na família Hoch, que há 15 anos mantém viva na Brás a Agropecuária Terra Nativa. O empreendimento é liderado por José Ernesto Hoch e sua esposa Eva Beatriz. O filho do casal também colabora nas

atividades do negócio – o que indica outra vertente bastante comum no bairro: as empresas familiares. “Sempre fomos somente nós três no comando da agropecuária. Se eu fosse contratar alguém de fora, daria preferência por alguém da própria Vila”, explica o empresário. Além da proximidade do profissional com a Brás, as características observadas no momento da contratação ficam distribuídas dentro de categorias como experiência e boas referências. “Os cursos de qualificação não importam muito. Desde que a pessoa tenha disposição ela pode ser contratada”, completa José Ernesto. Essas qualidades podem ser encontradas na relação empregatícia estabelecida entre Régia dos Anjos e seus superiores na Madebras Materiais de Construção. Ela conseguiu a oportunidade devido aos sogros serem os proprietários do local. “Acredito que o fato de eu ser confiável contribuiu para que eu tenha sido contratada ao invés de outra pessoa. A qualificação não é a prioridade”, afirma.

tratação de funcionários por meio da confiança continua em evidência nas comunidades em fase de expansão. A consultora de Recursos Humanos, Janice Laner, explica que este fenômeno se dá pela proximidade que o contratante quer estabelecer com o funcionário. “Localidades interioranas se caracterizam pela familiaridade que a comunidade tem com as empresas. No momento de contratar um colaborador, é nisso que o proprietário ou gerente pensa”, explica. Na Vila Brás, por exemplo, este é o fator que motiva a escolha de funcionários que residam no próprio bairro ao invés de pessoas vindas de fora da região.

O centro comparado à comunidade

Equipe da Sol Modas (à esquerda) e proprietário da Agropecuária Terra Nativa (acima) integram empresas familiares

Apesar da intensa busca pelo aperfeiçoamento profissional, a con-

Moradores garantem renda sem sair da Brás Renata Santos (Texto) Cristina Link (Fotos) Na Avenida Leopoldo Wasun, a principal da Vila Brás em São Leopoldo, é possível encontrar diversos estabelecimentos comerciais espalhados ao longo da via. Muitos são administrados por famílias que juntas trabalham para gerar renda e viver do próprio negócio. Mas a participação dos comerciantes para

aquecer a economia na Brás vai além, é que muitos acabam por adquirir a mão de obra dos próprios moradores do local, oferecendo oportunidades de emprego e renda fixa. Um exemplo é o comerciante Audemir do Nascimento Vieira, aos 43 anos e natural de Três Passos, no noroeste do Estado, chegou à Vila Brás há 28 anos, dos quais há 15 trabalha como comerciante. O proprietário do

Supermercado Vieira investe nos moradores da Brás oferecendo a eles a chance de entrar para o mercado de trabalho. Dos seus 14 funcionários, sete residem na Vila, entre eles a operadora de caixa Dorilde Muller, que aos 42 anos e mãe de dois filhos, acredita que morar e trabalhar na Brás tem suas vantagens. “Há três anos trabalho no supermercado, e morar aqui perto me proporciona a tran-

quilidade de poder estar mais tempo com meus filhos, almoçar junto com eles e conseguir organizar melhor a casa.” Já Reni Vieira Cardoso, natural do município de Três Palmeiras, na região norte do Estado, é funcionário do supermercado há pouco mais de um ano. O açougueiro garante que a principal vantagem de morar próximo ao emprego é a economia em relação ao transporte e que o ônibus

pode ser facilmente substituído diariamente por uma bicicleta. Os comerciantes do local preferem contratar a mão de obra dos próprios moradores. Aos 32 anos, a comerciante Sabrina Reis reside há quatro anos na Vila Brás. Foi na Avenida Leopoldo Wasun que estabeleceu seu bazar e conta com a ajuda de duas funcionárias. Uma delas é a vendedora Jeniffer da Costa Massirer, que aos 18 anos trabalha há pouco mais de um mês no Multi Bazar Sintonia. Para a jovem, as vantagens de trabalhar na Brás são inúmeras. “Moro a uma quadra do meu emprego, consigo poupar o dinheiro do transporte e tenho a facilidade de estar perto de casa. Eu até já tive a oportunidade de conseguir emprego fora daqui, mas prefiro estar trabalhando na Brás,” conclui Jeniffer. As oportunidades de trabalho que surgem na Brás, acabam por aquecer a economia local, que por sua vez gira em torno da própria comunidade. Com as chances criadas pelos comerciantes do local, a vila acaba por disponibilizar aos seus moradores inúmeras vagas de emprego e a possibilidade de se estabelecerem no mercado de trabalho.


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Educação

Enfoque - Vila Brás, São Leopoldo - Junho de 2013

Fila para o conhecimento Falta de vagas nas escolas estaduais de ensino médio preocupam pais e alunos JORGE LEITE (Texto) Nathalie Abrahão (Fotos)

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lgo que de deveria ser básico e essencial, como direito em escolas estaduais de ensino médio, torna o acesso à educação sinônimo de luta e conquista. Em muitos casos a falta na continuidade dos estudos causam problemas maiores, além da falta de aprendizagem. É o caso de Zequeu, 16 anos, que está esperando por uma vaga desde o início do ano. O ex-aluno da Escola, atualmente faz o curso profissionalizante de marcenaria no SENAI Gustavo Copé, em Novo Hamburgo. Zequeu recebe uma bolsa auxílio de R$300 pelo curso. Com o dinheiro que ganha, ajuda a mãe, paga os vale-transporte e com que sobra compra roupas. “Além de ficar sem estudar, corro o risco de perder minha vaga no SENAI” lamenta. O SENAI oferece cursos gratuitos de aprendizagem, o único critério é que o aluno esteja matriculado regulamente na escola ou concluído o Ensino Médio. A mãe, Arminda Forcos, 40 anos, conta que no início do ano letivo procurou vaga nas escolas do Centro. “O pai dele preencheu um cadastro no Ginásio Municipal Celso Morbach, sem sucesso. Eu também tentei, e não consegui”. Ela comenta que alguns alunos

são encaminhados pela escola. No caso do filho, faltou o número de um documento. A vice-diretora da João Goulart, Soleci Schuch, informou que as inscrições devem ser feitas pela internet. No entanto, levando em consideração a situação de muitos alunos, que não têm acesso, tentam ao máximo fazer essa articulação. “Além de fazer campanha e alertar os pais e alunos, fazemos algumas inscrições, juntos aos alunos que têm dificuldade em realizar o processo, mas é uma responsabilidade exclusiva deles e dos pais acompanharem”. No caso do filho da Maria Sueli Paim, 42 anos, o risco é de perder o emprego. Wilian Paim, 17 anos, trabalha em um mercado. Até então, ele tinha parado de estudar para trabalhar. Segundo a mãe estava inviável pagar condução até o Centro. “Hoje em dia, os jovens trabalham ou estudam, mas sem trabalho não tem condições de pagar as passagens”. Ambas as mães concordam que o mais adequado seria abrir turmas de ensino médio nas escolas existentes no bairro. Assim, facilitaria a vida dos alunos e não prejudicaria ninguém. Maria ve a falta de profissionais como um dos principais motivos. “Deveriam valorizar os profissionais, pois é a falta de professor que impede que abram novas turmas”.

Um lugar para estudar e aprender Camila Capelão (Texto) Midian Almeida (Foto) Ter escola em número suficiente é fundamental para o desenvolvimento dessa geração. Os moradores da Brás, com filhos em idade escolar ou que necessitam de creches, apontaram os seguintes problemas: a falta de vagas em escolas de educação infantil, segurança, falta de professores e a falta de escola de ensino médio na Vila. Adão de Oliveira teve seus filhos formados na escola João Goulart, aliás, uma filha e uma neta ainda estudam no colégio. Uma preocupação toma conta da vida do comerciante “Vou tirar as meninas da escola. Toda semana na saída tem brigas, os alunos não se respeitam”, diz.

