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«AS ALMAS» DO LOMBO DOS LEAIS...

Cerca de uma légua distante da vila do Porto da Cruz, em plena serra, entre arvoredos centenários e grandes moles de negras cantarias, alvejam as paredes do velho Solar dos Leais. É uma espaçosa casa antiga, correndo em dois andares, com as janelas pequenas e estreitas abrindo para o nascente. Do lado da Estrada Real, para quem sobe da vila ou desce da serra, o Solar oferece a monotonia das suas muralhas, que se rasgam apenas para o grande portão da entrada. Dizem que os meus antepassados propositadamente assim fizeram construir aquele ninho

adorável,

para

melhor garantirem a defesa, no caso de assalto dos corsários

ingleses,

franceses

ou

mouros

que

frequentemente levavam a cabo suas proezas, as mais das vezes castigadas severamente, na linda Ilha... A Quinta do Lombo dos Leais é das mais antigas da Ilha da Madeira, e, sem dúvida, das mais aprazíveis, já pela sua situação


privilegiada,

em

plena

serrania,

numa

altitude

considerável, já pela riqueza das terras que a cercam, já pelo remansoso isolamento em que se encontra. Os olhos perdem-se extasiados por muitos léguas de serras lindíssimas incrustadas de vilarejos, ou na distância imensa do horizonte onde o anil do mar se confunde com o azul do céu. Afirmam uns que a fundação daquele Solar do Lombo dos Leais vem dos tempos dos Reis da segunda dinastia, D. Afonso V ou mesmo D. Duarte, e outros que, apenas, do Reinado do Cardeal Dom Henrique. Em documentos que consultei tive ensejo de verificar que a sua fundação se deu por 1613, o que já dá um certo ar venerável àquelas possantes muralhas, amassadas com argila e areia. Quando o Povo do Porto da Cruz iniciou os trabalhos de edificação

da

Igreja Paroquial,

os Senhores do

Lombo dos Leais

tomaram à sua

conta

construção

Capela

da

a do

Santíssimo, que

forma o braço

direito da Cruz

Latina

Templo

apresenta. Nessa

que

o


capela do Santíssimo Sacramento dormem em Deus antepassados, da minha Raça, que foram bons cristãos e leais servidores da sua Pátria e dos seus Reis... Segundo rezam as tradições, num rigoroso Inverno aconteceu findar-se no Solar um dos seus Senhores. E como a água do céu não parava, como apostada em impedir de todo que levassem para o mausoléu da Família o velho Fidalgo, em vista da decomposição adiantada do cadáver, foi mister sepulta-lo na Capela de são João Nepomuceno, mesmo junta a outra casa dos Leais, a poucos minutos da Quinta do Lombo e mais conhecida pela «Casa da Capela». Na rocha sobre que assentam os alicerces desta velha habitação e deste minúsculo Santuário, fazem as corujas seus ninhos e em grandes bandos passam seu viver de noctívagas. E poisando, nos arvoredos ou nos telhados, soltam seus gritos sinistros que por vezes se assemelham a uma suplica plangente... O Povo, porém, apegado as superstições, afirma que é a Alma do Fidalgo que dorme o sono eterno na Capela solarenga, que se ergue a passear por seus domínios a matar saudades ou a chorar, censurando aquele isolamento a que na morte o votaram, arredando-o das Cinzas dos que na morte o antecederam,


e, lá em baixo, dormem na Igreja Paroquial, com esse mar de Safira a salmodiar-lhes orações... E da case da Capela, meio derrocada pelos séculos, nem vivalma se abeira desde que o sol se some no poente... Um receio supersticioso

empolga

aquelas

Almas

simples

de

Camponeses que se benzem orando quando os gritos das aves nocturnas enchem aquelas vales...

In Visconde de Porto da Cruz, Algumas Lendas e alguns Monumentos do Archipélago da Madeira, Lisboa, 1924


«AS ALMAS» DO LOMBO DOS LEAIS..