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Índice dos Artigos 6

O Perfume da Rosa Abdul Cadre

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A Tentação da Górgona O Rito e o Espírito no Paganismo Moderno Gilberto Lascariz

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As Tripas e o Coração da Craft a esterilidade da Magia na Wicca Tradicional Karagan Griffith

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O outro lado dos Símbolos Adivinhatórios Eduardo Puente

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A função escatológica e transformadora da serpente na tradição nórdica Valquíria Valhalladur

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O símbolo, a psicologia e o misticismo Valentina Ramos


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Editorial É com um grande orgulho e satisfação que damos as boas vindas ao primeiro número de Anyma Mystica Revista Digital. Esta revista terá uma edição trimestral, que terá correspondência com os ciclos de Solstícios e Equinócios ao longo do ano. O propósito desta publicação é de contribuir para o intercâmbio e a divulgação de textos relacionados com a espiritualidade e o misticismo, em língua portuguesa. Pontualmente, teremos a publicação de outros colaboradores em língua inglesa, como forma de incentivar a sua participação. A Mystica Revista Digital é uma publicação gratuita, tanto para os autores como para os leitores, facilitando deste modo o seu alcance e projeção. Ao longo da revista Declaração de responsabilidade legal A Anima Mystica, Revista Digital respeita a livre expressão, opinião e crença de cada autor. A Anima Mystica, Revista Digital não poderá ser considerada responsável pelo conteúdo dos artigos publicados (seja texto ou imagem) sendo essa da inteira responsabilidade dos respectivos autores. Os autores cujos artigos sejam reproduzidos nesta revista mantêm todos os direitos sobre as suas publicações sendo também os responsáveis legais por todas as questões que estes levantem. O Corpo Editorial da Revista não será responsável perante qualquer questão legal derivada de infrações associadas aos artigos publicados. A Anima Mystica, Revista Digital compromete-se a não divulgar os nomes dos seus colaboradores salvo autorização dos mesmos ou, quando ocorra uma violação à Lei e nesse caso só às autoridades competentes.


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Editores:  Luís Miranda  Eduardo Puente  Valentina Ramos

incluiremos espaços para a promoção de eventos, palestras e outro tipo de atividades de forma a divulgar o trabalho de grupos e pessoas que trabalham em prol do desenvolvimento espiritual da comunidade.

Neste número colaboraram:  Mercedes Gonçalves  Maria Antónia

Neste primeiro número contamos com a participação de autores que têm contribuído na divulgação de diversas práticas vinculadas à espiritualidade, nas suas diversas manifestações, ao longo das suas carreiras. Aproveitamos aqui para, em nome da Anima Mystica Revista Digital, agradecer-lhes o seu trabalho e contributo. Gostaríamos ainda de salientar que o corpo editorial da revista não é responsável pelo conteúdo dos artigos, sendo estes da inteira responsabilidade do autor, assim como não somos responsáveis pelas referências bibliográficas por eles fornecida. Assim sendo, deixamos então que explorem as nossas páginas e incentivamos que nos escrevam para am.revistadigital@gmail.com com as suas opiniões e sugestões, assim como com as suas contribuições na forma de artigos, poemas, pinturas e outras formas de expressão.

Os editores

Anima Mystica Revista Digital, é uma publicação trimestral dirigida à divulgação e discussão de assuntos relacionados com o misticismo e o mundo esotérico (dentro e fora de Portugal), sob uma perspectiva que se estende desde as nossas raízes ancestrais até aos eventos de expressão pagã dos nossos dias.


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O Perfume da Rosa Abdul Cadre, FRC* Quero compartilhar com os leitores que eu aqui possa ter algo que há uns bons anos me disse um jardineiro sem idade, que muito me tem ajudado a descrer das certezas de ocasião e a cultivar a dúvida da devoção.

so e espesso é o véu da separatividade que nenhuma ilusória alegria rasga, nenhum sofrimento autêntico redime.

Disse-me ele que a verdade dos homens não é a verdade dos mestres, nem a verdade destes é a verdade única e última. Tampouco se assemelham entre si estas formas da verdade, ou graus da sua realização.

Prisioneiro de alegrias vãs é aquele que caminha de ilusão em ilusão; prisioneiro da noite mortal dos mundos e da tristeza das eras é todo aquele que se deixa apanhar pela desilusão. A desilusão pode matar uma ilusão, mas não pode impedir o advento de novas ilusões. Uma ilusão cede lugar a outra ilusão. Parecem diferentes para quem as olha mas não as vê. À que se foi, chama-se-lhe velha, à que permaneça chama-se nova, mas ambas, na essência, são iguais e são tão velhas como velho e o mundo. Não dar conta disto é uma terceira ilusão.

Isto pode levar-nos a perceber que tudo é ilusão para o que apenas crê — pois acreditar não é saber — e mentira para todo aquele que ignora os princípios. Não se confundam ilusões com ideais. Os ideais são os nossos desejos profundos de realização pessoal e coletiva que se estribam no Bem, no Belo e no Justo; as ilusões são os véus com que escondemos as realidades circundantes que não queremos ou não sabemos enfrentar. Não confundir nem uma coisa nem a outra com utopia que, etimologicamente, significa o que ainda não teve lugar, isto é, aquilo que não lográmos realizar, seja porque o nosso desejo se não fez ainda vontade realizadora, ou porque esta foi mal dirigida e não conseguiu ser um centro de congregar vontades na fundação duma vontade maior. A verdade una e última não é deste mundo, mas é neste mundo o dever ser da nossa realização individual e coletiva; ela ecoa na multiplicidade dos planos e dos entendimentos como memória caótica, o que torna difícil a sua recordação completa e clara. A esta incapacidade de recordar chamaram os antigos queda, os crentes chamam morte e os magos esquecimento. Eis a verdade una e última tornada inacessível para os que vivem limitados pelas contingências da presente humanidade sofredora, pois que imen-

Sujeito à dor, o homem torna-se azedo e descrente; o riso obnubila-lhe a compaixão.

“Quem ama a vida, a vive de propósito e indaga os seus mistérios não dá oportunidade à desilusão” Não nos iludirmos é o único caminho para não nos desiludirmos. Quem ama a vida, a vive de propósito e indaga os seus mistérios não dá oportunidade à desilusão. É neste sentido que vivente e estudante se tornam sinónimos. De qualquer forma, aquele a quem a desilusão consome o riso não terá espaço para a alegria e onde esta não tenha assento — a verdadeira alegria — o estudo não progride e nenhum enigma se decifra. E não basta o simples estudo, nem basta simplesmente a alegria, é preciso escolher uma corrente de vida e de saber e dessa forma se assumir como um neófito na senda da

* Sobre o autor: O Frater Rosacruz Abdul Cadre é estudante rosacruz, repetente de muitos anos. Aprendiz da vida, em insuficientes anos.


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sabedoria intemporal. Se ao estudante basta o estudo, ao neófito pode não bastar a rosa, porque a esta só a atenção do jardineiro serve e para o jardineiro o que mais conta é o perfume da rosa. Iludidos e dormentes uns, estudantes e neófitos outros, todos estão perante esfíngicos desafios: enigmas, segredos e mistérios.

“Neófitos na senda da libertação, desveladores de enigmas e segredos são os homens e as mulheres que, debaixo do céu, se erguem ao sol como cruzes de vida”

se iludem muitas vezes: julgam novo o que é apenas uma miragem do eterno. Cada ideal, por mais nobre, resulta muitas vezes de uma cadeia de enganos, pelo que se repetem os passos em círculo. Para libertar os passos dos caminhos ilusórios — que é andar em círculo como quem se perde numa floresta — é preciso plantar a rosa vermelha do desejo e da paixão no centro das encruzilhadas dos mundos. Neófitos na senda da libertação, desveladores de enigmas e segredos são os homens e as mulheres que, debaixo do céu, se erguem ao sol como cruzes de vida, têm corações ardentes e vão pelos canteiros dos mundos desfolhando afagos, na ternura da rosa que o jardineiro cuida.

Para os zelosos, para os aplicados, cada descerrado véu é um grado do arco que percorrem repetidamente, porque até os atentos

Compreenda-se sem equívoco que o homem de ideais é por excelência um candidato potencial a trilhar os caminhos da autorrealização. No fundo, é um neófito, mesmo que o não saiba, mesmo que não tenha feito a sua adesão formal à Senda.