Para Vani Nunes, as preocupações são outras, com um filho na sétima série: “No ano que vem, Carlos Eduardo vai estudar no centro. Porque a escola de Ensino Médio não saiu do papel”, conta Vani. A falta de professores também é outro problema. “Muitas vezes meu filho volta para casa cedo porque não tem professor”, desabafa. Silvana Fochesatto precisou sair do emprego para cuidar de Luiza, dez meses. “Pagava para cuidarem dela, mas meus horários mudaram, sigo esperando uma vaga”, diz. O mesmo acontece com Andrea Lisboa, mãe de Andrey de sete meses. “Saí do ateliê e estou tentando vaga há dois meses, mas até agora nada”, diz. A difícil tarefa de conseguir uma creche na durou um ano para Patrícia Bonfim, mãe de Kamilly de quatro anos. “Kamilly vai à creche há dois anos, mas foi difícil”, conta Patrícia.

Vagas são poucas para as necessidades da comunidade

Zequeu vê no curso sua profissão

Pais aprovam João Goulart

HELENA CALIARI (Texto) AMANDA NUNES (Fotos)

A única instituição de ensino da Vila Brás, a Escola João Goulart, lugar onde os pais dos alunos encontram ensino e segurança para seus filhos. Os moradores do bairro não têm do que se queixar, afirmando que o colégio é um dos melhores lugares da Vila para as crianças. “Moro há 25 anos aqui e nunca tive problemas com a educação”, conta Maria Porto, 59 anos. Ela tem três netos e uma bisneta matriculados na instituição. Maria trabalha em um posto de saúde de outro bairro da cidade e passa o dia fora de casa. “Acho que a escola deveria oferecer mais horários para as crianças poderem passar mais tempo lá, o que deixaria os pais mais tranquilos, já que no colégio eles estão em segurança”, relata. Os três filhos da diarista Clara dos Santos, 40 anos, também passaram pelo colégio. “Minha fi-

lha se formou em 2009, e meu filho no ano passado. Agora tenho o caçula estudando aqui”, conta. Clara alega que nunca passou pela sua cabeça tirar seus filhos da instituição. “Já tive problemas dentro do colégio, mas sempre gostei muito do ensino e da educação que a escola oferece.”

O filho mais novo, Alef dos Santos, 12 anos, está cursando o 6º ano na escola e conta que é bem acolhido pelos professores. Clara concluiu dizendo que além de ensino, seus filhos aprenderam a respeitar o próximo. “Depois de começar a frequentar a escola, eles passaram a respeitar mais, a ouvir mais”. Hoje, a filha mais velha de Clara, Pâmela, 18 anos, é formada no Ensino Médio e no próximo ano irá cursar Design de Interiores. Pâmela concluiu o Ensino Médio no Instituto Pedro Schneider e seu irmão, Kelvin, 15 anos, está cursando o 1º ano na mesma instituição.

As famílias de Maria de Lourdes (acima) e de Clara dos Santos reconhecem méritos no ensino disponível na Vila Brás


Educação

Enfoque - Vila Brás, São Leopoldo - Junho de 2013

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Pais confiam na educação infantil Familiares acreditam que a participação deles nas atividades escolares contribui para o desenvolvimento das crianças ANANDA FRANCO GARCIA (Texto) JÉSSICA PEDROSO (Fotos)

Y

asmin Briscke tem só três anos, mas já diz ser a ajudante da professora na creche onde estuda há um mês. “Ela gosta de brincar com os mais novinhos e diz que está cuidando deles, é uma graça.”, conta a mãe Ana Paula Fernandes. No período em que está na creche, a menina realiza diversas atividades que desenvolvem sua atenção e criatividade. Segundo Ana Paula, o envolvimento da filha nas atividades se reflete

nos momentos em que ela está em casa. “Vemos que ela está gostando. É comunicativa e nos conta das tarefas do dia”. Para a comerciante, que administra uma lan house na Vila Brás, ter matriculado Yasmin na creche foi a escolha certa. “Ela ficava comigo no trabalho até eu perceber que além de tomar meu tempo enquanto eu atendia os clientes, a Yasmin acabava indo para a rua encontrar outras crianças e eu a perdia de vista. Agora eu fico tranquila, porque sei que ela está aprendendo coisas novas em um local seguro”, aponta.

A auxiliar de serviços gerais Tatiana Porto também está satisfeita com a instituição onde seu filho Dimitry Porto (5) cursa a pré-escola. A atenção das professoras e o diálogo constante com a família são os fatores que, para ela, mais contribuem. “Não tenho do que reclamar. A escola sempre mantém contato comigo ou com o meu ex-marido e participamos das reuniões e das confraternizações que a escola promove”, afirma. A avó Inês Porto percebeu que o menino já sabe contar e escrever o nome. “É em casa que a família pode reparar

Silvana quer que os filhos estudem em uma escola onde possam aprender sobre as diferenças

se o que ensinam na escola está dando resultado”, considera. Educação Inclusiva Se depender da mãe, Silvana Moraes, a educação dos seus filhos Rafaela (5) e Luís Gustavo (3) será marcada pelo respeito às diferenças. Assim que concluir a pré-escola, no final do ano, o próximo passo será matricular a menina em uma escola especial. Apesar de ser voltada para o público surdo e mudo, a dona de casa conta que a instituição, localizada no bairro Cristo Rei, abre um número limitado de va-

gas para estudantes sem deficiências, para que eles auxiliem os colegas com necessidades e aprendam a linguagem de sinais. “Outro diferencial é que as turmas são compostas por apenas 12 alunos, então tenho a segurança de uma educação inclusiva e de qualidade”, aponta Silvana. Ela acredita que a formação educacional dos filhos deve começar na a infância. “Eu quero que eles estejam preparados para lidar com as diferenças dos outros e também para aprender com elas. Além disso, saber a linguagem de sinais pode ser um diferencial no futuro dela”, acrescenta.

Ana Paula colocou a filha Yasmin na creche para ter mais tranquilidade enquanto trabalha

Moradores geram danos ambientais Lixo descartado no arroio e queimadas causam erosão

Marcos Reche Ávila (Texto) Ana Oliveira (Fotos) O descarte de lixo doméstico a peças de vidro estilhaçadas são frequentes no Arroio Gauchinho. Sua água é turva e preta, com cheiro forte. “Como as pessoas não tem como pagar alguém, jogam no rio. Na visão das pessoas o rio não é de ninguém e levam pra outro lugar o problema”, aponta o professor de engenharia ambiental, Carlos Alberto Moraes, 48 anos. O morador Lino de Lima, 64 anos, mostrou erosões causadas por queimas da vegetação em torno do Arroio. “Quando cresce o capim, queimam. Não deixam as sementes germinar”. Antes das queimas a vegetação era composta por um número muito grande de Maricás, arbustos altos e largos que ajudavam a conter a força das chuvas. Em 2008, São Leopoldo passou pela maior cheia dos últimos 25 anos e quase levou a água do Rio dos Sinos para o Arroio Gauchinho. O professor Moraes explica que ao chover a terra das erosões é lavada e aumenta o nível do rio. A profundidade da barragem natural, feita de vegetação,

diminui. “Quando chove há mais alagamentos”, conclui. “Queima gera gás carbônico”, lembra. Folhas secas viram matéria orgânica e são um adubo natural tão bom quanto os industrializados. “Agora no outono, as folhas caem e tendo a limpar, varro e co-

loco numa composteira”, diz. Há várias residências na Brás com materiais para construção, como areia e brita, obstruindo calçadas e ruas. “A areia vai acabar entupindo os bueiros”, avisa o professor. Existe uma resolução do Conselho Nacional de Meio

Ambiente (Conama), que impede o entulho de materiais em vias públicas. Alexsandro Pol, 23 anos, estava parado em uma rua sem nome, em frente ao local conhecido como campinho, observando a invasão e demarcação com fitas do

terreno para assentamento. “Não se sabe nem se é área verde (áreas de proteção ambiental)”. O terreno não foi totalmente invadido porque parte é utilizado para jogar entulho e galhos. “Contratam catadores para retirar das suas casas e jogar na área do campinho”, mostra. “O entulho deve ser levado a um local próprio para resíduos e não em terrenos baldios”, orienta Moraes. Há lixo espalhado por toda a Avenida Leopoldo Wasun, jogam lixo até mesmo em frente às lixeiras. Danos urbanos também são comuns, Solange da Rosa, 35 anos, aponta que há muitas pichações e quando os donos das casas pintam as paredes e muros, picham novamente. A moradora ainda denuncia que o corrimão da rampa de acesso para deficientes físicos ao posto de saúde foi depredado e arrancado. Moradores reclamaram aos agentes do posto a reposição de um novo, mas não foi feito nada.


