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TILLIE COLE


Disponibilização: Eva Tradução e Revisão Inicial: Faby, Ligia, Drika, Rezinha, Nane, Regina, Cristina, Juzita Revisão Final: Ma.K, Faby, Ane, Juzita Leitura Final e Formatação: Eva

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Cromwell Dean, dezenove anos, é a estrela em ascensão da dance music eletrônica. Milhares de pessoas o adoram. Mas ninguém o conhece. Ninguém vê a cor do seu coração. Até a garota do vestido roxo. Ela consegue enxergar através das paredes que ele construiu para a vasta escuridão dentro de si. Quando Cromwell deixa para trás o céu cinzento da Inglaterra para estudar música na quente Carolina do Sul, a última coisa que ele espera é voltar a vêla. E ele certamente não espera que ela fique dentro de sua cabeça como uma música repetitiva. Bonnie Farraday vive pela música. Ela deixa cada nota penetrar em seu coração e não entende como alguém tão talentoso quanto Cromwell pode não fazer o mesmo. Ele está se escondendo do seu passado e ela sabe disso. Tenta ficar longe dele, mas algo continua sempre a chamando de volta. Bonnie é a explosão de cores na escuridão de Cromwell. E ele é a batida que faz o coração dela pulsar. Mas quando uma sombra recai sobre Bonnie, cabe a Cromwell ser a sua luz, da única maneira que ele conhece. Ele precisa ajudá-la a encontrar a música perdida dentro do seu frágil coração. Ele deve mantê-la forte com uma sinfonia que só ele pode compor.

Uma sinfonia de esperança. Uma sinfonia de amor. Uma sinfonia só deles.

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A música dá alma ao universo Asas para a mente, fuga para a imaginação, E vida para tudo.

~ Platão

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Capítulo 1 Cromwell Brighton, Inglaterra

O clube pulsa quando a batida que despejo sobre a multidão toma conta de seus corpos. Braços no ar, quadris balançando, olhos arregalados e vidrados enquanto minha música bate em seus ouvidos, as batidas rítmicas controlando cada movimento deles. O ar é grosso e pegajoso, as roupas coladas na pele das pessoas que se amontoam no clube para me ouvir. Eu vejo cores iluminando-os. Assisto enquanto se perderem no som. Vejo quando deixam de lado a pessoa que foram hoje — um trabalhador de escritório, um estudante, um artesão, um atendente de call center — o mesmo de sempre. Neste momento, neste clube, provavelmente embriagados, eles são escravos de minhas músicas. Bem aqui, neste momento, minha música é a vida destas pessoas. É tudo o que importa quando suas cabeças voam para trás, perseguindo o êxtase, a proximidade com o nirvana que lhes proporciono do meu lugar no palco. Eu, no entanto, não sinto nada. Nada além do entorpecimento que a bebida ao meu lado me presenteia. Dois braços deslizam em volta da minha cintura. O hálito quente passa pela minha orelha quando lábios cheios beijam meu

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pescoço. Colocando para tocar minha batida final, pego o Jack Daniels ao meu lado e tomo um gole direto da garrafa. Bato a garrafa e volto para o laptop para mixar minha próxima música. Mãos com unhas afiadas percorrem meu cabelo, puxando os fios pretos. Toco nas teclas, diminuindo a música, baixando o ritmo. Minha respiração se prolonga enquanto a multidão espera, seus pulmões congelados enquanto os conduzo em um balanço lento, preparando-os para o aumento gradual do som. A onda épica de batidas e tambores, a insanidade da mistura que vou lhe entregar. Olho por cima do meu laptop e examino a multidão, sorrindo ao vê-los no limite, esperando... esperando... apenas esperando... Agora. Bato minha mão para baixo, enquanto seguro meus fones na orelha esquerda. Um ímpeto, uma nuvem de dance music eletrônica invade a multidão. Explosões de cores neon preenchem o ar. Verdes, azuis e vermelhos tomam conta dos meus olhos enquanto eles se agarram a cada pessoa como se fossem escudos de neon. As mãos ao redor da minha cintura apertam, mas eu as ignoro, em vez disso, ouço a garrafa de Jack, que chama meu nome. Tomo outro gole, meus músculos começando a ficar mais soltos. Minhas mãos dançam sobre as teclas do laptop, sobre as placas de mixagem. Olho para cima, a multidão ainda na palma da minha mão. Eles sempre estão. Uma garota no centro do clube chama minha atenção. Longos cabelos castanhos afastados do rosto. Vestido roxo de gola alta — ela não está vestida como qualquer outra

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pessoa . A cor que a cerca é muito diferente das outras clubbers — rosa-claro e lilás. Mais calma. Mais serena. Minhas sobrancelhas se franzem enquanto a observo. Seus olhos estão fechados, mas ela não se move. Ainda está parada, e parece completamente sozinha enquanto as pessoas se chocam e empurram ao seu redor. Sua cabeça está inclinada para o alto, uma expressão de concentração em seu rosto. Aumento o som, impulsionando o ritmo e a multidão até onde eles podem ir. Mas a garota não se mexe. Isso não é normal para mim. Sempre tive esses clubbers na palma da minha mão. Eu os controlo, em todo lugar aonde toco. Nesta arena, sou o mestre das marionetes. As pessoas ali embaixo, meus bonecos. Outro gole de Jack queima em minha garganta. E durante as próximas cinco músicas, ela fica lá, no mesmo lugar, apenas bebendo as batidas como se fosse água. Mas seu rosto nunca se altera. Nenhum sorriso. Nenhuma grande euforia. Apenas... olhos fechados, aquela maldita mesma expressão em seu rosto. E aquelas cores rosa e lilás ainda a cercando como um escudo. “Cromwell”, a loira que está em cima de mim, como uma alergia, fala em meu ouvido. Seus dedos levantam minha camisa e se enfiam no cós do meu jeans. Suas longas unhas descem. Mas eu me recuso a tirar os olhos da garota de vestido roxo. Seu cabelo castanho está começando a enrolar, está suando prensada entre os clubbers. A loira que está a um passo de me masturbar na frente de todos no clube, abre meu zíper. Solto meu próximo mix, então pego a mão dela e a afasto de mim, enquanto fecho minha calça. Solto um gemido quando suas mãos deslizam novamente pelo meu cabelo. Olho para o colega que tocou antes de mim. “Nick!” Aponto para meus decks. “Fique de olho. E não estrague tudo.”

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Nick franze a testa em confusão, então vê a garota atrás de mim e sorri. Ele pega meus fones e vem se certificar de que playlist que criei comece a tocar no momento certo. Steve, o dono do clube, sempre deixa algumas garotas no backstage. Nunca pedi, mas também nunca recusei. Por que eu recusaria uma gostosa pronta para qualquer coisa? Pego meu Jack do palco quando a loira esmaga seus lábios nos meus, puxando-me para trás pela camiseta sem mangas do último festival Creamfields. Removo minha boca da dela, substituindo-a pela garrafa de Jack. A loira me arrasta para um local escuro nos bastidores. Ela cai de joelhos e começa a abrir meu zíper outra vez. Fecho meus olhos e deixo que ela faça o trabalho. Bebo o Jack enquanto minha cabeça bate na parede atrás de mim. Forço-me a sentir alguma coisa. Olho para baixo, observando o cabelo loiro balançando em volta de mim. Mas o entorpecimento que tenho vivido todos os malditos dias faz com que eu não sinta praticamente nada em meu interior. Pressão se constrói na base da minha espinha. Minhas coxas se apertam e então tudo acaba. A loira se levanta. Posso ver estrelas em seus olhos quando ela olha para mim. “Seus olhos.” Ela estende um dedo para traçar o contorno do meu olho. “Uma cor tão estranha. Um azul tão escuro.” Eles são. Juntamente com meu cabelo preto, eles sempre chamam atenção. Isso e o fato de que sou um dos DJs mais populares e mais jovens da Europa, é claro. Ok, talvez tenha menos a ver com os meus olhos e mais com o meu nome, Cromwell Dean, agraciando as manchetes principais em grande parte dos maiores festivais de música deste verão.

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Fecho meu zíper e me viro a tempo de ver Nick soltando meu próximo mix. Encolho-me quando ele não consegue fazer a transição das batidas como eu teria feito. O azul marinho é o pano de fundo para a fumaça na pista de dança. Eu nunca pressiono o botão azul-marinho. Deixo a garota com um ‘Obrigado, amor’, ignorando seu silvo de ‘babaca’ em resposta. Tiro meus fones da cabeça de Nick e os coloco de volta. Depois de algumas batidas no teclado, a multidão está de volta à palma da minha mão. Sem pensar conscientemente, meus olhos se voltam para o local onde a garota do vestido roxo estava. Mas ela foi embora. O mesmo aconteceu com o rosa-claro e o lilás. Engulo outro gole de Jack. Faço o mix de mais uma melodia. Então perco a consciência.

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A areia está fria sob meus pés. Pode ser o início do verão aqui no Reino Unido, mas isso não significa que o vento noturno não congelará suas bolas no momento em que você estiver do lado de fora. Agarrando minha garrafa de bebida e meus cigarros, caio na areia. Acendo um e olho para o céu escuro. Meu telefone toca no meu bolso... novamente. Está tocando a noite toda. Puto por ter que mover meu braço, eu pego o celular. Há três chamadas perdidas do professor Lewis. Duas da minha mãe e, finalmente, algumas mensagens de texto.

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MÃE : O professor Lewis tem tentado falar com você novamente. O que você vai fazer? Por favor, me ligue. Eu sei que você está chateado, mas este é seu futuro. Você tem um dom, filho. Este ano talvez seja hora de recomeçar. Não jogue tudo fora apenas por estar com raiva de mim.

Uma fúria fervente atravessa meu corpo. Quero jogar meu maldito celular no mar e vê-lo afundar junto com toda essa merda confusa dentro da minha cabeça, mas vi que o professor Lewis também enviou uma mensagem.

LEWIS : A oferta ainda está de pé, mas preciso de uma resposta na próxima semana. Tenho tudo que preciso para a transferência, exceto sua resposta. Você tem um talento excepcional, Cromwell. Não o desperdice. Eu posso ajudar.

Desta vez, deixo o telefone ao meu lado e afundo na areia. Deixo a sensação da nicotina encher meus pulmões e fecho meus olhos. Quando minhas pálpebras se fecham, ouço uma música baixinha tocando em algum lugar próximo. Clássica. Mozart. Minha mente bêbada imediatamente retorna para quando eu era criança... “O que você ouve, Cromwell?”, meu pai pergunta. Fecho os olhos e presto atenção à peça musical. Cores dançam diante dos meus olhos. “Piano. Violinos Violoncelos...”

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inspiro profundamente. “Eu posso ouvir os vermelhos, verdes e rosas.” Abro os olhos e observo meu pai enquanto ele se senta na minha cama. Ele está olhando para mim. Há uma expressão engraçada em seu rosto. “Você ouve as cores?”, ele pergunta. Mas não parece surpreso. Meu rosto fica vermelho. Escondo minha cabeça debaixo do edredom. Meu pai o afasta dos meus olhos. Ele acaricia meu cabelo. “Isso é bom”, ele diz, sua voz meio rouca. “Isso é muito bom...” Meus olhos se abrem. Minha mão começa a doer. Olho para a garrafa na minha mão; meus dedos estão brancos de tanto apertar o gargalo. Sento-me, minha cabeça girando com a grande quantidade de uísque circulando em meu corpo. Minhas têmporas latejam. Percebo que não é por causa do Jack, mas sim pela música que vem da praia. Afasto o cabelo do meu rosto e olho para a direita. Alguém está a apenas alguns metros de distância. Olho para a luz do dia, o sol nascente do verão torna possível distinguir as feições de quem quer que seja. É uma garota. Uma garota envolta em um cobertor. O telefone dela está ao seu lado, um concerto para piano de Mozart flutua baixinho a partir do altofalante. Ela deve ter sentido que eu a estou olhando, porque vira a cabeça. Faço uma careta, perguntando a mim mesmo de onde conheço seu rosto, e então... “Você é o DJ”, ela diz. Reconhecimento me atinge. É a garota do vestido roxo.

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Ela aperta o cobertor em volta de si enquanto mentalmente repito seu sotaque. Americana. Cinturão Bíblico1 é meu palpite, pelo seu forte som anasalado. Ela me lembra do jeito como minha mãe fala. Um sorriso repuxa seus lábios enquanto fico em silêncio. Não sou do tipo que fala muito. Especialmente quando meu corpo está tomado com Jack e também não tenho interesse em conversar com uma garota que nem conheço às quatro da manhã em uma praia gelada de Brighton. “Ouvi falar de você”, ela diz. Eu olho de volta para o mar. Navios balançam à distância, suas luzes parecendo minúsculos vaga-lumes, subindo e descendo. Deixo escapar uma risada sem graça. Ótimo. Outra garota que quer foder com o DJ. “Bom para você”, murmuro e tomo um gole do meu Jack, sentindo a queimação viciante deslizar pela garganta. Espero que ela vá embora, ou pelo menos, pare de tentar falar comigo. Minha cabeça não aguenta mais barulho. “Não, na verdade”, ela lança de volta. Olho para ela, minhas sobrancelhas franzidas em confusão. Ela está olhando para o mar, seu queixo apoiado nos braços cruzados sobre os joelhos dobrados. O cobertor cai de seus ombros, revelando o vestido roxo que notei do palco. Ela se vira para mim, agora com a bochecha nos braços. Calor me envolve. Ela é bonita. “Eu já ouvi falar de você, Cromwell Dean.” Ela encolhe os ombros. “Decidi arranjar um ingresso para vê-lo antes de voltar para casa amanhã.” Acendo outro cigarro. O nariz dela se enruga. Claramente não gosta do cheiro.

1 Cinturão Bíblico (Bible Belt) é uma região no sudeste dos Estados Unidos onde a prática da religião protestante faz parte da cultura local.

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Azar. Ela pode ir para outro lugar. Da última vez que verifiquei, a Inglaterra era um país livre. Ela fica quieta. Eu a pego olhando para mim. Seus olhos castanhos estão estreitos, como se estivesse me avaliando. Lendo em mim algo que não quero que ninguém veja. Ninguém nunca me olhou de perto. Nunca dei esta chance a ninguém. Sempre fiz sucesso no palco dos clubes porque mantenho todo mundo afastado, na pista de dança, onde ninguém nunca vê o meu eu verdadeiro. O jeito como ela olha para mim agora faz minha pele arrepiar. Não preciso desse tipo de porcaria. “Já tive meu pau chupado esta noite, amor. Não estou procurando uma segunda rodada.” Ela pisca, e mesmo no sol nascente, posso ver suas bochechas corarem. “Sua música não tem alma”, ela diz. Meu cigarro para a meio caminho da boca. Algo em suas palavras consegue atingir meu estômago. Empurro a sensação de volta até voltar a sentir a dormência usual. Eu trago meu cigarro. “Sim? Bem, são os breaks.” “Disseram-me que você é uma espécie de Messias ou algo assim em cima daquele palco. Mas toda sua música é composta por batidas sintéticas, explosões forçadas e repetitivas de um ritmo não original.” Rio e balanço a cabeça. A garota encontra meus olhos de frente. “O nome é dance music eletrônica. Não é uma orquestra com cinquenta integrantes.” Estendo os braços. “Você já ouviu falar de mim. Então, diga-me. Você conhece o som que eu faço. O que você esperava? Mozart?”, olho para o telefone, que ainda está tocando aquele maldito concerto.

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Eu volto a me reclinar, surpreso comigo mesmo. Faz tempo que não falo tanto assim com alguém... nem sei quanto tempo. Fumo outra vez, expirando a fumaça que está presa no meu peito. “E desligue essa coisa, ok? Quem diabos vai ouvir um DJ e depois vem a uma praia para ouvir música clássica?” A garota franze a testa, mas desliga a música. Deito na areia fria, fechando os olhos. Ouço as ondas suaves batendo na costa. Minha cabeça se enche de verde claro. Ouço a garota se movimentando. Rezo para que ela esteja indo embora. Mas percebo quando ela senta ao meu lado. Meu mundo escurece quando o uísque e a habitual falta de sono começam a me derrubar. “O que você sente quando mixa sua música?”, ela pergunta. Está além da minha compreensão como ela pode achar que essa sua pequena entrevista é uma boa ideia. No entanto, surpreendentemente, eu me pego respondendo. “Eu não sinto.” Abro um olho quando ela não diz nada. Ela está olhando para mim. Tem os maiores olhos castanhos que eu já vi. Cabelos escuros afastados de seu rosto em um rabo de cavalo. Lábios volumosos e pele lisa. “Então esse é o problema.” Ela sorri levemente, mas o sorriso parece apenas triste. De pena. “A melhor música deve ser sentida. Pelo criador. Pelo ouvinte. Cada parte dela, da criação ao ouvido, deve estar envolta em nada além de sentimentos.” Uma estranha expressão atravessa seu rosto, mas não faço ideia do que significa. Suas palavras são como uma lâmina no meu peito. Eu não esperava seu comentário rude. E também não esperava o trauma contuso que ela consegue fazer diretamente em meu coração. É como se estivesse pegando uma faca de açougueiro e usando-a para abrir seu caminho até minha alma.

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Meu corpo tenta se levantar e correr. Para arrancar da minha memória a sua crítica sobre minha música. Mas, em vez disso, forço uma risada e disparo, “Volte para casa, pequena Dorothy. Volte para onde a música tem algum significado. Para onde ela pode ser sentida.” “Dorothy era do Kansas.” Ela desvia o olhar. “Eu não sou.” “Então volte para o lugar de onde diabos você veio”, retruco. Cruzando os braços sobre meu peito, então me deito na areia e fecho os olhos, tentando bloquear o vento frio que está aumentando e batendo em minha pele e suas palavras que ainda estão alfinetando meu coração. Nunca deixo nada me atingir deste jeito. Não mais. Só preciso dormir um pouco. Não quero voltar para a casa da minha mãe aqui em Brighton e meu apartamento em Londres está muito longe. Então, tenho esperança que os policiais não me encontrem aqui e não me expulsem da praia. Com os olhos fechados, digo, “Obrigado pela crítica da meianoite, mas como o DJ que mais cresce na Europa, com os melhores clubes do mundo implorando por minha presença em seus decks — tudo isso aos dezenove anos — acho que vou ignorar suas extensas observações e continuar vivendo minha doce e fodida vida.” A garota suspira, mas não diz mais nada. A próxima coisa que registro é que o sol está queimando sua claridade em meus olhos. Dou uma vacilada quando os abro. O guincho das gaivotas pescando martela em minha cabeça. Sentome e observo a praia vazia e o sol alto no céu. Corro minhas mãos pelo rosto e solto um gemido com a ressaca que está bombando. Meu estômago ronca, desesperado por um completo café da manhã inglês com abundância de xícaras de chá preto.

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Quando me levanto, algo cai do meu colo. Um cobertor está na areia aos meus pés. O cobertor que vi ao lado da garota americana do vestido roxo. O que ela estava segurando em volta de seu corpo na noite passada. Eu o pego e uma leve fragrância penetra em meu nariz. Doce. Viciante. Olho em volta. A garota foi embora. Deixou o cobertor. Não. Ela me cobriu com ele. “Sua música não tem alma.” Uma forte sensação de aperto percorre meu íntimo com a lembrança de suas palavras. Então afasto isso como faço com qualquer coisa que desperta alguma sensação em mim. Aprisiono aquilo bem lá no fundo. Então levo minha bunda para casa.

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Capítulo 2 Cromwell Universidade Jefferson Young, Carolina do Sul Três meses depois...

Bato na porta. Nada. Deixo minha bolsa no chão. Quando ninguém responde, viro a maçaneta e entro. Metade do quarto está coberto com cartazes: bandas, arte, uma pintura do Mickey Mouse, uma pintura verde-clara de um trevo — os temas estão por toda parte. É a coisa mais aleatória que eu já vi. A cama já está desarrumada, um cobertor preto jogado aos pés. Pacotes de batata-frita e embalagens de chocolate cobrem a pequena mesa. Tintas e pincéis usados estão espalhados por todo o peitoril da janela. Eu sou bagunceiro, mas não mais do que esse. À minha esquerda está o que obviamente é minha cama. Jogo minha bolsa superlotada no chão ao lado dela e depois desabo. É minúscula, meus pés quase ficam pendurados para fora. Pego meus fones de ouvido que estão pendurados no pescoço

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e os coloco nas orelhas. O jet lag está me pegando e estou com torcicolo porque dormi em uma posição estranha durante o voo. Assim que estou prestes a ligar minha música, alguém voa pela porta. Meus olhos atingem um cara alto com cabelos loiros e desgrenhados. Ele veste um short longo e uma camiseta sem mangas. “Você está aqui!”, ele diz, colocando as mãos nos joelhos, enquanto recupera o fôlego. Levanto uma sobrancelha em confusão. Ele ergue a mão para eu esperar, depois se aproxima e estende a mão. Eu a aperto com relutância. “Você é Cromwell Dean”, ele diz. Sento-me na cama e jogo minhas pernas para o lado. O cara puxa uma cadeira que estava debaixo da sua mesa e a coloca ao lado da minha cama. Ele se vira e senta ali, descansando os braços no encosto. “Eu sou Easton Farraday. Seu companheiro de quarto.” Balanço a cabeça, então aponto para o seu lado do quarto. “Sua decoração é... eclética.” Easton pisca e abre um largo sorriso. Não estou acostumado a sorrir para as pessoas. Nunca soube por que as pessoas têm tantos motivos para sorrir. “Essa é uma palavra tão boa quanto qualquer outra para mim, eu suponho.” Ele se levanta da cadeira. “Vamos.” Passando a mão pelo meu cabelo, fico de pé. “E aonde diabos nós vamos?” Easton ri. “Caralho, cara. Vou demorar um pouco para me acostumar com esse sotaque.” Ele me cutuca no braço. “As garotas por aqui vão pirar com isso.” Suas sobrancelhas sobem e descem. “Isso e o fato de você ser um DJ famoso e tal. Você consegue bucetas aos montes, hein?”

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“Eu consigo o suficiente.” Easton coloca as mãos nos meus ombros. “Seu bastardo sortudo. Precisa me ensinar seus métodos!” Ele anda até a porta. “Vamos. Você vai receber o tour de Easton Farraday pela Jefferson Young.” Olho pela janela para o pátio. O sol está fervendo. Eu sou da Inglaterra; ninguém está acostumado com tanta exposição ao calor. Embora tecnicamente, seja da Carolina do Sul. Minha mãe é daqui, mas eu nunca conheci o lugar. Nós nos mudamos para o Reino Unido quando eu tinha apenas sete semanas de vida. Posso ter nascido na América, mas sou britânico. “Por que não?”, digo e Easton me leva para fora. Eu o sigo pelo corredor. Passamos por algumas pessoas e cada uma delas diz olá a Easton. Batidas nas mãos, abraços e piscadelas são distribuídos pelo meu novo colega de quarto aos caras e meninas. Vejo os caras me olhando de um jeito estranho. Alguns obviamente tentando me reconhecer, outros claramente me reconhecendo. Easton inclina o queixo para um cara e uma garota que se aproximam. O cara olha para mim. “Caralho. Cromwell Dean. Easton disse que você viria, mas eu pensei que era sacanagem.” Ele balança a cabeça. “Por que diabos você está aqui na JYU? Todos estão se perguntando isso.” Eu abro minha boca, mas Easton responde por mim. “Por causa de Lewis, certo? Todo mundo que já pegou em um maldito instrumento está aqui por ele.” O cara concorda, como se eu tivesse respondido sua pergunta e não Easton. “Eu sou Matt. Amigo de Easton.” Matt ri. “Você logo verá que está alojado com o cara mais popular do campus. Nós somos sem importância nessa faculdade, mas esse

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cara é muito grande. Demorou somente três semanas para que todos o conhecessem no primeiro ano. E apenas mais algumas antes que o corpo docente, os idosos e todos os demais já soubessem seu nome.” “Sara”, diz a ruiva ao lado de Matt. “Você, sem dúvida, será convocado para nosso grupo.” “Você tem que tocar na sexta-feira”, Matt diz. Easton geme e soca Matt no braço. “Eu tinha um plano, Matt. Você tem que preparar o terreno ante de pedir essa merda.” Meu olhar dispara entre Matt e Easton. Sara revira os olhos para eles, então Easton se vira para mim. “Temos um celeiro velho e abandonado a alguns quilômetros do campus. Um ex-aluno é dono das terras e do celeiro. Ele permite o nosso uso para festas. Não há muitos lugares por aqui para se festejar — temos que ser criativos. Está tudo montado. Um dos veteranos do ano passado mandou colocar luzes, uma pista de dança e um palco. Ele quis torrar o dinheiro do papai que traiu sua mãe. O lugar é o sonho dos alunos.” “Policiais?”, pergunto. Easton levanta os ombros. “É uma universidade em uma cidade pequena. A maioria de nós é das áreas locais. Jefferson nunca foi um grande polo de coisa alguma, além das mensalidades baratas, até que Lewis veio para cá este ano. A maior parte dos policiais frequentou o ensino médio com alguém daqui. Velhos amigos. Eles não nos incomodam.” “Nós meio que temos um acordo do tipo ‘não pergunte, não conte’ com eles. O celeiro está suficientemente longe da cidade e por isso ninguém reclama do barulho”, Matt diz.

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Minha cabeça lateja. Preciso de um cigarro e pelo menos umas quatorze horas de sono. “Claro”, digo quando vejo três pares de olhos me encarando a espera de uma resposta. “Puta merda!”, Matt joga o braço em volta dos ombros de Sara. “Eu não posso acreditar. Cromwell Dean vai tocar no celeiro!” Ele se vira para Easton. “Vai ser épico.” Easton o saúda e depois coloca a mão no meu ombro. “Vou dar um tour ao Crom. Vejo você mais tarde.” Sigo Easton e descemos as escadas que levam ao pátio. Ele respira fundo quando o ar úmido bate em nós como um trem de carga. Easton abre os braços. “Aqui, Cromwell, é o pátio.” Algumas pessoas descansam na grama, música toca nos alto-falantes de um telefone. Alunos estão lendo, casais relaxam juntos. Mais uma vez, todos cumprimentam Easton. Eles simplesmente me encaram. Acho que é o que acontece quando você se transfere no segundo ano para uma universidade de outro país. “O pátio é para relaxar, matar aulas ou qualquer outra coisa”, ele diz. Sigo Easton até a lanchonete, depois para a biblioteca — que ele me diz que não é para livros, mas para transar atrás das estantes. Nós chegamos a uma caminhonete. “Entre”, ele comanda. Cansado demais para discutir, entro na caminhonete e ele sai para a estrada, deixando a universidade. “Então?”, ele pergunta quando acendo um cigarro e dou uma tragada profunda. Fecho meus olhos enquanto expiro. Nove horas em um voo sem nicotina é uma merda. “Compartilhe a alegria, Crom”, Easton diz. Passo um cigarro a ele. Abaixo a janela e olho para os campos esportivos e o pequeno estádio do time de futebol americano. “Então?”, Easton repete. “Eu entendo que Lewis é um grande atrativo para você, mas mesmo assim, sua vida está feita,

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não é?”, giro minha cabeça contra o encosto do banco para encará-lo. Ele tem uma tatuagem no braço. Parece um símbolo de signo ou algo assim. Nunca entendi porque as pessoas fazem uma só. No minuto em que fiz minha primeira, agendei para fazer as demais. Muitas sessões depois e ainda não terminei. Estou viciado. O autofalante está tocando uma playlist do seu telefone. Como se na sugestão, uma das minhas mixagens começa a tocar. Ele ri. “No caso de você estar se perguntando, isso é apenas Deus me apoiando em minha pergunta.” Eu inclino minha cabeça para trás e fecho os olhos, apenas absorvendo a fumaça. “Fiz um ano de universidade em Londres. Estava tudo bem, mas não queria mais continuar na Inglaterra. Lewis me convidou para estudar aqui com ele. Então eu vim.” Há um breve silêncio. “Mas ainda não entendi. Por que terminar os estudos? Você tem uma carreira que está decolando. Por que se preocupar com faculdade?” Uma faca torce no meu estômago, minha garganta bloqueia. Eu não responderei a isso. Então, apenas mantenho meus olhos e minha boca fechados. Easton suspira. “Bem. Seja um mistério. Basta acrescentar isso à lista de coisas que fará as garotas caírem em cima.” Ele empurra meu braço. “Abra os olhos. Como posso lhe mostrar as paisagens de Jefferson Town se eles estiverem fechados?” “Pode ser um áudio tour. Do jeito como você nunca cala a boca, talvez possa fazer uma boa grana com isso.” Ele começa a rir.

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“Verdade.” Easton aponta para a pequena cidade que estamos entrando. “Bem-vindo à Jefferson Town. Fundada em 1812. População de duas mil pessoas.” Ele rejeita o que deve ser a estrada principal. “Você tem todos os lugares habituais”, ele diz em um sotaque inglês horrível, que assumo que é para o meu prazer. “Dairy Queen, McDonalds, todas essas coisas. Alguns bares caipiras. Pequenos restaurantes. Um café lounge — têm algumas noites de karaokê muito boas, se você estiver precisando relaxar. Temos alguns bons talentos locais.” Há um cinema com quatro telas, algumas coisas turísticas e, finalmente, passamos pelo Celeiro. É exatamente isso, mas Easton me promete que por dentro é algo que você encontraria em Ibiza. Tendo tocado em Ibiza mais vezes do que qualquer um que conheço, eu duvido disso. Mas é um lugar para se divertir e, nessa cidade, já é alguma coisa. “O que você está estudando?”, pergunto. “Arte”, ele responde. Penso nos cartazes e pinturas na parede do nosso quarto. “Eu gosto de Mixed Media também. Qualquer coisa com cores e expressão.” Ele inclina a cabeça em minha direção. “Vou tomar conta da iluminação na sexta. Você ficará nos decks e eu nas luzes. Será muito foda.” Ele balança as sobrancelhas. “Pense em todas as gatas que conseguiremos.” Naquele momento, tudo que consigo pensar é em dormir.

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Capítulo 3 Cromwell

Easton está praticamente pulando no banco do motorista de sua caminhonete quando nos aproximamos do Celeiro. São apenas dez da noite. Não estou acostumado a comandar os decks antes de meia noite, no mínimo. Easton estava certo. O lugar está movimentado, pessoas perambulando por todo gramado do lado de fora do prédio de madeira. A dance music ecoando pelas rachaduras nas tábuas de madeira. Estremeço ao ouvir um mix terrível escorregar para outra sintonia. Easton deve ter visto minha expressão. Ele para a caminhonete e coloca a mão no meu braço. “Você é nosso salvador, Crom. Veja o que somos obrigados a suportar? Bryce é superprotetor com os decks dele. Você foi avisado.” Acendo um cigarro e saio da caminhonete. Todos os olhos estavam nela desde o minuto em que Easton parou. Fica ainda pior quando desço. Ignoro os olhares e sussurros apressados e sigo para a parte de trás da caminhonete. Pego meu laptop e jogo-o sobre o ombro. Minha camiseta sem mangas está grudada no peito. O clima faz eu me sentir como se estivesse vivendo em uma sauna permanente. Meu jeans se

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agarra às minhas pernas. Sigo Easton em direção ao celeiro. Todas as garotas estão me encarando. Com os dois braços cheios de tatuagens que seguem pelo pescoço, só existem duas reações para mim. Ou as garotas ficam com suas calcinhas encharcadas assim que batem seus olhos nas minhas tatuagens ou me repudiam completamente. Pelos olhares que estão sendo lançados na minha direção, está acontecendo o primeiro. Uma morena entra na minha frente, me obrigando a parar completamente. Easton ri ao meu lado. Ela empurra o braço dele e diz, “Sou Kacey. Você é Dean Cromwell.” “Bem observado”, digo. Ela sorri. Passo a língua sobre meus lábios e vejo seus olhos rapidamente seguindo meu piercing de língua. “Eu estou... hum...”, ela cora. “Estou ansiosa para ouvir seu set.” Ela toma um gole de sua cerveja e nervosamente coloca o cabelo atrás da orelha. “Tenho algumas de suas mixagens tocando na minha playlist, mas me disseram que não se compara a ouvir você ao vivo.” Olho para Easton. “Se você quer que eu salve todos aqui das mixagens horríveis que este Bryce está tocando, é melhor irmos.” “Vejo você mais tarde, Kacey”, diz Easton. Balanço a cabeça para Kacey e então passo por ela seguindo para a porta. Easton me cutuca. “Ela é das boas.” Ele sorri ainda mais. “E gostosa também, hein?” Baixo minha cabeça, escondendo o rosto quando percebo que todas as pessoas estão olhando. Odeio chamar atenção. Sei que parece idiota, o DJ odiar a atenção. Mas só quero que as pessoas desejem minha música, não a mim. Não quero o interesse delas em mim como pessoa. Eu só quero tocar. Preciso tocar para minha sanidade.

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O resto é difícil de lidar. Não há muito para mim de qualquer maneira. Realmente não valho qualquer atenção. Easton ri quando percebe que não quero atenção e joga o braço em volta do meu pescoço. Do jeito como ele é barulhento, nunca entenderia. O babaca não tem qualquer noção de espaço pessoal. Mas não posso deixar de gostar dele. Não tenho amigos. E tenho a sensação de que ele não irá embora, mesmo se eu pedir. “Merda, Crom. Você parece um animal em um zoológico ou o que? Nós não temos muitas celebridades aqui em Jefferson.” “Não sou uma celebridade”, respondo quando ele me leva para o palco. “No mundo da dance music eletrônica você é. E aqui na JYU você é.” Ele se inclina para outra garota que está perambulando perto do palco. Eu juro, o cara é um ímã de garotas. Ele se vira para mim. “Qual é o seu veneno?” “Jack. Garrafa cheia.” “Bom”, diz Easton, sorrindo em aprovação. A garota vai embora. Abro minha bolsa e pego meus fones de ouvido. Alongando o pescoço, puxo meu laptop. Easton me observa como se eu fosse um experimento científico vivo. Levanto a sobrancelha. “É como assistir a um mestre trabalhando ou algo assim”, diz ele. Easton bate no ombro do atual DJ. Bryce. Bryce olha para mim de canto de olho e sai do palco. Easton ri quando o idiota mal-humorado me dá um empurrão ao passar. Subo os degraus até o palco e monto meu laptop. Conecto-o ao sistema e, em seguida, me permito olhar para cima.

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O lugar está lotado. Centenas de olhos fixos em mim. Eu respiro fundo quando o calor crescente dos corpos dançantes gruda na minha pele, enquanto as cores vibrantes que os rodeiam agride meus olhos. Uma garrafa de Jack aparece ao meu lado. Tomo um longo gole e solto a garrafa na minha direita. Easton, à minha esquerda, inclina o queixo para mim. Ele está bebendo uma garrafa de tequila como se fosse água. Espio por cima do meu laptop os corpos alinhados e esperando. Eu vivo por este momento. A pausa. A respiração contida antes do caos. Pressiono as teclas. Preparo a melodia. Então, com um movimento da minha mão, envio a multidão para dentro da euforia. Easton banha o celeiro em lasers verdes. Luzes estroboscópicas entram em seguida, fazendo com que a multidão dançante pareça estar se movendo em câmera lenta. Bebendo. Fumando. Alguns completamente eufóricos. Easton joga a cabeça para trás, rindo. “Isso é uma loucura! Cromwell Dean está no Celeiro!” A batida se transforma no ritmo do meu coração enquanto ecoa contra as paredes do celeiro. Easton não estava mentindo. Por dentro, este lugar é bom. Tomo um gole após o outro do meu Jack. Easton toma a tequila como se ela fosse acabar se não bebesse tudo bem rápido. Encolho os ombros. É a vida dele, assim como será a ressaca assassina que o atingirá nos olhos de amanhã. Olho para meu Jack. A quem estou enganando? Estou planejando me juntar a ele. Easton cutuca meu braço. Ele inclina o queixo apontando para frente do palco. Kacey, a morena lá de fora, está olhando para

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mim. Ela sorri e eu balanço a cabeça para ela. Enquanto observo a multidão, vejo pessoas rindo em grupinhos, casais cantando, dançando. Nunca tive nada disso na minha vida. Eu tive minha música. E só. Meu estômago desaba com a tristeza repentina, pegando-me de surpresa. Imediatamente afasto o sentimento para bem longe. Não vou deixar isso entrar. Concentrando-me em minha música, acrescento algumas batidas à mixagem, adicionando profundidade. As batidas do baixo são tão altas que balançam o prédio. Easton se inclina sobre mim para alcançar o microfone. Nunca falei. Minha música fala por mim. Nunca ninguém cantou minhas músicas. São apenas as batidas e o ritmo. “É isso que vocês chamam de enlouquecer?”, Easton grita e a multidão grita também. Ele salta atrás da mesa que apoia meus decks. Balanço a cabeça, sorrindo para o ego ambulante que é Easton Farraday. “Eu disse...”, ele faz uma pausa e grita, “É isso que vocês chamam de enlouquecer, porra?” Jogo neles uma batida de baixo tão forte e rápida que os domina, os coloca de joelhos. Corpos se esbarram e se chocam enquanto se movimentam. Enquanto pulam e bebem, e alguns praticamente trepam no chão. E eu estou desligado disso tudo. Como sempre, no topo do palco, estou ausente. Como se tivesse sido movido da escuridão dentro da minha cabeça e empurrado para cá. Para este nirvana adormecido. Fecho os olhos para me desconectar das luzes de Easton. Meus ossos vibram com o baixo que eu estou forçando. O som atravessa meus ouvidos e entra nas veias. Explosões de vermelho e amarelo dançam por trás das minhas pálpebras fechadas. Abro meus olhos, só para ver Easton pulando ao redor do palco. Seu braço está em volta do pescoço de uma garota

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enquanto ela praticamente come sua boca. Ele a afasta até que estão na pista de dança e indo para fora. Horas passam em um piscar de olhos. Toco até terminar minhas mixagens. Bryce, o idiota de antes, já está assumindo o controle antes mesmo que eu saia do palco. Pego meu Jack e saio; a multidão está com o rosto desapontado ao perceber a troca de DJs. Eu os arruinei completamente. Chego ao ar externo e encontro um local tranquilo na lateral de uma das paredes do celeiro. Caio no chão e fecho meus olhos. O som de risos me faz abri-los novamente. Esse lugar não é nada parecido com a universidade em Londres. Jefferson Young é pequena e todos se conhecem. Minha universidade em Londres era enorme. Era fácil se perder na multidão. Morava sozinho. Nada de dormitórios. Apenas um apartamento minúsculo perto do campus. Sem amigos. Era um mundo diferente deste aqui. E sei que ainda não vi muita coisa. Nos últimos dias, mal saí do meu quarto, tentando me recuperar da diferença no fuso horário e mixando minhas faixas durante a noite. Easton tentou me convencer a sair com ele e seus colegas, mas não fui. Não sou exatamente uma pessoa sociável. Sinto-me melhor sozinho. Fecho meus olhos novamente, assim que percebo um corpo quente sentar ao meu lado. É Kacey, com uma Corona na mão. “Você cansou?” “Exausto”, eu digo e ouço sua risada. Provavelmente devido ao meu sotaque. Easton fez a mesma coisa a semana toda.

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“Você foi incrível.” Olho para ela, que afasta a cabeça. “Você deve se sentir muito longe de casa, hein? Jefferson não é exatamente uma Londres. Não que eu já tenha estado lá, mas... sim.” “A distância é uma coisa boa.” Ela assente como se entendesse. Mas não entende. “Sua graduação é em música?”, pergunta e balança a cabeça. “Obviamente. Tem que ser.” Ela olha para as pessoas que saem do celeiro. Também daria o fora se tivesse que ouvir aquela porcaria que o outro DJ está vomitando. “Eu vou me formar em Inglês.” Eu não falo com ela; apenas não é para mim. Em vez disso, bebo meu Jack em silêncio enquanto ela bebe a Corona. Alguns minutos depois, Matt e Sara se aproximam. Matt se agacha ao lado de Kacey e fala com ela em voz baixa e urgente. Ela suspira. “Eu preciso ligar para ela?” Matt assente. “Cristo.” Kacey pega o telefone e se levanta. “O que há de errado?”, pergunto. “Easton”, responde Matt. “Ele está bêbado. Está se recusando a se mover.” Ele aponta para Kacey. “Ela está ligando para a irmã dele. É a única pessoa que consegue lidar com ele nesse estado. O idiota fica violento quando você tenta impedi-lo de continuar bebendo. Gosta de festa, mas não sabe realmente lidar com a festa, se você entende o que quero dizer.” “Afaste-se!”, a voz bêbada de Easton ecoa pelo campo. As pessoas lhe dão uma grande distância enquanto ele tropeça em nossa direção, ainda segurando sua garrafa de tequila. Está

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vazia. “Cromwell!”, ele para ao meu lado e passa o braço em volta do meu pescoço. “Aquele set!”, ele fala arrastado. “Não consigo acreditar que você está aqui, cara. Em Jefferson! Nada acontece aqui. É um buraco chato.” Ele escorrega pela parede do celeiro. Matt tenta colocá-lo em pé. “Cai fora!”, Easton retruca. “Onde está Bonnie?” “Ela está vindo.” Easton baixa a cabeça, mas assente para mostrar que ouviu. “Ele é minha carona”, eu sussurro para Matt. “Merda. Nosso carro está lotado. Bonnie pode levar você para casa. Ela sempre leva o East de volta para o dormitório de qualquer maneira. Ela é legal. Não vai se importar.” “Vou pegar minhas coisas.” Volto para o celeiro e pego meu laptop. Afasto meu cabelo do rosto quando saio do celeiro. Eu examino o terreno. Estava esperando que vir para cá fizesse eu me sentir melhor. Que pudesse pegar esse buraco escuro que sempre tenta afundar meu estômago, e o levaria para longe. Toquei minha música para uma multidão. Falei com as pessoas, mas, de qualquer maneira, ainda posso sentir a tristeza que empurrei para baixo lutando para ser libertada. Pronta para me consumir. Para me enterrar no passado. Vir até aqui não fez diferença alguma. Eu noto um 4x4 prateado estacionando logo a minha frente. Os faróis me cegam quando me aproximo. Estremeço. Minha ressaca está começando a atacar de verdade. Matt está de um lado, ajudando Easton a se levantar do chão e há uma nova garota usando jeans apertado e um cardigã branco do outro lado.

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Esta deve ser a irmã. Eu me aproximo quando Matt fecha a porta do carro. Easton está deitado, esparramado no banco de trás. “Você está bem para levá-lo para casa?” Matt pergunta à garota, antes de abraçá-la brevemente. Sara faz o mesmo. “Sim”, ela diz. “Cromwell!” Matt me chama com um aceno. A irmã não se vira quando me aproximo. Suas costas estão rígidas. “Por aqui. Bonnie vai levar Easton para casa.” Ele olha para ela. “Você não se importa de levar Cromwell também, não é? Não há mais espaço em nosso carro. East o trouxe até aqui.” Não ouço a resposta dela. Em vez disso, vou até o portamalas do carro e coloco minhas coisas lá dentro. Matt acena para mim enquanto se afasta, levando Sara. Kacey coloca a mão no meu braço. “Prazer em conhecê-lo, Cromwell.” Ela se afasta com todos os outros, olhando para trás por cima do ombro mais uma vez enquanto segue para longe. Quando eu estou prestes a abrir a porta do lado do passageiro, a irmã de Easton se vira para mim. Não posso acreditar em meus olhos. Uma memória nebulosa pega uma carona na brisa quente e me dá um tapa no rosto. Sua música não tem alma... Ela suspira, claramente vendo minha reação irritada, então diz, “Olá de novo.” “Você.” Rio secamente pela maneira como este universo bastardo gosta de trabalhar contra mim.

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“Eu”, ela diz, aparentemente divertida, e encolhe os ombros. Observo-a enquanto caminha para o lado do motorista. Seu cabelo castanho escuro está afastado do rosto, assim como estava em Brighton. Ela o usa em um rabo de cavalo , que cai pendurado até o meio de suas costas. Ela entra, depois a janela do lado desce. “Você vai entrar ou vai a pé para casa?”

do

passageiro

Rolo meu piercing de língua dentro da boca, tentando abrir meus punhos. De jeito nenhum vou demonstrar a ela o quanto me afetou aquela frase bastarda que me disse em uma manhã fria de verão em Brighton. Eu me recuso a deixar que isso me afete assim outra vez. Bonnie, como ela aparentemente se chama, liga o motor. Solto uma risada incrédula. Abro a porta de trás. Easton está roncando. Seus braços e pernas ocupam todo o espaço. Bonnie se inclina para trás, olhando para mim por entre os assentos. Evito seus olhos. “Parece que você tem que vir na frente comigo, superstar.” Cerro meus dentes e inspiro fundo. Procuro o local onde estive sentado. O Jack ainda está lá. Corro para busca-lo e então deslizo no banco do passageiro. Vou precisar de álcool para essa viagem. “Jack Daniels”, diz ela. “Parece que você e ele são grandes amigos.” “Os melhores”, digo e afundo no banco. O silêncio no carro é ensurdecedor. Inclino-me e ligo o rádio. Uma música popular está tocando. Não, obrigado. Tento a próxima música da playlist dela. Quando a Quinta Sinfonia de Beethoven começa, decido desligar a coisa.

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“Sua escolha de músicas deixa muito a desejar.” Tomo um longo gole do meu Jack. Não sei por que sequer abri minha boca. Eu nunca sou o primeiro a falar. Mas enquanto as palavras que ela me disse naquela noite giram em minha cabeça, sinto a raiva crescer dentro de mim e simplesmente deixo escapar. “Ah, isso mesmo. Nada de clássico. E agora, também, nada de música popular. É bom saber que a boa música ofende você.” Ela tira sua atenção da estrada por uma fração de segundo e olha para mim de lado. Suas sobrancelhas se franzem. “Você está aqui por causa de Lewis, certo? Por que outro motivo você estaria em Jefferson?” Tomo outro gole, ignorando a pergunta. Não quero falar com ela sobre música. Não quero falar com ela, ponto final. Puxo um cigarro do bolso e o coloco na boca. Faço menção de acender, mas ela diz, “Não fume no meu carro.” Acendo-o de qualquer maneira e dou uma longa tragada. O carro para tão rápido que quase perco meu Jack para a gravidade. “Eu disse, não fume no meu carro”, ela retruca. “Jogue fora ou desça. São suas duas opções, Cromwell Dean.” Meu corpo fica tenso. Ninguém nunca falou comigo assim. O fato de que ela me irrita só torna isso pior. Encontro seus olhos e dou uma longa e doce tragada no meu cigarro, em seguida, jogo-o pela janela que ela abriu para mim. Esta é a primeira vez que olho diretamente para ela. Ela é toda olhos castanhos e lábios carnudos. Levanto minhas mãos. “Já joguei, Bonnie Farraday.” Ela volta para a estrada e de repente estamos na Main Street. Os estudantes estão cambaleando para casa em grupos de dois ou três, caminhando de volta para os dormitórios, na volta do celeiro. Não quero falar com ela, mas o silêncio no carro é ainda pior. Minhas mãos apertam as coxas no meu jeans. “Não faz seu estilo?”, pergunto com força.

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“Eu estava ocupada esta noite. Estudando antes das aulas começarem na segunda-feira.” Ela aponta para o irmão roncando. “Ou pelo menos, estava tentando, até que meu irmão gêmeo decidiu ficar bêbado, como sempre.” Minhas sobrancelhas se levantam. Ela vê. “Sim. Easton é mais velho por quatro minutos. Não nos parecemos nada, não é? Nós não somos nada parecidos. Mas ele é meu melhor amigo. Então, aqui estou. Serviço de táxi da Bonnie.” “Easton disse que vocês são daqui mesmo.” “Sim, de Jefferson. Da Carolina do Sul, como dizem.” Sinto seus olhos em mim. “Estranho, hein? Que você esteja aqui depois do nosso encontro na Inglaterra?” Encolho os ombros. Mas é mesmo. Quais as chances disso? Bonnie estaciona o carro em uma vaga na frente ao dormitório. Olha para o irmão. “Você vai precisar me ajudar a leválo pelas escadas.” Saio do carro e abro a porta de trás. Puxo Easton e o jogo por cima do meu ombro. “Meu laptop”, digo, indicando com meu queixo para o porta-malas. Bonnie vai até lá e pega minhas coisas. Consigo levar Easton escada acima e jogálo em sua cama. Bonnie está atrás de mim. Ela está sem fôlego, bufando por causa das escadas. “Talvez você deva começar alguns exercícios aeróbicos. Escadas não deveriam ser tão difíceis.” Estou sendo um idiota. Eu sei. Mas não consigo impedir. Naquela noite em Brighton, ela mandou bem e realmente me irritou. Aparentemente, não consigo superar. Ignorando-me, Bonnie põe minhas coisas na minha mesa. Ela pega um copo da mesinha de cabeceira de Easton e sai

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do quarto. Volta com o copo cheio de água e coloca ao lado dele. Deixa dois comprimidos ao lado da água e beija a cabeça dele. “Ligue para mim amanhã.” Deito na minha cama, meus fones no pescoço, pronto para apagar. Bonnie passa por mim e para. “Obrigada por carregá-lo até aqui.” Ela dá uma última olhada para ele. Seus olhos parecem suavizar por algum motivo. Isso faz com que pareça... mais bonita que o normal. “Você pode ficar de olho nele, por favor?” Eu afasto esse pensamento da minha cabeça. “Ele é um garoto crescido. Tenho certeza que pode cuidar de si mesmo.” Bonnie olha para mim. Ela parece chocada, então seu rosto congela. “Vejo que você continua charmoso como sempre, Cromwell. Tenha uma boa noite.” Bonnie vai embora. Assim que ela sai, Easton se mexe e abre um olho. “Bonnie?” “Ela foi embora”, digo, tirando minha camiseta. Tiro minha calça ficando apenas de cueca e vou para a cama. Easton havia se virado de novo. “Minha irmã. Ela lhe contou?” “Ela contou.” Ele está adormecido em segundos. Abro minha música no celular. E como em todas as noites, deixo o conforto da dance music preencher minha cabeça. As cores são diferentes com a música eletrônica. Elas não me fazem relembrar tudo. E agradeço a quem diabos está lá em cima, Deus ou o que for, por isso.

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CAPÍTULO 4 Bonnie

Fecho a porta do SUV e sigo para o meu dormitório. A cada passo penso em Cromwell Dean. Sabia que ele estava aqui, claro. No minuto em que Easton descobriu que ele seria seu colega de quarto, só falava disso. Eu, no entanto, não conseguia acreditar nos meus ouvidos. Easton nunca soube que eu o conheci em Brighton. Ninguém sabe. Honestamente, ainda não consigo acreditar que falei com ele daquele jeito. Mas o modo como ele falou comigo... rejeitando-me. Foi tão rude que não pude evitar. Eu o vi cambalear até aquela praia, Jack Daniels na mão. Observei-o naquele clube lotado. Assisti enquanto as pessoas dançavam sob sua música como se ele fosse um deus. E tudo que senti foi... Desapontamento. Cromwell Dean. A maior parte do mundo o conhece como DJ, mas o conheço por outra coisa. Eu o conheço como o prodígio em música clássica. E sem o conhecimento de Cromwell Dean, eu o vi. Vi quando ele, ainda criança, conduziu uma sinfonia tão lindamente que me inspirou a ser uma musicista melhor. Vi uma filmagem de um menino inglês com o talento de Mozart. Meu professor de música me mostrou o vídeo dele durante uma de

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minhas aulas particulares de piano. Para me mostrar do que alguém com minha idade era capaz. Para mostrar que havia outros no mundo com tanta paixão pela música quanto eu. Cromwell Dean tornou-se meu maior amigo, embora ele não soubesse que eu existia. Ele era minha esperança. Esperança que de fora desta pequena cidade, as pessoas teriam música em seus corações da mesma maneira que eu tinha. Que alguém mais sangraria por notas, melodias e concertos. Cromwell ganhou o BBC Proms Young Composer do ano aos dezesseis anos. Sua música foi tocada pela Orquestra Sinfônica da BBC na última noite do evento. Assisti no meio da noite, no meu laptop, lágrimas escorrendo pelo meu rosto, intimidada por sua criação. A câmera o mostrou assistindo a orquestra da primeira fila. Eu o achava tão belo quanto a sinfonia que compôs. Então, apenas meses depois, ele desapareceu. Nenhuma música mais foi produzida. Sua música morreu junto com seu nome. Mas em todo esse tempo, nunca esqueci seu nome. Então, quando ele começou a produzir música novamente, minha excitação era incontestável. Até que ouvi. Eu não tenho nada contra música eletrônica, por assim dizer. Mas ouvir o garoto que idolatrei por tantos anos mixando batidas sintéticas em vez dos instrumentos de verdade que ele tocava como um mestre, destruiu meu coração. Eu fui para ouvi-lo tocar quando estive na Inglaterra. Não consegui evitar. Juntei-me à multidão. Fechei meus olhos. Mas

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não senti nada. Abri os olhos e olhei para ele, sentindo nada além de simpatia pelo garoto que uma vez vi conduzir a música que concebeu tão incrivelmente. Mãos dançando com a batuta enquanto era arrebatado pelas cordas e pelo sopro das madeiras. A música que derramava como expressão de sua alma. A impressão de seu coração sendo deixada no teatro presenteado com seu desempenho. E as pessoas que foram abençoadas em poder ouvir aquilo. No palco, seus olhos estavam mortos. Seu coração estava ausente das batidas e sua alma não estava nem mesmo naquela sala. Ele pode ser o DJ que mais cresce na Europa, mas o que ele estava tocando não é a sua paixão. Não é seu propósito. Ele não foi capaz de me enganar. O Cromwell Dean que eu assisti quando criança morreu com o que quer que tenha acontecido para fazê-lo perder a necessidade de criar essas músicas que mudam a vida. “Bonnie?” Eu pisco, meus olhos clareando apenas para focarem na porta de madeira do corredor do meu dormitório. Viro-me para ver Kacey entrando em seu quarto, ao lado do meu. “Oi”, digo e coloco minha mão na cabeça. “Você está bem? Você estava de pé com a mão na maçaneta durante alguns minutos.” Sorrio e pensamentos.”

balanço

a

cabeça.

“Acabei

perdida

em

Kacey sorri. “Como está Easton?” Reviro meus olhos. “Bêbado. Mas, felizmente, dormindo e em segurança na cama.”

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Kacey chega mais perto. “Você deu uma carona a Cromwell?” “Sim.” “Como ele estava? Ele falou?” “Um pouco.” Suspiro, cansaço dominando-me. Preciso muito dormir. “E?” Eu olho para ela e balanço a cabeça. “Francamente, ele é meio idiota. É rude e arrogante.” “Mas tão sexy.” Kacey cora. “Não acho que ele seja um bom partido, Kace.” Lembro-me da garota com quem ele desapareceu em Brighton. No meio de um set. Suas palavras grosseiras para mim na praia: Eu já tive meu pau chupado... Kacey não é realmente uma amiga; ela apenas mora perto de mim. Ela é doce. E eu tenho certeza que Cromwell Dean pode mastigá-la e cuspi-la quando ele conseguisse o que quer dela. Ele parece exatamente desse tipo. “Sim”, diz Kacey em resposta. Sei que ela está apenas sendo educada e fingindo prestar atenção às minhas palavras. “É melhor eu ir para a cama.” Ela inclina a cabeça para o lado. “Você também, querida. Você está parecendo pálida.” “Boa noite, Kace. Vejo você amanhã.” Entro em meu quarto de solteiro. Largo a bolsa no chão, coloco meu pijama e subo na cama. Tento dormir. Eu estou cansada, meu corpo doendo com a exaustão. No entanto, minha mente não desliga.

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Não consigo tirar Cromwell da minha cabeça. E pior, sei que o verei na segunda-feira. Nós estamos praticamente nas mesmas aulas. Estou me formando em música. Nunca houve outra escolha para mim. Sei que Cromwell também. Easton me contou. Fecho os olhos, mas tudo o que vejo é ele descansando no banco do passageiro do meu carro, o Jack na mão. Fumando quando lhe pedi para não o fazer. Suas tatuagens e piercings. “Cromwell Dean, o que aconteceu com você?”, sussurro para a noite. Alcançando meu celular, encontro o vídeo da música que está no meu coração por tanto tempo e pressiono o play. Enquanto os instrumentos de cordas dançam e a seção de sopros assume a dianteira, fecho os olhos e encontro o sono. E me pergunto se uma música como essa um dia voltará a encontrar o coração de Cromwell Dean.

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“Irmã?” Eu me viro na cadeira para ver Easton entrando no meu quarto. “Bem, olá”, digo. Easton se joga na minha cama. Passa os dedos pela minha guitarra antes de colocá-la no chão. “Desculpe pela noite passada”, diz ele e encontra meus olhos. “Foi a primeira noite de Crom nos decks e o lugar estava insano. Fui envolvido nisso tudo.” Ele encolhe os ombros. “Você me conhece.”

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“Sim. Conheço.” Vou até a pequena geladeira no meu quarto e entrego-lhe um refrigerante. “Glicose. Obrigado, Bonn. Você sabe como me animar.” “Você sabe que eu nem bebo essas coisas. Tenho aqui para suas emergências de ressaca.” Ele pisca para mim. “Cromwell disse que você nos levou para casa.” Balanço a cabeça. “O que você acha dele?” Eu empurro suas pernas para fora do caminho para que possa sentar ao seu lado na cama. “O que eu acho dele?” “Sim”, diz e bebe o refrigerante. Ele se levanta e pega outro antes de se sentar novamente. “Eu entendo que ele pode ser rude. Mas gosto do cara. Só não acho que ele tem muitos amigos.” “Ele acabou de chegar aqui.” “Quero dizer na Inglaterra também. Ninguém nunca liga para ele. Vi algumas mensagens, mas ele disse que eram da mãe.” “Ele não deveria ser tão rude então, deveria?” “Ele foi rude com você?” “Ele estava bêbado”, digo, excluindo completamente o fato de que ele estava muito pior do que quando o conheci em Brighton. Easton assente. “Você deveria estar lá, Bonn. O cara é incrivelmente talentoso. É como se ele simplesmente perdesse a consciência e tocasse diretamente de sua alma. E porra, ele vai estar na sua aula, não é? Você terá que cuidar dele.” “Tenho a impressão de que ele não precisa de ninguém para cuidar dele, East.”

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“Mesmo assim.” Ele pula da cama e estende a mão. “Vamos. Mamãe e papai já estarão na lanchonete.” Pego a mão dele e me levanto da cama. Ele olha para mim, observando-me de perto. “Você está bem? Parece cansada. Você ficou aqui mais do que o normal neste verão.” Eu reviro meus olhos. “Easton, estou cansada. Precisei ir atrás de você depois de fazer uma sessão de estudos noturna.” Posso sentir minhas bochechas esquentando com a desculpa. “Eu quero impressionar Lewis na segunda-feira, sabe? Conseguir alguém assim aqui...” balanço a cabeça. “Não é todo dia que alguém com esse talento se torna seu professor.” Easton joga o braço em volta de mim. “Você é tão nerd.” Afasto-me dele e jogo algumas balas em sua direção. “Coma algumas dessas antes de encontrarmos mamãe e papai. Você está cheirando como uma loja de bebidas.” Easton as pega e nos leva para fora do quarto. Na segunda-feira, as aulas começariam. Tenho certeza de que Cromwell Dean não vai nem mesmo olhar na minha direção. E Easton entendeu isso de maneira errada. Aquele cara não precisa de alguém para cuidar dele. Tenho certeza que ele seria um idiota se eu tentasse.

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CAPÍTULO 5 Bonnie

A sala está agitada. No ano passado, nunca houve energia assim. A turma é pequena, mas posso sentir a empolgação de todos como se estivesse no centro de um estádio lotado. Meu amigo Bryce se inclina. “Estranho, hein? Como um professor pode causar tanto entusiasmo.” Ele não é apenas um professor. Professor Lewis é um compositor de renome mundial. Ele viajou pelo mundo. Apresentou-se em salas de concertos e teatros que alguém como eu só poderia sonhar. Suas lutas pessoais com drogas e álcool são amplamente conhecidas. Foi o que o levou do trabalho de sua vida e de volta a Jefferson. Sua cidade natal. Em uma entrevista para o jornal da escola, ele disse que precisava se estabelecer no lugar que conhecia melhor. Tomando posse aqui, desejava retribuir à comunidade local. A perda do mundo da música foi o nosso ganho. Bato minha caneta em um movimento de gangorra no meu caderno aberto. A porta se abre e um homem que vi inúmeras vezes na TV entra. A turma fica em silêncio enquanto ele caminha até a mesa na frente da sala de aula. Ele é jovem. Mais jovem

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pessoalmente do que eu esperava. Ele tem cabelos escuros e um sorriso gentil. Ele acabou de abrir a boca para falar quando a porta se abre novamente e uma estrutura alta e muito tatuada entra. Cromwell. Se a reverência, baixinhos e caminha de

entrada do professor Lewis inspirou silêncio e a entrada de Cromwell Dean trouxe sussurros quinze pares de olhos curiosos fixos nele enquanto cabeça baixa em direção aos assentos de trás.

Ele sobe as escadas devagar e senta-se nos fundos. Não me viro como todo mundo. Olho para o professor Lewis, observando as linhas de aborrecimento em sua testa. Lewis pigarreia. “Sr. Dean. Que bom que se juntou a nós.” Desta vez olho para Cromwell. Só para ver se aparenta algum indício de remorso. Ele está curvado em seu assento, olhando inexpressivamente para Lewis. Parece o epítome da arrogância, rolando seu piercing de língua contra os dentes. Está vestido com jeans preto, com uma corrente pendurada na cintura, e uma camisa branca simples com gola baixa e mangas curtas que se agarram aos seus bíceps musculosos. Suas tatuagens sobem como videiras pelos braços e pescoço. Algumas pessoas diriam que é arte. Acho que elas parecem estar estrangulando-o. Seu cabelo está bagunçado e caindo sobre a testa. Ele usa piercings de prata nas orelhas e um na narina esquerda. Quando estou prestes a me virar, seus olhos encontram os meus. A cor de sua íris é estranha. É uma espécie de azul turbulento. Não como o azul do céu, mas um azul escuro profundo

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como as profundezas perigosas de um mar turbulento. Ele suspira alto. Tenho certeza que é minha presença. Não disse a ele que também estava me graduando em música. “Sr. Dean? Podemos começar?”, Lewis pergunta. Ele acena com a cabeça. “Não estou impedindo.” Meus olhos se arregalam com a resposta dele. O sotaque inglês de Cromwell é forte e claro em relação ao da Carolina do Sul de Lewis. Como se Cromwell precisasse de mais motivos para se destacar. Seu mau humor e tatuagens já são suficientes para fazer isso nesta pequena cidade. Pego o suéter na minha cadeira e o coloco. De repente, a sala está gelada. “Vamos direto ao ponto”, Lewis diz enquanto se dirige à classe. “Eu coordeno um programa cansativo e espero que vocês o cumpram e façam o seu melhor.” Ele fica na frente de sua mesa. Senta-se nela e diz, “Vocês já devem ter lido o programa do curso a essa altura. Se o fizeram, sabem que a maior porcentagem da nota virá de um projeto de composição de um ano. Isto será feito em pares.” Ele sorri, uma excitação incontida em seus olhos castanhos. Acho que ele olha rapidamente para Cromwell, mas não tenho certeza. “Eu já escolhi os pares.” Ele enfia a mão na pasta e ergue um pedaço de papel. “Vocês saberão com quem foram emparelhados ao final da aula. E antes que vocês me perguntem, não, os pares não são negociáveis. E sim, vocês dois devem completar a tarefa ou correrão o risco de ficar com uma nota incompleta. Ninguém quer isso em seu registro.” Ele volta para a mesa e clica no projetor. O assistente apaga as luzes. “Cada um de vocês terá quinze horas de sessões individuais comigo por semestre.” Ele olha por cima do ombro, com uma expressão séria. “Não percam essas horas.”

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Olho para Bryce, sentindo o sangue correr em minhas veias. “Sessões individuais”, digo animadamente e Bryce sorri largamente. “Teremos seminários a cada duas semanas para discutir nossas composições, tanto individuais quanto aquelas feitas em pares. Porque a aula é toda sobre composição.” Lewis sorri e deixa transparecer sua personalidade dura por um momento. “Pretendo criar mestres nesta sala. Todos vocês saberão dos meus demônios pessoais.” Prendo a respiração. Todo mundo sabe sobre seus problemas, mas não achei que ele realmente falaria sobre eles na aula. “Tentei o meu melhor para trazer minha música para o mundo, mas não era o meu destino.” Ele sorri de novo, uma expressão de paz cobrindo seu rosto. “Encontrei a felicidade em ajudar os outros a reconhecerem seus talentos. Meu destino, ao que parece, é ensinar. Ajudar os outros a encontrar o seu significado neste mundo. Sua paixão.” Um silêncio suave envolve a sala. Pisco, percebendo que meu coração está cheio e meus olhos também. “Haverá uma apresentação no final do ano. Suas composições serão executadas então.” Ele se levanta e coloca as mãos nos bolsos da calça. “O que não aprendi no meu tempo como compositor é como confiar nos outros. Compartilhem ideias e pressionem uns aos outros para que sua arte se torne a melhor possível.” Ele aponta para a turma. “Vocês estão aqui porque são talentosos. Notícia de última hora: tal como milhões de outras pessoas. Este projeto irá ajudá-los a aprender uns com os outros e a melhorar seu ofício. É a tarefa pela qual estou mais intrigado.” O professor Lewis se volta para a tela do projetor e termina de falar sobre o restante dos requisitos do curso. Quando a conversa termina, ele diz, “Classe dispensada. Sugiro que vocês descubram quem são seus parceiros de composição e saiam para

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tomar um café ou algo assim. Usem seu tempo com sabedoria. Aprendam a conhecer bem o seu parceiro.” Ele sorri. “Vocês passarão muito tempo juntos este ano.” Os alunos se amontoam na frente para verificar o papel que o assistente afixou na parede. Outros se apresentam a Lewis. Bryce verifica seu nome e caminha até Tommy Wilder. Faço uma careta. Bryce e eu normalmente trabalhamos juntos. Ele se aproxima e balança a cabeça. “O time dos sonhos está se separando desta vez, Bonn.” Meu coração afunda um pouco. Vejo na expressão de Bryce que ele também está desapontado. Estou confortável com Bryce. Ele não é o mais talentoso. Mas é doce. Sei que gosta de mim mais do que como uma amiga e nunca iria lá com ele. Mas ele está confortável quando estou por perto. Ele não faz muitas perguntas pessoais. Espero a multidão diminuir. Algumas pessoas olham para mim antes de se afastarem. Eu me pergunto por que. Mas quando leio a lista, encontro minha resposta. Exalo um longo e lento suspiro. Olho incrédula para o nome de Cromwell Dean ao lado do meu. Quando me viro, apenas o professor Lewis permanece na sala. “Bonnie Farraday, presumo?” Ele está segurando seu registro com a minha foto de estudante ao lado do meu nome. “Sim, senhor.” Mordo o lábio. “Sei que você disse que não haveria troca de parceiros para o projeto...” “Disse. E eu quis dizer isso.” Meu estômago cai. “Ok.” Eu me viro para sair.

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“Você é a melhor da turma, Bonnie”, Lewis diz. “Cromwell é novo na faculdade.” Ele se senta na borda da mesa ao meu lado. Tão perto, que posso ver um pouco de cinza em seu cabelo escuro. Imagino que ele esteja com quarenta e poucos anos. “Ele estava no topo de suas aulas no Reino Unido. É brilhante e extremamente talentoso. Mas ser um novo aluno em uma nova faculdade pode ser assustador para qualquer um. Não importa o quanto eles não sejam afetados.” Ele cruza os braços sobre o peito. “Fui informado pelo corpo docente que você era uma boa escolha para se juntar a ele.” “Sim, senhor”, respondo novamente. Pela primeira vez odeio o fato da faculdade me considerar alguém confiável e responsável. Assim que estou prestes a sair, digo, “Bem-vindo de volta a Jefferson, professor. Você foi uma verdadeira inspiração para muitos de nós aqui.” Ele sorri, em seguida, volta para o seu trabalho. Saio, checando o corredor e procurando qualquer sinal de Cromwell. Suspiro quando não há nenhum. Ele fugiu da sala sem sequer verificar a lista. Aposto que não sabe que eu sou sua parceira. Drenada de toda a energia, recosto-me contra a parede. Tenho dois períodos livres e estou fazendo a minha missão encontrá-lo. Estou determinada. Não deixarei que sua atitude ruim seja meu fim. Se tiver que trabalhar com ele, irei. Mas nada sobre essa parceria me faz pensar que tudo vai correr bem. Absolutamente nada.

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CAPÍTULO 6 Cromwell

Ando até minha mesa e ligo o laptop. Easton está na aula, então sento em minha cadeira e ligo todas as minhas mesas de mixagem. Coloco meus fones de ouvido e ligo o mix que comecei alguns dias atrás. Fecho os olhos e deixo as batidas penetrarem em meu corpo. Rajadas de rosas e verdes brilham diante dos meus olhos. Movo minha mão para a mesa de mixagem sem sequer olhar e aumento o ritmo. Meu batimento cardíaco acompanha o som à medida que o ritmo acelera. Triângulos e quadrados dançam em padrões irregulares. Então... Os fones são tirados da minha cabeça. Viro, pulando do meu lugar. Bonnie Farraday está atrás de mim, meu fone em suas mãos. Fúria fria imediatamente passa por mim, mas desaparece quando vejo que é ela. Isso me surpreende. Minha raiva é praticamente o que tem me alimentado ultimamente. Não consigo entender por que isso me acalma. Não gosto de me sentir confuso. Estendo a mão. “Devolva-os.”

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Bonnie lentamente puxa os fones de ouvido contra o peito. Fecho meus olhos para manter a calma. Quando os abro novamente, Bonnie tem os braços cruzados sobre o peito. Ela está vestindo jeans skinny e uma camiseta branca. Um suéter sobre os ombros como uma das garotas elegantes que via andando pelas ruas de Chelsea no verão. Seu cabelo castanho está para trás em uma longa trança. E quando olho para seu rosto, ela parece ansiosa. “O que você está fazendo aqui?”, pergunto. Viro-me para desligar a mixagem que agora está tocando nos alto-falantes. Não está pronta. Ninguém ouve nada que estou trabalhando até que esteja pronto. Tenho um novo set para colocar nos sites de streaming. A pequena Bonnie Farraday está bagunçando minha agenda. “Você viu a lista de tarefas?” Faço uma careta. “Qual lista de tarefas?” Seus olhos parecem exasperados. “Aquela sobre a qual Lewis falou durante praticamente toda a aula.” Ela caminha para frente e pressiona o fone no meu peito. Olho para ela. Ela tem cerca de um metro e sessenta, se muito. É pequena em comparação aos meus um e oitenta e oito. Easton é apenas um ou dois centímetros mais baixo que eu. Ele claramente conseguiu todas as coisas boas no útero. “Você e eu, superstar, somos parceiros. Na aula de composição. Pelo próximo ano.” Olho para ela. Fixo em seus olhos castanhos e sinto o destino rindo de mim. Não consigo escapar dessa garota. “Claro que somos”, suspiro e volto para o meu laptop. Acabo de tocar em uma tecla para trazer a tela de volta à vida quando Bonnie fecha o laptop novamente.

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A mão dela descansa em cima do computador. Eu nem sequer olho para cima, apenas digo com os dentes cerrados, “Bonnie. Eu só vou dizer isso uma vez. Solte meu laptop e saia. Estou trabalhando.” Sua mão não se move. Ela não se mexe. Levanto meus olhos para encontrar os dela. “Não estrague isso para mim”, ela diz, com o rosto calmo. Mas as palavras, pronunciadas naquele forte sotaque interiorano, são tudo, menos isso. Ouço um tremor em sua voz que faz meu peito apertar. Afasto o sentimento e levanto minhas sobrancelhas. “E como posso estragar tudo para você, Farraday?” Meu tom é uma merda. Condescendente. Eu sei. Mas ela está começando a me irritar. Sua bochecha se contrai em aborrecimento, mas ainda não tira a mão do meu laptop. “Trabalhei muito duro para chegar até aqui e não vou deixar alguém como você, que não leva a vida a sério, estragar tudo para mim.” Ela parece desesperada, de alguma forma. Ainda assim, um fogo se acende dentro de mim. “Você não sabe nada sobre mim.” “Não, eu não sei”, ela diz de volta. “E não preciso. Não me importo se você gosta de mim ou não. Mas estamos presos até o fim dessa tarefa.” Ela engole em seco, então sua voz se suaviza. “Ter alguém como Lewis me ensinando é um sonho que se torna realidade.” Sua mão escorrega do laptop. Olho para o local em que ela esteve. “Não tire isso de mim.” Há uma pequena fisgada em sua voz. Não sei o porquê, mas isso traz aquela maldita sensação dilacerante no meu estômago, que afasto frequentemente. Bonnie enfia a mão na bolsa e tira um pedaço de papel. “O assistente estava entregando isso quando saímos. Você foi embora antes que

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ele pudesse lhe dar um.” Nem sequer olho para o pedaço de papel quando ele cai na minha mesa. Bonnie suspira em frustração. “Diz que precisamos ter um esboço do nosso projeto pronto para o seminário de sexta-feira.” Ela coloca uma mecha de cabelo atrás da orelha. “Não estarei por aqui por alguns dias, então precisamos conversar sobre isso agora.” O pensamento de trabalhar com Bonnie faz um sentimento desagradável crescer dentro de mim. Eu não gosto de sentir nada. Estou feliz entorpecido. Mas por alguma razão, Bonnie Farraday voltou a despertar vida em minha alma morta. “Estou ocupado.” Sento-me novamente, colocando meus fones de ouvido de volta sobre a cabeça. Acabo de tirar o volume do mudo quando a tampa do laptop é empurrada novamente. Desta vez mais forte. Tenho que contar até dez... realmente muito devagar. A raiva que vivencio diariamente está despertando. Tiro meus fones da cabeça e os coloco ao redor do pescoço. Viro. Bonnie ainda está ao meu lado, fumegando. Ela fecha os olhos e seus ombros cedem. “Por favor, Cromwell. Sei que você está chateado comigo pelo que disse a você em Brighton. Posso ouvir quando você fala comigo. Mas nós temos que fazer este esboço.” Mesmo com a lembrança disso, o fogo ferve meu sangue. “Eu não estou chateado com você. Não sinto nada por você”, digo friamente. Não quero que ela pense que suas palavras tiveram algum impacto. Especialmente, não quero que saiba o quanto impactaram. “Certo. Ok então...” Minha mandíbula se aperta quando ela começa a esfregar seus braços. Como se eu a tivesse machucado. Aquela sensação

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de dor irritante está de volta no meu estômago. Bonnie se move em direção à porta e para completamente. Vira-se e me encara, o queixo inclinado para cima. “Venha comigo para um café. Vamos acabar com isso. Vou escrever tudo. Você não precisa fazer nada além de contribuir para a ideia. Nós só precisamos decidir o que vamos fazer.” Solto um suspiro. Simplesmente queria ficar sozinho. Fico melhor sozinho. “Apenas venha, por favor. Então você pode voltar para o seu drum pad2.” Ela é persistente. Tenho que reconhecer. Realmente não quero ir, mas, estranhamente, vejo-me levantando. “Você tem uma hora.” Os ombros de Bonnie caem em alívio, então a sigo para a porta. Fecho-a. Com uma chave. Viro e ela deve saber o que estou pensando. “Easton me deu uma cópia. Normalmente sou aquela que o pega e traz de volta para casa depois das festas. Faz sentido que eu tenha uma.” Ela olha para baixo. “Não vou usá-la novamente sem permissão.” Algo desperta em mim quando seus olhos castanhos se abaixam. Rapidamente o afasto. Bonnie nos leva para o pátio. Ela não anda ao meu lado, apenas um pouco na frente, por mim tudo bem. Algumas garotas sorriem para mim e tomo a decisão de dar uma escapada em algum momento desta semana. Parece que não será difícil se dar bem por aqui. Fiquei muito tempo sem e estou ficando agitado com muita facilidade. Distraído. Principalmente por Bonnie. Bonnie para em seu carro. “Se eu tenho apenas uma hora, vamos ter que ir de carro até lá. Vai ser mais rápido.”

2

É um console de mixagem e criação de música.

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Os estudantes olham para nós quando Bonnie se afasta do campus. “Nós estaremos namorando oficialmente esta noite, só para você saber”, ela diz. Minha cabeça se vira para ela, estreitando os olhos. “Do que você está falando?” Ela aponta para os alunos. “Desvantagens de uma pequena faculdade local. A fábrica de rumores aqui é pior que a TMZ.” Recosto-me no assento e observo a aparecer. “Ótimo. Isso vai me ajudar a transar.”

Main

Street

Bonnie ri sem humor. “Não muito. Você é o novo brinquedo brilhante aqui. Se as garotas acharem que você tem uma namorada, isso vai deixa-lo ainda mais atraente do que você já é para elas agora.” “Bom saber.” Bonnie estaciona do lado de fora da cafeteria Jefferson Coffee. Ela sai do carro com sua bolsa de cadernos e Deus sabe o que mais pendurada em seu ombro. Tenho uns dez dólares na carteira e minhas mãos enfiadas nos bolsos. Eu carrego poucas coisas. Não estive aqui antes, mas o lugar é como qualquer outro café moderno que já vi, todas as paredes vermelhas, com um pequeno palco na parte de trás. “Ei Bonnie!”, dizem cinco pessoas diferentes enquanto ela nos leva para uma mesa nos fundos do lugar. Ela sorri brilhantemente para eles, perdendo aquele sorriso quando se senta e olha para mim. Meu punho cerra. Não gosto disso. E odeio parecer me importar.

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Sento e um cara aparece. “O de sempre, Bonnie?” “Sim. Obrigada, Sam.” “Sem Bryce hoje? Normalmente nunca vejo você sem ele em dia de aula.” “Novo parceiro.” Ela diz como se estivesse anunciando uma morte. Ele olha para mim. O idiota assente como se pudesse ver porque ela está tão chateada. “O maior café que você tem”, digo. “Preto.” Bonnie abre o caderno. “Ok. Acho que devemos começar com o que podemos tocar. Isso vai nos ajudar, a saber, quais serão nossos pontos fortes.” “Eu só faço música eletrônica. Então levarei meu laptop. Controladores de áudio e toda essa merda.” Bonnie olha para mim sem expressão. “Não podemos compor uma peça de demonstração com seu laptop e batidas sintetizadas.” Recuo na minha cadeira. “Isso é o que eu tenho. Trabalho eletronicamente. Lewis sabe disso. Ele me ofereceu a bolsa de estudos. Ele foi atrás de mim. Acha que eu teria encontrado esse lugar de merda por conta própria?” “Você não toca mais nada? Nenhum instrumento de verdade?” Há questionamento no tom dela. Como se ela estivesse a par de alguma coisa sobre mim, não quero que ela saiba. Isso me perturba. Balanço a cabeça, esticando meus braços e colocando-os atrás da cabeça. Quero dizer a ela que ao mixar batidas

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eletrônicas estou tocando um instrumento, mas nem sequer abro a boca. “Toco piano e violão. Um pouco de violino também, mas não sou tão boa nisso.” Seus olhos se estreitam em mim. Como se ela estivesse me estudando. Testando-me. “Você sabe ler e escrever música, não é?” Balanço a cabeça, agradecendo a Deus quando os cafés aparecem e ela para de falar. Bebo o meu como se fosse um refrigerante. Sam vê e indica que voltará com um refil. “Lewis quer que tenhamos pelo menos uma ideia de um tema. Sobre o que a peça será. O que estamos tentando dizer.” Ela inclina a cabeça para o lado. “Alguma ideia?” “Não.” “Pensei em algo parecido com as estações do ano? Talvez algo a ver com a natureza? A ideia do tempo se movendo e de como somos incapazes ao tentar pará-lo.” Reviro meus olhos. “Soa como uma confusão. Posso apenas ouvir os sons de pássaros passando pelo áudio no meu laptop.” Estou sendo um idiota novamente. Pelo menos mais do que o habitual. Não posso evitar isso quando estou com ela. Ela esfrega os olhos cansados. “Cromwell. Nós precisamos apenas terminar isso, ok? Nenhum de nós tem que gostar disso. Mas podemos trabalhar juntos. Muitos músicos fizeram isso e criaram algo bom.” Ela toma um gole de café. “Prefiro a ideia da mudança das estações. Dessa forma, podemos incorporar mais instrumentos e tempos.” “Tudo bem”, digo quando Sam volta para a mesa e enche minha xícara.

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Bonnie se recosta em sua cadeira, tomando seu café. Ela olha para mim por cima da xícara. “Gosta do que você vê?”, pergunto, sorrindo. Ela me ignora. “Lewis me disse que você era o melhor nas suas aulas em Londres.” Congelo, meus músculos travando. “Alguém deveria dizer a Lewis para calar a porra da boca.” “Deixarei isso com você.” Ela descansa o queixo na mão. “Então, como você chegou aqui? Visto?” “Dupla cidadania. Nasci aqui. Em Charleston.” “Você é americano?”, ela diz, chocada. “Eu não sabia disso.” “Não. Sou britânico.” Ela bufa de frustração. “Você sabe o que quero dizer. Você nasceu aqui?” “Mudei-me para a Inglaterra com sete semanas de vida. Nunca voltei nem para visitar desde então. Então sou tão americano quanto a boa e velha Liz.” “Quem?” “A rainha.” Bonnie ignora isso. “Então seus pais são da Carolina do Sul?” “Mamãe é.” “E seu pai?” “Nós terminamos aqui?”, retruco. Nós não vamos mencionar minha vida privada de jeito algum. Aponto para ela rabiscar no caderno. “Estações. Muitos instrumentos. Tempos

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variados. Provavelmente vai ficar uma merda, mas é o que temos. Nós terminamos.” Bonnie recosta-se em sua cadeira. Sua boca está aberta e seus olhos arregalados. Arrependo-me ao ver seu rosto ficar pálido, mas estou irritado de novo, como sempre. Sou bom nisso agora. “Sim. Seja como for, Cromwell”, ela diz com cautela, se recompondo. “Posso assumir a partir daqui.” Levanto-me e jogo uma nota de dez dólares na mesa. Minha cadeira raspa no chão de madeira, já que levantei muito rápido. O café inteiro olha para nós. Antes que Bonnie possa se oferecer para me levar para casa, dou o fora dali. Ando por um beco, que me leva ao parque que leva ao campus. Meus músculos estão tensos. Puxo meus cigarros e acendo um, ignorando os olhares de merda das mães com seus filhos. No momento em que chego a um campo aberto, já fumei três cigarros e estou apropriadamente mais leve. Sento-me ao lado de uma árvore e olho para o cara fazendo uma espécie de Tai Chi à distância. Parece que ele pertence a um cartão postal. Olho para o sol. O vento está parado e sorrio sem humor quando ouço pássaros cantando acima de mim nos galhos. Pássaros. “Estações”, murmuro. Que merda. Mas mesmo enquanto estou lá, tentando empurrar o conceito de malfeito e nada original pelo meu cérebro, imagino uma flauta em rajadas curtas e rápidas fazendo a introdução da peça. Vejo um único violinista apresentando a melodia principal.