Curso : Introdução à Cabala A Cabala é um sistema místico-filosófico que trata não só da divindade e sua relação com o homem e a criação, como é também um processo que proporciona mecanismos para organizar e estruturar o pensamento esotérico e a prática mágica. O pensamento cabalístico apresenta várias vertentes, no entanto, o curso centrar-se-á em introduzir vários aspectos teóricos e práticos relativos à tradição esotérica ocidental, sendo a introdução à Cabala Mágica ou Hermética o principal objectivo. O curso terá inicio em Setembro de 2012 no Capítulo da Ordem Rosacruz AMORC, no Porto Para mais informação pode escrever ao email: am.revistadigital@gmail.com


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A Tentação da Górgona: O Rito e o Espírito no Paganismo Moderno Gilberto Lascariz* O que leva alguém a desejar identificar-se actualmente com o Paganismo numa sociedade tecnológica da qual desapareceu o enquadramento social, religioso e económico de suas práticas rituais, isto é, o contexto de suas vivências panteístas? Desde há mais de trinta anos de envolvimento com o Paganismo que me interpelo com esta questão face ao modo de envolvimento superficial com que se tem aderido a esta vivência corpoespiritual (1). Julgo que além do carácter sedutor que oferece tudo que é alternativo e reenvia para a dimensão arcaica da nossa humanidade, dimensão essa que sem dúvida é libertadora e integradora quando assumida integralmente no corpo e no espírito, se deve realçar também o carácter ecosófico de sua praxis. Num mundo onde o Génesis bíblico legitimou doutrinalmente a pilhagem dos recursos naturais do nosso planeta, agora saqueado de suas florestas, montanhas e oceanos pelo megalómano cientismo do capitalismo moderno, o Paganismo veio trazer à nossa consciência a necessidade de uma ecoespiritualidade no quadro das vanguardas espirituais. No entanto, o que o Paganismo oferece acima de tudo é a possibilidade de uma verdadeira ―participation mystique‖ com a Natureza, abolindo a sensação trágica de isolamento e solidão ontológica típica do homem moderno. Apesar de tudo o que pode explicar a emergência do Paganismo, é muito raro ouvir falar hoje em espiritualidade pagã stricto sensu e nas implicações que ela exige tanto ao nível de uma mudança radical de nossa estrutura cognitiva como do nosso estilo de vida, a não ser na tradição francesa do Paganismo Filosófico de Alain de Benoist ou de Christopher Gérard. Na maior parte dos casos as pesso-

as satisfazem-se com a participação epidérmica e casual em rituais fabricados como um guião teatral e sem um conhecimento esotérico de sua estrutura anagógica (2). O jornalista Robert Greenfield enquadra-o por isso no conceito de ―supermercado espiritual‖, motor de modas culturais e de consumo, próprio de uma sociedade que, no dizer do filósofo Jacob Needleman, ainda não cresceu para lá da fase da dependência infantil.

“O Paganismo veio trazer à nossa consciência a necessidade de uma ecoespiritualidade no quadro das vanguardas espirituais” Vem tudo isto a propósito do meu desencantamento com as práticas superficiais de Paganismo de hoje, aquilo que cristalizou no que Georg Feuerstein chama a ―espiritualidade-pop‖ (3), seja a Via do Revivalismo Étnico ou a Via do Paganismo Construcionista. A questão que se põe é então: será que um rito, criado ou reconstruído, em que se convoca uma Divindade Pagã torna ipso facto os seus celebrantes em verdadeiros pagãos? Na maior parte dos casos, é comum não encontrarmos no Neopaganismo um verdadeiro rito, mas mero teatro religioso. Nesse contexto ele apenas serve para satisfazer o ego. Porém, penso que, desde que o rito mantenha as regras tradicionais de composição sacral próprio de uma prática mágica, os seus praticantes poderão usufruir de uma vivência teofânica pagã. Sem essa vi-

* Sobre o autor: Gilberto Lascariz, escritor, conferencista e investigador em esoteriologia pagã, é Adepto de várias Tradições Iniciáticas. O autor pode ser contactado através de seu email: gilbertodelascariz@hotmail.com


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vência não há rito mágico nem rito pagão. Porque todo o rito pagão, seja ele de raiz campesina ou de raiz teúrgica, é por natureza mágico. Sem o feed-back indiscutível da presença dos Deuses convocados não há Paganismo, há apenas simulação. Mas numa sociedade onde se valoriza o simulacro e o fazde-conta ser pagão torna-se muitas vezes uma forma de simulação exibicionista sem conteúdo.

cristãos desde Sto Agostinho definiam como um Pacto com os Deuses. Onde não existe esse Pacto, ou melhor esse ―contacto interior‖ tornado aliança teofânica, como se diz na tradição mágica, não há rito mágico. Assiste-se, então, ao que chamo o efeito de Tentação da Górgona: enfeitiçados ou confortados pela beleza exterior do rito, agora apenas drama teatral, cria-se um processo de ossificação estupidificante em vez de verdadeiro despertar gnósico.

“O que diferencia o ritual mágico do ritual religioso é sem dúvida essa capacidade anagógica que liberta a antiga clarividência da humanidade do seu estado inercial”

Uma das características do Neopaganismo tem sido, por isso, a dependência excessiva daquilo que nele é mais aparente e sensacionalista, isto é, do ritual. Mas um ritual feito sem capacidade visionária é mero teatralismo. É o ritual inferiorizado na pose, dramatização, teatralização, no festivo, como vemos exibido nos solstícios e equinócios em Stonehenge. Isso deve-se ao facto dos ocidentais associarem sempre na sua memória subliminal e colectiva, o religioso ao ritual. Na verdade todo o Iniciado sabe por experiência que todo o ritual mágico é dez por cento feito no exterior, sob a forma da linguagem corporal em movimento, e noventa por cento feito no campo interior imaginal com os seus ―contactos internos‖. Sem dúvida o ritual, ou melhor dizendo o corpo reificado em veículo do mito, foi sempre a linguagem canónica do religioso na época arcaica, tal como é hoje, mas isso fazia-se numa época em que o corpo era sentido saturado pela hierofania divina, pela Vis Imaginativa.

Tácito, no seu livro Germânia, diz que o nome dos Deuses era usado para referir a sensação de sua presença hierofânica no lugar santificado de seu santuário, habitualmente no seio da floresta, assim como de sua visão pelo ―olhar da reverência‖ teofânica. Para que isso aconteça não é necessário de forma alguma um ritual nem uma filiação estabelecida a uma ordem religiosa ou conventículo, embora esta possa nalguns casos transmitir as ferramentas teóricas e práticas necessárias para a transmutação cognitiva do adepto e a autenticidade vivencial do rito mágico. O que é necessário é que as faculdades de clarividência atávica, que Tácito chamava de ―olhar da reverência‖, ainda permaneçam vivas na pessoa ou, então, sejam suscitadas pelo ritual mágico. O que diferencia o ritual mágico do ritual religioso é sem dúvida essa capacidade anagógica que liberta a antiga clarividência da humanidade do seu estado inercial. Por isso, costumo comparar o ritual mágico a uma ―alavanca‖ que faz emergir a clarividência atávica e o despertar da visão teofânica dos Antigos Deuses. Uma das características do Paganismo é, também, ele se definir antes de tudo pela total ausência de dogma estabelecido e abolir a ruptura entre sagrado e profano instaurada pelo monoteísmo. Para isso é necessário, contudo, que haja um elo atávico, o que os

Sob o peso do Cristianismo e do Positivismo perdeu-se a ligação imaginativa ao corpo arcaico, ao espírito-carne. A sua gestualidade reverencial era, ao contrário dos tempos de hoje, simples, despretensiosa e baseada na percepção supraconsciente da dimensão divina na natureza através dos Sentidos da Carne-Imaginação. Em termos esotéricos isso quer dizer que nessa época remota os cele-

“Em termos esotéricos isso quer dizer que nessa época remota os celebrantes viviam e viam dentro dos órgãos suprasensíveis de seu corpo etérico”


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brantes viviam e viam dentro dos órgãos suprasensíveis de seu corpo etérico. Os seus ritos eram, assim, poderosos e basilares, como podemos perceber dos relatos dos povos celtas, germânicos e iberos, baseados sempre numa tipologia triádica: a purificação que permitia a transferência da consciência diurna no duplo imaginal do corpo etérico; o sacrifício sob a forma de oferenda e libação no contexto da fórmula do dom e do contra dom; a atitude de reverência e comunhão extática pela dança e sua fusão corporal no estado de despertar teofânico. No Paganismo Construtivista, também chamado hoje de Neopaganismo (4), os rituais tornaram-se exageradamente formais e palavrosos, provavelmente por causa da necessidade de compensar pela nomeação a incapacidade da humanidade moderna vêr na transparência da natureza o divino. O Paganismo Moderno compensa pela inflação semântica o que nela falta em vidência. Essa exterioridade formal, embora sendo mera banalização, permite uma adesão mais fácil ao Paganismo. Estabelece-se, assim, uma relação pelo exterior, mas não há verdadeira adesão/fusão às forças arcaicas do Paganismo a não ser pelo interior, pelo esotérico. Ora isso implica uma transmutação cognitiva do operante de forma que lhe devolva a capacidade de vêr na opacidade do mundo a unidade vibrante e panteísta de Tudo.