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Mobilidade

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Enfoque - Vila Brás, São Leopoldo - Junho de 2013

Bicicleteiros pedem passagem Gabriel Reis (Texto) Natália Scholz (Fotos)

Do asfalto ao pó

Na Vila Brás, se consegue contar nos dedos quantas ruas são asfaltadas. E esse é um problema antigo e motivo de reclamações por parte dos moradores da comunidade

A influência do trem na vida dos moradores Greice Nichele (Texto) Fabricia Bogoni (Fotos) A utilização do novo meio de transporte disponível à população da Vila Brás se resume basicamente a passeios e atividades de lazer. Como a maioria das pessoas trabalha em Novo Hamburgo, o ônibus continua sendo o mais utilizado. Porém, os moradores comemoram a passagem da linha de trem como item que contribui para a valorização da Brás. Para Madalena Stedile, 47 anos, que trabalha no Hospital Unimed em Novo Hamburgo há 10 anos, a chegada do trem não causou um grande impacto, pois ela ainda depende de ônibus para se deslocar. “Minhas sobrinhas é que utilizam mais para ir ao jogo do Inter. Para mim, é mais para ir a outras cidades comprar alguma coisa mais barata”, explica. Segundo Madalena, o valor da passagem, mais acessível que do ônibus, é um diferencial. Mas falta infraestrutura de acesso à estação por dentro da Brás e integração com linhas de Novo Hamburgo. “Aqui atrás tem uma rua que daria direto na estação, mas é cortada pelo valão e, em certos horários, não é seguro andar por ali. Ideal seria que tivesse uma integração com os ônibus da Hamburguesa, isso facilitaria”. O aposentado Aldi Vieira de Assunção, 58 anos, revela que trabalhou nas obras de construção do trem como marteleiro. Hoje, utiliza o meio somente para passear nas casa de amigos em Canoas ou Porto Alegre. “Para o centro de São Leopoldo não é vantagem. Nesse caso o ônibus é mais prático. A estação fica muito longe do centro”, explica. A família Moraes, residente na Brás desde sua fundação, considera o acesso ao trem como um avanço para a comunidade. Eva Moraes, 59 anos, conta que, para visitar sua irmã em Pantano Grande, precisava se deslocar até o centro de São Leopoldo para poder ir à rodoviária de Porto Alegre. “Agora pego o trem aqui e vou direto à rodoviária”, comemora. O filho Tarcis Moraes, 34 anos, chama a atenção para o aumento do número de veículos nos arredores da Brás e para as obras de lazer no entorno da linha. Segundo ele, ainda falta sinalização de trânsito para evitar os acidentes que passaram a ocorrer com mais frequência, com os carros que usam rotas alternativas para fugir da BR116. O patriarca da família, Marino Moraes, 66 anos, aponta para a valorização do bairro. “Depois do trem, os imóveis aqui e nos arredores ficaram muito mais valorizados, teve muitas construções grandes e bonitas”, finaliza.

Juliana Freitas (Texto) Saimon Bianchini (Fotos)

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princípio, umas das únicas ruas que recebeu asfalto é a avenida Leopoldo Wasun, e a da Escola João Belchior Marques Goulart. As outras, o máximo que fazem é colocar paralelepípedos, quando colocam. Dari Cresta Severo, pedreiro morador da Rua das Peônias, a qual não existe nenhum tipo de calçamento, reclama dos problemas que surgem com a falta de asfalto e da má vontade da Prefeitura em solucionar o problema. “Quando chove, enche tudo de água. De vez em quando a Prefeitura vem e dá uma patrolada, mas aí arrumam as outras e esquecem o resto”, diz. Na rua Lyons Padre Réus, a situação

se repete. Apesar das promessas feitas, a rua continua sem asfalto, prejudicando quem mora ali. “Era para passar até ônibus. Alaga tudo quando chove”, conta a dona de casa Patrícia Borba da Silva, de 35 anos que lembra que ligações para a Prefeitura pedindo o calçamento das ruas não faltam. “A gente liga, liga, mas não adianta”, diz. Na Rua dos Ibiscos, o calçamento é de paralelepípedo. De acordo com o mecânico José dos Santos, era muito pior. “É perigoso. Além de estragar os carros, ainda tem o pó, que não deixa nada limpo. Trabalho há oito anos aqui e digo que era pior, pois era de chão batido”, conta o mecânico. No meio da rua, há uma pequena lombada, fazendo com que muitas pessoas sofram acidentes e atrapalhando o circular

dos transeuntes. “Essa semana uma mulher quase caiu de moto por causa dessa lombada”, lembra José que teve que retirar uma parte dessa lombada, para que sua mecânica pudesse ser acessada pelos seus clientes. O Secretário Municipal de Obras, Rudimar Couto, explica que o grande problema é a falta de recursos para viabilizar o asfaltamento das ruas que ainda se encontram em situação precária. “Para este ano, não há previsão, devido às demandas antigas que ainda não foram atendidas. Mas em 2014 terá reuniões do Orçamento Participativo para receber as demandas das comunidades. Esperamos que, a partir do ano que vem, possamos atender a demanda da Vila Brás”, explica Rudimar. Além disso, há um projeto

em curso solicitando recursos para as demandas que serão recebidas. “Devemos lembrar que, para a Prefeitura, também é interessante o asfaltamento daquela região. Cada vez que a patrola

tem que ir até à Brás, é um custo. Com o asfaltamento, isso não ocorrerá, acarretando economia para a secretaria e possibilitando investimentos em outras demandas”, diz o secretário.

A questão do transporte público na Vila Brás não é diferente do encontrado em muitas cidades do país. Atrasos, ônibus lotados e paradas em situações precárias são constantes desafios que os moradores enfrentam para se deslocar. As reclamações vão desde a demora entre um ônibus e outro, até a falta de um local propicio para a espera do transporte. “Se você perder um ônibus tem que esperar mais de 40 minutos até o próximo”, comenta Leandro Rodrigues Antunes, 25 anos, ajudante de vendas em um consórcio. Leandro utiliza o transporte duas vezes por dia, e conta que as piores situações são nos horários de pico, às 7hs e às 18hs. “O pior é quando o pessoal está indo trabalhar, ou voltando do serviço. Nestes casos é difícil encontrar lugar nos ônibus”, explica. A auxiliar de produção, Mariglei

Alves Isbarrolo, de 44 anos todos os dias pega transporte até o bairro Feitoria. Ela reclama do tempo de espera que tem que enfrentar. “Na minha opinião, deveria ter mais horários e mais opções de linhas”. A situação piora nos finais de semana. De acordo com a aposen-

tada Maria de Souza, de 68 anos, às vezes os ônibus demoram mais de uma hora para passar pelo local. “No domingo, a situação é muito complicada, porque a gente tem que esperar muito tempo para ir a qualquer lugar”, explica. A questão das paradas também

Falta de paradas é um problema para moradores

Rafael se preocupa com o meio ambiente

Ciclovia na Brás A arquiteta da Diretoria de Mobilidade Urbana de São Leopoldo, Fátima Ramos, revela que há uma proposta de projeto de ciclovia para a comunidade, mas não estabelece prazos. “Nossa intenção é contemplar o bairro Vila Brás. Mas ainda não contamos com uma data para a realização dessa obra”, finaliza.

