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Copyright © Penny Reed Título Original: Neanderthal Seeks Human (Knitting in the City #1) Editor-Chefe| Patrícia K. Azevedo Assistente de Desenvolvimento| Jhenifer Barroca Tadutor| Roger Oliveira – Fênix Produções Editoriais Revisor| Maira Andrezani – Fênix Produções Editoriais Copidesque| Cristiane Coelho – Fênix Produções Editoriais Diagramação| Cris Spezzaferro Texto de acordo com as normas do Novo Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa (1990), em vigor desde 1° de Janeiro de 2009. Os personagens e as situações desta obra são reais apenas o universo da ficção; não se referem a pessoas e fatos concretos, e sobre eles não emitem opinião. É proibida a reprodução total e parcial desta obra, de qualquer forma ou por qualquer meio eletrônico, mecânico, inclusive por meio de processos xerográficos, incluindo ainda o uso da internet, sem permissão expressa da Editora, na pessoa de seu editor (Lei 9.610 de 19/02/1998). Todos os direitos desta edição reservados para 3DEA Editora Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) R353 Red, Penny Neandertal procura humano/ Penny Reid; tradução de Roger Oliveira Brasília: 3DEA Editora,2018 Nº de páginas ; 16x23 cm Tradução de: Neanderthal Seeks Human (Knitting in the City #1 ISBN 978-85-93964-30-5 1. Literatura Estrangeira. I. Título.


Sumário Dedicatória Capítulo 1 Capítulo 2 Capítulo 3 Capítulo 4 Capítulo 5 Capítulo 6 Capítulo 7 Capítulo 8 Capítulo 9 Capítulo 10 Capítulo 11 Capítulo 12 Capítulo 13 Capítulo 14 Capítulo 15 Capítulo 16 Capítulo 17 Capítulo 18 Capítulo 19 Capítulo 20 Capítulo 21 Capítulo 22 Capítulo 23 Capítulo 24 Capítulo 25 Capítulo 26 Capítulo 27 Capítulo 28 Epílogo


CDD: 820


Dedicatória Para o meu computador: eu não poderia ter escrito isso sem você. Para os desenvolvedores de software responsáveis pela verificação ortográfica: Vocês são meus heróis do dia a dia. Para Karen: Espero que isso faça você rir e te deixe orgulhosa. Aos meus leitores (todos os 3): Obrigada


Capítulo 1 Eu o perdi no banheiro Sentada no vaso, comecei a entrar em pânico ao notar o cemitério de rolos de papel higiênico acabados. Os cilindros pardos tinham sido intensionalmente colocados na vertical, para formar uma metade oval no topo da superfície brilhante do suporte de papel de aço inoxidável. Era como uma espécie de Stonehenge reciclado em miniatura, no banheiro feminino. Um monumento causado pelos movimentos intestinais dos últimos dias. Na verdade, foi por volta das 14h30, quando meu dia saiu do “reino da música Country ruim” e entrou no território vizinho da “péssima carta Natalina anual da tia Ethel”. No ano passado, tia Ethel escreveu com uma sinceridade imensa sobre a gota do tio Joe e do seu — não o primeiro, mas o segundo — acidente de carro. Escreveu também, sobre o novo buraco no quintal, o despejo iminente do estacionamento de trailers e o divórcio da prima Serena. Para ser sincera, Serena se divorciava todo ano, então isso não contava para o cálculo das catástrofes anuais. Respirei fundo e alcancei o suporte. Minhas mãos procurando o papel, apenas encontraram outro rolo vazio. Inclinando-me num ângulo extraordinariamente desajeitado, tentei inspecionar as profundezas do suporte, esperando que houvesse outro rolo escondido, na parte interna. E, para meu desespero, o suporte estava vazio. — Merda — eu disse. Meio sussurrando, meio gemendo e, subitamente, ri da minha piada, que era apropriada dada a minha situação atual. Um sorriso amargo permaneceu em meus lábios enquanto rangi meus dentes e, as quatro palavras que estavam flutuando em minha mente durante todo o dia, ressurgiram “Pior. Dia. De. todos.” Era, literalmente, um dia extremamente de merda. Como toda boa música Country, tudo começou com uma traição boba. A “traída” na música, obviamente não era outra, senão eu. E o “traidor” era o meu namorado, Jon. A descoberta de sua canalhice chegou por meio de um pacote de camisinha vazio, enfiado no bolso de trás de sua calça jeans, enquanto eu, a respeitosa namorada idiota, fazia um favor a ele, lavando algumas de suas roupas. Refleti sobre a discussão que aconteceu depois que o pacote de preservativo que encontrei bateu na testa dele, com a palma da minha mão junto. Eu não pude deixar de pensar que Jon poderia ter um bom argumento. Estava chateada com ele por ter me traído, ou estava decepcionada por ele ter sido tão idiota, a ponto de colocar o pacote no bolso depois de tirar o preservativo? Forcei-me a pensar sobre o que eu disse mais cedo, naquela manhã.


— Quero dizer, realmente, quem faz isso, Jon? Quem pensa “Vou trair minha namorada, mas tenho muita consciência social para deixar a camisinha no chão. O céu proíbe que eu jogue lixo no chão.” Eu olhei para a porta de fórmica azul e branca da minha cabine, mordendo meu lábio inferior, contemplando minhas opções e tentando decidir se ficar na cabine pelo resto do dia, era realmente viável. Inferno! Neste momento, ficar na cabine para o resto da minha vida parecia uma boa opção. Particularmente porque eu realmente não tinha para onde ir. O apartamento que Jon e eu dividíamos, pertencia a seus pais. Insisti em pagar o aluguel, mas minha contribuição insignificante de US$500 mais metade das contas, provavelmente não cobriu 1/16 do custo dos dois quartos e dois banheiros, no centro da cidade. Acho que parte de mim sempre soube que ele era um traste. De qualquer forma, ele era bom demais para ser verdade. Parecia ser todas as coisas que sempre pensei que eu queria em um homem (e ainda acreditava que queria). Inteligente, engraçado, meigo, simpático com sua família, bonito e agradável, de certo modo. Compartilhamos pontos de vista políticos parecidos, visões ideológicas e valores quase idênticos. Tínhamos até a mesma religião. Ele aguentou minhas excentricidades e até disse que eu era fofa, mesmo que “estranha” fosse a palavra que eu mais estava acostumada a ouvir, sobre mim. Ele tinha atitudes românticas. Era um galanteador, em uma época em que o cortejo estava morto. Na faculdade, me escreveu poesia antes mesmo de namorarmos. Foi uma boa poesia, relacionada aos meus interesses e ao atual clima político. Gentilmente aqueceu meu coração, mas não fez meu coração balançar. Porém, convenhamos, eu não era um tipo de garota que se deixava abalar facilmente. Uma grande diferença entre nós, no entanto, era que ele nasceu em berço de ouro — tinha muito, mas muito dinheiro — Este foi um espinho em nosso relacionamento desde o começo. Eu, cuidadosamente, media cada despesa e cuidava do meu orçamento mensal. Ele comprava o que quisesse, sempre que quisesse. Por mais que eu detestasse admitir, achava que devia muito a ele. Sempre me perguntei se ele ou o pai — que sempre quis que eu o chamasse de Jeff, mas a quem sempre me senti mais à vontade chamando de Sr. Holesome — mexeram os pauzinhos que me levaram à entrevista do meu emprego. Mesmo depois da nossa “briga”, pois foi o mais próximo que já chegamos a uma briga, esta manhã ele disse que eu poderia ficar, que deveria ficar, que ele queria resolver as coisas entre nós. Também disse que queria cuidar de mim, que eu precisava dele. Eu cerrei meus dentes, travei meu queixo e fiquei firme na


minha determinação. Não havia como eu ficar com ele. Não me importava quão inteligente, engraçado ou aceitável ele era. Não importava o quanto minha cabeça dizia que a aceitação acolhedora às minhas esquisitices, significava que ele era “o cara”, ou até mesmo como era bom não ter o peso esmagador do aluguel de Chicago, fazendo sobrar dinheiro para gastar com meus preciosos ingressos, revistas em quadrinhos e sapatos de marca. Não havia absolutamente maneira alguma de ficar com ele. De jeito nenhum, José. Um calor desconfortável que eu suprimi durante o dia inteiro, começou a subir no meu peito e minha garganta se apertou. O rolo de papel higiênico terminado, que foi a gota d’agua, me encarou do suporte. Lutei contra a súbita vontade de arrancá-lo de lá e exigir minha vingança, despedaçando-o. Depois disso, eu cuidaria do “Stonehenge dos rolos vazios” . Eu podia imaginar claramente a equipe de segurança do prédio, sendo acionada para me tirar do banheiro feminino do segundo andar. Os restos mortais do rolo de papelão ao meu redor, minha calcinha, ainda nos tornozelos, enquanto eu apontava acusadoramente para meus colegas de trabalho e gritava “Da próxima vez, substitua o rolo! Substitua o rolo!” Fechei meus olhos. Anotação mental “meus ex-colegas de trabalho”. A porta da cabine ficou turva enquanto meus olhos se enchiam de lágrimas, ao mesmo tempo em que uma risada estridente saia dos meus lábios. Eu sabia que estava me aventurando no território desconhecido, da cidade dos loucos. Como as músicas Country fazem, a tragédia do dia se desenrolou em um ritmo cuidadoso e constante, enquanto eu, metodicamente, abri caminho através de uma lista mental de tudo o que tinha acontecido “Nenhum condicionador, me deixando com o cabelo selvagem, volumoso e parecido com um ninho — Checado! Quebrar o salto dos sapatos novos, na grade de esgoto — Checado! Estação de trem fechada, para uma construção não programada — Checado! Perder as lentes de contato, depois de esbarrarem no meu ombro enquanto a multidão saía do elevador — Checado! Derramar café na minha melhor (e favorita) camisa de botão branca — Acho que posso acrescentar isso na minha lista de desejos. E, finalmente, ligar para o escritório do chefe e informar que o trabalho havia sido reduzido — Checagem dupla!” Era exatamente por isso, que odiava insistir em problemas pessoais. Exatamente por isso, que me esquivar de pensamentos e sentimentos crus, era muito mais seguro do que a alternativa. Eu não tinha desmoronado — realmente — desde a morte da minha mãe. E nenhum cara, emprego ou série de eventos degradantes, poderiam me obrigar a fazer isso, agora. Afinal, de agora em


diante, eu poderia lidar com isso. Ou é o que eu digo para mim mesma, para poder acreditar. No começo tentei afastar a umidade dos meus olhos, mas depois os fechei e, pelo menos pela terceira vez naquele dia, usei as estratégias de enfrentamento que aprendi durante meu ano obrigatório de psicanálise adolescente. Me vi envolvendo a raiva, mágoa e as bordas duras e desgastadas da minha sanidade menta, em uma toalha de praia grande e colorida e, então, coloquei o pacote enrolado em uma caixa. Eu tranquei a caixa. Coloquei a caixa na prateleira de cima do meu armário imaginário, apaguei a luz e fechei a porta do armário. Eu ia tirar a emoção da situação, sem evitar a realidade. Depois de várias tentativas de conter as lágrimas e conseguir com um esforço enorme, finalmente reprimi o desânimo ameaçador e abri os olhos. Olhei para baixo e fiz uma análise da minha aparência “chinelos cor de rosa emprestados para substituir meu par de Jimmy Choos, saia cinza na altura do joelho e salpicada de café, emprestada e apertada demais, usando um decote em V vermelho, para substituir a minha camisa de algodão favorita; meu afro estridente e acidental. Empurrei meus velhos óculos de aro preto, substituindo as lentes de contatos que havia perdido, mais para o meu nariz. Me senti mais calma e controlada, apesar da minha “não escolha” de moda questionável. E agora, sentada na cabine, a dormência se instalando em mim como um abismo fresco bem-vindo, eu sabia que o meu problema com o papel higiênico era superável. Endireitei meus ombros com uma firme determinação. Todos os meus outros problemas, no entanto, teriam que esperar. De qualquer forma, não é como se eles fossem para algum lugar. Quando me aproximei da minha mesa — retificando, minha ex-mesa — não pude deixar de pensar no círculo de rostos curiosos que espreitavam em volta do meu cubículo. Os olhos arregalados, lançando olhares em minha direção. Eles ficavam em um lugar apropriado; perto o suficiente para ver minha vergonha se desdobrando, mas longe o suficiente para passar por uma distância socialmente aceitável. Me perguntava o que esse tipo de comportamento dizia sobre minha espécie. Qual a comparação mais próxima que eu poderia usar, como uma semelhança entre essa ação e as espécies menores no reino animal? Eram tubarões, circulando em volta de uma gota de sangue? Imaginei nessa analogia, que os tubarões estariam, ao contrário, desejando banquetear-se com meu drama, meu desânimo e meu desconforto. Me entreguei à curiosidade etnográfica e estudei o grupo que pairava, não sentindo realmente o


constrangimento que deveria ter precipitado a minha saída, mas sim observando os curiosos. Tentei ler seus rostos, tentando descobrir o que eles esperavam conseguir ou ganhar. Eu estava envolvida no meu distanciamento e aproximei-me de mim. Não percebi o barulho de passos se aproximando atrás de mim, nem percebi que um silêncio havia caído ao redor do meu cubículo, até que dois dedos grandes tocaram leve, porém firmemente, no meu ombro. Virei, me sentindo segura e meio aturdida ao mesmo tempo, e olhei da mão — que agora estava em meu cotovelo — passando para o braço forte, subindo pela curva do ombro volumoso, mandíbula e queixo angulosos, até meus olhos encontrarem com os penetrantes e de tirar o fôlego, olhos azuis do Sr. Bonitão Calças-Quentes Eu me encolhi. Na verdade, foi mais um estremecimento seguido de um retraimento. E o nome dele não era ‘’Calças-Quentes’’. Eu não sabia o nome dele, mas sabia que era um dos seguranças da tarde do edifício, o qual eu tinha, inofensivamente, admirando — perseguindo — pelas últimas cinco semanas. Nunca soube o nome dele, porque eu tinha um namorado. Sem mencionar que ‘’Calças-Quentes’’ estava quase vinte mil níveis acima do meu (pelo menos no nível de aparências) e, segundo minha amiga Elizabeth, provavelmente ele era gay. Uma vez ela me disse que homens que se parecem com Sr. Calças-Quentes, geralmente queriam estar com outros homens que se parecessem com Sr. CalçasQuentes. Quem poderia culpá-los? Com mais frequência do que eu me sentia confortável em admitir, refletia sobre como ele era uma daquelas pessoas que tinham, decididamente, uma ótima aparência. Sua perfeição não deveria ter sido possível na natureza. Não era que ele fosse um cara bonito. Eu tinha certeza de que ele ficaria melhor vestido de mulher, do que noventa e nove por cento das mulheres que eu conhecia. Enfim, era tudo o que havia nele. Desde seu cabelo castanho-claro, consistentemente penteado, até o maxilar estonteantemente forte. Sem contar a boca perfeita, irresistivelmente impecável. Olhar para ele, fez meu peito doer. Mesmo seus movimentos eram graciosos, sem precisar de esforço, como alguém que estava habilmente confortável com o mundo e completamente seguro com o seu lugar nele. Ele me lembrou um falcão. Eu, por outro lado, sempre pairava no espaço entre a autoconsciência e o distanciamento estéril. Minha graça era semelhante à de uma avestruz. Quando minha cabeça não estava na areia, as pessoas olhavam para mim e, provavelmente, pensavam “que pássaro estranho”.


Nunca me senti confortável com as pessoas realmente lindas, da minha espécie. Portanto, ao longo das últimas cinco semanas, fui incapaz de responder ao seu olhar, sempre virando ou abaixando a cabeça muito antes de correr o risco disso acontecer. Eu achava que deveria ser como olhar diretamente para algo dolorosamente brilhante. Sendo assim, eu o admirava de longe, como se ele fosse uma obra de arte realmente incrível, como o tipo que você apenas vê em fotografias ou exibido por trás de vitrines, em museus. Minha amiga Elizabeth e eu, nos referimos carinhosamente a ele como. Bonitão Calças-Quentes. Mais precisamente, nós o intitulamos Sr. Bonitão Calças-Quentes uma noite, depois de beber muitos mojitos. Agora, olhando para as profundezas infinitas de seus olhos azuis através dos meus óculos de aro preto, os meus próprios olhos grandes piscaram e o manto protetor do entorpecimento, começou a escorregar. A sensação de puxão que se originou logo abaixo da minha costela esquerda, rapidamente se transformou em um calor latente que irradiava para as pontas dos meus dedos, subindo até a minha garganta, bochechas e atrás das minhas orelhas. Por que tem que ser o Sr. Calças-Quentes? Por que eles não mandaram o Coronel Bigode-de-Mostarda, ou a Senhorita Barrig-de-Geleia? Ele baixou a mão para o lado e, então, limpou a garganta. Tirou os olhos de mim e observou a sala ao redor. Senti meu rosto subitamente vermelho, uma experiência incomum para mim e mergulhei meu queixo no meu peito enquanto zombava de mim mesma, silenciosamente. Finalmente senti vergonha. Fiz um balanço do dia e minha reação a cada evento. Sabia que precisava trabalhar. Em focar no presente, sem ficar sobrecarregada. Eu percebi que estava demonstrando mais desespero sobre uma cabine com rolos de papel higiênico acabados e a presença de um segurança lindo, do que descobrir que meu namorado tinha me traído, o que levava ao meu estado atual de falta de moradia, sem mencionar o meu recente estado de desemprego. Enquanto isso, o Sr. Calças-Quentes parecia estar tão desconfortável com o que estava acontecendo ao redor e com a situação, quanto eu deveria estar. Eu podia sentir seus olhos se estreitando enquanto eles varriam a multidão suspensa. Ele limpou a garganta novamente, desta vez mais alto e, de repente, a sala estava viva, com todos desviando a atenção intencionalmente para o que deveriam fazer. Depois de examinar a sala mais uma vez, como se estivesse satisfeito com o efeito, ele voltou sua atenção para mim. Os impressionantes olhos azuis encontraram os meus e sua expressão pareceu suavizar. Imaginei que,


provavelmente, ele estaria com pena. Essa foi, que eu saiba, a primeira vez que ele olhou diretamente para mim. Eu o vigiava todos os dias, nas últimas cinco semanas. Ele foi o motivo pelo qual eu comecei a almoçar mais tarde, já que seu turno começava às 13h30. Era o motivo pelo qual eu, frequentemente, comia meu almoço no saguão. Foi por isso que, às 17h30, nos dias em que Elizabeth me encontrava depois do trabalho, comecei a perambular no saguão, junto aos arbustos e à fonte e olhava para ele através dos troncos das árvores atarracadas e palmeiras tropicais, sabendo que minha amiga não seria capaz de me encontrar no saguão antes das 18h. Calças-quentes e eu paramos por um momento, inquietos, olhando um para o outro. Minhas bochechas ainda estavam rosadas do meu rubor anterior, mas eu me maravilhei de ser capaz de manter seu olhar, sem desviar meus olhos. Talvez fosse porque eu já havia colocado a maioria dos meus sentimentos em uma caixa invisível, em um armário imaginável, dentro da minha cabeça. Talvez tenha sido porque percebi que era, provavelmente, o crepúsculo do nosso tempo juntos, o último dos meus momentos de perseguição, devido ao recente rompimento do meu emprego remunerado. Seja qual era o motivo, eu não queria desviar o olhar. Finalmente ele colocou as mãos nos quadris estreitos e ergueu o queixo em direção à minha mesa. Com sua voz grave e profunda, que estava um pouco acima do sussurro, perguntou: — Precisa de ajuda? Balancei a cabeça me sentindo como um desastre natural, mudo. Eu sabia que não estava lá para me ajudar. Ele estava lá para me levar para fora do prédio. Bufei rejeitando sua oferta. Estava determinada a fazer minha caminhada da vergonha. Eu me virei, empurrei meus óculos de aro preto no meu nariz levemente sardento e percorri a curta distância até a minha mesa. Os chinelos emprestados, faziam um som de bater contra o fundo dos meus pés a cada passo apressado: flap, flap, flap. Todos os meus pertences haviam sido colocados em uma caixa de arquivos marrom e branca por alguns funcionários do departamento de recursos humanos, enquanto eu esperava, como dito, em uma sala de reuniões. Olhei para a mesa vazia. Notei que onde o copo que guardava os lápis tinha estado uma vez, havia um círculo limpo cercado por um anel de poeira. Gostaria de saber se eles removeram os lápis antes de colocar o copo na caixa. Balançando a cabeça para limpá-la do meu devaneio ridículo e sem sentido, peguei a caixa que, inacreditavelmente, continha os últimos dois anos das minhas aspirações profissionais. Passei calmamente pelo Calças-Quentes, direto para a recepção e até os elevadores. Não o olhei, mas sabia que ele estava me seguindo mesmo antes dele parar ao meu lado, perto o suficiente para que seu


cotovelo roçasse no meu enquanto eu colocava a caixa no meu quadril e apontava o dedo para o botão. Podia sentir sua atenção ao meu lado, mas tentei não demonstrar. Em vez disso, observei os números digitais vermelhos, anunciando o andar de cada elevador. — Você quer que eu carregue isso? — Sua voz grave, quase um sussurro, soou da minha direita. Balancei a cabeça e deslizei os olhos para o lado sem me virar. Havia outras quatro pessoas esperando pelo elevador, além de nós. — Não, obrigada. Não está pesado, já que eles devem ter pego os meus lápis. Fiquei aliviada pelo tom da minha voz permanecer normal. Muitos segundos silenciosos se passaram, dando ao meu cérebro uma quantidade perigosa de tempo livre para viajar. Minha capacidade de foco estava diminuindo. Este era um problema frequente para mim. O tempo com meus pensamentos, especialmente quando estou ansiosa, não funciona a meu favor. Me disseram que a maioria das pessoas em situações estressantes, tem a tendência a ficar obcecadas com sua situação atual. Eles se perguntam como chegaram naquele momento e lutam com o que podem ,para evitar situações parecidas no futuro. No entanto, quanto mais estressante é a situação, menos penso sobre ou qualquer coisa relacionada a ela. Naquela hora, pensei em como os elevadores eram como cavalos mecânicos e me perguntei se alguém os amava ou dava nome a eles. Pensei em como eu poderia remover a palavra “hidratação” ou mesmo “hidratado”, do inglês. Eu realmente odiava o jeito que soava e sempre tentava evitar dizer isso. Também não gostava muito da palavra calça, mas me senti justificada recentemente quando “Mensa” foi contra aquela palavra horrível em uma declaração oficial, propondo que ela fosse removida da língua. Sr. Calças-Quentes pigarreou novamente, interrompendo minha preocupação com palavras com sons odiosos. Um dos elevadores estava aberto, a seta vermelha apontada para baixo e eu continuei parada, perdida em meus pensamentos, completamente inconsciente. Ninguém mais havia entrado no elevador e eu podia sentir todo mundo me observando. Me sacudi um pouco, tentando voltar para o presente. Senti Calças-Quentes colocar a mão nas minhas costas, guiando-me para frente com uma leve pressão. O calor da sua mão era sereno, mas deu um choque elétrico desconcertante na minha espinha. Ele levantou a outra mão na porta, deslizando-a pela parede, segurando o elevador para mim.


Rapidamente quebrei o contato e me acomodei em um dos cantos do elevador. Sr. Bonitão me seguiu, mas ficou parado em frente a porta, bloqueando a entrada. Apertou o botão para fechar a porta antes que alguém pudesse entrar. As portas se juntaram e ficamos sozinhos. Ele puxou uma chave em um cordão retrátil que estava em seu cinto e encaixou em um buraco na parte de cima do painel de botões. Assisti, enquanto ele pressionava um círculo escrito “BB”. Levantei uma sobrancelha e perguntei: — Vamos ao porão? Ele não me respondeu. Quando virou-se, me olhava de forma avaliadora. Estávamos em cantos opostos e, por um momento, imaginei que éramos dois boxeadores. O espaçoso elevador era o nosso ringue e os corrimãos ao redor, eram as cordas. Meus olhos o avaliaram em resposta. Ele definitivamente ganharia, se tivéssemos que lutar. Eu era alta para uma mulher, mas ele tinha, facilmente, algo entre 1,95m ou 2m de altura. Não me exercitava com seriedade ou intensidade desde meus dias de futebol, na faculdade. Ele, a julgar pela grande extensão de seus ombros, parecia que nunca perdia um dia na academia e podia me esmagar tanto quanto a caixa que eu estava segurando, mesmo que tivessem os lápis. Seus olhos pararam de me examinar, mas fixaram-se ao redor do meu pescoço. A sensação de “puxar” debaixo da minha costela esquerda, voltou. Senti que estava começando a corar novamente. Tentei conversar: — Não quis parecer vaga. Imagino que este prédio tem mais de um porão, embora eu nunca tenha visto as plantas. Vamos a um dos porões e, em caso afirmativo, por que vamos a um dos porões? Ele me olhou abruptamente e seu olhar era indecifravel. — Procedimento padrão — ele murmurou. — Ah. Suspirei e comecei a morder o meu lábio novamente. Claro que havia um procedimento padrão. Esta foi, provavelmente, uma experiência comum para ele. Me perguntava se eu era a única ex-funcionária que ele estaria acompanhando hoje. — Quantas vezes você fez isso? — Perguntei. — Isso? — Você sabe, escoltar as pessoas para fora do prédio depois que elas foram demitidas. Isso acontece todos os dias? As demissões, geralmente, acontecem nas tardes de sextas-feiras, a fim de evitar que os malucos voltem na mesma semana. Hoje é terça-feira, então você pode imaginar como fiquei surpresa. Com


base no padrão internacional adotado na maioria dos países ocidentais, terçafeira é o segundo dia da semana. Nos países que o domingo é o primeiro, a terçafeira é definida como o terceiro dia da semana. Cala a boca, cala a boca, cala a boca! Respirei fundo. Fechei minha boca e cerrei o maxilar para não falar. Eu percebi que ele me observava. Os olhos estreitando-se levemente e meu coração bateu tão forte em meu peito, que notei — pela segunda vez naquele dia — que estava com vergonha. Sabia como eu parecia. Meus verdadeiros amigos suavizaram o apelido, insistindo que eu era apenas uma pessoa bem instruída. Todos os outros diziam que eu era o cuco do Cocoa Puffs.. Embora eu fosse louca em assistir repetidas vezes ao Jeopardy e era uma parceira ideal e comprovada nos jogos de Trivial Pursuit, minha busca por conhecimentos triviais e a avalanche de coisas sem sentido que eu vomitava sem controle, pouco interessavam aos homens. Um momento de silêncio passou e, pela primeira vez, tentei focar no presente. Seus olhos azuis estavam perfurando os meus com uma intensidade desconcertante, prendendo o habitual desejo de viajar do meu cérebro. Pensei ter visto um canto de sua boca mexer, embora o movimento fosse quase imperceptível. Finalmente ele quebrou o silêncio. — Padrão internacional? — ISO 8601. Elementos de dados e formatos de alternação. Ele permite a interação sem interrupções entre diferentes órgãos, governos, agências e corporações. — Não pude evitar que palavras saíssem. Era uma doença. Então ele sorriu. Era um sorriso pequeno, de lábios fechados, rapidamente reprimido. Se eu tivesse piscado poderia ter perdido, mas o interesse falou mais alto. Ele se inclinou contra a parede do elevador atrás dele e cruzou os braços sobre o peito. As mangas do uniforme se esticaram nos ombros dele. — Conte-me sobre essa relação perfeita. — Seus olhos desceram lentamente para baixo e, no mesmo ritmo vagaroso, subiram para os meus, novamente. Abri minha boca para responder, mas logo fechei. Eu estava, súbita e inesperadamente, quente. Sua observação secreta, mas escancarada e divertida sobre mim, estava começando a me fazer pensar que ele era tão estranho quanto eu. Ele estava me deixando extremamente desconfortável. Sua atenção era um holofote ofuscante, do qual eu não pude escapar. Mudei a caixa para o meu outro quadril e desviei o olhar de sua busca. Sabia que agora havia sido esperta em evitar contato visual direto. Os costumes e


aceitabilidade do contato visual variam muito dependendo da cultura, como exemplo: no Japão, crianças em idade escolar... O elevador parou e as portas se abriram, me despertando de minhas lembranças das normas culturais japonesas. Eu me endireitei imediatamente e corri para a saída antes de perceber que não sabia para onde estava indo. Virei e olhei para Sr. Bonitão por baixo dos meus cílios. Mais uma vez ele colocou a mão nas minhas costas e me guiou. Eu senti o mesmo choque de antes. Nós caminhamos por um corredor pintado de cinza e bege indescritível, com luzes fluorescentes baixas. O “flap” dos chinelos ecoou pelo corredor vazio. Quando acelerei o passo para escapar da eletricidade do toque, ele apressou seu passo e a pressão permaneceu. Me perguntei se ele achava que eu era um risco ou um dos loucos que eu citei antes. Nós nos aproximamos de uma série de salas com janelas e congelei quando sua mão se moveu para o meu braço nu, logo acima do cotovelo. Engoli em seco, sentindo que minha reação ao contato simples era realmente ridícula, afinal de contas, era apenas a mão dele no meu braço. Ele me levou para uma das salas e me guiou até uma cadeira de madeira. Pegou a caixa das minhas mãos com um ar autoritário e a colocou na cadeira do meu lado. Haviam pessoas nos cubículos e escritórios, ao redor. Uma longa recepção e uma mulher vestida com o mesmo uniforme de segurança azul de Calças-Quentes, que estava no meio do espaço. Olhei em seus olhos. Ela piscou uma vez e franziu a testa para mim. — Não se mexa. Espere aqui — ele ordenou. Eu o vi sair e, em uma troca de olhares breve e com interesse, ele se aproximou da mulher que endureceu e se levantou. Sr. Calças-Quentes se inclinou sobre a mesa e apontou algo na tela do computador. Ela assentiu e olhou para mim, sua sobrancelha subindo. Eu achei que era problema, até que ela sentou e começou a digitar. Sr. Calças-Quentes virou e cometi o erro de olhar direto para ele. Por um momento, ele fez uma pausa, com a mesma firmeza inquietante no olhar, fazendo com que o mesmo calor subisse em minhas bochechas. Tive vontade de cobrir meu rosto ruborizado com as mãos. Veio em minha direção, mas foi parado por um homem mais velho em um terno bemfeito, segurando uma prancheta. Assisti a conversa deles com interesse também. Depois de tirar vários papéis da impressora, a mulher se aproximou de mim e me deu um sorriso de boca fechada, que chegou aos olhos enquanto ela atravessava a sala. Levantei e ela estendeu a mão. — Eu sou Joy. Você deve ser a Sra. Morris.


Balancei a cabeça uma vez, colocando uma mexa rebelde atrás da minha orelha. — Sim, mas, por favor, me chame de Janie. Muito prazer — eu disse. — Acho que você teve um dia difícil. — Joy sentou ao meu lado e não esperou que eu respondesse. — Não se preocupe com isso, hun. Acontece com todos nós. Só tem esses papéis para você assinar. Preciso do seu crachá, da sua chave e em seguida traremos o carro para você. — Han... o carro? — Sim, vai levar você aonde quer que você precise ir. — Ah, ok! — Fiquei surpresa em conseguir um carro, mas eu não queria dar muita importância para isso. Peguei a caneta que ela ofereceu e folheei os papéis. Eles pareciam bons o suficiente. Arrisquei olhar para o Sr. Bonitão e o vi me olhando enquanto ele parecia ouvir o homem de terno. Sem realmente ler o texto, assinei nos lugares que ela indicou, tirei meu crachá do pescoço junto com a minha chave e entreguei a ela. Ela pegou os documentos e rubricou ao lado do meu nome, em vários lugares. Quando chegou no campo do endereço do formulário, ela parou. — Este é o seu endereço atual e seu número de telefone residencial? Eu vi onde preenchi o endereço de Jon quando fui contratada pela primeira vez. Fiz uma careta. — Não, não é. Por quê? — Eles precisam de um lugar para enviar seu último pagamento. Além disso, também precisamos de um endereço atualizado, caso eles precisem enviar algo que possa ter sido esquecido. Preciso que você escreva seu endereço atual ao lado desse. Hesitei. Eu não sabia o que escrever. — Eu sinto muito, eu... — Engoli com esforço e verifiquei a página. — Eu apenas... na verdade, estou me mudando. Existe alguma maneira que eu possa retornar com a informação? — E quanto a um número de celular? Cerrei meus dentes. — Eu não tenho celular. Não acredito neles. Joy levantou as sobrancelhas. — Você não acredita neles? Queria dizer a ela como eu realmente detestava telefones celulares. Eu odiava o modo como faziam me sentir acessível vinte e quatro horas por dia. Era semelhante a ter um chip implantado em seu cérebro, que rastreia sua localização e lhe diz o que pensar e fazer até que, finalmente, você fica


completamente obcecado com a minúscula tela sensível ao toque, como a única interface entre sua existência e o mundo real. O mundo real existiria, se todos apenas interagissem pelo celular? Os Angry Birds, um dia, se tornariam minha realidade? Eu era o porco desavisado ou o pássaro explodindo? Essas reflexões baseadas em descartes, raramente me faziam popular nas festas. Talvez eu tenha lido muita ficção científica e muitos quadrinhos, mas os telefones celulares me lembraram dos implantes cerebrais do romance Neuromancer. Como mais uma prova, eu queria contar a ela sobre o recente artigo publicado na “Análise e Prevenção de Acidentes sobre direção de risco”. Em vez disso, eu apenas disse: — Eu não acredito neles. — O-o-o-o-k-a-y — disse ela. — Sem problema! Joy enfiou a mão no bolso do paletó e retirou um papel branco, retangular. — Aqui está o meu cartão. Só me ligar quando estiver resolvido e eu colocarei você no sistema. Peguei o cartão, prendendo as pontas nos meus polegares e dedos indicadores. — Obrigada. Farei isso. Joy veio até mim e pegou minha caixa, apontando com o ombro para eu seguila. — Vamos. Vou te levar para o carro.” Segui, mas como uma criança não muito obediente, me permiti olhar pelo ombro para Sr. Bonitão Calças-Quentes Ele estava de lado, não mais olhando para mim com aquele olhar desconcertante. Sua atenção estava totalmente fixa no homem do terno. Eu estava duas vezes aliviada e desapontada. Provavelmente esta foi a última vez que o veria. Tive o prazer de poder admirá-lo uma última vez, sem a intensidade ofuscante de seus olhos azuis. Mas parte de mim perdeu o calor que revirava no meu peito e a sensação de consciência real que eu senti quando seus olhos encontraram os meus.


Capítulo 2 O carro era uma Limusine. Eu nunca estive em uma limusine, então é claro que passei os primeiros minutos em choque, os próximos brincando com botões, e depois, vários minutos tentando limpar a bagunça feita por uma garrafa d’água que explodiu. Caiu das minhas mãos quando o motorista freou atrás de um táxi amarelo. O motorista me perguntou aonde eu queria ir. Queria dizer a Las Vegas, mas acho que não seria legal. No final, ele gentilmente concordou em dar uma volta enquanto eu fazia algumas ligações do telefone do carro. Uma das coisas boas — ou não tão legais, dependendo da sua perspectiva — em não ter um celular, é que você precisa lembrar os números das pessoas. Além disso, impede que você conheça gente insignificante. É quase impossível, para a maioria das pessoas, lembrar de um número a menos que use com frequência. Os telefones celulares, como as outras mídias sociais do nosso tempo, estimulam a coleção de amigos e contatos assim como a minha avó costumava colecionar xícaras de chá e colocá-las em sua cristaleira. Só que agora, as xícaras são as pessoas e o armário de louças é o Facebook. Minha primeira ligação foi para meu pai. Deixei uma mensagem pedindo para ele não ligar ou enviar um e-mail para o apartamento de Jon, explicando muito rápido que tinhamos terminado. Ligar para o meu pai, em retrospecto, foi mais superficial do que crítico. Ele nunca ligou ou escreveu, exceto para encaminhar e-mails. No entanto, era importante para mim que ele soubesse onde eu estava e que estava em segurança. A próxima foi Elizabeth. Felizmente, ela estava no intervalo quando liguei. Foi por sorte, afinal, ela era residente do departamento de emergência do Hospital Geral de Chicago. Eu comuniquei os fatos mais importantes “Jon me traiu, eu estava sem casa, precisava comprar um condicionador, perdi meu emprego”. Elizabeth ficou indignada com Jon. Foi generosa ao oferecer seu apartamento e seu condicionador. E foi simpatica em relação ao meu trabalho. Ela tinha um bom apartamento no norte de Chicago; muito pequeno para longo prazo, mas grande o suficiente para que eu não cheirasse a peixe depois de três dias. Fiquei aliviada quando ela logo afirmou que eu poderia ficar na casa dela, já que eu não tinha nenhum Plano B. Elizabeth também comentou que geralmente tinha que dormir no hospital, então, provavelmente, eu ficaria no apartamento mais do que ela. Fizemos um plano de ação: eu passaria no Jon rapidamente, pegaria o


essencial e depois iria para a casa dela. Voltaria no Jon na semana seguinte, para arrumar o restante das minhas coisas. Eu tinha bastante tempo, já que carga horaria de trabalho não significava muito naquele momento. Hesitei em pedir ao motorista para me esperar enquanto eu arrumava minhas coisas, mas no fim, não precisei. Ele estava escutando minha conversa e se ofereceu para voltar em duas horas. Enquanto empacotava, fiquei chocada com as poucas coisas que eu tinha. Três caixas e três malas foram o suficiente. Esse foi o total dos meus bens mundanos. A maior mala estava cheia de sapatos. A caixa maior estava cheia de HQs. As caixas, as malas e a minha caixa marrom e branca do trabalho, foram a soma de toda minha vida. Quando finalmente cheguei à casa de Elizabeth, algumas horas depois, o motorista da limusine — Vincent! Ele tinha catorze netos e foi nascido e criado no Queens — me ajudou a levar todas as coisas pelos dois lances de escadas até o apartamento. Elizabeth nos cumprimentou na porta e ajudou Vincent com as malas. Ela era só sorrisos e palavrões. Quando descarregamos a última caixa, Vincent me surpreendeu, pegando minha mão e a beijando. Seus olhos profundos, cor de chocolate, olharam nos meus. E ele disse, com um ar de sabedoria: — Se eu tivesse traído minha esposa, ela teria arrancado minhas bolas. Se você não quer castrar esse cara depois do que ele fez, então ele não te merece — ele assentiu como se afirmasse a verdade em suas palavras e virou-se rapidamente para a porta do lado do motorista. Como o final de um filme barato, ele nos deixou na rua, vendo a limusine partir para o pôr do sol. Elizabeth contou a história várias vezes naquela noite para o nosso grupo de tricô. Era a vez dela de ser anfitriã e eu a ajudei a comprar petiscos e vinho tinto. Cada vez que contava, Vincent ficava mais jovem, mais alto, mais musculoso e tinha cabelo mais grosso. Seu sotaque do Queens foi substituído por um sotaque siciliano carregado e seu casaco preto foi removido, deixando apenas uma camisa branca transparente, aberta até o meio do peito. A última vez que ela contou, ele olhou ansioso nos meus olhos e me pediu para fugir com ele. Eu, é claro, respondi que castrado ele seria inútil pra mim. Eu não me importava que Elizabeth fosse tão aberta com elas sobre o meu dia. Pensava nelas como nosso grupo de tricô, embora eu não soubesse um ponto de tricô. Me senti muito mais perto de cada uma delas do que das minhas próprias irmãs, por duas razões simples: nenhuma delas eram criminosas (que eu soubesse) e eu gostei da companhia delas.


Amei o quanto elas eram abertas, solidárias e não julgavam. É coisa de mulheres que gastam horas e horas tricotando um suéter com fios caros, quando poderiam comprar um por bem menos, — sem mencionar o tempo poupado — o que leva a aceitação e paciência para a condição humana. — Quem coloca o pacote de preservativo no bolso? Digo, hola, Señor Estúpito. Sandra, uma ruiva mal-humorada com um sotaque texano leve, franziu os lábios e ergueu as sobrancelhas, esperando, enquanto olhava pela sala. Ela era uma residente de psiquiatria no Hospital de Chicago e gostava de se referir a si mesma como Dra. Shrink. — Exatamente. Me senti um pouco justificada, então balancei a cabeça, assim como todas as outras na sala. —— Eu acho que você está melhor sem ele. — Ashley não tirou os olhos azuis do cachecol enquanto dava sua opinião. Seu cabelo castanho longo e liso, estava com uma trança estilosa. Ela era uma enfermeira do Tennessee e eu adorava ouvir o sotaque dela. — Eu nunca confio em um Jon sem h. John deveria ser escrito J-o-h-n, não J-o-n. Sandra apontou para Ashley e acrescentou: — E o sobrenome Holesome? Devia ser Assholesome ou Un-holesome. Ele é um bosta. — Acho que devemos perguntar a Janie como ela se sente com o término. Todas concordaram com a colocação prática da Fiona. Engenheira mecânica formada, mãe e dona de casa por opção, Fiona era, sem dúvida, a líder do grupo, e fazia todas se sentirem valorizadas e protegidas. Era dominante, mesmo com seu um metro e meio de altura. Ela parecia uma fada, com olhos grandes e cílios compridos bem encaixados em seu rosto pequeno e carrancudo, com um corte de cabelo prático de fada que ela sempre usava. Elizabeth e eu a conhecemos na faculdade. Ela era a Conselheira Residente no nosso alojamento do primeiro ano. Sempre a mãezona. Dei de ombros quando todas olharam para mim. “Eu não sei. De verdade, não estou tão brava com isso. Apenas ... irritada. Marie olhou para mim por cima do suéter de meia malha. — Você parecia muito abalada quando eu cheguei. — Encarei seus grandes olhos azuis antes dela continuar. — O lance com o Jon e ter perdido o seu emprego... Acho que você está mais chateada do que quer admitir. Marie era uma escritora freelance e artista. Eu invejava como seus cachos loiros sempre pareciam se comportar. Toda vez que eu a via, ela parecia ter acabado de filmar um comercial de xampu. Suspirei.


— Não é isso. Quer dizer, sim, eu não queria perder meu emprego, porque agora tenho que arrumar outro, mas eu não conseguiria fazer o que eu queria lá. Estudei para me tornar uma arquiteta, não virar uma assistente contábil em uma empresa de arquitetura. — Pelo menos conseguiu em uma empresa. Os empregos estão escassos. — Kat, a mais meiga do grupo, balançou a cabeça cheia de ondas castanhas. Apresentei Kat a Elizabeth quando descobri sua paixão pelo tricô. Kat também trabalhava na mesma empresa que eu — ex-empresa — como assistente administrativa executiva de dois dos parceiros. — Mas eles vão sentir sua falta, Janie. Você era, de longe, a mais competente do grupo empresarial — continuou. — Eles sempre dão limusines para os funcionários demitidos passar a tarde? — Ashley perguntou a Kat, demonstrando interesse. — Não que eu já tenha ouvido falar, porém as demissões sempre foram em grupos de cinco ou mais. — Kat franziu o nariz. — Isso é muito estranho. Eu vou ver. Me perguntei isso na limusine também. O dia inteiro à beira do ridículo e, de repente, a limusine e Vincent pareciam uma pequena subida na minha montanharussa de anomalias. — Você tem alguma ideia do porquê eles fizeram isso? Por que a dispensaram? — Sandra pegou seu vinho, perguntando para Kat e eu. — Não, mas eu vou tentar descobrir o que eu puder. — Kat ergueu as sobrancelhas, quando ela se virou para mim com olhos cerrados e suspeitos. — Embora, ouvi dizer que você foi escoltada por um dos seguranças do andar de baixo. Isso é verdade? Balancei a cabeça me sentindo desconfortável e estudei minha taça de vinho com um interesse profundo. — Espera. O que? Segurança? — Elizabeth se inclinou para frente e colocou a mão no meu braço. — Quem era? Tomei um gole do vinho e levantei meus ombros de um modo evasivo. — Uh, apenas um dos seguranças. A sala estava em silêncio enquanto eu tentava me afundar mais no sofá. Elizabeth jogou o tricô de lado e começou a saltar para cima e para baixo com entusiasmo. — AI... MEU... DEUS. Foi ele, não foi? Foi ELE! — Seu rabo de cavalo loiro balançou para frente e para trás. — Quem é ele? — Sandra parou de tricotar e cruzou os braços sobre o peito. Olhava de Elizabeth para mim e para Kat. Seus grandes olhos verdes percorrendo a sala, como uma bola de pingue-pongue.


Elizabeth se levantou de repente e correu para a cozinha. — Espera! Eu tenho uma foto! Meus olhos se arregalaram quando a observei sair. Eu a chamei: — Como assim você tem uma foto? Todo o tricô cessou, abruptamente. A última vez que todas pararam de tricotar no meio da malha, foi quando um entregador de pizza bonitão chegou e todas quiseram dar a gorjeta. Desta vez, todas começaram a falar ao mesmo tempo, mas a conversa diminuiu quando Elizabeth voltou para a sala com o telefone e se jogou no sofá, ao meu lado. — Eu o Kineei algumas vezes — disse Elizabeth enquanto passava as fotos. Ela olhou para os nossos rostos quietos e pálidos e levantou uma sobrancelha. — Vocês sabem, Kinnear, tirar uma foto escondida de alguém sem que ele saiba. Hello? Vocês não lêem o blog do Yarn Harlot? — Ah sim, eu ouvi falar. A Yarn Harlot não fez isso com Greg Kinnear no aeroporto ou algo assim? — Ashley colocou seu tricô no colo, apontando para Elizabeth. — Sim Sim. Ela escreveu sobre isso em seu blog e, em seguida, foi colocado no Urban Dictionary e no New York Times como revisão anual ou algo assim. — Elizabeth virou para mim e olhou, da minha boca aberta, para os meus olhos. — Oh, não fique tão chocada com isso. — Eu ainda quero saber quem ele é. — Sandra levantou e se inclinou sobre o ombro de Elizabeth, quando parou na primeira das fotos de Sr. Bonitão CalçasQuentes. Bebi outro gole do meu vinho. Todas as mulheres se agruparam ao redor do sofá quando Elizabeth passou o polegar pela tela do telefone. Apenas Fiona ficou sentada, esperando o drama passar. O grupo soltou um suspiro audível. — Santa gostosura, Batman. Quem é esse? — Os olhos azuis de Ashley estavam redondos como pires. — Esse é Sr. Bonitão Calças-Quentes. — Elizabeth parecia quase orgulhosa. — Ele é segurança no prédio da Kat e da Janie. Janie tem cobiçado ele desde que ele começou, há algumas semanas. Não sei o nome real dele, talvez Janie saiba. Kat assentiu e um pequeno sorriso surgiu em seus lábios. — Eu sei quem ele é. Janie não é a única que o notou. Marie riu enquanto se endireitava e voltava para o tricô abandonado. — Não admira que você esteja tipo “Jon quem?” — Porra, Janie, ele te algemou? — Sandra deu um soco no meu ombro. — Vocês se comeram com os olhos, no elevador? É por isso que você está refletindo meu suéter vermelho?


Não percebi que estava corando, até aquele momento. Coloquei minha taça de vinho de lado e pressionei minhas mãos nas minhas bochechas. Não é que eu fiquei constrangida com os comentários delas, muito pelo contrário. Gostei das provocações bem-humoradas. Eu sabia que estava corando devido à lembrança de seu olhar e da intensidade de seus olhos azuis, que se moviam sobre o meu corpo, e da força quente e serena de sua mão nas minhas costas e braço. Me senti mais afetada por ele, do que por todos os outros eventos que ocorreram antes da sua presença. Mesmo depois de todo esse tempo; depois do inferno que foi o meu dia. Cobri meu rosto com as mãos e balancei a cabeça. — Janie, aconteceu alguma coisa? — Senti Elizabeth se mexer no sofá enquanto se aproximava de mim. Sua voz era um misto de excitação e preocupação. — Não aconteceu nada. Acabei de falar com ele e vocês sabem muito bem que isso sempre acontece. — Deixei minhas mãos no rosto e suspirei. — Sobre o que você falou? — A voz suave de Fiona me fez sentir um pouco mais calma. — Eu ... eu falei sobre os dias da semana e o padrão internacional para atribuir números a dias da semana. — Minhas mãos caíram do meu rosto e todas me olhavam. — Oh céus, Janie! O que te fez dizer isso? — Ashley bufou quando ela riu, voltando sua atenção para a massa de fios tricotados em seu colo. — Não, espere, me conte tudo — disse Elizabeth ao passar o telefone, para Fiona poder ver as fotos. Elizabeth agarrou minhas mãos e me forçou a encarar seus olhos azuis. — Não deixe nada de fora. Comece do começo e repita o que aconteceu palavra por palavra, especialmente tudo o que ele disse. Então eu fiz. Tentei manter o foco enquanto repetia a história, sem permitir que minha mente vagasse e se expandisse em alguma tangente sem sentido. Quando repeti a parte sobre a ISO 8601 e como ele me pediu para aumentar a interação transparente entre os órgãos do governo, todas engasgaram. — Ah! O que você disse? — Sandra estava inclinada em sua cadeira. — Eu não posso acreditar que ele cantou você! Você respondeu a cantada? — O que? Não, não, ele não estava flertando comigo! — Eu balancei a cabeça com ênfase. — Oh, Janie, au contraire mon frère, ele estava, com certeza, cantando você. — Ashley balançou as sobrancelhas para mim, seus lábios deslizando para o lado em um sorriso travesso. Todas riram com o forte sotaque do Tennessee aplicado ao coloquialismo francês.


— Ele parece um tipo forte e quieto. Você deve ter causado uma impressão meio estranha e, mesmo assim, cantou você logo depois de ter sido demitida. Kat assentiu. — Eu concordo que seu timing poderia ter sido melhor, mas você deve ter causado uma boa impressão. — Claro que você causou. Olhe para você, você é deslumbrante. — O tom e a expressão de Fiona eram práticos, enquanto ela gesticulava para mim com uma mão. Olhei para ela com os olhos arregalados. — Você chama este grande fundo de poço, de deslumbrante? Marie deu uma risadinha. — Fundo de poço para alguns, é deslumbrante para outros. Não o critique por gostar de curvas em uma mulher. Pensando bem, agarre-o. A sala explodiu em risos e não pude evitar a risadinha sem fôlego que saiu dos meus pulmões. Eu não conseguia entender que ele estava atraído por mim, muito menos que me cantou. Tudo parecia estranho demais. Interrompi a alegria delas para terminar a história e todo mundo franziu a testa quando expliquei que saí com a segurança feminina e não falei com ele, nem me despedi. — Mas ele disse para você esperar — disse Kat — por que você não esperou por ele? — Tenho certeza de que não foi isso que ele quis dizer. Ele quis dizer “espere aqui” ou “espere pela papelada” — expliquei. Ashley sacudiu a cabeça. — Não, ele não disse. — Ela baixou a voz para um tom viril que realmente parecia muito com o Batman. — Não se mexa. Espere por mim? — Eu acho que você está fantasiando muito sobre isso. — Me levantei e comecei a recolher as taças de vinho vazias, me esticando ao fazer isso. O peso do dia fez meus ombros parecerem pesados. Eu estava cansada. — Eu me pergunto. — Fiona me deu um olhar de lado. — Você sempre foi sem noção com os caras? — Ah, é mesmo? — respondi. — Sim, é verdade — disse Elizabeth, entrando na conversa. — você é linda, mesmo que você não acredite. Um monte de caras gostam de peitão, cintura fina, bunda grande, pernas longas, tipo mulherão, que nem você. Inclua no pacote seu cabelo ruivo encaracolado e olhos grandes, cor de avelã. Algumas pessoas, inclusive eu, chamariam você de linda. Tentei, sem sucesso, mudar de assunto até que a noite chegou ao fim. Todas me amavam como eu era, claro. Elas diziam que eu era linda. A verdade é que eu simplesmente não gostava da minha aparência e toda essa conversa não mudou


minha opinião. Deitada no sofá de Elizabeth naquela noite, fiquei surpresa com a natureza dos meus pensamentos. Não conseguia parar de pensar nele. Repassei a conversa do elevador, tentando descobrir se ele realmente havia me cantado. Não que isso fosse importante, já que nunca mais o veria de novo. Me sentia quase normal, já que estava obcecada com algo tão mundano quanto se um cara que eu gostava, embora baseado apenas em atração física, achava que eu era atraente o suficiente para flertar comigo. No entanto, antes de permitir acreditar que estava me comportando de maneira completamente racional, lembrei a mim mesma que tinha acabado de terminar um relacionamento de muito tempo com alguém com quem eu pensava que ia me casar e perdi meu emprego no mesmo dia. Uma pessoa normal teria ficado obcecada com um ou ambos os eventos que alteram a vida. Meu último pensamento antes de cair no sono, era pesquisar a definição de Kinnear no Wikipédia.


Capítulo 3 Fui informada na manhã de sexta-feira, uma semana e meia depois do pior dia de todos os tempos, que a noite seria bombástica. E por bombástica, significava que Elizabeth tinha garantido convites VIP para um dos “clubes tops” mais procurados, como ela dizia. Acho que era a maneira moderna dela dizer “vamos a um novo bar”. Eu estava muito empolgada para encontrar um novo emprego e um novo apartamento, embora Elizabeth não tivesse feito nenhuma reclamação sobre a minha presença. Na verdade, ela chegou ao ponto de mencionar que o contrato de aluguel estava quase acabando, sugerindo que encontrássemos algo maior e continuássemos a morar juntas. A ideia me atraiu. Viver com Elizabeth seria uma excelente forma de me prevenir contra minhas tendências naturais de viver reclusa, já que eu sofro de agorafobia. Mesmo no meu relacionamento com Jon, sabíamos que eu precisava de uma quantidade generosa de espaço e de tempo sozinha, para me comportar com o devido carinho quando estivéssemos juntos. Talvez por isso ele tenha sentido a necessidade de me trair. A ideia me acertou em cheio e arquivei essa informação na memória. Nos últimos dias, eu vinha refletindo bastante referente ao meu atual estado de “perdas” — falta de moradia, falta de emprego e falta de relacionamentos —. Menos, nesse caso, não significava mais. Menos era um lugar instável e desconfortável para se estar. Jon foi meu primeiro namorado. Tive alguns encontros no ensino médio e na faculdade, mas foram somente um encontro. Jon foi o primeiro que não pareceu desconcertado com minha aleatoriedade desenfreada, pelo contrário, parecia gostar. Me perguntei se ele seria o único. O pensamento não me incomodou mais do que deveria. Na verdade, isso me incomodou muito menos do que o pensamento de nunca experimentar algo como o calor ardente da sensação que tive, durante os sete a doze minutos, com o segurança de olhos azuis. Falei só um pouco com Jon desde que terminamos e eu ainda precisava avaliar o que realmente senti durante a nossa conversa. Ele estava com raiva de mim. Na verdade, ele ficou indignado e gritou comigo nos primeiros minutos de conversa. Disse que descobriu que perdi o emprego pelo pai dele e queria saber o porquê de eu não pedir ajuda. Não conseguia acreditar nos meus ouvidos e levei alguns segundos para


responder. — Jon, é sério que perguntou isso? E como é que o Sr. Holesome, quero dizer, como é que o seu pai sabe? — Sim. É sério. Você precisa de mim, você é minha namorada... — Não! — Balancei a cabeça como se estivesse me convencendo. — Nada está decidido. Eu quero cuidar de você. Ainda te amo. Nós pertencemos um ao outro. — Ele parecia decidido e um pouco sombrio. — Você me traiu. Não estamos juntos. — Estava começando a ficar irritada, que era o mais perto que cheguei de sentir raiva. O ouvi suspirar do outro lado e então seu tom suavizou. — Janie, você sabe que nada mudou para mim? Foi uma vez. Não significou nada, eu estava bêbado. — Você estava sóbrio o suficiente para colocar o pacote da camisinha no seu bolso. Ele meio que rosnou, meio que riu. — Eu ainda quero cuidar de você. Me deixe cuidar de você. — Esse não é o seu papel... — Podemos ser amigos? — Ele me interrompeu. Sua voz era um pouco mais gentil. — Sim — eu quis dizer isso. Não queria perder sua amizade. — Sim. Nós devemos ser amigos. — Você vai me deixar cuidar de você? — Sua voz estava implorando. — Vai me deixar ajudá-la? Pensei sobre o que ele estava pedindo. Sabia que, com isso, ele queria dizer “apoio financeiro”. — Você pode me ajudar sendo um bom amigo. — E se eu não puder ser apenas amigo? — Eu podia sentir novamente o seu aborrecimento enquanto falava. — Não consigo pensar em nada além de você. Foi a minha vez de suspirar. Eu não conseguia pensar em nada para dizer. Bem, para ser mais exata, não consegui pensar em nada para dizer relacionado ao assunto da nossa conversa, mas pude pensar em muitas coisas para dizer, como o clima da Nova Guiné ou sobre os ancestrais pré-históricos do pássaro da secretária africana. Depois de um momento de silêncio, ele limpou a garganta. Quando falou de novo, sua voz soou firme. — Nada está decidido — disse novamente. — Quando posso te ver? Marcamos um horário para nos encontrarmos no sábado de manhã, em um local neutro. Nos despedimos e ele disse novamente que me amava. Eu não respondi.


Pensei sobre tudo o que aconteceu. Não senti uma necessidade absurda de lamentar a perda dele, ou dos cinco anos da nossa vida juntos. Para ter certeza dos meus sentimentos, me certifiquei de que a porta do armário invisível na minha cabeça estava aberta, a luz acesa e a caixa aberta, porém a indiferença permanecia. Eu sabia que minha preocupação com o trivial era uma consequência direta da morte da minha mãe, assim como o que meu terapeuta chamava de uma propensão natural a observar a vida ao invés de vivê-la. Chamou isso de autopreservação. Minha avó paterna, sempre uma fã de produtos farmacêuticos e intervenção médica, insistiu que eu precisava de terapia quando minha mãe morreu, então aos treze anos comecei a terapia. Eu pensava que terapia significava sentar em um divã, observar borrões de modo suspeito parecido com gotas de tinta e dizer que eu estava brava com minha mãe por suas atitudes, ou seja, por fugir com seu último amante; por ter morrido em um acidente de moto, por ela ter me deixado com meu pai — que é um tanto mal humorado embora bem-intencionado — e meus dois irmãos, ambos propensos a atividades criminosas; e com raiva dela por cozinhar tacos vegetarianos nas terças-feiras, na minha infância, em vez dos cachorros-quentes e batatas fritas que eu queria. O terapeuta fez todas essas coisas, mesmo que eu não estivesse brava. Eu apenas me sentia triste. Extremamente triste. Foi por isso, disse o terapeuta, que meu cérebro sempre dava uma reviravolta quando me deparava com situações emocionais difíceis ou desconfortáveis. No entanto, durante esse ano, também com relutância, aprendi estratégias que funcionavam. Aprendi que quando eu estava exausta, com estresse emocional, pequenas coisas poderiam ser um gatilho, como encontrar um banheiro sem papel higiênico. Minha vida tornou-se tão inacessível quanto o Monte Fuji. Porém, eu tinha certeza de que estava fazendo o meu melhor para simplesmente ficar em banho maria no final do meu relacionamento. A maior emoção que pude sentir, foi uma melancolia ansiosa com a possibilidade de perder a amizade de Jon. Admito que também senti uma pontada de arrependimento, quando percebi que já havia comprado um presente de aniversário para ele. Talvez isso tenha me deixado superficial. Elizabeth achou que eu estava em choque. Seja o que for, ponderei, uma vez que se passasse tempo suficiente , a verdade viria à tona . Eu gostava de pensar em mim como o Lancelote Gobbo, de “O Mercador de Veneza”, de Shakespeare. Até mesmo um homem tolo produzirá


alguma sabedoria, dando tempo suficiente para continuar a manobrar em um monólogo descontrolado. Como a maior parte do meu tempo foi gasto em monólogos descontrolados, mantive a esperança de alguma sabedoria. A procura de emprego estava no início. No entanto enviei, pelo menos, cem currículos, me candidatei a todos os empregos no Craigslist, nos quais eu poderia ser a menos qualificada e entrei em contato com todas as agências temporárias que consegui encontrar na área de Chicago. Estava determinada a arrumar um emprego. Eu tinha uma poupança escassa, mas não era apenas o dinheiro em questão. Não podia tirar uma licença sabática prolongada da classe trabalhadora, porque meu temperamento exigia que eu fosse, em todos os momentos, empregada remunerada. O reconhecimento de que meu temperamento era menos do que ideal para uma integração apropriada na sociedade, era a razão pela qual comecei a dar aulas de matemática e ciências para as crianças do ensino fundamental, toda quinta-feira à tarde e à noite. Evidentemente não foi por isso que continuei. Continuei por razões egoístas: as crianças gostavam de histórias em quadrinhos, eram engraçadas e eu gostava de fazer isso. Se estivesse por conta própria, acabaria me tornando uma eremita, se não fosse minha aula semanal no South Side. Eu sabia que, quanto mais tempo estivesse sem trabalho, mais desanimada ficaria. Até considerei aprender a tricotar. Acho que esta última revelação foi o que fez Elizabeth insistir em passarmos algum tempo sem regras, nos permitindo. E, portanto, estávamos destinadas a uma noite escandalosa, em uma balada sensacional. Os únicos itens que ela aprovou no meu guarda-roupa, foram meus sapatos. Na verdade, ela pegou emprestado um par de salto alto, que era imitação de couro de crocodilo laranja com um laço azul-turquesa no dedão. Eu usava um salto estampado de zebra e o resto da minha roupa veio do armário dela já que, segundo ela, eu tinha roupas de radiologista e sapatos de ginecologista, que é o mesmo que dizer que me vestia como uma bibliotecária com uma propensão a usar botas “me come”. Usávamos o mesmo tamanho de sapato, mas ela era, pelo menos, um tamanho menor em tudo, exceto na cintura. Ela tinha apenas dois vestidos que realmente se encaixavam no meu traseiro avantajado: um verde-oliva, de botão, estilo Mad Men anos 50 e um vestido preto simples de cintura fina, aberto nas costas, que caía muito bem nos seus ombros e quadris, mas que apenas esticavam e enrugavam os meus. O vestido preto ia até o meio da coxa. Me olhei no espelho. Depois olhei ansiosa para o vestido verde-oliva, ainda pendurado no armário. Ele batia na


altura do joelho. Elizabeth olhou nos meus olhos pelo espelho, com olhar ameaçador - em desaprovação - por cima do meu ombro. Viu minha atenção se desviando para o armário. Ela ganhou. Usei o vestido preto. Mesmo com as meias até as coxas para me cobrir, me senti exposta e, devo admitir, um pouco sórdida. Conseguimos entrar no clube sem dificuldades, apesar de uma longa fila de baladeiros cercarem o prédio. Elizabeth caminhou até a frente e entregou dois convites grandes para um homem de óculos escuros com dois bonitões de cada lado. Até onde eu pude perceber, o homem de óculos escuros não olhou para os bilhetes, mas tenho a nítida impressão de que ele estava nos secando por trás de suas lentes. Acenou com a cabeça apenas uma vez e então se moveu para o lado, para que pudéssemos passar. Elizabeth me lançou um sorriso radiante e despreocupado, quando o barulho de nossos saltos foi engolido pelos sons da selva do clube. Fiquei boquiaberta com o que nos cercava, inquieta e intrigada. Definitivamente, seria “A” experiência. Ela não me comunicou que o nome do clube era, na verdade, Outrageous. Para ser honesta, o Overwhelming teria sido um nome melhor. O interior do clube era, literalmente, uma selva. Réplicas de seis metros de árvores nativas da floresta tropical se erguiam acima de nós, e eu segui a linha de um dos troncos mais altos, que chegava até o teto. Havia sido pintado ou colado para parecer o dossel de uma floresta tropical. Luzes estrategicamente colocadas eram filtradas através dos pseudo-ramos, criando o efeito do crepúsculo no coração da Amazônia. O chão se inclinava para baixo da entrada e era impossível dizer o tamanho da sala. Imaginei em vez de ver que a maioria das paredes estava coberta de espelhos, o que multiplicava a atmosfera da selva em todas as direções. Um total de 428 anfíbios e 378 répteis foram classificados na floresta tropical brasileira. Me perguntei quantos foram representados no Outrageous naquela noite, disfarçados de seres humanos. Diferentemente da maioria dos clubes que tive a infelicidade de ir, a música no Club Outrageous não era opressiva ou onipresente. Eu reconheci a música tocando discretamente no som como The Mix-Up do The Beastie Boys, especificamente a música B For My Name; misturado com o álbum premiado no Grammy de 2007, transformado em pop instrumental com sons de animais selvagens da floresta tropical brasileira. Assim que o contrabaixo ressoou em um ritmo baixo, um chamado foi arrancado do que eu imaginei ser a rã-gigante indígena das regiões oeste e norte


do Brasil. Poderia ter sido uma espécie de sapo diferente, admito. Não estava familiarizada com todas as chamadas de sapo da Amazônia, mas, desde que li recentemente um artigo sobre a rã-gigante e o potencial medicinal de sua secreção cerosa que leva à biopirataria da espécie, foi a primeira rã que veio à mente. No centro da ampla sala, havia um enorme arco que, obviamente, se assemelhava a um desfiladeiro ou caverna de arenito corroído e, por baixo, havia um bar impressionante que também parecia ter sido esculpido no arenito. Uma cachoeira caía em cascata sobre o topo do arco, diretamente em uma piscina na base do bar. O chão em volta do bar estava iluminado por luzes azuis e, mesmo da entrada, podíamos ver a água fluindo por baixo de telhas de vidro transparente. Um movimento de pelos chamou minha atenção e me virei para uma jaula despercebida, entre onde estávamos e o centro da sala. — Olha. — Cheguei perto de Elizabeth e apontei para a gaiola. — Espera, isso é uma pessoa. Tem uma mulher lá dentro com o macaco e ela está... ela está nua! — Cobri a boca quando percebi que a mulher não estava sozinha. — Ai, meu Deus, parece que... Ai, meu Deus!! Elizabeth riu, aparentemente pela minha expressão e falta de capacidade de falar. Em uma inspeção mais minuciosa, notei que o clube executou um trabalho admirável ao fazer parecer que a mulher estava na gaiola quando, na verdade, ela foi envolvida em uma concha de acrílico separada, dentro da gaiola. Haviam várias gaiolas no clube. Algumas estavam no chão e outras estavam suspensas nas árvores. Cada uma das gaiolas continha um ou mais primatas ou macacos exóticos e um cilindro de acrílico no centro. No entanto, a mulher não estava sozinha dentro do cilindro. Dei meia volta ao redor da sala e fiquei impressionada. Meus olhos arregalados, enquanto se moviam de gaiola para gaiola, e minha boca aberta. Atrás, do lado, na frente ou ao redor de cada mulher nua, estava um homem vestido com um terno peludo que, obviamente, deveria combinar com o primata ou macaco na gaiola. A mulher e o homem estavam envolvidos no que eu só pude chamar de demonstrações abertas de afeto. Era difícil dizer com certeza o que estavam fazendo, sem se aventurar perto de uma das gaiolas e os observar por um bom tempo. Me senti um pouco enjoada. — Isso é angustiante. — Engoli seco, tentando olhar em qualquer lugar, além do estranho teatro ao redor. Elizabeth apenas riu levemente quando me puxou para o salão e eu lhe lancei um olhar firme. — Você sabia disso, não sabia? Ela balançou a cabeça. Lágrimas de alegria se acumulavam nos cantos de seus


olhos, enquanto passeávamos ao redor das árvores. — Não, não, juro que não! Acho que eles estão apenas se beijando. Eu não acho que eles estão, você sabe, fazendo aquilo. Paramos no bar e ficamos na frente de duas cadeiras que pareciam estar cobertas de pelo. Não quis me sentar. Olhei para Elizabeth de baixo dos meus cílios e não pude evitar o pequeno sorriso que formou na minha boca. Ela não fez nenhum movimento para se sentar, também. Eu não podia falar mais, devido ao meu extremo desconforto com a situação e Elizabeth não podia falar, pois foi atingida por um novo tsunami de risos. Sua diversão finalmente se tornou contagiosa demais para ignorar, quando a trilha sonora dos ruídos da selva incluiu um breve chamado (som) de uma arara. Não pude conter a risada e ela saiu do meu peito. Elizabeth apoiou o cotovelo no balcão e virou os olhos sorridentes para mim. — Eu não tinha ideia do que esperar, honestamente. Um dos meus pacientes me deu os ingressos. Tudo o que ele disse foi “Esteja preparada para algo escandaloso”. — Elizabeth virou para o bar e fez um sinal para o barman, inclinando a cabeça brevemente em minha direção. — Acho que eles mudam quase todos os meses e tentam se superar cada vez. — É sempre um tema da selva? — Torci meus lábios para o lado em um esforço para não rir, quando apontei minha cabeça discretamente em direção a uma das gaiolas. — Sinto muito pelos pobres macacos. Eu não quero ver isso e eu nem consigo imaginar como eles se sentem por estarem presos dentro dessas gaiolas giratórias. De repente, o cabelo da minha nuca estava em estado de alerta e eu tremi inexplicavelmente. Tive a impressão esmagadora de que estava sendo vigiada. Minha atenção percorria o chão do clube, enquanto tentava dominar a pressão onipresente associada à incerteza e à expectativa nervosa, mas não consegui encontrar nenhum olhar em minha direção. Tentei me livrar da sensação. Eu esperava que fosse apenas a combinação de ser uma voyeur contra minha vontade, com a angústia persistente que sentia em relação ao meu estado de nudez. O sorriso de Elizabeth desapareceu quando ela viu minha expressão e ela franziu a testa. — Ei! — Ela colocou uma das mãos sobre a minha. — Nós não temos que ficar. Por que não bebemos alguma coisa e saímos daqui? Pressionei meus lábios e balancei a cabeça. — Não, não, tudo bem. Eu estou bem. É só... — Suspirei e percorri a sala com os olhos, permitindo-me olhar além das gaiolas, mas para a multidão de frequentadores vestidos que, de alguma forma, deixei passar quando entrei. Ninguém estava dançando, o que era compreensível já que a música era baixa


e imperceptível. Em vez disso, sentaram-se em grandes almofadas em forma de círculo, que pareciam lírios gigantes. Outros grupos, principalmente pares, estavam aconchegados juntos, em cabines construídas nas bases das árvores. Todo mundo era lindo. Cada pessoa, naquele jeito brilhante, brilhante e plástico. Era como estar em uma sala de manequins animados. Suas bocas se moviam, mas raramente suas expressões mudavam. Tenho certeza de que havia pessoas famosas presente, mas não reconheci, de imediato, nenhum rosto. Comecei a sentir um conforto familiar me envolver, quando passei a observar o local. Ninguém me notaria nesta sala de mulheres de plástico, com membros perfeitos e vigorosos. — Eu estou bem — Finalmente percebi o olhar preocupado de Elizabeth e sorri quando o barman se aproximou. Ela me olhou com uma simples contemplação e acenou uma vez. — Está bem. Mas se você quiser ir, apenas me avise. Antes que pudéssemos pedir, um garçom barulhento e loiro, com olhos castanhos e grandes, colocou no balcão dois copos brilhantes que supus ser champanhe. Nos deu um sorriso torto que, de alguma forma, estava perfeitamente adequado ao seu sotaque australiano. — Senhoras, estas são para vocês. Também fui instruído a colocar qualquer outra coisa que vocês pedirem na mesma comanda. Sou o David. Me avisem se precisarem de alguma coisa. Elizabeth se recuperou mais rápido do que eu. — Hum... não sei se podemos aceitar, sem saber primeiro quem o instruiu. O sorriso dele se abriu e seus olhos se moveram em admiração evidente pelo vestido turquesa sedoso dela. — Não posso revelar. — Então nós não queremos. — Elizabeth empurrou os copos de volta para o barman, mas ele a parou, inclinando-se sobre o bar e aproximou seus lábios na orelha dela. Sussurrou algo que eu não pude ouvir e fiz uma careta. Minha atenção estava totalmente dividida entre o papo deles e o resto da sala. Quando ele se inclinou para trás, os olhos dela seguiram seu movimento sutil. Ele apenas sorriu o mesmo sorriso torto e piscou para ela. E acrescentou antes de sair: — Como disse, me avisem se precisarem de alguma coisa. Vi sua expressão intrigante. — O que ele disse? — Ele me pediu para beber o champanhe. Disse que se eu não bebesse, ele poderia se meter em encrenca. — Ela levou o líquido dourado aos lábios. Seus cílios negros escondendo os movimentos de seus olhos enquanto eles,


sorrateiramente, observavam os habitantes do bar com interesse renovado. — Isso é inesperado — eu disse, pegando meu copo obedientemente. Uma risada curta escapou de sua garganta, seguida por uma bufada extremamente imprópria. — Na verdade, não. Nós estamos sexys. — Ela inclinou o copo contra o meu e o levantou em um brinde. — Por estarmos sexys, conseguimos alguns agrados. Batemos um copo contra o outro e tomamos um gole do champanhe. Elizabeth continuou a observar o salão por cima do meu ombro quando, de repente, vi seus olhos se arregalarem e ela quase engasgou com o líquido borbulhante. Ela baixou a taça desajeitadamente e tossiu. Sua mão foi para o peito, mas seu olhar ainda estava fixo no meu ombro. — Janie. — Ela tossiu e tentou falar novamente. — Não vire... deixe-me pegar um pouco de água. — Comecei a andar em volta dela, mas ela estendeu a mão e me segurou no lugar. — Não! — Ela tossiu, engoliu em seco e baixou a voz para um sussurro rouco. Acrescentou — Não se mexa. Ele está aqui! — Olá. — Uma voz masculina falou atrás de mim e soou estranhamente familiar. Me virei em direção à voz e fui recebida pela forma deslumbrante do Sr. Bonitão Calças-Quentes, vestido com um terno e camisa preta aberta no pescoço. Seus surpreendentes olhos azuis dirigidos diretamente para mim.