“O excesso formal no Paganismo Moderno tem, no entanto, criado um problema ao despertar de uma nova consciência pagã: o de se tornar teatral, carnavalesco e paródico” O antigo Paganismo era fundamentalmente uma prática de culto mais do que uma definição de dogmas e doutrinas. Existia muito pouco do que se chamaria hoje credos autoritários. Desde o séc. II AEC que o mundo cosmopolita e multicultural das urbes do Império Romano é invadido por numerosos Cultos de Mistérios, de origem oriental, que so-

breviveram ao lado de práticas de religião animista indígena mantidas no campo. Essa tendência ecléctica do Paganismo Romano já havia sido anunciada na mistura de ritos etruscos e gregos nos seus cultos locais. À medida que os romanos se expandiram para leste as suas religiões locais foram importadas para a capital em Roma. Ora, esses Mistérios traziam uma prática de culto baseado na salvação. Para ser membro destes cultos não era obrigatória uma filiação directa a uma localidade ou família através de uma hereditariedade tópica ou clânica como no paganismo campesino, mas uma decisão pessoal e livre, produto da liberdade de sua consciência. Duas forças se contrastam a partir de então: uma tendência arcaica de religião resultante de um vínculo de nascimento ou sedentarismo a um local, apoiada na clarividência atávica, e outra tendência definida pela auto-liberdade e auto-transcendência da consciência racional. Sem dúvida ambos são cultos pagãos. Para os romanos a palavra paganus referese a ―uma pessoa do lugar‖, a uma pessoa ligada às suas origens antropogénicas, sobretudo ao campo. O paganus considerava, por isso, a ―pessoa de fora‖ como um alienus. Embora a palavra paganus viesse a adquirir a conotação de camponês ou campónio, numa lógica semântica de humilhação e exclusão, na verdade existiu durante muito tempo uma terminologia para os pagãos da cidade e dos meios cosmopolitas: a palavra heleno. Ela prevaleceu muito pouco tempo na língua vernacular corrente. Na verdade, seja o pagão um habitante do campo ou da cidade o que o caracteriza é a conexão com a sua localidade imediata e os seus Deuses. Como Pierre Chuvin esclarece os rituais conduzidos em honra das manifestações locais da Divindade era a característica chave do Antigo Paganismo (5), tendo precedência sobre a fé. O Paganismo não se baseava numa prática cultual de professo a um dogma ou uma doutrina, mas era a celebração de um culto, a prática do culto. Como diz Margot Adler em relação ao Paganismo Moderno, o Paganismo define-se pelo que faz e não pelo que acredita. O Paganismo é experiencial e não uma religião de credos e afirmações de fé (6). Quando M. Adler diz isto significa que o culto auxilia o ser-humano a tomar consciência do divino através dos sentidos e não


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através da abstracção intelectual ou do ―pensamento em túnel‖ da crença. O excesso formal no Paganismo Moderno tem, no entanto, criado um problema ao despertar de uma nova consciência pagã: o de se tornar teatral, carnavalesco e paródico. Confunde-se a aparência teatral e o espectáculo performativo com a profundidade vivida do mágico e do iniciático. A característica essencial do Paganismo é a abolição da fronteira entre profano e sagrado num estado de Unidade, isto é, entre o corpo e o espírito, o divino e a natureza, a matéria e a energia. O rito pagão deve ter essa função espiritual. Uma das características da ressurreição pagã é confundir o Paganismo com apenas uma das suas expressões históricas, aquela que na tradição dumeziliana se chama a ―terceira função‖, isto é, o Paganismo Campesino. O Paganismo Campesino era essencialmente tópico, uma espiritualidade associada ao Genius Loci. Foi com este Paganismo que o Cristianismo encontrou maior resistência cultural pois ele se baseava não só nos Deuses da Terra Infernal mas, também, na Linhagem e no Culto aos Antepassados. Mesmo assim o Paganismo Moderno rasurou esta relação infernal com os Deuses preferindo mimetizar, sob a influência de práticas do Wicca já muito desnaturadas, o seu carácter festivo e sazonal, o seu lado lunar, num contexto de vida que nada preserva já de rústico ou campesino. Ignorando o significado de outras dimensões do Paganismo, como a Tradição dos Mistérios e o Paganismo Teúrgico, para não falar já da Tradição Titânica e Fáustica do Antigo Paganismo que o filósofo pagão Alain de Benoist atribuía ao escritor Guillaume Faye, grande parte das versões modernas do neopaganismo fossilizaram no exibicionismo paródico de ritos new age e na exterioridade carnavalesca. Nesse aspecto o ritualismo pagão não é diferente ontologicamente dos revivalismos folclorísticos cristalizados nos ranchos folclóricos e nas romarias. A eficácia do mito campesino na cultura urbana de hoje resulta do facto da vida camponesa ser o modelo exemplar de uma sociedade ainda entrosada na natureza e nos seus mortos e antepassados, mantendo restos vitais de clarividência atávica que permitiam nos tempos arcaicos uma interacção com a dimensão suprasensível e infernal da qual ad-

vinha a abundância física e espiritual. Sabese que uma vida de entrosamento simbiótico na natureza desperta a clarividência atávica do ser humano. Esse estilo de vida é hoje uma condição sine qua non para o despertar do Paganismo. Numa sociedade profundamente esclerosada sob o ponto de vista espiritual e sem o contexto mitosófico de uma ligação ao campo e à natureza, a fixação no ritual por pessoas típicas da cultura urbana e sem capacidades suprasensíveis transformao num mero simulacro cúltico, forma sem conteúdo, e naquilo que Chogyan Trungpa chamava de ―materialismo espiritual‖. O futuro, como diz o filósofo e activista pagão Guillaume Faye vai implicar o regresso do Arcaico. Não na maneira como era praticado há dois mil anos mas ―baseado nos seus princípios milenares‖ (7). Para isso surgirá a alvorada de uma Nova Consciência, o regresso da Consciência Etérica que a escritora portuense Dalila Pereira da Costa translia na emersão moderna do Espírito Santo.

Referências Bibliográficas: (1) O conceito de corpoespiritualidade foi defendido em: York, Michael. Pagan Theology. Paganism as a World Religion. New York: New York Universty Press, 2003. (2) Anagógico refere-se a tudo que nos eleva de nossa condição de confinamento perceptivo no espaço e tempo físico para a dimensão noética da alma. (3) Feuerstein, Georg. Holy Madness. Prescott: Hohm Press, 2006. (4) Para a compreensão destas tipologias consultar: Bouchet, Christian. B.A.-BA du NéoPaganisme. Paris: Pardès, 2001. (5) Chuvin, Pierre. Chronique des derniers païens. La disparition du paganisme dans l'Empire romain, du règne de Constantin à celui de Justinien. Paris : Fayard, 2009. (6) Adler, Margot. Drawing Down the Moon: Witches, Druids, Goddess-Worshippers, and Other Pagans in America. London: Penguin Books, Rev. edit. 2006. (7) Faye, Guillaume. L'Archéofuturisme : Technoscience et retour aux valeurs ancestrales. Paris : Editions de L'Aencre, 2011.