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Primavera. Amarelo. Todos os tons de amarelo no espectro. Abro os olhos e enrolo as mãos com tanta força que meus dedos doem. Virando meu torso, envio meu punho para o tronco de árvore que estou encostado. Puxo minha mão e observo o sangue vazar dos cortes que a casca áspera causou. Levanto da grama e caminho de volta para os dormitórios, o sangue caindo pelo caminho de volta para casa. Preciso das minhas batidas. Preciso das minhas mixagens. Preciso esquecer. Coloco os fones de ouvido que estão pendurados no meu pescoço e deixo o volume alto abafar as cores, pensamentos e imagens que assolam minha cabeça. Coloco para tocar uma playlist no meu telefone e me perco no som pesado de garage e grime. Não é a música que fiz. Nem gosto disso. Eu só preciso tirar minha cabeça de Lewis, meus pais e Bonnie Farraday e suas perguntas. Easton está deitado em sua cama quando entro no nosso quarto. Tiro meus fones. Easton se levanta e assobia baixinho, sacudindo a cabeça. “O que você fez para irritar minha irmã, cara?” “Fui apenas o meu eu habitual e encantador.” Ando para o meu laptop e recomeço o que Bonnie interrompeu. Mas vejo o rosto chocado e ferido de Bonnie na minha cabeça e isso me para no meio do caminho. Easton deita-se na minha cama. Ele está jogando uma bola de futebol americano no ar e a pegando de novo. “Sim, bem, se

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sua intenção era deixa-la irada, bom trabalho.” Ele para de jogar a bola. “Então vocês terão que trabalhar juntos?” “Parece que sim.” Adiciono o som fraco de um violino sobre o ritmo com o qual venho lutando. Um violino. O som funciona perfeitamente. Nunca abri meu arquivo de instrumentos reais. Nunca antes os coloquei em minhas mixagens. Respiro fundo. Até agora. Esqueço tudo sobre Easton ao meu lado, muito focado no fato de que adicionei um maldito violino ao meu mix, até que ele diz, “Entendo que Bonnie pode ser mal-humorada, mas pegue leve com ela, ok?” Suas palavras me atingem, um aviso claro em seu tom. “Não tenho certeza se ela pode lidar com o seu tipo de loucura.” Ele dá de ombros. “Garota de cidade pequena e tudo mais.” Ele balança as pernas para fora da cama. “Nós vamos a um bar esta noite. E desta vez você não vai se esquivar disso. O jet lag se foi. Você já foi infeliz o suficiente. Agora você está apenas sendo um bastardo antissocial. E não posso conviver com isso. Tenho uma reputação a zelar.” “Se houver garotas lá, estou dentro.” Não posso acreditar que realmente topei. Mas continuo vendo Bonnie na minha cabeça e sei que preciso que ela vá embora. Preciso transar. Isso é tudo. Por que ela está me incomodando tanto? “Finalmente!”, Easton diz e me dá um tapinha nas costas. “Sabia que gostava de você por um motivo.” Ele joga a bola do outro lado do quarto em uma cesta. ”Traga sua identidade falsa. Você será a companhia perfeita.” Ele esfrega as mãos. “Verei o mestre em trabalho. Estava esperando por você para me mostrar o caminho.”

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“Não tenho certeza se você precisa da minha ajuda.” Easton finge considerar isso. “Claro que não, mas você e eu, mano. Nós estaremos em outro nível com as garotas aqui.” Vou para o meu armário, tiro uma camiseta limpa e passo as mãos pelo meu cabelo rebelde. Hoje à noite, vou transar, ficar bêbado e esquecer o mundo. É uma pena que, pelo resto da noite, olhos castanhos arregalados e o som de um único violino continuem incomodando meu cérebro.

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CAPÍTULO 7 Bonnie

“Bonnie, Cromwell, preciso vê-los depois da aula.” Minha cabeça se levanta das anotações quando Lewis fala. Viro para olhar para Cromwell. Ele não olhou para mim desde a semana passada na cafeteria. Na verdade, ele parece estar me evitando completamente. No entanto, agora, até evitou meu olhar. Ele recosta-se na cadeira, nem mesmo reconhecendo que o professor falou. A aula termina e junto minhas coisas. “Você está bem?”, Bryce pergunta, lançando um olhar acusador de volta para Cromwell. “Sim.” Sei que deve ser sobre a peça que temos que compor. Até eu sabia, quando a enviei, que era fraca. Dou a Bryce um sorriso forçado e um abraço. “Vejo você mais tarde, ok?” Ele olha Cromwell novamente. “Vou ficar bem”, insisto. “Sr. McCarthy, esta é uma conversa privada”, Lewis diz. Bryce assente para Lewis e sai da sala. Vou até a mesa do professor, onde dois assentos esperam. Sento em um. Ouço os passos pesados de Cromwell descendo lentamente as escadas. Um

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minuto depois, ele senta na cadeira ao meu lado. Sua colônia entra no meu nariz. É profundo, infundido com um forte toque de especiaria. Esta é a primeira vez que tenho uma conversa com o professor. Nossas sessões particulares não começariam por mais uma semana. Lewis pega o esboço que enviei e coloca na mesa diante de nós. “Eu só queria falar com vocês sobre a ideia de composição apresentada.” Engulo, nervos fervilhando no meu estômago. “A premissa é boa. O esboço está bem escrito.” Ele olha para mim, claramente sabendo que fui eu quem o escreveu. “Mas a coisa toda está sem... por falta de uma palavra melhor, sentimento.” Respiro fundo, quando Lewis desfere esse golpe. Não olho para Cromwell. É a mesma observação que fiz sobre sua música em Brighton. Lewis passa a mão pelo rosto e vira para Cromwell. Ele está encarando o chão. Raiva cresce dentro de mim. Esse garoto nunca parece se importar com nada. Como ele foi escolhido para vir para cá, com sua atitude atual em relação à música, e estudar sob a orientação de Lewis está além de mim. “O trabalho mais famoso de Vivaldi foi The Four Seasons.” Ele lê um pouco da proposta. “Quero que meus alunos sejam originais. Quero que vocês explorem a auto expressão em suas criações. Não quero uma recriação do trabalho de outro mestre.” Ele se inclina para frente e posso ver a paixão pelo assunto refletida em seus olhos. “Quero que isso seja o seu trabalho. Do seu coração. Coloque na música o que faz você vibrar. Provações e tribulações que enfrentou.” Ele senta-se. “Diga-me quem você é. Coloque tudo que você é na peça.” “Nós faremos melhor”, digo. “Certo, Cromwell?” Quando ele não diz nada em resposta, sinto vontade de gritar de frustração.

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Lewis se levanta. “Fiquem aqui na sala. Não há ninguém até esta tarde. Vejam se conseguem pensar em outra coisa.” Lewis sai e a sala mergulha num silêncio ensurdecedor. Deixo cair meu rosto nas mãos e respiro fundo. Isso não faz nada para me acalmar. Mas quando olho para Cromwell e sua atitude de não dou a mínima, meu coração quebra pelo músico que pensei que ele fosse. Aquele que aparentemente não vive mais dentro dele. “Você realmente não se importa?”, sussurro. Ele encontra meus olhos. Parece sem vida. Frio. “Na verdade, não.” Seu sotaque faz sua resposta parecer zombeteira e paternalista. “Por que você está aqui mesmo?” Levanto do assento e esfrego meu peito quando meu coração bate e gira em torno da frustração que está crescendo dentro de mim. “Você não toca instrumentos. Você não se importa com a composição. Vi você em nossas outras aulas, e você parece gostar tanto delas quanto gosta desta.” Agora que comecei não consigo parar. Ando, mas tenho que parar e colocar minhas mãos nos quadris quando uma raiva repentina rouba minha respiração. “Pedi para você me encontrar três vezes esta semana. Você disse que não podia em todas elas. No entanto, sei que você está saindo com meu irmão, bebendo e transando com metade das estudantes.” A sobrancelha de Cromwell se ergue. Seu lábio se eleva em uma sombra de sorriso. É um grande erro. Isso me quebra. “Ouvi sobre você, Cromwell. Não se esqueça disso.” Sorrio. O que mais há para fazer? Posso ver meus sonhos para este ano se esvaindo como areia em uma ampulheta. “Peguei um trem para Brighton para ver você, e tudo que consegui foi uma decepção.” Pego minha bolsa. “Pelo que posso dizer, você não tem desejos. Nenhuma paixão pela música, e foi espremido em um programa já completo

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por sabe Deus qual razão. Não tenho ideia do que Lewis vê em você, mas seja lá o que for , ele ficará muito desapontado quando não se concretizar.” Certifico de que ele está olhando diretamente nos meus olhos. “Sei quem eu sou.” Mais calma agora que exorcizei minha raiva, fico na frente dele e digo, “Encontre-me hoje à noite no Jefferson Coffee. Podemos tentar consertar isso e garantir pelo menos uma nota de aprovação. Encontre-me lá às sete.” Nem paro para esperar sua resposta. Ninguém nunca mexeu comigo assim. Saio para o dia quente; o clima violento do verão está começando a esfriar gradualmente. Apoio minha mão contra a parede e me obrigo a respirar, apenas me mexendo quando ouço vozes vindas por trás de mim. Lentamente, tentando acalmar meu coração acelerado, vou até meu dormitório e deito na cama. Fecho meus olhos, mas tudo o que meu cérebro quer é que eu veja Cromwell. Penso no vídeo que vi dele anos atrás. Para onde foi esse menino? O que aconteceu com ele para fazê-lo perder sua paixão? O menino que vi nos muitos clipes que procurei ao longo dos anos morreu. Ele uma vez tocou com tal significado, tal propósito e alma. Agora, tudo nele é frio. Ele toca música que não significa nada. Que não me faz sentir nada. Que não diz nada ao mundo. E meu sonho de ir bem neste curso agora está firmemente em suas mãos.

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“Outro, Bonn?”, encarando a janela, ergo meu olhar para Sam, que está ao meu lado com uma jarra de café quase vazia. “Não.” Dou-lhe um sorriso apertado. “Acho que levei o bolo... novamente.” “Cromwell?” “Como você adivinhou?” “Apenas um palpite.” Sam sorri. “Pelo menos você bebe descafeinado. Você ficaria acordada a noite toda se estivesse com cafeína.” Sorrio novamente, mas tenho certeza que ele pode ver a tristeza no meu rosto. “Eu só vou pegar minhas coisas e ir embora. Que horas são, afinal?” Um rápido olhar ao redor do café me mostra que estão fechando. As cadeiras estão de cabeça para baixo sobre as mesas e o chão está parcialmente esfregado. “Sinto muito, Sam. Você deveria ter me dito para ir embora mais cedo.” “Sem problema. Você parecia trabalho. Não queria incomodar você.”

concentrada

no

seu

“Obrigada.” “São onze e meia, a propósito. Apenas no caso de você ainda estar se perguntando.” Dou a ele outro sorriso forçado, então jogo minha bolsa por cima do ombro. Puxo meu suéter. Estou com frio. E cansada. Andei do dormitório até aqui, precisando do ar fresco e exercício. Caminho pela Main Street e paro quando passo pelo Wood Knocks. É o bar que a maioria das pessoas frequenta. Eles têm um pequeno clube embaixo quando dá meia noite. Se o Celeiro não estiver aberto, então é para o Wood Knocks que todos vão. A

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dança, a cerveja barata e a atitude casual em relação à massa de identidades falsas são apenas um prelúdio para transar, na verdade. “Doses, seus filhos da puta!” Reconheço a voz do meu irmão em um instante. Espio pela janela e vejo Easton em pé na mesa, sua voz alta ricocheteando nas paredes. Não posso acreditar que ele está tão bêbado novamente. Só mais uma coisa para me preocupar. Ele está festejando demais. “Cromwell, traga sua bunda para cá agora mesmo”, ele diz com um sotaque inglês terrível. Ele procura na multidão. “Onde ele está?” Uma risada incrédula sai dos meus lábios. Vou embora, deixando meu irmão procurando a multidão, antes que eu veja o rosto de Cromwell. Se o ver, não confio em não me fazer de idiota entrando lá e acabando com ele por me deixar naquele café, esperando por quase cinco horas e fazendo nosso trabalho em dupla sozinha. Acelero meus passos enquanto volto para o campus, esforçando-me mais do que é sábio. Chego ao dormitório, mas quando minha mão paira sobre a maçaneta, mudo de ideia e me dirijo ao departamento de música. Mesmo antes de Lewis chegar à faculdade, as salas ficam abertas para os estudantes o tempo todo. A faculdade entende que a hora do dia não é um fator quando a inspiração bate. A maioria das pessoas com veia artística são pessoas da noite. Pelo menos as que conheço. Pego meu cartão e caminho pelo corredor até uma sala de prática. Acabo de jogar minha bolsa no chão quando ouço o som de um piano derivando pelo corredor. Fico perto da porta e fecho meus olhos, um sorriso gravado em meus lábios. É sempre o mesmo. Sempre que eu ouço música,

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algo acontece dentro de mim. A música sempre se infiltra em mim como um chuvisco úmido em um dia frio. Posso senti-la em meus ossos. Nada na minha vida me deixa tão feliz quanto ouvir um instrumento sendo tocado tão perfeitamente quanto o piano agora. Amo todos os tipos de instrumentos. Mas há algo sobre um piano que simplesmente me faz sentir mais. Talvez seja porque nunca tocarei tão bem quanto a pessoa que está tocando agora. Não sei. Tudo que sei é que o som toma conta do meu coração e faz com que nunca queira deixa-lo ir. O piano para. Abro meus olhos. Ando para ir ao piano em minha própria sala, mas então o som de um violino começa. Paro de repente e exalo um pequeno suspiro. É perfeito. Todo movimento do arco. Escuto mais, tentando identificar a peça ou até mesmo o compositor. Mas não posso... E então, de alguma forma, eu sei... é uma peça original. Quando o violino para, e o som de um clarinete flutua pelo corredor, percebo que os sons vêm da maior sala, onde estão guardados os instrumentos de empréstimo para as principais escolas de música. Fecho os olhos e escuto quando quem está lá toca todos eles sucessivamente. Não tenho certeza de quanto tempo fiquei escutando. Mas quando um silêncio soa, meus ouvidos lamentam a ausência da música mais deslumbrante que já ouvi, solto um profundo suspiro. Sinto-me como se não tivesse respirado pela excursão de cada instrumento. Olho para a porta fechada. O vidro da janela está coberto por uma persiana. Levanto-me, reunindo meus pensamentos e o piano toca de novo. Mas, ao contrário da outra peça que o músico tocara, essa é diferente. Parece diferente. As notas lentas são

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sombrias, os tons mais profundos são os principais do espetáculo. Minha garganta se fecha com a tristeza que a música evoca. Meus olhos brilham enquanto a peça continua tocando. Antes que perceba, meus pés estão se movendo. Minha mão pousa suavemente na maçaneta da porta, mas não gira. Não gira porque posso ver o piano através de um espaço entre a porta e a persiana. Meus pulmões se esquecem de respirar quando olho para o pianista, o mestre desses belos sons. Vi tantas apresentações na minha vida, mas nenhuma se compara a crueza do que ouvi esta noite. Acompanho os dedos dançando como pássaros em um lago. Meus olhos percorrem os braços tatuados, uma camisa branca sem mangas, a barba por fazer e os piercings de prata. Então eles se fixam em uma única lágrima. Uma gota que rola pela bochecha bronzeada para espirrar nas teclas de marfim que estão vertendo sons de dor, mágoa e arrependimento. Meu peito é atingido, reagindo à história sem palavras que a música está contando. Enquanto olho para o rosto de Cromwell, é como se o visse primeira vez. Foi-se a arrogância e a raiva que ele usa como escudo. O escudo foi baixado e um garoto que não reconheço está exposto. Nunca vi alguém tão belo. Fico lá, com coração na garganta, enquanto ele toca, encarando as lágrimas estoicas, mas traiçoeiras, demostrando sua dor. Seus dedos nunca erram uma só nota. Ele é perfeito enquanto me conta uma história que nunca saberia, contudo compreendo completamente.

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Seus dedos reduzem a velocidade, e quando olho mais de perto, vejo que estão tremendo. Suas mãos dançam até o grande final, uma nota longa e assustadora, chegando ao fim da linda melodia. A cabeça de Cromwell se inclina e seus ombros tremem. Meu lábio treme quando sinto as profundezas de seu desespero. Ele enxuga os olhos e inclina a cabeça para trás. Observo-o respirar. Observo-o em seu silêncio. Observo em devaneio enquanto percebo — Cromwell Dean é a esperança que eu sempre sonhei que ele fosse. Cromwell respira fundo. Meu coração bate mais rápido do que pensei ser possível com a visão. A maçaneta da porta se move sob minha mão e a porta se abre, expondo onde estou. Cromwell olha para cima com o barulho, o rangido de madeira como um trovão no rescaldo silencioso de sua tristeza. Seu belo rosto drenado de sangue quando ele encontra meus olhos. Dou um passo para frente. “Cromwell, eu...” Ele se levanta do banco do piano; o movimento abrupto faz com que caia no chão. Ele se vira, mãos cerradas nas laterais do corpo e olhos azuis escuros perdidos. A boca de Cromwell se abre como se ele quisesse falar, mas nada sai. Ele olha para a sala, para os instrumentos que tocou, como se estivessem traindo seu segredo. “Eu ouvi você.” Entro mais na sala. Meu lábio inferior treme de medo. Não medo dele, mas medo do que tudo aquilo significa. De quem Cromwell Dean realmente é. Do que ele tem dentro dele. De quem ele pode ser.

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“Seu talento...” Balanço a cabeça. “Cromwell... eu nunca imaginei...” Cromwell se afasta de mim e contorna a sala como se estivesse tentando escapar. Estendo minha mão, querendo tocálo, para oferecer-lhe conforto enquanto ele respira rápido demais, enquanto seus olhos perdidos procuram desesperadamente pelo que fazer a seguir. Cromwell atravessa a sala em direção a onde estou, para a única saída. Seus olhos estão arregalados e seu rosto está pálido. Para apenas centímetros na minha frente, ombros flácidos e corpo exausto. Ele parece completamente quebrado. Os piercings de Cromwell brilham na única luz fraca acesa enquanto ele esteve tocando. Um holofote relutante. Não ousando brilhar com muita intensidade em um artista que não quer que seu dom seja visto. Tão perto que posso ver que sua pele está manchada, o resíduo úmido de suas lágrimas beijando suas bochechas. Ele se aproxima novamente, abrindo caminho até a saída. Nunca o vi assim. Foi-se a arrogância. Foi-se a atitude. Este é Cromwell Dean exposto. Sua respiração sopra em meu rosto. Hortelã, tabaco e algo doce. “Bonnie”, ele sussurra. Meu nome em seus lábios me machuca. Sua voz rouca soa como se estivesse gritando por ajuda. “Eu ouvi você tocar.” Encontro seu olhar lacrimejante. Meu coração bate forte no peito. O silêncio na sala é tão profundo que posso ouvir as duas batidas muito diferentes dos nossos corações batendo entre nós.

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Cromwell tropeça até suas costas baterem na parede. Seu olhar azul se concentra no piano do outro lado da sala. Não tenho certeza se ele o vê como um inimigo ou um salvador. De repente, Cromwell afasta-se da parede e corre para pegar algo na parte de cima do piano. Ele tenta passar por mim. Quando seu braço esbarra no meu, ajo por instinto e o seguro. Ele fica estagnado e abaixa a cabeça. Seus ombros largos estão caídos. Pisco as lágrimas vendo-o tão desfeito. Tão torturado. Tão exposto. “Por favor... deixe-me ir”, ele diz. Meu coração se agita com o desespero em sua voz. Deveria fazer o que ele pediu, mas continuo firme. Não posso deixa-lo sair tão chateado. Neste momento, descubro que não quero deixá-lo ir. “O jeito que você pode tocar...” balanço a cabeça, sem palavras. Cromwell suspira, sua respiração tremendo, depois traz algo sobre seu coração. Recuo para ver o que é. Um conjunto de placas de identificação está apertado em suas mãos trêmulas. Ele as segura com tanta força que os nós dos dedos estão brancos. Cromwell fecha os olhos e meu corpo fica tenso de compaixão quando uma lágrima cai. Quero enxugá-la de seu rosto, mas me contenho. Não tenho certeza se ele me deixaria ir tão longe. Quando abre os olhos, o olhar em seu rosto não é nada além de torturado. “Bonnie...”, ele sussurra, seu sotaque rouco ao encontrar meus olhos. Sempre pensei que seu sotaque fosse condescendente. Agora, quebrado e rouco, é apenas cativante. Então ele se afasta de mim e foge para a porta, com passos pesados no chão de madeira. “Cromwell!”, grito atrás dele. Ele

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para na porta, mas não se vira. Quero que ele fique. Não sei o que dizer, mas não quero que vá embora. Parece que espero uma eternidade, com o coração na garganta, para ele decidir o que fazer, entre continuar ou vir até mim. Mas então a porta se abre e fecha e ele me deixa sozinha. Tento recuperar o fôlego. Tento fazer meus pés trabalharem para ir atrás dele. Mas estou paralisada, incapaz de processar a memória de um Cromwell tão destruído no piano. São dez respirações longas antes que eu consiga me mexer. Vou até o piano e pego o banquinho de onde ele caiu. Sentando ali, corro meus dedos pelas teclas. Elas ainda seguram um lampejo de calor de onde ele tocou. A ponta do meu dedo mergulha em algo molhado quando coloco minhas mãos. É uma lágrima dos olhos de Cromwell. Eu não a limpo. Reposicionando minhas mãos, começo a tocar algo que eu mesma compus. Fecho meus olhos e abro minha boca, deixando minha maior alegria voar livre. Preces atendidas que são a letra de uma melodia. Um poema cantado. Direto do coração, contudo cantado da alma. Canto suavemente, uma música que escrevi só para mim. Uma que foi tanto conveniente quanto significativa. Uma que se tornou meu hino. Uma que me mantém forte. É para ser cantada com um violão, mas alguma coisa me fez sentar aqui, com este lindo instrumento. Minhas mãos se movem ao longo das teclas com mãos hábeis. Mas quando a música chega ao fim e fecho a tampa do piano, sei que minha execução não foi digna desse instrumento depois que Cromwell trouxe suas teclas à vida.

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Olho para a porta, o fantasma da voz quebrada de Cromwell e os olhos assombrados ainda pairando no ar. Respiro fundo e tento encontrar a antipatia por ele que se estabeleceu em mim desde o nosso primeiro encontro. Só que agora não está lá. Mesmo com a grosseria e a arrogância que vi nele na maioria dos dias. Agora sei que há uma dor por trás de seus olhos azuis, tatuagens e cabelos escuros. Em um instante, torna impossível pensar nele como antes. Uma lágrima desce pela minha bochecha. Cromwell Dean sente tanta dor que isso tirou sua alegria de tocar a música que uma vez ele amava. Dor que o fez derramar lágrimas. Isso me machuca. Porque sei como é esse tipo de dor. No mais improvável dos lugares, no mais improvável dos tempos, encontrei um terreno comum com Cromwell Dean. Mas nós compartilharemos esses segredos...? Suspiro. Provavelmente não.

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CAPÍTULO 8 Cromwell

A brisa bate em minha pele à medida que corro pelo pátio, passando por algum antigo ex-aluno imortalizado em uma estátua de ferro fundido no centro. Olho a minha volta, na borda escura da grama e nos bancos iluminados sob postes vintage. Inalo a fumaça do meu cigarro, forçando-a em meus pulmões, esperando que a sensação da nicotina me acalme. Mas não funciona. Deixo meus pés me levarem para onde querem que eu vá. Mas isso não impede o tremor das minhas mãos. Não dá fim à batida irregular do meu coração e às lágrimas que simplesmente não param. Meus dedos doem quando agarro o metal em minhas mãos com tanta força que me pergunto se voltarão a sentir alguma coisa de novo. Caminho sem parar até me encontrar no lago. Está em silêncio, nenhum sinal de vida, exceto pelos barcos ancorados e as luzes fracas do distante bar à beira do lago que fica no limite. Meus pés me levam até o final de uma doca antes que desistam e caio de joelhos. O som do lago batendo contra os postes de madeira da doca atinge meus ouvidos. Lilases-claros iluminam meus olhos e o

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gosto de canela derrete na minha boca. Gemo, não querendo nada disso. Não querendo as cores, os sabores ou as sensações... “Filho”, ele sussurra, com os olhos brilhando. “Como... como você tocou assim?” Dou de ombros, afastando minhas mãos do piano. A mão de papai toca minha cabeça e ele se agacha ao meu lado. “Alguém lhe ensinou isso?” Balanço a cabeça. “Eu...” Rapidamente fecho minha boca. “Você o quê?”, ele sorri. “Vamos lá, amigo, juro que não estou com raiva.” Não quero deixá-lo com raiva. Ele esteve com o exército por meses e acabou de voltar. Quero deixá-lo orgulhoso, não zangado. Engulo o nó na garganta e passo a ponta dos dedos sobre as teclas. Elas não emitem nenhum som. “Eu apenas posso tocar”, sussurro. Olho para papai. Levanto minhas mãos. “Elas simplesmente sabem o que fazer.” Aponto para minha cabeça. “Apenas sigo as cores. Os sabores.” Aponto para o meu peito, meu estômago. “Como eles me fazem sentir.” Meu pai pisca e de repente me abraça em seu peito. Senti falta dele quando esteve longe. Não era o mesmo quando ele foi embora. Quando se afasta, ele diz, “Toque de novo, Cromwell. Deixe-me ouvir.” Então toco. É a primeira vez em minha vida que vejo meu pai chorar. Então toco mais um pouco... Ofego, inspirando o ar úmido. Movo meus pés, minhas costas batendo no poste de madeira. Um homem está remando a distância. Pergunto-me porque diabos ele está aqui à noite. Mas

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então penso que talvez ele seja como eu. Talvez quando feche os olhos, ele nunca descanse. Em vez disso, só veja a memória do que o destruiu. Quando olho para a água que ondula sob os remos, desejo ser ele agora. Apenas indo. Nenhum destino em mente. Apenas, porra, indo. O rosto de Bonnie aparece na minha cabeça quando sinto o metal das placas cortando minha palma. Olho para meus dedos e revivo-os dedilhando as teclas. Tatuagens de crânios e do número de identificação que significam o mundo para mim, olham para mim. Zombam de mim. Tinha que ser Bonnie Farraday a entrar. À meia-noite, quando todos os outros estavam no bar ou na cama, tinha que ser ela que estava na porta. A única garota que conseguiu me atingir. Que conseguiu fazer com que eu sentisse coisas que nunca quis sentir. Balanço a cabeça e passo a mão livre sobre meu rosto. Tudo começou com uma mensagem na minha caixa de correio... Passe em meu escritório às cinco. Professor Lewis. Fui lá e me sentei na cadeira em frente à dele. Ele olhou para mim calmamente. Já o encontrei algumas vezes na minha vida. Principalmente quando era jovem... bem antes... A primeira vez que o encontrei, fui com meus pais para vêlo reger seu trabalho no Royal Albert Hall. Ele ouviu falar de mim e nos convidou. Os anos passaram e não ouvi mais nada. Não quando o queria de qualquer maneira.

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Agora, mal o conheço. “Como você está, Cromwell?”, ele pergunta, seu sotaque parecido com o da minha mãe. Embora o dela tenha diminuído pelos muitos anos na Inglaterra. “Bem”, murmuro e olho para os certificados nas paredes. Uma foto regendo uma orquestra tocando sua música no baile de formatura da BBC no Royal Albert Hall. Eu me lembro do cheiro daquele lugar. Madeira. Resina dos arcos. “O que você está achando de Jefferson?” “Maçante.” Lewis suspira. Ele se inclina para frente, com o rosto apreensivo. Fica claro o porquê alguns segundos depois. “Hoje de manhã percebi que dia é hoje.” Ele faz uma pausa. “Eu sei que é o aniversário do seu pai...” Ele limpa a garganta. “Sei que só o encontrei algumas vezes. Mas nós falávamos frequentemente. Ele... ele acreditava tanto em você...” Empalideço. Não sabia que meu pai falava com ele frequentemente. Fecho meus olhos por um segundo e inspiro. É tão simples quanto uma pesquisa no Google para ver como e quando isso aconteceu. Pessoas que eu não conheço — ou mal conheço — podem descobrir todos os detalhes se conseguirem o nome do meu pai. Elas podem ler sobre sua morte como se o conhecessem. Como se estivessem lá quando isso aconteceu... Mas não posso fazer isso agora. Não enfrentarei isso com um professor que não conheço nem um pouco. Ele pode ter me oferecido uma bolsa de estudos, mas o cara não me conhece. Não tem o direito de enfiar seu nariz nisso.

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Levanto e saio pela porta. “Cromwell!”, a voz de Lewis desaparece quando consigo me afastar. Os estudantes me dão espaço à medida que corro pelo corredor. Esbarro em um idiota, que se vira para mim. “Cuidado, babaca.” Coloco minhas mãos em seu peito e o jogo contra a parede. “Tenha cuidado, imbecil. Antes que eu remodele seu rosto.” Preciso bater nele. Preciso tirar essa onda de raiva de dentro de mim antes de fazer algo do qual me arrependerei. “Cromwell!”, a voz de Easton atravessa a multidão reunida. Empurro o idiota em minhas mãos e o jogo no chão. Ele olha para mim de olhos arregalados. Viro e atravesso a porta, olhando para a esquerda e para a direita, apenas perguntando-me para onde diabos ir. Easton me alcança. Salta na minha frente. “East, juro por Deus. Saia do meu caminho.” “Venha comigo”, ele diz. “East...” “Apenas venha comigo.” Sigo atrás dele. Alguma garota acena para mim. “Oi, Cromwell.” “Agora não”, explodo, em seguida, pulo na caminhonete de Easton. Ele sai do campus e pela primeira vez em sua vida teve o bom senso de não abrir a boca. Meu celular vibra no meu bolso. Minha mãe estava ligando o dia todo. Gemendo atendo. “Cromwell”, ela diz, alívio em sua voz.

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“O que?” Há uma pausa. “Apenas verificando se você está bem hoje, querido.” “Estou bem”, digo, arrastando-me no banco. Preciso dar o fora dessa caminhonete. Minha mãe funga e a fúria me assola. “É um dia difícil para nós dois, Cromwell.” Meu lábio crispa em desgosto. “Sim, bem, você tem seu novo marido para deixar as coisas melhores. Abra seu coração para ele.” Desligo, assim que Easton para em uma área coberta de árvores verdes e densas. Saio da caminhonete e sigo em frente, sem saber para onde estou indo. Passo através das árvores e chego à água. Fico paralisado. Fecho meus olhos e fico lá tentando me acalmar. Inspiro, enrijecendo meu estômago quando sinto toda a dor que sabia que viria hoje. Sento no chão e olho para a água. Nem sabia que esse lugar existia, tão perto do campus. Easton senta ao meu lado. Afasto o telefonema da minha mãe da minha cabeça. Afasto a raiva sobre o bastardo intrometido que é Lewis de lado e apenas respiro. “Venho aqui quando estou como você se encontra agora.” Easton se inclina para frente, colocando os braços ao redor das pernas e seu queixo nos braços. “Tranquilo, entende? Como se não houvesse mais ninguém aqui além de você.” Ele ri. “Ou nós.” Coloco minhas mãos no cabelo e abaixo minha cabeça. Aperto meus olhos, mas tudo que posso ver é o rosto de

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papai. A última vez que nos falamos. As discussões e sua expressão quando virei de costas para ele e fui embora. Não consigo suportar. Olho para o lago. Nasci nesse estado, mas não tenho absolutamente nenhuma conexão com ele. A paisagem agora não parece em nada como casa. Não é verde o suficiente e o tempo está muito quente. Pela primeira vez desde que estou aqui, sinto saudades de casa. Mas não sei do quê. Aquele lugar não é a minha casa há muito tempo. Meu relacionamento com minha mãe está deteriorado e não tenho amigos. Não amigos de verdade, de qualquer maneira. Isso foi antes de me acalmar. Easton havia desaparecido há algum tempo. Quando ele surge ao meu lado novamente, estende uma cerveja. Ele coloca o pacote de seis entre nós. Tiro a tampa com os dentes. No minuto em que a cerveja atinge meus lábios, exalo. “Você está bem?”, Easton pergunta. Aceno. Ele bate sua cerveja na minha. “Wood Knocks. Esta noite. Não vamos pensar muito nas coisas. Ajuda você a esquecer.” Balanço a cabeça novamente, então bebo outras três cervejas. Teria feito qualquer coisa para me afastar desse sentimento.

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A mão de uma garota desce pelo meu estômago, mergulhando sob o cós do meu jeans. Deixo minha cabeça cair de

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volta contra a parede. Seus lábios sugam meu pescoço quando ela me segura em sua mão. “Cromwell”, ela sussurra contra a minha pele. “Vou gostar disso.” Olho pelo quarto escuro. É algum vestiário onde alunos podem guardar seus casacos no inverno. Serragem cobre o chão. Cascas de amendoim também estão lá embaixo. A garota me segura na mão dela. Seus lábios continuam pressionando contra meu pescoço. Isso está me irritando. “Você é tão gostoso”, ela sussurra. Não vou fazer isso. Reviro os olhos, empurro-a de cima de mim e afasto sua mão. Saio do vestiário e entro na massa de estudantes que Easton parece ter reunido na hora entre a gente voltar para o dormitório e vir para cá. Posso ouvi-lo. Tenho certeza de que a voz de Easton poderia ser ouvida do espaço. Saio na Main Street e olho em volta. Não há quase ninguém por perto. Todo mundo está dentro. As lojas e lanchonetes parecem inclinar-se ligeiramente. Esfrego a mão no meu rosto. Bebi demais. “Onde está Cromwell?”, ouço a voz da garota perguntando lá dentro. Vou para o campus antes que alguém possa ver que desapareci. Meus pés estão pesados enquanto me arrasto de volta para casa. Mas quando me aproximo do dormitório, esse é o último lugar que quero estar. Não penso. Nem sei onde estou indo até que meus pés param nas salas de música. Olho para a porta fechada e para o leitor de cartões que permitem seu acesso. Respiro fundo, como se tivesse acabado de correr uma maratona. Tento me virar, mas meus pés não me atendem.

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Minha cabeça cai contra a porta e fecho meus olhos... Levanto minhas mãos do piano e pisco. Minha cabeça sempre viaja para outro lugar quando toco. Ela se transforma. Transforma-se em cores e formas. Até que termino e o mundo reaparece. A plateia explode em aplausos. Levanto-me e olho para a multidão. Vejo minha mãe, batendo palmas, em pé com lágrimas nos olhos. Dou a ela um pequeno sorriso e saio do palco. Quando solto minha gravata borboleta, o diretor do show me dá um tapinha no ombro. “Incrível, Cromwell. Foi fantástico. Não posso acreditar que você tem apenas doze anos.” “Obrigado”, digo e caminho em direção aos bastidores, onde podemos nos trocar. Olho para o chão enquanto caminho. Estou feliz por mamãe poder me ver hoje à noite, mas a pessoa que queria que me assistisse não está aqui. Ele nunca esteve aqui. Quando viro o corredor, um flash de movimento chama minha atenção. Levanto minha cabeça. A primeira coisa que vejo é o verde cáqui. Meus olhos se arregalam. “Papai?” “Cromwell”, ele diz e não posso acreditar em meus olhos. Meu coração bate mais rápido quando corro até ele, jogando meus braços ao redor de sua cintura. “Você foi inacreditável”, ele diz e me abraça de volta. “Você viu?” Ele assente. “Eu não perderia isso.”

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Quando olho para cima, estou dentro do prédio de música. Minha carteira de estudante está na minha mão. Estou em uma sala de ensaio, com uma grande estante de instrumentos em uma das extremidades. Minhas mãos coçam para tocá-los. Quero culpar o álcool. Quero culpar qualquer outra coisa, exceto o fato de que preciso estar aqui. Que preciso desses instrumentos. Ando até o piano e passo as mãos pela tampa fechada. Meu íntimo parece que está rasgando em dois. Puxo minha mão para trás, tentando me virar. Mas não posso. Sento-me no banco e levanto a tampa. Teclas pretas e marfins olham para mim. E como sempre, posso lê-las. Não as vejo silenciosas, vejo-as cheias de notas, música e cor. Minhas mãos vagueiam ao longo das teclas e paro no canto. Afasto minha mão. “Não”, falo para ninguém além de mim mesmo. Minha voz está perdida na sala. Fecho meus olhos, tentando parar a dor no meu peito que está lá há três anos. Posso controlar. Sou bom nisso agora. Em afastar tudo. Mas desde esta manhã, tenho que lutar mais do que o habitual. Isso está me matando durante todo o dia. Está ficando difícil de repelir. Toque, filho, uma voz sussurra na minha cabeça. Minhas mãos se fecham quando ouço o eco das palavras do meu pai em minha mente. Toque... Ofego, liberando toda a luta que reprimi por dentro. A sala fica em silêncio. Uma tela em branco à espera de cor. Minhas mãos descansam nas teclas. Prendo a respiração e aperto uma única tecla. O som soa como uma sirene. Uma explosão de verde tão vivo que beira o neon. Outra vem, trazendo

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um vermelho desbotado. Antes que possa parar, minhas mãos estão dançando nas teclas como se nunca tivessem parado. Como se eu não tivesse mudado há três anos. Tocata e Fuga em Ré Menor de Bach saem de minhas mãos, cada compasso queima em meu cérebro. Nenhuma partitura é necessária. Apenas sigo as cores. Vermelho vibrante. Azulclaro. Ocre. Castanho claro. Amarelo limão. Uma após a outra. Entrelaçadas em minha mente. Quando a peça chega ao fim, viro-me no banco. Não penso dessa vez. Não me coloco no tormento. Apenas atravesso a sala e pego o que quer que apareça primeiro. No primeiro toque da corda do violino, fecho os olhos e sigo com ele. Desta vez é minha própria música que sai de mim. Um após o outro, vou alternando os instrumentos, a música como uma droga sendo injetada em minhas veias. Sou um drogado que está limpo há três anos, finalmente recebendo sua dose. Sou incapaz de parar. Uma overdose de cor, sabores e da descarga de adrenalina que ela envia no meu sangue. Não sei quanto tempo se passa. Mas quando todos os instrumentos são tocados, vou para a porta. Mas meu vício não terminou comigo ainda. Quero que meus pés cooperem esta noite. Quero deixar isso para trás e dizer que estava muito bêbado. Mas não me sinto mais embriagado. O álcool não é o que está me guiando agora. Sou eu. E sei disso. Como se fosse um ímã caminho para o piano novamente. Enfio a mão no bolso e tiro as placas de identificação. Não consigo olhar para o nome dele. Em vez disso, coloco-as em cima do piano e deixo que fiquem comigo. Deixo-o ficar comigo.

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Inspiro e expiro cinco vezes antes de minhas mãos pousarem nas teclas. Meu coração é um bumbo enquanto as deixo assumir o controle. E quando elas assumem, é uma maldita adaga no meu peito. Eu só toquei essa música uma vez. Exatamente três anos atrás neste dia. Nunca escrevi a partitura. Não importa. Está gravada na memória. Cada nota. Todas as cores. Todos os sentimentos de cortar o coração. Esta peça é toda em cores escuras. Notas e tons baixos. E quando os sons me cercam, meu rosto se contorce, lembrando-me de mamãe entrando no meu quarto às três da manhã... “Baby...”, ela sussurra, as mãos tremendo, o rosto pálido e cheio de lágrimas. “Eles o encontraram... ele se foi.” Olho para ela, sem mover um músculo. Não é verdade. Não pode ser verdade. Ele está desaparecido, mas vai ficar bem. Ele tem que estar. Depois de como as coisas foram deixadas. Ele tem que estar. Mas vendo minha mãe desmoronar, sei que é verdade. Ele se foi. Quando o sol começa a subir, entro na sala que tem o meu piano — meu presente no décimo segundo aniversário. E toco. Toco e, quando toco, a ficha começa a cair. Ele se foi. Debruço-me enquanto toco, a dor no meu estômago ficando muito difícil de suportar. A música é sombria, lenta, nada como já toquei antes. Ele não pode ter ido embora. A vida não seria tão injusta.

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Ele se foi... as palavras da minha mãe giram em minha cabeça. Quando atinjo o auge, um berro sai da minha garganta. Lágrimas vêm grossas e rápidas depois disso. Mas minhas mãos nunca param de se movimentar. É como se elas não pudessem. Tenho que tocar. É como se elas soubessem o que é isso. Que nunca tocarei as teclas do piano novamente. Quando a peça desvanece, a última nota chega ao fim, abro os olhos e olho para as minhas mãos. É tudo demais. Minhas mãos neste piano. Tocando novamente depois de tanto tempo. As cores, o sabor do metal... o enorme rasgo em meu peito. Lágrimas caem nas teclas. O rosto de papai vem à minha mente. O último olhar que ele me deu — dor e tristeza. Um rosto que nunca mais vi. Ele levou a música consigo. Minhas mãos escorregam das teclas. Não respirar. A sala está silenciosa demais e imóvel, e...

consigo

O som da porta se abrindo me faz olhar para cima. Sinto o sangue drenar do meu rosto quando vejo quem está na porta. Bonnie Farraday está olhando para mim, o rosto pálido e olhos tristes. E isso me arruína. Naquele momento, não quero ficar sozinho. Mas não tenho ninguém para me apoiar. Ninguém a quem recorrer. Afastei todo mundo. E então ela aparece. Seus olhos se enchem de lágrimas. Bonnie está lá comigo quando estou desmoronando. Não sei o que fazer. Preciso sair, preciso afastá-la também. Não preciso de ninguém em minha vida. Estou melhor

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sozinho. Mas naquele momento, eu a quero perto. Então ela toca meu braço e quase desisto. Quando olho nos olhos dela enquanto as lágrimas caem dos meus, sei que tenho que deixar aquela sala. Começo a correr, ouvindo a voz de Bonnie quando ela chama meu nome. Corro até chegar à pequena clareira que Easton me mostrou mais cedo. Sento na grama e deixo a brisa quente me envolver. Quando acendo um cigarro, enxergo minhas mãos. Elas parecem diferentes. Dedos livres, de alguma forma, como se eu finalmente tivesse cedido ao que eles queriam depois de todos esses anos. Toquei. Deixei a música regressar. Enquanto dou uma tragada no meu cigarro, tento afastar a sensação da minha cabeça. Mas o eco das notas ainda permanece em meus ouvidos. As sombras das cores ainda estão vivas em minha mente e a sensação ilusória das teclas embaixo dos meus dedos ainda está gravada na minha pele. Memória muscular recusando-se a ir. Frustrado, deito e olho para o céu noturno. As estrelas estão em pleno vigor. Fecho os olhos, tentando afastar tudo e voltar ao vazio que abracei por tanto tempo. Não funciona. Nada vai embora. Especialmente não o sotaque sulista de Bonnie Farraday e o olhar em seus olhos. A maneira que você pode tocar... Sua voz é azul-violeta. Fecho meus olhos. É a cor que eu mais gosto de ouvir.

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CAPÍTULO 9 Cromwell

Eu olho para ela em seu assento ao lado do idiota do Bryce. Ela sorri e ri com ele enquanto Lewis se prepara para a palestra. Olhe para o lado, babaca, digo a mim mesmo. Eu olho. Apenas para sua risada fazer meus olhos voltarem em sua direção. Sua risada é rosa-claro. Enquanto a observo agora, meu estômago se revira. Meu celular pisca enquanto eu aperto o botão de desbloqueio. E como fiz durante todo o fim de semana, olho para a mensagem simples que aparece. BONNIE: Você está bem? A pergunta simples faz algo acontecer no meu peito. Parece que estou quebrando cada vez mais toda vez que a leio. Você está bem? Não vi Bonnie em todo o final de semana. Ela não foi ver Easton, que ficou praticamente só dormindo para curar a ressaca de sexta à noite. Eu vigiei a porta por trás do meu laptop, apenas esperando que ela aparecesse. Esperei que Easton se movesse, só para o caso dele ir se encontrar com ela. Mas ela nunca veio e East só saiu para buscar comida.

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Disse a mim mesmo que era uma coisa boa. Que eu não queria vê-la depois de bancar o tolo. Mas depois fiquei a noite toda olhando para aquela simples mensagem. Você está bem? Não respondi. Eu me ocupei com trabalho. Fiz o upload das minhas mixagens. As músicas já são as mais tocadas da dance music. Isso deveria me deixar feliz. Mas toda vez que eu as escuto, tudo o que vejo é muita estupidez em minha mente. Agora que toquei os instrumentos que uma vez tanto amava, tudo mais parece sem vida em comparação. Preciso esquecer que isso aconteceu. Mas quando meus olhos seguem para Bonnie novamente, para seu rosto bonito e cabelo escuro e grosso, eu sinto como se estivesse de volta à sala com a mão de Bonnie no meu braço. Ela tentou falar comigo quando cheguei hoje, mas passei por ela sem uma palavra. Não tinha certeza se poderia olhar para ela novamente sem sentir o desejo do chão me engolir. Mas então, preciso olhar para ela... e não consigo desviar o olhar. Recosto-me no assento e me forço a ouvir enquanto Lewis fala sobre a eficácia da mudança de ritmo na composição. Isso me deixa entediado. Eu não preciso aprender essa porcaria. Depois de quase dormir, verifico o relógio. Restam apenas dez minutos. Observo o relógio enquanto os minutos diminuem. Meu telefone toca na minha mesa. Meu estômago se revira quando leio de quem é a mensagem. BONNIE: Podemos nos encontrar depois da aula?

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Meu coração se acelera. Olho para ela algumas fileiras abaixo. Mas ela não olha para trás. Sei que não devo ir. O que diabos eu diria? E se ela sequer mencionar sexta à noite, terei que dar o fora. Não há nada a ser dito. Eu estava bêbado. Foi isso que aconteceu. Essa é a história que vou afirmar. Não quero falar sobre isso. Eu não posso. Levanto meu telefone para digitar que não vai ser possível. Mas em vez disso, acabo respondendo, SIM. “As sessões individuais começam esta semana”, diz Lewis, puxando minha atenção de volta para ele. Ele aponta para a parede. “Os horários para inscrição estão na parede. Preencham antes de sair.” Tento acalmar minha pulsação, mas não vou conseguir com a ideia de precisar encarar Bonnie. Os estudantes correm para preencher os horários. Fico no meu lugar, reunindo minhas coisas lentamente. Bonnie está na frente com Bryce. “Venha me encontrar para tomar um café uma noite dessas, Bonn”, diz ele. Por alguma razão, um maldito incêndio explode dentro do meu peito quando ele a chama para sair. Bonnie enfia o cabelo atrás da orelha e vai até a folha de inscrição. Ela preenche e volta para Bryce. “Eu... Não tenho certeza”, ela gagueja. Ele pega a mão dela e eu quase entro em completa combustão. Ela olha para os dedos dele nos dela e eu congelo, imaginando o que ela vai fazer. “Vamos, Bonn. Já venho chamando você para sair desde o ano passado.” Ela sorri para ele e o olhar meloso no rosto de Bryce realmente me irrita. “Farraday”, digo, sem pensar. Bonnie olha para mim surpresa. “Eu não tenho o dia todo. Se você quer se

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encontrar agora, vamos.” Dou uma olhada para Bryce. “Não quero ficar assistindo enquanto você dá um fora nele.” Bonnie cora. Bryce parece querer me matar. Eu ficaria feliz em vê-lo tentar. Bonnie afasta a mão de Bryce. “Eu vejo você amanhã, Bryce.” Ouço uma leve oscilação em sua voz. Pela maneira como ela olha para mim nervosamente, eu sei que ela também não faz ideia do que diabos dizer sobre a noite de sextafeira. Bryce acena com a cabeça e anda até a porta. Não sem lançar um olhar irritado para mim primeiro. Babaca. Bonnie fica na minha frente. “Cromwell, você não precisa falar com ele desse jeito.” Minhas narinas se dilatam. Eu não gosto de como ela o está defendendo. Ela gosta dele? Será que é isso? “Você queria falar comigo.” Aponto para a pasta que ela está segurando, visivelmente etiquetada como “Projeto de Composição”. Passo a mão pelo meu cabelo. “Ele estava atrapalhando.” Bonnie respira fundo, mas ela realmente olha para mim. Seus olhos castanhos estão arregalados e vejo a simpatia que os incendeia. O constrangimento me pega desprevenido. Enfio a mão no bolso e pego meu maço de cigarros. “Vou fumar um cigarro. Estarei lá fora.” Coloco meus fones de ouvido e saio pela porta. Eu estou na metade do meu cigarro quando — Stacey? Sonya? — alguma garota que fodi na semana passada vem até mim. “Ei, Cromwell. O que você está fazendo?” Sua voz está pingando insinuação. Dou outra tragada e solto a fumaça. Bonnie escolhe esse momento para sair. “Ei, Suzy”, ela diz, então olha para mim. “Vamos?” Os olhos de Bonnie demonstram desconforto e a visão disso me deixa ansioso.

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Encolho os ombros para Suzy. “Tenho planos.” Termino meu cigarro e sigo Bonnie até o carro dela. Presumo que vamos à cafeteria. Bonnie parece morar lá. Quando a porta se fecha, fico tenso. Eu não quero que ela mencione a outra noite. Rezo para que ela não o faça. Antes de ligar o carro, Bonnie olha pela janela. “Cromwell...” Estou prestes a ser rude com ela. Dizer a ela para cair fora como fiz com quem me desafiou sobre o que eu estava sentindo. Mas quando seus olhos castanhos se fixam em mim e vejo a preocupação em seu rosto, toda a vontade de brigar desaparece. “Não...”, sussurro, minha voz soando muito alta no carro silencioso. “Por favor... apenas deixe isso para lá.” Os olhos de Bonnie brilham. Ela assente. Suas mãos caem no volante, mas antes de sair do estacionamento, ela diz, “Apenas me diga que você está bem.” Ela não olha para mim. Ela mantém sua atenção à frente. “Só preciso saber que você está bem.” Minha perna salta quando as palavras dela me atravessam. Porque ela soa como se realmente quisesse dizer aquilo. A oscilação em sua voz... a sombra de lilás que a cerca me diz que ela quis dizer cada palavra. “Sim”, digo e seus ombros relaxam. A verdade é que não estou bem. Mas aquela corrente dentro de mim, que mantém todo mundo longe, aperta minha garganta para manter o inferno trancado. Sempre que estou perto de Bonnie, tenho que ficar com a coleira mais apertada. Ela sorri e a pressão da coleira afrouxa momentaneamente. Mas quando ela sai do campus em silêncio, gradualmente volto para a restrição.

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Quando chegamos ao Jefferson Coffee, sentamos no que parece cada vez mais a mesa habitual de Bonnie. Sam, o cara de antes, vem com as bebidas. “Presumi que seria o mesmo de antes”, diz ele, servindo-me um forte café preto. Quando ele se afasta, olho para Bonni do outro lado da mesa. Ela está olhando para mim. Abaixando os olhos, pega sua pasta. Ela abre e coloca uma partitura diante de mim. Ela parece envergonhada. “Eu... eu fiz algumas reflexões sobre o começo da composição. Fiquei com isso na cabeça por um tempo.” Nervosamente toma um gole de café. “Eu sei que não temos um tema ou algo assim ainda, mas pensei em mostrar isso a você.” Eu olho para a música e leio. Meus olhos examinam as anotações. Não digo nada. “Você odiou.” Eu levanto meus olhos para Bonnie. Não odiei. Apenas... não tem nada de especial. As cores não fluem. É como se você visse uma pintura genérica afixada em uma parede em um lugar qualquer. É bom, mas nada que vá mudar vidas. Decido não falar nada. Se eu falar, ela vai apenas ficar chateada. Minha mandíbula aperta em aborrecimento quando percebo que não quero vê-la chateada. A garota está zoando com a minha cabeça. Estico meus braços sobre a cabeça. Eu a vejo me observando. Quando encontro seus olhos, ela os move para a música. “É horrível?” “Não é horrível.” “Mas também não é boa”, Bonnie diz conscientemente e recosta-se em seu assento. Ela parece desanimada. Sua boca se abre, como se quisesse dizer alguma coisa. Sei que seria sobre

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sexta à noite. A raiva que geralmente me controla começa a aumentar em antecipação. Ela deve ter visto algo na minha cara, quando diz, “Cromwell, acho que devemos ir até Lewis e solicitar novos parceiros. Isso...”, ela aponta entre nós “...não está dando certo.” Ela mantem os olhos baixos. “Nós não estamos na mesma página quando se trata de música.” Seu dedo traça uma marca da madeira sobre a mesa. “Você...”, ela engole em seco. “Você ainda está querendo contribuir usando eletrônica, ou mudou de ideia?” Fecho os olhos e respiro fundo. Eu pedi a ela que não tocasse neste assunto. Eu não posso ir lá. E ela está certa. Nós não estamos na mesma página. Nossos gostos são diferentes. Eu não vou seguir pelo caminho clássico. No entanto, mesmo sabendo disso, o pensamento de sua parceria com outra pessoa, alguém como Bryce, faz todas as células dentro de mim se agitarem. “Não vai haver nenhuma mudança.” A luta deixa Bonnie e ela se inclina para frente. “Então me ajude.” Ela passa a mão sobre a testa. Parece cansada. Uma respiração profunda segue. “Mais uma vez, você ainda só quer fazer sua parte eletronicamente?” “Sim”, digo com os dentes cerrados. Eu vejo a decepção se estabelecer em seus olhos. “Cromwell...”, ela balança a cabeça. “O jeito que você é capaz de tocar...”, ela estende a mão sobre a mesa e passa os dedos sobre os meus. Seus dedos são tão macios. Sua voz é calma. Relaxante. Triste. “Eu não sei porque você não quer tocar. Mas o que ouvi na outra noite...” Lágrimas surgem em seus olhos. Ela coloca a mão livre sobre o coração. “Aquilo mexeu comigo. Muito.” Meu coração bate descompassado. Não consigo me acalmar com ela me tocando. Com ela me contando como minha música a fez

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sentir. Eu a vi. Vi a esperança em seu rosto bonito. Ela espera que eu converse com ela. Que eu diga sim para a ideia de compor com instrumentos orquestrais. Então o rosto do meu pai invade minha cabeça e eu fico congelado como um galho de árvore quando uma nevasca o atinge. Raiva impregna meus músculos e afasto minha mão rapidamente, rolando meu piercing dentro da boca apenas para não explodir. “Não vai rolar.” “Cromwell, por que...?” “Eu disse que não vai rolar!” Bonnie congela. Olho ao redor do café e vejo todos os olhos em mim. Inclino-me mais perto. “Pedi para você esquecer o que viu e não mencionar aquilo.” Amasso um guardanapo em minha mão. “Por que você não pode simplesmente fazer o que peço?” Eu pretendia que minha voz fosse dura, para assustá-la. Em vez disso, saiu quebrada e intensa. “Porque nunca ouvi ninguém tão talentoso em toda a minha vida, Cromwell.” Cada uma de suas palavras suavemente faladas me atingem como um míssil, tentando derrubar minha parede protetora. “Esqueça isso”, digo. Sinto minha garganta apertada, a coleira puxando com força. O som de uma garganta sendo limpa quebra a tensão. Mantenho meus olhos em Bonnie, irritado, quando Sam, o idiota com a jarra de café, pergunta, “Tudo bem, Bonn?” “Sim”, ela diz e sorri. Meu estômago se aperta novamente. É a segunda vez que vejo seu sorriso. E nenhuma vez foi para mim. Isso me incomoda mais do que deveria.

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Posso sentir que Sam está me encarando. “Você vai ao concerto neste fim de semana?”, ele pergunta. “Sim”, ela diz “E você?” “Preciso trabalhar. Ah, antes que eu esqueça, Harvey queria falar com você.” Bonnie se levanta e segue Sam. Não tenho ideia de quem seja Harvey. Termino o café e olho para a folha de papel manuscrita que ainda está na mesa, olhando para mim. Minha mão bate na mesa enquanto olho de volta para ela. Dou uma espiada ao redor da lanchonete e vejo Bonnie perto de um escritório, conversando. Luto contra a necessidade de pegar a caneta, mas no final a necessidade de alterar a composição me derrota. Risco as anotações que ela havia escrito e as substituo por outras que fluirão melhor. Quando termino, olho para o papel e rapidamente me levanto. Meu coração bate rápido demais no meu peito. Não deveria ter tocado naquilo. Mas precisava escrevê-las. As notas, as melodias. Tudo. Preciso ir embora. Pretendia levar o papel comigo e jogá-lo fora na saída. “Merda”, xingo quando atravesso a porta e percebo que deixei a partitura para trás. Olho para a esquerda e para a direita, decidindo para onde ir. Mas então uma mensagem chega ao meu telefone. SUZY: Você está por perto agora? Minha colega de quarto vai ficar fora o dia todo. Através da janela, vejo Bonnie voltar para a mesa e pegar o papel manuscrito. Meu coração está na minha boca enquanto seus olhos examinam as páginas. Sua mão segue para o peito, fazendo o meu se apertar em resposta. Então ela levanta os olhos, examinando a lanchonete. Sei que ela está procurando por

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mim. Meu pulso acelera e meus pés coçam para voltar e trabalhar com ela. Mostrar a ela o que a música dela inspirou em mim. Mostrar a ela como interpretaria aquela peça. Quais instrumentos usaria. Como faria a regência. Mas a corrente que me prende, aquela que me controla, que me impede de compartilhar qualquer coisa, fica mais apertada, mantendo-me imóvel. Mantendo toda a minha raiva trancada lá dentro. Meu telefone toca novamente. SUZY: ??? Olho para Bonnie e vejo seu lindo rosto. Vejo seus olhos absorvendo as notas que escrevi. E eu sei que é ela que está desafiando as paredes que mantenho em volta pelos últimos três anos. E preciso esquecer isso, ou não tenho certeza se serei capaz de lidar com o que pode escapar dali. EU: Preciso de quinze minutos. Enfio meu celular no bolso, bloqueando tudo e vou para o campus antes que Bonnie me encontre novamente. Forço a dormência a assumir o controle e afasto Bonnie do meu cérebro. Mas apenas alguns metros depois, na rua , vejo um cartaz para o concerto que vai acontecer no parque neste fim de semana. Filarmônica da Carolina do Sul. Minha mandíbula se aperta quando sinto necessidade de ir e assistir. E Bonnie estará lá. Isso é motivo suficiente para não ir. Preciso mantê-la à distância. Apenas trabalhar com ela no projeto. Ela já viu muito de mim. Conhece muitos dos meus segredos.

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Eu só preciso voltar para minhas mixagens. E minhas paredes bem altas que mantém todo mundo longe. Isso é tudo que preciso fazer.

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“Você não se inscreveu.” Sento no escritório de Lewis. Um piano de cauda está no canto. Um violino vintage com sua madeira envelhecida e rachada e seu frágil cavalete está em exibição em sua parede. Uma guitarra está em um suporte e o violoncelo jaz de lado contra a parede oposta. Afasto meus olhos quando uma sensação de lar flui através de mim. Olho para todas as fotos dele regendo e percebo o quão jovem ele era quando começou. Eu me pergunto se ele sempre amou a música. Se também estava presente em cada respiração que ele dava. “Cromwell”, diz ele, chamando minha atenção. “Eu não preciso de sessões individuais.” Um músculo se contrai em sua bochecha. Ele apoia os braços na mesa. “Cromwell, eu sei que você tem se concentrado em música digital por um tempo agora. Se é nisso que você quer focar, tudo bem. Vamos nos concentrar nisso.” “Você eletrônica?”

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sabe

como

me

ensinar coisas

sobre

música


Lewis estreita os olhos para mim. “Não. Mas eu conheço música. Posso dizer o que funciona e o que não dá certo.” Ele faz uma pausa, avaliando-me. “Ou podemos trabalhar em alguns dos seus antigos pontos fortes.” Ele aponta para os instrumentos. “Piano. Violino.” Ele solta uma risada. “Qualquer coisa, mesmo.” “Não, obrigado”, eu murmuro. Verifico a hora no relógio. Quase fim de semana. Assim que essa reunião terminar, uma garrafa de Jack espera por mim. Esta semana me destruiu e estou pronto para esquecer isso. Pronto para abraçar o entorpecimento que vem ao ser destruído. “Você ainda compõe?” Descanso minhas mãos atrás da minha cabeça. “Não.” A cabeça de Lewis pende para o lado. “Não acredito em você.” Cada parte de mim fica tensa. “Acredite no que você quiser”, respondo. “O que eu quero dizer é que não acho que você seria capaz de se impedir de compor.” Ele bate na sua cabeça. “Por mais que a gente queira, isso nunca se apaga.” Ele coloca as mãos sobre a mesa. “Mesmo quando eu estava mais confuso, com a bebida, as drogas, eu ainda compunha.” Ele sorri, mas não há nada de feliz ou engraçado nisso. Em vez disso, parece triste. Parece como eu me sinto por dentro. “Eu saí da reabilitação com uma sinfonia inteira.” Ele deixa de sorrir com falsidade. “Mesmo que algo faça você odiar a música, seja lá o que for, muitas vezes pode servir como catalisador para o seu próximo grande trabalho.” “Profundo”, murmuro. Lewis fica desanimado. Estou sendo um idiota novamente. Mas tudo esta semana foi demais. Estou cansado e ferido.

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Só preciso de uma maldita pausa. É engraçado. Não sei se por causa de Lewis, mas naquele momento penso em meu pai, e em como este meu comportamento em relação a alguém quebraria seu coração. Ele não me criou assim. Boas maneiras não custam nada, filho. Seja sempre gentil com aqueles que querem ajudar. Mas ele não está mais aqui. E eu estou lidando com esse fato da única maneira que conheço. Verifico o relógio novamente. “Posso ir agora?” Lewis olha para o relógio e suspira. Quando me levanto, ele diz, “Não estou tentando lhe dar conselhos, Cromwell. Eu só quero que você perceba o dom que recebeu.” Faço uma zombaria na direção dele. Eu não posso lidar com mais uma pessoa me falando sobre meu talento. Já é difícil o suficiente afastá-lo sem que Lewis e Bonnie estejam abanando as chamas que tanto tento manter extintas. “Seu pai viu”, diz ele quando minha mão alcança a maçaneta. Viro a cabeça para encará-lo e, sem nenhuma luta mais, as comportas se abrem. “Se você o mencionar novamente, vou parar de vir. Estou tão perto de abandonar esse buraco de qualquer maneira.” Lewis levanta as mãos. “Bem. Vou deixar de mencioná-lo.” Ele levanta de sua cadeira e vem na minha direção. Ele é bem alto. Para a poucos metros de distância. “Mas quanto a abandonar tudo aqui. Você não vai fazer isso.”

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Eu paro na porta, ombros para trás. “Sim? E o que você sabe...” “O suficiente para saber que mesmo que você esteja carregando um pedaço do tamanho do Alasca sobre os ombros agora, você não vai desistir.” Ele aponta para a sala. “Esta é a sua arena. Você está muito chateado e magoado para conseguir aceitar isso agora.” Ele encolhe os ombros. “Você entende, mas está lutando contra.” O olhar de sabedoria em seus olhos quase me deixa de joelhos. “Você é um bom DJ, Sr. Dean. Deus sabe que isso paga bem hoje em dia e sem dúvida verei seu nome estampado no futuro. Mas com o dom que você tem, você pode ser uma lenda neste palco aqui.” Ele aponta para a foto dele no Albert Hall. Ele senta. “Suponho que a decisão é sua.” Olho para a foto por um segundo, Lewis em um smoking regendo a orquestra que está tocando a música que ele havia criado. Sinto a bola de chumbo no meu estômago, a que tentou atravessar minhas barreiras. O que quer que vive dentro de mim, que me faz ser assim com a música, está tentando sair. Está ficando cada vez mais difícil dominar. “Espero que seja no último caminho que você se encontra, Cromwell. Deus sabe que eu sei como é viver uma vida com esse tipo de arrependimento.” Ele balança a mão e liga o laptop. “Pode ir. Tenho composições para analisar.” Ele olha para mim por cima da tela. “Estou esperando o esboço do seu trabalho com a Srta. Farraday. Não vou esperar para sempre.” Idiota, penso enquanto bato a porta do escritório dele. Estou prestes a virar à esquerda para a saída principal, mas minha cabeça vira para a direita, na direção do som de uma orquestra de cordas. Caminho pelo corredor. É uma saída alternativa do prédio. Quero acreditar nisso quando paro na porta da sala de

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ensaios da orquestra. Inclino-me contra o batente da porta, braços cruzados. Quando o violoncelo assume a liderança, baixo minhas barreiras por um segundo e deixo o som passar por mim. Uma paz que não sentia há anos me domina. Fico ouvindo enquanto eles tocam a Pachelbel’s Canon in D. Não é a parte mais difícil, e eles não são os melhores. Mas isso não importa. É o fato do que está sendo tocado que importa. E estou ouvindo. Vejo hexágonos magenta e rosa-salmão enquanto o violoncelo toca. Então, explosões de pêssego e creme, cintilam fragmentos de malva e rosa quando os violinos entram tocando a melodia. Sinto sabor floral na minha língua e sinto meu peito se apertar, meu íntimo se enche com a luz enquanto as cordas dançam e cantam. Quando a peça termina, abro meus olhos, sem fôlego e me afasto do batente da porta. Olho para a minha esquerda. Lewis está à sua porta, observando-me. Uma onda de raiva me ilumina por ele estar ali, observando-me e eu corro para fora do prédio e caminho até meu dormitório. No minuto em que entro no meu quarto, o cheiro de tinta me atinge o rosto. “Merda.” Jogo minha bolsa na cama. Easton se vira da tela em que está pintando. “Top of the morning to ya.3” Balanço a cabeça. “Idiota. Eu não sou irlandês. Sou inglês.” Deito na minha cama, mas no minuto que faço isso, fico inquieto. O bastardo do Lewis mexeu com minha cabeça. Bonnie Farraday e sua mão no peito enquanto lia minha música estão gravados em

Bom dia! – saudação deve ser considerada apócrifa do discurso irlandês e é um estereótipo. 3

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meu cérebro. Mas não tanto quanto a impressão da mão dela no meu braço, na última sexta à noite. Os dois estão me pressionando ao ponto de ruptura, e não consigo ficar parado. “Há alguma diferença?” Reviro os olhos e pulo da cama. Olho para a pintura que ele fez. Há cor em todo lugar. É ofuscante. Como Jackson Pollock drogado. “Jesus, East. Que diabos é isso?” Ele ri e larga as tintas. Está recoberto. Abre bem os braços. “Sou eu! Como estou me sentindo neste belo dia de sol.” Ele chega mais perto. “É fim de semana, Crom. O mundo é nosso!” “Fale mais baixo.” Olho para a minha mesa de mixagem e percebo que sinto um enorme desejo de criar novas mixagens agora mesmo. “Vamos buscar comida. Preciso sair deste campus.” “Eu gosto do seu estilo.” Saímos do dormitório e nos dirigimos para a Main Street. Claro. “Sua mãe está mandando e-mails de novo”, diz Easton enquanto seguimos para o Wood Knocks. Eu olho para ele, sobrancelhas franzidas. Ele ergue as mãos. “Você deixou seu laptop aberto. Simplesmente continuaram chegando notificações toda vez que ela mandava uma mensagem para você.” “Ótimo”, murmuro. “Tem um novo padrasto, hein?” Dou a Easton um olhar de lado. “Li isso no assunto da mensagem.” Ele sorri. “O aniversário dele é perto do Natal. Ela quer saber se você vai para casa para comemorar.” Paro de andar e olho para Easton. “Tudo bem!” Ele diz. “Isso é tudo que li. Prometo.” Ele pisca para mim e sorri.

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A resposta para isso vai ser um enorme não. Não vou voltar para casa no Natal. Só de pensar em seu novo marido na casa do meu pai, fico despedaçado. Vou ficar longe. Passamos pelo parque. Há luzes e pessoas por toda parte. Meus olhos se estreitam enquanto tento descobrir o que está acontecendo. “O concerto da orquestra, ou seja lá o que for, é hoje à noite”, diz Easton. Ouço o som distante de instrumentos sendo aquecidos. “Bonnie vem, eu acho. Não é bem sua praia, hein cara? Todas essas coisas clássicas.” Ele balança a cabeça. “Como alguém consegue sentar para assistir esse tipo de coisa é algo que não consigo compreender.” Bonnie. Não a vi ou ouvi falar dela a semana toda. Ela faltou aula nos últimos dias. Foi... estranho não a ver algumas fileiras abaixo. A sala quase parece vazia sem ela. Ela não me mandou mensagens também. Não para me encontrar com ela. Nenhuma perguntando se eu estou bem. Eu... não gosto disso. “Ele é um idiota?”, Easton pergunta quando entramos no bar. Levanto minha sobrancelha, confuso. Estava ocupado e concentrado em pensar em Bonnie.

muito

“O padrasto.” Nós sentamos. O garçom acena para nós. “Duas Coronas”, diz Easton, e depois acrescenta. “E duas doses de tequila, Chris.” Easton se vira para mim, esperando minha resposta. “Não o conheço bem. Nunca me esforcei o suficiente. Saí de casa antes que ela o conhecesse.” Easton assente, mas olha para mim como

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se estivesse tentando descobrir alguma coisa. “E sua mãe. Você não se dá bem também?” Ele balança a cabeça. “Minha mãe não suportaria isso. Ela entraria em nosso dormitório e exigiria que eu falasse com ela.” Ele ri. “Ela pode ser difícil de derrotar.” “Eu costumava me dar bem com ela.” Faço uma pausa enquanto as bebidas chegam. Escolho primeiro a tequila. Tomo uma, dispensando o limão e o sal. “Já chega.” Odeio falar sobre a minha família. Inferno, eu odeio falar, ponto final. “E o seu pa...” “O que há de errado com Bonnie?”, interrompo Easton antes que ele possa concluir essa pergunta. Meu coração ainda está acelerado só de pensar em ter que responder. Ele parece não notar. Toma um gole da Corona e diz, “Gripe. Ela voltou para casa e ficou lá durante a semana então minha mãe pode cuidar dela.” Ele ri. “Vou dizer a ela que você se importa.” “Não se incomode”, retruco. Mas por dentro, algo em mim relaxa. Ela estava gripada. O que significa que voltaria para a faculdade em breve. O rosto de Easton se ilumina. “Eu acho hilário que meu colega de quarto e minha irmã se odeiem.” Bonnie me odeia? Não percebo que estou franzindo a testa até que ele diz, “Não me diga que isso feriu seus sentimentos?” Ele dá um tapa na mesa. “Merda! Encontramos sua criptonita. Uma garota que não gosta de você é o que te deixa louco.” “Nem um pouco.” Espero até que ele se acalme. Até que eu me acalme. Bonnie não gosta de mim... “Precisamos trabalhar juntos para a aula de composição. É só isso.” Quero mudar de assunto. Rapidamente.

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“Está bem, está bem. Só estou brincando com você.” Ele se inclina para frente, braços sobre a mesa. Está me observando. Não, estudando-me. “Posso ver porque vocês entram em choque.” Ele acena para o garçom pedindo mais bebidas. “Você vai explicar, ou apenas pretende deixar isso pendurado no ar?” Easton sorri, mudando de posição para se sentir mais confortável. “Bonnie sempre foi uma empreendedora. Desde que éramos crianças, ela organizava as coisas. Eventos, joguinhos idiotas para as crianças da vizinhança.” Ele parece perdido nas memórias por um segundo. “Eu sempre fui aquele que se metia em apuros. O que dava trabalho aos meus pais.” “Nada mudou então.” “Verdade.” Easton bate de leve a minha Corona com a dele. E suspira. “Então ela se apaixonou por piano. E foi isso.” Ele pressiona o dedo indicador e o polegar juntos. “Ela foi fisgada. Nunca ia a lugar nenhum sem seu pequeno teclado.” Ele solta uma risada. “Deu-me uma dor de cabeça por cerca de dois anos antes que ela ficasse boa o suficiente para que eu pudesse realmente tolerar quando ela estava tocando. Então era recital após recital.” Seu sorriso desaparece. Ele fica quieto. Muito quieto. O silêncio me deixa desconfortável. “Ela é boa pessoa. É minha irmã. Mas ela é mais que isso. Ela é minha melhor amiga. Porra, é minha bússola moral. Ela me mantém na linha.” Ele toma o resto de sua Corona e empurra a garrafa vazia para o lado. “Bonnie é a melhor de nós dois. Não pense que alguém duvida disso. Estaria perdido sem ela.” Ficamos quietos. Então Easton olha para mim e sorri. “Você, no entanto, está com um humor de merda o tempo todo. Nunca faz nada a tempo. Dificilmente fala. Guarda para si mesmo. E pior, você toca música eletrônica. Minha irmã,

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que ama música clássica e música popular, está fazendo dupla com um cara que não toca nada além de seu laptop e bateria eletrônica.” Ele ri alto. Olho para a minha Corona, pensando no quão errado ele está a meu respeito. E está errado sobre Bonnie. Ela me viu. O verdadeiro eu. Aquele que sou lá no fundo. E ela não gostou de mim? Sei que sou um idiota às vezes. Mas ela me viu. Não estou bem com o fato dela não gostar de mim. Porque rapidamente estou percebendo que gosto dela. As portas do bar se abrem, arrancando-me dos meus pensamentos, e algumas garotas entram. Os olhos de Easton se fixam nelas imediatamente. “Sim”, diz ele em voz baixa, brilho em seus olhos. “Alex está aqui.” Com a sugestão, uma garota de cabelo vermelho vem até a mesa e para diante de Easton. “Easton Farraday. Gosto de ver você aqui.” Ela sorri e eu aproveito o momento para sair. Pego o resto da minha Corona, tomo outra dose de tequila e coloco uma nova garrafa de cerveja no bolso do meu jeans rasgado. Coloco a tampa de volta para não derramar em qualquer lugar. “Você vai embora?”, Easton pergunta, um braço já em torno da cintura da ruiva. Ele inclina a cabeça na direção das duas amigas dela. Uma delas, uma loira, já está me observando, avaliando. “Eu vou lá fora.” Levanto meu maço de cigarros. Easton assente, então leva a ruiva ao bar. Não olho para as amigas dela quando saio para a rua. Acendo um cigarro e começo

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a andar. Eu não vou voltar. Não estou sentindo necessidade de festejar esta noite. Estou confuso. Não quero ficar aqui, mas também não quero ir embora. Quero sair da minha pele, ser apenas outra pessoa por um tempo. Estou cansado de ser eu mesmo. A rua está movimentada, as pessoas saíram para jantar e beber. Eu mantenho minha cabeça abaixada quando passo por alguns dos alunos da faculdade. Pessoas mais velhas estão andando em direção ao parque. Quando me vejo nos limites do parque, olho para dentro através das grades. Centenas de pessoas estão sentadas no gramado, a maioria em cobertores de piquenique. Olho para o que todos estão encarando. O que parece ser uma orquestra de cinquenta integrantes está no centro de um palco. Uma explosão de aplausos ecoa pelo parque. Olho mais, tentando ver através das árvores que bloqueiam minha visão. Consigo distinguir o maestro andando para o palco. Meu coração dispara quando ele levanta a batuta e sinaliza para a orquestra se preparar. Arcos repousam sobre cordas, palhetas são levadas à boca e a pianista põe as mãos nas teclas. Um segundo depois, eles começam, em perfeita harmonia. A Quinta Sinfonia de Beethoven começa a tocar. Eu me aproximo das grades. Sei que devo ir embora. Eu preciso ir embora. Mas ao invés disso, vejo-me andando até a entrada. Há uma bilheteria, uma placa de “Esgotado” enroscada no portão principal. Vá para casa, Cromwell. Obrigo-me a atravessar a pista ao lado do parque e de volta ao campus. Mas a cada novo movimento, as cores ficam mais brilhantes e ofuscantes em minha mente. Paro de repente e fecho meus olhos. Apoiando-me contra

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a cerca, pressiono as palmas das mãos sobre os olhos. Mas as cores não desaparecem. Os vermelhos dançam em triângulos, cintilando e se transformando em verdes-escuros. Amarelos brilhantes se movem e viram pêssego; trechos compridos de laranjas como o pôr-do-sol explodem no mais claro dos marrons. Deixo cair minhas mãos e meus ombros cedem em derrota. Eu me viro e olho através da grade. O palco está à distância agora. Procuro seguranças, mas não encontro nenhum. Não há ninguém à vista. Prendo meus pés na cerca e subo. Pulo no chão do outro lado, os ramos dos arbustos e árvores arranhando minha pele. A escuridão que está começando, mantém-me escondido enquanto caminho para a área principal do parque. Deslizo através de uma abertura nas árvores e começo a andar em direção ao local onde a música está tocando. A cada passo, as cores ficam mais brilhantes, até que faço o que não fiz em três anos, o que agora estou cansado demais para lutar contra... Eu as liberto. Arranco a coleira que prende e deixo-as voar. Minhas mãos coçam ao meu lado enquanto observo a música, os olhos fechados, apenas assimilando. Quando o quarto movimento chega ao fim, abro os olhos e caminho até a beira da plateia. Vejo uma árvore à minha esquerda e me aproximo para sentar nela. Olho para o palco quando a próxima peça começa... e a poucos metros de mim está uma morena familiar. Meu coração se acelera. Depois de uma semana sem vê-la, as cores rosa-claro e lilás que a cercam parecem ainda mais brilhantes. Mais vivas.

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Eu não consigo afastar meus olhos. Bonnie tem um cobertor em volta dos ombros e ela está sentada sobre outro, sozinha. Isso me faz lembrar o cobertor que ela colocou em mim enquanto eu dormia naquela noite em Brighton. Ela me cobriu com um cobertor, apesar de eu ter sido um completo idiota com ela. Meu coração aperta novamente. Balanço sobre meus pés para afastar o sentimento. Estou sentindo demais. Os joelhos de Bonnie estão curvados, os braços apoiados em cima. Mesmo daqui, posso ver que os olhos dela estão fixos nos músicos. Ela não está perdendo uma única nota. Fico observando-a enquanto eles trocam para um dos Concertos Brandenburg de Bach. Minhas mãos se apertam ao meu lado. Então, quando ela move a mão e limpa uma lágrima de sua bochecha, relaxo e acabo indo até onde ela está sentada. Caio na grama ao seu lado. Posso sentir seus olhos em mim no minuto em que ela consegue afastá-los da orquestra. Sento-me ereto, com os braços sobre as pernas. Ela está me observando, uma expressão de surpresa no rosto. Meus dentes se juntam quando meu pulso acelera mais. Puxo minha Corona do bolso e tomo um gole. Eu ainda posso sentir o olhar dela, então encontro seus olhos. “Farraday.” Bonnie pisca, então seus olhos voltam para a orquestra. Quando Bach termina, o intervalo inicia. A orquestra deixa o palco e as pessoas se dirigem para os caminhões de comida e bebida. Deito na grama, descansando em meus cotovelos. Não

TILLIE COLE


tenho ideia do que estou fazendo aqui. Easton acabou de me dizer que Bonnie nem gosta de mim. E sei que isso é verdade. Eu não deveria me importar se ela não gosta de mim. Deveria encorajá-la, na verdade. Mas não consegui tirar isso de minha cabeça. Ela me encara. Ela sabe que sei tocar. Não preciso fingir com ela. “Eu não posso acreditar que você está aqui.” A voz de Bonnie vacila. Está nervosa. Posso ver no rosto dela. Nos olhos castanhos. Também não posso acreditar que estou aqui. Quando não respondo, Bonnie se ocupa, puxando a cesta que está ao lado dela. Ela está usando um blusão cor-de-rosa — ou “suéter”, como ela provavelmente chamaria — e jeans. Seu cobertor marrom agora cobre as pernas. Ela pega um pacote de doces, abre e começa a mastigar um longo pedaço vermelho. Coloco um cigarro nos meus lábios e vou acender. Sua mão desce no meu braço. “Por favor, não, Cromwell.” Olho para o meu braço. Ela está segurando no mesmo lugar que segurou aquela noite na sala de ensaio. Quando me ouviu. Quando me viu tocando os instrumentos. Quando viu meu íntimo se quebrando. Olho para ela. Suas bochechas estão coradas e seus olhos estão arregalados. Eu me pergunto se ela está se lembrando da mesma coisa. Sustento seu olhar, tentando ler o que está em seus olhos. Mas quando não consigo, abaixo meu cigarro e coloco de volta no bolso. Então ela finalmente expira. “Obrigada.” E esfrega o peito. Eu me pergunto se o coração dela está batendo rapidamente também. Não sei o que dizer perto dela. A última vez que a vi, vacilei e alterei sua composição. Eu fui sucinto com ela. Tentei afastá-la

TILLIE COLE


da minha cabeça. Mas não importa o quanto eu tente, ela nunca vai desaparecer. Bonnie olha para todos os lugares, menos para mim. “Você esteve doente”, eu falo. Soa mais como uma explicação do que como uma pergunta. Ela deve pensar isso também, enquanto olha para mim e então sorri. Aquele sorriso faz coisas engraçadas no meu íntimo. Provoca contrações apertadas. “Eu estive doente.” Sento e olho para a multidão, tentando afastar a sensação. “Você sentiu minha falta?” Eu me viro para Bonnie, primeiro sem saber por que diabos ela perguntou isso. E em segundo lugar, sem saber o que diabos responder. Ela está sorrindo. Quando pisco, confuso, ela começa a rir. Coloca a mão no meu antebraço. “Eu só estou brincando, Cromwell.” Ela acena com a mão em um gesto de calma. “Você pode respirar agora.” Termino minha Corona, mas tudo o que ouço é a risada dela. O rosa de sua risada. Isso e o fato de ter sido destinada a mim. Nunca pensei que ela sorriria para mim desse jeito. Então, novamente, nunca pensei que estaria aqui esta noite. Meu corpo está tenso enquanto espero que ela mencione a sala de ensaio. Que faça perguntas. Que pressione sobre o nosso projeto de composição. Mas ela não faz nada disso. “Você quer?”, Bonnie oferece um pedaço de alcaçuz. Balanço a cabeça. “O que? Você não gosta de doces?” “Não dos doces americanos, não gosto.”