Capítulo 4 Meu coração deu um sobressalto ao me virar e dar de cara com ele. — Oh meu Deus, é você! Percebi tarde demais que disse e pensei a mesma coisa, ao mesmo tempo. Ele sorriu maliciosamente. Seus olhos azuis percorreram sobre mim, desde lábios, pescoço, ombros, seios, até que encontrassem meus sapatos. A liberdade com que me olhava, fez com que eu tremesse e ficasse com as bochechas coradas e quente. Levou um tempo olhando meus sapatos, antes de subir o olhar. Quando, finalmente, seus olhos encontraram os meus novamente, ele, então, respondeu: — Sim, sou eu. Fiquei sem palavras. Foi como se meu cérebro apagasse e só consegui ficar olhando para ele, muda. Felizmente a voz de Elizabeth soou atrás de mim. — Olá. Sou Elizabeth. Os olhos azuis dele se moveram para além de mim, onde ela estava. Aproveitei esse momento para reorganizar minhas ideias e recuperar toda minha inteligência, que havia se espalhado por entre o chão do bar, no teto, enfim, se espalhado como o sangue de uma vítima baleada. — Oi, eu sou o Quinn — Disse ele, sorrindo, mas sem mostrar seus dentes. Dessa vez, um sorriso amigável, socialmente aceitável para a situação. Enquanto apertavam as mãos, eu pensava em algo para dizer. Quinn! Esse é seu nome. Devo me lembrar de chama-lo assim, e não de Sr. Bonitão CalçasQuentes. Com todo meu esforço, consegui apenas dizer: — O que você está fazendo aqui? — Porém, percebi que falei de maneira um pouco áspera, um tanto acusatória e me esforcei para não demonstrar minha tensão. — Estou trabalhando — Ele respondeu, virando-se para mim. — Você é um dos seguranças? — Meu cérebro, como um disco riscado, parecia estar preso em questões de fluxo de consciência. — Minha empresa...— Fez uma breve pausa, como se considerasse algo e, então, continuou — Minha empresa que faz a segurança desse lugar. — Ah! A mesma empresa que faz a segurança do Edifício Fairbanks — Afirmei. — O Edifício Fairbanks era onde eu trabalhava. Aos poucos fui relaxando e me acostumando a estar perto dele, já que sua presença no clube fazia sentido. No entanto, ainda era intrigante a presença dele no bar, conosco. Sem pensar, perguntei:


— Estamos com problemas? Surpreso, suas sobrancelhas se ergueram. — Depende. Você está em apuros? Eu assenti. — O que quero dizer é se aconteceu algo de errado. Foi por isso que te mandaram para cá? Balançou a cabeça e não respondeu imediatamente. Confusão e algo parecido com incerteza passaram pelo seu rosto. — Não, ninguém me mandou para cá. — Ah — eu disse e minha mente ficou em branco novamente. Ele estava me observando do mesmo modo que me observou no elevador, depois do meu episódio de tolice verbal. Um momento se passou até nos olharmos novamente. Então, ele inclinou a cabeça em direção às nossas taças de champanhe no bar. — Vocês duas estão comemorando alguma coisa? Olhei para Elizabeth pedindo ajuda, mas ela estava fingindo ler o cardápio de bebidas. — Não. Quando encontrei seu olhar novamente, o peguei me observando com um certo interesse. Sua atenção me irritava e meu cérebro indiferente se sentiu coberto em melaço. Meu corpo, no entanto, se sentia rígido e consciente. Senti cada peça de roupa que estava usando, me tocando. Meu sutiã sem costas e sem alças, parecia muito apertado; a maciez sedosa e acariciante do vestido, causou arrepios ao meu pescoço e braços; o atrito das minhas roupas de baixo e meias de renda, queimavam a parte interna das minhas coxas. Engoli com um grande esforço e me forcei a falar, sem pensar muito no que dizer. — Um dos pacientes de Elizabeth deu a ela os ingressos e ela queria me levar para sair, porque ela acha que estou desanimada. — Por causa do seu trabalho? — Ele perguntou se aproximando de mim, colocando a mão na barra entre nós. Sua proximidade fez meu coração disparar, e meu cérebro começou a agir lentamente, de novo. Palavras saíram sem controle. — Sim, isso e eu acabei de terminar com meu namorado. Embora eu não saiba se a separação é o termo certo para isso. É difícil encontrar palavras e frases que realmente reflitam as ações. Eu acho que faltam verbos no idioma inglês. O que eu realmente gosto são substantivos coletivos. A coisa boa sobre eles é que você pode usar qualquer palavra no idioma inglês como um substantivo coletivo, que permite atribuir os dois recursos, bem como os traços de caractere à coleção ou ao grupo. Embora alguns substantivos coletivos estejam bem estabelecidos.


Como exemplo, você sabe como é chamado um grupo de rinocerontes? Ele balançou a cabeça enquanto inclinava para o lado, me observando. — É chamado de acidente. Eu gosto de criar meus próprios nomes coletivos para as coisas, tipo, leve aquele grupo de mulheres para lá. — Eu indiquei por cima do ombro dele e ele se virou para ver para onde eu apontava. — Vê aquelas que parecem de plástico, perto do lírio roxo? Eu chamaria um grupo assim de “látex de senhoras”, com a palavra “látex” sendo o substantivo coletivo. E essas gaiolas com os macacos e os casais, as chamaria coletivamente de “gaiolas vulgares”, com a palavra “vulgar” sendo o substantivo coletivo. Ele levantou a mão para chamar a atenção do barman enquanto falava. — Eu os mudaria. Eu chamaria as “gaiolas de látex” de “gaiolas” e as mulheres de “mulheres vulgares”. Considerei seu comentário antes de responder. — Por que? Manteve o olhar no mesmo nível que o meu e me presenteou com um pequeno sorriso. — Porque o grupo de mulheres ali é mais vulgar do que o que acontece nas gaiolas e os casais nas gaiolas estão usando látex. O observei por um momento. Franzia testa, e então, olhei para uma das gaiolas para observar o casal. Mordi meu lábio enquanto os estudava. — As mulheres parecem completamente nuas e os homens estão de macacão. Onde está o, o... — Respirei fundo, meus olhos arregalados voltando para os dele. — Você está dizendo... eles são, são...? Ele riu e balançou a cabeça. Um sorriso largo e radiante iluminou seus olhos com diversão. — Não não. Eu garanto que eles não estão envolvidos em qualquer negócio de macaco. — Ele riu de novo enquanto me observava. — Sei que, de fato, tudo é coreografado. É um show. Estreitei meus olhos para ele. — É um show? Sua risada era profunda e aberta, e estava mexendo comigo, especialmente ao suspeitar que ele estava rindo de mim. Meu estômago se agitou, devido a sensação de constrangimento e apreensão. Estreitei meus olhos para ele, tentando ignorar as reações exageradas do meu corpo. — Ainda é constrangedor. Digo, você iria querer uma dessas gaiolas em sua casa? Ele continuou a sorrir com a minha incredulidade e respondeu: — Não com o macaco dentro. — O homem ou o primata? Rebati. — Nem um, nem outro — Seu olhar se estreitou imitando o meu e ele se


inclinou ainda mais perto. Engoli seco e consegui indagar: — Mas você iria querer a mulher? — Não aquela mulher. — Sua voz era tão baixa, que quase não ouvi sua resposta. Seus olhos se moveram dos meus e, novamente, passearam pelo meu cabelo, testa, nariz, bochechas e depois permaneceram nos meus lábios por mais tempo do que eu achava necessário... ou apropriado. Eu não sabia qual, mas tinha que haver uma palavra que transmitisse adequadamente meu desconforto naquele momento. — O que você precisa? — A pergunta educada do garçom soou à minha esquerda, o que, para meu alívio e desapontamento, fez Quinn desviar sua atenção dos meus lábios. — Ei, David, por favor, coloque o que as duas pedirem na minha conta, esta noite. — Disse Quinn. David balançou a cabeça lentamente. Seus olhos piscando para cima, como quem procura algo para dizer e, em seguida, de volta para Quinn. — Eu não posso fazer isso, Sr. Sullivan. Quinn franziu a testa. — Por que não? — Alguém já se ofereceu para pagar a conta. — O barman fez uma careta, enrijecendo os ombros. — Quem? — Quinn perguntou. A voz de David estava com um leve toque de incerteza quando ele respondeu. — Eu não posso te dizer. A resposta do barman surpreendeu Quinn. Eu poderia dizer isso, ao notar o estreitamento de seus olhos. Vi quando ele travou a mandíbula, antes que ele murmurasse em voz baixa: — Sim, você pode. Me virei para Elizabeth, mas ela estava distraída com seu Pager, o qual eu não havia notado até aquele momento. Eu dei a ela um olhar interrogativo enquanto ouvia a discussão de Quinn e David. Ouvi David suspirar. — Tudo bem, escuta, eu vou te dizer, mas não olhe para eles, ok? Eles foram generosos com a gorjeta. — Quem é? — Quinn não levantou a voz, mas seu tom claramente era de impaciência. — São os caras do segundo andar, não olhem para lá. Os do Camarote. — David suspirou novamente. Senti mais do que vi, Quinn se aproximando de mim enquanto eu suprimia a


minha vontade de olhar para o segundo andar, antes, despercebido. Me perguntei onde ficava o camarote. Antes que eu pudesse descobrir, senti um choque quando Quinn colocou a mão no meu braço acima do cotovelo e me virou para encará-lo. Seu olhar não era mais quente e amigável. Na verdade, parecia quase hostil quando se dirigiu a mim. — Você precisa sair. Seu toque, sua proximidade e a intensidade de seu olhar, fez com que minhas entranhas parecessem lava. Eu não conseguia entender minhas reações confusas e completamente involuntárias, causadas por ele. Era como se eu fosse outra pessoa. Talvez impulsiva, ou descontrolada. Resolvi me recompor e responder, mas, antes que pudesse abrir a boca, Elizabeth falou atrás de mim. — Sim, na verdade, nós precisamos ir — ela acenou com o Pager, deu um passo para o meu lado e me fez uma careta de desculpas. — Acabei de ser convocada. Eles precisam de mim no hospital. Desculpa Janie. Eu olhei para Elizabeth e Quinn, com uma expressão confusa. — Espere. Por que eu preciso ir? A mão de Quinn desceu em direção as minhas mãos pelo meu braço nu, fazendo com que eu estremecesse imediatamente. Seus dedos se entrelaçaram aos meus. Ele me puxou impaciente e começou a me levar para a entrada enquanto falava. — Porque sua amiga está saindo e não é seguro estar em um clube como este sozinha, considerando o jeito que você está. — Mas... — gaguejei, tentando entender o que estava acontecendo e o significado de suas palavras, mas meu corpo ainda estava dolorosamente consciente, focando onde sua mão segurava a minha, e minha mente estava completamente distraída. Mais uma vez olhei para Elizabeth pedindo ajuda, mas ela já estava a alguma distância atrás de nós e eu não tinha certeza de que ela podia ouvir nossa conversa. Ele não estava se movendo muito rápido, então andamos de mãos dadas, lado a lado. Finalmente, eu disse: — O que há de errado com a minha aparência? E eu não estou segura com você? — Minhas perguntas repentinas e sem pensar estavam de volta. Ele me olhou pelo canto dos olhos e hesitou um momento antes de falar, como se estivesse prestes a contar um segredo, relutante. — Não necessariamente. — Eu não posso ficar aqui?


Ele soltou minha mão e colocou a sua nas minhas costas, me pressionando para frente enquanto respondia: — Não. Você não pode. A pressão das suas mãos na base da minha espinha, lembrou de como ele me acompanhou até o porão no meu pior dia de todos os tempos, e me senti ofendida. Meu aborrecimento aumentou quando ele acrescentou: — Alguém como você não deveria estar aqui, vestida dessa forma. Me afastei dele abruptamente e parei de andar. Estávamos a cerca de três metros da entrada. Suas palavras pareciam uma bola de neve indo de encontro com a minha cara. — Alguém como eu? — perguntei, ajeitando meus ombros, mesmo quando senti um rubor irritante se espalhando pelo meu pescoço e pelas minhas bochechas. Olhei em volta, para os manequins animados e perfeitos no clube e sabia exatamente o que ele queria dizer. Eu estava acostumada a falar sobre minha estranheza e há muito tempo resolvi aceitar o constrangimento da minha aparência, mas o comentário improvisado vindo dele — a fonte ignorante de minhas fantasias de perseguição de uma semana atrás —, abriu uma ferida que meu pensamento havia se curado. Uma cicatriz oculta há muito tempo. Sua atenção seguiu meus movimentos quando me afastei, uma mistura de surpresa, aborrecimento e confusão aparente em seu rosto. Ele deu um passo para diminuir a distância entre nós e pegou minha mão, mas cruzei os braços sobre o peito para evitar mais contato. Me deparei com minhas emoções oscilando. Eu não gostei de como eu estava desequilibrada, especialmente quando ele me tocou. Não gostei de ter dado a ele algum poder estranho sobre minhas emoções e reações físicas, só porque ele era bonito. Não gostei de como meu corpo parecia ter a intenção de sabotar meu cérebro, especialmente porque meu cérebro era tão bom em se sabotar. A queimação na boca do meu estômago foi substituída por um gelo na barriga. Eu me senti enjoada e insensata. — Acho que posso percorrer os últimos metros sem precisar de escolta. Eu sei andar. Tentei não notar o quão bonito ele parecia em seu terno preto e eu dei a ele o que eu esperava que fosse um olhar fulminante, mas suspeitei que era meramente um olhar bravo. Passei por ele e fui direto para a porta. Não olhei para trás quando saí do clube e dei as boas-vindas ao vento da cidade de Chicago. Elizabeth deve ter ficado a uma boa distância atrás de mim, porque ela não se juntou a mim durante alguns minutos. Isso me deu tempo suficiente para pensar


em um turbilhão de aborrecimentos e constrangimentos. Quando ela finalmente chegou, estava em seu celular, obviamente falando com o hospital. Me deu um imenso sorriso, cutucou meu cotovelo com o dela e murmurou: — Ai meu Deus! Fiz uma careta para sua expressão radiante e balancei a cabeça. Elizabeth cobriu o microfone do celular, para impedir que ouvissem nossa conversa do outro lado do telefone. Uma ruga de questionamento estava entre as sobrancelhas e seu sorriso foi substituído por uma sensata preocupação. — Pensei que você estivesse nas nuvens — ela disse em um sussurro um tanto alto, indicando o clube com um rápido aceno de cabeça. — Ele estava flertando com você. Suspirei e me afastei dela. — Não, ele não estava. — O que? Você está louca? Ele está completamente na sua. Ele... Sim. — Vi quando Elizabeth voltou sua atenção para a voz do outro lado do telefone. — Sim, eu ainda estou aqui. Ignorei o resto de sua conversa ao telefone. Meus pensamentos eram uma nuvem negra de mau humor focada no meu distúrbio de personalidade e características gigantescas. Havia poucas vezes na vida em que eu realmente desejava parecer outra pessoa. Simplesmente ser diferente da pessoa que eu sou: a filha do meio de uma família de três garotas, e aquela que é universalmente reconhecida como “a espertalhona do bando” . Nós éramos as garotas Morris. Minha irmã mais velha, June Morris, era a bonita, eu era a esperta e minha irmã mais nova, Jem Morris, era a louca. A primeira prisão de Jem foi quando ela tinha nove anos, pouco depois da morte da nossa mãe. Ela esfaqueou a mão de um de seus professores com uma faca de cafeteria e disse à polícia que tinha uma bomba escondida na escola. Mesmo quando jovem, eu estava em paz com minha família e meu lugar nela. Nos últimos anos, tanto June quanto Jem se tornaram conhecidas, juntas, como criminosas. June tinha acabado de ser declarada inocente, na Califórnia, por sua parte em dirigir um “serviço de acompanhantes organizado”, como meu pai chamava. Ele era educado demais para dizer que era seu negócio de prostituição. A última vez que ouvi falar de Jem, ela estava comandando uma loja de chope em Massachusetts, nos arredores de Boston. Para ser honesta, June e Jem eram, ambas, líderes em seus respectivos projetos, mestres em seus ofícios. Enquanto isso, fui para a faculdade para me tornar arquiteta, e o mais perto que cheguei, foi perceber que meu sonho era manter um emprego — arranjado pelo pai do meu namorado da época — como assistente contábil em uma empresa medíocre.


Eu nem sabia mais qual era meu sonho. Elizabeth me puxou de volta para o presente com um puxão no meu braço, enquanto ela me levava em direção a um táxi que estava me esperando. — Aqui — ela colocou dinheiro na minha mão. — Basta ir ao apartamento. Vou pegar um outro táxi para o hospital, já que é na direção oposta — ela me deu um abraço rápido, enquanto eu olhava para o dinheiro na minha mão. — A gente conversa, amanhã. Não estarei em casa até a tarde. Assenti estupidamente quando ela me empurrou para a porta aberta, fechou, acenou pela janela, depois se virou para chamar outro táxi. O carro estava andando. Fiz uma careta para a pilha de notas na minha mão. Me perguntava por que minhas irmãs eram tão destemidas. Me perguntei se eu havia perdido esse gene, junto com o gene da beleza de June e o gene maluco de Jem. Me perguntava por que todos — Jon, Elizabeth e até certo ponto o Sr. Quinn Calças-quentes — sentiam que eu precisava de supervisão. Alguém para me acompanhar, cuidar de mim, me dizer o que fazer e me apontar a “direção certa”. — Para onde? — o tom grave do taxista cortou minha preocupação atordoada, e percebi que já tínhamos andado dois quarteirões. — Aonde vamos? — sua voz soou novamente da frente. Rapidamente considerei minhas opções. Eu poderia voltar para o apartamento, ler meu livro novo sobre a história das infecções virais e abraçar minhas tendências eremitas, ou pedir ao motorista que ligasse o táxi, me levasse de volta ao clube e — apenas por uma noite — viver minha vida sem proteção enquanto eu tentava destravar meu gene destemido de “Morris Girl”. — Me leve de volta para o Outrageous.


Capítulo 5 Há momentos, depois de beber muito álcool, em que me pergunto o que os proibicionistas estavam fazendo, quando criaram o termo “bebida demoníaca”. Parecia que eu tinha um demônio dentro de mim, que estava apunhalando meus olhos com um saca-rolhas, despedaçando meu cérebro com um garfo, enrolando algodão na minha garganta e usando chuteiras enquanto pulava dentro da minha bexiga. Esta foi apenas a terceira vez que tive ressaca e, como todas as outras vezes, prometi a mim mesma que seria a última vez. A primeira vez não foi minha culpa. Minha irmã mais nova, Jem, diluiu meu café da manhã — que era um suco de laranja — em vodca. Isso na manhã do vestibular. Ela disse que era uma bebida proteica e manteria meu cérebro alerta. Acabei vomitando em todo o meu exame e o inspetor gritou, alegando que arruinei seu registro perfeito de administração de testes. Na segunda vez eu estava com Jon em um barzinho perto da casa dos pais dele, em Hamptons. Ele me pediu uma bebida chamada “The Hurricane”, que não tinha gosto de nada além de suco de frutas. Acabei pedindo vários — gostei dos pequenos guarda-chuvas e outros apetrechos que enfeitavam a borda do copo — o que me levou a ficar enjoada na praia. Desmaiei na areia e Jon, sendo apenas da minha altura e magro, não era forte o suficiente para me levantar. Ele teve que chamar dois de seus amigos para ajudá-lo a me pegar e me levar de volta para a pousada. Quando acordei, queria morrer. Agora, deitada de bruços em uma cama estranha, com a boca saboreando o que a ‘’Morte serviu no Dia de Ação de Graça’’ sabia três coisas: eu não estava no apartamento de Elizabeth, eu estava usando apenas meu sutiã, meias até as coxas e calcinha, e eu queria morrer. Apertei meus olhos com mais força, querendo adiar minha colisão com a realidade pelo maior tempo possível, e voltei a dormir. Não tinha certeza de quanto tempo passou enquanto eu estava lá, esperando que minha fada madrinha aparecesse junto com passarinhos e ratos falantes, me vestisse de jeans e camiseta, me colocasse em uma carruagem de abóbora e me mandasse para o Starbucks, para tomar um latte de soja. Quando finalmente abri meus olhos, todas as minhas afirmações desagradáveis anteriores, se mostraram verdadeiras. Eu não estava no apartamento da Elizabeth. Na verdade, eu não tinha a menor ideia de onde estava. Engoli com muito esforço e, com minha boca livre de saliva, lentamente olhei pelo quarto. Meus olhos estavam secos e tive que piscar várias vezes, tanto em resposta ao brilho implacável do mundo, quanto à secura


resultante de dormir com minhas lentes de contatos. Quando meus olhos ficaram adequadamente lubrificados, escaneei a minha volta. Era enorme, com paredes de tijolos vermelhos expostos e estava pouco decorado. O teto era de ladrilho, enferrujado em alguns lugares e bege em todos os outros. Não havia luminárias suspensas. Raios de sol penetravam através de altas janelas, ao longo de dois lados anexos do cômodo. Perto da cama havia uma luminária de pé, que estava desligada. O chão era de cimento queimado. Do meu ponto de vista, vi apenas cinco outros móveis além do colchão e da luminária: uma mesa de desenho, uma cadeira alta, de madeira, para a escrivaninha, uma estante de livros, um sofá de couro marrom e uma mesa lateral. A mesa de desenho estava coberta de papéis e a estante estava cheia do que parecia ser peças de máquinas. Eu estava usando apenas meu sutiã, meias e calcinha. Confirmei isso ao espiar sob o lençol branco, acumulado no meio das minhas costas. Olhei de novo ao redor do quarto e encontrei o meu vestido dobrado ao meio, nas costas da cadeira de madeira, e meus sapatos bem arrumados debaixo da mesa. Lutei para me sentar e encontrar equilíbrio verticalmente. Minhas mãos automaticamente foram para os meus seios, para ajustar o sutiã sem alças e garantir que os cobrisse. Meu cabelo caiu até a parte inferior da minha coluna, em um emaranhado de cachos volumoso e insustentáveis. Deve ter se soltado em algum momento, durante a noite. Elizabeth chamava minha juba, de cabelo. Eu chamava isso de “a minha ruína de cabelo”. O mantinha comprido, porque parecia muito pior curto, ficando para cima ou para fora, em ângulos estranhos. Pelo menos quando estava longo, quase obedecia à gravidade. Eu queria morrer. Quase na hora em que sentei no colchão, pouco antes que eu conseguisse focalizar o mundo e minha situação atual, percebi o som da água correndo, vindo de uma porta à direita da cama. Um súbito raio de pânico atingiu meu coração e enrijeci, imediatamente lamentando o movimento deselegante que resultou em uma pontada de dor nas minhas têmporas. Fechei os olhos e respirei fundo. Respirei fundo várias vezes. Fui até o armário invisível na minha cabeça e fiz os movimentos de embrulhar o pânico na toalha de praia. Me atrapalhei com a tampa da caixa. Finalmente encontrei a maldita chave da caixa e a coloquei na fechadura. Tentei ignorar o tremor das minhas mãos, enquanto o fingimento em minha cabeça colocava a caixa na prateleira de cima do armário, rapidamente apagava a luz e saia desse faz de conta, correndo e gritando. Eu precisava me concentrar. Eu realmente precisava. Tinha que sair daqui antes que a pessoa misteriosa saísse do banheiro. Minha


memória estava desenhando uma completa lacuna. Eu não tinha ideia se a pessoa misteriosa era um homem ou uma mulher. Neste momento, eu não tinha certeza se eu realmente tinha uma preferência de gênero, mas fiquei um pouco aliviada com o fato de não ver macacões jogados ao lado da cama, ou no chão. Corri até a cadeira, peguei meu vestido e rapidamente coloquei pela cabeça. Parecia tão inadequado à luz do dia quanto na noite anterior. Deslizei os pés em meus sapatos, quando ouvi a água ser cortada no banheiro. — Ai, Deus! — eu não encontrei minha bolsa. Meu olhar varreu a mesa e a cadeira, mas não havia nenhuma bolsa. Meus olhos dispararam para o sofá de couro marrom e a mesa lateral — mais uma vez, sem bolsa. Fui na ponta dos pés até o colchão Queen e levantei os lençóis. O box estava diretamente no chão e não precisei olhar por debaixo da cama. Desisti da minha busca pela bolsa e, em vez disso, comecei a procurar por um telefone, no quarto. No entanto, antes que eu pudesse iniciar minha primeira busca, ouvi a maçaneta da porta do banheiro girar e respirei fundo. Era isso. Esta seria a minha segunda caminhada da vergonha, em duas semanas. Eu só esperava que quem quer que estivesse do outro lado da porta, não insistisse em um café da manhã com contato visual. A pior parte não foi apenas o fato de que a noite tinha sido resultado de minha estupidez — e talvez uma infinidade de doenças venéreas incuráveis —, ou meu constrangimento imediato com a situação, mas sim que Jon e Elizabeth estavam certos: eu precisava de proteção. Eu tinha tendências reclusas por um motivo: não podia confiar em viver no mundo e tomar decisões, sozinha. Engoli de novo. Pousei a mão no estômago e me virei para encarar a porta. Quando ele emergiu, pensei que estava alucinando ou, no mínimo, ainda desmaiada da minha noite de bebedeira desordenada. Eu tive que piscar várias vezes para entender, e várias vezes mais para aceitar que o Sr. Calças Quente estava parado na porta, vestido apenas com uma toalha branca enrolada em volta da cintura, como se não importasse se ela continuasse no lugar ou caísse no chão. Eu voto no chão! Mesmo com a dor persistente da minha ressaca, não pude deixar de olhar para a perfeição dele, de seu peito nu, braços e barriga. Cada parte dele parecia Photoshopada. Por fim, depois do que pareceu uma hora mas que realmente poderia ter sido quatro segundos, percebi que estava olhando para o rosto dele e o encarei. Ele não estava sorrindo. Na verdade, a expressão dele não era fria, nem quente, nem repugnada ou satisfeita, mas completamente ilegível. Ficamos de pé, olhando um


para o outro. Eu, com uma mistura não ardente de luxúria, mortificação e completo espanto, e ele com uma máscara de mármore, calma. Este impasse durou por um tempo indeterminável. Ele foi o primeiro a desviar o olhar, passando seus olhos pela minha forma, agora vestida. Tremi involuntariamente. Finalmente ele tirou sua atenção de mim e andou para dentro da sala, passando pela estante de livros. — Acredito que você esteja procurando por isso. Observei como os músculos de suas costas se moviam, ainda muda com sua aparição repentina. Facilmente alcançou o topo da estante e pegou minha bolsa. Seus pés descalços quase não fizeram barulho quando ele foi para onde eu estava e me entregou. Peguei a bolsa e a enfiei debaixo do braço. — Obrigada. — Minha voz estava surpreendentemente calma, dado o fato de que meu cérebro, coração, pulmões, estômago e partes íntimas estavam todos se alvoroçando. Eu estava determinada a não ficar instável. Não ia ser afetada por ele. — De nada — ele respondeu. Seus olhos deslizando pelo meu rosto. Sem aviso, descaradamente estendeu a mão, puxou uma mecha grossa e fofa do meu emaranhado de cabelos sujos e enrolou-a em torno de seu dedo indicador. — Você tem muito cabelo. Ignorando um enxame de borboletas no meu estômago, assenti e pigarrei. — Sim, tenho. — Antes que eu pudesse me conter, continuei. — O cabelo é uma das características que definem os mamíferos. Rapidamente mordi meu lábio, para não contar a ele que havia apenas quatro espécies de mamíferos ainda vivos que pusessem ovos. Entre eles, o ornitorrinco e o tamanduá espinhoso (equidna) pouco divulgado. Todo mundo sempre se esquece do tamanduá espinhoso (equidna). Ele soltou a mecha de cabelo e cruzou os braços sobre o peito. — Quais são as outras características dos mamíferos? O observei atentamente por um minuto, prestes a lhe contar sobre as glândulas sudoríparas e os ossos do ouvido, mas então, um lampejo de memória da noite anterior penetrou em minha consciência. De repente, senti que ele estava tirando sarro de mim. Lembrei-me do absurdo da minha resposta a ele. Lembrei-me da maneira como meu cérebro e meu corpo estavam em completo conflito. Lembrei-me de suas palavras pouco antes da primeira vez que saí do clube — que lá não era lugar para alguém como eu —. Estava determinada a permanecer no controle, objetiva, invulnerável à sua perfeição física e aos seus olhos azuis cintilantes. Me concentrei em sua provocação e não gostei, especialmente, de ser


provocada quando não podia ter certeza de suas intenções e dei de ombros. — Não sei. Seus olhos se estreitaram pelo mais breve dos momentos enquanto ele me estudava, sua boca se curvou em uma carranca. Ele parecia descontente. Então disse: — O que você lembra sobre a noite passada? Levantei meu queixo, rangendo meus dentes. — Eu lembro de você me fazer sair do clube. — Você se lembra de alguma coisa depois disso? — Seu tom estava ponderado. Minha atenção se desviou para a esquerda e pisquei, tentando descobrir precisamente o que acontecera na noite anterior. Estava tão preocupada com a minha ressaca e com a minha fuga, que não parei para pensar em como eu tinha acabado no apartamento dele, na cama dele e de calcinha. Eu estava falando enquanto pensava e, antes de perceber, falei: — Não muito. Você estava lá e me lembro de sair do clube. — Em que momento? — ele interpôs. — Com Elizabeth. Saí com Elizabeth e ela me colocou em um táxi. Pedi ao motorista para me levar de volta. Quando voltei, o homem de óculos escuros acenou para mim, então eu... — meus olhos desfocaram, enquanto eu tentava resgatar as lembranças. — Quando entrei, esbarrei em um homem e ele disse que estava procurando por mim. Ele... — limpei minha garganta e apertei os olhos. Tinha certeza de que era alguém que eu conhecia, um homem que reconheci, mas não conseguia lembrar o rosto dele. — Acho que alguém me levou até umas escadas. Na verdade, parecia uma árvore, no início. Uma casa na árvore, mas era uma sala. — O Camarote — a voz de Quinn era normal, mas uma nitidez velada em seu tom, trouxe minha atenção de volta para ele. Ele colocou suas mãos nos quadris, seus olhos azuis escuros com algum pensamento ilegível. — O que mais você lembra? Estudei ele e aos meus próprios pensamentos por um momento, antes de continuar. — Não de muito — molhei meus lábios. Era verdade. Eu não me lembrava de muita coisa. Lembrei de me oferecerem algo e, quando bebi um gole, queimou. Não consegui distinguir o tamanho ou a forma da sala, nem nenhuma de suas características físicas, de forma concreta. Sabia que várias pessoas estavam presentes, porque me lembrava de ouvi-las rindo, mas não conseguia lembrar como elas eram. Foi como se eu tivesse


entrado no quarto da casa na árvore e fosse engolida por uma névoa negra. Um pensamento repentino me ocorreu e eu rapidamente passei meus braços em volta do meu corpo. — Isso acontece muito? Depois de beber? — O que? Perder a memória? — ele perguntou. — Sim — balancei a cabeça. — Não, não depois de beber. Quando te encontrei no camarote, não muito depois de pensar que você já tinha saído, você ainda estava acordada, mas não estava falando nada com sentido, então te carreguei para fora. — Espere, você me carregou? — meu corpo respondeu estranhamente a essa informação. Ele assentiu. — Sim, um dos nossos... — ele parecia buscar as palavras certas. — Um dos clientes do clube estava dançando com você, mas você não estava exatamente cooperando, e sim, criticando seus movimentos. Acho que alguém deve ter lhe dado alguma coisa — ele me examinou como se estivesse estudando cuidadosamente minha reação, ou se preparando para um surto. — Você quer dizer que alguém me deu bendothi... bethnzodiath... benzodiazepid... — bufei. Cerrei os dentes, respirei fundo e falei a palavra lentamente. — “Ben-zo-di-a-ze-pi-nas?” — Sim, acho que alguém colocou benzodiazepinas no que você bebeu, no Camarote. — Ai — torci minha boca para o lado e pensei em alguém me dando uma droga que servia para estupro. Parecia absurdo, mas não era impossível, especialmente considerando a minha falta de memória. Senti que seria melhor ter certeza. — Tem alguma farmácia nas proximidades? Quinn acenou com a cabeça. — Acredito que você pode tomar uma aspirina. Tem no banheiro. — Obrigada, mas eu estava pensando em fazer um teste. Você sabia que as farmácias os vendem, para detectar se você tem benzodiazepínicos no seu organismo? — ele ergueu as sobrancelhas no que eu interpretei como confusão, então senti a necessidade de esclarecer. — É um teste de urina, não uma punção venosa. Ele franziu a testa profundamente, seu tom incrédulo. — Como você sabe disso? Isso já aconteceu com você antes? — Não, não, eu nunca perdi minha memória e eu não sou muito de festa, clube, bar... essas coisas. Uma vez minha irmã batizou meu suco de laranja antes do vestibular, mas aquilo era apenas vodca. Outra vez que me embebedei, também foi um acidente.


— A outra vez? Você já ficou bêbada duas vezes? — sua cara suavizou e ele piscou para mim. Notei novamente que seus olhos eram muito azuis e seu peito estava muito nu. Não respondi imediatamente, pois não tinha certeza do que dizer, especialmente porque eu estava me sentindo desconfortável sob a pressão de seu peito nu. Por fim, encolhi os ombros usando uma tática que a Sandra me ensinou — a psiquiatra residente do meu grupo de tricô — e respondi sua pergunta com uma pergunta: — Quantas vezes você ficou bêbado? Ele deu um sorriso fraco. — Mais de duas — seu olhar era indecifrável. Me perguntei como ele poderia estar tão confortável não usando nada além de uma toalha, na frente de uma completa estranha. — Você se lembra de como chegou aqui? — Quinn inclinou a cabeça para o lado. O movimento me lembrou da nossa conversa no bar e do jeito que ele inclinou a cabeça ontem à noite. Busquei na minha memória. Minha cabeça começando a doer com o esforço, antes de eu lentamente balançar a cabeça. — Não, eu não me lembro de chegar aqui ou — eu disse e depois engoli antes de continuar — ou qualquer outra coisa. Ele se aproximou de mim e falou com a voz baixa: — Nada aconteceu — meus olhos se arregalaram, não entendendo imediatamente o que aquilo significava. — Não aconteceu nada ontem à noite. Pisquei. Abri minha boca para falar e então a fechei novamente. Nada aconteceu. Meus olhos se moveram para o queixo e depois baixaram para o peito dele. Nada aconteceu. Claro, nada aconteceu. Molhei meus lábios involuntariamente e balancei a cabeça. — Eu sei. — Minha voz soou como um grasnido. — Sério? — Ele perguntou. Assenti novamente. Meu coração deu um doloroso aperto no meu peito e eu me remexi. Não pude olhar em seus olhos. Não conseguia entender minha reação à declaração dele. “Nada aconteceu”. Por que me senti subitamente desapontada, quando deveria ter sentido apenas alívio? Não me entendi. Eu deveria saber que nada havia acontecido entre nós, assim que o vi saindo da porta do banheiro. Por que me senti surpresa? Claro, nada aconteceu. Claro, ele não estaria interessado em mim. Claro, ele está a cinquenta mil quilômetros da minha realidade. — Como você sabe? — respondeu, soando defensivo.


Dei um passo para trás e tentei passar a mão pelo meu cabelo, mas meus dedos encontraram emaranhados teimosos, de novo. — Eu entendi, ok? Preciso sair daqui. Que horas são? — Me virei e comecei a caminhar em direção ao sofá, procurando pela porta da frente. — Não parece que acredita em mim. Este é o apartamento da minha irmã. Eu juro, não aconteceu nada entre nós. — Ouvi a voz dele logo atrás de mim e soube que ele estava me seguindo. Me virei para encará-lo, não encontrando o seu olhar. — Não, eu realmente acredito em você. Eu sei com toda certeza que nada aconteceu — acrescentei recuperando o fôlego. — Claro que nada aconteceu. Parecia que ele não tinha ouvido a última parte. Quinn parou na minha frente novamente, estando a pelo menos alguns metros de distância desta vez. — Bom — ele balançou a cabeça e segurou a toalha na cintura. — Vamos tomar um café da manhã. — Você quer ir tomar café da manhã? — não pude esconder a surpresa do meu tom, quando finalmente encontrei seus olhos. Ele assentiu novamente e gaguejei. — Como - assim? Ele deu um sorriso cínico. — Não, obviamente eu vou vestir uma roupa. — Mas... — eu pisquei novamente, confusa. Precisava parar de piscar tanto. — Mas por que? Ele deu de ombros e, antes de voltar para o banheiro, disse: — Estou com fome. Você precisa de ovos e bacon para essa ressaca, e espero que você me conte mais sobre as características que definem os mamíferos. Tenho certeza que você sabe mais do que deixa transparecer.


Capítulo 6 O Pancake House Giavanni era um restaurante extremamente pequeno, ao ar livre, sem mesas. Uma bancada salpicada de cinza, em forma de L, na altura da cintura, percorria toda a extensão do estabelecimento, e banquetas curtas e circulares, estofadas com vinil vermelho, estavam presas no chão de madeira ao longo da borda do balcão. O lugar estava lotado. A fila se estendia pelo quarteirão, virava a esquina e se perdia de vista. As pessoas estavam, pacientemente, bebendo café do Dunkin ‘Donuts e lendo o jornal enquanto esperavam por um lugar para tomar café da manhã. Ao invés de ir para o final da fila, Quinn caminhou até duas banquetas visivelmente vazias, na extremidade mais distante do balcão, puxou uma placa de RESERVADA do topo de cada assento e fez sinal para eu sentar no banquinho ao lado da parede. Antes de responder, perguntei: — Você ligou e fez reservas? Ele balançou a cabeça negativamente. — Venha. Sente-se — disse ele, colocando a mão no meu braço acima do cotovelo e me puxou para o assento de vinil vermelho. — Eu quero saber mais sobre os mamíferos. — Sua boca torcida para um lado, em um sorriso mal escondido. Obedeci, franzindo a testa para ele e sua provocação. Antes de sairmos do apartamento, no entanto, depois que Quinn terminou de se vestir, sugeriu que eu olhasse nas roupas de sua irmã, caso eu quisesse usar alguma coisa no café da manhã além do meu minúsculo vestido preto. Todas as suas coisas estavam localizadas em uma sala próxima ao banheiro. Uma sala que se parecia muito mais como um enorme closet. Tive que passar pelo banheiro para chegar ao armário. Não me senti confortável em fuçar as coisas de outra pessoa e peguei a primeira roupa casual que vi — uma saia azul, na altura do joelho e uma camiseta preta com gola V — . Seus pés eram um tamanho menor, ou seja, usei meu salto estampado de zebra, no café da manhã. Felizmente a saia serviu perfeitamente. A camisa, no entanto, estava confortável no meu peito. O sutiã sem alças que eu usava era surpreendentemente favorável, mas também era push-up (sutiã que levanta e deixa os seios menores). Portanto, em conjunto com meu decote em “V” — normalmente meus decotes são discretos — ficaram audaciosos, visivelmente amplos. Pensei em remover o sutiã push-up sem alças, mas eu nunca fui uma daquelas garotas que ficam confortáveis sem sutiã. Sou muito agitada e me


movimento bastante. Lavei o rosto e usei o dedo para escovar os dentes, depois parei para me olhar no espelho. Minha cor, do norte da Europa, era especialmente pastel sob a luz brilhante e fluorescente do banheiro. Pele pálida e queimada ao invéz de bronzeada, um punhado de sardas, e cabelos, sobrancelhas e cílios ruivos. Me senti ligeiramente melhor depois dos pequenos ajustes, mas meu cabelo, no entanto, foi um desastre completo. Pensei em perguntar a Quinn se sua irmã tinha laços de cabelo, presilhas, cordas ou qualquer coisa que eu pudesse usar para domar a fera. No final, apenas usei a bagunça de nós, soltos nas minhas costas, nos meus ombros e, às vezes, na minha cara. Percebi que, na pior das hipoteses, poderia usá-lo para cobrir meus grandes seios. Enquanto caminhávamos para o café da manhã, Quinn afastou uma mecha de cabelos das minhas bochechas quando se tornou muito indisciplinada, o que, involuntariamente, fazia minha pele queimar e passar de pastel pálido à escarlate, e eu perdia todos os pensamentos ou foco. Aproveitei a brecha e falei sobre o conceito de segundos-bissextos, nanotecnologia e o inevitável elevador espacial que permitiria que a lua competisse com a Disney World, no quesito turístico. Quinn não falava muito, mas parecia ouvir com interesse enquanto eu expunha esses vários tópicos. Ele fazia perguntas periodicamente. O elevador espacial da lua, em particular, desencadeou uma avalanche de perguntas. Quando não tinha todas as respostas, prometi enviar-lhe um link para a página do projeto da NASA. E agora aqui estávamos nós, sentados em silêncio, no balcão. Eu estava presa entre ele e a parede, e olhei para o cardápio sem vê-lo. Talvez tenha sido o fato de eu ter ficado em silêncio pela primeira vez desde que saí do apartamento, mas me vi tentando ignorar a súbita, desconfortável, mas existente autoconsciência que, como alternativa, me dava arrepios e fazia meu pescoço ficar quente. Sua coxa encostou na minha e seu cotovelo roçou o meu de leve. Me inclinei contra a parede para ganhar a maior distância possível, mas não consegui evitar os pequenos toques no espaço apertado. Olhei para ele pelo canto dos meus olhos. Ele parecia completamente à vontade, estudando seu cardápio, indiferente à tortura gentil que sua proximidade descuidada me causava. Eu estava tão absorta em meu desconforto, que quando a garçonete falou comigo, levei um susto. — E aí, Quinn. Cadê a Shelly? Quem é sua amiga? — uma mulher baixa, de cabelos escuros, na casa dos cinquenta ou sessenta e poucos anos, me deu um sorriso breve e amigável, enquanto colocava duas canecas de café na nossa frente. Ela tinha o inconfundível pigarro de um fumante e, combinada com seu


forte sotaque do meio-oeste, soava como Mike Ditka. — Shelly saiu cedo esta manhã e não pôde vir. Esta é Janie. Janie, esta é Viki. Estupidamente estendi minha mão sobre o balcão e tentei parecer e soar mais composta do que me sentia. — Muito prazer, Viki. Ela levantou as mãos. — Oh, baby, minhas mãos estão cobertas de gordura. Você não vai querer apertar, a menos que queira lavar as mãos com aguarrás. — Uma risada profunda e rouca escapou de seus lábios quando ela tirou um bloco de notas e uma caneta. — Mas com certeza é um prazer te conhecer. Você é amiga da Shelly? Antes que eu pudesse responder que não conhecia Shelly, Quinn me interrompeu. — Ela está aqui comigo. Viki levantou a sobrancelha — era realmente uma sobrancelha única — no que imaginei ser surpresa, e sua boca formou um pequeno “O”. Senti seus olhos se moverem sobre mim com renovado interesse, o que me fez corar ... de novo. Segurei o cardápio com mais força e tentei engolir, mas essa simples ação foi difícil. — Isso é... — Viki piscou. Seus grandes olhos castanhos continuaram a me examinar, e sua boca se moveu, mas ela parecia procurar por palavras. Finalmente murmurou — Bem, isso é uma surpresa. Minhas bochechas queimaram. Eu podia ouvir meu coração tamborilar e o sangue correr entre as minhas orelhas. Sabia que essa Viki não queria ser indelicada. Ela parecia sinceramente perplexa, e, se eu estivesse lendo seu comportamento desajeitado corretamente, ela estava obviamente chocada com a possibilidade de que Quinn e eu pudéssemos estar lá como um casal. Senti a necessidade de me distanciar da ideia e ter certeza de que ela acreditava que isso também estava além do ridículo para mim. Preciso ter certeza de que ela sabe que eu sei que ele sabe que não está interessado. Estava começando a me confundir. Antes de perceber que estava falando, a diarreia verbal se espalhou. — Ai, não estamos juntos. Quer dizer, estamos sentados juntos e viemos para cá juntos, mas, obviamente, não estamos juntos. Como poderíamos estar juntos? Eu provavelmente nunca mais vou vê-lo depois de hoje. Nós nem somos amigos. Eu nem conheço ele. Quero dizer, você sabe, não realmente — inclinei minha cabeça em direção a ela e uma pequena risada explodiu dos meus lábios. — Você consegue imaginar? Seria como Planeta dos Macacos. Ele é Charlton Heston com todos os músculos e tal, e eu sou aquela garota macaca. Eles nunca poderiam estar juntos, porque seria como uma Neandertal com uma reprodução


humana e interespécies ... e isso não está certo. Embora os Neandertais estejam intimamente relacionados com os humanos e são de fato parte da mesma espécie. Se você quer precisão, eles são uma subespécie ou uma espécie alternativa de humanos. Olhei para ele e sorri sem mostrar os dentes. Eu esperava categoricamente que isso transmitisse confiança e ambivalência à óbvia diferença em nossa compatibilidade. Seus olhos, no entanto, se estreitaram enquanto me observavam. Me perguntei se ele achava minha analogia imperfeita. Talvez ele não tenha gostado de Charlton Heston por causa de seu envolvimento com a NRA (National Rifle Assossiation). Por outro lado, Quinn parecia o tipo que gostava de armas. Limpei minha garganta e continuei: — E por que Charlton Heston gostaria de estar com o macaco? Ninguém gostaria, mesmo que ela tenha esse enorme… enorme… cérebro. Viki piscou para mim e olhou para Quinn. — Onde você onheceu essa daí? Antes que Quinn pudesse falar, senti-me compelida a responder, na esperança de compensar minha gafe. — Eu o conheci na semana passada, e antes disso eu o vi algumas vezes no meu prédio, onde ele trabalha como segurança. Eu era contadora antes de ser demitida. A “monocelha” de Viki se enrugou sobre o nariz até chegar a um ponto. — Um segurança? Eu engoli em seco e dei um sorriso apertado quando eu peguei meu café, querendo mudar o assunto. — Eu amo café. O Brasil é hoje o líder mundial na produção de café verde, mas na África Oriental e no Iêmen, o café era usado em cerimônias religiosas nativas que competiam com a Igreja Cristã. Por causa disso, a Igreja Etíope proibiu o consumo secular de café por muitos anos — levei a caneca aos lábios e bebi a bebida preta e amarga, principalmente para me impedir de falar. O café queimou minha língua, mas ignorei. — Mmm, café. Os olhos de Viki se moveram entre Quinn e eu, sua monocelha ainda suspensa no rosto. — C-e-r-t-o — ela finalmente disse, formando a palavra. Ouvi Quinn limpar a garganta e fez o nosso pedido. — Ela vai querer ovos na chapa, bacon, salsicha, batatas fritas e torradas com manteiga extra. Eu vou querer o habitual. Como ele pediu, ele puxou meu cardápio e o entregou para Viki junto com o dele, e eu notei que sua voz soava diferente, distante. Viki nos deu um pequeno


sorriso zombeteiro, e então saiu. Tomei mais do meu café preto e olhei novamente para Quinn. Ele não estava olhando para mim. Sua boca era uma linha reta precisa, e sua têmpora marcava enquanto ele flexionava sua mandíbula. Eu não consegui ler seus esculpidos traços. Tive um pressentimento de que o envergonhei ou disse algo inapropriado. Este não era um sentimento novo para mim, de lamentar minhas palavras, mas, desta vez, senti remorso por ele. Baixei o copo e suspirei. — Sinto muito — tentei passar os dedos pelo meu cabelo, mas novamente abandonei o esforço quando encontrei nós indisciplinados. — Tenho o péssimo hábito de dizer o que estou pensando e... Ele levantou a mão e balançou a cabeça. — Não, não precisa se desculpar — me deu um sorriso apertado que não chegou perto de seus olhos. — Você estava apenas sendo... honesta. Não é a primeira vez que sou chamado de Neandertal. — Você não é um Neanderthal — fiz uma careta para ele. — Você é muito alto para isso. E eu estava “me” comparando a um Neandertal, devido as minhas características físicas. Você sabe, o tamanho da minha cabeça, por exemplo. — Então, você está dizendo que sua cabeça é maior que a minha? — Sim. Não. O que eu quero dizer, é que eles têm a cabeça grande e estranha, ou acredita-se que tiveram cabeças desajeitadas, que eram grandes demais para o corpo. Então, há também o cabelo. — Cabelo? — Sim, cabelo. Acredita-se que cabelos ruivos... — fiz um gesto para meus cachos malucos. — ... vem da cruzação dos Neandertais com os primeiros humanos. — Então os Neandertais e os humanos procriaram? — Sim. As fêmeas e os Neandertais podem ter se desenvolvido com sucesso, o que, se você pensar bem, não é tão absurdo, porque homens de cabeça grande e mulheres de cabeça pequena — com cabeça normal — se reproduzem com bastante frequência hoje em dia. Mas, atualmente, os cientistas acreditam que os humanos do sexo masculino que se acasalaram com os Neandertais femininos, criaram descendentes estéreis. Eles acreditam nisso, porque há uma falta de DNA mitocondrial Neandertal presente nos humanos modernos. Então, se refletir sobre isso, concluirá que se fêmeas desajeitadas acasalarem com machos lindos de cabeças normais, será uma má ideia. Ele piscou para mim uma vez, franziu a testa, depois voltou sua atenção para o café. Um silêncio insuportável se fez presente, o que parecia um espesso manto de nevoa à nossa volta. Percebi que ele estava se arrependendo de sua decisão de


me convidar para o café da manhã. Pensei em me comparar a um burro e ele a um cavalo, mas mordi o lábio para não falar. Notei que suas bochechas, pescoço e a ponte do nariz, estavam tingidos com um leve tom de rosa, provavelmente devido ao aborrecimento com minha conversa desajeitada. Procurei no meu cérebro por qualquer coisa que pudesse distraí-lo. Um pensamento repentino me ocorreu e, por falta de uma estratégia melhor, decidi recorrer a um truque de salão, que geralmente surpreendia as pessoas, ou as agradava. Seria também uma excelente demonstração da minha esquisitice, mas eu realmente não tinha nada a perder. Molhei meus lábios antes de falar. — Então, uh, quer ver um truque? Ele encolheu os ombros, seu tom sem entusiasmo. — Claro. Me virei no lugar para encará-lo, colocando meu cotovelo e braço no balcão. — Diga quaisquer dois números e eu dou o seu valor em adição, subtração, multiplicação e divisão. Ele se virou para mim e encontrou meu olhar, incrédulo. — O que? Fará isso no seu cérebro gigante? Notei que ele parecia mais interessado do que sarcástico, o que eu senti que foi uma melhora, mas optei por ignorar seu comentário sobre o cérebro gigante. — Sim, no meu cérebro. Não há papel. Sua boca entortou só um pouco, de lado. — Quaisquer dois números? Eu balancei a cabeça uma vez. — Me teste. Ele virou seu corpo para mim completamente, e eu tentei ignorar como suas pernas esbarraram em mim, o que fez que um de seus joelhos se ajustasse entre os meus enquanto nos encarávamos. — Hmmm... — seu olhar se estreitou, especulativamente. — Ok, quatrocentos e setecentos. Enruguei meu nariz. — Aqui está: adição, 1100; subtração, menos 300; multiplicação, 280.000; divisão, 57 yada yada yada. Ok, me dê uma difícil, agora. Ele piscou para mim, sua boca ligeiramente aberta. Deu um pequeno sorriso, embora real, e esfregou as mãos em suas coxas. — Bem, um difícil então: vinte e um, e cinco mil e cento e vinte e quatro. Soltei um suspiro de alívio. O clima pesado que causei anteriormente, havia, aparentemente, sido esquecido. — Ok, na mesma ordem de antes, as respostas são: 5145, 5103, 107,604 e


0,004 yada yada yada. Isso não foi difícil, também. Ele meio que riu, meio que suspirou. — Como você faz isso? Dei de ombros. — Sei lá. Sempre fui capaz de fazer isso. É útil às quintas-feiras. — O que acontece às quintas-feiras? — Sou professora de matemática e ciências no Kids ‘Club as quintas-feiras à tarde. Às vezes, se eu não consigo focar, distraio-os com minha “excentricidade” — usei aspas no ar para a palavra “excentricidade” e, em seguida, franzi as sobrancelhas para mim mesma, por fazer isso. Odiava quando as pessoas usavam aspas aéreas. Era como quando alguém diz “nós” em vez de “eu”. Como em: “Nós” ficamos muito felizes... “nós” acabamos de lavar as roupas... “nós” temos candidíase. — Por que eles te demitiram? Parece que você era uma contadora incrível. — Também não sei. Minha amiga Kat ainda trabalha lá. Ela tentou descobrir, mas não conseguiu por algum motivo. Ele tomou um gole de café e disse: — Alguém mais foi dispensado? — Não, fui a única, mas você tem que admitir que sou bem estranha. Talvez eles estivessem apenas procurando uma desculpa para se livrar de mim. Eu tenho uma tendência a deixar as pessoas desconfortáveis com você sabe, a infinidade de fatos triviais — estava prestes a expor novamente a “esquisitice”, mas reprimi com sucesso o desejo de fazê-lo. — Hmm — seus olhos azuis claros se estreitaram, enquanto me observavam. — Você está... — ele baixou sua xícara e se inclinou um pouco mais perto. — Você tem memória fotográfica? Ri, apesar de tudo. Principalmente do nervosismo causado pela proximidade dele. — Não. Deus, não. Eu poderia esquecer meu nome, se não estivesse na minha carteira de motorista — fiz uma careta para a confusão do que eu disse. — Na verdade, não tenho carteira de motorista desde que me mudei para a cidade, mas meu nome está no cartão de crédito e no meu R.G., então isso ajuda. Ele continuou a me examinar por um longo minuto, e, então, perguntou: — Você já conseguiu outro emprego? Balancei a cabeça e mordi meus lábios. Apesar de ter sido apenas uma semana e meia, e eu merecia um descanso, fiquei ansiosa por estar sem trabalho. Ele pegou o café e me observou através da borda da xícara, como se estivesse considerando alguma coisa, ou mais especificamente, me considerando alguma coisa. Quando ele colocou a xícara no balcão, enfiou a mão no bolso, tirou um


cartão de visitas e uma caneta. — Acho que posso te ajudar. — Ele escreveu um nome e um número no verso do cartão de visitas. — Que? Você acha que eu deveria entrar para o setor de segurança? Eu sou muito alta para uma garota e posso ser feroz quando preciso. Ele inclinou a cabeça para o lado em um gesto que eu estava me acostumando, e me entregou o cartão. — Eu não duvido, mas minha empresa sempre precisa de alguém bom no escritório — fechou a caneta e colocou-a no balcão. — Anotei o nome e o número do nosso diretor de operações comerciais. Ligue para ele e envie seu currículo. Posso fazer a entrevista, caso queira, mas terá que conseguir o emprego sozinha. Viki retornou com nossa comida, enquanto eu estudava o cartão virando-o entre meus dedos e li a frente: “Quinn Sullivan. Cypher Systems, Inc.” Sob o seu nome, estava seu número de telefone e endereço de e-mail comercial. Virei o cartão e olhei para a caligrafia dele em vez do nome e número que ele havia escrito. Suas letras eram todas maiúsculas, severas e precisas. Colocou pequenos traços nos setes, mas não nos zeros. Suas palavras estavam escritas em linha reta, ao invés de subirem ou descerem na ausência de papel pautado. Gostei de sua caligrafia. Imaginei ler uma carta escrita por ele e até pensei sobre ele me escrever. Sobre ter tempo para pensar em mim o suficiente para querer sentar e escrever algo para mim. Isso fez um vulcão de calor irromper no meu estômago. Quando olhei para cima, ele estava franzindo a testa para mim, com seu olhar comedido. — É claro que não precisa se candidatar, caso não lhe interesse. Coloquei minha mão em seu braço, sem pensar. — Ai, não. Eu irei me candidatar, sim. Obrigada. Obrigada por pensar em mim. Seus olhos se moveram para os meus dedos. Puxei minha mão rapidamente e tentei enfiar meu cabelo atrás das orelhas, enquanto me virava para o prato de comida gordurosa deixada por Viki. Olhei para o prato por um momento antes de falar. — Eu sou muito grata por tudo que você fez por mim ontem à noite e esta manhã, e agora isso — fiz um gesto para o cartão no balcão. Encontrei e mentive meu olhar no seu, quando acrescentei com um sorriso grato — Você é um cara muito legal. Sua carranca se aprofundou, como se eu tivesse acabado de insultá-lo. Sua


atenção percorreu meu rosto, cabelo e pescoço. Suspirou e olhou para cima em um quase disfarçado revirar de olhos. Resmungou duramente: — Eu não sou tão legal. Apesar de mais um momento extremamente estranho, quando Quinn queria me dar uma carona em sua motocicleta e eu me assustei um pouco, recusei teimosamente, e insisti em pegar um táxi, o resto da nossa manhã juntos foi realmente muito legal. Mais precisamente, foi tão bom quanto poderia ser, considerando que passei a maior parte do tempo distraída, tentando pensar em uma maneira de deixá-lo sem camisa novamente. Durante um momento de fraqueza, pensei em jogar meu café nele. Mais tarde, naquela noite, enquanto eu estava deitada no sofá do apartamento de Elizabeth tentando me concentrar em ler meu livro —e falhar miseravelmente —, pensei em meu debate com Quinn sobre a motocicleta. Se ele oferecesse para me levar para casa em um carro, eu provavelmente diria que sim. Entretanto, ele tinha uma motocicleta. Nunca fui de moto e desde que minha mãe morreu em uma, nunca mais tive absolutamente nenhum desejo em andar de moto. Obviamente, não contei isso a ele. Não gosto de pensar e muito menos falar sobre a morte da minha mãe. Eu duvidava que Quinn, que provavelmente já pensava que eu era uma maluca completa, quisesse, de qualquer maneira, ouvir sobre isso. — Janie? Janie, você está aqui? — ouvi Elizabeth irromper pela porta quando eu estava me levantando para escovar os dentes, pela décima vez naquele dia, e ir para a cama. Havia uma inesperada urgência em sua voz, então a encontrei no corredor. — Sim, estou aqui. Você está bem? Quando ela me viu, recuou e fechou os olhos, a mão sobre o peito. — Ai Deus. Eu vou matar o Jon. Levantei minhas sobrancelhas, em confusão. — Jon? Meu Jon? O que aconteceu? Elizabeth suspirou e deixou a bolsa cair do ombro para o chão. — Ele me ligou, tipo, mil e quinhentas vezes hoje e me mandou mensagens também. Disse que vocês dois deveriam se encontrar hoje e você não apareceu. Demorei cerca de cinco segundos para lembrar do encontro planejado com Jon que eu, obviamente, havia me esquecido. A visão do peito nu de Quinn, deve ter apagado minha memória. — Oh, meu Deus, eu esqueci completamente!


Elizabeth revirou os olhos. — Você precisa de um celular. Vou bloquear o número dele no meu aparelho. — Sinto muito, Elizabeth. Lamento que ele tenha te incomodado no trabalho. — Não se preocupe com isso. Eu estava mais era preocupada com você — ela riu levemente enquanto tirava os sapatos de trabalho. — Mas você podia mandar um email ou ligar para ele pelo Skype. Ele disse algo sobre dar queixa do seu desaparecimento — ela parou para me dar um breve abraço antes de caminhar para seu quarto. — Estou feliz que você esteja bem. Balancei a cabeça e virei para o meu laptop. Já eram dez horas da noite. Eu sabia que ele estaria acordado, mas eu, particularmente, não queria falar com ele, então optei por enviar um e-mail. Quando abri minha conta, vi que ele já havia me enviado cinco, com cada mensagem progredindo em nível de ansiedade. O último foi enviado há menos de meia hora e lia-se: Você poderia ligar e me dizer se você está bem? Estou ficando louco de preocupação. Eu amo você, Janie, e só quero saber que você está bem. Entendo que eu te machuquei e que você está com raiva, mas, por favor, não me castigue assim. Esta não é você. Se você está tentando me deixar chateado, então você conseguiu. Se você não quer me ver, apenas diga. Estou com muito medo de que você esteja em algum lugar, machucada. Se você receber isso e está bem, então nós realmente precisaremos falar sobre você ter um celular. Por favor me ligue. Jon Suspirei e cerrei meus dentes. Fiquei irritada com a sua presunção de que “precisávamos” falar sobre “você ter” um celular (como se eu não pudesse fazer isso sozinha, se eu quisesse), bem como com o aperto de culpa que senti quando digitei minha resposta: Jon, estou bem. Honestamente, esqueci de te encontrar hoje. Me desculpe, eu não liguei, mas não há razão para se preocupar. Elizabeth acabou de chegar em casa e disse que você estava ligando para ela no trabalho. Por favor, não faça isso de novo. Você sabe que eu geralmente verifico meu e-mail pelo menos uma vez ao dia, e você também sabe como me sinto sobre os celulares. Não tenho nenhum problema em te encontrar, não quero te preocupar e não estou punindo você. Eu realmente quero que sejamos amigos. Me avise se você quiser me encontrar na semana que vem, em qualquer hora. Até logo, Janie. Olhei para o meu cursor e reli meu e-mail. Decidi deletar o “Até logo” e depois enviei. Não queria que ele pensasse que eu estava prometendo falar com ele em breve. Tirei um momento para examinar a lista de e-mails na minha caixa de entrada e notei, com um grande grau de frustração, que nenhum deles continha respostas às centenas de vagas de emprego que eu havia me candidatado.


Meus pensamentos voltaram para Quinn e lembrei do cartão que ele me deu, no café da manhã. Alcancei a mesa de centro na minha frente e peguei o cartão, deixando meu polegar acariciar seu nome, antes de virá-lo para ler as informações de contato que ele havia escrito no verso. Minha boca se curvou em um sorriso melancólico, quando meus olhos se encontraram com a imagem da caligrafia de Quinn. Eu realmente era ridícula. Cliquei no botão “Escrever” e digitei uma rápida carta de apresentação, me certificando de anexar meu currículo à mensagem. Como uma reflexão tardia, decidi enviar uma cópia para Quinn. Queria que ele visse que eu estava realmente muito interessada no cargo e agradecida por sua recomendação. Assim que cliquei em “Enviar”, no e-mail, minha conta soou com uma nova mensagem de Jon. No assunto, ele escreveu: Eu sinto Muito. Eu te amo. Suspirei e cruzei meus braços sobre o peito. Balançando a cabeça, fechei meu laptop sem abrir sua mensagem. Bufei. Eu estava cansada. Queria escovar os dentes e ir para a cama. Não gostei do quão desconfortável e culpada Jon me fez sentir, quando eu tinha certeza — bem, quase certa — de que ele era a razão pela qual nós não estávamos mais juntos. — Você continua suspirando. Posso te ouvir do meu quarto — Elizabeth deu a volta no sofá e se sentou ao meu lado, enquanto esticava os braços sobre a cabeça. — O que aconteceu com Jon? Dei de ombros e, sem pensar, soltei outro suspiro alto. — Enviei um email para ele. Eu realmente não quero falar com ele agora. — Você precisa de um celular. — Não. Se eu tivesse um celular, teria que falar com ele. Enquanto não tenho um, prefiro encerrar essa conversa, até que eu esteja pronta para tê-la. — Muito justo — Elizabeth levantou as mãos, em sinal de rendição. — Eu não quero falar sobre o velho ‘‘calça molhada’’ de qualquer forma. Eu ri e revirei os olhos. Elizabeth começou a chamar Jon de calça molhada quando ele, acidentalmente, sentou em um assento molhado no cinema uma vez, e passou o filme inteiro com a calça molhada, depois de confirmar que o líquido era refrigerante. — Então... — Elizabeth levantou as sobrancelhas, em minha direção. — Eu tenho algo para você — ela levantou um cartão no ar, aparentemente fino, e gritou quando o colocou na minha mão. — Veja! É o cartão do Quinn! Ele deu para mim ontem à noite, antes de sairmos do clube. Olhei para ele por um minuto, antes de responder. — Ah. Você vai ligar para ele? Elizabeth franziu a testa para mim e bateu no meu braço.


— O que? Não! Você saiu do clube tão rápido, que ele me parou e pediu para dar a você — Ela me cutucou com o ombro. — Ele quer que você ligue para ele. Ah! Janie e Sr. Calças-quentes, sentados em uma árvore, b-e-i-j-a-n-d-o e t-r-an-... — Espere! —exclamei, interrompendo-a. — Não, não. Ele te deu o cartão, porque quer me ajudar a encontrar um emprego. Ele acha que pode haver uma vaga na empresa de segurança que ele trabalha. Elizabeth sorriu. — Sério? Isso é absurdo! Por que você acha isso? Puxei um cartão idêntico, do lado do meu computador e entreguei a Elizabeth. — Porque ele me deu um também, escreveu o nome de um gerente de negócios atrás e disse para me candidatar a uma vaga. Elizabeth olhou de um cartão para o outro, perplexa, e depois perguntou: — Espere, quando ele lhe deu isso? — Hoje de manhã. — Quando você…? Ok, do começo. O que aconteceu? Quando e onde você viu Quinn esta manhã? Disse à ela sobre voltar para o clube na noite passada e tudo o que aconteceu depois: o apagão, ter acordado no apartamento da irmã de Quinn, sem roupas, o fato de que ele queria ter certeza que eu sabia que ele não tinha feito nada comigo, o café da manhã e o cartão de visitas. Elizabeth ouviu, franzindo a testa em desaprovação e surpresa, mas, principalmente, confusa e não interrompeu, mesmo quando eu sabia que ela estava ansiosa para chegar à origem do meu cartão de visita.Ela me contemplou por um momento, depois que terminei. — Então você pegou o teste para ver se você tinha sido drogada? Balancei a cabeça. — Não, eu pretendia, mas eu... — suspirei e deixei minha cabeça cair de volta no sofá. — Estava tão cansada quando cheguei em casa. — Oh! Graças a Deus, Quinn encontrou você! — ela apertou minha mão na dela. — Espere. Aconteceu alguma coisa? Como ele te encontrou? Quando ele te trouxe para casa? Alguém… você está bem? Você foi a um médico? — Sim. Quero dizer, não — suspirei novamente. — Sim, eu estou bem. Não aconteceu nada. Não, eu não fui a um médico. Acho que Quinn me achou antes que qualquer coisa acontecesse. — Oh! — ela apertou minha mão com mais força, em seguida, soltou e esfregou os olhos. — Isso é muito para processar. Estou exausta. Não acredito que você voltou ao clube. Ele obviamente gosta de você, e ele estava flertando com você. Por que ele te levaria para a casa da irmã dele? Quem faz isso? E o que havia com o assento reservado no café da manhã? Essa garçonete realmente


tem uma monoselha? Estou muito feliz por você estar bem. Eu poderia dizer que ela estava cansada, porque seus pensamentos, geralmente bem ordenados, estavam saltando de sua boca, aleatoriamente. Sorri para ela. — Você precisa dormir, podemos conversar sobre isso de manhã — a puxei para cima e ela me deu outro abraço. — Estou feliz que você esteja bem. Jon realmente me assustou — ela me soltou do abraço e segurou meus ombros, enquanto me prendia com seus pálidos olhos azuis. — Se algo acontecesse com você, quem iria me ajudar a terminar o jarro nas segundas-feiras do Mojito? Quem seria minha parceira no Trivial Pursuit? Quem limparia meu banheiro? Nós duas rimos quando eu a empurrei para o quarto dela. — Você fez muito bem em limpar seu banheiro antes de eu me mudar. — Não, eu não fiz. Limpei o banheiro vários meses antes de você se mudar. Eu disse a todos que era o meu laboratório molhado de bactérias — Elizabeth bocejou. — Boa noite, Janie. Eu te amo. — Boa noite, Elizabeth. Também te amo.


Capítulo 7 Bing, bang, boom — consegui um emprego. Para minha surpresa e, francamente, descrença total, recebi um e-mail de Carlos Davies, Diretor de Operações Comerciais da Cypher Systems, no domingo de manhã, seguido por uma série de eventos: Carlos respondeu à minha mensagem e solicitou que sua secretária, Olivia Merchant, a qual ele incluiu no e-mail, marcasse uma entrevista para a manhã de segunda-feira. Ela respondeu na tarde de domingo, solicitando que eu estivesse no escritório às 10h da manhã. Olivia mandou a localização do escritório por e-mail, um documento informativo sobre os benefícios da empresa e instruções para minha chegada. Notei imediatamente que a Cypher Systems estava localizada no Edifício Fairbanks, o mesmo prédio do meu trabalho anterior. Respondi domingo à noite confirmando minha presença na segunda-feira, às 10h da manhã. O pacote de benefícios continha uma oferta de salário para o cargo de coordenador sênior de projetos fiscais, que eu li três vezes antes de realmente compreender que o número era real e que eu não estava interpretando mal o posicionamento do ponto decimal em relação aos zeros. Tentei dar um Google em Cypher Systems, mas, além de encontrar uma fachada de site com gráficos muito pesados e um formulário de consulta para clientes em potencial, os resultados da pesquisa foram inúteis. A falta de informação disponível me deixou pensativa e despreparada para a entrevista. Se eles me perguntassem por que eu estava interessada na vaga, não tinha certeza de como deveria responder essa pergunta de forma honesta. Eu não sabia nada sobre a empresa, a não ser que eles forneciam segurança para o Edifício Fairbanks e para o Club Outrageous, e que o cargo, aparentemente, pagava o dobro do meu salário anual anterior. Ah, e eles contratavam seguranças supermodelo à la Quinn Sullivan. A Cypher Systems estava localizada no último andar do Edifício Fairbanks. As instruções de Olivia indicavam que eu deveria fazer o check-in com um segurança no nível do lobby e depois um segurança me acompanharia até os escritórios da Cypher Systems. Parecia que era preciso muita experiência em acompanhar, para ser um segurança na Cypher Systems. O crachá da minha escolta o rotulava como Dan e ele era mais baixo do que eu, especialmente porque eu usava saltos de seda azul-celeste. Ele parecia ter a minha idade ou alguns anos mais velho, corpulento, e era de pescoço largo, com tatuagens rodopiantes, apenas visíveis sob o colarinho azul de seu uniforme. Dan


me deu uma olhada enquanto me levava para um elevador. Quando chegamos, ele não apertou um botão como normalmente faria, mas colocou a palma da mão contra uma tela de vidro. A tela se retraiu para revelar um teclado. Dan, então, digitou uma série de números e esperou. — Você é muito grande — disse ele. Eu lhe dei um sorriso superficial. — Sim. Comi todos os meus vegetais quando criança — essa era a minha resposta padrão quando alguém comentava sobre meu tamanho. Por alguma razão, sempre me incomodava quando as pessoas achavam necessário chamar atenção para a minha altura, como se eu não soubesse da minha estatura maior que a média. Certa vez, respondi: “Sim, e você é muito pequeno.” Isso não foi muito legal, embora fosse verdade. Dan riu da minha resposta pronta e acenou para o elevador. Percebi que nunca havia reparado nesse elevador antes. Quando entramos, notei ainda que havia apenas um botão de destino. Dan ficou quieto durante o resto da viagem, embora seus olhos continuassem a se mover sobre mim em uma avaliação oculta, e o canto de sua boca se curvou em um sorriso amigável e desequilibrado. Fiquei em silêncio e tive meio que bocejar para estalar meus ouvidos, enquanto subíamos. As portas do elevador se abriram para uma impressionante vista da cidade, que era vista por detrás da mesa da recepção, totalmente envidraçada. A luz estava quase me cegando. Engoli nervosamente e esfreguei minha mão pelos quadris, por cima da minha jaqueta bege e da minha saia, quando pisei no patamar. Minha outra mão agarrou o portfólio do tamanho de uma carta, ao meu lado, que continha cópias do meu currículo e cartas de recomendação de professores universitários. Dan não saiu do elevador, mas falou atrás de mim. — Keira, na recepção, vai te ajudar. Virei-me para agradecer-lhe, mas as portas já estavam fechadas. Me endireitei, fui até a mesa de vidro e parei diante dela. A mulher, que eu presumi ser Keira, estava no telefone. Ela ergueu os olhos castanhos para mim, levantou um dedo e disse em seu fone de ouvido: — Um momento. Deixe-me rastreá-lo para você. Pressionou uma série de botões em um telefone, que parecia muito high-tech. A primeira coisa que notei em Keira, foi que seu cabelo preto estava em um coque tão apertado que parecia doloroso. Parecia puxar os cantos dos olhos e da boca, dando a ela a aparência de um gato constantemente sorridente. Ela me deu um sorriso de Cheshire e disse: — Posso ajudá-la?


— Uh, sim. Eu tenho hora marcada com o Carlos Davies. — Hã? Hora marcada? Qual é seu nome? Engoli novamente; minha boca estava muito seca. — Sou Janie Morris. Estou aqui para uma entrevista. Keira voltou sua atenção para um monitor incrivelmente grande em sua mesa e assentiu. — Sim aqui está. Hoje é o seu primeiro dia, certo? Eu abri minha boca e um pequeno grunhido saiu, antes que eu dissesse: — Não, não. Estou aqui apenas para uma entrevista. Ela voltou sua atenção para mim, confusa em seus traços angulares. — Mas o Sr. Sullivan não contratou você? — Eu não fui contratada. Qui, quero dizer, o Sr. Sullivan recomendou a entrevista. Fui interrompida por uma nova voz. — Ah, você deve ser Janie Morris. Virei-me para a esquerda e tentei sorrir calorosamente para o homem que se aproximava, mas fiquei sem palavras por um momento. De saltos, ele era exatamente da minha altura, e era a definição do que minha amiga Ashley gostava de chamar de “doce de açúcar mascavo”. Seus olhos escuros, cor de chocolate, estavam emoldurados por longas pestanas negras, sua pele era de oliva quente e ele tinha um sorriso tranquilo e leve, cercado por covinhas. Usava um terno cinza, uma camisa branca e uma gravata prateada. — Sim, eu sou Janie — meio que resmunguei enquanto estendi minha mão. Ele colocou minha mão entre as suas e deu um aperto firme e profissional. — Eu sou Carlos. Estou tão feliz que você possa começar tão rápido. Venha comigo, vou te acomodar. — Eu? Começar? — minha voz estava tensa e rouca, então precisei limpar minha garganta. — Hum, espere. Eu, isto é, fiquei com a impressão de que hoje seria uma entrevista. Carlos piscou seus cílios bonitos para mim, seu sorriso minguando, mas não desaparecendo. — Ah, entendo — seus olhos se moveram entre os meus, seu olhar ainda quente. — Certamente, podemos começar com uma entrevista, se assim desejar. — Ele se virou e fez sinal para eu segui-lo pelo corredor. Se eu desejar? Acompanhei seu passo e tentei reprimir uma nova onda de incerteza enquanto caminhava ao lado dele. — Tenho cópias extras do meu currículo, se você precisar delas. Ele riu baixinho.