O mecânico José ressalta o perigo da falta de um bom calçamento

Transporte público gera descontentamento Fabrício Romio (Texto) Jonas Pilz (Foto)

O volumoso bairro Vila Brás, que abriga cerca de 14 mil habitantes, conta com um considerável tráfego de bicicletas, principalmente na Avenida Leopoldo Wasun. O estudante Rafael Schartz Bach utiliza a bicicleta como meio de transporte há quatro anos e sua preocupação vai além da facilidade de se locomover. “A bicicleta facilita muito a minha mobilidade no bairro e é um meio de transporte que não polui”, afirma. Ele não deixa de citar a falta de respeito dos motoristas com os bicicleteiros. “Falta muita coisa (com relação a ciclovias), inclusive mais respeito dos motoristas conosco. Uma ciclovia solucionaria o nosso problema e incentivaria outras pessoas a utilizarem a bicicleta como um meio de transporte”, completa Bach. É muito comum a circulação de pessoas com bicicletas na comunidade, não só para passeio, mas no deslocamento para a escola ou do trabalho para casa. Há quem utilize a bicicleta para diversas atividades, caso de Cirlei Rodrigues de Vargas, auxiliar de serviços gerais, que utiliza sua “magrela” para se deslocar até o serviço e levar seu filho pra escola. “Faz uns vinte anos que a utilizo (bicicleta) para me locomover. Vou para o serviço, levo e busco meu filho na escola, é uma fiel escudeira”, conta sorrindo Cirlei. Ela também acredita que uma ciclovia no bairro ajudaria bastante na organização do trânsito. “Acho que falta uma ciclovia aqui no bairro. Pois há muitos bicicleteiros aqui e os motoristas não nos respeitam”, revela.

é uma reclamação constante da população. Muitas se encontram esburacadas, sem telhado e bancos, ou praticamente não existem. Em uma rápida passada percebe-se que apenas um lado da avenida Leopoldo Wasun possui locais específicos para espera. “Em dias de chuva a gente se vira como pode, ficando embaixo das marquises”, explica Maria. Além disso, há a reclamação que os próprios moradores depredam as paradas, o que acaba atrapalhando. Porém, nem todos reclamam. Para Alessandro Contenda, de 30 anos, a situação do transporte público está boa na vila. “O único problema é o ônibus para Novo Hamburgo, que é um pouco mais demorado”. De acordo com a Diretoria de Mobilidade Urbana, órgão ligado à Secretaria de Planejamento da Prefeitura de São Leopoldo, a questão do transporte coletivo deverá ser prioridade nos próximos anos. Em nota, a diretoria informou que a

questão na Vila Brás será reavaliada e, se necessário, ampliado e reformulado, bem como a situação das paradas de ônibus.

Leandro reclama da espera

Mariglei diz que situação piora nos fins de semana

Sirlei tem a bicicleta como sua escudeira

Falta sinalização dentro da Vila Brás Renata Gomes (Texto) Natália Scholz (Foto) Um dos problemas visivelmente percebidos na Vila Brás é a falta de sinalização. Além da escassez de placas indicando, houve uma troca nos nomes das ruas de números para flores. Esses e outros fatores atrapalham o cotidiano dos moradores. É o caso de Jéssica Macedo, de 26 anos, que já ficou inúmeras vezes sem receber seus pedidos da farmácia. O motivo? O motoboy não conseguiu encontrar a rua. “Muitas ruas não tem placas com nomes e as que têm são difíceis de ver.” Disse a moradora. Ela explica que as placas se encontram longe das esquinas, o que prejudica a visão de quem vem da via principal da Vila Brás, a Avenida Leopoldo Wasun. Isadora Mendes, de 16 anos, comenta que o problema das placas causa muitos transtornos em sua casa. “Muitas vezes atrasamos pagamentos de contas, pois as cartas não chegam pelo correio, ou se chegam acabam indo para outra casa, assim como nós recebemos cartas de vizinhos de outras ruas.” A adolescente também relata que quando, recebem visitas, marcam ponto de encontro, já que a placa de sua rua, assim como outras, não existe. A Avenida Leopoldo Wasun também possui muitos buracos e apresenta outros problemas de sinalização, como a indicação da faixa de pedestres em frente à Escola João Belchior Marques Goulart, que se encon-

tra apagada. Além disso, a placa que indica a redução de velocidade em frente à escola se encontra atrás da estrutura de uma loja e ninguém consegue perceber. Os alunos–repórteres da Unisinos também enfrentaram alguns obstáculos referentes a essa carência de mobilidade urbana. “Muitas vezes, procurando fontes, era indicado ruas para conversamos com moradores. O problema é que, mesmo andando por toda avenida, não encontrávamos a rua que era indicada”, comenta a aluna Natália Silveira. A Prefeitura foi contatada, mas, até o fechamento desta edição, não havia dado retorno.

A falta de placas com nome das ruas é um dos problemas de sinalização


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Saúde

Enfoque - Vila Brás, São Leopoldo - Junho de 2013

Não compre remédio. Plante! Moradores da comunidade buscam nas plantas a cura para variadas doenças Matheus Kiesling (Texto) Camila Weber (Foto)

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m uma época onde ser saudável é praticamente uma regra na vida da maioria das pessoas, muitos moradores da Vila Brás têm apostado em tratamentos alternativos para combater os mais variados tipos de doenças. Diante disso surgem figuras como Maria Vilma Elesbão, de 69 anos, especialista na elaboração de remédios alternativos, elaborados com substâncias extraídas da natureza e que, segundo ela, trazem efeitos tão bons quanto àqueles medicamentos comprados em farmácias tradicionais. Aposentada como doméstica há 10 anos, Maria se divide entre o brechó de uma igreja e a produção dos remédios, que elabora conforme o pedido e a necessidade de seus vizinhos, moradores da comunidade. Ela conta que o interesse por essa área surgiu ao receber o convite para participar

de um curso promovido pelo padre Paulo, da Diocese de Novo Hamburgo. “Iniciei o curso, que foi realizado na Lomba Grande, logo após ter sido convidada. No local onde tínhamos as aulas encontrávamos todos os aparelhos e ervas necessários para elaborar os remédios”, diz. Maria salienta que os elementos encontrados na natureza contam com um poder de cura impressionante e que vários tipos de plantas que, em muitas das vezes, passam por nós despercebidas no dia a dia, podem ser a utilizadas na fabricação desses medicamentos. “Utilizo plantas como a mamica de cadela, maricá, gervão, entre outros. Com essas ervas podemos curar desde um simples problema de estômago até bronquite. Como exemplo, podemos citar um tipo de grama comum que encontramos nos pátios das casas, conhecida como Capim de São Paulo. Ele é um poderoso bentabiótico, excelente

no combate de processos de inflamação”, destaca. De maneira bem humorada, Maria conta que a procura por parte dos moradores da Vila Brás é constante. “Muita gente tem me procurado. Certa vez, uma vizinha bateu lá em casa desesperada, perguntando o que poderia fazer para melhorar o problema de respiração do filho. Fiz um remédio e pedi para ela passar no bico do bebê, que logo melhorou. Hoje ele é um baita gurizão”, acrescenta. Maria revela que um dos principais fatores que contribuem para a intensa busca por esse tipo de medicação diz respeito ao elevado preço dos remédios convencionais. “Não cobro nada pelo que faço, por isso todos me procuram para tratar de problemas seja com crianças ou adultos. Peço apenas que me entreguem aquilo de que necessito para a elaboração da receita. O que mais me preocupa é auxiliar com que a pessoa fique bem”, salienta.

Os poderes da medicina alternativa Daiane Dalle Tese (Texto) Amanda Nunes (Foto) Depois da refeição, no final da tarde ou antes de dormir, o chá tornou-se popular em vários lugares, assim como na Vila Brás. Dependendo da folha usada na infusão, a bebida pode oferecer nutrientes que ajudam no bom funcionamento do organismo. Algumas experiências clínicas demonstram que o consumo regular de sementes pode até mesmo ajudar na prevenção de

algumas doenças. “Depois de completarmos 40 anos, nosso corpo perde nutrientes e temos que repô-los”, conta Roselane Brun, que auxilia sua nora nas vendas da loja de chás Sabor Natural, localizada na Rua Leopoldo Wasun. Segundo ela, a linhaça dourada é uma das especialidades mais vendidas na loja. A procura acontece devido às propriedades nela encontrada. “Ela é rica em ômegas 3, 6 e 9, diminui os sintomas da menopausa, reduz o colesterol, auxilia

na redução de peso, proporciona equilíbrio nos hormônios e regula o intestino”, explica. A medicina alternativa, especialmente o consumo de ervas, é uma técnica muito usada para melhorar a saúde em geral. Os efeitos desses compostos são muitas vezes considerados como mais naturais do que os medicamentos industrialmente sintetizados. Algumas pessoas como a dona de casa Neusa da Rosa, 40 anos, gostam de utilizar o chá também como ingrediente em outras bebidas. “Usando chás no chimarrão eu consigo unir duas coisas, a saúde e o prazer em cultivar essa tradição”, conta. Chás não necessariamente precisam ser usados quando se está doente. Eles são incrementos progressivos para que se tenha mais vitalidade física e energia e podem ser utilizados como complemento a medicamentos, por exemplo.