TILLIE COLE


“O que?”, ela diz com uma risada única. Volto a olhar para o palco, para olhar a organização. Sempre fiz isso. Bonnie puxa meu braço, forçando-me a olhar para ela. “Não, eu preciso ouvir isso. Você não gosta de doces americanos?” Eu balanço a cabeça. “Por quê?” “São uma merda”, digo honestamente. Por um minuto, a expressão de Bonnie é de choque. Até que ela deixa cair o queixo e começa a rir. Puxa a caixa de doce que está segurando e a prende junto ao peito. Aquela sensação volta no meu estômago. Como uma facada, que começa a se mover para meu peito até que toma todo meu corpo. Ela enxuga os olhos. Quando consegue falar novamente, pergunta, “Ok, então, que doce britânico é bom?” “Apenas, qualquer um.” Balanço a cabeça com a lembrança da primeira vez que experimentei chocolate americano. Foi horrível. Não como isso desde então. Estou esperando uma remessa de coisas boas da minha mãe. Bonnie assente. “Preciso confessar, experimentei quando estive lá no último verão. E concordo, é incrível.” A orquestra retorna a seus assentos. As pessoas começam a voltar aos seus lugares na grama. Bonnie observa os músicos com muita atenção, antes de desviar o olhar para mim. “Então, você realmente gosta de música clássica?” Congelo. “Eu sei que não estamos autorizados a falar sobre isso. Sobre você. Naquela noite.” Simpatia se espalha em seu rosto. “E eu preciso respeitar isso.” Ela encolhe os ombros. “Mas você está aqui. Em um concerto de música clássica.”

TILLIE COLE


Estava removendo o rótulo da Corona, mas encontro seus olhos. Não falo, porque a resposta para a pergunta dela é óbvia. Estou aqui. Isso diz tudo. Ela deve ter percebido que não quero responder, quando aponta para a orquestra. “Eles são incríveis. Já os assisti tantas vezes.” Eles são bons. Bem, em boa parte. “Então”, ela diz. “O que?” Bonnie respira fundo. “Você gosta de música clássica, não gosta? Por agora... depois de tudo, você pode admitir isso para mim.” Ouço o apelo em sua voz. Um pedido para eu simplesmente fazer esta concessão a ela. O Passeio das Valquírias, de Wagner, começa na orquestra, as cores correndo pela minha cabeça como a pintura que Easton havia espalhado sobre a tela. Tento afastá-las da minha cabeça. Mas descubro, sentado aqui com Bonnie, que elas não vão a lugar nenhum. Ela as faz voar mais livres de alguma forma. “Cromwell...” “Sim”, digo, exasperado. Eu me endireito. “Eu gosto disso.” Uma longa respiração escapa de mim quando faço esta admissão. “Gosto disso.” A segunda confissão é mais para mim do que para ela. Olho para a multidão que assiste a orquestra, para os músicos no palco e me sinto completamente em casa. Faz muito tempo desde que senti isso. E quando olho para o maestro, vejome ocupando seu lugar. Lembro como era vestir um smoking, ouvir a orquestra tocar a sua composição para você.

TILLIE COLE


Não tem nada igual. “Não fui capaz de tirar sua música da minha cabeça”, diz Bonnie, puxando-me da orquestra e dos meus pensamentos. Encontro seus olhos e sinto ansiedade com o fato de que ela está falando sobre este assunto. “As poucas notas que você deixou na mesa na semana passada no Jefferson Coffee.” Meu estômago dói. “Cromwell”, ela sussurra. Fico surpreso por ter ouvido a voz dela sobre a música. Mas ouvi. Claro que sim. É azul-violeta. Minhas mãos se fecham em punhos. Eu deveria apenas me levantar e ir embora. Cristo sabe que já fiz isso antes. Mas não faço isso. Fico ali sentado e encontro seus olhos. Bonnie engole em seco. “Sei que você não quer que eu mencione isso.” Ela balança a cabeça. “Mas foi...” ela faz uma pausa, procurando as palavras, assim que a seção de cordas assume a liderança. Não dou a mínima para os violinos, os violoncelos e os contrabaixos agora; eu quero saber o que vai sair da boca dela. “Gostei, Cromwell.” Ela sorri. “Mais do que gostei.” Balança a cabeça. “Como você... você simplesmente pensou naquilo imediatamente?” Engulo e coloco minha mão no bolso para pegar o cigarro. Pego um e acendo. Vejo um lampejo de desapontamento em Bonnie, mas fico de pé antes que ela possa dizer qualquer outra coisa para mim. Vou até a árvore e me inclino novamente no tronco. Só assisto a orquestra pela metade. Bonnie segura o resto da minha atenção. Seu foco está de volta nos músicos, mas seu corpo magro está desanimado. Ela está desanimada. E foi minha relutância em falar que a deixou assim. Ela mastiga seu alcaçuz, mas posso ver que não está mais perdida na música.

TILLIE COLE


Roubei essa alegria. Penso em como ela parecia quando cheguei. Estava encantada com a orquestra. Eu me pergunto se já fui assim. Apenas tão envolvido nisso tudo. Sem me importar com mais nada. Sem deixar que nada mais entrasse em minha mente enquanto a música tocava. Sei que sim. Fui assim uma vez. Antes de tudo dar errado e essa merda clássica se tornar a única coisa que quero desprezar. Mas enquanto estou aqui, deixando a nicotina que tanto preciso encher meus pulmões, sei que no fundo nunca serei capaz. Por três anos estive lutando uma batalha perdida. Você nasceu para fazer isso, Cromwell. É quem você nasceu para ser. Você tem mais talento em seu dedo mindinho do que qualquer pessoa que conheço. Incluindo a mim. Minha garganta fica obstruída quando ouço a voz do meu pai na minha cabeça. Quando olho para o cigarro, minha mão treme. Dou uma última tragada, tentando me controlar. Mas o habitual movimento de raiva e devastação, tão profundo que não consigo respirar, gira no meu estômago, como sempre acontece quando penso nele. Sempre que ouço essa música. Sempre que estou perto de Bonnie. Eu não sei o que a faz tão diferente. Jogo meu cigarro no chão. Sinto vontade de fazer algo quando o pianista toca o solo. Mas meus pés estão presos ao chão. Os sons das teclas me fazem ouvir. Fazem com que eu assista. Mas tudo o que vejo é a mim mesmo naquele palco. Eu, tocando a peça que nunca poderei terminar. Aquela peça que vem me assombrado há muito tempo.

TILLIE COLE


A que nunca pude ver na minha cabeça. As cores mudas e perdidas na escuridão. Aquela que fez eu me afastar do meu maior amor. “Cromwell?”, a voz de Bonnie interrompe o ruído branco que encheu minha cabeça, o piano que estava bombardeando meu cérebro como as bombas que caíram sobre meu pai durante a maior parte de sua vida no exército. Fecho os olhos, cobrindo-os novamente. Uma mão segura meu pulso. “Cromwell?”, Bonnie puxa meus braços para baixo. Seus grandes olhos castanhos estão me encarando. “Você está bem?” Eu preciso fugir. Preciso sair, ir embora, quando... O pianista assume novamente. Só que desta vez é... “Concerto para Piano No. 6”, diz Bonnie. “Mozart.” Engulo em seco. É a minha favorita, filho. Das que você toca e que não são suas, esta é minha peça favorita.. Olho da esquerda e para a direita, perdido. A mão de Bonnie aperta meu pulso. Quando olho para os dedos dela na minha pele tatuada, percebo que ela não soltou. “Venha e sente-se.” Seu toque sempre parece interromper minha escuridão. E desta vez deixo acontecer. Não luto. Não fujo. Eu fico. E não permito me preocupar com isso. Bonnie me leva de volta para onde estávamos sentados. Uma garrafa de água aparece na minha mão. Eu bebo, nem mesmo pensando em mais nada. Quando Bonnie pega a garrafa vazia da minha mão, entrega-me um longo pedaço de alcaçuz vermelho. Sorrio quando encontro seus olhos. Deito na grama, descansando em meus cotovelos. A orquestra começa Noturno de Chopin em Mi bemol Maior, a noite chegando ao fim.

TILLIE COLE


Nós nos sentamos em silêncio. Mas quando dou uma mordida no alcaçuz, mastigo o doce ruim e murmuro, “Ainda tem gosto de merda.” Bonnie ri. E eu finalmente sou capaz de respirar.

TILLIE COLE


Capítulo 10 Bonnie

Não sei o que pensar quando me sento ao lado de Cromwell. O jeito que ele parece enquanto fuma ao lado da árvore. Como se estivesse preso em algum tipo de pesadelo. Ele está tremendo. Seu rosto está pálido enquanto ele olha para a pianista como se ela fosse um fantasma. Parece como ele estava naquela noite na sala de ensaio. O flash de medo que vi quando ele olhou para o meu trabalho no café. Como se apenas o som, a visão e a leitura de notas musicais o levassem a algum horror que ele não quer enfrentar. É nessas horas que ele age mais cruel. Mais duro. Mas também é quando meu coração grita mais por ele. Porque eu entendo o que o medo pode fazer com uma pessoa. Posso ver que algo o mantém prisioneiro. Mas simplesmente não sei o quê. Eu não sei como ajudar. Quando a orquestra termina, fico de pé e aplaudo com tanto entusiasmo quanto posso reunir. Cromwell fica sentado na grama. Meu coração bate alto no meu peito enquanto olho para ele. Ele está me observando. Seus olhos azuis estão fixos em mim. Suas tatuagens são como pinturas premiadas em seus braços nus. Seus piercings brilham nas luzes do palco. Sua

TILLIE COLE


musculatura e altura parecem absorver toda a grama e sua presença consome todo o ar na vizinhança. Eu viro minha cabeça, focando na orquestra recolhendo seus arcos. Posso sentir seus olhos ainda em mim. Isso faz arrepios nervosos percorrerem minha espinha. Porque toda vez que vejo Cromwell, toda vez que conversamos, ouço o garoto quebrado em sua voz. E o vejo debruçado sobre o piano, chorando. E ouço a música que ele está tocando tão perfeitamente circulando em volta do meu cérebro. É difícil desgostar de uma pessoa quando você sabe que ela está com dor. Quando a orquestra sai do palco, as pessoas começam a se dispersar. Eu me inclino para pegar minhas coisas. Arrumo tudo na minha cesta e finalmente me permito olhar para Cromwell. Ele está olhando para frente, os braços em volta dos joelhos dobrados. Eu pensei que ele já tivesse ido embora agora. Esse é o comportamento habitual dele. Mas então nada sobre Cromwell faz mais sentido para mim. "Você está bem?" Pergunto, e ele olha para mim, seus olhos ainda vidrados e perdidos. Cromwell assente, então silenciosamente se levanta e fica ao meu lado enquanto caminhamos em direção à saída. Ele estende sua mão e pega a cesta das minhas mãos. Meu coração derrete um pouco com isso. Envolvo meus braços em volta de mim, sentindo o frio congelante. “Eu pensei que você iria sair esta noite. No bar. Ou no Celeiro. Tocando sua música.” "Não." Ele não dá mais detalhes.

TILLIE COLE


Quando chegamos aos portões principais, ouço o som de uma buzina. Eu olho para a rua e vejo minha mãe em seu carro. "Estou indo," eu digo, virando para Cromwell. Suas sobrancelhas estão franzidas. "É minha mãe." Eu abaixo minha cabeça, as bochechas em chamas. "Fiquei com eles esta semana, enquanto estava doente." Eu soo como uma criança que tem que correr para casa, para sua mãe quando a menor coisa errada acontece. Eu tenho dezenove anos. Sei o que parece. E odeio pensar que Cromwell me acha patética. Mas pelo jeito que está olhando para mim, eu não acho que ele o faz. Na verdade, o jeito que ele olha para mim me deixa sem fôlego. É tão intenso e aberto. Cromwell sempre é reservado, uma ilha em si. Mas esta noite há uma mudança, onde antes eu só via vislumbres. Há uma coisa que eu tenho certeza que meu coração não aguentaria, e isso é Cromwell Dean sendo doce comigo. Eu não estou satisfeita com o tipo de emoção que inspira. Pego a cesta de suas mãos e balanço pés. “Obrigada Cromwell. Por carregar a cesta.”

em

meus

Cromwell assente, depois olha por cima do ombro enquanto um grupo de pessoas sai de Wood Knocks. Suspiro. Eu sei que é para onde ele irá depois disso. Essa é a sua vida. Não a minha. Farei o certo ao lembrar isso antes da minha cabeça fugir com seus pensamentos. “Boa noite.” Viro-me e começo a andar até o carro da minha mãe. "Você estará na aula de novo esta semana?" Eu paro tensa. Cromwell Dean está me perguntando sobre a aula?

TILLIE COLE


Olho para ele por cima do meu ombro. “Devo estar,” digo, então não posso deixar de perguntar: “Por quê?” Cromwell esfrega atrás do pescoço tatuado com a mão. Sua mandíbula se aperta. “Só perguntando.” “Nós temos aquele projeto para começar, lembra?” Ele concorda com a cabeça. Parece que quer dizer alguma coisa. Mas ele não o faz. Cromwell apenas fica lá, alternando entre me olhar sem jeito ou observar a rua. Quando passo os olhos pelas pessoas que passam por ali, Cromwell se destaca como um polegar dolorido. Suas tatuagens, seus piercings, suas roupas, seus cabelos escuros e olhos azuis escuros. “Devemos nos encontrar quarta-feira?” Pergunto, e seus ombros endurecem. Cromwell revira o piercing da língua na boca. Eu noto que ele faz isso sempre que se depara com algo que não tem certeza se deve fazer. Quando está em conflito, especialmente quando se trata de música. Vejo-o lutar com essa pergunta simples, antes que ele encontre meus olhos e me dê um único aceno de cabeça. “Boa noite, Cromwell,” digo novamente. Cromwell não diz de volta. Ele se vira na direção do bar. Eu não vou até o carro da minha mãe até que ele empurra a porta, uma explosão de música escapa quando ela se abre. Viro-me e entro no carro. Minha mãe está olhando o bar também. “Quem é esse?” Ela pergunta enquanto sai para a rua. “Cromwell Dean.” Os olhos da minha mãe se arregalam. “O novo companheiro de quarto do seu irmão?”

TILLIE COLE


“Sim. E meu parceiro na aula de composição.” E o garoto que está praticamente em todos os pensamentos que tenho desde que o vi na sala de cinema. Desde que ele alterou minha música em minutos para algo sem fôlego. E desde que ele se sentou ao meu lado em um concerto clássico e carregou minha cesta. Cromwell Dean é um enigma. “Bem...” minha mãe diz. “Ele é interessante.” “Mmm-hmm.” “Então, como foi o show?” “Incrível.” Respiro fundo. Ofegante. Esfrego meu peito. “Você está bem?” Mamãe pergunta com preocupação em seu rosto. “Você ainda está se sentindo cansada? Você não está se esforçando demais, não é?” Eu sorrio. “Estou bem. Só cansada. Esta semana foi longa.” Mamãe não diz nada quanto a isso. Ela apenas coloca a mão na minha e aperta com força. “Talvez você devesse ficar em casa também na semana que vem.” Eu sei que deveria. Mas, “Eu voltarei quarta-feira.” Não há chance de eu perder trabalhar com Cromwell. Já estou mais atrasada com o trabalho da escola do que em toda a minha vida. Mas a verdadeira razão é que eu quero ver se ele ainda vai falar abertamente sobre a música dele. Eu estou sempre em um precipício, esperando ouvir qualquer vislumbre de sua genialidade que ele ofereça. “Ok, querida. Mas não se force demais.” “Não vou.”

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Mamãe para na garagem e em dez minutos estou no meu quarto. Estou exausta. Minha cama chama meu nome, mas me encontro sentando no meu piano elétrico. A partitura de música que Cromwell corrigiu está no estande. Ligo os fones de ouvido e coloco minhas mãos nas teclas. E como eu venho fazendo a semana toda, sigo as anotações desenhadas. E como sempre, meu peito se enche com a mais incrível sensação de beleza. Minhas mãos dançam sobre as teclas como se não tivessem outra escolha senão colocar som nas marcas de caneta que Cromwell tão facilmente anotou. Cedo demais, a curta explosão de música acaba. Então eu toco de novo. Toco seis vezes antes do meu cansaço ser demais. Passo a mão pelo manuscrito. Eu não posso evitar balançar a cabeça. Isso foi tão natural para Cromwell. Ele achou que eu não o vi retrabalhando meus compassos de abertura, mas eu vi. O observei em guerra consigo mesmo ao tocá-los. Suas mãos se contorceram e seus olhos balançaram de mim para a folha até que uma necessidade desesperada dentro dele venceu. A mesma que eu vi naquela noite na sala de ensaio. Uma expressão que eu não pude explicar veio em seu rosto enquanto ele rabiscava. Depois jogou a caneta e o papel na mesa como se fossem uma chama em sua mão. Tirando meus fones de ouvido, vou para a minha cama. Eu repasso a performance da orquestra na minha cabeça. Então penso em Cromwell ao meu lado na grama. Eu balanço a cabeça. Foi surreal. Relembro o olhar em seus olhos enquanto ele observava o pianista. O tremor da sua mão. O olhar estranho de paz que vi em seu rosto.

TILLIE COLE


A repulsa com o Twizzler4 que coloquei na sua mão. E eu sorrio.

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“Sem cafeteria hoje?” Cromwell parece confuso enquanto eu nos levo às salas de prática do departamento de música. Já é hora de começarmos a fazer algo. Eu passo minha identidade e nos levo para a sala que reservei. Cromwell para perto da porta quando vou para a mesa no centro. Um piano está no canto. Pego meu bloco de notas, papel em branco e minhas canetas, tentando ignorar a dor na minha cabeça. Pego uma garrafa de água da minha bolsa e tomo alguns goles enormes. Cromwell cai na cadeira ao meu lado. Ao olhar para ele, você pensaria que ele está em uma câmara de execução. Ele trouxe seu laptop. Eu tiro a música em que ele trabalhou no café na semana passada. Ele dá uma olhada e suspira frustrado. “Eu gosto disso.” Passo a mão sobre ela. Encontro os olhos de Cromwell. “É lindo. E são apenas alguns compassos.” Não escondo que estou impressionada com o talento dele. Cromwell sabe. Minha reação a ele há algumas semanas falou isso sem palavras. Foram alguns compassos rabiscados com pressa. Ainda é de tirar o fôlego. Eu sorrio, tentando cobrir os pensamentos na minha cabeça. “Eu acho que é um ótimo começo.” Cromwell olha fixamente em cima da mesa. “Em que você estava pensando?” Eu

4

Marca de doce. Bala comprida, normalmente de sabor morango.

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pergunto, batendo no papel. “Quando você escreveu estas anotações?” “Eu não estava,” ele diz. O Cromwell de antes está de volta, aquele que lutou para se abrir. Embora haja uma acessibilidade que se forma gradualmente desde que o ouvi tocar. “Você só leu minhas anotações e o quê?” Pressiono. Ele coloca as mãos atrás da cabeça. “Eu não sei.” “Você não sabe?" Pergunto. Ele balança a cabeça, mas posso ver que está mentindo. “Você está pálida,” ele diz, completamente fora do assunto. “Estou sempre pálida.” “Não. Assim não.” “Eu estive consequência.”

doente,

Cromwell. Meio

que

vem

como

“Sua composição não era nada de novo,” ele desabafa. Levo um segundo para acompanhar sua mudança rápida na conversa. Minha boca se abre para falar, mas a rápida punhalada no meu estômago impede que qualquer palavra escape. “Faltava intensidade.” Ele solta os golpes com os dentes cerrados, uma voz suave fazendo a dura crítica um pouco mais fácil de aceitar. Como se ele quisesse estar em qualquer lugar menos aqui, rasgando meu trabalho duro em pedaços. Como se não quisesse me dar essa avaliação. “As notas não se complementavam tão bem quanto poderiam.” “Então, basicamente, era ruim,” digo com uma risada autodepreciativa. É isso ou mostrar que estou chateada.

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“Não era ruim, apenas... não especial.” Ele estremece ao dizer isso. Olho para ele, tentando não ser um total bebê sobre suas críticas. Estou falhando forte. Respiro fundo. “Ok.” Eu olho em volta e me levanto. Preciso de um minuto. Então me encontro no piano. Sento no banco e levanto a tampa. Meus dedos se arrastam sobre as teclas. Fecho os olhos e toco o que vem do meu coração. As notas dos compassos que eu criei saem, se acumulando em meus ouvidos. Quando elas terminam, outra série começa. Aquelas que Cromwell escreveu. E eu ouço isso. Ouço tão claro quanto o dia. A diferença. A comparação de qualidade. O dele é um sonho vibrante. O meu, um leve cochilo à tarde. Eu suspiro e fecho os olhos. Minhas mãos caem do piano. “Como você faz isso?” Eu sussurro, mais para mim mesma do que para Cromwell. Ele está me observando, descansando de volta em seu assento. Não consigo ler o olhar em seus olhos. “Você...” ele faz uma pausa, claramente lutando para explicar o que quer dizer. “Você não toca com significado.” “O quê?” Eu não esperava que ele dissesse isso. Cromwell empurra o queixo na direção do piano. “A maneira que você senta, você é muito rígida. Seu corpo está muito tenso. Isso deixa o tocar desconfortável. Se deixa o tocar desconfortável, o som será desconfortável.” “Eu não... não sei tocar de outra maneira.” Odeio o modo como meus olhos se enchem de lágrimas. Odeio o jeito que minha voz treme. Odeio o jeito que meu coração despenca. Meu sonho é

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tocar piano bem. Eu me contentaria em ser uma fração tão boa quanto Cromwell. Cromwell fica em silêncio. Eu posso ouvir o som distante de pessoas praticando seus instrumentos em outras salas. Eu inalo profundamente, depois exalo. Meus olhos se fecham. De repente, sinto alguém ao meu lado. Eu abro meus olhos. Cromwell está ao meu lado. “Mexa-se, Farraday.” Meu coração bate como um tambor no meu peito enquanto seu corpo alto se eleva sobre mim. Porque eu quero Cromwell sentado neste piano ao meu lado. Eu quero ver o que ele faria. Não me atrevo a esperar que ele toque. Meu estômago vibra com a proximidade dele. Mas eu faço como ele diz e me mexo no banco. Cromwell vacila. Pergunto-me se ele está tendo segundos pensamentos, mas um momento depois ele se senta ao meu lado. Ele cheira bem. Especiarias. E embora eu odeie fumar, não posso negar que a persistência do tabaco que se agarra a suas roupas só torna seu perfume mais atraente. “Suas mãos estão muito rígidas.” Cromwell não olha para mim enquanto fala. Ironicamente, suas mãos também estão rígidas. Sua postura está ereta. “Você precisa relaxar mais.” Sorrio. "Você não é exatamente a imagem de relaxamento, Buda.” Cromwell olha para mim com o canto do olho. Eu penso ter visto seu lábio tremer. Mas foi muito rápido para confirmar se isso realmente aconteceu. Cromwell pega minhas mãos, chocando-me até o inferno. Prendo a respiração quando as mãos dele pegam meus dedos e os põe nas teclas. Suas mãos estão quentes, mas seus dedos são ásperos. Pergunto-me se é por causa de seus anos

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tocando tantos instrumentos. Eu não pergunto a ele. Sei que só perderia esse lado curioso dele se o fizesse. “Toque,” ele ordena. Eu faço uma careta. “Tocar o quê?” Cromwell olha para mim como se eu tivesse falado uma língua que ele não entende. “O que quer que você precise.” “Precise?” Balanço minha cabeça. Eu estou tão confusa. “Toque.” Suas franzidas. “Apenas toque.”

sobrancelhas

estão

Fecho meus olhos e começo. Engulo em seco quando percebo que estou tocando os compassos que Cromwell escreveu. Quando paro, respiro fundo e encontro seu olhar. Suas sobrancelhas negras estão franzidas para baixo em confusão. Então me ocorre... “Você só toca o que está no seu coração, não é? Você não precisa de música? Você simplesmente... toca.” Seu rosto branco me diz tudo. Ele não faz ideia de que outras pessoas não fazem isso. Não podem fazer isso. Eu me sinto tonta. Tonta pelo conhecimento de que Cromwell deve olhar para um piano e tocar apenas algo que é dele e só dele. Suas mãos passam sobre as teclas. Eu observo seus dedos tatuados. A caveiras pintadas e os números são um forte contraste com a pureza das teclas. No entanto, eles se mesclam perfeitamente como se fossem almas gêmeas há muito perdidas. Meu peito está apertado. Esteve o tempo todo em que estive doente e não mostra sinais de diminuir. Mas não é nada comparado à corda tensa que puxa em mim conforme a mais bela música flui do instrumento. Eu sinto como se estivesse escutando

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de fora de mim mesma. Lembro-me daquela noite quando o vi tocar uma música tão triste que me levou às lágrimas. Agora, estou observando-o de perto, experimentando isso ao lado dele. E parece ter um gosto do divino. Não há outra maneira de colocar isso. Arrisco um olhar para o rosto dele. Seus olhos estão fechados. Esse olhar... esse olhar de pura paz está gravado em seu rosto normalmente fechado e tenso. Meu coração vacila. Meus olhos se arregalam. Cromwell Dean é tão lindo. Meu estômago revira e vibrações que eu não consigo explicar atingem o meu peito. O pânico se instala. Eu quero esfregar meu peito. Mexo-me no lugar e corro do que está entrando no meu cérebro. Não, não, não, não... eu não posso... eu não posso me deixar ir lá — Cromwell chama minha atenção dos meus pensamentos assustados com uma mudança rápida no ritmo. Seu corpo balança no ritmo, e eu sei que ele não tem ideia de que está fazendo isso. Isso — tocar, criar — é tão natural para ele quanto respirar. Não ouso respirar no caso de quebrar o feitiço sob o qual ele está. Se eu pudesse, teria escolhido sentar-me aqui neste banquinho até que Cromwell estivesse completamente cansado de tocar. Eu só me permito expirar quando as mãos dele param de tocar, a música que eu nunca ouvi antes se desvanece para nada além de um eco na sala silenciosa. Quando a nota final paira no ar, os olhos de Cromwell se abrem. Sua mandíbula aperta alguns instantes depois, e uma grossa onda de tristeza corrói a feliz serenidade que o possuiu enquanto ele tocava. Ele está mais uma vez consciente de que está

TILLIE COLE


de volta a esta sala comigo e não onde sua música acabou de leválo. Atormentado novamente. A expressão em seu rosto parece ferida. Tão perto assim, testemunhando-o tocar, eu percebo que realmente dói para ele tocar. “Cromwell...” sussurro, lutando contra a necessidade de segurá-lo em meus braços. Nesse momento ele parece tão sozinho. Tão completamente sozinho com sua dor. “Isso foi... não há palavras... Como...?” “Foi o concerto,” ele diz, tão baixo que eu mal consigo ouvilo. “O quê?” Cromwell abaixa a cabeça. Ele corre os dedos pelas bochechas com barba fina. “Eu estava pensando...” Ele suspira. Não tenho certeza se vai terminar a frase, mas felizmente, ele o faz. “Eu estava pensando no concerto.” Seus lábios se apertam como se estivessem lutando contra o que quer que ele está tentando dizer... não. Tem que dizer. “Naquela noite... a música...” Ele se concentra na parede branca e nua à nossa frente. “Em...” Eu engulo em seco quando ele não termina. Mim? Eu quero perguntar. Mas essa pergunta nunca sai da minha boca. Especialmente agora. Especialmente depois disso. Eu preciso terminar esta sessão. Preciso me afastar de Cromwell. Quando o conheci e ele foi rude, quando foi hostil nos primeiros dias do semestre, foi fácil não ver sua boa aparência. Foi fácil ignorar a maneira como seus músculos se flexionam em seus braços, transformando suas tatuagens em peças de arte vivas.

TILLIE COLE


Mas ver seu verdadeiro eu, no piano naquela noite, sua luta para alterar o meu trabalho, e agora, tentar me ajudar a tocar melhor... falar comigo tão baixo, tão vulnerável, sua voz profunda e rouca, como outra sinfonia que ele trouxe à vida. A impressão digital de sua música perfeitamente criada ainda grossa no ar ao nosso redor, é muito fácil ver o verdadeiro Cromwell. Ver quão lindo ele realmente é. “Eu...” Ele limpa a garganta. É o empurrão que preciso para limpar o nevoeiro induzido por Cromwell que nublou minha mente. Eu olho para ele através dos meus cílios, esperando que eles ofereçam uma camada de proteção de qualquer coisa que estou sentindo agora. Mas ele faz uma pausa quando encontra meus olhos. Suas bochechas estão vermelhas. “Você o quê?” Eu sussurro. Soa como um grito na sala silenciosa. “Eu tenho mais,” ele admite, como se fosse o pior tipo de confissão. “Mais?” Ele aponta para o papel no piano. Meu estômago revira de excitação. “A composição?” Cromwell assente com a cabeça uma vez, com força. “Posso ouvir?” Cromwell olha para o lado. Seus ombros largos estão rígidos. Eu seguro minha respiração. Não ouso respirar enquanto ele olha pela sala, olha para tudo, menos para mim, para o piano e para a verdade — que ele nasceu para fazer isso.

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Meus olhos lacrimejam enquanto o observo. Porque o que quer que o impeça de dar isso a si mesmo, de abraçar quem ele é, é abrangente. Está sufocando-o. Parece que está destruindo-o. Nesse momento, sinto uma afinidade com ele. Cromwell nunca saberá, mas ele e eu... nós não somos tão diferentes. Não é intencional. Minha mão levanta e pousa em seu ombro nu, um crânio familiar pintado em cores brilhantes em sua pele morena. É instintivo. É a necessidade de ajudar esse garoto fechado e mostrar a ele sem palavras ou explicações que eu entendo. Cromwell congela sob o meu toque. Mantenho meus olhos na minha mão. Arrepios se espalham ao longo de sua pele como fogo. Uma rosa vermelha na órbita ocular de um crânio se contorce sob meus dedos. Cromwell fecha os olhos e dá um longo suspiro. Eu não movo minha mão, no caso de ser a energia que ele precisa para me mostrar isso. Para se dar isso. Suas mãos se movem para as teclas, os dedos em posição. Ele não precisa ver onde os posiciona; ele sabe exatamente onde cada tecla está, um conforto que você só consegue com anos e anos de prática. Cromwell exala e a música começa a tocar. Eu estou congelada. Presa do lado de fora do seu mundo, olhando para dentro, mas não conseguindo penetrar na bolha. Meu peito sobe e desce rapidamente, mas não faço qualquer som. Eu não poluiria a melodia, não mancharia a beleza que derrama de sua alma com o som da minha respiração vacilante.

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Quero assisti-lo. Eu quero beber a visão que é Cromwell Dean em um piano. Mas minhas pálpebras se fecham, não me dando outra escolha além de despertar meu senso de audição. E eu sorrio. Ouço tudo o que ele está sentindo. Tristeza nas notas lentas. Centelhas de alegria na velocidade das notas altas e a total devastação nas baixas. Eu me lembro da primeira vez que vi Cromwell. Nesse verão, no clube, permitindo que suas batidas me lavassem dessa maneira. Não há comparação. Não senti nada além de decepção naquela pista de dança úmida e pegajosa. Agora... estou inundada com um arco-íris de sentimentos. Meu coração bate erraticamente incapaz de manter qualquer tipo de ritmo, lutando para permitir tudo o que Cromwell está me dando em suas paredes fracas. E então algo acontece. As notas e a criação que Cromwell está me dando se transforma em outra coisa. O trecho muda, uma mudança abrupta. Meus olhos se abrem e eu olho para as mãos dele. Elas estão se movendo tão rapidamente, seu corpo balançando é varrido pela música, e é como se ele estivesse em outro plano. Eu fico parada, vendo como o suor brota na sua testa. Seus olhos estão apertados, mas há um breve lampejo de um sorriso em seus lábios. Meu coração pula no meu peito com a visão. Mas então o sorriso cai e seus lábios se franzem. Eu não sei o que fazer, o que pensar. Estou ciente de que estou vendo algo acontecer diante dos meus olhos. A música que enche a sala é como nada que eu já ouvi antes. Eu nunca senti nada parecido antes. Um nó entope minha garganta quando vejo uma lágrima começar a cair no rosto de Cromwell. Meu lábio treme em

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solidariedade. A música é linda, como a sensação do sol no seu rosto quebrando o forte vento do inverno e acolhendo a primavera. Cromwell balança mais profundamente, seu corpo inclina para frente e para trás quando ele se torna um com o piano. Não há começo nem fim para ele e para a música. Eu tenho certeza que peguei um vislumbre de sua alma. Minha mão escorrega de seu ombro quando uma lágrima espirra nas teclas. A perda da minha mão faz os olhos de Cromwell se abrirem. É instantâneo. Seus olhos se abrem e suas mãos congelam, parando mortas nas teclas. Cromwell se afasta do banquinho. Eu pulo em pé antes que o banco caia no chão. Eu me pressiono contra o piano para me equilibrar enquanto os olhos de Cromwell se fixam nos meus. Eles estão arregalados. As pupilas estão tão dilatadas que engolem qualquer azul escuro. Seu pescoço está cheio de veias grossas e seus músculos estão tão tensos que o fazem parecer enorme. Estou respirando com dificuldade, tonta com o choque súbito. Seu olhar dispara para o piano e depois para suas mãos. Seus dedos se fecham em punhos e ele balança com uma raiva repentina. Lágrimas mancham suas bochechas, a evidência de que o que quer que ele estava tocando, fez seu coração quebrar. Isso o arruinou. Cromwell corre para a mesa e reúne suas coisas. Eu o observo em silêncio, não tendo ideia do que dizer. Foi a segunda peça musical. Aquela para qual ele mudou. Ele se perdeu nela. Isso causou essa mudança dentro dele. Uma com que ele está claramente lutando. Minha palma ainda está quente por tocar seu ombro. Onde eu me conectei a ele enquanto ele tocava sua obra prima. Na minha visão periférica,

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vejo que ele parou e olho para ele. Cromwell está olhando para a minha mão... a mão que o apoiou enquanto ele tocava. Conheço o olhar em seus olhos agora. Ele vai correr. Assim que Cromwell se dirige para a porta, intercepto seu caminho, colocando-me diante dele. Cromwell para, seu laptop agarrado ao peito como um escudo. “Não,” eu imploro, minha voz quebrada pelo pânico. Eu não quero que isso acabe. Não quero que ele vá embora de novo. Assim não. Examino seu rosto confuso. Sua mandíbula está apertada e seus olhos estão arregalados. Seu corpo está tremendo. Eu engulo, sentindo a temperatura subir entre nós. Não sei o que está acontecendo comigo. Eu nem sequer me permito pensar muito sobre isso. Eu não posso. Porque a razão está voando pela janela. Cromwell é uma estátua, o único movimento de sua respiração flui rapidamente. Minhas mãos tremem quando as levanto em direção ao seu rosto. Cromwell nunca quebra meu olhar. Uma sensação de tontura toma conta de mim quando minhas palmas tocam suas bochechas. Eu me levanto na ponta dos pés, tentando encontrar os olhos de Cromwell. “Não corra.” Ouço o tremor na minha voz. Eu soo tão nervosa quanto me sinto. “Está tudo bem,” eu sussurro. Ele fecha os olhos e um som quase silencioso vem de sua boca. Esse som simples me destrói. Ele transmite um vislumbre da agonia que ele guarda dentro do coração. De repente, seus olhos se abrem e ele dá um passo à frente, me comprimindo tão completamente que nossos peitos se tocam e respiramos o mesmo ar. Seu laptop cai no chão, quebrando no chão duro enquanto suas mãos pegam meus pulsos. “Eu não posso fazer isso, Bonnie,”

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ele sussurra, com sua voz rouca e o sotaque forte. Suas bochechas ainda estão inundadas, os olhos vermelhos. “Eu não posso encarar tudo isso. Não posso lidar com o que você está me fazendo sentir. Quando você está perto de mim. Quando você me toca.” Seu rosto se contorce e ele respira fundo. “Eu não posso lidar com toda a dor.” Eu quero dizer alguma coisa. Quero tranquilizá-lo. Dizer a ele que eu sei o que é esse tipo de sofrimento assombrado. Mas nada disso sai. Tudo o que sai dos meus lábios é um apelo torturado. Um ferido “Cromwell...” Quando seu nome escorrega dos meus lábios, ele cambaleia para trás. Ele nem sequer dá uma olhada no laptop quebrado no chão. Cromwell apenas foge, deixando um ar de desolação em seu rastro. Eu caio contra a parede, tentando me acalmar da tensão do momento. Então corro para a minha bolsa e pego minha garrafa de água. Bebo e bebo até que meu pulso se acalma e a súbita onda de tontura me deixa. O que Cromwell está fazendo comigo? Eu não deveria me sentir assim com ninguém. Eu prometi não deixar ninguém chegar muito perto. Mas o jeito que ele toca, como seus profundos olhos azuis se fixam nos meus como se estivessem chorando em busca de ajuda... esse garoto quebrado está abrindo caminho até meu coração fraco. Mas um deslize de dúvida penetra em mim enquanto penso nele quando saiu. Eu agora reconheço a expressão em seu rosto quando ele correu. Cromwell estava me afastando. Como ele fez inúmeras vezes agora. Eu olho para a minha mão. Olho sem ver a palma dela, e uma percepção me atinge. Ele tocou com a minha mão em seu

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ombro. Ele estava perdido, envolvido em sua própria criação comigo tocando-o... até que minha mão escorregou e tudo se quebrou em pedaços. Fecho minha mão em um punho e desvio o olhar. Não tenho ideia do que isso significa. Mas tê-lo tocado assim... ter visto um lampejo de seu sorriso e ouvido a música que ele criou pensando no concerto... “Cromwell,” sussurro para a sala silenciosa. Então espero meu coração se acalmar para que eu possa afastá-lo da minha mente. Está escuro antes de eu sair. E como um mar eternamente furioso, meu coração nunca se acalma.

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Capítulo 11 Bonnie

Meus olhos estão pesados quando pisco para acordar. O quarto escuro só é iluminado pela luz noturna no canto. Minha mão bate na mesa de cabeceira quando o som do meu celular perfura a noite quieta. Eu olho para a tela. Meu estômago afunda. “Matt?” “Bonnie,” ele diz, sem fôlego. “Você precisa vir. É Easton.” Minhas pernas estão sobre a borda do meu colchão antes mesmo que ele diga o nome do meu irmão. “O que está errado?” “Ele está pior do que nunca.” Matt fica quieto. Eu posso ouvi-lo se afastar dos sons da música e do riso. “Você ainda está aí, Bonn?” “Sim.” Coloco o celular sobre a cama enquanto visto meu jeans. “Ele deu um soco em um dos irmãos da fraternidade. O cara bateu no Est de volta.” Eu visto meu suéter. “Ele está bem?”

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“Ele está ensanguentado. Mas não deixa ninguém perto dele.” Matt faz uma pausa. “Nunca o vi assim, Bonn. Ele está descontrolado.” “Onde você está?” Eu pego as chaves do meu carro. Brevemente vejo meu rosto no espelho. Pareço horrível. Eu jogo meu cabelo para trás em um coque e forço meus pés cansados a sair do quarto. “O Celeiro.” “O quê?” Pergunto enquanto caminho sem fôlego para o carro. “Em uma quarta-feira?” Eu verifico as horas. “São três da manhã, Matt!” “Foi Cromwell. Ele queria tocar. Nenhum de nós queria perder vê-lo tocar ao vivo. Ele voltou para os dormitórios mais cedo esta noite pronto para a festa, bêbado como o inferno. East avisou e todos vieram. Foi incrível!” Com a menção do nome de Cromwell, minha respiração falha. Ele ficou bêbado novamente. Nenhuma dúvida sobre o uísque que o vi consumir de novo e de novo. “Bonn? Você aí?” “Eu estarei lá em quinze.” Saio do campus e vou para a estrada que leva ao Celeiro. Com cada quilômetro, luto para ficar acordada. Eu estou ficando cada vez mais cansada ultimamente. Percebi que estava dormindo por noventa minutos antes de Matt ligar. Cromwell... o que te machucou assim? Eu penso. Não fui capaz de tirar essa noite da minha cabeça. Agora eu quero que Easton se preocupe. A culpa me agride quando penso em meu irmão. Então pavor, seguido por absoluta dor destruidora. Minhas mãos apertam o volante. Lágrimas nublam meus olhos. Eu os limpo antes que elas possam cair.

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“Agora não, Bonnie,” digo a mim mesma. “Guarde isso para Easton.” Balanço a cabeça e abro a janela para deixar entrar o ar fresco. Enquanto dirijo, olho para as estrelas no céu escuro. Elas sempre me fizeram sentir melhor. As luzes do Celeiro me atraem. Estudantes bêbados saem pela porta. Dance music toca e eu me pergunto se Cromwell ainda está tocando. Alguém acena com as mãos. Pelo brilho dos meus faróis, vejo que é Matt. Estaciono meu carro nos fundos, perto de um velho silo. Há um déjà vu quando saio do carro. Tomo uma respiração profunda de ar, ignorando a ligeira nova tensão quando respiro. Enquanto caminho em direção a Matt e Sara, vejo um par familiar de pernas ao lado do silo. Passo por Matt e vejo Easton na grama. Seus olhos estão rolando em sua cabeça. Eu me ajoelho. “Easton?” Bato na bochecha dele. Então olho para Matt. “O que diabos ele tomou?” Matt sacode a cabeça. “Não sei. Nunca o vi tomar drogas, só algumas doses e cerveja.” Coloco com um dedo sob as pulseiras de couro que ele sempre usa e sobre a pele marcada, e procuro seu pulso. Está batendo rápido, mas não demais. Seus olhos se abrem. “Bonn.” Ele sorri, a sua boca está ensanguentada. Presumo que é pela luta. O rosto de Easton escorrega de feliz para rasgado em questão de segundos. Ele me puxa para mais perto. “O que está acontecendo?” “Você está bêbado e, eu acho, que está drogado, Easton.” Eu seguro sua mão.

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“Não.” Ele procura meus olhos. Parece que há um momento de claridade nos olhos dele. “Quero dizer o que está acontecendo?” Paro de respirar por um segundo. Ele ri uma vez, sem qualquer alegria. “Eu sei que é alguma coisa.” Ele segura minha cabeça e me traz para perto, tocando minha testa na dele. “Você está escondendo algo de mim. Eu sei isso.” Lágrimas picam meus olhos quando ele rola para trás novamente . Dor passa por mim e eu quero gritar. Em vez disso, viro-me para Matt. “Você pode me ajudar, por favor? Eu preciso levá-lo de volta ao dormitório.” “Bonn?” Outra voz veio de trás de mim. Bryce está correndo para nós. “Oi, Bryce.” “Tudo certo?” Matt deixa Easton de pé, mas o peso do meu irmão é demais para ele. Bryce ajuda a sustentar Easton. “Para onde?” Bryce pergunta. “Meu carro, por favor.” Eu os levo para o meu carro e abro a porta dos fundos. Bryce desliza Easton para dentro e fecha a porta. Bate-me uma súbita onda de tontura, eu me inclino contra o carro e coloco a mão na minha cabeça. Estou muito quente. Tanto quanto estou lutando, eu sei que isso é excessivo. “Bonn? Você está bem?” Eu finjo um sorriso. “Sim. Só cansada.” Bryce sorri para mim e esfrega a nuca com a mão. “Eu vou te seguir de volta no meu carro. Eu não bebi.” Eu olho para o Celeiro. “Você estava nos decks?”

TILLIE COLE


“Sim. Mas isso não importa. A festa acabou de qualquer maneira.” “Tem certeza?” Bryce tem um sorriso bonito. Pergunto-me como seria o sorriso completo de Cromwell... eu balanço a cabeça. Não pensarei nele agora. “Bonn?” Bryce coloca uma mecha de cabelo atrás da minha orelha. Eu fico tensa. “Desculpe,” ele diz, corando. “Eu não deveria ter... eu...” “Está tudo bem.” Aperto a mão dele. Não é calejada como a de Cromwell. Ele não tem tatuagens nas articulações dos dedos. Eu duvido que ele possa criar uma obra-prima do nada também. Solto a mão de Bryce e abro meu carro. “Eu verei você no dormitório.” Entro no carro quando Bryce corre para o dele. O observo e sinto uma dor no peito. Eu nunca o deixei entrar. Ele esteve lá todo esse tempo, à margem. E nunca o deixarei entrar. Eu nunca deixarei ninguém entrar. Você não pode, uma voz interior diz. Não seria justo. Meu cérebro traidor traz a imagem de Cromwell de volta à minha cabeça. E o que é estar sentada ao lado dele. Como foi tocálo. Ouvi-lo. Ele brigando com um sorriso quando nos sentamos na grama no show. “Bonn?” A voz arrastada de Easton vem de trás de mim. “Estou aqui, Easton.” “O que está acontecendo?” “Eu estou levando você para casa.” principal. “Não falta muito tempo agora.”

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Viro

na

rua


“Não, com você. O que está acontecendo?” Meu estômago retorce novamente. É a segunda vez que ele pergunta isso. Uma nuvem de escuridão parece se instalar sobre o carro. Eu sinto que não posso respirar quando olho no espelho retrovisor. O rosto de Easton está atormentado. Sua mão pousa no meu ombro. “Você me diria, Bonn, não diria? A verdade.” “Easton.” Um caroço do tamanho de Júpiter entope minha garganta. “Eu estou bem.” Odeio-me no minuto em que digo essas palavras. “Apenas descanse.” Easton sorri aliviado, mas posso ver as linhas de preocupação ainda impressas em sua testa. Ele deve ter pensado nisso por um tempo. Minhas mãos tremem no volante enquanto eu dirijo o resto do caminho para casa. Estaciono em uma vaga na frente do seu dormitório. Bryce para ao meu lado. Desligo o motor e fico em silêncio por um segundo. Tudo está ficando muito difícil. Tudo está ficando demais. Eu olho para os alunos cambaleando bêbados de volta para seus dormitórios e sinto um vazio no meu estômago. Nunca experimentei isso. Nunca saberei como é. Eu não sou de lamentar. Mas logo em seguida, deixo que a dor pelo que eu sinto falta me consuma. Uma batida na minha janela tira-me da minha tristeza. O rosto de Bryce está lá. “Abra a porta. Eu vou tirá-lo daqui.” Eu saio do carro, tentando ignorar o fato de que minhas pernas parecem chumbo. Bryce joga o braço de Easton em volta do seu pescoço. Conduzo o caminho para o quarto. Pego minha chave, mas paro quando penso em como Cromwell reagiu antes. Eu bato na porta. Meu coração acelera ao longo do tempo enquanto espero para ver se ele responde. Faz apenas algumas

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horas desde que ele fugiu de mim. Ainda parece uma vida inteira atrás. Ninguém responde. Ele ainda deve estar no Celeiro. Deslizo minha chave na fechadura. Quando o faço, a maçaneta gira e a porta se abre. Jogo-me para frente, e me endireito no último minuto com a mão no batente da porta. Levo um tempo para levantar a cabeça, mas quando o faço, sou recebida por um peito largo e duro, cada centímetro dele está coberto com tatuagens. Eu respiro fundo quando vejo Cromwell parado diante de mim usando apenas uma cueca boxer preta. Seu peito sobe e desce, e percebo que ele está sem fôlego. Seus olhos azuis escuros estão encobertos de licor e se esforçam para se fixar em mim. “Que porra é essa?” Ele resmunga. “Cromwell, me desculpe. É Easton, ele...” minha voz é cortada quando ouço um rangido no colchão. Meus olhos imediatamente se movem para a cama de Cromwell, e meu coração se despedaça completamente no meu peito. Eu não sabia que isso era possível. Não sabia que meu coração ainda era capaz de quebrar dessa maneira. “Cromwell?” Uma voz que eu conheço vem da cama. Kacey está sob o edredom, apenas as alças do sutiã aparecem. Meu rosto se incendeia. Minhas bochechas queimam e eu luto para respirar. Eu olho para Cromwell e o encontro ainda me observando. Mas agora seu rosto empalideceu. Seus lábios se separam, como se ele fosse dizer alguma coisa, mas a única palavra sussurrada foi “Bonnie...” Eu ouço algo em sua voz. Vejo algo em seus olhos enquanto ele olha para mim, algo que eu não consigo explicar. Culpa? Embaraço? Não sei se isso é apenas uma ilusão.

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Sempre aquele que me tortura, não posso deixar de estudálo ainda mais. Seu peito está vermelho e brilhante. Seu cabelo, que era, para ser honesta, sempre bagunçado, está ainda mais confuso e desleixado. E então me concentro em seus lábios. Eu não sei o porquê, mas vê-los vermelhos e inchados me afetou. Quando cheguei ao meu dormitório esta noite, estupidamente me deixei imaginar como seria beijá-los. Senti-los contra os meus. Ouvi meu nome sussurrado por eles quando ele segurou minha mão... Eu foco no aqui e agora, e empurro essa dolorosa visão da minha cabeça. Cromwell está praticamente nu. Como Kacey está. Eu rapidamente percebo que Cromwell não se importa. O que compartilhamos hoje não significou nada para ele. Não se ele pode, apenas algumas horas depois, sair e fazer isso. “Oh, oi, Bonnie.” Kacey se senta na cama. Seus olhos evitam os meus. Suas bochechas brilham de vergonha. “Oi,” eu consegui forçar. Viro-me, ignorando Cromwell. “Hum... eu trouxe Easton para casa. Ele bebeu demais.” Volto para onde Bryce olha para Cromwell. “Mas ele pode ficar no meu quarto comigo. Eu posso ver que você está ocupado.” Eu coloco minha mão no ombro de Bryce e o faço voltar. Não quero me virar para ver se Crom fechou a porta ou nos viu ir embora. Mas nada parece funcionar para mim hoje à noite. Como uma masoquista, olho por cima do ombro, apenas para ver Cromwell parado na porta, seu corpo tatuado esticado enquanto suas mãos agarram seus cabelos negros. Mas são esses profundos olhos azuis. Esses olhos tão escuros quanto à noite de verão que se fixou em mim, o desespero bêbado brilhando em suas profundezas, que me destrói completamente.

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A cada passo, eu fico cada vez mais confusa. Somente quando eu perco a entrada para o meu dormitório que percebo o quão abalada eu realmente estou. Há um buraco se formando no meu estômago. Eu quero arrancar meus olhos quando tudo o que eu vejo é a pele corada e as bochechas rosadas de Cromwell. Seu peito coberto de suor de... de... “Bonnie, é aqui.” Bryce está esperando por mim na porta do meu dormitório. Sorrio e tiro minha chave. “Desculpa. Estou tão cansada.” Eu não sei se Bryce acreditou ou não, mas ele obedientemente me segue pela minha porta e coloca Easton na minha cama. Easton dormiu em segundos. Eu puxo o edredom sobre ele e depois enfrento Bryce. "Obrigada," digo, finalmente fazendo-me olhar para ele. “Você está bem?” “Sim.” Eu suspiro. “Eu preciso dormir. Eu... Ainda não me sinto muito bem.” “Tudo bem.” Bryce fica sem jeito no local, antes de se inclinar para baixo e dar um beijo na minha bochecha. Eu respiro fundo quando seus lábios tocam minha pele. Meu peito não formiga com tremores, e meu estômago não se contrai como com Cromwell, mas é doce. Bryce é doce. E não intenciono a autodestruição. Ou me destruir também. “Vejo você amanhã, Bonn.” Ele sai pela porta. Eu me movo enquanto o assisto ir. Penso novamente em Cromwell e Kacey. O jeito que ele claramente não sentia nada por mim como eu

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pensei. A música que ele compartilhou comigo não significava nada; foi simplesmente uma demonstração do seu talento. Eu ri uma risada sem alegria. Pensei que de alguma forma ajudei Cromwell a tocar de seu coração de alguma forma mágica. Acontece que era verdade apenas em minha mente. “Bryce?” Eu falo antes mesmo de pensar nisso. Mas quando Bryce se vira, ignoro o rubor que surge no meu rosto e digo: “Você sempre pergunta...” Eu balanço a cabeça, minha voz vacilando. Inclino meu queixo para cima e encontro seus olhos. “Se você quiser, podemos sair na sexta-feira?” Olho para o chão. “Quero dizer, se você quiser...” “Sim,” ele diz antes mesmo de eu ter a chance de terminar minhas palavras. Ele dá um passo para perto de mim. “Eu adoraria te levar para sair." Não tenho os fogos de artifício que eu esperava em minha alma. Mas tenho uma flor feliz, e eu suponho que seja o suficiente. “Bom.” Eu coloco minhas mãos nos bolsos, apenas para fazer algo. “Bom.” Ele sorri. “Eu vejo você amanhã, Bonn.” Visto meu pijama no banheiro e deito no pequeno sofá-cama que minha mãe colocou no meu quarto quando me mudei. Olho para o teto quando o sono não me encontra. Eu quero que meu cérebro se desligue, porque não quero mais sentir. Mas isso me trai. Isso não me ajuda permitindo que meu corpo descanse, meus membros estão muito pesados e doloridos. Em vez disso, mostrame esta noite como um filme passando. Do começo ao fim. Quando acaba, eu sinto dificuldade para respirar. Mas forço uma inspiração profunda e me recuso a desistir. Eu lutei por tanto tempo, nunca desisti. Eu ainda estou lutando.

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Não desistirei agora. Quando meus olhos ficam pesados, falho em arrancar a imagem de Kacey na cama de Cromwell, suas bochechas coradas e olhos brilhantes. Eu olho para a minha mão, a que o tocou mais cedo. E rapidamente perco o brilho. Parece que Cromwell deixará qualquer um tocá-lo, menos eu. E eu odeio admitir para mim mesma que dói.

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"Bonnie.” Professor Lewis solta um suspiro lento. Encontro seu olhar de frente. “Eu não posso...” balanço a cabeça, sentindo as palpitações batendo no meu peito. Esfrego meu peito. “Professor Lewis, entendo sua posição sobre abandonar parceiros. Eu faço. Mas trabalhar com Cromwell...” Suspiro. “Francamente, tem sido o trabalho acadêmico mais difícil que já fiz.” Lewis estuda o meu rosto. “Senhorita Farraday...” “Você já checou seus e-mails hoje?” Eu olho para o relógio; vejo que é oito e meia. Eu abordei o professor Lewis quando ele estava destrancando seu escritório há dez minutos. Eu sei que ele provavelmente não o fez. Ele franze a testa. “Por que isso importaria?” “Por favor.” Eu engulo o nervosismo que está começando a aparecer. “Haverá algo do reitor.”

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O professor Lewis mantém o olhar confuso em seu rosto enquanto liga o computador e lê o e-mail do reitor. Eu sei que ele recebeu porque vejo seu rosto cair em simpatia — é por isso que não conto a ninguém. Ele abre a boca para falar. O detenho antes que ele fale. “Trabalhar com Cromwell me causa mais estresse do que eu posso lidar.” Eu dou-lhe um sorriso. “Eu amo sua aula, professor. É a minha favorita.” Ele sorri para isso. Mas eu odeio o novo jeito que ele está olhando para mim. Como se eu estivesse danificada. Como se eu fosse uma boneca frágil que pode quebrar a qualquer momento. Olho ao redor do escritório, para as fotos nas paredes dele. Para a pintura de redemoinhos de cores brilhantes penduradas acima de sua mesa. Isso me lembra de uma das peças de Easton. Fico olhando para a foto, mas digo: “Eu quero criar música.” Eu ofego uma risada. “Com toda a honestidade, eu não sou tão boa nisso.” “Você é uma letrista,” diz o professor Lewis. Ele aponta para o meu arquivo. “Eu li." “Eu sou.” Tomo uma respiração, e sinto minhas bochechas aquecerem. Essa é outra coisa que eu não compartilho. Meu amor pelas palavras. Palavras que se ligam à música até que seu significado só seja ouvido através da música. “Estou determinada, professor. Vou terminar a sua aula.” Sento-me na cadeira, esperando que isso me dê a confiança que me falta nesse momento. “Eu pretendo enviar minha composição no final do ano como todos os outros.” “Tenho certeza que você irá,” ele diz encorajador. Isso alimenta a faísca que permanece para sempre dentro de mim e ajuda a me preencher de esperança.

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“Mas eu não posso fazer isso com Cromwell Dean.” Balanço minha cabeça. “Sinto muito. Eu sei que você confiou em mim para ajudá-lo. Para empurrá-lo a trabalhar nesta tarefa... mas...” “Não há necessidade de mais explicações, senhorita Farraday. Estou totalmente ciente da atitude de Cromwell.” Ele rabisca algo no meu arquivo e senta-se em sua cadeira. “Muito bem. Está feito.” Ele esfrega a mão sobre o queixo barbudo. “Você está bem trabalhando sozinha?” “Eu sou melhor assim.” Dou de ombros. “Anos de prática foram forçados em mim.” “Então, senhorita Farraday, estou ansioso para ouvir como sua composição progride.” Um peso que eu não sabia que carregava foi tirado dos meus ombros enquanto Lewis me dava permissão para me desvincular de Cromwell, foi rapidamente substituído por um grande medo. O medo de que eu nunca seria capaz de produzir algo como Cromwell tocou para mim na noite passada. Mas isso não importa. A principal vitória é que eu estou livre dele. Ignoro a dor subjacente que ferve embaixo da forte sensação de alívio. Levanto-me, vendo que a aula está prestes a começar. “Desejo-lhe boa sorte, senhorita Farraday. Com tudo.” Eu dou a Lewis um sorriso apertado. “Obrigada.” Saio do escritório dele e caminho até a sala de aula. Bryce já está sentado em seu lugar habitual. Ele me dá um largo sorriso quando subo os dois degraus para me juntar a ele. Meu estômago revira, mas não com nervosismo ou excitação. Sei que é porque eu concordei em sair com ele, finalmente. Eu realmente não deveria. Eu reagi àquela noite. Por Cromwell e Kacey. Mas ver Cromwell vivendo a vida exatamente em seus termos me fez

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determinada a fazer coisas que eu nunca experimentei enquanto ainda posso. Eu simplesmente não posso deixar eu ou Bryce sermos precipitados. “Você está linda,” Bryce diz timidamente enquanto eu me sento ao seu lado. “Pareço cansada,” eu digo e sorrio. Os círculos escuros sob meus olhos estão ficando piores. Nenhuma quantidade de sono ajudaria com isso. Mas ele não precisa saber disso. A atenção de Bryce vai para frente da turma. O sorriso escorrega de sua boca e seu rosto ficou vermelho. Eu sei quem entrou apenas pela reação de Bryce. Mantenho meus olhos no meu bloco de notas. Eu estou rabiscando nas margens alguns redemoinhos sem sentido. Quando Cromwell passa por mim, sinto as especiarias de sua colônia ou o que quer que o faça cheirar assim. Meu coração salta para a minha garganta quando percebo que ele parou. Minha respiração aumenta o ritmo e minha mão trabalha mais rápido em meus desenhos sem sentido. Não quero então... “Bonnie.”

olhar

para

cima. Eu

não

posso,

Fecho os olhos quando a voz de Cromwell atinge meus ouvidos. Sua voz está cheia de tristeza novamente, como estava muitas vezes quando ele brevemente me deixou entrar um pouco. Quando parte de sua armadura quebrou. Mas agora, eu não posso deixar sua voz rouca entrar. Vê-lo com Kacey doeu. Então eu mantenho meus olhos baixos. Isso e o cansaço que está minando minha energia é demais.

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Meus ombros estão tensos, calafrios percorrem minhas costas. Finalmente, Cromwell sobe os degraus restantes para o seu lugar. “Idiota,” Bryce murmura baixinho. Eu finjo que não ouvi isso também. Lewis entra na sala. “Abram na página duzentos e dez. Hoje aprenderemos sobre a forma do concerto.” Faço como instruído e consigo bloquear completamente Cromwell. Isso até que Lewis chamar seu nome no final da aula. “Cromwell, eu preciso te ver amanhã no final do dia.” Junto minhas coisas e saio da sala o mais rápido que posso. Eu sei sobre o que é essa reunião. “Bonnie!” Bryce me alcança. “Ei.” “Então amanhã?” Bryce esfrega o novamente. Percebo que isso diz que ele está nervoso.

pescoço

“Amanhã,” eu repito. “Que tal às oito horas na cafeteria Jefferson?” “Perfeito.” Eu relaxo um pouco. Conheço a cafeteria do avesso. Isso tornaria o encontro mais fácil para mim. Eu estarei lá no sábado também, mas a multidão de sábado nunca é composta por estudantes. Sábado é para o Celeiro por aqui. Isso torna a cafeteria duas noites seguidas mais suportável. Ninguém me conhece. Ele coloca a mão no meu braço e aperta. “Vejo você então.” “Você também.” Eu o assisto ir. Ele é legal. E isso é exatamente o que eu preciso para marcar essa experiência da

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minha lista. Alguém que não me faz sentir pior do que eu já me sinto. Em vez disso, ele me mostrará o que é um encontro de verdade. Eu abro minha bolsa para pegar um chiclete. Só quando olho para cima que vejo Cromwell encostado na parede do outro lado do corredor, do lado de fora do escritório de Lewis. Ele está perto o suficiente para ter ouvido eu e Bryce conversando. Ele está olhando para mim com uma expressão de raiva quase em seu rosto. Eu não me importo. Porque tudo que posso ver quando olho para ele é Kacey quase nua em sua cama, e o estado desleixado quando ele atendeu a porta. Com meus ombros retos, passo por ele e saio para o ar do outono. A brisa fresca não é conforto para os meus pulmões famintos. Eu não tenho certeza se há algum remédio para a maneira como meu corpo sempre reage a Cromwell. A distância é a única coisa que ajudará. Então planejo ficar longe, muito longe. Quando olho para trás, vejo-o fumando ao lado da porta, seus olhos fixos em mim. Só que, dessa forma, vejo a tristeza brilhando como um farol. Isso me fez perder o fôlego. Abaixo minha cabeça e vou para a minha próxima aula. Eu não olho para trás novamente.

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Capítulo 12 Cromwell

“O quê?” Eu não tenho certeza se ouvi direito. “Você vai trabalhar sozinho a partir de agora,” Lewis diz. “Eu decidi separar você e a Sra. Farraday. A dupla não está funcionando. Você não está produzindo nada que pode ser entregue.” Ele encolhe os ombros. “Algumas pessoas simplesmente não se adaptam criativamente. Tomei uma decisão executiva para permitir que você trabalhe em suas composições sozinho.” Eu olho para Lewis, atordoado. Ela não quer mais trabalhar comigo. Meu estômago gira e mudo de posição. Seu rosto na quarta-feira brilha na minha mente. Quando ela ficou na porta e me viu, viu Kacey na minha cama. Eu viro de novo no meu lugar quando uma facada corta meu peito. Bonnie ficou ferida. Eu vi em seus olhos castanhos. Eu a machuquei. Mandei Kacey para casa mais tarde naquela noite. Nem tentei voltar a isso. Voltar ao que estávamos fazendo antes da batida na porta. Eu não pude. Tudo o que vi foi o rosto de Bonnie. Mesmo bêbado, eu sabia que tinha fodido tudo.

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Enquanto eu me sento aqui agora, meu ombro queima. Bem no ponto exato em que ela colocou a mão em mim e eu me perdi na música. Isso me sugou ao ponto de eu nem estar ciente do que estava tocando. E toquei aquela música. Aquela que eu nunca mais quis tocar. Bonnie a ouviu. Ninguém nunca a ouviu além de mim. “Cromwell,” Lewis diz, puxando-me para fora da minha cabeça. “Bem. Seja como for.” Saio do escritório dele e atravesso o corredor. Os poucos alunos de música que saíam sabiam que deveriam me dar espaço. Bonnie foi embora da minha vida. Eu deveria estar bem com isso. É o que eu queria. Eu a empurrei para longe como todo mundo. Mas meu corpo é um fio vivo. E não posso deixar passar. Eu trabalho melhor sozinho. Sempre trabalhei. Mas o pensamento dela não estar lá... Acendo um cigarro e vou para casa. Mas a cada passo eu fico cada vez mais agitado. Eu sei que Bonnie fez isso de alguma forma. Ela fez Lewis nos separar. Empurro a porta do meu dormitório. Easton está fora. Bom. Sento na minha mesa e ligo meu novo laptop. Eu abro a janela para que o alarme de incêndio não dispare quando acendo outro cigarro. Com meus fones de ouvido sobre meus ouvidos, bloqueando o mundo, deixo as cores me conduzirem nas batidas. Fecho os olhos e as formas pulsantes de cores vivas tomam forma. Sigo os padrões, deixo-os controlar meus dedos enquanto bato as teclas e a bateria eletrônica, perseguindo a pintura no pano de fundo da tela preta.

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Trabalho e trabalho até meus cigarros acabarem e meus dedos doerem. Eu esvazio as últimas latas de cerveja e esvazio uma garrafa de dois litros de Coca-Cola. Mas quando tiro meus fones de ouvido e vejo que está escuro lá fora, nada mudou dentro de mim. Não importa que eu tenha mixado músicas que fariam os clubes se curvarem para mim como se eu fosse um deus. Ainda estou chateado por ter estragado tudo. Raiva corrói em minhas veias, pronta para queimar como gasolina. Inclino minha cabeça para trás e solto um gemido alto de frustração. Ela me deixou porque eu a machuquei. Eu fiquei bêbado depois que a deixei. Tão bêbado que eu só precisava tocar, precisava estar ocupado. A próxima coisa que eu sei é que estava no Celeiro. Eu bebi dose após dose de uísque para esquecer Bonnie. Então não corri de volta para onde eu a deixei e contei tudo. Ela chegou perto demais. E algo acontece comigo quando estou perto dela. Minhas defesas caem. Eu não podia deixá-las caírem. Kacey estava no Celeiro, agarrada a mim como cola. Quando não consegui tirar Bonnie da minha cabeça, eu sabia que precisava estar com outra garota. Mas quando ela estava na minha porta, seus olhos castanhos arregalados de dor, eu soube que fodi tudo. Isso nunca funcionaria. Bonnie Farraday foi cimentada no meu cérebro. Que tal às oito horas na cafeteria Jefferson? As palavras daquele babaca correm pela minha cabeça a um milhão de quilômetros por hora. Olho para o relógio. Ela estaria com ele agora. São nove. O buraco escuro que começou a se formar no meu estômago ao pensar nela com Bryce McCarthy cresce e cresce

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até que, a próxima coisa que eu sei é que estou saindo pela porta e corro pela calçada até chegar à Main Street. Seus olhos castanhos enchem minha mente, incentivandome. Seu sorriso e meu nome saindo de seus lábios. A impressão de sua mão ainda arde na minha pele e suas palmas ainda queimam minhas bochechas. O cheiro de pêssego e baunilha de seu pescoço ainda está no meu nariz. Sinto sua doçura na minha língua. Paro abruptamente do lado de fora da cafeteria. Mantenho minha cabeça para frente, dizendo a mim mesmo para ir para casa e não fazer isso. Mas meus pés não escutam. O buraco no meu estômago não foi embora. Bonnie está lá com Bryce. E eu odeio isso. Cerro meus dentes, em seguida, viro minha cabeça para o lado e olho pela janela. Algo parecido com uma pedra atinge meu peito quando vejo Bonnie em sua mesa habitual com Bryce. Seu cabelo está solto e enrolado, caindo na metade das costas. Eu nunca vi seu cabelo solto. E ela parece... eu não consigo desviar o olhar. Bonnie está usando o vestido roxo que usou em Brighton. Alguém sai pela porta segurando um expresso para viagem. Ele segura a porta para mim. “Você quer entrar?” Eu não penso direito; apenas entro, o cheiro de grãos de café torrado bate no meu rosto. Quando vejo Bryce se inclinando para Bonnie, e ela sorrindo, algo parece estalar dentro de mim. Atravesso o café e puxo a cadeira da mesa ao lado deles. Eu me recosto no banco. Os olhos castanhos de Bonnie estão arregalados quando se fixam em mim. Seus lábios se

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separam. Lentamente, uma explosão de vermelho flameja em suas bochechas. É como ver o som de uma nota G-sharp tatuada em sua pele pálida. Sam, o garçom que nos serviu antes, aparece. Lanço-lhe um olhar desinteressado. Ele franze a testa e olha entre mim e Bonnie. “Café preto,” digo, em seguida, olho para Bonnie novamente. Ela abaixa a cabeça para longe de mim. Mas tenho toda a atenção de Bryce. Seu rosto está fumegando. Bom. Bryce se aproxima de Bonnie e sorri. Meus dedos cavam em minhas palmas quando ela sorri de volta. Meu café chega e eu desvio a cabeça. Preciso respirar. Para manter o controle. Porque a visão deles juntos está me deixando louco. Escuto a conversa deles, enquanto observo todo o resto. Eles conversam sobre escola. De música. Quando Bryce fala sobre o que ele está criando para Lewis, eu quis dar um soco nele. Mas quando Bonnie disse a ele que começou a compor a sua própria, eu congelo. Ela já começou sem mim. Cerca de cinco minutos depois, Bryce se levanta e vai em direção aos banheiros. Bonnie vira a cabeça para mim, seus olhos cansados. “Cromwell, o que você está fazendo aqui?” Não gosto do quão triste sua voz soa. É azul-marinho. “Eu estava com sede.” Seus ombros cedem e ela brinca com a alça de seu copo. Bonnie joga o cabelo para trás do ombro, mostrando uma grande argola de prata em sua orelha. Ela usa mais maquiagem do que eu já a vi usar. Viro-me na cadeira quando penso que ela parece tão bonita.

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Ela deve ter me visto olhando. Bonnie se inclina para frente, sua voz é baixa. “Cromwell. Por favor,” ela implora. “Pare, o que quer que isso seja.” Seus olhos se fecham. “Esse constante vai e volta... eu não posso mais fazer isso. Você tem sua vida e eu tenho a minha. E está tudo bem.” “Você fez com que acabassem com a nossa parceria.” Eu digo, e ela pisca em choque. Ela olha para os banheiros. Quando não há sinal de Bryce, ela diz: “Lewis achou não que trabalhamos bem juntos. Eu concordei. Ele nos permitiu fazer o projeto sozinhos.” Ela respira fundo. “É o melhor.” Você ouviu aquilo, eu queria dizer a ela. Ninguém mais ouviu, mas você sim. E você foi embora. Você me deixou te afastar... “Você recebeu um presente, Cromwell. Um lindo dom. E quando deixar suas paredes caírem, será puro e bonito...” seu rosto se enche de simpatia. “Mas você luta muito. Luta contra deixar qualquer um entrar.” Ela balança a cabeça. “Você corre, Cromwell. Você corre da música. E você fugiu de mim porque eu ouvi.” Ela toma um gole do copo de água ao lado dela. Bryce empurra a porta do banheiro masculino e Bonnie olha para mim pelo canto do olho. “Por favor, saia, Cromwell.” Ela agarra seu copo. “Eu quero aproveitar esta noite.” Ela vira as costas para mim, respirando dificuldade. Eu a olho, meu peito dói pelo que ela disse.

com

Bryce volta a se sentar. Seus olhos se estreitam quando olha para nós. “Tudo bem, Bonnie?” “Sim.” Ouço o sorriso falso em sua voz. “Cromwell está apenas saindo.”

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A raiva cresce dentro de mim em um instante. Eu a vejo com Bryce e deixo o fogo me consumir. Eu fui um inferno ambulante por três anos, e vê-la com ele agora, Bonnie escolhendo Bryce acima de mim, acende uma chama tão quente que eu não tenho como parar. “Não, não acho que eu vou sair,” digo e me acomodo em meu lugar. Bonnie olha para mim, confusão envolve seu rosto. Sam vem e me serve mais café. Bryce e Bonnie começam a falar novamente em voz baixa. Estendendo a mão para a mesa deles, eu pego o açucareiro. Minha ação interrompe a conversa deles. Bonnie está além de brava; eu posso ver isso. “Preciso de açúcar,” eu digo. Bryce cruza os braços sobre a mesa. Inclino-me para mais perto e escuto. Minha mão brinca distraidamente com a asa da caneca. “É baseado na jornada de um imigrante da Irlanda para a América,” Bryce diz. “Começamos com um solo de violino irlandês, depois tocamos uma flauta, depois mais cordas.” Eu solto uma risada. Aposto que soa ótimo. Bryce me lança um olhar. Então ele cobre a mão dela com a dele, e voltou sua atenção para ela. Bonnie tenta afastar a mão, mas Bryce enfia os dedos entre os dela e mantém o toque. Bonnie olha para os dedos entrelaçados e franze a testa. O babaca não viu. Duas coisas conflitantes acontecem dentro de mim. Sinto uma quantidade estúpida de alívio por ela não gostar dele desse jeito. Mas meu sangue vira lava no fato de que ele a está tocando. Tomo meu café, esperando que o pico de cafeína e açúcar ajude. Eu estremeço. Odeio açúcar no meu café. Quando coloco a caneca vazia de volta na mesa, nada mudou. “Você está feliz por trabalhar sozinha, não é?”

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Ele não tem ideia do que diabos está fazendo. Eu sei muito disso. Porque se Bryce soubesse que eu estou perto de esmagar meu punho em sua boca, ele a manteria fechada. “Sim,” Bonnie diz. Ela tem o bom senso de não dizer mais nada. “Algumas pessoas simplesmente não são destinadas a música clássica, sabe?” Eu passo meus dentes pelo meu lábio inferior. Mas o babaca não para. “Algumas pessoas podem juntar algumas batidas em um laptop e chamá-la de música. Eles estão perdidos, convencendo todo mundo a pensar que são algo especial. Enquanto isso, os verdadeiros artistas entre nós são negligenciados.” Eu ri. “Artista? Você?” Seus lábios se apertam. Eu balanço a cabeça. “Você ainda está aborrecido com o fato de eu ter vindo para a Jefferson e acabei com a sua fogueira?” “O que diabos isso significa?” Eu cruzo os braços e me recosto na cadeira. “O Celeiro. O fato de que eu posso mixar melhor que você sem ouvir e com meus olhos fechados. Você está chateado por que eu tenho autonomia no curso e você não tem.” Levanto-me e vou até onde ele está sentado. “Você está com ciúmes que meu xixi batendo no sanitário do banheiro soa melhor do que qualquer coisa que você pode compor.” Eu curvo meu lábio. “Você está cheio de mediocridade, amargura e ciúmes.” Sento-me novamente e peço mais café. Há um silêncio atrás de mim até que ouço uma cadeira raspar no chão. Olho para trás para ver Bryce em pé. “Desculpe, Bonn. Podemos reagendar?” “Você vai embora?” Ela sussurra. Não gosto do turbilhão que senti em meu estômago quando ouvi o tremor embaraçoso em sua voz. Não gosto do cinza pálido que vejo quando suas palavras

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atingem meus ouvidos. Meu coração ainda está batendo. Mas quando a névoa vermelha cai dos meus olhos, eu me viro e vejo o rosto pálido de Bonnie, algo como arrependimento construído lá. “Sim. Eu... eu te ligo, ok?” Ouço a porta da cafeteria fechar. Os olhos de Bonnie estão feridos. “Por quê?” Ela pergunta baixinho. “Por que você teve que vir aqui hoje à noite?” Ela mexe em sua bolsa e joga um punhado de notas e moedas sobre a mesa. “Só para se vingar do fato de que não somos mais parceiros?” Ela ri sem humor. “Muito bem, Cromwell. Você arruinou isso para mim.” Ela se levanta da cadeira tão rapidamente que parece perder o equilíbrio. Sam voa e agarra seu braço para impedi-la de cair no mesmo instante em que eu pulo do meu lugar. “Você está bem?” Ele pergunta. Bonnie coloca a mão na cabeça. “Estou bem. Levantei rápido demais.” Então se afasta e corre para fora. Olho para Sam, que está de cara feia para mim. Eu jogo vinte dólares na mesa e me levanto. Ele agarra meu braço quando passo. “Deixe-a em paz.” Eu paro com sua ordem. Olho para a mão dele em volta do meu bíceps. “Você pode querer remover essa mão.” Sam puxa de volta, com os olhos arregalados, e eu passo por ele e corro para fora também. Eu procuro pela Main Street, mas não consigo vê-la em lugar nenhum. Quando atravesso a rua, vejo-a a distância, encostada na parede de uma loja de antiguidades, sob uma lâmpada de rua. Ela usa uma jaqueta jeans por cima do vestido e botas de cano baixo marrons nos pés. Bonnie levanta a cabeça enquanto eu caminho em sua direção. Ela parece cansada e desgastada. “Ele se foi.” Sua

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atenção desce pela rua escura. Quando se vira para mim, há lágrimas em seus olhos. “Eu só queria esta noite,” ela sussurra. “Depois de tudo... só queria que esta noite desse certo.” O som da sua voz quebrada faz algo dentro do meu peito. Ele racha de alguma forma. Bonnie enxuga uma lágrima que caiu em sua bochecha. “Eu nunca me deixei ter nada assim. Nunca consegui.” Ela engasga com dificuldade. Endireita os ombros e me olha nos olhos. “Mas eu queria saber como é. Eu não queria ter que pensar em tudo isso por uma maldita noite...” Olho para ela, não tendo nada a dizer. Do que diabos ela está falando? O que ela quer esquecer? Corro minha mão pelo meu cabelo. Suas lágrimas vêm com mais força, até que ela se afasta da parede e se vira para mim. As lágrimas estão lá, mas agora era algo que eu reconhecia muito bem - raiva. “Esta noite você foi cruel, Cromwell Dean. Você foi frio, cruel e indelicado.” Ela se aproxima. Seu rosto está quase tocando o meu. “Apenas me deixe em paz.” Ela baixa os olhos. “Por favor.” Bonnie se vira e começa a caminhar em direção ao seu carro. Mas ouvir sua voz ferida, vê-la se afastar, alcança algo dentro de mim. Meu sangue corre tão rápido em minhas veias que minha cabeça fica tonta. Eu não penso nisso; apenas ajo por instinto. Estendo a mão e agarro seu braço. Quando ela se vira, empurro-a para trás até suas costas baterem na parede. “Cromwell, o que...” ela ia falar. Mas antes que pudesse, meus lábios esmagam os dela. No minuto em que a provei na minha língua, meu coração começa a bater forte no meu peito. Um som de surpresa cai de sua boca e eu engulo tudo. Meu peito

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encosta contra ela e sinto o calor de seu corpo quando ele se mistura com o meu. Então ela começa a me beijar de volta. Seus lábios se abrem e eu empurro minha língua em sua boca. Bonnie cai contra mim quando eu pego sua boca. Enquanto eu a bebo. Suas mãos seguram meus braços, suas unhas cavam em minha pele nua. Nós somos um fogo ardente contra a parede. Eu não posso parar. A boca de Bonnie também não, lábios se movem mais rápido e mais forte quanto mais nos beijamos. Até que eu me afasto, atordoado. Os olhos de Bonnie se abrem e encontram os meus. Ela olha para mim pelo que parece ser uma hora, então seus olhos se enchem de lágrimas, quebrando completamente meu coração. Bonnie não diz nada. Suas bochechas estão vermelhas, sua respiração irregular. Então ela vai embora, correndo para seu carro. Liga a ignição em segundos e sai para a rua. Eu vejo suas lanternas traseiras desaparecerem de vista. Fico na rua, respirando profundamente, até que um ruído atrás de mim me tira de qualquer que seja o nevoeiro que eu acabei de encontrar. O vento sopra no meu rosto, e isso imediatamente me acorda. Eu forço meus pés a se moverem, um na frente do outro, até que estou voltando para casa. Mas a cada passo eu me lembro do que aconteceu. Sinto seu perfume de pêssego na minha língua. Olho para baixo e vejo as marcas das unhas dela quando me segurou com tanta força. Meu peito ainda está quente de onde ela estava pressionada contra mim. “Merda,” eu murmuro enquanto lambo meus lábios, meu piercing de língua está quente por causa da sua língua contra a

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minha. Eu noto ninguém ao meu redor enquanto caminho. E nem percebo que cheguei em casa até que paro na porta do dormitório. Assim que entro no meu quarto, vejo Easton em seu banquinho de pintura, tinta espalhada por toda a roupa e uma tela coberta de tons escuros. Eu olho para a tela. Estou acostumado a ver suas cores berrantes, não cinzas, marrons e vermelhos escuros. Easton olha por cima do ombro. “Cromwell.” Aceno com meu queixo para ele. Mas isso é tudo que ele receberá. Minha cabeça está cheia. Cheia da sua irmã gêmea e do gosto que ela deixou na minha boca. Eu caio na cama e olho para o teto. Fecho meus olhos, eu a vejo na minha cabeça. Seus longos cabelos castanhos. Seu vestido roxo e botas marrons. Eu esfrego meus olhos, tentando me livrar da imagem. Você foi cruel esta noite, Cromwell Dean. Você foi frio e cruel e indelicado... As palavras afundam profundamente, apunhalando meu peito. Mas os cortes são suavizados quando penso nos olhos dela depois do beijo. Seus lábios inchados e bochechas coradas. Abro meus olhos. Easton ainda está sentado no mesmo lugar, olhando para a pintura. “East?” Minha voz parece tirá-lo do que ele está pensando. Easton tem agido de forma estranha ultimamente. Mantendo-se mais introspectivo em vez de se inserir na minha vida, convidado ou não. Easton se vira. “O quê?” “Eu chamei o seu nome.” Easton coloca os pincéis e a paleta de tinta. Ele passa a mão pelo rosto. Eu olho para a sua pintura. “Profundo.”