— Não, não preciso. Nós fizemos uma verificação de antecedentes. Você é muito qualificada e tem excelentes referências. Meu rosto se aqueceu com o elogio, mas eu não tinha certeza se merecia. Ele me conduziu por uma série de escritórios e notei a falta de cubículos. Ele parou em um dos escritórios e me pediu para esperar um momento. O ouvi pedir para a pessoa lá de dentro se juntar a nós, e depois continuamos. O escritório de Carlos era de tamanho moderado, não enorme, mas também não pequeno, e parecia ser apenas um pouco maior que o resto das salas pelos quais passamos. Ele fez sinal para eu sentar em uma das duas poltronas de couro marrom, enquanto ele contornava sua mesa. — Então, Srta. Morris, por que não começa me contando sobre você? — sua voz era muito suave, e seus olhos castanhos brilhavam quando ele se recostou na cadeira. Eu estava fazendo o meu melhor para dar uma boa impressão, escolhendo minhas palavras cuidadosamente e tentando ficar no assunto, quando outro homem entrou. Ele era alto e magro, e seu cabelo loiro estava despenteado, como se ele tivesse passado a mão nele. Seus olhos cinzentos me olharam por trás dos óculos pretos de armação de chifres, empoleirados em um nariz que era um pouco pronunciado demais para seu rosto magro. Imediatamente olhou para mim e estendeu a mão. — Oh, graças a Deus você está aqui! Eu sou o Steven. Vamos ser grandes amigos — ele apertou minha mão, e depois meio que afundou, meio que colou na poltrona marrom vazia ao lado da minha. — Essas pessoas... Há muito o que fazer. Passei esta manhã resumindo os projetos para você. Carlos limpou a garganta e deu a Steven um sorriso amigável. — Senhora Morris está aqui para uma entrevista. Eu não acredito que ela tenha aceitado o cargo ainda. Steven olhou entre Carlos e eu, seu rosto traindo seu horror interior. — O quê? Carlos baixou a cabeça. — Steven! — sua voz estava cheia de aviso. Steven direcionou toda sua atenção em mim. — Janie. Posso te chamar de Janie? Balancei a cabeça, mas ele não esperou que eu assentisse verbalmente antes de continuar. — Janie, eu preciso de ajuda. Como Carlos explicou, você é uma pessoa de números. Tem experiência em gerenciar contas de clientes. Suas referências dizem que você é uma baita contadora. Não tem antecedentes criminais. Ensina as crianças uma vez por semana, o que significa que você é boa com bebês


grandes. Você parece uma versão escandinava de Diana Prince. Tossi com a alusão de que eu era o alter ego da Mulher-Maravilha, mas Steven continuou. — E, supondo que consiga juntar três palavras, você será um grande sucesso com nossos parceiros. Vou ser honesto, Janie, eles não gostam de mim. Não sou bonito o suficiente para ter a atenção do público. Sou um trabalhador esforçado e um assistente fiscal, mas deixo os clientes desconfortáveis. Você vai se sair bem. — Steven, a Srta. Morris estava me contando sobre sua experiência de trabalho. Ignorando Carlos, Steven chegou mais perto de mim e chamou minha atenção para um iPad em seu colo. — Agora, essas são todas as contas correntes — disse ele, enquanto deslizava o dedo por uma coluna de códigos numéricos, que indicavam nomes de contas. Notei que as colunas não tinham títulos no cabeçalho. — E estas são as condições de pagamento… os termos de apresentação… e aqui estão as despesas estimadas para este trimestre e as despesas reais para o último trimestre. Este é o saldo do projeto para o ano. Consegui? Balancei a cabeça, olhando por cima da planilha. — Por que você não usa cabeçalhos de coluna? — Eles me atrasam. — Hmm! — respondi. Sua resposta não fazia sentido. Tentei não me concentrar no tamanho gigantesco dos números do dólar, mas, em vez disso, analisei a veracidade dos valores calculados. — Sua fórmula está errada aqui... — apontei para duas caixas separadas na planilha. — …e aqui. Além disso, quando essa conta foi aberta? O saldo deve ser negativo, se a coluna de despesa projetada estiver correta. Quando olhei para Steven, vi que seus lábios finos estavam pressionados em um sorriso trêmulo. — Muito bem. Passou no teste. Acho que amo você, Janie. Vamos nos casar e não ter filhos. Meus olhos se arregalaram por um breve momento. Eu tinha certeza de que ele estava me provocando, mas quando olhei em seus olhos cinzentos brilhando, sabia que ele queria dizer isso como um elogio. Devolvi o sorriso a ele. Gostei do Steven. Carlos quebrou o silêncio. — Srta. Morris, o trabalho é seu, se você quiser. — Oh, por favor, diga sim — o sorriso de Steven se alargou. — Para sua proposta, ou para o trabalho? — perguntei. — Se você tiver que escolher um, que seja o trabalho — Steven entregou o


iPad para mim e, em seguida, estendeu a mão para apertar a minha novamente. — Eu ronco e você é muito alta. Nós nos divorciaríamos dentro de um ano. Eu ri, fiquei de pé e apertei sua mão, sem me importar que ele tivesse observado minha altura. — Tudo bem, então. Eu aceito o trabalho — me virei para Carlos, que também estava de pé agora. — Embora eu gostaria de ver uma descrição do mesmo. Gostaria de ter certeza de que posso realmente fazer o trabalho pelo qual você, aparentemente, me contratou. Carlos me deu outro sorriso, com covinhas e desarmado, que só poderia ser descrito como adorável. — Claro. Você se ajeita com Steven, e eu vou mandar Olivia lhe enviar — deu a volta na mesa e, como antes, apertou minha mão com a dele. — E se você tiver alguma dúvida, por favor, não hesite em me perguntar. Foi decidido que, em vez de nos encontrarmos no apartamento de Kat para a noite de tricô já que era a vez dela de receber, nos encontraríamos para tomar um drinque e depois um jantar no South Water Kitchen, para comemorar o “Janieser-novamente-capaz- de-pagar-as-contas”. Era uma terça-feira, o segundo dia no meu novo emprego, e eram exatamente duas semanas desde o meu pior dia de todos os tempos. Quase imediatamente depois de nos acomodarmos, Elizabeth apresentou o tema “Quinn”, junto com a noite de sexta-feira, macacos, danças nuas em gaiolas, café da manhã do Sr. Calças-quentes no sábado de manhã, e o cartão de visitas que levou ao meu novo emprego. — Vocês todas se lembram do Sr. Calças-quentes, o segurança? Bem, Janie e eu o vimos naquele novo clube, onde as mulheres nuas dançam com os macacos. Sim, aquele clube chamado Outrageous! De qualquer forma, o nome dele é Quinn, e ela foi para casa com ele depois de ser drogada. Tomaram café da manhã juntos, no sábado de manhã, e ele arrumou a entrevista do novo emprego. Era como jogar revistas da Hustler em viciados em sexo. Depois de um período de silêncio de dois segundos, todo mundo começou a falar, animadamente, de uma só vez. Elizabeth me enviou um sorriso doce sobre sua água gelada. A primeira meia hora da noite foi consumida por mim, divertindo as senhoras com os eventos do meu fim de semana, além da entrevista de emprego — que não foi exatamente uma entrevista — na segunda-feira. Algumas perguntas interromperam minha história, em grande parte, relacionadas a esclarecimentos triviais, mas a maioria sentou e escutou com um silêncio grave e quase


reverente. Toda vez que o garçom vinha pegar nosso pedido, Sandra e Ashley o espantavam, pedindo vinho com sussurros silenciosos e urgentes. Quando me aproximei do final da minha história, pude sentir a tensão crescendo no grupo. Senti que elas estavam inquietas, com algumas perguntas, mas Elizabeth parecia ter uma agenda e, quando eu finalmente cheguei à minha conclusão, ela interveio. — Isso é o que eu não entendo. Como Quinn sabia que você estava no Camarote? Ou ele não sabia? Ele foi até lá para pegar você, ou ele simplesmente foi até lá e viu que precisava te resgatar? E é por isso que ele veio subitamente com o “você precisa ir embora”, quando descobriu que as pessoas do Camarote nos pagavam bebidas? Ele devia saber que as pessoas lá em cima eram sombrias. Além disso, uma vez que suspeitamos que você vacilou, o que há para se fazer em relação a isso? Ela brilhou com uma satisfação quase de Sherlock Holmes e se recostou em seu assento, enquanto o grupo especulava sobre suas perguntas. Inegavelmente, Elizabeth parecia ter dado a todo o encontro, muito mais ênfase do que eu pensava. Embora eu tivesse tendência a ficar obcecada com assuntos como “o vernáculo inglês, o auge da castanheira média e os padrões internacionais”, eu tinha o hábito de ignorar detalhes importantes, como quem me drogara e como eu me sentia sobre desmaiar e acordar principalmente nua, em um apartamento estranho, com sete peças de mobiliário. Tremi um pouco, finalmente sentindo o peso da minha imprudência e realmente entendendo a situação perigosa que eu estava. Da mesma forma, meu estômago revirou com a ideia de Quinn me encontrar, me tirando do camarote, e me levando para a casa da sua irmã. Tudo isso enquanto eu estava desmaiada. Talvez eu não precisasse ser resgatada, escoltada ou mimada, se eu me concentrasse em detalhes realmente importantes, em vez de sonhar com um substantivo coletivo apropriado para cada uma das eventualidades. No final, prometi às senhoras que tentaria encurralar Quinn quando o visse no trabalho, o questionaria sobre o Camarote, bem como as medidas tomadas para garantir a segurança das mulheres inocentes no futuro. O garçom reapareceu e, felizmente, todas fizeram seu pedido, me dando um alívio da investigação de uma hora, no meu final de semana. — Você já o viu? No escritório, quero dizer. — Marie perguntou, inclinandose para mim e me fixando com seus olhos azuis brilhantes. — Quinn? Não, hoje foi apenas o meu segundo dia. Na maior parte do tempo, preenchi a papelada, encontrei advogados e me instalei em meu escritório. — Você se encontrou com advogados? — a voz firme de Fiona soou da minha


direita. — Eu tive que assinar um acordo de não divulgação e um acordo de não concorrência. Fiona franziu a testa. Seus olhos encontraram os de Marie por um instante, depois voltaram-se para mim. — Por que você precisa assinar isso? — Bem, basicamente, eu não devo divulgar a natureza do meu trabalho ou com quem eu trabalho. A expressão de Fiona se aprofundou. — Você quer dizer, seus nomes? Você não tem permissão para falar sobre seus colegas de trabalho? Balancei a cabeça e terminei um gole sedento do meu vinho. — Não, quero dizer, não posso discutir com nenhum dos clientes com quem trabalho: seus nomes, quanto pagam, o que fazemos por eles ou que serviços oferecemos. Esse tipo de coisa. Lembrei-me da minha conversa com dois advogados no início do dia. Ambos eram homens em forma de ovo, com trinta e poucos anos e me lembravam de Tweedledee e Tweedledum, na aparência. Mas quando eles falaram, seus sotaques franceses apagaram minha impressão anterior. Le Dee e Le Dum deixaram claro que eu não deveria divulgar nenhum detalhe sobre os clientes com os quais eu iria interagir em breve. Sem nomes, sem características, sem impressões, sem nada. Também não fui autorizada a discutir o que fazia no trabalho, incluindo a descrição ou deveres do meu trabalho ou os serviços oferecidos pela Cypher Systems. Eu poderia, no entanto, comunicar o meu cargo, se me perguntassem. Foi a vez de Marie pedir. Aproveitei a oportunidade para olhar o cardápio, mas Fiona me pressionou no assunto. — Eu acho que faz sentido... — sua voz sumiu, como se ela esperasse que eu preenchesse um espaço em branco. Voltei minha atenção para ela e encontrei seus olhos élficos amolecidos de preocupação. Dei a ela um sorriso reconfortante. — Ah sim, faz sentido. Não é realmente um grande segredo. Eu até diria, mas teria que matar vocês. É mais uma coisa proprietária, segredos comerciais e tal. Essa resposta pareceu acalmá-la, porque ela devolveu meu sorriso e me deixou voltar a estudar o cardápio.


Capítulo 8 Para meu duelo entre desgosto e alegria de menina, não tive que esperar muito tempo para conversar com Quinn. Aconteceu durante minha segunda semana no trabalho.A Cypher Systems era uma máquina extremamente eficiente e bem lubrificada de empresa, e era muito sigilosa. Quase imediatamente, entendi a necessidade do acordo de não divulgação que assinei no meu segundo dia e, ao final da primeira semana, comecei a me sentir confiante na manutenção geral das contas, sistemas e estrutura de trabalho, e escritório, aos quais eu era responsável. Amei meu novo trabalho. Consegui o que Steven chamava de “todas as contas públicas”, que, em sua maioria, eram empresas moderadamente grandes, que usavam uma subsidiária da Cypher Systems, chamada Guard Security. A Guard Security fornece segurança para várias propriedades e prédios corporativos, bem como detalhes de segurança pessoal para os tipos de CEO. Rapidamente entendi por que Steven não usava títulos de coluna em suas planilhas. Steven me disse que o firewall da Cypher estava sob ataque quase constante, por isso todos os arquivos de dados e identidades foram codificados. Assim, até a primeira metade do mês seguinte, que seria durante a maior parte do meu treinamento, não saberia em qual conta eu estava trabalhando, só saberia o código. Steven disse que depois das duas primeiras semanas, ele me forneceria um código chave em um pendrive e me daria apenas um dia para memorizar qual código pertencia a cada cliente, para cada conta. Steven gerenciava as contas privadas que, pelo que pude deduzir com base em sua vaga descrição, eram contratos com indivíduos, cidadãos particulares e famílias de alto nível. Além da segurança, os contratos também incluíam trabalhos investigativos. Esta subseção da Cypher Systems também era uma subsidiária e foi chamada de Infinite Systems. Além dos sistemas Guard Security e Infinite, a Cypher Systems possuía outras propriedades e era a empresa controladora de várias outras empresas, mas Steven e eu éramos os únicos contadores da divisão de segurança. Na verdade, a Cypher Systems era realmente muito pequena — se você não contasse todas as subempresas —, com apenas dezenove funcionários no escritório. Mesmo assim, minha empresa ocupava exclusivamente o último andar inteiro, e todo escritório tinha janela ao longo do perímetro norte do prédio. Segundo Steven, os escritórios e a localização eram novos. A empresa havia se mudado


para lá há apenas alguns meses. Não havia vista do lago da minha janela, mas o escritório do canto direito provavelmente tinha um panorama respeitável. Independentemente disso, parte de mim queria se mudar para o meu escritório e morar lá. Me vi distraída pela minha incrível visão do centro da cidade e, frequentemente, beliscava meu braço para me lembrar que era real. O resto do espaço estava praticamente bloqueado, com apenas uma porta pesada como entrada. Para conseguir entrar, você precisava passar por um detector de identidade de cinco dedos e retina. Quando perguntei a Steven o que havia dentro da sala, ele deu de ombros, sem interesse e disse: — Armazenamento de dados. Eu conheci quase todo mundo no meu segundo dia. Contei Quinn entre meus dezoito colegas de trabalho, embora eu não soubesse a função dele ainda. Não o tinha visto ou falado com ele desde o sábado antes de eu ser contratada. Oito, dos dezoito, eram contadores. Alguns deles compartilhavam do meu título de Coordenador do Projeto Fiscal Sênior, e alguns foram nomeados simplesmente como Coordenador de Projetos Fiscais. Além de Carlos, havia apenas um outro Diretor no escritório — a Diretora de Recursos Humanos —, e ela não parecia ter nenhum outro funcionário além de seu assistente administrativo. O resto do grupo incluía Keira, que era a recepcionista, uma telefonista, um cara de suporte técnico, chamado Joe, dois programadores de informática e outra assistente administrativa, chamada Betty, com quem eu nunca falava, mas via às vezes, quando ela passava pelo meu escritório. Betty trabalhava para o CEO da empresa, que também era o CIO, o CFO e o COO, mas todos o chamavam de Chefe. Ficou claro para mim que Betty e o Chefe, ou como Steven os chamava, B & C, não interagiam muito com o resto da equipe. O Chefe, ao que parece, não entrou muito no escritório. Ninguém pareceu surpreso com a ausência dele durante toda minha primeira ou segunda semana de trabalho, então nunca o conheci. Betty era muito elegante e parecia estar em meados dos seus sessenta anos. Ela tinha cabelos grisalhos e olhos negros, usava pérolas todos os dias, e um conjunto de saia feita sob medida. Não parecia tão hostil. Ela parecia muito ocupada, em tempo integral. Meu encontro com Quinn ocorreu na quarta-feira, na minha segunda semana na Cypher Systems. Percebi que nunca vi Betty sair do escritório. Ela estava lá quando eu chegava, não importava quão cedo fosse, e ela ainda estava lá quando eu saía, não


importava o quão tarde era. A ocupação perpétua de Betty, fez com que eu me oferecesse para pegar o almoço para ela, naquele dia. Acho que a confundi, a princípio, porque ela repetiu a palavra “almoço” várias vezes, como se fosse uma coisa lendária de que ela já tinha ouvido falar em uma história para dormir, há muito tempo. Finalmente, com um sorriso claramente grato, ela aceitou a oferta e pediu uma tigela de sopa de legumes, uma salada e um biscoito grande, de aveia, de uma lanchonete chamada Smith’s Take-away and Grocery. Era uma lanchonete e mercearia, que vendia sanduiches, bem conhecida, a apenas uma rua do nosso prédio. Saí cedo para poder comer fora e voltar antes do meio dia. A lanchonete tinha algumas mesas ao longo de toda a parede. Eu estava sentada na mesa de canto, relendo um dos meus quadrinhos favoritos, uma antologia de uma série encadernada em brochura. Quando a maioria das pessoas pensam em histórias em quadrinhos, elas lembram o pequeno estilo de panfleto com apenas algumas páginas e, no início de cada panfleto, a história começava onde a anterior parou, em outra revista em quadrinhos, que sempre terminava para ser continuada. As maiores antologias limitadas em brochura, são como assistir a uma temporada inteira de um programa de TV no Netflix ou no Amazon Instant Videos. Você pode degustar toda a série e mergulhar na beleza da novela gráfica, em uma sessão épica. Eu tinha emprestado a antologia para uma das crianças que eu ensinava e ela havia me devolvido na semana passada. Nos últimos dois anos de tutoria, me tornei uma espécie de biblioteca de histórias em quadrinhos, para as crianças. Eu não me importava. Eles cuidavam muito bem deles e adoravam discutir as histórias depois de terminarem. Meu polegar se moveu para frente e para trás no lugar que rasguei a capa, há vários anos, quando mergulhei mais fundo na história. Minhas pernas estavam enroladas embaixo de mim, e eu estava apenas chegando na parte em que o cara realmente mau está prestes a sequestrar a namorada do mocinho, quando ouvi uma voz imediatamente à minha esquerda. — O que você está lendo? Endureci, meu coração pulando e eu, automaticamente, me voltei para a voz. Encontrei Quinn olhando para mim, sua expressão contida e neutra, exceto por seus olhos. Seus olhos sempre pareciam ter uma tonalidade de azul malvado. Lutei para entender sua presença e pisquei para ele várias vezes. Percebi que minha boca estava aberta. A fechei e olhei para o lado, habitualmente passando a mão pelo meu cabelo. Estava preso em um coque severo e parecia estar bem comportado, o que era mais do que eu poderia dizer


para qualquer outra parte do meu corpo. Limpei minha garganta e mostrei a capa do meu livro, em seguida o olhei novamente. Notei que ele não usava uniforme de segurança. Em vez disso, ele estava vestido com um terno de lã cinza, muito bonito, camisa branca e gravata cinza com fios de seda azul. Se estivéssemos na Inglaterra vitoriana, eu o teria chamado de pomposo, mas, como vivíamos no século XXI, tive que me conformar com o caliente modelo da GQ. — Hmm... — esticou o pescoço e se inclinou para ler a capa. Em seguida, se endireitou, sua expressão impassível. Seus olhos deslizaram pelo meu rosto. — Você lê quadrinhos? Balancei a cabeça distraidamente, acariciando a capa. Como de costume, em torno de sua aura de beleza masculina, minha boca ficou seca. Finalmente falei. — Sim eu leio. — Hmm — ele disse, novamente. Nos observamos por um momento e, como um relógio, eu podia sentir o calor, que sempre acompanhava sua presença, começar a se espalhar do meu baixo ventre para o meu pescoço, ombros e dedos. De repente, ele disse: — Chega pra lá. Abruptamente pegou minha bolsa, que estava em cima do banco ao meu lado, e a colocou no banco oposto. Colocou sua comida ao lado da minha embalagem vazia de sanduíche, tirou o paletó, dobrou-o com cuidado e colocou-o sobre a minha bolsa. — Eu-uh — murmurei. Afobada, só pude me empurrar mais para o canto da mesa enquanto ele se sentava ao meu lado, mas meus esforços não faziam muita diferença. O espaço não era para duas pessoas. Era, talvez, por um e três quartos, o que significava que, mesmo com minhas costas pressionadas contra a parede atrás de mim, um cara grande como Quinn e uma garota de seios grandes como eu, mal se encaixavam. Quando ele finalmente se acomodou, sua perna pressionou a minha, da parte superior da coxa até o tornozelo. Mastiguei meu lábio inferior e coloquei o HQ no meu colo. Deve ter sido o efeito da graphic novel emparelhado, com a proximidade repentina de Quinn e estar bastante presa por sua grande forma, ou qualquer que seja a causa, senti como se desmaiasse. — Um pouco apertado — ele comentou com um pequeno sorriso, virando-se para mim, seu rosto a centímetros do meu, enquanto desembrulhava um sanduíche. — Sim. Bem, eu posso ir, se...


— Não, não. Fique. Está gostando do trabalho? — ele mordeu o sanduíche e virou toda a sua atenção para mim. — Estou. Tive que me concentrar em respirar normalmente. Estar tão perto dele, era enlouquecedor. Eu não conseguia olhar para qualquer lugar sem ver alguma parte dele, então resolvi olhar para suas mãos. Uma segurava o sanduíche de rosbife e a outra segurava um guardanapo. — Eu gosto muito. Acabei de começar, e... uh... — fiz uma careta, então respirei fundo. Eu não tinha certeza se tinha permissão para falar com Quinn sobre o trabalho. Não o tinha visto na empresa e, até onde sei, ele não tinha um escritório no meu andar. Devo ter refletido demais sobre a questão, porque, depois de alguns momentos, Quinn perguntou: — O que há de errado? — Não é nada. É só… — encontrei o olhar dele. — Não tenho certeza do que posso te dizer. Seus olhos se estreitaram para mim. — O que você quer dizer? — Eu não deveria falar sobre o que eu faço, com ninguém. Ele piscou para mim. — O que? — Eu assinei o acordo de não divulgação, na semana passada — dei a ele uma careta de desculpas. Ele colocou seu sanduíche na mesa e olhou para mim, com um ar parecido de descrença. Abriu a boca para falar, mas depois fechou e deu uma risada curta. — Janie, confie em mim. Você pode falar comigo, afinal, é a minha empresa. Meus ombros caíram um pouco. — Eu sei que você trabalha lá também. Sinto Muito, mas eu nunca tive que assinar um acordo de não divulgação antes, e não quero cometer um erro. Seu sorriso se alargou sutilmente, enquanto seu olhar se movia sobre mim. Seus olhos se iluminaram com o que parecia ser uma risada, e então ele tirou o celular do bolso. — Vou ligar para o Carlos. Se ele disser que está tudo bem você falar comigo, você fala? Sem pensar, coloquei minha mão sobre a dele para acalmar seus movimentos. — Não, não faça isso. Você está certo, estou sendo boba. Eu realmente não quero estragar tudo, e todo mundo parece tão legal, tipo, bom demais para ser legal de verdade, e o escritório é bom demais para ser verdade, e como eu


consegui o emprego é bom demais para ser verdade, e quando você acrescenta tudo isso, só estou esperando o outro sapato cair — suspirei. — Não, o primeiro ainda não caiu, então essa não é a expressão certa para usar, mesmo que tenha se originado em cidades como Chicago. Deslizei minha mão para longe dele e, nervosamente, peguei meu livro. Quinn balançou a cabeça, e notei que o seu, geralmente, olhar objetivo de falcão, parecia mais suave e desprotegido. — Janie, do que estamos falando? — Sobre a origem da expressão que acabei de usar: esperar que o segundo sapato caia. Você sabia que se originou em cidades como Chicago e Nova York? — Não, não sabia — ele inclinou a cabeça, sua boca indo para um lado como se ele estivesse tentando não rir. — Me conte sobre isso. Ele estava me provocando novamente. — Bem, aconteceu. Assim… Ele ergueu as sobrancelhas. — Só isso? Você não vai me dizer os detalhes específicos de como se originou? Balancei a cabeça. — Eu não sei os detalhes. Ele me imitou e balançou a cabeça em resposta. — Você está mentindo. Você sabe. — Não, eu não sei. — É igual a historia dos mamíferos — suspirou e colocou o telefone na mesa. Antes de dar uma mordida em seu sanduíche, continuou: —Você é mesquinha com informação. Minha careta se aprofundou. — Não, não sou. Suas palavras estavam um pouco truncadas ao falar enquanto mastigava. — Você é uma provocadora da informação. — O que? — Ou talvez você não saiba realmente a origem e está inventando coisas para me impressionar — ele deu outra mordida. — Eu não estou! Origina-se da recente Revolução Industrial no final do século XIX e início do século XX. Os apartamentos foram todos construídos com a mesma planta e com um design semelhante, de modo que o quarto de um inquilino ficava abaixo do de outro. Portanto, era normal ouvir um sapato cair no chão, depois o outro, quando um vizinho do andar de cima se despia à noite. — Me pergunto o que mais eles ouviam. — Seu olhar firme manteve minha atenção e pareceu queimar com uma nova intensidade.


— Suponho que tudo era alto o suficiente. Ele me deu um sorriso largo, seguido por uma profunda e contínuagargalhada. Gostei do som de sua risada e sorri, relutantemente, em resposta. No entanto, eu estava lutando contra os sentimentos de estar satisfeita por fazê-lo rir, mas preocupada por estar sendo ridicularizada. A última sensação encobriu a primeira. Franzi a testa e, em seguida, olhei para o meu colo e conscientemente para a capa do meu HQ novamente. Eu podia sentir o calor de um rubor se espalhando pelo meu pescoço. A intensidade da minha reação a ele, continuou a me confundir. Não era apenas sua boa aparência — que beirava os anjos cantando nos altos milagrosos — que me irritava tanto. Não mais, pelo menos. Se ele fosse um idiota lindo ou um idiota de boa aparência, minha reação teria esfriado e normalizado rapidamente. Infelizmente ele não era um idiota e, definitivamente, não era um babaca. Ele era atencioso, inteligente e confiante, e o cara mais habilmente sexy que já conheci. Eu não gostava de pensar que ele estava rindo de mim. Ouvi sua risada vacilar subitamente, antes que ele dissesse: — Ei, Janie, olhe para mim. Levantei meu queixo, mas não consegui encontrar seus olhos. Um vestígio de um sorriso ainda estava em seu rosto e ele continuou: — Eu estava apenas brincando com você. Forcei uma pequena risada e encolhi os ombros. — Eu sei. Eu… uh… — olhei para o meu relógio, propositalmente. — Eu tenho que voltar para o escritório. Minha pausa para o almoço acabou. Seu sorriso desapareceu. Depois de um momento, ele pigarreou. — Você ainda não me disse como o trabalho está indo. — É ótimo, mas eu não quero me atrasar para voltar. Ele engoliu e empurrou o sanduíche para o lado. — Não se preocupe com o atraso. Vou ligar para Carlos. — Não faça isso. — Eu não me incomodo. — Mas eu sim. Ele me observou por vários instantes e, apesar do estrondoso bater do meu coração, silenciosamente esperei enquanto ele me estudava. Me senti muito quente, muito consciente de tudo. Quando finalmente encontrei seu olhar, notei que o rosto dele havia se transformado em uma máscara impassível, mas, como sempre, seus olhos azuis pareciam queimar intensamente. Finalmente se levantou. Soltei um suspiro que eu não sabia que estava segurando. Quando me mexi para ficar em pé, ele estendeu a mão e pegou a minha para me ajudar a sair


da mesa. — Escute — ele disse e, depois, limpou a garganta novamente. Ainda estava segurando minha mão e, com isso, me manteve no lugar. — Na próxima semana você sairá comigo para alguns lugares. Faz parte do seu treinamento. Abri minha boca, em surpresa. Uma pequena pontada de prazer e dor torceu no meu peito, quando me dei conta de que passaria mais tempo com ele. Finalmente, reunindo o suficiente da minha inteligência para formar palavras, gaguejei: — Que tipo de lugares? — Vou levá-la para conhecer alguns dos nossas clientes. — Steven não mencionou nada sobre isso em seu cronograma de treinamento — eu disse. — Ele deve ter esquecido. — Isso não parece provável. Quinn levantou as sobrancelhas, intrigado. — Existe alguma razão para você não quer ir? — Nós não vamos de motocicleta, vamos? — Não, nós vamos com um carro da empresa. — Ah. Ok. Olhei para as nossas mãos, ainda juntas por ele me ajudar a sair da mesa, e notei que a sua era muito grande, o que fazia a minha parecer mais pequena que o normal, em comparação. Foi uma sensação estranha. Senti que qualquer parte do meu corpo era pequena. Eu sempre me senti tão grande perto de Jon. Minhas mãos eram do mesmo tamanho que as dele. Quinn deve ter notado o meu olhar, porque, rapidamente, deixou minha mão cair e estendeu a mão para o banco onde o paletó dele estava, em cima da minha bolsa. Ele o puxou para o lado e pegou minha bolsa. Pareceu estudá-la por um breve momento, antes de entregá-la para mim. — Obrigada. — Peguei a bolsa, mas não fiz nenhum movimento para sair. Em vez disso, dei-lhe um pequeno sorriso sem mostrar os dentes e me mexi, pressionada pelo olhar firme dele. — De nada. E obrigado por me deixar interromper o seu almoço. Dei de ombros. — Ah, sem problema. Fique à vontade para interromper a qualquer hora. — Mesmo? A qualquer hora? — o canto de sua boca se inclinou para o lado e ele afundou o queixo como se fosse me forçar a encontrar seu olhar. — Isso é uma coisa perigosa para dizer se você não está falando sério. Eu poderia interpretar isso de forma a incluir almoço, jantar e café da manhã. Sua pergunta, a declaração e a maneira com que ambas foram colocadas,


fizeram meu coque se sentir muito apertado e meu pescoço, quente. Olhei para ele através dos meus cílios, incerta de onde isso ia dar. Mesmo depois de nossos vários, embora limitados, encontros, tudo sobre Quinn se tornou hipersensível e autoconsciente. Sem dúvida, se ele esperasse que eu retrucasse com algo enfeitado e divertido, eu o decepcionaria completamente. Não sabia como me envolver em brincadeiras de paquera. Minha mente vagou por conversas com Elizabeth, em que ela insistia que Quinn estava interessado em mim e eu continuava achando a afirmação ridícula. Portanto, diante de tal homem falando comigo de tal maneira, me encontrei totalmente despreparada. Todas as tentativas anteriores em situações semelhantes, principalmente referentes a faculdade, foram desastrosas e dolorosamente desconfortáveis. Ou estavam na hora errada, ou os tópicos que eu escolhi foram mal recebidos. Por exemplo: as excreções de feromônios dos cupins. Agora, de pé desajeitadamente, evitando contato visual, tentando adiar minha resposta, eu nem sabia se brincadeiras de flerte eram o que Quinn esperava, ou queria. Os homens, em geral, me perturbavam. Esse, em particular, transformou minhas entranhas em uma confusão de caos, simplesmente por olhar em minha direção. Finalmente, enquanto ignorava os sentimentos de inquietação, decidi responder com seriedade. Não havia nada de errado com a honestidade, e foi sua escolha entender tanto, ou tão pouco, a minha resposta. Um tanto incerta de encontrar seus olhos, finalmente respondi. — Sim, eu quero dizer isso. Fique à vontade para se juntar a mim a qualquer hora. — Fiquei surpresa com o quão tranquila minha voz soou. Um sorriso lento e hesitante se espalhou por suas feições, e eu tive dificuldade em respirar. Era um sorriso sexy — um sorriso muito sexy —. Seus olhos desceram para minha boca e ele lambeu seus lábios quase imperceptivelmente. Me senti um pouco zonza. — Bom, farei isso — ainda me dando seu sorriso, Quinn estendeu a mão e pegou seu paletó do banco. — Te levo de volta. Quinn segurou o almoço de Betty enquanto caminhávamos a curta distância até o Edifício Fairbanks. Eu estava no meio de explicar uma possível melhoria na estrutura de faturamento do Guard Security para Quinn, quando nos aproximamos do balcão de segurança. Dan, o guarda de segurança com tatuagens no pescoço, que me acompanhou no meu primeiro dia de trabalho sem entrevista, acenou para Quinn e piscou para mim.


Eu sorri e acenei calorosamente em troca, e então terminei de explicar a Quinn o ímpeto para a análise de custos em que eu estava trabalhando. — A melhor coisa na proposta, é que o software é gratuito. Olhei para Quinn, para avaliar sua reação a esta grande notícia, mas para minha decepção, ele estava franzindo a testa para mim. Paramos em frente ao elevador e me virei para encará-lo. — Você não acha que é uma boa ideia? A expressão de Quinn era rígida e ele olhou além de mim, para o saguão. Apontou para o balcão da segurança, com o queixo. — De onde você conhece Dan? — Quem? — olhei por cima do ombro para seguir o olhar de Quinn e encontrei Dan olhando para nós, para mim. Lhe dei um sorriso de boca fechada, em seguida, voltei para Quinn. — Ah, Dan, o segurança. Aqui do prédio, mesmo. No meu segundo dia na Cypher Systems, ele me ajudou a trazer minha caixa de parafernália. — Vocês se falam muito? — Quinn ainda não estava olhando para mim e, por isso, eu estava feliz. Parecia um gavião prestes a devorar um rato e, estando tão perto, pude ver que seus olhos eram de um celeste ardente. Eu balancei a cabeça. — Na verdade, não. Apenas às vezes, quando chego de manhã, ou quando vou almoçar. Por quê? Eu deveria estar preocupada? — hesitei, franzindo a testa. — Há algo que eu deveria saber sobre ele? Ele é um cara mau? Quinn voltou sua atenção para mim e fui tomada por um calor, do meu nariz aos dedos dos pés. Sua expressão suavizou e ele pareceu pensar no que dizer em seguida. Finalmente, ele suspirou e disse: — Você lê muitos quadrinhos. — O quê? — pensei em negar a acusação, mas, em vez disso, perguntei: — Por que você diz isso? O elevador abriu e ele segurou a porta. Em seguida, me seguiu. — O cara mau e o cara bom. A maioria dos caras estão em algum lugar, no meio. Levantei uma sobrancelha para sua afirmação. — Eu não concordo. Acho que você pode dizer que alguém é bom ou ruim, com base em suas ações. Este foi um assunto que eu passei muito tempo considerando. Ambas minhas irmãs eram criminosas. Minha mãe era uma trapaceira em série, que abandonara sua família. Eu gostava de rótulos. Gostava de colocar pessoas e coisas em categorias. Isso me ajudou a ponderar minhas expectativas nas pessoas e nos relacionamentos. Se eu não rotulasse minhas irmãs como ruins, eu seria uma


facilitadora do comportamento delas, assim como meu pai era. Não planejava gastar minha vida como um capacho, ou viver na sala de espera de um desapontamento eterno, esperando que eles mudassem. — Então, uma ação ruim faz uma pessoa ruim? — Quinn colocou a palma da mão contra a tela de impressão digital de cinco pontos e, então, digitou o código para ligar o elevador. — Não. Uma pessoa é a soma de suas escolhas e, portanto, é amplamente definida por suas ações. — Ninguém faz sempre boas escolhas, e todo mundo comete erros. — Ah, ha! Sim, é por isso que também considero as intenções como o denominador definidor, em meu intervalo de confiança entre pessoas boas e pessoas ruins. A boca de Quinn puxou para o lado. — O que isso significa, “seu intervalo de confiança entre pessoas boas e más”? — ele apoiou o ombro contra a parede do elevador. — Bem, obviamente, todo mundo comete erros, mas se você só vê isso como um erro porque foi pego, então, isso é ruim. No entanto, se você perceber que cometeu um erro porque reconhece o erro dos seus caminhos e se esforça para mudar, então, isso é bom. Há uma grande diferença. — Então, realmente, você acha que uma pessoa é a soma total de suas intenções, e não suas ações. O elevador abriu e eu saí enquanto continuava a filosofar. — Não. Sem ação, até as boas intenções são sem sentido. Fiquei realmente impressionada com a confortável progressão da nossa conversa. Estranhamente, os sempre presentes alfinetes e agulhas que eu geralmente sentia perto do Quinn, pareciam se dissipar quanto mais nos aventurávamos nesse assunto. Me senti quase relaxada. Passamos por Keira, que acenou para mim, mas de repente parou de digitar quando viu Quinn. Antes que eu pudesse pensar duas vezes e perguntar a Keira se ela estava bem, Quinn perguntou: — O que uma pessoa seria, se tivesse boas intenções e nenhuma ação? — sua mão livre pressionou contra a parte inferior das costas, e continuamos pelo corredor até meu escritório. — Preguiçoso. Bem na minha porta, ele me parou com uma leve pressão no meu cotovelo. — E o que você chama de alguém que tem más intenções e boas ações, ou boas intenções e más ações? — Estúpido. Ele ponderou por um longo tempo. Sua testa estava franzida, mas havia um


pequeno sorriso em seus lábios. — Deixe-me ver se entendi. De acordo com você, existem quatro tipos de pessoas: boas, más, preguiçosas e estúpidas. Isso está certo? Meus olhos percorreram o rosto de Quinn enquanto eu contemplava seu resumo da minha filosofia. — Mais ou menos. Quase isso. Pense nisso como um gráfico de quatro quadrantes. Ele piscou para mim. — Use uma analogia diferente. Eu não trabalho muito em gráficos de quatro quadrantes. Ri e caminhei até a minha mesa. — Está bem. Imagine um mapa dos Estados Unidos. Divida-o em quatro quadrantes: Norte, Leste, Sul e Oeste. Digamos que eu sempre faça viagens para o Norte, mas às vezes eu vá para o Leste. Às vezes eu vou para o Nordeste e, em raras ocasiões, vou para o Sul. Cada viagem que eu faço, é um ponto no mapa. O quadrante com mais pontos, representa minha personalidade. — Portanto, alguém poderia ser uma boa pessoa, com tendência a ser um pouco estúpida. Balancei a cabeça lentamente. — Sim, precisamente. Eu, por exemplo. Eu me sinto confiante em dizer que sou uma boa pessoa, com uma tendência a ser um pouco preguiçosa e uma tendência precipitada de ser estúpida, especialmente quando se trata de decisões e ações não relacionadas ao trabalho. — E que tipo de pessoa você pensa que sou? Meu olhar encontrou Quinn enquanto ele, vagarosamente, adiantou-se para ficar na minha frente. Suas feições estavam com um ar de indiferença, mas seus olhos estavam penetrantes e firmes. Os alfinetes e agulhas retornaram imediatamente, meu coração acelerou e meu pescoço estava quente. — Uh, bem — soltei um suspiro um pouco instável e descansei meus dedos sobre a mesa, principalmente para me equilibrar. Ele parou a menos de 30 centímetros de mim, de modo que nós dois estivéssemos de pé atrás da mesa. Tive que inclinar a cabeça para trás, para manter contato visual. — Eu não acho que você é estúpido, ou preguiçoso. — Hmm! — uma sombra de um sorriso passou brevemente por seu rosto. — Então isso me leva ao bom ou mal. — Eu acho que para o bom. — E por quê? — Porque você me ajudou no clube, e você me apoiou aqui — lambi meus


lábios, minha boca estava seca. — Ainda preciso devolver as roupas da sua irmã, e eu não tive a chance de te agradecer por arranjar a entrevista. Seus olhos perderam o foco e ele franziu a testa. De repente, ele deu um passo para trás e fixou sua atenção no chão. Ergueu a mão que segurava o pedido para viagem. — Vou levar isso para Betty e parar no escritório de Steven para falar sobre seu treinamento dessa semana. Eu vou... — ele esfregou a nuca com a mão livre. — Até amanhã. De repente, me lembrei da minha promessa à Elizabeth sobre o incidente no Camarote e a suposta inclinação de desconhecidos para drogar mulheres. Sem pensar, dei dois passos à frente. — Espera! Antes de ir, preciso te perguntar uma coisa. Ele parou, levantou os olhos mais uma vez e esperou eu continuar, pacientemente. Tentei engolir, mas minha garganta ficou apertada. Eu não sabia como dizer aquilo, então comecei a falar. — Então, sobre o que aconteceu no clube na semana passada... queria perguntar a você... o que eu quero dizer é... o que aconteceu com a pessoa que, sabe, me drogou com benzodiazepínas? — Ele foi preso. Respondeu com naturalidade. Não pude esconder minha surpresa quando fiquei de boca aberta. — Ele foi preso? Quinn assentiu. Sua expressão era neutra e ilegível. — Mas eu preciso fazer alguma coisa? Devo apresentar uma queixa? — Não. Ele não foi preso por te drogar. Ele foi preso por outra coisa. — Ah! — fiz uma careta e suspirei, enquanto pensava sobre isso. — Quem é ele? Por que ele foi preso? — Só um cara. Não se preocupe, ele não terá a oportunidade de te incomodar de novo. Com isso, Quinn se virou e saiu do meu escritório. Olhei para a porta, confusa e aliviada, mas na maior parte confusa, sem saber o que fazer com a última parte de nossa conversa. Antes que eu pudesse pensar sobre isso com alguma exatidão, Olivia Merchant entrou no meu escritório. Ela não estava olhando para mim, mas sim para o final do corredor, na direção que Quinn seguiu. — Era o Sr. Sullivan? — Olivia parecia tão confusa quanto eu me sentia. Interagi com Olivia, a administradora de Carlos, várias vezes. Ela não me pareceu boa, ou má, ou estúpida. Ela não era muito eficiente com o seu trabalho, mas ela parecia fazer um bom show sempre que Carlos estava por perto. Não me importava com ela, só precisava descobrir uma maneira de melhorar sua


capacidade de resposta aos meus pedidos, ou descobrir uma solução para sua lentidão de trabalho. — Sim, era ele. Eu estava ao lado da minha mesa e me apoiei nela, um tanto confusa. Se eu não estivesse tão aturdida, poderia ter me ocorrido que era a primeira vez que Olivia se esforçava para falar comigo. — O que ele estava fazendo aqui? — ela se virou para mim, colocando as mãos nos quadris. Mais uma vez, se eu não estivesse tão aturdida, teria notado a acusação e a suspeita em seu tom. — Levando o almoço para Betty. Ela se endireitou e deixou as mãos caírem dos lados. — Ah. Bem, isso foi legal da parte dele. Eu assenti. Foi legal da parte dele. Foi legal da parte dele sentar comigo na lanchonete, foi legal da parte dele me levar de volta ao trabalho e me satisfazer com minhas filosofias idiotas. Ele não parecia exatamente seguro, agradável ou acessível, mas Quinn Sullivan era um cara legal. Ele era um cara bom. Olivia murmurou alguma coisa sobre o check-in com Keira, e então ela saiu, mas não prestei muita atenção nela. Eu estava animada, nervosa e desorientada. Eu passaria parte de amanhã com Quinn.


Capítulo 9 Corri para casa, para contar à Elizabeth minhas novidades e me dedicar ao que supus ser um comportamento feminino completamente típico: analisar cada detalhe da minha conversa e do meu tempo com Quinn Sullivan, assim como Sr. Calças-Quentes Quando cheguei em casa, encontrei um bilhete dizendo que ela havia ido ao hospital para uma troca de turno inesperada, e que eu deveria começar a procurar por apartamentos de dois quartos com preços razoáveis. Em vez de me dedicar à conversa de garotas, tive que me contentar em assistir a um drama de época para menininhas na BBC America e pesquisar um novo lugar para morarmos, em sites de anúncio. Verdade seja dita, eu não estava com muita pressa para desocupar o apartamento. Eu gostava de dormir no sofá, fazia todas as noites parecer uma festa do pijama. Gostava dele não ser permanente. No dia seguinte, fui atormentada por uma empolgação nervosa. Acordei muito cedo, porém saí tarde do apartamento, justamente por experimentar cada peça de roupa que eu tinha. Finalmente me conformei com uma camisa branca de gola redonda, calça azul escura e salto alto combinando. Senti que tinha atingido meu objetivo de “profissional executiva”, sem me esforçar muito, mas fiquei preocupada enquanto esperava o trem, por não ter me esforçado o suficiente. Me preocupei em parecer sem graça. Quase que imediatamente tirei o pensamento da minha cabeça e reforcei a ideia de que Quinn Herr Lindostein Sullivan é apenas meu colega de trabalho, que ele não está interessado em mim e ele não se importa ou repara no que eu estou vestindo. Lembrar isso fez eu me sentir melhor, e um pouco pior. Quando cheguei ao trabalho, parei na sala do Steven para perguntar se deveria preparar, ou levar algo para o treinamento. Steven apenas deu de ombros e disse: — O Sr. Sullivan não me falou muito sobre isso, mas ele não fala muito, não é? Provavelmente só vai te mostrar uma das propriedades e te trazer de volta em uma hora. — Steven apertou um botão do telefone para fazer uma chamada e depois me enxotou para fora da sala. Esperei a manhã toda pela ligação de Quinn. Fiquei perto do meu telefone e pulei toda vez que ouvia um telefone tocar. Por volta das três horas, olhei para o relógio e franzi a testa pela quadragésima segunda vez naquele dia. Ainda não havia ligação, e a hora almoço já tinha passado. Eu não tinha comido desde o café da manhã — às seis horas da manhã —, e isso consistia em dois ovos cozidos. Além disso, eu tinha que estar na Zona Sul em três horas para


a minha tutoria de quinta-feira à noite. Decidi acabar com minha decepção, em um sanduíche de carne italiana da Smith’s Takeand e Grocery. As coisas deram errado quando saí correndo para pegar o almoço para Betty e para mim, já que éramos as únicas no escritório que ainda não tinham comido. Nos dezessete minutos que levei para pegar a comida, Quinn deixou duas mensagens no meu telefone. A primeira foi um rude “me ligue de volta o mais rápido possível”. A segunda foi menos detalhada. Ele deve ter ligado assim que saí. Meu coração pulou ao som de sua voz quando chequei minha caixa postal com uma mão e segurei minha refeição com a outra. Então Keira entrou no meu escritório, com um fone de ouvido Bluetooth, no ouvido. Ela me disse que o Sr. Sullivan ligou e queria que eu o encontrasse no Starbucks da esquina. Desisti de comer e imediatamente peguei o elevador para descer. Eu estava agitada e tensa, dava para ver. Ambas as sensações foram justificadas. Meu estômago despencou quando eu o vi. Notei sua expressão severa e percebi que segurava um objeto. Ao nos encontrarmos ao lado do balcão de café, pude ver meu destino na mão dele: um pequeno retângulo preto e lustroso, com uma tela brilhante e apenas um botão perceptível. Praticamente todo mundo na Cypher Systems tinha um celular corporativo. Eu sabia que fazia sentido, mas eu ainda não tinha que gostar disso. Minhas mãos estavam nos meus quadris e eu olhei para o celular com desprezo. — O que é isso? Seu sorriso era relutante, como se ele realmente quisesse manter uma máscara impassível, mas foi impossível. — Com o que se parece? — Não acredito em celulares — eu disse. Eu poderia muito bem ter dito que não acreditava nas leis da termodinâmica. — Não entendo. — Seu olhar ficou notavelmente penetrante, e o sorriso desapareceu de suas feições. Sua habitual máscara estóica de indiferença estava tingida de confusão. Me mexi desajeitadamente, apertando os dedos do pé. — Isso significa que eu não quero ter um celular. — Eu não estou pedindo — estendeu-o com suas mãos grandes e o colocou na minha mão. — E o Carlos? O que ele diz? — Foi ideia dele.


Sua incoerência me deixou inabalável. Talvez porque eu tinha acordado no apartamento de sua irmã seminua, ou porque nós podemos ou não ter flertado no dia anterior, ou talvez tenha sido o meu real ressentimento com a ideia de ter que carregar um celular. Fosse o que fosse, de repente eu parecia quase imune ao tumulto habitual que sua proximidade causava em minhas entranhas. Respondi: — Não, não foi ideia do Carlos. Foi ideia sua. Você provavelmente falou com ele sobre isso. — Tudo bem, foi minha ideia, e Carlos acha que é ótimo. Já que Carlos é seu chefe... — ele ergueu as sobrancelhas e esperou que eu preenchesse o vazio. O encarei em desafio, enquanto ele colocava minhas mãos entre as suas. Tentei não me abalar pelo toque, mas a falta de harmonia entre a gentileza com que ele segurava minha mão e a determinação de seu olhar, era irritante. Seu polegar também estava se movendo, em círculos lentos, sobre as costas da minha mão. Segurei minha raiva no peito, como um último par de Jimmy Choos do meu tamanho. Finalmente, eu disse a única coisa que veio à mente: — É uma escolha pessoal. Eu não quero isso. Ele suspirou, nitidamente irritado. — Por que não? — Porque... porque... — prendi a respiração, não querendo explicar a minha repugnância nada comum pela tecnologia convencional, mas não pude evitar. Sua proximidade, suas mãos segurando as minhas, o movimento circular de seu polegar, até mesmo seu olhar levemente perturbado, rompeu as comportas da minha redundância sem sentido. — Porque... Estamos realmente aqui, vivos, se interagirmos com o mundo através de uma pequena caixa preta? Eu não quero meu cérebro em um recipiente. Não quero receber informações equivalentes a um implante cerebral até que eu não possa distinguir a ficção da realidade. Você não vê essas pessoas? — fiz um sinal, com a mão livre, para uma fila de clientes esperando para retirar seus pedidos. — Olhe para eles. Para onde eles estão olhando? Eles não estão olhando uns para os outros, eles não estão olhando a arte na parede ou o sol no céu; eles estão olhando para seus telefones. Eles se prendem a cada bip de alerta, mensagem, tweet e atualização de status. Eu não quero ser isso. Já sou distraída o suficiente no mundo real, tangível e físico. Aceitei a eficiência de um computador para trabalho e pesquisa, e até uso um notebook às vezes, mas me recuso a usar um celular. Se eu quiser mídia social, entro em um clube do livro. Eu não vou ser presa controlada e rastreada como uma Orca marcada no oceano. Eu estava um pouco sem fôlego quando terminei e retirei meus dedos dos dele, deixando o telefone em sua mão. Tentei olhar para todos os lados, menos


para ele e seus malditos olhos azuis escuros. Ele colocou o telefone na minha mão mais uma vez. — Por mais que a ideia de prender e controlar você pareça promissora, o objetivo do telefone é conseguir entrar em contato com você. Eu o interrompi. — Você quer dizer a ideia de me manter amarrada e contida. — Janie, se eu quisesse amarrá-la, eu usaria uma corda. Quando ele falou, sua voz era baixa e suavizada, com o que só poderia ser descrito como intimidade. Eu o encarei de repente, assustada com seu tom, mas, por um momento, não consegui interpretar o seu olhar. Ele se aproximou levantando-se sobre mim, e eu tive que inclinar a cabeça para trás para olhar nos seus olhos. Sua boca se curvou em um pequeno sorriso, que parecia mais ameaçador do que uma carranca. Eu pisquei sob seu olhar ardente e apoei um cotovelo no balcão, para me equilibrar. Senti o calor subir pela minha garganta e pelas minhas bochechas, enquanto franzia a testa para ele. — Eu sei o que você está fazendo. — Meu próprio aborrecimento reforçou minha confiança. Ele levantou uma sobrancelha e se encostou no balcão, me imitando. — E o que é? — Você está me provocando de novo, como ontem. Está tentando me distrair. — Coloquei o telefone no balcão. — Não estou tentando distraí-la. — Seus olhos passaram lentamente pelo meu rosto. Cerrei meus dentes para evitar meu blush natural, e manter a batida do meu coração estúpido sob controle. — Sim, você está, e não vai conseguir. Seu sorriso cresceu, mas ainda era apenas uma curva pequena. Seu olhar continuou a ler minhas feições bem devagar. — E porque não? Recuperando a voz, mas não totalmente no controle do meu cérebro, comecei a falar sem realmente prestar atenção nas minhas palavras. — Porque eles não usam cordas, eles usam redes. Eles rastreiam as orcas entre o Alasca e as ilhas havaianas, para estabelecer rotas de migração, padrões de acasalamento e indices de nascimento. É realmente fascinante. Você sabia que a maioria das baleias assassinas que são criadas em cativeiro, cerca de sessenta a noventa por cento delas, sofrem de colapso da nadadeira dorsal? — Mesmo? Que interessante. O que é o colapso da nadadeira dorsal? — Sua voz era inexpressiva, mas ele ainda estava me dando aquele sorriso perigoso.


Dei um passo para trás. — É onde a barbatana dorsal, você sabe, a barbatana, geralmente dura nas costas, inclina-se para o lado e eles não conseguem levantá-la. Os cientistas acham que é porque, quando os machos estão em cativeiro, eles não conseguem nadar até uma profundidade adequada e, assim, as barbatanas caem. É por isso que eu não quero um celular. Eu não quero uma barbatana caída. O carinho suave e proposital do olhar de Quinn, desapareceu durante a minha falação, assim como o sorriso dele. Ele me encarou e piscou para mim como se eu tivesse dito algo completamente louco ou horripilante. Quinn balançou a cabeça e desviou o olhar, aparentemente para clarear seus pensamentos. — Olha — disse, quase em um grunhido, e ele pegou o telefone do balcão e colocou na minha mão mais uma vez. Rapidamente cruzou os braços sobre o peito, as mãos se cerrando em punhos. — Você vai levar esse telefone. — Seu tom deixou pouco espaço para discussão, mesmo quando ele ficou mais flexível, mas seu olhar característico de menino-malvado, havia voltado. — Você não precisa mexer nisso. Você só precisa atender quando tocar. Ninguém vai te mandar uma mensagem, eu prometo. E se fizerem, você pode ignorar as mensagens. Use apenas como um telefone fixo. Na verdade, você pode usá-lo para ligações pessoais, se quiser. Se era possível, ele me parecia ainda mais preocupado e indiferente do que o normal. — Mas você ainda pode usá-lo para me rastrear, então eu ainda serei como uma baleia com... — engoli em seco quando minha mão fechou em torno do Smartfone estúpido, aceitando o meu destino. — Ainda vou ficar com a barbatana caída. Você quer que eu tenha uma barbatana caída? Você não pode falar com o Carlos de que é uma má ideia? Diz para ele que você cometeu um erro, ele vai te escutar. Ele olhou para o meu pescoço e lá ficou. Então disse: — Você sabe qual é o seu problema? Sua pergunta me fez franzir a testa, instável na verdade, e, instintivamente, cruzei meus braços. — Eu tenho um problema? — Sim. Você tem um problema. Ele ergueu seu olhar penetrante e azul para minha cara carrancuda, e eu fiquei um pouco chocada ao ver que ele não parecia mais perturbado. Ele parecia atento e muito determinado. Isso me irritou. Sem pensar, eu falei: — Ah, é mesmo? Mal posso esperar para saber qual é o meu problema. Você me conhece há três semanas e já diagnosticou. O suspense está me matando.


Bem, por favor, me esclareça, oh grande identificador de problemas. Assim que as palavras saíram da minha boca, eu reprimi um suspiro engolindo em seco. O nível do meu sarcasmo aborrecido estava atingindo massa crítica, e eu não conseguia controlar isso. — Você é incrivelmente talentosa e é uma das pessoas mais inteligentes que já conheci. Eu o interrompi: — Sim, isso é realmente um problema de verdade. Eu entendo o que quer dizer. — Mas você é completamente cega para o óbvio. Eu podia sentir o calor subindo nas minhas bochechas novamente. Cerrei os dentes. — Bem, obviamente você está certo. Obviamente eu deveria apenas ficar com o celular — coloquei o celular no bolso. — Muito obrigada, Quinn, por apontar o erro óbvio em mim. — Dei um sorriso doce e comecei a passar por ele, indo para a porta. Antes que eu pudesse me mover mais do que um passo, ele estendeu a mão e me parou, segurando no meu braço, acima do cotovelo. — Droga, eu não estou falando do celular. — Eu preciso voltar ao trabalho. — Recuei e dei de ombros. Ele deu um passo à frente, efetivamente me prendendo contra o balcão, e eu me recusei a olhar nos seus olhos. — Você está com raiva de mim. — Eu o ouvi suspirar. — Não, não estou. Eu não fico com raiva. — Então você finge muito bem. Me perguntei se eu estava com raiva. Não me lembrava de já ter ficado realmente com raiva. Nem mesmo quando minha mãe morreu, nem quando Jem batizou meu suco de laranja antes da prova, nem quando Jon me traiu com uma vagabunda qualquer. Eu estava perturbada, agitada e mais irritada que já me senti na vida. Coloquei a mão na testa e esfreguei a têmpora. — Olha — bufei. Ele estava parado perto demais. Eu não conseguia usar a cabeça, quando meu corpo queria trepar nele igual em uma árvore. — Eu não estou brava. Eu só tenho um ódio completamente irracional de celulares. E você é apenas o mensageiro. — Não vai ser tão ruim quanto você pensa. — Ele parecia arrependido. Olhei para ele então, com meus olhos estreitos e infelizes. — Já é muito ruim. — Poderei enviar uma mensagem diaria com piadas.


Mais uma vez sua voz era inexpressiva, mas seus olhos estavam iluminados com a malícia. Ele colocou as mãos na minha cintura, minhas costas ainda contra o balcão, e preencheu cada centímetro da minha visão. Limpei minha garganta para me recompor. Meu aborrecimento estava se derretendo por algo mais quente, mesmo quando eu tentava ficar focada. — Pensei que você tivesse dito que eu não receberia mensagens. — Só de mim e você não precisa responder. — Eu não vou responder e nem ler suas piadas. Então ele sorriu aquele sorriso sexy e lento, que me deixava sem defesas. — Sim você irá. Você vai ler sim. — Ele assentiu devagar, apenas uma vez, como se quisesse enfatizar sua certeza. Tentei não sorrir, mas não consegui completamente. — Eu ainda estou com raiva de você. — Você disse que não estava com raiva. — Pensando bem, acho que estava com raiva... — tentei dar um passo para o lado e parei no seu braço forte. — …estou com raiva. — E o que vamos fazer? — seus olhos se moveram entre os meus. Tentei manter minha voz firme. Sua proximidade estava dando nós no meu estômago. Ele não entendeu o conceito de espaço individual? — Você pode começar saindo da frente. Já faz tempo que eu saí, e meu almoço (atrasado) está frio agora. Soltei um suspiro de alívio, com um tom quase subconsciente de decepção, quando ele recuou. Ele se endireitou e abaixou os braços. De repente ficou claro para mim que nosso curto tempo juntos, me ajudou a ficar um pouco mais à vontade perto dele. Se ele tivesse me encurralado assim quando me acompanhou no meu antigo emprego, acho que eu teria entrado em combustão espontânea de luxúria ou entrado em coma de felicidade. Parecia que estávamos nos tornando amigos ou, pelo menos, amigáveis. Eu não o vi apenas como um delicioso pedaço de carne. Eu o vi como Quinn: agressivo, inteligente e frustrante. O Quinn sexy, que gostava de me provocar e achava que eu era inteligente e talentosa. O canto da sua boca subiu apenas um pouquinho. — Ontem você disse que eu poderia interromper suas refeições a qualquer hora. Eu grunhi uma não-resposta e passei meus braços em volta de mim. Sem sua proximidade senti frio, e algo em seus olhos me fez tremer. Ele suspirou, subitamente ficando sério. — Escute, eu estava ligando mais cedo para cancelar hoje. Te busco amanhã de manhã, às dez horas, para o treinamento. — Ele passou a mão no cabelo,


fazendo as mechas ficarem de um jeito adoravél antes de se voltarem para sua perfeição despenteada. — Vá comer seu almoço frio. Eu tenho que ir à uma reunião. — Então vai — dei de ombros. — E caso você se tranque para fora do carro, não me ligue. Eu não vou atender o celular. Seus olhos se estreitaram de modo ameaçador, em resposta. — Você vai atender. Além disso, vou de moto. Fiz uma careta. — Toma cuidado com essa coisa. Ele assentiu uma vez, me deu um meio sorriso e saiu. Fiquei no lugar por vários minutos depois que ele foi embora, imóvel, exceto por espasmos de sorrisos e franzindo a testa, alternando minhas feições. Repassei nossa conversa na minha cabeça. O telefone parecia pesado no meu bolso. Eu pensei em apelar para Carlos sobre o telefone. Como Quinn disse, Carlos era meu chefe e se decidisse que o telefone era desnecessário, talvez eu pudesse me livrar dele. No caminho de volta ao escritório, no qual ainda comeria meu almoço frio, senti o telefone vibrar contra a minha coxa. No começo, eu não sabia o que era e pulei de susto e surpresa. Peguei o aparelho e olhei a tela. Fiel à sua palavra, ele me mandou uma piada: Existem 10 tipos de pessoas no mundo: aquelas que entendem códigos binários e aquelas que não entendem. Balancei a cabeça e falei sozinha: — Que nerd. Quando saí do elevador, no meu andar, eu tinha um sorriso bobo no rosto, e qualquer pensamento de apelar para o Carlos, havia desaparecido. Quando cheguei em casa naquela noite, depois da aula particular, Elizabeth ainda estava fora e parecia que ainda não havia passado no apartamento. Isso era bastante típico, e acho que foi uma das principais razões pelas quais ela e eu fomos capazes de dividir um apartamento pequeno, de um quarto, sem problemas ou dramas. Isso, e por não sermos dramáticas por natureza. Eu mexi na minha comida chinesa, e abri meu notebook para começar a procurar por apartamentos de dois quartos, obedecendo seu pedido. Três horas depois e sem nenhum progresso real, abri meu e-mail. Como sempre, recebi um email do meu pai, de alguma piada encaminhada. Era assim que ele se comunicava comigo. Muitas vezes me perguntava se meu pai sabia que ele podia mudar o conteúdo das mensagens, já que ele nunca me enviou nada além de e-mails encaminhados.


Havia também um email de Jon. Jon e eu conversávamos todos os dias e nos encontrávamos para tomar café, almoçar ou jantar, desde seu surto, há uma semana e meia atrás. Era quase como se estivéssemos namorando de novo, exceto que vivíamos separados e as noites não terminavam com beijos e carinhos, mas sim despedidas desajeitadas e olhares estranhos. Cada vez que nos víamos, ele indiretamente, ou, às vezes, muito diretamente, levantava a possibilidade de voltarmos. Eu esperava que, com o tempo, ele percebesse que nosso passado romântico era exatamente isso: passado. Este e-mail específico de Jon, foi para responder minha sugestão de mudar o almoço para um jantar. Jon e eu combinamos de nos encontrarmos para almoçar na sexta-feira, e eu planejava levar o Steven. Um dia no trabalho, depois de analisar as estruturas da conta corporativa e durante uma história particularmente engraçada sobre um dos relacionamentos mais desastrosos de Steven, mencionei que Jon e eu ainda éramos amigos. Steven quiz ver como era uma separação amigável. Estreitando os olhos cinza em simples suspeita, ele insistiu que o conceito era tão mítico quanto a caixa de areia para gatos sem odores. No entanto, desde que Quinn me avisou — há menos de quarenta e oito horas — que eu passaria as tardes conhecendo parceiros corporativos, escrevi para Jon logo cedo e cancelei o almoço. Ao invéz disso, combinamos que Jon, Steven e eu iríamos jantar amanhã em um novo restaurante etíope, perto da minha casa. Antes de fechar meu email, outra mensagem apareceu. Pisquei várias vezes antes que as palavras fizessem sentido. Era da minha irmã Jem. O corpo do e-mail estava em branco, mas o assunto dizia: “Estou indo te visitar. Eu quero te ver.”


Capítulo 10 Na manhã seguinte levantei, tomei um banho e me vesti em dez minutos. Após isso, levei vinte minutos para escolher meus sapatos. Cheguei cedo ao escritório e comecei a trabalhar separando e-mails, tarefas pendentes e me preparando para minha próxima viagem a trabalho, para Las Vegas, em menos de duas semanas. Os minutos passavam em um ritmo lento e cruel . Lembrei do e-mail estranho de Jem. Eu estava tão distraída com meus pensamentos, que o toque do meu celular me fez pular. De modo frenético e atrapalhado, atendi finalmente. Foi ridículo. O telefone da minha sala nunca me deixou nervosa. — Alô? — eu disse, quando finalmente o coloquei no meu ouvido. — Oi, sou eu. Desce — ouvi o tom tenebroso de Quinn do outro lado. Havia trânsito no fundo, e barulho de um caminhão grande. Suspirei e levantei, pegando minha pasta da mesa. — Por que você não ligou no telefone fixo? Eu estou na minha sala. — Eu queria ter certeza de que você estava com o celular — eu podia ouvir o sorriso em sua voz. Me senti meio irritada. — Da próxima vez, é só ligar no telefone da minha sala — desliguei antes que ele pudesse responder e senti uma pontada de satisfação. Se ele podia me ligar sempre que quisesse, então eu podia desligar sempre que quisesse. Um Mercedes preto estava estacionado ilegalmente na esquina, e Quinn saiu do banco de trás do carro assim que eu pisei para fora do prédio. Ele não estava vestindo seu uniforme de segurança, ou um terno. Em vez disso, estava vestindo botas pretas, jeans escuro e uma camiseta azul. Como de costume, seu cabelo estava habilmente despenteado de maneira organizada, seu rosto parecia indiferente e seus olhos estavam escondidos atrás dos óculos de aviador. Passei um tempo admirando aquela vista. Ele estava uma delícia. Talvez eu tenha suspirado, ou talvez tenha até lambido meus lábios, não tenho certeza. Fui para o carro me sentindo um pouco evidente em minha camisa vermelha de manga comprida, calça cinza e salto alto, de cetim vermelho. Optei por usar óculos ao invéz de lentes. Por alguma razão, sempre me senti um pouco mais invisível quando estava de óculos, como se eu fizesse parte do cenário atrás das pinturas principais dos quadros. Estava com um coque apertado. Quando me aproximei, vi meu reflexo em seus óculos, o que só me deixou mais desconfortável. Pensei que ele ia reclamar por eu ter desligado, mas ele sorriu quando me aproximei.


— Ei — acenou com a cabeça uma única vez. — Oi — dei um meio aceno, segurando uma caderneta no meu peito, para tomar notas caso precisasse. Nem Steven e nem Carlos me informaram, com antecedência, sobre onde ou qual seria o treinamento. Pensei no comentário de Steven ontem, quando perguntei se deveria preparar ou trazer alguma coisa para o treinamento. Ele disse que iríamos visitar uma propriedade, mas deveria levar apenas uma hora. Steven estava meio certo. Quinn me mostrou uma das propriedades, mas não estávamos de volta em uma hora. O carro nos levou até o League Center. O League Center é um local de shows em arena, e a Guard Systems faz consultoria para a empresa de segurança. Houveram várias falhas na segurança física, nos últimos seis meses. A mais recente foi um fã, incrivelmente entusiasmado, que fez serenata para o público com uma versão de bêbado de uma canção pop adolescente, chamada Girl, I Love You Hard. Quando chegamos, fizemos um tour geral, e a visita acabou sendo parte de uma reunião entre Quinn, o principal representante da Guard Security e o supervisor local da empresa de segurança. Parte sessão de treinamento/informações para mim, e parte revisão de medidas recémimplementadas. Quinn esteve muito quieto no caminho para o League Center, e muito profissional, rude e autoritário, com todos que encontramos no local. Ele não era o Quinn que eu conhecia do Club Outrageous, e nem o da manhã seguinte, no apartamento da irmã dele, do Pancake Diner do Giavanni, ou o Quinn no Takeaway and Grocery do Smith, ou mesmo no Starbucks. Se ele não estava entediado, também não parecia impressionado. As pessoas o chamavam de Sr. Sullivan ou senhor. Cheguei a pensar que um dos funcionários iria bater continênica pra ele. Ele realmente intimidava bastante. No entanto durante toda a visita, embora profissional, Quinn teve um cuidado especial e tempo, para definir conceitos e siglas que achava que eu não entenderia. Ele identificou e descreveu claramente os pontos fracos na segurança do local, e deu suporte para compras, para a equipe e qualquer outro tópico que fosse relacionado, especificamente, ao gerenciamento da conta. Às ١٧h٣٠, meu cérebro se encheu e meu estômago estava roncando. Acabamos de concluir uma inspeção nas instalações do servidor do local, e Jamal, o contato da Guard Security, estava nos conduzindo por um corredor estreito e com teto baixo, até o elevador. Ele olhou para o celular e disse:


— Os portões estarão abertos para o show de hoje à noite em uma hora, então agora está na hora de comer, caso estejam com fome. A primeira apresentação será às 19h10. Olhei implorando, de Jamal para Quinn. Além de estar com muita fome e sofrendo de dores nos pés por causa dos saltos, eu tinha planos com Steven e Jon, às sete horas. — Hum, vamos ficar para o concerto? Quinn assentiu com a cabeça, sua expressão de indiferença estava firme e intacta. Isso foi novidade para mim. Mordi meu lábio enquanto o elevador subia, e pensei no que fazer a seguir. Eu estava com Quinn e, particularmente, não me importava em ficar com ele por mais algumas horas, mesmo que fosse o Sr. Sullivan Quinn, ao invés do Quin sem camisa, sorridente e provocante. O elevador chegou ao nosso andar — o último andar —, e Quinn colocou sua mão nas minhas, para me guiar para fora do elevador. Ele fez isso o dia todo e eu ainda sentia o toque quente a cada vez. Estava tão concentrada na mão de Quinn que não notei onde estávamos, até que Jamal abriu a porta para o camarote particular e indicou para eu entrar . — Aqui. Preparamos o jantar. Volto em uma hora para levá-los até os portões de entrada, e depois mostrarei as novas medidas de controle de multidões que instituímos — sem entrar na sala, Jamal foi embora antes que eu pudesse agradecer. Ou me despedir. Dei três passos pela impressionante sala e parei, passando os olhos pela a suíte espaçosa, com uma admiração descontrolada. Era muito grande. Havia uma cozinha completa, com um bar, várias mesas e banquetas redondas e altas, além de cinco fileiras de arquibancadas em couro, de frente para uma janela panorâmica grande com vista para o palco. Um pequeno buffet de frutas, salada verde, cachorros-quentes, hambúrgueres, condimentos, batata frita e refrigerante enlatado, foi colocado no bar. Este não era, de forma alguma, o cardápio que eu havia imaginado, mas tinha duas das minhas comidas favoritas: cachorro-quente e batata frita Quinn passou pelos degraus que levavam à janela panorâmica, e examinou a arena. Olhei para o meu relógio e mexi na pulseira. Eu estava com o que minha irmã Jem chama de “problema do champanhe”, isso é, quando algo de bom acontece, mas interfere em outra coisa, geralmente planejada, que é muito importante ou boa. Eu não sabia bem o que fazer. Quinn deve ter notado minha inquietação, porque ele perguntou: — Você está com fome?


Balancei a cabeça enquanto olhava a comida, e na confirmação, meu estômago roncou alto. — A comida está do seu agrado? Eu posso pedir outra coisa. — É que... — torci minha boca para o lado. — É só que eu realmente tenho planos para o jantar, esta noite. — Com quem? — Com Steven do trabalho, e meu amigo Jon. — Jon! — Quinn repetiu o nome e mudou de posição. Seus olhos se moveram entre os meus. — Não é esse o nome do seu ex? Assenti. — Sim, é a mesma pessoa. Nós íamos sair para almoçar, mas, ao invés disso, mudamos para jantar, porque achei que eu perderia o almoço devido ao treinamento hoje, e então...— suspirei, assumindo que a indiferença em sua expressão, significava que eu era chata. — Desculpe, me desculpe. Você provavelmente não quer saber de nada disso. De qualquer forma, só preciso ligar para eles e cancelar o jantar. Quinn me observou por um momento. Como de costume, suas feições pareciam ser cuidadosamente inexpressivas. Ele disse: — Você e Jon estão juntos? — Ah não. Somos apenas amigos, agora. Mas Steven queria ver como era uma separação amigável, então vamos sair juntos para reforçar a idéia. — Você ainda vê esse cara, o Jon? — Uhum. — O tempo todo? Parecia que eu estava sendo interrogada. — Não, não o tempo todo. Apenas duas, ou três vezes por semana. As sobrancelhas de Quinn se ergueram. — Tem certeza de que você não está mais namorando esse cara? — Sim, tenho certeza. Acho que eu saberia se estivesse fazendo sexo com alguém — mordi o lábio assim que as palavras saíram da minha boca, me sentindo muito envergonhada. Um rubor notável espalhou seus tentáculos quentes no meu pescoço e atrás das minhas orelhas. Brinquei com o zíper da pasta. Ficamos em silêncio por um bom tempo, e eu tive que continuar mordendo meu lábio para conter a maré de fatos aleatórios sobre sexo que ameaçavam escapar. Fiquei nervosa com o interrogatório dele e fiquei ainda mais irritada comigo mesma, por sentir a necessidade de responder. Eu não gostava da idéia dele saber todos os detalhes da minha falta de uma vida amorosa e eu não saber absolutamente nada sobre a dele, se ele estava


saindo com alguém, ou se tinha uma namorada, ou uma noiva, ou, quem sabe, uma esposa. Sem querer, olhei para a mão esquerda dele e vi que não tinha uma aliança em seu terceiro dedo. Quando falei, fiquei surpresa com o som da minha voz. — Você não é casado. — Isso foi uma pergunta? Levantei meu queixo e olhei nos seus olhos, esperando que, se eu parecesse confiante, ele não notaria minha vergonha sem fim. — Não... sim. — Não. Eu não sou casado. Sua resposta me irritou ainda mais. Eu já sabia que ele não era casado. Quando ele não continuou, eu o pressionei. — Bem? — Bem o quê? — E você? — ou meu estômago vazio, ou meu aborrecimento, aumentou minha confiança. — O que tem eu? — Você está fazendo sexo com alguém? Sua boca abriu em choque, óbvio, e ele gaguejou. — Por que... Por que você quer saber? — Bem, você sabe com quem eu não estou transando. Acho que é justo que eu também saiba sobre você. Ele estreitou os olhos igual a falcão, antes de responder. — Eu não estou namorando. Torci meu nariz para ele. — Bem, isso não é uma resposta. Eu não perguntei se você estava namorando, mas sim se você está fazendo sexo com alguém. — Não neste momento. Apertei meus lábios e dei o melhor olhar fulminante que consegui. Ele respondeu me imitando. A única diferença, era que seu olhar estava realmente murchando, e teria sido bastante eficaz se ele também não estivesse reprimindo um sorriso. Não foi o meu melhor momento, mas revirei os olhos e bufei de verdade. — Tudo bem, não responda. Eu nem sei por que eu perguntei. — Não. Eu não estou fazendo sexo com alguém. — Ah. — Dei de ombros, indiferente, mas por algum motivo, sua resposta me encheu de alegria. Era como se um unicórnio tivesse aparecido sob um arco-íris duplo e começado a sapatear. Apesar dos meu grande esforço para manter uma expressão neutra, podia sentir minha boca se curvando em um sorriso rebelde.