Neusa recomenda o uso de chá como composto para chimarrão

A esperança de cura invade a residência dos Costa

Família de Fé Fernanda Schmidt (Texto) Diogo Rossi (Fotos) A família Costa é um exemplo da dificuldade que muitas famílias brasileiras enfrentam quando o assunto é saúde. Em fevereiro deste ano, João Batista Costa, 61 anos, sofreu pela terceira vez um acidente cardiovascular. O resultado: teve o lado esquerdo paralisado e não consegue mais andar. Atualmente, João vive com o filho Gilson, de 37 anos e com a nora Lisiane Costa, 33 anos. A alegria da casa fica por conta de Everton Costa, 12 anos, filho de Gilson e Lisiane. Ele ajuda a mãe, que é dona de casa, a cuidar do avô. A rotina da família não é fácil. João precisa usar fraldas

e toma vários remédios. São cerca R$ 150,00 mensais gastos pela família só em fraldas. Mas além da ajuda da família, João conta com a assistência do Posto de Saúde que atende a Brás. Toda semana ele recebe a visita de enfermeiras, que procuram saber como está a saúde de João. “A gente não pode reclamar. Elas sempre nos ajudam com material, mesmo que não seja o suficiente, a gente sabe que é tudo que eles podem nos dar.”, conta Luciane. Apesar de todas as dificuldades, a família não deixa de sonhar. “Meu sonho é ter uma casa própria. A gente tem muito problema aqui. Estamos aguardando para conseguir o projeto Minha Casa, Minha Vida.”, conta Lisiane.


Saúde 11

Enfoque - Vila Brás, São Leopoldo - Junho de 2013

Falta de pediatras prejudica atendimento a crianças Chico Caselani (Texto) Roberto Caloni (Fotos)

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Unidade Básica de Saúde (UBS) Brás conta atualmente com duas equipes de saúde da família, formadas por médico generalista, dentista, enfermeiro e agentes comunitários de saúde. O que preocupa os moradores é a ausência de um médico destinado ao tratamento de crianças. Em casos mais graves, nos quais o próprio clínico-geral recomenda atendimento especializado, os pais precisam recorrer a bairros vizinhos, pediatras particulares ou mesmo outras cidades. Eles reconhecem que o trabalho na UBS é positivo, mesmo com a ausência de uma das médicas, que segue em licença-saúde. Os pais levam seus filhos para consultas com os profissionais, que acolhem, prestam assistência e trabalham com uma cultura de medicina preventiva, identificando necessidades de cada núcleo familiar. A reclamação maior fica restrita justamente à falta de atendimento pediátrico. A dona de casa Daiane Friedrich, 27 anos, conta que nem chega a consultar no bairro. Ex-moradora de Novo Hamburgo, ela se dirige ao município vizinho sempre que precisa levar os pequenos Cauã, 8 anos, e Raíssa, 2

anos, ao médico. “Infelizmente não temos esse tipo de atendimento especializado na Vila Brás. Então nem tentamos pegar ficha, conseguir horário. Aqui a pessoa tem que ficar doente no dia certo para ser atendida”, explica. Já Marivete de Oliveira, 37 anos, frisa que sempre foi bem atendida e destaca as visitas domiciliares. “Os agentes comunitários vêm aqui em casa ao menos uma vez por mês, para ver como estamos, como as crianças estão e se o ambiente é saudável para elas”, ressalta. Mãe do pequeno Leonardo, de 2 anos, ela lembra que não sente tanto a falta de um pediatra também porque seu filho nunca precisou de um atendimento mais sério.

al aqui nos ajuda a cuidar bem dos nossos filhos, mas se percebem qualquer alteração mais forte, eles precisam de um apoio externo”, completa. Assim como outras mães do bairro, Giovana sabe que o trabalho de enfermeiros e médicos no bairro tem funcionado bem. “O problema é quando as crianças precisam de um cuidado maior”, conclui.

Apoio externo Quem sofreu com a falta de atendimento especializado foi a diarista Giovana Anjos Moraes, 32 anos. Mãe do pequeno Eliéser, 3 anos, ela lembra dos casos de alergia que seu filho teve quando mais novo. A médica até tentou atendê-lo, mas precisou encaminhá-lo para consulta com um pediatra. Eles tiveram que procurar ajuda na UBS Trensurb, próxima à estação Unisinos, no bairro Cristo Rei. “Desde aquela vez sabemos que precisamos nos deslocar para conseguir esse atendimento. O pesso-

Moradores reclamam da ausência de tratamento pediátrico gratuito na Vila Brás

Condições precárias de vida Cristiane Abreu (Texto) Jacson Dantas (Foto) Desde a metade do mês de abril 153 famílias ocupam um grande terreno na Vila Brás. Segundo os invasores, o espaço de 3.500 m², que fica localizado na Rua Caminho Comum, era utilizado como ponto de violência e tráfico de drogas. “Agora que a gente veio morar aqui não tem mais esse problema”, acredita a mulher de 27 anos, que se mudou com os cin-

Pais necessitam sair do bairro para conseguir auxílio especializado para seus filhos

co filhos para um barraco improvisado no local. “Durmo no meio do nada com as crianças, elas choram de fome. Não tenho condições de pagar aluguel, então nós não vamos sair daqui”. Com apenas um ano de idade, a filha mais nova da mulher que não quis se identificar sofre com crises de bronquite. “Até para tomar banho a gente depende da boa vontade dos vizinhos”, desabafa a mãe da menina. Segundo alguns moradores, a Secretaria de Habitação (SEMHAB)

foi informada sobre a ocupação e o diretor de Relações Comunitárias, José Bonifácio da Costa, afirmou que iria visitar o terreno, no entanto ainda não apareceu no local. Ele alega que a prefeitura não pode tomar nenhuma atitude porque o terreno é uma área particular pertencente a Elisabete do Nascimento. “Não podemos incentivar as pessoas a invadirem áreas privadas. Então, infelizmente, eu não tenho uma resposta aos invasores”. O diretor concorda que a situação é de calamidade e tem conhecimento das condições precárias em que vivem as famílias. Proprietária de dois lotes de área ocupada pelas famílias, Elisabete afirma que irá fazer um pedido de reintegração de posse. “Não é a primeira vez que isso acontece, meu terreno tem escritura e está com os impostos em dia. Vou tomar as providências cabíveis”.

Todas as 153 famílias vivem com pelo menos mais de um filho nos barracos em situação de total precariedade

Queixas e ineficiência no sistema de saúde Dyeison Martins (Texto) Duda Rocha (Foto)

ve ludibriar o sistema, alegando que morava com sua irmã em Novo Hamburgo, para receber atendimento por aquela cidade. Conseguiu ser atendida lá, porém com o avanço do tratamento, a fraude foi descoberta e ela deixou de receber os remédios. Hoje é atendida pelo posto do bairro Santos Dumont.