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Ele olha para a tela, em seguida, tem um enorme sorriso no rosto. Dando de ombros, ele se levanta do banco e senta no final da minha cama. “Você suja meus cobertores com tinta então irá lavá-los.” Suas sobrancelhas sobem. “Depois que Kacey esteve aqui, você precisará lavá-los de qualquer maneira.” Kacey... a lembrança deixa um gosto amargo na minha boca. Eu quero manter a memória de Bonnie lá tanto quanto posso. Eu não tenho certeza se serei capaz de esquecer. “Não transei com ela.” "Não foi o que Bonnie disse.” “Ela está errada.” Eu me sinto atraído para a pintura novamente. “Onde está todo o néon?” Easton exala uma respiração profunda. “Não estou sentindo isso no momento.” Há algo diferente em seu tom. Não consigo definir isto. Mas é de cor verde-floresta. “Onde você esteve?” Ele pergunta, mudando de assunto. Viro-me na cama e puxo meu laptop da mesa de cabeceira. Acabei de enviar mais mixagens. Verifico os downloads — são milhares. “Fui tomar um café.” “Você viu a Bonnie? Ela está sempre lá nos finais de semana. O Celeiro não é coisa para ela.” Balanço a cabeça, não encontrando seus olhos. “Não. Não a vi.” “Ela provavelmente já foi para casa. A noite de noite do microfone aberto é amanhã.” Ele comenta tão casualmente que eu quase perco isso.

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“Microfone aberto?” Easton tira a camisa e sobe em sua cama. Ele pega seu tablet e carrega o próximo episódio de qualquer coisa que estava assistindo. “Ela vai lá assistir?” Eu pergunto, aumentando a minha música. “Ela toca lá.” Easton levanta seus fones de ouvido. “Estou prestes a entrar na escuridão.” Balanço a cabeça quando ele coloca os fones de ouvido e se deita. Eu faço uma careta, imaginando o que diabos Bonnie faz em uma noite de microfone aberto. Pensei que o negócio dela fosse composição clássica? Começo a as mixagens, mas minha cabeça não está lá. Eu não consigo parar de pensar em Bonnie. O beijo. Os olhos dela. O jeito que eu completamente me perdi quando ela me disse para deixá-la sozinha com Bryce. E como ela parecia após o beijo. O jeito que seus olhos castanhos se encontraram nos meus. Fecho meu programa de mixagem e procuro o site da cafeteria. Abro a noite do microfone. Começará às oito horas amanhã. Eu fecho meu laptop e os meus olhos. Tudo o que vejo é o rosto bonito de Bonnie, a visão fazendo com que o aperto dentro de mim diminua. “Cromwell?” A voz de Easton me acorda quando estou quase dormindo. Eu abro um olho. “O quê?” “O Celeiro abrirá amanhã. Tudo bem para você ficar nos decks?”

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Abro minha boca para dizer sim, mas ao invés disso eu paro, então digo: “Não posso. Ocupado.” “Encontro quente, hein?” Solto uma respiração lenta. “Só tenho um lugar para estar.” “Ótimo. Estou preso com o Bryce novamente.” Easton volta ao seu tablet. Fico acordado até o sol nascer. Eu culpo o sabor de pêssego que permanece nos meus lábios.

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Capítulo 13 Cromwell

O lugar está lotado. As pessoas entram no caminho para fumar ou ir para o bar do outro lado da rua. Eu olho pela janela, mas não consigo ver nada. Abaixo minha cabeça e entro pela porta. Não há sinal de Bonnie. As luzes são fracas, exceto pelo holofote que brilha no palco. Enquanto eu me espremo através da massa de pessoas para o lado da sala, uma mesa no escuro fica livre. Eu deslizo no banco antes que alguém possa pegá-lo. Demora dez minutos para que o garçom venha anotar meu pedido. Quando Sam me vê, seu rosto congela. Ele olha para trás e depois me encara novamente, parecendo em pânico. “Eu não posso acreditar que você.” Levanto minha mão. “Eu só estou aqui pelo café.” O rosto de Sam me diz que ele duvida disso, mas pergunta: “O de sempre?” Eu aceno a cabeça e ele desaparece. Não tenho certeza se ele diria a Bonnie que eu estou aqui ou não. Então eu sento e ouço três cantores. Um deles é bom. Eu olho para a mesa o tempo todo, vendo cores enquanto eles tocam e cantam. Esfrego

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minha cabeça. Minhas têmporas latejam, fazendo-me sentir como se estivesse no meio de uma enxaqueca. Minha cabeça dói e meu pescoço está duro. É porque estou lutando contra eles — as cores, as emoções, os gostos. Eu estou lutando contra todos eles, quando tudo que meu corpo quer fazer era abraçá-los. ‘Você não pode pará-los,’ a voz do meu pai ecoa na minha cabeça. ‘Faz parte de quem você é, filho. Abrace-os.’ Ele sorri. ‘Eu gostaria de ver e senti-los também. Que presente...’ Aperto meus olhos fechados, prestes a sair, quando o gerente do lugar vem ao microfone. “E agora, uma boa amiga da cafeteria Jefferson — nossa garota da casa, Bonnie Farraday.” Tenho uma visão clara do palco do meu lugar. Então vejo o minuto em que Bonnie entra no palco com a ajuda de Sam. Ele lhe entrega um violão. Parece velho e desgastado. Mas ela o segura como se fosse uma extensão de seu braço. Bonnie não olha para a multidão. Nem uma vez. Ela mantém os olhos no violão, e no banquinho quando se senta. Ela está vestida com calça jeans skinny e um suéter branco que cai de um ombro, mostrando sua pele pálida. Seu cabelo estava afastado do rosto em uma trança intrincada. Ela usa brincos de pérola nas orelhas e algum tipo de pulseira pendurada em seu pulso. “Olá a todos. Esta se chama "Asas.” Bonnie fecha os olhos quando sua mão encontra o pescoço do violão. Eu seguro minha respiração quando ela começa a tocar. Verde-oliva dança em minha mente, o lento dedilhar das cordas. E então ela abre a boca, e o azul-violeta mais vibrante que eu já vi brilha como um fogo de artifício na minha cabeça, fazendo minha respiração ficar presa na minha garganta. E então a letra

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atinge meus ouvidos, e meu peito se despedaça quando as palavras se registram e cortam direto o meu coração.

Alguns não são destinados a esta vida por muito tempo. Um olhar fugaz, um canto tranquilo de um pássaro. Almas muito puras, apagam-se muito rápido, Corpos tão frágeis, perdendo a luta. Corações perdem suas batidas, ritmos muito lentos, Anjos chegam, e precisam partir. Escapar deste lugar, em direção aos céus e ao paraíso, Coberto em paz, onde ninguém morre. Esperança deixada naqueles que amaram Já não mais aprisionados, agora são as asas de uma pomba... Asas, brancas como a neve, brotam do meu coração. Asas abertas, prontas para partir. Lágrimas em meus olhos, dou um último olhar. Eu vivi, amei e dancei a doce dança da vida...

Estou congelado no assento. Meu corpo trancado em cores rosa-pálido e lilases. O azul-violeta mantinha um círculo cintilante a cada nova nota. Os triângulos de tempo, comutação e moldagem em diferentes tamanhos e ângulos.

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Um nó se forma na minha garganta quando a voz dela atravessa a cafeteria. Meu estômago e meu peito estão tão tensos que doem. O rosto do meu pai vem à minha cabeça — seus sorrisos, seus aplausos... e o tempo que eu fui embora... Um forte aplauso rompe meus pensamentos. A pintura na minha cabeça desaparece, deixando apenas sombras de cor enquanto elas se agarravam à escuridão. Eu exalo, sentindo-me esgotado, como se estivesse correndo por quilômetros. Tomo um grande gole do meu café. O gerente faz uma pequena pausa. No minuto em que as luzes se acendem, Bonnie vira a cabeça. É como se ela tivesse me sentido sentado aqui. Assistindo. Seu rosto congela quando seus olhos encontram os meus. Ela tropeça para fora do palco. Sam a pega e ela consegue segurar seu violão antes de cair. Bonnie diz algo para Sam, em seguida, corre do palco e sai para os fundos. Estou de pé em segundos, empurrando a multidão. Sam fica no meu caminho. “Ninguém é permitido lá atrás.” Cerro os dentes, preparado para derrubar esse cara se ele não saísse do meu caminho. Então olho pela janela e vejo Bonnie atravessando a rua com seu violão no estojo. Eu não penso demais nisso. Apenas atravesso a multidão, as luzes se apagam enquanto o gerente entra no palco e anuncia o próximo intérprete. Bonnie desaparece no parque. Eu corro pela rua e sigo o caminho dela. Ela está de pé sob a luz da rua, pouco antes do pavilhão no meio da grama. Meu pé quebra um galho caído, e Bonnie olha para cima, seus olhos castanhos estão enormes. Seus ombros se fecham. Ela

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trouxe seu violão ao peito como se fosse protegê-la. Protegê-la de mim. “Cromwell...” Sua voz está cansada e tensa. É por minha causa, por causa da noite passada. O que eu fiz. O que fiz muitas vezes. Não gosto de como a faço parecer triste. “Por que você veio aqui hoje à noite?” Olho para ela, sem dizer uma palavra. Não posso. Agora que estou aqui, não posso dizer nada. Eu apenas continuo vendo a impressão de suas cores em minha mente. Ouço aquelas letras tocando repetidamente, me apunhalando no peito. Como eu a faço entender? Congelo pensamento. Porque eu quero que ela entenda.

com

esse

Bonnie suspira alto. Ela vira as costas para mim e começa a se afastar. Meu pulso dispara. Ela está saindo. Minha mente corre, meus lábios se apertam e eu grito: “Sua ponte5 estava fraca.” Bonnie congela a meio passo. Ela se vira para mim. Eu me aproximo. Apenas alguns metros. “Minha ponte está fraca?” Sua voz está rouca e exausta... exasperada. “Sim.” Coloco minhas mãos nos meus bolsos. “Por que, Cromwell? Por que ela está fraca?” Posso ver que ela está esperando que eu desligue. Para não me explicar. Para correr. “Porque a ponte era azul-marinho.” Meu rosto pega fogo.

5

Ponte refere-se à transição de uma melodia para outra na música.

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“O quê?” Bonnie pergunta. Eu olhei ao meu redor. Não posso acreditar que eu tinha dito essas palavras. “Cromwell, o que —?” “A ponte era azul-marinho. Azul-marinho me diz que é fraco.” Ela é uma estátua na minha frente. Seu rosto está cheio de confusão. Eu luto contra o aperto no meu peito e limpo a garganta. “O resto era verde-oliva e rosa... todos menos a ponte.” Eu balanço a cabeça para pegar a imagem do azul-marinho dele. Eu bati na minha têmpora. “Era azul-marinho. Não encaixa. O azul-marinho não pertence a boas composições.” Sua boca se abre e a excitação que vi na noite em que toquei o piano com ela ao meu lado está vermelha em seus olhos. “Sinestesia,” ela sussurra, e ouço a admiração em sua voz. “Você é um sinestésico." Ela não colocou isso para mim como uma pergunta. Bonnie se aproxima e eu quero correr de novo. Porque está tudo comigo dessa vez. Mas eu luto. Recusome a fugir dela novamente. Solto um suspiro. Eu disse a ela. Ela não me forçou a dizer isso. Bonnie tinha acabado de tocar, de alguma forma ela ficou sob as minhas paredes, e a verdade foi derramada. “Cromwell...” Ela olha para mim de um jeito que nunca olhou antes. Percebo neste momento que ela sempre se aproximou de mim com cautela. Seu rosto sempre esteve um pouco fechado ao meu redor. Mas agora está aberto. Está bem aberto. “Que tipo?” Ela para e está tão perto. O cheiro do dela sobe pelo meu nariz, e língua. Tudo é mais ao seu

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seus pés encontram os meus. Ela perfume de pêssego e baunilha eu provo o gosto doce na minha redor. Meus sentidos estão tão


sobrecarregados que eu quase não consigo respirar. Eu vejo cor e fogos de artifício. Provo a doçura, cheiro seu perfume e respiro quem ela é. São linhas e formas e tons e cores, metálicos e mate. Tudo bate em mim como uma inundação. E eu deixo entrar. Como uma represa explodindo, eu a deixo entrar. Ofego com a força das emoções. “Cromwell?” Bonnie segura meu braço. Eu congelo, olhando para a mão dela em mim. Ela ia retirá-la. Mas estendo a mão e cubro os dedos dela com os meus. Bonnie para. Seus olhos caem do meu rosto para as nossas mãos. Eu esperei que se afastasse, mas ela não o fez. Ouço-a respirando com dificuldade. Vejo seu peito subir e descer. Ela pisca, seus longos cílios negros escondendo o que eu sei que são enormes olhos castanhos chocados. Eu finalmente a deixo entrar. “Cromestesia,” eu digo. Bonnie olha para cima, suas sobrancelhas franzidas em confusão. Eu inalo e me resigno a admitir. “O tipo de sinestesia que eu tenho. É Principalmente cromestesia.” “Você vê os sons.” Um pequeno sorriso curva seus lábios. “Você vê a cor quando a música toca.” Eu balanço a cabeça. Uma respiração rápida deixa sua boca. “O que mais?” “Hmm?” “Você disse que é principalmente cromestesia. O que mais acontece com você? Eu não sabia que você pode ter mais de um tipo.” “Não sei muito sobre tudo,” eu admito. “Eu tenho. Além do que o meu pa...” eu engulo e me forço a continuar. “Além do que meu pai me disse quando ele pesquisou, é tudo que eu sei.” Eu dou de ombros. “É normal para mim. É a vida cotidiana.”

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Bonnie olha para mim como se nunca tivesse me visto antes. “Eu já li muito sobre isso,” ela diz. “Mas eu nunca conheci ninguém com isso.” Seus dedos apertam os meus. Eu esqueci que estava segurando sua mão. Olho para os nossos dedos entrelaçados. Algo se acalma em mim. Sempre acontece ao seu redor. A raiva constante dentro de mim desaparece para quase nada. Isso só acontece com Bonnie. “Seus sentidos se misturam, ouvem, veem e provam.” Ela balança a cabeça. “É incrível.” “Sim.” “E a minha ponte era azul-marinho?” Eu balanço a cabeça. “Por quê?” Ela pergunta, soando quase sem fôlego, pois está tentando falar tão rápido. “Como?” “Venha comigo.” Começo a levar Bonnie pela mão através do parque. Ela me segue. Eu não sabia se ela faria. Se me perdoou por machucá-la na semana passada. “Onde estamos indo?” “Você verá.” Então ela fica para trás, diminui a velocidade. Não se move mais rápido. Sua respiração é curta e rápida. Eu olho para o seu rosto corado e a testa úmida. Estendo a mão para ela e pego o seu violão. Vermelho estoura em suas bochechas. “Você está bem?” Eu pergunto. Não sei por que ela está tão sem fôlego. Bonnie empurra alguns cabelos caídos do rosto. "Apenas fora de forma." Ela ri, mas soa estranho aos meus ouvidos. Não é cor de rosa. “Preciso começar um pouco de exercício aeróbio."

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Eu mantenho um ritmo lento enquanto Bonnie caminha ao meu lado. Eu continuo esperando ela retirar sua mão, mas ela não o faz. Gosto de segurar a mão dela. Estou segurando a mão de uma garota. Eu continuo aguentando. Quando chegamos ao departamento de música, posso sentir o ar engrossar à nossa volta. Eu paro na porta. “O que há de errado?” Ela pergunta. Agarro o violão mais apertado, então finalmente puxo minha mão da dela para que eu possa pegar minha identificação para nos fazer entrar. Meu queixo está apertado quando me afasto. Os olhos de Bonnie estão arregalados nos meus e eu sei por que ela hesitou. Eu não queria deixá-la ir. Parece que há algumas pessoas no prédio. Linhas de vermelho-carmesim flutuam diante dos meus olhos quando um oboé toca em uma das salas. Bonnie olha para mim, com seus lábios entreabertos, prestes a dizer alguma coisa. “Linhas vermelhas carmesim.” Bonnie para perguntaria isso?”

petrificada. “Como

você

sabia

que

eu

Olho para o seu rosto. Ela tem sardas no nariz e nas bochechas. Eu não os notei antes. Seu nariz é pequeno, mas seus olhos e lábios são grandes. Seus cílios são os mais longos que eu já vi. “Cromwell?” A voz de Bonnie está rouca. Eu percebo que estou encarando-a. Meu pulso acelera um pouco, e posso sentir

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meu coração batendo no meu peito. As batidas me trazem flashes estroboscópicos do pôr do sol alaranjado. “Você tem sardas.” Bonnie olha para mim, não se movendo ou fazendo qualquer som. Mas então seu rosto fica vermelho. Eu abro a porta da sala de ensaio e entro. Ligo a luz e coloco o violão dela. Bonnie fecha a porta. A sala fica em silêncio. Eu coloco minhas mãos nos bolsos. Eu não sei o que devo fazer agora. Bonnie vem para frente. Eu não consigo tirar meus olhos do ombro em que seu casaco branco está pendurado. De sua pele pálida. “Por que estamos aqui, Cromwell?” Sua voz está tremendo. Quando eu realmente olho para ela, posso ver que ela está nervosa. Eu a deixo nervosa ao meu redor. E me odeio por isso. Pego o violão dela no estojo. Entrego-o a ela e aponto para um banquinho. Bonnie hesita, mas ela pega o violão de mim e se senta. Suas mãos correm pelo pescoço do vilão, apenas sentindo. “Cante,” eu digo, minhas palmas deslizam sobre o meu jeans quando me sento em frente a ela. Bonnie sacode a cabeça. “Eu não acho que posso.” Sua mão aperta o pescoço do violão, e ela lambe os lábios. Ela está nervosa para cantar. “Cante. Brinque,” eu digo novamente. Mexo-me no meu lugar, sentindo-me como um idiota. Mas pela primeira vez em anos, eu me vejo realmente querendo ajudar alguém. Da única maneira que eu sei como. Bonnie respira fundo e dedilha as notas de abertura. Eu fecho meus olhos. Posso ver a cor melhor quando o faço. Como

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antes, vi verde-oliva. Eu vejo as formas, linhas e tons. Apenas com ela tão perto, eles são... mais. Eles são mais brilhantes. Eles são mais vívidos. Meu corpo se contrai enquanto tento bater nas paredes para bloqueá-las. Esse foi o meu Modus Operandi por três anos. Era rotineiro. Meu corpo tentando esconder as cores. Isso nunca funcionou. Nem uma vez em três anos eu consegui bloqueá-los completamente. Eles apenas concordaram em ficar um pouco entorpecidos. Mas não agora. Agora eles são tão brilhantes que quase são demais para lidar. Mas quando Bonnie começa a cantar, o azulvioleta assume tudo. A linha irregular está em volta, a cor que se recusa a diminuir. Meu coração dispara quando deixo meu cérebro fazer o que nasceu para fazer. Traz cor ao som e acende como na Noite de Guy Fawkes na minha cabeça. Meus músculos se desenrolam e a música penetra nas fibras, dando a cada uma delas a vida. Com cada barreira que deixo cair, meu corpo relaxa, a tensão que carreguei por tanto tempo desaparece na voz de Bonnie. Minha cabeça assente com o tempo até a batida, até que ela muda a melodia, e uma linha azul-marinho irregular, em forma de um raio, atravessa o azul-violeta, verdes e rosa. “Aí.” Eu abro meus olhos. Bonnie para de tocar, a mão congela no pescoço do violão. Eu me inclino para frente, vendo a fotografia das cores em minha mente. Capturando o momento em que a tela foi arruinada. Bonnie está me observando, ofegante. Seus dedos estão tensos no violão como se ela não ousasse se mexer. Eu me adianto, levo meu banquinho comigo, até que estou na sua

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frente. Eu não consigo chegar perto o suficiente do violão. Então me aproximo ainda mais, as pernas de Bonnie ficam entre as minhas. Ela olha para mim. Eu posso sentir o cheiro de menta em seu hálito, pois ela sempre mastiga um chiclete. “Volte algumas notas.” Eu nunca tiro meu olhar do dela. Bonnie coloca os dedos e toca. Eu estou congelado quando a cor toma conta de mim como um banho. Meu peito está tão quente. Quando o azul-marinho corta meu cérebro, eu paro a mão dela com a minha. De olhos fechados, movo sua mão no pescoço do violão. Eu sei onde quero que seus dedos estejam e que notas ela precisa tocar. “Dedilhe,” eu peço. Bonnie faz. Movo a mão dela novamente. “Novamente.” Mudo para outro acorde. “Novamente.” Eu faço isso de novo e de novo, seguindo o padrão de cores em minha mente. Pintando as cores com antecedência e seguindo sua liderança. Eu mentalmente pinto as notas até que elas se mesclassem com as que Bonnie criou. Meus dedos levantam o violão e Bonnie continua tocando. Sinto sua respiração quando passa pela minha orelha, enquanto sua voz canta as palavras da música tão suavemente. Eu me aproximo, precisando ver a dança do azulvioleta diante dos meus olhos. Escuto até a última nota soar e pego a tela pronta em minha mente com ela. A respiração de Bonnie é superficial. Está tremendo. Eu lentamente abro meus olhos. Quando o faço, percebo o quão perto eu cheguei. Minha bochecha está ao lado da dela, as pontas da minha barba tocam sua pele. Minha orelha está quase em sua boca. Eu me aproximei para ouvi-la cantar. Ouvir aquele azul-violeta perfeito.

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A respiração de Bonnie gagueja. Eu fico perto, não querendo me afastar. Lentamente, puxo minha cabeça para trás até que olho para ela, seu nariz a apenas um centímetro do meu. Seus olhos são enormes e cheios de algo que eu não vi nela antes. E eu desejo saber o que é. “O que...” Engulo. Meu joelho bate contra sua coxa. “O que você acha?” “Cromwell,” ela sussurra, um leve tremor vibra em sua voz. “Eu não tenho... eu não poderia escrever nada assim.” Suas bochechas coram. “Não sem você.” Meu coração bate contra minhas costelas. “Eu apenas segui as cores.” Eu levanto meu queixo em sua direção. “Cores que você criou.” Bonnie procura meus olhos como se pudesse ver através deles. Como se estivesse tentando ver dentro de mim. “É por isso que ele te trouxe aqui. Ele sabe o que ainda vive dentro de você. Lewis. É o que ele viu em você.” Suas sobrancelhas castanhas se unem, uma expressão simpática em seu rosto bonito. “Por que, Cromwell? Por que você luta contra isso?” Suas palavras são como um balde de gelo derramado sobre a minha cabeça. Eu me afasto, esse é meu mecanismo de defesa para fugir, para derrubá-la verbalmente e afastá-la. Mas a mão de Bonnie se afasta do violão e toca a minha bochecha. Eu congelo. Seu toque me mantém enraizado no local. Luto contra a necessidade de correr. Um caroço sufoca minha garganta e arranha o meu peito. Mas quando olho para os olhos dela, não me mexo. Em vez disso, meus lábios se abrem e eu digo: “Porque eu não quero mais isso.” Sua mão está quente no meu rosto. Seus dedos são macios. “Por quê?” Lágrimas enchem seus olhos quando eu não

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respondo. Eu me pergunto se ela viu algo no meu rosto. Eu me pergunto se ela ouviu alguma coisa na minha voz. Mas eu não consigo responder. A mão de Bonnie escorrega da minha bochecha e eu sinto como se tivesse mergulhado no meio do inverno inglês. Tudo fica repentinamente frio e sem graça, sem calor. Bonnie sorri. Ela coloca a mão de volta no violão. Há linhas enrugadas em sua testa. “Não me lembro dos novos acordes.” Levanto o banquinho e me movo atrás dela. “Avance para frente.” Bonnie olha por cima do ombro para mim. Suas pupilas se dilatam, mas ela faz o que eu peço. Sento-me atrás dela. Bonnie não está perto o suficiente, então eu enrolo meus braços ao redor de sua cintura e a movo novamente. Bonnie solta um suspiro surpreso quando seu corpo se move contra o meu peito. Meus braços se envolvem ao redor dela, sombreando os dela. As tatuagens nos meus braços nus se destacam como luzes no escuro contra as mangas brancas da sua blusa. Meu queixo fica logo acima do ombro dela. Vejo-a inalar profundamente. Foi uma explosão de castanho-avermelhado em minha mente. “Mãos prontas,” eu digo. Olho para o seu ombro nu embaixo da minha boca. Sua pele esquenta, suas orelhas ficam vermelhas, e eu vejo seus lábios se separarem. Sinto o canto da minha boca se transformar em um sorriso. “Toque. Quando chegarmos à ponte, eu te ajudarei.” Então ela o faz. As palavras de Bonnie passam por mim. Mas as letras são novamente como um punhal no meu coração. A tristeza nelas enquanto ela canta. A linha azul-violeta de sua voz que corre através de mim como um monitor cardíaco incha com sua emoção. Com as palavras que mais ressoam com ela.

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Quando a ponte sobe, coloco minhas mãos sobre as dela. Sinto-a estremecer contra mim. Mas continuo deixando-a dedilhar quando coloco suas mãos nos acordes que estão em sincronia com o resto da música. Tocamos mais três vezes antes que as mãos dela caiam das cordas. “Você entendeu?” Eu pergunto, minha voz soando rouca até mesmo para os meus ouvidos. Estou tão perto dela. Seu pequeno corpo encaixado no meu como o pedaço de um quebra-cabeça. “Sim, acho que sim.” Mas nenhum de nós se mexe. Eu não sei por quê. Mas permaneço sentado no banquinho com Bonnie Farraday encostada em mim. Até... “Cromwell?” A voz de Bonnie corta o conforto silencioso. “Você pode tocar qualquer coisa, não pode? Sem lições ou prática. Você pode apenas ver a música, e você tem a habilidade de tocar o que quiser.” Sua cabeça gira, seus lábios quase roçam os meus. Seus olhos me estudam. “As cores mostram o caminho.” Penso na primeira vez em que peguei um instrumento. Parecia tão natural para mim quanto respirar. As cores que dançavam diante dos meus olhos eram como um caminho. Eu só tinha que segui-las e eu poderia tocar. Encontro-me acenando com a cabeça. Bonnie suspira. “Você pode... você pode tocar minha música?” “Sim.” Sem tirar os olhos de mim, Bonnie encontra minhas mãos que estão descansando sobre o violão e as coloca em posição. Ela se recosta contra o meu peito. “Por favor, toque para mim.” Ela parece cansada, seu corpo continua encostado em mim e sua voz quieta. Meus dedos flexionam. O violão não é um

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instrumento que eu normalmente escolho. Mas isso importa. Ela está certa. Eu posso apenas tocar.

não

Minhas mãos simplesmente entendem a linguagem. Fechando meus olhos, começo a tocar os acordes. Nenhuma palavra acompanha a peça desta vez. Bonnie fica em silêncio enquanto ouve. Ela não move um músculo quando a música que ela criou se derrama dos meus dedos. No instrumento ela claramente ama. Quando a música termina, o silêncio invade a sala. Eu sinto Bonnie contra mim. Sinto seu cheiro de pêssego e vejo sua pele nua. Nem percebi que meus dedos começaram a se mover novamente até que as cores me mostrassem o caminho. E eu deixo. Não lutando desta vez. Não escondendo isso de Bonnie. Eu apenas penso nela e em nós agora, e uso o violão que ela tanto ama para dizer a ela sem palavras o que estou sentindo. Com a minha memória muscular, meu corpo reage a ser capaz de criar. Instrumentos reais e puros em minhas mãos. Não chaves de laptop e batidas sintéticas, mas madeira e cordas e as cores que levam. Pêssego e baunilha, pele cor de leite e cabelo castanho me empurram, inspirando notas. Não tenho certeza de quanto tempo eu toquei. Pode ter sido dois minutos ou duas horas. Deixei meus dedos soltos, libertei-os das algemas que os forcei há três anos. E com cada nota tocada, uma parte da raiva que eu alimentei a cada dia com minha tentativa de tocar, compor, desapareceu até que não passava de vapor, voando com toda a minha relutância em finalmente sentir isso. Esse sentimento viciante e crescente que apenas a música pode oferecer. Meu corpo reage como se tivesse respirado profundamente depois de anos trancando meus pulmões. Eu

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respiro. Meu coração bate. Meu sangue bombeia nas minhas veias. E eu compus música. É uma parte de mim, não algo que eu fiz. Parte da minha composição. E depois disso, eu não tenho certeza se seria capaz de voltar. Minhas mãos param. Meus dedos ficam dormentes por tocar. Mas é um bom tipo de dormência. Viciante. Pisco, clareando os olhos e vejo o piano me olhando do outro lado da sala. O violino. O violoncelo. A bateria. A adrenalina corre através de mim, incitando-me a brincar com todos eles. Agora que tive uma dose, sou como um viciado. Precisando mais e mais. “Cromwell...” A voz de Bonnie corta meus pensamentos. Sua mão vem até minha bochecha e ela vira a cabeça. Ela tem marcas de lágrimas em suas bochechas. Seus cílios estão grudados e úmidos e seus lábios estão vermelhos. Bonnie sempre tem a cor mais peculiar nos lábios. Tão vermelho que quase parece antinatural. Sua mão é uma maldita fornalha na minha pele. Viro-me contra a palma da mão, e um rápido suspiro escapa da boca de Bonnie. “Isso foi lindo,” ela diz e solta a mão. Passa por meus dedos que estão no pescoço do violão. “Essas mãos,” ela diz. Eu só posso ver suas bochechas se moverem deste ângulo, mas eu sei que ela está sorrindo. “A música que elas podem criar,” Bonnie suspira. “Eu nunca vi nada como isso.” Meu peito se expande, algo dentro dele inchando com suas palavras. Seu dedo passa por cima da minha mão até que ela finalmente a puxa. Ela boceja e eu posso ver que seus olhos estão ficando pequenos pelo cansaço. “Estou exausta, Cromwell. Eu preciso ir para casa.”

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Eu não movo. Pela primeira vez não sei por quanto tempo não quero me mexer. Quero ficar nesta sala de ensaio. Porque não tenho certeza do que aconteceria quando a deixássemos. Eu não tenho certeza se a raiva retornaria. A necessidade de correr tudo isso. Não sei se Bonnie irá embora. Depois do jeito que a tratei, acho que ela poderia. “Cromwell?” Bonnie empurra. Eu não aguento mais esse momento. Tiro minhas mãos do violão. Eu preciso sair do banco. Movo minhas pernas, mas antes que eu me levante, levo minha boca a sua orelha. “Eu gosto da sua música, Farraday,” eu sussurro e ouço sua respiração rápida. Fecho os olhos e respiro o pêssego e a baunilha. Bonnie arqueia no meu peito. Abaixo minha cabeça, correndo meu nariz pelo seu pescoço até que minha boca está em seu ombro nu. Escovo meus lábios sobre a pele pálida e macia, então beijo uma vez e saio do banco. Eu pego o estojo do chão e tiro o violão das mãos de Bonnie. Ela não saiu do banquinho. Quando o violão está guardado, finalmente olho para ela. Bonnie está me observando o tempo todo. Posso dizer pela expressão envergonhada no rosto dela. “Vou te levar de volta,” eu digo. Bonnie se levanta. Seus pés vacilam. Ela estende o braço. O pego, puxando-a para o meu lado para mantê-la firme. Ela está sem fôlego e parece muito quente. “Você está bem?” “Sim,” Bonnie diz nervosamente, e tenta se afastar de mim.

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Eu mantenho meu braço em volta dela. “Posso apenas mantê-la aqui para ter certeza de que você não caia.” Bonnie sorri um pouco e se encosta novamente no meu lado. Levo-a de volta para o seu dormitório. A noite está quieta. Eu não sei que horas são. Mas deve ser três ou quatro da manhã. Bonnie não diz nada. Não até que ela para e olha para mim. “Eu gostaria de saber,” ela fala, com voz tensa. Bonnie precisa chegar em casa. Ela precisa dormir. “Saber o quê?” “Como é para você vê-las.” Ela olha para longe, perdida em pensamentos. “Ouvir as cores.” “Eu... eu não sei como explicar isso,” eu digo. “É normal para mim. Não sei como seria não vê-las.” Dou de ombros. “Seria estranho.” “Seria chato.” Bonnie encosta-se de novo ao meu lado. “Acredite em mim, Cromwell. Seria um sonho meu entrar no seu mundo por um breve momento. Para ver o que você ouve... um sonho.” Chegamos ao dormitório de Bonnie. “Você tem um quarto só seu?” A cabeça de Bonnie se abaixou, mas ela assente. “Sim.” “Sortuda.” Ela sorri. “Você não gosta do meu irmão gêmeo?” Meu lábio se contrai. “Ele é legal.”

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Bonnie pega seu violão de mim. Ela está na porta, de cabeça baixa e nervosa. “Obrigada,” ela diz, olhando para mim através de seus longos cílios. “Obrigada por esta noite...” Assinto. Tento me mexer. Meus pés têm outros planos. “Eu acho que vou ver você na aula na segunda-feira.” Ela se vira para entrar, mas antes que entre, eu me inclino e beijo sua bochecha. Bonnie respira fundo. “Noite, Farraday.” Ando apenas alguns metros antes que ela dissesse: “Cromwell? Qual é a sua favorita? Sua cor favorita para ver?” Eu nem sequer penso antes de falar as palavras. “Azulvioleta.” Bonnie sorri e entra em seu dormitório. Eu a assisto ir, estupefato com o que acabei de dizer. Azul-violeta. Eu não vou para casa. Continuo andando. Ando até chegar ao ponto junto ao lago que Easton me mostrou. Sento-me na grama e observo o sol começar a subir. Pássaros cantam e trazem cintilações de laranja brilhante à minha mente. Carros passam, trazendo vermelho-escarlate. O mesmo canoísta que sempre vejo rema à distância e eu respiro profundamente. Provo o frescor do ar e o verde da grama. Estou impedindo as paredes de subirem de volta. Inclino minha cabeça para frente e empurro os dedos pelo meu cabelo. Eu não gosto de como me sinto instável. Muitas emoções estão passando por mim, misturando as cores até que eu não seja capaz de distingui-las... “Eu não quero mais,” eu bato no meu pai enquanto ele está ao lado do palco.

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Puxo minha gravata borboleta e passo por ele. “Perdi meu jogo de futebol com meus companheiros hoje.” Continuo andando. “Em vez disso eu tive que vir aqui.” Aponto para o corredor que está cheio de pessoas. Todos eles mais velhos que eu pelo menos vinte anos. “Cromwell, eu sei que você está chateado. Mas, filho, a chance que isso está lhe dando. A música... você é tão talentoso. Eu não posso dizer isso o suficiente.” “Eu sei que você não pode! É tudo o que você fala. Isso é tudo que eu faço!” Fecho minhas mãos em punhos. “Estou começando a odiar a música.” Bato com a mão na minha cabeça. “Eu odeio essas cores. Eu gostaria de nunca as ver!” Meu pai coloca as mãos no ar. “Eu entendo, filho. Eu faço. Mas estou apenas olhando para o seu futuro. Não acho que você veja seu próprio potencial...” “E Tyler Lewis? Por que ele está aqui agora? Por que ele está tentando trabalhar comigo?” “Porque ele pode te ajudar, filho. Eu sou um oficial do exército britânico. Não tenho ideia de como promover seu talento. Como ajudar você a perceber seu potencial.” Ele balança a cabeça. “Eu não vejo as cores como você. Não posso nem tocar 'Chopsticks' no piano. Estou fora do meu alcance.” Ele suspira. “Lewis pode ajudálo a ser o melhor que você pode ser. Eu prometo... eu te amo filho. Tudo que faço é sempre por você...” Pisco a memória e sinto meu estômago afundar. Eu sento por duas horas apenas observando o lago. Pego um burrito como café da manhã no caminho, mas depois paro no prédio da música. Minhas emoções guerreiam dentro de mim. Quero muito aceitar tudo isso de novo — a música, o amor por tocar, a paixão de compor. Mas a escuridão que tive por três anos sempre

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espreita, pronta para mostrar o dedo e arrebatar tudo. Mas então o rosto de Bonnie brilha na minha cabeça, e uma sensação de calma passa por mim. Eu me deixo entrar e vejo a luz no escritório de Lewis. Minha mandíbula se aperta quando levanto minha mão para bater. Eu paro por um segundo e apenas penso. O que diabos você está fazendo, Dean? Pergunto-me. Mas então penso no sorriso de Farraday e meus dedos batem em madeira. “Entre?” A permissão para entrar é um cruzamento entre uma pergunta e um comando. Eu abro a porta. Lewis está de pé atrás de sua mesa , partituras de música espalhadas na mesa. Ele está usando óculos. Eu nunca o vi usá-los antes. “Cromwell?” Ele diz surpreso. Suas coisas estão em todo lugar. Parece que ele não dormido. Junte-se ao clube. “Lewis.” Sento-me no assento em frente a ele. Lewis me observa cautelosamente. Ele se senta, reunindo as partituras. Eu vejo como ele as arruma. Lewis para e vira para me encarar. “O que você acha?” Posso dizer pelo seu tom que ele não achava que eu responderia. Mas quando eu estava rabiscando anotações no papel do manuscrito, não consegui desviar o olhar. Ele tem partes para quase uma orquestra completa. Meus olhos percorrem as notas, o padrão colorido da música toca na minha cabeça. Olho para todas elas, sinergizando-as na sinfonia que está sendo escrita. “É bom.” Estou dizendo o mínimo. Está além de bom. E pelo olhar no rosto de Lewis, ele sabe disso. “Ainda está no princípio, mas até agora, estou feliz com isso.”

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Eu olho para aquela foto dele no Royal Albert Hall. Eu sempre olho quando chego aqui. Ela guarda muitas lembranças para mim. “Para quê é isso?" Eu aponto para a música que Lewis está colocando em pilhas. “A National Philharmonic fará um grande concerto de gala em Charleston em alguns meses, celebrando novas músicas. Eles me pediram para continuar. E eu concordei.” Faço uma careta. “Eu pensei que você não conduzisse sua música mais.” “Eu não faço.” Ele ri e balança a cabeça. “Eu estou melhor nos últimos anos...” Ele não termina a frase, mas eu sei que é em relação aos seus problemas com drogas e álcool. “Então pensei em dar uma chance.” Ele se inclina para frente e coloca os braços cruzados sobre a mesa. “É domingo de manhã, Cromwell. E parece que você esteve acordado a noite toda também. Como posso ajudá-lo?” Encaro minhas mãos no meu colo. Meu sangue está correndo em minhas veias tão rápido que posso ouvir em meus ouvidos. Lewis espera que eu falasse. Não sei como diabos explicar. Quase me levanto e saio, mas o rosto de Bonnie veio à minha mente e me faz enraizar no assento. Brinco com minha língua, depois solto: “Tenho sinestesia.” As sobrancelhas de Lewis se levantam. Ele assente. E pela falta de choque em seu rosto, eu sei. “Meu pai...” balanço a cabeça. Eu até solto uma risada. “Ele disse a você, não é?” Lewis usa uma expressão que não reconheço. Pena, talvez? Simpatia? “Sim, eu sabia,” ele diz. “Seu pai...” Lewis me observa de perto. Eu não o culpo. Quase rasguei sua garganta na

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última vez que ele o mencionou. Quando vê que estou me controlando, ele acrescenta: “Ele entrou em contato comigo quando eu estava na Inglaterra em uma das minhas turnês.” “O Albert Hall.” Aponto para a foto em sua parede. “Ele me trouxe para conhecê-lo.” Nós todos fomos. Eu, mamãe e papai. Ele estava de folga do exército. Lewis me dá um sorriso fechado. “Sim. Eu te convidei para o show. Mas eu não estava...” Ele suspira. “Eu não estava bem. Já estava usando há anos naquele ponto.” Lewis olha para a foto. “Quase morri naquela noite. Tomei tanta heroína que meu agente me encontrou no chão do hotel.” Seu rosto empalidece. “Eu estava a poucos minutos da morte.” Ele me encara novamente. “Foi um ponto de virada para mim.” “O que isso tem a ver comigo?” “Lembro-me de você. Não me lembro daquela noite, mas me lembro de ter conhecido você. O menino com sinestesia e a capacidade de tocar qualquer coisa que ele tenha aprendido.” Ele aponta para mim com as mãos entrelaçadas. “O menino que, aos dez anos de idade, poderia compor obras-primas.” Frio corre através de mim. “Eu falhei com seu pai, Cromwell. Foram anos antes de eu estar em uma situação melhor para te ajudar. Eu entrei em contato com ele. Até fui para a Inglaterra, mas você já estava perdendo o amor pela composição.” Lewis encontra meus olhos. “Quando soube da morte dele... eu quis honrar o acordo que fiz com ele anos atrás. Para ajudá-lo. Para ajudá-lo com seu talento.” Meu peito está apertado. Sempre fica quando eu ouço sobre meu pai. “Mantive contato com sua mãe. Nós conversamos, e eu contei a ela sobre o meu ensino aqui em Jefferson. Foi quando lhe

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ofereci o lugar.” Lewis passa a mão pelos cabelos novamente. “Eu sabia que você tinha sinestesia.” Ele levanta uma sobrancelha. “E eu sei que você luta com música clássica. Então me pergunto quando finalmente tirará o melhor de você.” Ele me dá um sorriso de aceitação. “Você não pode lutar contra as cores que você nasceu para ver.” Ainda não estou pronto para falar sobre tudo isso. Estou aqui por outro motivo. “Eu quero ser capaz de explicar isso para alguém. O que vejo quando ouço música. Eu quero explicar. Mas não tenho ideia de como.” Os olhos de Lewis se estreitam. Por um segundo, penso que ele me perguntaria quem. Mas o cara sabe que deve se manter fora da minha vida. “É difícil se você não tiver. É difícil explicar se você tem. Como você explica a ausência de algo com que você sempre viveu?” Reviro meus olhos. “É por isso que estou aqui. Quero saber se você tem alguma sugestão. Você é um professor de música, afinal. Você certamente já ouviu falar disso antes. Sem dúvida estudou ou alguma merda.” Ele sorri. “Ou alguma merda.” Lewis se levanta e pega um panfleto de uma prateleira na parede. Ele coloca na minha frente. É de um museu fora da cidade. “Você está com sorte, senhor Dean.” Examino o folheto. Foi anunciando uma exposição sobre sinestesia. “Você tem que estar brincando comigo. Há uma exposição sobre isso?” “Ainda não. Mas está quase pronta.” Ele se senta de novo. “É uma experiência sensorial completa, criada por um artista amigo meu. É realmente uma coisa e tanto.”

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“Mas não é aberto.” Solto uma respiração frustrada. “Eu posso obter uma visualização antecipada, se você quiser.” Lewis encolhe os ombros. “Ele pode gostar do feedback de outro sinestesista. Isso pode beneficiar a todos.” “Quando?” Pergunto, meu pulso começando a acelerar. “No próximo fim de semana deve estar bem. Vou perguntar a ele.” Pego o folheto e o coloco no bolso. Eu fico de pé. “Tem certeza de que é bom? Isso vai explicar o que eu vejo e ouço?” “Pode ser diferente. Os sinestesistas muitas vezes veem as coisas de maneira um pouco diferente; não há regras, afinal. A exposição pode não mostrar as cores exatas que você vê para certas notas.” “Então, como você sabe que é bom?” Ele sorri. “Porque é baseado em mim.” Meus pés estão cimentados no chão enquanto o que ele diz afunda no meu cérebro privado de sono. Meus olhos se arregalam e vão para a foto acima de sua mesa, aquela com todas as cores. “Você também?” Lewis assente. “Foi por isso que quis conhecê-lo todos esses anos atrás. Eu conheci outros sinestésicos na minha vida, mas nenhum que compartilhava um tipo similar comigo.” Olho para Lewis. Eu não sei se é por causa da sinestesia compartilhada, mas de repente eu o vejo de forma diferente. Não como o professor que fica enfiando o nariz na minha vida, ou o infame compositor que desistiu de tudo por causa das drogas. Mas como um colega músico. Alguém que segue as

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cores como eu. Olho para a composição em sua mesa e me pergunto que história de cor ele vê. “Er... obrigado.” Eu me viro para a porta. Pouco antes de sair, pergunto: “Qual é a cor D?” Lewis sorri. “Azul.” Eu solto uma risada. “Vermelho-rubi.” Lewis assente. Eu fecho a porta e caminho para o dormitório. Uma exposição de sinestesia. Perfeito. Agora eu só tenho que encontrar uma maneira de conseguir que Bonnie vá comigo. Ela quer saber o que vejo quando ouço música. O pensamento de deixar alguém mais perto me atinge do jeito errado, e as paredes começam a se construir mais uma vez. Mas então me lembro da música dela e do seu rosto quando descobriu a verdade sobre mim. E eu os empurro para baixo. Mantendo seu rosto na minha cabeça. Adormeço sentindo cheiro de pêssego e baunilha e saboreando a doçura de açúcar na minha língua.

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Capítulo 14 Bonnie

Eu não sei por que estou me olhando no espelho. Não sei por que me importo com a minha aparência. Estou plenamente consciente de que a noite de sábado é apenas um acaso. Que Dean Cromwell será o seu habitual hoje. No entanto, aqui estou eu, verificando meu cabelo no espelho. Meu cabelo está solto e puxado para o lado. Uso uma calça jeans e um suéter rosa. E tenho minhas argolas de prata em minhas orelhas. Reviro os olhos para minha estupidez. Então sinto um aperto no estômago. Você não deve fazer isso para si mesma ou para ele. Fecho meus olhos e conto até dez. Então saio do meu quarto. O céu está claro, o sol brilhando e não há uma nuvem no céu. Os estudantes se amontoam no pátio. “Bonn!” Easton vem até mim e passa o braço em volta do meu ombro. “Onde você esteve?” Eu pergunto. “Você não estava no refeitório esta manhã.” Paro e olho para o meu irmão, usando sua aparição como desculpa para fazer uma pausa. A verdade é que estou sem fôlego após apenas alguns passos.

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Easton dá de ombros. “Você não esteve no meu quarto ontem à noite, Bonn. Vamos apenas poupar-lhe os detalhes sobre tudo isso.” “Obrigada,” digo sarcasticamente, e ele sorri. “Ultimamente sinto como se não te visse mais.” Eu realmente olho para o meu irmão. Ele tem círculos escuros sob os olhos. Coloco minha mão em seu bíceps. “Você está bem?” Ele pisca. “Sempre, Bonn.” Então começa a andar, guiandome com o braço em volta dos meus ombros. “Eu vou levá-la para a aula.” Minha respiração torna-se difícil depois de apenas alguns metros. Eu seguro o súbito ataque de lágrimas que ameaça encher meus olhos. É cedo demais. Tudo está acontecendo rápido demais. Eu não rapidamente.

esperava

que

as

coisas

progredissem

tão

Inclino minha cabeça e olho para a copa das árvores. Para os pássaros que voam entre elas e para os espaços entre as folhas que se viram. Como o verão está quase acabando, eu também estou perdendo meu sol. Uma folha fadada, destinada a cair. Easton me leva ao prédio de ensaio. “Vejo você mais tarde no refeitório, sim?” Sorrio e beijo sua bochecha. “Sim.” É o nosso encontro. Nossa chance a cada dia de nos ver. De pôr a conversa em dia. Se eu passar um dia sem Easton, a vida não parece certa. Easton bagunça meu cabelo cuidadosamente penteado. “East!” Advirto e reviro os olhos enquanto ele corre, rindo. Os alunos passam por mim, entrando no prédio de ensaio. Mas eu o vejo partir. Correndo para uma garota que eu

TILLIE COLE


não conheço e dando a ela seu sorriso brilhante e o que parece ser suas cantadas baratas. Meu coração parece quebrar ao meio. Não tenho ideia de como contar a ele. Eu nunca seria capaz de encontrar as palavras. Porque eu sei que o quebraria também. Eu resisti por meses. Dizendo-me todos os dias que hoje seria o dia. Que eu reuniria a força. Mas o dia nunca chegou. E sei que não demorará muito até que a escolha seja tirada de mim. Ele saberá em breve. A escuridão paira sobre mim quando penso em Easton. Ele é ousado e maior que a vida do lado de fora, mas eu o conheço de forma diferente. Conheço a fragilidade que reside dentro dele. Eu sei dos seus demônios. Da escuridão que cresce para consumi-lo. Descobrir sobre mim... isso o destruiria. A risada alta de Easton navega ao vento até os meus ouvidos. Os cabelos na parte de trás do meu pescoço se arrepiam com o som, mas não posso deixar de sorrir. Sua energia, quando boa, pode iluminar o céu. O pátio está quase vazio quando eu finalmente escorrego pela porta. Tomo meu lugar habitual na aula de Lewis. A partir do momento em que me sento, as borboletas invadem meu estômago quando olho para onde Cromwell costuma se sentar. Ele não está na aula. Eu brinco com a borda do meu bloco de notas enquanto espero. Meu coração pula em meu peito, com uma batida irregular. Esfrego a mão sobre o meu peito. Eu inalo um longo fôlego, focando na minha respiração do jeito que sei que ajuda. Na

TILLIE COLE


minha quarta expiração, meus olhos disparam para a porta. É como se eu sentisse que ele está lá. Cromwell Dean entra na sala, vestindo jeans rasgados e uma camisa branca apertada, suas tatuagens emolduram seus braços musculosos e seus piercing brilham contra sua pele morena e cabelo escuro bagunçado. Ele está segurando um bloco de notas na mão. Uma caneta descansa atrás de sua orelha. Eu tento desviar o olhar enquanto ele atravessa a sala em direção às escadas que o levam ao seu lugar. Mas eu não posso. Imagens da noite de sábado são flashbacks coloridos em minha mente. A sala de ensaio. Ele, sentado atrás de mim, seu peito duro contra minhas costas. Seus lábios no meu ombro, beijando minha pele nua. Se eu me concentrar o suficiente, ainda posso sentir a suavidade de seus lábios. Meus lábios se separam quando me lembro. Eu sei que meu rosto está corando. Cromwell Dean faz isso comigo. É uma bênção tão grande quanto uma maldição. Como se ouvisse os pensamentos na minha cabeça, Cromwell olha para cima. Seus olhos se fixam em mim. Cada parte de mim fica tensa, apreensiva sobre o que ele fará. Então, quando seu lábio se curva, uma sugestão de sorriso aponta diretamente para mim, minha pulsação acelera em um tipo errático de corrida. Infectada por seu sorriso, eu dou a ele a sombra de um sorriso de volta, ignorando a maneira como as meninas na sala o olham como se ele fosse sua fonte de calor em um dia frio. Porque sua atenção está voltada para mim. O garoto britânico constantemente inquieto está olhando para mim.

TILLIE COLE


Endureço meus nervos quando ele começa a subir as escadas. Suas longas pernas o trazem até mim rapidamente. Eu esperava que ele passasse por mim, deixando-me sem fôlego em seu rastro. Não esperava que ele viesse e se sentasse ao meu lado, sentando no assento que Bryce normalmente se senta. Eu olho para ele. Cromwell recosta-se no banco como se não tivesse um cuidado no mundo. “Farraday,” ele diz, preguiçosamente, com seu sotaque me envolvendo como manteiga derretida em torno do meu sobrenome. “Dean,” eu sussurro de volta. Posso ver outros estudantes olhando para o nosso lado. Eu me mexo nervosamente no meu lugar sob a atenção deles. Viro-me para vê-lo me observando. Há uma luz em seus olhos que eu não vi antes. Um ar de paz que deixou seus ombros relaxados. A batida da sua mão em sua mesa chama minha atenção. O crânio e as tatuagens numéricas dançam com o movimento. Eu não consigo tirar meus olhos daqueles dedos, porque sei do que eles são capazes. Vi eles tocarem piano. E tocarem o meu violão. Eu olho quando o som de alguém limpando a garganta chama nossa atenção. Bryce está ao nosso lado. Seu rosto está irritado, seus olhos perfurando Cromwell em seu assento. “Eu sento aí,” Bryce diz. Eu não falei com ele depois da noite de sextafeira. Estava com vergonha de dizer que minha cabeça estava cheia demais com Cromwell. “Sim? Bem, estou aqui agora.” Cromwell diz, dispensandoo completamente. Fecho os olhos, odiando o confronto. “Por que você é tão idiota?” Bryce cospe. Cromwell completamente.

TILLIE COLE

mantém o

rosto

para

frente,

ignorando-o


Bryce solta uma única risada sem graça, depois passa por nós. “Bryce,” eu digo, mas ele me ignora ou não me ouve. Eu não tenho certeza de qual. “Cromwell,” eu digo. Sua expressão teimosa diz tudo. Ele não irá a qualquer lugar. Lewis entra na sala. A perna de Cromwell encosta na minha. Ele não a move. Lewis olha ao redor da sala, e suas sobrancelhas se levantam levemente quando ele vê Cromwell ao meu lado. Cromwell se mexe em seu assento. Mas então Lewis se dirige aos estudantes e a aula começa.

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Bryce sai da sala de aula no minuto em que Lewis nos dispensa. Suspiro enquanto o observo ir. Não há claramente nenhum amor perdido entre ele e Cromwell. Fico de pé. “Adeus, Cromwell.” Ele se levanta e me segue até o pátio. Pensei que seu corpo estaria tenso e seu rosto seria tenso. Mas ele parece relaxado. Eu nunca vi isso em Cromwell antes, e isso me confunde mais do que tudo. Ele aponta o queixo para mim quando saio para ir para a minha próxima aula. Balanço minha cabeça enquanto o assisto sair, imaginando o que tudo isso significa. Cromwell não falou comigo além de me cumprimentar quando se sentou. Mas pressionou sua perna contra a minha, causando arrepios por toda a minha pele. E se inclinou para mim, com seu braço ocasionalmente roçando o meu. Minhas emoções estão ficando descontroladas. Não tenho ideia do que está acontecendo conosco. Com ele. O fato de que ele não olha para mim parece

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estranho. O fato de que ele está quase sendo caloroso e gentil... eu não consigo acreditar. No entanto, não posso negar que ser o motivo de seu pequeno sorriso faz meu coração cantar. Depois das minhas aulas da manhã, vou ao refeitório. Easton está na nossa mesa habitual. Eu pego uma salada e vou em sua direção. Easton, como sempre, está comendo o suficiente para alimentar um pequeno exército. “Você tem o suficiente aí, East?” Eu brinco. Ele franze o nariz. “Não. Estou pensando em voltar e pegar mais.” Easton olha por cima do meu ombro. “Que diabos?” Ele diz, com um sorriso em sua boca. Sigo seu olhar, e minha boca se abre com o que vejo. Cromwell está na porta, examinando com os olhos ao redor da sala. Quando cai em nós, ele anda na nossa direção. Pela primeira vez, meu batimento cardíaco encontra um ritmo — e está exatamente em sincronia com os passos de Cromwell. Ele se senta ao nosso lado. Então tira algumas barras de chocolate dos bolsos, abre uma e começa a comer. Easton olha para mim e depois para Cromwell. “Está perdido, Dean?” Cromwell termina uma barra de chocolate e abre a seguinte. Ele olha para Easton, em seguida, poupa um piscar de olhos para mim. “Não.” East continua comendo e olhando para Cromwell como se ele fosse um experimento científico. “Você sabe que está no refeitório, não é?” Cromwell levanta uma sobrancelha para Easton. Easton ri e aponta para suas barras de chocolate. “E que eles servem comida aqui.”

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Cromwell recosta-se. Ele olha ao redor do refeitório. “Estou bem com isso.” Então abre sua última barra de chocolate. Empurro minha salada em volta do meu prato. “Então,” Easton diz. “Como está o seu projeto?” Apenas o silêncio permanece. “Não está.” Eu finalmente digo. “Nós não somos mais parceiros.” Não sou uma pessoa excessivamente tímida. Não sou facilmente intimidada. Mas as imagens da noite de sábado entupiram minha mente e me fizeram perder a capacidade de falar em torno de Cromwell. Por que ele está aqui no refeitório? Por que ele se sentou ao meu lado na sala de aula, mas não falou nenhuma palavra, somente o meu nome? Easton olha para Cromwell. “O que você fez?” Cromwell olha para o meu irmão. Easton sempre brinca com as pessoas. Ele sempre é feliz. Mas ele tem um lado que as pessoas não sabem. Especialmente em relação a mim. A mandíbula de Cromwell está cerrada. Cubro a mão de Easton com a minha. “Nada aconteceu, East. Lewis viu que nosso trabalho não era tão bom juntos como é separado, então ele nos permitiu trabalhar sozinhos. Isso é tudo.” Easton estreita os olhos, primeiro para mim, depois para Cromwell. “Tem certeza?” “Sim,” respondo. Um largo sorriso decora seu rosto. “Então está tudo bem.” Ele sacode o queixo para mim. “Não está sentindo a música eletrônica, mana?” Sorrio. “Não muito.” “Ela simplesmente não entende.”

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Viro-me para encarar Cromwell. Ele finalmente olha para mim. “Eu simplesmente não a classifico como um gênero musical.” “Você deveria,” ele argumenta, mas calma. “Você só precisa mostrar seus méritos.”

sua

voz

está

Sua voz pode ser calma, mas seus olhos azuis estão dançando com a luz. “Eu ouvi a sua música,” desafio-o. Vejo seus lábios puxarem para o canto. Calor explode no meu peito. “Não corretamente.” Faço uma careta para sua resposta enigmática. “Eu preciso de bolo.” Easton se levanta do assento. Ele olha para nós estranhamente, como se estivesse do lado de fora de alguma piada que só nós estávamos entrando. “Não se matem enquanto eu saio, ok, crianças?” “Vamos tentar,” respondo. O silêncio se prolonga. Cromwell mantém o olhar do lado de fora da janela. Eu olho para as embalagens de doces vazias. “O pacote da sua mãe chegou, hein?” Cromwell acena com a cabeça e depois estende um quadrado da barra de chocolate que estava comendo. “Eu... eu não como alimentos gordurosos.” Sinto meu rosto queimar. Eu sei que a desculpa soa ridícula. Cromwell come um pedaço. “Você deve aprender a viver um pouco, Farraday.” Dou a ele um sorriso fraco. “Estou tentando.”

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Eu não posso dizer o que lê no meu rosto. Quero perguntar a ele. Quero que ele fale comigo. Mencione pelo menos a noite de sábado. Mas quando Easton volta a se sentar, com bolo de chocolate no prato, Cromwell se levanta. “Estou fora.” Sigo-o com os olhos até a porta, onde ele para perto da janela e tira um cigarro. Menina após menina olha para ele quando chegam para o almoço. Eu mal consigo tirar meus olhos dele. Easton limpa a garganta, fazendo com que eu volte meu foco para meu irmão gêmeo. Ele ainda está me dando um olhar estranho. “Há algo que eu deveria saber?” Sua voz está cheia de preocupação. “Não.” Ele claramente não acredita em mim. “Cromwell já fodeu nada menos que dez garotas desde que chegou aqui, Bonn.” Uma dor acerta meu peito com essa informação. “Então?” Easton dá de ombros. “Só pensei que você deveria saber, é tudo. Cromwell é do tipo pega-e-deixa.” Jogo meu cabelo por cima do ombro. “Eu realmente não me importo, East.” Easton come seu bolo. “Eu pensei que você gostasse dele, afinal?” “Eu gosto,” East diz com a boca cheia de bolo. Ele engole, em seguida, encontra meus olhos. “Só não o quero perto de você.” Sua mão cobre a minha e sua voz se torna baixa. “Você já passou por muito, Bonn. Um cara assim te mastigaria e cuspiria. E depois de tudo que você passou...” ele balança sua cabeça. “Você merece mais.”

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Eu quase choro. Lágrimas ardem em meus olhos, não apenas por causa de suas palavras, ou por sua natureza protetora. Mas porque se ele soubesse... se soubesse o que está acontecendo comigo... “Você é minha melhor amiga, Bonn. Não sei o que eu faria sem você.” O sorriso de Easton vacila. “Você é a única que já me entendeu.” Ele solta um longo suspiro. “Que me entende.” Aperto sua mão e não quero soltar. Tristeza e pânico roubam minha respiração, dominando-me. “Eu te amo, East,” sussurro. Ele sorri. “É recíproco, Bonn.” Está na ponta da minha língua para dizer a ele. Mas quando olho em seus olhos azuis, para a dor que vejo espreitando por baixo, não ouso. Easton solta minha mão. Ele lança seu sorriso habitual. “Tenho que ir para a aula.” Ele se levanta. Algumas pessoas se aproximaram dele e ele ri e brinca com elas como sempre. Eu nunca me senti tão preocupada com uma pessoa em minha vida do que com ele. Nem comigo mesma. Pego minha bandeja e lanço um último olhar para fora da janela. Cromwell se foi. Então eu vou para a minha aula, perguntando-me como tudo ficou tão confuso.

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“... E deixe a escuridão desaparecer...” Termino minha música mais recente, largo meu violão, e rabisco a nova letra e acordes no papel. Fecho os olhos, repetindo na minha cabeça para me certificar de que está perfeito, quando há uma batida na porta. Olho para o meu relógio, são nove da noite. Eu olho para mim mesma. Visto leggings pretas, blusa preta e um casaco branco. Meu cabelo está jogado para trás em um coque bagunçado. Basicamente, eu não estou adequada para visitas tão tarde em uma noite de sexta-feira. Minhas pernas doem enquanto eu caminho para a porta. Meus tornozelos estão pesados de tanto andar. Dou uma rápida olhada ao redor do meu quarto. As caixas estão no meu armário. Se for Easton, não quero que ele as veja. Batendo em minhas bochechas para trazer mais vida à minha pele, eu finalmente viro a maçaneta. Abro a porta apenas uma fração e olho para o corredor. Cromwell Dean está encostado no lado oposto, com as mãos nos bolsos pretos do jeans. Ele está vestindo um suéter de malha preta, com as mangas enroladas até os cotovelos. “Farraday,” ele me cumprimenta casualmente. “Cromwell?” Ele se afasta da parede e vem ficar na minha frente. Então sorri. “Você está decente?” Ele aponta para a porta parcialmente aberta. Eu coro e abro a porta totalmente. Envolvo meu casaco de lã com força a minha volta. “Sim.” Olho para os dois lados do corredor. Está vazio. “O que você está fazendo aqui, Cromwell?”

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Ele tem um cigarro atrás da orelha e uma corrente pendurada no cós da calça jeans. “Eu vim por você.” “O quê?” “Vou levar você para algum lugar.” Depois de horas de preguiça, meu coração cansado volta à vida. “Você o quê?” “Coloque um sapato, Farraday. Você virá comigo.” Minha pele cora em traição, enquanto a excitação sobe através de mim. “E onde você irá me levar?” Se não me engano, Cromwell cora também. “Farraday, apenas pegue seus sapatos e coloque sua bunda para fora desta porta.” “Não estou vestida direito.” Minha mão passa sobre o meu coque. “Meu cabelo está uma bagunça. Eu não estou usando maquiagem.” “Você parece bem,” ele diz, e eu paro de respirar. Cromwell deve ter visto, mas ele não desvia os olhos dos meus. “Estamos perdendo tempo, Farraday. Vamos andando.” Eu deveria ter ficado. Não é sensato deixar que ele faça isso. Mas, apesar do que eu sei ser certo, o que é justo, não posso evitar. Tenho que ir. Sento-me e coloco minhas botas. Cromwell encosta-se ao batente da porta, seu braço esticado acima da cabeça. O suéter preto agarra-se aos músculos do braço e a bainha se ergue, revelando alguns centímetros do seu abdômen tatuado. Minhas bochechas pegam fogo. Eu desvio meus olhos e

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me concentro em apertar os cadarços das minhas botas. Mas quando me levanto e vejo o brilho de um sorriso nos seus lábios, sei que ele me viu olhando. “Vamos.” Ele sai para o corredor. Deixo-o liderar o caminho para fora e para uma caminhonete preta fosca, uma caminhonete Ford antiga. “Essa é sua?” Passo a mão sobre a pintura. “É linda.” “Sim.” “Você acabou de comprar?” Ele assente. “Deve ter custado muito caro,” digo quando saímos do campus. Uma covinha que eu nem sabia que ele tinha aparece em sua bochecha esquerda. Eu quase sorrio. Quase. “Eu me viro,” ele diz enigmaticamente. “Com sua música?” “Eu não toco de graça, Farraday.” Eu sei que ele é o DJ de música eletrônica mais concorrido na Europa — inferno, talvez nos EUA também por tudo que eu sei. Realmente não pensei nele assim. Esqueci que ele é Cromwell Dean, uma estrela promissora da música eletrônica. Parece loucura para mim. Especialmente quando sei o que ele pode criar no clássico. Cromwell esteve com Easton e comigo em todo horário de almoço essa semana. Ele sentou-se ao meu lado em todas as aulas que compartilhamos. Mal falou, mas esteve lá. Eu não sei o que fazer com isso. E certamente não sei o que fazer agora. “Então, alguma pista para onde estamos indo?”

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Cromwell balança a cabeça. “Você só tem que esperar e ver.” Não posso evitar; sorrio. “Você não vai no bar hoje à noite ou no Celeiro? Todos os seus adorados fãs —” e por fãs, quero dizer garotas. “— não sentirão sua falta?” “Tenho certeza que sobreviverão,” ele diz secamente. Isso só me faz sorrir mais. Cromwell sai para a rodovia. Faço uma careta, imaginando para onde estamos indo. “Posso ligar o seu rádio?” Pergunto. Cromwell assente com a cabeça. Quando eu ligo, não fico surpresa ao ouvir batidas rápidas, o ritmo crescente e as batidas marcadas. Música eletrônica. Suspiro. “Eu acho que isso vem com o território, hein? Se eu estiver no seu carro?” “O que você tem contra a Música eletrônica?” Ele pergunta. Continua olhando entre eu e a estrada. “Nada realmente. Só não sei como você pode escolher isto com todos os outros gêneros.” “Você gosta de folk6.” “Gosto de folk acústico. Eu escrevo música e letras.” “Eu crio as batidas, os ritmos e os tempos.” Ele vira a faixa atual. “Esta é uma das minhas mais recentes.” Cromwell olha para mim. “Feche os olhos.” Levanto minha sobrancelha. “Basta fechá-los, Farraday.” Faço o que ele pede. “Ouça a pausa. Realmente escute. Ouça a batida e como ela carrega a base da música. Ouça as camadas. Como o tempo muda com cada som, o teclado, como eles se sobrepõem até eu ter cinco ou seis 6 Folk : O folk contemporâneo refere-se a uma grande variedade de gêneros musicais que surgiram em meados do século XX e além e que estão associados à música tradicional. Do inglês folklore: folk significa 'gente' ou 'povo', e lore significa 'conhecimento’.

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camadas que funcionam perfeitamente.” Eu faço. Deixo-me usar todos os meus sentidos para beber, sorver cada camada, uma por uma, até ouvir toda a composição. Meus ombros se movem com a batida, o ritmo controlando meus movimentos. E eu me sinto sorrindo. Construo de volta as camadas na minha cabeça, até que elas são uma fusão de sons e ritmos e batidas. “Eu ouvi,” digo, tão baixinho que não sei se ele pode me ouvir sobre a música. Quando abro os olhos, Cromwell baixa o volume. Eu suspiro em derrota. “Eu ouvi,” digo novamente. Cromwell olha para mim pelo canto do olho. “Eu acho que você é uma esnobe da música, Farraday.” “O quê?” Ele assente. “Clássica, folk, country, qualquer outro gênero, na verdade. Todos menos música eletrônica. Sons criados por computador.” Ele balança a cabeça. “Você é uma esnobe.” Não sei por que, mas ser chamada de esnobe com um sotaque inglês faz eu me sentir muito pior. “Eu não sou de jeito nenhum. Eu... eu...” “Eu o quê?” Ele questiona, e posso ouvir o riso em sua voz. “Realmente não gosto de você às vezes,” digo, entendendo completamente que pareço uma criança de dois anos. “Eu sei que você não gosta,” ele diz, mas não há crença em seu tom. Porque, por mais que eu não goste de Cromwell Dean, estou começando a gostar. Isso é uma mentira. Já gosto dele. E isso é o que me apavora. Cromwell para na estrada que leva ao Museu Jefferson. Sento-me em confusão enquanto ele nos faz parar no estacionamento quase deserto. “Eu acho que está fechado,” digo

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quando Cromwell sai da caminhonete. Ele abre a minha porta e estende a mão. “Vamos lá.” Deslizo a mão na dele, tentando evitar que trema. Eu pensei que ele soltaria minha mão enquanto nós caminhássemos até a entrada. Mas ele não solta. Ele se mantém firme. Tento acompanhá-lo, mas não consigo. Cromwell para. “Você está bem? Você está mancando.” “Eu torci o tornozelo,” digo, sentindo o pequeno gosto da mentira na minha língua. “Você pode andar?” A verdade é que está se tornando cada vez mais difícil. Mas eu não desistirei. Estou determinada a lutar. “Eu posso andar se formos devagar.” Cromwell anda devagar ao meu lado. “Ainda terei alguma pista sobre o que estamos fazendo aqui no museu depois de horas?” Eu puxo o braço dele. “Você não vai invadir, vai?” A covinha de Cromwell volta a aparecer. Uma única covinha na bochecha esquerda. A visão acelera o meu coração. “São as tatuagens, não é?” Ele diz. Eu luto com uma risada. “Os piercings, na verdade.” Como sugestão, Cromwell rola sua língua e o piercing vêm entre seus dentes. Meu rosto se incendeia quando me lembro de como dançou tão perto da minha. Eu ainda não o beijei o suficiente para sentir seu efeito total. Não posso deixar isso acontecer. “Não se preocupe, Sandra Dee, eu tenho permissão para estar aqui.”

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O segurança devia estar nos esperando, porque ele nos deixa passar direto. “Segundo andar,” ele diz. “Eu já estive aqui esta semana.” Cromwell nos leva para as escadas. Ele rapidamente olha para mim e nos leva para o elevador. Eu derreto um pouco. Quando as portas do elevador se fecham, Cromwell permanece ao meu lado. “Alguma pista ainda?” Eu pergunto, quando a proximidade e o silêncio forçado se tornam demais. “Paciência, Farraday.” Saímos do elevador e paramos em frente a uma porta fechada. Cromwell passa a mão pelos cabelos. “Você disse que queria saber como é.” Ele abre a porta e me leva para dentro de um quarto escuro. Ele me puxa pela mão para o centro e depois se move para o lado. Eu olho, tentando ver o que está fazendo, mas eu mal posso ver na minha frente. Então Réquiem de Mozart em ré menor inunda através de alto-falantes escondidos em algum lugar nas paredes. Sorrio enquanto a música enche a sala. E então eu respiro rapidamente. Linhas de cor começam a dançar ao longo das paredes negras. Vermelhos e rosas e azuis e verdes. Eu fico de pé, hipnotizada, como a cada nota outra cor explode contra as paredes. Formando formas em uma parede, triângulos, círculos, quadrados. E eu deixo isso passar por mim. Enquanto a música entra em meus ouvidos, cores brilham nos meus olhos. Eu bebo tudo isso. Isso é sinestesia. Tem que ser. Cromwell me trouxe aqui para me mostrar o que ele vê. Quando a peça termina e as paredes ficam pretas, Cromwell se aproxima de mim. Eu me viro para ele, com os olhos arregalados e cheios de tanto espanto que é esmagador.

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“Cromwell,” eu digo, e uma linha amarela brilhante espirra ao longo das paredes. Jogo a mão sobre a minha boca, rindo quando ela aparece novamente. Cromwell traz um par de pufes do lado da sala. Ele os coloca lado a lado e diz: “Sente-se.” Um flash de azul pálido atravessa as paredes enquanto ele fala. Eu faço o que ele diz, grata pela reprise. Olho para o teto; também foi pintado de preto. Eu me viro para Cromwell, seu rosto já observando o meu. Ele está tão perto de mim. Nossos braços se tocam. “É o que você vê, não é?” Ele olha para as linhas de cor que piscam em sintonia com as nossas palavras. “É como isso.” Ele estuda o azul que veio quando ele falou. “É baseado em outra pessoa. Minhas cores são diferentes.” Ele bate no ouvido. “Eu ouço Réquiem diferentemente. Minhas cores não estão em sintonia com estas.” Inclino a cabeça para o lado. “Então, vocês ouvem as cores de maneira diferente?” “Mmm-hmm.” Cromwell se deita no pufe. Eles foram colocados aqui, eu imagino, por esse motivo. Então você pode se deitar e ver as cores colidindo com a música. Uma experiência sensorial completa. Eu assisto Cromwell. Assisto quando ele vê as linhas coloridas morrendo. É assim que ele viveu. Esse é o seu normal. “Você disse antes que não vê apenas cores quando toca música...” Deixo a frase pendurada lá. Cromwell coloca os braços atrás da cabeça. Ele vira a cabeça para mim. “Não.” Ele fica perdido em pensamentos. “Eu posso provar também. Não é forte. Certos sons ou aromas deixam gostos na minha boca. Não é realmente específico, mas doce ou

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azedo. Amargo. Metálico.” Ele coloca uma mão no peito. “Música... isso me faz sentir coisas. Certos tipos de música tornam minhas emoções mais intensas.” Sua voz é cortada quando ele diz a última parte, e eu sei, sem perguntar, que há algo mais por trás disso. Então me pergunto se é o clássico que aumenta suas emoções. Talvez seja muito agudo para lidar com isso. Ou se de alguma forma o lembre de algo doloroso. Pergunto-me se é por isso que ele foge. Cromwell se vira para me encarar. Perco o fôlego quando ele me estuda. Eu acabo de abrir a boca para perguntar o que está pensando quando ele diz: “Cante.” “O quê?” Meu coração começa sua batida sem melodia. “Cante.” Ele aponta para o teto, para as paredes negras, para os pequenos microfones plantados nas fendas do teto. “A música que você cantou na cafeteria.” Sinto meu rosto brilhar como fogo. Porque a última vez que cantei, Cromwell estava atrás de mim, com o peito nas minhas costas. “Cante,” ele diz novamente. “Eu não tenho meu violão.” “Você não precisa dele.” Olho nos olhos de Cromwell e vejo o pedido ali. Não sei por que ele quer que eu cante. Eu cantei o máximo que pude ultimamente. Está ficando cada vez mais difícil, minha respiração rouba minha maior alegria. Minha voz perdeu força, mas eu não perdi a paixão.

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“Cante,” ele diz novamente. Há um desespero em seu rosto. Um que me faz derreter. Neste momento, implorando-me para cantar, ele é lindo. Mesmo que esteja com medo, eu me forço. É o jeito que eu vivi. Sempre tentei encarar meus medos de frente. Fecho os olhos, precisando escapar do olhar de Cromwell, eu abro minha boca e deixo a música livre. Ouço minha voz, enfraquecida e chuvosa, navegando pela sala. Eu ouço a respiração de Cromwell ao meu lado. E sinto quando ele se aproxima do meu lado. “Abra os olhos,” ele sussurra em meu ouvido. “Veja sua música.” Deixo-me ir e deixo o Cromwell liderar. Abro meus olhos e perco meu ritmo quando sou banhada em um casulo de rosas e lilases. Os dedos de Cromwell correm pelos meus. “Continue.” Com os olhos fixos no teto, eu canto. Lágrimas brotam dos meus olhos quando minhas palavras trazem cores tão lindas que as sinto na minha alma. Enquanto minha voz canta a última palavra, eu pisco as lágrimas. Assisto a linha final de rosa desaparecer para branco, então nada. O silêncio é espesso. Minha respiração se tornou difícil. É difícil quando sinto o olhar pesado dos olhos azuis de Cromwell em mim. Tomo três respirações profundas, em seguida, viro minha cabeça. Não tive tempo de olhar em seus olhos. Não tive tempo de ver sua covinha na bochecha esquerda. Eu não tive tempo de perguntar se ele viu os rosas e lilases da minha voz, porque no segundo em que me virei, suas mãos seguraram meu rosto e seus lábios pressionaram os meus. Um grito chocado soa na minha garganta quando o sinto contra a minha boca. Suas mãos são quentes contra o meu rosto. Seu peito está pressionado contra o

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meu. Mas quando seus lábios começam a se mover, eu derreto nele. O gosto de menta de Cromwell, chocolate e tabaco escorrega em minha boca. Minhas mãos se estendem e agarram o suéter. Seu cheiro almiscarado enche meu nariz, e deixo seus lábios macios trabalharem contra os meus. Cromwell me beija. Ele me beija e beija com beijos suaves e lentos, até que sua língua empurra e desliza dentro da minha boca. Ele geme quando sua língua encontra a minha. Ele está em todo lugar. O sinto em todos os lugares, meu corpo e sentidos são varridos pelo furacão que é Dean Cromwell. Movo minha língua com a dele. Então sinto o metal frio na sua língua me tocar, então afundo ainda mais nele. Cromwell Dean beija como ele toca música — completamente e com toda a sua alma. Ele me beija e beija até que eu não tenho mais fôlego no meu corpo. Afasto-me, ofegante. Mas Cromwell não terminou. Enquanto procuro por ar, para de qualquer maneira encher meus pulmões e acalmar meu coração acelerado, ele desce pelo meu pescoço. Meus olhos se fecham, e eu seguro seu suéter como se fosse minha linha de vida sendo arrastada por tudo que era Cromwell. Sua respiração quente desliza pelo meu pescoço e causa arrepios que se espalham sobre a minha pele. Olho para cima e vejo verdes brilhantes e lilases dançando ao nosso redor — a cor dos nossos beijos. Mas foi demais. Meu peito aperta com o esforço, com o peso demasiadamente abrangente que é esse beijo. Movo a cabeça para dizer-lhe isso, para fugir, mas em um segundo, os lábios de Cromwell estão de volta aos meus. No minuto em que os sinto, eu sou dele. Afundo-me na almofada macia abaixo de mim e deixo que ele tome minha boca. A língua de Cromwell encontra a minha e ele muda seu corpo até que está sobre mim. Minhas mãos se

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movem para suas costas. Seu suéter sobe quando ele se move sobre mim. Minhas mãos encontram a pele quente, a sensação aumenta todos os sentidos que eu tenho. “Cromwell,” eu sussurro. Laranja brilha no teto. “Cromwell,” eu repito, sorrindo quando a mesma cor retorna. Mas esse sorriso desaparece quando percebo o que estamos fazendo. Que eu não deveria estar aqui. Não deveria tê-lo deixado me beijar. Eu deveria ter ido embora quando tive a chance. Aperto meus olhos e me prendo a ele como se nunca fosse deixá-lo ir. Aprofundo o beijo. E o beijo para nunca mais esquecer. Eu o beijo até que ele está impresso em minha alma. Finalmente eu me afasto, movendo as mãos do corpo de Cromwell até que sombreiem as dele e eu seguro suas bochechas. Seus lábios estão inchados pelo beijo e suas bochechas estão quentes. “Eu não posso.” Meu coração se parte em dois com a confissão. “Não podemos fazer isso." Cromwell procura meu rosto. “Por quê?” “Eu preciso ir para casa.” As sobrancelhas em confusão. “Bonn —”

de

Cromwell

se

erguem

“Por favor.” “Ok.” Ele se levanta do pufe e atravessa silenciosamente a sala até as luzes. Eu vacilo com o brilho invasivo. Na luz, as paredes são apenas pretas. A magia se foi.

TILLIE COLE


Assisto Cromwell se mover ao redor da sala, certificando-se de que tudo está desligado. Ele vem em minha direção e, quando seus olhos caem sobre mim, não posso acreditar em como alguém pode ser tão bonito. Quando ele para de frente a mim, ele deixa um único e longo beijo na minha testa. O quarto brilhou, e eu senti uma lágrima escapar do meu olho. Ele ia se afastar, mas eu agarro seus pulsos, saboreando-o um pouco mais. Cromwell olha para baixo, com uma expressão séria no rosto. Não afasto meus olhos. Mantenho os olhos nele enquanto me movo, ficando na ponta dos pés. Não me permito pensar desta vez; apenas sigo meu coração e pressiono meus lábios nos dele. É a primeira vez que eu início um beijo na minha vida. Eu nunca teria acreditado que seria com Cromwell Dean. Mas agora que estamos aqui, suspensos neste momento perfeito, sei que nunca teria sido ninguém além dele. Quando me afasto, deixo minha testa cair para a dele. Eu respiro, gravando cada segundo na memória. Levanto minha cabeça e encontro seus olhos. Uma pergunta ardente está em minha mente. “Como parece para você?” Pergunto. “Minha música. As cores.” Cromwell respira, então, com olhos brilhantes, ele diz: “Iluminou a sala.” Eu caio contra ele, descansando minha cabeça em seu peito, meus braços ao redor de sua cintura. Iluminou a sala. Cromwell me levou para fora do museu e entrou em sua caminhonete. Nenhuma música tocou quando voltamos para casa. Nós não falamos também. Mas foi um silêncio confortável. Eu não conseguia falar. Tenho um milhão de perguntas que queria fazer a ele. Mas não fiz. Eu tenho que deixar esta noite exatamente onde ela está. No passado. Como

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lembrança, continuará me ajudando durante a jornada pela frente. Iluminou a sala... Cromwell para em frente ao meu dormitório. Eu olho para a entrada com uma sensação de medo. Quando eu passar por aquela porta, tudo isso terminará. O que quer que isso seja. Eu ainda não tenho certeza. Cromwell se vira em seu assento, com seus olhos em mim. Eu sinto isso. E não quero olhar em sua direção. Porque sei que quando eu fizer, terei que terminar. “Cromwell,” eu sussurro, com as mãos no meu colo. “Farraday.” Desejo que ele não tivesse dito isso. Eu gosto do jeito que ele sempre me chama assim. Só que agora, quando ele disse isso, foi de tirar o fôlego para mim. Assim como sua música. “Eu não posso.” Minha voz soa muito alta na cabine da caminhonete. Cromwell não pergunta o que eu não posso fazer. Ele sabe o que quero dizer. Quando finalmente olho para ele, ele está olhando direto para fora da janela e sua mandíbula está cerrada. Naquele momento, ele é o Cromwell que eu conheço desde os primeiros dias de aula. Aperto meus olhos, odiando vê-lo assim. Eu não queria machucá-lo. Não tenho ideia do que ele pensa de mim, mas pela maneira como agiu na semana passada, o que ele fez por mim depois da apresentação na cafeteria, e o que ele me mostrou hoje à noite... sei que tem que ser algo real. E esse beijo... “Eu... eu não posso explicar...” “Eu gosto de você,” ele diz, e quando as palavras docemente acentuadas atingem meu ouvido, eu quero me mover pelo assento e envolver meus braços ao redor dele. Não conheço bem Cromwell,

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mas sei que ele não diz essas palavras com facilidade. Ele vive atrás de muros altos, mas comigo, eles começaram a baixar. Não quero ser a causa deles voltarem a crescer. No meu coração eu quero ser a única a esmagá-los até que ele esteja livre. Mas eu não posso. Não é justo. Uma súbita onda de raiva me atinge. Pela injustiça. Que eu não posso estar aqui agora, aproveitando o momento, caindo em seus braços. “Bonnie?” Eu quero soluçar quando meu nome sai de seus lábios. Ele nunca me chamou de Bonnie antes. “Eu também gosto de você.” Olho em seus olhos azuis. Eu lhe devo muito. “Mas é mais complicado do que isso. Eu não devia ter deixado isso chegar tão longe. Não é justo. Eu sinto muito...” A sensação de sua mão deslizando na minha me silencia. “Venha comigo para Charleston amanhã à noite.” “O quê?” “Eu vou tocar em um clube.” Ele segura minha mão com mais força. “Quero que você venha.” “Por quê?” “Para ver...” ele suspira. “Para me ver tocar minhas novas mixagens. Para ficar ao meu lado e ver como é. Para fazer você entender. Está a apenas uma hora de distância.” “Cromwell, eu —” “Est irá.” Desapontamento cai em ondas. “Não precisa ser nada que você não quer que seja.”