Quinn inclinou a cabeça, como se estivesse estudando a mim e a minha reação sobre sua declaração. Então ele disse: — Agora é a sua vez. — Minha vez? — Sim. Com quantas pessoas você já fez sexo? Verdade, era a minha vez. Minha vez de ficar chocada! Meu queixo caiu, mas nenhum som saiu por vários segundos. Minha mente parou e, por um instante, eu não tinha certeza se tinha ouvido corretamente. Quando finalmente falei, minha voz soou como um grito. — Você poderia repetir a pergunta? Ele riu e deu um passo para perto de mim. — Você me ouviu da primeira vez. — Isso não é da sua conta. — Dei um passo para trás. — Não? Você me perguntou... — Você perguntou primeiro. Ele cruzou os braços sobre o peito. — Não, não perguntei. Você se ofereceu. — Você perguntou se eu ainda estava namorando Jon. — Mas você é quem falou de sexo. Abri a boca para argumentar, mas percebi que ele estava certo. Concordando quando olhei para ele. Eu me perguntei se ele também responderia. Mas eu não queria responder, porque Jon era o único cara com quem estivera. Eu não sabia como me sentir em relação a isso. Sobre o quão normal — ou anormal — era uma mulher de vinte e seis anos, que teve apenas um parceiro sexual. E eu não queria dar mais munição a Quinn para continuar a me provocar. — Tudo bem. — Comecei a morder meu lábio. Tentei ganhar tempo, na esperança de um dos gerentes nos interromper novamente, ou, quem sabe, um ataque de urso, ou um terremoto, ou cobras gigantes. Quando demorei muito tempo, ele insistiu. — Bem? — Então, dormiu com... certo? — Não. A questão era sobre quantas pessoas você fez sexo. — Estamos usando a definição de Bill Clinton? — não que isso importasse. — Não. A definição de Hillary Clinton sobre sexo. — Ok, pare de usar a palavra sexo — procurei pela da sala algo para me salvar dessa conversa. Eu nem sabia mais como chegamos a esse assunto. — Bem? — Então, como funciona? Se eu te disser, você terá que me dizer? Quinn balançou a cabeça.


— Não a menos que você pergunte, o que me leva a te fazer outra pergunta. — Ele realmente parecia se divertir. Foi impiedoso. — Qual seria a sua próxima pergunta? — Janie, pare de enrolar e responda. — Tudo bem, tudo bem, ok? Uma pessoa e, para ser sincera, nem sei qual é o grande problema. Se você me perguntar, a sociedade realmente faz muita pressão com isso. É como se quiséssemos glorificar o processo de procriação. Tem esses autores como Byron, que tornam a familiaridade física um sentido na vida incrível, que consome a alma como uma coisa do fim do mundo, e não é assim. É... — Balancei minha mão livre no ar, procurando as palavras certas. — É como se outra pessoa assoasse seu nariz, ou passasse o fio dental nos seus dentes. Requer muita coordenação e planejamento. Por exemplo, você não pode fazer isso, a menos que tenha tomado um banho antes. Se quiserem isso na hora errada, você tem que parar de ler quadrinhos, ou o que você está fazendo atualmente, ir tomar um banho, se secar, vestir, blá, blá, blá. Que trabalhoso. Eu acho que as bactérias estão certas. Os humanos deveriam procriar via fissão binária (reprodução assexuada que a única célula se duplica). Eu tinha certeza que minha camisa e meu rosto eram da mesma cor, vermelho. Arrisquei olhar para ele, novamente, pelos meus cílios e o encontrei me observando, sem nenhum traço de diversão anterior. Não consegui decifrar sua expressão, que só serviu para me perturbar ainda mais. Virei completamente para longe de Quinn e fui em direção à porta. O único nó no meu estômago, se transformou em uma marcha de milhões de homens, e eu não consegui mais olhar para ele. — Preciso achar um telefone. Já volto. — Deixei minha pasta em uma mesa alta e continuei em direção à saída. Eu o ouvi dar um passo atrás de mim. — Onde está o seu telefone? Acenei para ele, andando ainda mais rápido. — Deixei no escritório. Eu estava quase fora da porta, quando senti sua mão perto da minha e me virei. — Janie, você deveria andar com ele. Puxei minha mão da dele e dei meio passo para trás. — Bem, você disse que era a única pessoa que me ligaria e, já que você e eu estamos aqui, juntos, não há razão para eu carregá-lo. Ele franziu a testa para mim. — E você não pensou em pegá-lo, para o fim de semana? — Não pensei. — Cruzei os braços sobre o peito.


— Isso significa que iremos passar também o final de semana juntos? — ele deu um passo em minha direção, ficando bem próximo de mim. Fui forçada a levantar o queixo para manter contato visual. Com suas palavras, meu estômago parecia cheio de abelhas bebadas de mel. Engoli com esforço e confirmei o que eu achei óbvio. — Que eu saiba, não vamos trabalhar neste fim de semana. Por que você precisaria me ligar fora do horário de trabalho? Ele abriu a boca como se fosse dizer alguma coisa, mas então fechou. Sua mandíbula mexia enquanto ele rangia os dentes. Seus olhos estavam meio fechados e penetrantes. Depois de um bom tempo, ele tirou o celular do bolso e me entregou. — Aqui, você pode ligar para o seu amigo do meu. Olhei para ele, depois para o telefone e, depois, novamente de volta para ele. Relutante, peguei o celular da sua mão. — Obrigada — murmurei antes de me virar e digitei o número de Jon. Por alguma razão, pareceu errado ligar para Jon do telefone de Quinn. Eu deixei o desconforto de lado, me lembrando que Jon e eu estávamos separados, e Quinn e eu éramos colegas de trabalho. Os colegas de trabalho podiam emprestar seus telefones uns aos outros. Não era impróprio. Era normal. O telefone de Jon tocou quatro vezes e, em seguida, ele respondeu um pouco hesitante: — Alô? — Oi, Jon, sou eu, Janie — me afastei um pouco de Quinn, falando baixo, embora eu não soubesse exatamente por quê. — Oi, eu não reconheci o número. Desculpe demorar tanto para atender. Tudo certo para hoje à noite? — Hum, é por isso que eu estou ligando — olhei por cima do ombro. Pela minha visão periférica, vi Quinn em pé ao lado do bar a poucos metros, de frente para mim. — Escute, eu tenho que trabalhar hoje, então não vou conseguir ir. Podemos remarcar para amanhã? — Ah ok. Bom, isso é muito ruim... — quase podia ver a carranca de Jon. Eu o ouvi suspirar. — Que horas, amanhã? — Você já tem planos? Não cancele seus planos, a gente sempre pode... — Janie, quero ver você. Claro que vou cancelar meu compromisso. Você vem primeiro. Senti minha garganta apertar, meio de frustração, meio de culpa, e me afastei mais alguns passos de Quinn. Tive o cuidado de manter minha voz baixa, mas ainda era alta para um sussurro. — Jon, você não pode dizer essas coisas.


Eu estava ciente da presença de Quinn e, como se percebendo o meu desconforto, o ouvi dizer baixinho: — Volto logo. — Ele passou por mim e saiu do camarote. — Quem era? Você está com alguém? — o tom de Jon mudou levemente e sua voz estava subindo. — Janie, você está trabalhando de verdade? Foi a minha vez de suspirar. — Jon, eu estou em uma visita local, com um dos meus colegas de trabalho. — Um colega do sexo masculino? — Sim. Se você quiser, posso ser mais específica sobre isso. Estou aqui com, literalmente, dezenas de colegas homens. — Revirei os olhos. — E vocês estão todos trabalhando até tarde? Onde está voce? — Eu não posso te dizer. Você sabe que eu assinei um acordo de não divulgação. Não posso falar sobre qualquer um dos meus clientes. — Me virei e fui para o outro lado da sala. — Isto é ridículo. Ninguém trabalha até tarde numa noite de sexta-feira. Se você me deixasse cuidar de você, eu iria... — Jon. — Eu esperava que ele ouvisse o tom de advêrtencia na minha voz. — Você sabe? Está bem. Está bem. Você tem que trabalhar até tarde e eu entendo — ele parecia frustrado, mas conformado. — Ainda quero ver você amanhã. Olha, me desculpe, Janie. Eu sinto muito. Podemos começar de novo? Eu quero conhecer seu amigo Steven. podemos nos encontrar amanhã, para jantar e nos divertir? Olhei para a parede sem notar uma mancha. Minha culpa venceu minha frustração. — Sim — eu disse com um suspiro, e olhei por cima do ombro quando vi um movimento de trás de mim. Quinn entrou de novo na sala, me deu uma olhada breve e depois se virou para o buffet. — Sim, assim está bom. Tentaremos fazer dar certo, amanhã. Vou ligar para o Steven e ver se tudo bem por ele. Agora preciso ir. — Ok, mas me avise se precisar de alguma coisa. Dinheiro ou qualquer coisa. Te vejo amanhã. — Está bem. Tchau Jon. — Eu amo você, Janie. Não se esqueça disso. Fechei meus olhos, minha boca virando uma carranca. Eu disse: — Até amanhã — e, então, eu desliguei. Digitei o número de Steven na tela e ele atendeu no primeiro toque. — Sr. Sullivan? — Não, não. É a Janie. Escute, ainda estamos na propriedade, e tenho que trabalhar até tarde o que significa que o jantar de hoje está cancelado. — As


palavras saíram com pressa. Quinn passou na minha frente, para uma mesa, com dois pratos na mão, e o cheiro de cachorros-quentes fez minha boca encher d’àgua. — Ah... — ouvi Steven juntar os papéis do outro lado da linha. — Espere um minuto, onde você está? — Eu estou... — Quer saber, esquece. Eu não quero saber. Não tem problema sobre hoje a noite. Nós remarcamos para depois da viagem de Vegas. — Podemos jantar amanhã, em vez disso? — Sem realmente querer, eu andei mais perto de onde Quinn estava comendo. Assisti ele dar uma grande mordida em seu hambúrguer. Sua mandíbula flexionou, e os músculos em suas bochechas e pescoço eram estranhamente hipnotizantes. Eu posso ter o encarado. — Desculpe, não posso, docinho. Eu tenho um encontro quente. O movimento da porta da suíte tirou a minha atenção de Quinn. Assisti, com perplexo interesse, quando duas meninas entraram, ambas vestindo camisetas justas, que mostravam a barriga, e shorts curtos demais. Cada uma carregava uma bandeja com o que parecia ser vários copos de bebidas alcoólicas. — Hum... — me distraí com a presença das meninas e tive que focar de novo na minha conversa com Steven. — Hum... tudo bem. Nós remarcamos, então. — Ok, docinho. Até segunda-feira. E não deixe o Sr. Bossy fazer você trabalhar até muito tarde. Tchau. Antes que eu pudesse responder, Steven desligou. Baixei a mão segurando o telefone, e vi como uma das meninas, que eu chamarei de Garota #1, entregava três copos grandes, cheios do que eu supunha ser cerveja, para Quinn. A outra menina, a quem chamarei de Garota #2, deixou os outros copos das bandejas, no bar. A Garota #1 sorriu para Quinn, que eu interpretei como um sorriso de “tiraminha-calcinha”. Minha irmã, June, usava isso com frequência com os caras do time de futebol americano, quando estávamos no ensino médio. Isso me deixou furiosa. Para minha surpresa e alívio, Quinn não pareceu notar o sorriso. Em vez disso, ele deu um curto “obrigado” e, imediatamente, pegou uma cerveja e tomou um longo gole. A Garota #1 passou pela mesa, o observando. Fiquei parada do outro lado da sala, os observando. A Garota # 2 zanzava pelo bar, nos observando. Depois de um breve momento, Quinn olhou da Garota #1 para a Garota #2 e, em seguida, brevemente para mim. Ele se mexeu no assento e depois as dispensou. — Eu aviso o Jamal se precisarmos de mais alguma coisa. Eu não desfiz minha cara desapontada para a Garota #1, quando ela saiu. Também tive dificuldade em explicar a mim mesma, o sorrisinho nos meus


lábios quando a porta se fechou. Eu permaneci no lugar, o telefone de Quinn ainda na minha mão, e continuei a observá-lo comer. Ele deu grandes mordidas. Toda vez que ele dava uma mordida, um quarto do hambúrguer desaparecia. Eu realmente acho que ele terminou em quatro mordidas. O som de sua voz me tirou do transe, de repente. — Então, você terminou suas ligações? Pisquei para ele e então assenti. — Sim. Sim, terminei — meu polegar se moveu sobre a tela lisa de seu telefone. Fui até a mesa dele e coloquei o celular em cima. — Aqui está seu telefone. Obrigada, novamente, por me deixar usar. — Às ordens. — Seus olhos se moveram sobre mim, da mesma maneira que ele às vezes fazia: uma avaliação clara e aberta. Ele fazia muito isso e sempre me deixava desconfortável, calorosa e nervosa. Levantou o queixo em direção ao bar. — Eu não sei o que você bebe, então pedi algumas coisas. Voltei minha atenção para onde ele indicou e examinei os copos colocados no final do bar. — Deveríamos…? — limpei minha garganta e gesticulei com a mão em direção aos três copos de cerveja na frente de Quinn. — Deveríamos beber em horário de trabalho? Quinn deu uma mordida em seu cachorro-quente e encolheu os ombros. — Não estamos trabalhando agora. — Mas não terminamos. Ainda temos a revisão das novas medidas de controle de multidões. Quinn me interrompeu com um aceno de mão. — Falei com Jamal. Essa parte da visita está encerrada, então acabamos por hoje. — Como que para enfatizar isso, Quinn tomou um longo gole de seu copo e terminou o terço restante da cerveja. Colocou o copo na mesa com firmeza e olhou para mim. — Ah — pisquei. Eu estava confusa e, quando fico confusa, costumo falar meus pensamentos à medida que me ocorrem, em vez de me envolver em um diálogo interno, como uma pessoa normal. — Então, isso significa que eu não precisava cancelar meu jantar? A mandíbula de Quinn ficou tensa e sua boca se curvou em uma carranca. — Acredito que não. — Ele colocou três batatas fritas na boca e fez um som alto, crocante, enquanto mastigava. Seus olhos se fixaram em mim enquanto sua mandíbula trabalhava, e eu senti uma ansiedade, agora familiar, sob o peso penetrante de seu olhar. — Bem, então — limpei minha garganta. — Eu deveria ligar de novo para o Jon e ver se ainda podemos nos encontrar. — Eu disse as palavras, mas,


particularmente, não queria seguir adiante na ação. Parei e olhei para o meu relógio. — Ou — Quinn calmamente estendeu a mão, tirou o celular da mesa e, em seguida, colocou-o no bolso. — Você poderia ficar aqui e curtir o show comigo. Levantei meus olhos, arregalados, para ele. — Você vai ficar para o show? Ele assentiu. Abri minha boca para perguntar se nós estávamos autorizados a ficar, mas depois pensei melhor. Eu contemplei o atual estado das coisas. Observei Quinn Ele parecia relaxado, mas de alguma forma, no limite. Me prendeu novamente naquele momento do quão surpreendente, e até dolorosa, era sua beleza. Uma nova pontada de consciência me cortou e eu, desesperadamente, queria algo para beber. Tirando minha atenção dele, olhei para o copo de Martini no bar, cheio com um líquido amarelo brilhante e guarnição de limão. A borda do copo foi revestida com sal ou açúcar, ou uma combinação de ambos. Fui até o bar e levantei o copo na direção dele. — O que é isso? — Isso é uma bebida chamada ‘‘gota de limão’’. Eu peguei e cheirei. O cheiro era agradável. — O que tem aqui? — Suco de limão, açúcar e vodca. — Vodca? — Minha irmã, Shelly, diz que tem gosto de limonada. — Quinn tomou um grande gole, terminando sua cerveja e pegou o segundo copo, ao lado de seu prato. Pensei em misturar vodca com Quinn. Faria Quodka, que soava para mim, como uma espécie de jogo de cartas búlgaro, envolvendo gângsters e prostitutas. Coloquei a gota de limão de volta ao balcão e fiz sinal para seus copos de cerveja. — Tem mais cerveja? — Isto não é cerveja, é caldeireiro - cerveja e uísque. Minhas sobrancelhas se ergueram, inconscientemente. — Ah. Considerando minhas opções, tomei um gole da gota de limão. Não tinha exatamente gosto de limonada, mas estava delicioso. Fui até o buffet e peguei um prato com a mão livre, mas, antes que eu pudesse começar a amontoar as batatas fritas, a voz de Quinn me parou. — Eu já fiz um prato para você. Está aqui em cima da mesa. Me virei para encará-lo.


— Ah. — Novamente, foi tudo que eu consegui pensar em dizer. Coloquei o prato vazio de volta em seu lugar, peguei um segundo copo de Martini cheio do líquido amarelo brilhante, e fui para onde Quinn estava sentado. Sentei no banquinho em frente a ele. O prato que ele tinha feito, tinha dois cachorros-quentes com uma quantidade generosa de ketchup e mostarda, um monte de frutas e uma porção perfeita de batatas fritas. Sorri para o prato. Meu estômago roncou novamente, e eu tomei outro gole da gota de limão antes de colocar os dois copos na mesa. — É exatamente assim que eu gosto dos meus cachorros-quentes. Sua boca virou para o lado. — Fã de cachorro-quente, você? Eu balancei a cabeça enquanto mordia a salsicha. Ainda estava quente e delicioso. Terminei de mastigar e disse: — Era meu jantar favorito, quando criança. Acho que viveria de cachorrosquentes se minha mãe tivesse deixado. — Mas ela não deixou? — Não, ela era muito consciente com o corpo, mesmo quando éramos crianças. — Lambi a mostarda do meu dedo indicador. Quinn seguiu o movimento, e seus olhos ficaram na minha boca, quando ele perguntou: — Quantos irmãos você tem? — Duas irmãs. Sou a do meio — dei outra mordida, lambendo o lado da minha boca e, em seguida, lavando toda a bondade de nitrato com uma generosa chafurda de gota de limão. Eu mal podia sentir o gosto do álcool. — E quanto a você? — Hum, uma irmã e... — Quinn tomou um gole de sua segunda cerveja. Esperei que ele continuasse, mas quando vi que ele continuaria, falei: — E? Em seguida, ele deu uma mordida muito grosseira. — E um irmão, mas ele morreu há alguns anos. Parei de mastigar e, não pensando na minha boca muito cheia, disse: — Erm serrie erbert er beerder. Quinn meio que sorriu. — O que é que foi isso? Engoli minha comida, tomei outro gole da minha bebida e disse novamente: — Eu sinto muito. Sinto muito pelo seu irmão. Ele me observou por um momento, depois desviou o olhar. Tomou um grande gole de cerveja, terminando o segundo e começando no terceiro. Minha cabeça estava começando a parecer leve, provavelmente da adição de


vodca a um estômago vazio, mas tentei afastar a sensação e concentrar-me em nossa conversa. — Você estava muito perto? Ele balançou a cabeça, em seguida, limpou a garganta. Ainda assim, ele não olhou para mim e não disse nada. Sem pensar, estendi a mão e cobri a mão dele, onde ela descansava na mesa com a minha. — Isso é uma porcaria. — Terminei a minha gota de limão, coloquei o cotovelo na mesa, e descansei meu queixo na palma da minha mão. Ele encontrou meu olhar. Estava sério, procurando. Virou a palma da mão, para que ficássemos de mãos dadas, e concordou bem baixinho. — Sim. Meus olhos se moveram sobre ele em estudando-o. Senti-me quente minha boca estava anestesiada, provavelmente devido ao álcool, e por isso não pensei duas vezes antes de perguntar, em rápida sucessão: — Como ele era? Ele era como você? Ele era mais velho ou mais novo? — Ele era mais velho. Ele não era como... — sua atenção se moveu para nossas mãos unidas e ele franziu a testa, como se considerasse algo. Notei sua expressão infeliz e tentei me afastar, mas ele segurou minha mão com mais firmeza e olhou para mim. Puxou minha mão, como se para garantir que eu não tentasse escapar novamente. Sem uma palavra, deslizei para o lado dele. Quando me acomodei no banquinho, ele pareceu relaxar. — Nós não éramos iguais — disse ele. — Ele era um policial, em Boston. — Me encarou, de modo que uma de suas pernas estava entre as minhas e seu pé descansou no degrau inferior do meu banco. Tentei me concentrar em suas palavras, mas o mundo parecia confuso. — Ele sendo um policial, significava que vocês dois não eram iguais? — tomei outro copo de gota de limão, lambendo o açúcar residual dos meus lábios. Seus olhos se moveram para minha boca, ficaram lá e pareciam perder o foco. — Sim e não. Ele era honrado. Acho que ele queria ser policial, porque sempre quis fazer a coisa certa. Levantei uma sobrancelha para ele e inclinei minha cabeça da mesma maneira que eu o testemunhei várias vezes antes. — Eu ainda não entendo, você precisa ser mais preciso. — Consegui falar e, principalmente, não me enrolar quando perguntei: — Você está dizendo que não é como ele, porque você não se tornou um policial? Seus olhos não se moveram dos meus lábios enquanto ele respondia. — Não. Eu não sou como ele porque, geralmente, eu não quero fazer a coisa certa. Ou a proximidade dele, ou o meu copo com álcool e adocicado, eram


responsáveis pela deliberada excitação do meu coração palpitante. Eu imaginei que era um pouco dos dois. O ar parecia mudar e se tornar mais lento, mais denso. Senti que algo importante tinha acabado de acontecer, mas eu estava muito confusa para entender isso. Eu sabia que o jeito que ele estava olhando para mim, fazia meu ventre sentir-se deliciosamente dolorido e cheio. No entanto, antes que eu pudesse pensar ainda mais sobre o momento, ele me beijou.


Capítulo 11 Ele beijou minha boca, pressionando seus lábios nos meus, suavemente. Depois inclinou a cabeça e foi repetindo, como se quisesse me provar de todos os ângulos. Nós estávamos unidos, apenas por nossos lábios e nossas mãos entrelaçadas. Isso durou apenas um pouco, antes de Quinn soltar minha mão para cravar seus dedos nas minhas costas, me puxando do meu assento totalmente contra ele. Eu estava entre as pernas dele, meio em pé e meio inclinada em seu peito. Sem pensar, inclinei-me para frente. Minhas mãos subiram e agarraram sua camisa, em parte para me equilibrar e em parte porque a oportunidade apareceu. Seus lábios estavam quentes e delicados. Ele me beijou gentilmente a princípio, devagar, saboreando cada toque, mas o aperto dele em mim foi forte, me espremendo contra ele como se eu fosse desabar, ou tentar afastá-lo. Meu cérebro e meu corpo estavam desconectados, e eu não respondi imediatamente à situação atual com o devido entusiasmo, o que, com toda a honestidade, poderia ter sido um golpe de sorte. Se eu estivesse preparada para o beijo e soubesse o que ia acontecer, provavelmente teria ficado atrapalhada, ansiosa e acabado com metade do rosto dele na minha boca. No entanto, por ter sido inesperado, um pequeno gemido involuntário escapou de mim. Isso acabou sendo uma coisa muito boa porque, quase imediatamente, senti a língua dele deslizar suavemente pela minha boca. Separei meus lábios e ele respondeu com um rosnado baixo, seus braços deslizando completamente ao meu redor enquanto ele reivindicava minha boca. Sua mão subiu pelas minhas costas e segurou meu cabelo. Puxou meu coque para fora da sua torção, fazendo cachos saírem em todas as direções. Enrolou uma mecha em torno de sua mão e me segurou no lugar, enquanto ele explorava minha boca. O beijo ficou faminto, e minhas mãos, presas entre nós, só podiam agarrar a frente de sua camisa. Minhas reações foram inteiramente baseadas em medula oblonga. Eu estava tão absorta nas sensações de Quinn — suas mãos, braços, boca, peito — que eu não ouvi a porta se abrir atrás de mim, e não entendi por que Quinn endureceu de repente e puxou sua boca da minha. Meus olhos ainda estavam fechados, meu queixo ainda estava levantado, e meus lábios ainda estavam separados, quando ele tirou a mão do meu cabelo e eu o ouvi falar. — O que foi? — ele parecia zangado. Meus olhos se abriram, não compreendendo o que ele queria dizer, acreditando, inicialmente, que ele disse as palavras para mim. Até que percebi que ele não estava olhando para mim, mas sim por cima do meu ombro. Com


isso, minha mente estava autorizada a se manifestar em mim. Desta vez, reconheci a voz atrás de mim. — Desculpe, não é nada. Merda. Achamos que você queria... não importa. — Ouvi a porta se fechar enquanto Jamal saía da sala. Foi nesse momento que eu soube que meus óculos estavam tortos. Tentei olhar para o rosto de Quinn, mas as molduras dos óculos bloqueavam minha visão, lançando linhas pretas com aros de chifre em todas as direções. Os braços de Quinn ainda estavam em volta de mim, em um pseudo aperto, e eu contei até seis para desfrutar de estar pressionada contra as formas duras de seu corpo. Quando cheguei à seis, continuei contando até doze. Quinn não fez nenhum movimento. Ele estava tão quieto, que pensei que poderia estar prendendo a respiração. Gentilmente empurrei seu peito, reajustando meus óculos tão graciosamente quanto fosse possível. Ele relaxou um pouco, mas manteve as mãos na minha cintura enquanto eu me endireitei. Deixei meu olhar piscar em seu rosto, e me esforcei para ler sua expressão através dos meus cílios. Seus olhos eram escuros, ilegíveis e meio fechados, observando-me. Sua boca estava avermelhada e inchada do nosso beijo. Minhas pernas estavam cambaleando e tentei, sem sucesso, me equilibrar quando levantei. Era provável que eu teria caído para trás, se não fossem suas mãos em mim. Ele lambeu os lábios. Tive que reprimir outro gemido. Fechei meus olhos novamente e mergulhei meu queixo no meu peito. O abrigo escuro proporcionado por minhas pálpebras, deveria ter me permitido se concentrar em classificar a festa do pandêmonio e o banquete da dúvida, duelando pela minha atenção. No entanto, a proximidade contínua de Quinn, o peso de suas mãos enroladas em volta da minha cintura e seu peito sob meus dedos, estavam, mais uma vez, afastando minha função cerebral superior. Um pensamento galopou ao redor do meu cérebro: “Não posso acreditar que acabou de acontecer.” Por fim, foi acompanhado por outro pensamento: “como posso fazer isso acontecer novamente?” Uma vez que eu estava quase certa do meu equilíbrio, abri meus olhos e, relutantemente, os ergui, mas só consegui chegar até o pescoço dele. Eu senti as mãos de Quinn brevemente apertarem e cairem para os lados dele. Ele deu um passo arrastado para trás, depois outro. Passou os dedos no cabelo, deixando pequenos picos de desordem desgrenhada. Como se não soubesse o que fazer com as mãos, Quinn colocou-as nos quadris. Ele disse: — Isso não deveria ter acontecido. Suas palavras sóbrias tiveram um efeito imediato. O álcool e o sistema


climático tropical, induzido por Quinn, que se espalharam pelo meu corpo, foram cobertos por uma explosão ártica. Com destreza e velocidade surpreendentes, consegui me distanciar de meus sentimentos de decepção antes que se tornassem incontroláveis: caixa trancada, luz apagada, armário fechado. Meus olhos levantaram e encontraram os dele por um curto período. Olhei por cima do ombro dele. — Bem, você tomou três copões — minha voz estava um pouco ofegante, então eu engoli e cruzei os braços sobre o peito, na esperança de estabilizar o meu fluxo de palavras. — O álcool é um calmante e os calmantes têm como alvo, uma substância química chamada GABA (Ácido gama-aminobutírico), o principal neurotransmissor inibitório dentro do cérebro. Também foi descoberto que beber aumenta os níveis de norepinefrina, o neurotransmissor responsável pela excitação, que se acredita ser responsável pela excitação aumentada quando você começa a beber. A noradrenalina é o alvo químico de muitos estimulantes, sugerindo que o álcool é mais do que apenas um calmante. Níveis elevados de norepinefrina aumentam a impulsividade, o que, por sua vez, leva a comportamentos que buscam prazer com os quais você provavelmente não se envolveria sem a ingestão de álcool em seu sistema. Mordi meu lábio, me sentindo em conflito sobre minha explicação muito lógica. Explicar o beijo através da loucura induzida pelo álcool, fez minha cabeça se sentir melhor, como se o mundo tivesse sido corrigido em seu eixo e verdades inalienáveis ainda existissem. Isso também fez meu coração e todas as minhas partes femininas se sentirem mal, como quando você descobre que Papai Noel é um mito, ou que o Super-Homem não existe. Durante toda a minha palestra sobre a culpabilidade do álcool, Quinn me observou com uma satisfação ansiosa e, quando terminei, suspirou audivelmente. — O que aconteceu não teve nada a ver com o álcool. Decidi me apegar a verdades inalienáveis. Você não pode se decepcionar se você se apegar a verdades inalienáveis. — Você não tem certeza disso — me afastei dele, puxei a bainha da minha camisa e procurei meu bloco de notas, especialmente não querendo ter essa conversa. — Nosso controle de impulsividade ainda está comprometido pela introdução de álcool em nossos sistemas. — Procurei no chão pelo meu laço de cabelo. — É por isso que você me beijou de volta? Porque seu controle de impulsividade foi comprometido? — podia sentir seus olhos em mim, enquanto eu parei de procurar o laço e caminhei até a mesa segurando meu bloco de anotações caído e minha pasta. Eu os peguei. — A lógica determina que, tanto a minha participação quanto a sua, se devam,


em grande parte, ao consumo de bebidas alcoólicas. — Olhei para meu relógio sem ver e, em seguida, cruzei para a porta. Precisava sair e organizar os eventos do dia e da noite. Quanto mais nós conversávamos, menos eu me sentia firme e estável, apesar da minha diversão audaciosa. Ele entrou na minha frente antes que eu chegasse à saída, impedindo minha fuga e levantando as mãos. Tive que dar um passo para trás. — Deixe-me ser claro sobre algo. Eu te beijei, porque eu quis. Penso em te beijar desde a primeira vez que a vi, no saguão do Edifício Fairbanks, semanas atrás. Sua declaração, se é que se pode chamar assim, me pegou completamente de surpresa e, portanto, um som pequeno e surpreso escapou da minha garganta. Meu cérebro do andar de cima e meu cérebro do andar de baixo, se engajaram em um jogo de risco e foi a vez do andar de baixo rolar os dados. Mexi o pé sem saber o que dizer ou fazer, então respirei fundo, soltando o ar lentamente, e encontrei seu olhar. Meu estômago se contorceu com a expressão levemente cautelosa que ele fazia. Seus olhos pareciam estar procurando os meus. Pigarreei. — Você acabou de dizer que não deveria ter acontecido. Ele hesitou por um momento, como se considerasse um movimento de xadrez, seus olhos ainda cautelosos. — Isso não deveria ter acontecido. Inclinei a cabeça para o lado, ignorando o fato muito óbvio de que eu estava começando a pegar suas manias, e o desafiei. — E você acha que teria acontecido, se não tivessemos bebido? Ele deu outo suspiro alto. Observei seu peito se expandir e seu olhar caiu para a minha boca. — Eventualmente. Pisquei para ele duas vezes. — Eu... — não consegui soltar outra palavra. O norte desceu e o sul subiu. — Eu não sei o que dizer. Ele passou a mão pelo cabelo novamente e murmurou, de forma que mal consegui distinguir suas palavras. — Eu não tenho muita experiência com isso. — Suas feições eram sérias, cautelosas. — Com o quê? — soltei. — Eu quero te levar para sair — ele engoliu e acrescentou: — Sair para jantar. — Eu... — leste estava a oeste e oeste estava em algum lugar na galáxia de Andrômeda. — Você quer me levar para jantar? — Aquilo era algum tipo de


engano. Meus olhos estavam arregalados de confusão e descrença. Eu tinha certeza de que as próximas palavras da minha boca, resultariam em minha completa humilhação, mas aceitando meu destino, eu as disse de qualquer maneira, e minha voz falhou na última palavra. — Como um encontro? Ele não sorriu. Não parecia divertido. Apenas balançou a cabeça e repetiu: — Como um encontro. Olhei para ele por um tempo indeterminável, esperando que ele voltasse ou esclarecesse que estava se referindo à encontro como quando duas pessoas se encontram, e não à encontro de evento romantico, ou a alguém que me acordasse desse universo bizarro e perpendicular. Finalmente eu disse, cerca de dez decibéis mais alto: — SIM! Na verdade, eu gritei. Eu gritei a palavra sim. Quinn soltou um suspiro. — Bom. — SIM, VOU SAIR EM UM ENCONTRO COM VOCÊ, QUINN SULLIVAN, IREMOS À ALGUM LUGAR PARA JANTAR. — Eu não conseguia parar as palavras gritadas. Estava tendo uma experiência fora do corpo, o que, por alguma razão, me fez gritar a frase. Ele riu levemente. — Bom! Fico feliz em ouvir isso. Balancei a cabeça, muda, até ter certeza de que tinha controle sobre o meu volume. — OK. É isso. — Não tenho certeza sobre o protocolo adequado em casos como esses, então estendi a mão para ele apertar. Ele examinou minha mão extendida e a envolveu na sua, me puxando para frente em vez de apertar. Se inclinou e me beijou novamente, desta vez apenas um rápido e breve esfregar de seus lábios contra os meus e, então, se endireitou. Aquele pequeno, mas encantador beijo, fez meus dedos se curvarem, minha espinha tremer e meu coração pular para a minha garganta. Instintivamente balancei para frente quando ele recuou. Corei pela septingentésima trigésima primeira vez. — Eu tenho que ir. — Você não quer ficar para o show? — Ah. — Eu esqueci completamente do show. Ele puxou o caderno da minha mão e apontou para a janela. — O primeiro ato deve começar em breve. Hesitei.


— Vamos terminar de comer, e assistimos o show. Podemos sair quando quiser. Olhei ao redor da sala. Muita coisa aconteceu, em um período extremamente curto. Os eventos justificaram a análise. Quinn puxou minha mão onde ele entrelaçou nossos dedos, até que eu encontrei seu olhar. Seus olhos eram quentes e desprotegidos, até mesmo brilhantes. — Eu prometo! Nenhuma gracinha, e nada que comprometa o controle da impulsividade... — seu, agora, sexy e sinuoso sorriso, brilhou em mim e então acrescentou: — A menos que você queira. Eu só pude acenar, muda pela intensidade cintilante de seu sorriso, e me permitir ser levada na direção de sua escolha. Fiel à sua palavra, não houve nenhuma gracinha. Mesmo que nós dois consumíssemos bebidas alcoólicas adicionais, nenhum de nós iniciou qualquer intimidade física, além de breves toques ocasionalmente. De vez em quando, Quinn afastava meu cabelo dos meus ombros ou rosto, e colocava seu braço ao longo das costas do meu assento. Era estranho ouvir um concerto em vez de estar ativamente envolvido nele. Nós não cantamos, nem dançamos ou aplaudimos. Na verdade, falamos durante a maior parte dele. Poderia muito bem ter sido música de fundo em um sistema estéreo. Em um ponto, nós ignoramos completamente e passamos quarenta e cinco minutos debatendo minha filosofia sobre pessoa boa-ruim-estúpidapreguiçosa. Quinn acreditava que, se eu incluísse tanto o bem quanto o mal, eu deveria acrescentar inteligente e motivado. Contestei que a ausência de estupidez implicava inteligência, mas a ausência do mal não implicava bem. Quando ele me pegou bocejando pela segunda vez, decidiu que era hora de me levar para casa. Um Mercedes preto nos encontrou, quando chegamos lá embaixo. Para meu espanto, fomos recebidos por um rosto familiar. Foi Vincent — Vincent, o motorista da limusine que me ajudou a mover o conteúdo de meus pertences do apartamento de Jon, e me levou ao apartamento de Elizabeth no meu pior dia de todos os tempos —. Eu não pude acreditar nos meus olhos no começo, mas então, quando ele segurou a porta aberta, piscou para mim. Eu só pude encará-lo estupidamente. Quinn e eu passamos a primeira metade do passeio de carro, em silêncio, sentados em lados opostos do longo banco de couro. Meu cérebro doeu. Estava cansado de tentar acompanhar tantas mudanças e avaliar a adequação de minhas


reações. No entanto, tentei classificar as últimas horas. Olhei de relance para a parte de trás da cabeça de Vincent e, uma ou duas vezes, ele me chamou a atenção no espelho retrovisor. Em algum momento, eu precisaria perguntar a Quinn se ele arranjou a limusine que me levou para casa semanas atrás, ou se a presença de Vincent hoje à noite era apenas um acaso. Em um semáforo, Quinn me puxou para fora das minhas reflexões, soltando meu cinto de segurança. Encontrei seu olhar, o azul claro de seus olhos parecendo opalescente no carro escuro. Ele, silenciosamente, me puxou para o centro do banco, passou os braços em volta de mim, guiou minhas costas até o peito e prendeu a fivela do meio, em volta de mim. Me senti quente e segura, o que, paradoxalmente, me fez tremer e fez meu coração disparar com apreensão. Quando chegamos do lado de fora do meu prédio, Vincent, o motorista, abriu a porta e ofereceu sua mão. Eu sorri, depois olhei para baixo enquanto saía. — É bom ver você novamente. — Você também. Você está muito bonita. — Seus olhos castanhos brilhavam para mim sob a lâmpada da rua. Ele levou meus dedos aos lábios e deu-lhes um beijo, assim como fez antes. Quinn se levantou do carro atrás de mim e eu caminhei para frente, me virando para continuar a conversa com o motorista. — E como está sua esposa? Seus netos? — Ah, os dias são longos, mas os anos são curtos. — Ele balançou a cabeça e olhou para o céu. Quinn olhou dele para mim, depois de volta para ele. Levantou uma sobrancelha, mas não disse nada. Eu disse meu adeus a Vincent, e Quinn colocou a mão nas minhas costas e me guiou para os degraus do meu prédio. Paramos na minha porta e eu procurei minhas chaves dentro do estojo do portfólio. — Como você conhece Vincent? — uma das mãos de Quinn estava em seu bolso e a outra coçava o restolho de um dia no queixo. — Eu queria mesmo te perguntar sobre isso — fiz uma pausa, enquanto separava a chave da porta da frente das demais. — Vincent estava dirigindo a limusine que me levou para casa no dia em que fui demitida. Os olhos de Quinn estavam nublados e, então, sua sobrancelha se ergueu em um entendimento súbito. Ele olhou para longe de mim, em direção a porta do meu prédio.Olhei para ele com desconfiança antes de perguntar: — Você providenciou o carro naquele dia? Ele hesitou. Em seguida, assentiu, ainda não fazendo contato visual. — Sim. — Por que você fez isso? Ele encontrou meu olhar.


— Você parecia... chateada. — Ele suspirou. — Você nem me conhecia. — Mas eu queria. — Ele respondeu se aproximando, levantando a mão e enfiando um cacho atrás da minha orelha. Engoli com esforço e levantei meu queixo para manter contato visual, contendo o calor frenético torcido, no meu peito. — Por que você não falou comigo? Me perguntou sobre um possível encontro? Os olhos de Quinn se estreitaram e me analisaram. Ele parecia particularmente falante, quando disse: — Eu não namoro. Fiz uma careta para ele, mas antes que eu pudesse processar sua resposta, ele se inclinou e me beijou pela terceira vez naquela noite. Este foi diferente. Não tinha a doçura lenta e saborosa do nosso primeiro beijo e, definitivamente, não foi uma carícia rápida entre nossos lábios, como no último. Este estava com fome, imediato e exigente. Ele enfiou os dedos no meu cabelo e me encostou na porta do prédio, me prendendo no lugar. Foi o tipo de beijo que afastou todos os pensamentos coerentes, como um lobo sanguinário perseguindo um coelho. Meu corpo respondeu de uma maneira que eu não sabia que era possível, minhas costas arqueando, querendo pressionar cada centímetro de mim contra a sua forma tensa, com uma dor deliciosa no meu abdomen, revirando meus membros. Tão repentinamente quanto começou, terminou. Ele se afastou mordendo meu lábio inferior e esperando que eu abrisse os olhos para que ele pudesse me olhar. Senti ele colocar algo no meu bolso. Ele sorriu quase imperceptivelmente. — Eu pedi a Jamal para que pegasse seu celular no escritório. Vou ligar para você amanhã, para que possamos fazer as preparações para o jantar. Abri a boca para responder, mas ele me parou com outro beijo rápido. Quinn pegou as chaves da minha mão e abriu a porta. Ele me empurrou e me guiou para dentro, colocando as chaves na minha mão. Fiz tudo de forma mecânica, parando nos degraus para olha-lo, enquanto ele pairava do lado de fora da porta. Ele ainda estava sorrindo daquele jeito secreto e quieto dele. Então se virou e foi embora. Entrei no apartamento de Elizabeth me sentindo como um zumbi. Eu precisava raciocinar. A montanha russa de Quinn Sullivan, me deixou completamente exausta. No entanto, em vez de dormir, tudo o que eu queria era


sentar, olhar para o espaço e ficar obcecada com tudo o que ocorrera. Eu abracei esse desejo de ficar obcecada, porque sabia que era o que as pessoas normais faziam. Elizabeth estava deitada no chão acarpetado, com as pernas encostadas na parede, em uma excelente pose de yoga Viparita Karani. Ela estava ouvindo música em fones de ouvido grandes, que estavam conectados ao seu sistema estéreo através de um cabo notavelmente longo. Ela tinha uma coleção de discos impressionantemente estranha, e freqüentemente relaxava ouvindo suas músicas enquanto se esparramava no chão, contorcendo-se em posturas de yoga, tricotando ou lendo revistas médicas. Elizabeth adorava boy bands, e tinha discos de vinil compondo a maioria de sua coleção, começando com New Kids on the Block. Deve ter notado o movimento da minha entrada, porque ela virou a cabeça e me deu um sorriso zombeteiro. Ela tirou as pernas da parede, endireitou-se e tirou os fones de ouvido. Seus olhos se moveram sobre mim, me avaliando deliberadamente.Franziu a testa. — Você apenas estava com Jon? Balancei a cabeça e então me sentei, aturdida, no sofá. Peguei um travesseiro decorativo e agarrei-o em um abraço. — Não, eu estava com Quinn. Ela pulou e se sentou ao meu lado, no sofá. Eu podia ouvir os sons fracos de um álbum do One Direction vindo de seus fones de ouvido. — Meu Deus. O que aconteceu? Isso foi a trabalho? Onde vocês estavam? Meu rosto caiu nas minhas mãos e eu balancei a cabeça. — Elizabeth, você não tem permissão para fazer turnos simultâneos no hospital, nunca mais. Comecei contando à ela sobre esbarrar com ele na quarta-feira, no Smith’s, e incluí os detalhes ambíguos, da prisão, que Quinn havia me dado sobre o suposto homem das drogas, do Club Outrageous. Contei sobre nosso encontro um pouco desagradável na quinta-feira, e o fato de que, agora, eu estava forçada a carregar um celular. Acabei com uma versão muito curta do nosso dia, sobre nossa sessão de treinamento, e depois sobre a parte onde tudo passou da calma para uma cavalgada de loucos. Quando contei à ela sobre a conversa sexual, ela bateu no meu ombro e disse: — Você não! Contei sobre o beijo e ela engasgou. Seus olhos se arregalaram e ela cobriu a boca. Quando eu disse que ele me convidou para um encontro, ela começou a pular de um lado para o outro no sofá.


— Quem convidou? — Eu o chamei! — É isso mesmo, uh huh! Pulei a maior parte do show, e quando eu falei do Vincent e que Quinn arrumou a limusine quando fui demitida, ela franziu a testa, piscou e disse: — Acho que foi legal da parte dele, embora um pouco exagerado. Então, contei a ela sobre seu último comentário da noite — que ele não namora —. Ela franziu a testa, se recostou no sofá e cruzou os braços. Ficou em silêncio por um momento e depois suspirou. — Você sabe, eu meio que imaginei isso sobre ele. Foi a minha vez de franzir a testa. — O que você quer dizer? — Alguns caras simplesmente não são material para namorar. — Bem, então, que tipo de material são eles? Camurça? O canto da boca dela subiu quando uma das sobrancelhas ergueu e ela me deu um olhar de quem entende do assunto. O problema era que eu não tinha como entender o que eu não sabia. Balancei a cabeça para ela. — O que? O que é isso procurar? O que eu não sei? — Ele é um Wendell. Um Wendell. — O que é um Wendell? Elizabeth rapidamente acrescentou: — Ele é um jogador gostoso, um Wendell. Alguém com quem você não namora. — O que eu devo fazer com um Wendell? Ela empurrou meu ombro. — Janie! Você faz sexo alucinante com um Wendell! Você tem o seu momento com ele. Passa horas no paraíso orgástico, aproveitando seu corpo duro e cada parte fantástica e o instrumento causador de prazer, até se cansar dele. Corei e olhei para as minhas mãos. — Acho que eu não quero pensar sobre isso. — Sim. Está certa. Não pense. Apenas aproveite os bons momentos — ela cobriu minha mão com a dela e deu um tapinha, até que eu encontrei seu olhar. — Você merece isso. Repita depois de mim: “ Eu, Janie Morris, mereço uma terapia esplêndida de orgasmo, com Sr. Calças-Quentes. Meus olhos se arregalaram e eu respirei com coragem. — Isso é loucura. Os olhos de Elizabeth se estreitaram.


— Diga! Balancei a cabeça. — Eu não posso! Eu não posso dizer isso! — Você não vai apenas dizer isso, mas vai fazer isso e com frequência! Eu ri apesar da situação. — Você quer que eu tenha relações íntimas com um garanhão! — Suposto garanhão. E sim, eu sei — o rosto dela ficou sério. — Você só esteve com Jon e... — ela bufou. — E eu sei que ele não era tão bom nesse departamento. — Eu nunca disse isso. — Nunca precisou. O fato de você não ter dito, não significa nada. Mordi meu lábio. A verdade é que achava que Jon mandava bem. Bem! Ele era... apenas... bom. E o que estava errado em ser apenas bom? — Janie, sexo pode ser ótimo. Pode ser realmente ótimo, divertido e incrível. Essa coisa com o Sr. Calças-Quentes... isso tudo pode ser um ótimo acontecimento. Isso pode ajudá-la a se sentir mais confortável com os homens e a experimentar o que o sexo e a intimidade física podem ser, quando realmente são bons. Wendell, quero dizer, Quinn! Quinn está sendo honesto com você sobre suas intenções. Quando você se cansar dele, não precisa se preocupar com os sentimentos dele. Isso não é ótimo? Então, quando você conhecer um nãoWendell, de quem gostar e que gostará de você também, saberá como fazer no quarto. Balancei a cabeça. — Eu não acho que posso ser essa pessoa. Não acho que posso fazer sexo com alguém, sem saber que esse alguém se importa comigo e quer estar comigo por... sem algo mais. Eu sei que soa puritano, mas eu não quero sexo se não vier com... — Amor? — Elizabeth sugeriu com um leve toque de sarcasmo na voz. Torci meus lábios para o lado. — Cuidado mútuo, respeito, compaixão e comprometimento. E, sim, espero que tudo isso seja com algum tipo de amor. A verdade era que essa pessoa, a pessoa que poderia valorizar mais o aspecto físico de um relacionamento, do que o compromisso emocional e a consistência, me assustou. A natureza indomável e imprevisível disso, me assustou. Isso me lembrou da minha mãe, de como ela abandonava sua família com uma frequência alarmante, em favor de parceiros sexuais temporários. Era importante para mim que eu nunca tivesse nada em comum com aquela mulher. E, se isso significasse que eu acabaria sem um parceiro, ou se eu passasse o resto da minha vida em um relacionamento sério, sem paixão, embora confiável e seguro, então eu estava realmente bem com isso.


Ela bufou. — Você pode conseguir tudo isso com um cachorro, ou um gato. Você diz essas coisas e pensa assim, porque nunca fez um ótimo sexo. Ri de sua careta descontente. — Então, ah, bem. Acho que nunca farei um ótimo sexo. Ela bufou de novo e me puxou para um abraço. — Eu amo você, Janie, e eu poderia te proporcionar um ótimo sexo, mas não sou fã de garotas. Eu sorri, com o rosto colado em sua camisa. — Bem, me avise se mudar de ideia. Ela se afastou e me segurou pelo braço. Seu rosto e sua voz eram sérios. — Se você não quer um sexo ardente com um Wendell, então eu tenho que te dizer que você precisa ter cuidado com esse cara. Ele está sendo honesto com você, quando diz que não namora. Você deveria acreditar nele. Balancei a cabeça e tentei não trair a tristeza que sentia. — Eu acredito nele. Ela me observou por um tempo, analisando-me. — O que ele disse depois do comentário sobre não namorar? Engoli em seco. Inconscientemente coloquei meus dedos nos lábios. — Ele expulsou o inferno de mim, com um beijo.


Capítulo 12 Finalmente respondi ao e-mail da minha irmã, no sábado à tarde, depois de muita procrastinação. Dormi até nove e meia da manhã e depois fiquei no futon, por mais vinte minutos, pensando nos lábios mágicos e misteriosos de Quinn Sullivan. Decidi, por um capricho estranho, dar uma volta até o lago Michigan. O tempo ainda estava bom, especialmente para o final de Setembro, e o vento estava purificador. Me distraí com vistas do Millennium Park, do Aquarium, do Museu de História Natural, e refleti sobre minha cidade. Há algo realmente especial em Chicago. Chicago é o notório filho do meio das grandes cidades dos EUA. Alguns podem considerar essa analogia apenas em referência à localização geográfica de Chicago, que fica no meio do país. No entanto, a analogia é multifacetada. Como a maioria dos filhos do meio, e como livros entre os elaborados suportes de livros, às vezes é fácil negligenciar Chicago. É inteligente e genuína, mas sempre é comparada, para melhor ou pior, aos irmãos mais velhos e mais novos, Nova York e Los Angeles. É a irmã menos notória, mas mais inteligente que Nova York; é a irmã menos pomposa, mas consideravelmente mais genuína do que Los Angeles. É de tirar o fôlego. Bonita e, ainda assim, de alguma forma, ficou presa no ponto cego da consciência popular. Sempre me perguntei se Chicago preferiu se afastar do clima desagradável e, geralmente, disfuncional da notoriedade. Suponho que seja mais do que conteúdo ser inteligente, genuíno e de tirar o fôlego, sem atrair a atenção que assola as cidades que são famosas e ostensivas. No caminho de volta, peguei um café na Starbucks e me entreguei à obsessão incessante de Quinn Sullivan. Eventualmente, parei do lado de fora do Utrecht Art Supply e olhei as vitrines. Quando cheguei em casa, encontrei Elizabeth limpando a cozinha. Me senti um pouco desapontada, afinal, eu estava planejando passar o tempo procrastinando exatamente essa tarefa. Em vez disso, tomei um banho e depilei tudo o que poderia ser raspado. Fiz minhas sobrancelhas, e decidi fazer as unhas dos pés. Elizabeth me olhou com desconfiança, quando me sentei no sofá e apoiei meu pé na mesa de café. Tentei ignorar seu olhar aguçado. Depois de um período de tenso silêncio, ela disse: — Então, o que você precisa fazer que não quer fazer? Bufei, gostando e não gostando que ela me conhecesse tão bem. Confessei.


— Jem me enviou um email. — Jem? — Elizabeth não suprimiu sua surpresa. — Quando? — Na quinta feira. — O que ela quer? Destampei o removedor de esmalte e encharquei uma bola de algodão. — Ela quer fazer uma visita. — Para quem? — Suponho que a mim. Ela disse que queria me ver. Elizabeth balançou a cabeça. — Isso é tão estranho. Ela nem gosta de você. Dei de ombros. — Eu sei. Era verdade. Minha própria irmã não gostava de mim. Não é que não nos dávamos bem, Jem simplesmente não parecia gostar de ninguém. Às vezes ela fingia gostar das pessoas, mas apenas pelo tempo que fosse necessário para obter o que precisava. Eu senti que havia uma possibilidade distinta de que ela fosse uma sociopata. Abruptamente coloquei a tampa de volta no removedor e peguei meu laptop. Eu precisava arrancar o Band-Aid de irritação e apenas responder ao maldito email dela. Respondi: Jem, estarei na cidade na semana que vem, mas só parte da semana, depois viajarei a negócios. Quando você pretende chegar? Quanto tempo você vai ficar? Você quer ver, ou fazer alguma coisa em particular enquanto está aqui? Me avise dos detalhes quando você puder. Até breve, Janie. Parecia bastante amigável, mas eu tinha certeza que isso iria aborrecê-la. Ela não gostava de contar seus planos, mesmo que afetassem diretamente outra pessoa. Com essa questão resolvida por enquanto, decidi enviar um e-mail para Jon, sobre o jantar. Apesar de Steven não conseguir nos encontrar, me senti obrigada a manter meu plano de jantar com Jon, especialmente depois de cancelar duas vezes seguidas. Quando comecei a escrever um e-mail, algo em algum lugar próximo começou a soar. Parei de digitar e olhei para Elizabeth, confusa. — O que é isso? Parece um caminhão de sorvete. Elizabeth parou de acomodar a louça na máquina de lavar, segurando um prato pingando. — Na verdade parece com um celular. Não é o seu novo telefone? Levei um susto, lembrando do telefone, e comecei a revirar a sala de estar tentando encontrar a coisa maldita. Depois de um tempo parou de tocar, mas,


segundos depois, começou novamente. Eu estava xingando e era uma palavra de duas sílabas e de quatro letras, quando encontrei a geringonça amaldiçoada. Respondi, sem fôlego. — Sim! Alô? — Oi. Externamente, meu corpo endureceu; internamente, meus ossos se dissolveram. — Ah! Oi-oi-olá! Como você está? — Bem. Como você está? — Quinn parecia estar sorrindo. Uma imagem dele sorrindo passou pela minha consciência, fazendo com que os cabelos na parte de trás do meu pescoço, se arrepiassem. — Eu estou bem. É... — olhei para Elizabeth. Ela estava fazendo gestos sugestivos com as mãos ainda molhadas. Olhei para ela com raiva, e me virei completamente. — É bom falar com você. — Mesmo pelo celular? Sorri contra minha vontade e respondi: — Seria melhor se não fosse pelo celular. — Concordo. Estou ligando por causa do jantar. A que horas te busco? — Jantar? — Sim, jantar. — Hoje à noite? — Sim. Jantar. Hoje à noite. — Hum... — fiz uma careta e olhei para a mensagem, ainda aberta no meu laptop, que eu estava digitando para Jon. — Janie?… Você está desistindo? — Não, não. Eu não estou desistindo. É só que não posso hoje à noite. Já tenho planos. O movimento de Elizabeth chamou minha atenção, e a peguei me encarando e murmurando: — Que diabos você está pensando? Eu a enxotei para longe. Quinn não respondeu, então afastei o telefone para longe da minha orelha e olhei para a tela, tentando descobrir se eu tinha desligado o telefone. Nenhum dos símbolos parecia indicar algo desse tipo, então falei novamente. — Quinn? Você ainda está aí? Eu encerrei a ligação? — Sim, ainda estou aqui — o ouvi suspirar. — Esses planos não são os mesmos que você fez ontem, com o seu ex, são? Por dentro, me encolhi e, externamente, também me encolhi. — Sim.


Sua resposta foi o silêncio. — Quinn? — Eu também vou. — Não soou nada como um pedido. — Hãn? — Hã, o quê? Sua voz era rigorosa e brusca. — Você e eu vamos sair amanhã. Hoje posso conhecer seu amigo Jon. — Você quer conhecer Jon? — Instintivamente, meu olhar procurou por Elizabeth, e acho que devo ter parecido tão ferida quanto me sentia. Ela apenas olhou para mim, com os olhos arregalados. — Eu quero te ver. Suas palavras fizeram meu coração pular. Tive dificuldade em formar um pensamento coerente. — Bem, eu acho, quer dizer, suponho que, quer dizer, não é que... Talvez pudéssemos, eu simplesmente não acho que... — Aonde vamos? A que horas vamos encontrá-lo? — Eu estava mandando um email para ele, para acertar os detalhes. — Ok. E que tal o Chez Jean? Te busco às 19:00h — Não, te encontro no restaurante. — Eu não queria chegar com ele. Pareceria um encontro e Jon se sentiria sobrando. — Você sabe onde é? — É a um quarteirão do Al’s Beef, certo? Podia ouvir o sorriso em sua voz. — Sua referência é o Al’s Beef? — Como não perceber o Al’s Beef? É amarelo e preto, e tem um copo de plástico gigante no centro da placa. Acho que eles têm oportunidades de franquia disponíveis. Ele riu. — Te vejo às 19:00h horas. Sua risada me fez sorrir como uma idiota. — Ok. Às 19:00h vou te ver, então. Quando a ligação acabou, olhei para o celular, sem realmente vê-lo, por um momento. Me senti leve, como se meus pés não estivessem tocando o chão e eu pudesse flutuar, caso o desejo me atingisse. Senti como se corresse e girasse por um campo, enquanto uma orquestra tocava no fundo. Senti vontade de bater os calcanhares e deslizar por um corrimão incrivelmente grande e íngreme. Senti vontade de colher uma margarida enquanto recitava: “Bem me quer... Mal me quer... Bem me quer.” A voz preocupada de Elizabeth, me tirou dos meus devaneios sinuosos e me


trouxe para um pouco mais perto da realidade. — Você está mal. Nunca te vi assim. Com um sorriso patético, ainda estampado no rosto, suspirei. Sabia como eu era e parecia. Uma pequena voz, nos recessos do meu cérebro hiperativo, gritou comigo: “Você está apaixonada! Apaixonada, entendeu?!” Eu nunca tinha percebido antes, como a paixão poderia ser gloriosa. Talvez eu nunca tivesse sido apresentada à oportunidade, até Quinn aparecer. O jantar daquela noite começou com um dos silêncios mais difíceis que já experimentei na minha vida. Tive que morder minhas bochechas, para não encher o buraco negro de palavras não ditas. Depois que as apresentações foram feitas, Jon se sentou ao meu lado, no sofá encostado na parede, e olhou zangado para Quinn. Quinn, em sua cadeira em frente a nós, sorriu para Jon. Era um sorriso presunçoso, tingido com certa quantidade de arrogância. Eu não sabia como me sentir em relação a isso, então, apenas ignorei naquele momento. Eu só esperava que meu excessivo engolir nervoso passasse despercebido. Finalmente, sentindo como se eu fosse estourar, saí educadamente da mesa e corri para o banheiro feminino. Fiquei lá até me sentir capaz de refrear a lista transbordante de factoides relacionados a buracos negros, que davam voltas na minha cabeça. Quando saí do banheiro percebi, pela primeira vez, como o restaurante era realmente agradável. Cheirava a alho e a roux, e as paredes eram de um amarelo pálido, exceto pela moldura da copa, que era uma madeira escura e natural. As janelas estavam emolduradas por cortinas cor de vinho. Belas paisagens a óleo, que eu presumi ser o interior da França, adicionavam elegância íntima sem fazer o lugar parecer desordenado, ou como um museu de arte. As mesas estavam cobertas com toalhas brancas. As fileiras de garfos, colheres e facas se espalhavam como pétalas, de cada lado de uma série de pratos empilhados; os maiores no fundo, os menores no topo. Um guardanapo de linho, delicadamente dobrado de maneira a parecer um cisne, saía de um copo de água à direita dos pratos. Eu estava tão distraída com o ambiente, que não percebi, até que voltei para a mesa onde Quinn estava sentado, sozinho. Olhei ao redor do pequeno restaurante e vi a forma recuada de Jon saindo pela porta. Sem pensar, o segui e chamei seu nome. Ele parou. Se virou devagar e voltou para o bistrô. Seus olhos se moveram além de mim para onde Quinn estava sentado e, então, encontrou meu olhar novamente. Sua expressão, geralmente tão aberta e desprotegida, era remota e


sombria. — O que está acontecendo, Jon? Aonde você vai? Ele bufou e, com os dentes cerrados, disse: — Estou indo embora. — Por que? Os olhos verdes de Jon, olharam para os meus buscando algo e sua expressão pareceu suavizar. Ele se mexeu e pegou uma das minhas mãos. — Olha, Janie, não importa o que ele diga, quero que você saiba que eu te amo. Apenas me prometa que você vai me ligar amanhã. Não importa o que aconteça, você vai me ligar amanhã e vamos conversar. Balancei a cabeça, confusa. — Vocês dois se conhecem? — Não. Nós nunca nos conhecemos. — Sobre o que vocês conversaram? — Não foi nada… — Então, por que você está indo embora? Ele apertou minha mão. — Apenas me prometa, por favor? Dei de ombros. — Tudo bem, tudo bem. Prometo. Te ligo amanhã, mas isso é muito estranho. Ele sorriu com firmeza, de um jeito que não combinou com seus olhos, e soltou minha mão. Rapidamente, em um movimento fluido, Jon se inclinou para frente, beijou minha bochecha e, em seguida, se virou e saiu. Olhei para a porta por vários minutos. Quando me virei, encontrei Quinn me observando. Sua expressão era indecifravel, como sempre, e, como era típico, seus olhos azuis celeste pareciam estar mascarando um brilho travesso. Voltei para o sofá encostado na parede e meus passos desaceleraram, tornando-se lento quando me aproximei. Olhei para ele, perplexa, e deslizei para o sofá em frente a sua cadeira. Como se nada tivesse acontecido errado, ele apontou para o copo de martini na minha frente. — Pedi um Lemon Drop. Minha atenção se voltou para o líquido cor de uísque na frente dele, e para o copo na minha frente. Havia apenas dois copos. Fiz uma careta. Olhei para Quinn, na esperança de transmitir a intensidade da minha suspeita. — Sobre o que você e Jon conversaram? Por que ele saiu? Quinn nem tinha decência suficiente para parecer envergonhado. Em vez


disso, me observou com seus olhos travessos, e tomou um longo gole de seu uísque antes de responder. — Você deveria perguntar a ele. — Eu perguntei. Ele insistiu que não era nada. — Meu tom era monótono e atado com a descrença que eu sentia. Quinn deu de ombros. — Então não deve ter sido nada... — ele disse, sua boca puxada para o lado em um quase sorriso — A menos que Jon esteja mentindo. Cruzei meus braços sobre o peito, e me inclinei para contemplar ele e sua resposta insatisfatória. Ele encontrou meu olhar firmemente. Por fim, eu disse: — Você não está sendo muito legal. — O que eu fiz que não é legal? — Acho que você está sendo meio esperto, e é por isso que você não está sendo legal. O sorriso dele desapareceu. — Esperto não está no seu gráfico de dispersão de quatro quadrantes, da sua matriz de personalidade. Meus olhos se estreitaram ainda mais. — Talvez deva estar. Talvez eu deva adicionar à honestidade como um eixo, e torná-lo um modelo 3D. — Você acha que eu estou sendo desonesto? — sua voz estava nivelada, mas seus olhos pareciam brilhar com o desafio. — Não. Eu acho que você está sendo, tecnicamente, honesto, o que é quase pior. Toda expressão evidente abandonou suas feições e seu olhar fixo, queimou com intensidade. Senti minhas bochechas vermelhas sob sua inspeção, mas mantive contato visual, mesmo quando meu coração começou a disparar e um nervosismo torcido disparou no meu peito. Depois de um longo silêncio, ele se levantou da cadeira. Sua forma imponente, se movia com uma facilidade graciosa e elegante de uma pantera. Quinn sentou ao meu lado. Ele colocou o braço atrás de mim, no encosto do sofá, e seu olhar passou pelo meu pescoço, lábios e olhos. Por um momento, pensei que ele fosse tentar me beijar. Em vez disso, ele se aproximou e sussurrou: — O que você quer saber? Levou um tempo para eu concluir os pensamentos. As palavras vieram algum tempo depois. — Eu quero saber o que você disse a Jon quando fui ao banheiro. Quinn me olhou especulando, e depois suspirou.


— Nós conversamos. E o que eu disse é, provavelmente, a razão pela qual ele saiu. Não estou tentando ser evasivo, mas não é segredo meu para eu contar. — O que você quer dizer com não ser segredo seu para você contar? — Isso significa que Jon tem algo que deveria lhe dizer. Se você quer saber o que é, então você deve perguntar a ele. — Você não vai me dizer o que é? Ele balançou a cabeça. Seu olhar era firme e sua voz era direta. — Não. Não é o meu dever. Mordi meu lábio superior o examinando, e finalmente decidi que acreditava nele. — Tudo bem — eu disse, com determinação. — Obrigada por ser honesto. Ele assentiu uma vez. — De nada. Agora eu posso fazer uma pergunta? Não consegui impedir o meu revirar de olhos. — Estamos jogando este jogo de novo? Seu sorriso foi imediato e deslumbrante. — Gosto deste jogo e, definitivamente, gosto de joga-lo com você. Antes que ele pudesse fazer sua pergunta, fomos interrompidos pelo garçom, perguntando se estávamos prontos para pedir. Quinn parecia tirar sua atenção de mim com relutância, mas manteve o braço ao longo do encosto, nas minhas costas. Peguei o cardápio para fazer rapidamente minha escolha, mas, pela segunda vez em nossa curta relação, Quinn fez aquela coisa que se vê em filmes, mas nunca acontece na vida real: Sem perguntar minha opinião, ele pediu para mim. — Vamos começar com o tarte aux champignons e dois salade au chevrotin. A moça vai querer o Gigot D’Agneau au jus et Romarin, e eu o Steak Grillé au Poivre, ao ponto. Também vamos querer uma garrafa do Chateauneuf du Pape, o Cuvee de 2005. O garçom inclinou-se ligeiramente, quando Quinn arrancou o cardápio da minha mão e passou para ele. O garçom nos deu um sorriso contido e disse: — Muito bem, senhor. — E saiu. Quinn virou-se para mim e me deu seu sorriso lento e sexy. Aquilo causou coisas esquisitas nas minhas entranhas, como se o calor causado pela minha tontura, derretesse meus ossos. Meu cérebro também ficou confuso. Não me aborreci por ele ter feito o pedido por mim. Antes que ele pudesse seguir com sua pergunta, fiz uma das minhas. — Por que você está sempre querendo tirar vantagem? — querendo fazer alguma coisa com as minhas mãos, puxei meu guardanapo para fora do copo e o cisne se desfez em um retângulo de linho branco e liso. O coloquei no meu colo.


Sua voz estava baixa quando ele falou e seus olhos acariciavam meus lábios. — Em todo relacionamento ou interação, há vencedores e perdedores. Não importa se são negócios, ou família ou... — ele fez uma pausa por apenas uma fração de segundo, seus olhos queimando de um azul mais brilhante — …ou envolvimento com o sexo oposto. Alguém sempre vence e alguém sempre perde. Eu não gosto de perder. Suas palavras foram um pouco decepcionantes. Minhas entranhas congelaram, mas meu cérebro conseguiu sobressair do nevoeiro. — Essa é uma teoria interessante — e foi. Foi uma teoria bastante interessante. Vi mérito nisso, mas também senti que era fundamentalmente falha. — E, supondo que o relacionamento seja entre duas pessoas que manipulam, então você está certo. Haverá um vencedor e um perdedor. No entanto, se ninguém está manipulando, então ninguém tira vantagem do outro. Seus olhos se estreitaram para mim brevemente. Ele se inclinou para frente e apoiou um antebraço na mesa. — Só porque você não manipula, não significa que uma pessoa não esteja atuando em algum momento do relacionamento, ou recebendo mais do que doando. — Ele estendeu a mão sobre a mesa e pegou seu copo de uísque, abandonado. — Há muitas negações nessa frase. Não, não, não é... Talvez seja esse o seu problema. — Meu problema? — seus olhos se estreitaram ainda mais. — Sim, seu problema. Talvez você esteja muito focado nas faturas negativas da sua planilha de relacionamentos — dei risada. — Meu problema é que sinto falta do óbvio, já o seu problema, é que você presta muita atenção nisso. Ele parecia sorrir sem querer; uma risada relutante passou por seus lábios. Seu olhar estava desprotegido e avaliando, enquanto dizia: — Pode ser que você esteja certa. — Ele puxou seu lábio inferior com o polegar e o indicador distraidamente, continuando sua avaliação evidente de mim, com seu sorriso se alargando. Me deliciei com o calor de seu olhar de aprovação, antes de cutucá-lo. — Então, o que te levou a essa perspectiva pessimista? Seus pais te chamam o tempo todo, querendo que você cuide do gato deles, ou instale as calhas? Eu ajudei meu pai a instalar calhas em nossa casa, quando eu tinha dezesseis anos. Foi realmente horrível. Uma expressão, que só poderia ser descrita como melancolia sinistra, lançou uma sombra sobre o rosto de Quinn. Ele engoliu com esforço e disse: — Eu não falo com meus pais. Eu não falo com eles desde que meu irmão morreu.