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Encontro de Pagãos Este encontro é para todos os interessados na Espiritualidade Pagã, Wicca, Druidismo, Bruxaria, Magia Celta e todos os "caminhos" que celebram o Paganismo. Todos são bem vindos e convidados a participar com opiniões e experiências e para um copo com pessoas que partilham interesses semelhantes. Mais informações em: portopagans@gmail.com ou através da página de Porto Pagans no Facebook

Neste momento encontramo-nos na 3ª Sexta-Feira de cada mês, por volta das 21.30, no Ryan's Irish Pub, na Ribeira do Porto.


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As “Tripas e o Coração” da Craft A esterilidade da Magia na Wicca Tradicional Karagan Griffith*

Não é a primeira vez que me deparo com a incredulidade do Alto Sacerdócio em relação à magia. Já perdi a conta das vezes em que disse "…Então e por que não trabalhas o problema no Caldeiro?" e a resposta que oiço quase roça a indiferença, no tom: "Ah não...não sei, acho que não vale a pena"."Não vale a pena"? Pois, provavelmente não vale as "penas" do empenho, do trabalho e dedicação. É inacreditável este desprazer e incredulidade quando comparamos estes comentários com o empenho de Alex e Maxine ou de tantos outros na Craft nos anos 70. Questiono-me de onde vem esta incapacidade de "acreditar" no que a Craft tem de essencial? Será apenas "medo" da derrota, medo de falhar redondamente no feitiço ou no trabalho em questão e por isso nem o tentar? Anula-se o feiticeiro em detrimento do ego. Como é possível que membros do Alto Sacerdócio respondam desta forma ao poder da magia? Por desencanto? Em resultado de um treino pobre? No final dos anos 60, em Londres, forma-se um Coven de Wicca Tradicional. Alex e Maxine Sanders exercem um treino rigoroso, em que a magia é ponto principal. A Vontade não se precipita e o Poder morre. A dedicação e o treino feito por Alex e Maxine não só eram fundamentados na prática mágica, mas na compreensão da sua natureza intrínseca – quais os princípios que a regem e pelos quais ela "dança" nos fumos dos incensos e nas chamas de velas votivas ou nos traba-

lhos de Caldeiro. Quando falo de "tripas e coração", nunca imaginei que uma expressão tão portuguesa fizesse tanto sentido aplicada ao treino da Wicca Tradicional Alexandrina.

“À luz da Wicca Tradicional, vejo o coração-centro que conduz a Vontade e a Paixão, o órgão que conduz a vontade suprema numa combinação quase simbiótica com as "tripas" ou essência da alma” Desde sempre que o coração rege os "peitos" dos homens e mulheres, relacionando-se com o fervor da paixão e os desejos incendiados pelas emoções. Assim era para os antigos e ainda hoje se pensa o mesmo. A simbologia relacionada com o coração ainda está fortemente associada ao Dia dos Namorados e a outras ocasiões festivas. À luz da Wicca Tradicional, vejo o coração-centro que conduz a Vontade e a Paixão, o órgão que conduz a vontade suprema numa combinação quase simbiótica com as "tripas" ou essência da alma. De acordo com a filosofia do TaiChi, os intestinos são o centro energético do nosso organismo, o vaso onde reside a

* Sobre o autor: Karagan Griffith é Sumo Sacerdote de 3.º Grau e Ancião da Tradição Alexandrina da Witchcraft na Linha de Boston, Massachusetts, Estados Unidos da América, Iniciado, Consagrado e Dedicado ao trabalho da Witchcraft. Karagan desenvolve um trabalho intensivo de treino de novos aprendizes no seu Coven em Salem, Massachusetts, trabalhando os Ritos Sagrados da Bruxaria Tradicional Alexandrina e celebrando os Mistérios dos Antigos Deuses. Karagan é também o autor de dois CD de Cantos – "Chants of Old" e "Hymnos", lançados em 2008 e 2011, respectivamente. Autor do blogue privado "Venificum – Pensamentos e Opiniões sobre Wicca Tradicional" e locutor do programa/videocast "Witchtalk", Karagan pretende clarificar e esclarecer a comunidade pagã na sua globalidade sobre os mais variados temas do oculto e sobre as mais diversas Tradições do Paganismo de hoje, incluindo a Tradição Alexandrina da Witchcraft..


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alma pura motivada pela vontade individual – o Chi. A vontade e dedicação são, sem dúvida, os pontos principais que residem no âmago da Wicca Tradicional. Sem qualquer um dos dois, nada funciona. Muitos são aqueles que não a adquiriram ou não a querem. Vontade é tudo, e acreditar faz parte dessa mesma vontade suprema capaz de fazer com que tudo seja possível, mesmo o impossível. Entendo que o treino intensivo na Craft, facilitado pelo Iniciado ao neófito, é condição essencial à competência nas técnicas mágicas. Iniciações não dão competências a ninguém, muito menos sabedoria. Alias, é precisamente a partir do momento da iniciação que o desenvolvimento das capacidades e competências começa, com o treino exercido no grupo onde o neófito foi iniciado. Acredito que, na falta deste treino essencial em Templo, a Wicca pareça incompleta e entediante. O treino é o que faz com que as 'tripas' funcionem, embora o coração tenha de lá estar em primeiro lugar. Fácil será então entender que a falta de empenho do Iniciado em treinar o neófito possa gerar desencanto ou desinteresse e, em última instância, fazer descrer das nossas próprias capacidades. Outro ponto que poderá ser interessante considerar será o conteúdo do treino. Será este um treino inventado pelo Iniciado, baseado em livros e em outros elementos não Tradicionais, ou será um treino tradicional, de acordo com o que foi ensinado no London Coven e no Temple of the Mother? Não é a primeira vez que me deparo com práticas de Templo na Wicca Tradicional Alexandrina radicalmente diferentes daquelas que fazem parte da maioria dos grupos que conheço e do meu próprio Templo. Não estou a falar de diferenças de tom ou ênfase, mas de diferenças substancias que colocam esse mesmo grupo numa prática à parte da que é praticada pela Tradição. Diversidade sim, miscelânea não! Um cubo pode ser desbastado até ao ponto em que já não é um cubo e passa a ser uma esfera.

Espero sinceramente que a paixão e dedicação dos grupos existentes tenham apenas um objectivo em mente: o de perpetuar o trabalho dos Templos originais e passá-lo com o mesmo rigor, paixão e dedicação característicos do treino original. "Temos de nos actualizar – os tempos são diferentes e, se não o fizermos, a Craft irá morrer. Somos responsáveis por perpetuá-la e defendê-la." Este é, sem dúvida, um dos frequentes "paus de estandarte" onde se colocam as bandeiras da revolução na Craft. A Craft não precisa de quem a defenda. A Craft existirá sempre e não precisa de nós para a defender. Somos responsáveis pelos nossos próprios grupos e demandas e temos a responsabilidade de esclarecer, mas a Craft não precisa de Cavaleiros andantes que a defendam.

“Entendo que o treino intensivo na Craft, facilitado pelo Iniciado ao neófito, é condição essencial à competência nas técnicas mágicas. Iniciações não dão competências a ninguém, muito menos sabedoria” Acreditar é, sem dúvida, essencial. Fazer parte do corpo Sacerdotal da Wicca Tradicional nada tem que ver com posições ou linhagens. Embora estas sejam importantes, não estão no que há de mais essencial. No essencial visita-se a dedicação incondicional, a paixão absoluta e a mais bela forma de expressar estas duas. Estas sim, são as 'tripas e coração' da Wicca Tradicional.


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O outro lado dos símbolos adivinhatórios Eduardo Puente *

São muitas as pessoas que se interessam por alguma forma de adivinhação e sobre cada uma delas podemos sempre encontrar um livro, um curso presencial ou textos de internet. E, muitas vezes estas são as únicas formas que alguns encontram para conseguir saciar o seu desejo e/ou curiosidade pelo conhecimento ou pela prática de algum sistema adivinhatório, seja o tarot, as runas, a astrologia ou qualquer outro. Todos os sistemas de adivinhação fazem uso de um sistema de símbolos (os arcanos do tarot, as figuras geomânticas, o alfabeto rúnico, etc.) e são estes símbolos bem como a sua natureza a raiz da pergunta que me levou a escrever este artigo: são estes símbolos utilizados unicamente como forma de adivinhação? A resposta é simplesmente não, não são.