A saúde das inúmeras famílias que vivem na Brás depende do posto de atendimento localizado na rua central da comunidade, que opera há alguns meses sem um clínico geral. Apenas os enfermeiros atendem, no momento. Isso gera casos como o de Maria Suely Pacheco Morais, de 70 anos. Com uma grave lesão pulmonar, a idosa segue aguardando o resultado da extensa bateria de exames para qual foi submetida em dois hospitais. Como não foi possível o atendimento no posto, ela teve que ir nos postos do bairro Vicentino e da Scharlau. Quem vive numa situação semelhante é Dorida da Rosa Flores, de 62 anos. Ela descobriu, há cerca de um ano, um problema no coração e de pressão alta, e precisa consultar em outros postos de saúde da região. Maria Suely aguarda Ela precisou inclusi- pelos resultados de seus exames


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Cultura e Lazer

Enfoque - Vila Brás, São Leopoldo - Junho de 2013

Falta entretenimento Moradores reclamam das atividades culturais e de lazer

NÁDIA STRATE (Texto) Felipe Gaedke (Fotos)

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ssistir a peças de teatro, dançar, andar de bicicleta, jogar futebol, fazer aeróbica ou uma simples caminhada fazem parte do lazer e cultura de todos. Entretanto, os moradores da Vila Brás estão sentindo falta dessas opções. Segundo eles, o bairro está carente de atividades que ocupem o tempo livre. “Tudo está abandonado, para ter uma noção, os meninos precisam andar de skate durante a noite para poder aproveitar a rampa do

posto de combustível”, comentou a comerciante de 38 anos, Michele Schütze. Os jovens também lamentam, Diego Alt de 25 anos conta que sem espaços de cultura e lazer o bairro se torna mais perigoso. “Praticamente não tem nada para fazer aqui, para sair com a família ou jogar futebol, por exemplo, temos que sair da Vila. Dessa forma, acabo ficando dentro de casa e tenho percebido que a falta de atividades tem gerado violência”, afirmou o jovem. Os amigos Osvaldo Silva, 58

anos, Vildo Heinz, 67, e José Siqueira, 54 anos, como única atividade de lazer, se encontram em um bar perto de casa. “Nossa diversão é aqui, para conversar e jogar uma sinuca. A solução para o problema está na Associação dos Moradores que deveria realizar atividades para nós e não só alugar a sede para festas particulares”, apontam. O presidente da Associação de Moradores, Cleber Silveira, diz ter ido buscar recursos. “Já fiz reunião com o prefeito e com o secretário de esportes para encontrar soluções. Em anos anteriores fechá-

vamos a Rua 25 de Agosto para o lazer e estamos querendo reativar essa ideia”, descreve. O secretário municipal de esportes, Rogério Barbosa de Brito, apontou que melhorias estão sendo elaboradas. “Assumimos a prefeitura há poucos meses e estamos com dificuldades financeiras. Entretanto, estamos desenvolvendo várias ações no que diz respeito a cultura e lazer na Vila. Em breve, teremos a Brás Fest, festa do dia das crianças, a revitalização da praça, entre outros, com ações para todas as idades”, salientou o secretário.

Michele Schütze lamenta que o bairro está abandonado

Explosão da Dança descobre talentos na Vila Brás Rita Rodrigues (Texto) Explosão da dança é um Projeto Social desenvolvido na comunidade Vila Brás há oito anos, com alunos maiores de cinco anos de idade. Atualmente, 130 alunos são atendidos nas aulas de Jazz, Dança Contemporânea e Street Dance. Quem ministra é a professora de dança e bailarina Graciela de Oliveira Souza, formada em Educação Física e também criadora do projeto social. A vontade de criar o grupo surgiu após ter participado do PEI, promovido pela Unisinos. Graciela tem muito orgulho do projeto, principalmente quando se fala em casos de alunos que se destacam, como Leonardo da Silveira, convidado pelo professor do Bolshoi, Amarildo Cassiano, durante um festival para uma audição do Grupo, com cerca de 300 bailarinos, e passou. “Existem muitos casos de sucesso e muitos talentos a serem descobertos. Tenho três alunas que estão trabalhando e vivendo da dança. No ano passado, outro aluno participou da audição do Bolshoi, porém foi reprovado na última fase da audição, mas tenho certeza que este ano o Jonathan Cunha irá passar”, comemora. As aulas acontecem quartas-feiras e sextas-feiras. Os alunos colaboram com o projeto pagando R$ 6,50 por mês, mas também são realizadas promoções como rifas, chás, meio frango, etc, além do apoio da Comunidade Cristo Operário que disponibiliza o local para as aulas. Graciela conta com a ajuda de seu marido, Adriano Guerra, que também dá aulas. “É no Grupo que deposito meus sonhos, supero desafios e me emociono a cada olhar sonhador. Sei que ele vai ser um grande sucesso e um exemplo na área social, educacional e dentro das linguagens artísticas”, acredita.

Há acesso à literatura? Mariana Staudt (Texto) Natália Scholz (Foto)

A maioria dos moradores da Vila Brás não costuma frequentar bibliotecas, nem possui o hábito de ler periodicamente. A presença no acervo da João Goulart se restringe aos estudantes, apesar de ser aberto para a comunidade. “Temos uma coleção bem completa de exemplares que são enviados pelo governo federal. Semanalmente, os professores levam as turmas na biblioteca, mas fora de horário os alunos não retiram muitos livros”, afirma o diretor da escola Cláudio Celso Hatje. A opinião dos moradores é semelhante. Eles acham que deveria haver mais diversidade e atrativos para ler por lazer. Solange Blauth, 39 anos, e Camila Blauth, 22, mãe e filha e antigas alunas da escola do bairro, contam que quando precisam de algum livro recorrem à Bi-

blioteca Municipal no centro de São Leopoldo. “Muitos aqui estão no ensino médio ou na faculdade e não podem contar com o acervo da escola”, opina Camila. O incentivo para a leitura é tão pequeno na Brás, que poucos sabem da existência de uma biblioteca localizada na Associação de Moradores. O tesoureiro Emílio Lima informa que atualmente ela está fechada, pois não foi feito o cadastro de todos os livros e nem definido os horários de funcionamento. “Eu mesmo não sabia. Fui conhecer quando estávamos na campanha para o novo presidente da Associação”, diz. Os livros foram adquiridos com verba pública destinada para a compra na gestão passada. Em meio a essa realidade, Larissa Grabriela Schütze, de 12 anos, é frequentadora assídua da biblioteca da João Goulart. “Eu adoro ler. Agora estou com o livro Como treinar o seu dragão, mas

Biblioteca da Escola João Goulart tem baixa procura

gosto mesmo de gibis, principalmente os da Turma da Mônica Jovem e do Menino Maluquinho”. A atração por quadrinhos vem da antiga coleção do seu pai, mas a família toda incentiva e aprecia a leitura.

Gabriela retira livros semanalmente


Cultura e Lazer 13

Enfoque - Vila Brás, São Leopoldo - Junho de 2013

A praça não é mais nossa Vandalismo e falta de manutenção fazem com que cada vez menos moradores consigam utilizar o espaço de lazer Fernanda Kern (Texto e Fotos)

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bandono. Esta é a palavra que descreve a praça da Vila Brás, uma das poucas opções de lazer do bairro. O espaço conta com calçada para caminhadas, quadra de vôlei e de futebol de areia, equipamentos para exercício, brinquedo com escorregador e ponte para as crianças, balanços e gangorras. Entretanto, a falta de conservação afastou a população e atraiu usuários de drogas para o local. “O número de pessoas que usam a praça tem diminuído. Acho que se reformassem iria vir muito mais gente pra cá. Hoje, por exemplo, não tem um banco pra sentar e tomar um chimarrão”, relata Mara Rejane Simas, 39 anos, que mora com os filhos e o sobrinho ao lado da praça há seis meses. Ela destaca que nunca teve problemas com segurança. Para a moradora, depois da reforma, a praça deveria ser cercada para ajudar na conservação. “A gente sabe que tem vandalismo de dia também, mas acho que ia melhorar muito se a praça fosse cercada”. Mara tenta manter os arredores de sua casa sem entulhos ou sujeira e plantou mudas de árvores nativas para melhorar o ambiente. “Já fica bonito quando a prefeitura vem cortar a grama, imagina se arrumassem toda a praça”, projeta. Dionathan dos Santos Gonçalves, o Vitor, 21 anos, que também mora ao lado da praça, concorda. Ele conta que a última vez que a grama foi

Falta de manutenção, lixo e depredação são os principais problemas do local cortada foi há mais de um mês, mas que antes disso o mato estava alto há muito tempo. “Acho bom morar aqui perto, mas tem que ajeitar as coisas, o parquinho chega a ser perigoso para as crianças”, afirma. Destaca também que, apesar do local ser utilizado por usuários de drogas, nunca teve problemas. “Eles ‘batem cartão’ aqui. Todos os dias são os mesmos. É ruim, mas nunca tivemos problemas com segurança”. Cristiano Eduardo Branco Cha-

ves, 10 anos, também se recorda de como a praça já foi. “Eu andava de bicicleta e skate, brincava na pracinha, mas agora tá tudo destruído. E tem gente que usa a madeira da pracinha pra fazer lenha”, relata o menino. Atualmente, ele utiliza mais as quadras, mas mesmo assim segue com problemas. “A goleira não tem proteção e a bola vai parar no meio do mato. A quadra de vôlei nem rede tem, não dá pra usar”, reclama. A reforma da praça é uma das

propostas do presidente da Associação de Moradores da Vila Brás, Kleber da Silveira. Ele conta que já entrou em contato com a prefeitura de São Leopoldo, solicitando que a praça fosse reformada e cercada, mas não tem previsão para o atendimento da demanda. A prefeitura, através de sua assessoria de imprensa, afirmou que “estas obras não estão previstas, porém, a Secretaria de Educação está construindo um ginásio de esportes na Escola João Goulart”.