Meu próprio sorriso desapareceu imediatamente, e eu olhei para ele por um bom tempo. Brinquei com meu guardanapo, em seguida, o ajeitei e apertei minhas mãos no meu colo. — Ah. Bem... — balancei a cabeça, sentindo que eu precisava oferecer algo em troca, apenas no caso de ele estar manipulando fatos pessoais. — Falei com meu pai há algumas semanas, quando perdi meu emprego. Nós realmente não nos falamos muito, mas ele é um cara legal. Ele envia e-mails para mim, que recebe dos outros. Ele nunca escreve nada que seja só para mim. Eu não falo com nenhuma das minhas irmãs. Ele me olhou de lado. — Por que não? — Na verdade, não temos nada em comum, e suas escolhas profissionais dificultam a manutenção de um relacionamento significativo com elas. — Meu pai e meu irmão eram policiais, em Boston. Eles não ficaram muito felizes com a escolha da minha carreira. — Com o que? Em ser um segurança, um consultor, ou, o que você é? A boca de Quinn prendeu de lado e ele parou antes de responder. Seus olhos se moviam sobre mim, e sua expressão estava entre confuso e divertido. — Não, na verdade, quando eu era mais jovem, eu era uma espécie de hacker invertido. — O que você quer dizer? — Ajudei as pessoas a protegerem seus computadores, sistemas, redes, ... esse tipo de coisa. — Por que seu pai não gosta disso? — Porque a maioria das pessoas que me contratavam para fazer isso, eram criminosos. — Então você criou firewalls para chefes da máfia? Se eu começasse uma banda. Máfia Boss Firewall seria um excelente nome. — Me chutei mentalmente, por ter sido indelicada, o que fez com que eu me encolhesse. — Não foi nada tão poético quanto isso — ele olhou para seu uísque quase vazio e estudou o líquido âmbar. Seus ombros pareciam cair sob o peso de algo que eu não conseguia ver. Depois de um longo minuto, ele continuou: — Na verdade, o que eu realmente fiz, foi evitar que seus dados fossem usados contra eles, caso seus computadores ou hardware fossem confiscados. Isso não era algo que eu esperava ouvir. Antes que eu pudesse me dar conta, perguntei: — Onde você aprendeu a fazer isso? Ele deu de ombros, sem olhar para mim. — A maior parte foi como autodidata. Fui para a faculdade, em Boston, por


dois anos. Cursei Ciência da Computação, mas desisti quando os negócios começaram a melhorar. — Por que você parou? Digo, por que parou de fazer o hack reverso, para criminosos? Ele ergueu os olhos para os meus, sua expressão vazia. — Como sabe que eu parei? — Eu não sei se parou. Você parou? — Parei. — Por que? Se foi tão lucrativo, então por quê... — Porque... — ele interrompeu, seus olhos olhando atentamente para os meus e sua testa baixa, como se estivesse tentando, com muito esforço, decifrar um mistério. Sua atenção mudou para o meu cabelo caindo sobre o meu ombro. Com uma expressão distraída, ele pegou um cacho e o esfregou entre o polegar e o indicador. Sua voz soava distante e distraída, quando ele respondeu: — Porque, por minha causa, meu irmão morreu. Eu não sabia o que dizer, então apenas o observei. Os olhos de Quinn se voltaram para os meus. Ele parecia estar tentando avaliar minha reação. Sorriu, mas estava cheio de amargura. — Como o primeiro programa funcionava, qualquer tentativa para acessar os dados na ausência de um transmissor de Radiofrequencia, seria executado um script em segundo plano, o que limparia o disco rígido, tornando-o inoperante. Depois, quando minha base de clientes cresceu, junto com a demanda por sistemas de dados maiores, construí um desmagnetizador. Tive que adicionar uma bateria de apoio, apenas para o caso do sistema ser desligado. Como você pode imaginar, essa bateria tinha o péssimo hábito de pegar fogo. Limpei a garganta e engoli, querendo falar que o risco de incêndio poderia ter sido amenizado pelo isolamento e resfriamento do desmagnetizador. Em vez disso, perguntei: — Por que diz que seu irmão morreu por sua causa? Sua boca se curvou em uma carranca, e ele suspirou. — Porque um dos caras, digo, um dos ‘bandidos’ para os quais eu trabalhava, atirou no meu irmão. Pisquei. — Eu não... não entendo. — Meses antes de Des, meu irmão, ser morto, a polícia tinha um mandado de busca e pegou todos os computadores desse cara, backups, tudo. O programa que eu criei para o homem, funcionou perfeitamente e a polícia ficou sem nada. Se eu não tivesse colocado o programa em seu computador, e se não o tivesse ajudado a manter suas informações seguras da polícia, ele estaria preso, em vez


de... Fechei minha mão ao redor da dele, não querendo que ele terminasse a frase. Foi uma história horrível. Eu queria dizer que não era culpa dele, mas senti que essa afirmação seria trivial e paternalista. Em vez disso, eu disse: — Eu entendo por que você se culpa. Ele piscou para mim, em seguida, estreitou seu olhar um pouco, como se estivesse tentando me ver melhor. Desta vez, seus olhos e seu sorriso estavam tristes. — Você me culpa? — Eu culpo o bandido, quem realmente puxou o gatilho e o matou. Nessa situação, você parece uma pessoa que reconheceu o erro de seus caminhos e tentou mudar. Se você se lembra, essa é a diferença entre um cara bom e um cara mau. Ele soltou um suspiro que eu não sabia que ele estava segurando. Seus olhos ainda estavam tristes, mas sua expressão parecia nitidamente preocupada . Ele olhou para mim com algo que parecia admiração, e com a voz baixa em um tom calmo, disse: — Não acho que manipularei você. Nós conversamos. Conversamos e rimos, e passamos um tempo maravilhoso. A conversa fluía como uma linda cachoeira, e meus sentidos estavam a flor da pele. A comida veio e se foi. Vinhos foram servidos e apareciam do nada. O tempo passou e eu não tinha lembrança ou consciência de ninguém, além de Quinn, estar naquele restaurante. E, em algum momento, as borboletas no meu estômago realmente cessaram pelo Bonitão Calças-Quentes, e foram total e completamente para Quinn Sullivan. Me contou histórias sobre sua família. Ele era o mais novo e passou sua juventude sendo rebelde. Sua irmã, Shelly, era três anos mais velha e era uma espécie de espírito livre e recluso, que preferia concertar carros clássicos e criar esculturas de metal soldadas, do que interagir com a sociedade. Seu irmão Desmond, Des, era o mais velho e responsável. Minha história favorita, foi a que detalhou como, com treze e dezesseis anos, Quinn e Shelly soldaram as portas do carro de Des, de vinte anos de idade, exceto o banco traseiro do lado do passageiro. Des foi forçado a entrar e sair do carro pelo banco de trás, por duas semanas, e nenhum deles contou a seus pais. Em algum momento, o pai de Quinn pediu para usar o carro e Des tentou convencer o pai de que as portas estavam enferrujadas, em vez de dedurar seus


irmãos. Ele falava com tanto afeto de seu irmão, irmã e seus pais, que isso me fazia gostar ainda mais de Quinn. Seus olhos brilhavam com a memória, e ele começava a rir antes de chegar ao fim da história, o que me fazia rir e o levava a rir , novamente. No entanto, de vez em quando, ele fazia uma pausa e uma nuvem de tristeza ou arrependimento — eu não conseguia decifrar —, escurecia suas feições. Me encontrei querendo saber as causas específicas para cada um desses episódios. Também me peguei querendo ser uma fonte de apoio e conforto para ele. Esses não eram pensamentos com os quais eu estava acostumada, e eles teriam ficado desordenados, se eu tivesse passado algum tempo me permitindo debatê-los. Em vez disso, deixei os pensamentos irem embora e me apeguei as emoções. E então, houve o toque. Ah. Deus. O. Toque. Ele parecia encontrar qualquer motivo para me tocar. Era enlouquecidamente maravilhoso. De vez em quando, ele se inclinava e sussurrava alguma coisa no meu ouvido; sua bochecha roçava a pele lisa do meu rosto e pescoço, e fazia com que meus dedos dos pés se contraíssem nos meus sapatos. Durante a maior parte da refeição, sua perna encostou na minha. Ele tocava meu braço, ou meu joelho quando eu dizia algo que achava engraçado, ou interessante, ou só porque eu não tinha experimentado o vinho ainda. Todos esses toques simples pareciam inofensivos, se não, insignificantes de certo modo. No entanto, a reação que provocavam no meu estômago, era semelhante à descida da queda mais íngreme de uma montanha-russa. Então, quando nós comemos a sobremesa, ele, distraidamente, lambeu o creme do meu dedo. Durante vários segundos, esqueci meu nome e onde nasci. Meu nível de interesse em Quinn, minha vontade de estar com Quinn, minha vontade de tocar e ser tocada por Quinn, minha vontade de prolongar nossa conversa e, portanto, nosso tempo juntos, me pegou de surpresa. Pensei no momento em que teria que dizer boa noite e isso me deixou triste, ansiosa e deprimida. Me apeguei nesses sentimentos e eles eram inquietantes. A força da minha preferência, de querer estar com Quinn ao invés de manter a solidão, foi uma sensação que eu nunca tinha experimentado. No passado, geralmente preferia solidão à companhia, mas sempre reconheci a importância dos relacionamentos e do contato humano. Quando terminamos o jantar, me senti desinibida. Entre o coquetel de antes e o vinho durante o jantar, fiquei sem expressão, sentindo um calor confortável e


aconchegante. Sabia que isso era causado por aquela quantidade ilusória de álcool, onde você bebe um pouco a mais, fazendo você passar os limites de suas inibições, mas não o suficiente para fazer você se sentir mal ou grogue. Nós brigamos pela conta quando veio. Por briga, quero dizer que insisti em pagar a metade e ele respondeu com um silêncio acalorado. Ao invéz de discutir ou tentar se engajar em minha conversa unilateral, ele colocou seu cartão de crédito, silenciosamente, no porta-comanda e o manteve cuidadosamente fora do meu alcance, enquanto eu continuei listando todas as razões pelas quais deveríamos dividir a conta. Não menos importante que as outras, mas já havíamos concordado antes que esse não era um encontro. Depois o entregou furtivamente ao garçom, quando ele passou. Eu ainda estava compenetrada em convencê-lo, quando Quinn assinou o recibo. — Espere, o que você está fazendo? — olhei para o papel. Silêncio. Rabisco. Silêncio. — Isso que você acabou de assinar, era a conta? — minha voz subiu uma oitava, e meus olhos estavam arregalados, com uma exagerada indignação. Ele olhou para mim, com algo parecido com uma falsa inocência iluminando suas feições, e disse: — Sinto muito. Você queria dividir? Fiz uma careta para ele, mas não consegui manter a expressão de aborrecimento quando ele sorriu. Eu tinha memórias ligadas ao seu sorriso agora, e todas elas serviram para aumentar meu calor embriagante. Eu estava bêbada de vinho bom, comida deliciosa e conversa fantástica. Ele voltou a atenção para sua carteira. Um pequeno sorriso secreto ainda estava dançando em seus lábios enquanto ele guardava seu cartão de crédito. Meu olhar se derreteu, e eu me peguei olhando para ele, descaradamente. Eu realmente olhei para ele. Ele não era fisicamente perfeito, mas chegou perto. Tinha uma cicatriz que cortava o centro da sobrancelha direita. Fiz uma nota mental, para depois perguntar a ele a história por trás daquilo. Uma das orelhas era ligeiramente maior do que a outra e o nariz era curvado, apenas um pouco, à esquerda. A divisão do cabelo não era uniforme e seu cabelo era muito grosso; precisava ser cortado e hidratado. Seus dentes inferiores estavam ligeiramente tortos, mas eu não percebia ou os via, a menos que ele sorrisse com seu sorriso de mil watts. Adorei olhar para ele e não ver mais a deslumbrante fachada de perfeição do Calças-Quentes. Eu vi um cara bom, constantemente mandão, hilariamente engraçado, irritantemente provocador, cativantemente inteligente e seriamente sexy. — Por que esse sorriso?


Pisquei para ele e balancei a cabeça ligeiramente, para clareá-la. Sua voz parecia distante, enquanto me tirava das minhas reflexões. Eu percebi que estava o olhando, mas no meu estado aconchegante, desinibido e confortável, não me senti particularmente envergonhada. Respondi: — Eu estava pensando em minhas primeiras impressões sobre você, e sobre como você realmente é, ao contrário... — Ao contrário de...? — ele ergueu as sobrancelhas. — Ao contrário de um robô bonito. Ele afundou o queixo e estreitou os olhos para mim. — Você acha que eu sou bonito? — Ah. Para. Você sabe que é bonito. — Revirei os olhos e o soquei na costela, me comportando estranhamente melindrosa. — Estou surpreso que você ache isso. Quando fomos ao Giavanni, pensei que você fosse me fazer colocar um saco de papel na cabeça. — O que? Por quê? Do que você está falando? — gaguejei, o cutucando novamente. — Quando a Viki perguntou se estávamos juntos, você... — Isso porque ela olhou para mim como se eu fosse o filho do amor de Cerberus com um Ciclope, quando você disse que eu estava com você. — Fui cutucá-lo pela terceira vez, mas ele agarrou meu pulso e entrelaçou seus dedos nos meus. Nossas mãos pousaram no joelho dele. Ele deu de ombros e olhou para nossas mãos, franzindo a testa um pouco. — Suponho que ela ficou surpresa. Fiz minha próxima pergunta, incerta se eu queria uma resposta. — Porque eu não sou seu tipo? Seus olhos rapidamente se levantaram para os meus e suas feições perderam parte de sua tranquilidade anterior. — Você quem diz isso. Não pude evitar minha própria carranca, ou parar com a sensação de afundar no meu peito. Naquele momento, me senti uma garota de verdade; como uma garota que quer ouvir que ela é linda, do garoto que ela gosta. Parecia um sentimento adolescente, estranhamente doloroso e irritante, porque eu sabia que era tolice. — Então, qual o seu tipo? Bonita? Loira? Magra, do tipo modelo? Sua boca erguida para o lado. — Não foi isso o que eu quis dizer. — Bem... o que você quis dizer? Sua expressão endureceu ligeiramente. — Shelly e eu vamos ao Giavani quase todo sábado. Viki não está acostumada


a me ver com mais ninguém. — Você quer dizer que ela não está acostumada a ver você com uma garota que não seja sua irmã? Nenhuma namorada? — Eu não namoro — sua expressão entrou na máscara da indiferença que eu tinha me acostumado ao longo da última semana. Ele acrescentou: — Eu deveria esclarecer isso. Não tenho saido com ninguém. Ele é um Wendell. As palavras de Elizabeth, daquela manhã, estavam desfilando em minha cabeça. Tentei cobrir o baque de decepção do meu estômago descendo para os meus pés, com um sorriso corajoso e o pressionei sobre o assunto, fazendo outra pergunta que eu não tinha certeza se queria a resposta. — Então, por que você não namora? — Não é um grande mistério. Eu apenas não tenho um por quê. — Seu tom era prático. — O que isso significa? Não ter um por quê? Parecia que cada vez que ele falava, estava, relutantemente, me dando uma peça de quebra-cabeça; a imagem finalizada parecia mais e mais como um Wendell. Resistente, eu estava começando a aceitar que a avaliação de Elizabeth sobre ele estava correta. — Você sabe o que isso significa. — Sua voz era hesitante, como se ele não estivesse convencido da afirmação. Balancei a cabeça e o observei, com os olhos arregalados. — Não. Eu realmente não sei. Você vai ter que explicar. Ele pareceu me estudar por um momento, seu olhar firme e analítico. E então perguntou: — E você? Por que você e Jon terminaram? — Primeiro quero saber o que “não tenho porque” significa. Você está... — procurei uma explicação que fosse uma alternativa para Wendell e só consegui chegar a uma coisa, feliz por minha audácia abastecida pelo vinho. — Você é celibatário? — Não — um sorriso pesaroso passou por seus lábios, mas não alcançou seus olhos. — Tudo bem! Significa que eu nunca precisei namorar alguém para passar bons momentos. Eu tenho... — limpou a garganta, coçou a nuca e olhou para o lado como se quisesse evitar o meu olhar. — Eu tinha algumas garotas com quem eu me divertia de vez em quando, mas nós não éramos exclusivos. Pisquei, absorvendo essa informação. — Você quer dizer... você quer dizer que tem certas garotas que você chama apenas para fazer sexo com elas... você quer dizer, estepe? Mesmo sob a luz de velas intimamente fraca, pude ver que seu pescoço e suas


bochechas estavam vermelhos. Ele não respondeu, mas suspirou. Soltou minha mão, se levantou e pegou meu casaco; segurou-o e esperou que eu o vestisse. Olhei para ele, tomando seu silêncio como confirmação. Sem palavras, ele colocou a mão nas minhas costas e me guiou em direção à porta. Achei que a sensação de estar afundando, pararia em algum momento. Mas não parou. Quinn era um Wendell. Pior ainda, ele era um Wendell promíscuo, com muitos estepes. Me senti triste, mas aceitei e, estranhamente, fiquei um pouco irritada com Elizabeth por estar certa. Quando saímos, foi bom quando o ar frio de Chicago passou por mim. Isso me ajudou a limpar a mente. Olhei para Quinn e me permiti insistir no ridículo da minha situação. Eu estava com um cara muito legal que, de acordo com Elizabeth, queria me proporcionar um sexo alucinante. Mas era somente um sexo alucinante, que eu rejeitaria já que, entre outras razões, ele já estava fazendo o mesmo sexo com outras mulheres. Antes que eu pudesse me impedir, me afastei e perguntei: — Com todas ao mesmo tempo, ou uma de cada vez? Ele parou de andar. Quinn encontrou meu olhar, o seu próprio, surpreso, o traindo. — O que? — provoquei. Ele balançou a cabeça, quando um sorriso relutante se formou em seus lábios. Sua mão encontrou a minha e começou a me puxar, até meus pés se moverem. — Sua vez — disse ele, descaradamente, desviando minha pergunta. — Ainda não. Quero saber mais sobre a logística disso — não pude evitar. Todo o conceito parecia, de repente, tanto absurdo quanto estranhamente eficiente. — De quantas estamos falando? Qual é a porcentagem de mulheres, em Chicago, que estão dispostas a fazer sexo com você, agora? O que acontece se uma delas precisa viajar? Elas têm uma rede de telefones? Existe um plano de cobertura, ou um plano de backup para emergências? Quinn cobriu a metade inferior de sua boca com a mão livre, enquanto seus ombros começaram a tremer com risadas silenciosas. Continuei, me sentindo um pouco melhor sabendo que ele era capaz de rir de si mesmo. — Existe critério de entrada? Um comitê de busca estabelecido? Um processo de entrevista? Teste de habilidades? Qual o perímetro exigido? Você tem alguma pela vizinhança, agora? Você sempre mantém uma por perto? Havia uma no restaurante? No bar, talvez? — Janie, sério, é a sua vez. — Seu tom era autoritário, mas eu podia ver que seus olhos estavam iluminados com diversão, e ele estava se esforçando para manter uma cara séria.


— Minha vez? — minhas sobrancelhas levantaram, em confusão. Apesar das minhas tentativas de tirar sarro de seu esquema, eu ainda estava me sentindo desanimada por confirmar a história sexual, um tanto sórdida, de Quinn. Bem, era sórdido comparado com a minha história, o que o tornava sórdido em comparação. — Você já sabe de tudo. Eu sou uma garota de um parceiro só. — Por que você e Jon terminaram? Pensei sobre a questão, mas eu estava distraída com a realidade da confissão de Quinn. Quinn nunca namorou. Não, ele disse que nunca precisou. Eu estava bem com aquilo? O que era realmente um promíscuo? Seria tão ruim, se toda a prática adquirida com as estepes, significasse que ele era bom na cama? Se algum dia dormíssemos juntos, eu precisaria me embrulhar toda e de um desinfetante Lysol, para me proteger contra sua infinidade de DSTs contraídas? Ele tinha alguma DST? Nós iriamos dormir juntos? Se ele tivesse acesso ilimitado a parceiras veteranas, estaria mesmo interessado em dormir comigo, uma novata? Eu queria dormir com um Wendell, especialmente depois de descobrir sobre os múltiplos estepes em espera? Eu ia me tornar uma dos seus estepes? Eu tinha certeza de que não queria me tornar uma das muitas parceiras de Quinn Sullivan. Como um aparte, notei que One of Many Slamps faria um bom nome de banda ou, no mínimo, um nome de álbum. —Janie? Meus cílios tremeram e olhei em torno da calçada, sem ver. — Sim? — Você e Jon. Por que vocês se separaram? — notei que sua voz era mais baixa, quase persuasiva. Começamos a subir a escada para o elevado. Respondi sem pensar. — Eu não sei ao certo qual foi a verdadeira razão para nossa separação, mas tenho certeza que o catalisador foi ele me trair. — Ele...” Quinn parou na escada e puxou minha mão, até que eu encontrei seu olhar. — Ele te traiu? Eu assenti. — Sim. Mas, para ser justa, ele disse que estava bêbado e só aconteceu uma vez. Os olhos de Quinn estavam arregalados, com o que parecia ser descrença. — Eu não acredito que ele tenha te traído. — Sim, bem... eu acho que tenho algumas idéias do porquê, mas ainda estou processando as possibilidades — puxei minha mão da dele e enfiei meu cabelo


atrás das orelhas. Comecei a subir as escadas novamente, evitando ter que olhar diretamente para ele quando falasse. — Mas já havia outros problemas antes disso. Por um lado, ele é rico. — Chegamos à plataforma e passamos nossos bilhetes na catraca. As sobrancelhas de Quinn se levantaram com a minha declaração. — O que isso tem a ver? — Por um lado, nossas prioridades nunca pareciam se alinhar. Ele podia, e gastava, dinheiro com o que quisesse. Eu era, e sou, sempre cuidadosa com todas as minhas despesas. Em segundo lugar, sempre senti que tinha uma desvantagem, parecia que eu estava me aproveitando perpetuamente dele, ou como se eu lhe devesse se aceitasse o que ele me desse: dinheiro, presentes, ajuda. Se eu não aceitasse sua ajuda, isso sempre levava a um sentimentalismo ruim e discussões desconfortáveis, onde eu sempre sentia que era o problema — minha mente começou a se concentrar em nossa conversa atual, em vez da conversa de dois minutos atrás. Decidi que iria focar em meus problemas com os estepes, mais tarde. — Estou determinada a permanecer acima, em um desvio padrão da minha própria esfera socioeconômica. Nosso trem chegou e ele esperou para falar, até o trem diminuir a velocidade e parar. A expressão de Quinn estava na borda tríplice da perplexidade, determinação e alarme. — Então... — ele disse, mas exalou o fôlego e fixou seu olhar em mim, com intensidade súbita. Quando ele falou, fiquei surpresa com o tom argumentativo em sua voz. — Você namoraria alguém que ganhasse menos que você? — Ele me conduziu para o trem e depois para um assento, perto da porta de correr. Quando estávamos sentados, o braço dele foi atrás de mim, ao longo das minhas costas e contra a janela. Balancei a cabeça imediatamente. — Ah sim, com certeza. Eu não tenho problema com isso. Minha preocupação é estar com o tipo de pessoa que tem riqueza suficiente para decidir, por capricho, decolar da vida real e viajar por aí, e esperar que eu seja capaz de fazer o mesmo, simplesmente porque ele tem os meios para financiá-lo. Ou que me compra presentes extravagantes, como um carro, ou joias caras, sem motivo e isso me incomoda. Senti um arrepio repentino, como se alguém estivesse me observando. Virei minha cabeça e examinei o trem. Olhei da esquerda para a direita e encontrei apenas um grupo do que pareciam ser estudantes universitários. Foi a mesma sensação inexplicável que eu experimentei no clube, semanas atrás. — O que há de errado nisso? Se você está em um relacionamento com alguém, por que ele não pode comprar coisas para você?


Quando voltei minha atenção para Quinn, levei um momento para pensar nas palavras e no significado delas. Minha atenção ainda estava aguçada, com a percepção de que alguém estava examinando meus movimentos. Lambi meus lábios e balancei a cabeça ligeiramente, para limpá-la. — Eu quero ser independente financeiramente. Quando estava com Jon, eu não gostava de ter que justificar ou explicar isso o tempo todo. Uma vez, Jon me comprou um carro. Um carro muito legal, por sinal, mas ele não conseguia entender que não era apropriado fazer aquilo. — Por que não era apropriado? Eu ignorei a impressão persistente de que estava sendo observada, decidindo que era minha imaginação hiperativa aleatória, e franzi os lábios em resposta à pergunta de Quinn. — Você sabe porque. — Não. Eu realmente não sei. Você vai ter que me explicar. — Ele repetiu minhas palavras ditas mais cedo, sua expressão estranhamente rígida. Bufei. — Por que, como eu posso retribuir? O que tenho para oferecer? — Você mesma. Franzi meu nariz. — Assim parece que estou me vendendo. Quinn inclinou a cabeça para o lado, me estudando abertamente, e então perguntou: — Agora quem está pensando em vantagens? Abri minha boca para responder, fechei, engoli, e disse: — Não é a mesma coisa, e eu não acredito que você está do lado dele nisso. — É exatamente a mesma coisa — ele respondeu. — Se ninguém está tirando vantagens em um relacionamento, então isso não importa, não é? Eu poderia te dar o que eu quisesse, sem ter que me preocupar com você se sentindo culpada, ou como se precisasse me retribuir. Fiz uma careta, o estudando, realmente tentando absorver sua lógica. — Relutantemente admito que você colocou um ponto válido — eu disse, hesitante, mas antes que um olhar de triunfo pudesse reivindicar completamente suas características, acrescentei: — Entretanto, vou demorar um pouco para processar e potencialmente me ajustar a essa perspectiva. O olhar de Quinn se moveu sobre o meu rosto, e um pequeno sorriso se curvou em seus lábios. — Eu prometo não tirar vantagem de você, se você prometer não fazer o mesmo, comigo. Dei a ele um longo olhar, de lado. Considerei sua proposta, parecia justa.


Balancei a cabeça apenas uma vez e estendi a minha mão. — Bem. Combinado. Um sorriso lento e um genuíno olhar de vitória, iluminaram sua expressão. Seus olhos estavam tão travessos quanto sempre, quando ele apertou minha mão e disse: — O que eu deveria comprar primeiro? Cutuquei sua costela.


Capítulo 13 Nós ainda estávamos envolvidos em uma conversa leve quando chegamos ao meu prédio, o que, na verdade, não me fez ter vontade de desejar um boa noite a Quinn, na porta. Falamos sobre sua próxima viagem de negócios a Nova York, planejada para o final daquela semana o que, naturalmente, trouxe à tona o fato de que Gotham City é baseada em Nova York. Também conversamos sobre nossas cidades favoritas, tanto reais quanto fictícias. No entanto, uma vez que estávamos subindo as escadas para o pequeno apartamento que eu dividia com Elizabeth, senti um pouco de nervosismo com o convite passivo que fiz. Quinn estava subindo as escadas. Nós estávamos subindo, juntos. Senti que devia avisá-lo que o lugar era pequeno, e que meus pertences estavam todos espalhados e nada organizados. Queria explicar que eu estava dormindo no sofá-cama de futon Ikea, no centro da sala, mas eu não sabia como falar isso. Também queria dizer a ele que não ia ser o seu estepe e, mesmo que o sexo alucinante com ele parecesse muito tentador, eu tinha certeza que queria um homem não-Wendell. Mesmo que o sexo fosse apenas surpreendentemente monótono. O calor escarlate consumia meu rosto a cada degrau, e nossa conversa se silenciou quando me aproximei da porta. — Então — ele disse. Parei de repente, na frente da porta, virei para encará-lo e sorri de boca fechada. Ele se encostou ao batente da porta. Sem pressa, cruzou os braços e permitiu que seus olhos acompanhassem calmamente meu rosto. — Então — ele repetiu. Parecia calmo, confiante, confuso e sexy. — Então... — suspirei. Em seguida, tirei meu olhar do dele e olhei para as chaves em minhas mãos. — Olha, eu me diverti hoje à noite. Você é bom para conversar e bastante agradável, mas gostaria de pagar meu jantar. Suas mãos subiram entre nós. — Janie, sem disputas. Lembra? — Sim, mas não foi um encontro. E eu sei que não foi um encontro, e eu entendo que você não namora, e eu gostaria de ser sua amiga, mas... — Você quer ser minha amiga? — sua voz soava um pouco sombria e perplexa. — Sim — levantei meus olhos para ele, mas apenas brevemente. Sua expressão combinava com o tom dele. Suspirei. — Escute, você deveria... hum..., você deveria entrar, para que possamos conversar... — me virei para a porta e a destranquei, com as mãos ligeiramente trêmulas. O calor escarlate


anterior se transformou em um inferno enquanto eu lutava com a fechadura. — Podemos conversar sobre rótulos, Wendell jantar, estepes e... Graças a Deus — A porta se abriu e eu me lancei para dentro, o chamando atrás de mim: — Entre, entre. Vou fazer um café. Acendi a luz do corredor e todas as outras luzes a caminho da cozinha. Ouvi o fechamento da porta e passos hesitantes atrás de mim. Corri com o processo de ferver a água e colocar o café, já moído, na cafeteira francesa. Quando tudo estava preparado, caminhei até o sofá — ( minha cama ) — e notei que a jaqueta de Quinn estava em um canto dele. A visão causou coisas estranhas no meu estômago e, eu não vou mentir, nas minhas partes íntimas. Elas podem ter rangido. Apressadamente tirei minha jaqueta, quase suando nessa hora, e a joguei em cima da dele. Ele estava andando devagar pelo pequeno espaço, olhando para as estantes de livros, que continham meus quadrinhos e a coleção de discos de Elizabeth. Pegou um LP dos Backstreet Boys e se virou para mim, com uma expressão de questionamento. Dei uma leve risada. — Ah, isso é da Elizabeth. Eu moro com minha amiga, Elizabeth. Você a conheceu naquele bar, na noite em que você... hum. Bem, este apartamento é dela e estou apenas invadindo - o sofá, na verdade - até encontrarmos um lugar novo, grande o suficiente para nós duas. Seus olhos miraram o sofá enquanto ele substituía o disco. Coloquei meu cabelo atrás das orelhas e limpei minha garganta. Era estranho ele estar no apartamento. Evidentemente, eu era apenas uma visitante transitória e a decoração e o estilo não me representavam em nada. Mesmo assim, senti que ele não fazia parte de lá, da minha vida. Era como se ele estivesse cercado por um brilho sobrenatural que enchia o pequeno espaço e lançava tudo, menos ele, nas sombras, inclusive eu. Ele era grande demais, bonito demais e gracioso demais. Não se encaixava em nosso mundo pequeno e inadequado. O pensamento me deixou triste e apertei meu lábio inferior com determinação. Seus olhos encontraram os meus naquele momento, e ele franziu a testa com a minha expressão. Sustentando meu olhar, ele veio até mim e eu cruzei os braços. Ele pareceu hesitar com o movimento, mas continuou sua abordagem e parou a apenas sessenta centímetros de mim. O silêncio se estendeu quando seu olhar se moveu sobre o meu rosto. Finalmente ele falou. — Quem é Wendell? Pisquei, assustada.


— Wendell? — Você disse que queria falar sobre rótulos, jantar e Wendell. — Ah, sim. Wendell — me virei, peguei nossas jaquetas e as coloquei no braço do futon. Depois me sentei, com as pernas enfiadas debaixo de mim e o meu braço ao longo das costas do sofá. — Por favor, sente-se. Ele se sentou com uma das pernas debaixo dele, para que nossos joelhos se tocassem e seu braço cobrisse o meu. Sua grande mão repousou no meu cotovelo e me concentrei na minha respiração. — Então, quem é Wendell? Balancei a cabeça e mordi meu lábio. Não tinha certeza de como ter essa conversa sem expor todas as minhas esquisitices. Como de costume, minha boca começou a se mover, antes que o cérebro pudesse emitir um sinal de alerta. — Você é Wendell. Ou melhor, você é um Wendell e eu não posso ser um estepe, então, o que eu gostaria de fazer, é conversar com você sobre o jantar e os rótulos. Uma de suas sobrancelhas se levantou e eu o senti enrijecer. Sua boca se abriu como se ele fosse me interromper, mas eu, tendo dito tanto, reuni coragem e continuei em tom de urgência. — O negócio é... que gosto de você. Eu gosto muito de você e, na verdade, só o conheço há algumas semanas. Menos de um mês, na verdade, mas você é muito simpático. Eu gostaria de ser sua amiga, porque agradeço sua honestidade sobre ser um Wendell. Portanto, eu gostaria de jantar com você. Não como um encontro, mas acho que o rótulo aplicado ao nosso jantar deve ser amizade, e não Wendell/estepe, porque não acho que estou pronta para isso. Mas eu entendo se você não estiver interessado em ser meu amigo, especialmente porque você já está fazendo malabarismos com uma carga pesada de estepes. Eu ficaria desapontada, mas entenderia. Eu o senti relaxar um pouco com o meu discurso, depois ficar tenso e, então, relaxado novamente. Seus olhos estavam atentos. Se aproximou e perguntou: — Ok! Primeiro, o que é um Wendell? — Um Wendell é um cara... — apontei para ele. — Nessa situação, você é o Wendell. Um cara que é de muito... boa… aparência e também muito… — Eu não conseguia olhar para ele, então peguei um ponto na minha saia e o estudei. — Um Wendell é muito habilidoso e/ou talentoso em certas áreas que estão relacionadas com atividades adultas... no quarto, e que também tem uma grande seleção de acompanhantes femininas para as atividades adultas no quarto, antes mencionadas, para escolher em qualquer ocasião. Meus olhos cintilaram em seu rosto e o encontraram me observando com um


sorriso confuso, obviamente aproveitando meu desconforto. Ele limpou a garganta. — Janie, apenas diga. Suspirei e, de repente, queria segurar a mão dele, provavelmente porque eu tinha certeza que seria a última vez que faria aquilo. Entrelacei meus dedos com os dele e apertei. Olhei diretamente nos olhos dele e imediatamente senti minha determinação enfraquecer, mas avancei. — Bem, um Wendell é um homem extremamente bonito e que é ótimo na cama. Os Wendells não têm relacionamentos sérios, isto é, não namoram e, sim, saem com muitas mulheres. Eu não julgo os Wendells. Na verdade, aplaudo a sua resistência e capacidade de prestar um serviço excelente à tantas mulheres. Parece um uso muito eficiente e generoso de recursos. No entanto... — respirei fundo e engoli em seco, olhando para os nossos dedos como uma covarde. — No entanto, mesmo que essa relação possa ser tão justa, não estou interessada em não namorar um Wendell. Como você é, na verdade, um Wendell, acho que ficaria mais confortável se você e eu pudéssemos concordar com o rótulo de amigos, sem beijar amigos ou amigos/estepes de Wendell; apenas amigos normais. Mais uma vez o silêncio se estendeu. Senti seu olhar em mim, o ouvi suspirar e ele pediu: — Por favor, olha para mim? Levantei meus olhos para os dele. Ele não parecia aliviado, irritado ou zangado como eu temia. Em vez disso, ele parecia extasiado e desconfortável. Fez uma pausa antes de falar, e eu pensei ter visto um flash de dor passar por trás de seus olhos, mas foi imaginado ou escondido instantaneamente. — Não estou acostumado com isso, então você vai ter que me dar um tempo para... refletir — ele disse baixinho. — Você pode levar o tempo que precisar — ofereci essa garantia bravamente, sem entusiasmo, tentando puxar meus dedos dos dele. A tentativa não foi bemsucedida; ele fechou seu aperto. — Eu não quero... — ele suspirou pesadamente de novo e fechou os olhos brevemente, e então ele encontrou o meu novamente, com compostura renovada. — Eu agradeço sua honestidade. Mordi meu lábio inferior e esperei. Quando ele não continuou, meus olhos se arregalaram em confusão. — Espera. É só isso? É tudo que você tem a dizer? — Sim. Isso é tudo — ele assentiu. Respirei fundo e, instintivamente, procurei pelo apartamento o que eu estava deixando passar.


— Estou confusa. — O que te confunde? — Você... você acabou de concordar com o rótulo de amizade? — Não! Abri a boca para falar, fechei, abri de novo e depois lambi meus lábios muito secos. — Então, qual rótulo vamos usar? Seu olhar baixou para minha boca. Ele passou a mão, que estava apoiada no meu cotovelo, para meu cabelo e empurrou um punhado de cachos sobre o meu ombro, seus longos dedos demorando no meu pescoço. — Não vamos usar um rótulo. Fiquei com a respiração instável. Neste momento, não me importei em me envergonhar ainda mais. O que era mais um débito de vergonha, quando meu balanço já estava no vermelho em centenas de milhares? — Eu gosto de rótulos. Eu gosto de mapas com rótulos. Eu gosto de figuras com rótulos e gosto de notas de rodapé. Não me dou bem sem saber as intenções de alguém ou como calibrar minhas expectativas de acordo. — É bom saber. — Quinn! Ele lutou, admiravelmente, contra um sorriso puxando seus lábios, e não encontrou meus olhos. — Você é tão bonita. Eu realmente quero te beijar agora. Suas palavras me atingiram no estômago e causaram um tsunami quente, que se espalhou para as pontas dos meus dedos e para as pontas das minhas orelhas. — Isso não é justo. Você não está sendo muito legal. — Eu já te disse, não sou legal — seu olhar pareceu intensificar, nunca deixando meus lábios, quando ele se inclinou infinitesimamente para mais perto, ficando quase encostado. Sabia, naquele momento, que se ele quisesse me beijar eu não o pararia, mas, porra, eu não ia dormir com ele. Calcinha, calcinha, bem lá no alto, eu vou manter minha calcinha! Sua mão, gentilmente, segurou meu rosto e seus longos dedos envolveram meu pescoço e me puxaram para frente. Meus cílios tremeram e, pouco antes de sua boca encontrar a minha, eu disse, sem fôlego: — Você é legal. Pelo menos você é legal comigo. Ele fez uma pausa. Ergueu os olhos para os meus, fez um som parecido com um grunhido e pressionou os lábios na minha testa. Sorri com tristeza, tanto aliviada quanto desapontada. Depois de um bom tempo, ele me soltou e esfregou as mãos no rosto


sacudindo a cabeça, como se quisesse limpá-la. — Droga — murmurou. A água no fogão escolheu esse momento para começar a ferver e seu assobio agudo cortou a tensão pesada da sala. Senti minhas pernas vacilarem um pouco quando me levantei e apontei, sobre o ombro, com o polegar e perguntei. — Você quer café? — Você tem alguma coisa mais forte? — Eu, hum, deixe-me ver. Virei subitamente e fui para a cozinha enquanto a chaleira apitava, e fiquei aliviada quando a tirei do fogão. Eu sabia que a única bebida que tínhamos no apartamento, era tequila e eu não tinha intenção de beber tequila com ele. Quinn mais tequila seria igual a Quinquila, e isso soou como algo que acontece nas cadeias mexicanas. Me permiti demorar um tempo e compor meus pensamentos antes de voltar para a sala de estar. Quinn estava parado na entrada, olhando as fotos e notei, com uma pontada de decepção, que ele estava de jaqueta. Ele foi até a porta quando me aproximei, a destrancou e abriu. Deu um passo para o corredor e se virou para mim. Seu olhar finalmente encontrou o meu quando ele endireitou o colarinho do casaco. — Eu... — hesitou. Suas feições aumentaram suavemente, quando suas mãos caíram para os lados e seus olhos calmamente se moveram sobre o meu rosto. Depois de um momento, ele disse, baixinho: — Me reservo o direito de mudar de ideia. — Sobre o que? — me inclinei contra o batente da porta, olhando para ele. — Sobre beijar você. Conscientemente lambi meus lábios e me abracei, ficando vermelha igual beterraba. Parecia que eu estava fadada a vários tons de escarlate sempre que ele escolhesse fazer comentários moderadamente sugestivos. Quando falei, minha voz estava tensa e fora do tom. — Bem, ok! Obrigada pelo toque. Estou devidamente avisada. Seu sorriso característico, lento e sexy, se espalhou deliciosamente por suas feições e fez meu coração tremer. Secretamente o odiei por isso. Aquele sorriso me deixou louca, mas suspeito que ele soube disso. Ele se mexeu e colocou a mão contra o batente da porta, acima da minha cabeça, ainda sorrindo para mim. — Então, ainda iremos amanhã? Dei de ombros. — Claro, amigo. Onde você quer jantar?


Seus olhos se estreitaram com o meu sarcasmo mascarado, mas ele falou como se não se incomodasse. — Pensei que, ao invéz de apenas jantarmos , poderíamos almoçar e jantar. — Hum, claro. Que horas? Ele se afastou da parede e pegou seu telefone. — Venho buscá-la às onze e meia da manhã. Vista-se para um piquenique. Meus olhos se arregalaram de surpresa. — Ah, ok. O que eu devo levar? — Nada, apenas você mesma — ele recuou, pressionando a tela touchscreen do telefone, não mais olhando para mim. Dei um passo para o corredor. — Me deixe levar algo. Ou, pelo menos, me deixe pagar o jantar. Não é justo você... Ele ergueu a mão livre quando se virou para as escadas, e me deu um sorriso devastador. — Sem contar pontos. Resmunguei, mas só pude ouvir sua risada e o som de seus pés nos degraus enquanto ele partia. Suspirando, voltei para o apartamento, fechei e tranquei a porta, então deixei minha cabeça bater pesadamente na grossa divisória de madeira. Um ruído, que eu reconheci agora como o maldito celular, interrompeu meus pensamentos. Virei para a sala e encontrei o aparelho na mesa de café. Olhei para a mensagem. Era uma mensagem de texto. Era de Quinn. “Citação do dia: A amizade é como fazer xixi nas calças. Todo mundo pode ver, mas só você pode sentir.” Fiel à sua palavra, Quinn me ligou precisamente às 11h29 para avisar que estava lá embaixo. Suprimi uma onda de nervosismo e mexi nos meus óculos, lembrando que eu frequentemente passava metade dos dias saindo com outros amigos. Eu poderia passar metade do dia saindo com meu mais novo amigo. Não havia nada de preocupante nisso. Absolutamente nada. Nadica de nada! Roí minha unha enquanto olhava uma última vez no espelho, encontrando o olhar preocupado de Elizabeth por cima do meu ombro. Ela não disse nada, mas eu pude sentir sua preocupação comigo. Admiti que estava bem. Bonita, até. Elizabeth me ajudou a enrolar meu cabelo em um coque trançado. Eu estava usando um laço branco de seda e um vestido branco transparente, de verão, com mangas de três quartos de comprimento. Um toque de rendas de algodão simples envolveu minhas costelas, antebraços e ao


redor do decote quadrado. Ia até abaixo do joelho, e chinelos brancos completaram o visual. Nunca usei o vestido antes, porque era bem transparente por conta própria. Elizabeth sugeriu usar um forro. O simples vestido de verão, destacava minhas melhores características — seios, cintura e pernas —, mas era moderado, até um pouco conservador, e era apropriado para um piquenique com um amigo. Empurrei meus óculos mais para cima do meu nariz, os usando propositalmente ao invéz de lentes, e virei para pegar meu suéter e minha bolsa. A bolsa continha duas maçãs frescas e o último dos pêssegos de verão que encontrei no mercado. Elizabeth se agitou e torceu as mãos, me impedindo de ir até a porta. — Ah, você deveria vestir outra coisa. Você está tão bonita. Quero fazer sexo com você. Acredite, ele vai pular em cima de você, no carro! — Ah, por favor! — dei risada quando ela me puxou para um abraço. — Sério, Janie — disse ela, e me segurou pelos ombros. — Se toda essa situação de Wendell Calças-Quentes te ensinou alguma coisa, deve ser para aceitar o fato de que você é muito gostosa e muitas pessoas querem tirar sua calcinha. Bati as mãos dela e fui para a porta. — O que você fará esta tarde? — Eu? Ah, vou para a academia, depois tenho que ir para o trabalho fazer alguns gráficos — ela se espreguiçou e bocejou. Eu sabia que ela estava tendo menos de seis horas de sono. Mesmo assim, ela insistiu em acordar uma hora antes do necessário, somente para ouvir a história sobre o jantar de Jon e Quinn, e a discussão sobre sermos apenas amigos. Ela disse que ficou impressionada com a forma como eu lidei com a situação, e me parabenizou por ser corajosa e honesta, embora eu ache que ela, secretamente, queria que eu cedesse à tentação de me tornar uma estepe de curto prazo para Quinn Wendell. Ela também pontuou que Quinn não concordou com o rótulo de amigo. Pontuou várias vezes, por sinal. Tive que me agarrar ao rótulo porque, sem ele, me sentia a deriva, em um mar sem limites de incógnitas. Desci as escadas, animada em ver meu novo amigo Quinn. Sim, era isso. Meu amigo, apenas meu amigo. Saí do prédio e o encontrei de pé na calçada, bem próximo de mim. Estava encostado ao final do corrimão da escada de cimento, presumivelmente lendo as mensagens em seu celular. Ele era incrivelmente lindo e eu suspirei, baixinho. Aquelas eram estepes de sorte. Coloquei meus óculos de sol. O sol era brilhante e ofuscante. Era um dia perfeito de Setembro e,


possivelmente, um dos últimos dias quentes antes do início de Outubro. Ele deve ter ouvido a porta fechar atrás de mim, porque ele olhou para cima, desviando o olhar de seu telefone para onde eu estava, no topo da escada. Ele se endireitou e ficou perfeitamente imóvel. Peguei em minha bolsa enquanto descia. — Eu sei que você disse para não trazer nada, mas peguei algumas maçãs e pêssegos da feira de domingo — estendi uma maçã para ele como prova e, em seguida, enfiei de volta na minha bolsa. Ele gemeu e soou um pouco aflito. — Você não está sendo muito legal — sua voz era baixa e grave. Franzi o rosto em resposta. — Ah, vamos. Eu posso levar frutas. Tenho permissão para traze-las — o cutuquei e ele agarrou minha mão. — Não estou falando sobre as frutas. — Você não gosta de maçãs? Deveria. Em 2010, eles decodificaram o genoma da maçã, o que levou a novos entendimentos sobre controle de doenças e reprodução seletiva na produção de maçãs. Realmente tem ramificações mais amplas… Ele parou minha boca com um beijo suave, sua mão envolvendo minha cintura e me puxando para ele. Tive a nítida impressão de que estava sendo provada da mesma maneira que se aprecia um pêssego. Meu corpo, traidor, reagiu imediatamente arqueando e pressionando o dele, e eu o beijei de volta, o provando em troca. Não foi um beijo amigo. Pelo menos eu nunca beijei um amigo assim. Finalmente, depois de provarmos um ao outro, Quinn interrompeu o beijo, apoiou a testa na minha e sussurrou: — Oi. Pisquei para ele. Meu coração e minha mente estavam competindo em uma corrida difícil, mas consegui dar um pequeno “oi” em troca. — Mudei de ideia sobre beijar você. — Bem — eu disse. — Você me avisou — Uma sensação de zumbido quente estava vibrando no meu peito. Não falei muito no carro, mas me peguei diversas vezes puxando meu lábio inferior. Quinn estava dirigindo. Era outro Mercedes preto e me perguntei se era um carro da empresa. O pensamento de que ele estivesse usando propriedade da empresa para o nosso encontro, me incomodou. Ou talvez estivesse tudo bem, porque é o nosso não-encontro... o nosso dia


Wendell-estepe. Que seja. Permiti me preocupar com o uso do carro, pois isso me dava algo em que me concentrar. Ele não fez nenhuma tentativa de conversa e parecia contente em dirigir em silêncio. Por mais confuso que fosse, o silêncio não era estranho ou desconfortável. Apenas normal. Quando chegamos próximo ao parque, ele me surpreendeu ao estacionar em um dos lotes privados de um prédio enorme. Entramos em um espaço numerado, no subsolo. Me mexi no banco e olhei para ele, de canto de olho, quando ele desligou o motor. — Estamos no seu... você mora aqui? Ele rapidamente saiu do carro e veio para o meu lado. Antes que eu pudesse puxar o trinco, Quinn abriu a minha porta em uma inesperada, mas não surpreendente, demonstração de boas maneiras. Estendeu a mão para me ajudar a sair do veículo e não mais a puxou de volta. Ao invéz disso, entrelaçou seus dedos nos meus, e me levou em direção ao elevador. Nesse momento, percebi que estava bastante acostumada com a sensação da mão dele segurando a minha. — Antes de fazermos nosso piquenique, quero te mostrar uma coisa. Sem mais explicações, esperamos o elevador. Já dentro, ficamos ao lado um do outro, de mãos dadas, enquanto o elevador subia. Tudo no momento me pareceu estranho e surreal, e me perguntei como chegara a esse ponto. Rebobinei meus pensamentos e revisei como cheguei até aqui: Tudo começou naquela noite, semanas atrás, no bar e no sábado da manhã seguinte. Avançamos para a quarta-feira passada, quando ele se encontrou comigo no Smith’s. Então, a quinta-feira seguinte e o incidente do celular. A sexta-feira foi boa, normal. Mas não foi normal. Mas, ainda assim, foi boa e ele me beijou três vezes. O sábado foi esclarecedor e confuso, o que me trouxe ao domingo e outro beijo, e, neste momento, de mãos dadas no elevador. Apesar dos meus melhores esforços, agora eu estava à deriva em um oceano sem rótulo, desconhecido e tentando encontrar minhas pernas marítimas sem mapa, diagrama, ou figura com notas de rodapé. Me senti claramente apavorada e excitada... principalmente apavorada. Apesar de todo o meu cérebro rebobinar, o passeio de elevador foi, na verdade, muito curto. As portas se abriram para um longo corredor branco com quatro portas. Placas de plástico cobriam o chão de mármore e cheiravam a tinta. Quinn colocou a mão na base da minha coluna e me conduziu até o final do corredor. Retirou um conjunto de chaves, destrancou a porta, e me deu um pequeno sorriso. Com expectativas, indicou que eu entrasse. Atravessei a soleira com hesitação e pisei em um piso de madeira, de cor cinza. Olhei em volta para o que, agora, reconheci como um apartamento muito, muito bom. Não era mobiliado, de modo que os painéis de madeira se


espalhavam ininterruptamente e entrecruzavam com os feixes horizontais de luz, que emanavam de três janelas grandes, do chão ao teto, saindo da sala de estar que dava para o Millennium Park. Caminhei lentamente pelo grande espaço, em direção às janelas, e notei a altura do teto da catedral quando me virei para contemplar tudo. Meus passos eram altos e reverberavam. As paredes eram pintadas de um branco liso, assim como as sancas e rodapés. — A cozinha é aqui. — A voz de Quinn ecoou do meu lado. Segui para onde ele apontava uma espaçosa cozinha em mármore cinzaazulada. Todos os utensílios eram de aço inoxidável — forno duplo, fogão a gás, lava-louças, geladeira gigante — exceto a pia, que era de porcelana branca e enorme. Ela foi feita para ser usada. A cozinha parecia um pouco triste sem eletrodomésticos, livros de receitas e comida espalhadas pelas bancadas, como uma criança esperando para ser escolhida para uma equipe de queimada. Depois de me dar um minuto para examinar o espaço, ele colocou a palma da mão nas minhas costas e, gentilmente, me levou para um corredor com dois quartos. Eles eram muito semelhantes em tamanho e ambos tinham banheiros privativos. A principal diferença, era que o maior também tinha uma vista para o parque e, no banheiro, havia uma banheira de hidromassagem do tamanho de uma cisterna. Meus olhos se arregalaram quando vi a banheira. Era uma banheira impressionante. Acho que nunca vou superar a vista daquela banheira, e as imagens que ela criou sobre tomar banho com dezessete dos meus amigos mais íntimos. Literalmente, eu poderia realizar uma noite de tricô na banheira. Quinn pareceu sentir que eu precisava de algum tempo para absorver a enormidade da banheira, então esperou por mim no quarto principal. Quando saí, dei um último olhar de desejo à banheira, depois voltei minha atenção para Quinn. Banheira mais Quinn é igual Quinnheira ou Baninn. Decidi que Baninn parecia mais atraente. Deixei esse pensamento passar por mim: Baninn com Quinn. Nem tentei lutar contra o rubor que se seguiu. — Ei — ele estava sentado em um assento embutido na janela, o qual eu notei que poderia ser usado para armazenamento. — Oi — respondi, soltando um suspiro lento, tentando encontrar um assunto diferente de Baninn para conversar. — O que você acha? — ele perguntou, apontando com a cabeça para eu me juntar a ele no banco de madeira. — É muito bonito... — andei até ele lentamente, ainda inspecionando o


quarto. — Você está pensando em alugá-lo? — Não, eu não. Estava pensando que seria bom para você e Elizabeth. Parei a cerca de um metro de onde ele estava sentado. — O que? — Você mencionou que vocês estavam procurando por um lugar maior. Você e Elizabeth. — Sim, algo maior, não... — passei os braços em volta de mim, em um movimento que imaginei parecer com o lento bater de asas. — ... não uma Mansão de Rico Ricaço enorme. Seu sorriso foi imediato. — Não é tão grande assim. Inclinei minha cabeça para ele da maneira que muitas vezes o vi fazer, as mãos se movendo para o meu quadril. — Estou bastante certa de que está bem fora de nosso orçamento. Ele também inclinou a cabeça. — Veja, é aí que está. Este andar e os quatro abaixo, pertencem à Cypher Systems. Eles foram comprados especificamente para funcionários. — Você quer dizer... você quer dizer que a empresa possui esses apartamentos? Ele assentiu. — Mas, por que o chefe quer comprar apartamentos para os funcionários? Ele encolheu os ombros. — Na verdade, foi ideia da Betty. Ela e o marido estão à procura de um lugar menor. Eles querem sair da casa, agora que todos os filhos foram embora e me pediu para ajudá-la a encontrar um lugar perto do trabalho, para que não tivesse que viajar. — Ah — pensei a respeito. — E o chefe acabou por decidir em comprar cinco andares em um arranha-céu, com vista para o Millennium Park? — Se você pensar bem, faz sentido — ele se levantou, deu um passo, agarrou minhas mãos nas dele e nos levou de volta para o assento da janela. — É um bom benefício para os funcionários. Este é um ótimo lugar para se morar, perto do Loop, do resto do centro da cidade e do parque. O principal negócio da Cypher, é a segurança. Ter funcionários espalhados por toda Chicago, dificulta a segurança de todos. Se todos morassem aqui, estariam perto do trabalho e seria mais fácil ficar de olho neles. — Você acha que o chefe quer ficar de olho nas pessoas? — Sim e não. Não do jeito que você quer dizer. — De que maneira, então? — eu estava franzindo a testa. Ele suspirou, passou a mão pelo cabelo e estudou o chão por um momento,


tenso, antes de falar. — Você não trabalha muito com as contas confidenciais. Pisquei com aquela afirmação, imaginando onde ele queria chegar com essa declaração aparentemente aleatória. — Sim... então? — Eu não posso explicar o que quero dizer, com muito detalhe. Analisei essa declaração e cheguei rapidamente a uma conclusão. — Isso tem algo a ver com os acordos de não divulgação? — Algo parecido. — Eles são... os clientes confidenciais... eles são bandidos? Ele me deu um olhar de lado enquanto um lampejo de um sorriso iluminou suas feições. — Não, não exatamente bandidos. Apenas poderosos. — Hm — comecei a puxar meu lábio inferior novamente, enquanto meus olhos vagavam pelo apartamento sem enxergá-lo. Sem querer pronunciar as palavras em voz alta, eu disse: — Você vai se mudar para um dos novos apartamentos? Ele hesitou e disse: — Não, para nenhum dos novos apartamentos. — Ah — olhei para a porta que dava para o banheiro. — Você sabe custa o aluguel? — Sim, eu tenho uma noção. Seria mais do que vocês duas estão pagando agora. Provavelmente um pouco menos que o dobro. — Ah. Bem, isso faz sentido. Não é muito, na verdade — cruzei as pernas e meu pé começou a bater no chão. — Seria estranho viver e trabalhar em torno das mesmas pessoas. E se eu sair do emprego? Teríamos que sair daqui? — Você planeja sair do seu trabalho? — sua voz era monótona, mas tinha apenas uma ligeira vantagem. — Bem não. Não agora. Não tão cedo, na verdade. — Você gosta de lá? Você ainda gosta do trabalho? Assenti. — Sim. É estranho, mas nunca gostei muito do gerenciamento de contas no meu antigo emprego. Tudo o que eu conseguia pensar, era em me candidatar a uma das vagas de arquiteta. Agora eu realmente gosto desse. É diferente. — O que há de diferente? Olhei para ele. Ele parecia tão interessado quanto demonstrava, então levantei minha perna até o assento de madeira e o encarei. A visão do parque me distraiu por um momento. — É, bem, é apenas melhor. Estou aprendendo sobre um novo negócio, o que


é interessante. E Carlos e Steven estão realmente abertos às minhas ideias de melhorias na estrutura e nas operações de faturamento, enquanto, em meu antigo trabalho, eles não estavam interessados em novas ideias. Também gosto das pessoas. As sobrancelhas de Quinn se levantaram e ele me deu um largo sorriso. — Ah, você gosta? Que pessoas? — Bem, vamos ver. A Keira, claro; ela é muito legal, e o Steven. Dan também é muito simpático. E o Carlos... Quinn franziu a testa. — E o Carlos? Ele não tem dado em cima de você, não é? Dei risada. Na verdade, ri e dei-lhe um grande sorriso. — Não, não, absolutamente. Não seja ridículo. — Por que ridículo? — Porque Carlos é meu chefe. Eu nunca estaria interessada no meu chefe. O rosto de Quinn congelou. Ele piscou para mim como se eu tivesse dito algo realmente perturbador. — Por que não? Foi a minha vez de franzir a testa. — Você está tentando fazer com que eu saia com o Carlos? — Não, não. Definitivamente, não. Mas, só porque alguém é seu chefe, não deve colocá-lo na categoria de fora dos limites automáticos. — Uh, sim deveria. Namorar seu chefe coloca você em uma desvantagem distinta. — Como namorar alguém que é rico? Bufei. — Sim, eu acho. É semelhante, mas pior. — Por que pior? — Quinn! — Janie. — Seu tom e sua expressão eram de granito. — Por que estamos tendo essa conversa? — Porque eu quero. — Mesmo eu, com minha falta de capacidade de entender o óbvio, entendo esse conceito. — O cutuquei, não gostando da sua aparência séria, tentando descobrir o que eu poderia ter dito para causar sua mudança abrupta de humor. Seus olhos se estreitaram quando se concentraram em mim com intensidade, e suas feições permaneceram impassíveis. — Eu acho que você está sendo mente fechada. Cruzei meus braços e endireitei minha espinha. — Mesmo? Como assim?


— Por que você gosta de atribuir rótulo a tudo? — Fazer isso, simplifica as coisas. — As pessoas não são simples. — Mas os rótulos ajudam a torná-las simples. Por que você não gosta de rótulos? Ele travou sua mandíbula enquanto seus olhos se moviam entre os meus. — Usar rótulos como o único fator na definição de uma pessoa e, portanto, como você as trata tendo isso como base, é chamado de estereótipo. Abri minha boca, mas depois a fechei abruptamente e engoli. Meu peito estava quente, com uma mistura pungente de desconforto e aborrecimento. Estávamos nos encarando, e minha respiração ficou um tanto agitada. — Eu não estereotipo pessoas. Estereótipos implicam que eu faça julgamentos sem dados válidos, mas baseados em atalhos sociais ignorantes. — Chefes não são para sair — ele disse. Notei seu tom deliberadamente inexpressivo. — Isso é apenas senso comum — me levantei e ele agarrou meu braço, não com força, mas com firmeza, e me virou em direção a ele enquanto se levantava. — Caras ricos são namorados ruins. Não é um rótulo? — Isso não é um rótulo, é uma preferência — retruquei. — Estepes e Wendells? — desafiou. — Bem, se ele anda como um pato, grita como um pato e faz sexo com múltiplos parceiros indiscriminadamente, então... — arregalei meus olhos com a expressão, enquanto minha voz subia. Eu estava indo além do aborrecimento, para outra coisa que, agora, reconheci como algo muito perto de raiva. Ele rosnou e se mexeu, inquieto, como se enjaulado. — Eu não gosto de ser categorizado. — Não me diga que eu estereotipo pessoas, só porque você não gosta de seu rótulo. Se você não gosta de ser um Wendell, então não seja um. São suas ações que ditam como você é percebido e como você é tratado. — Ou você pode decidir deixar de ser tão intolerante, crítica... — E o que? — tirei meu braço de seu aperto. — Me tornar tão aberta, que meu cérebro cairia? Dar tantas desculpas pelo mal comportamento das pessoas, até ficar sem fôlego? Não, obrigada. Eu não tenho nenhum desejo de nutrir as merdas de cada pessoa e chamar de “floco de neve bonito”. Eu não vou dar desculpas para a maneira que tratam as pessoas ao seu redor como lixo. Se eu quisesse isso, ainda estaria com Jon dando desculpas por sua traíção, ou emprestando dinheiro às minhas irmãs para suas façanhas criminosas. Enquanto isso, eu ainda estaria vivendo em um estado de decepção perpétua. Seus dentes estavam cerrados.


— Não estou propondo que você permita que as pessoas tratem você como lixo. Estou sugerindo que você faça um esforço para entender o comportamento delas e as motivações por trás disso, em vez de simplesmente dispensá-las porque elas atendem aos critérios de um de seus atalhos. Eu não pude evitar o sarcasmo que se espalhou, embora as palavras me fizessem arrepiar quando eu as disse. — Então me corrija se eu estiver errada: imagino que a motivação por trás de ser um Wendell, é querer fazer sexo sem ser limitado pelo número, variedade e frequência dos parceiros. Ele continuou como se eu não tivesse dito nada. — E também esteja aberta à possibilidade de que, só porque alguém se comportou de uma maneira no passado, não significa que é o que querem para si agora e no futuro. — As pessoas não mudam. — Eu disse as palavras sem pensar, mesmo que eu realmente não quisesse dizer ou acreditar nelas, e imediatamente me arrependi da afirmação. Depois do que eu soube, depois do que Quinn me confidenciou noite passada sobre seu passado e seu irmão, eu queria me desculpar, mas, ao invéz disso, comecei a morder meu lábio inferior. Seus olhos brilharam perigosamente. Ele engoliu enquanto fixava seu olhar em um ponto, acima do meu ombro esquerdo. O vi trocar seu peso como se estivesse se preparando para passar por mim. — Eu sinto muito — soltei, e estendi a mão para ele. Minhas mãos agarraram seus pulsos para segurá-lo no lugar. Seus olhos encontraram os meus e dei um pequeno passo em direção a ele. — Você está certo. As pessoas podem mudar e as motivações são importantes. Não sei por que eu disse isso. É só... — soltei seus pulsos, esfreguei minha testa com meus dedos e suspirei. — É só, crescer, minha mãe... ela... — revirei os olhos, odiando que iria admitir para alguém que as decisões da minha mãe tinham algum impacto sobre quem eu era como pessoa e as decisões que tomei. Quinn cruzou os braços sobre o peito e inclinou a cabeça para o lado. — Você nunca mencionou sua mãe — disse como se tivesse acabado de perceber. Cerrei meus dentes. — Eu, particularmente, não gosto de falar sobre ela. — Por que não? Suspirei novamente. — Porque ela era inconsistente e não confiável, e era a versão feminina de um Wendell. Ele me observou visivelmente, seus belos lábios torcendo para o lado.


— A Wendellette? Minha boca se curvou em um sorriso relutante e eu assenti. — Ela era... — olhei em volta do quarto, para além dele, em direção a janela. — Ela era muito bonita, e meu pai era apenas um capacho dela. Ela ia embora por semanas ou meses com um cara e depois voltava, e meu pai a perdoava e era esperado que fingíssemos que tudo estava bem. Ele colocou as mãos no quadril. — Ela traiu seu pai? Assenti. — Sim, muito. Na verdade, era ridículo. Perto do fim, ela ficava mais fora do que em casa. — Perto do fim? Meus olhos voltaram para os dele. — O fim é pouco antes dela morrer — mudei, de repente, me sentindo inquieta. — Então, veja, ser o estepe de alguém, não me atrai. Também não desejo ser um capacho. Gosto de coisas definidas, não gosto de surpresas, e eu não gosto da falta de expectativas claras. — Minhas mãos se moveram para minha cintura e endireitei minha coluna. — E se isso me torna um pouco mente fechada, então acho que estou bem com isso. — Nos olhamos por um longo momento, então ele se moveu abruptamente. Tive uma sensação de vulnerabilidade quando ele diminuiu a distância entre nós. Literalmente me fechou, pois não havia espaço entre nossos corpos e eu, silenciosamente, contemplei a maneira como o meu corpo derretia contra o dele sem o meu consentimento. Ele deslizou as mãos pelos meus braços, em seguida ao redor da minha cintura, apoiando no meu quadril, logo acima da minha bunda. Para minha surpresa e apreciação um pouco envergonhada, senti cada parte firme de seu corpo, incluindo um comprimento duro pressionando meu abdômen. Mais uma vez, corei. A cabeça de Quinn mergulhou e sua boca prendeu a minha em um beijo devastadoramente suave. Minha ansiedade não se dissipou. Em vez disso, uma nova emoção me envolveu em uma bola ardente que trepidava em meu peito e a construiu. Não reconheci o sentimento. Tudo que eu sabia, era que isso me fazia querer arrancar suas roupas. Ele levantou a cabeça ligeiramente, com os olhos encobertos. — Você está pronta para o nosso encontro? Limpei minha garganta, suprimindo o desejo de me esfregar contra ele, de repente desesperada pelo atrito. Pigarreei novamente. — Pensei que você não namorasse.


A bochecha de Quinn se moveu contra a minha, de modo que suas palavras sussurradas estavam quentes contra o meu ouvido. — Eu gostaria de namorar você. Tremi e meus olhos se fecharam. Minha voz estava tensa quando perguntei: — Isso significa que você irá tirar as estepes de circulação? O senti sorrir contra o meu pescoço enquanto ele dava um beijo demorado no meu ombro. — Elas já estão fora de circulação. Ele deu outro beijo no meu ombro, ao lado de onde o laço encontrava minha pele. Meu corpo, desleal, o pressionou com mais firmeza e minhas palavras saíram num suspiro. — Quando isto aconteceu? Senti ele dar de ombros. O simples movimento fez seu peito se esfregar contra o meu, e tive que morder meu lábio para não gemer. — Um tempo atrás. — Ele se afastou. Um conjunto de dedos levantando do meu quadril e, lentamente, traçando a borda do meu vestido no ombro, onde ele me beijou, para minha clavícula, para o meu peito, depois para cima novamente. Isso arrepiou toda minha pele. Meu couro cabeludo estava tenso. Um tempo atrás. Meus cílios se abriram e eu encontrei seu olhar. Eu estava com a cabeça confusa e zonza, e queria saber mais sobre o desaparecimento das estepes. Em vez disso, perdi minha locomotiva de pensamento quando ele deu um sorriso lento. Os dedos, acima mencionados brincando com a borda do meu vestido, escorregaram pelo meu ombro e desceram pelo meu braço, entrelaçando-se com os meus. Ele puxou minha mão. — Vamos. Vamos fazer nosso piquenique.


Capítulo 14 Passamos o dia todo no parque. Vários jogos de Frisbee aconteciam, enquanto eu conseguia manchas de grama no meu vestido branco. Para minha surpresa, houve um show de Blues gratuito no Jay Pritzker Pavilion, e decidimos ficar para assisitr depois do nosso dia juntos, de diversão. Ficamos à beira do gramado, para deixar bastante espaço entre nós e os outros usuários do parque. Quinn se deitou no cobertor, com a cabeça descansando no meu colo como se fosse a coisa mais natural do mundo e eu acariciei seu cabelo com meus dedos. Eu teria parado para me beliscar e garantir que eu não estivesse sonhando, ou que eu não tivesse sido sugado para um tipo de realidade alternativa de Matrix, mas eu não queria saber. Não haveria pílula vermelha para mim. Quinn adormeceu e eu não queria acordá-lo, então ficamos até o final do último jogo. Eu observei, hipnotizada, as linhas e ângulos de seu rosto e a forma de seus lábios. Eles se separaram um pouco e, com sucesso, lutei contra o desejo de beijá-los. O aplauso o despertou de seu sono. Ele franziu a testa, visivelmente confuso com o seu entorno, e piscou para o meu rosto. A cor e a intensidade imediata de seus olhos me reconhecendo, fizeram meu peito doer de um jeito muito bom. Sorri para ele. Por impulso, me inclinei e passei os meus lábios contra os dele com a intenção de dar, ao meu belo sonolento, um pequeno beijo. No entanto, antes que eu pudesse me retirar, as mãos de Quinn me seguraram no lugar; suas palmas gigantes em minhas bochechas, seus longos dedos acariciando meu pescoço. Ele aprofundou o beijo mesmo quando se sentou direito e se inclinou sobre mim, de modo que eu estava ligeiramente reclinada, com a minha nuca contra o seu joelho. Meus dedos passaram em torno de seus antebraços, para me equilibrar. Sua língua era quente, suave e reverente, enquanto suave e, enlouquecedoramente gentil, acariciava a minha. Eu estava sendo provada e saboreada como um sorvete, ou uma sobremesa gourmet. O efeito foi inebriante. Alguém que passava assobiou, presumivelmente, para nós e eu mergulhei meu queixo no peito enquanto me endireitava, interompendo o beijo, achando difícil respirar. Suas mãos se afastaram. Olhei para ele por baixo dos meus cílios e da proteção que meus óculos de aros pretos proporcionavam. Ele estava de perfil, olhando na direção do assobiador. Sua expressão severa o fez parecer resoluto e, com isso, também o fez parecer poderoso, o que o fez parecer sexy.


Lambi meus lábios, o provando neles, e tentei chamar sua atenção de volta para mim. — Você dormiu bem? — minha voz estava levemente sem fôlego. Ele encontrou meu olhar e tive a súbita sensação de estar paralisada. Meus membros pareciam pesados e inúteis. Ele me fez uma pergunta, ignorando a minha: — Por que você usa óculos, ao invez de lentes de contato? Eu devia estar embriagada pelo beijo, pois respondi com sinceridade. — Porque eles fazem com que eu me sinta segura. Sua boca torceu para o lado e ele piscou uma vez. — É por isso que você usa seu cabelo assim? — indicou meu cabelo repousado no topo da minha cabeça, em um coque severo. — Você se sente mais segura com seu cabelo para trás? — Não. Eu uso meu cabelo em um coque, porque, soltos, parece as cobras da Medusa. A marca registrada de Quinn, o sorriso lento e fácil, eclipsou suas feições. — Não parecem as cobras da Medusa. — Sim. Você sabia que a Medusa também tinha duas irmãs? Ela era filha do meio, como eu. Mas a Medusa era a única mortal das três. A maioria dos mitos dizem que ela foi morta por Perseus. Ele usou um escudo espelhado, para que não tivesse que olhar diretamente para ela. Quando ela morreu, Pegasus, o cavalo alado, saltou de seu corpo como um gigante, empunhando espadas. Quinn torceu a boca para o lado, e então ele, gentilmente, tirou meus óculos e os colocou no cobertor ao nosso lado. — Isso parece improvável. Dei de ombros, me sentindo letárgica e um pouco tonta por estar sentada em um cobertor com ele, no parque, durante o crepúsculo. Também me senti um pouco exposta, agora que meus óculos foram removidos. — Alguns acham que ela estava grávida de Poseidon na época. Talvez o esperma dele fosse do cavalo mágico e da variedade gigante, em vez de carregar o habitual cromossomo X ou Y. Peguei minha água, dei um longo gole e analisei Quinn por cima da borda da garrafa de plástico. A luz do início da noite estava dando lugar à escuridão, mas eu poderia dizer que ele ainda estava sorrindo. Eu ainda estava Quinn-beijoembriagada o suficiente para não sentir nenhuma vergonha quando perguntei: — Se você pudesse ter esperma mágico, que tipo de criaturas você gostaria de criar? Seu sorriso se alargou. Ele balançou a cabeça enquanto olhava em volta, para as pessoas se ajeitando para partir.