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Não tenho certeza se posso estar perto do Est também. Quando o domingo chegar, eu terei que contar a ele. E Cromwell sem dúvida descobrirá também. Penso em uma noite. Uma última noite em que eu consiga ser livre. Cercada por música e Cromwell. Meu irmão e nós, compartilhando risos. “Tudo bem,” digo. “Eu irei. Mas tenho que voltar aqui depois.” Os lábios de Cromwell franzem com a promessa de um pequeno sorriso. “Bom,” ele diz. “Vamos levá-la para a cama, Farraday.” Cromwell sai do carro e segura minha porta como antes. E como antes, ele estende a mão para mim. Segura minha mão até chegarmos à porta do dormitório. Meu coração pula no meu peito quando ele me encara. Cromwell coloca as mãos no meu rosto e pressiona um único beijo suave nos meus lábios. “Noite.” Ele se vira e vai embora. Eu não tenho certeza se conseguirei me mexer. Então, pouco antes dele entrar na caminhonete, eu pergunto: “Cromwell?” Ele olha para cima. Posso sentir minhas bochechas queimando antes mesmo de falar. “Que cor é a minha voz?” Cromwell olha para mim, com os olhos cheios de algum tipo de luz que não consigo decifrar. Aquele pequeno e lindo sorriso puxa seus lábios novamente, e ele diz: “Azul-violeta.” Eu tento respirar. Eu realmente tento. Tento me mover. Azul-violeta. Cromwell entra na caminhonete e se afasta. Uma lembrança da semana passada vem à minha mente. “Cromwell?” Eu perguntei, e ele virou para mim. “Qual é a sua favorita? Sua cor favorita para ver?” “Azul-violeta,” ele diz em um instante.

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Azul-violeta. Sua cor favorita para ver... é também o som da minha voz. Se o meu coração falho não o tivesse deixado entrar antes, aconteceria exatamente nesse momento.

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Capítulo 15 Cromwell

“Isso será explosivo, porra!” Easton salta ao redor do banco da minha caminhonete. Observo-o, e me pergunto o que diabos está acontecendo com ele esta noite. “Easton.” Bonnie coloca a mão no braço dele. “Acalme-se.” “Acalmar-me? Meu garoto estará tocando no Chandelier e você está me dizendo para eu me acalmar? De jeito nenhum, Bonn. O Celeiro é uma coisa, mas ver Cromwell tocar hoje à noite em um local real será fodido. Você sabe quantas pessoas virão para vê-lo? Alguns milhares pelo menos!” Eu nos levo em direção a Charleston, ouvindo Easton se descontrolar sobre hoje à noite. Easton nem se preocupou com o motivo de sua irmã vir. Eu pensei que ele me encheria a paciência. Ele perguntou sobre Bonnie e eu na semana passada. Pensei que ele suspeitasse de alguma coisa, mas desde que nos levantamos esta manhã, ele está extremamente animado, alto como uma maldita pipa. O idiota maluco me acordou às quatro da manhã para me pedir comida. Eu só tinha ido dormir meia hora antes. Eu criei um mix só para esta noite. Não posso esperar para tocar.

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Demorou pouco menos de uma hora para chegar ao local. A segurança no Chandelier me disse para estacionar a minha caminhonete na parte de trás. Alguns caras tentaram tirar meu novo laptop de mim. Sem chance. Ninguém toca no meu laptop. Easton anda ao meu lado. Bonnie está do outro. Eu perdi a cabeça, eu tenho que ter perdido, porque quero estender a mão e segurar a mão dela. E eu não consegui tirar a noite passada da minha cabeça. Não consegui tirar o gosto dos lábios dela da minha língua. Mas mais do que isso, eu não consegui entender o fato de que ela disse que não poderíamos acontecer. Não tive namoradas. Nunca tive. Eu sou o tipo de pessoa pega-e-deixa. Mas desde o primeiro dia Bonnie Farraday me cativou. E para me foder agora, a única garota que estou perseguindo como mais do que uma foda rápida não está afim disso. Não tenho ideia do por que. Nós dois estávamos nisso ontem à noite. Eu a senti contra mim. Suas mãos não me deixavam. Mesmo depois, ela agarrou a minha mão como se nunca quisesse me deixar ir. Mas eu estou aprendendo que Bonnie Farraday é uma garota complexa. Mesmo que ela tenha me afastado, eu não posso deixá-la ir. Eu a quero aqui esta noite. Não sei por que, mas preciso dela aqui. Eu quero que ela me veja em um ambiente real. Quero que ela ouça minhas novas mixagens. Uma que eu fiz apenas para ela. O gerente estava sobre mim no segundo em que entrei no local. Aparentemente estava esgotado. Eu tocaria à meianoite. Não faltava muito.

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“Vou pegar umas bebidas,” Easton diz, mostrando sua identidade falsa para Bonnie e eu antes de nos deixar sozinhos no camarim de tamanho ridículo. Sofás, uma TV — até uma cama estava no canto. É um bom local. Eu não me sinto nervoso em tocar; eu nunca me senti. Mas estou nervoso por ter Bonnie ao meu lado no palco. Nervoso sobre o que ela pensará do novo mix que fiz para ela. Bonnie se senta no sofá e esfrega a mão no rosto. Ela está pálida. Mas parece bem. Ela está vestida com uma calça preta florida de cintura alta e uma blusa branca de mangas compridas que exibe cada centímetro de suas curvas. Seu cabelo está preso em um rabo de cavalo alto, e eu não quero nada mais do que envolvê-lo na minha mão e puxá-la para a minha boca. Eu estou me certificando de que tudo esteja alinhado no meu laptop. O som dos DJs de abertura vêm de fora. As cores, como sempre, dançam diante dos meus olhos. Mas eu as tranco e me concentro no meu próprio set. “Você está pronto?” Bonnie finalmente pergunta. Nós não tivemos um tempo a sós desde que entramos na caminhonete. “Sempre.” Eu olho para ela. Suas mãos estão inquietas em seu colo. Ela parece tão fofa. “Farraday,” ela olha para cima. “Venha aqui.” Bonnie parece como se fosse recusar, mas então ela se levanta do sofá e vem para o meu lugar. Mexo-me, dando espaço suficiente para ela se sentar também. Ela hesita. Eu gemo e a puxo pelo braço. “Pelo amor de Deus, Farraday, eu estive com a minha língua na sua garganta vinte e quatro horas atrás. Acho que você pode se sentar ao meu lado. Não é como se não houvesse espaço. Você deve pesar umas oito pedras.”

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“O quê?” Ela pergunta, com as sobrancelhas castanhas curvadas. “Oito pedras?” Passo meu braço pela sua cintura, fazendo-a gritar. “Isso significa que você não pesa nada. Agora.” Eu a puxo perto o suficiente para que ela esteja pressionada contra mim e minha mão ainda possa alcançar meu laptop. “Cromwell,” Ela suspira. “Isso não é sensato.” “Ninguém nunca disse que eu sou.” Aponto para o meu laptop. “Meu set,” eu digo. O amor de Bonnie pela música anula qualquer reclamação que ela tinha sobre estar ao meu lado. Ela olha para o programa. “Estas são as suas faixas?” Eu balanço a cabeça. “Então, como você as mistura?” Dou de ombros. “Eu julgo a multidão. Decido quando estou lá em cima, o que tocar depois. Vejo até onde posso empurrá-los.” Tento imaginar a multidão em minha mente. “Eu apenas faço o que parece certo.” “Você segue a emoção,” ela diz conscientemente. “O que você me disse ontem à noite.” “Sim.” Fecho meu laptop e olho para Bonnie. Seus olhos já estão em mim. Então eles caem em meus lábios. “Farraday.” Eu me aproximo e pressiono minha testa na dela. “Se você não quer que eu tome sua boca agora, deve parar de me olhar assim.” “Como o quê?” Ela sussurra, com suas bochechas coradas. “Como se você quer sentir minha língua tocando em sua boca novamente.” Ela ri, o som forma um círculo azul-violeta que eu normalmente via cravar e pulsar com o rosa pálido. “Você é um

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Romeo regular,” ela diz brincando. “Sentir sua língua me tocar de novo?” Sinto meu maldito peito se expandir e meu lábio curvar. Puxo-a para mais perto e corro meu nariz pela sua bochecha. Sua respiração é superficial e errática. Meus lábios beliscam o lóbulo da sua orelha. “Nunca disse que sou,” digo em seu ouvido. Eu me movo novamente, meus lábios correndo por suas bochechas e até seus lábios. Meus olhos estão abertos, bem abertos, enquanto os dela se fecham nos meus. Ela está respirando com dificuldade. Eu os fecho, esquecendo que ela me disse que nunca poderíamos acontecer. Assim que pressiono meus lábios nos dela, uma batida soa na porta. “Cromwell?” Diz uma voz. “Cinco minutos.” Suspiro, minha cabeça cai para o ombro dela. A mão de Bonnie cai no meu cabelo. “É melhor irmos.” Sento-me e, antes que ela possa argumentar, esmago minha boca na dela. Ela suspira em minha boca, mas eu me afasto rapidamente, pegando meu laptop. Estendo minha mão para ela, e desta vez, com Easton ou não, eu vou segurar a sua mão. Bonnie não resiste. Nós caminhamos pelo corredor até o palco principal. Alguns dos trabalhadores dizem olá. Eu balanço a cabeça para eles. Mas a cada passo, eu me coloco mais e mais no jogo. Quando chegamos ao lado do palco, posso ouvir a multidão. Eu posso ouvir os gritos e chamadas. A mão de Bonnie aperta a minha. Seus olhos estão arregalados. Beijo as costas da mão dela e inclino-me para perto. “Sente-se ao meu lado. Pedi que colocassem uma cadeira lá para você.”

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Seus olhos se derretem com isso. Eu não tenho ideia do por que. Solto a mão dela e jogo meus fones de ouvido em volta do meu pescoço. O gerente do palco acena para mim. Dou uma última olhada em Bonnie e então entro no palco. Uma onda de gritos e gritos vieram batendo em mim. Coloco o laptop nos decks e o abro. Como sempre, arrisco um olhar para a multidão e bebo o momento. É como uma câmera lenta. A multidão esperando por mim para começar. Com meus olhos examino os milhares de rostos. Todos olhando para mim como se eu fosse um jovem deus. Então olho para o lado. Bonnie ainda está fora do palco. Aponto para o banquinho que está esperando por ela. Bonnie engole em seco, com seus olhos enormes. Ela é tão linda quando dá seu primeiro passo para o palco. Eu me abaixo e pego a mão dela quando ela parece instável. Bonnie se senta e olha para a multidão. Se seus olhos estavam arregalados antes, agora eles tomam todo o seu rosto. Dou a ela um fone de ouvido, sinalizando para ela colocálos. Eu quero que ela ouça cada batida que eu produzo. Quero que ela absorva os tempos, beba o ritmo e viva o baixo. Quando ela olha de volta para mim, seguro a respiração, alinho a primeira faixa, deixo minha mão pairar no ar... depois, com a pancada de um dedo, arranco a porra do telhado do lugar. A multidão fica direto em minhas mãos, todos caindo na minha mixagem. Eu me movo para o deck e a bateria eletrônica e deixo as cores me guiarem. Faz alguns minutos desde que olhei para Bonnie. Ela está me observando tão de perto, observando minhas mãos criarem cada batida, cada faixa. Eu não preciso olhar para o laptop, os decks. Em vez disso, encontro seus olhos. Quando sua atenção está totalmente em mim, começo a falar as cores. Pêssego. Turquesa. Preto. Cinzento. Âmbar.

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Escarlate. Batida após batida, eu digo a ela o que vejo. E ela está comigo. Ela nunca move seus olhos para longe de mim, com um sorriso em seus lábios enquanto eu a deixo ver minhas cores. Deixo-a me ver. Então, azul-violeta, eu falo. Os olhos de Bonnie se arregalam. Olho para o meu laptop e alinho a faixa que eu quero que ela ouça. A que eu não consegui tirar da cabeça ontem à noite. A que tocava tão alto em minha mente que eu tive que abaixar. As palavras que ela não tinha ideia que eu gravei. Alguns não são destinados a esta vida por muito tempo. Eu passo o verso de abertura sobre as batidas. O volume estava quieto, outro cresce construindo o segundo verso. Um olhar fugaz, um canto tranquilo de um pássaro. Tambores construídos, violinos suaves no fundo. Então, a batida do tambor em dobro, a voz dela ganhando volume, até que eu a esmago, levando a música ao máximo, a voz suave de Bonnie é empurrada para o volume mais alto, suas palavras azul-violeta cobrem cada centímetro da sala...

Alguns não são destinados a esta vida por muito tempo. Um olhar fugaz, um canto tranquilo de um pássaro. Almas muito puras, apagam-se muito rápido, Corpos tão frágeis, perdendo a luta. Corações perdem suas batidas, ritmos muito lentos, Anjos chegam, e precisam partir. Escapar deste lugar, em direção aos céus e ao paraíso,

TILLIE COLE


Coberto em paz, onde ninguém morre. Esperança deixada naqueles que amaram Já não mais aprisionados, agora são as asas de uma pomba... Asas, brancas como a neve, brotam do meu coração. Asas abertas, prontas para partir. Lágrimas em meus olhos, dou um último olhar. Eu vivi, amei e dancei a doce dança da vida...

Mergulho acordes de violão que eu armazenei por anos, mas nunca usei por cima. E a voz de Bonnie canta alto e claro. Eu mixei três vezes, até a próxima faixa passar pelo fundo, substituindo o azul-violeta por verde-limão. Quando a próxima mixagem é bombeada nos alto-falantes, olho para Bonnie. Sua mão está sobre sua boca, lágrimas escorrem por suas bochechas. Meu estômago aperta. Até que ela olha nos meus olhos e suas mãos se afastam. Um sorriso tão largo que parece atingir o maldito teto se espalha em seus lábios. Ela sai do banquinho e caminha para mim. Eu a afasto da visão da multidão e deixo que ela esmague a boca na minha com um fundo de ouro, magnólia e chocolate. Eu provo as lágrimas em seus lábios e a hortelã em sua língua. Seu peito pressiona contra o meu enquanto minhas mixagens controlam a multidão, fazendo-os balançar e saltar. Quando Bonnie recua, eu não estou pronto. Seguro suas bochechas e tomo sua boca novamente. Agora ela me dá seus lábios, e eu nunca quero devolvê-los. As cores mudam para azul, indo para o marinho. Afasto-me e volto para o palco. A multidão fica louca. Eu olho para baixo e vejo Easton na frente, olhos

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fechados, uma garota pendurada no braço dele. Ele tem duas garrafas de cerveja nas mãos, e apenas sente a batida. Eu reduzo a velocidade. O técnico de iluminação toma a minha sugestão e traz os lasers para um brilho branco suave, diminuindo o brilho. A fumaça que foi bombeada a noite toda paira no ar, sufocando as vigas brancas adormecidas. Seguro minha mão no ar, a multidão esperando pela minha transição. As batidas lentas acalmam seus corações; as longas notas baixas levam seus pulsos ao normal. Ouço minha respiração ecoar nos meus ouvidos. Sinto o calor de seus corpos bater nos meus, sinto a disposição deles chegarem ao máximo de uma forma que só eu posso fazer. Meus dedos esperam; o técnico espera pela minha sugestão. Eu olho para Bonnie para vê-la na borda de seu assento, esperando por mim também. Sorrio para mim mesmo, sentindo-me tão cheio da música. Então, quando eles estão prontos, quando esperaram tanto quanto possível, eu bato minha mão e trago a chuva. As luzes caem e lasers estroboscópios os banham em verde. As batidas os drogam, eles são escravos da minha mão. Eu ouço uma risada ao meu lado e me viro para ver Bonnie examinando a multidão que pula, seus corpos se movendo como uma unidade com o baixo pesado que dou a eles como uma droga. Eu sorrio, e dou mais, dou-lhe mais, e suas mãos vão para o ar e seus olhos se fecham. Eu paro e apenas olho para ela. Algo que eu não sinto há anos se instala no meu peito. Algo que eu nunca pensei que encontraria novamente. Prata. Eu engasgo com a visão. Felicidade.

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Minha mão escorrega do meu laptop, despertandome. Concentro-me no set, mas aquele prata nunca me deixa. Está marcado no meu cérebro. Sua cor é tão forte, como um símbolo em minha mente. O tempo todo em que toquei, Bonnie sentou-se, com um sorriso no rosto e me observou. E o tempo todo o azul-violeta e prata lutavam pelo domínio em minha mente. Eu tiro minha mão do laptop, a batida final brilhando em uma esfera até que desaparece em direção ao fundo do ambiente. O DJ da casa assume. Pego meu laptop, e aceno minha mão para a multidão que grita. Suor escorre na minha testa, mas a adrenalina sobe pelas minhas veias. Eu me viro para Bonnie. Seu rosto está vermelho e, apesar do tempo, seus olhos estão brilhantes. Tiro os fones de ouvido da minha cabeça, enfio meu laptop debaixo do braço e, em seguida, levanto Bonnie do banquinho. Suas mãos descem no meu bíceps enquanto a puxo pelo meu peito até seus pés batem no chão. Pego a mão dela e a levo do palco para o corredor. Eu não me importo se alguém estava por perto. Não dou à mínima se alguém viu. Ando com Bonnie até a parede. No minuto em que as costas dela estão contra o tijolo, esmago minha boca na dela. Bonnie está tão ansiosa quanto eu. Suas mãos se enfiam no meu cabelo, puxando os fios para me aproximar ainda mais. Meu sangue canta com a música que derramei do meu corpo nas últimas três horas. Bonnie ofega contra a minha boca, mas eu preciso provar a doçura que sempre explode na minha língua sempre que eu a beijo. Eu traço minha língua pelo seu pescoço. “Cromwell,” ela sussurra. O som do meu nome em seus lábios apenas me estimula. Bonnie agarra minha cabeça e me traz de volta para sua boca. Não tenho certeza de quanto tempo nós nos beijamos, mas

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ela se afasta novamente, lutando para respirar. Minha mão achata contra a parede. A dela está no meu peito. Ela respira e respira, e eu a deixo recuperar o fôlego. Quando ela se acalma, ela fala apenas duas palavras: “Minha música.” “Sua música.” Eu nunca tinha colocado letras em minhas mixagens antes. Nunca senti a necessidade... até ela. O som da abertura da porta é como um trovão no corredor. Eu me afasto de Bonnie assim que Easton tropeça. “Fodido Dean Cromwell!” Uma menina se arrasta atrás dele. Easton passa os braços em volta de mim. “Aquele set!” Ele olha para Bonnie. “Bonn... sua música.” Ela sorri para o irmão. “Foi fantástico.” Dou um tapinha nas costas de Easton. “Vamos.” Easton balança a cabeça e joga o braço ao redor da garota que está atrás de nós. “Voltarei com Emma. Ela vai para a faculdade aqui.” “Como você vai voltar?” Bonnie pergunta. “Bonn, leva uma hora para voltar para casa. Vou pegar o ônibus amanhã, algum dia.” Ele olha para a loira em seus braços. “Ou talvez segunda-feira.” Ele encolhe os ombros. “Só tenho que ver o que acontece.” Easton recua pelo mesmo caminho que veio, de volta ao clube. Bonnie o observa sair, preocupação em seu rosto. “Ele ficará bem,” digo e pego a mão dela na minha. Bonnie me dá um sorriso tenso, mas me deixa levá-la de volta para o camarim. Nós pegamos nossas coisas, em seguida, seguimos para a minha caminhonete. Por mais que estivéssemos lá dentro, o ar na cabine fica espesso.

TILLIE COLE


“Então?” Viro-me para Bonnie. Ela já está me observando, com uma expressão ilegível em seu rosto. “O quê?” “Eu entendo agora.” Ela coloca os braços ao redor de sua cintura. “Você está com frio?” “Um pouco.” Pego meu suéter preto e entrego a ela. Bonnie sorri e o veste. Fazendo seu pequeno corpo desaparecer. Ela fecha os olhos e cheira o colarinho. “Cheira como você.” Ela abre os olhos. Espero pelo que mais ela dirá. Ligo o motor e deixo que ele aqueça o carro. “Como?” A voz de Bonnie corta o ruído branco quando entro na estrada. Eu olho para ela, com uma sobrancelha levantada. “Como você conseguiu minha música?” “O museu,” eu digo. “Quando você cantou, eu gravei no meu celular.” Ela franze a testa. “Ontem à noite?” Eu balanço a cabeça. “Mas como você conseguiu fazer um mix?” “Fiquei acordado a noite toda para fazer isso.” Bonnie suspira. “Você complica as coisas para mim, Cromwell Dean. Você foi feito para complicar as coisas.” Dou uma única risada. “Eu sou complicado. Já disseram isso muitas vezes.”

me

Bonnie não ri. Em vez disso, ela desliza ao meu lado e coloca a cabeça no meu ombro. Não tenho certeza se ela está dormindo, mas quando olho para ela no meu espelho retrovisor, ela está olhando para frente. Estreito meus olhos, perguntando-me o que diabos está errado. Mas então ela envolve seu braço ao redor do meu e segura.

TILLIE COLE


Quero que ela fale. Eu quero que diga alguma coisa, mas Bonnie não diz. Penso no que ela disse. Como eu compliquei as coisas. Eu sei que sou confuso. Sei que sou um bastardo malhumorado, que sou quente e frio. Mas tenho a sensação de que não é o que ela quer dizer. Uma hora depois, entramos no campus e eu sigo na direção do dormitório dela. Eu mal consigo entrar alguns metros quando ela sussurra, “Não.” “O quê?” Bonnie faz uma pausa. "Vá para o seu dormitório." Confuso, olho para ela pelo espelho retrovisor. Seus olhos castanhos já estão nos meus. “Vá para o seu dormitório, Cromwell.” Há uma agitação em sua voz. Suas bochechas brilham e ela segura meu braço com mais força. “Se... se você quiser.” Demoro um segundo para entender. “Bonnie,” eu digo e sinto-a prender a respiração. Leio seu rosto e vejo o medo em seus olhos. Mas não o medo do que ela está perguntando. Medo que eu diga não. Isso nunca aconteceria. “Tem certeza?" Pergunto. “Eu quero,” ela sussurra. “Eu quero você.” Minhas mãos apertam o volante durante o caminho para o estacionamento fora do meu dormitório. Quando desligo o motor, Bonnie não se mexe. Eu coloco minha mão sob o queixo dela e a forço olhar para cima. Eu seguro suas bochechas. “Você não

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precisa fazer isso,” eu digo. Um pequeno sorriso tímido cruza seus lábios. Lágrimas enchem seus olhos. “Eu quero, Cromwell. Eu quero isso.” Ela ri. “Eu não quero que esta noite termine.” Ela baixa os olhos. “Por favor, não me faça implorar.” “Você não precisa implorar.” Balanço minha cabeça. “Eu quero também. Muito.” Eu saio do carro. Vou para o lado do passageiro até Bonnie. Eu estendo minha mão e, como sempre faz, ela segura firme enquanto eu guio-a para fora. Nós caminhamos lentamente de volta para o dormitório. Bonnie está andando mais devagar que o normal. “Você está bem?” Pergunto, verificando se ela está bem, e se ainda quer fazer isso. Ela sorri para mim, sua mão aperta na minha. “Estou mais do que bem.” O dormitório está em silêncio quando entramos. Quando fecho a porta do meu quarto atrás de nós, o ar parece tenso. Bonnie fica na minha frente, com meu suéter praticamente até os joelhos. Eu me aproximo e pego seu rosto em minhas mãos. Seus olhos castanhos estão enormes quando ela olha para mim. Eu abaixo minha boca para a dela e a beijo. Bonnie suspira na minha boca e seu corpo tenso relaxa. Eu a beijo, depois me afasto. “Bonnie...” “Eu quero isso,” ela diz novamente. Bonnie vai até o interruptor de luz e desliga. A sala fica mergulhada na escuridão,

TILLIE COLE


tudo exceto a luz do meu computador de mesa. Seu rosto está sombreado, mas quando ela se vira para mim, eu posso ver seus olhos na luz azul. Deixo-a assumir a liderança. Ela pega minha mão e me leva para a minha cama. Ela se senta na beirada, em seguida, arrastase até que deita no meu travesseiro. Eu paro e olho. A visão dela parecendo tão pequena e nervosa na minha cama me atinge como uma tonelada de tijolos. Seus lábios se separam, seu rabo de cavalo espalhado no meu travesseiro. Bonnie lentamente estende a mão. Seus dedos estão tremendo. Eu seguro sua mão e me arrasto até onde ela está deitada. Afasto o cabelo do rosto dela. No escuro, é difícil identificá-la. Mas seus olhos são visíveis. Isso é tudo que eu preciso. Movo minha cabeça para baixo e a beijo. A mão de Bonnie ainda está na minha. Ela não solta. Apenas segura. Eu beijo seus lábios. Beijo-a até que ela precisa respirar. Então beijo seu pescoço. Beijo por cima do ombro, onde meu suéter escorregou pelo seu braço. Quando fico quase satisfeito, levanto a cabeça e encontro os olhos de Bonnie. “Eu nunca... nunca fiz isso antes,” ela confessa. Engulo com dificuldade. “Nunca?” Ela balança a cabeça. “Eu nunca...” Levanta o queixo. “Eu nunca fiz nada... exceto beijar antes.” Solto uma respiração e olho para ela. Seus olhos estão me observando, esperando pela minha reação. “Bonnie, eu não tenho certeza se sou o único...”

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“Você é.” Sua mão trêmula pousa no meu rosto. “Você é o único que poderia ter isso.” Seus olhos lacrimejam, e as lágrimas deslizam em suas bochechas. “Eu tentei lutar contra, mas você não desistiu. E meu coração não me deixou virar as costas.” Seus dedos deslizam pelo meu peito e permanecem sobre meu coração. Seus olhos se fecham brevemente, como se estivesse contando as batidas. Quando ela abre os olhos, e se senta e eu fico de joelhos. Ela puxa meu suéter por cima da cabeça e o deixa cair no chão. Então as mãos dela estão na minha camisa. Ela levanta a barra da camisa e começa a puxá-la pela minha cabeça. Eu faço o resto do trabalho, jogando-a para se juntar ao restante no chão. Bonnie engole em seco enquanto levanta as mãos e acaricia sobre cada uma das minhas tatuagens. Sobre os redemoinhos de cor que invadem meu peito. E sobre as duas espadas, leão e coroa que compunham o brasão do exército britânico. Bonnie inclina a cabeça para trás e seus olhos encontram os meus. Puxo o laço que mantém o cabelo longe do seu rosto. Seus longos cabelos caem pelas costas. Passo minhas mãos pelos fios e, quando faço, ela se inclina, beijando minha pele. Minha mandíbula aperta ao sentir sua boca hesitante no meu abdômen. Ela me beija novamente, desta vez sobre a tribal que tatuei para o meu pai. Ver Bonnie beijar o símbolo que tanto significou para o homem que foi meu melhor amigo faz algo para mim. Minhas mãos se enterram no cabelo de Bonnie. Eu a puxo para os meus lábios. E a beijo. Eu tenho certeza que poderia beijála o dia todo e nunca ficar cansado disso. “Cromwell,” ela sussurra contra meus lábios. Eu me afasto, só o suficiente para ela falar. “Eu preciso de você,” ela diz rasgando meu coração. “Eu preciso muito de você.”

TILLIE COLE


“O que você quer?” Pergunto, deslizando meus lábios ao longo de sua bochecha. Eu não consigo me afastar dela. Preciso tocá-la. “Faça amor comigo,” ela diz, e meus olhos se fecham. “Mostre-me como pode ser.” Meu coração bate o dobro da velocidade com seu pedido. Deito-a de costas e a beijo novamente. Mas quando a beijo, movo minhas mãos para a sua calça e desamarro a cintura. Rompendo o beijo, eu a puxo para baixo de suas pernas. Sento-me e olho para ela. Seu corpo está uma boa parte sombreado na escuridão. Mas eu posso ver o suficiente dela para entender sua silhueta. Ela é perfeita. Cada parte dela é perfeita. E percebo o quanto quero isso. Quero-a. Eu deslizo minhas mãos até suas pernas, lentamente. A cada centímetro, Bonnie engasga, suas costas começando a arquear. O som atinge meus ouvidos e quadrados vermelhos profundos se agitam em meus olhos. Minha mão toca sua pele abaixo de sua blusa. É tão quente, tão clara. Eu não quero afastar minha mão nunca mais. Levanto o tecido mostrando uma camiseta por baixo. A respiração de Bonnie é como uma música no meu ouvido, cordas comandando para eu me mover. Tocá-la, senti-la, saboreá-la. Escorrego a blusa por cima da cabeça, observando a pele dela ficar rosa e seus olhos arregalarem. Pergunto-me o que ela está pensando. Mas quando seus olhos encontram os meus, não preciso de palavras. Seu lindo rosto me diz o quanto ela também quer isso. Minha mão segue para a camiseta dela. Empurro o material para cima, expondo seu abdômen. Faço uma pausa, apenas olhando para minha pele bronzeada contra a sua branca. Eu nunca vi nada tão perfeito.

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“Por favor, não tire.” A voz de Bonnie me faz olhar para cima. Ela puxa a camiseta de volta no lugar. Abaixando a cabeça, beijo seus lábios apenas para afugentar o flash momentâneo de preocupação em seus olhos. Eu não sei o porquê dessa preocupação. Mas não preciso tê-la nua. Ela é linda o suficiente, assim. Eu a beijo, lambendo seus lábios. Sua respiração é quente no meu rosto e eu posso sentir o cheiro da baunilha de seu xampu. Meus dedos percorrem a suavidade do braço dela. Seu corpo se move contra o meu, mostrando-me o quanto ela gosta. Meu peito incha. Eu nunca tive isso na cama antes. Nunca senti isso por uma garota antes. Todas as anteriores não significaram nada para mim. Seus rostos eram um borrão. Até a minha primeira vez foi uma bagunça bêbada e sem sentido. Mas isso parece diferente. Estar com Bonnie, assim, parece diferente. Maior de alguma forma. O olhar de Bonnie segura o meu e nós apenas olhamos nos olhos um do outro por alguns segundos. Parece uma vida toda antes que a mão dela alcance o zíper da minha calça jeans. Seu rosto está cheio de nervosismo, seus olhos castanhos arregalados. Eu coloco minha mão em cima da dela e tomo a liderança. Inclinando-me, eu beijo ao longo de sua bochecha, sua testa e finalmente seus lábios, quando meu jeans sai. Puxo as cobertas sobre nós. Eu penso que isso a faria se sentir melhor. Bonnie sorri para isso, e eu rastejo em cima dela, cobrindo seu corpo com o meu. Encontro seus olhos e passo minha mão pelo seu rosto. “Você é linda.” Porque ela é. Ela é muito linda. Uma lágrima escorrega do canto do olho dela. “Você também,” ela diz e sorri. Eu pressiono meus lábios nos dela. E quando o faço, passo minhas mãos por sua cintura, por seu

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abdômen e por suas pernas. “Toque-me,” ela sussurra, e eu fecho meus olhos, tomando um segundo para respirar. Linhas azul-violeta percorrem minha mente toda vez que ela fala, trazendo-me uma espécie de paz que eu não consigo descrever. Prata é o pano de fundo, a cor nunca desapareceu, ainda brilhante de hoje à noite no clube. As costas de Bonnie se arqueiam enquanto minha mão se move. Ela choraminga e luta para respirar. Assisto seu rosto na luz azul, tentando absorver cada ruído e cada movimento. Eu beijo seu ombro, o mesmo que beijei na sala de ensaio. A doçura estoura na minha língua quando seu cheiro de pêssego e baunilha alcança meu nariz. “Cromwell,” ela sussurra. Eu alcanço minha gaveta e pego uma camisinha. Quando estou pronto, Bonnie, agora vestida apenas com sua camiseta, estende os braços. Eu me acomodo em cima dela, afastando o cabelo do seu rosto. “Tem certeza?” “Mais do que certa.” Eu nunca afasto meus olhos do seu rosto. As mãos de Bonnie estão nas minhas costas, segurando firme. Eu serei tão gentil quanto posso ser. Eu não quero machucá-la. Minha respiração ecoa nos meus ouvidos. Os olhos de Bonnie estão fixos nos meus. Ela nunca desvia o olhar. Quando aumento a velocidade, quando a respiração dela fica curta e superficial, ela nunca desvia o olhar. E o jeito que ela olha para mim... Suas mãos deslizam pelo meu cabelo, devagar e suavemente. Eu abaixo e a beijo. Beijo seus lábios e beijo suas bochechas. Eu beijo cada parte do rosto dela. Quando levanto a

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cabeça, lágrimas deslizam por suas bochechas. Eu me preocupo que ela esteja com dor, mas quando eu paro, Bonnie coloca a mão na minha bochecha. “Por favor, não pare,” ela sussurra, com a garganta apertada. Então eu continuo, aperto meus dentes e sinto como é bom. O quão bom é ter ela embaixo de mim. Mas não porque estou dentro dela. Mas porque é ela, olhando para mim assim. Olhos castanhos lacrimejando e lábios tremendo. Querendo-me. Precisando de mim. Ela é minha prata. “Cromwell,” ela murmura e segura mais firme nos meus braços. Aumento a velocidade, sentindo seu corpo quente e os lábios entreabertos. Eu não posso desviar o olhar quando a cabeça dela inclina para trás e seus olhos se fecham. Suas mãos estão me segurando tão apertado. Quando Bonnie recupera o fôlego perdido, ela vira a cabeça e beija meu antebraço. Eu paro, indo com ela enquanto uma explosão multicolorida de luz brilha por trás dos meus olhos. Iluminando e crescendo como uma sinfonia, minha alma em paz com o zumbido silencioso da felicidade. Colocando meu pescoço na curva de seu ombro, eu respiro quando diminuo a velocidade até parar. Respiro seu cheiro de pêssego e baunilha e fico lá na escuridão. Meu peito não parece tão apertado como costumava ser. A raiva que borbulhava como um vulcão adormecido no meu interior se acalmou, tanto que mal posso senti-lo. Eu respiro mais calmo.

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As mãos de Bonnie traçam linhas preguiçosas subindo e descendo nas minhas costas nuas. Seu corpo está quente abaixo de mim. Sua respiração passa pelo meu ouvido. Ela ainda está respirando rápido. Finalmente, levanto a cabeça e encontro seu olhar. Os olhos de Bonnie brilham, as lágrimas ainda caindo em suas bochechas. Eu as afasto com meus polegares, então beijo sua pele molhada. Seu dedo acaricia meu rosto. Seu lábio inferior treme quando ela sussurra, “Obrigada.” Beijo-a em resposta. Lentamente. Suavemente. Eu passo meus braços em volta dela e a puxo para mim. Bonnie me segura. Eu sinto suas lágrimas no meu ombro. Mas não pergunto por que ela está chorando. Ela não está triste. Está emocionada. Eu rolo para o lado e ela me encara no travesseiro. “Você tem os olhos mais bonitos,” ela diz, circulando meu olho direito com a ponta do dedo. Ela sorri e quase explode meu coração. “Você é bonito, Cromwell Dean. Tão bonito.” Seguro a mão dela e beijo cada um dos seus dedos. Bonnie me observa fazer isso. Eu posso sentir uma tristeza nela que não posso explicar. Quando outra lágrima cai, pergunto, “Você está bem?” Ela sorri para mim. É um sorriso verdadeiro. “Mais do que bem.” Ela pega minha mão na dela e brinca com meus dedos. “Eu nunca pensei que eu teria esse momento.” Ela sorri tristemente. “E com alguém que entende também.” “Entende o quê?”

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“Como é ter nascido com a música em nossos corações.” Eu engulo em seco, e meu estômago revira com suas palavras. Ela aperta minha mão, e uma expressão nervosa atravessa seu rosto. “O quê?” Bonnie olha para mim, em seguida, diz tão silenciosamente que eu quase não ouço, “Eu vi você. Quando você era mais jovem.” Faço uma careta. “Eu não entendo.” Bonnie beija meu dedo. “Meu professor de música me mostrou um vídeo seu em um concerto. Conduzindo a música que você compôs. A BBC Proms Young Composer do Ano.” Engulo em seco, meu peito esvazia em choque. “Eu nunca esqueci o seu nome depois daquele dia. Eu acompanhei você.” Ela se levanta em seu cotovelo. Sua mão percorre meu cabelo. “Você desapareceu. E eu sempre me perguntei o que aconteceu com você. Até que soube de novo. Só que desta vez as sinfonias clássicas se foram e em seu lugar estava a música eletrônica.” Eu quero falar, mas não consigo entender o fato dela ter me visto quando criança. Tocando. “É por isso que você me foi me ver quando estava na Inglaterra.” Ela assente. “Eu queria ver você pessoalmente.” Algo esfaqueia o meu estômago. “É por isso que você disse que minha música não tinha alma.” Bonnie perde o sorriso. “Eu acredito que a música deveria contar uma história. Acredito que nas notas e melodias devem haver algum tipo de significado. A música deve levá-lo em uma jornada, trabalhada pelo coração do criador.” Ela beija meus lábios. “Sua música naquela noite... não havia história para mim. Não havia sentido.” Sinto ansiedade, mas acalmo quando ela diz, “Eu não acho isso mais. Vi você tocar. Ouvi a música que você

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pode criar. É tudo alma, Cromwell. As coisas que eu ouvi você tocar no piano, eram cheias de significado. Tanto que fez meu coração chorar.” Seus olhos brilham. “Nunca duvide do seu talento, Cromwell. Eu vejo claramente agora.” “É você,” eu admito. Bonnie fica imóvel. “Você está certa. Eu perdi meu caminho. Minha música... não tinha propósito. Não havia história. Elas eram apenas as cores que me faziam sentir o mínimo.” Eu quero dizer a ela o porquê. Mas mesmo agora, não consigo dizer isso. Esfrego uma mecha de cabelo entre meus dedos. “Desde você... é diferente. Música. É você, Farraday. Você fez isso diferente.” Sorrio para mim mesmo. O que eu ia dizer era brega como o inferno. Mas é verdade. “Eu estou inspirado.” Ela respira fundo. “Você me inspira.” “Cromwell.” Ela balança a cabeça. “Eu não posso inspirar você.” "Você pode e você inspira.” Coloco a mão dela no meu peito. “Desde que te conheci, a música que eu mantive longe tem enchido minha cabeça. Eu toquei por anos, eu não peguei nenhum instrumento além do meu laptop.” Bonnie baixa a cabeça no meu peito e eu a seguro ali. Nós não falamos depois disso. Eu ouço a respiração de Bonnie e sei que ela adormeceu. Fico acordado até o sol começar a nascer. Eu acaricio seu cabelo e apenas a seguro para mim. Há um buraco no meu estômago novamente. E minhas mãos coçam para criar. Elas sempre fazem isso quando algo grande acontece na minha vida. E tê-la comigo desse jeito, agora, eu sei que será grande. Bonnie Farraday invadiu minha vida como um furacão. É a primeira vez em muito tempo que adormeço com um sorriso nos lábios.

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Acordo com o som das pessoas no corredor do meu dormitório. Eu pisco para o quarto, limpando o sono dos meus olhos. Sinto frio. Quando olho para a direita, espero ver Bonnie. Mas ela não está lá. “Bonnie?” Eu chamo. Não há ninguém. Eu me sento. As roupas dela sumiram. Uma sensação estranha cai sobre mim. Jogo o edredom para o lado e pego meu jeans e meu casaco do chão. O casaco cheira a ela. Onde diabos ela foi? Calço meus sapatos em segundos e saio pela porta. A brisa fresca chicoteia no meu rosto enquanto eu sigo o caminho que me leva para os outros dormitórios. Não tenho ideia de que horas são, mas deve ser final da manhã ou começo da tarde. Alunos circulam, alguns comendo no pátio, alguns apenas relaxando. Quando chego no dormitório de Bonnie, um aluno está saindo. Eu pego a porta e caminho pelo corredor até chegar ao seu quarto. Quando bato na porta, noto que está entreaberta. Eu abro para revelar seu quarto. Caixas estão espalhadas pelo chão. Tudo está arrumado. Sua cama está despojada e as paredes estão vazias. Eu entro na sala e vejo Bonnie sentada na cadeira em sua mesa, com seus olhos perdidos enquanto ela olha para a caixa ao seu lado. Ela está vestida com leggings e um suéter longo, tudo preto, e seu cabelo está preso para trás em um coque. Ela está segurando um bloco de notas na mão.

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Bonnie olha para cima e seu rosto fica pálido. Ela não diz nada quando encontra meus olhos. Minhas sobrancelhas se unem em confusão. “Estou indo embora,” ela diz, claramente lendo minha mente. Eu sou uma estátua colada ao local. Bonnie tenta sorrir, mas então seu lábio treme e seus olhos se enchem de lágrimas. “Eu não queria me apaixonar por você,” diz baixinho. Entrecortado. Ela ri, mas não tem humor. “Nós não nos entendíamos. Era suposto ficar desse jeito.” Então coloca alguns de seus cabelos soltos atrás da orelha. Meu coração troveja no meu peito, batendo um milhão de milhas por hora. “Mas então eu ouvi você tocar na sala de ensaio naquela noite. Vi como isso parecia machucar você, impactar você.” Ela balança a cabeça. “E fez algo para mim... algo de que eu não consegui sair.” Uma lágrima desliza por sua bochecha. Vejo percorrer por sua pele até bater numa caixa aos pés dela. “Eu tentei te contar, Cromwell. Eu tentei te dizer que não poderíamos ficar juntos. Não é justo. Nada sobre isso é justo.” “Você não está fazendo sentido,” eu digo, com uma sensação de medo corroendo cada parte de mim. Ela me olha por alguns segundos tensos. “Eu tenho um coração partido.” Minha confusão não aumenta. Então a raiva rapidamente me domina. Ela gosta de outra pessoa? Ela me beijou. Ela dormiu comigo, e todo o tempo ela gosta de outra pessoa. “Você... Bryce?” Pergunto, minhas palavras são curtas e duras. Bonnie balança a cabeça tristemente. Ela dá um passo à frente até que está na minha frente. Ela pega minha mão e a leva ao peito, bem em cima de onde está seu coração. “Cromwell, meu

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coração está literalmente quebrado.” Seus cílios molhados deixaram marcas no topo de suas bochechas quando ela fecha os olhos. “Eu tenho insuficiência cardíaca, Cromwell.” Ela sorri tristemente. Devastadoramente. “Meu coração está morrendo.” É como se um forte vento soprasse no quarto. Eu não consigo respirar. Meu peito se aperta, tão apertado que eu o sinto rasgando meus músculos. Meu coração está morrendo... “Não,” eu digo, minha voz rouca e áspera. “Não...” Agarro a mão de Bonnie e a puxo para mim. “Eu tentei de tudo, Cromwell. Eu fiz cirurgias. Substituições de válvulas.” Ela suspira, soltando um suspiro lento e controlado. Eu me pergunto se é para se impedir de desmoronar. “Eu até vi o melhor médico do mundo para ver se havia algo que eles pudessem fazer. Em Londres, naquele verão.” A razão pela qual ela esteve no Reino Unido de repente ficou clara. “Bonnie...” “Mas não há. Meu coração está fraco demais para continuar.” Ela funga e enxuga as bochechas com a mão livre. “Eu não planejei ter você.” Sua mão trêmula cai na minha bochecha. Sua mão está fria. “Eu sabia que nunca conseguiria me aproximar de alguém. Não seria justo. Para qualquer um de nós.” Ela sorri para mim, um sorriso aguado e devastado. “Mas sua música me fez ver você, Cromwell. Chamou-me para você. O garoto que ouve as cores.” Sua cabeça cai no meu peito. “Sinto muito. Eu deveria ter tido força para ir embora. Mas com você... simplesmente não consegui.”

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As pernas de Bonnie parecem vacilar. Eu a pego e a ajudo voltar para o lugar. “Você está bem?” Pergunto, então me sinto estúpido. Claro que ela não está. Seu coração está morrendo. “Está ficando pior.” Ela olha para as caixas ao seu redor. Sua vida toda empacotada em papelão. “Estou enfraquecendo rápido. Nós sabíamos que era uma possibilidade. Mas eu não achei que seria assim tão rápido. Minha respiração está piorando. Minhas mãos e membros estão ficando fracos.” Quando ela olha nos meus olhos, os dela estão assombrados. “Logo eu não serei capaz de tocar ou cantar.” Seu rosto se contorce, e eu caio de joelhos e a puxo para o meu peito. “Música, Cromwell. Eu não vou conseguir cantar.” Ela recua e diz, “Eu preciso me mudar para uma casa agora. As coisas ficaram muito difíceis para estar aqui sozinha.” Ela respira fundo. “Então, será o hospital.” “Não.” Balanço a cabeça. “Tem que haver algo que possam fazer.” Bonnie passa a mão pelo meu cabelo. Está se tornando minha coisa favorita que ela faz. “Estou na lista de transplantes, Cromwell. Isso é tudo que resta para fazer. No momento não estou nem perto do topo.” Uma determinação de aço se fixa em seus olhos castanhos. “Mas estou determinada a ter esse coração. Eu lutei por anos. E não vou desistir agora.” Ela pega minha mão na dela e segura firme. Seu lábio inferior treme. “Eu não quero morrer, Cromwell. Eu tenho muito para viver.” Não consigo respirar quando essas palavras saem de seus lábios. Sinto meus olhos se encherem e os fecho, tentando afastar as lágrimas. Bonnie apenas segura com mais força. Quando abro os olhos, ela está me observando. “Eu teria passado toda a minha vida tentando conseguir um décimo do talento que você tem,

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Cromwell. É por isso que fui tão dura com você. Por causa do presente que você tem.” Seus olhos abaixam. “E eu acho que teria passado toda a minha vida à espera de um garoto para me tratar como você fez recentemente.” Ela engole em seco. “Ontem à noite... foi tudo que eu poderia ter desejado.” “Bonnie,” sussurro. “Mas você não pode estar comigo na próxima parte, Cromwell.” Eu balanço a cabeça. “Shh,” Bonnie diz. “Eu nunca deveria ter deixado isso chegar tão longe. Mas mesmo que esteja falhando, perdendo força, meu coração se apegou ao seu, e eu precisei saber como era. Estar com você.” Ela funga e uma lágrima cai. “Você me fez sentir tão querida.” Eu preciso me levantar. Para levar Bonnie comigo e fugir do que quer que seja essa merda. Mas não podíamos correr quando a única coisa da qual estávamos tentando escapar, a coisa que está morrendo, é a coisa que ainda a mantém viva. “Sinto muito.” Bonnie coloca as mãos no meu rosto e me beija. “Eu sinto muito, Cromwell.” “Não,” argumento, balançando a cabeça. “Não” “Sinto muito,” ela diz novamente. “Mas eu não posso fazer isso com você.” Ela se levanta, apoiando-se na cadeira. Minha mente cambaleia quando eu penso nela ultimamente. Quão lenta ela andava. Às vezes em que parava e respirava, disfarçando sua razão para parar com outra coisa. Os círculos escuros sob os olhos dela. A necessidade de muito sono. A camiseta que ela não queria tirar a noite passada. Se ela tinha feito cirurgias antes... cobria suas cicatrizes. “Eu não quero ir a lugar algum,” digo.

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“Por favor, Cromwell. Por favor, esqueça isso.” Sua mão está agarrando firme na cadeira. “Eu tenho que lutar. Mas se eu perder... se essa luta acabar antes que eu tenha a chance de tentar...” ela balança a cabeça. “Eu não poderia fazer isso com você. Não poderia te machucar desse jeito.” “Bonnie...” O som de passos entra no quarto, interrompendo-me. Uma mulher, com cabelos castanhos e os olhos de Bonnie, entra no quarto. Seus olhos se arregalam quando ela me vê. “Oh, desculpe. Eu não sabia que você tinha companhia.” “Ele está saindo, mamãe,” Bonnie diz. Sua voz ainda está cheia de lágrimas. “Bonnie...” Ela se inclina e beija minha bochecha. “Obrigada,” ela diz e senta-se no seu lugar. Minha mente está cambaleando. “Não,” argumento. “Por favor,” ela diz, quebrando em um grito. Avanço, mas uma mão nas minhas costas me para. Eu me viro para ver sua mãe. “Por favor, meu filho,” ela diz, com um sotaque tão forte quanto o da filha. Eu não quero deixar Bonnie. Não quero ir. Mas não quero ver Bonnie chorar. Saio para o corredor com a mãe dela. Passo minhas mãos através do meu cabelo em frustração. A minha cabeça está uma confusão. Bonnie... morrendo... insuficiência cardíaca... transplante... não faz sentido. Não faz... Sua mãe está me observando. Seus olhos estão brilhando também. “Dê a ela uma chance de se instalar em

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casa. Dê a ela uma chance de se ajustar. Isso tudo está batendo forte nela.” Eu olho para ela, perguntando-me como diabos ela está se segurando. Mas então eu vejo seu lábio tremer e percebo que ela não está. Ela só ficou boa em esconder isso. “Por favor, filho,” ela diz. “Nós só queremos fazer isso tão livre de estresse para Bonnie quanto possível.” Sua fachada vacila. “Temos que fazer o que pudermos para ajudá-la a continuar lutando.” Olho para a porta de Bonnie. Então me afasto da porta, para fora. Minha cabeça está doendo, minha mente tentando absorver tudo. Isso não pode estar acontecendo. Não agora que eu a tenho. Não depois que a deixei entrar. Atravesso a porta para o ar frio. Meus pés param de repente e meus olhos se fecham. Eu não consigo entender o que acabou de acontecer. Abro os olhos e meu olhar cai no pátio. Sobre os alunos rindo e brincando, nenhum com preocupações. Eu quero gritar. Olho para o dormitório e penso em Bonnie lá dentro. Eu preciso fazer alguma coisa. Minhas mãos passam pelo meu cabelo. E como faço toda vez que penso nela, a música toca na minha cabeça. Notas dançam, tudo para o rosto bonito de Bonnie. Eu saio correndo. Não sei o que fazer. Ela quer que eu vá...

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... Mas não tenho certeza se é algo que eu posso fazer.

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Capítulo 16 Bonnie

“Bonnie?”, minha mãe abre a porta do meu quarto. No segundo que a vejo, desmorono onde estou sentada. Lágrimas rolam pelo meu rosto. Meus ombros tremem quando me lembro do olhar no rosto de Cromwell enquanto contava a ele. Era devastação pura e simples. E quando ele não se foi... quando quis ficar ao meu lado... Braços se enrolam em volta de mim. Afundo em minha mãe e choro como se nunca tivesse me permitido chorar antes. Ela passa a mão pelas minhas costas, permitindo que eu tenha esse momento. Deixando-me exorcizar essa dor. Choro e choro até minhas lágrimas secarem. Minha garganta e meu peito doem com o expurgo. Mamãe levanta meu queixo e olho em seus olhos. Ela está chorando comigo. “Baby”, ela sussurra. Passa a mão pela minha bochecha. “Não sabia que você gostava dele.” Balanço a cabeça e olho para fora da janela. Para os alunos que tocam suas vidas cotidianas, sem quaisquer preocupações. Que não vivenciam a dor de machucar alguém, com quem passou a se importar profundamente. Sinto o vazio no meu quarto desde a partida de Cromwell.

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“Não é justo.” Suspiro e sinto a palpitação no meu peito. A sensação não me surpreende mais. É parte da minha vida. “Por que Deus o colocou no meu caminho agora? Quando é tarde demais? Quando não posso fazer isso?”, olho para minha mãe. “Por que Ele seria tão cruel?” Mamãe se senta aos pés da minha cama. “Talvez ele tenha sido trazido à sua vida para ajudar em sua recuperação. Você já pensou nisso? Talvez ele tenha sido trazido exatamente na hora certa. Quando você vai precisar das pessoas que ama mais perto de você.” Se meu coração pudesse bater rapidamente, teria feito isso agora. Mas balanço a cabeça. “Mamãe...” Uma caverna se forma no meu estômago. “E se não encontrarem um coração?” Vejo-a recuar apenas com o pensamento. Ver aqueles que amo rasgados em pedaços por causa da minha vida é a pior coisa. A visão deles desmoronando é o tipo mais cruel de tortura. E deixei Cromwell entrar nessa. “E se eu o deixar entrar completamente e depois não conseguir? Como posso fazer isso com ele? Como posso machucálo dessa maneira?” Mamãe segura minha mão. “Você não acha que isso deveria ser escolha dele, querida? Você já tem muito peso em sua alma. Não adicione decisões dos outros à sua lista.” Imagino como seria deixá-lo entrar. Penso nas semanas e meses seguintes, quando não lutaria sozinha, mas o teria ao meu lado. A escuridão sufocante do medo é abafada pela luz. “Seu pai está aqui agora, querida. Vamos pegar suas coisas e vamos para casa.”

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Descanso na cama enquanto mamãe e papai cuidam das minhas coisas. Mamãe espera no carro dela enquanto fecho meu quarto e saio. Meu pai vai levar o meu carro para casa. “Liguei para Easton”, diz mamãe. Inspiro fundo. Ela aperta minha mão. “Temos que contar a ele, Bonnie. Não tem mais como evitar.” Corro minha mão sobre o peito. “Não acho que posso... isso vai partir o coração dele.” Mamãe não diz nada. Porque ela também sabe disso. Mas precisa ser feito. Ela se afasta do campus e dirige para casa. Quando entramos em nossa garagem, olho para a casa branca com seu alpendre em volta. A mão de mamãe aperta a minha. “Você está bem, Bonnie?” “Sim.” Saio do carro e caminho lentamente até a porta da frente. Dirijo-me para o meu quarto, mas minha mãe coloca a mão no meu braço. “Nós transformamos o escritório em seu quarto agora, querida.” Balanço a cabeça. Lembro-me agora. Escadas estavam me causando muito problema. E como as coisas estão piorando, o equipamento terá que ser trazido para casa. Meu quarto precisa ser acessível. Mamãe me leva ao que já foi o escritório do meu pai. Sorrio ao ver meu piano elétrico no canto. Percebo distraidamente a cor lilás das paredes e o carpete no final da cama. Mas estou me movendo para o piano e sentando-me em seu banquinho antes de sequer piscar. Levanto a tampa e começo a tocar. Sinto toda a tensão me deixar enquanto a música toma conta do ambiente. Nem sei o que estou tocando no começo; apenas toco o que está em meu coração. Meus dedos são desajeitados, a agilidade deles está

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desaparecendo. Mas continuo tocando. Não vou parar até não ter mais outra escolha. Quando a última nota desaparece, dou um sorriso. Abrindo meus olhos, vejo que minha mãe está parada na porta. “O que foi isso? Foi bonito.” Sinto minhas bochechas ardendo. “É algo que Cromwell compôs.” Eu havia memorizado os poucos compassos que ele escrevera na cafeteria. É minha nova música favorita. “Cromwell compôs isso?” “Ele é um gênio, mamãe. E não estou apenas dizendo isso da boca para fora ou exagerando. Ele pode muito bem tocar qualquer instrumento. É por isso que está na Jefferson. Lewis o convidou e lhe deu uma bolsa de estudos. É um garoto prodígio. Alguns dizem que é um Mozart moderno.” “Então agora entendo.” Ela se junta a mim no banco. “O que?” “Por que você se apaixonou por ele.” Seu braço se prende ao meu. “O jeito como você ama música. Você sempre encontraria alguém que também a ama.” Um sorriso aparece nos meus lábios, mas rapidamente some. “Ele está meio machucado, mamãe. Tem todo esse talento, mas não gosta de tocar ou compor. Algo o impede.” “Então talvez você deva ajudá-lo a encontrar o amor que perdeu.” Solto um suspiro. “Eu não posso acreditar que você está me dando sua aprovação.” Penso nas suas tatuagens e piercings, na sua expressão permanentemente austera. “Ele não é exatamente

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o típico garoto da casa ao lado que a maioria das mães quer para sua filhinha.” “Não, não é.” Ela bate no meu braço. “Mas o jeito como lutou por você, não querendo deixá-la, me mostra tudo que preciso saber. Obstáculos na vida às vezes fazem você olhar para o mundo de maneira que nunca fez antes.” “E o que isso lhe diz?” “Que ele se apaixonou por você.” Olho para minha mãe e balanço a cabeça. “Não tenho certeza se isso é verdade. Ele pode ser frio e rude, até mesmo cruel às vezes...” mas então penso em como ele me abraçou na noite passada. Como foi gentil. Como verificou se eu estava bem. E me pergunto... “No entanto, apesar de tudo, você se apaixonou por ele.” Mamãe levanta-se e beija minha cabeça, deixando-me sentada em silêncio no banco do piano. “Seu pai vai trazer suas coisas agora.” “Tudo bem”, digo, como de rotina. “Bonnie?”, mamãe pergunta. Olho para cima. “Você quer que eu conte ao Easton?” O medo de contar a ele me deixa paralisada. Mas balanço a cabeça, pois sei que isso tem que sair dos meus lábios. “Eu vou contar a ele”, digo e sinto o peso do mundo cair sobre mim. Porque só de pensar na reação de Easton, fico mais assustada do que com a própria insuficiência cardíaca.

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“Bonn”, Easton entra no escritório que agora é meu quarto com uma expressão confusa no rosto. Ele olha para o meu piano e minha cama. As paredes, o tapete. Para chocado. Ainda está vestindo as mesmas roupas da noite passada. Deve ter vindo direto de Charleston. “O que está acontecendo?” Posso dizer pelo lamento de apreensão em seu rosto que ele já tem uma ideia. “Venha e sente-se aqui”, digo, batendo na cama. “Não”, ele diz, com sua voz firme. Começa a respirar profundamente. “Apenas me diga, Bonn. Por favor...” o medo em sua voz quase me destrói. Olho para ele. Com seus longos cabelos loiros e brilhantes olhos azuis. “Eu não estive na Inglaterra neste verão para um seminário de música, East.” Ele fica parado e me ouve. “Eu estive lá para ver uma equipe de médicos por causa do meu coração.” Seu nariz está queimando. Preciso apenas contar a ele rapidamente. “Não há mais nada a ser feito, East.” Inspiro, tentando não desmoronar. “Meu coração está falhando.” É lento, mas a cada segundo tenso, o rosto de Easton se contorce e acaba atormentado pela dor. “Não”, diz ele. “Estou na fila de transplante. Mas precisei voltar para casa. Meu corpo está ficando fraco, East. Estou me deteriorando.” Não acrescento a lista de possíveis ameaças que vem junto com a insuficiência cardíaca. Ele já as conhece tão bem quanto eu. Nós dois estamos aterrorizados demais para mencioná-las em voz alta. “Quanto tempo?”, ele pergunta, com a voz rouca e cheia de emoção. “Eu não sei. Os médicos não dão um prazo específico, mas...” “Quanto tempo?”, pergunta, mais em pânico.

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“Talvez três meses. Dois no mínimo, quatro com sorte. Embora possa ser mais cedo.” Saio da cama. Easton fica onde está como se estivesse colado no chão. Fico de pé diante do meu irmão gêmeo, meu melhor amigo e coloco minhas mãos em seus braços. “Mas um coração pode aparecer, East. Temos que rezar para que apareça.” Easton olha para mim, mas seu olhar é vazio. “East.” Tento colocar a mão no rosto dele. Easton recua e volta, até que sai correndo do quarto. Tento ir atrás, mas ele é muito rápido. Sai pela porta da frente e entra na caminhonete que o esperava. “East”, tento gritar quando o vejo se afastando, pneus guinchando na estrada, mas o cansaço rouba minha voz. Mamãe está atrás de mim com uma expressão preocupada no rosto. Mas não digo nada. Estou muito cansada. Não importa o quanto eu dormisse ultimamente, nunca me sinto renovada. E depois de ontem à noite, depois de ficar com Cromwell, contar a ele e a Easton hoje, estou acabada. Entro debaixo do meu edredom e deito a cabeça no travesseiro. Fecho meus olhos e bloqueio tudo, menos a vontade de dormir. Não é surpresa que a imagem do rosto de Cromwell consiga se infiltrar. Eu não quero ir, ouço a voz dele dizendo. Isso me faz sorrir. Por mais que eu reze para ser forte o suficiente para enfrentar a batalha pela frente, ter Cromwell comigo por tanto tempo torna a tarefa muito menos assustadora. Quando ele segurou minha mão eu me senti como se estivesse sonhando acordada. Quando seus lábios macios roçaram os meus e o ouvi tocar piano tão perfeitamente ao meu

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lado. Em tão pouco tempo, as lembranças que ele me deu tornaram-se as mais preciosas do meu fraco coração. E seriam essas memórias e o fantasma de seus lábios contra os meus, que me inspirariam a lutar ainda mais.

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Capítulo 17 Cromwell

Bato na porta do escritório de Lewis, balançando em meus pés enquanto a adrenalina corre através de mim. Ontem à noite não dormi nada. Quero mandar uma mensagem para Bonnie. Ligar para ela e ouvir sua voz, mas estou lhe dando um pouco de espaço. Eu a quero; sei que ela me quer. Mas tenho que encontrar uma maneira de fazer com que ela perceba que precisa de mim. Porque enquanto estava lá acordado, olhando para o teto, sabia que não desistiria dela. Sou um idiota egoísta. Sempre fui. Mas desta vez não irei a lugar algum, e não é só por mim. Bonnie precisa de mim também. Sei que ela sabe disso. Ouvi em sua voz e vi em seu rosto. Bato mais forte. “Lewis!” Estou sem dormir. Easton também não voltou para casa ontem à noite. Ele não havia me contado nada sobre Bonnie todo esse tempo. Mas seu aviso para não a machucar semanas e semanas atrás agora faz sentido. Suponho que ele tenha ido para casa para ficar com ela. E isso só me deixa com tanto ciúme que não consigo nem enxergar direito. Eu também deveria estar lá com ela.

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Eu tenho que estar. As garras cavando no meu coração me dizem isso. Não vou deixa-la passar por isso sozinha. Porque ela tem que passar por isso. Não há outra escolha. “LEWIS!”, chuto a porta com raiva. “Isso não vai fazer com que eu apareça mais cedo, Sr. Dean.” Eu me viro e vejo Lewis se aproximando, carregando sua pasta. “Preciso falar com você”, eu me coloco para o lado enquanto ele abre a porta do escritório. Passo por ele e entro. Lewis entra depois, fechando a porta enquanto ando de um lado para o outro. Lewis se senta na beira da mesa, colocando a pasta de lado. “Você precisa me colocar com Bonnie novamente.” Lewis levanta uma sobrancelha. “Eu não tenho certeza se vai funcionar, Cromwell.” “Não!”, devolvo. “Não me venha com merda de professor sobre isso.” Paro na frente dele. A raiva que está pulsando através de mim, o desespero, desaparece. “Ela está doente.” Lewis não diz nada. A simpatia domina seu rosto. Simpatia e conhecimento. “Você sabia”, digo com os dentes cerrados. Ele concorda. “Há quanto tempo?” “Descobri apenas algumas semanas atrás.” Deixo-me afundar na cadeira de visitas em frente à sua mesa. “É por isso que ela parou de trabalhar comigo?” “Isso cabe a Bonnie lhe contar, Cromwell.” O sangue desaparece do meu rosto. “Porque eu estava fazendo merda com ela. Não estava ajudando com a composição... porque ela sabia que estava ficando sem tempo e eu... eu...”,

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balanço a cabeça e pressiono as palmas das mãos nos meus olhos. “Não”, assobio. Lewis vai até a cafeteira no canto. “Você quer um?”, ele oferece. Olho para ele, quase dizendo não. Mas então percebo que não tenho para onde ir. Não tenho mais ninguém para conversar. “Sim. Preto, sem açúcar.” Lewis se ocupa com o café e eu olho para todas as suas fotos e pinturas. Observo aquela acima de sua mesa. As cores, como sinestesia. “Ela adorou a exposição”, digo. Lewis se vira para mim e sorri. “Ela adorou?” “Ela é fascinada por isso tudo.” Penso nela se sentando comigo no banco, cantando sua música enquanto eu tocava seu violão. “Ela ama música, ponto final. Quer ser tão boa nisso que é tudo em que consegue pensar.” “E você?”, ele pergunta, servindo meu café. Ele pega o seu e senta-se atrás da mesa. Olho para a foto que sempre chama minha atenção. A de Lewis no Royal Albert Hall. “Nunca percebi o quanto eu amava também”, balanço a cabeça. “Não, percebi sim. Isso é uma mentira.” Mas não vou dizer mais nada sobre isso. Ainda não estou pronto para pensar no motivo pelo qual parei de tocar. Isso, mais o que está acontecendo com Bonnie, é tudo muito sangrento. Lewis se senta para frente, braços sobre a mesa. “Perdoeme por bisbilhotar, mas parece que você e a Srta. Farraday se aproximaram bastante.” Encaro a escuridão do meu café. “Sim.” Lewis suspira. “Sinto muito, Cromwell. Deve difícil. Aproximar-se de alguém e então... isso...”

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ser


“Não é tão difícil para mim quanto para ela.” “Não”, diz Lewis. “Você está certo.” “Ela quer tanto passar nesta disciplina”, olho para ele. “Ela quer tanto completar a composição para o final do ano.” Lewis assente. A compreensão da situação dela me atinge com tanta força que quase fico sem fôlego. “Ela não vai conseguir, não é?”, minha garganta se fecha até que me sinto como se estivesse sendo sufocado. Encaro minhas mãos. “Dei uma pesquisada. Todo mundo diz para não olhar no Google, mas não pude evitar.” Engulo o nó. “Ela vai lutar para continuar andando até que acabará acamada. Suas mãos e pés se tornarão dolorosos para usar, cheios de fluídos.” Esfrego meu peito, minha voz ficando mais e mais rouca enquanto continuo falando. “Ela vai lutar para respirar, seus pulmões ficarão mais fracos. Seus rins e fígado começarão a falhar.” Fecho meus olhos bem apertados, meu nariz queimando enquanto tento não perder o controle. Tento imaginar Bonnie assim. Tento imaginá-la no hospital, confinada a uma cama, com seu espírito forte, mas seu corpo falhando dia após dia e não consigo lidar com isso. “E você quer ajudá-la?” Encaro Lewis diretamente nos olhos. “Eu quero dar música a ela. Tenho que.” Bato em minha cabeça. “Já está se formando dentro de mim, como se meu coração soubesse o que tem que fazer por ela. Dar-lhe o que precisa para poder lutar — esperança.” O nervosismo gira dentro de mim, tornando impossível ficar parado. Começo a andar em frente à mesa dele. “Continuo ouvindo melodias. Continuo ouvindo as diferentes seções — cordas, instrumentos de sopro, metais — tocando a mesma música, exibindo seu padrão de cores. Mapeando o caminho dentro de minha cabeça. Está pressionando meu cérebro. Preciso colocar para fora.”

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Lewis está me observando, com o café na mesa. “Eu sei o que é isso.” “Você sabe?” Ele aponta para a foto em que está regendo. “Essa peça, minha mais famosa, nasceu da perda de alguém que eu amava. De uma vida roubada, que deveria ter sido minha.” Ele caminha até a foto e olha para si mesmo retratado. “Perdi a pessoa que amava devido à minha própria estupidez. Tudo o que restou foi a música que nunca se acalmou. Precisei escrevê-la. As notas e melodias me assombraram até que eu o fiz.” Ele tosse uma risada. “Então, uma vez que estava pronta e lançada ao mundo, a Sinfonia me assombrou pelo resto da minha vida. Ainda assombra.” Ele passa a mão pelo cabelo. “Não posso tocar essa música. Mesmo agora. Mesmo depois de todos esses anos. Porque isso me lembra do que eu poderia ter tido, quem poderia ter amado, a vida que eu poderia ter vivido se não estivesse tão confuso.” Lewis vem para o meu lado e timidamente coloca a mão no meu ombro. “Não a deixe se ela significa tanto para você, Cromwell. Bonnie precisa de você agora, mais do que nunca.” Ele olha vagamente para a parede. “Pode ser algo especial que só você é capaz de dar a ela. Música, Cromwell. Pode ser uma cura e um conforto. Se você se importa com ela, como estou supondo, tem os dons para tornar este momento verdadeiramente memorável para ela. E não posso dizer isso sobre ninguém mais além de você.” Lewis checa as horas. “Nós temos uma aula, Sr. Dean.” Eu me levanto do assento e vou para a porta. “Obrigado.” Lewis me dá um sorriso tenso. “Se você precisar de mim, Cromwell, estou aqui.” Vou para a sala de aula e paro na porta. Bonnie está sentada em sua cadeira, encarando o bloco de anotações. Olho diretamente para ela, apenas absorvendo-a. Não me importo se

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alguém está me vendo. Ela está vestida de jeans, como sempre, desta vez com um suéter rosa e seu cabelo está preso em um coque bagunçado. Nesse momento, acho que nunca vi alguém mais bonita. Alguém limpa a garganta e me traz de volta ao presente. Lewis está atrás de mim. Respiro fundo e entro na sala de aula. Bonnie levanta a cabeça e seu rosto empalidece. Seus olhos me observam enquanto subo as escadas. Eles estão brilhando. Ela está preocupada com o que vou fazer, posso ver isso. Posso ver a culpa em seu rosto, na tensão em sua estrutura pequena. Paro em sua cadeira. Sem me importar com os outros alunos da classe, inclino-me e pressiono meus lábios nos dela. Bonnie não tenta se afastar. Ela apenas se derrete contra mim como se soubesse que aquele é seu lugar. Quebro o beijo e sento ao lado dela, pegando sua mão e puxando-a para o meu colo. Enfrento Lewis parado na frente da turma. Um pequeno sorriso aparece em seu rosto, antes de se virar e escrever algo no quadro. Trago meu olhar de volta para Bonnie e o rubor em suas bochechas. Os alunos estão sussurrando e olhando em nossa direção. Eles podem muito bem olhar. Bonnie abaixa a cabeça e olha para mim pelo canto do olho. “Farraday”, eu digo. Seus olhos se enchem de lágrimas. A visão é como um maldito pé de cabra fincado em meu peito. Então, quando ela sussurra, “Dean”, sinto-me aberto, escancarado. Agarro sua mão com mais força quando Lewis começa a aula. Não a solto durante todo o período. Não faço qualquer

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anotação, mas não me importo. Segurar a mão de Bonnie é mais importante do que qualquer outra coisa agora.

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Quando a aula termina, solto Bonnie apenas pelo tempo suficiente para que ela recolha suas coisas. Tomando sua mão novamente, conduzo-a lentamente pelas escadas e saio para o corredor. Ela me deixa guiá-la através do prédio e em direção às salas de ensaio. Seus pés vacilam e eu a seguro com força. Agora que estou ciente do que ela está passando, percebo coisas que não via antes. Ela anda pesadamente; o som de seus pés batendo na madeira soa como um tambor aos meus ouvidos. Suas respirações curtas são explosões agudas de ritmo irregular que parecem fora de sincronia com o brilho que ela exala. Os sons são cores escuras dentro da minha cabeça. Cores que não gosto de ver. Especialmente em Bonnie. Eu nos levo para uma sala de ensaios e a sento em uma cadeira, pressionando meus lábios nos dela antes de arrastar o banquinho do piano e me acomodar diante dela. Seus enormes olhos castanhos estão em mim. Ela está nervosa. Posso dizer por suas mãos inquietas. Não consigo tirar meus olhos do rosto dela. É como se desde que encontrei seu coração, não possa mais parar de observar o quanto ela é linda. Devo ter olhado por mais tempo do que percebi, porque ela coloca um pouco do cabelo solto atrás da orelha e sussurra, “Cromwell.”

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Pisco, arrancando-me dos pensamentos. Bonnie está com uma expressão preocupada. Estendo a mão para ela. Seu foco recai sobre nossos dedos. “Nós vamos trabalhar juntos outra vez”, digo e sua cabeça se levanta. “Para a composição de Lewis.” “Cromwell”, ela balança a cabeça tristemente. Corro a mão livre sobre a coxa do meu jeans. “Eu quero tocar de novo.” Fecho os olhos e posso ver as cores voltando à vida, ficando mais vibrantes enquanto permito que a verdade me acerte em cheio. Bonnie aperta minha mão. Abro meus olhos. “Quero tocar por sua causa.” “Por mim?” Fico de joelhos, no chão, meus olhos nivelados com os dela. Seguro seu rosto e sinto meus lábios se soltarem. “Porque você, com suas dúvidas e tenacidade, fez questão que eu enfrentasse as merdas que não queria enfrentar. Você pressionou e pressionou até que não pude mais me afastar disso. Você pressionou até que me encontrei aqui, nas salas de ensaio, pegando em instrumentos que não tocava há três anos.” Beijo sua testa. “Lutei contra isso. Lutei contra você. Mas quando vi você naquela cafeteria, cantando, só você, sua voz e o violão, eu finalmente enxerguei algo que não tinha visto antes — afinidade. Você ama a música tanto quanto eu. Mas, ao contrário de mim, não tem medo de mostrar isso ao mundo.” Sinto um frio na barriga. “Agora que sei... tudo... minha necessidade de tocar novamente é simplesmente... maior.” Bonnie sacode a cabeça, pronta para discutir. Eu a interrompo antes que possa começar. “Você me faz querer fazer música de novo, Farraday. Deixe-me fazer isso com você.” Seus olhos descem. “Cromwell”, ela diz suavemente. “As coisas vão piorar.” Prendo a respiração. “Muito. Você tem uma

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vida. Você tem a chance de criar algo grandioso sozinho.” Ela engole em seco e olha nos meus olhos. “Eu só vou frear você. Não precisa fazer isso por mim”, ela sorri de forma autodepreciativa. “Não vou poder compor nada que seja digno de seu tempo. Estou à deriva do seu navio grande.” Sei que ela está falando mais do que apenas sobre música agora. Ela está falando sobre si mesma. Está falando sobre mim. Sobre nós. “Então, para sua sorte, sou um gênio musical e posso assumir a liderança.” Meu lábio demonstra humor. O sorriso de Bonnie muda de triste para divertido. Beijo seu nariz, só porque posso e porque estou ali. “Não vou a lugar nenhum. Se você ainda não sabe, sou teimoso e faço praticamente o que diabos eu quiser.” Vou para o piano, levando o banquinho comigo. Aponto com minha cabeça para o espaço que deixei no banco. “Traga sua bunda até aqui, Farraday.” Posso ver seu debate sobre o que fazer. Nunca afasto meus olhos dos dela. Bonnie dá um suspiro e fica em pé. Meu sangue bombeia mais rapidamente pelo corpo quando ela se senta ao meu lado. “Bem, é melhor você ser tão bom quanto diz. Você se vangloriou bastante, Dean,” ela brinca e sorrio alto. Bonnie congela, o choque engolindo seu rosto bonito. Meu humor desaparece. “O que há de errado?” “Você riu.” Um sorriso largo curva seus lábios. “Dean azedodo-século Cromwell realmente deu uma risada.” Ela fecha os olhos, fazendo meu coração se derreter. “E foi amarelo brilhante.” Ela abre os olhos. “Como o sol.” “Você tem sinestesia agora?”

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“Não. Mas não preciso disso. Quando você riu...” ela cutuca meu braço. “...a sala se iluminou.” Sorrio e coloco minhas mãos nas teclas. No minuto em que sinto o marfim sob meus dedos, é como voltar para casa. Minhas mãos tocam algumas escalas, aquecendo-se para a música que estamos prestes a criar. “Precisamos de um tema.” “Eu sei que precisamos. Tenho tentado fazer com que você concorde com um há séculos.” Balanço a cabeça, culpa espremendo meu peito. “Estou aqui agora.” Bonnie descansa a cabeça em meu ombro. “Você está aqui agora.” Ela ainda parece duvidar. Como se não achasse que eu deveria estar. Mas ela sabe que sou teimoso. A sala fica em silêncio, Bonnie pensa. “Tem que ser pessoal.” Balanço a cabeça. Espero ela concluir seus pensamentos. “Que tal ser sobre minha jornada?”, ela olha com nervosismo entre seus cílios e coloca a mão sobre o coração. “Com o meu coração”, ela me dá um sorriso fraco. “E para onde quer que a história se desenrole a partir daqui. A luta. A incerteza. A alegria... ou...” ela não termina a frase. Não preciso que ela termine. “Sim”, digo asperamente. “Isso é bom.” Minha cabeça já está girando com ideias, notas se formando enquanto ela fala. Violinos distantes tocam ao fundo, trompetes e flautas perseguindo a melodia. “E para sua parte?” Olho para ela. “O que você quer dizer?”

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“O que podemos colocar na peça que seja sobre você? Para que também seja representado.” Minhas mãos se fecham em punhos. “Não tenho nada.” O abismo que habita meu íntimo há tanto tempo ameaça entrar em erupção. A decepção de Bonnie é demonstrada em seu rostinho bonito. Mas, ao contrário de todas as outras vezes, ela não me pressiona. Seu silêncio grita sua tristeza com minha resposta. Mas, como sempre, minhas paredes se erguem. “Amei a música que você tocou naquela noite. Aquela que você não concluiu.” Fecho meus olhos. “Não. Eu estava sendo um idiota. Sei disso. Mas apenas... não posso...” Bonnie coloca a cabeça no meu braço novamente. É engraçado. Ela está agindo de forma diferente das outras vezes, mas agora posso ver o quanto ela está cansada. Ou talvez esteja apenas deixando que eu veja como ela realmente é. Ela não tem mais que fingir. Diferentemente de mim. Meus dedos começam a se mover, suas palavras circulando como abutres na minha cabeça. Eu amei a peça que você tocou naquela noite. Aquela que você não concluiu... Meus lábios se movem para sua cabeça, um beijo suave pressionado em seu cabelo. Mas minhas mãos dão sequência à música que vem de dentro. Uma pequena nota rítmica singular. Um batimento cardíaco. Então outro. Pessoas. Muitas pessoas todas com corações batendo. Mais. Mais e mais corações batendo em uníssono... então... “O meu”, diz Bonnie, de olhos fechados, entendendo a história musical que estou contando. Uma nota delicada, fora de

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sincronia e se destacando sozinha. O sorriso de Bonnie cresce quando uma melodia vem na sequência leve e brilhante. Violeta-azul em minha mente. Bonnie ouve, braços enlaçados ao meu enquanto toco, minha ideia sendo lançada nas teclas. “Aí”, ela diz. “Segure isso.” Eu toco. “Adicione cordas”, ela acrescenta. “Violinos e violas assumindo as notas principais.” Toco e Bonnie anota as partituras que estamos criando manuscritas em papel. Horas se passam. Olho para Bonnie descansando contra o meu braço e percebo que ela está dormindo. Tiro minhas mãos das teclas e apenas contemplo o rosto tranquilo. Uma pancada de dor invade meu estômago quando faço isso. Uma onda de raiva parece chamuscar os ossos do meu corpo. Porque Bonnie Farraday é perfeita. Perfeição com um coração imperfeito. Olho para o piano. Enquanto as teclas me encaram, a dor familiar da perda me corta, fazendo-me perder o fôlego. As emoções que mantive presas lá dentro ameaçam se libertar. Mas não posso encarar estas emoções e isso aqui. Inalo o cheiro de Bonnie e tento não desmoronar. Preciso pensar em Bonnie. Nada mais. Nós conversamos. Ela me contou um pouco do que os médicos disseram. Ela quer continuar estudando o máximo que puder. Posso dizer por seus olhos que está determinada. Mas posso dizer também, pela maneira como luta com tarefas tão simples, que ela está cansada e que não vai frequentar as aulas por muito tempo.

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Passo meu braço em torno dela e a abraço. Olho para a parede em branco à minha frente e apenas a deixo dormir. É estranho. Nunca fui de proximidade e afeto antes, mas Bonnie Farraday em meus braços, dormindo e recuperando a força que está tentando escapar dela, parece a coisa mais natural do mundo. Forcei muito hoje. Faço uma nota mental para não trabalhar tão duro a partir de agora. Passa outra meia hora antes de Bonnie se mexer. Quando ela pisca saindo do sono, olha para mim, um momento de confusão tomando conta dela, antes de suas bochechas cintilarem. “Cromwell... sinto muito.” Pego seu queixo entre meu polegar e indicador. “Olhe para mim, Bonn.” Ela olha para qualquer lugar, menos para mim. Até que finalmente levanta os olhos. “Você precisava dormir. Está tudo bem.” “Desculpe.” Posso ouvir o constrangimento em sua voz, ver o brilho de seus olhos. Isso quase parte meu coração. Inclino-me para frente e beijo seus lábios. Ela me beija de volta. Descanso minha testa na dela e digo, “Vamos fazer um acordo agora. Se você precisar descansar enquanto está na escola, você vem até mim. Se você precisar de qualquer coisa, você vem até mim. E você não vai ficar envergonhada. Combinado?” Bonnie hesita, mas depois diz, “Dean.” “Vou levar você para casa.” Ajudo-a a se levantar e a levo para minha caminhonete. No minuto que chego ao lado do motorista, ela deita a cabeça contra mim e volta a dormir. Quando saio do campus, sinto muitas emoções ao mesmo tempo. Exultação por Bonnie se sentir confortável o suficiente

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para adormecer contra mim. Mas com medo do quanto ela está cansada. Algumas horas na sala de ensaio e algumas classes esgotaram seu corpo. Ouço as notas de abertura da peça que havíamos começado, a massa de batimentos cardíacos com um único som atípico. Nada poderia ser mais verdadeiro. Desde o segundo em que cheguei a Jefferson, todo mundo foi igual. Todos menos um, uma garota chamada Bonnie Farraday. A única exceção à regra. Paro na casa de Bonnie. Ela ainda está dormindo. Permitome uma rápida olhada em seu rosto antes de tomá-la em meus braços e carrega-la para a casa. A porta se abre antes que eu tenha a chance de bater. A mãe de Bonnie me mostra o caminho para o quarto dela. Deito-a na cama, Bonnie nem sequer acorda. Beijo sua cabeça e sussurro em seu ouvido. “Vejo você em breve, Farraday.” Levanto-me, querendo me mexer, mas minhas pernas não me deixam sair. Levo mais cinco minutos para me virar e ir para a porta. A mãe de Bonnie está assistindo da entrada. Ela fecha a porta atrás de mim. Corro minha mão pelo cabelo. “Ela adormeceu na sala de ensaio quando estávamos ensaiando. Então adormeceu novamente na minha caminhonete.” Não tenho certeza se já tinha visto dor refletida no olhar de alguém antes. Mas quando olho para a senhora Farraday, vejo aquilo claro como o dia. Ela está perdendo Bonnie. Ela está perdendo sua filha. A filha. E ela tem que ficar para trás e assistir isso acontecer, incapaz de fazer qualquer coisa para mudar o fim. Não consigo respirar com esse pensamento.