Problemas: Calçada - Está bastante irregular e com buracos. Em alguns pontos, a vegetação e entulhos impedem a passagem. Quadra de vôlei - Há apenas o chão de cimento e as duas barras onde ficaria a rede, que não existe, assim como a demarcação das quadras. Quadra de futebol - A areia é grossa demais e cheia de entulhos, além de não estar bem distribuída, gerando buracos na quadra. Não há proteção ao redor do espaço e as bolas acabam quebrando telhas de vizinhos. Equipamentos para exercício - Na parte mais conservada da praça, a pintura já é praticamente inexistente e as barras de ferro estão amassadas. Brinquedo para as crianças Deveria ter escada, ponte, escalada, entre outros itens. A ponte já não tem madeira, colocando as crianças em risco de queda. O resto do brinquedo está quebrado e mal cuidado. Gangorras - Eram duas. Uma está deitada no chão, próxima dos balanços e outra está bastante depredada, dificultando o uso. Balanços - Há espaço para pelo menos seis balanços, porém apenas dois ainda estão no lugar. A condição dos poucos restantes não é boa. Bancos - Em toda a extensão da praça, existem onze bancos. Destes, apenas quatro podem ser usados e mesmo os que ainda existem estão em condições precárias.

DIOGO ROSSI

Sem condições de jogo Guilherme Endler (Texto) DIOGO ROSSI (Fotos) DIEGO DA COSTA (Fotos)

DIEGO DA COSTA

Esporte mais popular do mundo, o futebol tem pouco incentivo na Vila Brás. O único espaço público disponível para a prática, uma quadra de areia localizada na praça da comunidade, está em más condições e é alvo de reclamações de moradores. Rodrigo Braz, de 30 anos, conta que costumava utilizar a quadra frequentemente quando era mais novo, mas a qualidade ruim do piso o afastou do local. “Não tem mais condições de jogar naquela areia, é cheia de pedras e lixo. Quando alguém cai ali se machuca feio”, afirma. Para Braz, o problema seria solucionado se a areia fosse trocada por uma mais fina, propícia para o esporte.

Diego Alt, 25, também reclama do piso, motivo pelo qual “cansou de se machucar”, e lembra que outro problema é a falta de uma grade de proteção atrás das goleiras. “É comum que a bola seja chutada muito alta e quebre as telhas das casas vizinhas”, diz. Tanto Braz quanto Alt afirmam que já levaram as reclamações para a Associação dos Moradores diversas vezes, mas os problemas não foram solucionados. Por causa do abandono do espaço, ambos precisam ir até quadras públicas no centro de São Leopoldo para jogar. Apesar das más condições, a quadra reúne diariamente uma grande quantidade de pessoas, na maioria crianças. Maicon Simas, de 8 anos, diz que joga no local pelo menos duas vezes por semana e acredita que o espaço está “suficientemente bom”.

Já Cristiano Chaves, de 10, frequenta o local quase todos os dias e é recorrente nas reclamações do piso e da falta de grade de proteção: “a areia machuca as pernas”, lamenta. O presidente da Associação

dos Moradores, Kleber da Silveira, afirma que levou à prefeitura uma proposta de reforma da quadra, com instalação de grades e troca do piso. Contudo, ainda não há previsão para a reforma ser aprovada.

A quadra continua a ser muito utilizada, apesar da falta de cuidados


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Segurança

Enfoque - Vila Brás, São Leopoldo - Junho de 2013

Comerciantes buscam proteção Proprietários recorrem a alarmes com monitoramento para inibir furtos YNGRID LESSA (Texto) Rayra Krajewsk (Foto)

U

ma das grandes preocupações da Vila Brás atualmente é, sem dúvida, a questão da segurança pública. Assim como em toda a cidade de São Leopoldo, cidadãos, comerciantes e idosos se veem obrigados a utilizar alarmes e grades para se proteger de arrombamentos e assaltos. Com 14 mil habitantes, o bairro conta com diversos estabelecimentos comerciais, e o assunto segurança é recorrente. Depois de alguns furtos, a maioria dos comerciantes optou por investir em sistemas terceirizados de monitoramento. O Supermercado Vieira é um exemplo disto, há cerca de três anos utiliza este tipo de serviço. Segundo o proprietário, Aldemir do Nascimento de 43 anos, este serviço é importante para tentar inibir os furtos e roubos que ocorrem nos estabelecimentos do bairro. “Aqui tivemos apenas um furto e a partir daí optamos por reforçar a segurança”, diz ele. Na Agropecuária Cônsul, localizada na rua principal, Leopoldo Wasun, a questão da segurança foi aprimorada depois de um assalto em novembro de 2012, onde o estabelecimento teve apenas perdas financeiras e estruturais. Estabelecida há sete anos no bairro, o proprietário Jonas Cônsul, 51 anos, conta que até então nunca havia tido problemas com furtos. Já na loja de roupas, Só Modas, a

segurança foi pensada desde sua inauguração. Existente há oito anos na comunidade, o local conta com monitoramento terceirizado desde o início. “Desde que abrimos colocamos alarme e segurança para não termos surpresas”, conta a proprietária Solange Blauth, 39 anos. Diferente dos outros comerciantes, Marco Antônio, 24 anos não utiliza de segurança terceirizada para a proteção do seu estabelecimento. Proprietário da Papelaria Lolo, Marco diz que a segurança é feita somente pela família e que não possui nenhum alarme. “Moramos aqui na frente, então, estamos sempre de olho. Em 12 anos nunca fomos assaltados”. Ao falar da segurança na Vila Brás, Marco diz que não vê grandes problemas no bairro. Para ele os alarmes e monitoramentos terceirizados são apenas uma maneira de tentar diminuir os furtos. “Aqui cada um tem que fazer a sua própria segurança, porque se quiserem assaltar o lugar, os alarmes não vão adiantar de nada.”, ressalva. Segundo a Secretaria de Segurança Pública do Estado, em 2012 a cidade de São Leopoldo, que tem 215.606 habitantes, sofreu 3.764 furtos e 1.451 roubos. Lembrando que furto é quando o autor do crime se apropria de um objeto, ou valor no qual ele não possui posse. E o roubo ocorre quando há emprego de violência ou grave ameaça, ou seja, a modalidade violenta do furto.

Após um assalto em novembro do ano passado, a Agropecuária Cônsul é um dos estabelecimentos que conta com serviço de segurança terceirizado

O descaso com o futuro O vereador Perci Pereira, representante da Vila Brás na Câmara, admite os problemas relatados. “Atualmente não tenho como negar que a situação de segurança na escola está precária. São mais de 2.000 estudantes e não há estrutura para a segurança de todos”. A maioria dos fatos ocorre pela questão das drogas, onde, inclusive, há crianças participando desse mercado. “Os traficantes oferecem um lanche, um sanduiche e um copo de refrigerante e em troca as crianças vendem o produto dentro da escola”. A esperança é um acordo firmado entre o governo federal e municipal que vai garantir viaturas de policiamento em breve. Recentemente, em reunião com o secretário Municipal de Segurança e Defesa Comunitária, Carlos Alberto Azeredo, Perci teve uma vitória: garantiu viaturas que vão patrulhar a área da escola em todos os turnos. Além disso, existe a promessa de uma câmera instalada em frente à escola para monitorar o movimento. Até o fechamento dessa edição, a repórter tentou contato com o secretário de Segurança e não obteve sucesso.