— Não sei o quão bem um esperma mágico me faria, sem uma garota de cabelo de cobra para colocá-lo. Quinn pegou sua própria água e tomou um gole, mas engasgou quando eu disse: — Você poderia me usar! Ele colocou bruscamente a bebida no chão, recostou-se nos calcanhares e pegou um guardanapo. Seus olhos estavam arregalados quando ele tossiu. Estendi a mão e acariciei suas costas, suavemente. — Você deveria beber mais água. — Obrigado — ele resmungou. Me observou com cautela quando bebeu da garrafa. Sentei descaradamente e esperei que Quinn se recompusesse. Finalmente perguntei: — Você está bem? Desceu pelo canal errado? Ele assentiu com a cabeça, seus olhos seguindo meus movimentos enquanto ele agarrava o guardanapo com um pouco de força demais, e então disse: — Você estava dizendo algo sobre como eu poderia usar você? — Ai sim. Nesta situação hipotética, você tem esperma mágico que pode criar criaturas — apertei a tampa de volta na minha garrafa de água, a coloquei no cobertor e comecei a soltar meu cabelo. — E já foi estabelecido que eu tenho cabelo estilo Medusa — sacudi os cachos rebeldes e os deixei cair sobre meus ombros, costas e seios. — Então, agora você tem o seu receptáculo de esperma mágico com cabelo de serpente. Que criaturas criaremos? Sua expressão só podia ser descrita como incrédula, mesmo quando seus olhos se moviam sobre o meu amontoado de cabelo com um intensidade sombria. — O que você colocou nessa água? — É só água. O que? Por quê? Quinn suspirou. Parecia áspero. Ele afastou o olhar de mim, como se fosse doloroso ou forçado a fazê-lo. Se levantou e me ofereceu a mão rigidamente, me puxando para cima com facilidade. — Devemos ir jantar. Inclinei a cabeça para o lado, considerando-o. — Você não vai responder a minha pergunta? Ele balançou a cabeça sem olhar para mim, enquanto recolhia a cesta, as garrafas e o cobertor. Enfiou meus óculos no bolso da camisa. Mastiguei meu lábio e torci meus dedos enquanto o observava. Não pude deixar de sentir como se tivesse dito algo de errado. Enfiei meu cabelo atrás das orelhas e o ajudei a arrumar. Juntamos tudo e ele ainda não olhou para mim. Me senti ansiosa e, portanto, minha mente começou a vagar. Peguei o lixo e caminhei até a lixeira,


imaginando se o lixo era recolhido diariamente, ou se era em dias alternados; imaginando quanto lixo foi gerado pelo parque; imaginando se alguém pensou em iniciar um programa de reciclagem nos parques da cidade; imaginando quanto isso custaria à cidade; perguntando… — Ah! Trombei com alguém e imediatamente tentei dar um passo para trás, mas ele agarrou meus ombros, sem gentileza alguma, e me impediu de me afastar. Olhei para um rosto bastante desagradável. Não era uma pessoa feia. Na verdade, era um rosto bastante bonito, mas fazia uma expressão desagradável e seus olhos eram duros e frios. O estranho era, talvez, um ou dois centímetros mais alto que eu e extremamente musculoso. Sua cabeça estava raspada, seus olhos eram verdeoliva, sua mandíbula, bastante angulosa, estava flexionada, tatuagens pretas subiam da gola de sua camisa em volta do pescoço e sua boca carnuda, estava curvada em uma carranca rígida. Consegui dar um pequeno sorriso e esperava receber outro educado, mas ele apenas me encarou com toda a flexibilidade do aço. Tenho a nítida impressão de que ele não gostou de mim. Além disso, tive a nítida impressão de que ele queria me fazer mal. Engoli e novamente tentei me afastar. — Desculpe, desculpe, não olhei por onde eu andava. Ao invez de me soltar, ele me apertou dolorosamente e inclinou a cabeça para frente. Sussurrou: — Se você acha que vai se livrar dessa, não vai. — Ei! — a voz de Quinn soou da minha esquerda, e o vi correr em minha direção. Sua expressão era trovejante. Na verdade, ele também parecia desagradável. Parecia que estava disposto a machucar muito alguém. Antes que Quinn nos alcançasse, o homem soltou meus braços, me empurrou para longe e ergueu as mãos, com as palmas para fora, como se tivesse se rendido. Ele afastou os pés para trás. — Ei cara, não tem nada acontecendo aqui. Quinn imediatamente veio para minha frente, mas continuou a avançar sobre o estranho. — O que diabos você acha que está fazendo? O tom de sua voz me fez interceder. — Quinn, escute, não foi nada. Eu não estava olhando para onde estava indo e ele... — Ouça sua namorada. Quinn afastou o homem mais forte e inclinou-se ameaçadoramente, seu tom


era estranhamente quieto. — Não toque nela, não olhe para ela. Se eu o ver novamente, será a última vez que alguém te verá. Recuei. Não tive a impressão de que as palavras de Quinn fossem metafóricas, ou transmitissem um tom dramático. Instintivamente, senti a verdade nelas e estaria mentindo se dissesse que naquele momento ele não me assustou. A disputa durou mais alguns segundos, até que o homem careca se mexeu desconfortavelmente e baixou o olhar para a calçada. Parecendo satisfeito, Quinn deu alguns passos para trás, depois se virou e, sem olhar para mim, pegou minha mão e me puxou de volta para nossa cesta de piquenique abandonada. Meu coração estava galopando no peito e eu estava um pouco trêmula. Sem conseguir evitar, olhei por cima do ombro. O careca ainda estava me observando. Não nós. Ele estava ME observando. Olhou para mim como se me conhecesse, como se ele ainda quisesse me fazer mal, como a única coisa que o impedisse de me rasgar ao meio, era o homem muito grande e irritado ao meu lado. Movi meus olhos para longe e me aproximei de Quinn. Pela terceira vez em tantas semanas, tive a sensação distinta de que estava sendo observada. Só que desta vez eu sabia que estava certa. Não conversamos enquanto caminhávamos. Quinn segurou minha mão firmemente na dele, quase ao ponto de doer. Eu carregava a cesta e o cobertor, ele segurava seu telefone, tocando a tela a cada poucos minutos, e olhava atentamente ao redor do parque. Em vez de voltar para a garagem, Quinn nos levou para a avenida South Michigan, ao lado da Face Fountain. Ficamos ali por menos de trinta segundos antes que um SUV preto diminuísse e parasse na nossa frente. Quinn abriu a porta do passageiro traseiro e disse para eu entrar. Envergonhada demais para interrogá-lo, sentei no banco de trás e coloquei o cesto e o cobertor no banco ao meu lado, me acomodando no meio. Quinn veio atrás de mim, bateu a porta e eu pude ouvir a fechadura. Levou um momento para os meus olhos se ajustarem à escuridão do veículo. Olhei para Quinn, sua perna estava pressionada contra a minha enquanto ele se contorcia em seu assento e olhava pela janela, como se estivesse a procura de alguém. O carro andou e tentei identificar nosso motorista. Tudo o que pude ver foi a


parte de trás de sua cabeça e o tamanho impressionante de seu pescoço. Não era Vincent, a menos que Vincent tenha crescido 45 centímetros, regredido em trinta anos e se tornado um afro-americano da noite para o dia. Minha atenção foi trazida de volta para Quinn, quando ele colocou a mão na minha coxa e apertou. Ele estava me estudando com cautela. Eu só pude olhar para ele confusa, com os olhos arregalados. Não entendi o que tinha acabado de acontecer. Não entendi porque o homem no parque olhou para mim com uma expressão tão sinistra. Não entendi porque Quinn sentiu a necessidade de avisá-lo, com ameaças medievais. Não entendi porque nós corremos para fora do parque, como se estivéssemos sendo perseguidos. Eu estava completamente perdida. Meu queixo pode ter vacilado. Quinn deve ter pego o movimento, porque ele moveu o braço em volta dos meus ombros e me puxou para o seu peito. Eu não estava a ponto de chorar, mas não recusei seu colo. Foi bom estar envolvida em seus braços, então me permiti descansar ali, absorvida pela força dele. Ele colocou o queixo na minha cabeça e o senti suspirar. — Você conhece aquele cara? — perguntei. Minha voz soou notavelmente fraca no enorme carro. Ele endureceu. — Não. — Sua mão deslizou do meu ombro para o meu quadril, me puxando para mais perto. Então ele disse: — Não conheço, mas ele me pareceu familiar. Levantei minha cabeça de seu peito para poder olhar em seus olhos. — Ele é um dos clientes confidenciais? Quinn balançou a cabeça, seus olhos piscando brevemente para o motorista e, em seguida, de volta para mim. — Não. Definitivamente NÃO! Ele não se parece com alguém que eu conhecesse. — Ah. Seu polegar acariciou meu quadril e seus olhos percorreram o meu rosto. — Você está bem? Ele te machucou? — a voz de Quinn era áspera. — Não, ele apenas me assustou. Provavelmente era apenas um estranho e, lembre-se, eu esbarrei nele, então não é grande coisa. Ele assentiu, mas percebi que ele não estava convencido. Coloquei minha mão em seu peito e ele a cobriu com a sua, movendo para seu coração. Estava batendo rapidamente. Ele limpou a garganta. — Você, uh, quer ir para casa? Dei a ele um pequeno sorriso. — Casa? Ele balançou a cabeça e disse:


— Você provavelmente deveria ir pra casa. Uma nuvem negra de decepção se instalou na minha testa. Eu não estava pronta para acabar a noite. Não entendi porque meu encontro desajeitado significava que nossa noite tinha que terminar. — Quais são as minhas opções? — olhei para nossas mãos entrelaçadas cobrindo seu coração, então lambi meus lábios enquanto meus olhos se moviam para sua boca. — Casa — ele disse a palavra com firmeza. Meu olhar encontrou o dele, e ele estava me admirando com um estoicismo paradoxal e acalorado, me afastando e me esmagando perto. Algo me possuiu. Chamei de instinto de mulher devassa e me pressionei a ele. O senti endurecer. Deslizei meu corpo para cima, esmagando meu peito contra o dele. Eu senti sua respiração prender. Minha perna se moveu entre as dele, e eu levei minha boca para seu pescoço, em seguida, até sua orelha e sussurrei, esperando que as palavras não saíssem desajeitadas e esquisitas. — Estou com fome. Outro suspiro irregular escapou dele, em tom similar ao do parque, e sua mão se moveu para a minha coxa, onde meu vestido havia se levantado, expondo minha perna. Permaneceu ali, a palma da mão aquecendo minha pele por um segundo hesitante, antes de puxar a bainha da minha saia para baixo, para cobrir meu joelho e se afastar de mim no banco. Senti a perda de seu intenso calor quando ele desembaraçou nossos membros. Quinn se inclinou para frente, em direção ao motorista. — Precisamos levar a senhorita Morris para casa. O observei, a princípio, surpresa, depois finalmente com o entendimento de rejeição pungente soando em meus ouvidos. Um rubor intenso de vergonha tão profundo, que me senti a ponto de ser consumida por sua incineração, que subiu para o meu pescoço, para minhas bochechas e chegou até as pontas das minhas orelhas. Cruzei meus braços sobre o peito e inclinei meus joelhos para longe dele enquanto ele se acomodava ao meu lado. Nos sentamos em silêncio por um breve momento, e eu podia ouvir o ruído do sangue passando através do meu coração e entre as minhas orelhas. Meu cérebro foi ultrapassado por uma montanha-russa de auto-dúvida adolescente, que eu aceitei como fato: eu nunca serei aquela garota. Não está em mim ser sexy e sedutora. Talvez, com várias dezenas de milhares de dólares em cirurgia plástica, eu possa me tornar atraente o suficiente para que, com pouca luz ou depois de vários tiros, eu possa despertar o interesse de um bioestatístico - ou um atuário. Quando nos aproximamos do prédio, puxei minha bolsa da cesta de piquenique. Quinn me surpreendeu, acariciando os cachos indisciplinados do


meu ombro. Me virei para olhá-lo. Ele estava segurando meus óculos entre nós. Eu os peguei e desviei o olhar enquanto agradecia, e então os coloquei em segurança no meu nariz. Sua voz era suave quando ele respondeu “de nada.” Quinn não abriu a porta imediatamente quando o carro parou, e eu podia sentir seus olhos em mim. Em um esforço para evitar seu olhar, comecei a procurar minhas chaves na bolsa. Finalmente ele saiu e eu passei por ele assim que ele saiu da porta. Quando subi os degraus, o senti perto, bem atrás de mim. — Você vai ficar bem? — Sim. Muito bem. — Consegui acertar a chave na fechadura na primeira tentativa e me senti grata pelo pequeno milagre. Meu temperamento interno de birra, continuou: “atrair e manter o interesse de alguém como Quinn Sullivan, terá que entrar na minha caixa de faz de conta com o último remake Final Fantasy 7 com gráficos de PlayStation 3, ou encontrar uma versão original e intocada de Detective Comics No 27, a estréia de Batman. Todas as tentativas são fúteis. É apenas algo que terei que aceitar como fantasia.” Comecei a atravessar a porta e subir os degraus, sem esperar a porta se fechar e nem olhar para trás por cima do meu ombro. Para minha decepção, ouvi seus passos ecoando os meus pelas escadas. Eu subi mais rápido. Quando cheguei à minha porta, me atrapalhei com as minhas chaves. Mais uma vez, fui bemsucedida em girar a fechadura. Ele ficou ao lado, um pouco distante, me observando. Eu olhei por cima do ombro, brevemente, para dar-lhe um aceno superficial. — Bem, boa noite. Obrigada pelo... piquenique. — Quando eu estava prestes a fugir para a segurança do meu apartamento compartilhado, senti sua mão segurar rapidamente no meu braço, acima do cotovelo. — Eu quero que você e Elizabeth pensem sobre mudar para aquele outro apartamento. Dei de ombros e abri a porta apenas o suficiente para que eu colocasse minha bolsa e deslizasse até a metade. — Sim, claro. Eu vou falar com ela a respeito. — Dei mais um passo para dentro. Quinn estendeu a mão e agarrou a porta, como se estivesse me impedindo de fechá-la. — Eu estou falando sério. — Ok. — Balancei a cabeça novamente, meus olhos encontrando os dele brevemente. Meu cérebro já estava a vários metros de distância, no meu apartamento, a salvo dos sentimentos persistentes de rejeição, e lendo a nova


biografia da Madame Curie que peguei emprestado da biblioteca. Não estava no presente, no corredor, onde eu era a patética rainha do pensamento positivo. Ficamos na porta por vários segundos silenciosos. Eu podia sentir seu olhar se movendo sobre mim. Lutei contra o rubor de vergonha, que ameaçava pintar de vermelho as rosas das minhas bochechas. Então ele disse: — Eu terei que sair da cidade. Assenti. — Sim eu sei. Você tem essa viagem para Nova York, na quinta-feira. — Não, eu vou sair hoje à noite. Não poderei fazer nossos treinamentos programados esta semana, e talvez seja difícil chegar nos próximos dias, mas você deve me enviar uma mensagem se precisar de algo. Encolhi os ombros e, novamente, ouvi o som de sangue enchendo meus ouvidos. Recuei para a escuridão do meu apartamento quando o rubor ganhou e rastejou até o meu pescoço, marcando minhas feições e me queimando com vergonha, como Sherman queimou Atlanta. — Eu estarei em Boston primeiro, depois em Nova York, e voltarei no domingo. Espere, o que ele disse? Ele ainda está falando? — Então, talvez possamos remarcar o jantar para a próxima semana? — continuou. Suspirei distraidamente, ainda incapaz de encontrar seus olhos. — Sim claro. Por que você não me liga quando voltar? — eu não esperava que ele ligasse. Ele assentiu e começou a se inclinar para o meu apartamento, depois parou e soltou a porta. Se arrastou de volta para o corredor. Quinn esfregou os dedos nos cabelos em um movimento frustrado. — Sinto muito por hoje à noite. Olhei para ele. Ele parecia chateado. Fiz uma careta. Antes que eu pudesse dizer qualquer coisa, ele se virou e me deixou, puxando o celular do bolso enquanto ia. Eu esperei para fechar a porta, até que eu não conseguisse ouvir o som dos passos dele descendo as escadas. Não acendi nenhuma luz enquanto caminhava até o sofá. Na escuridão do meu apartamento, permiti que minha mente vagasse. Não entendia nada sobre esse cara. Um minuto ele estava fingindo que queria namorar comigo, no minuto seguinte ele estava recusando meus avanços óbvios, e agora ele estava inventando uma viagem, na esperança de que eu não o incomodasse. Eu estava tão confusa. Se ele quisesse me dispensar, não precisava inventar uma falsa


viagem de negócios. Ouvi meu repulsivo celular gritar em algum lugar do apartamento. O som me fez rosnar de frustração, mas, de repente, fiquei curiosa. Ele tocou novamente antes de eu chegar ao balcão da cozinha, onde o aparelho estava carregando. Olhei para a tela. Foi um texto de Quinn. Na verdade, haviam vários: O primeiro: “Vou deixar alguns seguranças com você, você não vai nem os notar, desculpe por tudo isso. “ A segunda: “Vou ligar para você quando chegar a NY, na quinta-feira. “ O terceiro: “Um nêutron entra em um bar e pergunta ao garçom: Quanto custa uma cerveja? O barman olha para ele e diz: Para você, sem carga. “ Fiz uma careta para o telefone e as mensagens. Ele poderia muito bem ter me enviado hieróglifos. Depois de um longo tempo, coloquei o telefone no balcão e fui até o sofá. O olhei e sentei. Em seguida, deitei em exaustão súbita. Minha cabeça estava girando. Eu não entendia os homens. Eles não faziam sentido e se comportavam erraticamente. Eu sabia que ainda estava com roupas de sair e percebi que não tinha escovado os dentes, mas não conseguia me mexer. Me senti paralisada pela confusão. Decidi, quando sucumbi ao sono, que os homens deveriam vir com manuais, legendas e botões de reset. Passei a confiar no meu grupo de tricô para ser minha bússola em todas as coisas confusas e difíceis de compreender, o que geralmente se baseia em relacionamentos e interações com outros humanos... er, pessoas. Minhas amigas me ajudavam a lidar com tudo, desde políticas precárias de escritório, até lidar com a mãe do meu ex. E é por isso que elas apoiaram e se empenharam, quando expliquei a elas a minha situação atual com Quinn. Era terça-feira à noite e estávamos reunidas no espaçoso apartamento de dois quartos, da Sandra. Fiona era a única ausente, tendo que ficar em casa de última hora, porque sua filha ficou gripada. A maioria de nós segurava uma bebida, e eu acabara de pegar o maldito celular para que todas pudessem ler as mensagens. Também dei a elas uma versão do Cliff Notes (guia de estudos em panfletos, resumida) da semana passada. Estavam todas em silêncio. Ashley estava olhando para o a sala, Marie estava franzindo a testa para o suéter meio tricotado que fazia, Sandra estava de pé na entrada da cozinha, encostada na parede como se estivesse contemplando algo, Kat estava me observando, com uma mistura encoberta de introspecção e agitação, e Elizabeth ainda estava lendo as mensagens de Quinn. Ashley foi a primeira a se pronunciar. Seu sotaque carregado do Tennessee lhe


dava um ar encantador. — Eu acho que ele estava incomodado com aquele cara no parque, e é por isso que ele recusou seu atraente corpo. Algumas delas concordaram com a cabeça e outras continuaram com um olhar vago. Suspirei. — Mas, como ele poderia estar interessado? Pelo poder de Thor, eu me joguei para cima dele! Elizabeth franziu a testa para mim. — Você realmente acabou de dizer ‘pelo poder de Thor’? — Estou tentando amenizar. Novamente algumas concordaram com a cabeça e outras continuaram com um olhar vago. Suspirei. — Acho que estraguei tudo. Acho que ele pensa que eu sou patética e está apenas tentando me evitar inventando uma viagem para não precisar falar comigo. Marie balançou a cabeça e seu cabelo loiro de comercial de shampoo, passou em torno de seu rosto. — Não. Não é isso — ela parecia tão segura. — Definitivamente não é isso. Elizabeth assentiu, concordando. — Concordo com Marie. O cara está louco por você. Algumas concordaram e algumas continuaram com um olhar vago. Suspirei. — Então por que ele recusou minhas investidas? Não pude disfarçar a frustração na minha voz. Eu sabia que parte se dava devido à sua ausência. Sentia-me mimada por vê-lo quase todos os dias, na semana passada, e agora sentia sua falta. No sábado passado, quando ele inspecionou meu apartamento, achei que ele não pertencia à minha vida. Mas agora, a ausência dele me faz sentir como se eu estivesse sempre tentando recuperar o fôlego. E foram apenas dois dias. — Bem, que inferno garota! Ele apenas viu você ser maltratada por um skinhead com tatuagem no pescoço — Sandra disse quando se desencostou da parede e se juntou a nós, na sala de estar. — Se ele não estivesse interessado, não encheria a caixa de entrada do seu celular com mensagens. Acho que ele está preocupado com você. — Além disso, você pode não ter sido tão transparente com seus avanços como pensa. Posso afirmar que você não é uma sedutora habilidosa. Geralmente é difícil te assistir. — Ashley fez uma careta. Kat disse baixinho:


— Eu não entendo a reação dele com o cara do parque. Parece que ele exagerou completamente. Janie, tem mais alguma coisa? O cara ameaçou você? Eu balancei a cabeça. — Não. Eu só esbarrei nele. Ele era assustador, mas, além de segurar meus braços, não fez nada. — Mas o Calças-Quentes não disse que conhecia o cara? — Sandra me cutucou com uma cenoura, antes de mergulhá-la em um pote de molho blue cheese e a morder com um sólido crunch. — Foi vago. Algo como se ele achasse que parecia familiar. Eu não sei — pressionei as palmas das minhas mãos, nas órbitas dos olhos e deixei que a parte de trás da minha cabeça caísse contra a cadeira alta atrás de mim. — Quero dizer, se pensar bem, a primeira vez que falei com Quinn foi apenas quatro semanas atrás. Eu não o conheço completamente. Talvez o cara do parque realmente o tenha assustado e eu esteja errada. Talvez ele simplesmente não esteja afim de mim e eu esteja certa. Talvez Quinn seja um alienígena e tenha terminado seu estudo da humanidade e eu não tenha mais utilidade como um espécime. Marie sacudiu a cabeça. — Quatro semanas são longas o suficiente. Pessoas já caíram de quatro em menos tempo que isso. — Ele realmente colocou seguranças atrás de você? — Ashley direcionou a pergunta para mim, mas seus olhos estavam em Elizabeth. — Sim. colocou. — Fiz uma careta para isso. A primeira vez em que os vi, foi na manhã de segunda-feira, quando eu estava de saída para o trabalho. Eles se aproximaram de mim do lado de fora do prédio, ambos vestidos casualmente de jeans e camisetas, parecendo caras comuns, e me disseram que trabalhavam para a Infinite Systems. O Sr. Sullivan, ao que parece, solicitou duas equipes de proteção 24 horas. Eles prometeram que eu não os notaria e estavam certos; nos últimos dois dias, eu os esqueci. — Provavelmente estejam lá fora, agora. Devíamos levar café ou algo assim Elizabeth ergueu os olhos do celular e me devolveu. — A mensagem da amizade, sobre fazer xixi, é engraçada. Acho que vou usar. Peguei o odioso celular de Elizabeth e olhei para as duas últimas mensagens. Quinn, fiel à sua palavra, continuou a me enviar piadas todos os dias, o que só serviu para me confundir ainda mais. Marie começou a tricotar novamente. — O tempo vai dizer. Eu digo apenas que espere e veja. Se ele te ligar na quinta-feira, ouça o que ele tem a dizer. Levantei e espreguicei.


— Você está certa! Cansei de pensar nisso. Feito, pronto, acabou! — balancei minha mão em um círculo e bati três vezes, em seguida, fui até o banheiro, na esperança de que minha ausência mudasse o assunto. Eu não estava no banheiro por muito tempo, apenas tempo o suficiente para lavar as mãos, quando ouvi uma batida na porta. — Só um minuto, estou quase terminando — respondi distraidamente. — Janie, é a Kat. Posso entrar? — Sim, estou quase acabando. — Não... — a voz de Kat se tornou um sussurro. Eu poderia dizer que ela tinha os lábios perto da fenda, na porta. — Quero dizer, posso entrar e me juntar a você? Eu preciso te contar uma coisa. Abri a porta e me virei para procurar uma toalha. — E aí? Você está bem? — a voz de Kat estava carregada de hesitação. — Eu... descobri... uma coisa.— O clique suave da porta se fechando me surpreendeu, então eu me virei para encará-la, enxugando a umidade das minhas mãos com uma toalha incrivelmente fofa e absorvente. Fiz uma nota mental para perguntar à Sandra onde ela comprou suas toalhas. Quando Kat não continuou, levantei minhas sobrancelhas. — Sobre o que? Ela parecia séria demais, como meu pai fez no dia em que me disse que Papai Noel não era real. Eu tinha quinze anos. — É sobre o seu trabalho — ela hesitou novamente, enfiando o cabelo castanho ondulado atrás das orelhas enquanto reúnia seus pensamentos. — Eu descobri o porquê eles terem te dispensado. — Ah. — Agarrei a toalha, era tão macia. Esqueci que Kat concordou em tentar descobrir a razão pela qual fui demitida. No momento, não me importei particularmente. — Janie... Ela disse meu nome de uma forma que geralmente é seguida com algo do tipo ‘Onde você estava na noite do assassinato?’, ou, ‘é melhor você se sentar’. Eu apertei ainda mais a toalha. — Foi o Sr. Holsome. Pisquei. O silêncio se estendeu. Os olhos de Kat continuaram a me olhar com uma ampla cautela. — Sr. Holsome? — repeti, confusa. — Você quer dizer, o pai de Jon? O pai do meu Jon? Aquele Sr. Holsome? Kat assentiu e encostou-se à porta fechada. Ela suspirou. — Eu não... — pisquei para ela novamente e sentei na tampa do vaso sanitário. — Eu não entendo. Por que o pai de Jon queria que eu perdesse o


emprego? Ela parecia infeliz. — Eu não sei o motivo, mas posso dizer, com cem por cento de certeza, que ele foi o responsável. Ele ameaçou sair do projeto da South Side se eles não a demitissem e insistiu que tinha que ser naquele dia. Aquele dia. Naquele dia, descobri que Jon me traiu. Naquele dia, terminei com ele antes de sair para trabalhar. Kat deve ter visto as rodas girando no meu cérebro frágil, porque ela disse: — Você acha que Jon pediu para que ele fizesse isso? Eu balancei a cabeça. Só pude bufar uma resposta. — Não sei. Eu não consigo... — Minhas palavras sumiram. Pensei sobre a acusação que Kat expressou, e que eu havia pensado. Não parecia provável, mas fiquei perturbada ao perceber que aquilo era plausível. Jon disse em mais de uma ocasião, quando estávamos juntos e desde que terminamos, que queria que eu confiasse nele, que queria cuidar de mim, que eu precisava dele. Eu não me sentia assim. Me perguntava por que ele fazia aquilo. Talvez porque ele sentisse que era verdade. Talvez porque o pai dele pudesse tirar meu emprego com um telefonema. — O que você vai fazer? — Kat estava torcendo as mãos na frente dela, nervosa e ansiosa por mim. — Não sei — balancei a cabeça e disse novamente. — Não sei. Não parecia justo que Jon pudesse, por um capricho petulante, decidir fazer uma ligação para eu perder o emprego, um trabalho, lembre-se, que eu era bastante habilidosa, mas que eu não sentia falta. Sinceramente, não sabia o que faria. Parte de mim se perguntou se isso importava. Jon não podia fazer nada comigo agora. Eu não o namorava mais. Ele e seu pai não tinham influência com meu empregador atual. Dei um suspiro de alívio ao perceber. Me sentia segura no meu novo emprego. Eu me sentia confiante e segura. Talvez Jon tenha me feito um favor.


Capítulo 15 Na quinta-feira da minha terceira semana de trabalho, senti o primeiro tremor de incerteza sobre meu emprego e, por tremor de incerteza, refiro-me a um raio de horror. Quinn tinha partido desde a noite de domingo, mas ele ainda me enviava mensagens com piadas. Eu as lia, gostava delas, mas não respondia, pois estava começando a me sentir boba com o meu comportamento. Quando ele me deixou naquela noite, cedi à minha gangorra de insegurança e isso me deixou nauseada. Por que ele continuava com as mensagens, se estava tentando me evitar? Além disso, na noite de quarta-feira, ele me mandou um lembrete sobre nosso telefonema do dia seguinte. Prometi a mim mesma que iria conversar com Quinn no celular repugnante, e eu não permitiria ser nenhum brinquedo de playground emocional. No entanto, o incidente no domingo e o distanciamento subseqüente na segunda, terça e quarta-feira me permitiram refletir: Eu realmente não sabia muito sobre Quinn. Eu nem sabia qual era seu cargo na empresa, e eu trabalhava com ele. Não entendia o papel ou o título de Quinn no trabalho já que ninguém falava sobre ele e, quando se direcionavam a ele, sempre o chamavam de Sr. Sullivan. Portanto, reuni coragem para perguntar a Steven sobre Quinn. Steven e eu estávamos almoçando na sala de descanso, que era mais um corredor ao longo do perímetro do prédio com uma janela com vista para a cidade, e discutindo minha próxima primeira viagem oficial de negócios, e a reunião com o cliente. Steven e eu voaríamos para Las Vegas na próxima segunda-feira. Ele explicou que o cliente era dono do Club Outrageous — o que me fez pensar em Quinn — e queria usar o Guard Security para outro clube em Las Vegas. O cliente também queria discutir a organização da segurança pessoal por meio do Infinite Systems. — A Cypher Systems tem um escritório em Las Vegas? — mergulhei o frango, da minha salada de taco, em um pequeno pote de creme azedo e dei uma mordida. Steven sacudiu a cabeça no meio da mastigação. — E quanto à Nova York? Temos algum outro escritório, além de Chicago? Steven mergulhou o sushi picante no molho shoyo, e respondeu antes de comer. — Docinho, posso te chamar de docinho? Não. Somos apenas nós, os lunáticos.


— Não me chame de docinho. E quanto a Quinn Sullivan? Onde é o escritório dele? — tentei soar despretenciosa. Observei Steven com uma garfada de salada de taco, enquanto tentava suprimir o rubor que ameaçava esmagar minhas bochechas. Esperava que ele não percebesse. Ele balançou a cabeça. — Sr. Sullivan tem um escritório aqui no prédio, mas, como você provavelmente notou, ele não usa muito durante o horário comercial normal. Acho que ele prefere estar em campo. — Por que todo mundo o chama de Sr. Sullivan? Steven colocou uma porção generosa de gengibre raspado em seu sushi, e ergueu as sobrancelhas para mim. — Como você quer que o chame? Sully? Quinn, quindim? — Não. O que eu quero dizer, é que chamamos o Sr. Davies de ‘Carlos’, e todo mundo aqui é chamado pelo primeiro nome. Por que não chamamos o senhor Sullivan de Quinn? Steven deu de ombros. — Eu não sei. Eu trabalho aqui há três anos e nós sempre o chamamos de Sr. Sullivan — Steven pareceu pensar sobre o assunto enquanto mastigava seu sushi. Com a boca meio cheia, acrescentou: — As únicas vezes em que o vejo, são para as reuniões de clientes, e faz sentido chamá-lo de Sr. Sullivan. Na frente do cliente, quero dizer. Talvez isso o faça parecer mais importante aos olhos deles — Steven encolheu os ombros novamente e engoliu em seco. — Bem, eu acho que ele é importante. Estranho, mas importante. — O que você quer dizer com ‘estranho’? — Bem, você passou um tempo com ele sexta-feira passada, certo? Quando você teve que trabalhar até tarde? Tão típico. Ele insistiu em levá-la pessoalmente “para treiná-la” — Steven usou aspas no ar para enfatizar as duas últimas palavras. — Eu disse a Carlos que achava que ele só queria alguém para encarar. Não posso acreditar que você tem sido tão boa nisso. Franzi meu nariz para Steven. — O que você quer dizer? Ele não me encara. Steven me deu um olhar simpático. — Só você seria tão graciosa, Janie. Abaixei meu garfo e olhei para Steven, meu tom incrédulo. — Sobre o que você está falando? Aprendi muito com ele. Eu achei que esse tempo foi benéfico. — Senti a necessidade de defender Quinn. Eu não queria que Steven pensasse que Quinn tinha sido rude, ou feito um mau trabalho me treinando e, portanto, colocar Quinn em apuros. — Oh, sério? — Steven ergueu as sobrancelhas.


— Sim, com certeza. Steven franziu os lábios e me deu um olhar incrivelmente incrédulo. — Uma vez passei vinte minutos a sós com ele, durante uma viagem de carro do aeroporto até o local. Durante esse tempo, ele disse um total de três palavras e seu rosto não mudou de expressão nenhuma vez... Não, espere, isso está errado — Ele ergueu as mãos para impedir que eu interrompesse. — Ele tinha duas expressões: no começo ele era indiferente, mas depois, no final dos vinte minutos, sua expressão mudou para apática. Isso tudo apesar do fato de que minha conversa foi obviamente emocionante. — Indiferente e apático são sinônimos. — Tentei não rir quando imaginei Steven e Quinn sozinhos, em um carro, juntos por 20 minutos: Quinn encarando Steven, enquanto Steven preenchia o silencioso carro, com contos de suas façanhas de final de semana e a mais recente compra de mobília. — Claro, ele é muito bonito, devo admitir, mas você não pode me dizer que não acha que há algo de errado nele — Steven olhou para ambos os ombros de uma forma exagerada, em seguida, falou em um falso sussurro. — Você sabia que às vezes ele se junta aos guardas de segurança no andar de baixo e age como se fosse um deles? Torci meus lábios para o lado, pensando se deveria dizer a Steven que eu, originalmente, conheci Quinn quando ele me acompanhou depois de ser demitida do meu último emprego. Em vez disso, eu disse: — Bem, não é? Ele não é um deles? Steven me estudou por um momento, antes de responder em um tom muito seco. — De uma maneira pequena, sim, ele é. De uma maneira muito maior e mais correta, não. Ele definitivamente não é.” — Hmm — peguei meu garfo novamente e cutuquei minha salada, me sentindo pensativa. — Por que você só o vê durante as reuniões do cliente? — Ele não vai à todas as reuniões com clientes, na verdade. Somente se houver um problema, ou se ele estiver avaliando um novo cliente. Normalmente ele manda o Carlos. Meu garfo parou no meio do ar, entre meu recipiente de plástico e minha boca. — Espere — eu quase podia ouvir o clique e o rangido das engrenagens na minha cabeça. — O que você quer dizer com ‘manda o Carlos’? Não é o chefe que decide quem vai para qual reunião? Steven piscou para mim três vezes, as sobrancelhas levantadas para que parecessem pequenos guarda-chuvas sobre os olhos cinzentos. — Que bobagem você está falando? O Sr. Sullivan é o chefe. O tempo parou.


Tudo parecia suspenso enquanto meu cérebro lutava para aceitar a realidade. Foi um daqueles momentos em que você reflete, no futuro, e se pergunta como seu cérebro poderia ter pensado tantos pensamentos, como seu coração poderia ter sentido tantos sentimentos no pequeno espaço de um único segundo. A única explicação era que o tempo devia ter parado. Quinn é meu chefe. Tentei pensar nas vezes em que estive com ele, e procurei pelas pistas. Encontrei várias. Na verdade, encontrei mais que várias. Eu queria esconder meu rosto em minhas mãos e chorar, mas resisti e mordi ferozmente meu lábio inferior. Como eu poderia deixar passar algo tão óbvio? As palavras de Quinn da semana anterior, voltaram para mim: “Você é completamente cega para o óbvio”. Realmente, ele era mais do que apenas meu chefe, ele era o chefe. Ele era o dono da empresa. Ele possuía uma empresa realmente impressionante e lucrativa. Quaisquer balões de esperança anteriores que eu estivesse flutuando, em minha versão de realidade alternativa do meu carnaval de sonhos, foram imediatamente esvaziados, se não brutalmente explodidos. Esse cara com que eu estivera fantasiando, que passei dois meses e com quem eu achava que estava meio que namorando, talvez não estivesse apenas fora do meu padrão de atração física, mas, sim, fora de todos os meus padrões. Eu era a Neandertal de forma desajeitada, e ele estava na liga ninja de milionários gostosos. Como colega de trabalho, Quinn e eu estávamos em pé de igualdade. Mesmo que nada de romântico se materializasse a longo prazo, no mínimo achei que construiríamos uma amizade. Eu esperava que estivéssemos construindo uma amizade, para que não fosse necessário explodir tudo. Eu realmente gostei dele. Pensava nele com uma frequência alarmante. Ele era interessante e bom de conversar, e eu queria ter uma conexão duradoura com ele. Pelo menos, até este momento, era o que eu tinha pensado. Agora que pensei em tudo o que havia acontecido recentemente — os eventos do fim de semana passado, a chamada sessão de treinamento, as mensagens de piadas, nossas conversas longas — e eu estava ficando cada vez mais à vontade. Achei que nosso tempo juntos estivesse nos levando a algo permanente, algo compartilhado entre duas pessoas, cujo relacionamento era mais do que ser apenas colegas de trabalho. Eu estava cega. Eu estava tão além da cegueira, fui idiota. Estava errada. Nós não estávamos nos tornando amigos. Pessoas normais não têm relações duradouras com milionários gostosos.


O que ele me disse naquela noite depois do show? Me disse que não namorava. Uma vez que ele perdesse o interesse em mim, o que aconteceria mais cedo ou mais tarde, eu iria vê-lo periodicamente, na melhor das hipóteses, durante reuniões com clientes, onde ele era o Sr. Sullivan e eu era Janie Morris, sua funcionária. Esses rótulos de chefe e funcionário definiam nosso relacionamento, assim como os campos minados ao redor da Baía de Guantánamo, em Cuba, definindo-o como uma Base Naval dos EUA. Você não vai passear em um campo minado. Você não é amiga do seu chefe. E você, certamente, nunca se prepara para ter fantasias sexuais com ele, ou paixões longitudinais não correspondidas. Desejar seu chefe, era como ter uma queda pelo seu professor de inglês no ensino médio. Isso te fazia mais do que só um pouco patética. Minha surpresa deve ter sido visível, porque o rosto de Steven mudou, repentinamente, de confusão para compreensão relutante. — Oh… aí meu. Você não sabia. Você não sabia que o Sr. Sullivan é o chefe? Me esforcei para engolir, com a garganta de repente seca. — Não — eu disse, categoricamente. — Como você pode não saber? — era a vez de Steven parecer incrédulo. — Ele recrutou você. Você passou o dia todo, na sexta, com ele. Tenho certeza de que já falamos dele antes. De quem você achava que eu estava falando, quando dizia “o chefe”? Não ouvi o resto das reflexões de Steven. Eu estava na Matrix e simplesmente tomei a pílula vermelha sem querer. Meus pensamentos ficaram agitados e circulando, como uma lavadora de roupas no ciclo de centrifugação. Comemos em silêncio por vários minutos e consegui evitar contato visual com Steven. Depois de alguns minutos, Steven interrompeu minha avalanche interna de angustia. — Pensei que você soubesse, quando ele te contratou. Encontrei seus olhos, com uma carranca. — Ele disse... ele disse que poderia me conseguir a entrevista, mas eu precisava conseguir o emprego sozinha. — Eu estava tendo dificuldade em manter minha voz firme. Quinn era rico. Na verdade, ele não era apenas rico. Ele era um rico filho de uma p… um pudim. E, mais uma vez, permiti que outra pessoa fosse o Capitão no meu mar do destino. Mais uma vez, fui uma espectadora acidental da minha ilusão de sucesso. Steven pareceu entender meus pensamentos. — Você realmente conseguiu o emprego por conta própria — minhas feições devem ter traído a minha dúvida e infelicidade, porque ele colocou os pauzinhos


na mesa e estendeu a mão sobre a mesma. Seus olhos cinzentos, suavizando. — Não, sério, me escute, Janie. Eu admito, o Sr. Sullivan nunca recomendou alguém para uma entrevista antes. Normalmente ele apenas os recrutam e eles começam. Vou te dizer uma coisa, ele está sempre certo. Por exemplo, olhe para mim. — Ele me deu um sorriso irônico. Tentei retribuir, mas não pude evitar sentir uma mistura de devastação angustiante e de aborrecimento comigo mesma. Eu acabara de descobrir que Jon, ou o pai, haviam arrumado minha entrevista na última empresa e, provavelmente, o trabalho em si, e veja só no que deu. Eu não gostava de pensar que a única razão pela qual eu fui contratada na Cypher Systems, foi porque Quinn Sullivan havia decidido, por um capricho, que ele queria me beijar, e eu era boa com números. — Pão de Mel. Posso te chamar de Pão de Mel? — ele não esperou que eu respondesse. — Realmente me escute. Eu sabia que você seria ótima se o Sr. Sullivan a recrutou. Mas, se isso faz você se sentir melhor, eu mostrei para você aquela planilha no iPad com as fórmulas erradas no seu primeiro dia de teste, e você passou por mérito próprio. Suspirei. Rapidamente terminei minha salada. Eu não queria comer nunca mais. — Obrigada. Ele me olhou com o que eu percebi ser um olhar especulativo. — Essa é a empresa dele, o seu bebê. Você realmente acha que ele contrataria alguém que não fosse incrível? Mais uma vez, você não precisa de mais provas do que seu companheiro aqui, nessa mesa. Eu tentei um meio sorriso e revirei os olhos. — Não, você não pode me chamar de Pão de Mel. — O que eu não podia dizer a Steven, era a verdadeira razão pela qual eu me sentia tão chateada. A clareza do momento ardia. Meu peito doía e eu realmente não compreendia, até certo ponto, que meus balões de esperança, acima mencionados, no carnaval dos sonhos da realidade alternada, tinham sido bastante inflados apesar de todos os meus melhores esforços para manter o pé no chão. De repente, a ideia de ver Quinn novamente, me encheu de pavor. Meu coração parou duas vezes, quando me lembrei da minha próxima viagem a Las Vegas. — Ele vai... uh... — pigarreei e limpei minhas mãos no guardanapo. — O Sr. Sullivan estará na reunião do cliente em Las Vegas? Steven voltou a comer seu sushi e balançou a cabeça. — Sim. Como lhe disse antes, o chefe analisa todos os novos clientes para as contas confidenciais. Ele vai viajar conosco. Deus nos ajude.


— Ah. — Refleti sobre aquilo por um momento. Ao me preparar para a reunião em Vegas, eu estava elaborando propostas para o misterioso chefe, sem saber que Quinn era o chefe. Na verdade, eu até contei a Quinn sobre uma de minhas ideias, no dia em que ele interrompeu meu almoço, semana passada, no Smith’s. Senti como se estivesse doente. Resmunguei minha próxima pergunta. — Vamos todos no mesmo voo? — Vamos no avião da empresa. — A voz de Steven era tão indiferente, que era o mesmo que dizer que ele cortou as unhas dos pés na quarta-feira. Deixei escapar: — Existe um avião da empresa? — Sim. Minha frequência cardíaca aumentou, com a ideia de passar quatro horas em um espaço fechado com Quinn. — E todos nós vamos viajar juntos? Inclusive ele? — Sim. Eu vasculhei a mesa, como se isso pudesse me fornecer respostas, e tentei reprimir o pânico na minha voz. — Mas e se eu quiser pegar um voo comercial? Steven levantou uma sobrancelha para mim. — E por que iria querer fazer isso? Bufei, não querendo dizer a verdade, mas reconhecendo a estranheza da minha declaração. Eu só conseguia pensar em uma desculpa. — Eu tenho programa de milhagens. Os lábios finos de Steven se curvaram em um sorriso largo. Ele riu abruptamente, com tanta força, que as lágrimas se juntaram nos cantos de seus olhos. Eu podia sentir que estava ficando vermelha e depois roxa como uma berinjela, de tanta vergonha. Sua risada foi, no entanto, contagiosa, e eu consegui dar uma risada indiferente e autodepreciativa. — Oh, Janie, você é uma figura — acho que ele quis dizer isso como um elogio, mas ouvi que eu era uma bagunça. — Você não vai se importar de perder algumas milhas, eu prometo. É uma maneira bem tranquila de viajar. E nós vamos preparando o chefe e falando sobre a estratégia que virá. Então, na verdade, existe uma boa razão relacionada ao trabalho, para viajarmos juntos. Não é tão ruim, se você tratar apenas de modo profissional. Eu não sabia o quão estressante seria. Já fiquei muito estressada só de pensar nisso. — Quem mais estará no avião? Steven enxugou as lágrimas do riso, e me deu um largo sorriso. — Bem, você, eu, Carlos, Olivia e o chefe. Sabe, o Quinn Sullivan.


Eu olhei para Steven. — Obrigada. Agora eu entendi. Ele me deu um sorriso doce. — Apenas me certificando. De repente, tive dor de cabeça. Naquela noite, cancelei minha tutoria no South Side e liguei para Jon. Eu não havia ligado para o Jon no domingo passado, como prometi que faria. Primeiro por um descuido, mas, depois de conversar com Kat durante o nosso ritual no banheiro, na terça-feira, eu estava o evitando propositalmente. Não sabia o que dizer. Eu não tinha certeza de que ele tinha sido o motivo pelo qual eu perdi meu emprego, e eu não queria que fosse verdade. No entanto, por algum motivo, agora eu realmente queria vê-lo. Elizabeth não disse nada sobre minha decisão repentina, mas ela me deu muitos olhares de desaprovação antes de eu sair do apartamento e, enquanto calçava minhas botas, disse: — Quinn não vai te ligar hoje à noite, de Nova York? Uma pontada aguda reverberou no meu peito. Suas palavras haviam encontrado um alvo não intencional. Eu sentia falta de Quinn e queria falar com ele. Sentia falta de conversar com ele, vê-lo, tocá-lo. Apesar da minha confusão depois dele ter ido embora no domingo, eu estive ansiosa pela sua ligação a semana toda. Engoli o nó na minha garganta e fixei meu queixo. No momento, não pretendia contar a Elizabeth que Quinn era o chefe do meu chefe. Eu precisava processar isso primeiro e decidir o que significava. Agora, na minha cabeça, isso significava que Quinn e eu já havíamos terminado.Em resposta a sua pergunta provocativa, encolhi os ombros e me levantei para sair. Ela ergueu o queixo em direção ao meu celular. — Você não está esquecendo isso? Balancei a cabeça. — Não. — E peguei meu casaco. Ela cruzou os braços sobre o peito e pude sentir seu olhar pesado em minhas costas, recuar. — Bom, se ele ligar, vou deixá-lo ciente de que você está com seu amigo. Fiz uma pausa na porta. Respirei fundo e encolhi meu ombro enquanto a fechava atrás de mim. — Não me espere acordada. Pensei ter ouvido ela rosnar enquanto eu caminhava pelo corredor, mas não pude ter certeza.


Quando saí do prédio e caminhei em direção à plataforma da estação de trem, eu estava bem ciente dos dois seguranças atrás de mim. Me perguntei se eles estavam em constante comunicação com Quinn. Me perguntei se diriam a ele o que eu estava fazendo e quem eu estava encontrando. O pensamento fez meu estômago ficar um pouco enjoado. Não gostei da sensação de ser controlada. O celular parecia um albatroz no meu pescoço, e eu só o tinha a uma semana. Os seguranças também estavam começando a me irritar. Com um encolher de ombros, tentei afastar a irritação crescente e redobrei meus esforços para me concentrar no atual objetivo. Acelerei meus passos. Jon e eu nos conhecemos em um dos nossos habituais lugares de encontro. Era um Restaurante Italiano no North Side, com cabines altas de couro cor de vinho, iluminação fraca e um queijo frito, muito bom. Não o abracei de volta quando entrei. Permiti deixar meus braços penderem frouxos ao meu lado, e não senti saudade quando o cheiro inebriante de tomate, vinho e salsicha passou por mim. Mas permiti que ele me levasse à nossa mesa de costume. Escolhemos nossas bebidas. Eu só queria água, mas Jon pediu uma garrafa cara Sangiovese e dois copos. Assim que o garçom foi embora, perguntei: — Por que você me enganou? Não era exatamente o que eu queria perguntar. Na verdade, eu não me importava com a resposta. Eu estava apenas sondando, antes de confrontá-lo sobre as evidências de Kat. Queria saber qual era o papel do seu pai em minha demissão. Além disso, por algum motivo, eu estava querendo um drama. Eu desejava gritar com alguém. — Janie... — Jon suspirou. Sua cabeça e seus ombros, caíram. — Isso foi um erro. Foi o maior erro da minha vida. — Jon, eu gostaria de saber toda a verdade. — Isso vai parecer maluco. Você tem que... — ele estendeu a mão como se fosse pegar as minhas, mas desistiu. — Eu vou te dizer, mas você tem que prometer que vai continuar aqui. Você vai ficar e falar comigo. Não vai se levantar e ir embora. — Eu perguntei, não é? Eu quero saber. Eu quero falar sobre isso. — Estremeci com a minha própria mentira. Sinceramente, eu só queria gritar com ele por ser mentiroso e manipulador. — Mas você pode não querer ficar, depois que eu lhe disser o porquê do que eu fiz. Só me prometa que não vai sumir, depois. Não acho que eu consiga viver com isso. Franzi meus lábios e fiz uma careta. — Tudo bem, eu prometo. Prometo que continuarei falando com você depois


que você me contar a verdade. Se sentirá melhor se eu acrescentar à promessa, um tempo de conversa? Se eu prometer ficar e falar com você por uma hora, depois que você me contar? — Honestamente, sim. Isso me deixaria um pouco seguro. — Ele pareceu aliviado e um pouco desesperado. Pisquei para ele, incrédula, mas prometi o que eu sugeri. — Tudo bem, prometo ficar e falar com você pelo período de uma hora, depois de você me falar a verdade. Ele suspirou novamente, assentindo. Parecia que ele ia ficar doente. Ele engoliu em seco. Fixou seu olhar em um ponto da mesa, e começou. Sua voz era tão baixa, que precisei me inclinar para frente para ouvi-lo. — Você tem que entender — disse ele. — Eu te amei desde o primeiro momento em que te vi. Eu sabia que você era a única mulher para mim. Se lembra? — ele sorriu tristemente, ainda olhando para a mesa. — Você estava discutindo com nosso professor, no primeiro dia, sobre o uso de equações lineares como uma aproximação de equações não lineares. Você estava tão brava. — Eu não estava brava. Ele olhou para mim. Seus olhos verdes, ainda um pouco tristes, brilhavam com diversão. — Nem toda equação é solucionável. Se não usássemos equações lineares como estimativas, ficaríamos com o caos. Sorri de volta e balancei a cabeça. — Não. Esse não é o assunto de agora. Além disso, não fico com raiva. Fico chateada. A sombra de diversão desapareceu de sua expressão. — Mas é relevante o que você disse. Acabou de dizer que não fica com raiva. Isso é verdade. Em todos esses anos em que estivemos juntos, nunca a vi além do normal, sem perder seu autocontrole. Você nunca está animada. Nunca a vi envergonhada. Nem mesmo quando bebeu demais, daquela vez em que estávamos nos Hamptons. Você estava tão calma. Se você não tivesse vomitado, eu não saberia que você estava bêbada. — Ainda não vejo a relevância. Ele limpou a garganta e olhou para a mesa novamente. — Fiz isso para estar mais perto de você. Esperei que ele continuasse. Quando ele não falou, me inclinei mais para frente e cruzei as mãos sobre a mesa, incitando-o. — O que? O que você quer dizer, em ficar mais perto de mim? Ele respirou fundo e, em seguida, encontrou meu olhar. Seus olhos verde-oliva


estavam cheios de tristeza e arrependimento, e um toque de acusação. — Fiz isso para estar mais perto de você. Às vezes você é tão... — sua mão na mesa fechou em um punho. — Você é tão distante, quase apática sobre mim, sobre nós. É como se você não se importasse com a minha presença, como se fosse indiferente. Sabe como isso fazia eu me sentir? Eu te amo muito. Chego a queimar por dentro. Sofro por você — ele alcançou a mesa e segurou minha mão. A força da ação me assustou. — Só quero que você sinta algo por mim, nem que seja apenas um décimo do que eu sinto. Não consigo parar de pensar em você, e Janie... Pela primeira vez, Jon fez meu coração bater mais rápido. Sua voz transmitia suas emoções de maneira tão viva, que imaginei quase ser possível estender a mão e tocar suas palavras. Em determinado ponto da minha vida, estava convencida de que ele era a pessoa com quem eu me casaria. Com quem teria um cachorro, uma casa e dois filhos. Pensei que fosse concreto, seguro e confiável. Agora, de repente, fui confrontada pela paixão. Havia, por falta de uma palavra melhor, excitação. Algo parecido com quando minhas pernas adormecem. Os movimentos não eram agradáveis ou desagradáveis. Eles apenas eram. Mas eu tinha que ignorá-los. Eu precisava classificar e compreender a explicação por ter me atrapalhado e por ter trapaceado sobre o emprego, antes que eu pudesse me concentrar em definir a profundidade do sentimento que pode, ou não, existir. — Não entendo, Jon. Como seria possível nos aproximar, me traindo? Apertou minha mão com mais intensidade e travou sua mandíbula. Soltou um suspiro lento, que assobiou entre os dentes, antes de confessar. — Eu dormi com Jem. Meu queixo caiu e meus cílios tremeram. Acreditei ter escutado mal. Minha voz era um sussurro, quando falei: — O que você acabou de dizer? O percebi engolir. Seus olhos ardiam e sua expressão era de agonia. — Eu dormi com a Jem. Dormi com sua irmã. Pude sentir as batidas do meu coração entre as minhas orelhas. — Isso não faz nenhum sentido. Jem não é... Jem vive em... — suspirei. A boca de Jon se mexeu, mas não consegui ouvir o que ele dizia. Pensei ter ouvido meu nome. Busquei respostas pela mesa, e disse novamente: — Isso não faz sentido. Sua mão puxou a minha e me despertou do meu estado indefinível. Ele estava no meio da frase, quando minha mente se recuperou. — ... ela me ligou e disse que estava na cidade. Disse que queria te fazer uma


surpresa, então eu a encontrei — suas palavras eram uma avalanche aumentando de ritmo, a próxima mais urgente que a anterior. — Não a via desde que ela nos visitou uma vez na faculdade e, quando a vi, não conseguia acreditar, ela parecia com você. Quer dizer, com você fisicamente. Ela está mais alta do que antes. Tem a sua altura, e os cabelos e olhos são mesmo da mesma cor que os seus. Pensei que era você a princípio, de longe, mas quando cheguei mais perto, vi as diferenças. A voz dela não parece nada com a sua. Ela não é nada como você. Eu sei disso agora, mas depois..., mas então ela estava tão interessada em mim, e ela parecia tanto com você, mas era tão diferente, animada, desinibida, e eu pensei... eu achei que... Nós nos encaramos por um longo tempo, minha mente se atualizando com suas palavras. Ele disse que ela se parecia comigo, mas só mencionou o cabelo e a cor dos olhos dela. Não fazia o menor sentido. Jem e eu sempre fomos mais parecidas do que June e eu, sim, mas Jem sempre fez tudo que estava ao seu alcance para mudar isso. Ela cortou o cabelo curto, tingiu de roxo, ou clareou. Usava lentes para mudar a cor dos olhos. Tinha piercing no nariz, piercing no lábio e outros piercings. Era verdade que a última vez que eu a vir, foi há seis anos, quando ela tinha dezessete anos e eu tinha dezenove. Eu parecia basicamente a mesma. O resto de suas palavras caiu sobre mim. Ela não é nada como eu. Ao invés disso, ela é interessante e animada. Ela é desinibida. Quando pensava em Jem, nunca foi nela interessada em outra pessoa, senão como um caminho para algum fim, e ela nunca foi animada. Se possível, ela era ainda mais retraída do que eu. Sempre pensei nela como friamente focada. No entanto, ela certamente era desinibida. Suspirei novamente. Apoiei minha testa na mão livre. Jon levou isso como um sinal para continuar, e fechei meus olhos quando ele falou. — Bebi demais, mas isso não é uma desculpa. Eu fui atraído por ela. Ela me lembrou muito de você, mas foi diferente porque... — ele soltou um suspiro instável. — Eu só queria você. Mas nunca pareceu que você me queria como eu te queria, você sempre foi tão desapegada. Ela agiu como se me quisesse, e eu gostei disso. — Ele engoliu a última palavra. Levantei minha cabeça e o observei. Ele parecia verdadeiramente arruinado. Limpei minha garganta e chamei sua atenção para mim. — Jon, por que você nunca disse algo sobre isso quando estávamos juntos? Eu nunca soube. Você nunca me disse que havia algo errado. Você nunca disse nada sobre eu ser distante. — Eu tentei. Realmente, eu tentei. Quando nós ficamos juntos pela primeira vez, achei que você me procuraria. Quero dizer, eu fui seu primeiro namorado.


Eu fui o seu primeiro..., mas depois, achei que talvez você não estivesse interessada nas coisas físicas. Achei que estivesse bem com isso. Eu pensei que pudesse lidar com isso, se isso significasse estar com você — ele precisou tomar fôlego de novo e quando falou, ele pareceu sufocado. — Mas agora, eu não consigo parar de pensar em você. Quando disse que eu sofro por você, estava falando sério. Todo dia é como se eu estivesse contando os minutos até te ver, e penso que talvez hoje seja o dia. Talvez hoje ela mude de ideia e me perdoe. — Seus olhos estavam cheios de lágrimas e avermelhados. — Janie, não podemos tentar de novo? Você pode me perdoar? Um pensamento repentino me ocorreu. — É isso que te fez sair naquela noite, quando te apresentei a Quinn? Ele sabe disso? Jon, silenciosamente, me analisou antes de responder. — Você está namorando com ele? Pensei sobre a pergunta dele e respondi, honestamente. — Não. Seus olhos perfuraram os meus. — Foi você ou ele que terminou? Bufei, impaciente. — Ele sabe? Quinn sabe sobre você e Jem? Jon sacudiu a cabeça, lentamente. — Não, não que eu saiba. — Então, por que você foi embora na noite no jantar? O que ele disse para você? Se possível, Jon parecia ainda mais desconfortável. — Não posso falar sobre isso ainda. Eu acabei de te contar... — ele passou a mão no cabelo. — Não podemos passar por cima disso? Você ainda não me respondeu, pode me perdoar? Pressionei os lábios, um contra o outro, em uma linha firme antes de perguntar novamente. — O que você e Quinn discutiram sábado passado? Por que você saiu? Jon balançou a cabeça, aparentemente não querendo encontrar o meu olhar. Mas eu sabia. De repente tinha certeza. — Foi a respeito do meu trabalho, não foi? Do qual você fez seu pai me demitir. Jon fechou os olhos e recostou-se na cabine. Sua cabeça bateu no encosto almofadado de couro. Pensei ter ouvido um palavrão escapando de sua boca. Ele parecia infeliz. Tentei engolir, mas a confusão em camadas com uma emoção viscosa, fez


minha garganta parecer inchada. — Como... — minha garganta trabalhou para engolir, e então eu comecei de novo. — Como ele sabia? Como Quinn soube que seu pai me demitiu? Jon balançou a cabeça, os olhos ainda fechados, e sua voz era muito suave quando ele disse: — Eu não sei. Ele apenas sabia.


Capítulo 16 — Quinn recrutou você, não é? Pisquei para Olivia algumas vezes. Fiquei confusa com sua pergunta repentina, mas me recuperei rapidamente. — Sim, pode se dizer eu sim. Era sexta-feira à tarde, antes da grande viagem de negócios a Las Vegas — (a grande viagem de negócios a Las Vegas, que agora eu temia) —. Sexta-feira da semana que estava se tornando a mais estranha de todas, e eu tentava funcionar com apenas duas horas de sono agitado. Não estava cansada quando cheguei ao apartamento naquela noite, apesar de ter passado das 2:00h da manhã. Elizabeth estava dormindo. Eu podia ouvir seu ronco suave, então, furtivamente, tirei minhas botas e fechei a porta para não atrapalhar seu sono, ou causar uma ira adicional. Minha mente estava ativa. Eu me sentia perturbada, mas estranhamente entorpecida. Chequei meu e-mail, de repente curiosa sobre Jem. Queria ver se ela havia respondido a mensagem que enviei no último sábado. Ela esteve na cidade esse tempo todo? Por que ela dormiu com Jon? Naveguei para o Gmail. Não havia novas mensagens. Pensei em enviar outro e-mail, mas tudo que eu queria perguntar, apesar da minha ambivalência em relação a Jon e o fim de nosso relacionamento, provavelmente me faria parecer uma ex-namorada louca e ciumenta. Minha vida estava perigosamente perto de se assemelhar a um episódio de Jerry Springer; tudo o que faltava era uma questão de paternidade de alguém. Comecei a digitar: Oi Jem, estou apenas enviando um e-mail para perguntar se você está na cidade. Jon mencionou algo sobre ter te visto a algumas semanas atrás. Em seu último email, você disse que queria me ver. Você ainda quer me encontrar? Janie. Cliquei em enviar e, em seguida, olhei distraidamente a tela até que ela ficou embaçada. Jon estava certo sobre tantas coisas. Evitei a intimidade emocional. Odiava confiar nos outros. Eu não era boa nisso, e me virava sozinha sempre que encontrasse uma dificuldade. Por causa disso, me dediquei a coisas que importavam para mim ou, usando Jon como estudo de caso, terminei abruptamente os relacionamentos. Eu também entrei em nosso relacionamento com expectativas extremamente baixas e, desde que eu mantivesse minhas expectativas no mínimo, era capaz de justificar meu investimento pessoal um


tanto delinquente nele. Não foi justo com Jon. Independentemente disso, ele me traiu com a minha irmã, e quando eu terminei com ele, ele pediu ao pai que movesse alguns pauzinhos para que eu fosse demitida. Nem sua motivação, nem seu desespero justificavam suas ações. Eu não podia e não iria perdoar Jon. E então havia o Quinn... — Como você o conheceu? Parece que vocês dois se conhecem muito bem. — Ela levantou as sobrancelhas para mim, com expectativa. Olivia e eu nos encontramos para amarrar as pontas soltas antes da nossa partida na segunda-feira, para Las Vegas. Até então, ela tinha sido um tanto inútil, mas não era inútil de uma maneira específica o suficiente para eu ter uma reclamação válida. Terminamos nossa reunião, mas ela ainda não havia saído. Eu queria franzir o cenho para ela e lhe dizer para voltar ao trabalho. Ao invés disso, eu disse: — Por que você diz isso? Olivia encolheu os ombros, seus olhos azuis, pálidos, me observando um pouco de perto. — Keira disse que ele te ligou umas três vezes hoje e você não atendeu nenhuma das ligações dele. Qualquer outra pessoa seria demitida. Quando cheguei em casa esta manhã, desliguei meu celular sem olhá-lo. Tentei não ficar obcecada sobre o quão distraída eu tinha sido, ou sobre o quão óbvia minha ignorância deve ter sido para ele. Eu não queria pensar sobre isso, então não pensei. Da mesma forma, quando cheguei ao trabalho hoje de manhã, configurei meu telefone para o correio de voz automático. Quando Keira apareceu na minha porta, indicando que o Sr. Sullivan estava ao telefone, ligando de Nova York e precisava falar comigo, eu disse que estava prestes a entrar em uma reunião e prometi ligar de volta. Eu fiz isso três vezes. Era verdade, eu não queria falar com ele. Eu não sabia como falar com ele. Em minha insônia pensativa na noite passada, percebi que ele nunca mentiu exatamente sobre ser meu chefe. Mas agora eu sabia que ele era o chefe e tudo era diferente. Eu ignorei a implicação de que eu estava evitando as chamadas de Quinn, e pensei em como responder à pergunta de Olivia com sinceridade, sem incluir detalhes reais. — Eu conheci o Sr. Sullivan no meu antigo emprego. — Ele recrutou você de lá? — Não. — Hmm — Olivia pareceu me contemplar por um momento, com um olhar de


lado, antes de dizer: — Carlos me contratou. Eu sou a única pessoa na empresa que não foi recrutada por Quinn. — Ah? Eu não sabia disso. — Eu estava distraída com todas as revelações da semana passada, e assim fui tentada a sucumbir ao agradável vazio de entorpecimento apático, mas eu simplesmente não conseguia reunir energia suficiente para fingir interesse naquilo que ela dizia. — Eu acho que... — ela se inclinou para perto de mim e baixou a voz para um sussurro conspiratório. — Eu acho que o deixo desconfortável. Minhas sobrancelhas levantaram-se por conta própria e eu a observei, confusa. — Quem? Carlos? Olivia riu levemente e jogou as mechas de cabelo castanho chocolate por cima do ombro. — Quinn, claro! Tentei não fazer careta quando ela usou Quinn em vez de Sr. Sullivan. — Por que você acha isso? — Bem, além do Carlos, você não percebeu que todo mundo que Quinn contrata é tão... tão... — ela olhou para cima, como se tentasse procurar a palavra certa. — Todo mundo é… você sabe, tão simples, ou são estranhos. — Ela fez uma pausa, os olhos fixos no topo da minha cabeça. — Você é muito grande para uma garota. Entendi o que ela quis dizer. Na verdade, suas palavras atingiram em cheio o meu estômago. Eu estava descobrindo que não era tão imune ao desprezo de pessoas bonitas quanto pensava. Pisquei para ela e não disse nada, mas na minha cabeça respondi: “Você é uma twatwaffle”. Twatwaffle é uma nova palavra, que encontrei no Urban Dictionary. Basicamente significa que uma pessoa é irritante. Eu ainda não tinha dito isso em voz alta, mas gostei do jeito que soava na minha cabeça. Ela continuou: — Carlos insinuou que Quinn é realmente um paquerador terrível — sua boca bonita, se curvou em um sorriso de conhecimento. — Eu acho que Quinn contrata mulheres que são simples ou estranhas, para que ele não se distraia no trabalho. Neste ponto, ele deve estar desesperado. Aposto que ele até flertou com você. Dei a ela a minha melhor imitação de um sorriso, mas eu tinha certeza que parecia um cachorro descobrindo seus dentes. — Essa é uma teoria interessante. — Hmm — ela repetiu, se inclinando para trás. — Ele flertou com você? Balancei a cabeça e olhei para o portfólio no meu colo. — Não, a menos que você chame beijos, de flertar.


Os olhos de Olivia se abriram muito por uma fração de segundo, então ela riu. — Você é engraçada! — ela bateu na minha perna com as unhas bem-feitas, em seguida, virou o cabelo longo, brilhante e liso sobre um ombro magro. — Bem — disse Olivia, em um suspiro audível — É bom que ele não tenha interesse em você, caso contrário, provavelmente não teria te contratado em primeiro lugar. Eu meio que queria esfaqueá-la no pescoço. — Janie, vocês duas já terminaram? — a forma de Steven apareceu na minha porta e, imediatamente, pulei do meu lugar, grata pela distração da tentativa de assassinato e pela chance de escapar. Fui até minha ampla mesa, para melhorar a distância entre Olivia e a caneta na minha mão. — Sim, tudo certo. Acho que Olivia tem o que ela precisa. — Se eu tiver alguma dúvida, dou uma passada mais tarde para perguntar. — Ela se levantou e deu a Steven um sorriso largo e amigável. Steven sacudiu a cabeça, seus lábios estavam franzidos. — Olivia, a Janie não tem mais tempo para trabalhar nisso com você. Ela precisa se preparar para a próxima semana, e esse relatório precisa ser feito até hoje à noite. É melhor você ver tudo o que precisa dela. Os olhos de Olivia encontraram os meus e seu sorriso se alargou. — Sim, acho que tenho tudo que preciso. Trabalhei no escritório no fim de semana, aproveitando a solidão. Isso me permitiu ter o espaço que eu precisava, para evitar pensar em algo confuso e desagradável. Eu realmente não precisava ir ao escritório. Poderia ter feito no meu laptop, de chinelos, no conforto de casa. No entanto, com toda a honestidade, evitar Elizabeth foi o subproduto intencional do meu trabalho de dois dias longe do apartamento. Eu ainda não tinha contado sobre as revelações de Kat, ou dito que descobri que Quinn era o chefe, ou que Jem e Jon haviam se envolvido em coitos extremos. Eu não sabia como contar à ela e parecia que era muito para lidar agora. Eu não estava pronta para falar sobre isso e sabia que ela me faria falar. Justifiquei minha ausência, insistindo para mim mesma, que precisava concluir a apresentação de faturamento e que esperava que o chefe a adotasse como a nova prática comercial da Guard Security. No entanto, agora que eu sabia que me apresentaria para Quinn ao invés de alguma entidade desconhecida, eu estava começando a ter dúvidas sobre a iniciativa. Eu tinha discutido isso com Quinn anteriormente, no dia em que ele me encontrou no Smith’s Take-away and Grocery, sem saber que ele tomaria a decisão, ou então, passaria a diante.


Agora, senti que precisava me por a prova. Meu trabalho não parecia ser meu, ou que eu tivesse algum mérito sobre ele. A pressão, dada pela combinação de me apresentar na reunião do cliente e provar que eu merecia trabalhar na Cypher Systems, junto com o pensamento de ver Quinn pela primeira vez em uma semana, agora o conhecendo como o chefe, fez meu estômago ficar como cabelo preso em chiclete — um enorme emaranhado de nós hediondos e insustentáveis —. Passei o tempo trabalhando incansavelmente na apresentação de faturamento. Finalmente fui para casa e me perdi em histórias em quadrinhos até 1:00h da manhã, e então acordei cedo e me enterrei no trabalho mais uma vez. Eu não sabia como iria encará-lo. O que eu diria? O que ele diria? Eu não tinha um roteiro para essa situação. Nos abraçamos, nos beijamos e gostei muito. Na manhã da segunda-feira da viagem eu estava tão exausta, que Elizabeth teve que me acordar. Ela me informou que meu despertador estava disparando há sete minutos, ao mesmo tempo em que, inconscientemente, eu apertava o botão da soneca. Tomei banho, trancei meu cabelo e o torci em um coque no alto da cabeça, e vesti meu terninho preto, distraidamente. No último minuto, decidi usar os óculos ao invés das lentes. Eu disse, a mim mesma, que isso era porque minhas mãos estavam tremendo demais para conseguir colocá-las. Passei pelos exercícios de enfrentamento do armário da minha cabeça várias vezes no táxi, a caminho do aeroporto, grata por me encontrar quase desapegada quando cheguei. Steven me encontrou em um lugar predeterminado, com café, um bolinho de mirtilo e um sorriso tranquilizador. Me guiou até a pista de pouso particular, enquanto me contava sobre um encontro desastroso do fim de semana, com uma advogada chamada Deloogle, ou, pelo menos, foi assim que o nome soou. Parecia que todos os nomes das mulheres com quem ele saía, rimavam com Google ou Bing. Não era incomum que ele me agradasse com histórias às segundas-feiras, sobre suas façanhas de final de semana. Normalmente, as noites terminavam com alguma calamidade histérica. Eu estava tão envolvida em sua história, que realmente não percebi para onde estávamos indo. Quando embarcamos no avião, ele entregou minha bolsa para um atendente e nos sentamos um ao lado do outro. Ele chegou ao final de sua história. — Foi tão repugnante, que eu precisei chamar os limpadores de carpetes para irem arrumar o lugar no domingo — ele balançou a cabeça. — Essa é a última vez que saio com alguém que usa um furão vivo como acessório. Eu sorri e ri, em seguida, percebi abruptamente onde eu estava. A calma dormente de antes, foi perfurada por uma pontada de consciência. Estávamos sentados perto da frente, no jato da empresa, e lutei contra a vontade de guiar


minha cabeça para ver o resto da aeronave. Em vez de tentar discernir os ocupantes, me concentrei no interior do avião. Não tinha como comparar, já que nunca viajei em um avião particular, mas o ambiente era impressionante, tudo parecia novo e brilhante. Os assentos eram de couro bege, o acabamento e o carpete eram azul-marinho, e a parede era forrada com painéis de madeira trabalhada. Os assentos foram agrupados em grupos de quatro, frente a frente: dois voltados para frente, dois voltados para trás. Presumi que isso fosse para facilitar a conversa durante o voo. Uma comissária se aproximou de nós. Ela era muito bonita e, imaginei, com quarenta e poucos anos. — Gostaria de algo para beber, antes de decolarmos? Limpei minha garganta. — Não, obrigada, estou bem. Mas... uh... dá tempo de usar o banheiro antes de sairmos? Ela assentiu. — Claro. Fica na parte de trás do avião. Dei um sorriso e comecei a andar em direção aos fundos, quando fiquei cara a cara, ou melhor, peito a peito, com uma parede sólida de homem. — Ah, desculpe. — Recuei um passo e agarrei o assento para manter o equilíbrio, meus olhos levantando automaticamente para o rosto da barreira. Imediatamente me arrependi do movimento quando meu olhar encontrou o de Quinn Calças-Quentes Sullivan. Pelo poder de Thor!


Capítulo 17 Suas mãos estenderam-se para os meus braços, suponho que para me firmar, e ficamos nos olhando por um longo minuto. Boquiaberto, me observando com uma máscara impassível e olhos azuis flamejantes. Estava ainda mais devastador e injustamente bonito, do que eu me lembrava. Não ajudou que ele estivesse vestindo um terno preto bem cortado, obviamente sob medida, e uma camisa branca com uma gravata de seda azul impressionante. Fui a primeira a desviar o olhar. Pisei para trás, ficando fora de seu aperto, deixando minha atenção cair no tapete da marinha, enquanto brincava desnecessariamente com meus óculos. Consegui reunir minha inteligência, tentando me focar no quanto estava irritada, porém, a simples presença masculina, fez meus hormônios se transformarem em uma enorme confusão. Estiquei minha mão para frente, oferecendo um aperto de mãos. — Sr. Sullivan, é muito bom ve-lo de novo. — Olhei para ele enquanto ele apertava minha mão, tentando ignorar o quão agradável sua pele era contra a minha, e esse estúpido — sim, estúpido, porque era inconveniente, e meu vocabulário estava sofrendo com a sua presença — choque, que era uma dor deliciosa, quando nos tocamos. Eu tentei lhe dar um aperto de mão profissional e firme. — Senhorita Morris. — Apesar de sentir um pequeno resquício de tristeza na formalidade de sua saudação, sua voz causou pequenos arrepios pelas minhas costas, o que me deixou ainda mais desequilibrada. Seus olhos se moviam sobre mim, na mesma avaliação aberta e clara que ele sempre parecia empregar, começando pelos lábios, passando pelo pescoço, ombros, até chegar nos meus pés. Nossas mãos ficaram suspensas entre nós, paralisadas, e lutei para evitar ficar completamente enrubescida sob sua atenção. Continuei imóvel, pois não queria romper o contato e nem queria ficar longe. Eu tinha certeza de que ele não tinha ideia do que me causou, apenas por me olhar e por segurar minha mão. Em uma fração de segundo, imaginei aquela mão em outra parte do meu corpo, e perdi a batalha contra o meu rubor. Tentei encobrir meu constrangimento e, como sempre, comecei a falar sem pensar. — É um bom avião esse que você tem — seus olhos se ergueram para os meus, subtamente. — Não entendo muito sobre jatos corporativos ou privados. Parece que a eficiência de combustível é um problema real, já que os aviões,


nessa questão, são menos eficientes. Quinn inclinou a cabeça para o lado, prendendo minha atenção, com seu olhar intenso. — Você está dizendo que prefere dirigir até Las Vegas? — Bem, os trens podem ser muito bons. Talvez você deva investir em um trem corporativo. Houve um estudo, realizado pela AEA Technology, comparando um trem Eurostar e uma viagem aérea entre Londres e Paris. Conclui-se que os trens emitiram dez vezes menos CO2, em média, por viajante do que aviões. Não se esqueça, os trens também têm vagões para dormir… dormitórios. A boca de Quinn se curvou em um sorriso quase inexistente, e a sombra de seus olhos pareceu escurecer. — Os aviões podem ter camas, também. Talvez eu possa instalar uma nesse avião, para a próxima vez que viajarmos. — Como você decidirá quem ficará na cama, e quem ficará no assento? — pisquei para ele. Ele abriu a boca como se quisesse responder, mas rapidamente a fechou e retirou a mão da minha, franzindo a testa para mim. — Boa pergunta. O som de alguém limpando a garganta, tirou minha atenção de Quinn. Olivia Merchant e Carlos Davies estavam de pé ao nosso lado, observando nossa conversa. Carlos me deu um pequeno sorriso, enquanto seus olhos se estreitavam e se moviam entre Quinn e eu. Mas Olivia, que foi quem limpou a garganta, franziu a testa. Não percebi quando eles se aproximaram. Na verdade, eu não tinha notado nada além de Quinn, desde o momento em que colidi em seu peito. — Com licença, Janie. Estamos tentando ir até nossos lugares. — Olivia fez um gesto com a mão em direção aos assentos vazios, em frente a Steven e a mim. — Ah, desculpe. — Pisei para o outro lado, para que eles pudessem passar. Em seguida, abaixei em torno de Quinn, com cuidado para evitar mais contato visual ou físico, enquanto eu corria em direção ao banheiro, na parte de trás do avião. Uma vez na segurança do banheiro do avião, deixei minha cabeça bater contra a parede atrás de mim e olhei meu reflexo no espelho. Admito, eu não estou acima de falar comigo mesmo no espelho. Na verdade, faço isso com bastante frequência. A imagem que encontrei olhando para mim, estava coberta de manchas vermelhas, frutos de um rubor impressionante, e uma expressão sombria. Eu queria, não, eu precisava encontrar alguma maneira de desligar minha intensa reação involuntária a Quinn. Ele esteve fora por uma semana, e todo o


progresso que eu fiz para me sentir confortável e conseguir agir com facilidade na presença dele, havia se dissipado. Eu estava agindo como uma adolescente ridícula. Ok, Janie, lembre-se: Quinn é seu chefe. O chefe! O chefe. Eu gemi. Respirei profundamente por um tempo e tentei acalmar a batida do meu coração. Por que eu me senti tão dolorosamente autoconsciente? Será que, agora, eu compreendia plenamente como estava fora dos limites, e como eu estava infelizmente condenada a viver em um estado de perpetuação não correspondida? Para meu total desespero, sua presença pareceu fazer a caixa invisível, em minha mente, explodir instantaneamente durante o contato visual, fazendo com que meus pensamentos e sentimentos, que estavam ordenadamente dobrados no meu armário de calmaria, se espalhassem. Não foi apenas a sua superioridade física que me deixou nervosa, não mais. Inegavelmente, como demonstrado durante nosso encontro inicial, no elevador, a grandiosidade de suas feições pareceu me tornar dolorosamente incapaz de manter conversas normais. Agora eu o conhecia. Agora eu tinha memórias ligadas a ele. Eu me lembrava, com detalhes vívidos, da maneira como ele inclinava a cabeça quando me escutava, o som de sua voz, o som de sua risada, suas respostas prontas às minhas perguntas hipotéticas, o jeito que ele me provocava, o toque de seus dedos roçando meu cabelo sobre meus ombros, o calor do seu olhar enquanto se movia sobre o meu corpo, o que seu peito parecia depois de um banho. O último pensamento me fez gemer novamente, quando uma nova onda de formigamento constrangedor foi do meu estômago, para as pontas dos meus dedos. Olhei em volta do pequeno banheiro e fiquei pensando por quanto tempo mais poderia ficar, sem levantar suspeitas quanto ao meu estado de saúde física ou mental. Foi a segunda vez, em dois meses, que considerei morar em um banheiro. Olhei para o meu relógio. Estávamos programados para partir em menos de dez minutos. Eu precisava me recompor. Fechei os olhos e passei pelos exercícios normais de dobrar meus sentimentos imprudentes, mas todos pareciam tomar a forma de lingerie rendada, preta e vermelha. Frustrada, mordi meu lábio inferior com força e resolvi lavar as mãos. Se eu pudesse me concentrar em algo tão simples, como lavar e secar minhas mãos, eu poderia passar pelas próximas quatro horas no jato particular de Quinn Sullivan. Dei minha última respirada significativa, em seguida, saí dos limites seguros


da cabine do banheiro, alisando minhas mãos sobre as minhas coxas para aliviar meus estresse. Andei com cautela até a parte da frente do avião e tentei parecer despreocupada, como um ser humano normal, capaz e confiante, ao invés da neandertal desajeitada e cabeçuda que sou. Quase corri de volta para o banheiro, quando vi que Carlos tinha tomado o assento que eu havia ocupado anteriormente, ao lado de Steven, e Quinn estava sentado em frente ao Carlos. Isso deixou uma vaga, no aglomerado de quatro lugares, que era o próximo a Quinn. Engoli com esforço e hesitei. Eles ainda não haviam me notado. Meus olhos percorreram o espaço e pararam na parte de trás da cabeça de Olivia. Ela estava sozinha nos assentos próximos aos deles. A poltrona em frente a ela poderia ter sido rotulada como a minha melhor opção. Me convencendo, percorri a distância e me movi para pegar a minha melhor opção, mas Steven — maldito Steven! — chegou primeiro. — Janie, sente-se aqui — ele apontou para o assento ao lado de Quinn. — Olivia fará algumas anotações. O Sr. Sullivan precisa que você revise as últimas faturas. Eu estava contando a ele sobre seus pensamentos referente ao gerenciamento das despesas da Guard Security, usando o software de rastreamento faturável. — Ah. Ok. — Olhei do sorriso de Steven, para a cara feia de Olivia, que, se possível, parecia se intensificarr quando deslizei para o assento ao lado de Quinn. Eu não olhei para Quinn, no entanto. Não o olhei quando expliquei o propósito do software, como eu me deparei com o projeto de código aberto, quando eu estava na pós-graduação, e como eu o usei como uma maneira eficaz de rastrear o tempo gasto em tarefas e atribuir esforço a cada uma delas. O avião percorreu a pista e decolou. O sorriso encorajador de Steven, os olhos castanhos e quentes de Carlos e até o olhar um tanto hostil de Olivia, me deixaram nervosa. Quando terminei de explicar como o sistema poderia ser adaptado para melhorar a eficiência e a lucratividade dos faturamentos e das cobranças, em um sistema atual, baseado em tempo que eles usavam, estava quase calma. — Com base em dados históricos, fiz uma análise que, embora hipotética, demonstra que poderíamos aumentar os redimentos, mesmo em curto prazo. Carlos, por favor, me dê meu iPad? Acho que está embaixo do seu assento. — Mudei de posição e apontei para a minha bolsa. — Mas é claro. — Carlos se inclinou para frente e conseguiu alcançar meu case. — É uma ideia interessante. — A voz de Quinn soou pensativa, e eu o senti se aproximar de mim, inclinando-se para mais perto, enquanto eu abria o iPad na lista com marcações que havia preparado, sobre o impacto da implementação do


software. — Não poderemos usar o produto de código aberto, mas poderemos fazer com que nossa equipe desenvolva algo semelhante, internamente — comentou Carlos. — É realmente um ótimo produto — rolei para baixo, para uma descrição do sistema. — Verifiquei na semana passada, e eles acabaram de forçar um novo lançamento. A voz de Quinn estava muito perto do meu ouvido enquanto ele falava, e eu pude sentir o ar ao meu redor mudar quando ele se inclinou sobre o meu ombro. — Essa não é a questão. Tenho certeza de que é um ótimo produto, mas não podemos usar software de código aberto. — Nós também não poderiamos aplicá-lo ao grupo Infinite Systems — Steven soou objetivo quando entrou na conversa, e encolheu os ombros. — Mas, para nossos parceiros corporativos, responderia a muitas das perguntas deles sobre a estrutura de faturamento. Fiz uma careta, olhando de Carlos para Steven. — O que estou perdendo aqui? Por que não podemos usar o código aberto? Quinn colocou a mão sobre a minha e puxou o iPad entre nós, o que me fez ter que virar para ele. Ele não estava olhando para mim, mas sim para a tela enquanto murmurava: — Problemas de segurança de dados. Minha voz estava um pouco instável, enquanto eu tentava me concentrar em algo diferente do sentimento de sua mão cobrindo a minha e me segurando no lugar. — Bem, por que não podemos usá-lo para o grupo Infinite Systems? Quinn levantou o olhar para mim abruptamente. Seus olhos se estreitaram e o silêncio se esticou. Eu pensei que ele não ia responder. Sua mandíbula parecia estar travada e sua boca estava desenhada em uma linha particularmente fina, como se ele estivesse refletindo sobre algo desagradável. Aproveitei a oportunidade para olhá-lo, para realmente olhar para ele. Senti uma dor contorcer logo abaixo do lado esquerdo da minha caixa torácica, que fez minha respiração falhar. Senti falta de olhar para Quinn, e senti falta de conversar com ele. Mas ele não era o Quinn. Ele era o Sr. Sullivan, O Chefe. Lambi meus lábios e quebrei o silêncio. — Acho que isso realmente não importa, eu só achei... Eu só achei que seria bom manter as coisas consistentes. Um lampejo momentâneo de algo que parecia quase um alarme, cruzou as feições de Quinn, e ele se virou para Steven. Sua voz parecia acusadora.