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“Ela está ficando mais fraca”, diz ela, uma força em sua voz que eu não esperava. Olho para a porta fechada como se pudesse ver Bonnie através dela. Sinto um frio em meu estômago com as palavras da Sra. Farraday. A mão dela está no meu braço. “Ela quer continuar a frequentar as aulas por mais algum tempo, mas não tenho certeza se é viável. Diria que ela tem três semanas no máximo antes de ficar fraca demais. Principalmente por causa da respiração dela. Seus pulmões.” “Tão rápido?”, a voz é áspera quando a pergunta escapa dos meus lábios. “Ela não está em um bom caminho, filho.” Sua voz engasga, sua bravura vacila por um segundo. Ela arruma o cabelo e sorri. “Mas ela é forte, Cromwell. Está determinada a conseguir um coração. Estamos orando todos os dias por esse milagre. Isso vai acontecer. Eu sei que vai.” “Eu quero estar aqui”, digo, com meu peito se contraindo. “Quando ela não puder estar na escola, ainda quero poder vê-la.” “Conheço minha filha, Cromwell. E ela também vai querer que você esteja aqui”, ela estende a mão e segura a minha. “Talvez você seja o anjo da guarda que chegou para fazê-la passar por tudo isso.” Uma onda de emoção me atinge, tão esmagadora que rouba minha capacidade de falar. “Estaremos fora por alguns dias, em Charleston”, diz ela. “Especialistas, sabe? Tenho certeza de que Bonnie vai avisar você quando voltarmos.” Quase exijo que ela me deixe ir junto. Insistindo que me levem também. Mas um olhar para os ombros caídos da mãe de Bonnie, e não consigo. Eu tensamente balanço a cabeça e saio dali. Assim que piso na calçada, a Sra. Farraday diz, “Se você

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encontrar Easton, por favor, diga a ele para voltar para casa?”, ela baixa a cabeça. “A irmã dele precisa do melhor amigo.” Assinto com a cabeça e entro na minha caminhonete. Easton já está em nosso quarto quando volto. Fecho a porta, prestes a enfrentá-lo, quando ele voa para mim, suas pernas achatando meu peito enquanto me esmaga contra a porta. “Que diabos você está fazendo com a minha irmã?”, ele cospe. Seu rosto está vermelho, cor de beterraba. Empurro-o de volta, mas Easton parece uma parede de tijolos. Puxo seus braços de cima de mim e o empurro contra a parede. Mas ele não para. “Ela não é uma das suas fodas fáceis!”, ele assobia. Seu punho avança e me acerta um soco no rosto. Sinto gosto de sangue no meu lábio. Fecho minhas mãos em sua camisa e o seguro parado, raiva alimentando minhas palavras. “Eu sei que ela não é, seu idiota.” Easton tenta me atacar novamente. Empurro meu antebraço no pescoço dele, impedindoo de se mexer. “Eu sei que ela não é!” Empurro com mais força, cortando seu fôlego. “Você acha que não sei disso? Ela é...” a verdade me faz parar. Mas quando olho nos olhos de Easton, digo, “Ela é tudo, East. Tudo, porra!” Easton fica quieto. Solto meu braço e recuo. Easton respira pesadamente, o peito subindo e descendo. Suas bochechas estão vermelhas, mas o resto de sua pele está pálida. Seus olhos estão estreitos e vermelhos em volta. O sangue do meu lábio escorre pelo queixo. Easton cai contra a parede e olho para ele. Realmente olho para ele. Onde as cores ao redor dele antes eram brilhantes, um arco-íris de néon, agora há apenas preto, cinzas e azuis-marinhos.

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“Ela vai morrer”, diz calmamente e seu rosto se contorce de tristeza. Eu posso sentir as ondas de medo pulsando do seu corpo. Seus olhos recaem em mim, mas acho que ele não está realmente me vendo. “Ela lutou por tanto tempo. Mas finalmente está desistindo. O coração dela...” ele encontra meus olhos. “Ela vai morrer.” “Eles podem encontrar um coração para ela.” Easton ri, sem qualquer humor em seu tom. “Você sabe como é raro alguém ficar disponível? Ter a compatibilidade exata?” Aperto meu queixo quando percebo que não. Além de uma rápida pesquisa na internet, não sei de nada. Easton desaba na parede, completamente desanimado. “Quase nunca acontece.” Sento-me no chão também, encostado em minha cama. Lambo o lábio, saboreando nada além de sangue. “O corpo dela vai desistir logo”, sussurra Easton. Seus olhos estão assombrados; é a única maneira de descrevê-los. Ele inclina a cabeça contra a parede. “Ela já fez tantas cirurgias ao longo dos anos.” Ele balança a cabeça. “Eu pensei que ela estivesse melhorando. Pensei...” “O coração começou a falhar”, digo, contando o que ele sem dúvida já sabe... “Como diabos será o mundo sem Bonnie?” Meu estômago fica tenso. Porque eu não me permito pensar nisso. Um mundo sem Farraday seria... Balanço a cabeça. “Ela é forte.” Easton assente, mas posso ver que ele não acredita. “Ela é.” “Bonnie é forte. Mas o coração dela não é.” Seus olhos perdem o foco. As cores ao seu redor se aprofundam ainda mais na escuridão. Isso me lembra de suas últimas pinturas. “Ela só pode ser tão forte quanto seu coração permite que ela seja.” Ele

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suspira e passa as mãos pelo rosto. “Sabia que havia algo errado.” Olho para a pintura inacabada em seu cavalete. “Podia sentir que ela estava mentindo. Escondendo a verdade.” Ele bate em sua cabeça. “Gêmeos.” “Ela queria ser o mais normal possível.” Os olhos de Easton se estreitam em mim. “Vocês se odiavam.” “Não. Na verdade, não.” Ele balança sua cabeça. “Ela é muito frágil.” A centelha de raiva que sempre espreita, pronta para atacar em meu estômago se ilumina com suas palavras. Porque sei que ele está me dando um aviso sobre ela. Mas é tarde demais. Ele não me entende e com certeza não entende a mim e Bonnie, juntos. O que nós compartilhamos “Ela não tem forças para lidar com suas merdas.” “Ela precisa de mim. Ela me quer.” Easton fecha os olhos e apenas respira. “Ela precisa de você”, digo e ele fica tenso. Cada músculo do seu corpo se aperta. “Ela precisa de você mais do que nunca.” “Eu sei”, diz ele depois de vários segundos tensos. Inclinome contra minha cama. Um peso enorme e esmagador parece estar sobre meus ombros. Easton fica em silêncio por tanto tempo que acho que ele não vai falar mais nada. Até que sussurra, “Ela não pode morrer.” Olho para Easton, apenas para ver as lágrimas escorrendo por suas bochechas. Sinto um aperto em meu íntimo e o caroço com o qual estou lutando desde ontem trava minha garganta. O rosto de Easton se encolhe. É uma das primeiras vezes que o vejo falando sério. Agora, ele está mortalmente sério.

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“Ela é minha irmã. Minha irmã gêmea.” Ele balança a cabeça. “Eu não posso, Crom. Não posso ficar sem ela.” Meus olhos ficam embaçados, mas me levanto e sento ao lado dele. A cabeça de Easton cai para frente e seu corpo treme enquanto ele chora. Travo minha mandíbula, sem saber o que diabos fazer. Parece que meu estômago está se abrindo quando deixo as palavras de Easton entrarem em mim. Ela não pode morrer... Empurro minha língua contra os dentes para evitar desmoronar também. Os soluços de Easton ficam mais altos, meu amigo se descontrolando, ali sentado contra a parede. Levanto meu braço, deixando-o pairar sobre ele, até que coloco em torno de seu ombro e o puxo para meu peito. Easton cai contra mim. Olho através do quarto, para sua pintura inacabada. Para as ondas pretas e os golpes turbulentos do pincel. É esse momento. É exatamente o que ele está sentindo agora. Ele sabia. Sabia que havia algo errado com Bonnie, mas não ousou perguntar. Enquanto olho para a pintura, enquanto Easton chora por sua irmã gêmea, não posso deixar de ver o rosto de Bonnie em minha cabeça. Seus olhos e cabelos escuros. Seu lindo rosto. E ela sentada naquele palco, violão nas mãos, azulvioleta saindo de sua boca. Ofego para respirar quando o medo puro rouba todo o ar em meus pulmões. Medo de perdê-la antes que eu realmente tivesse a chance de conhecê-la. Minha cor favorita sendo arrancada da minha vida. Bonnie sendo levada antes de poder deixar sua impressão digital na janela do mundo. Balanço a cabeça, ignorando a maldita lágrima que cai do canto do meu olho. “Ela não vai morrer”, digo, segurando Easton com mais força. “Ela não vai morrer.”

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O rosto do meu pai passa pela minha mente e, com isso, vem a lembrança do vazio que a ausência dele trouxe e que nunca foi preenchida. Até que Bonnie Farraday entrou na minha vida em uma praia em Brighton e começou a me trazer algo que eu nem sabia que precisava — prata. Felicidade. Ela mesma. “Ela não vai morrer”, repito uma última vez, deixando a convicção dessas palavras se estabelecerem dentro de mim. Easton levanta a cabeça dez minutos depois. Enxuga os olhos com o antebraço e olha para a pintura. “Eu preciso ir vê-la.” Balanço a cabeça e Easton fica de pé. Afasto-me da porta e sento na minha cama. Easton balança desajeitadamente em pé. Coça a parte de trás da cabeça. “Se você está nessa mesmo, precisa entrar com tudo.” Ele respira fundo. “Vai ser difícil e ela vai precisar daqueles que a amam ao seu redor.” Os olhos de Easton enfrentam diretamente os meus, em um claro desafio. Então seu rosto se suaviza. “Ela age com firmeza. Luta com garra. Mas no fundo, Bonn está apavorada.” Ele engole em seco e sinto o nó na minha garganta engrossar. “Ela não quer morrer, Crom. Tem tanta merda de vida nela que se ela fosse levada agora...” Quando ele olha para mim novamente há apenas convicção em seu rosto. “Ela é a melhor de nós dois. Sempre soube disso.” Ele parece querer dizer algo mais, mas em vez disso sai do quarto, deixando a sombra de seus negros e azuis-marinhos para trás. Não tenho certeza se qualquer outra coisa vai colorir este quarto até que Bonnie consiga o coração que precisa.

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Deito, olhando para o teto, por uma hora, antes de me levantar para tomar um banho. Quando a água cai sobre mim, escorrendo pelo meu corpo e batendo nos azulejos aos meus pés, a pergunta de Bonnie não deixa minha cabeça. Aquela sobre a peça inacabada que eu havia tocado acidentalmente naquela noite. A que eu não tocava em três anos. Coloco minha testa contra a parede e fecho os olhos. Mas a água do chuveiro, como chuva na janela, como o som das lágrimas que caíram todas aquelas noites atrás, traz essa peça à minha mente. As cores escuras de Easton dançam nos meus olhos quando a peça cresce em volume. E não consigo desligar. Como uma enchente, que invade uma represa, demolindo as paredes. O banheiro está em silêncio, vazio, tão tarde da noite. Fico grato. Grato enquanto minhas mãos batem nos azulejos e quando minhas pernas ficam fracas, a música tocando na minha cabeça, as notas de abertura esmagando meu coração. Só que agora, em vez de apenas o rosto de meu pai dentro de minha mente, Bonnie também está lá. Balanço a cabeça, tentando fazer com que todos me deixem em paz. Não consigo lidar com as emoções que trazem. As emoções são demais, muito sangrentas para eu aguentar. As cores explodem como fogos de artifício em minha cabeça. Meu estômago se aperta, meu coração bate forte e minhas pernas cedem. Caio ao chão, a água fica fria enquanto acerta minha cabeça, em batidas rítmicas. E então as lágrimas vêm. A água e as lágrimas ficam borradas quando se juntam e caem ao no chão. Embora não me sinta limpo. Nada além do “dom” que recebi poderia agora levar para longe de mim estes sentimentos. Sento de volta sobre os joelhos e olho para minhas mãos. Estão tremendo. Elas se fecham em punhos e quero esmagá-las contra os azulejos. Mas não faço

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isso. Porque a necessidade de criar governa minhas escolhas agora. Minhas mãos são minhas ferramentas. São as únicas que podem levar essas emoções para longe. Alguns veem a sinestesia como um presente dado por Deus. Algumas partes são mesmo; não posso negar. Mas essa parte, a parte que deixa minhas emoções tão intensas que não posso aguentá-las, é uma maldição. Posso vê-las. Sentilas. Prová-las. E é demais. Quando penso em Bonnie, lembro meu pai da última vez que o vi... eu me inclino, a dor no meu íntimo tornando-se demais para suportar. É como se alguém tivesse dado uma pancada nas minhas costelas, meu coração carregando tanta tristeza que não consegue lidar com aquilo. Respiro fundo e fico de pé. Ainda molhado visto minhas roupas. E corro. Corro através do pátio até o prédio da música, atravessando a porta e entrando na sala de ensaio mais próxima. Nem me incomodo com a luz. Eu apenas sento ao piano e levanto a tampa. A lua brilha através da janela alta, banhando as teclas marfim e pretas com um brilho prateado. Prata. É como se meu pai estivesse olhando por mim. Mostrandome o caminho de volta para a felicidade. Isso — a música — o maior amor que já perdi, só foi encontrada novamente graças a uma garota em um vestido roxo. Ela é meu presente dado por Deus. A garota que me trouxe de volta à vida. Minhas mãos se espalham no piano. E, fechando meus olhos, começo a tocar. A peça que inspirou minha mudança para a dance music flui de dentro de mim como um prisioneiro que ficou trancafiado dentro de uma cela durante muitos anos e agora encontrou a liberdade. Estou perdido nas notas. Perdido

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enquanto relembro minha mãe entrando em meu quarto e dizendo que ele havia partido. O oficial do exército aparecendo em nossa porta com um conjunto de plaquetas de identificação na mão. A noite que soube que ele estava desaparecido, meu coração se despedaçando com arrependimento e dor. A música preenche cada centímetro de espaço, deixando nada além desta peça para eu respirar. Minhas mãos doem enquanto toco, toco de novo. A nova sinfonia jorra de dentro de mim como sempre acontecia. Minhas mãos nunca vacilam mesmo que meu coração esteja vacilando. Memórias são como granadas jogadas aos meus pés. Mas meus dedos estão prontos e lutam através do campo minado. Então, quando a peça termina, o som de tiros dentro da minha cabeça, um adeus a um soldado tombado, um herói de guerra... meu herói... minhas mãos param. Meus olhos se abrem, inchados e feridos... mas agora eu posso respirar. O padrão colorido está impresso em minha mente. Uma homenagem ao meu pai. Peter Dean “Pai”, sussurro, a palavra ecoando na sala. Inclino minha cabeça no piano e sei, sem dúvida, que esta é a melhor peça que já compus. Metade do peso dentro de mim é descarregado. E quando levanto a cabeça, enxugando as lágrimas silenciosas do meu rosto, sei que há alguém que precisa ouvir isso. Tenho que tocar isso mais uma vez.. Quando ela voltar, vai ouvi-la. Preciso que ela ouça. Apenas preciso dela, ponto final.

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Capítulo 18 Bonnie

Estou na cama, ouvindo minha música, quando Easton entra. Sento-me, engolindo a tristeza que me enche quando olho para seu rosto. Tiro meus fones de ouvido e estendo a mão. “East,” eu sussurro, com a voz rouca. Tento respirar, inalo profundamente, mas meus pulmões já não deixam. Eu me mexo onde estou sentada, rangendo os dentes com o esforço que faço para me mover. Mas quando a mão de Easton escorrega na minha, encontro força em seu toque. Ele senta-se na beira da cama. Seus olhos estão vermelhos e seu rosto está pálido. “Eu estou bem,” digo e tento apertar sua mão com mais força. Easton me dá um sorriso fraco. “Você nunca mentiu para mim, Bonn. Não comece agora.” Desta vez sou eu quem dá um sorriso fraco. “Estou determinada a ficar,” respondo.

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“Eu sei.” Ele se move para meu lado e nós descansamos nossas costas contra a cabeceira da cama. Não solto a mão dele. Desde que éramos crianças, segurar sua mão me dá força. “Já se passaram dez anos,” ele diz, com a voz grave. Eu concordo. Dez anos desde que os problemas no meu coração foram encontrados. Os olhos de Easton brilham com... orgulho? “Você lutou muito, Bonn.” Não consigo impedir meus olhos de se encherem de água. “Você também.” Easton me dá um riso zombeteiro. Mas eu quis dizer isso. “Não como você,” ele diz. Easton suspira e acena com a cabeça. “Estou convencido de que meus problemas estão diretamente ligados ao seu coração.” Meu estômago dá voltas. “Eu acho que quando fomos criados, eu estava ligado a você de alguma forma. Quando seu coração começou a falhar, o mesmo aconteceu com meu cérebro.” Eu me movo até que sento de frente a ele. Coloco minhas mãos em suas bochechas. “Eles não estão ligados, East. Você está indo bem.” Deixo cair minha mão na pulseira de couro que ele sempre usa. Eu a empurro pelo seu braço até que sua cicatriz fica visível. Easton cerra o maxilar quando passo meus dedos pela carne saliente. Um flash de dor explode no meu peito. “Você tem que me prometer, East,” encaro seus olhos azuis. “Prometa-me que você será forte. Haja o que houver. Não ceda aos demônios que ameaçam assumir.” Puxo a sua mão quando ele desvia o olhar. “Prometa que você falará com seu terapeuta. Com mamãe, papai, Cromwell. Alguém.” “Cromwell não sabe nada sobre isso. Só vocês.”

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“Então fale conosco.” Olho para o meu irmão, e a preocupação apunhala meu cérebro. “Como você está agora?” “Triste,” ele diz, demolindo completamente o que sobrou do meu coração inútil. “Por sua causa. Por você. Não por causa da minha cabeça.” O alívio é um bálsamo para a dor no peito que nunca para. “Você promete?” Easton sorri, aquecendo minha pele e estende o dedo mindinho. Prendo meu mindinho no dele. “Eu prometo.” Eu sorrio e me recosto contra a cama. Minhas pálpebras estão pesadas. “Vai ser como da última vez.” Rolo minha cabeça no travesseiro para enfrentar Easton. Ele levanta uma sobrancelha. “A próxima cirurgia.” Não menciono que a cirurgia pode nunca acontecer. Ou que um coração pode nunca ser encontrado. Nunca me deixo pronunciar essas palavras em voz alta. Eu não as deixarei soltas no universo dessa maneira. Assisto a dor daquela esperança distante lavar o rosto de Easton. Mas sorrio e digo: “Eu acordarei e você estará ao meu lado. Você, mamãe, papai e...” “E Cromwell,” Easton termina. Olho nos olhos do meu irmão e, reunindo a coragem que não sabia que tinha, digo: “E Cromwell.” Algo em sua expressão muda. “Eu acho que ele te ama,” Easton diz, deixando-me sem ar. Meu coração salta no peito como uma bola de basquete que está lentamente se esvaziando. Eu ouço seu baque surdo e a batida inquieta. Minha voz me deixa. Easton ergue o punho, os nós dos seus dedos estão vermelhos. “Eu bati nele esta noite.”

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“Não,” eu sussurro. Não tenho forças para dizer mais nada. “Eu vi vocês em Charleston. Eu vi que ele te beijou.” A vermelhidão floresce em minhas bochechas. “E vejo o jeito que você olha para ele.” Easton suspira, derrotado. “E o jeito que ele olha para você.” “Como?” “Como se você fosse o ar que ele respira. Como se fosse a água para o inferno que mora dentro dele.” “East,” eu me apresso, meu corpo aquecendo com a felicidade em suas palavras. “Eu precisava ter certeza que ele não vai te machucar.” Easton empurra a pulseira para cima do seu pulso, escondendo sua cicatriz mais uma vez. “Eu tinha que ter certeza que ele não mexeria com você.” Ele faz uma pausa, então diz com tristeza, “Especialmente agora.” Eu sorrio, apesar de meus lábios tremerem. “Sempre cuidando de mim.” “Sempre, Bonn. Eu sempre cuidarei de você.” Ele sorri, e é como ver o sol atravessar uma nuvem cinza. “Eu sou seu irmão mais velho, lembra?” Reviro meus olhos. “Por quatro minutos.” Ele alarga seu sorriso. “Não importa. Eu sou seu irmão mais velho. Tive que ter certeza que ele não te machucaria.” “Ele não vai.” Respondo sem pensar. Mas então uma paz se estabelece em mim com a minha resposta. Porque sei que é verdade. Eu sei que Cromwell não me machucará. Eu penso em seus olhos azuis, profundos como a noite. Penso em seu cabelo preto e pele morena. Nas tatuagens que cobrem sua pele. Nos

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piercings que brilham quando a luz os acerta. E meu coração preguiçoso volta a bater constante. Cromwell Dean inspira meu coração a tentar. “Você gosta muito dele também, hein?” Easton diz. Quando encontro seus olhos, meu rosto se incendeia. Ele estava me observando enquanto eu pensava em Cromwell. “Ele não é o que todo mundo pensa.” Traço o padrão rosa da minha colcha com o meu dedo. “Ele é mal-humorado e seco. Ele foi horrível comigo quando nos conhecemos.” Mas então eu pego o eco de sua música na minha cabeça, e meu corpo flutua com a luz. “Mas ele não é assim comigo agora.” “Não?” Balanço minha cabeça. “Ele é... ele me mostra que se importa de várias maneiras. Ele segura minha mão e se recusa a soltar. Ele quer estar comigo, mesmo que tudo o que façamos seja ficar em silêncio. E, melhor ainda, ele me mostra que se importa da única maneira que sabe.” Olho para meu piano e, em minha mente, posso vê-lo sentado, com os dedos à vontade nas teclas de marfim. “Ele traz música para o meu mundo silencioso, East.” Eu sorrio, sentindo meu peito brilhar. “Ele toca música para mim que diz mais do que as palavras dele poderiam.” Eu procuro palavras para expressar o que quero dizer. Eu não tenho certeza se consegui transmitir completamente o que estar com Cromwell faz comigo. “Cromwell não fala muito com sua voz, mas ele grita o que sente com melodias e notas e a mudança das teclas.” Inspiro profundamente. Isso mal infla meus pulmões preguiçosos, mas me dá ar suficiente para dizer: “Eu sei que estou sendo egoísta, mas não consigo fazer com que ele me deixe East.” Encontro o olhar do meu irmão. Está cheio de lágrimas. “Eu sei o que vem pela frente. E sei o quão difícil será.” Reúno minhas

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forças e digo: “E me sinto mais forte quando ele está ao meu lado.” Imagino-me sentada ao lado dele no banquinho do piano, minha cabeça deitada sobre seu musculoso bíceps, enquanto ele toca. Conforme ele me conta a nossa história com oitavas e quintas perfeitas. “Pode parecer loucura. Pode parecer apressado e impossível... mas ele fala à minha alma. Cromwell está danificado e é sombrio. Eu sei isso. E ele ainda não me deixou entrar. Mas a partir do momento em que nos encontramos, sua música tornou impossível que nos separássemos.” Balanço a cabeça em descrença. “Ele diz que sou eu quem o inspira a tocar. Que sou quem trouxe algo dentro dele de volta à vida.” “Bem, então” East diz deitando ao meu lado. “É melhor não bater nele novamente.” Não posso evitar. Eu tenho que rir. Easton sorri, mostrando-me um vislumbre do irmão feliz que eu amo. “Ele é um cara legal. Acabou sendo um bom amigo.” Easton baixa os olhos. “Eu meio que senti falta disso hoje à noite, Bonn. Por você.” “East...” digo suavemente, devastação roubando quaisquer outras palavras que eu possa oferecer como conforto. “Mas ele estava lá por mim. Sentou-se ao meu lado e me deixou tirar tudo. Ele não se mexeu, em vez disso sentou ao meu lado e me disse o quão forte você é e como tudo ficará bem.” “Ele fez isso?” Easton assente. “E ele quis dizer isso, Bonn. Eu vi no rosto dele.” Ele me olha e não consigo ler sua expressão. “Ele ama você.” É a segunda vez que East pronuncia essas palavras, e meu coração ainda dá a mesma resposta. Milagrosamente, dispara. “Eu sempre me preocupei com você, irmãzinha. Você nunca teve uma vida social. Nunca teve um namorado. Cristo, eu nem achei que você tivesse sido beijada. Muito ocupada lutando

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para permanecer viva.” Eu coro. “Mas estou feliz que você o encontrou agora.” Ele segura minha mão, e segura firme. “Quando ficar mais difícil, ele ajudará você a passar por isso.” “Vocês todos vão,” digo. “Você, mamãe, papai e Cromwell.” Eu tiro meu cabelo do rosto. “Sinto que posso fazer isso. Eu posso aguentar até que um novo coração me salve.” Não me permito mencionar a chance de rejeição do coração ou o milhão de outras coisas que podem dar errado, mesmo que eu receba um coração. Eu não consigo pensar nisso, ou não tenho certeza se consigo continuar a luta. O cansaço se apodera de mim como uma onda me ninando. “Você vai comigo ao hospital amanhã?” “É claro,” Easton diz. Meus olhos começam a fechar. Mas ainda sinto meu irmão ao meu lado. Ele não sairá do meu lado. Enquanto o sono me leva, a esperança paira pesada no ar. Parece um violoncelo e um violino. Eu me pergunto o que Cromwell veria. A mim, eu espero. Rezo para que Cromwell pense em esperança e veja meu rosto. Porque eu penso nele. Cromwell Dean trouxe consigo esperança. E agora, é a coisa mais importante no meu mundo.

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“Falência acelerada...” a voz do médico entra e sai de meus ouvidos enquanto ele coloca as imagens digitalizadas de ontem em um suporte para meus pais verem.

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Minha atenção se desvia da janela para os pássaros no céu. Eu me pergunto para onde eles estão voando. Pergunto-me como é voar. Voar pelo céu, o ar sob suas asas. “Bonnie?” A voz do doutor Brennan corta minhas reflexões. Eu rolo minha cabeça no travesseiro para encarálo. Vejo a tristeza nos rostos da minha mãe e pai. Easton se levanta, encostando-se à parede, os braços cruzados sobre o peito, os olhos perdidos enquanto olham para o chão. “Bonnie?” Dr. Brennan diz. “Você tem alguma pergunta?” “Quanto tempo até eu não conseguir mais tocar música?” Ouço o choro suave da minha mãe, mas seguro o olhar do médico. Ele tem as respostas. “Não vai demorar muito, Bonnie. A função de seus membros já está comprometida.” Olho para os meus dedos e vejo o inchaço que começou a aparecer semanas atrás, mas agora está aqui, inibindo minha capacidade de tocar. Respiro; meu inspirar e exalar são agitados. Cerca de um mês, ouço o Dr. Brennan dizer. Seis semanas no máximo. É estranho conseguir um cronograma da sua vida. Não contar mais em anos, mas em semanas, em dias e até horas. “Querida?” Mamãe passa a mão sobre a minha cabeça. Olho para ela. “Eles levarão algumas coisas para nossa casa, para você. Coisas para ajudá-la a respirar e ficar mais confortável.” “Podemos ir para casa agora?” Pergunto, nem mesmo reconhecendo o que ela disse. Eu não quero. “Sim.” Minha mãe vai ao armário para pegar minhas roupas. Visto-me e sento na cadeira de rodas quando me

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empurram para fora do hospital. Fecho os olhos quando o sol bate no meu rosto, sentindo seus raios na minha pele. Não fico muito tempo exposta a ele antes de entrarmos no carro e estarmos a caminho de casa. O carro fica em silêncio quando saímos de Charleston e voltamos para Jefferson. Eu olho para o meu pai, suas mãos segurando firmemente o volante. Olho para a minha mãe na minha frente; ela está olhando pela janela. Easton está ao meu lado. Seus olhos estão baixos e cada músculo seu está tenso. Suspiro, fechando meus olhos. Odeio como isso afeta todos que amo. Falência acelerada... As palavras giram em torno da minha cabeça como balas, mas estou entorpecida com seus golpes. Coloco a mão sobre o peito e sinto meu coração contra a palma da minha mão. Como sempre, bate em seu próprio ritmo, um ritmo de cansaço e exaustão. Um de tentar aguentar, quando tudo o que quer fazer é desistir. Mas eu não posso desistir... Quando chegamos a casa, meu pai me ajuda e eu caminho lentamente para a trilha. Quando olho para a calçada pavimentada, para o caminho que percorri desde que era criança, de repente parece-me um quilômetro. Respiro fundo, pronta para andar, quando vejo Easton ao meu lado. Olho para o meu irmão pirando. “Easton,” digo baixinho.

e

vejo

que

ele

está

“Eu preciso voltar para o dormitório.” Ele beija minha bochecha e recua para a caminhonete que está estacionada na garagem.

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“East?” Ele se vira a meio passo. Engulo. “Você está bem, certo?” Ele mostra um sorriso que não tenho certeza se é inteiramente real. “Eu estou, Bonn. Juro. Só tenho que ir para a escola. Eu preciso...” “Eu entendo.” Ele precisa de espaço. Easton sorri e entra em sua caminhonete. Assisto-o ir embora. Ele jurou para mim que está tomando seus remédios. Eu o fiz prometer me dizer se tudo isso — eu, minha doença — for demais. “Você acha que ele está bem?” Pergunto ao meu pai quando começamos a caminhar lentamente pela trilha. “Eu o verifico várias vezes por dia, Bonn. Ele está fazendo o melhor que pode. Seu terapeuta está feliz com o seu progresso.” A voz do meu pai fica rouca quando ele diz: “É só você, sabe? Ele quer te consertar. E ele não pode.” Meu pai me puxa para perto. “É difícil para o seu irmão e seu pai lidarem com isso. O fato de não podermos te proteger. Não podermos te curar.” “Papai...” sussurro; minha garganta ficando pesada com a tristeza. “Vamos para a cama, querida. Foi um longo dia.” Meu pai me conduz pela trilha, cada passo como uma maratona para minhas pernas cansadas. Eu sei que ele não pode falar comigo nesse momento. E não sei o que dizer em troca. Eu durmo por horas. Quando acordo está escuro lá fora, a chuva corta as janelas. É quase meia noite. Percebendo que não mandei uma mensagem para Cromwell, para que ele soubesse que estou de volta, envio uma mensagem rápida de que o verei amanhã e volto a dormir.

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Parece que mal fechei meus olhos quando ouço uma batida na minha janela. Eu observo o escuro, tentando me orientar. Quando a batida soa de novo, levanto-me da cama, usando a cabeceira para me manter firme. O relógio na mesinha de cabeceira diz que são duas e meia da manhã. Puxo as cortinas de volta. Na janela, encharcado, com roupas pretas escorregadias no corpo, está Cromwell. À primeira vista dele, meu coração parece tentar saltar do meu peito como se pudesse se soltar e residir ao lado do dele. Eu estendo a mão e viro a fechadura. Antes que eu tenha a chance de levantar a janela, Cromwell a abre e entra. Dou um passo para trás quando seu corpo alto entra no meu quarto. Estou sem fôlego quando ele me olha. Seus olhos azuis intensos estão em mim, e seu cabelo preto está bagunçado, fios grudados em seu rosto. Tento falar, mas antes que possa, Cromwell dá um passo à frente e me toma em seus braços. Sua boca toma a minha, um suspiro escapa dos meus lábios. Ele está molhado, encharcado até os ossos, mas não me importo quando seus lábios se movem contra os meus, suaves, mas exigentes. Rude, mas tão carinhoso que quase me faz chorar. Ele sabe que ultimamente estou lutando para respirar, e ele se afasta, deixando as mãos emoldurando meu rosto. “Senti sua falta.” Suas palavras são fogo para um calafrio que eu nem sabia que sentia. Seus olhos nunca deixam os meus com seu olhar intenso. “Eu também senti sua falta,” sussurro e observo seus ombros tensos relaxarem. Seus olhos correm pelo meu pijama. “Você está cansada?”

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Sorrio, o som é fraco. “Estou sempre cansada.” Cromwell engole e, em seguida, pega-me em seus braços. Os braços com suéter preto — o suéter que usei uma vez — estão molhados, mas não me importo. Eu enfrentaria o frio se isso significa estar em seus braços assim. Cromwell me deita na cama e senta-se na beirada. Sua mão tatuada empurra meu cabelo antes de deslizar suavemente pela minha bochecha. Pego-a na minha mão antes que ele a puxe. Eu a pressiono contra o meu rosto e fecho meus olhos. Posso sentir o cheiro da chuva. Posso sentir o cheiro dele. Mas quando abro os olhos, olho verdadeiramente para o rosto dele. “Cromwell?” Pergunto com preocupação transparecendo. “O que está errado?” Os olhos de Cromwell parecem assombrados, sua pele morena está pálida. Ele tem círculos escuros sob os olhos. Ele parece... triste. Mas antes que eu possa perguntar mais, Cromwell se levanta e vai para o piano. Por alguns momentos, não me atrevo a me mexer, observando enquanto ele puxa meu banquinho de piano e senta-se lentamente. Suas costas estão esticadas, sua cabeça abaixada. Posso ouvir minha respiração curta ecoando em meus ouvidos, apenas fracamente pegando o som da tampa do piano sendo aberta e o volume sendo girado para a configuração mais baixa. Sento-me, imaginando o que Cromwell está fazendo. Abraço meu travesseiro, mantendo o frio do meu pijama molhado longe de mim e Cromwell começa a tocar. Congelo; cada parte minha está em choque, conforme a peça que ele tocou parcialmente atravessa a sala. A parte em que o toque da minha mão em seu ombro o ajudou a tocar. Meus olhos

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se arregalam e meu lábio inferior treme quando a composição mais bonita que eu já tive o prazer de ouvir agracia meus ouvidos. As notas afundam na medula dos meus ossos e se espalham pelo meu corpo. Elas enchem cada parte minha, até que enchem meu coração, infundindo vida. Sento-me, hipnotizada, quando Cromwell passa pelo ponto em que ele parou uma vez, e me abençoa com mais. Notas que eu nunca ouvi tão lindamente, perfeitamente colocadas juntas, derramam dele, seu corpo se move ao ritmo como se ele fosse parte da música. Cromwell é a música que ele criou. Tenho certeza de que estou vendo através das paredes bem altas que ele mantém. Estou vendo a escuridão que ele mantinha escondida profundamente, finalmente fugindo de sua prisão. Minha mão trêmula chega à minha boca. Eu me esqueço de respirar, o poder da peça é como o peso no meu peito. Porque fala de tristeza e perda. Fala de raiva e arrependimento. Fala de amor. Reconheço todos os sentimentos, porque os sinto também. Eu os sinto agora. As mãos de Cromwell dançam sobre as teclas, perfeitamente, graciosamente, e com tanta beleza que eu tenho certeza de que, se o meu coração parasse agora, ficaria em paz depois de ouvir isso. A música é tão celestial que quase parece irreal. Sei que estou chorando. Posso sentir as lágrimas encharcando meu rosto. Mas não há soluços. Nenhum suspiro, apenas uma serenidade que vem com a pura felicidade. De ser tocada tão profundamente que algo muda dentro de você. Algo que te faz entender como é a perfeição. Quando Cromwell termina a música, saio da cama. Eu nem sei o porquê; apenas deixo meu coração defeituoso assumir a

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liderança. E claro, isso me leva a Cromwell. Parece que eu sou levada a Cromwell desde o verão em Brighton. Cromwell está imóvel, as mãos apoiadas nas teclas, nos acordes finais. E enquanto caminho para o seu lado, ele olha para cima. Suas bochechas estão molhadas e eu sei, sem perguntar, que algo acabou de romper dentro dele. E ele me deixa vê-lo. Aberto. Vulnerável. Ele. Olho para o lindo rosto de Cromwell, para um gênio tão torturado que afastou todo mundo e tentou me empurrar... mas sua música falou com a minha alma. Minha voz é o seu chamado da sereia. Os olhos de Cromwell se fecham e sua cabeça cai contra mim. Passo meus braços ao redor de sua cabeça, mantendo-o perto. Não sei o que é essa música. E não sei que dor ele nutre, mas sei que posso estar aqui para ele agora. Penso em minha jornada pela frente e como, em questão de dias, semanas, se tiver sorte, minha capacidade de me mover e respirar será tirada de mim. E sei. Eu sei, tão certo quanto sei que Cromwell é o músico mais perfeito que já ouvi, que eu o quero. Enquanto eu puder. Por nós dois. Eu guio a cabeça de Cromwell para trás e seguro suas bochechas. Cromwell olha para mim. Levo um momento para saboreá-lo. Para deixar uma fotografia em minha alma do

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momento em que suas paredes caíram e ele me guiou, mãos agarradas e dedos entrelaçados, dentro de seu coração. De onde eu nunca sairei. Onde eu quero ficar para sempre. Inclino-me, pressiono meus lábios nos dele. Provo o sabor das lágrimas e do frio deixado pela chuva. Tomando sua mão, eu o guio do banco em direção à cama. Nenhuma palavra é necessária. Não mancharei a melodia perfeita que ainda permanece no ar. Neste momento só há eu, ele e o silêncio. Neste momento não há nada além de cura e isso. Minhas mãos tremem quando caminho em direção a Cromwell e levanto seu suéter. Puxo a bainha sobre seu estômago, mostrando uma bela tela de tinta. Eu o coloco sobre o peito dele, grata pela ajuda de Cromwell quando ele levanta o resto do caminho e o descarta no chão. Seu peito sobe e desce enquanto minhas mãos se achatam em sua pele fria e bronzeada. A expressão em seus olhos faz minhas pernas fracas. Adoração. Inclino-me para frente e pressiono um beijo em sua pele, ouvindo o engate de sua respiração. Ele me deixa liderar. Meu garoto britânico, que acabou de me mostrar seu coração impenetrável. Mexo minhas mãos para a camisa do meu pijama. Começo a desabotoar, mas meus dedos já estão muito fracos. Cromwell se aproxima de mim e gentilmente segura minhas mãos. Ele as leva aos lábios e beija cada dedo. Meu lábio inferior treme com a visão. Com a ação. Então ele coloca minhas mãos em sua cintura, ele se inclina e toma minha boca. Ele me beija suavemente, tão suavemente que parece que nossos lábios mal se tocam. Sinto suas mãos abrindo meus botões.

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Seguro sua cintura, sentindo sua pele ir de fria a quente sob o meu toque. Traço os redemoinhos de um quadrante de notas dançando em uma barra curva. O escudo que ocupa o lugar de destaque em seu peito, ‘Papai’ escrito sobre uma fita vermelha, por baixo. Meu coração aperta com a visão, então, quando minha camisa cai nos meus cotovelos, inspiro e expiro, sabendo o que ele está vendo. Eu não tenho nada embaixo da minha camisa, nada além da minha pele, minha cicatriz e meu verdadeiro eu. Prendo a respiração quando Cromwell vê o resultado de anos de luta. Eu tenho medo que isso o enoje. Tenho medo que seja muito feio. Medo que — Um soluço quieto escorrega da minha garganta quando ele se inclina para frente e pressiona os lábios sobre a pele saliente. Ele beija a cicatriz do começo ao fim. Cada centímetro que diz ao mundo que eu tenho um coração defeituoso. Meu corpo inteiro treme. Cromwell pega meu rosto nas mãos. Minha camisa cai no chão, deixando-nos expostos. “Você é linda,” ele sussurra; aquelas palavras e sua voz, são como uma sinfonia para os meus ouvidos. Eu sorrio. É a única resposta que eu posso dar, as palavras estão ausentes, levadas pelo toque suave de seu beijo. Cromwell me beija quando o resto de nossas roupas cai. Ele me beija quando nos arrastamos para a cama e ele se move sobre mim. Cromwell me beija e beija, fazendo-me sentir tão querida que não penso em querer que esta noite termine. E quando nos aproximamos, seus olhos fixam-se nos meus e seus beijos são tão doces que ele parece enviado do céu. Enviado em minha vida exatamente quando preciso dele. Quando a verdadeira luta começa, quando preciso de um aliado ao meu lado.

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Empurro o cabelo escuro de seu rosto, nossa respiração é ofegante. Minhas mãos percorrem seu rosto, só para ele pegar meus dedos e beijá-los novamente. Como se estivesse me adorando. Como se estivesse me agradecendo. Pelo que, eu não sei. Mas quero que ele se sinta muito querido também. Nós não estamos juntos há muito tempo, mas quando seu tempo é finito, o amor é sentido com mais força, mais rapidamente, mais profundamente. Meus olhos se arregalam quando esse pensamento me atinge. Por que... “Estou me apaixonando por você,” sussurro, deixando minha alma assumir a liderança e falar sua verdade sem proteção. Cromwell para e seus olhos azuis se fixam em mim. Minha mão está em sua bochecha. Engulo. “Estou me apaixonando por você, Cromwell Dean. Profundamente.” Cromwell esmaga sua boca na minha, meus olhos se fecham quando ele me diz sem falar o quanto precisava daquelas palavras. Eu sorrio contra seus lábios quando sinto seu coração batendo ao lado do meu. Uma batida forte, que meu coração tenta desesperadamente perseguir. Cromwell pressiona a testa na minha. “Eu estou me apaixonando por você também,” ele diz com sua voz grave e rouca. Quebrado ou não, meu coração absorve aquelas palavras como uma flor bebendo dos raios do sol. Ele se expande no meu peito e bate com abandono selvagem. “Cromwell...” Eu o beijo novamente. Beijo e beijo enquanto aumentamos a velocidade e depois nos separamos em um milhão de minúsculos pedaços. Cromwell se move ao meu lado e me puxa para ele. Eu o observo do meu travesseiro e me pergunto como ele caiu tão

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perfeitamente na minha vida. Como tive tanta sorte. Como Deus ouviu minhas preces sussurradas. Cromwell pega minha mão. Mas quando seu aperto aumenta e seus olhos se fecham, sei que ele vai falar. “Tudo o que ele sempre quis para mim foi que eu tocasse música. Ele sabia que eu amava isso. Precisava disso... mas o decepcionei.” O rosto de Cromwell se encolhe. “E eu despedacei seu coração.” Eu me aproximo, segurando-o com mais força. Cromwell olha para mim. “Então ele nunca voltou para casa.”

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Capítulo 19 Cromwell

Minha voz paira no ar, a confissão é como penas grudadas no asfalto. Seguro Bonnie como se ela fosse minha tábua de salvação, impedindo-me de cair aos pedaços. Engulo. “Meu... pai.” Apenas a menção daquela palavra faz com que o gelo corte minha espinha e meu estômago despenque. Bonnie não diz nada, ela apenas deixa o silêncio me manter calmo. Olho por cima do ombro para o piano do outro lado da sala. Isso me fez pensar no velho piano de madeira que ele comprou para mim no meu décimo segundo aniversário. “Mantenha os olhos fechados, Crom,” ele disse enquanto me levava pelo corredor em nossa casa. “O que é isso?” Excitação passa por mim como os postes elétricos fora da nossa casa. As mãos do meu pai cobrem meus olhos. Quando paramos, ele se afasta de mim e deixa cair as mãos. “Ok, filho. Você pode olhar.” Eu ofego quando meus olhos caem no piano de madeira em frente à mesa em nossa sala de jantar. Eu corro e paro bem

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perto. Engulo e passo a mão pela madeira. Está lascado e marcado, mas não me importo. “Não é muito, Cromwell. Eu sei disso.” Olho para o meu pai e vejo seu rosto ficar vermelho. Minha mãe está na porta, com lágrimas nos olhos. Volto-me para o piano. “É velho e de segunda mão, mas está em boas condições de funcionamento. Eu verifiquei.” Não sei do que ele está falando, porque para mim, é a coisa mais linda que eu já vi. Eu olho de volta para o meu pai. Ele assente, vendo a pergunta silenciosa em meus olhos. “Toque, filho. Veja qual é a sensação.” Meu coração bate em um ritmo esquisito, correndo e girando enquanto eu me sento no banco velho. Olho para as teclas e apenas posso lê-las, como um livro. As cores se ligam às notas que as teclas produzem, e tudo que eu tenho que fazer é seguir sua liderança. Coloco meus dedos nas teclas e começo a tocar. Cores, tão brilhantes que quase queimam meus olhos, dançam diante de mim. Arco-íris e espectros assumem minha mente. Vermelhos, azuis e verdes, todas correndo à frente para eu perseguir. Eu sorrio quando a música enche a sala. Conforme algo acontece no meu peito. Algo que não consigo explicar. Quando o caminho que as cores me levam termina, tiro minhas mãos das teclas. Eu olho para cima para ver minha mãe e meu pai me observando. Mamãe tem a mão sobre a boca, lágrimas escorrendo pelo rosto. Mas meu pai usa uma expressão diferente. Uma de orgulho. Meu estômago se aperta. Ele está... orgulhoso de mim. “Qual a sensação, meu filho?” Meu pai pergunta. Eu olho para as teclas e me pergunto como colocar o que eu penso em palavras. Foi divertido; poderia apenas olhar para a

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música e tocar o que sentia. As cores me mostraram o caminho. As emoções que me dominaram me disseram o que tocar. Eu poderia falar com minha música. Eu não sou tão bom com palavras. Tento pensar em algo similar. Quando olho para a parede de fotos que minha mãe tinha pendurado por anos, eu soube. Eu olho de volta para o meu pai. “Como quando você chega em casa.” Meu pai parece parar de respirar. Ele segue meus olhos para a foto dele na parede. Aquela em que ele vestia o uniforme de oficial. “Cromwell,” ele murmura e coloca a mão no meu ombro. “Como quando você chega em casa...” Minha voz treme quando olho para Bonnie e digo: “Ele me levou a todos os lugares depois daquele dia. Ele tentou convencer as pessoas certas a me verem. Pessoas que, como eu, podiam tocar.” Sorrio. “Ele tentou tocar uma vez. Eu tentei ensiná-lo.” “Como diabos você faz isso?” Ele balança a cabeça. “Meu menino, o gênio musical infantil. E seu pai, um idiota surdo.” “Eu toquei e toquei. Compositores em Brighton me levaram sob suas asas. Quando ele ia embora, nas turnês, eu praticava e praticava até ele voltar para casa. Sinfonias e peças saíam de mim mês a mês. E toda vez que ele voltava para casa, eu me esforçava mais. Tentando me ajudar a alcançar meu sonho...” fecho meus olhos. “E qual era, Cromwell?” Bonnie se inclina para beijar minha bochecha. Respirando fundo, eu continuo. “Eu era jovem. Quando olho para trás agora, vejo que não tive muita infância. Eu excursionei pelo país, compondo e tocando músicas que criei. Aos

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doze, quinze e, finalmente, aos dezesseis anos.” Contemplo ao longe, enquanto minha mente me traz àquele dia. “Eu estava doente e cansado.” Balanço a cabeça. “Eu tinha dezesseis anos e passei a maior parte da minha vida criando música em vez de sair com meus amigos. Tocando todos os instrumentos conhecidos pelo homem em vez de namorar. Uma noite, eu cansei.” Um nó entope minha garganta. “Uma noite antes do meu pai sair em outra turnê para o Afeganistão. O exército britânico estava se retirando, apenas algumas companhias foram para vigiar as coisas.” Eu paro de falar, sem saber se posso dizer mais alguma coisa. Mas quando olho nos olhos de Bonnie, grandes olhos castanhos que começam a desvanecer na luz, sei que tenho que fazê-lo. Ela tem que saber isso sobre mim. E tenho que contar. É como um câncer dentro de mim, corroendo-me até não sobrar nada. Não quero mais estar escuro e vazio por dentro. Não quero mais a raiva. Quero viver “Eu estava em outro show,” digo, instantaneamente revivendo o passado. “Acabei de sair do palco... e surtei...” “Filho! Isso foi incrível!” Meu pai dá a volta no canto dos bastidores. A plateia ainda está aplaudindo no teatro, mas tudo que sinto é raiva. Raiva quente rasgando minhas veias. Eu arranco minha gravata borboleta e a jogo no chão. Meu celular vibra no bolso. NICK : Não posso acreditar novamente. Perdemos uma ótima noite.

que você

desistiu

“Filho?” Meu pai diz. Fecho meus olhos e conto até dez.

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“Cansei.” Eu digo quando a raiva não se foi. “O quê?” Passo por ele e vou para o vestiário. Abro porta e pego minha bolsa. Preciso sair do smoking antes que ele me estrangule. “Cromwell.” Meu pai fecha a porta, mantendo o mundo fora. Porque isso é tudo o que ele fez, me manteve preso criando música. Sem infância, dificilmente tive algum amigo e sem uma maldita vida. “Eu cansei.” Jogo meu smoking no chão. Coloco minha camiseta e jeans. Meu pai me olha, um olhar confuso no rosto. “Eu... Eu não entendo.” Sua voz treme. Quase me fez parar, mas não consigo. Sei que Lewis estava lá fora esta noite. O compositor que ele tentou convencer a me colocar sob sua asa. Mas estou saturado. Estou tão cansado, porra. Abro meus braços. “Eu não tenho uma vida, pai!” Grito. “Não tenho amigos íntimos, nem hobbies além da música, e nada mais a não ser escrever sinfonias. Tocar música. Música clássica.” Balanço minha cabeça, e sei que agora que comecei não serei capaz de parar. “Você me agendou para o maior número de salas de concerto possível. Matriculou-me em mais orquestras do que poderia contar e me prostituiu para qualquer compositor que pensasse que poderia me ensinar alguma coisa. Mas nenhum deles poderia.” Sorrio quase vacilando quando o rosto do meu pai empalidece. “Isso é tão fácil para mim, pai. A música que eu crio apenas flui de mim. E uma vez amei isso. Vivi por isso. Mas agora?” Empurro minhas mãos pelo meu cabelo. “Agora eu odeio isso.” Aponto para seu rosto. “Você me fez odiar isso. Empurrandome. Sempre me empurrando.” Sorrio. “Eu não sou um maldito soldado, pai. Nem um de seus soldados para você poder latir ordens e eu cair na linha.” Balanço minha cabeça. “Você pegou

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a única coisa que eu amava ao tirar minha diversão. Minha paixão. Você arruinou isso para mim. Você me arruinou!” A sala está cheia de tensão enquanto tento me acalmar. Finalmente levanto a cabeça para ver meu pai olhando para mim. Ele está abalado. Lágrimas estão em seus olhos. Meu coração racha ao ver meu pai, meu herói, tão magoado com minhas palavras. Mas não consigo recuperá-las. A raiva me dominou. “Eu... Eu estava apenas tentando ajudá-lo, Cromwell,” ele diz, com a voz embargada. Ele olha para o smoking descartado no chão. “Pude ver o seu potencial, e só queria ajudar.” Ele balança a cabeça e afrouxa a gravata. Meu pai está sempre vestido com perfeição. Nenhuma coisa fora do lugar. “Não tenho talento, filho. Eu... eu não consigo entender o que vive dentro de você. As cores. A música.” Ele engole em seco. “Estava apenas tentando ajudar.” "Bem, você não ajudou." Jogo minha bolsa por cima do meu ombro. “Você arruinou. Você arruinou tudo.” Passo por ele e abro a porta. Tinha acabado de entrar no corredor quando ele diz: “Eu amo você, Cromwell. Desculpe-me.” Mas continuo andando, sem dizer nada. Não fui para casa naquela noite, pela primeira vez fiquei bêbado e fiquei com meus amigos... “Ele tinha ido embora quando cheguei a casa no dia seguinte. Abandonei a próxima turnê que duraria nove meses.” Uma adaga apunhala meu estômago. “Cromwell. Você não precisa...” “Apenas quatro dias depois, eles o levaram,” eu solto. Agora que estou falando, não consigo parar. “Eles o levaram e a seus homens.” Lembro-me da minha mãe chegando para me dizer. Posso me lembrar do meu coração batendo no meu peito,

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tão alto que pude ouvi-lo em meus ouvidos. Lembro-me de minhas pernas tremendo tanto que não achei que seria capaz de andar. E lembro-me de meus pulmões ficando tão pesados que eu não conseguia respirar. E tudo que pude ver foi o rosto do meu pai no vestiário. Quando o acertei no coração com minhas palavras. “Isso foi meses antes de serem encontrados.” Bonnie se aproxima e puxa minha cabeça para o peito. Passo meus braços ao redor de sua cintura. Eu a seguro, observando ao longe o som estranho do seu coração debaixo do meu ouvido. “Houve uma batida na porta um dia. Quando minha mãe respondeu era um homem do exército. Mamãe me mandou para o meu quarto. Mas no minuto em que ela entrou pela porta, eu soube. Soube no minuto em que vi as chapas de identificação do meu pai na mão dela.” “Cromwell,” Bonnie diz. Ouço a tristeza em sua voz. “Eles o mataram. Eles mataram todos eles. E eles os deixaram para apodrecer. Meu pai...” sufoco minha voz. “Meu herói... foi morto como um animal e deixado para apodrecer.” Balanço minha cabeça, segurando mais forte o calor de Bonnie. “Ele morreu pensando que eu o odiava. Odiava-o por fazer tudo o que podia para tornar meus sonhos realidade.” “Ele sabia que você o amava,” Bonnie diz, e me perco em seus braços. “Ele sabia,” ela sussurra no meu cabelo, antes de beijar minha cabeça. Desmorono. E Bonnie fica comigo através disso. Quando posso respirar de novo, digo suavemente, “Eu toquei naquela noite, quando nos disseram. Toquei essa peça... a que você acabou de ouvir.” A dor daquela noite ainda está tão fresca quanto há três anos, as cores tão vívidas quanto. “Então nunca mais toquei de novo. Isso é, clássicos.”

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A mão de Bonnie acaricia meu cabelo. “E a música eletrônica?” Suspiro, sentindo a crueza do meu peito pela confissão. “Tive que tocar.” Sorrio sem humor. “Não tive escolha. Meu pai estava certo, eu precisava de música como se precisasse de ar. Mas depois do papai... não pude tocar outro instrumento. Não pude ouvir os clássicos, nem os tocar. Compor. Então eu me voltei para a música eletrônica.” Levanto a cabeça e encontro os olhos lacrimejantes de Bonnie. Ela passa o dedo pela minha bochecha. “Eu gosto de música eletrônica porque as cores são tão brilhantes.” Tento fazê-la entender. “Isso me deu a saída que eu precisava; uma chance de tocar. Mas as emoções não são tão fortes.” Pego a mão de Bonnie e coloco sobre o meu coração. “A outra música, a clássica, torna minhas emoções fortes demais. Isso me consome. Mas isso me alimenta também. Depois do papai, eu estava entorpecido. Tão entorpecido que nunca mais quis sentir de novo. Com a música eletrônica, o processo foi menor em... tudo. Eu amo isso. É música afinal. Gosto porque não me faz sentir.” Eu sorrio. “Até este verão, quando com um surto, você expôs aquela dormência. Sua música não tem alma.” Bonnie estremece. “Sinto muito. Nunca teria dito isso se soubesse.” Balanço a cabeça. “Não. Foi o empurrão que precisava. Não percebi isso na época, mas foi o começo.”

eu

“O começo de quê?” “Da música voltando para mim.” Eu me lembro da minha mãe. “Minha mãe se casou novamente no início deste ano e isso

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me destruiu. Eu me perdi na cena das boates, das garotas e da bebida.” Sinto Bonnie tensa. Mas é a verdade. “Então Lewis aceitou o emprego aqui e me contatou novamente.” “Seu pai contatou Lewis sobre você anos atrás?” Concordo. “Ele amava você.” Bonnie sorri e beija minha mão. “Ele te amava muito.” Minha visão fica borrada com as lágrimas. “Sim.” Bonnie se aproxima ainda mais até que se deita no travesseiro como eu. “Você o honra por estar aqui, Cromwell. Ao terminar essa peça. Ao tocar qualquer instrumento que você tenha desistido há três anos.” “Mas o jeito que eu deixei as coisas...” enfio meu rosto no pescoço de Bonnie. “Ele vê você agora.” Congelo. Bonnie tem essa convicção em seu rosto. “Acredito nisso, Cromwell. Acredito com tudo o que sou.” Eu a beijo novamente. Os lábios de Bonnie começam a mudar de cor. Um tom de roxo sobre o vermelho anterior. Mas ele não é menos bonito. "O que aconteceu no hospital?” Pergunto. O rosto de Bonnie muda de expressão. Meu estômago despenca com isso. “Bonnie?” “Estou em falha acelerada.” Suas palavras são como balas no meu peito. Abro minha boca para pedir-lhe para explicar, mas ela se antecipa. “Isso significa que tenho apenas um tempinho até que meu coração não aguente mais.” Estou congelado, incapaz de me mexer enquanto olho em seus olhos. Seus olhos que seguram mais força do que eu já vi em alguém antes. “Eu não vou mais

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poder ir para a faculdade. Em pouco tempo, estarei fraca demais para deixar este quarto.” Posso ouvir o que ela diz, mas meu pulso está batendo no meu pescoço, o sangue correndo ao redor do meu corpo. “Você me devolveu a música,” digo. Bonnie pisca com a mudança repentina na conversa. Então sua expressão se desfaz. Inspiro profundamente. “Foi você, Farraday. Você me devolveu o que eu perdi.” Passo meu polegar pelo seu lábio inferior enquanto seus olhos brilham. “Foi você quem trouxe a música de volta ao meu coração.” Faço uma pausa, tentando encontrar as palavras para dizer o que quero dizer. Tenho que me contentar com: “Você ajudou minha música a redescobrir sua alma." “Cromwell,” ela murmura e beija meus lábios. Posso sentir seus lábios tremerem. Então seus olhos se fecham e ela confessa: “Estou com medo.” Meu estômago cai e meu peito rasga-se em dois. “Estou com medo, Cromwell. Pensei que tinha mais tempo.” Suas lágrimas caem de seus olhos e descem pelas suas bochechas. Minha mão cai sobre seu peito, onde seu coração está. Sinto a batida irregular e muito lenta sob a palma da minha mão. A sensação e o som são como um círculo vermelho pulsante em minha mente. Ela se acalma quando a toco. Então Bonnie cobre minha mão. “Como é possível, Cromwell?” Ela inspira de forma fraca e ofegante. “Como um coração pode ser tão danificado, mas se sentir tão impossivelmente cheio? Como pode um coração falhar quando está cheio de tanta vida?” “Não sei,” sussurro, devastação varre através de mim até que é tudo o que posso sentir. “E como posso viver com a tristeza de saber que não vou conseguir compor com você? Que não terminarei o que começamos?”

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“Nós vamos terminar” Seguro-a com mais força. “Não me importo se você está acamada. Vamos terminar.” Seus olhos se fecham. “Você promete?” “Eu juro,” digo com firmeza. “E quando você conseguir o seu coração, vamos ouvi-lo executado pela orquestra da universidade no final do ano.” “Eu não poderei tocar nada enquanto nós compomos,” ela diz, vergonha envolve suas palavras. “Então eu tocarei.” “Não poderei escrever.” “Então vou escrever por nós." “Nós.” Bonnie sorri. Desta vez não há tristeza em seus olhos. “Nós,” ela repete. “Gosto do som disso.” Ela fecha os olhos. “Soa como uma música.” “Você é a letrista.” Ela assente. “É o meu sonho. Colocar palavras em músicas. Para trazê-las à vida. Não sou uma grande interprete.” Eu queria discutir esse fato. A noite em que a vi na cafeteria, foi quando tudo mudou. “Mas meu sonho é escrever para os outros.” Ela olha para mim. “Qual é o seu?” "Apenas fazer música.” Eu suspiro. “Música que signifique alguma coisa.” “Não seria interessante se nossos sonhos colidissem?” Sorrio, porque eu vi o mesmo na minha cabeça. Vi Bonnie ao meu lado, escrevendo letras enquanto eu componho a música. Ela ao meu lado, trazendo vida para minhas anotações.

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“Seria interessante,” repito. Bonnie boceja. Quando seus olhos começam a se fechar, ouço a música dela, ‘Asas’ que eu pus na minha mixagem. E sorrio. Nós. “Cromwell?” Bonnie se senta, e coloca seu pijama. Eu a observo. Não acho que seria capaz de tirar meus olhos dela novamente. Ela se deita, seus olhos se fecham. “Coloque suas roupas, Cromwell. Antes que meu pai desça pela manhã e atire em você.” Apesar de sentir a crueza no meu peito, e apesar do peso de dez toneladas pelo medo que sinto, por saber que Bonnie não tem muito tempo até que seu coração não aguente mais, eu sorrio. Bonnie sorri com os olhos ainda fechados e eu me visto. Mas me deito na cama, nem mesmo ligando para minhas roupas úmidas, ou o fato de que seus pais possam nos encontrar assim de manhã. Eu a puxo para mim enquanto ela está sob o edredom, jurando nunca a soltar. “Crom?” Bonnie diz, sua voz misturada com o sono. Sorrio para o apelido que acaba de sair de seus lábios. “Mmm?” “Eu te amo,” ela sussurra e dizima o que resta do meu coração. “Eu também te amo.” Música enche minha cabeça enquanto penso em sua luta. Enquanto a ouço respirar de forma ofegante e vejo seus lábios se aprofundarem em cores através da falta de sangue de seu coração. É uma melodia só para ela. Para mantê-la forte. Para inspirá-la a lutar.

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Sei que vou gravá-la assim que for para casa. Porque ela tem que sobreviver. Eu não posso ter outra perda. Mas a perda do que poderia ser, é o que mais me assusta. Porque tenho certeza de que podemos ser algo especial. Ela só tem que sobreviver.

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Capítulo 20 Cromwell Duas semanas depois...

Volto para a escuridão do dormitório. Vou até as cortinas e as puxo abertas. Easton está na cama novamente. Ele jogou o edredom sobre a cabeça. "Que diabos, Crom?" Eu fico ao lado da cama dele e puxo as cobertas para trás. Easton vira-se. Ele fede a álcool. Acabo de voltar de dormir na Bonnie, mas eu sei que ele acabou de chegar. "Levante-se. Preciso da sua ajuda” digo, cruzando os braços sobre o peito. Olho para a pintura no cavalete. Outra peça escura e bagunçada. Entendo. Cristo sabe que eu entendo. Posso ver a dor que ele sente todos os dias enquanto ele anda por aí, perdido. Ele viu Bonnie, e quando o fez, era todo sorrisos. Mesmo quando ela começou a enfraquecer. Conforme seus dias na faculdade tornaram-se cada vez menos frequentes. Quando suas pernas ficaram fracas e ela foi forçada a usar uma cadeira de rodas, e quando a respiração dela ficou tão forte que precisou de oxigênio para seus pulmões todos os dias. Um pedaço de mim morreu cada vez que vi o corpo dela desistindo. E eu queria gritar quando vi a luta em seus olhos. Enquanto ela segurava minha

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mão, segurando o mais forte que podia... o aperto uma vez duro agora tão leve quanto uma pena. Easton está piorando. Mas Bonnie precisa dele. Inferno, eu preciso dele. Ele é a única outra pessoa que entende tudo isso. Mas quando ele volta para cá, pinta telas com tinta preta ou se embriaga. "Eu preciso de ajuda para carregar a minha caminhonete." Easton abre o olho. Esfrego a parte de trás da minha cabeça, meu peito aperta. A cada momento, sinto que estou apenas a um passo de desmoronar. "Vou levar os instrumentos para ela." O semblante de Easton muda e o ouço respirar profundamente. Ele sabe o que significa. Bonnie não pode mais vir para a faculdade. Ela não é mais capaz de fazer muita coisa. "Por favor, East." Sei que ele ouve a rouquidão reveladora na minha voz. Easton se veste e me segue até o prédio do curso de música. Lewis me deu permissão para trabalhar com Bonnie em casa. Nós tínhamos chegado longe. Mas agora Bonnie só pode deitar na cama e ouvir. Se ela tenta pegar um violino, seus braços falham. Se ela tenta tocar as teclas de um piano, seus dedos ficam entorpecidos demais para ela se mexer. E a pior parte, se ela tenta tocar o violão que tanto ama, suas mãos não conseguem encontrar força para tocar. E a voz dela. O tom azul-violeta. Sua paixão. Suas palavras... se desvaneceram em um sussurro, sua respiração curta tornando impossível para ela cantar . Isso foi o pior de tudo. Ela cantava todo dia. Eu me deitava com ela na cama dela e ela cantava. E todos os dias o azul-violeta ficava cada vez mais fraco, desaparecendo até se tornar uma espécie de lilás diluído. Até que não houvesse deixado nenhum pigmento.

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Quando a caminhonete está carregada, vamos em direção a casa de Bonnie. Easton não fala mais nada. Ele mal sorri. Olho para ele. Ele está olhando pela janela. Não tenho nada a dizer para ele. Que diabos eu diria? Todos nós esperávamos todos os dias pela ligação. A chamada com a notícia que um coração tinha sido encontrado. Paliativos, a mãe de Bonnie tinha me explicado recentemente. Bonnie estava agora oficialmente em cuidados paliativos. Uma enfermeira aparecia todos os dias. E pude ver a humilhação nos olhos de Bonnie enquanto ela era cuidada. O desejo de levantar da cama e andar. Para cantar e tocar. Apenas para estar bem. Nós paramos em frente à casa dos Farradays. Easton não desvia os olhos da janela. "Você está bem?" Pergunto. Easton se vira para mim com um olhar vago nos olhos. "Vamos pegar os instrumentos da minha irmã." Ele sai e começa a descarregar. Eu o sigo, carregando um violino, uma flauta e um clarinete. Assim que entro na casa, o cheiro de antisséptico me atinge. Toda a casa cheira a hospital agora. Quando entro no quarto de Bonnie, não me importa que ela esteja deitada na cama, um tubo de plástico fluindo oxigênio em seu corpo através do nariz, ela ainda é a coisa mais perfeita que eu já vi. A Sra. Farraday está sentada ao lado dela. Easton larga o tambor que está carregando e vai até a cama para beijar a testa de Bonnie. Bonnie sorri, e a visão disso escancara meu coração. Um gotejamento pende de seu braço, fluidos para ajudar a mantê-la forte, agora que ela não pode comer ou beber muito bem. Ela perdeu peso. Ela sempre foi magra, mas agora ela está desaparecendo diante dos meus olhos.

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De repente não consigo respirar, as lágrimas ardem nos meus olhos. Eu me viro e volto para a caminhonete para pegar mais instrumentos. No minuto em que o ar frio me atinge, paro e apenas o respiro. Easton vem para o meu lado e para também. Nenhum de nós diz nada. Mas quando ele exala, sua respiração trêmula, ele poderia muito bem ter gritado pelos telhados. Bonnie está morrendo, e não há nada que possamos fazer. Quando consigo me mover novamente, levo o violoncelo e o saxofone para o quarto. Desta vez Bonnie está esperando por mim, seus olhos fixos na porta. Quando encontro seus olhos, um sorriso tão grande que ilumina o céu, puxa suas bochechas pálidas. “Crom... bom...” Ela gagueja; sua voz mal se ouve. Eu só saí há algumas horas, mas quando seu tempo é limitado, cada minuto é uma eternidade. "Farraday” eu digo e me movo para o lado dela. Sua mãe saiu, e eu vi a enfermeira, Clara, na cozinha quando passei. Afasto o cabelo de Bonnie. Quando seus olhos olham ao redor da sala, eles se enchem de lágrimas. Seus lábios entreabertos se separam e uma expiração ofegante escorrega de sua boca. “Você... trouxe... para mim...” Ela puxa uma respiração rápida. Seus olhos se fecham enquanto ela luta para simplesmente respirar. "Música” ela diz, seu peito subindo e descendo em velocidade dupla, enquanto consegue pôr para fora a palavra final. "Vamos terminar isso." Eu me inclino para beijar seus lábios. "Eu te fiz uma promessa." Easton aparece do outro lado da cama. Ele se senta e pega a mão dela na sua. Eu posso ver o tormento em seus olhos. E vejo a sombra escura que paira ao redor dele como um manto. O azul-

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marinho e o grafite se evidenciam com a visão de sua irmã nessa cama, é sua versão do inferno. "Eu vou deixar vocês com a música." Ele olha para mim. "Cromwell vai cuidar de você agora, ok?" Ele beija a mão dela. "Vejo você depois, Bonn." A voz de Easton é cortada. O nó na garganta está ficando cada vez maior a cada dia, desligando minha capacidade de engolir. E agora mesmo, vendo Bonnie derramar uma lágrima, observando enquanto ela rola pelo rosto pálido dela, faz ele aumentar tanto que eu não consigo respirar. Bonn, por exemplo, tenta segurá-lo com força. Mas posso ver que ela está se esforçando para mover os dedos. Easton se levanta e beija sua testa. Ele olha para mim. "Cromwell.” "A gente se vê, East” digo, e ele sai da sala. Um soluço vem de Bonnie, e estou na cama em dois segundos, levantando-a em meus braços. Sinto as lágrimas no meu pescoço. Ela não pesa nada em meus braços. “Não quero..." ela sussurra. Eu a seguro enquanto ela termina o resto. "Deixá-lo triste." Meus olhos se fecham e minha mandíbula se aperta. Eu a seguro com mais força. O piano que toquei na maioria dos dias me encara. Viro minha boca para o ouvido dela. "Eu escrevi algo para você." Coloco Bonnie de volta em sua cama, enxugando as lágrimas com o polegar. “Você escreveu?” Ela diz. Balanço a cabeça, em seguida, beijo-a rapidamente. Todos os nossos beijos são rápidos agora. Mas não me importo. Eles não são menos especiais. Passo a mão pelo seu cabelo. "Você é a pessoa mais corajosa que já conheci." Bonnie pisca; seus olhos se fechando uma fração de tempo a mais enquanto as minhas palavras afundam. Sua pele está úmida, então empurro para trás

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o cabelo longo que emoldura seu rosto. “Você vai ganhar, Bonnie. Nunca vou desistir da esperança. Queria criar algo para lembrá-la disso, a batalha que você me disse que lutaria. Escrevi algo para você tocar quando você perder a esperança.” Excitação explode em seus olhos. Sempre faz quando toco. Ela me lembra do meu pai nesses momentos. Outra pessoa que amei e que acreditou tanto em mim. Cuja maior alegria na vida estava em me ouvir tocar. A perda que sinto nesses momentos é extrema. Porque se meu pai conhecesse Bonnie... ele a amaria. E ela o amaria. "Você está pronta?" Digo com voz rouca, esses pensamentos roubando minha voz. Bonnie assente. Ela não solta minha mão até que eu saia da cama para atravessar a sala. Sento-me ao piano e fecho os olhos. Minhas mãos começam a tocar as cores que havia praticado na memória. O padrão que fluiu da minha alma e cuja música enche o quarto. Um pequeno sorriso aparece nos meus lábios enquanto deixo as imagens que inspiraram essa peça me tomarem. De Bonnie andando na minha frente, segurando minha mão. De seu sorriso e lábios rosados. Sua pele pálida corando com o forte sol da Carolina do Sul. E ela, sentada na grama comigo, com vista para o lago. Canoeiros e remadores movendo-se ao longo da água, sem urgência ou pressa. A brisa que flui pelos seus cabelos e noto as sardas que o sol trouxe para seu nariz e bochechas. Ela se movendo acima de mim para me beijar. De mim segurando sua cintura, sentindo o tecido de seu vestido de verão. E ela respirando com facilidade quando tomo sua

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boca. Seu corpo forte. E quando eu coloco a palma da mão sobre o coração dela, bate num ritmo normal e constante. Seus pulmões respiram o ar fresco. E ela sorri e corre como todo mundo. Então nós estamos juntos na sala de ensaio. Ela, ao meu lado no piano. Eu toco, e sua voz enche a sala com o azul-violeta mais vívido que eu já vi. Eu a seguro na cama à noite e ela adorme com a cabeça no meu braço... feliz. Meus dedos tocam o piano. Inspiro três vezes profundamente antes de me virar. Bonnie está me observando, um olhar chocado no rosto dela. "Perfeito” ela sussurra, quebrando meu coração. Eu me sento na beira da cama. Tiro o telefone da mesinha de cabeceira e coloco a peça musical nele. “Quando você estiver sozinha, quando estiver se sentindo pra baixo. Quando você estiver perdendo a esperança toque isso e recupere a força que me mostrou desde que te conheci em Brighton.” Bonnie acena com a cabeça. Seu dedo pressiona desajeitadamente o play. A peça que eu acabei de tocar vaga entre nós. Bonnie fecha os olhos e sorri. “É como...” ela trabalha em sua respiração. "Estar no lago." "Você gosta de estar no lago?" Seus olhos se abrem. E ela sorri, arruinando-me. “Sim... especialmente no verão.” Balanço a cabeça. “Em um... barco." Seguro a sua mão. "Quando você estiver melhor, vamos fazer isso." Ela sorri mais. "Sim."

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Os olhos de Bonnie se fecham, e com a minha música ainda tocando ao lado dela, repetidamente, ela adormece. Fico ao lado dela até a noite cair. Quando Bonnie mesmo assim não acorda, beijo sua bochecha. "Eu volto em breve." Saio da cama e caminho até a porta. A mãe de Bonnie está na porta. Ela sorri para mim. “Isso foi lindo, Cromwell. A música que você tocou para ela.” Eu corro minha mão ao redor da minha cabeça. "Obrigado." Eu não quero perguntar. Eu não aguentarei se for ruim, mas pergunto de qualquer maneira. "Quanto tempo temos?" A Sra. Farraday olha para a filha na cama, ouvindo a música que eu compus para ela. “Eu estava falando com Clara. Ela acha que serão apenas mais algumas semanas, talvez um mês, antes que ela tenha que estar no hospital.” Os olhos da Sra. Farraday ficam marejados. “Depois disso...” ela não termina a frase. Eu não preciso que ela o faça. Porque depois disso, o tempo que tivermos será tão longo quanto Bonnie aguentar. "Ela vai conseguir um” digo, e a Sra. Farraday assente. "Ela vai conseguir um." Dirijo para casa, mas me vejo dirigindo na direção da clareira que Easton havia me levado. Venho aqui quase todos os dias. Às vezes Easton também vem. Paro minha caminhonete e sento na grama com vista para o lago. O mesmo canoísta que vi todas às vezes, está aqui. O que eu acredito não dormir à noite também. Necessita de exercício físico para exorcizar seus demônios. E no cais à direita está um pequeno barco. É como estar no lago... Olho para a lua e seu reflexo na água. E me vejo fazendo algo que nunca fiz antes. Eu rezo. Oro a um Deus com quem nunca falei antes. Mas tenho certeza que ele trouxe Bonnie para

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minha vida por uma razão. E tenho que acreditar que não foi para me ajudar através disso, através da minha rejeição da música, apenas para perdê-la no final, sabendo que ela possuía meu coração tanto quanto a fraqueza possuía o dela. Completamente e irreversivelmente. Sento-me observando o canoísta à distância até que ele rema fora da vista para a distância escura além. Eu me levanto e volto para os dormitórios. O lugar está quieto enquanto caminho até a nossa porta. O quarto está escuro. Acendo a luz e paro quando o cheiro de tinta me atinge no rosto. Tinta preta e cinza mancha todas as paredes. Os pôsteres de Easton foram rasgados, os seus restos estão na cama. Entro mais no quarto. O que diabos aconteceu? Então vejo um par de pés ao lado do guarda-roupa. Eu me aproximo, um baque profundo começando a bater no meu peito. Nesse momento vejo sangue. Eu me movo rapidamente ao virar para o canto. O ar é arrancado do meu peito e o sangue é drenado do meu rosto quando vejo Easton sentado no chão, encostado na parede, com sangue escoando de seus pulsos. "Merda!" Caio no chão e cubro seus pulsos com a mão. Sangue quente cobre minhas palmas. Olho pelo quarto, sem saber o que fazer. Corro para a minha cama e tiro o lençol. Rasgo ele em pedaços e os amarro ao redor dos cortes de Easton. Eu me atrapalho com o meu telefone e ligo para 911. "Ambulância” digo, minhas palavras apressadas e em pânico. "Meu amigo cortou seus pulsos."

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"Ele está respirando?" Vejo que ele não está inconsciente ainda. Seu peito está se movendo para cima e para baixo. Seus olhos rolados para trás. Mudo minha mão para o pescoço dele. "Ele tem um pulso fraco." Dou-lhes o endereço e solto o meu telefone. Seguro Easton em meus braços, os punhos levantados em minhas mãos. "Easton, que porra é essa?" Sussurro em seu ouvido. Minha voz está rouca de devastação. Ele perde a consciência assim que ouço as sirenes da ambulância do lado de fora. Os paramédicos irrompem pelo quarto e o tiram de mim. Fico de pé e observo, sentindo como se estivesse vendo a cena do lado de fora do meu corpo quando eles o colocam em uma maca e correm com ele para fora do quarto. Não penso; apenas corro com eles. Subo na parte de trás da ambulância enquanto eles trabalham nele. E quando eles invadem a sala de emergência e através de um conjunto de portas que não tenho permissão para passar, fico na sala de espera, com dezenas de olhos fixos em mim. Minhas mãos tremem. Olho para baixo; tenho sangue em minhas mãos e camisa. Saio das portas para o ar da noite. Minhas mãos ainda estão tremendo quando tiro meu telefone do bolso, tremendo ainda mais quando acho o nome da senhora Farraday e pressiono discar. "Cromwell?" Sua voz surpresa e cansada cumprimenta. Ela deveria estar na cama. É tarde.

me

"É Easton” digo, minha voz crua. A Sra. Farraday fica em silêncio do outro lado. "Ele está no hospital." Aperto meus olhos fechados. “Eu não sei se ele vai ficar bem. Havia muito sangue...” não sei mais o que dizer. Ele ficou branco na ambulância. Ele não acordou.

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"Nós estamos a caminho," ouço a voz da Sra. Farraday, medo e pânico enlaçando cada palavra dela. Então meu telefone fica silencioso. Volto para a sala de espera. Não me lembro de mais nada até que a Sra. Farraday vem correndo pela porta. Ela corre para a mesa, em seguida, seus olhos caem em mim. Fico de pé. Agora estou entorpecido. Mas sei o que virá a seguir. As emoções virão e me sufocarão, tornando impossível para eu respirar. A Sra. Farraday agarra meus braços. Seus olhos estão enormes e vermelhos. "Cromwell, onde ele está?" Engulo e olho para as portas fechadas. "Eles o levaram para lá." Sigo seu olhar quando cai no sangue em minhas mãos. "Ele cortou seus pulsos” digo; minha voz saindo, eu querendo ou não. “Eu o encontrei em nosso quarto. Ele usou uma faca.” Um som abafado vem de trás da Sra. Farraday. Quando levanto a cabeça, o Sr. Farraday está lá... e em uma cadeira de rodas à sua frente, máscara de oxigênio no rosto e soro no braço, está Bonnie. Meu coração bate no meu peito, a dormência caindo quando coloco os olhos em seu rosto. Lágrimas caem livremente em suas bochechas, e seus olhos castanhos estão arregalados, parecendo grandes demais para o seu rosto. Suas mãos frágeis tremem quando estão no colo dela. "Bonnie." Eu me aproximo dela. A cada passo, mais lágrimas caem dos olhos de Bonnie. Paro e olho para mim mesmo. Coberto de sangue. O sangue de seu irmão gêmeo. "Bonnie” sussurro. Sua boca se abre, mas nada sai. "Os pais de Easton Farraday estão aqui?” Uma voz atrás de nós pergunta.

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Os Farraday correm para o médico. Ele os leva através das portas que eu não pude passar. Assisto a porta fechar, mantendome fora. E então os ouço. Os sons de portas se fechando, trazendo laranja para minha mente. Os sons de lápis sendo riscados no papel. Os sons dos alto-falantes. O som do choro de amigos e familiares na sala de espera. Começo a andar, tentando afastá-los da minha mente. E a dormência que começou a cair quando vejo Bonnie cair no chão em tiras de vermelho escarlate. Sento-me com as mãos na cabeça, enquanto a onda de emoções que sei que sentirei me atinge como um trem de carga. A visão de Easton no chão, coberto de sangue, bate na minha cabeça. Posso sentir o cheiro do sangue dele, o cheiro metálico de metal explodindo na minha língua. A dor se divide em cacos no meu peito, os fragmentos pontiagudos empolam minha pele. Os olhos de Easton. O sangue acumulado no chão. A tinta preta. Os olhos de Easton. A voz da senhora Farraday... então... "Bonnie” sussurro, a lembrança de seu rosto enquanto ela olha para mim, enquanto se esconde de mim, é um martelo nas minhas costelas. Eu me mexo no assento, sem saber para onde ir ou o que fazer. Não sei quanto tempo se passou, quando alguém se senta ao meu lado. Olho, passando minhas mãos pelo meu cabelo. O Sr. Farraday está sentado ao meu lado. Congelo, esperando pelo que ele dirá. Então sua mão desce no meu ombro. "Você salvou a vida do meu filho." Alívio como nada que eu já senti derrama sobre mim. Mas só aumenta as emoções já elevadas. Preciso sair. Preciso... necessito... preciso de música. Preciso tirar essas emoções de mim da única maneira que eu sei. "Você o salvou, filho” o Sr. Farraday repete.