NATÁLIA SILVEIRA (Texto) Matheus D’Avila (Foto) A escola João Goulart, localizada na Rua Leopoldo Wasun, passa por um problema que é recorrente em muitas outras escolas, mas nem por isso por isso pode ser esquecido: a falta de segurança. Principalmente quando se trata dos horários de saída dos alunos, dando margem a episódios de violência que, conforme relato de moradores, ocorrem com frequência. Segundo a moradora Maria* o descaso da Guarda Municipal, que deveria estar presente nesse momento, é o que mais indigna os moradores. “A saída na parte da manhã é às 11h45min, mas os guardas ficam, no máximo, até 11h20min. Sem falar que nunca se encontra eles na frente da escola, estão sempre lá dentro, sentados na secretaria, tomando café. Parece que nunca estão fazendo o trabalho deles”, relatou. A moradora diz que já procurou os órgãos municipais para prestar queixa, mas conta que nunca obteve uma resposta. “Sempre me dizem que registraram a ocorrência, que vão tomar providências, mas acaba ficando tudo na teoria”.

Moradores se preocupam com a falta de segurança para os alunos no horário de saída da escola João Goulart

* O nome foi alterado a pedido do entrevistado


Segurança 15

Enfoque - Vila Brás, São Leopoldo - Junho de 2013

Moradores falam sobre o policiamento no bairro Assim como em todos os lugares, na Brás não seria diferente. A criminalidade preocupa as pessoas que residem na comunidade. Algumas relataram seu ponto de vista para o Enfoque LETÍCIA SILVEIRA (Texto)

l

MICHELE MENDONÇA (Fotos)

Perci Pereira,

Neuza de Castro Dias,

Cleuza Fontoura,

“A Brás hoje em dia está 80% melhor. Alguns anos atrás, a criminalidade era muito maior. Acredito que a violência que ainda existe é causada, em sua maior parte, pela relação com as drogas. A melhor forma de trabalhar esse assunto é com a prevenção, criando oportunidades para os jovens terem com o que dedicar seu tempo livre, como, por exemplo, o esporte. Este trabalho deve ser em conjunto da Associação de Moradores, Prefeitura e a igreja”.

“Acredito que a segurança vem de Deus. Moro há 24 anos na Brás, criei meus filhos e netos, e nunca aconteceu nada com a gente. Vejo muitos policiais, eles passam bastante por onde moro. Acho que as drogas são o grande problema: onde elas não existem, não há violência. O ambiente nós que fazemos. Nunca me envolvi com nada disso e nunca tive dificuldades”

“Na minha opinião, o maior problema são os grupos relacionados às drogas. A maioria dos jovens que matam e morrem hoje na Brás, têm relação com essa dependência. Acredito que para resolver esta questão, o primeiro passo deve ser o oferecimento de suporte à família do usuário, para que esta esteja preparada para auxiliá-lo a sair deste problema, que é uma epidemia. Além disso, eu acho que falta policiamento, pois vejo poucas viaturas”.

Michele Schütze,

Marcelo Luiz Berg,

Neri Souza de Oliveira,

“Não tenho o que reclamar. Faço hemodiálise e a van passa para me pegar às 5h30min e nunca tive problemas. Em casa, com meus filhos nunca aconteceu nada. Há aproximadamente dois anos, a Guarda Municipal e a Brigada Militar precisavam interferir com frequência em brigas que aconteciam na escola. Hoje em dia, nem isso acontece”.

“A polícia tem feito um bom trabalho. O morador da Brás, de um modo geral, é seguro. Se acontece alguma coisa, são situações isoladas. Acredito que pelo fato de ser um bairro acolhedor, onde os moradores são amigos e receptivos, esta união acaba gerando uma espécie de proteção”.

“Na minha profissão e no meu estabelecimento é muito tranquilo. Fico aberto até às 23 horas e nunca nada aconteceu. O policiamento é suficiente e a viatura passa por aqui com frequência. O problema com as drogas existe e pode afetar em alguns lugares, mas a região em que me localizo não oferece esse perigo”.

50 anos, pastor e vereador

38 anos, comerciante

73 anos, aposentada

40 anos, leiloeiro oficial

42 anos, doméstica

36 anos, comerciante


Segurança

VIla Brás - São Leopoldo/RS Junho de 2013 enfoque DIEGO DA COSTA

Uma violência silenciosa na Brás Medo faz parte da convivência diária com criminosos

ANGÉLICA DIAS (Texto) DIEGO DA COSTA (Foto)

“E

denunciarem o tráfico no local. “As pessoas podem vir até a delegacia ou ligar para o 181 e manteremos todo o sigilo sobre a identidade do denunciante”, reforça. Segundo moradores, alguns dos fornecedores de droga são “gente boa”, pois não representam ameaça à vida de ninguém da Brás. É o caso de Tiago que sem estudos e sem emprego, viu no tráfico uma forma de renda fácil. Esta suposta facilidade lhe custou a vida há dois meses, quando foi assassinado por outros

traficantes. Alguns moradores não entendem por que ele foi morto, pois “era um guri tão bom”. Para o delegado Adriano, esta atitude não passa de disfarce para manter as atividades criminosas. “Por trás da gentileza e da simpatia dos traficantes há famílias inteiras sendo destruídas pelo crack e pessoas sendo mortas e roubadas para alimentar o vício que eles iniciaram. Além do mais, se eles incomodarem demais a população, correm o risco de atrair a polícia”, afirma.

“Infelizmente, o caso de Tiago é um destino provável para muitas das nossas crianças. Ainda bem que temos bons projetos sociais, como o karatê da Associação de Moradores e o grupo Explosão da Dança, que apresentam uma alternativa para elas. Isso é só o que podemos fazer”, diz. (*) À exceção do policial, os demais nomes foram trocados por siglas fictícias para preservação da identidade dos moradores DIVULGAÇÃO

m quase todas as esquinas tem alguém vendendo drogas”. Assim comentam muitos moradores em torno da Avenida Leopoldo Wasun. A maioria deles diz conhecer cada um dos traficantes do bairro. No entanto, o medo os impede de denunciar a prática ilícita. “A gente finge que não vê para poder continuar vivendo, para não ter conflito com ninguém. Se eles brigam entre eles, seria bem pior conosco se nos metêssemos em seus negócios”, afirma W.E.*. Apesar da aparente convivência pacífica, a existência desta ação criminosa é motivo de medo e gera outras formas de violência. Segundo W.E., há pequenos furtos e brigas com o envolvimento de jovens e até crianças viciadas em crack, a principal droga comercializada no local. Outro morador, Y.A.*, conta que a drogadição atinge muitos menores do bairro. “Uma vez um menino, de apenas seis anos, quebrou os vidros da janela da casa do meu vizinho para roubar objetos que seriam vendidos para comprar droga”, relata Y.A., indignado. “Se tivéssemos um posto da Brigada aqui, acho que faria diferença. Pelo menos assim, a comercialização se guardaria a noite, quando as crianças não estivessem na rua para eles oferecerem”, completa W.E. De acordo com o delegado da 2ª Delegacia de Polícia de São Leopoldo, Adriano Nonnenmacher de Souza, o patrulhamento é competência da Brigada Militar. No entanto, afirma que em São Leopoldo todas as instâncias policiais (militar,

civil e Guarda Municipal), trabalham juntas para a inibição do tráfico. Ele conta que no dia 09 de maio, uma operação da Polícia Civil no Vale dos Sinos apreendeu armas e drogas e prendeu 17 pessoas, sendo algumas da Vila Brás. “A polícia trabalha com investigação ostensiva contra o tráfico. Ao final de cada investigação, temos ações como esta, que sempre terminam em prisões e apreensões”, afirma o delegado. Ele ainda incentiva os moradores a

Operação realizada no último dia 10 resultou em prisões e apreensãoes de drogas na Vila Brás e bairros próximos


Enfoque (140)