“O adivinho lê os símbolos e infere sobre os padrões que se vão manifestar, eventualmente, no mundo físico, fazendo uso da sua desenvolvida habilidade para estar em sintonia com a Anima Mundi ” No entanto, embora sejam muitos os livros que nos ―ensinam‖ a ler o tarot (a título de exemplo), poucos (e ainda menos lidos) são aqueles que nos falam do outro lado destes símbolos e da sua aplicação para além da adivinhação. Um texto de Michael Greer ilus-

tra de maneira simples estes diversos aspectos: É na Anima Mundi, a consciência do mundo, que os padrões percebidos pelo geomante tomam forma como ritmos na interacção dos quatro elementos: Terra, Água, Fogo e Ar… Estes padrões fazem eco através do spiritus mundi para se tornarem visíveis aos nossos sentidos que correm no plano do corpus mundi. Um geomante (a) hábil pode ler estes padrões na dança das figuras geomânticas antes que eles alcancem a manifestação, sentir como estes padrões irão formar os eventos, imaginar outros padrões novos nas profundidades da meditação ou na adivinhação e estabelecer estes novos padrões em movimento por acções mágicas precisas para gerar eventos até um novo estado de equilíbrio.” [1] Saliento ainda que embora este texto faz referência a geomancia, é igualmente válido para qualquer outro método adivinhatório. A primeira parte deste texto refere-se à adivinhação (na sua forma mais comum). O adivinho lê os símbolos e infere sobre os padrões que eventualmente se manifestam no mundo físico, usando a sua desenvolvida capacidade para estar em sintonia com a Anima Mundi e a sua aptidão para interpretar a mensagem codificada pelos símbolos do sistema adivinhatório. Aqui, chegamos à primeira parte do valor dos símbolos adivinhatórios. No entanto, existe uma segunda e uma terceira parte. Na segunda parte, o praticante, recorrendo ao mesmo sistema, identifica novas forças em movimento e em sintonia ou não com a sua vontade. Na terceira há a possibilidade

* Sobre o autor: Eduardo Puente é Sumo Sacerdote da Tradição Alexandrina e também é iniciado na Ordem Aurum Solis e na Ordem Rosacruz. O autor pode ser contactado através do seu email: edutp00@gmail.com


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de fazer com que esta vontade se expresse usando estas forças em movimento. O interessante é que esta terceira parte, a vertente mágica, também pode ser realizada com os mesmos símbolos adivinhatórios. Ou seja, estes símbolos podem ser expressos em pelo menos três dimensões: adivinhatória, mística e mágica.

nhecimento e interpretação destes símbolos apenas seja alcançado mediante um estudo árduo e uma prática dedicada.

Os símbolos que compõe os sistemas adivinhatórios podem ser usados com propósitos muitos mais abrangentes do que a prática adivinhatória, podem também ser usados como forma de comuniDe uma maneira geral, cação e de trabalho quando alguém vai a com as forças às uma ―consulta‖ ou para quais eles próprios se uma ‖leitura de cartas‖, encontram ligados. o adivinho identifica os Desde há séculos que problemas e, muitas veos místicos e ocultiszes, quando um tratatas têm vindo a trabamento é recomendado, lhar no estabelecimené de natureza diferente to (e/ou descoberta) daquela do sistema adide ligações entre devinhatório. Isto é, muitos terminados símbolos saem das consultas com determinadas forcom velas e incensos ças. Os meios particupara limpezas ou purifilares destas ligações, cação (por exemplo) assim como as suas mas poucos (se é que formas de actualizar, alguns) saem com os manifestar e fortalearcanos O Mago ou O cer, são alguns dos Imperador como trataaspectos daquilo a mento em paralelo com que se denomina de algum ritual específico. ―vínculo‖ com uma Da mesma maneira, é Tradição, ao mesmo pouco comum encontrar tempo que estabelece pessoas que usem esas bases para a constes símbolos como fortrução de égregores Figura de um talismã geomântico (b) ma de comunicação específicos e o proconsciente com o divino cesso de trabalho com ou como meio de auto transformação. eles. Cada símbolo adivinhatório está, adequadamente, ligado a determinadas forças Em algumas tradições bem antigas e ainda (elementais, planetárias, zodiacais, divinas, presentes como Palo Monte, Santería e Ifá, etc.) e o estudo e prática do símbolo assim os símbolos que compõem as ferramentas de como os seus rituais específicos é o que gaadivinhação são considerados como a boca rante a continuidade deste vínculo para além pela qual os deuses se manifestam e falam do proveito da nossa interacção com elas. ao homem. Nas Ordens Esotéricas como em algumas vertentes Rosacrucianas, a Golden Ainda que, para a adivinhação a base seja o Dawn e as suas variadas ramificações, a Autreino do praticante na sua sintonia com a Anima Mundi, e de certa forma não é necesrum Solis e muitas outras, os símbolos representados no tarot e outros meios adivinhatósário uma homogeneidade entre a sua interrios constituem chaves importantes para difepretação dos símbolos e a dos ancestrais; rentes mistérios e/ou forças por parte do prapara o trabalho com as forças associadas ticante [1,2]. Nestas tradições são consideraaos símbolos (sejam elas quais forem) é imdas até como talismãs e através de procediprescindível que o praticante compreenda e mentos específicos podem em si mesmos entre em sintonia com o significado específiactuar como canais de forças de diversas naco e o modo de trabalho destes símbolos. turezas. Não é de estranhar, então, que o coPor exemplo, em muitos livros encontramos o


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arcano A Sacerdotisa em correspondência com Ísis (em pelo menos umas das suas formas) e a figura Via em correspondência com a Lua, mas evidentemente não necessitamos de saber isto para adivinhar, basta apenas estabelecer um conjunto de significados na nossa mente e estes serão estimulados propriamente. No entanto, se queremos manifestar em nós ou na nossa vida a sabedoria de Ísis ou o poder de transformação da Lua então, teremos que ser capazes de entender a associação entre estes símbolos e como trabalhar com eles. Para além disso, ao estabelecermos estas associações enriqueceremos imenso a nossa vivência interior já que, maneira igual, centenas de pessoas actualizam e fortalecem esta associação dia-a-dia. Neste ponto, podemos fazer-nos outra pergunta: O que acontecerá se utilizarmos outra correspondência, por exemplo O Imperador com Ísis? Primeiro e antes de mais, é necessário estabelecer essa ligação entre todos os planos (se for possível), para que a força de Ísis realmente se manifeste nesta associação. Aqui, encontra-se um dos grandes valores das Tradições e dos seus rituais, a iniciação e a experiência. Nestas, os adeptos tem acesso a toda uma história de relações, de ligações e de forças propriamente desenvolvidas, capazes de acelerar o processo de autoconhecimento e ao mesmo tempo de facilitar a expressão de tudo isto na nossa vida diária.

“Ficarmos apenas com uma visão personalizada dos símbolos seria equivalente a ignorar o trabalho de centenas de místicos e ocultistas do passado” O estudo das diferentes dimensões de cada um dos símbolos de qualquer sistema adivinhatório, assim como o valor do ―saber antecedente‖ associado a eles deve ser de grande importância para aqueles que estão interessados na prática de qualquer arte adivi-

nhatória, analisarmos apenas uma visão personalizada dos mesmos seria equivalente a ignorar o trabalho de centenas de místicos e ocultistas do passado. Quando temos nas nossas mãos a carta A Imperatriz, não temos apenas os significados de fertilidade, amor, sexualidade e crescimento, temos também uma oportunidade para estar em sintonia com os poderes de Vénus, de tornar fértil nossa comunicação com a Deusa e também, a possibilidade de tornar fértil e criativa a nossa vida ou a dos outros mediante uma compreensão apropriada dos seus símbolos e práticas associadas. Gostaria de encerrar este artigo com as palavras de Gareth Knight [3] sobre o tarot, que considero válidas para muitos outros meios adivinhatórios: ―Se há algo que aprendi nestes quarenta anos de conhecimento do tarot, é que ele é um sistema mágico vivo. Ou seja, ele não é meramente uma montagem de imagens simbólicas.”

Notas do Autor: (a) Aquele que pratica a geomancia (b) Fragmento dum manuscrito árabe (MS Arabe 2631, fol. 64v, Bibliothèque Nationale de France). Pode ser consultado no site : http://www.geomance.com/rabolion/ msarab2631/msar2631.htm.