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Engasgo com o nó na garganta. Balanço a cabeça e olho para o Sr. Farraday. Ele parece destruído. Ele tem dois filhos. Um está morrendo de insuficiência cardíaca. O outro acaba de tentar tirar a própria vida. Não aguento estar aqui. Meu coração parece que está tentando sair atrás das minhas costelas. Minha pele coça. Preciso sair, mas... "Bonnie vai demorar um pouco ainda." Por trás da dor, há uma expressão de compreensão nos olhos do Sr. Farraday. "Não posso deixá-la” digo suavemente. Porque, embora sinta que estou perdendo a cabeça, quero vê-la. Para ter certeza que ela não me culpa de alguma forma. Quero segurar a sua mão. Está sempre fria agora. Apenas aquece quando a seguro. “Vá e se troque. Refresque-se. Ela vai te ver em breve.” Quero atravessar as portas que me levarão até ela. Quero ignorar o que alguém disse e correr para Bonnie. Certificar-me de que ela está bem depois que seu irmão gêmeo tentou se matar, enquanto ela está lutando todo o tempo para se manter viva. Como diabos ela resolve isso na sua cabeça? "Por favor, Cromwell” Farraday diz. Olho para ele. Ele está quebrado. O rosto do meu pai passa pela minha cabeça. De como ele parecia na última noite que o vi. Quando atirei com minhas palavras nele e rasguei sua alma. Pulo da cadeira e corro para fora da porta. Dirijo até a loja de bebidas mais próxima e compro meu velho amigo, Jack Daniels. Não bebo há semanas. Não dou a mínima para o olhar que o caixa me dá quando bato minha identidade falsa e dinheiro no balcão, cobertos de sangue.

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Atravesso a Main Street, lutando contra as emoções que estão ameaçando me consumir. Minha cabeça dói e a pressão se constrói atrás dos meus olhos. Sintonizo uma mixagem que bate no ritmo do meu coração. Notas altas de baixo explodem da cabine da caminhonete. Elas geralmente me ajudam a bloquear tudo. Todos os pensamentos fodidos sobre Easton estão passando na minha cabeça. Mas isso não ajuda. Não abafa as emoções, os sentimentos que estão se construindo em mim tão fortemente que preciso esmagá-los com álcool. Paro minha caminhonete no estacionamento. Ignoro os olhares e os sussurros dos estudantes enquanto avanço pelo caminho até a sala de ensaio, com o Jack Daniels na mão. Abro a tampa e tomo um longo e doce gole, esperando que a queimadura afaste as emoções. Para que as anestesie até que eu possa respirar. Empurro a porta do prédio e cambaleio pelo corredor até entrar na sala de ensaio que costumo usar. Paro enquanto os instrumentos estão na minha frente. Tirando sarro de mim. Clamando que eu os use. Mas a raiva me segura. Raiva e frustração. Estou tão doente e cansado de tudo isso. Tomo outro gole de Jack e então voo para a bateria, derrubando a coisa toda com um chute furioso. Mas isso não ajuda. Um prato ressoa no chão, mas as emoções ainda estão lá, brilhantes e vivas na minha cabeça. As cores néon quase me cegando, o gosto metálico da dor, do sofrimento, do desamparo, deixando o gosto ácido em brasa na minha língua. Saio pela porta e me encontro no escritório de Lewis. Não penso; tudo em mim está muito consumido para pensar. Bato na porta, lágrimas quentes escoando dos cantos dos meus olhos, queimando minha pele. Bato meu punho na madeira pesada, os

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estrondos crescendo em ambos os volumes e tempo. Amarelo latejante enche minha cabeça. Minha respiração ecoa em meus ouvidos – verde-oliva. Meu coração bate no meu peito - marrom. Bato na porta com mais força, cada som, cada emoção, cada gosto um ataque aos sentidos. Não, não é um assalto; um maldito ataque próximo, destruindo tudo em seu caminho. A porta se abre e caio no quarto. Lewis está de repente diante de mim, os olhos arregalados e olhando para mim com horror. “Cristo, Cromwell! O que aconteceu?” Eu o empurro e começo a andar pela sala. Bebo mais e mais Jack, metade da garrafa se foi. Mas desta vez as emoções são fortes demais para eu me defender. Jogo a garrafa contra a parede, ouvindo o vidro quebrar e estilhaçar. Pontos manchados de dourado passam pela minha mente. Agarro meu cabelo, puxando os fios. Bato na minha cabeça até que Lewis puxa meus pulsos para longe. Ele os segura com força e me faz olhar nos olhos dele. "Cromwell." Sua voz é dura e rigorosa. "Acalme-se." A luta sai de mim, deixando apenas a impressão fluorescente de tudo que estava lutando em minha mente. Meu anel de língua rola na minha boca, tentando livrar-se da amargura. "Cromwell!" Lewis me sacode e meus ombros caem. "Não posso lidar com eles” digo; minha voz quebrando. Os olhos de Lewis se entristecem. Encaro o sangue ainda em minhas mãos. Nem lavei o sangue de Easton. "Ele tentou se matar." Minha voz está trêmula. Eu aperto meus olhos fechados. "Ela está morrendo." Espalmo meus olhos, tentando tirar o pigmento azulmarinho que passa por qualquer outra cor em minha mente. Um azul-marinho, apagando todo o resto.

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Odeio azul-marinho. “Ela está esperando um coração. Mas eu não acho que esteja vindo.” O aperto de Lewis afrouxa, mas ele não me solta. Olho para a pintura de redemoinhos coloridos na parede dele. "Ela está ficando mais fraca e cansada a cada dia." Balanço minha cabeça, vendo Bonnie no hospital. Sendo virada para mim, olhos afundados e enormes. Ela parece tão fraca. Ela parece que está perdendo a luta. "Ela vai morrer” sussurro novamente. Dor tão forte e azul tão escuro perfura todas as minhas células, arrancando o ar dos meus pulmões. "Ela me fez querer tocar de novo." Bato meu punho sobre o peito... sobre o meu coração que ainda bate. “Ela me fez ouvir a música dentro de mim novamente. Ela me fez tocar. Ela me inspirou... ela me fez inteiro novamente.” Engulo o caroço que estou doente em sentir. "Ela não pode morrer." Toda a resistência é drenada do meu corpo. "Eu a amo. Ela é minha cor prata.” As emoções aumentam novamente, como um tsunami pronto para demolir uma costa desavisada. Então Lewis me leva para algum lugar, com a mão no meu braço. Nem sequer registro onde estamos indo até que pisco e estamos em um estúdio de música. Só que esse é melhor do que qualquer outro que vi desde que cheguei aqui. Olho ao redor da sala polida, para os instrumentos perfeitamente dispostos e prontos para tocar. Eles são todos novos e de alta qualidade. E então meus olhos se dirigem para um piano de cauda no canto. O acabamento preto brilhante é como um ímã para mim. Meus pés estão se movendo pelo chão de madeira clara. Sinto que estou deslizando quando chego ao piano que toquei várias vezes em um concerto quando criança. Enquanto os cinemas lotados me ouviam tocar... quando meu pai ficava nos bastidores e via seu filho sinestésico compartilhar as cores de sua alma.

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"Você deve tocar” Lewis diz. Ele está em pé no centro da sala, me observando. Neste momento, ele parece o compositor que assisti todos aqueles anos atrás, no Albert Hall. Tyler Lewis. Estremeço quando as emoções tomam conta dele. Minha cabeça parece estar em um vício, latejando, pulsando. "Solte-os” ele diz. Deixo a voz dele atingir meus ouvidos. Sua voz é da cor do vinho. Gosto dessa cor. Minhas mãos se espalham nas teclas. No minuto em que sinto o frio dos marfins sob meus dedos, tudo se acalma. Mantenho meus olhos fechados enquanto tudo da noite se transforma de imagens em cores. Em formas que dançam e brilham, batendo e flexionando. E as sigo; assim como meu coração me disse para fazer. Com cada tecla, com cada acorde tocado, as emoções diminuem. Toco e toco até não pensar mais. Deixo a música me levar, olhos fechados, no escuro. Respiro; meu peito relaxando. Meus músculos se tornam um com o piano, a tensão se infiltrando nas fibras da melodia. E com a sonata que se materializava nesta sala de ensaio, as emoções são apaziguadas. Minha cabeça perde a dor quando as notas dançam e se espalham pelo ar, levantando a carga do meu corpo. Toco e toco até que a música escolhe terminar, e estou repleto. Respiro. Inalo e exalo, dentro e fora, até que minhas mãos decidem cair ao meu lado. Abro meus olhos e olho para as teclas pretas e brancas. Apesar de ser noite, apesar da dor e tristeza que sei que só irá piorar, sorrio.

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Bonnie teria amado esse sorriso. Quando olho para cima, Lewis ainda está em pé, onde ele estava quando comecei a tocar. Apenas sua expressão é algo completamente diferente. E seus olhos estão molhados. "Por isso, Cromwell” ele diz, sua voz rouca, "foi por isso que queria você aqui, nesta escola." Ele dá um passo para mais perto. “Eu nunca ouvi nada parecido, filho. Nunca em todos os meus anos de composição e direção ouvi algo tão cru, tão real quanto o que acabo de testemunhar.” Ele se aproxima do piano e se inclina no topo. Ele fica em silêncio. Olho para o piano, passando minhas mãos pelo brilho preto. "Eu quero isso” sussurro, e sinto a corda final que fortemente vinculava a minha paixão por acordes e melodias, rapsódias e sinfonias, se libertar. O caroço que estava entupindo minha garganta quase desaparece. Respiro, e sinto meus pulmões exalarem pela primeira vez em anos – talvez, desde antes de perder meu pai - porque essa é minha escolha. A música estava gritando para eu compor desde o minuto em que nasci... e agora estou pronto para ouvir. "Eu quero isso” digo mais alto, com uma convicção que nunca tive antes. Olho para Lewis. "Preciso fazer isso." Preciso criar. Compor. Então penso naquela noite e na história que este piano Steinway acabara de contar. Sinto a tristeza crescendo dentro de mim, arranhando o caminho para a superfície. Meu dedo cai para uma única tecla e pressiono o Si. Si, eu sempre gostei. É verde menta. "Ele cortou seus pulsos." Sigo para o Dó. "O irmão de Bonnie, Easton. Ele tentou se matar hoje à noite.” Uma escala

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começa quando subo as teclas. "Eu o encontrei." Minha voz soa como lâminas. “Ele está...? “Ele está estável. Foi o que o seu pai disse.” Escala após escala toco ao longo do piano. Coloco minha mão livre no meu peito. “As emoções...” balanço a cabeça, sem saber como explicar isso. "Elas te consumiram” Lewis diz. "Quebraram você." Minha mão congela nas teclas. Encontro seus olhos. "Sim.” Afogo-me em confusão. Ele entende. Lewis puxa uma cadeira da orquestra para meu lado. Seus dedos encontram o caminho para as teclas também. Observo enquanto suas mãos se movem como se por vontade própria. Vejo as cores em minha mente. Então começo a tocar cores semelhantes que se mesclam. Toco uma harmonia. O lábio de Lewis fica preso em um sorriso. Sigo suas sugestões. Espectros refratados em minha mente. E os persigo até que Lewis puxa suas mãos para trás e as joga no seu colo. Ele suspira. “Foi assim que comecei a beber. A tomar drogas.” Ele bate na cabeça, depois no peito. "As emoções. As cores que eu sentia quando as coisas davam errado.” Ele balança a cabeça. “Eu não pude lidar com elas. Usei álcool para anestesiar a dor. E minha vida piorou de lá para cá.” "Suas emoções aumentaram também?" Olho para ele, chocado. Lewis assente. “Também as sinto. E vejo cores.” "Eu não acho que sinestésicos já tiveram sintomas semelhantes." Lewis assente. Sinto uma leveza no peito que não

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consigo descrever. Porque alguém mais sabe. Ele entende. Tudo isso. Tudo o que às vezes me enterra em tantas sensações que desligo. Construo muros altos para fortalecer os sentimentos. Quem eu realmente sou. Lewis fecha os olhos, inala e tira algo do bolso da jaqueta. Ele coloca um frasco prata no topo do piano. "É uísque” ele diz, olhando para o frasco. "Estou sóbrio há três anos." Eu apenas escuto. “Quando me pediram para compor para a festa em alguns meses, achei que poderia fazê-lo. Pensei que tinha dominado meus demônios.” Ele sacode o queixo na direção da bebida. “Pensei que tinha controle sobre as emoções que aumentaram em mim quando toquei. Quando as cores vieram.” Ele sorri sem humor. "Quando abri minha alma." Seu olhar cai para as teclas do piano. Ele toca uma única nota Fá, o som e o hexágono rosa brilhante vibram no ar. “Mas eu tenho muitos arrependimentos, Cromwell. Muitos fantasmas no meu passado dos quais nunca escaparei. Que sempre vêm e me encontram sempre que eu componho. Porque eles estão vivos dentro de mim. Minha música não seria honesta se não deixasse tudo nas folhas de música.” Ele passa o dedo pelo padrão de filigrana no frasco. “Mas eu não posso lidar com as emoções que vêm por causa da minha sinestesia. Fui idiota em pensar que elas não ressurgiriam.” "Você bebeu?" "Ainda não." Ele ri novamente, mas soa mais como se estivesse engasgando. “Eu apenas carrego isso comigo. Para provar a mim mesmo que posso resistir a isso.” Antes que eu

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possa dizer qualquer coisa, ele diz: “Não vou comparecer ao Jantar de Gala da Filarmônica Nacional.” Faço uma careta. Então Lewis se vira para mim. "Disse a eles que tinha outra pessoa que poderia fazer sua estreia." Tão mentalmente exausto quanto estou, levo alguns segundos para perceber o que ele está fazendo. Um calor adormecido que vive em meu sangue desperta para a vida quando suas palavras penetram. Calafrios explodem ao longo da minha pele e sinto meu pulso disparar. “O jeito que você acabou de tocar..." ele balança sua cabeça. “Cabe a você, Cromwell. Mas se você quiser, o lugar é seu. O diretor do programa se lembra de você, da sua juventude. Eles agora querem você mais do que eu. O gênio musical que um dia parou de tocar, fazendo seu grande retorno.” Meu coração bate no peito. "Não há tempo suficiente. É muito cedo. E eu teria que compor uma sinfonia inteira. Eu—" "Vou te ajudar." Olho para ele com curiosidade. “Por que você quer tanto me ajudar? Não pode ser tudo para pagar meu pai.” Lewis desvia o olhar, depois me encara de novo e diz: “Digamos apenas que tenho muitos erros que preciso corrigir. É um dos meus doze passos.” Ele fica quieto e me pergunto o que ele está pensando. “Mas também é porque eu quero, Cromwell. Quero te ajudar a compor.” A adrenalina pulsa através de mim ao pensar em estar de volta a um palco, uma orquestra me cercando, dando vida às minhas criações. Mas então o gelo esfria essa excitação. “Bonnie... não sei o que vai acontecer. Não sei...” minha mandíbula se aperta quando a imagino em sua cama. Então na cadeira de rodas e seu

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rosto quando ela viu o sangue de Easton em mim. "Eu não sei se posso." A mão de Lewis desce para meu ombro. "Você não tem que tomar decisões agora." Ele balança a cabeça, e sua mão escapa. “Eu não deveria ter perguntado a você agora. Foi insensível.” "Não” argumento. “Não foi... Eu só...” "Não tenha pressa. Eles vão manter o lugar aberto por mais algum tempo.” Balanço a cabeça. Então olho para mim mesmo. Estou coberto de sangue. Minhas mãos... "As teclas” digo, sem saber o que mais dizer. Deixei um pouco de sangue nas teclas. De um piano Steinway. Pego minha camisa e fico esfregando-as para limpá-las. Mas o sangue na camisa só piora tudo. Lewis coloca a mão no meu braço e me para. Estou tremendo novamente. Fecho os olhos e respiro fundo, recompondo-me. “Vou limpar isso, Cromwell. Vá para casa e tome um banho.” Abro os olhos e caminho até a porta. Assim que estou prestes a sair, viro-me para Lewis, que está olhando para o frasco. "Foi bom” digo com a voz rouca. “Falar com alguém que entende.” Ele sorri. "Ou apenas com qualquer um." Aceno com a cabeça enquanto Lewis olha de volta para o frasco. "Sua mãe sempre foi essa pessoa para mim." Minhas sobrancelhas se curvam. "Minha mãe?" "Sim. Ela nunca lhe disse que a conheci?” empalidece um pouco. Como se ele tivesse

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Seu rosto acabado de


compartilhar algo que não deveria. Eu balanço a cabeça. Não tenho ideia do que ele está falando. “Fomos para a faculdade juntos. Foi assim que ela me conheceu. Como seu pai sabia como entrar em contato comigo.” "Ela nunca disse." Eu me pergunto por que ela não disse. Então, novamente, eu nunca perguntei a ela. Apenas assumi que ela tinha ouvido falar dele do mundo em que eu estava. Mas não há espaço em minha mente para me perguntar mais sobre isso hoje à noite. "Noite, Professor." Eu o deixo na sala com seus demônios e tentações. Volto para o dormitório; meus pés muito pesados. Quando volto para o quarto, percebo que foi limpo, assumo que pela equipe de limpeza da faculdade. Apenas manchas fracas permanecem no chão de madeira onde o sangue de Easton se agrupou. Os escombros que ele havia jogado ao redor da sala foram varridos. Tomo banho, sento-me na beira da cama e olho para a tinta preta que ele jogou nas paredes. Nos olhos rodopiantes que desenhou a cada pequeno passo. Olhos que observam cada movimento que você faz. Esgotamento me envolve e deito na minha cama. Pego meu telefone, procuro o nome de Bonnie e envio uma mensagem simples: Eu te amo. Simples. No entanto, para mim, isso significa o mundo.

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Acordo ao som de alguém batendo na minha porta. Esfrego meus olhos e jogo o cobertor de volta. A luz do sol corta a sala perto das beiradas das cortinas grossas. Pássaros estão cantando. Abro a porta e me acalmo. Bonnie está sentada na cadeira, olhando para mim. Engulo. "Farraday” eu digo asperamente. No final do corredor, o Sr. Farraday está indo embora. Ele me dá um sorriso tenso. Uma mão desliza na minha. Bonnie está olhando para mim, seus olhos cansados, seus lábios tremendo. "Bonnie” sussurro e seguro sua mão com força. Só a solto para que possa me mover para o encosto da cadeira e empurrá-la para o quarto. Quando fecho a porta, ouço um pequeno suspiro deixar sua boca. Meu estômago se agita. A mão de Bonnie se move para sua boca enquanto ela olha para a parede manchada de preto. Tento me mover ao redor dela para impedi-la de olhar para a direita. Mas não chego a tempo. Lágrimas silenciosas caem pelas bochechas de Bonnie quando ela vê o chão manchado de sangue. Pego o cobertor da minha cama e cubro o chão. Eu me inclino para Bonnie e levanto seu queixo com o dedo. Seu olhar finalmente se afasta daquele canto. "Você não precisa ver isso." Bonnie acena com a cabeça. Mas quando abaixa e enterra no meu pescoço, ela descarrega tudo. Os soluços, a dor... tudo. Eu a seguro apertado, sentindo as emoções crescentes contra as quais eu nunca posso lutar. Ela chora tanto que de repente se esforça para respirar. Seguro seu rosto e a puxo para trás. Suas bochechas estão manchadas e sua pele está ficando branca de tão pouco ar. "Respire, baby” digo. O pânico incha

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dentro de mim, mas o mantenho sob controle quando Bonnie começa a tentar respirar fundo. Leva alguns minutos para que ela se acalme o suficiente para que respire e volte ao que agora passa normalmente. "Você está bem?" Pergunto. Bonnie assente. Seus olhos estão marcados de exaustão. "Venha para a cama." Eu me certifico de que a cadeira esteja perto o suficiente da cama para que seu soro e oxigênio fiquem bem, então a pego. Seus braços caem fracamente ao redor do meu pescoço. Paro, apenas bebendo em seu rosto. Quão bonita ela é. Bonnie vira o rosto para mim e me dá um pequeno sorriso. Ela me mata, então. Ela me mata com um simples sorriso. Inclinando-me, eu a beijo, demorando-me o máximo que posso antes que ela precise respirar. Quando me afasto, vejo seus lábios tremerem. "Eu estou te segurando” digo, esperando que ela saiba que quero dizer mais do que apenas nesse momento. Coloco Bonnie na cama e me arrasto para o seu lado. Ela está usando leggings e um suéter, e seu cabelo está em uma trança nas costas. Ela não poderia parecer mais bonita se tentasse. Eu quero dizer algo enquanto seus olhos castanhos olham para os meus. Mas não sei o que dizer. Meu coração bate a um milhão de quilômetros por hora. Então ela sussurra: "Obrigada.” Bonnie move seu braço cansado para o meu peito e se aproxima de mim. “Você... o salvou.” Meus olhos se fecham. "Não” ela diz, com mais firmeza do que eu a ouvi falar por um tempo. Eu abro meus olhos. Sua mão se levanta para o meu rosto. "Amo ver seus olhos." "Bonnie." Balanço a cabeça. "Ele está bem?"

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A expressão de Bonnie muda. Ela olha por cima do meu ombro. "East é bipolar." Paro de respirar, tudo se acalmando. Meus lábios se separam e Bonnie continua. “Ele sempre achou a vida... difícil. Mas... ele estava melhor ultimamente.” "Bipolar.” Penso em sua pintura brilhante quando cheguei. A gritaria pelo microfone no celeiro. As madrugadas. A bebida. O comportamento maluco... então a escuridão. A maneira como a cor ao redor dele mudou de roxo e verde para preto e cinza. As suas pinturas. Ele incapaz de sair da cama. "Ele é bom em fingir que está bem." Enfrento Bonnie novamente e penso em seus sorrisos largos em torno dela, mas seu humor quando ele estava aqui. Os olhos de Bonnie caem. Passo meus dedos pelos dela. Ela olha para as nossas mãos entrelaçadas. "Ele já tentou antes." Congelo. Bonnie fica firme, mostrando a força que ela tem dentro dela, mesmo que seus olhos gritem sua dor. "Suas pulseiras de couro." Realização me atinge. "Ele cortou seus pulsos antes?" O entendimento bate. “Ele tem momentos de altos extremos e baixos terríveis. Quando os baixos acontecem, é pior. Ele esteve subindo e descendo há anos. Mas ele estava muito melhor ultimamente.” Sua inspiração superficial é elaborada. “Ele admitiu estar sem tomar seus remédios. Ele disse que os achava sufocantes, criativamente. Mas ele voltou agora. Ele precisa deles para manter seus humores equilibrados.” Ficamos em silêncio por cinco minutos enquanto ela faz uma pausa. Enquanto ela luta mais arduamente para respirar. Eu a seguro o tempo todo, apenas memorizando este momento. O que ela sente ao meu lado. Aqui, agora.

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Tudo que ela é. "Ele está estável." Relaxo enquanto ela fala essas palavras. Então Bonnie está olhando nos meus olhos. Seus lábios tremem e seus olhos brilham. "Você foi enviado para mim." Ela sorri, lábios roxos bem abertos. "Para me fazer passar por isso." Minha visão borra em suas palavras. “Ou para me mostrar... como seria isso.” Eu paro. “Amar... antes que seja tarde demais." "Não." Eu a puxo para mais perto. Quero puxá-la para tão perto que a força do meu coração possa dar vida à dela. “Você vai conseguir um coração, Bonnie. Eu me recuso a pensar de outra maneira.” O sorriso triste de Bonnie rasga meu peito ao meio. “Está... ficando mais difícil.” Ela fecha os olhos e respira. Seu peito sacode e seus movimentos estão erráticos. Quando seus olhos se abrem novamente, ela diz: “Estou lutando. Continuarei lutando... mas se for preciso, posso ir... sabendo como é.” Ela acaricia meu rosto, passa o dedo sobre meus lábios. “Como foi amar você. Conhecer você... ouvir sua alma através da sua música.” Balanço minha cabeça, não querendo ouvir isso. "Não vou te perder” digo e beijo sua testa. Inalo seu cheiro de pêssego e baunilha. Provo sua doçura na minha língua. "Não posso viver sem você." “Cromwell...” encontro os olhos de Bonnie. Ela engole em seco. “Mesmo se eu conseguir um coração... nem sempre é a resposta.” "O que você quer dizer?" "Meu corpo pode rejeitá-lo." Balanço a cabeça, recusandome a acreditar. “Então há quanto tempo posso viver depois da cirurgia. Algumas pessoas vivem apenas um ano... alguns podem viver entre cinco e dez anos.” Ela ergue o queixo. “E... alguns

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podem viver por vinte e cinco anos ou mais.” Ela baixa os olhos. "Nós não saberemos até que aconteça." “Então você vai viver além dos vinte e cinco anos. Você vai fazer isso, Bonnie. Você vai cantar de novo. Vai respirar e correr e tocar sua guitarra.” Bonnie enfia a cabeça em mim e ouço seus gritos suaves. Então a seguro apertado. Depois de um tempo, o zumbido silencioso da máquina de oxigênio e suas respirações famintas são a trilha sonora do momento. Até que suas respirações se estabilizam e ela adormece em meus braços. Mas eu não durmo. Uma sonata de abertura começa a tocar na minha cabeça, mantendo-me acordado. Fecho os olhos e escuto a música me contando a nossa história. Assisto as cores dançarem como fogos de artifício no dia 5 de novembro. Com o cheiro de Bonnie no meu nariz e o gosto dela na minha língua, deixo a sinfonia tomar conta de mim. Deixo isso me manter aquecido. Ficamos assim por horas, até que o sono me reclama também. Quando acordo, estou com Bonnie em meus braços... exatamente onde ela está destinada a estar.

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Capítulo 21 Bonnie Duas semanas depois...

“Eu gosto...” digo, enquanto Cromwell toca violino no final da cama. Assisto seu trabalho de arco, hipnotizada em como alguém pode tocar tão bem uma variedade de instrumentos. Angustiada, tento forçar o ar em meu peito apertado. Mas isso não ajuda. Cromwell fecha os olhos e toca a passagem que acabamos de escrever. Eu disse “nós”, mas na realidade é somente ele. Não posso me enganar quando se trata de compor com alguém como Cromwell. Ele assume a liderança. Como não poderia, quando tudo o que precisa fazer é apenas seguir seu coração? E estou cansada. Estou tão cansada. Nos últimos dez dias; não saí da cama uma única vez. Olho para as minhas pernas. Elas estão finas sobre a cama. Não consigo me mover. No entanto, Cromwell vem todos os dias. Ele me beija o máximo que a situação permite e me abraça quando sinto frio. Às vezes, gostaria de saber se o meu coração também sente. Sente o que minha alma sente quando ele sussurra em meu ouvido o quanto me ama. Quanto ele me adora. E como vamos superar isso.

TILLIE COLE


Quero acreditar. Eu acredito. Mas nunca pensei que ficaria tão exaurida. Nunca imaginei que sentiria tanta dor. Mas quando olho nos olhos de Cromwell, nos olhos da minha mãe e do meu pai, e quando penso em Easton, sei que preciso aguentar. Não posso perdê-los. Escuto lá fora o som da porta de um carro se abrir. Cromwell faz uma pausa para fazer anotações em nossa partitura. Meus dedos formigam, sabendo quem seria. Easton está voltando para casa hoje. Ele estava em um centro de reabilitação nos arredores de Charleston recomendado por seu terapeuta. Um que poderia ajudá-lo a retornar para um lugar seguro. Um que poderia equipá-lo com as ferramentas que precisa para lutar contra seus pensamentos mais sombrios. E senti muita saudade dele. Não o tenho visto, exceto naquela primeira noite no hospital. Cromwell se levanta quando a porta da frente se abre. Meu coração parece bater forte no peito, mas deve ser uma batida fantasma. Sei que não tem esse tipo de força. Cromwell senta ao meu lado na cama, segurando minha mão enquanto a porta do meu quarto se abre. A cabeça de Easton está abaixada e seus pulsos envoltos em bandagens. Mas, é o meu irmão e ele parece exatamente o mesmo de sempre. Lágrimas escorrem pelo meu rosto, enquanto constrangido, ele permanece parado na porta. Ele não olha para cima. Cromwell solta minha mão e atravessa o quarto. Easton ergue o olhar para ele e Cromwell o abraça. Então, não consigo evitar, vendo os dois ali, a vítima e seu salvador, e desmorono. As costas de Easton tremem enquanto Cromwell o abraça apertado. Eles ficam assim por alguns minutos, até que Easton ergue a cabeça e seus olhos encontram os meus. “Bonn,” ele sussurra e

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seu rosto contorce me vendo na cama. É como se não pudesse andar. Por isso, levanto minha mão e estendo para ele pegar. Ele hesita até que Cromwell dá um tapinha em seu ombro. “Ela sentiu sua falta, East.” Cromwell diz. Eu amo tanto esse garoto. Amo incrivelmente muito. Easton se aproxima devagar, mas quando afunda na beira da cama e pega minha mão, eu o puxo para perto. Easton me abraça e eu o seguro, apenas para tê-lo de volta aos meus braços. Ao meu mundo. “Eu te amo, East.” “Eu amo você, Bonn.” Fico abraçada a ele o máximo possível, até meu IV tocar e Clara retornar ao quarto. Ela dá um sorriso a Easton e rapidamente troca meu soro. Estou livre dos remédios. Mas, para isso, agora tenho um cateter de acesso central em meu braço. Não consigo mais ingerir a comida, portanto preciso me alimentar dessa maneira. Easton observa com seus olhos ainda tristes. Quando Clara sai, ele senta na cadeira ao lado da minha cama. E como faz sempre, por mais imprudente que seja, Cromwell sobe ao meu lado na cama e segura minha mão. “Como você está?” Pergunto, com um nó na garganta. Os olhos de Easton brilham. Sua cabeça baixa. “Sinto muito.” Ele olha para Cromwell. “Desculpe, Crom.” Vou falar algo, mas Easton diz: “Eu simplesmente não consegui suportar.” Ele respira fundo e teria feito o mesmo se pudesse. “Parei de tomar meus remédios. E tudo ficou em cima de mim.”

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Estendo minha outra mão e ele pega. “Eu... eu preciso de você,” sussurro. Easton encontra meus olhos e finalmente assente. “Eu sei que precisa Bonn.” Ele me dá um sorriso fraco. “Estarei aqui. Prometo.” Exalo e tento ler seu rosto. Ele parece cansado, introvertido. Mas ele está aqui. Easton se inclina para frente. “Como você está?” Seus olhos examinam as máquinas instaladas no quarto. “Resistindo,” digo e sua expressão muda. Cromwell beija meu ombro, sua mão aperta a minha com mais força. Desvio meus olhos para a janela. “Como está... lá fora?” Jamais imaginei que alguém pudesse sentir tanta falta do sol. Sentir saudade do vento e até mesmo da chuva. “Bom,” Easton diz. Acho graça na resposta de uma única palavra do meu irmão. Nunca teria descrito dessa maneira. Eu quero saber de que cor as folhas das árvores estão. Se está mais frio do que há dez dias. Qual a aparência do lago à noite, agora que as noites estão mais escuras. “Legal,” digo, e Easton sorri. “Então?” Easton pergunta. Uma sugestão do meu irmão feliz ecoando em sua voz. “O que você está compondo?” Não acredito que ele realmente se importe, mas eu o amo por tentar. Cromwell coloca a mão no bolso e tira o gravador de áudio. Ele sempre grava o que fizemos e depois transfere para o meu celular para que eu possa ouvir. Registra tudo que criamos, e até as combinações destoantes de como as divisões dos instrumentos fluiriam em conjunto.

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Easton fica boquiaberto. “Você está tocando todos esses instrumentos?” Pergunta a Cromwell. O rosto de Cromwell explode em chamas. “Sim,” respondo por ele. Easton franze a testa. “Quem escreveu a música?” “Os dois...” “Cromwell,” interrompo. Cromwell olha para mim, estreitando os olhos. Não posso deixar de sorrir. “A verdade...” Isso tudo é criação dele. Tudo foi produzido por ele. Easton recosta-se no banco e balança a cabeça. “Então, a estrela da música eletrônica está na música clássica.” A boca de Cromwell se contrai. “Está tudo certo.” Easton ri, fazendo Cromwell ostentar um sorriso completo. O som e a visão da felicidade iluminam meu mundo. Não demora muito para que adormeça. Quando acordo, Clara está verificando meu batimento cardíaco com o estetoscópio. “Ainda está batendo?” Pergunto, a nossa costumeira piada escapando dos meus lábios. Clara sorri. “Ainda batendo.” Cromwell e Easton estão do outro lado do quarto. Bem próximos e conversando baixinho. Cromwell se vira como se pressentisse que estou acordada. Ele vem e me beija. Clara ri e sai do quarto. Ele senta na beira da cama. “Como está se sentindo, baby?” Baby. Ele simplesmente começou a me chamar desse jeito. Adoro tanto quanto o amo.

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“Estou bem.” Esfrego a mão no meu peito. Cromwell levanta o estetoscópio da mesa de apoio. “Posso ouvir?” Concordo. Cromwell coloca o estetoscópio frio no meu peito e fecha os olhos. Observo quando eles tremulam debaixo de suas pálpebras fechadas. Eu me pergunto o que ele está vendo. Quais cores e formas. Depois leva a mão ao bolso e coloca o pequeno microfone conectado ao gravador sob a borda do estetoscópio. Ele fica assim por alguns minutos, depois abre os olhos, movendo a cabeça para trás. Sem que precise pedir, ele reproduz a gravação. Inspiro pelo nariz, puxando uma grande quantidade de oxigênio enquanto o som gutural do meu coração decadente ecoa pelo quarto. Praticamente cantando que está desistindo. “Faça a mesma coisa com Easton,” digo. Cromwell parece confuso, mas faz o que peço. A batida é forte. Eu sabia que seria. “Agora o seu. Eu quero ouvir o seu.” Cromwell coloca o estetoscópio no coração, mas dessa vez ele me entrega os fones. O som do seu coração pulsando forte soa alto em meus ouvidos. E dou um sorriso. Esta é a música do seu coração. “Lindo,” digo. Isso é algo que poderia escutar o dia inteiro.

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Três dias depois...

“Aonde vamos?” Pergunto enquanto Cromwell me ajuda a sentar na cadeira de rodas. Clara entrou há pouco no quarto para retirar o acesso da sonda alimentar do meu cateter, conectou o pequeno cilindro de oxigênio ao tubo e me ajudou a trocar de roupa. Cromwell me empurra para a porta. Meu pulso parece acelerar quando passo por meus pais. “Não por muito tempo, ok?” Mamãe diz a Cromwell. “Eu sei. Eu não vou abusar.” “O que está acontecendo?” Cromwell se abaixa a minha frente e coloca a palma da mão suavemente em minha bochecha. “Vamos pegar um pouco de ar fresco.” Fico boquiaberta quando a porta se abre e revela um dia ensolarado. Estou enrolada no grosso suéter preto de Cromwell, mais outro casaco, além de uma manta. Mas não dou à mínima se pareço ridícula. Estou saindo. E isso é tudo que importa. Eu estou saindo. Cromwell me empurra porta afora. Ele faz uma pausa. Gostaria de saber se ele adivinhou meu simples desejo de sentir a leve brisa no rosto. Ouvir o canto dos pássaros nas árvores.

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Ele fala bem próximo a minha orelha. “Está preparada?” “Mmm.” Cromwell me leva e acomoda no banco de carona da sua caminhonete. Quando seu rosto passa pelo meu, ele faz uma pausa e pressiona um único beijo suave em meus lábios. Eles formigam enquanto ele fecha a porta e senta no banco do motorista. Entrelaça e nunca retira sua mão da minha, enquanto lentamente dirige saindo da minha rua para rodovia principal. Olho pela janela e vejo o mundo passar por nós. Eu amo este mundo. Eu amo a minha vida. Não sei se em seu cotidiano as pessoas pensam muito nisso. Mas este é muitas vezes o meu pensamento mais recorrente. Eu quero viver. Quero as possibilidades que estão por vir. Quero conhecer os países que sempre sonhei visitar. Cromwell aperta minha mão. Fecho meus olhos e respiro fundo. Quero ouvir a música que Cromwell criou. Quero estar ao seu lado, para testemunhar o momento em que seu trabalho ganhar vida. Cromwell vira à direita em uma estrada secundária. O lago é por aqui. Quando sua caminhonete entra na área de estacionamento, vejo um pequeno barco, dois remos prontos ao lado, esperando no final do píer de madeira. Meu sangue aquece com tanto carinho. Eu me viro para Cromwell. “Um barco...” Cromwell assente, colocando sua jaqueta de couro com capuz sobre o suéter preto e grosso. Ele fica tão bonito assim. “Você disse que gosta de estar no lago.” Metade do meu corpo se derrete com a doçura desse gesto. Mas a outra

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silencia. Cromwell disse que faríamos isso logo após conseguir meu novo coração. Quando já estivesse recuperada. Não sou boba. E nem ele. Os dias continuam passando. E a cada minuto que passa, fico cada vez mais fraca. O coração pode nunca chegar. O que significa que esse passeio nunca aconteceria. Meu lábio treme quando ele me olha, uma súbita onda de medo me captura em suas garras. Cromwell rapidamente se inclina e pressiona sua testa na minha. “Eu acredito que você vai receber seu coração, baby. Apenas queria muito te oferecer isso agora. Tirar um pouco você de casa. Não estou desistindo.” Minha apreensão desaparece quando escuto sinceridade em sua voz. “Tudo bem,” sussurro. Cromwell me beija novamente e sai da caminhonete. Estou certa que jamais cansaria de seus beijos. Quando abre a porta ao meu lado e a brisa fresca invade, fecho meus olhos e apenas respiro. Posso sentir o cheiro do verde das folhas. O frescor do lago. E, claro, consigo sentir o cheiro de Cromwell. Sua jaqueta de couro. O almíscar da colônia que usa e o leve cheiro de fumaça de cigarro. “Está pronta?” Sorrio e balanço a cabeça. Cromwell me tira da caminhonete e pega meu cilindro de oxigênio. Enquanto seguimos devagar pelo píer, deixo de olhar para o lago por alguns minutos. Em vez disso, olho para Cromwell. Para sua pele morena. Na barba em suas bochechas. No azul de seus olhos e os longos cílios negros que emolduram sua cor única.

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Apesar de toda sua fraqueza, neste momento meu coração está forte. E creio que, se você olhar em suas profundezas, é Cromwell quem verá lá. Cromwell deve ter sentido meu olhar enquanto o espreitava. Não estou nem um pouco embaraçada com isso. “Você é tão bonito...” digo com a minha voz varrida pela brisa. Cromwell para. Seus olhos se fecham por um momento. Então, abaixa e me beija outra vez. Asas de borboleta tremulam no meu peito. Quando se afasta, deslizo minha mão do seu pescoço e a coloco em sua bochecha. Dizendo sem palavras como me sinto. Afinal, o amor está além das palavras. Cromwell entra no barco que balança um pouco enquanto ele me coloca no banco. Eu me inclino para trás e respiro fundo. Cromwell me envolve em um cobertor e depois pega os remos. “Você sabe o que está fazendo?” Pergunto. Seu largo sorriso remove a pequena quantidade de ar que existia em meus pulmões. “Apenas pensei em improvisar.” Saímos para o lago e Cromwell rapidamente pega o jeito com os remos. Sorrio enquanto deslizamos na água parada, os remos ondulando a água ao nosso redor. Cromwell encontra meus olhos e pisca. Não consigo deixar de rir. O som sai como um chiado, mas nem isso me impede de apreciar o momento. Decido que gosto mais desse lado de Cromwell. Esse em que ele está livre. Onde é engraçado, sem paredes protegendo seu coração. Ele olha para o lado do lago, onde as árvores são mais densas, e parecem nos envolver em um mundo só nosso. E fico emocionada. Percebo que esse garoto da Inglaterra, o príncipe da música eletrônica, está aqui comigo agora. O menino que nasceu com uma melodia em seu coração e uma sinfonia na alma está no meu lago favorito, remando na água como se fosse à coisa mais natural do mundo.

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Não queria mais ninguém na minha vida por medo do que pode acontecer caso venha perder essa luta. Mas agora que estou aqui, com Cromwell, ele se tornando meu remo, ajudando-me a velejar por este lago, eu sei que nunca poderia ter sido de outra maneira. Nós nos movemos em silêncio, apenas o canto dos pássaros e o farfalhar das folhas como nossa trilha sonora. Quando um pássaro canta, olho para cima e depois para Cromwell. “Amarelo-mostarda,” ele diz. Sorrio, depois olho para um galho pendente com suas folhas farfalhantes quase tocando o lago. “Bronze.” Puxo um pouco mais o cobertor quando sinto o frio aumentar em meus dedos. Fecho os olhos e escuto as notas amarelo-mostarda e bronze. Abro os olhos quando ouço o som da Quarta Sinfonia de Mozart. Cromwell parou de remar para coloca o celular ao lado dele. Sou transportada de volta ao nosso primeiro encontro. Quando saí do clube e desci para a praia em Brighton. Sempre amei a água, e havia algo tão majestoso nas ondas do mar na Grã-Bretanha. Mesmo no verão, é sempre turbulento e frio. A calma do Concerto para Clarinete em Lá Maior, de Mozart, que toca ao meu lado, é um contraste destoante a tudo que estou relembrando. Então, tão turbulento quanto as ondas, Cromwell Dean cambaleava até a praia, Jack Daniels na mão. Seus olhos perturbados se encontraram com os meus enquanto ele ouvia a música do meu celular. E, agora, “Mozart?” Pergunto e sorrio. Ele também deve ter se lembrado desse encontro.

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“Amadeus e eu chegamos a um acordo.” “Sério?” Ele assente. “Somos amigos novamente.” “Ótimo,” apenas digo em reposta. Mas existe muito mais nesta palavra. Porque mais uma vez Cromwell está apaixonado pela música clássica. Está tocando novamente. Inclino a cabeça para o lado quando ele se reclina em seu assento. Espero até que haja um intervalo na sinfonia para perguntar: “O que você quer fazer da sua vida, Crom?” Cromwell se inclina a frente e pega minha mão. É como se lhe desse segurança. Um homem em uma canoa antiga passa remando. Cromwell o observa. “Eu sempre o vejo aqui,” ele diz distraidamente e encolhe os ombros. “Quero tudo.” Ele aperta minha mão com mais força. “Eu quero criar música, é tudo que sempre quis fazer.” Sorri. “Eu não tenho nenhum outro talento.” Gostaria de ter a capacidade de falar mais do que algumas palavras sem perder o fôlego. Porque teria dito que ele não precisa de nenhum outro talento. Porque a maneira com que cria a música, sua habilidade; é algo diferente de tudo que já vi ou ouvi. É acima de todo talento. É divino. E é exatamente o que ele deve fazer. “Eu gosto de música eletrônica, mas também preciso compor música clássica.” Ele aperta os lábios. “Eu só quero tocar. Criar. Para o que quer que seja desde que tenha música em minha vida. Eu amo música eletrônica, mas acho que nada me dá a mesma sensação que a clássica.” Ele acena em minha direção. “Você tem razão. Através da música clássica, você conta uma história sem palavras. Move as pessoas. Inspira.” Ele suspira como se encontrasse um vislumbre de paz em sua alma atormentada. “Quando toco música clássica, quando

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componho... significa algo que dá sentido à minha vida.” Ele me olha e faz uma pausa, como se interrompendo algo que queira dizer. “O que?” Puxo sua mão. Ele procura meus olhos e diz: “Lewis me ofereceu seu lugar no concerto que em breve chegará a Charleston, para compor e mostrar meu trabalho.” Meus olhos se arregalam. Se meu coração pudesse acelerar, teria dado um grande salto. Cromwell abaixa a cabeça, como se estivesse envergonhado. “Uma sinfonia.” Ele inala, e vejo o peso do que ele carregou por três anos, com seu pai, brilhar em seus olhos. “Eu não teria muito tempo para compor. Mas...” ele é capaz. Tenho certeza que ele já tem uma sinfonia em seu coração apenas esperando fluir. “Você precisa fazer isso.” Lembro agora de todos os vídeos dele tocando quando criança. A música que surgia tão natural quanto respirar. O que agora é uma necessidade ainda mais forte. “Você deve fazer isso.” Uso a pouca energia que tenho para me inclinar e segurar sua bochecha. Cromwell me olha. “Eu não quero deixar você.” Caso esse seja todo o tempo que nos resta. Vejo as palavras em sua cabeça tão vibrantes quanto ele enxerga as cores com um simples ruído. Penso no concerto — para mim, tão longe. E sei que se não conseguir um coração; não estarei lá para assistir. É engraçado. Meu coração está morrendo, mas nunca senti nenhum sofrimento apenas por isso. Mas, nesse momento, sei que estou sofrendo muito com o fato de que talvez não possa assistir Cromwell Dean em seu elemento, no palco onde nasceu para brilhar. “Você... você deve tocar.” Porque, se eu não sobreviver, estarei olhando do céu, ao lado do seu pai, observando o garoto

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que amamos capturar os corações e mentes de todos que assistem. Cromwell olha para o canoísta. O homem acena com a cabeça e silenciosamente passa por nós. Cromwell o observa ir embora. “E você?” Ele pergunta. “O que quer fazer da sua vida?” Cromwell afasta o cabelo do meu rosto. Acho que é apenas uma desculpa para me tocar, e isso traz calor aos meus ossos frios. “Escrever é minha paixão... sempre pensei em fazer algo como isso.” Exalo uma respiração difícil. “Ouvir minhas palavras serem cantadas de volta para mim.” Não é um sonho excessivamente complexo. E isso já se tornou realidade. Seguro suas mãos mais forte. “Você já me deu isso.” Mas, tenho um sonho maior em mente, e só agora entendo o quanto é inatingível. Alguns podem pensar que é simples, ou nada de grande importância, mas para mim é o mundo. “Bonnie?” “Casar...,” digo. “Ter filhos.” Meu lábio inferior treme. Porque mesmo que um coração chegue, seria difícil ter uma família. Engravidar após a cirurgia traria ainda mais riscos, mas sei que arriscaria. Sinto meus cílios molhados. “Estar sempre apaixonada... e ser amada para sempre.” Dou um sorriso sem graça. “Esse agora é o meu sonho.” Quando você convive com a ameaça de morte, logo percebe que seus sonhos verdadeiros não são tão grandiosos. E todos são reduzidos a uma coisa — amor. Posses materiais e metas idealistas desaparecem como uma estrela fugaz. O amor é o que resta. O propósito da vida é amar. Cromwell me leva ao seu colo. Derreto em seu peito e ficamos à deriva por um tempo. “Crom.” “Sim?”

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"Você tem que tocar no Concerto." Cromwell fica tenso. Demora alguns instantes para que ele diga: "Eu toco, se você me fizer uma promessa em troca.” Olho em seus olhos. Cromwell está me esperando. “Se você prometer que vai estar lá, assistindo.” Eu não quero prometer, porque as chances disso ser possível são mínimas. E apenas pensar nisso me apavora. Mas quando penso em Cromwell, debruçado sobre o piano semanas atrás, torturado por seu pai, precisando tocar a música que tem em seu coração, mas afastando-a para que não sofresse, sei que não posso fazer o mesmo com ele. “Eu prometo,” digo com a voz embragada. Cromwell solta um suspiro que nem sabia que estava segurando. “Eu prometo.” Ele pega meus dedos e beija cada um. Traz os lábios para minha boca, depois para minhas bochechas, minha testa, meu nariz. Ele me segura, como se eu fosse escapar de suas mãos e cair no lago caso não fizesse. “Cromwell?” Pergunto, enquanto outro canta. “Quem tem sinestesia. Sua mãe ou seu pai?”

pássaro

As sobrancelhas escuras de Cromwell se juntam. "O que você quer dizer?” “É genético... não é?” Surpresa toma conta do rosto de Cromwell. Ele balança a cabeça. “Não pode ser.” Ele olha para a água. “Mamãe não tem, e papai definitivamente também não.” Faço uma careta, de repente me sentindo mal. “Eu devo estar errada.” Sei que não estou, mas nesse caso não faço ideia de como explicar a Cromwell. Cromwell não fala muito depois disso. Ele parece profundamente absorto em seus pensamentos. Fico em seus

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braços, ouvindo Mozart e imaginando-o naquele palco. Esfrego meu peito quando uma dor começa a aumentar. Cromwell me coloca de volta no banco e começa a voltar para o píer. Mas a cada golpe dos remos, sinto-me cada vez pior. O pânico me domina quando meu braço esquerdo começa a ficar dormente. “Bonnie?” Crom diz quando chegamos ao cais. Ele joga a corda ao redor do poste no píer, no exato momento em que a dor é tão intensa que rouba meu fôlego e controla meu lado esquerdo. Estendo a mão para segurar meu braço, quando perco a capacidade de respirar. “Bonnie!” A voz de Cromwell chega a meus ouvidos enquanto o mundo escapa das minhas mãos. Meus olhos se levantam e vejo o sol entre as clareiras das árvores. O som do farfalhar das folhas fica mais alto, e o canto dos pássaros soa como uma ópera. Então, Cromwell está sobre mim, seus olhos azuis arregalados em pânico. “Bonnie! Baby!” “Cromwell,” tento dizer. Mas a energia evapora do meu corpo, e o mundo desvanece em tons suaves de cinza. Depois, o pior, tudo silencia; a música da voz de Cromwell e o mundo dos vivos mergulham em silêncio. Eu quero falar, quero dizer que o amo. Mas meu mundo desaparece em preto antes que eu possa. E, então, um silêncio pesado me acolhe.

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Capítulo 22 Cromwell

“Bonnie! Bonnie!” Grito quando ela cai em seu assento, com a mão direita agarrando seu braço esquerdo e olhos se fechando. Meu pânico vem à tona. Os olhos de Bonnie encontram os meus, e tudo que vejo é o medo me encarando. Em seguida, seus olhos se fecham. “NÃO! NÃO!” Grito e me movo para ela. Minha mão procura por seu pulso. Não está lá. Não penso em mais nada, apenas deixo o instinto controlar minhas ações. Pego Bonnie em meus braços e a levo para o cais o mais rápido que consigo. Eu a deito no chão e começo a ressuscita-la, algo que meu pai me ensinou anos atrás. “Vamos, Bonnie,” sussurro, meu sangue congelando enquanto seu pulso não retorna. Continuo respirando em sua boca, empurrando seu peito, quando de repente alguém chega ao meu lado. Olho para cima e vejo o canoísta. “Ligue para o 911!” Grito, sem ousar tirar minhas mãos de Bonnie. Porque ela precisa viver. Ela não pode morrer. “Informe que ela tem insuficiência cardíaca, e que se apressem!” É tudo uma nevoa. Continuo incessantemente até que alguém me afasta. Luto com eles para voltar para Bonnie. Mas

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quando braços firmes me impedem, olho para cima. Os socorristas estão aqui. “Ela tem insuficiência cardíaca,” digo, observando-os levar Bonnie do cais em uma maca. Corro atrás deles e entro na parte de trás da ambulância, imóvel enquanto os paramédicos trabalham em Bonnie. Sua mão cai da maca. E isso é tudo que posso ver. Sua mão inerte, que há pouco tempo atrás estava segurando a minha. As portas da ambulância começam a fechar. Quando olho para cima, o homem da canoa havia desaparecido. A ambulância sai e, todo tempo, olho para a mão de Bonnie. Ligo para seus pais. E nem recordo a conversa. Sigo a maca pelo hospital, enquanto médicos e enfermeiras se aglomeram como abelhas ao redor de Bonnie. Escuto os bips e zumbidos das máquinas mantendo-a viva. E ouço o bater do meu coração em meus ouvidos. As cores voam em minha direção como estilhaços, me atingindo a cada golpe. Emoções me oprimem até sentir não ser capaz de respirar. Fico encostado contra a parede, observando a mão de Bonnie que ainda está pendurada na maca. Eu quero a segurar. Quero que ela saiba que estou aqui, esperando que ela acorde. “Não!” A voz da mãe de Bonnie soa a minhas costas. Eu me viro para ver seu pai e irmão entrando logo em seguida. A mãe de Bonnie tenta correr para sua maca, mas o Sr. Farraday a detém. Easton está parado na porta, os olhos fixos em sua irmã, um olhar assustadoramente calmo em seu rosto. Como se ele não estivesse lá. Como se ele não estivesse vendo sua irmã lutar pela vida. Tubos e máquinas estão por toda parte em Bonnie, escondendo seu cabelo escuro e corpo magro. E, o tempo todo, sou soterrado cada vez mais sob cores, ruídos, formas e sentimentos. Sentimentos que não desejo.

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Fico ali, observando a garota que trouxe de volta o meu coração, agora lutando para salvar a dela. Fico ali até ser levado. A Sra. Farraday me conduz a uma sala. Pisco quando os barulhos param e somos mergulhados em silêncio. Um médico entra na sala. Olho para cima. Easton está ao meu lado. Mas seus olhos estão vagos. Seu rosto pálido. Tudo parece se mover em câmera lenta quando o médico começa a falar. Apenas certas palavras chegam ao meu cérebro. Parada cardíaca... terminal... não mais que algumas semanas... não vai para casa... topo da lista... ajuda médica... máquinas... O médico sai da sala. A mãe de Bonnie cai no peito do marido. O vermelho carmesim enche minha cabeça enquanto seus gritos enchem a sala. O Sr. Farraday se aproxima de Easton. Easton é puxado em seus braços, mas ele não retribui. Ele apenas fica lá parado, olhos vagos, seu corpo estranhamente imóvel. Bonnie está morrendo. Bonnie está morrendo. Cambaleio até a parede e finalmente meus pés cedem. Bato no chão e sinto o escudo de dormência escapar... apenas para baixar minhas defesas tanto que as emoções me agridem, me bombardeando com imagens de Bonnie desfalecendo no barco, segurando seu braço, chamando meu nome... Minha cabeça cai para frente e as lágrimas que tenho segurado se libertam. Desmorono no chão até que braços me cercam. Sei que é a Sra. Farraday, mas não consigo parar. Ela é a sua mãe, e acabou de ser informada que sua filha teria apenas algumas semanas... mas não posso evitar.

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Bonnie é tudo para mim. A única que me entende. Eu a amo. E vou perdê-la. “Ela vai ficar bem.” A Sra. Farraday continua a sussurrar em meu ouvido. Mas as palavras dela são azul-marinho. Azul-marinho. Filho da puta do azul-marinho. Ela vai ficar bem. Azul-marinho.

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Meus pés estão pesados quando entro no quarto. A batida rítmica da máquina de suporte à vida é ensurdecedora. A mão da Sra. Farraday aperta meu ombro quando passa por mim, fechando a porta e nos deixando sozinhos. O quarto cheira a produtos químicos. Fecho os olhos, respiro fundo e os abro novamente. Meus pés se aproximam da cama, e quase caio de novo quando vejo Bonnie na cama. Tubos e máquinas a rodeiam, os olhos fechados, privando-me de sua luz. Uma cadeira espera ao lado dela, mas a empurro para o lado e cuidadosamente sento na beira da cama. Pego sua mão na minha. Está fria. Afasto seu cabelo do rosto. Sei que ela gosta quando faço isso. “Oi, Farraday,” digo, minha voz soa como um grito no quarto silencioso. Aperto sua mão, em seguida, inclino-me sobre ela,

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tomando cuidado com os tubos, e beijo sua testa. Sua pele está gelada. Meus olhos lacrimejam. Movendo minha boca para sua orelha, digo: “Você me fez uma promessa, Farraday, e não vou deixar você se livrar dela.” Fecho meus olhos. “Eu te amo.” Minha voz falha na última palavra. “Eu te amo, e me recuso a aceitar que você me deixe aqui sem você.” Engulo em seco. “Apenas lute, baby. Eu sei que seu coração está cansado. Eu sei que também está cansada, mas precisa continuar lutando.” Faço uma pausa, recompondo-me. “O médico disse que agora você está no topo da lista. Você vai receber um coração.” Claro que sei que não é garantido, mas tenho que dizer isso. Mais para mim do que para ela. Olho para o peito de Bonnie. Uma máquina faz subir e descer. É um ritmo perfeito. Beijo Bonnie na bochecha e sento na cadeira ao lado dela. Seguro firme sua mão. Mesmo quando fecho os olhos, não largo.

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“Filho?” Uma mão no meu ombro me acorda. Pisco, luzes fracas brilham acima. Confusão nubla minha cabeça, até que essas nuvens se dissipam. Encontro Bonnie cama, olhos fechados e máquinas barulhentas. Então, olho para os meus dedos ainda ligados aos dela. “É tarde, Cromwell.” Sr. Farraday toca em sua cabeça. “Ela está em coma induzido, filho. Não vai acordar por agora. Pelo menos por mais alguns dias. Seu corpo precisa de tempo para se fortalecer.” Olho para seu rosto bonito, pálido e coberto de tubos. Eu quero retirar todos, mas sei que eles estão a mantendo aqui.

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“Vá para casa, filho. Durma um pouco. Coma algo. Você está aqui há horas.” “Eu não sei...” limpo minha garganta rouca. “Não quero ir.” “Eu sei que você não quer ir. Mas não há nada que possamos fazer agora. Está tudo nas mãos de Deus.” Ele acena com a mão para que o siga. Fico de pé e beijo Bonnie na bochecha. “Eu te amo.” Sussurro em sua orelha. “Voltarei em breve.” Sigo o Sr. Farraday pelo corredor. “Eu volto manhã.” Desta vez, não estou pedindo permissão. Eles não irão me afastar. O Sr. Farraday assente. “Cromwell, você manteve meu bebê vivo até a chegada dos paramédicos. De jeito nenhum te afastaria dela.” “Meu pai serviu ao exército. Ele me ensinou.” Não sei por que eu digo isso. Acabou saindo. Vejo a simpatia nos olhos do Sr. Farraday. E sei que ele sabe sobre meu pai. “Então, ele era um bom homem.” Ele aperta meu ombro novamente. “Vá dormir e volte amanhã.” Eu me viro e sigo para as portas principais. Não estou pensando, apenas deixo que meus pés liderem o caminho. Ao sair para a noite fria, noto alguém sentado em um banco no pequeno jardim do outro lado da rua. Assim que vejo o cabelo loiro, sei quem é. Sento ao lado de Easton no banco. Ele não diz nada enquanto olhamos a estátua de um anjo no centro do jardim. Demora minutos antes dele murmurar: “Ela tem algumas semanas, Crom. É isso.”

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Meu estômago aperta tanto que me causa náuseas. “Ela vai ficar bem,” digo. Mas, nem sequer me convenço. “Agora é a primeira da fila. Ela finalmente vai conseguir um coração.” Easton fica em silêncio. Eu me viro para ele. “Como você está?” Easton ri sem humor. “Ainda aqui.” “Ela precisa muito de você.” Digo, preocupado com suas palavras. “Quando ela acordar, quando a tirarem do coma, ela precisará muito de você.” Easton acena com a cabeça “Sim. Eu sei.” Ele fica de pé. “Eu vou voltar.” “Vejo você amanhã.” Observo Easton voltar para o hospital. Continuo olhando para o anjo. Esta noite passa pela minha cabeça a um milhão de quilômetros por hora. E, uma parte dela continua sempre voltando. Quem tem sinestesia? Pego o celular e digito a pergunta no navegador. Meu estômago dá um nó quando o que Bonnie disse se confirma em sua maior parte. Repito a mim mesmo que devo ser uma das exceções, mas uma pequena voz começa a sussurrar no fundo do meu cérebro. Você não se parece em nada com seu pai... sua mãe tem cabelo loiro. Você tem cabelo preto... você é alto. Sua mãe e seu pai são baixos... Meu coração dispara como um canhão em meu peito. Adrenalina corre em minhas veias, e pensamentos e memórias bombardeiam minha mente. Meus pés viram para o ponto de táxi e pego um de volta para o lago. Vou para minha caminhonete, nem mesmo olhando para o lago, onde Bonnie desabou na minha frente. Em vez disso, dirijo. Dirijo sem parar até que meu corpo está exausto. Mas mesmo assim, minha mente não desliga. Bonnie está morrendo. Ela precisa de um

TILLIE COLE


coração. Easton está desabando e ainda... essa pergunta... essa pergunta ainda permanece em minha cabeça. Freio minha caminhonete em frente ao dormitório e olho no espelho retrovisor. Meus olhos são da minha mãe. Meus lábios são da minha mãe. Mas meu cabelo... “Por que você insiste tanto que eu tenha uma aproximação com ele?” Pergunto ao meu pai. “Por que ele entende, filho. Entende como é ser como você.” Ele suspira. “Apenas dê a ele uma chance. Acho que vai gostar muito se o conhecer. Você deve mesmo conhecê-lo, filho.” Não, não pode ser verdade. Não é verdade. Não pode ser. Mãos tremendo, enfio a mão no bolso e pego meu telefone. Tudo é demais. Toda minha vida desmoronando. Pressiono o contato e espero até que se conecte. “Cromwell querido, você está bem?” O leve sotaque da Carolina do Sul da minha mãe chega aos meus ouvidos. “Papai é meu pai de verdade?” Solto. Minha mãe fica muda do outro lado da linha. Eu a ouço lutar por palavras. “Cromwell... o que...?” “Papai é meu pai verdadeiro? Apenas responda à pergunta!” Mas ela não responde. Ela fica em silêncio. Isso diz tudo.

TILLIE COLE


Termino a ligação. Meu pulso acelera e, antes que perceba, deixo o carro. Começo a correr e não paro até chegar a sua casa no campus. Meu punho bate na porta até que ela abre. Lewis fica lá, vestindo um pijama e com olhos sonolentos. “Cromwell?” Ele diz meio grogue. “O que...?” “Quem teve sinestesia, sua mãe ou pai?” Demora um pouco para assimilar a pergunta. “Hum... minha mãe teve.” E então ele olha para mim. Ele me vê o encarando. E assisto o rosto do babaca empalidecer. “O quanto você conhece minha mãe?” Pergunto em voz tensa. Não achei que Lewis fosse responder, mas ele diz: “Bem.” Ele engole em seco. “Muito bem.” Fecho meus olhos. Quando os abro novamente. Noto o cabelo preto de Lewis. Sua compleição. Sua altura. E eu sei. Recuo para longe da porta, dor, choque e Bonnie em coma, tudo se transformando em um fodido desastre. “Cromwell...” Lewis dá um passo à frente. Ele é meu pai. Meu telefone toca no bolso. Pego para ver o nome da minha mãe. Ele deve ter visto também. “Cromwell, por favor, eu posso explicar. Nós podemos explicar.” “Fique longe de mim,” digo, voltando para o seu jardim. Mas ele continua vindo e meus pés param. “Afaste-se,” aviso de novo, e sinto algo no meu peito rasgar quando penso em meu pai. Dele tentando me entender. Minha música. As cores... E eu nem era dele.

TILLIE COLE


Lewis continua se aproximando. Ele chega mais perto e mais perto, até que ele está bem na minha frente. “Cromwell, por favor...” Mas antes que ele possa dizer mais, acerto um soco em seu rosto. Sua cabeça vai para trás. Quando ele se vira, seu lábio está rachado. “Você não é nada.” Cuspo. “Você não é nada comparado a ele.” Corro para fora do seu jardim antes que ele possa dizer qualquer coisa. Corro até me encontrar de volta ao lago. Mas no minuto em que volto lá, tudo que vejo é Bonnie, e tudo o que resta do meu coração se desfaz em pedaços. Ando pelo píer e sento com pés pendurados no final. Minha cabeça cede e deixo tudo sair. Eu não consigo me segurar. Bonnie Meu pai. Lewis... Lançando a cabeça para trás, olho para as estrelas no céu e nunca me senti tão insignificante em minha vida. Eu não posso estar aqui. Mas não tenho para onde ir. Não. Isso é uma mentira. Volto para o hospital. Quando entro na sala de espera, todos os Farradays me olham. Eles não haviam saído. “Eu não vou deixá-la.” Digo com a voz dolorosamente crua. Sei que devo parecer péssimo. Sei disso porque a Sra. Farraday se levanta e pega minha mão, levando-me a um assento ao lado dela. Easton se aproxima e também senta ao meu lado. A janela do outro lado da sala mostra Bonnie deitada na cama. Então, apenas me concentro nela. Pedindo para as estrelas, que me mostre que ela sobreviverá.

TILLIE COLE


Preciso dela, e nem sei que merda farei se não a tiver em minha vida. Então, espero. Espero que ela acorde. E vamos juntos rezar e esperar por um coração. Ou estou certo que perderei a batida do meu.

TILLIE COLE


Capítulo 23 Bonnie Cinco dias depois...

Um bipe incessante ocupa minha cabeça. Seu ritmo é constante. Quero voltar a dormir, mas quando tento me virar, meu corpo dói. Em todos os lugares dói. Estremeço e sinto algo fazer cócegas no meu nariz. Tento mover minha mão para coçar, mas algo está em minha mão. Está quente e não quero afastar. Então tento aguentar. “Bonnie?” Uma voz profundamente acentuada chega aos meus ouvidos. Isso me faz lembrar Mozart. Meus olhos resistem quando os forço a abrir. A luz brilhante me faz estremecer. Pisco até meus olhos se ajustarem à luz. As coisas começam a clarear. Teto branco. Luz no centro do quarto. Olho para baixo. Estou em uma cama, com um cobertor rosa cobrindo minhas pernas. Então, olho minha mão e a mão a qual está segurando. Ergo meus olhos, uma forte confusão em minha cabeça. Mas então meu olhar encontra com um conjunto de olhos azuis que imediatamente roubam minha respiração. “Cromwell,” digo. Nenhum barulho sai da minha boca. Tento pigarrear, mas

TILLIE COLE


dói engolir. Tento colocar minha mão livre na garganta, mas meu braço está fraco e mal consigo movê-lo. O pânico me domina. Cromwell se move para sentar na beira da cama. Permaneço imóvel, cativada por ele como sempre, enquanto ele leva minha mão aos lábios e a outra segura meu rosto. Quero cobri-la com a minha, mas não consigo e não sei por quê. “Farraday,” ele suspira, alívio em sua voz. Isso faz meu coração pulsar no meu peito “Cromwell.” Meus olhos brilham enquanto olho ao redor do quarto. Então vejo a minha mão na cama. Os fios saem de lá. O pânico me prende em seu poder. “Shh.” Cromwell leva seus lábios à minha testa. Imediatamente me tranquilizo, fazendo o meu melhor para manter a calma. Quando ele se afasta, estudo seu rosto. Por alguma razão, sinto que uma vida inteira se passou desde que o vi. Procuro em minha mente a última vez que ele esteve comigo, mas tudo está confuso e vago. Mas quando o examino, sei que da última vez seus olhos estavam mais brilhantes. Sei que ele não tinha essa barba escura no rosto, e sei que seu cabelo, embora sempre bagunçado, nunca esteve tão desleixado. Ele tem olheiras e parece pálido. Está vestido como de costume com um suéter de malha preto e jeans rasgados. Não consigo ver seus pés, mas sei que pesadas botas pretas estão sobre eles. E suas tatuagens e piercings são tão significativas quanto antes. E sei de uma coisa acima de tudo: que eu o amo. Estou convencida de que posso até esquecer tudo sobre ele, menos isso. Que eu o amo com todo meu coração.

TILLIE COLE


Cromwell acaricia meu cabelo. Sorrio com o gesto tão familiar. Ele engole em seco. “Estávamos no barco, baby. Você se lembra?” Vasculho minha memória. Imagens confusas do lago retornam. O som do canto dos pássaros e do farfalhar das folhas. Cromwell segura minha mão com mais força. “Você teve uma crise.” Cromwell olha para trás. “Talvez deva procurar um médico. Para que possa explicar melhor. Seus pais...” Ele ia se afastar, mas o seguro. “Você,” sussurro. Cromwell suspira e passa a mão pelo meu coração. Ele cerra o maxilar. “Você teve um ataque cardíaco, baby.” Suas palavras com a voz abalada flutuam na minha cabeça. Ataque cardíaco... ataque cardíaco... ataque cardíaco... Medo e choque rapidamente me dominam, o peso deles me pressionando, sufocando-me. Quero sair da cama e escapar da densa e confusa escuridão que sinto pairando sobre mim. Mas, não consigo me mexer. Então, agarro-me a Cromwell por segurança. Seu dedo acariciando minha bochecha é como água para o fogo do medo que me queima por dentro. “Você conseguiu sobreviver, baby. Os médicos conseguiram te salvar.” Ele gesticula para as máquinas que assobiam e apitam ao meu redor. “Você esteve em coma induzido até estabilizar e ter uma melhora. Ficou assim por cinco dias.” Seu lábio treme. “Estávamos todos esperando você acordar.” Fecho os olhos, tentando afastar o medo que me recuso a deixar dominar. Respiro, sentindo o tubo do oxigênio no meu nariz. Quando abro os olhos novamente, vejo os círculos escuros sob seus olhos, pergunto: “Você... ficou... aqui?” Penso ter visto os olhos de Cromwell brilhar. Ele se inclina para frente, até que parece estar em toda parte. Olhos azuis fixos aos meus, mostrando-me em um simples olhar o quanto ele se importa. “Onde mais eu estaria?” Ele me dá um leve

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sorriso. “Decidi que a partir de agora eu vou aonde quer que você vá.” Cromwell beija meus lábios e a escuridão que me oprime desaparece. Sua luz a afugenta. Uma lágrima cai do canto dos meus olhos. Ele limpa com o polegar. “É melhor avisar ao médico e aos seus pais que você está acordada.” Ele beija minha mão novamente antes de sair do quarto. No momento em que ele sai, sinto uma sensação de frieza que jamais sinto em sua presença. Cromwell Dean é meu calor. A alma ardente que mantém a minha ligada a esta vida. Meus olhos examinam o quarto. E meu coração balança quando meus olhos encontram meu violão no canto. O teclado contra a parede. O violino no sofá. Desta vez não é apenas uma simples lágrima que escorre por minha bochecha; é uma torrente. “Ele tocou para você todos os dias.” Meus olhos se movem para a porta. Meu estômago aperta quando vejo Easton. Seu cabelo está uma bagunça e posso ver a ansiedade em seu rosto. “Easton,” murmuro com emoção embargando a voz que tento emitir desde que acordei. Easton entra no quarto, seus dedos roçando o teclado. Seus olhos brilham. “Ele não foi mais à escola. Apenas trouxe tudo um dia após você chegar aqui. E não parou de tocar para você o dia todo, todos os dias. Papai precisou forçá-lo a comer e dormir. E logo que ele retornava, tocava novamente.” Ele balança a cabeça. “Nunca vi nada assim, Bonn.” Easton passa a mão pelo rosto. Ele parece cansado. Muito cansado. A culpa me agride. “Ele é talentoso, mana. Preciso admitir.” Ele olha para os instrumentos, perdido em pensamentos. “Tem uma música que ele não para de tocar no teclado...” ele salta com uma risada. “Que mamãe não consegue parar de chorar.”

TILLIE COLE


Minha música de luta. Sei disso sem maiores explicações. Sei que, mesmo inconsciente, meu coração também ouviu. Easton se aproxima e fica ao meu lado. Ele olha para baixo, mas depois de alguns segundos, sua mão se entrelaça a minha. Esmaga-me vê-lo tão machucado. Suas ataduras ainda estão em seus pulsos e não quero nada além de pular da cama e dizer que estou curada. “Ei, mana,” ele sussurra com a voz enfraquecida. “Ei, você.” Minha mão treme, assim como a sua. Easton senta na cama. Meu rosto se desfaz quando vejo lágrimas inundando seu rosto. “Pensei que tinha perdido você Bonn.” Ele diz com a voz rouca. Eu o abraço o mais forte que consigo. “Ainda não.” Digo e ofereço meu melhor sorriso. Easton olha pela janela. “Eu vou conseguir,” forço para falar. Easton assente com a cabeça e passo o dedo pela bandagem. “Eu vou sobreviver para nós dois...” Easton abaixa a cabeça, seu longo cabelo loiro escondendo seu rosto. Eu o abraço com força enquanto ele fica sentado comigo. Passos apressados soam pelo corredor, então minha mãe invade o quarto, meu pai seguindo atrás. Os dois me abraçam com todo cuidado. Quando se afastam, eu vejo Cromwell na porta, e apesar do fato de que meus pais estão falando comigo, ele é tudo que posso ver. Ele é meu azul-violeta. Minha nota favorita em todos os tempos.

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O médico chega para me examinar. Meu coração se parte um pouco mais quando ele informa que vou permanecer internada. Que não tenho condições de voltar para casa. E que agora sou a primeira da lista de espera por um transplante de coração. Isso me inspira terror e esperança. Esperança em conseguir um coração. E terror em saber o quanto a minha vida está agora em contagem regressiva, uma ampulheta rapidamente perdendo areia. Mas não pergunto quanto tempo me resta. Não quero mais prestar atenção ao médico. Não quero ouvir coisas assim pronunciadas por sua boca clínica. Eu quero ouvir de alguém que amo. Por um dia, luto contra o cansaço, os efeitos residuais do coma induzido. Acho que estou sonhando. Meus olhos estão fechados e posso ouvir a mais bela música sendo tocada. Na verdade, posso até ser induzida a acreditar que estou no céu. Mas, assim que abro meus olhos vejo a fonte da música. Cromwell está sentado no teclado, suas mãos concentradas enquanto executa a minha música. Escuto, meu coração escuta, enquanto as notas que inspirei flutuam no ar e me cobrem em um casulo. Escuto até que ele toque a última nota. E quando ele vira, simplesmente estendo minha mão. Cromwell sorri e derreto na cama. Ele puxa o suéter até os antebraços, exibindo suas tatuagens. Hoje ele está lindo, usando um suéter tricotado branco. Cromwell vem e senta na cadeira ao meu lado. Mas balanço a cabeça. Ele desliza a mão na minha e se senta na beira da cama. Mas isso não é o suficiente. Viro meu corpo, cerrando os dentes com a dor que causa. “Baby não,” ele diz, mas sorri quando vê que agora tem espaço suficiente para deitar. Ele balança a cabeça, mas também vejo um vislumbre de sorriso em seus lábios.

TILLIE COLE


“Deite-se... por favor...” Cromwell deita na cama. As portas do meu quarto estão fechadas e francamente, mesmo que não estivessem; não teria me importado. O corpo grande de Cromwell é tão perfeito ao lado do meu. E pela primeira vez desde que acordei, eu me sinto quente. Eu me sinto segura. Ao lado de Cromwell, estou completa. “Minha música.” Consigo sussurrar, minha garganta ainda dolorida por causa do respirador. Cromwell coloca a cabeça no travesseiro ao meu lado. “Sua música.” Por um breve momento, sinto uma sensação de paz total. Até que luto para respirar, e percebo que não consigo manter a sensação por muito tempo. Chego mais perto de Cromwell, usando seu cheiro e corpo para criar coragem. Quando olho em seus olhos ele já está me observando. Engulo. “Quanto tempo?” No minuto em que a pergunta sai, penso ter sentido meu coração bater mais forte. Cromwell empalidece quando as palavras saem da minha boca. “Baby.” Ele balança a cabeça. Eu seguro sua mão. “Por favor... eu preciso saber.” Cromwell fecha os olhos. “Não mais que uma semana,” ele sussurra. Achei que suas palavras me machucariam. Achei que se a resposta fosse apenas um curto período de tempo, isso me aleijaria. Em vez disso, uma estranha sensação de calma me envolve. Uma semana... Balanço a cabeça concordando. A mão de Cromwell, desta vez, aperta a minha. Mostrando que agora é ele quem precisa do apoio. Não eu. “Eles vão conseguir um coração.” Ele fecha os olhos e beija minha mão. “Eu sei.”

TILLIE COLE


Mas penso diferente. É engraçado. Depois de anos de oração, um coração viria, depois de desejar tanto ser curada, agora estou aqui. No fim. Alguns dias após meu cansado coração ser incapaz de continuar batendo; finalmente me sinto livre para aceitar. Para cessar as orações. Os desejos. E abraçar o tempo que tenho com as pessoas que amo. Respiro fundo. “Você deve cuidar de Easton para mim.” Cromwell fica em silêncio. Ele balança a cabeça, lutando contra para onde estou levando a conversa. “Não, querida. Não fale assim.” “Prometa-me...” estou sem fôlego, o pedido curto me exige tanto que já estou exausta. Cromwell cerra os dentes e desvia o olhar. “Ele é frágil... mas é mais forte... do que ele pensa.” O nariz de Cromwell dilata. Ele se recusa a olhar para mim. Levanto minha mão e viro seu rosto para o meu. “Não.” Ele sussurra em uma voz embargada. Seus cílios ficam molhados com o começo das lágrimas. “Eu não posso... eu não posso te perder também.” Mordo meus lábios para não chorar. “Você... você não vai me perder.” Coloco minha mão em seu coração. “Não aqui.” Cromwell abaixa a cabeça. “Assim como seu pai também não se foi.” Acredito nisso agora. Acredito que quando alguém está tão incrustado em seu coração, em sua alma, eles nunca partem de verdade. Um olhar estranho passa pelo rosto de Cromwell, em seguida, ele encosta sua cabeça em meu pescoço. Sinto as lágrimas deslizarem. Então, envolvo meu braço em suas costas e o abraço bem forte. Olho para o teclado e violino e sei que ele

TILLIE COLE


criará uma música que mudará o mundo. Tenho tanta certeza disso quanto tenho certeza de que o sol nasce a cada dia. Essa é a maior tristeza que tenho. Que não estarei ao lado dele para ouvir. Assistir suas apresentações por teatros lotados. Para vê-lo em palcos, fazendo as pessoas se levantarem para aplaudir. Quando Cromwell levanta a cabeça, sussurro: “Prometame... cuidar dele.” Cromwell com olhos vermelhos e bochechas coradas acena concordando. Um peso que não sabia carregar sai dos meus ombros. “E componha.” Cromwell para. Bato minha mão em seu peito. “Não perca sua paixão novamente.” “Você a trouxe para mim.” Suas palavras são o paraíso para meus ouvidos. Sorrio e vejo o amor nos olhos de Cromwell. “Minha bolsa...” Suas sobrancelhas se juntam em confusão. “Um caderno... na minha bolsa.” Cromwell encontra o caderno. Ele vem entregá-lo para mim, mas empurro de volta nele. “Para você.” Ele parece ainda mais confuso. Faço sinal para ele se deitar novamente. Ele deita, se acomodando ao meu lado. “Minhas palavras...” Digo. Percepção se espalha em seu rosto. “Suas músicas?” Confirmo. “Aquela no final.” Cromwell passa os olhos pelo livro repleto de pensamentos, sonhos e desejos. E observo ele. Percebo que posso observa-lo por uma eternidade e nunca me cansar disso. Sei quando ele chega à última página. Vejo seus olhos varrerem primeiro as palavras e depois as notas. Ele não diz nada,

TILLIE COLE


mas o brilho em seus olhos e as palavras que nunca chegam me diz o suficiente. “Para... nós,” explico e beijo as costas da sua mão. Cromwell observa tudo que faço, como se não quisesse perder um único movimento meu. Um gesto que faço. Uma palavra que dou. Aponto para o meu violão antigo. “Queria cantar para você... mas perderia o fôlego assim que tentasse.” É o meu maior arrependimento, não ter escrito isso antes. Clara me ajudou. Ela escreveu as palavras e mostrei para ela como desenhar as notas. Quero cantar isso algum dia para ele, quando estiver melhor. Mas agora... pelo menos ele terá isso. “Bonnie.” Ele passa os dedos pela página como se tivesse recebido a partitura original da Quinta Sinfonia de Beethoven. “Você pode imaginar a música em sua cabeça.” Digo, apontando para as notas simples que formam a composição. Nada sofisticado. Nada difícil. Apenas minhas palavras e os acordes que me fazem pensar nele. “Um desejo para nós.” Ele diz, lendo o título em voz alta. “Mmm.” Cromwell se levanta da cama e pega meu violão. Meu coração palpita para a vida quando o traz para a beira da cama. Ele coloca meu caderno na mesinha lateral e coloca os dedos no braço do violão. Prendo a respiração por um segundo, esperando ele tocar. E quando começa, sei que cantará para a minha alma como sua música sempre faz. Sei que tocará a música tão bem quanto jamais qualquer um conseguiria.

TILLIE COLE


Mas não estava preparada para sua voz. Nunca esperei que o timbre perfeito de sua voz trouxesse vida às minhas palavras. Tento respirar, mas a beleza da sua voz retém qualquer ar que eu possa capturar. Enquanto olho para este garoto tatuado e perfurado com um coração de ouro, eu me pergunto como sou tão sortuda por merecer isso, no final. Fiz muitos desejos em minha vida, mas Cromwell é o desejo que nunca fiz. O desejo concedido que, no final, foi o que mais apreciei.

Coração frio e solitário, até ouvir sua música, Sem sinfonia, sem coro, nem todas as notas, apenas uma. Com uma batida tão alta, você trouxe ritmo à vida, Com amor tão puro você transformou escuridão em luz. Para cada respiração que perdi, ganhei um sorriso. Eu dei tudo, só para ficar com você por um tempo. Quando o fim se aproxima, saboreio cada beijo, Oro por tempo, fecho meus olhos e desejo.

Eu quero ter uma vida com você E fazer as coisas que sonhei que faríamos. Perseguir a música, do amanhecer ao anoitecer, Um desejo para mim, para você, para nós.

Você pegaria minha mão com tanta força na sua

TILLIE COLE


Correríamos por colinas, vales e pântanos. Você me beijaria em lagos, árvores e céus. Eu respiraria em você, palavras, risos, suspiros amorosos. Seus dedos nunca abandonariam os meus, Eu te amaria mais do que você possivelmente saberia. Você me levaria para casa sob as estrelas e a lua E me deitaria, em seus braços, em nosso quarto.

Eu quero ter uma vida com você E fazer as coisas que sonhei que faríamos. Perseguir a música, do amanhecer ao anoitecer, Um desejo para mim, para você, para nós.

Uma chance sussurrada é o que desejo Meu último suspiro se aproxima. Eu desejo e anseio com todo meu ser, Ficar com você enquanto puder. Eu nunca ousei desejar um amor como o seu, Com cores em sua alma que você também me deixa ver. Agora que você está aqui, eu prometo ser forte. Pela vida que sonhamos. Uma vida cheia de música.

TILLIE COLE


Eu quero ter uma vida com você E fazer as coisas que sonhei que faríamos. Perseguir a música, do amanhecer ao anoitecer, Um desejo para mim, para você, para nós. Um desejo para mim, para você, para nós.