— Pensei que Janie só trabalhasse nas contas públicas. Steven ergueu as mãos ligeiramente, como se estivesse se defendendo. — Ela trabalha. Nós dividimos as duas. Eu cuido de todos os clientes confidenciais na implementação, mas... — os olhos de Steven encontraram os meus, por um breve momento, antes que ele continuasse. — Mas Carlos e eu estávamos pensando que alguns dos clientes da Infinite Systems poderiam reagir bem a ela. — Achei que tivesse sido bem claro. — A voz de Quinn, embora tranquila, teve a cadência de um rosnado e ele puxou o iPad completamente das minhas mãos, colocou em seu colo, e voltou sua atenção para as figuras na tela. Carlos pigarreou, e só pude assistir a estranha conversa, com olhos arregalados e confusos. — Sr. Sullivan, Janie é muito talentosa. Por favor, considere. Quinn bufou. — Não. Assunto encerrado. Ele estava com raiva. Quinn parecia ainda mais incrível quando estava com raiva. A tolice da minha prioridade no processo de pensamento, me ocorreu lentamente, enquanto o observava revendo a informação que eu havia preparado. Eu sabia que, ao invés de focar em sua beleza, eu deveria me concentrar no motivo pelo qual fui excluída, propositalmente, de fazer parte da Infinite Systems. Talvez tenha algo a ver com minha suspeita de que eu não merecia o trabalho — que fui contratada por capricho, não por habilidade. Desviei minha atenção dele e engoli em seco. Minha garganta parecia grossa e apertada. Examinei o grupo. Steven encontrou meu olhar brevemente e me deu um sorriso tenso, de desculpa. A expressão de Carlos era de uma frustração tempestuosa, direcionada às suas mãos em seu colo. Olivia pareceu me olhar com algo parecido com desaprovação e suspeita. Antes que minha mente pudesse vagar, Quinn abruptamente soltou o iPad no meu colo e sua voz estava distante quando falou. — Envie o link da Web ao grupo de desenvolvimento e os façam usar o produto de código aberto, para começar a elaborar os requisitos. Agora, antes de pousarmos, quero revisar as faturas do Club Outrageous e a extensão do trabalho das propriedades de Las Vegas. Com o assunto do meu envolvimento com a Infinite Systems agora encerrado, nos voltamos para o assunto da reunião que viria. Durante o desafio de duas horas que se seguiu, fiz o meu melhor para ficar focada nas perguntas de Quinn e onde ele apontava, e não na boca e nas mãos. Juro que os feromônios secretados por Quinn Sullivan, eram o equivalente a erva-de-gato da Janie.


Os momentos mais difíceis e perigosos, eram quando ele se aproximava de mim e se inclinava no meu ombro. Me vi resistindo à vontade de me encostar na gola do casaco dele e senti-lo. Uma hora fiquei um pouco obcecada com a pulsação da veia na base do pescoço de Quinn, que quase perdi uma das perguntas de Carlos. Carlos pareceu aceitar minha resposta distraída, como sinal de fadiga. Ele sugeriu que fizéssemos uma pausa. Todos concordaram imediatamente. Felizmente, Quinn pediu licença, tirou o celular do bolso e foi até os fundos do avião para fazer uma ligação. Não permiti que meu olhar permanecesse em seu traseiro enquanto ele se afastava, embora eu quisesse. Ao invés disso, levantei meus olhos para Steven e ele piscou para mim. Seu pequeno gesto serviu para acalmar meus nervos e forcei minhas mãos a relaxarem no case do iPad. — Você realmente foi ótima. — Carlos foi o primeiro a falar. Seu tom estava baixo. Não tinha certeza se ele estava tentando ser educado com a ligação de Quinn, ou se ele simplesmente não queria ser ouvido. — Obrigada — dei um sorriso de lábios apertados. — Ele é sempre assim nas viagens? Steven assentiu. — Pode ser bem brutal, mas, você sabe, ele é o chefe. Ele faz o trabalho acontecer, e nós precisamos acompanha-lo. Olivia se inclinou para o corredor. — Eu não ligo. Acho ele brilhante. Steven murmurou algo em voz baixa, mas não consegui ouvir. Fiz uma careta para ele, e ele disse: — Te conto depois. — Parece que estamos chegando. — Carlos comentou distraidamente, enquanto olhava pela janela. Coincidentemente, a comissária de bordo apareceu e nos disse para colocar o cinto de segurança. Estávamos prestes a pousar. Quando prendi meu cinto, notei que Quinn estava sentando em um dos quatro assentos no fundo do avião e ainda não tinha terminado sua ligação. Seus olhos encontraram os meus brevemente e pensei tê-lo visto sorrir — um de seus sorrisos leves — Então ele desviou o olhar e fez uma das suas carrancas severas e ferozmente irritadas. O avião começou a descer e eu ainda estava sentada firmemente na montanharussa da incerteza. Que… ótimo.


Optei por me esconder no banheiro, até ter certeza de que todos tinham desembarcado. Assim que saí do avião e entrei no calor seco do aeroporto particular de Las Vegas, me impressionei imediatamente com a paisagem colorida e pálida. O deserto era rico em tons de marrom, vermelho e laranja, e mais nada além disso. Era uma mistura profana de calor e areia e fogo e gasolina e cigarros. De repente fiquei com sede. Quando finalmente desci os degraus, vi duas limusines pretas estacionadas próximas ao avião. Steven, Carlos e Olivia entregaram suas malas para um dos motoristas, e Quinn estava de pé, ao lado da segunda limusine, imerso em uma conversa em seu celular. Puxei minha bolsa atrás de mim e me dirigi para Steven, na primeira limusine. No entanto, antes que eu pudesse entregar minha bolsa, ouvi a voz de Quinn atrás de mim. — Senhorita Morris, você vai aqui comigo. Virei apenas a cabeça em sua direção e hesitei. Eu estava tendo dificuldade em compreender que eu não iria na limusine 2, com Steven, Carlos e Olivia. Eu iria na limusine 1, com o Sr. Sullivan Chefe Calças-Quentes. Steven estendeu a mão, apertou a minha e me manteve no lugar por um breve momento. Sua voz era baixa o suficiente para garantir que ninguém mais ouvisse o comentário. — Ele vai te submeter ao passeio de vinte minutos de silêncio infernal. Após a reunião desta tarde, pediremos serviço de quarto e faremos uma festa do pijama. Podemos lamentar e você pode chorar no meu ombro. Levantei minhas sobrancelhas alerta, lembrando da história de Steven sobre andar sozinho com Quinn, e me perguntando se, agora que estava estabelecido que ele era meu chefe, Quinn pararia de falar comigo. Ele parecia tão diferente no avião, tão distante e reservado. Imaginei que nos sentaríamos em silêncio na limusine, enquanto sua expressão vacilava entre insensível e apática. Meu estômago, de repente, doeu. O motorista 1 pegou minha mala e eu o segui, obedientemente. Quinn ainda estava ao telefone e andava de um lado para o outro, atrás da limusine, quando cheguei à porta aberta do passageiro. Eu entrei no carro escuro e meus olhos demoraram vários segundos para se ajustar. Esta era a segunda vez que eu entrava em uma limusine. A primeira vez, foi no meu pior dia de todos. Me perguntei o que Vincent, meu motorista, estava fazendo naquele momento. Esta limusine era significativamente maior que a primeira. Bancos de couro preto, se estendiam em longas linhas, em ambos os lados do interior do carro. O que parecia ser um bar totalmente abastecido, estava logo abaixo da janela de


privacidade, à frente. O interior tinha aquele cheiro de carro novo, mais o cheiro espesso de terra de couro fino chique. Ao invés de me sentar em um banco voltado para frente, optei por um dos assentos laterais. Particularmente, não queria me sentar ao lado de Quinn. Achei que a distância no espaço, poderia fazer do passeio infernal, um pouco mais suportável. Quinn entrou no carro do mesmo lado que eu. A porta se fechou atrás dele e ele olhou para a direita, fez uma pausa e examinou o interior. Seus olhos pousaram em mim quase imediatamente. Eu não retribuí seu olhar, mas o senti, quando me concentrei nos decantadores de cristal na frente da cabine. — Quer beber alguma coisa? Balancei a cabeça, que não. Embora estivesse com sede, eu tinha dificuldade para engolir. Ao invés disso, dobrei e coloquei minhas mãos no meu colo, em seguida, apertei meus joelhos. O motor do carro ligou e a limusine saiu. Olhei pela janela diretamente na minha frente, mas o vidro era tão escuro, que embaçava a paisagem. Vários longos minutos se passaram em silêncio e, por uma vez, acalmei o desejo de vagar, da minha mente. Contei as luzes ao longo do painel de madeira, no teto, e tentei imaginar o robô, na linha de montagem de fabricação, responsável por tal trabalho detalhado. Eu gostava da ideia de robôs e esperava viver para ver os robôs serem adotados pelos lares, como animais de estimação ou companheiros. Totó se tornaria Robo-totó e os idosos poderiam ter um Robopania. A voz de Quinn estava calma quando ele interrompeu minhas reflexões. — Sobre o que você está pensando? Limpei minha garganta e encolhi os ombros. Me peguei respondendo com honestidade, antes que eu pudesse pensar em me parar. — Robôs. — Robôs — eu o ouvi se mover no banco, em seguida, passar para o assento em frente a mim. Nossos joelhos e tornozelos se tocaram, suas longas pernas invadiram meu espaço. — Por que está pensando em robôs? Meu coração pulou e, devido a sua proximidade, disparou. Dei de ombros e concentrei minha atenção na seda azul de sua gravata. Parecia roxo na cabine escura. Apesar das minhas melhores intenções e tentativas de autocontrole, o contato físico de nossas pernas fez meu estômago explodir em um ninho de vespas nervosas. Fiquei em silêncio, porque descobri que minha boca não funcionava mais. Ele se inclinou para frente, apoiando os cotovelos nos joelhos. Suas mãos estavam entrelaçadas e suspensas pairando acima das minhas coxas.


— Janie, por que você não retornou minhas ligações? — sua voz soou firmemente controlada, como se ele estivesse lutando para manter seu temperamento sob controle. Levantei meu olhar para o dele, surpresa com o uso do meu primeiro nome. Engoli. — Eu... Senhor Sullivan... — Não faça isso. — Ele meio que gemeu, meio que rosnou, e cobriu minhas mãos com as suas. Eu o estudei por um momento. Um nó grosso estava na minha garganta e o ninho de vespas rodopiava furiosamente em meu estômago, incitado pelo seu toque. Finalmente consegui dar uma resposta sufocada. — Não tenho certeza do que quer que eu diga. Ele estreitou os olhos em uma ligeira indicação visível de frustração, e então, eles mudaram para os meus lábios. — Por que você desligou o celular? Eu cerrei meus dentes. As vespas estavam se transformando em uma colônia de abelhas africanas furiosas. Seus sentimentos de hostilidade, se espalharam por mim e fizeram meu corpo cantarolar de ressentimento agravado. Fiquei surpresa com o quão zangada eu estava quando respondi. — Por que você não me disse que era o chefe? Seu olhar encontrou o meu e me prendeu. — Eu disse. Endureci, em seguida, puxei minhas mãos das dele e segurei o assento em ambos os lados das minhas pernas. — Ah, eu estava dormindo durante essa conversa? Ele franziu a testa. — Você está brava comigo? Pisquei para ele, talvez três vezes, possivelmente quatro, em confusão. — Eu... não estou... — gaguejei e, então, finalmente consegui falar uma frase completa. — Eu não estou brava com você. — Bem, então você passa bem a impressão de raiva. — Sr. Sullivan... — Não me chame assim — ele me interrompeu novamente, mas sua voz era mais suave agora. — Não me chame assim, a menos que você queira. — Eu quero. Minha declaração foi recebida com silêncio. Sua expressão era dura, frustrada, determinada. Ele me observou, aparentemente, por vários minutos. Tentei, mas não consegui encontrar o seu olhar. Minha ansiedade aumentou a cada segundo e, portanto, minha mente começou a disparar em todas as direções. O carro


virou, e pensei comigo mesma que devia ter amortecedores excelentes, porque parecia que estávamos deslizando. Imaginei o carro em patins de gelo deslizando por um lago congelado, sendo empurrado por robôs. Finalmente, bem calmo, ele disse: — Por quê? — Porque... — engoli em seco. Meu peito parecia incrivelmente apertado. — Porque eu tenho o hábito de dizer algumas coisas inapropriadas, como sabe. E você não é apenas meu chefe. Você é o C, em B e C, que é Betty e o Chefe. Me lembro de, pelo menos, dezessete coisas que lhe disse e nunca deveria dizer ao chefe. E, se eu continuar te chamando... — respirei fundo, meus dedos cravaram no assento de couro. — E, se eu continuar o chamando de Quinn, vou dizer pelo menos mais dezessete, se não mais trinta e quatro, ou mais duzentos e oitenta e nove coisas. — Então você, definitivamente, deveria continuar a me chamar de Quinn. Suspirei e olhei para ele, cautelosamente. De repente, ele se inclinou para a frente, gentilmente levantou uma das minhas mãos do banco e seu polegar se moveu em câmera lenta sobre as costas dos meus dedos enquanto ele segurava entre as palmas das mãos. — Olhe. Eu realmente gostei de todas as dezessete observações inapropriadas sem controle que você fez e, se você se lembra, eu mesmo disse pelo menos dezessete delas. A sensação de seu polegar se movendo sobre as costas da minha mão, estava fazendo algo inesperado no meio do meu corpo. Em um esforço para mascarar o efeito, engoli rigidamente, firmei meus lábios em uma linha rígida e não disse nada. O que eu queria fazer, era desabotoar minha camisa e lhe pedir para imitar esse movimento em outro lugar. — Eu ficaria muito desapontado se você começasse a se comportar de maneira diferente comigo. — Suas feições e seu tom eram sérios e implorantes. Seus olhos eram um tom escuro e ardente de azul-cobalto, na limusine mal iluminada, mas o polegar movendo em circulos era a minha ruína. Me senti afobada e confusa, o que fez meu tom parecer mais acusador do que eu pretendia, quando fiz a primeira pergunta que me veio à mente. — Por que você me contratou? Seu polegar parou, apenas brevemente, antes de responder. — Porque, apesar de sua insistência do contrário, você tem uma memória fotográfica, você tem uma abordagem extremamente analítica para a prática de negócios, você é uma contadora fantástica, e suas pernas estavam incríveis naqueles sapatos. Tirei minha mão de seu aperto e, por falta de saber o que fazer com os


apêndices trêmulos, conhecidos como braços, eu os cruzei. — Você não pode dizer essas coisas. Você é meu chefe. Sua mandíbula flexionou e ele fechou as mãos vazias em punhos. — Mas eu não sou apenas seu chefe, sou? — Você está certo. Tecnicamente, você é o chefe do meu chefe. — Ele ignorou meu comentário. — Estamos namorando. — Bem, eu não namoro com meus chefes, então... — Fechei os olhos e suspirei. Eu queria que o passeio de carro acabasse. Se eu apenas fechasse meus olhos, talvez todo o drama fosse embora. Eu o ouvi suspirar, foi um som de raiva. Suas pernas ainda estavam pressionadas contra as minhas e eu podia sentir seu calor através de nossas camadas de roupa. Meus olhos ainda estavam fechados quando eu perguntei: — Por que não me disse quem você era? — Eu disse. Mais de uma vez. Soltei uma respiração lenta, antes de responder. — Você sabe o que eu quero dizer — levantei minhas pálpebras e encontrei o seu olhar fervendo. — Você sabia que eu não tinha entendido. Por que você não me corrigiu? Seus olhos brilharam com intensidade ofuscante. Quando ele falou, seu tom era severo. — Você teria ficado comigo no show, se eu tivesse contado? Você teria me deixado te beijar? Você teria saído para jantar comigo? Ficado no parque? — Seus olhos se estreitaram, e meu estômago se pôs de pé, quando vi sua expressão deslizar com cada palavra, cada vez mais fundo em uma máscara de indiferença. Eu balancei a cabeça lentamente, e respondi com honestidade: — Não. Não, não teria. Mas você sabia que eu descobriria eventualmente. Ele olhou para longe de mim e endireitou a gravata, alisando a mão pela seda azul, seu tom de voz encharcado de sarcasmo superior. — Até então, eu esperava que não fizesse diferença. O carro diminuiu a velocidade e parou. Engoli um nó gigante, na garganta. Eu não queria fazer a próxima pergunta, mas precisava saber. Era melhor saber. — O que você vai fazer agora? Sua voz e seu rosto estavam desprovidos de emoção, e ele quase parecia entediado quando respondeu. — O que você quer dizer? — Quero dizer, ainda tenho um emprego? Ele se encolheu, como se eu tivesse batido nele. Seus lábios se separaram e


suas sobrancelhas escuras se abaixaram sobre os olhos, que pareciam disparar fogo em minha direção. — O quê? — Por um momento, ele pareceu verdadeiramente atordoado. Levantei meu queixo e agarrei o banco de couro, para firmar minhas mãos. — Eu ainda tenho um emprego? A porta do carro se abriu e meus olhos se moveram automaticamente para a luz — minha fuga —. Quando ele não se moveu e nem respondeu, relutantemente concentrei minha atenção nele novamente e percebi que ele não parecia tão sério. Ao invés disso, seu olhar se suavizou consideravelmente. Se possível, a compreensão tranquila de sua expressão me incomodava mais, do que a frieza insensível que ele empregou anteriormente. Suspirei e me movi pelo assento em direção à porta, mentindo para mim mesma que eu queria esquecer esse passeio de carro e esquecer que Quinn já foi alguma coisa além de meu chefe. Eu saí primeiro e caminhei em direção ao porta-malas, esperando pegar minha bolsa e desaparecer no grande saguão do cassino. Senti que eu poderia até chorar. A limusine 2 estava manobrando no cassino, mas ainda estava um pouco distante. Senti Quinn parando atrás de mim, e então a mão dele segurou no meu braço, bem acima do meu cotovelo. O calor de suas palavras na minha orelha e pescoço, me fez tremer apesar do calor do sol de Las Vegas. — Te encontro mais tarde. Me virei para encará-lo, mas ele já tinha soltado meu braço. Ele andava em direção ao saguão do hotel, e para longe de mim.


Capítulo 18 Eu era basicamente Rudolph, a rena do nariz vermelho, exceto que, ao invés de um nariz vermelho piscando, eu tinha um rubor vermelho. Quinn Sullivan fez minha luz piscar e apagar. Poderia guiar um trenó por ele, ou um jato particular. Era um farol de constrangimento, mortificação, prazer, repugnância, consciência, frustração e, sim, raiva. No momento, no entanto, eu tinha um tom normal de bege esbranquiçado. Eu estava atenciosamente ouvindo Quinn, quando ele terminou a apresentação que nossa equipe organizou para a reunião. Foi uma visão geral da segurança estabelecida para o Club Outrageous, um esquema do novo clube em Vegas, sobrepondo as fraquezas identificadas nas operações atuais, uma comparação de abordagens para gerenciamento de segurança de toda a propriedade, incluindo o cassino, e assim por diante. Foi uma apresentação consistente. Eu sabia de cor. Não ouvi nada. Em parte, porque eu sabia de cor e em parte, porque Quinn fez a apresentação. Passei a meia hora inteira tentando parecer atenta ao conteúdo, ao invés dos movimentos ágeis e finos do conferente, a cadência de sua voz, a profundidade de seus olhos de cobalto, a forma de sua... Pisquei intencionalmente e balancei a cabeça um pouco, na intenção de redirecionar meus pensamentos. A sala estava escura para a apresentação e fiquei grata por isso. À tarde, até este ponto, tinha sido como um borrão. Depois que Quinn me deixou do lado de fora da limusine 1, a limusine de Steven, Carlos e Olivia se aproximou da nossa. Carlos não pareceu surpreso em me encontrar sozinha e me acolheu de forma calorosa no grupo deles, me ajudando a fazer o check-in no hotel. Realmente, tudo que eu precisei fazer, foi segui-lo até o cassino e ele fez todo o resto. Ele até me entregou a chave e disse qual era o número do quarto e como encontrar os elevadores. Fomos dispensados, com instruções para nos encontrarmos no saguão do hotel em uma hora. Fui para o meu quarto e não fiz muita coisa a não ser franzir a testa, usar o banheiro, escovar os dentes, olhar para a lista de canais de TV no quarto e depois descer para o saguão munida de meu portfólio e o iPad. Carlos e Olivia estavam sentados de frente um para o outro, em grandes sofás dourados incrustados de joias. Não estavam conversando, ao invés disso, estavam no mesmo local, porém ausentes, absorvidos no conteúdo de seus próprios celulares. Olhei ao redor com um pouco de receio. Nem Quinn, nem Steven estavam presentes no saguão. Carlos me notou primeiro, e ele e Olivia ficaram em pé ao


mesmo tempo em que eu me aproximava. Foi quando vi uma terceira pessoa, também de pé em uníssono, que também estava absorto no telefone. Ele era de estatura normal, um pouco mais alto do que eu, tinha cabelo loiro avermelhado, olhos azulados normais e uma sutil quantidade de sardas, embora leves, nas bochechas, mas, estranhamente, no nariz não. Apresentações foram feitas rapidamente; o desconhecido era sobrinho do dono do cassino e gerente do novo clube. Seu nome era Alex, ou Adrien, ou Aiden, ou Allen, ou algo assim. Fui apresentada formalmente como a Srta. Morris, Coordenadora Sênior de Projetos Fiscais e gerente da conta. Apertamos as mãos. Pode ser que ele tenha sorrido e segurado minha mão um pouco demais, como também pode ter piscado. Eu não estava com vontade de perceber nada sobre ele. Allen ou Aiden — ou quem quer que fosse — iria nos acompanhar e nos levar a um tour pelo novo clube, o qual pretendíamos fornecer segurança, já que havíamos preparado a apresentação para tal. Tentei me esforçar para sentir pelo menos algum interesse profissional na visita, se não alguma curiosidade normal. No elevador fui informada, por Olivia, que Quinn e Steven tinham uma reunião separada com o cliente para revisar a conta confidencial. Uma reunião para a qual eu não fui convidada a participar. Eu a poupei de um sorriso certeiro e despreocupado. O passeio foi bom. O clube era bom, embora parecesse peculiar, pois estava vazio de foliões e era bastante iluminado por várias janelas viradas para o oeste. Não parecia em nada com o Club Outrageous; parecia ser apenas uma boate típica embora, em sua defesa, eles ainda não tivessem terminado a decoração. Havia vários homens, reconheci como trabalhadores de construção, entrando e saindo da área principal, mas não gastei energia mental percebendo-os. Almoçamos em uma mesa preta, perto de uma das janelas. Não reparei na vista da Las Vegas Strip, ou a paisagem de serras e cânions cobertos de ferrugem. Passei por esses acontecimentos sem saborear minha comida, falando quando falavam comigo, respondendo perguntas, mas sem perguntar nada. Eu estava totalmente sem interesse, o que deveria ter me preocupado, mas não. Houveram mais algumas visitas ao andar do cassino, ao cofre e a algumas partições do subsolo. Finalmente, depois de uma quantidade de tempo indeterminável e bate-papo banal, fomos levados para uma sala de conferência e nos serviram café, chá e água de pepino. O gerente do clube saiu brevemente, enquanto Carlos e Olivia se preparavam para a apresentação. Ele puxou um pen drive, e ela colocou pastas com impressos na frente de cada uma das grandes cadeiras de couro da mesa de conferência. Então, Steven e Quinn chegaram e, de repente, meu cérebro se ativou.


Comecei a obsevar. Na verdade, eu não conseguia parar de notar. Percebi que ele não olhava para mim, ou falava comigo e ele pareceu se sentar no banco mais distante do meu. Percebi que Carlos fez todas as apresentações quando o cliente entrou: o Sr. Northumberland, um homem alto, bronzeado e elegante, com cinquenta e poucos anos, olhos negros e cabelos grisalhos. Ele era dono do cassino. Seu sobrinho, que se chamava Aiden, ou Allen, ou Alex, ou algo começando com “A”, entrou na sala atrás dele e uma comitiva de quatro homens e três mulheres o seguiu. Presumi que seus nomes não importavam. Eles não tomavam decisões, podiam muito bem ser cortinas. Houve alguns detalhes iniciais, como comentários sobre o futebol universitário, alguém comentou que estava quente lá fora, e me perguntaram se tive a oportunidade de passar algum tempo apostando desde que chegamos. Eu queria responder que a vida era uma aposta e que todos nós éramos perdedores. Ao invés disso, suprimindo minha lentidão emocional, respondi negativamente e sentei no meu lugar. Então a apresentação começou. Embora minha cor estivesse normal o tempo todo, eu sabia que era apenas uma questão de tempo antes que ele dissesse ou fizesse alguma coisa que faria minha luz de Rudolph piscar. O homem possuía meu botão e o apertava repetidas vezes. Não pude deixar de notar que o Sr. Northumberland parecia muito impaciente para começar a apresentação e então, durante a apresentação, impaciente para garantir que a nossa implantação da segurança fosse concluída no próximo mês. Ele interrompia Quinn com frequência, fazendo perguntas como: — Quanto tempo isso vai levar? — e — Você já não tem tudo o que precisa? — ou — Isso vai atrasar o projeto? Quando a apresentação terminou, Olivia se levantou e ajustou as luzes da sala, e Quinn pediu que o pessoal do cassino abrissem suas pastas com as informações. Ele direcionou o grupo através do plano de implementação, o cronograma, os recursos que forneceríamos, o custo, ... De repente ele me surpreendeu e acredito que a toda nossa equipe, acrescentando: — Esses números orçamentários são estimativas iniciais. Estamos planejando uma revisão em nossa estrutura de faturamento, para fornecer aos clientes corporativos um maior nível de detalhamento. Da próxima vez que visualizarem as estimativas de custos e, por falar nisso, as faturas, elas terão detalhes dos itens de linha. O Sr. Northumberland acenou com o que eu imaginei ser uma apreciação, porque ele disse:


— Isso é bom, isso é bom, contanto que não demore. Quinn garantiu que as mudanças não impediriam que o projeto avançasse, e então Quinn estava discutindo os requisitos de rede e de fiação do espaço. Eu só podia observá-lo com uma incredulidade mistificada. Senti o pé de Steven bater contra o meu, debaixo da mesa e virei o olhar para encontrar o dele. Ele tinha a capacidade de ampliar e estreitar seus olhos cinzentos ao mesmo tempo e isso sempre me impressionava. Steven me deu esse olhar agora. Era para transmitir surpresa e suspeita. Balancei a cabeça quase imperceptivelmente, esperando que ele entendesse minha comunicação silenciosa. Eu não tinha ideia do porquê Quinn escolher aquele momento para mencionar minha ideia sobre mudanças de faturamento, ou porque, ou quando ele decidiu que a Cypher Systems iria se comprometer cem por cento com o novo software. Eu sabia que Olivia também estava me observando. As adagas que ela jogava com seu olhar eram difíceis de ignorar, mesmo em minha visão periférica. Ao invés de focar minha atenção nas intenções dela com a faca, ou na continuação da conversa de Quinn sobre os detalhes do negócio, ou nos olhares de Steven, olhei distraída para o diagrama bidimensional do espaço do clube dentro da minha pasta. Foi uma coisa tão pequena, a nova técnica de faturamento. Realmente era uma coisa pequena. Eu duvidava que o Sr. Northumberland, ou qualquer um de seus subordinados, se importasse com detalhes de itens de linha em informes de faturamento. Mas por que ele fez isso? Por que Quinn mencionou isso? Não foi nada. Não significava nada. Pare de se preocupar com isso. Meus olhos seguiram as linhas do projeto. Me distrai estudando o design dos tópicos digitalmente renderizado e comparando com a visita que tínhamos feito no espaço antes. Isto, como se pode ver, foi uma distração muito eficaz. Fiz uma careta, pisquei e chequei de novo a minha verificação. Minha careta piorou. O esquema na pasta não correspondia ao tamanho, layout ou características reais do clube que visitamos naquela manhã. Devo ter suspirado alto ou feito algum outro sinal evidente de desagrado, porque a sala ficou em silêncio. Em algum lugar à direita, uma garganta foi limpa. Olhei para cima. Todo mundo estava olhando para mim, incluindo Quinn. — Senhorita Morris... — Quinn era muito Sr. Sullivan em sua expressão e tom. — Existe algo que você deseja acrescentar? Olhei de Quinn para Carlos, de Steven para Allen (ou Alex, ou Andrew, ou o que seus pais o chamaram de tão esquecível) para o cliente, Sr. Northumberland. Eu estava em um precipício. Foi a minha primeira reunião com o cliente, eu era


o membro mais jovem da equipe. Nem sabia se eu merecia o trabalho, ou se meu salto fino Stiletto, estampado de zebra tinha sido o fator decisivo. Deveria sorrir educadamente e pedir desculpas, ou tossir descontroladamente para encobrir o som não intencional. Também poderia fingir sofrer da síndrome de Tourette. Ou eu poderia anunciar publicamente, que todas as estimativas de custo da equipe, tinham sido baseadas em uma compilação grosseiramente imprecisa do espaço devido a um descuido, ou, o que é mais alarmante, o engano intencional do cliente. Bem, o que tenho a perder? Molhei meus lábios e coloquei minhas mãos fechadas sobre a mesa. — Sim. Existe. Antes de irmos além da renderização do AutoCAD, eu gostaria de esclarecer por que o espaço que visitamos esta manhã não corresponde aos planos enviados pelo cassino no mês passado, incluídos aqui em nossa pasta. Baseamos todas as nossas estimativas de custo na renderização do AutoCAD. Houve uma pequena pausa enquanto o grupo, aparentemente, absorvia essa informação antes que todos se voltassem para o sobrinho — AllenAlexAndrewAiden. Segui seus olhares. Ele parecia totalmente desconfortável. Os olhos do homem passaram pela sala de conferência, em seguida, se fixaram no Sr. Northumberland antes que ele emitisse uma pequena risada nervosa. — As diferenças são pequenas, na verdade. É basicamente o mesmo. Fiz uma careta severa enquanto vários pares de olhos ricocheteavam de volta para mim, mas me concentrei no sobrinho. — Devo respeitosamente discordar. Existem duas partições e paredes sem colunas de sustentação, que não estão presentes na renderização do design digital. O espaço atual tem janelas voltadas para o oeste e um pátio externo, mas o desenho não retrata as janelas nem o pátio. Além disso, a metragem quadrada do espaço real é pelo menos mil e duzentos metros maior, não incluindo o pátio. — Virei meu olhar para Quinn. Eu não conseguia ler a expressão de Quinn, o que pode ter sido devido à minha agitação atual em relação a todos os tópicos Calças-Quentes, e não por qualquer tentativa, por parte dele, de omiti-las. Compreendi que seu olhar não era nem hostil, nem quente. Na verdade, eu só poderia descrevê-lo como atencioso. O sobrinho se moveu de um lado para o outro em seu assento, como se não conseguisse se sentir confortável. — Isso é um absurdo. É claro que você não consegue ler esquemas arquitetônicos. — Na verdade... — Quinn fez uma pausa, afastando os olhos dos meus e


dirigindo-se ao Sr. Northumberland, que, pela primeira vez desde o início da reunião, não sentiu a necessidade de interromper. — Na verdade, a Srta. Morris está muito familiarizada com esses esquemas, já que se formou com honras na Iowa State University, com dupla especialização em arquitetura e matemática. Veja, A Iowa State é uma das melhores escolas do país em arquitetura. Me encolhi um pouco, quase imperceptível para qualquer um que pudesse estar me observando, quando Quinn recitou minhas qualificações. Eu não sabia que ele estava tão familiarizado com minhas credenciais acadêmicas. Isso me fez pensar o que mais ele sabia sobre mim e como ele se tornou um especialista. A expressão de surpresa de Northumberland, se transformou em repentina impaciência. Para meu alívio, esse olhar estridente foi dirigido ao sobrinho. — Allen, isso é totalmente inaceitável! Se isso causar outro atraso em... Quinn suavemente interrompeu. — Sr. Northumberland, podemos modificar nossa estratégia de implementação e cumprir o prazo, caso o tempo seja o problema aqui. No entanto, o custo... — Quinn suspirou, fechou o maço de papéis na frente dele e se recostou na cadeira. — Não posso garantir que o custo do projeto não seja afetado. Sem aberturas ou pretensões, o cliente se inclinou para frente e apontou um dedo para Quinn. — Se você puder cumprir o prazo, você pode ter o triplo do seu orçamento original — então seu olhar negro se direcionou ao sobrinho. — Não posso ter mais atrasos. Quinn acenou com a cabeça uma vez e depois se levantou abruptamente. Observei seus longos dedos apertarem o botão de cima do paletó. — Nesse caso, terminamos por hoje. Não vejo mais necessidade de pretensão e discussão. O importante agora, é começar. Northumberland também estava em pé, quase ansiosamente. Sua comitiva também ficou de pé, o que me fez lembrar nadadores sincronizados, só que em trajes de negócios. Seu chefe disse: — Bom homem. Eu não poderia concordar mais — ele estendeu a mão sobre a mesa e apertou a de Quinn. — Você tem uma equipe impressionante. Eu peguei Steven me dando um olhar significativo e retribuí com uma sobrancelha levantada e um encolher de indiferença, embora interiormente eu estivesse com a respiração irregular, ainda guardada, de alívio. Eu tive uma chance. Só esperava que fosse o suficiente para provar que eu era digna de manter meu emprego.


Carlos e Quinn desapareceram, juntos, logo após o encerramento da reunião, e eu dispensei um jantar com Steven, alegando dor de cabeça. Claro, Steven ainda ameaçou manter sua promessa da festa do pijama. Eu estava evasiva e ri de sua provocação bem-humorada, mas eu não me sentia uma boa companhia. Só queria relaxar no meu quarto, sozinha, com uma garrafa de vinho, um hambúrguer e HBO. Antes de fugir, Steven me lembrou que nossas reuniões no dia seguinte foram canceladas e que o avião partiria às 15:00h . Ele sugeriu que nos encontrássemos durante o dia e tentássemos ver um pouco de Vegas antes de partir. Eu estava, novamente, evasiva. Me senti uma idiota. Tive mesmo dor de cabeça. Tinha uma caixa de confusão para resolver. Eu tinha que descobrir o que precisava, o que eu queria, o que era certo e onde tudo se cruzava. O que eu precisava, era manter distância dos humanos do sexo masculino — Jon e Quinn, manter meu emprego, e reorganizar minha vida de modo que a calma e a ordem fossem restauradas. O que eu queria, era me jogar em Quinn e continuar me comportando como uma adolescente apaixonada. E não sabia o que era o certo. Quando o serviço de quarto chegou, peguei a garrafa de vinho no banheiro e tomei um banho de espuma. A banheira do hotel não estava nem perto do espetacular e imponente monumento do apartamento que Quinn havia me mostrado no último domingo, mas se adequava perfeitamente às minhas necessidades atuais. No entanto, depois de uma hora na banheira e bebendo sozinha, não me senti mais perto de resolver o meu dilema. Em vez disso, fiquei com uma garrafa vazia de vinho, dedos enrugados e mais perguntas. Eu estava me vestindo, quando ouvi uma batida forte na porta. Já passava das 21h30. Naturalmente, eu supus que era Steven cumprindo sua ameaça da festa do pijama. Devido a essa suposição perigosa, não verifiquei o olho mágico e abri direto a porta. Foi um erro crucial, se não monumental. Se eu tivesse visto Quinn primeiro, através do olho mágico, eu teria tido tempo para me recompor. Poderia ter decidido fingir que estava dormindo. Eu poderia ter entrado debaixo de um pesado objeto imóvel ou pulado da janela do trigésimo andar. Assim, só pude devolver o seu calor com uma surpresa aturdida, embora embriagada. Meus órgãos internos e os grandes grupos musculares foram impotentes contra a reação química, reduzindo-os a uma gosma gelada, porém


gelatinosa. Meu coração, da mesma forma, saltou para a minha garganta. Eu estava repentinamente ciente de que vestia apenas com uma regata branca, sutiã e calcinha. Ou seja, basicamente de roupa intima. Eu gostaria de dizer que, quando me deparei com os olhos azuis fumegantes de Quinn Sullivan depois de uma garrafa de vinho, sua forma impressionante e musculosa pairando do lado de fora da porta do meu quarto de hotel e mãos grandes segurando o batente, mal me senti com vontade de dar uma intensa resposta física ou emocional. Se eu dissesse isso, seria uma mentirosa - uma grande, grande mentirosa. Quinn, suspenso como uma metáfora no abismo entre dentro e fora do meu quarto, ainda estava de terno preto, camisa branca e gravata de seda azul. No entanto, ele estava enfaticamente desalinhado. Sua gravata foi solta ao acaso e estava pendurada no pescoço, sua camisa estava enrugada devido a horas de uso, seu cabelo estava para o lado e espetado em ângulos estranhos, e o queixo e a mandíbula estavam sombreados com um dia inteiro de barba por fazer. Claro, ele ainda parecia um modelo GQ, mas em vez da variedade bem cuidada, ele parecia à variedade bem despenteada. O fato de ele não dizer nada, não ajudou. Apenas... me olhava. No início, ele segurou meu olhar por um longo momento; então olhou para cima, olhou para baixo, olhou ao redor. Isso foi feito com uma insolência tão deliberada e abatida, que me senti em oferta para compra. Culpei meu estado levemente embriagado, quando fiquei tentada a perguntar se ele estava procurando por algo em particular, ou apenas vendo vitrines. Independentemente disso, seus olhos eram de touro, todas as minhas tentativas anteriores de desapego eram a loja de porcelana, e ele estava quebrando em pedaços — crash, crash, crash. Consegui respirar fundo, mas não consegui soltá-lo. Talvez eu parecesse com uma rena de nariz vermelho, iluminada pelos faróis. Então ele se moveu. — Posso entrar? — Quinn fez a pergunta como se fosse uma declaração e, sem sequer fingir que minha resposta importava, ele entrou no meu quarto me deixando lá, olhando para ele enquanto segurava a porta. — Eu não... eu, bem, se você... eu acho... como... ok. Enquanto ele passava, senti cheiro de uísque e da loção pós-barba, ou sabão que ele usava, ainda agarrada a sua pele e ao seu terno. Seu cheiro era delicioso. Crash, crash, crash. Soltei a respiração que eu estava segurando há três ou quatro segundos, então, no piloto automático fragmentado, fechei a porta hesitantemente. Eu ficava mudando de ideia enquanto andava em câmera lenta, reconsiderando se foi


correto ou conveniente fechar a porta enquanto o chefe do meu chefe passeava pelo meu quarto. Meu diálogo interno foi algo assim: “Deixe aberta! Mas seria estranho se alguém passasse. Quem se importa? Eu me importo! Por que eu me importo? Apenas feche! Você não pode fechar, você está de calcinha! E se a porta estiver fechada, você pode... fazer... alguma coisa. Aqui está a situação: estou de calcinha no meu quarto com Quinn e minhas inibições carregadas de álcool são baixas, baixas, baixas. É como se trancar em uma loja de chocolates Godiva; é claro que você vai experimentar algo. Não prove nada! Nem cheire nada! Se você sentir o cheiro, você vai querer experimentar. Não cheire mais... Não. Cheire. Mais. Espero que ele não veja a garrafa vazia de vinho... Coloque algumas roupas. É estranho se eu me vestir na frente dele? Quero de chocolate. Ah! Roupas!!” Finalmente a porta se fechou, embora eu não tivesse tomado uma decisão consciente sobre isso. Respirei fundo. Em seguida, virei e o segui, me arrastando a uma certa distância, atravessando para o lado oposto de onde ele estava atualmente de pé. Vi a minha camisa de treino na cama e tentei colocá-la de forma sorrateira. Quinn estava de costas para mim e ele parecia estar vagando pelo espaço, sem pressa. Parou por um breve momento ao lado do meu laptop e olhou para a tela. Ele parecia perdido e um pouco vulnerável. Crash, crash, crash. Aproveitei esta oportunidade para puxar uma calça e uma blusa de moletom da minha mala. O moletom estava ao contrario, com o pequeno V para trás e a etiqueta na frente, mas ignorei. Peguei minha jaqueta no armário atrás de mim e a coloquei também. Ele caminhou até a janela e examinou a vista, enquanto eu, rapidamente, empurrava meus pés em meias e chinelos tricotados à mão, que ganhei de Elizabeth no último Natal. Eu era um tornado de atividade frenética, indiscriminadamente e silenciosamente, puxando roupas. Posso ter compensado demais o meu estado anterior de semi-nudez. No entanto, até ele se virar para mim com movimentos lentos e preguiçosos, eu finalmente parei de me vestir. Minhas mãos estavam na minha cabeça enquanto eu colocava um chapéu branco, outro presente de Elizabeth. Quinn suspirou. — Preciso falar com você sobre o seu sist… — mas então, ele parou de falar quando olhou para mim. Suas feições, se moldando em algo parecido com espanto estupefato, foram


lançadas em um brilho quente de uma lâmpada próxima. Ele parecia sinceramente surpreso e um pouco infantil. Crash, crash, crash. Seus olhos hipnotizantes se estreitaram enquanto olhavam para a minha forma, agora, completamente coberta. A única pele que aparecia, era a do meu rosto e mãos. Se eu estivesse pensando com clareza e sobriedade, poderia ter me sentido ridícula. Em vez disso, como eu definitivamente não estava pensando com clareza e definitivamente não estava sóbria, eu estava me amaldiçoando por deixar minhas luvas em Chicago, e estava procurando por meus óculos. Ele se mexeu, enfiou as mãos nos bolsos e me estudou com um divertimento transparente e crescente. — Você está indo a algum lugar? Engoli e tentei dar de ombros, mas o movimento foi perdido sob as camadas de roupa. — Sim — levantei meu queixo, me sentindo subitamente quente, o que me lembrou de como estava calor lá fora, mesmo às 21h30. Então, rapidamente emendei. — Não — abaixei minhas mãos do chapéu e puxei as mangas da jaqueta. — Não decidi. Ele inclinou a cabeça, de um lado sua boca se curvava para cima e então ele lentamente, começou a se aproximar de mim, como se estivesse perseguindo uma presa, como se estivesse com medo de que movimentos súbitos me mandassem para outro tornado de roupas. — Onde você estava pensando em ir? — Apostar — eu soltei. Era a única coisa em que eu conseguia pensar no meu estado ligeiramente absorvido, afinal, estávamos hospedados em um cassino mundialmente famoso, em Las Vegas. — Sério? — ele perguntou em tom de conversa, como se eu estivesse contando a ele sobre um bom negócio no Save-A-Lot. — O que você estava pensando em jogar? — Poker. — Eu queria cruzar os braços, mas devido a roupas, peitos e falta de coordenação, encontrei muito volume e meus movimentos eram restritos. — Poker — ele acenou com a cabeça uma vez, me segurou no lugar com uma expressão claramente cética, se não divertida. — Está muito frio onde você vai jogar poker? Sem que eu realmente percebesse, ele havia me alcançado. Em um momento Quinn estava do outro lado da sala, perto da janela, e no momento seguinte ele estava parado na minha frente, com não mais de um metro de ar — e roupas — nos separando. — N-não. Não necessariamente. Eu só queria estar preparada. — Preparada para temperaturas árticas?


— Preparada para qualquer eventualidade. — Como o quê? Pôquer em um freezer? — Como strip poker. — Eu disse as palavras antes do meu cérebro processálas e, devido à sua proximidade, vi algo oposto à calma piscar atrás de seus olhos. Mordi meu lábio superior para garantir que eu não dissesse mais nada. Eu sabia que meus próprios olhos estavam visivelmente grandes, atentos e muito arrependidos pelos sons mais recentes da minha boca. Quinn engoliu em seco e sua expressão havia mudado. Era menos provocante, mas não menos intensa. — Nós poderíamos... — seu olhar cintilou aos meus lábios, em seguida, parou na minha testa. — Poderíamos jogar strip poker aqui.


Capítulo 19 Meus olhos, já bem abertos, se arregalaram ainda mais e pisquei várias vezes em rápida sucessão. — Eu-eu-eu... — procurei algo para segurar e acabei encostada na parede atrás de mim. — Não posso, não podemos fazer isso. — Mas você vai jogar strip poker com estranhos? — ele parecia estar me analisando bem de perto. — Bem, vou. — Esta foi uma conversa estranha de se ter, já que eu estava falando no sentido teórico e literal. Teoricamente, eu jogaria strip poker com estranhos, dependendo das circunstâncias e dos estranhos, mas não tinha nenhuma intenção literal de fazê-lo. Quinn respondeu rapidamente. — E se por acaso eu estivesse jogando poker, strip poker, na única mesa do cassino? Você ainda jogaria? Eu hesitei. Senti como se estivesse sendo levada para uma armadilha que envolvia Quinn ficando nu, o que realmente soava muito bem. Relutantemente, disse: — Não. — Por que não? — Porque eu... Você é você. — Me parabenizei por não atropelar as palavras, mesmo com o suor no peito e na parte superior atrás das costas. — Você confia em mim? — Às vezes. — Às vezes? — ele ergueu as sobrancelhas apenas um pouco, em desafio. — Eu não fui sempre honesto? — Você tem sido, tecnicamente, honesto. — Você acha que eu já te magoei? Suas perguntas foram rápidas. A maneira como ele me olhou, meu traje quente, improvisado e a política questionável de beber sozinha, me deixaram muito tonta. Hesitei novamente, então disse: — Não sei. Ele franziu a testa para a minha resposta, mas não cedeu. — Você não acha que todo mundo merece uma chance? — Uma chance? — Sim, uma chance. — Qual... que tipo de chance? — minhas palavras estavam um pouco


instáveis, e sua expressão permaneceu inescrutável, mas seus olhos, seus olhos estavam escuros, intencionados e quase ameaçadores em sua intensidade brilhante. Malditos olhos ardentes. Crash, crash, crash. — Uma chance de se provar, desafiar atalhos e expectativas preconcebidas, preferências… rótulos. Pressionei os lábios um contra o outro. Essa foi uma daquelas perguntas que são impossíveis de responder corretamente, como: “Quando você parou de bater em sua esposa?” Eu acreditava que todos mereciam uma chance? Sim. Mas ele sabia disso. Respirei pelo nariz, mas parei quando senti seu cheiro: uísque, loção pós-barba e Quinn. Cheirava muito bem. Crash, crash, crash. Em um momento de fraqueza, provavelmente causado pelo meu olfato, respondi com a minha voz baixa e com uma nota de resignação: — Sim. Todo mundo merece uma chance. Ele me deu um dos seus sorrisos mal contidos, apenas uma sugestão de sorriso, e molhou os lábios. — Então quero a minha chance. — E como você propõe que eu dê a, hmm... Hmm... Chance que você mencionou? — engoli a fim de corrigir o meu insulto. — … esta chance… para… você? Que veículos você usará para a chance? Dissemos tanto a palavra “chance”, que estava começando a soar distorcida e engraçada: chance, chance, chance, chance, chans, chans, chanz, chanz... chnaz. Sem rodeios, ele disse: — Eu quero namorar com você, ser exclusivo. Quero que passemos um tempo juntos, como fizemos antes de eu ter ido para Boston na semana passada. E, se eu tiver que viajar, quero que você atenda o celular quando eu ligar, porque quero ouvir sua voz. A cada sílaba que saía da sua boca, senti meu botão sendo pressionado de novo e de novo, e o rubor avermelhado resultante, era realmente enorme. Limpei a garganta e disse: — Ah, isso é tudo...? — Não — ele balançou a cabeça, me interrompendo. — Isso não é tudo. Quero tocá-la e beijá-la com frequência, e quero você... — ele se mexeu, como se estivesse se equilibrando e esticando a mão. Se aproximou e segurou minha bochecha na palma da mão. — Eu quero que você me toque. Gah! Suas palavras!! Crash, crash, CRAAAAAASH!!!!! — E... — ele disse, mas depois fez uma pausa, passando os dedos no meu cabelo sobre a minha testa e sob o chapéu que cobria minha cabeça. Ele o


empurrou e nós dois o deixamos cair no chão. — Quero jogar strip poker com você, agora. Tomei o cuidado de tomar meu próximo fôlego pela boca. Eu não queria que o “cheiro Quinn” influenciasse minha função cerebral, que já estava deficiente devido ao vinho. Uma pequena voz na parte de trás da minha cabeça disse: “Não confie nele! Você não é especial! Você é esquisita e desajeitada e uma aberração de Neandertal com cabelo de Medusa! Ele te confundiu com outra pessoa!” Quase imediatamente, disse àquela voz para comer merda e morrer. Eu queria acreditar nele. Minhas mãos estavam apoiadas na parede atrás de mim e levantei meu queixo, para que eu pudesse realmente olhar para ele. Sua expressão se estendia entre cautelosa e esperançosa. Eu reconheci isso tão intensamente, porque era como eu me sentia desde que nos conhecemos. Limpei minha garganta e tomei outro fôlego através da minha boca, soltando lentamente antes de perguntar: — E se eu disser não? Quinn ficou muito quieto. — Você está dizendo não? — seu tom parecia apenas um pouquinho perigoso. Balancei a cabeça. — Não... quero dizer, não estou dizendo não. Eu só quero saber o que acontece se eu disser não. Ele fez uma pausa novamente, olhando para mim como se a resposta estivesse escrita no meu rosto. Ele não parecia mais esperançoso, mas apenas cauteloso. O silêncio se estendeu por quase um minuto e ficamos ali, observando um ao outro. Então ele piscou de repente, e uma expressão parecida com a compreensão do amanhecer, fez seus olhos brilharem. — Janie — Quinn se afastou. A mão dele caiu do meu cabelo e seu semblante escureceu. — Você não vai perder seu emprego. Torci minha boca para o lado e fiz um trabalho desleixado de cruzar os braços sobre o peito. — Você não vai ficar chateado? — Sim, eu vou ficar chateado... — ele limpou a garganta, desviou o olhar brevemente e, em seguida, encontrou meu olhar novamente. — Eu vou ficar desapontado — ele disse a palavra “desapontado” com muito cuidado, medida, como se fosse quatro palavras em uma. — Mas não vou prejudicar minha empresa porque você não... — Ele ergueu as mãos entre nós, em seguida, colocou em sua cintura. — Porque você não está interessada. Eu o examinei por um momento e perguntei: — Seria o mesmo trabalho que eu tenho agora? Ou seria outra coisa?


Sua mandíbula se acentuou. — O mesmo trabalho. Balancei a cabeça, distraidamente. Mesmo que ele estivesse parecendo cada vez mais reservado e chateado, descobri que meus nervos se acalmaram significativamente. Dei um passo para frente e tirei o casaco. — Seríamos amigos, ou apenas o Sr. Sullivan e a Srta. Morris? Ainda poderíamos sair? Ele soltou um suspiro profundo e não gostei da expressão dura que definia sua boca em uma linha firme e infeliz, ou o modo como seus olhos, geralmente ardentes, estavam ficando frios e distantes. — Ouça — ele disse lentamente, como um rugido roncado. — Eu não sou um idiota arrogante, mas eu também não sou masoquista. Então, não... eu não estou interessado em sermos amigos. — Hmm — falei, o estudando. Se eu fosse honesta comigo mesma, teria que admitir que a sua resposta me deixou feliz por algum motivo estranho. Eu não entendi porque, então marquei o ponto de dados para análise futura. De qualquer forma, isso me deixou feliz e eu me permiti um pequeno sorriso. A alternância de fogo e gelo, a loucura emocional que tenho vivido desde o último domingo, se estabeleceu como uma onda de desconforto. — E se... — Janie... — ele ergueu as mãos, hesitou e colocou-as em meus braços. Achei interessante que às vezes ele parecia precisar me tocar, ou fazer contato entre nós antes que pudesse falar. — O que posso dizer para convencê-la de que um relacionamento entre nós não afetará seu trabalho? — Mas e se nós terminássemos? — Eu ainda não te demitiria. — Como você pode ter certeza do que faria? E se eu sequestrar seu cachorro? — O que? Por que você... — ele bufou impaciente e balançou a cabeça. — Não tenho cachorro. — Essa não é a questão. E se eu ficasse maluca no nosso relacionamento, mas ainda assim fosse uma ótima funcionária? — Sou profissional o suficiente para manter minha vida profissional e pessoal separadas. Suspirei, infeliz. — Mas você não sabe... Ele deslizou as mãos para baixo e as segurou. — Você não pode se preparar para todos os cenários ou eventualidades da vida. — Mas e se eu ficar envolvida, se revelar um erro horrível?


— E se for a melhor decisão que já tomamos? — Eu sou um risco adverso — mesmo quando eu disse as palavras, apertei suas mãos com as minhas, com medo que ele as soltasse. Ele me estudou com uma contemplação frustrada, a testa franzida profundamente. Quinn se aproximou e se nivelou a mim com um olhar cauteloso. — Ok, e se não decidirmos? E se a gente deixar isso ao acaso? Engoli. — Como assim? Como fazemos isso? — Vamos jogar poker. — Uma mão? — Não, vamos jogar até a meia-noite. Quem tiver mais roupas à meia-noite, ganha. — Ganha o quê? Seus olhos piscaram para os meus lábios e ele lambeu os próprios. — Se eu ganhar, nós namoramos por um mês, durante o qual eu posso comprar o que eu quiser — comecei a protestar, mas sua voz subiu sobre a minha e suas mãos me seguraram no lugar. — E você para de procurar razões, ou rótulos, ou qualquer outro motivo pelo qual não deveríamos. Se você vencer, então... — ele deu de ombros. — ... então você decide o que acontece a seguir. Engoli de novo, olhei para ele com cautela, e então puxei minhas mãos de seu aperto e dei um passo para o lado. Ainda quente, puxei o moletom sobre a minha cabeça. A camisa de treino também saiu ao mesmo tempo, e eu as joguei em cima da jaqueta caída. Isso me deixou na minha regata, sutiã, calça de moletom, calcinha, meias e chinelos. Seis peças de roupa. Nove, se você contasse as meias e chinelos separadamente. O quarto inclinou um pouco e eu vacilei. Meu estado de intoxicação pairava em torno de mim, como um casaco de pele e provavelmente continuaria por várias horas. Todas as decisões que tomasse, provavelmente seriam prejudicadas. Julgamento prejudicado — Verificado Seu olhar se dirigiu para o meu pescoço, peito, estômago e depois para cima novamente. O fogo habitual se espalhou pelos seus olhos, mas foi misturado com outra coisa. Algo que eu não pude apontar ou, mais provavelmente, não compreendi. Era como se eu tivesse acabado de dar um tapa nele, mas não completamente. Parei de tentar ler seus pensamentos e, em vez disso, contei suas roupas com um olhar de lado. Ele usava gravata, camisa, paletó, camiseta, calças, meias, sapatos e boxer ou cueca. Foram sete peças de roupa, ou dez, se contar as meias e os sapatos como peças separadas.


— Não estamos nem empatados. — Apontei para a gravata dele, em seguida, coloquei minhas mãos na cintura e imitei sua postura. Esperava que a advertência e a neblina do vinho ajudassem na minha determinação. Por enquanto, tudo bem. Ele olhou para mim, parecendo ressentido, e sua voz era de aço quando ele perguntou: — O que, especificamente, te faz pensar isso? Levantei meu queixo e indiquei sua gravata novamente. — Sua gravata, Quinn. Eu tenho nove peças de roupa e, supondo que você esteja vestindo algum tipo de roupa de baixo, você tem dez. Eu posso colocar meu chapéu, ou tirar sua gravata. Seu olhar se transformou em uma expressão de perplexidade enquanto eu falava, mas quando cheguei ao final da última frase, suas feições se transformaram em algo como uma compreensão petulante, mas divertida, e a maior parte da rigidez deixou seus ombros e pescoço. Nós nos encaramos novamente, por quase meio minuto, antes que eu quebrasse o silêncio. — Ou você poderia tirar seu paletó...? A boca de Quinn puxou para o lado. Ele removeu a jaqueta e jogou-a na pilha das minhas roupas descartadas. Começou a soltar suas abotoaduras, e a respiração que ele soltou enquanto me fixava com um olhar irritado, pareceu aliviada. Isso me fez sorrir. — Você vai pagar por isso. Arregalei os olhos. — Pelo quê? — Hmm... — ele lutou com um sorriso. — Você tem baralho, ou precisamos arranjar um? Passei instável em volta dele e rastejei pela cama até a minha mala. — Eu tenho baralho. Gosto de jogar paciência quando viajo. — Por que você não usa seu laptop ou o iPad? — ele se virou para me ver buscar na minha bolsa. — Gosto de segurar as cartas. — Eu as peguei e fui para o sofá. Havia uma mesa contra a parede, mas nenhuma mesa perto do sofá. Havia, no entanto, banco do tipo de um divã. Coloquei uma revista nele, decidi que seria uma superfície plana o suficiente, e embaralhei as cartas. Embaralhar ajudou. Isso impediu que minhas mãos tremessem quando a voz fraca do meu eu, perguntou: “O que estou fazendo? Estou realmente fazendo isso? “ Ele era... incrivelmente bonito e rico, e meu chefe. Todas eram realmente boas


razões pelas quais não era apropriado. Mas eu realmente gostei dele. Ele era muito sexy, e interessante, e incrivelmente inteligente, e irritantemente perspicaz. Tive que confiar que havia algo em mim que ele viu e gostou o suficiente para abandonar seus estepes e seu estilo de vida Wendell. Eu não gostava de confiar e não gostava de definir expectativas mais do que moderadas, mas queria ter fé nele. Chame de vinho, chame de obscuridade induzida pelo cheiro Quinn, mas me senti muito quente e confusa para me inclinar para o lado assustador do strip poker. Julgamento prejudicado... ainda verificado. — Então... — ouvi a voz de Quinn atrás de mim. Parecia que ele ainda estava no mesmo lugar. — Na verdade, vim aqui para falar com você sobre uma coisa. Eu olhei por cima do meu ombro. — Sobre o que? Ele passou uma mão de maneira pesada pelo cabelo e, com a outra, colocou a abotoadura no bolso da calça. — Preciso falar com você sobre o domingo passado, sobre aquele, hum, cara no parque. Eu estava ajoelhada no chão, ao lado do banco, mas algo sobre o tom de sua voz me fez sentar em meus calcanhares e virar todo o meu tronco em direção a ele. — Ok. — Coloquei o baralho na revista. Ele tinha toda a atenção possível, dada a minha atual falta de sobriedade. Quinn hesitou, passeou enquanto falava, sem olhar para mim. — Então, quando deixei Boston anos atrás, eu não era muito popular com... ninguém — ele mexeu no conteúdo da sala: um abajur, o minibar, as instruções para conectar à Internet... — Fiz algumas cópias dos dados, para ter certeza de que não seria… incomodado em Chicago. Ele parou no minibar, tocando uma garrafa de Johnnie Walker do tamanho de uma boneca. — Cópias dos dados? — As pessoas para quem trabalhei. Fiz cópias de seus dados quando instalei o limpador de script e o desmagnetizador. — Você quer dizer, os homens maus? Ele me deu um pequeno sorriso e assentiu. — Sim, os homens maus — Quinn caminhou até o sofá, hesitou por um momento e se sentou. Ele colocou as mãos nos joelhos, como se fosse levantar a qualquer momento. — Janie... — ele me avaliou com um olhar vacilante e indeciso. — Sim...?


Ele ficou quieto por tanto tempo, que senti a necessidade de incentivá-lo. Eu estava começando a sentir uma sensação renovada de ansiedade. Foi um longo preparo para ele e ele, geralmente, era um tipo direto. Suspirou e perguntou: — Você teve contato com sua irmã Jem recentemente? Tenho certeza de que parecia cômica, boquiaberta, em resposta à sua pergunta. Ele poderia ter me perguntado: “Você quer absorventes interno ou externo para o seu Bat Mitzvah?” E receberia uma reação menos estupefata. Respirei com dificuldade e respondi com as primeiras palavras que me ocorreram. — Como você conhece Jem? Ele balançou a cabeça, os olhos focados e atentos às expressões que deviam ter sido caleidoscópicas no meu rosto. — Eu realmente não a conheço. Mas, em um esforço para ser mais do que tecnicamente honesto, posso dizer que sei quem ela é. — O que você quer dizer com saber quem ela é? — Quero dizer que pouco antes de deixar Boston, há seis anos, eu a conheci quando estava em uma… casa de um sócio. Ela estava, estava envolvida com ele e foi...e nos apresentaram brevemente. — Seis anos atrás? — fiz uma careta para isso. Jem tinha dezessete ou dezoito anos na época. — Tem certeza? E você se lembra dela? — É difícil esquecer alguém que tenta incendiar seu carro. Minha boca se abriu e lentamente soltei um suspiro, do tipo desleixado e exagerado, que você só consegue quando está quase bêbada. — Isso parece a Jem. Quinn desviou o olhar do meu, se inclinou para frente e pegou as cartas. Ele começou a distribuí-las para o nosso jogo de poker. — Logo antes de deixar Boston, antes de Des morrer, eu estava protegendo sistemas para um grupo que, bem, os detalhes não são importantes. Não foi uma operação típica, no entanto. O cara principal, chamado Seamus, era basicamente um skinhead, um bandido, mas por acaso ele era um bandido muito inteligente. — Quinn recolocou o baralho, pegou suas cartas e começou a reorganizá-las, franzindo a testa ao fazê-lo. — Todos os membros de confiança, tinham essas tatuagens no pescoço. — Quinn gesticulou para sua garganta, desenhando linhas curvas de seu colarinho até a orelha e ao redor de sua nuca. Respirei fundo. — O cara no parque, no último domingo, tinha uma tatuagem no pescoço. — Além disso, Dan, o líder do grupo de segurança no edifício Fairbanks, era um deles. — O que Jem fez para irritá-lo tanto assim? — franzi meu nariz, o que


imaginei ser um exagero, porque o olhar de Quinn suavizou quando ele olhou para mim, e sorriu. — Isso importa? — Não... sim — coloquei meu lábio superior entre os dentes e o mordi. — Não, acho que não, mas gostaria de saber. — Ela ajudou um de seus rivais a invadir uma das casas dele. — Por que ela faria isso? — continuei mordendo meu lábio. — Porque ela queria irritá-lo. Porque ela é louca. — Seu tom era claro, como se a explicação fosse simples, óbvia. — Não acredito que você trabalhava com essas pessoas. — Mudei os lábios e comecei a mordiscar a parte de baixo. Os olhos de Quinn encontraram os meus. — Quando vi o cara no parque, na semana passada, achei que estava lá por minha causa. Mas quando fui a Boston e me encontrei com Seamus... Vacilei. — Você se encontrou com ele? O líder skinhead em Boston? Ele assentiu, com a mandíbula flexionada. — Quando me encontrei com Seamus... — Ele não é perigoso? Por que você faria isso? — o interrompi novamente. Ele ignorou minhas interrupções e continuou. — Seamus disse que estava procurando por Jem. Aquele cara no parque achou que você era ela. Uma nova sequência de expressões espelhando meus pensamentos, deve ter acontecido em minhas feições, porque Quinn rapidamente acrescentou: — Coloquei seguranças com você desde a semana passada, e eu disse a Seamus que você não é Jem. Ele também sabe que você trabalha para mim e não é uma opção viável para... — ele fez uma pausa, como se escolhesse suas palavras com cuidado. — Acho que ele acredita em mim, que você não é uma opção viável para iniciar o contato com Jem. Mas, para me assegurar, quero deixar seguranças com você quando voltarmos a Chicago. Balancei a cabeça, até parecer que eu estava subindo e descendo em um barco, e limpei minha garganta. Minhas mãos estavam rígidas no meu colo e notei que elas estavam em punhos apertados. Com esforço, relaxei meus dedos, peguei minhas cartas e me forcei a olhar para elas: ás de copas, dois de paus, três de ouros, dez de paus e nove paus. Era uma mão de merda. — Por que? Como? — abri minhas cartas e as coloquei no meu colo. — Por que Jem colocou fogo em seu carro? Quinn deu de ombros, não encontrando o meu olhar. — Não lembro. Não acho que houve um motivo. Só lembro que ela era louca.


Senti pena de mim mesma; por ter recebido uma mão de merda e por ter uma irmã, cuja característica mais reconhecível, era a criminalidade. Algumas pessoas têm parentes chatos, que bebem demais durante as festas de fim de ano e enchem a todos com teorias de conspiração unilateral sobre o governo ser tão terrivelmente incompetente e capaz de encenar fraudes elaboradas como o pouso na lua, ou Pearl Harbor, ou a teoria da relatividade. Eu tinha uma irmã que não limitava suas travessuras aos feriados, e ela gostava de dormir com meu namorado, e/ou tentava um assassinato quando se entediava. Não me permiti morar na terra do derrotismo por muito tempo. Eu não podia fazer nada a respeito da mão que recebi. Eu só poderia aproveitar ao máximo, esperar o melhor e aceitar meu destino. Ou eu poderia trapacear. — Você... você... — peguei minhas cartas novamente, mas não olhei para elas. Mantive minha atenção fixa em Quinn, pisquei duas vezes para que ele entrasse em foco. — Você acha que pareço com ela? Com a Jem? Você achou que eu era ela? Quinn franziu as sobrancelhas para suas cartas, em seguida, encontrou meu olhar. — Sim. Esperei. Quando ele não continuou, estiquei meu pescoço para frente e arregalei meus olhos em descrença. — Sim? Apenas sim? Ele assentiu. — Qual parte? Sim para qual parte? — Você se parece com ela. Pensei que você fosse Jem quando a vi pela primeira vez. — Parecia que ele preferia discutir qualquer outra coisa, inclusive, talvez, o ciclo menstrual dos coalas ou os regulamentos que cercam a fabricação de manteiga de amendoim. Deslizei meus dentes para o lado. — É por isso que você queria me beijar? Porque você pensou que eu era ela? — citei a admissão de Quinn na noite do nosso primeiro beijo. Algo duro se instalou no meu estômago e fez minha boca ficar azeda, como vinho velho e selos postais. Ele balançou a cabeça. — Não. Deus, não. Acho que notei você no começo, por causa da semelhança. Posso dizer, honestamente, que nunca quis beijar sua irmã. — Quando você descobriu que não éramos a mesma pessoa? Ele juntou a mão de cartas, as segurou no colo, e se inclinou para frente com


os cotovelos nos joelhos. — O dia depois que te vi pela primeira vez, semanas antes de falarmos. Fiz uma verificação profunda e completa sobre você, para me certificar de que você não era Jem. — Fiquei impressionada com a severidade de seu tom, embora admitir isso pareceu que lhe custou alguma coisa. Seus olhos estavam cansados. Eu também fiquei impressionada com sua honestidade mais do que técnica, mesmo que parecesse que eu estava arrancando as respostas dele. Considerei a informação assim como o considerei. — É por isso que você me acompanhou quando fui demitida? Você pensou que eu poderia explodir alguma coisa? — Não. Como disse, sabia que você não era ela. — Então, por que você se passou por segurança? — Não me passei. Gosto de passar um tempo junto com a minha equipe, especialmente quando assumimos um novo projeto. Tinhamos acabado de assumir a segurança do prédio e nos mudamos para o último andar. Eu queria... — ele olhou para longe, suspirou e encontrou meus olhos novamente. — Queria ter uma noção das outras pessoas que trabalhavam no prédio. — E você me acompanhou porque queria ter uma noção de quem não trabalhava mais no prédio? — Não — ele disse. — Não? — perguntei. — Não — disse, desta vez um pouco mais firme e pronunciado. — Hmm... — eu o examinei por um longo momento, e nós entramos em uma competição antiquada. Ele tinha uma vantagem injusta, porque eu estava basicamente intoxicada. Finalmente falei. — Por que você me acompanhou? Ele flexionou a mandíbula, embora seus olhos estivessem iluminados com malícia. Um sorriso de Mona Lisa surgiu nos cantos de sua boca. — Quantas cartas você precisa? — Não evite a pergunta. — Não estou evitando. Escoltei você porque... — ele engoliu e em seguida, bufou — Quando o pedido veio, reconheci seu nome e queria... ver... como você era. — Quinn olhou para suas cartas. Eu sorri, um grande sorriso bobo: — Você queria ver como eu era? Ele não respondeu. Colocou três de suas cartas na pilha de descarte e pegou três do topo do baralho. — Você estava me observando? — A grandeza e a imbecilidade do meu


sorriso aumentaram. Ele olhou para mim, os cantos de sua boca voltados para cima. — Só para constar, eu sei que você também me observava. Pisquei para ele. — Observava você? Ele assentiu, seus olhos se estreitaram maliciosamente. — No saguão, se escondendo atrás das plantas. Você vinha com seu almoço e me observava enquanto eu trabalhava. Botão pressionado, corei até as orelhas e silenciosamente voltei minha atenção para as minhas cartas. Depois de um longo momento, dei a ele todos os quatro, menos o ás. Senti como se tivesse sido pega de calças baixas, me sentindo envergonhada, mas feliz por ele ter notado (e parecer gostar disso). — Eu não estava te observando — murmurei. — Sim, estava. Olhei para ele por um breve momento e o encontrei me observando, com um olhar que beirava ameaça. Pressionei meus lábios para não sorrir. — É melhor você ter um ás. — ele me deu mais quatro cartas. — Eu tenho um ás — arranquei de sua mão estendida, com cuidado para não tocá-lo. — Quer ver? — Oh, vou ver em breve. Olhei por cima das minhas cartas novas e encontrei o olhar firme de Quinn, com o meu instável. Ardente e picante. Seus olhos possuíam uma intensidade tão grande, que me perguntava se seria melhor simplesmente tirar a roupa e ficar nua agora. Eu sabia que a única maneira de ganhar este jogo, era trapacear. Meu maior problema, era que eu não tinha certeza se queria ganhar.


Capítulo 20 Eu olhei para ele. Através da neblina induzida pela garrafa de vinho, eu estava contando as cartas e soube que ele estava trapaceando nas últimas mãos. Mas eu não podia admitir a contagem de cartas, caso contrário, teria que admitir que estive roubando o tempo todo. Além disso, eu estava de calcinha, blusa, sutiã e uma meia. Enquanto isso, ele estava com a gravata, cueca boxer e uma meia. Esta última mão significava que estávamos empatados. Ele riu enquanto embaralhava as cartas, seus olhos azuis realmente dançando de alegria. — Então, meia ou camisa? Eu estava sentada no chão, de costas para a cama. Ele estava sentado no sofá, e o banco estava entre nós, servindo de mesa. Pensei em qual peça de roupa remover, mesmo quando deixei meus olhos passarem pelo seu peito, aprovando. Sonhava com esse peitoral há semanas, desde que ele fez sua entrada sem camisa na manhã da minha ressaca. Eu pensei sobre o que eu faria quando, ou se, eu realmente tivesse aquilo em minha posse. Pisquei com força e tentei me concentrar no banquinho que estávamos usando como mesa. Pressionei minhas coxas, uma na outra, sem qualquer motivo e ignorei o calor crescendo no meu ventre. A voz suave de Quinn me tirou do frenesi sem rumo. — Janie, meia ou camisa? Encontrei seu olhar abruptamente e me perguntei se ele sabia o que eu estava pensando, mas olhar seu rosto era quase pior. Nós estávamos a dois minutos da meia-noite. Ele fazia uma expressão muito séria e seus olhos estavam em chamas novamente, se movendo entre os meus com o que parecia ser uma concentração violenta. Bufei, impaciente. — Bem. Nem. Ele levantou uma sobrancelha. — Nem? Inclinei minha cabeça para o lado e desviei meu olhar do dele, permitindo que meu cabelo cobrisse meu rosto. Me inclinei para frente, puxando as alças do sutiã dos meus ombros e passei pelos meus braços em um movimento rápido. Então soltei o sutiã e, como mágica, tirei o sutiã branco, de renda, do meu corpo sem tirar a camiseta. Não importa que minha regata fosse branca, fina, praticamente transparente.