Referências Bibliográficas 1) Greer, John Michael. (2009). The art and practice of geomancy. Weiser Books. 2) De Biasi, Jean-Louis. (2011). The Divine Arcana of the Aurum Solis. Llewellyn Publications. 3) Knight, Gareth. (1994). Divination and the Magical Tarot. The Golden Dawn Journal. Book I. Divination. Chic Cicero and Sandra Tabatha Cicero. Llewellyn Publications. 1994.


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A função escatológica e transformadora da serpente na tradição nórdica Valquíria Valhalladur * Representada ou imaginada como uma cobra gigante, a Serpente Mítica Midgard constitui o alicerce-base da estrutura Cosmológica da Tradição Nórdica, sobre o qual a ordem cósmica se consolida e se mantém firme até à Morte dos Deuses - o Ragnärok. A intensidade visceral do grande ofídio, adormecido no imenso oceano primordial, é a ameaça corruptível de uma soberania divina e uma das facetas ocultas dos Trovões, Thor. Arquétipo de Morte e Renascimento Cósmicos. Deus ThorSerpente: Dicotomia entre forças idênticas. Elementos Atmosféricos e regenerativos Fonte inspiradora de mistérios e de força transformadora, a Serpente é um elemento impressivo nas Mitologias de raiz germânica herdadas dos antigos conceitos religiosos indoeuropeus. A Serpente invadiu o imaginário mitológico com um forte potencial metamórfico, assumindo diversas formas para impelir a mente humana a entrar nos trilhos de um turbulento, mas redentor, processo evolutivo. A sua idiossincrasia penetrou na escuridão do inexplicável para se tornar num potente emblema de transcendência da singeleza da condição mortal. Nascida nas correntes indoeuropeias, a serpente introduziu-se nos mitos em forma de dragões alados ou com pernas, permanecendo, contudo, na Tradição Nórdi-

ca na forma original de um réptil rastejante e monstruoso. Neste sentido, a Serpente preservou a sua origem ctónica e soberana do Submundo, de onde emanam os imprevisíveis fluxos vulcânicos que fraturam a organização e regurgita a matéria regenerativa. Ela integra o ato contínuo da Criação, pois não lhe é anterior como sucede na maioria dos contextos mitológicos dos povos indo-europeus. Arquétipo de Morte e Renascimento Cósmicos Símbolo das potências do Caos, a Serpente Midgard (Midgardsormir) foi lançada ao mar por Odin para neutralizar o seu poder desestabilizador da estrutura divina. Nessa fase já o Deus Supremo nórdico havia sacrificado o gigante mítico Ymir como argamassa na edificação do Mundo Terreno ponto de confluência entre o Céu e Mundo Inferior. É do sangue de Ymir que se forma o abismo oceânico: o habitat de Midgardsormir (o que pressupõe que a linhagem da serpente pertence à das castas dos gigantes, ou seja às forças hostis). O plasma do Gigante nutriu o voraz e enorme monstro, apelidado por Snorri Sturloson, na Gylfanning, de Jormungandr. Desde o começo dos tempos no fundo do grande oceano, cresceu desmesuradamente até se enlaçar em torno da Terra, sustentando-a até ao dia do Ragnarök (1).

* Sobre a autora: Valquíria Valhalladur é pseudónimo de Maria Cristina Ferreira Aguiar, nascida do Porto, e com o qual assina o seu primeiro livro “As Moradas Secretas de Odin”, publicado pela Madras Editora, em 2007, e desta forma deu conhecer os seus estudos em Mitologia Nórdica. A partir deste intróito, desenvolveu os conhecimentos em Posturas Rúnicas (Stadhagaldr) em workshops, e acrescentou mais uma criação, desta feita, “As Máscaras da Grande Deusa”, com a chancela da Zéfiro Editora, em 2011, mas já assinado com o nome de jornalista Cristina Aguiar. A autora pode ser contactada através de seu email: aguiar_cristina@hotmail.com


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Filho (2) de Loki e da gigante Angrboda, ―Angústia‖, irmão de Hel e do lobo-gigante Fenris, Jormungandr forma os três aspetos das forças caóticas que estão na origem de todos os ciclos de transformação e destruição, simbolizando a luta perpétua entre as forças noturnas e as forças luminosas, que revemos nos confrontos entre Apósis e Ra na longínqua mitologia egípcia. A colossal oponente da luz e da ordem afronta a pujança solar e criadora do deus Ra. A serpente devora, mata e destrói. Ela existe para violar e destruir os puros e justos, decretando a perversão incessante como fonte de todo o mal. Jormungandr é uma espécie de mal necessário ao equilíbrio, pois esta serpente formidável é um elemento indispensável à estrutura do mundo, intervindo como se fosse os fundamentos de uma casa gigantesca que não pode nunca ser removida. Quando emerge no Ragnarök enraivecida pelo confinamento das profundezas das águas, Midgardsormir provoca o terror diluviano, derrubando todas as plataformas que protegiam a estabilidade cósmica. Apenas Yggdrasil, o Grande Freixo, lhe resiste como garante da renovação da vida após a destruição. A ação destrutiva da Serpente do Mundo tem um espectro curativo, pois o seu veneno purifica as imperfeições acumuladas pela preeminência divina do panteão de Odin e produz uma nova Cosmogonia, assumindo assim por inteiro o seu significado escatológico. Deus Thor-Serpente: Dicotomia entre forças idênticas Na Tradição Nórdica, o Deus Thor vive obcecado pela captura da serpente Midgard, lançando-se em perigosas aventuras pelo mar, usando estratagemas para a aniquilar, sem, porém, nunca o conseguir. A serpente e Thor são reflexos de si mesmos (tal como acontece entre todos os duelos do Ragnarök): a idiossincrasia de um revê-se no outro, pois a faceta destrutiva de Thor é idêntica ao grande ofídio, assim como o simbolismo fálico da serpente e do martelo. Thor expressa a mesma personalidade intempestiva e destrutiva por via da relação às tempestades - sendo ele o promotor dos conflitos atmosféricos – e a serpente sendo ela um agente tumultuoso e gerador da desordem final e escatológica.

Somente no Ragnarök Thor terá a grande oportunidade para a defrontar, golpeando-a com o martelo Mjollnir até à morte. Mas ao dar nove passos para trás, o Deus-Trovão cai e morre afogado no imenso veneno regurgitado pelo gigante ofídio. Ambos aniquilam-se. Ambos dissolvem-se na água – elemento solidário a ambos: Thor provoca a chuva da trovada; a Serpente vive no oceano e simboliza, por isso, os atributos dessas águas. Esta passagem alude a uma repetição do primeiro dilúvio pela sangria do Gigante Mítico Ymir, na sequência do assassinato perpetrado por Odin, despojando a conceção Cosmogónica dos Gigantes - a classe divina primordial que governava o Cosmos e anterior aos deuses de Asgard – criando uma nova ordem divina. O deus Thor é um eco dos Inícios dos Tempos, do período não-consciente (3), um estádio espiritualmente rudimentar. O confronto entre Thor e Jormundgandr teatraliza o encontro de duas forças originais necessárias à reconstituição da primeira contagem da Criação. Dá-se simbolicamente um novo ―big bang‖. O ato de retroceder nove passos é o mesmo que caminhar de volta ao momento inicial da gestação do Universo. O número nove destaca o culminar dos esforços, a conclusão de uma criação. Neste caso, trata-se de um percurso involutivo, o regresso ao ponto de partida para mais um renascimento cósmico, refazendo-se a totalidade dos três Mundos! A destruição no Ragnarök desintegra esta imagem de perfeição e de ordem imanentes no Nove.

“A ação destrutiva da Serpente do Mundo tem um espectro curativo, pois o seu veneno purifica as imperfeições acumuladas pela preeminência divina do panteão de Odin e produz uma nova Cosmogonia, assumindo assim por inteiro o seu significado escatológico” A simbologia da morte da Serpente, mercê da heroica persistência do Deus da Tempes-


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tade, aponta o final de uma estação gasta para dar início a um novo período de fecundidade espiritual, pois após o Ragnarök estabelece-se um novo nível de consciência ontológica. Elementos Atmosféricos e regenerativos A simbologia da serpente é paradoxal, pois tinha uma faceta positiva e construtiva como símbolo de fertilidade, imortalidade e de boafortuna. Nas tradições populares que se preservaram no período Viking, as cobras avistadas nas quintas eram um sinal benigno de proteção e benfeitoras da produção de leite. Os amuletos com cobras urobóricas revelam a confiança dos povos germânicos na ação potenciadora da fertilidade feminina.