Escuto quando as palavras me possuem. Letras que falam sobre nós dois. Escuto enquanto Cromwell não toca nenhuma nota errada, sua voz expressando mais em minhas letras do que eu poderia ter feito. E escuto quando Cromwell Dean, o garoto que vi em um vídeo granulado todos aqueles anos atrás, alcança a minha alma com sua voz. Quando a música para e o momento chega ao seu fim natural, espero até que Cromwell olhe para mim e diga: “Você fez o meu sonho se tornar realidade mais uma vez.” Sorrio e repasso seu desempenho em minha mente. “Ouvir minhas palavras serem reproduzidas. É a mais perfeita das músicas.” Cromwell baixa meu violão e deita na cama ao meu lado. Ele me abraça como se pudesse me proteger. Como se o seu abraço tivesse o poder de afastar o inevitável. Quero ficar assim para sempre. “Não existe uma parte sequer que eu me arrependa.” Ainda acredito em Cromwell. Seu corpo está tenso quando seus lábios encostam em minha cabeça. “Você... Cromwell... não existe uma parte de nós que eu me arrependa. Nem o começo... nem o meio... e certamente nem o fim...” Adormeço, e também desperto em seus braços. E decido que é assim como quero dizer adeus, como quero que seja quando o dia finalmente chegar.

TILLIE COLE


Porque é perfeito. Ele é perfeito. Assim, a vida é perfeita. E é assim que o céu finalmente me receberá.

TILLIE COLE


Capítulo 24 Cromwell

Ando pelo corredor, cada passo mais pesado que o anterior. E a cada respiração dada, meu coração se despedaça. Vejo a porta fechada e ouço o murmúrio de vozes além dela. Recebi a ligação há vinte minutos. Saí do hospital para tomar um banho. O médico logo viria vê-la, então, avisei que voltaria logo. O telefonema informou que o momento que estava temendo havia chegado. “Filho...” O Sr. Farraday disse do outro lado da linha. “O médico acabou de entrar... está na hora.” Eu sabia que seria em breve. Bonnie está mais fraca do que já vi alguém na minha vida. A cor desaparecera de seu rosto, não fosse por seus lábios roxos. Sei que estou a consigo aceitar.

perdendo... mas

simplesmente

não

Meu cabelo está molhado e tenho um nó na garganta que não sai. Meus pés me levam para o quarto, mas não quero

TILLIE COLE


chegar. Porque se chegar, significa que este é o fim. E me recuso a acreditar que é o fim. Minha mão paira sobre a maçaneta. Meus dedos tremem quando a maçaneta gira. O quarto está silencioso quando entro, o Sr. e a Sra. Farraday sentados ao lado de Bonnie, as mãos dela nas suas. Ela está dormindo, seu lindo rosto perfeito em repouso. Engulo em seco, minha visão nubla com lágrimas enquanto a observo. Não posso imaginá-la partindo. Não sei como será minha vida sem ela, agora que ela está nela. Eu não posso... eu não posso... A Sra. Farraday estende a mão. Não tenho certeza se consigo mover minhas pernas, mas consigo. Deslizo minha mão na dela. Ela não diz nada. Lágrimas escorrem por seu rosto enquanto a filha dorme pacificamente. Enquanto sua filha está morrendo. Enquanto o amor da minha vida escorrega ainda mais do meu alcance. Ela já pode se passar por um anjo. O Sr. Farraday está em seu celular. Ele balança a cabeça, a preocupação gravada em suas feições. “Ele não está respondendo. Não consigo falar com ele.” “Easton?” Pergunto. “Eu disse a ele para voltar imediatamente. Ele disse que estava a caminho. Mas não apareceu e não consigo falar com ele.” O Sr. Farraday passa a mão sobre o rosto, pânico e estresse

TILLIE COLE


evidente em seus olhos. “Ele foi para casa tomar um banho. Eu deveria ter ido com ele. Eu...” “Eu vou encontrá-lo,” ofereço. Em seguida, olho de volta para Bonnie. “Ainda tem tempo?” Digo com a voz rouca. A mão da Sra. Farraday aperta a minha com mais força. “Ainda tem tempo.” Corro para minha caminhonete. Tento o celular de Easton, mas não para de tocar. Corro para a casa deles, mas não está à vista. Pulo de volta na minha caminhonete e voo para o campus. Ele não está em nosso dormitório e atravesso o campus, verificando o pátio, a biblioteca, o refeitório. Não consigo encontrá-lo em lugar algum. “Cromwell!” A voz de Matt me detém. “Você viu Easton?” Pergunto antes de ter a chance de dizer algo mais. Ele balança a cabeça. Seus olhos estão abatidos. “Como está Bonnie? Ela está...” Sara e Kacey vêm atrás dele. Bryce fica logo atrás de mim. Passo a mão pelo meu cabelo. “Eu preciso encontrar Easton,” digo, sem saber onde mais procurar por ele, então... Eu me viro e corro quando um último lugar vem à minha mente. Chego ao local escondido à beira do lago em menos de cinco minutos. Mas quando paro, meu estômago gela. É como se estivesse fora do meu corpo assistindo tudo enquanto saio da minha caminhonete e sigo as luzes azuis piscando entre as árvores. Corro, minha respiração ecoando em meus ouvidos. Meus pés vacilam quando passo pela picape de Easton e, quando dobro a esquina, só para uma policial me impedir, vejo paramédicos levando uma maca até a ambulância. Meu pulso

TILLIE COLE


bate tão rápido em minha cabeça que luto para entender o que está acontecendo. E, então, vejo a corda pendurada na árvore... “Não.” Pavor toma conta de mim quando a ambulância se afasta. “NÃO!” Grito e corro de volta para minha caminhonete. Pânico como nunca senti se deposita em meu sangue. Agarro o volante, meus dedos ficam brancos quando paro em cada maldito sinal vermelho ao longo do caminho. Atravesso as portas do hospital e corro até chegar ao quarto de Bonnie... só para encontrar um policial já falando com o Sr. e a Sra. Farraday do lado de fora. Aguardo com o coração na boca, petrificado ao chão, para o que acontecerá em seguida. A mão da Sra. Farraday voa até a boca e seus joelhos cedem. O Sr. Farraday balança a cabeça, “Não,” desliza de seus lábios enquanto segue sua esposa até chão. Meu corpo treme com o que estou vendo, com o que está sendo processado em minha cabeça. “Easton...” Sussurro em um pavor profundo. “Não.” Minha cabeça sacode e meu estômago parece ser atingido por uma bola de chumbo. O Sr. e a Sra. Farraday são escoltados para uma sala privada. A sra. Farraday olha para mim quando passa, uma dor excruciante brilhando em seus olhos. Como se por um ímã, meus olhos são atraídos para a porta do quarto de Bonnie. Ela está sozinha. Ela precisa de mim. Limpo meu rosto e caminho entorpecido até a sua porta. Ela parece tão pequena na cama. Lágrimas que não posso segurar derramam de meus olhos e caem no chão. Sigo para a cama de Bonnie e seguro sua mão. Ela se mexe, seus olhos castanhos se abrem e fitam os meus. “Cromwell,” ela diz, sem voz para suas palavras. “Você está aqui.”

TILLIE COLE


“Sim, baby.” Pressiono um beijo suave em sua boca. Sua mão fraca sobe ao meu rosto. Ela deve ter sentido a umidade. “Não... chore...” Debruço palma. “Fique comigo...”

em

sua

mão

e

beijo

a

“Sempre.” Respondo e sento ao seu lado na cama. Eu a puxo para perto de mim e a seguro em meus braços. Não demora muito para que seus pais passem pela porta. Andam como fantasmas. Engulo e não consigo conter as lágrimas. Porque nesse segundo eu sei. Ele não havia sobrevivido. Um médico segue atrás. Bonnie abre os olhos quando o médico se dirige a ela. “Bonnie, nós temos um coração.” Bonnie treme em meus braços quando o médico diz a ela o que acontecerá. Mas nada disso é registrado quando a verdade me atinge como uma rocha. Easton... é o coração de Easton. Com um olhar para seus pais, vejo a verdade me encarando. Depois disso é uma avalanche de procedimentos. Uma equipe de médicos entra e começam a preparar Bonnie. Quando posso, seguro a mão dela. Seus olhos estão em um turbilhão de confusão e medo. Sua mãe e seu pai se aproximam dela e seguram em sua outra mão. “Easton?” Eu a ouço perguntar e meu coração se parte em milhões de pedaços. “Ele está a caminho.” Seu pai diz a mentira tão necessária agora. Todos sabem que Bonnie precisa lutar. Ela não pode saber a verdade. “Preciso... dele...” Bonnie sussurra.

TILLIE COLE


“Ele estará com você em breve,” sua mãe diz, e eu fecho meus olhos. Porque ele estará com ela em breve. Mais do que ela pensa. “Cromwell.” Abro meus olhos. A Sra. Farraday está me observando, com os olhos atormentados e abatidos. Ela se afasta para liberar o caminho para Bonnie. Bonnie me estende a mão. Atravesso o quarto e a pego. Seus dedos estão muito frios. Bonnie sorri para mim e isso destrói minha alma. “Um coração...” Seu sorriso se abre o quanto possível, seus lábios roxos mostram a fonte de esperança que está surgindo dentro dela. “Eu sei, baby.” Digo, forçando meu sorriso. “Eu vou sobreviver.” Ela diz, com mais determinação em seu sussurro do que qualquer grito podia se gabar. “Para nós...” Cerro meus olhos e deixo minha cabeça cair em seu peito. Ouço a batida laboriosa do seu coração e lembro-me da gravação de Easton. Que logo irá bater em seu peito. Levanto a cabeça e olho em seus olhos castanhos. E sei que aquele novo coração irá destruí-la quando descobrir a verdade. Os médicos entram. Seguro seu rosto em minhas mãos e beijo seus lábios uma última vez. “Eu te amo, baby,” sussurro enquanto ela é levada. “Eu também te amo.” Sua resposta fraca vem. Os pais de Bonnie a acompanham o mais longe que podem ir. Quando Bonnie desaparece pelas portas duplas, assisto a emoção me rasgar em dois, enquanto os pais de Bonnie desabam pelo filho que acabaram de perder. O filho cujo coração pode salvar a vida da filha.

TILLIE COLE


Caio no chão, o frio da parede apoiando minhas costas. E espero. Espero com esperança no meu coração, que Bonnie sobreviva. Então, o medo surge, porque não tenho certeza de como ela irá superar isso. Um gêmeo morreu para que o outro sobreviva. Meu melhor amigo se foi. A garota que segura meu coração, luta por sua vida. E sou, incapaz de fazer qualquer coisa para consertar isso.

TILLIE COLE


Capítulo 25 Cromwell

Fico parado, olhando para ela pela janela de vidro. Ela tem um respirador e drenos torácicos que removem o fluido do seu corpo. Mas tenho esperança novamente em meu coração. Porque ela sobreviveu à operação. E, até agora, o médico nos informou que foi um sucesso. Mas enquanto olho para o rosto dela, com olhos fechados que hoje o médico nos disse que logo se abrirão, eu sei que não será tão fácil. Porque hoje ela deve acordar e ser informada que o coração que se uniu tão perfeitamente ao seu corpo é o do seu melhor amigo, seu irmão gêmeo... Easton. Corro minhas mãos no rosto e me viro para ver os pais de Bonnie no sofá. Eles estão de mãos dadas, mas seus rostos estão vazios e destruídos. Tudo aconteceu muito rápido. Rápido demais, e só agora eles estão remoendo tudo. Eles choraram quando viram Bonnie voltar da cirurgia, mas não conversaram muito. Não tenho ideia do que dizer. Olho para o lugar ao meu lado. Onde Easton geralmente estaria. Meu peito se contrai quando penso nele. Quando penso no primeiro dia, quando Easton me colocou sob sua asa. Como ele nos exibiu pelo campus, orgulhoso. Suas pinturas vibrantes que,

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com o tempo, foram ofuscadas pela escuridão. E as cores que o rodeavam, as cores vivas que atenuavam o cinza e o preto. A culpa corre forte em minhas veias. Porque, eu vi as cores desaparecerem. Mas, pensei que fosse por sua irmã. A polícia apareceu hoje. Constataram que a causa da morte de Easton foi suicídio, o que já sabíamos. E trouxeram uma carta. Uma carta que encontraram em sua caminhonete, endereçada a Bonnie. A Sra. Farraday está segurando aquela carta como se de algum modo trouxesse seu filho de volta. Saio do hospital e pego meu cigarro. Quando levo um a boca, de repente paro. Olho para o céu ensolarado, para os pássaros amarelo-mostarda cantando e as folhas sussurrando bronze, e jogo o cigarro no chão. Na verdade, vou até a lixeira e jogo todo o maço fora. Desabo em um banco próximo e tudo me atinge. Tantas emoções acumuladas dentro de mim, que me sufocam. Eu quero correr para a sala de ensaio e despejar tudo. Mas isso me faz pensar em Lewis, e tenho que rejeitar essa raiva ou isso também me destruirá. Padrões de música aparecem na minha cabeça quando penso na primeira vez em que toquei piano, quando as cores me mostraram o caminho. Ouvi violinos tocar pizzicato, ouvi uma flauta entrar em seguida. Então, o piano soaria, contando a história do nascimento de um músico. De um pai sentado ao lado dele, estimulando-o. Eu vi meu pai desaparecer em um solo de violoncelo. Fecho meus olhos. Em seguida, a história continua. Uma mão aperta meu ombro. Olho para cima. “Ela está acordada,” Sr. Farraday diz. Engulo. “Ela sabe?”

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Ele balança a cabeça. “Ela sairá do respirador hoje à noite.” Ele assente, mostrando uma força que admiro. “Ela saberá em breve.” Fico de pé e sigo o Sr. Farraday pelo corredor até o quarto de Bonnie na UTI. Lavo minhas mãos e cruzo a porta. Os olhos castanhos dela pousam nos meus. Ela tem um tubo na garganta, escondendo seus lábios, mas vejo o sorriso em seus olhos. Ela manteve sua promessa. Ela sobreviveu. “Ei, baby.” Seguro seus dedos, inclino-me e beijo sua testa. Meus lábios tremem, odiando saber de algo que irá destruíla. As mãos de Bonnie apertam as minhas. Fecho meus olhos e luto contra as lágrimas que ameaçam cair. “Você foi tão corajosa, baby,” digo e sento ao lado dela. Uma lágrima desliza do canto do seu olho. Seus olhos começam a fechar. O cansaço a vencendo. Fico ao seu lado o maior tempo possível. Aguardo na sala de espera enquanto seus pais também a visitam. Então, quando a noite cai, o médico solicita que aguardemos do lado de fora enquanto retiram o respirador. Quando o médico retorna para nos chamar, sinto um maldito canhão explodir no meu peito. Sigo seus pais até o quarto. A mãe de Bonnie corre para ela e amorosamente a segura em seus braços. Seu pai a segue e me contenho. Quando eles se afastam, Bonnie sorri para mim. Ela está coberta de máquinas novamente, mas seu sorriso é enorme. Chego perto, então a beijo na boca. Sua respiração fica entrecortada. “Eu te amo.” Sussurro. Bonnie devolve. Seus olhos vasculham o quarto novamente. Meu coração aperta. Sei quem está procurando. Ela ergue as sobrancelhas e pisca, a pergunta clara em seus olhos. Onde está Easton?

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Seu pai dá um passo à frente. “Ele não pode estar aqui, querida.” Ele tenta esconder sua tristeza dela, mas não está funcionando. Bonnie olha para ele como um falcão. O Sr. Farraday afasta o cabelo do seu rosto. Mas Bonnie olha para a mãe lentamente desmoronando na cadeira ao lado dela. Então, ela me olha e seu lábio inferior treme. Minhas mãos cerram em punhos ao meu lado. Eu me sinto inútil; incapaz de impedir o sofrimento que sei que ela está prestes a sentir. “Easton.” Ela diz com a voz rouca pelo tubo. Lágrimas estão em seus olhos. “Onde... está ele?” Abaixo meus olhos, incapaz de assistir o desdobramento disso. Tento respirar, mas o nó em meu peito não permite. “Ele se machucou?” Ela consegue perguntar. Sua mãe chora, incapaz de se conter. Então, olho para cima e vejo que Bonnie está olhando para mim. Preciso me aproximar dela. Minhas pernas me carregam para a frente e pego sua mão. O Sr. Farraday fica de pé. “Houve um acidente, querida.” Sua voz embarga na última parte. Sua mão treme na minha. “Não.” As lágrimas que brotam em seus olhos transbordam por seus cílios e escorrem por suas bochechas. E assisto enquanto sua mão livre desliza da mão de sua mãe e lentamente segue até seu peito. Ela fecha os olhos sobre o novo coração e todo o seu corpo começa a tremer. Uma lágrima após outra desliza por suas bochechas e caem no travesseiro. Eu me abaixo e pressiono minha testa na dela. Isso só a faz piorar. Soluços estridentes saem de sua boca. O Sr. Farraday disse que Easton teve um acidente, mas tenho certeza de que Bonnie sabe a verdade. Easton, por algum motivo, sentia-se deslocado neste mundo. Ninguém sabia disso melhor que a sua irmã gêmea.

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“Bonnie.” Sussurro. Fecho meus olhos e apenas a seguro enquanto ela desmorona. O momento que deveria ser uma celebração se transforma em uma tragédia aos seus olhos. E aos nossos. Eu a seguro firme enquanto ela chora tanto que me preocupo que algo dê errado. Ela acabou de acordar de uma grande cirurgia, mas acredito que nada, além de achar que tudo é um pesadelo, acabaria com a sua dor. Bonnie chora até adormecer. Não vou a lugar nenhum. Seguro sua mão, apenas no caso dela acordar. Seus pais foram para a sala de espera. Eles têm questões a resolver com a polícia e o hospital. Nem posso me imaginar precisando lidar com tudo isso de uma só vez. Como você celebra um filho ser poupado da morte e perde outro de maneira tão devastadora? Nesse momento, sinto-me entorpecido. Mas sei o que virá. Não posso ter dentro de mim todas essas emoções em conflito e não deixar vir à tona. Mas, por enquanto, controlo-as o máximo que posso. Devo ter adormecido, porque acordo com a sensação de dedos no meu cabelo. Pisco e olho para cima. Bonnie está me observando. Mas, como antes, seus olhos estão úmidos e sua pele pálida devido as lágrimas. “Ele tirou sua vida... não foi?” Suas palavras são como balas no meu coração. Confirmo. Não há sentido em mentir para ela. Ela sabe disso desde o minuto em que acordou. Bonnie segura minha mão. Mesmo agora, apenas alguns dias após a cirurgia, seu aperto é mais forte. Ela está mais forte.

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Estou seguro de que, em algum lugar, Easton tem um sorriso no rosto por esse fato. Bonnie respira profundamente, seus pulmões enchendo com uma quantidade tão grande de ar que a cor imediatamente brota em suas bochechas. Ela pega minha mão na sua enquanto leva ao peito. Escuto o novo batimento cardíaco. Os batimentos cardíacos fortes e ritmados sob minha mão. É magenta. Quando escutei o coração de Easton sob o estetoscópio, era magenta. “Eu tenho o coração dele, não é?” Os olhos de Bonnie se fecham quando ela diz isso. Mas, então, eles se abrem e seu olhar fixa em mim. “Sim.” Seu rosto se contorce de dor. Algo parece mudar em Bonnie naquele instante. É como assistir sua felicidade e alma fugirem do seu corpo. A cor ao seu redor muda de vermelho e rosa para marrom e cinza. Até sua mão, que segurava a minha com tanta força, afrouxa e se afasta. Tento pegar de volta, mas Bonnie fechase como o portão de um forte. Impenetrável. Fico em seu quarto por mais dois dias. E a cada segundo que passa, a Bonnie que conheço e amo se afasta cada vez mais. Quero chorar quando toco um pouco de Mozart no meu telefone e ela se vira para mim, com os olhos vagos, e diz: “Você pode, por favor, desligar?” Bonnie está se curando, mas sua mente está danificada. Uma noite, pensei que ela voltaria para mim. Ela acordou às três

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da manhã, colocou a mão na minha e rolou para me encarar. “Bonnie...?” Sussurrei. Seu lábio inferior tremia e olhos exaustos mal se abriram. “Como posso ter um novo coração, mas ele já estar danificado?” Eu me movo para seu lado e a abraço. Apenas abraçando-a, enquanto ela se desfaz. Foi uma coisa tão pequena, mas naquele momento eu nunca me senti mais útil para alguém em toda minha vida. Mas, na manhã seguinte ela volta a se afastar. De volta a Bonnie que está presa em sua cabeça, em sua dor. A Bonnie que está afastando todo mundo. Fisicamente cada vez mais forte, mas emocionalmente caindo aos pedaços. As enfermeiras me dão grandes sorrisos quando passo por sua estação na nova ala de Bonnie. Até agora, seu corpo não está rejeitando o coração e ela está bem, bem o suficiente para deixar o tratamento intensivo. Respiro fundo enquanto me aproximo do seu novo quarto. Quando chego lá, o Sr. Farraday está do lado de fora. “Oi,” digo e me movo para abrir a porta. Ele toma a minha frente. Faço uma careta. Seu rosto está pálido e triste, cheio de arrependimento. “Ela se recusa a receber qualquer pessoa, Cromwell.” Ouço as palavras, mas não compreendo. Tento passar outra vez por seu pai, mas ele apenas bloqueia meu caminho novamente. “Deixe-me passar.” Minha voz está baixa e ameaçadora. Tenho consciência. Mas não me importo. Tenho que entrar lá para ela. O Sr. Farraday balança a cabeça. “Sinto muito, filho. Mas ela está... ela está achando a vida muito difícil no momento. Ela não quer ver você. Nem nenhum de nós.” Vejo a agonia em seu

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rosto. “Só estou tentando melhorar as coisas para ela, filho. Da melhor maneira que posso.” Minha mandíbula cerra e minhas mãos começam a tremer. Elas se enrolam em punhos. “Bonnie!” Chamo, minha voz alta o suficiente para chamar a atenção de todos na ala. “Bonnie!” Grito. O Sr. Farraday tenta me afastar. “BONNIE!” Eu me esquivo do Sr. Farraday e passo pela porta do quarto dela. Bonnie está sentada na cama, as costas apoiadas em travesseiros. Ela está olhando pela janela. Então, ela se vira para mim. “Bonnie,” digo e dou um passo à frente. Mas congelo no meio do caminho quando Bonnie desvia o olhar. Quando me vira as costas completamente. E, então, elas chegam. As comportas se abrem, e todas as emoções das últimas semanas avançam como o bumbo pesado de um tambor. Dou um passo para trás quando imagino Easton com seus pulsos cortados. Bonnie sofrendo um ataque cardíaco em meus braços. Easton na maca, a corda pendurada na árvore. Então, Bonnie... descobrindo que Easton se foi, que o coração dele agora bate em seu peito. E, não sou capaz. Não consigo lidar com isso. Eu me viro quando dois guardas de segurança vêm em minha direção. Levanto minhas mãos. “Estou saindo. Já estou indo embora!” Arrisco um olhar para Bonnie, mas ela permanece de costas para mim. Começo a correr pelo corredor, mas antes mesmo de sair do hospital já estou em uma bagunça completa. Chego a minha caminhonete, todas as cores e emoções se fundindo em uma. Meu cérebro pulsa como um tambor. Minha cabeça dói, a pressão por trás dos meus olhos é tão forte que mal consigo enxergar.

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As cores néon são como fogos de artifício em meu cérebro, elas se iluminam até que não posso mais aguentar. Paro minha caminhonete no estacionamento e praticamente pulo do carro. Atravesso o prédio da escola de música, nenhum plano à frente, apenas seguindo meus pés. Meu punho bate em uma porta. A porta se abre e o rosto de Lewis é tudo que posso ver. Agarro minha cabeça e, em seguida, não me importando se alguém ouve, digo: “Eu quero participar do Concerto de gala.” A boca de Lewis se abre e vejo o choque em seu rosto. Passo por ele e entro em seu escritório. “Bonnie já conseguiu um coração.” Fecho meus olhos com força. “Easton cometeu suicídio...” Minha voz embarga e a tristeza me envolve como uma onda. Engasgo com a lembrança da corda, da maca... de Bonnie. “Cromwell.” Lewis se aproxima. Levanto minha mão. “Não.” Ele para. "Eu vim até você porque ninguém mais entende.” Bato em minha cabeça com a palma da mão. “Você vê o que eu vejo, sente o que sinto.” Respiro fundo. “Preciso de ajuda.” Minhas mãos cedem, meu corpo começa a perder energia. “Eu preciso da sua ajuda com a música, ela está se acumulando, as cores, os padrões.” Balanço minha cabeça. A música é demais, demais, as cores muito brilhantes.” Lewis se aproxima novamente. Assim que ele me alcança, quando estende a mão, eu recuo. Vejo o rosto dele. Noto o desespero. Vejo sua necessidade de conversar. Então meus olhos localizam a garrafa de bolso em sua mesa. A bebida. Os círculos escuros sob seus olhos. “Eu não estou aqui para mais nada.” Ele congela, depois passa a mão pelo cabelo. Exatamente como faço. Isso é outro golpe em minha alma. Engasgo com a minha voz, mas consigo dizer: “Estou aqui pela música. Não quero falar

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sobre mais nada. Apenas, por favor...” meus olhos estão cheios de lágrimas. A rejeição de Bonnie está me abalando. Se ela ouvir minha música, se eu tocar no concerto, ela saberá que a música é para ela. Ela verá que eu a amo. Ela verá que ela tem uma vida para viver. Comigo. Ao meu lado. Para sempre. Ergo meus olhos para Lewis. “Por favor... ajude-me...” Bato em minha cabeça. “Ajude-me a colocar isso na música. Apenas... ajude-me.” “Está bem.” Lewis passa a mão pelo cabelo novamente. “Mas Cromwell, permita-me explicar, por favor, apenas me escute...” “Eu não posso,” sufoco. “Ainda não.” Balanço a cabeça, um buraco se abrindo no meu peito. Tento respirar, mas parece muito difícil. “Eu não posso lidar com isso também... ainda não.” Lewis parece querer me abraçar. Sua mão está levantada, mas não posso ir lá. Ainda não. “Ok.” Ele encontra meus olhos. “Temos pouco ou nenhum tempo, Cromwell. Você está pronto para isso? Serão dias e noites sem fim, para levar isso onde precisa estar.” Um senso de propósito muito forte acalma minha tempestade interna. “Estou pronto.” Inspiro fundo, e desta vez consigo respirar. “Eu tenho isso dentro de mim, Professor. Eu sempre tenho.” Fecho meus olhos, penso em meu pai, Bonnie, e a música que tem tentado romper da minha alma por tanto tempo. “Estou pronto para compor.” Uma mudança repentina em

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mim parece sossegar minha mente, minhas emoções. “Estou farto de continuar afastando tudo.” “Então me siga.” Lewis me leva para a sala de ensaio que ele tinha me levado na noite em que encontrei Easton com os pulsos cortados, em nosso quarto. Vou direto para o piano e me sento. Meus dedos encontram o lugar deles nas teclas, e abro minha alma e deixo as cores voarem. Vermelhos e azuis, roxos e rosas se aglomeram em minha volta, envolvendo-me em uma nuvem. E os deixo onde estão e meus dedos me mostram o caminho. Um azul. Pêssego. Ocre. E azul-violeta. Eu sempre perseguiria o azul-violeta.

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Capítulo 26 Bonnie

Olho para a carta em minha mão. A carta que não consigo abrir há dias. Minhas mãos tremem quando levo ao nariz. Inalo o aroma picante que ainda se agarra ao papel. Easton. O cheiro familiar é um punhal no meu coração. Seu coração. Pressiono a carta em meu peito e fecho os olhos. O caroço que entope minha garganta desde que acordei aumenta quando penso em Easton. O sorriso dele. Sua risada. A maneira como as pessoas eram atraídas para ele como um ímã. Então, aquele Easton foi embora, deixando a triste versão do meu irmão que, às vezes, o tomava. Aquela que foi banhada em tinta preta e cinza, desamparado e tão baixo que nem mesmo o mais ensolarado dos dias, poderia elevar seu ânimo. “Easton,” sussurro enquanto passo a mão sobre o meu nome no envelope. Olho para o meu vestido e meias pretas. Apelo à minha alma ajuda para superar, sei o que me espera hoje. Minha primeira visita ao mundo real após a minha cirurgia.

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O último adeus ao irmão que salvou minha vida. Que foi por tanto tempo a minha vida, que nem sei como respirar sem ele. A música vem do posto de enfermagem além da porta e ouço as notas estridentes de riso. Quero sorrir para a felicidade em suas vozes. Mas quando olho para o envelope, não sei se algum dia serei capaz de me sentir feliz novamente. Fico assim por mais de uma hora, apenas olhando para a carta. Finalmente, quando reúno coragem suficiente, abro o envelope e retiro de dentro a carta. Minhas mãos tremem tanto que não sei se conseguirei ler. Mas a viro e abro. A carta não é longa. E, antes mesmo de ler uma única palavra, minha visão nubla em lágrimas. Fecho os olhos e tento respirar. Meu novo coração bate como um tambor no peito. A sensação ainda me choca. Não estou acostumada a ouvir uma batida tão rítmica. Mas a batida é forte e alta, e deveria me fazer sentir cheia de vida. Em vez disso, sinto-me vazia. Respiro fundo e olho para as palavras escritas apenas para mim... Bonnie, Enquanto escrevo isso, estou olhando para o lago que tanto amamos. Você já reparou o quanto o céu é mais azul ao pôr do sol? Como é pacífico? Acho que jamais observei o suficiente a Terra para notar sua beleza. Estou escrevendo isso enquanto você está em sua cama de hospital. Papai acabou de ligar avisando que não lhe resta muito tempo. Não sei se chegará a receber essa carta. Não sei se

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sobreviverá. E, se esse for o caso, então, tenho certeza de que estaremos juntos em algum lugar, em algum lugar que não seja este mundo. Em algum lugar melhor. Em algum lugar onde não exista dor. Mas, se por algum milagre você conseguir um coração no último minuto; então acredito que preciso muito te escrever esta carta. E quero que saiba o motivo do por que não fui capaz de continuar. Quero que saiba que não foi por sua causa. Sei que você tem se culpado todos esses anos, mas nada disso tem a ver com você. Preciso explicar como me sinto, mas não sou como você. Não tenho jeito com palavras. Jamais iluminei o espaço como você. Em vez disso, sempre tive a sensação que estava do lado de fora olhando para dentro. Observando todos felizes e animados com a vida. Mas para mim, era o oposto. Sempre achei a vida difícil, Bonnie. Todos os dias, enquanto respirava, sentia como se estivesse respirando alcatrão. Cada passo que dava era como andar em areia movediça. E precisava continuar me movendo ou seria sugado. Lutei contra isso, mas a verdade é que o tempo todo queria afundar. Queria fechar meus olhos, desaparecer e parar a luta. A luta para querer viver quando, desde que me entendo por gente, tudo que queria era desistir. Quando você adoeceu, só me fez perceber a verdade, que apenas queria desistir. Queria dormir e nunca mais acordar. Porque, Bonnie, o que é um mundo se você não está nele? E se você conseguir seu coração, se alguém salvar sua vida doando o que já não podem usar, então saiba que estou feliz. Você pode estar com raiva de mim. Na verdade, eu sei que está. Você é minha irmã gêmea. Eu sinto o que você sente. Mas não posso fazer mais isso.

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Mesmo agora quando estou aqui sentado, sabendo que tenho apenas alguns minutos, desejo partir. Perdi a luta para continuar por mais um tempo aqui. E me recuso a dizer adeus a você, Bonnie. Quero partir assim. Comigo em nosso lugar favorito, sabendo que te verei novamente em breve. Depois que você viver por nós dois. Viva uma vida que nunca consegui. Algumas pessoas não estão destinadas a este mundo, Bonnie. E sou uma delas. Eu sei que você vai chorar por mim, e se você sobreviver, vou sentir sua falta todos os dias até que volte a te encontrar. Porque irei te reencontrar, Bonnie. Olhe para cima e sempre estarei lá com você. Mas, agora eu preciso partir. Fique forte, mana. Viva uma vida que você ama. E quando for sua hora, serei o único a vir te buscar. Você sabe que sim. Eu amo você, Bonn. Easton.

Soluços de partir o coração rasgam meu peito, lágrimas caem sobre a carta e borram a escrita. Rapidamente limpo com a mão, precisando salvar cada parte desta carta. Levo ao meu peito e tenho certeza, nesse minuto, que sinto Easton em meu coração. Eu o sinto sorrindo, tentando me consolar. Sinto-o sorrir para mim. Sorrindo porque, sem saber, ele se tornou meu milagre. Ele desistiu deste mundo e, inconscientemente, manteve-me nele. Seguro sua carta perto do meu peito até não ter mais lágrimas para chorar. Quando minha mãe e meu pai chegam ao

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hospital para me levar ao funeral, coloco a carta no bolso. Perto de mim. Precisando da sua força para me ajudar a passar por hoje. A hora seguinte é um borrão. Sou empurrada para dentro de um carro. Seguimos o carro que contém o caixão do meu irmão. Lírios brancos formam seu nome. Quando chegamos à igreja, meus olhos observam o caixão sendo retirado do carro. Papai e meus tios o cercam. E, então, vejo uma pessoa que não via há alguns dias. Mesmo entorpecido, meu coração consegue pular uma batida quando vejo Cromwell. Um Cromwell, vestido de terno e gravata preta, seu cabelo preto bagunçado ao sol. Tento desviar os olhos dele, mas percebo que não consigo. Ele anda para frente e aperta a mão do meu pai. Faço uma careta, tentando imaginar seu próximo passo. Então, ele pega uma alça do caixão, levantando meu irmão nos ombros, sustentando o fardo que Easton não foi capaz de carregar. Uma mão desliza na minha quando começam a levar Easton para a igreja. Minha mãe me guia para trás da procissão. Vejo pessoas da faculdade sentadas nos bancos. Bryce, Matt, Sara, Kacey. Mas não consigo os diferenciar. Estou muito ocupada olhando para Cromwell. Ele anda com tal propósito que parte meu coração. Porque o afastei. Insisti em mantê-lo longe de mim, quando tudo o que ele queria fazer era mostrar o quanto me amava. Eu amo Easton. Quando o serviço começa, olho fixamente para o altar, para a cruz pendurada na parede. O pastor fala, mas não escuto. Em vez disso, olho para o caixão e repasso a carta de Easton em minha cabeça. Mas escuto quando o pastor diz: “E agora, vamos ouvir

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um pouco de música.” Não faço ideia do que está acontecendo, mas, em seguida, Cromwell levanta do seu assento ao lado oposto da igreja. Meu coração está aos saltos enquanto ele se move para o piano. Prendo a respiração quando suas mãos se espalham nas teclas. E, então, ele esmaga meu coração quando o pastor apresenta a música que irá tocar... “Asas.” Uma melodia familiar ressoa pela enorme igreja. Fecho os olhos quando a versão de Cromwell para minha música começa, angelical e perfeita para este momento. As letras não cantadas circulam em minha cabeça, tão perfeitas ao lado da execução genial de Cromwell: Alguns não estão destinados a esta vida por muito tempo... Anjos chegam, e precisam partir... Já não mais aprisionados, agora são as asas de uma pomba... Lágrimas em meus olhos; dou um último olhar... eu vivi, amei e dancei a doce dança da vida... Enquanto a música toca, um tipo estranho de satisfação flui pelo corpo. As complicadas passagens e acordes de Cromwell trazem Easton ao meu coração, deixam-me saber que ele está em paz agora. Que ele está finalmente livre das correntes que o mantinham cativo nesta vida. Que ele finalmente está feliz e não sente mais dor. Quando Cromwell para de tocar, ouço os sussurros na igreja, o choque por Cromwell Dean conseguir tocar como acabou de fazer. Perfeito. E sem erro. Ele toca como ele ama.

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Quando Cromwell retorna ao seu lugar, ele me olha nos olhos e, naquele breve olhar; vejo tudo que ele está sentindo. Vejo, porque sinto exatamente o mesmo. Ele sente minha falta. Ele está sofrendo. Minha mãe se aproxima e pega minha mão. Seguro a dela com força quando o serviço chega ao fim. Os carros nos levam para o túmulo e deixo as lágrimas escorrerem pelo meu rosto quando Easton é baixado ao chão. Mal consigo lembrar o resto. Sei que sou levada para nossa casa, onde o velório é realizado. Mas passo a maior parte no meu quarto lendo a carta de Easton. Olho para a escuridão da noite e penso em Cromwell. Ele não veio para casa. Queria que ele tivesse vindo. Mas quando não aparece, sinto-me afundar cada vez mais no desespero. Preciso da luz que Cromwell traz para minha alma. Preciso da cor que ele traz para o meu mundo. “Bonnie?” Minha mãe está na porta. Ela me dá um pequeno sorriso. “Você está bem?” Tento sorrir de volta. Mas as lágrimas me traem. Deixo minha cabeça cair em minhas mãos e choro por tudo — Easton, Cromwell... tudo. Minha mãe me abraça. “Cromwell tocou?” Falo. É uma pergunta. Uma questão de saber como. “Ele nos perguntou na semana passada se poderia.” A respiração da minha mãe fica pesada. “Foi lindo. Se Easton tivesse ouvido...” “Ele ouviu,” falo. Mamãe sorri entre lágrimas. “Ele estava lá hoje, observando-nos dizer adeus.”

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Ela acaricia meu cabelo. “Precisamos levá-la de volta ao hospital, garota.” Meu coração aperta. Mas sei que é verdade. Não posso me ausentar por muito tempo. Coloco meu casaco e deixo minha mãe me levar para o carro. Mas, quando ela sai da garagem, tenho um lugar que preciso estar. Algo me chama. E sei o que é. Meu coração quer fazer uma última visita à sua derradeira morada. “Mamãe?” Pergunta. “Você pode passar pelo cemitério primeiro?” Mamãe sorri para mim e concorda. Ela entende o que significa ser gêmea. Nós éramos inseparáveis. Mesmo a morte jamais mudará isso. Quando chegamos ao cemitério, minha mãe me leva até Easton. Quando nos aproximamos, vejo uma figura sentada ao lado da árvore que protege seu túmulo. As folhas farfalham e os pássaros cantam nos galhos. Amarelo-mostarda e bronze. Cromwell levanta a cabeça quando nos ouve aproximar. Ele fica de pé, com as mãos nos bolsos. “Sinto muito.” Fecho meus olhos ao escutar sua voz. Sua profunda e acentuada voz instantaneamente aquece meu corpo gelado. Abro meus olhos assim que ele passa por mim. Sem pensar em nada. Sem qualquer plano. Em vez disso, deixo meu coração me guiar e deslizo minha mão na dele. Cromwell paralisa. Ele respira fundo, em seguida, olha para a minha mão na sua. “Não vá,” sussurro. Seus ombros relaxam com minhas palavras. “Vou deixar vocês em paz,” mamãe diz. “Estarei no carro. Avise-me quando quiser voltar ao hospital.”

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“Posso levá-la.” Mamãe olha para mim, uma pergunta em seus olhos. Limpo minha garganta. “Ele pode me levar.” Cromwell exala um longo suspiro. Mamãe beija minha cabeça e nos deixa sozinhos. Cromwell segura minha mão, mas olha para frente. “Senti sua falta,” ele sussurra, sua voz grave percorre todo o caminho até meus ossos. Inalo, o ar frio explode no meu peito. “Também senti sua falta.” Cromwell olha para mim e aperta com mais força. “É muito bom ouvir a sua voz.” Sorrio e balanço a cabeça. “Senti falta da sua voz também.” Ele se ajoelha a minha frente, e encontro seu olhar para ver os mais belos azuis me observando. Sua mão segura meu rosto. “Você é tão linda,” diz. Ele aponta para a árvore. “Você quer sentar comigo?” Balanço a cabeça, e prendo a respiração quando ele me pega em seus braços. Ele senta, e me coloca ao seu lado. Os pássaros cantam sobre nós, os galhos embalam a nova morada de Easton. Olho para as flores que foram colocadas e a terra fresca depositada sobre seu caixão. Este é o lugar perfeito para ele. É lindo, assim como ele. “Vou colocar um banco aqui,” falo. “Para que assim possa sempre visitá-lo.” Cromwell se vira para me olhar, seus olhos brilham. “O jeito que você tocou para ele hoje...” balanço a cabeça. “Foi perfeito.” “Foi a sua música.”

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Suspiro e olho para o horizonte, para a lua que começa a surgir. “Não conseguia ouvir música desde que ele se foi. Eu gostei muito.” O inchaço aumenta em minha garganta. “Perdi o prazer que uma vez me trouxe.” Cromwell apenas escuta. Exatamente o que preciso que ele faça. Então, diz: “Lewis é meu pai.” Viro minha cabeça para ele tão rápido que sinto no meu pescoço. Choque me atravessa. “O quê?” Cromwell encosta a cabeça no tronco da árvore. “Você estava certa. A sinestesia é genética.” “Cromwell... eu...” balanço a cabeça, incapaz de entender a verdade. “Ele conheceu minha mãe na faculdade.” Ele ri sem alegria. “Mais do que imaginava. Até onde sei, eles ficaram juntos.” Meu frágil coração luta para compreender o que ele está dizendo. No entanto, ele bate rápido, sua força me deixa sem fôlego com o que acaba de sair da boca de Cromwell. “Cromwell...” murmuro. “Não sei o que dizer. O que... o que aconteceu com eles?” “Eu não sei.” Ele suspira. “Não tive coragem de perguntar. Ele quer me dizer. Vejo isso em seus olhos todos os dias. Disse que queria explicar... mas ainda não estou pronto para ouvir.” Ele abaixa a cabeça, vermelho cobre suas bochechas. Quando levanta o olhar novamente, ele diz: “Mas ele está me ajudando. Trabalhamos juntos todos os dias.” Faço uma careta, até que me ocorre. “Você está tocando em uma orquestra?”

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Um lampejo de sorriso curva sua boca. “Sim. E acho...” ele olha nos meus olhos. “Eu acho bem legal, baby. A sinfonia que estou compondo...” Baby. O carinho cerca minha cabeça, apenas para flutuar e tomar o seu legítimo lar no meu novo coração. Quando tudo se resolve, eu me sinto calma. Confortável e segura ao lado do garoto que amo. “Easton escreveu uma carta para mim.” Fecho meus olhos, ainda sentindo a tristeza que isso me trouxe, mas... “Agora ele está em paz.” Tento sorrir. “Ele não está mais atormentado pelos demônios que tiraram sua alegria.” Meus olhos permanecem em seu túmulo. E gostaria de saber se ele pode nos ver aqui, precisando ficar próximos a ele. Sentido tanta a sua falta que chega a doer. Viro-me para Cromwell. “Que cor você vê ao redor do seu túmulo?” Cromwell exala. “Branco,” ele diz. “Eu vejo branco.” “E o que isso significa para você?” Minha voz mal é um sussurro. “Paz,” ele diz, uma calma aliviada em sua voz. “Vejo isso como paz.” A última corrente que me mantinha acorrentada à dor que não conseguia liberar flutua para o céu escuro sobre nós. Eu me inclino contra Cromwell, suspiro em contentamento quando ele me abraça e me segura perto. Ficamos assim até que começo a cansar e a noite esfria. “Vamos baby. Chegou a hora de você voltar.” Cromwell me pega e leva até o carro. Ele me coloca em sua caminhonete e dirige de volta ao hospital. O sono me pega, e não acordo até estar na minha

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cama. Cromwell beija minha bochecha, ele encontra meu olhar, um apelo em sua expressão: “Vá ao concerto.” Meu coração aperta. “Não sei Cromwell. Não sei se posso.” “Preciso ir para Charleston, para ensaiar com a orquestra. Mas, por favor, vá. Preciso que você veja. Preciso saber que você está lá, na plateia... a garota que trouxe a música de volta à minha vida.” Vou responder, mas antes que possa, Cromwell se inclina e me beija. Ele rouba minha respiração e meu coração nesse beijo doce. Caminha até a porta e para. “Eu amo você, Bonnie. Você mudou minha vida,” ele diz sem olhar para trás, e depois vai embora. Enquanto seus passos somem ao corredor, tenho certeza que com ele foi o meu coração. E sei que a única maneira de o recuperar é dentro de algumas semanas seguir até Charleston e assistir sua apresentação. Meu garoto, que mais uma vez tem a música em seu coração.

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Capítulo 27 Cromwell Algumas semanas mais tarde...

Sento no meu lugar, fecho os olhos e respiro fundo. Meu peito está apertado, mas meu coração bate forte como um tambor. Adrenalina corre em minhas veias. Uma mudança aconteceu dentro de mim no minuto em que cheguei a Charleston há algumas semanas. Quando entrei na sala de ensaio e me deparei com uma orquestra de cinquenta músicos. A orquestra que tocará minha música no Concerto de Gala. Música que eu compus. Balanço a cabeça e tomo um gole do meu Jack. Não bebia há semanas. Parei de fumar naquele dia em frente ao hospital quando descartei meu maço de cigarros na lata de lixo. Mas preciso de um pouco de Jack agora. Levanto-me, levo meu Jack comigo, saio do vestiário e atravesso o corredor até o teatro. O som da porta se fechando ecoa pelo vasto espaço. Olho para o teto pintado e para as fileiras e fileiras de assentos de veludo vermelho. Subo ao palco e vou para frente. Olho para o teatro e meu sangue aquece.

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Foco em um ponto no centro do teatro. A cadeira que reservei para Bonnie. A dúvida parece uma bola de chumbo no meu estômago. Mal falei com ela durante todas essas semanas. Natal e Ano Novo passaram. Ela me ligou no dia do Natal, parecendo com a velha Bonnie. Sua voz estava firme e ela me disse que seu coração batia forte. Mas pude ouvir um amargor de tristeza atado a sua voz. Ela mal perguntou sobre a música. Minha música. “Sinto sua falta, Cromwell,” ela sussurrou. “A vida não é a mesma coisa sem você aqui.” “Também sinto sua falta, baby,” disse em resposta. Fiz uma pausa. “Por favor, venha para o Concerto de gala. Por favor...” Ela não disse nada. Mesmo agora, na véspera da apresentação, ainda não sei se virá. Mas ela precisa vir. Tem que ouvir esta música. Escrevi para ela. Por causa dela. Agora tudo na minha vida diz respeito a ela. Não quero de outra maneira. Pulo do palco e sento na cadeira da primeira fila. Olho para o teatro, para tela ao fundo do palco que foi construída para a minha apresentação. Suspiro e tomo um longo gole do Jack. Fecho os olhos, inalando o cheiro do teatro. Lembro-me desse cheiro. Vivo por isso. Você pertence a esse palco, filho. A voz do meu pai reverbera em minha cabeça. Você os cativará da mesma forma que fez comigo. O nó que sempre obstrui minha garganta. Então sinto alguém sentar ao meu lado. Abro meus olhos e vejo Lewis. Ele esteve comigo todas essas semanas. Nunca saiu do meu lado. Trabalhando comigo dia e noite na minha sinfonia. Ele não

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falou comigo de novo sobre o que descobri. Apenas trabalhou comigo, de compositor para compositor, de sinestésico para sinestésico. Ele me entende mais do que eu jamais poderia saber. Sente cada nota que toco. E ele sente todas as emoções que minha música quer transmitir. E melhor ainda, ele me apoiou quando decidi ser diferente. Minha música amanhã à noite dividirá opiniões. Eu sei. Mas isso precisava ser feito. É a história que preciso contar, da única maneira que sei. “Está nervoso?” Lewis fala baixinho, mas sua voz ecoa pelas paredes do teatro como um trovão. Suspiro. Não respondo no começo, mas então falo: “Não sobre o desempenho...” “Você quer que Bonnie esteja aqui.” Cerro meu maxilar. Não sou bom em deixar as pessoas entrarem. Mostrar minhas emoções. Mas Lewis me viu compor. Ele me ajudou em todo o processo. Sabe do que se trata minha música. Não há sentido agora em esconder isso dele. “Sim.” Balanço a cabeça. “Não tenho certeza se ela virá. Sua mãe está tentando, mas ela ainda está em um lugar ruim.” Meu estômago afunda em tristeza. “No fundo ela ama música. Mas, desde Easton, está perdida e não sabe como se achar.” “Ao ver isso,” diz Lewis, aponta para o palco que amanhã será preenchido com uma orquestra completa, luzes e... por mim, “Assim que ela assistir você nesse palco, executando uma música inspirada nela, entenderá. A música vai encontrar seu caminho para ela novamente.” Viro-me para encará-lo quando ele fica em silêncio. “Nunca vi ou ouvi nada parecido com o que você criou Cromwell.” A voz de Lewis é rouca, e o som me faz sentir um nó no estômago.

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Estive bem nestas últimas semanas. Consegui não pensar na verdade. Sobre quem ele é. A composição me consumiu. Meus dias e minutos foram tomados por notas, cordas e intensidades sonoras. Mas aqui, agora, não consigo evitar, mesmo se tentasse. “Você é melhor que eu.” Lewis ri. “Não é fácil para um compositor admitir isso, mas é verdade... e isso me deixa muito orgulhoso.” Sua voz embarga, e tenho que cerrar meus dentes para impedir que o nó em minha garganta aumente. Meu pulso acelera. “Eu era egoísta,” ele diz com voz rouca. Agarro minha garrafa de Jack com tanta força que tenho certeza que irá quebrar debaixo da minha mão. Lewis passa a mão pelos cabelos. “Era jovem e tinha o mundo a meus pés.” Ele inspira profundamente, como se precisasse de um intervalo. “Sua mãe era alguém que não esperava.” Abaixo meus olhos para o chão. “Ela entrou na minha vida como um tornado e me roubou o chão.” Minha mão treme, o líquido âmbar se agita na garrafa. “E me apaixonei por ela. Não apenas um pouco também. Ela se tornou meu mundo inteiro.” Lewis para de falar. Seus olhos estão fechados, seu rosto tenso como se estivesse sofrendo. Ele mantém os olhos fechados enquanto diz: “Mas, eu tinha a minha música... e também bebia e usava drogas. Sua mãe só ouviu falar sobre isso mais tarde.” Ele dá um tapinha no peito. “Foram as emoções. Elas ajudavam a reprimir as emoções.” Olho para o Jack em minha mão. Penso em quanto bebi quando perdi meu pai. Quando tudo se tornou insuportável. “Minha música estava começando a ser notada e a pressão aumentou. E sua mãe ficou ao meu lado, ajudando apenas por estar lá e me amar.” Congelo quando ele admite isso. Projeto minha mãe em minha mente. Tento imaginá-la quando era jovem e despreocupada. Ela sempre foi tão quieta e reservada durante

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toda a minha vida. Lutei para entender isso, mas agora estou começando a ver que tudo fazia sentido. Lewis partiu seu coração. Pela primeira vez em anos, sinto que a conhecia. Então, penso em Bonnie. Porque Bonnie é essa pessoa para mim. Aquela que deixei entrar. Aquela que me ajudou com as emoções quando elas se tornaram intensas demais. Aquela que acreditou em mim. Aquela que tentei afastar. Mas ela ficou ao meu lado. Neste momento, sinto pena de Lewis, porque ele perdeu sua Bonnie. Meu estômago dá um nó quando penso na distância agora que existe entre mim e Bonnie. A dor é insuportável. “Mas quanto mais a música me consumia, mais álcool e drogas se tornavam o único foco real na minha vida.” “Foi assim por meses, até que ela me encontrou drogado.” Seu rosto se contorce e sua voz perde força. “Ela me implorou para parar, mas não parei. Acreditava na época que não podia, por causa da música. Mas era egoísta, e isso é o maior arrependimento da minha vida.” Ele finalmente me olha nos olhos. “Até que tomei conhecimento sobre você.” “Você a deixou grávida?” Pergunto, a raiva profunda e latente que sinto se mostra em minha voz. “No começo eu não sabia que ela estava grávida,” ele diz. “Era um viciado, Cromwell. E sua mãe fez o que era melhor para vocês dois na época. E isso era não me ter em suas vidas.” Lewis passa a mão pelo rosto. Ele parece exausto. “Descobri que ela carregava você quando estava com seis meses.” “E?” Ele me encara sem medo, deixando-me ver a vergonha em seus olhos. “Nada. Eu não fiz nada, Cromwell.” Ele solta um suspiro trêmulo. “Foi o maior erro da minha vida.” Inclina-se para frente e seu olhar se perde no palco. “Minha vida era música. Foi

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tudo que tive. Eu me fiz acreditar que era tudo que tinha. Mais tarde, ouvi que sua mãe conheceu alguém, um oficial do exército britânico, quando estava grávida. Ele estava servindo aqui nos Estados Unidos.” Fico tenso. Essa é a parte que envolve meu pai. “Descobri que ela se mudou para a Inglaterra para ficar com ele. Que eles se casaram... e que você nasceu. Um menino.” Ele olha para mim. “Um filho.” Sua voz falha, e vejo as lágrimas transbordarem em seus olhos. “Isso me matou na época, mas como fiz com todo o resto, afoguei o sentimento em bebidas e drogas.” Ele se inclina para trás em seu assento. “Viajei pelo mundo, tocando em teatros lotados e criando as melhores músicas da minha vida.” Ele suspira. “Bloqueei tudo. Quase nunca voltei para casa.” Ele junta as mãos. “Até que um dia voltei, para encontrar uma pilha de cartas. Cartas da Inglaterra.” Meu estômago revira. “Elas eram do seu pai, Cromwell.” Sufoco as lágrimas que ameaçam cair. Imagino meu pai e tudo que posso ver é azulroyal. Vejo seu sorriso e sinto como era estar perto dele. Como ele sempre fazia tudo muito melhor. Como sempre se orgulhava de fazer a coisa certa. Ele foi o melhor dos homens. “Eram cartas dele contando-me tudo sobre você.” Uma lágrima cai por sua bochecha. “E havia fotos. Fotos suas...” O nó em minha garganta aperta e minha visão turva. Lewis sacode a cabeça. “Olhei para aquelas fotos por tanto tempo que forcei meus olhos. Você, Cromwell. Meu garotinho, com minha cor, meu cabelo preto.” Meu coração bate contra o meu peito. “Lutei por anos para ficar sóbrio depois disso. Foi uma batalha que não consegui vencer até que você fosse muito mais velho.” Ele silencia. “Vivi para essas cartas. Vivi por essas fotos. Elas se tornaram a única

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coisa real na minha vida... e então, um dia, uma nova carta chegou. Uma que dentro tinha um vídeo.” Lewis balança a cabeça. “Perdi a conta de quantas vezes assisti a esse vídeo.” “Sobre o que era?” Pergunto em voz baixa. “Você.” Lewis enxuga uma lágrima da sua bochecha. “Você tocando piano. A carta do seu pai dizia que você nunca teve aulas. Mas que apenas era capaz de tocar.” Seus olhos se perdem em suas memórias. “Assisti você tocar, suas mãos tão habilidosas... e o sorriso em seu rosto e a luz em seus olhos, e senti como se fosse atropelado por um caminhão de dez toneladas. Por que, ali, naquela tela, estava meu filho... um amante da música como eu.” Viro minha cabeça. Não sei se posso ouvir isso. “Seu pai me contou sobre a sinestesia. Ele sabia sobre minha turnê na Inglaterra, ao Albert Hall, e me perguntou algo que nunca pensei que aconteceria. Ele me pediu para te conhecer. Para ajudálo... ele achava que eu deveria conhecer você. Por quão especial você era.” Minha cabeça cai para frente. Meu pai também foi especial. Ele me amava tanto. Gostaria de ter dito o quanto o amava enquanto ele esteve aqui. “Ele sabia que você também tinha sinestesia. Ele sabia que você seria capaz de me ajudar.” Meu coração aperta quando penso no orgulho que meu pai teve que engolir para pedir a Lewis, o pai que não me queria, por ajuda. Mas ele fez isso. Ele fez isso por mim. Uma lágrima traça minha bochecha. “Naquela noite,” Lewis diz, com a voz trêmula. “Estava sóbrio já há alguns anos...” Ele olha para mim. Foi a primeira vez que realmente olhei para ele. E me vejo em seu rosto. Vejo as semelhanças e características compartilhadas. “Quando te

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vi... meu filho, parado ali na minha frente, sua mãe tão generosa em me deixar conhecer você depois de tudo que fiz... fui para casa naquela noite e tive uma overdose tão forte que acordei no hospital com um fígado permanentemente danificado.” Meus olhos arregalam. As lágrimas de Lewis caem livremente agora. Não aguento. Não aguento tudo isso. “Ver você me mostrou o quanto estraguei tudo. E meu filho, que era mais talentoso do que jamais fui, não me conhecia. Chamava de pai outra pessoa.” Ele passa sua mão no rosto. “Isso me destruiu. E daquele momento em diante, fiz uma promessa. Que faria tudo ao meu alcance para ajudá-lo...” Lewis para e sei o que aconteceu em seguida. “Cromwell, quando soube do seu pai...” “Não,” falo, incapaz de ouvir. Lewis concorda e o silêncio pesa entre nós. “Nunca conheci um homem mais honrado em minha vida. Seu pai...” engasgo com o nó. “Ele te amava mais do que tudo neste mundo. E por causa disso, ele me permitiu vislumbrar sua vida ― algo que não merecia. Ainda não mereço.” Abaixo a cabeça e minhas lágrimas caem no chão. “Ele deveria estar aqui agora,” sufoco. “Assistir isso. A mim, amanhã.” Sinto uma mão em minhas costas. Fico tenso. Quase digo para retirar, para se foder, mas não faço. Depois de tudo ― depois do papai, Bonnie e Easton ― simplesmente deixo acontecer. Preciso disso. Preciso saber que não estou sozinho. Liberto tudo. No chão do teatro, onde me apresentarei amanhã, liberto tudo o que estava trancado dentro de mim por tanto tempo. Quando meus olhos estão inchados e minha garganta seca, levanto a cabeça. Lewis mantém a mão onde estava. “Não tenho o direito de pedir nada a você, Cromwell. E vou entender se você

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nunca quiser mais de mim do que a minha ajuda durante as últimas semanas.” Encontro seus olhos e vejo o desespero lá. “Não sou um bom homem como seu pai. E nunca poderia ocupar o seu lugar. Mas se você me quiser, ou precisar de mim, ou ser generoso o suficiente para me deixar entrar em sua vida, só um pouquinho...” ele para, e sei que ele está se esforçando para terminar. “Então... esse seria o maior presente que receberia.” Quando olho para Lewis, percebo que estou cansado. Estou cansado de deixar tudo me afetar. De carregar toda a tristeza em meu coração e toda raiva dentro de mim. Penso em Bonnie e Easton em tudo o que aconteceu. De como Easton não conseguiu lidar. Não quero isso para a minha vida. Passei três anos engasgando com raiva e tristeza... o pesar das minhas últimas palavras ao meu pai, e não quero voltar para lá. Bonnie me mostrou um novo jeito de ser. E me recuso a voltar. Respiro fundo. “Não sei o quanto posso te dar.” É a verdade. Lewis parece ferido, mas assente. Ele começa a levantar. “Mas eu posso... tentar,” falo e sinto um novo tipo de leveza se instalar em meu peito. Lewis me olha e inspira rapidamente. Mais lágrimas surgem em seus olhos. “Obrigado, filho.” Ele começa a se afastar. Filho. Filho... “Obrigado,” falo quando ele se aproxima da saída. Lewis se vira, franze a testa. “Por tudo que você fez, nos últimos meses. Eu... eu não poderia ter feito isso sem você.” “Não fiz nada, filho. Isso foi tudo você. E amanhã à noite, será tudo por sua conta mais uma vez.”

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Olho para o Jack Daniels na minha mão. “Você ficará bem? Amanhã?” Pedi um favor a Lewis, pelo bem da música. Ele aceitou imediatamente, sem pensar. Lewis olha para o palco vazio, que amanhã estará cheio de músicos como nós. “Estarei lá ao seu lado, Cromwell.” Ele me dá um sorriso hesitante. “Acho que estarei melhor do que nunca estive em minha vida.” Com isso, ele sai para a porta, deixando-me sozinho com meus pensamentos. Fico ali por mais uma hora, tocando a música em minha cabeça, reproduzindo como nos ensaios. Assim que estou prestes a sair, pego meu telefone e mando uma mensagem para Bonnie. Espero que você venha amanhã, baby. É tudo para você. Eu te amo. Coloco meu celular no bolso e volto para o hotel. E a cada respiração; penso no rosto de Bonnie, seus olhos castanhos brilhando com a minha música. E oro a Deus para que ela esteja lá. Esperançosamente, com um sorriso mais uma vez nos lábios.

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Capítulo 28 Bonnie

A fila está enorme quando chegamos ao local. Olho pela janela e engulo meu nervosismo. Cromwell está tocando aqui esta noite. Sinto falta dele. Sinto sua falta mais do que pensei ser possível. Todos os dias, quando ele não estava ao meu lado, eu sentia mais e mais. Senti falta dos seus profundos olhos cor do mar. Senti falta do jeito que ele afasta o cabelo do meu rosto, e sinto saudade dos raros sorrisos com os quais ele às vezes me abençoava. Senti falta da sua mão segurando a minha. Senti falta dos seus beijos. Senti falta da sua música. Mas acima de tudo, simplesmente senti falta dele. Não percebi até ele vir para Charleston o quanto preciso dele em minha vida. Ele é o ar que respiro; a lua na minha noite. Cromwell Dean é meu sol. “Você está pronta, Bonnie?” Balanço a cabeça para a minha mãe. Ela me ajuda a sair do banco de trás e me ajuda a sentar na cadeira. Já ando melhor a

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cada dia. Minha fisioterapia está evoluindo. Em poucas semanas, espero andar o tempo todo. O coração de Easton está funcionando bem comigo. Mas sempre soube que seria assim. Meu irmão nunca teria me deixado mal. Mamãe nos leva até as portas. Mas seguimos para uma diferente das outras. Percebo que é a entrada VIP. Sorrio para o homem que recolhe nossos ingressos, então meu coração começa a bater no meu peito quando fomos pessoalmente levados para nossos lugares. O teatro está completamente lotado, nenhum assento vazio pode ser encontrado. Estou sem fôlego enquanto olho para o palco, ouço os sons reveladores da orquestra se aquecendo atrás da pesada cortina vermelha. Uma certa eletricidade zumbe no ar, fazendo minha pele arrepiar. Quando chegamos aos nossos lugares, olho em volta para todos tão bem vestidos. Os homens usam smoking e as mulheres usam vestidos elegantes. Uma sensação de orgulho enche meu coração. Estão todos aqui por Cromwell. Todas essas pessoas estão aqui para ouvir meu Cromwell Dean. Mamãe inclina-se e pega minha mão. Seus olhos estão arregalados. “Isso é...” ela balança a cabeça, lutando por palavras. Seguro sua mão com mais força. Não consigo encontrar as palavras também. As luzes da casa acedem, sinalizando que o show está prestes a começar. Olho para a cortina como se pudesse ver através dela. Pergunto-me onde Cromwell está agora. Ele está nos bastidores esperando para ser anunciado? Ele está bem? Quero correr aos bastidores e segurar sua mão. Ele não se apresentou em três anos.

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Ele deve estar tão nervoso. Compartilho esse nervosismo quando a sala se acalma e as luzes apagam. Minha respiração fica presa na garganta quando a cortina se abre e a orquestra é revelada. Aplausos soam para os músicos, depois morrem enquanto esperamos... espero pelo garoto que amo com meu velho e novo coração mais do que qualquer coisa neste mundo. Ouço o batimento forte do meu coração, só para acelerar ainda mais quando Cromwell surge no palco. Minha mão aperta a da minha mãe enquanto eu o devoro. Ele está vestido em um smoking perfeitamente adaptado. Seu corpo perfeito e estatura alta o fazem parecer um modelo enquanto caminha para o palco. O aplauso do público reverbera nas paredes enquanto Cromwell para no centro do palco. Paro de respirar, vendo as tatuagens em seu pescoço que se esgueiram pelo colarinho da sua camisa. Seus piercings brilham a luz. Seu cabelo preto está bagunçado como de costume. E meu coração palpita no peito quando vejo seu rosto bonito. Ele está nervoso. Ninguém pode enxergar. Mas eu consigo. Posso vê-lo rolando a língua e esfregando os lábios. Vejo seus olhos se ajustarem à luz e depois aos assentos. Congelo quando seus profundos olhos azuis me encontram. E, então, o calor me aquece quando seus ombros relaxam e o vejo expirar. Seus olhos se fecham por um momento e, quando reabrem, ele sorri. Um verdadeiro sorriso. Um largo sorriso. Um sorriso de amor. Um sorriso só para mim. Qualquer ar que estava em meus pulmões foge quando seu sorriso atinge meu coração. Cromwell inclina-se e vira para a

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orquestra. Ele ergue uma batuta no ar e, naquele momento suspenso, percebo que estou vendo o verdadeiro Cromwell. O proficiente músico que ele nasceu para ser. A orquestra espera por seu sinal e as luzes se apagam. A sinfonia começa com o solo de único violino. E ofego. Não pelo som já celestial, mas pela tela acima da orquestra. A tela preta que, quando uma nota é tocada, mostra uma cor e uma forma ― um triângulo. Cromwell está me mostrando. Ele está mostrando como é para ele. Ele está me mostrando as cores que ele ouve. Assisto, hipnotizada, enquanto as formas de todas as cores do arco-íris dançam através da tela. Cordas, instrumentos de sopro e metal se juntam, seguindo cada movimento da mão de Cromwell. E assisto; meu coração repleto e olhos arregalados, enquanto Cromwell me mostra sua alma. Tento absorver tudo, os sons, as visões, o cheiro dos instrumentos sendo tocados com tanta perfeição. Cromwell, em casa naquele palco, mostrando ao mundo o que ele nasceu para fazer. Ao final do segundo ato, a música é reduzida em um único tambor carregando uma batida. Cromwell baixa a batuta. Então, no estágio final, entra o professor Lewis. O público aplaude hesitante, sem saber o que fazer com a introdução surpresa do famoso maestro. Cromwell entrega a batuta a Lewis e desaparece no escuro. O tambor continua, em ritmo constante... apenas como um batimento cardíaco... Um holofote subitamente ilumina o palco superior esquerdo. Cromwell está sob o holofote, seus decks, laptop e drum pad à sua frente. Seus fones de ouvido estão em suas orelhas, mostrando em cada centímetro o DJ de música eletrônica que

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conheci. O tambor que está tocando é repentinamente ecoado pelo tambor sintético de Cromwell. As cordas vêm em seguida, um contrabaixo e um violoncelo assumem a liderança. Os violinos pegam a melodia. Leve e pura. Então uma música que conheço começa a tocar. O pianista à direita está tocando a música que vi Cromwell tocar tanto tempo atrás, em uma sala de ensaio tarde da noite... surgindo aos poucos enquanto a última nota desaparece. Meu coração dispara. Lágrimas inundam meus olhos. O pianista toca a música perfeitamente enquanto Lewis conduz a orquestra com facilidade. Então a música diminui novamente, e o som fraco de uma música que conheço ― uma música que veio do meu coração ― sai dos alto-falantes acima de nós. Minha música. Minha voz. Suspiro. Minha voz cantando “Asas” enche a sala. A música foi ajustada para uma harpa e uma flauta. Serena. Pura. Bonita. Coloco a mão na minha boca enquanto minha respiração vacila. Porque é assim que ele me enxerga. Então, do fundo vem o som de um destoante coração. Minhas mãos tremem quando reconheço o som. É meu coração. Meu velho coração. Uma melodia fica mais alta. Uma triste. O belo som do clarinete e do violoncelo tocando juntos faz o meu coração doer. E, em seguida, surge o som de outro coração. Um coração muito mais forte.

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O coração de Easton. Meu coração. Minha mão cai sobre o peito e sinto a batida sob a palma da minha mão, em sincronia com a batida dos altofalantes. Cromwell sincroniza batidas eletrônicas com a orquestra, as cores são uma exibição como explosões de fogos de artifício do que ele vê em sua cabeça quando toca sua música. E sou arrebatada. Sou atraída para a música como se estivesse vivendo isso. Minha música de luta vem em seguida, a música que ele tocou para mim tantas vezes no hospital que se tornou meu hino. A trilha sonora das minhas esperanças e desejos enquanto permanecia deitava sem fôlego na cama. Meu desejo de estar com ele para sempre. A música que afastei por tanto tempo penetra em minha pele, minha carne e até meus ossos. Não para até chegar ao meu coração e, finalmente, à minha alma. Fecho meus olhos quando a sinfonia chega ao seu auge, a mistura de ritmos, moderno e antigo, me faz sentir viva. Sinto como se meu coração quisesse saltar do meu peito. É por isso que amo música. A sensação desse momento. Essa harmonia. Essa melodia, essa sinfonia perfeita... e então ouço a guitarra, a guitarra acústica achando o som da batida dos tambores e violinos altos. Minha música. Nossa música. “Um Desejo Para Nós.”

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As lágrimas caem pelo meu rosto quando o resto da história é contada. Porque é isso que Cromwell está fazendo. Ele está me contando tudo. Da sua primeira composição quando criança, do seu pai, de Easton... e de mim. Ele está me contando tudo, através da música... a única maneira que ele sabe. Choro. Com meu peito repleto de amor por Cromwell Dean, o garoto que conheci na praia de Brighton. O garoto que amei com toda a minha alma. O garoto que criou uma sinfonia só para mim. Quando a última nota voa pelo ar, cimentando o lugar de Cromwell entre os grandes músicos, o público entra em erupção. As pessoas se levantam, aplaudem o gênio que é Cromwell e sua sinfonia. Um programa cai no chão a minha frente. Quando olho para baixo, vejo o título da sinfonia: “Um Desejo Para Nós”. E sorrio. Deixo as lágrimas escorrerem por minhas bochechas, exorcizando a dor, a dormência e a minha vida sem Cromwell. Cromwell chega ao centro do palco. Lewis estende o braço, apresentando o filho ao público. O orgulho nos olhos de Lewis é quase a minha ruína. Cromwell respira fundo, os olhos procuram a multidão. Aplaudo sem parar, maravilhada com tudo o que ele é. A pessoa que ele é e o amor que ele inspira em mim. E, então, seus olhos fixam em mim. Sua mão se move para o peito e toca seu coração, um sorriso tímido no rosto. Felicidade enche todas as minhas células. Cromwell inclina-se e sai do palco. O aplauso dura muito depois que ele sai. Um testemunho do efeito de sua música nas pessoas que a deixam entrar em seus corações. Quando o teatro está iluminado, minha mãe nos move para os bastidores. Meu coração troveja no meu peito enquanto aliso

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minhas mãos sobre meu vestido. Músicos se movem nos bastidores, a adrenalina que emana deles é palpável. E, logo que viramos o corredor eu o vejo. Cromwell está no final do corredor, de pé contra a parede, com olhos fechados e respirando fundo. Sua gravata está solta e sua camisa aberta. Suas mangas estão enroladas até os cotovelos, mostrando as tatuagens. “Vou deixar vocês dois sozinhos.” Os passos da minha mãe desaparecem. Cromwell abre os olhos. Ele se assusta quando me vê. Endireita-se na parede, seu peito sobe e desce em movimentos rápidos, e vai dar um passo à frente, mas estendo minha mão para que pare. Ele para, e eu respiro fundo. Agarro os braços da cadeira e me levanto. Meus pés tremem no chão... e durante todo tempo, nunca tiro os olhos de Cromwell. Um sorriso orgulhoso ilumina seu rosto quando dou um passo em direção a ele, minhas pernas fracas sabem que não tem outra escolha senão me levar para frente. Porque elas sabem, tanto quanto meu coração ― que preciso estar com Cromwell. Ele é a nossa casa. Meu coração bate forte. Ando em direção a Cromwell, lembrando a sinfonia que ele criou para mim. E a cada nota que vou lembrando, a cada flash de cor que me ofertou um vislumbre do seu coração, sigo em frente. Dou passo após passo até ficar sem fôlego... mas estou diante dele. Fiz isso para ele. Lutei para chegar aqui. E me recuso a desistir agora. Olho para cima e os olhos brilhantes de Cromwell estão fixos em mim. “Foi lindo,” sussurro, minha voz falha.

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“Baby.” Cromwell passa a mão pelo meu cabelo. Fecho meus olhos, o toque dele, tão bem vindo depois de tanto tempo. Em seguida seus lábios estão nos meus, tão doces e perfeitos quanto eu lembrava que fossem. Posso sentir. Sinto tudo sobre esse momento. Quando ele se afasta, olho em seus olhos. “Eu te amo,” falo, agarrando seus pulsos. Suas mãos seguram meu rosto. “Eu também te amo,” ele respira e fecha os olhos. Como se não pudesse acreditar que estou aqui. Como se eu fosse o seu sonho se tornando realidade. Como se eu fosse seu desejo vivo, respirando. Quando seus olhos se abrem novamente, ele diz: “Venha comigo.” Concordo. Ele me carrega bem próximo ao seu peito, enquanto me leva para um elevador. Quando as portas se fecham, tudo que posso ver, sentir e cheirar é Cromwell. Não movo meus olhos dos dele. De alguma forma ele parece mudado. Seus ombros estão relaxados e há uma luz em seus olhos que nunca vi antes. Como se estivessem injetados com vida. Quando seus olhos se fixam em mim, não consigo ver nada além de amor. As portas se abrem e ar fresco sopra a nossa volta. Cromwell não me coloca no chão; ele me mantém em seus braços fortes e me leva ao longo do que vejo ser um terraço. Um manto de estrelas nos olha, em uma única nuvem no céu. “Cromwell...” murmuro, sentindo-me oprimida com a visão. Com tudo esta noite. A música, os batimentos cardíacos, a sinfonia... e ele. Sempre ele.

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Cromwell senta em um banco no centro de um pequeno jardim no terraço. A água corre ao nosso redor, parece um rio tranquilo. Flores de inverno vermelhas e verdes em vasos decorativos nos rodeiam. É como um vislumbre do céu. E quando Cromwell me abraça mais forte, sinto a sensação de voltar para casa. O terraço fica silencioso. Apenas o som da rua abaixo pode ser ouvido à distância. Pisco para as estrelas e me pergunto se Easton está lá em cima, ainda ligado de alguma forma ao seu coração... a mim. “Aqui é lindo,” falo e finalmente me viro para Cromwell. Cromwell já está me observando. Ele me olha como se fosse um presente que não acredita que recebeu. Meu peito se expande, deixando entrar mais amor por ele do que no minuto anterior. Não tenho certeza se isso é possível. “Você veio,” ele sussurra, e meu pulso vibra na garganta. “Eu vim.” Cromwell se inclina e pressiona seus lábios nos meus. O beijo é lento e gentil e traz uma promessa simples ― que não será o último. Quando ele se afasta, encosto minha testa na dele. Respiro o cheiro dele e deixo-o dentro do meu corpo em paz. Sinto meu lábio tremer, mas afasto a onda de emoções para dizer: “Quero viver.” Cromwell fica tenso. Ele recua e coloca suas mãos em minhas bochechas. “Pensei em várias coisas. Tive muito tempo para pensar em tudo.” Olho para as estrelas. Quando olho para o vasto céu, sinto-me tão pequena. Um simples ponto na tapeçaria que é o mundo. Engulo o nó que aperta minha garganta. “A vida é tão curta, não é?”

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Volto para Cromwell. Seus olhos azuis estão arregalados enquanto aguarda pacientemente pelo que tenho a dizer. “Não tinha mais nada a fazer senão pensar na vida, Cromwell. Experimentei todos os sentimentos. O bom.” Beijo sua testa. “O ruim.” A descoberta da morte de Easton se repete em minha cabeça. “E tudo o que está no meio.” Inclino contra o peito duro de Cromwell. Sua camisa está aberta no topo, mostrando suas tatuagens escuras. Estendo a mão para brincar com um de seus botões. “E decidi que quero viver.” Cromwell me abraça ainda mais forte. Olho em seus olhos azuis profundos, olhos que achei uma vez turbulentos, mas agora acho serenos. “Não quero que a vida passe por mim.” Uma imagem repentina me vem à mente. De mim e Cromwell. Sobre nós dois viajando pelo mundo... de nós dois, um dia, talvez, tendo um filho de olhos azuis e cabelos escuros. Como ele. “Quero abraçar tudo que puder enquanto posso. Novos lugares, novos sons... tudo. Com você.” “Bonnie,” Cromwell geme. Seguro sua mão e levanto para que possa ver a identificação tatuada em seus dedos. A que sei agora ser uma homenagem ao seu pai. “Perder as pessoas que você ama pode fazer o mundo parecer muito sombrio. Mas percebi que mesmo que eles tenham se ausentado fisicamente de nós, eles nunca realmente se foram.” Balanço minha cabeça. Sei que estou divagando. Encontro os olhos de Cromwell. “Amo você, Cromwell Dean. E quero amar a vida com você nela. Não ligo para onde isso nos leva, desde que isso signifique alguma coisa. Contanto que nossas vidas tenham um propósito para aqueles que não puderam estar conosco ao longo do caminho.” Os olhos de Cromwell brilham quando beijo o número em sua mão. “E enquanto existir você, e houver a música, sei que será

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uma vida intensamente vivida, não importa se será longa ou curta.” “Longa,” diz Cromwell, sua voz rouca. “Você viverá uma vida longa. O coração de Easton permanecerá forte.” Cromwell abaixa a cabeça e beija o local onde meu novo coração está. Ele tremula como as asas de uma borboleta. Cromwell me beija novamente, e olho de volta para as estrelas, grata por apenas estar aqui. Esse garoto, que me segura em seus braços, é o meu desejo se tornando realidade. O garoto que ficou ao meu lado durante as provações mais difíceis da minha vida. E o garoto que, quando me desfiz, me resgatou, me trouxe de volta para ele. Através da música. Através do amor. E através das cores da sua alma. Ele é e sempre será o melhor em meu coração. Simplesmente, ele é todo o meu mundo. Um mundo em que pretendo permanecer. Prometo fazer isso. Nunca deixar meu coração desistir. Porque quero uma vida com esse garoto. Quero amar, viver e rir. Estou determinada. E meu coração pulsante ecoa esse desejo.

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Epílogo Cromwell Cinco anos depois...

O sol incide sobre mim enquanto sento no banco. Fecho os olhos e levanto meu rosto. O calor se espalha por minhas bochechas e escuto amarelos-mostardas e bronzes. Pássaros cantando e folhas farfalhando. Então elas chegam; as notas que sempre filtram em meu cérebro as cores mais brilhantes. Cores explodem em padrões complexos. Abro os olhos e anoto-as no meu caderno.

“Easton!” Azul-violeta explode na minha cabeça enquanto a voz de Bonnie é carregada pelo vento. Olho para cima e vejo rosa enquanto a risada de Bonnie segue atrás. Bonnie corre ao redor da árvore, suas bochechas coradas. Ela avança para frente e uma risadinha de cor amarela explode atrás dela. Sorrio quando nosso filho, Easton, pula da árvore e agarra suas pernas. Bonnie se vira e o pega em seus braços. Ela o lança no ar, e sua risada vai de amarelo pálido para uma sombra brilhante o suficiente para rivalizar com o sol.

TILLIE COLE


Bonnie e eu tivemos um filho. Ainda não consigo acreditar. Casamos logo após a faculdade, e Bonnie me acompanhou por todo mundo em qualquer lugar que tocasse. Depois do concerto de gala, nunca mais nos separamos. Nem mesmo por uma noite. Nunca a deixei longe. Com sua realidade cardíaca, jamais tivemos qualquer garantia de tempo. Mas chegamos tão longe. E seu coração está forte. No fundo da minha alma sempre acreditei que Bonnie viveria uma vida longa. E quando um milagre aconteceu e o bebê Easton nasceu, sabia que ela nunca nos deixaria para trás. Farraday desafiou as probabilidades. Porque isso foi tudo. Essa era a vida que ela desejava. Foi o seu sonho. Ser esposa e mãe. E ela é perfeita em ambos. Meu coração derrete quando escuto Bonnie começar a cantar. O azulvioleta dança em minha mente. Não consigo afastar os olhos dela enquanto canta para o nosso menino, olhando para ela como se fosse o mundo dele. E ela é. Para nós dois. Azul-violeta, brancos e rosas tocam uma canção de ninar na minha cabeça. Quando termina, Easton se vira para mim, sorrindo com covinhas e diz: “Papai! Mamãe canta tão azul quanto o céu.” Meu coração incha quando Bonnie dá uma risadinha e beija sua bochecha. Porque Easton é como eu, tanto na aparência quanto na alma. Ele também é como o seu avô Lewis, a quem ele ama além das palavras. Bonnie coloca Easton no chão e ele corre para mim. Eu o pego em meus braços e beijo sua bochecha rechonchuda. Easton ri, o som o mais vívido dos amarelos. Easton senta no meu colo no banco. Bonnie passa pelo túmulo de seu irmão e coloca a mão sobre a lápide. Sempre

TILLIE COLE


estamos aqui, Bonnie não consegue ficar longe do seu irmão por muito tempo. Mesmo na morte, eles estão ligados um ao outro. Seu coração compartilhado ainda bate forte. E como ela lhe disse uma vez ― que estava determinada a viver uma vida para os dois. Ela faz exatamente isso. Com cada respiração, ela vive. Ela está feliz. E por causa dela, eu também. Bonnie se aproxima de mim e se enrosca ao meu lado. Passo meu braço ao seu redor e ela fecha os olhos. “Cantarole para mim o que você compôs.” Então faço. Sempre faço o que ela pede. Aprendi que a vida é muito curta para negar algo para ela. Cantarolo as cores que invadiram minha cabeça enquanto estou sentado aqui neste banco, minha esposa e meu filho ouvem. E não consigo imaginar uma vida mais perfeita que essa. Componho todos os dias, faço música que habita em meu coração, vivendo a vida que sempre quis viver. Tenho meu filho, que me mostra como amar mais do que podia imaginar. E tenho minha Bonnie. Minha garota que inspira a música que vem do meu coração. A garota que sempre está ao meu lado. A garota que é a pessoa mais corajosa que conheço. A mais bonita. A mais perfeita. A garota que com um único sorriso, ilumina completamente meu mundo. Sei que onde quer que meu pai e Easton estejam; eles olham para nós, sorrindo. Orgulhosos das pessoas que nos tornamos. Felizes com a paz que encontramos. E contentes em saber que nunca mais desperdiçaríamos um único suspiro.

TILLIE COLE


Com esse pensamento reconfortante, uma brisa morna flui sobre nós, trazendo com ela um manto de paz. Um pássaro canta sua canção acima, presenteia meus olhos com explosões de prata. Então, uma pomba branca pousa na lápide de Easton. Parecendo olhar diretamente para nós... ... e dou um sorriso.

TILLIE COLE

A Wish For Us - Tillie Cole  
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