“A simbologia da serpente é paradoxal, pois tinha uma faceta positiva e construtiva como símbolo de fertilidade, imortalidade e de boafortuna” Thor personifica as forças da sexualidade reprodutiva em estado bruto, pelo que a sua perseguição obsessiva à Serpente Gigante conduz-nos a outro ângulo da luta simbólica entre as potências da esterilidade e da fertilidade. Na qualidade de criatura destrutiva, a serpente integra as forças da morte do inverno, que se aproxima com o anúncio do outono. Nesta fase do ano, a Natureza começa a recolher-se no pousio, é a fase de contração das energias produtivas, por isso pedia-se a Thor que trouxesse um inverno suave, sacrificando-se animais. Como deus da Trovoada, ao desejar golpear a cabeça de Jormundgandr com o martelo Mjollnir produzia, por efeito mimético, os trovões que antecedem as chuvas fortes. A serpente tem aqui uma função meteorológica. As águas encharcam os solos, fecundando-os com o sémen do céu. Thor tenta regular as condições atmosféricas com o seu martelo que encerra o

poder de restituir a vida através da morte. Trata-se de um combate de equilíbrio de duas forças destrutivas, mas indispensáveis à renovação. A força de Thor une-se à da Serpente formando pêndulos de mudanças sazonais e das respetivas condições atmosféricas.

Notas da Autora: (1) Ragnarök assinala o fim da ordem divina, marcando um a nova hierarquia, equiparando-se ao Apocalipse. (2) No Velho Norreno, Midgardsormr é do género masculino. *Ormir, verme; serpente. (3) Os Gigantes eram classificados como seres desprovidos de inteligência e de natureza vincadamente instintiva, por isso governavam os elementos destrutivos da Natureza, representando as forças adversas à estabilidade e à fertilidade. Thor, porém, integrava o conjunto de Gigantes simpáticos à hegemonia odínica, sendo o seu protetor

Bibliografia: Dumézil, George, Mythes et Dieux de la Scandinavie Ancienne. Éditions Gallimard, França, 2000 Sturloson, Snorri, The Prose Edda: Norse Mythology. Peguin Books, Londres, 2001 Thorpe, Benjamin tradutor da Poetic Edda.The Northvegr Foudation Press, Michigan, 2004


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Próximos eventos da autora no Porto, Clínica Pharol 72 Dia 30 de junho, workshop sobre Posturas Rúnicas com introdução à Cosmogonia, complexidade da geografia do Cosmo no universo mitológico da Tradição Nórdica e análise do significado da Árvore do Mundo, como eixo central e suporte dos Nove Mundos Cósmicos.

Sobre o curso de Posturas Rúnicas com introdução à Cosmogonia: A meditação através do uso de posturas psicodinâmicas corporais abre um novo horizonte no contato com as entidades numinosas que se “escondem” num simples símbolo rúnico, cujo significado se manifesta e se expande no subconsciente. O corpo transforma-se no melhor instrumento de captação de energias etéricas com as quais poderemos trabalhar num contexto divinatório e, ao mesmo tempo, ativarmos o processo de autodesenvolvimento. A proposta aqui apresentada visa criar um veículo de revelação dos Mistérios da Natureza a partir de dentro de cada indivíduo, usando para tal os 24 sigilos mágicos do FUTHARK – o sistema de ideogramas utilizado pelos povos antigos de expressão germânica como suporte adivinhatório e de comunicação. Através das experiências individuais, nestes exercícios, vai-se elaborando e enriquecendo um sistema complexo de caracteres de uma linguagem mágica, que se vai incorporando no quotidiano individual. As Runas vão revelando os seus segredos de acordo com as emoções e os sentidos de cada participante.

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O símbolo, a psicologia e o misticismo Valentina Ramos * É curioso desde uma perspectiva mística como aspectos da psicologia podem ser aplicados para a compreensão de determinados fenómenos considerados divinos e ao mesmo tempo para o psicólogo conhecedor do mundo esotérico parece incrivelmente familiar o ponto de vista de alguns místicos dedicados a desnovelar os conceitos filosóficos e as vivências internas das pessoas.

“Neste sentido, da mesma forma que as pessoas comunicam entre si segundo um processo de codificação e descodificação, também os deuses e o divino comunicam com o homem através de um sistema de símbolos e signos.” É fácil identificar na psicologia as fontes da filosofia que são comuns no pensamento místico antigo, o que leva a pensar em que sentido a psicologia e o misticismo convergem e em que momento uma e outra se separam. No seu livro Ana Karénina, León Tolstoi narra: ―Levine observava com frequência nas discussões entre pessoas inteligentes que, depois grandes esforços, de muitas subtilezas lógicas e de abundantes palavras, os contendores chegavam à conclusão que procuravam demonstrar qualquer coisa que desde o princípio sabiam, mas que não queriam reconhecer para não serem vencidos e que o motivo da discussão derivava de terem gostos diferentes. Amiúde, no meio da discussão, um

dos polemistas compreendia o pensamento do outro, e aceitava-o; então todos os argumentos caíam por terra como algo inútil. Outras vezes sucedia o contrário: um dizia do que gostava e inventava argumentos para defendê-lo. Se o fizesse bem e com sinceridade o adversário rendia-se-lhe, abandonando a discussão (Tolstoi, 1965, p. 411) Desta forma, reflecte-se sobre um dos grandes problemas com que o homem quotidiano se confronta do qual resulta um ponto comum que diferencia psicologia e misticismo. O processo de comunicação, neste sentido, para a psicologia compreende o intercâmbio de sinais e códigos entre duas ou mais entidades cuja efectividade está na forma como estes sinais e códigos são partilhados e compreendidos. Deste modo, aquele que emite o código apenas sabe que a sua mensagem chegou quando recebe o feedback por parte do destinatário. No misticismo, o processo de comunicação ocorre de forma semelhante, a diferença está que o emissor da mensagem não é um ser tangível mas que está reconhecido na fonte da mensagem com um elemento fora do plano físico em que nos encontramos. Sem pretender entrar em tecnicismo psicológicos, vamos assumir no decorrer deste trabalho que efectivamente existe um elemento divino que não pode ser compreendido nem inteiramente percebido pelo homem mas que, no entanto, forma parte da sua vida espiritual. Então, também podemos estabelecer uma analogia entre a comunicação que se estabelece entre o divino e o homem onde podemos identificar igualmente sistemas de códigos que nos são transmitidos e que devem ser entendidos para garantir a compreensão da

* Sobre a autora: Valentina Ramos é licenciada em Psicologia, Mestre em Comunicação e estudante de Doutoramento em Psicologia. É iniciada em varias escolas esotéricas e membro da Federação Pagã Internacional, com sede em Portugal desde 2010. A autora pode ser contactada através de seu email: valia.ramos@gmail.com


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mensagem. Neste sentido, da mesma forma que as pessoas comunicam entre si segundo um processo de codificação e descodificação, também os deuses e o divino comunicam com o homem através de um sistema de símbolos e signos. Para Umberto Eco, o signo e a sua compreensão são a base de todo o processo de comunicação, no entanto, o autor alerta que todo o signo está sujeito a uma serie de significados fornecidos pela experiência humana, logo um mesmo objecto estará relacionado com uma vivência específica para cada pessoa. Assim, o objecto nunca poderia definirse por um único signo uma vez que este é apenas uma parte da representação do objecto (Eco, 1993). Para este autor, o símbolo é uma forma de signo que não se encontra associada a um significado objectivo. ―O simbolismo transforma a experiencia em ideia e a ideia em imagem, de maneira que a ideia contida na imagem permaneça sempre infinitamente activa e inalcançável e, como expressada em todas as línguas, permaneça inexpressável‖ (Goethe cit. in Eco, 1993 p. 48). Assim como as mensagens das pessoas estão por vezes carregadas de símbolos de que a interpretação resulta da existência de sistemas partilhados de signos e significados, as mensagens que nos chegam do divino estão sujeitas a estas mesmas leis. É neste processo de significações contínuas de símbolos que nos aproximamos da compreensão da mensagem enviada, mensagem que está sujeita a fenómenos internos do homem e também a fenómenos culturais. Um exemplo da mobilidade dos significados está presente nas imagens de Sheela na gigh, gravadas na pedra em várias regiões no norte da Europa. Esta figura de uma mulher que mostra sem escrúpulos a sua vagina aberta passou por vários processos de re-significação. Neste sentido, todos os símbolos são signos mas nem todos os signos são símbolos. A forma mais comum e quotidiana na qual o mundo dos homens se mistura com o mundo simbólico aparece nos sonhos. São as transformações oníricas que nos trazem recorrentemente mensagens muitas vezes simples de interpretar mas que em outras

ocasiões se confundem com situações inverosímeis e inexplicáveis. Freud descreve um dos sonhos de uma das suas pacientes da seguinte forma: Um sonho de Maury tornouse famoso. Estava doente de cama em seu quarto, com a mãe sentada a seu lado, e sonhou que estava no Reino do Terror. Após testemunhar diversas cenas pavorosas de assassinato, foi finalmente levado perante o tribunal revolucionário. Lá, viu Robespierre, Marat, Fouquier-Tinville e o resto dos soturnos heróis daqueles dias terríveis. Foi interrogado por eles e depois de alguns incidentes que não guardou na memória, fora condenado e conduzido ao local de execução o qual se encontrava cercado por uma multidão enorme. Subiu ao cadafalso e foi amarrado à prancha pelo carrasco. A guilhotina estava preparada e a lâmina desceu. Ele sentiu a cabeça a separar-se do corpo, acordando em extrema angústia‖ (Freud, 1900, p. 35). O que distingue o sonho descrito por Maury de uma recordação de vidas passadas? Até que ponto podemos dizer que as mensagens recebidas não foram efectivamente vivências que já aconteceram? Ou, simples invenções de uma mente doente? O mundo dos símbolos dentro do misticismo separa-se da psicologia num ponto importante: a revelação.

“Podemos considerar que é no processo de compreensão e transmissão do símbolo que a psicologia e o misticismo partilham o mesmo caminho” Para o psicólogo os símbolos e signos que nos chegam aparecem necessariamente através de fenómenos perceptuais que podem ser ou não compreensíveis. Neste sentido, a realidade não é mais do que uma configuração de percepções e processos que envolvem a atenção que por sua vez se encontra submetida a re-significações sucessivas conforme a nossa interacção com ela. Para o místico, a revelação é um fenómeno que também permite ao homem receber informação e


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comunica-la a outros. Neste ponto, a psicologia fica desprovida de argumentos lógicos.

nas imagens oraculares para compreender a natureza divina.

Tal como no exemplo do sonho de Maury, na Podemos considerar que é no processo de Bíblia podemos recolher outro exemplo famocompreensão e transmissão do símbolo que so de um sonho: No segundo ano do reinado a psicologia e o misticismo partilham o mesde Nabucodomo caminho. Semelhanças no uso da projecção na psicologia e no misticismo nosor, o rei teContudo, uma ve um sonho. e outra distinSonhou com guem-se na uma estátua forma como o formada por símbolo é conpeças de váfigurado e na rios metais. forma como a Intrigado o rei mensagem é convocou tocomunicada. dos os sábios E, apenas para para que o ajuos que consedassem a enguem compretender o soende-la pois " nho, mas os em qualquer sábios não salugar que estebiam explicar o jam os vestíArcano 13, The Labyrinth Tarot Lâmina 12 F, Teste de Aperque o rei havia gios do Mescepção Temática sonhado. Astre, os ouvidos sim, Nabucododaquele que estiver nosor emitiu um édito a ordenar a morte de preparado para receber o seu Ensinamento todos os sábios do reino. Daniel, um destes se abrirão completamente‖ e ―quando os ousábios, quando soube da ordem, pediu a vidos do discípulo estão preparados para ouDeus que lhe permitisse compreender o sigvir, então vêm os lábios para os encher com nificado da estátua e assim, com a graça diviSabedoria‖ (Caibalion). na, o próprio Daniel recebeu uma mensagem num sonho. Daniel dirigiu-se ao rei e reveloulhe o significado da estátua dizendo: ―E a mim foi-me revelado este mistério, não porque eu tenha mais sabedoria do que qualNota: quer outro homem vivente mas para que a interpretação se desse a conhecer ao rei e Uma versão deste trabalho foi apresentada para que entendesses os pensamentos do na XI Convenção Rosa-Cruz de Portugal. teu coração‖ (Daniel 2:30). Deste modo, nos processos de interpretação de símbolos, o homem recebe mensagens que lhe permitem compreender não só a si mesmo mas também os fenómenos que o rodeiam e a que não tem acesso tão facilmente: os processos de construção e desconstrução do universo. Enquanto o psicólogo utiliza mecanismos que permitem ao homem projectar sobre um sistema de símbolos os elementos que compõe a sua natureza humana como no caso das histórias que são contadas a partir de imagens sugestivas; por outro lado o místico aplica a sua interpretação do sistema de símbolos que aparecem

Referências Bibliográficas Concannon, M. (2004) The Sacred Whore: Sheela Goddess of the Celts. Cork: The Collins Press. Eco, U. (1993) El signo. Barcelona: Labor. Freud, S. (1900) A interpretação dos sonhos (Vol. IV). Tolstoi, L. (1965) Ana Karenina. New York: Random House. Três iniciados (s/a). Caibalion.


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Hino à Diana Traduzido ao Português por Luís Miranda e adaptado do livro: The Hymns of Orpheus. Translated by Taylor, Thomas (1792).

Os hinos órficos são uma colecção de diversos poemas antigos de carácter religioso atribuídos ao Orfeu e por conseguinte podem ser relacionados com o orfismo. Estes hinos têm influenciado e inspirado numerosos ocultistas de todas as épocas. Representação da Diana, Museu do Louvre, Paris

Hymn to Diana (Ártemis)

Hino à Diana (Ártemis)

Hear me, Jove's daughter, celebrated queen, Bacchian and Titan, of a noble mien: In darts rejoicing and on all to shine, torchbearing Goddess, Dictynna divine; O'er births presiding, and thyself a maid, to labour-pangs imparting ready aid: Dissolver of the zone and wrinkl'd care, fierce huntress, glorying in the Sylvan war: Swift in the course, in dreadful arrows skill'd, wandering by night, rejoicing in the field: Of manly form, erect, of bounteous mind, illustrious dæmon, nurse of human kind: Immortal, earthly, bane of monsters fell, 'tis thine; blest maid, on woody hills to dwell: Foe of the stag, whom woods and dogs delight, in endless youth who flourish fair and bright. O, universal queen, august, divine, a various form, Cydonian pow'r, is thine: Dread guardian Goddess, with benignant mind auspicious, come to mystic rites inclin'd Give earth a store of beauteous fruits to bear, send gentle Peace, and Health with lovely hair, And to the mountains drive Disease and Care.

Ouve-me filha de Zeus, celebrada rainha, Bromia e Titanis, de conduta nobre: A que em dardos se rejubila e em tudo brilha, Deusa portadora da tocha, divina Diktynna; Sobre os nascimentos presides e, tu própria donzela, pronto auxílio concedes àquelas que de dor de parto sofrem; Aliviadora da cinta, e de cuidado dobrado, feroz caçadora, gloriosa na Guerra de Sylvan; Veloz em seu curso, habilidosa com flechas temíveis, a que perambula pela noite, se rejubilando nos campos; A de forma valorosa, ereta, de mente generosa, ilustre Daimon, enfermeira da humanidade; Imortal, terrena, ruína dos monstros caídos, abençoada donzela, nas montanhas arborizadas habita; Adversária do veado, que se delicia em florestas e cães, na juventude infinda tu floresces bela, clara e brilhante. Ó rainha universal, augusta, divina, de formas variadas, é teu o poder Cydoniano: Temível Deusa Guardiã, com mente benigna e auspiciosa vens, aos ritos místicos inclinada; Dá à terra bonitos frutos, envia a Paz gentil e Saúde, com um cabelo adorável, E para as montanhas envia a doença e as preocupações.


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Os autores que desejem contribuir para a próxima edição deverão enviar os manuscritos para o endereço de email: am.revistadigital@gmail.com

Os artigos deverão ter uma extensão máxima de cinco páginas (de texto), com letra: Arial 12, espaçamento entre linhas: 1.5, formato: A4, margens: 3 cm, e em formato de Documento de Word (.doc, não .docx).

Os artigos deverão ser enviados em língua portuguesa, ainda que pontualmente se inclua publicações noutros idiomas.


Anima Mystica Revista Digital Vol 1 No 1