Eu não queria que ele pensasse que tinha ganhado ainda, ou que pudesse adivinhar meus movimentos. Eu estava aprendendo rapidamente que uma garrafa de vinho me convencia de todos os tipos de coisas fantásticas e, não menos importante, de que eu tinha alguns truques. Joguei o sutiã por cima do meu ombro e me encostei do lado da cama. — Ok, dê as cartas — disse sem olhar para ele. Ele era muito bonito, a ponto de distrair. Ao invés, passei os dedos pelo meu cabelo enquanto me esticava e arqueei minhas costas. Ouvi sua respiração aumentar. Olhei para cima. Seus olhos já não ardiam. De repente eles estavam, agora, com uma força flamejante, e ele estava rangendo os dentes, me observando enquanto eu me esticava. Seu olhar me disse que eu era carne e ele era um tigre, e isso me tornou jantar e sobremesa. — Você não deveria fazer isso. — O calor escuro em seu olhar, o conjunto de sua mandíbula e os nós dos dedos brancos de seus punhos traíram a força de sua concentração. Ele estava se concentrando... com muito, muito esforço. Parei meus movimentos e congelei no meio do alongamento. — Fazer o que? — Isso — suas palavras estavam irregulares. — Não faça isso, a menos que termine o jogo comigo. Lambi meus lábios, de repente descobrindo que estavam secos, e meus olhos se moviam avidamente sobre a forma de Quinn. Na verdade, naquela hora, não me lembrava que estávamos jogando, o que explicava por que, de repente, eu perdi a vontade de continuar no jogo. Então, novamente, poderia ter sido o julgamento prejudicado. Deixei minhas mãos caírem gradualmente para o tapete ao lado das minhas coxas. Meu cabelo caiu sobre meus ombros e minhas costas. Molhei meus lábios novamente, enquanto observava a ele e a sua reação fortemente controlada, com os olhos arregalados. Devagar, devagar, me endireitei e fiquei de joelhos e, sem planejar ou premeditar, empurrei o banquinho para o lado. Apesar do que eu achava que eram movimentos calculados, as cartas se espalhavam da mesa improvisada e caíam no chão. Seus olhos me seguiram com atenção intensamente cautelosa, enquanto ele sentava perfeitamente imóvel no sofá. Me arrastei até ele e me ajoelhei entre suas pernas. Coloquei minhas mãos levemente em suas coxas nuas para me equilibrar e me levantei. Ele se encolheu quando minha pele entrou em contato com a sua. — Quinn — sussurrei o nome dele. Eu não sei por que eu estava sussurrando,


mas eu suspeitava que minhas cordas vocais eram incapazes de cooperar. — Quinn. De repente, ele envolveu os longos dedos de uma das mãos em volta da minha nuca, segurando-a, e antes que eu pudesse pensar ou reagir, ele passou sua boca sobre a minha e me sentiu. Ele estava fervendo, molhado e quente, e o calor no meu estômago se agitou e torceu até a pressão entre as minhas coxas ficarem insuportáveis. Pressionei meus joelhos novamente e os firmei. Sua boca se afastou da minha e começou a morder alternadamente, chupar, e beijar meu pescoço. A pele do seu rosto não barbeado era agradavelmente dolorosa e cada golpe hábil de sua língua, acalmava os arranhões deixados pela barba por fazer. Fechei meus olhos contra as sensações de suas mãos e sua boca em todos os lugares ao mesmo tempo, e acho que perdi a consciência. Deixe-me esclarecer essa última declaração. Acho que meu prosencéfalo saturado de álcool, perdeu a capacidade do pensamento consciente. A parte inferior do meu cérebro — o Id, a parte que está associada a reações automáticas e instinto e comportamentos de busca de prazer e que querem sorvete no jantar todas as noites — pode ter consumido alguns benzodiazepínicos para que pudesse assumir o controle e fazer o que quisesse com meu corpo. Para simplificar, vou chamar essa parte do meu cérebro de Ida. E Ida fez o que quis com o meu corpo. Permita-me deixar isso bem claro. Na longa e distante jornada até a cama, Ida se acomodou no sofá, no chão e na cômoda. Em certo momento, Ida se posicionou contra a parede. Talvez, pela primeira vez na minha vida, minha mente passou uma quantidade significativa de tempo sem perambular, porque não conseguia engatar nem ganhar tração. Todas as superfícies do prosencéfalo eram escorregadias; tudo e nada era uma distração imediata. Eu estava totalmente focada no momento, no sentimento e na sensação de estar com, sobre, ao lado, embaixo, e contra Quinn. Fui esmagada, agarrada, acariciada, admirada, saboreada, e, por Deus, despertada. Eu estava excitada como se estivesse saindo de moda e à venda. Em um ponto, pensei que iria me dividir em duas e entrei em pânico, da mesma forma que um animal feroz entra em pânico quando abordado com uma gentileza desconhecida. Para minha surpresa, Quinn parecia compreender profundamente o que eu precisava. Ele sabia quando eu precisava de ternura e quando eu ansiava, bem, não de ternura. Ele calibrou seus movimentos, carícias e beijos, como o contraponto aos desejos que eu não tinha ideia que existiam dentro de mim, mas que, agora, eu estava certa de que nunca poderia viver sem. Com um olhar arrebatador, um olhar devastadoramente bruto, que roubou minha respiração e


me manteve cativa, um momento de conexão, ele me deixou destemida. A parte dissonante, porque existe uma, é que Quinn parecia estar tão perdido quanto eu, e meu corpo, minhas mãos, minha boca e meus olhos pareciam saber como ser seu contraponto, como tranquilizar, inflamar, mover, e responder. Se meu cérebro anterior estivesse comprometido, tenho certeza de que não teria reconhecido essa criatura repentinamente destemida que encontrou ousadia e bravura, e que acabou com a covardia dentro da perfeição caótica e sonhadora da intimidade física. Quando Ida — saciada, satisfeita, presunçosa Ida — permitiu que a cortina fosse puxada para trás, ainda que brevemente, Quinn e eu estávamos sucumbidos, um contra o outro, em um nó chinês de membros e lençóis. Eu estava um pouco menos bêbada de álcool, mas muito bêbada da euforia que aparentemente acompanha o sexo alucinante. Ida sussurrou no meu ouvido que Quinn era quente, bom e muito, muito certo. Concordei com essa afirmação, mesmo quando uma pequena dor originada em meu coração, tornou subitamente difícil respirar. Suprimi a sensação, engoli, e coloquei isto em uma prateleirra para pensar depois. De repente, tive três pensamentos rápidos: Quinn ainda está com a gravata. Me pergunto se ele vai me deixar ficar com ela. Me pergunto se ele vai me deixar usá-la para... E então, desse jeito, Ida estava no controle novamente.


Capítulo 21 A vida é engaçada. E eu não quero dizer apenas “ha-ha engraçado”. Também quero dizer astuta, curiosa, caprichosa e, “A piada é você, Batman”. Engraçado. O sono gradualmente recuou e pisquei contra a luz implacável. A primeira coisa que vi, foi o firme e quase branco travesseiro e lençóis vazios ao meu lado. Aos meus olhos, ainda sonolentos, os lençóis não pareciam familiares e a sala estava muito clara. Fiz uma careta, fechei os olhos e os abri novamente, e então me lembrei. Nua. Em uma cama. Em um hotel. Em Las Vegas. Tendo acabado de passar a maior parte do início da manhã fazendo amor despreocupado e complacente com Quinn Sullivan. Me sentei abruptamente e sem pensar. Meus olhos não estavam mais sonolentos. Fiquei chocada e desperta, como se uma corrente elétrica tivesse acabado de passar pela minha espinha. Meu olhar tentou absorver tudo de uma só vez: a sala, a janela, a porta, o relógio, a cama, minha nudez, as pilhas de roupas espalhadas em pontos pelo chão como formigueiros, e a pilha de cartas igualmente descartadas ao lado do banco. Rigidamente, eu ouvia atentamente os sons — passos, respiração, chuveiro, torneira — e passei vários segundos prendendo a respiração, até estar convencida de que estava sozinha. Soltei a respiração que estava segurando, lentamente, e permiti que meus músculos relaxassem um pouco. Permiti que meu cérebro voltasse sua atenção para pensamentos e sentimentos além de alarme e prontidão de batalha, enquanto meus olhos lentamente vagavam ao redor. Olhei para os detalhes, em vez de verificar se corria ou não perigo imediato de encontrar Quinn. Porque, impulsivamente, ao reconhecer e perceber onde eu estava e o que tinha feito, foi assim: perigo. Desde que passei grande parte da minha infância sendo deixada para trás e ignorada, pode-se pensar que, como um adulto, momentos de abandono são bem conhecidos. A verdade é que, como adulto, estou sempre à espera de ser deixada para trás. Estou sempre pronta para ser descartada e, portanto, gasto uma quantidade significativa de tempo me preparando para essa eventualidade. Diminuo minhas expectativas, não busco relacionamentos significativos e não


me envolvo em nenhum tipo de intimidade real, física ou não. Envolver é a palavra-chave aqui. Exceto quando me envolvo mesmo. Quando acontece, quando sou deixada para trás, não me sinto o chapéu velho. Parece que foi a primeira vez, e isso me pegou de surpresa. Então não deixo acontecer. Engoli em seco, lambi meus lábios e, distraidamente, puxei o inferior através dos meus dentes com preocupação. Olhei ao redor da sala e notei, com uma fria indiferença, que o relógio marcava 9h31. As únicas roupas espalhadas, me pertenciam. Eu estava sozinha. Havia, no entanto, um bilhete. Um pedaço de papel branco estava na cama, ao meu lado. Reconheci o logotipo do hotel no topo e a escrita eficiente de Quinn abaixo. O bilhete era ilegível de onde eu estava sentada, então eu olhei para ele. Eu olhei para ele. E eu olhei para ele. Então, eu olhei para ele. Depois, eu olhei para ele. Levando minha atenção para outro lugar, empurrei meu cabelo longo e pesado para longe dos meus olhos e atrás do meu ombro, em seguida, descansei minha testa na mão; meu polegar e indicador esfregaram minhas têmporas. Memórias tangíveis, não apenas fragmentos iniciais espalhados, do que ocorreu antes de adormecer, do que eu tinha feito e dito, do que fizemos juntos, mergulhada em foco, e uma pequena dor levemente familiar, originada em meu coração, tornou repentinamente difícil respirar. Julgamento prejudicado. Não foi ansiedade ou medo. Era algo como desejar, ou ansiar, ou esperar. A sensação me lembrou de quando minha mãe realmente estaria presente em um dos meus aniversários quando eu era criança, ou quando meus pais nos sentavam, as três meninas, e nos diziam que minha mãe ficaria daquela vez. Eu estava desconfortável com a sensação, e isso fez eu sentir desanimada e cansada. Então afastei aquilo, como eu tinha feito ontem à noite depois que fizemos amor pela primeira vez, e fui até o banheiro para tomar meu banho. Encorajei minha mente a vagar, a pensar em algo diferente do que dizia o bilhete de Quinn, e o que ou se alguma coisa havia mudado por causa da noite passada; se, à luz do dia, minhas decisões foram boas, então onde Quinn estava; ou quando eu veria Quinn novamente. No entanto, para minha decepção, apesar do meu desejo de sonhar com qualquer coisa e tudo mais, tudo em que eu conseguia pensar era no que, ou


onde, ou quando Quinn. Isso pode ter algo a ver com o fato de que sinais dele estavam em toda parte; e, por toda parte, quero dizer em todo o meu corpo. Eu estava dolorida do... esforço, e evidentemente pelas marcas de unhas, marcas de mordida e marcas de barba por fazer. Olhei para o meu reflexo no espelho por um tempo indeterminado e, rangendo os dentes, liguei o chuveiro. Não era só o fato de nunca ter experimentado nada como a ligação, a intimidade, ou as sensações da noite anterior. Pelo contrário, eu nunca percebi que o desejo existia. Me senti totalmente desconcertada pelo fato de que, o que antes era uma falta não identificada, agora parecia mais uma necessidade, como água e respiração, quadrinhos e sapatos. Não gostei que algo tivesse sido despertado em mim. Eu preferia estar no controle dos meus desejos. Além disso, preferia apenas ter desejos que pudesse satisfazer sem a exigência ou a assistência de outra pessoa. Afinal, essa era a definição de autoconfiança. Tentei me lembrar de que estava bêbada, então nada do que aconteceu na noite passada realmente contava ou importava. Julgamento prejudicado. Certamente, ele perceberia que eu estava demonstrando julgamento prejudicado. Depois do banho, me enxuguei e passei creme de cabelo para cachos. Minhas bochechas estavam vermelhas e tinha mais a ver com a lembrança da noite anterior do que com o vapor do chuveiro. Entrei na sala principal e, ainda evitando o bilhete, escalei o perímetro da cama, peguei minhas roupas descartadas e as dobrei em uma pilha ao lado da minha mala. Peguei outro terno do armário e comecei a me vestir no piloto automático. Já eram 9h47 e o avião deveria partir às 15h00. Eu iria enfrentar cinco horas sozinha com o bilhete. Eu olhei desesperadamente. A outra percepção desconcertante originada da noite passada, foi o momento no qual eu pensava ser confiança compartilhada. Dei a ele algo naquele momento, quando nossos olhos se encontraram e eu fiquei corajosa; era uma parte de mim mesma. E agora, na luz do dia, eu não tinha certeza se tinha tomado uma decisão especialmente sábia. Ele não ganhou essa confiança. Dei a ele com base na fraqueza chamada fé, e a fé tinha sido baseada no julgamento cebrebral deficiente pelo vinho. Eu não queria ler o bilhete. Tinha certeza de que sabia o que dizia. No fundo ele era, afinal de contas, um Wendell, e eu acabei de me tornar uma de suas estepes. Engoli em seco com o pensamento.


Mas eu não era. Não era uma estepe. Em vez de ser controlada pela Janie menininha-dramática-histérica, a Janie mais lógica se esforçava para fazer sua presença ser reconhecida: Fazer sexo intenso ao longo de várias horas não faz de você uma estepe. Esses pensamentos não ajudaram também. Com um bufar, fui até a cama e peguei o bilhete. A Janie menininhadramática-histérica tinha certeza de que aquilo era uma bomba. Janie lógica decidiu reservar o julgamento até que o bilhete fosse lido. Janie, Eu voltarei com café da manhã e café. Me ligue assim que você acordar. Quinn Olhei para o bilhete. Olhei para ele. E olhei para ele. Então, olhei para ele. Depois disso, olhei para ele. O desejo estava de volta, junto com a esperança. Ele se espalhou como um incêndio através do meu coração, cérebro e corpo tão rápido, que quase perdi o fôlego. Portanto, fiz a única coisa que fazia sentido. Entrei em panico.


Capítulo 22 Me perguntei se Quinn arruinou para mim tudo que era não-Quinn, da mesma maneira que seu avião particular arruinou as viagens comerciais. Saí de Las Vegas às 11h35, em um voo direto de Alliantsouth para Chicago. A linha de segurança me fez sentir como refugiada e a partir daí, foi só queda. Enquanto esperava na sala com vista para a pista, uma tartaruga de estimação foragida roubou meus óculos e os quebrou no meio da armação. Fui empurrada severamente quando embarcava no avião, e eu tinha certeza que o homem atrás de mim me apalpou. Quando me sentei perto da janela, a mulher ao meu lado tirou os sapatos. O cheiro dos pés de pântano foi tudo o que eu vivi e respirei por duas horas. Me perguntei se a tartaruga larapia apreciaria o aroma. Misericordiosamente, mais de mil milhas e uma viagem de táxi depois, eu estava sentada à minha mesa, checando meu e-mail, tomando café e modificando o plano original do projeto para o clube de Las Vegas. Passava das 18:00h e o escritório estava quieto. Permiti me perder em planilhas, cálculos, fórmulas e tabelas dinâmicas. O telefone do meu escritório tocou e, depois de inspecionar um valor calculado na tela para confirmar, levei o fone ao ouvido. — Janie Morris. — Que diabos, Janie. Choque elétrico, isso é o que foi. Ele estava irado e o som de sua voz causou essa sensação de choque ao viajar pela minha espinha e através dos meus membros, até que picou meus dedos das mãos, dos pés e orelhas. — Oi. Oi, Quinn. — Meu peito estava apertado e eu estava com dificuldade para respirar; mesmo assim, esforcei-me para parecer firme e calma. Silêncio. — Como foi sua viagem? Silêncio. — É bom ouvir sua voz... — a frase saiu como uma pergunta, como se eu estivesse jogando Jeopardy e tivesse escolhido minha categoria. Eu o ouvi suspirar. Quase pude ver seu lindo rosto e a frustração que estragava suas feições. Finalmente, ele disse: — O que está acontecendo? Peguei no plástico do meu calendário de mesa com a unha do polegar e não


senti nada além de remorso. Fechei meus olhos. — Sinto Muito. Sua voz estava menos irritada. — Por que você sente muito? — Eu só... — hesitei e apoiei minha testa na palma da minha mão. Eu não podia dizer a verdade. Não podia dizer a ele que eu sentia muito por expor o julgamento induzido pelo vinho e dormir com ele, porque eu não sentia. Não me arrependi. Eu estava feliz por ter sido embriagada, porque isso me permitiu fazer algo que era muito, muito imprudente. Fiquei contente que meu julgamento tenha sido prejudicado. Eu não poderia dizer a ele que saí, porque eu era um idiota que estava confundindo sexo fantástico com profundidade de sentimento. Eu não poderia dizer que estava esperando por um futuro com ele. Não podia admitir que estava desesperada por isso. Então eu menti. — Fiquei pensando sobre o voo com todos e você, e não acho que há um manual para isso, mas se houver, por favor, me envie, porque eu não queria dizer algo errado na frente de todos. Quer dizer, nós não conversamos sobre como isso funciona. Trabalhamos juntos e, você sendo você e eu sendo eu, e eu... eu não quero arriscar minhas relações de trabalho com a equipe… Ele me interrompeu quando parei para respirar. — Janie, Janie... tudo bem. Ok? Entendo. Parei, hesitei, mordi meu lábio inferior e me perguntei o que ele entendia, porque eu não tinha certeza se entendia. — Mesmo? — Sim. Mesmo. Eu sei que você gosta de rótulos e criou expectativas. Eu posso fazer isso quando se trata de trabalho. Podemos colocar em prática algum tipo de acordo que defina expectativas e tal, no trabalho. — Então você também acha que precisamos disso? —Sim, se isso fizer você se sentir mais confortável e, definitivamente sim, se isso impedir você de desaparecer novamente. Soltei as palavras antes que meu cérebro pudesse para-las. — Por que você está mesmo interessado em mim? Fechei meus olhos e franzi o rosto enquanto a minha vergonha e quietude dele complementavam minha pergunta. Minha autorrecriminação foi rápida: não faça essa pergunta; ele pode não ter uma resposta. Ouvi um clique-clique suave e depois silêncio. Abri os olhos e olhei para o relatório na minha mesa, sem realmente prestar


atenção. — Quinn? — não houve resposta. Engoli em seco. — Quinn? Você ainda está aí? — Isso não é uma conversa que eu quero ter pelo telefone. — A voz de Quinn veio da minha esquerda. Minha cabeça disparou para cima. Procurei e encontrei a fonte das palavras. Quinn estava lá, encostado na moldura da porta do meu escritório, o telefone ainda na mão. Lentamente coloquei o telefone na mesa enquanto estava de pé. Meu rosto decidiu dar a ele um sorriso tímido e estúpido. Foi uma resposta incontrolável à sua presença. — Oi... — respirei a palavra. — Oi — seu sorriso foi sem pressa e o calor em seus olhos faziam coisas estranhas comigo, como querer mordê-lo. Passou pela porta, fechou e trancou. Colocou uma sacola no chão e o celular no bolso quando entrou. Ele estava vestindo uma camisa branca e uma gravata estampada, mas sem paletó. Nós nos olhamos. Eu estava com medo de que ele pudesse se dissolver, provando ser uma invenção da minha imaginação se eu me movesse ou falasse. Não queria que ele desaparecesse. Então, como se fosse a coisa mais natural e esperada do mundo, ele atravessou a sala até onde eu estava e me beijou. Imediatamente me disse que ele tinha sentido minha falta e que passou o dia pensando em me beijar. O beijo também me fez querer mordê-lo. Depois que ele ficou satisfeito, se endireitou e inclinou a cabeça para o lado; seus olhos estavam meio fechados enquanto ele estudava meu rosto. Olhei para ele com outro sorriso tímido, reivindicando minhas características sem nenhuma decisão consciente do meu cérebro, e me permiti apreciar a visão. — Você não está usando óculos. — Seu tom era de conversa, mas sua voz era profunda, rude, quieta e muito íntima. Eu amei. — Não, eles foram levados. — Levados? — Longa história, envolvendo uma tartaruga. Ele sorriu para mim, seus olhos cheios de alegria masculina. — Uma tartaruga? Sério? — Sim. — Respirei ele. Ele cheirava bem. Eu amei. — O que vai fazer essa noite? — Vou encontrar meu grupo de tricô, às 19:00h. — Não sabia que você tricotava. — Ele ergueu as sobrancelhas. — Não tricoto. Suas sobrancelhas levantaram ligeiramente mais alto.


— Ah ok. Bem, que tal depois? Respondi com sinceridade. — Estava planejando classificar meus quadrinhos com base no nível de influência feminista da segunda onda. — Ao contrário da influência feminista da primeira onda? — Sim. Bem, Susan B. Anthony criou as bases para aqueles que viriam depois dela. É tudo realmente inter-relacionado, mas ela não teve influência direta sobre os quadrinhos do final do século XX. Ele fechou os olhos e balançou a cabeça. Um sorriso relutante tomava sua boca. — Por quê? O que você fará essa noite? — perguntei sonhadoramente. Naquele momento, me senti uma garota tão fraca. Ele encontrou meu olhar de novo, com uma das suas pálpebras pesadas. — Esperava te mostrar uma das razões pelas quais estou interessado em você, porque há muitas. Mas, se você precisa classificar seus quadrinhos, então acho que eu poderia apenas te mostrar agora. — Suas mãos deslizaram pelos meus braços até a minha cintura, meus quadris e, em seguida, minha bunda. Ele não segurou tão firme a ponto de cravar no meu corpo, mas o suficiente para me pressionar contra ele enquanto acariciava meu traseiro. O movimento fez minhas entranhas explodirem. Senti uma explosão nuclear de consciência, tão intensamente, que quase perdi o fôlego. Eu disse: — Ah — porque era tudo que eu conseguia dizer. Ele sorriu e baixou a cabeça. Me beijou logo atrás da minha orelha e depois no meu pescoço. Eu, claro, inclinei a cabeça para o lado para lhe dar melhor acesso. E então perdi a consciência — e com a consciência perdida, quero dizer que Ida acordou e firmou seu domínio —. É verdade. Fiz sexo muito intenso no meu escritório, com meu chefe, na minha mesa. Isso aconteceu. Já experimentei essas singularidades antes. Esses momentos surreais, onde alguma combinação da iluminação na sala, a situação, o cheiro, as pessoas com quem estou e as roupas que estou usando, me fazem sentir como se estivesse em um filme. De pé no meu escritório, simultaneamente tentando ajustar minha roupa íntima e cabelos, enquanto abotoava minha camisa com Quinn em minha visão periférica, me senti muito como se estivesse em um filme.


Nada no momento parecia muito plausível. — Preciso vir ao escritório com mais frequência. — Podia ouvir a brincadeira por trás de suas palavras, mas eu não sorri. Minhas mãos palpitaram para tocar sua pele nua, e meu coração acelerou no meu peito. Acabamos de usar um ao outro no meu escritório, literalmente na minha mesa, e eu já não conseguia parar de pensar em quando eu teria a chance de subir em cima dele novamente. Não era um sentimento com o qual eu tinha alguma experiência, e a intensidade era um tanto perturbadora. — Eu sei onde devemos jantar hoje à noite — disse ele. Sua voz veio de algum lugar atrás de mim. Imaginei que ele estivesse de pé, perto da janela. — Mas precisamos mudar de roupas primeiro. Meus dedos começaram a tremer e, portanto, parei de abotoar minha camisa. Colocando minhas mãos na cintura, me inclinei contra a minha mesa e abaixei minha cabeça. Permiti que as espirais de cobre cobrissem meus traços, enquanto eu tentava absorver o fato de que ontem à noite e alguns minutos atrás, foram eventos reais em minha vida. Eles foram autorizados a serem minhas memórias. Em meu cérebro, repeti: “Aconteceu, aconteceu, aconteceu, e está acontecendo” E desta vez, não pude culpar o vinho pelo meu julgamento prejudicado. Eu o ouvi atravessar a sala. Através das mechas dos meus cachos, observei seus sapatos de couro preto pararem diretamente na minha frente. Ele fez uma pausa, em seguida, tirou meu cabelo e colocou atrás das minhas orelhas. O gesto infinitamente gentil, fez com que eu me sentisse querida. — Ei — disse ele. Olhei para ele através dos meus cílios e nos encaramos. Sua ternura me encheu de necessidade aguda de invadir o silêncio. Limpei a garganta, encontrei seu olhar completamente e queria dizer algo que aliviasse a crescente discórdia em meu triângulo das Bermudas — cérebrocoração-vagina —. Finalmente, decidi por elogios e honestidade. — Apenas para registrar, foi muito agradável. Seus lábios se curvaram para o lado enquanto seu olhar se movia sobre minhas feições. — Existe um registro? Você tem mantido um registro? Assenti. — Sim. Eu mantenho um registro de tudo. Os dados são imensamente valiosos e é por isso que existem políticas de acesso à dados tão rigorosas para pesquisas médicas. Notei que seus olhos se fixaram abruptamente aos meus, no meio da minha declaração.


— Você... você... — ele lambeu os lábios. — Você realmente mantém um registro escrito de cada vez que você fez sexo? Fiz uma careta para ele. — Não seja ridículo. Eu não escrevo. Mantenho um log operando na minha cabeça; sabe, de coisas que eu gostei e que não gostei; coisas que você gostou ou pareceu gostar, esse tipo de coisa. Ele piscou uma vez, lentamente. — Ah. — Seus olhos estavam cheios de pura diversão, uma expressão incomum para ele. Crescendo desconfortável sob seu escrutínio robusto, mergulhei meu queixo, mais uma vez não querendo encontrar seu olhar diretamente. Talvez fosse cedo demais para compartilhar minhas tendências bizarras com ele. No entanto, ocorreu-me abruptamente que talvez fosse exatamente o momento certo para compartilhar minhas tendências bizarras. Talvez agora fosse precisamente o momento certo para mandá-lo correr, o que ele inevitavelmente faria. Antes que eu realmente mudasse e algum processo bioquímico relacionado à Quinn, provavelmente a metilação, transformasse todos os marcadores genéticos de garota-fica-louca do meu DNA e eu começasse a persegui-lo zelosamente, para obter minha próxima correção de Quinn. — É como tamanhos de sapatos — eu disse, estudando-o de perto. — Tamanhos de sapato — ele piscou devagar, novamente. — Do que você está falando? — Bem, eles fazem muitos tamanhos de sapato. Se os seus pés são maiores do que o maior tamanho de sapato, então você é considerado com pés incrivelmente grandes — toquei meu polegar e indicador nos botões da minha camisa, garantindo que todos estivessem completamente presos e abotoando rigidamente, principalmente os dois últimos. — Você deve saber que tenho atributos esquisitos igualmente inevitáveis. Quinn imediatamente sorriu, mas depois reprimiu. Limpou a garganta. — Bem, e os palhaços? Eles usam sapatos incrivelmente grandes. — E? — Então, sapatos grandes têm o seu lugar. — Sim, no circo... — cruzei meus braços. — Você sabe, com os esquisitos. Ele imitou minha postura. — Você não é uma aberração. — Você deveria saber isso sobre mim, antes que isso, seja lá o que for, saia de controle. Eu sou, de fato, uma aberração. — Defina fora de controle. Minhas bochechas arderam com a maneira como ele fez o coloquialismo soar


sórdido. Independentemente disso, endireitei minha coluna e tentei parecer razoável e lógica. — Você sabe, antes disso se transformar em outra coisa e você achar que eu sou de um jeito, quando na verdade sou de outro. — Janie, você não é a única nesta sala que é bizarra. — Não, você não é. Você é um falcão e eu sou um avestruz. Parecendo muito predatório, ele estreitou os olhos. — Primeiro, você está usando muitas analogias hoje, e segundo... Interrompi. — Veja? — apontei para mim mesma com as duas mãos para dar ênfase. — Anormal! Ele me ignorou. — Bem, tenho que admitir que posso ver totalmente as semelhanças entre você e um avestruz. Isso me surpreendeu. Pensei que ele tentaria me defender contra meus próprios insultos. — Eu... uh... me explica? — foi a minha vez de piscar lentamente. — Sim. — O lento sorriso sexy gradualmente reivindicou suas características. — É porque eu sou um pássaro estranho, que enterra a cabeça na areia? Ele riu enquanto esfregava o queixo levemente. — Não, é porque você tem pernas longas, olhos grandes e... — Seus olhos se moveram sobre o meu cabelo. — Muita plumagem. Sem pensar, peguei os pavorosos montes de cachos e torci o grosso volume, esperando amenizar o caos, mas sem sucesso. Ele sorriu para mim. A força total de seu sorriso pareceu quase dolorosa. — Então, sobre o jantar... — Eu... uh... não posso sair com você hoje à noite — eu estava um pouco surpresa com o quão normal minha voz soava. — Você sabe, vou encontrar meu grupo de tricô. Eu te disse antes, antes de nós... antes de você... — bufei. Quinn inclinou a cabeça para o lado e levantou suas grandes mãos para cobrir meus ombros. Era tão estranho pensar que ele poderia me tocar à vontade e que queria fazê-lo, que agora estava subitamente ok e esperado, porque o selo havia sido rompido; a linha havia sido cruzada. Eu mantinha certas verdades como evidentes — verdades sobre mim mesma, sobre as pessoas, sobre o mundo e sobre como tudo se encaixava — e elas estavam mudando. Tudo estava mudando tão rápido, tudo. A única coisa constante, era a


mudança. Suas mãos desceram pelos meus braços e ele me puxou em sua direção, longe da mesa. Permiti que ele me puxasse para seu peito enquanto ele varria a cortina de cabelo do meu rosto. Ele inclinou meu queixo para cima e me beijou suavemente na boca. Ele não me libertou imediatamente. Seus longos dedos estavam agora sob meu queixo, mas ele afastou a cabeça o suficiente para que sua testa e nariz estivessem em foco. Os olhos de Quinn olhavam nos meus. Fiquei mais uma vez impressionada com os quão azuis eram, e perdi um pouco da respiração quando me esforcei para exalar. Ele franziu a testa. — Você ainda quer ir ao seu grupo de tricô hoje à noite? Balancei a cabeça. Seu olhar percorreu minhas feições, como se estivesse procurando a veracidade da minha resposta de cabeça. — Você poderia faltar essa semana e passar algum tempo com o cara que você está namorando. — Suas mãos se moveram para a minha cintura, ostensivamente para me manter no lugar. Engoli e pressionei meus lábios em um sorriso. — Isso é muito tentador. Sua boca enganchada para o lado; ele parecia esperançoso, uma expressão que parecia estranha em todos os aspectos tipicamente reservados. — Poderíamos pegar um cinema. Eu queria. Não, eu precisava manter meu compromisso com o grupo de tricô. De repente, senti que era muito importante que eu estivesse lá. — É a minha noite de levar o vinho. Se eu não for, elas vão começar a passar trotes nos idosos e depois me culpar pelas prisões subsequentes. A verdade é que eu precisava de tempo para descobrir o que era isso. Eu estava muito ligada a Quinn, mas me preocupei que fosse um pouco prematuro. Para eu me apegar a alguém, normalmente levava anos. Eu o conhecia há menos de seis semanas e já sentia mais por ele, e pensava mais nele, do que aconteceu com Jon. Pelo amor de Thor, eu estava sentindo falta dele mesmo quando estávamos na mesma sala juntos. A força dos sentimentos e a natureza virtualmente consumidora delas, me fizeram querer me esconder debaixo da minha mesa, até que meu cérebro, meu coração e minha vagina chegassem a um consenso. Portanto, eu o afastei, embora gentilmente, e insisti em encontrar minhas amigas. Sua expressão se transformou em uma que era familiar: reservada. Notei que a mandíbula de Quinn estava acentuada e sua boca se curvou para baixo. Ele suspirou. Soou dolorido.


— Janie pensei que, depois de... — Quinn lambeu os lábios, soltou minha cintura e se afastou. Ele cruzou os braços e ficou com os pés afastados, como se estivesse aterrissando — O que foi? — seu tom estava quebrado. Eu engoli antes de responder. — O que foi o quê? O olhar predatório retornou; o que parecia hostilidade reticulada através de seu olhar. — Nós apenas... — sua voz começou a subir e observei enquanto ele engoliu com dificuldade, olhou para longe, olhou de volta para os meus olhos e suspirou novamente. — Você quer ir passar um tempo com seu grupo de tricô, hoje à noite, depois do que acabou de acontecer? Depois do que aconteceu ontem à noite? Comecei a segurar meu lábio com meus dentes, meus olhos arregalados de sentimentos difíceis explicar. — Sim? — Sim? — suas sobrancelhas subiram com expectativa. — Isso é uma pergunta? — Não? As sobrancelhas de Quinn se esticaram em um forte V. — Estamos na mesma página, aqui? — Não sei o que dizer. — Me abracei, rangendo os dentes. Nós nos encaramos. O momento era prolongado e rígido, como uma camisa pesadamente engomada. Seu olhar — cansado, acusador, mas penetrante — fez eu me sentir uma imbecil. Talvez eu fosse. Na verdade, sabia que era. Eu tive a oportunidade de passar a noite com Quinn, que eu realmente gostei em todos os sentidos, e eu estava recusando isso, porque estava com medo. Sim, com medo. Fi, fa, fo, fum, assustada. Incapaz de segurar seu olhar penetrante, deixei escapar um suspiro lento. Fechei os olhos e desviei o rosto dele, mas apenas o meu rosto, e balancei a cabeça. — Eu não sei o que dizer. — Minha voz soou estranhamente perdida aos meus próprios ouvidos. Eu o senti, ao invés de vê-lo se aproximar. — Se você não está interessada em mim como algo permanente, então você precisa me dizer agora. Minha risada curta foi involuntária e imediata, assim como minhas palavras. — Deus, Quinn, você não tem ideia de quão permanente eu gostaria que fosse.


Eu gostaria que fôssemos bolinho Ana Maria, e baratas, mortes e impostos. Mas eu… Suas mãos estavam em mim novamente, na minha cintura, escorregando para as minhas costas, me pressionando contra o seu peito, me puxando para um abraço. Automaticamente peguei em sua camisa e me agarrei a ele. — Então fique comigo essa noite. — Suas palavras foram quentes contra o meu ouvido, e a saturação anterior de irritação estava, agora, ausente. Ele parecia quase aliviado. — Eu só preciso... — minha respiração estava irregular. Viajei em águas inexploradas e minha confissão não intencional, não acalmou meu desconforto, mas também não intensificou. Eu estava no limbo emocional. Descansei minha cabeça contra seu ombro e o respirei; ele estava tão quente, como uma fornalha. Eu fechei meus olhos. Finalmente eu disse a única coisa que fazia sentido, o que foi facilitado pelo anonimato da escuridão por trás das pálpebras fechadas. — Eu não sei o que estou fazendo. Estou com medo. Não estou acostumada a isso. Eu o senti sorrir contra o meu pescoço onde ele mergulhou a cabeça, e seus lábios roçaram no meu ombro. Se afastou, lentamente, com óbvia relutância. Uma de suas mãos grandes acariciou minha bochecha; seus dedos puxaram meu cabelo e forçaram minha cabeça para trás. — Olhe para mim. Respirei fundo, então abri meus olhos. A maior parte de sua frustração anterior estava ausente e a maneira como ele olhou para mim, me deixou desconfortável, mas deliciosamente ciente de que estávamos pressionados da cintura para baixo. — Vamos sair amanhã à noite, ok? — Ele manteve o polegar no meu rosto, esfregando-o lentamente sobre a minha bochecha em círculos de indução de transe. Eu assenti. — E você vai passar a noite toda comigo? — o queixo de Quinn caiu em seu peito, de modo que ele estava olhando para mim através de suas sobrancelhas. — Nenhuma organização feminista de quadrinhos? Nenhum clube de tricô com vinho? — É um grupo de tricô com beber vinho envolvido, mas sim: vou passar a noite toda com você. — Meu queixo tremeu um pouco, fazendo minha voz trêmula e não maquiada. Ele pode ter detectado a fraqueza do meu limbo emocional, porque ele sorriu


para mim de uma forma que aliviou a pressão de sua frustração anterior e começou a acalmar a convulsão confusa. — Ok. — Seus dedos saíram do meu cabelo e, vagarosamente, ele deu um passo para trás, suas mãos enfiando nos bolsos da calça como se precisassem ser contidas. O sorriso cresceu um pouco melancólico, quando seus olhos se moveram sobre o meu rosto. — Eu posso esperar.


Capítulo 23 Era a vez de Marie receber a noite de tricô. Quinn insistiu em me levar ao encontro do grupo, não deixando espaço para discussão. Ele me acompanhou até a porta do prédio de Marie e me deu um beijo de despedida. Foi um beijo devastador e quando ele foi embora, senti parte de mim ir com ele. Desnecessário dizer que foi uma sensação desconcertante. Também insistiu, antes de partir, que eu prometesse ligar para ele enquanto organizava meus quadrinhos mais tarde, naquela noite. Ele alegou estar interessado em aprender tudo sobre como a segunda onda do feminismo influenciou os quadrinhos do final do século XX. De alguma forma, achei a afirmação duvidosa. Elizabeth me encontrou na porta e passei pelo apartamento bem decorado de Marie sem realmente ver nada, ou perceber alguém. Se eu tivesse sido mais autoconsciente, poderia ter detectado os olhares que se seguiram à minha entrada e os olhares inquisitivos trocados. Minha mente estava envolvida no desejo de viajar e não na preferência por vagar, porém vagava prazerosamente. Pressionei meus dedos nos lábios e lembrei da forma com que Quinn me levantou na mesa, como se eu não pesasse nada. Seus dedos quentes debaixo da minha saia, acima da renda da minha meia calça e... — Janie? Pisquei várias vezes. Saí do meu transe e me concentrei na pessoa que estava em minha frente, olhando para mim com o que parecia ser uma leve preocupação. Era Ashley. — Sim? — Sinceramente, garota onde sua mente acabou de ir e você precisa de um companheiro de viagem? — o sotaque de Ashley, do Tennessee, foi silenciado. — Você está bem? — Eu... uh... — continuei a piscar para ela. Olhei ao redor da sala e aos seus habitantes, como se os vissem pela primeira vez. Todas me observavam com preocupação e uma nítida curiosidade; o único som que quebrava o silêncio era Sandra comendo batatas fritas. — Sinto muito — finalmente consegui dizer. — Você estava falando comigo? Elizabeth estava sentada no sofá, os olhos arregalados e vigilantes. Deu um tapinha no assento ao lado dela. — Perguntei se você queria se sentar, mas você apenas ficou parada.


— Ah! Sim. Sim, claro, adoraria me sentar. — Abaixei a cabeça e me movi para ocupar o assento ao lado dela, deixando minha bolsa cair do meu ombro para os meus pés. — Onde está sua mala? Já deixou no apartamento? — Elizabeth me olhou com desconfiança, mas seu tom era leve e descontraido. — Não, ainda não. Fui ao escritório depois que aterrissei. Marie me entregou um prato com batatas fritas e cebola, e compartilhou um olhar com Fiona sobre minha cabeça. — Como foi sua viagem? — Foi... — corei incontrolavelmente enquanto um sorriso gigante tomava uma forma hostil no meu rosto. Enfiei meu queixo no meu peito e permiti que meu cabelo caísse para frente e protegesse minha expressão. Houve uma ingestão aguda de ar. — Você não! — Elizabeth exclamou. — Meu Deus! — Espere. O que? O que aconteceu? — Ashley disse, ouvindo a explosão de Elizabeth. Apertei meus olhos quando a sala explodiu em vozes. Elizabeth estava pulando para cima e para baixo no sofá ao meu lado, espalhando minhas batatas fritas para todos os lados. Ela estava cantando: “Você fez! Você fez!” — O que? O que ela fez? — as palavras tranquilas, mas curiosas, de Kat cortaram o barulho. — Janie fez sexo selvagem com o Calças-Quentes! — as vibrações de Elizabeth quase me fizeram cair do sofá. Abandonei o prato de papel no colo e agarrei as almofadas ao meu lado, o que provou ser uma coisa muito boa quando, um momento depois, fui abordada por um abraço de urso. — Louvado seja o Senhor! — Sandra me apertou com uma das pernas cruzadas sobre o meu colo. Uma fração de segundo depois, dedos gordurosos de batata frita estavam nas minhas bochechas, e ela levantou meu rosto para o dela. Seu sotaque do Texas, foi ainda mais pronunciado do que o habitual. — Quando Elizabeth nos disse que você estava dando um gelo nele, fiquei com muito medo de nunca poder viver suas experiências sexuais, indiretamente. — Ela me deu um beijo repentino, rápido e de boca fechada, em seguida, segurou minha cabeça em seu peito, como se faz com uma criança. — Se você não subisse naquele homem como se sobe em uma árvore, eu teria que te mostrar como se faz. Nesse momento eu estava rindo e, reconhecidamente, bufei. — O que isso significa? — Marie, também rindo, estava tentando me tirar do abraço de Sandra. — E dê à pobre garota, espaço para que ela possa nos contar tudo. Exatamente tudo. — Marie conseguiu puxar Sandra de cima de mim e


começou a juntar as batatas espalhadas. Tentei ajudar. Elizabeth soltou um gritinho de novo e se mexeu no sofá para ficar de frente para mim. Ela abraçou um travesseiro contra o peito, os olhos iluminados com alegria animada. — Comece do começo! Não deixe nada de fora e nos conte exatamente o que aconteceu. — E certifique-se de descrever tudo em polegadas. Eu não consigo fazer a conversão métrica na minha cabeça. — Ashley acrescentou, se inclinando para trás e tomando seu vinho. Coloquei as mãos no rosto e balancei a cabeça. — Gah! Eu nem sei por onde começar! — Comece com a parte que tiraram as roupas! — a sugestão de Kat me fez ficar um tom mais claro de vermelho. — Vocês não entendem; muita coisa aconteceu — suspirei. Coloquei minhas mãos na minha saia e segurei na barra. — Descobri que Quinn não é... bem, ele é meu chefe, e então tem Jon com a minha irmã, e então Kat, e a razão pela qual eu fui demitida... — Dê a ela um minuto! — disse Fiona repreendendo o grupo, e então acrescentou: — Deixe-a reunir seus pensamentos; caso contrário, ela pode deixar as melhores partes de fora. Tentei contar o que aconteceu e consegui transmitir os fatos, mas era uma contadora de histórias totalmente inadequada quando se tratava de contar detalhes complicados. A certa altura, Ashley disse: — Meu Deus, Janie. Como você pode fazer tudo parecer um relatório policial chato? — Ah, caramba... — Marie mordeu o lábio. Seus olhos azuis fixaram em mim com preocupação. — Você está bem, querida? Não acredito que tudo isso aconteceu em uma semana. — Obviamente ela está bem — Sandra interrompeu, colocando seu tricô na mesa e tomando um gole de sua cerveja. — O que eu quero saber, é quem venceu o jogo de strip poker? Elizabeth pegou minha mão. — Não acredito que ele é dono da empresa. Por essa não esperava. — Eu não acredito que Jon dormiu com sua irmã psicopata — Ashley entrou na conversa. — Aquela safada é doooooida. — Quem ganhou o pôquer, Janie? — a voz suave de Fiona chamou minha


atenção, e seus olhos perceptivos se estreitaram de um jeito que me deixou enervada. Engoli. — Foi um empate. — Hmm... — Fiona pressionou os lábios em uma linha contemplativa. — Então vocês estão namorando? Balancei a cabeça como se fosse limpá-la. — Eu acho que sim. — E é isso que você quer? — Fiona pressionou. Balancei a cabeça antes de perceber que minha cabeça já estava se movendo. — Sim — meu queixo tremeu um pouco. — Sim, mas é assustador, sabe? — Oh, Janie. — Fiona sorriu para mim, seus olhos de elfos, brilhando. — É assim que você sabe que é real. Mandei uma mensagem para Quinn naquela noite, quando saí do tricô: Não organizarei meus quadrinhos. Em vez disso, planejando desmaiar de exaustão assim que chegar em casa. Ele respondeu: Está bem. Vou cancelar a ligação. Até amanhã depois do trabalho. Só para você saber, os seguranças irão se certificar de que você chegue bem em casa. Então, um minuto depois: Estou com saudade. Você deveria passar a noite aqui amanhã. E, trinta segundos depois: Ou você pode vir agora. Eu prometo deixar você dormir. Pensei nisso. Pensei nisso; minha cabeça disse que não, mas minha vagina disse que sim e meu coração disse que não sei! Estou emocionalmente inibida! Me deixe em paz! Reconheci os seguranças pela minha visão periférica, ciente de que estavam me seguindo pelo caminho curto até em casa. Marie morava no nosso bairro há apenas três quarteirões de distância. Elizabeth teve plantão a noite no hospital e deixou o grupo um pouco mais cedo. Estava uma noite fria e minhas bochechas arderam quando o vento de Chicago chicoteava contra o meu rosto, passando pelo meu cabelo solto e o jogando violentamente ao redor dos meus ombros. O ar frio parecia sóbrio. Respondi a última mensagem de Quinn: Se eu for, não vou querer dormir. Vai deitar. Coloquei meu celular no casaco e subi os degraus do prédio. Quase imediatamente, senti o telefone tocar no meu bolso. Eu olhei para a tela


enquanto abria a fechadura e me dirigi para as escadas: Você definitivamente deveria vir agora. Eu sorri, minha pele aquecendo, minhas bochechas ficando rosa. Ele me fazia corar, mesmo que por mensagem. Ganhei altitude distraidamente, tocando a tela do meu telefone e digitando uma resposta enquanto sorria como uma idiota. Não. Nós dois precisamos dormir. Vai deitar. Com segundas intenções, e antes que eu pudesse me conter, acrescentei um último pedaço porque era verdade e, de repente, eu queria que ele soubesse: Também estou com saudade. Abri a porta do meu apartamento enquanto digitava no telefone. Fechei a porta e tranquei a fechadura. Respirei fundo e me encostei na divisória. Permiti que minha cabeça batesse contra ela, quando fechei meus olhos e me perguntei como era possível que eu só estivesse longe de casa por menos de quarenta e oito horas. Tanta coisa mudou desde a última vez que estive aqui. — Que diabos há de errado com você? Endureci. Meus olhos se arregalaram no tamanho de um pires, enquanto eu procurava pela dona da voz. Mesmo antes de a ver, sabia quem era. Jem.


Capítulo 24 Ela estava no corredor com o ombro contra a parede, de braços cruzados e seu queixo estava levantado na maneira orgulhosa e teimosa que costumava empregar quando se deparava com... bem, qualquer um. Jem estava vestida com calça jeans escura, botas marrons e uma camisa branca de mangas compridas — roupas consideravelmente mais decentes do que ela usava normalmente —, no entanto, pensei, estava frio lá fora e fazia tempo que não a via. Seu cabelo parecia com o meu: longo, encaracolado e geralmente indisciplinado. Era até da mesma cor. Mesmo que ela fosse pelo menos dois números mais magra do que eu, imediatamente entendi como eu poderia ser confundida com uma sósia dela, especialmente à distância. Pisquei para ela imaginando, a princípio, se ela era real ou imaginária, e esperava que fosse a segunda opção. Antes que eu pudesse pensar em falar, a voz rouca — de Patty Pimentinha — de Jem interrompeu meu debate interno. — Bem? Observei-a por um longo momento antes de perguntar: — Como você entrou no apartamento? Jem encolheu os ombros. — Fingi ser você. Disse ao síndico que perdi minhas chaves e ele me deixou entrar. — Bem, que ótimo — suspirei pesadamente e entrei no apartamento. Tirei minha jaqueta de lã marrom, pendurei no cabide e olhei para ela. — Você não está feliz em ver sua irmãzinha? — ela mudou, seus lábios pressionando em uma linha de irritação. Passei por ela na sala de estar, em seguida, fui à cozinha. De repente eu precisava de uma bebida. Jem me seguiu e parou no balcão, se inclinando sobre ele. Ela me observou, enquanto eu servia suco de laranja e tequila. — Tem certeza de que é uma boa ideia? Ignorei a pergunta e misturei os líquidos com uma colher. — Você aguenta beber mais agora? A última vez que vi você beber, desmaiou com cinco doses de vodca. — Eu não desmaiei. Vomitei no meu inspetor SAT — aquilo não me chateava mais. Eu só sabia que quando Jem estava por perto, era importante ser o mais correto e preciso possível. — Tanto faz. — Por que você está aqui? — tomei um longo gole da minha bebida. — Eu disse que vinha te visitar.


Ficamos nos encarando por vários momentos e então perguntei de novo. — Por que você está aqui? Ela se endireitou lentamente e cruzou os braços. — Estou passando por Chicago e preciso de um lugar para ficar por alguns dias. Balancei a cabeça. — Você está em Chicago há semanas. Por que agora? Seus olhos se estreitaram quase imperceptivelmente enquanto o queixo dela se erguia. — O que você sabe sobre isso? Tomei outro gole do meu suco e o coloquei no balcão. — Eu sei muito — Quando ela me estudou, notei que seu olhar era duro e cauteloso, assim como eu me lembrava. Ela falou devagar, como se escolhesse as palavras com cuidado. — Quem te disse que eu estou em Chicago há semanas? — Jon. — Rolei meu copo entre as palmas das minhas mãos para mantê-las ocupadas, querendo me mover, querendo escapar, querendo dar um soco na cara dela, querendo comer uma barra de granola. Sua expressão não mudou; seu olhar nem sequer vacilou. — Ele é um idiota, sabe. — Você também é. — Essa barra de granola estava parecendo cada vez melhor. Coloquei minha bebida no balcão e comecei a assaltar a despensa. — Sim, mas eu não finjo sobre isso. Ele justifica todas as suas babaquices, falando que é amor. Me dá um copo. Olhei por cima do meu ombro e a observei destampar a tequila. — Agora você vai beber minha tequila? — Sim. Dei de ombros e fui para o armário que continha os copos. Passei um para ela e voltei minha atenção para a Caçada à Granola Vermelha. — Qual era o plano, Jem? Por que você fez aquilo? — não me importo com o motivo dela ter dormido com Jon. Em vez disso, não gostei do silêncio e parecia um tópico razoável para conversa, dadas as circunstâncias. — Chantagem, é claro. — Claro. — Encontrei as barras de granola e tirei duas, passei uma para ela e abri a outra com meus dentes. Sempre lutei com a abertura de itens de serviço único, como embalagens de M&M’s ou preservativos. — Ele, claro, fodeu tudo ao te dizer a verdade — Jem derramou uma grande quantidade de tequila no copo, mas não bebeu. — Por que a chantagem?


— Eu precisava de dinheiro. — Por quê? Jem segurou meu olhar por um longo momento, farejou e então moveu os olhos sobre o conteúdo da pequena cozinha como se estivesse fazendo um inventário. Ela tomou um gole da tequila, mas não fez uma careta. Aproveitei essa oportunidade para estudá-la. Pela primeira vez que eu me lembre, em muito tempo, Jem parecia evidentemente desconfortável. De repente, descobri que estava gostando do silêncio. Gostava de bater meus lábios quando eu tomava um gole da minha Tequila com suco de laranja, e gostei do jeito que a alta trituração da barra de granola soava ampliada por sua inquietação tensa. Quando ficou claro que ela não tinha intenção de responder a minha pergunta, decidi perguntar, com a boca cheia de aveia adoçada e crocante: — Posso adivinhar? alguns dos pedaços soltos da barra de cereal voaram dos meus lábios, caíram no chão e em cima do balcão. Foi desagradável e nojento, e eu adorei. Jem mudou seu peso de um pé para o outro, girando sua tequila limpa, ainda não encontrando o meu olhar. — Certo. — Ok, eu vou tentar três palpites. — Coloquei minha comida no balcão, engoli meu suco de laranja e estalei os nós dos dedos. — Tentativa número um: Você precisa do dinheiro para ir para a faculdade. Seus olhos se levantaram para os meus. Um pequeno sorriso genuinamente divertido apareceu no canto de seus lábios. — Sim, é isso. Entrei no MIT, mas preciso dos duzentos e cinquenta mil para cobrir os livros do meu primeiro semestre. Devolvi o sorriso dela. Eu não conseguia lembrar a última vez que sorri para ela, de maneira sincera ou não. Balancei a cabeça lentamente. — Não, não. Não é isso. Me deixe tentar de novo. — Limpei a garganta, franzi os lábios e estreitei os olhos. — Você planeja iniciar uma organização sem fins lucrativos e precisa do diretor de startup. Ela assentiu. — Ok, você me pegou. Eu quero ajudar órfãos a aprender a pescar lagostas. Se eles não aprenderem sobre pesca de lagosta comigo, eles vão aprender sobre isso nas ruas. — Geralmente não é chamado de pesca de lagosta. O principal método para capturar o lagostim é o arrasto, embora as grandes lagostas Homarus sejam capturadas quase sempre com armadilhas para lagostas. — Foda-se a besteira da Wikipedia, Janie. Meu sorriso aumentou, mas pude sentir a amargura por trás disso; minha boca


tinha gosto de vinagre. — Ah, mas acho que não é isso também. Ok — coloquei meu dedo indicador no queixo. Fiquei surpresa por ela estar brincando, digo, brincando comigo, e me ocorreu que Jem não esperava que eu acertasse. Inalei profundamente. —, deixeme pensar… — Talvez sejam os dois. Talvez eu queira ir para a faculdade para que eu possa começar uma ONG. Estalei meus dedos, quase a surpreendendo. — Entendi! — Você me pegou. Eu quero adotar todos os dálmatas em Boston e transformá-los em um casaco de pele — sua voz era, claro, inexpressiva quando disse isso. Jem levou a tequila aos lábios. — Não — hesitei e depois respirei fundo novamente. — Você está fugindo de um skinhead chamado Seamus, que tem tatuagens no pescoço e quer matar você. Jem ficou perfeitamente imóvel, seus olhos perfurando os meus, seu copo no ar. Eu permiti passar vários segundos. Notei que ela não parecia mais se divertir. Minha mão pegou e fechou a embalagem descartada da barra de granola. Eu a amassei com meus dedos e continuei. — E precisa do dinheiro para poder se esconder. Jem tomou outro gole do líquido marrom e abaixou o copo. Sua expressão era inescrutável. Esta era a Jem que eu conhecia. Eu não conseguia lembrar de uma época em que ela não olhasse para o mundo — e para mim — com uma inflexibilidade de granito. Seu peito se expandiu lentamente, como se ela estivesse respirando calmamente. — Como você sabe disso? — tão silenciosa; sua voz era tão baixa que quase não ouvi as palavras. Tentei espelhar sua máscara impassível, mas sabia que estava falhando. Eu podia sentir o calor do ressentimento saindo dos meus dedos e olhos. Senti o calor arrepiante em cada inspiração que tomei. — Palpite de sorte. — Lambi meus lábios; eles tinham o gosto doce do suco de laranja. Nos encaramos em silêncio, por um longo tempo. Eu queria gritar com ela. Eu queria perguntar se ela já pensou em alguém além de si mesma. Eu queria perguntar à ela quando e por que ela decidiu ser a louca garota Morris, em vez da doce, ou sociável, ou educada, ou qualquer outra versão de garota que ela poderia ter escolhido além de louca. Ela quebrou o silêncio. — E preciso do dinheiro. Suspirei e olhei para o meu copo quase vazio. Meus dedos esfregaram minha


testa. Eu ia ter uma dor de cabeça. — Eu sei. — Não, Janie. Eu realmente preciso do dinheiro. Meu olhar cintilou com o dela, e fiquei surpresa ao descobrir que o medo havia substituído alguns, não todos, o pedregulho da inflexibilidade. Suspirei. — Eu não tenho dinheiro. — Mas Jon tem. Eu balancei a cabeça. — Duvido que ele te dê algum dinheiro. — Mas vai dar para você. Se pedir, ele lhe dará qualquer coisa. Mordi meu lábio superior para silenciar o meu desejo abrupto e inesperado de gritar com ela. O impulso foi tão repentino, que tive que engolir. Minhas mãos estavam tremendo. Eu estava com raiva. Eu não conseguia falar, então balancei a cabeça novamente. — Porra, Janie! É o mínimo que ele pode fazer depois de te trair. E então eu ri. No começo, foi uma explosão curta, completamente involuntária. Então, quando eu encontrei seu olhar, outra risada histérica se expeliu e eu estava perdida. Eu estava rindo tanto, que meu queixo e as laterais doíam. Tive que cambalear até o sofá para não cair no chão. Nada nessa situação era engraçado. Eu tinha certeza que tinha acabado de desmoronar. — E daí? Você não vai me perdoar por ter dormido com o babaca do seu namorado? Minha boca se abriu. Não achei que fosse possível que o comportamento dela me surpreendesse nesse momento. Eu estava errada. No entanto, eu era tão experiente em entorpecer meus sentimentos em torno da minha família — na presença deles, quando eu pensava sobre eles, quando me lembrava da minha infância — que minha surpresa foi de curta duração. Era como olhar para eles e meu passado, através de um microscópio; eles foram um desafortunado experimento científico. — Jem — levantei as mãos do meu colo e pressionei as palmas das mãos no meu peito. — Eu não consigo te perdoar se você não se arrepender. Seus olhos verdes se estreitaram em fendas. — Sim, acho que você está certa. — Sua cabeça balançou em um pequeno movimento, e sua voz estava quieta. — Não sinto muito. Faria de novo. E se você tivesse outro namorado rico que eu achasse que poderia conseguir dinheiro, eu também dormiria com ele.


Suas palavras me fizeram recuar. Fechei os olhos para não ter que olhar para ela. Sua voz rouca estava mais próxima quando ela falou em seguida. — Não somos tão diferentes, sabe. Não abri meus olhos com esta declaração ridícula. Em vez disso, me inclinei ainda mais no sofá e quis que ela se fosse. Ela continuou. — Eu não acho que Jon seja o canalha. Ele acha que você é isso; você é a única. Você não parece se importar que ele tenha te traído, e você não dá a mínima para ele. Bufei com isso. — Um minuto você diz que ele é um idiota por me trair, e no minuto seguinte você diz que eu sou a vilã por não me importar o suficiente com a traição dele. Jem, terminei com ele. — Sim, mas você não parece muito deprimida com isso. Abri meus olhos, mas estava tão afundada no sofá que meu olhar não estava mais alto do que a borda da mesa de café. — Não vai funcionar. Ainda não vou pedir dinheiro ao Jon. O rosto de Jem era sem surpresas, vazio de emoção. — Você é como eu, Janie. Você deixou Jon, um cara irritantemente legal com quem você namorou por anos e que ama você mais do que tudo, e agora você não sente nada além de alívio. Estou certa? Você está aliviada por não precisar mais se preocupar em levar em conta os sentimentos dele. Você tem os meios para salvar sua irmãzinha da morte certa e você não pode sequer fingir sentimentos suficientes para tentar. Você é incapaz de sentir qualquer profundidade de emoção, Janie, assim como eu, e assim como a mãe. Encontrei seu olhar calmamente, embora suas palavras encontrassem o alvo pretendido com rapidez e precisão. A avaliação simplificada de Jem sobre a situação de Jon estava muito próxima da minha visão atual da realidade, mas eu ainda não tinha terminado de classificar todas as razões pelas quais esse relacionamento terminou. Era verdade. Eu não estava tão ligado a Jon como ele pode ter estado a mim. Também era verdade que eu estava sentindo principalmente alívio sobre o fim do relacionamento. No entanto, ele me traiu, depois tentou mentir sobre isso e depois me demitiu. Essas foram todas as suas decisões. Eu sabia que não era inocente, mas não fui a primeira garota na história a ficar com um cara porque ele era ideal no papel. Pelo amor de Thor! Ele foi meu primeiro namorado. Estava autorizada a cometer erros. A outra acusação, de não fingir sentimentos suficientes para salvar Jem, foi a que me deixou furiosa. Essa fúria me assegurou de que eu era capaz de


profundidade emocional. Eu a odiava. Desviei meu olhar do dela e quando falei, falei para o quarto. — Você pode ficar aqui se quiser. Eu normalmente durmo no sofá, mas você pode ficar com ele. Ela ficou quieta por um longo momento e eu sabia que ela estava debatendo se deveria me pressionar ainda mais. Para minha surpresa, ela não o fez. — Onde você vai dormir? Inalei, então soltei uma respiração profunda. — Elizabeth está no hospital de plantão, então eu vou dormir na cama dela. — Você ainda é amiga de Elizabeth? Balancei a cabeça, hesitei e então levantei meus olhos para os dela. Sua expressão era inalterada, ainda inflexível, mas seus olhos se moviam entre os meus com um toque de interesse se aproximando. Foi uma demonstração sutil, embora rara, de sentimentos. Jem engoliu em seco, lambeu os lábios. — Isso é bom. Ela parece se importar com você. — Ela se importa. — Por razões que eu não pude entender imediatamente, as palavras de Jem fizeram meus olhos arderem, então pisquei. Jem virou os lábios para o lado e deixou os braços caírem do peito. Com um pequeno suspiro, ela caminhou até a entrada e pegou uma jaqueta de couro preta. — Não posso mais usar isso. Pode ficar com ela ou, que seja. Livre-se dela. Não me importo. — Ela jogou para mim no sofá e eu automaticamente peguei; cheirava como ela: cigarros, sabão e violência. Lembranças deslizaram por mim tão repentinamente, que tive que segurar a jaqueta para me equilibrar. Eu a amei uma vez. Quando ela era pequena, talvez com três ou quatro anos de idade, eu costumava levá-la para passear na nossa vizinhança, ou puxá-la em uma carroça atrás da minha bicicleta. Ela gostava de tudo rápido. Começou a fumar quando tinha onze anos. Não havia ninguém para lhe dizer não, embora eu tenha tentado. Ela ria de mim. Crescendo na mesma casa, muitas vezes senti que ela estava rindo de mim. Aquilo não me irritava. Aquilo me deixava triste. O ardor nos meus olhos se intensificou. Então prendi meu lábio superior entre meus dentes. Não conseguia falar; havia um nó gigante na minha garganta. Eu a observei quando ela pegou meu casaco de lã marrom da prateleira e o colocou sobre os ombros. — Vou levar esse. Minha boca torceu para o lado e eu me inclinei contra o sofá, sua jaqueta de


couro preta ainda no meu colo. — Tudo bem — respondi, mesmo sabendo que ela não estava pedindo minha permissão. — Vou embora. Eu não sei se... — Jem apertou o botão do meio do meu casaco, os olhos rígidos, mas intensos. Ela abotoou o casaco. Quando ela não continuou, limpei minha garganta e encontrei minha voz. — Aonde você vai? Jem encolheu os ombros e sacudiu a cabeça; ela enfiou as mãos nos bolsos forrados de pele do meu casaco. — Não sei. Sem pausa, sem uma onda, ou um sorriso, ou um adeus, Jem se virou e saiu. Minha porta fez um clique, suave e final, quando ela fechou.


Capítulo 25 Dormi mal e tive sonhos estranhos. Os sonhos eram do tipo problemático em que eu achava que a ação e os eventos eram genuínos, mas ao acordar e, em retrospecto, percebi que eles eram obviamente totalmente inacreditável. O que eu mais me lembrava ao acordar, era de perder os dentes. Os fragmentos de ossos saíam da minha boca toda vez que eu abria para falar, e fugiam, embora não tivessem pernas, o que, no sonho, me deixava em pânico. Não há nada como ver os próprios dentes sem pernas, fugir. Os turistas continuaram a pisar acidentalmente nos meus dentes. Fui forçada a perseguir meus molares e caninos pela avenida Michigan enquanto desviava de turistas de meias pretas usando bermudas, Keds brancos e viseiras de arco-íris. Quando meu alarme tocou, passei a língua na parte de trás dos dentes para ter certeza de que todos estavam ainda presentes na minha boca e em segurança. Quando cheguei ao trabalho e cumprimentei Keira na recepção, os últimos momentos do meu pesadelo dentário quase se dispersaram. No entanto, persistia uma sensação de inquietação e um pressentimento completamente irracional. Meu peito parecia apertado, pesado e desconfortável, como se eu tivesse uma terrível combinação de bronquite e gastroenterite. Durante a curta caminhada pelo corredor até a minha sala, em vez de me debruçar sobre meus sentimentos cada vez mais complexos por Quinn, ou a discussão desagradável com minha irmã, minha mente vagou. Imaginei e fiz uma nota mental para verificar o conteúdo das fibras do carpete. Mais precisamente, o que tornou a atual geração de carpetes resistente a manchas? As abordagens ecologicamente corretas para a fabricação de tapetes, eram atualmente a norma? Que país poderia reivindicar o título de líder em exportações de carpetes de escritório? Ainda estudando o tapete, abri a porta da minha sala e fui arrancada do meu foco no chão pela presença de uma companhia inesperada. Olivia estava dentro da minha sala, em pé, atrás da minha mesa. Suas costas estavam rígidas e seus olhos estavam arregalados quando encontraram os meus. Sua mão voou para o peito e ela respirou fundo. Hesitei, franzi as sobrancelhas e olhei para o nome do lado de fora do escritório, para confirmar se estava na porta certa. Quando confirmei que estava, de fato, na minha sala, e que ela também estava, de fato, na minha sala, voltei meu olhar para ela e esperei por uma explicação. Um prolongado período de silêncio se esticou enquanto nos encarávamos. Ela


parecia muito bem vestida, como de costume, e, embora eu fosse a única a encontrá-la inesperadamente em meu escritório com a porta fechada, ela parecia estar esperando que eu explicasse minha presença. Esperei dois segundos mais, então levantei minhas sobrancelhas enquanto meu queixo afundava no meu peito. — Bem? Posso ajudá-la? Olivia cruzou os braços e encostou o quadril contra a minha mesa. Pisquei para ela e me perguntei se eu ainda estava sonhando. — O que você está fazendo na minha sala? — Não é sua sala, não pertence a você. É o escritório da empresa — ela bufou. Ela realmente bufou. Era um som ofegante, excessivamente exagerado e combinado com um bufo exalado. Cruzei meus braços e imitei sua postura, principalmente para esconder o fato de que minhas mãos estavam cerradas em punhos. — Olivia, o que você faz na sala que me foi atribuída pela empresa, onde estão todos os meus documentos e relatórios confidenciais, com a porta fechada? Ela levantou uma sobrancelha única e impressionantemente bem feita. — Estou procurando o esquema atualizado do espaço de Las Vegas. Balancei a cabeça. — Ainda não nos foi enviado pelo grupo de Las Vegas; eles disseram que enviariam por email na sexta-feira. — Oh. Bem, então, apenas envie para mim quando você receber. Ninguém pode seguir em frente com os novos planos até que você os envie para o grupo. — O tom e os modos de Olivia eram tão petulantes, que quase senti que era minha culpa que o cliente ainda não tivesse enviado o esquema. Apertei meu queixo. — Assim que recebê-lo do cliente, vou distribuí-lo ao grupo. Olivia me lançou um não-sorriso de lábios apertados e passou por mim em direção ao corredor, sem qualquer observação adicional. Mas. Que. Merda.? Com alguma relutância enraizada no lugar, incerta se eu queria levar a questão pelo corredor, ou apenas simplesmente lamentar, a observei recuar enquanto saía; seus passos se apressaram, seu ritmo quase correndo, frenético. Então, me sacudindo, virei os olhos para o escritório e soltei um suspiro gigantesco; minha inquietação anterior fora substituída, ou, mais precisamente, substituída por uma imensa irritação. Me aproximei da mesa e olhei para o conteúdo; todos os papéis e pastas


estavam empilhados, exatamente como os deixei ontem. Verifiquei as gavetas e descobri que elas ainda estavam trancadas. Meu computador também estava bloqueado. Se ela estivesse procurando por algo em particular, não pude ver nenhum sinal externo de que algo havia sido remexido ou desorganizado. O aperto no meu peito se contraiu e agora estava vacilando entre aborrecimento e ansiedade. Caí na minha cadeira. Tentei clarear minha mente olhando pela janela e, por alguns momentos, me deixei flutuar sobre nuvens brancas e fofas visíveis à distância. Pela primeira vez recentemente, me esforcei para sentar e ficar quieta e não pensar em nada. Olhei para o céu até meus olhos ficarem secos. Em algum momento indeterminado, após o ocorrido, o som de risada e conversa normal no escritório me tiraram do meu transe. Pisquei, esfreguei as pálpebras fechadas e opitei por uma tentativa honrosa de fazer meu trabalho. Eu não pensava em carpete, nem em Quinn, nem em Jem, ou em Olivia. Em vez disso, me agarrei ao entorpecimento impessoal da minha lista de tarefas. Assim, ignorando a pilha de memorandos e relatórios impressos em minha mesa, perdi-me em planilhas e tabelas dinâmicas, e em requisitos, documentos e fluxos de trabalho de software de faturamento. A tensão em torno dos meus pulmões diminuía a cada hora que passava com uma imersão mais profunda nos números e nos gráficos das raias de natação Visio. O som da porta do meu escritório, abruptamente trouxe minha atenção de volta ao presente e ao homem que acabara de entrar. Pisquei. Fiquei boquiaberta. Fiquei de pé. Calor fervendo deslizou do meu estômago para as pontas dos meus ouvidos, inexplicavelmente relaxando qualquer aperto restante no meu peito como uma pomada, enquanto registrei que Quinn estava em pé na frente da porta fechada. Ele estava sorrindo daquele jeito estranho e calmo, não com uma curva perceptível de sua boca, mas sim com um brilho sutil nos olhos e uma elevação do queixo. Meu sorriso, muito óbvio para sua presença, ajudava tanto quanto eu conseguia pegar os dentes errantes no meu sonho. Eu adorava que ele estivesse vestindo jeans azul desbotado e uma camisa preta, de mangas compridas. Ele não tinha se barbeado desde a última vez que o vi. — Oi. — Olá — respondi automaticamente; planilhas e tabelas dinâmicas imediatamente esquecidas. Ele cruzou em minha direção e me deu um beijo rápido e suave, antes que eu pudesse discernir ou apreciar adequadamente sua intenção. Imediatamente ele se endireitou e segurou um saco de papel entre nós. Era amarelo e manchado de


graxa, escrito em preto Al’s Beef. — Trouxe carne italiana e batatas fritas. Tirei minha atenção do saco e encontrei seu olhar azul, estreito. Mais uma vez, um sincero sorriso automático abriu ainda mais minhas feições para ele. — Você me trouxe Al’s Beef no café da manhã? Seus lábios subiram do lado, seus olhos se movendo entre os meus e ele virou a cabeça ligeiramente. — Não, eu te trouxe o almoço. São quase 15:00h. Minha boca abriu e olhei para o relógio no meu pulso. Era, de fato, quase 15:00h. — Ah meu Deus. Quinn colocou o saco de comida na mesa e começou a distribuir seu conteúdo: sanduíche e batatas fritas para mim; sanduíche e batatas fritas para ele. Até tirou duas cestas verdes de comida, aparentemente para que pudéssemos desfrutar de uma autêntica experiência Al’s Beef no conforto do meu escritório. — Sente-se. — Ele fez um gesto para a minha cadeira enquanto ocupava a cadeira do outro lado da minha mesa. Obedeci, mas não desembrulhei minha comida imediatamente. Em vez disso, optei por observá-lo, até que meu estômago roncou exigindo minha atenção. Presumivelmente só agora percebi que eu não tinha comido o dia todo. O cheiro de batatas fritas e carne assada fez minha boca encher de água. Imitando seus movimentos, joguei minhas batatas fritas na cesta e tirei o papel da carne italiana, revelando um sanduíche deliciosamente encharcado. Ele já estava comendo. O sanduíche desaparecia um quarto a cada mordida. Ele parecia tão à vontade, como se sua aparição no escritório e me trazer o almoço fosse uma ocorrência cotidiana. Como se fosse de se esperar. Fechando a porta para a privacidade, dando um beijo rápido, trazendo o almoço para comermos juntos, ... pessoas que namoravam faziam essas coisas. Eu sabia disso. Eu costumava namorar com alguém. Mas com Quinn, tudo parecia significativo de uma forma que nunca foi com Jon. Peguei meu sanduíche e o levei à boca, mas não dei uma mordida. Eu estava muito ocupada reparando nele, que não me lembro de me preocupar em notar mais alguém. Eu estava ciente dos movimentos de Quinn, da colocação de suas mãos no sanduíche, seu humor desprendido e despreocupado, como ele estava vestido e a quantidade de pele que ele havia deixado exposta, assim como o comprimento de seu cabelo. O número de detalhes parecia esmagador, mas eu era ávida por detalhes, gananciosa em saber e memorizar tudo sobre ele. Me sentia como uma chaleira pronta para ferver; a qualquer minuto eu ia vaporizar todos os detalhes e começar a apitar.


Deixei escapar: — Não tenho certeza de como fazer isso. — Abandonei o sanduíche abruptamente na cesta e me inclinei para trás na minha cadeira. Quinn esperou até terminar de mastigar para responder; moveu seu olhar de mim para o sanduíche. — Fazer o que? — Ser a garota com quem você está namorando. Sua boca se curvou para cima em um traço de sorriso. — Você quer um manual para isso também? Porque eu gostaria de me envolver nos esboços dos diagramas, se você quiser. Pressionei meus lábios e o atingi com uma única batata frita. Ele riu, obviamente incapaz de se conter, e meu rosto ardeu. — Você sabe o que eu quero dizer. — Não olhei para ele. Em vez disso, olhei para minha cesta de carne bovina italiana e batatas fritas temperadas. Ele parou de rir, mas não de uma só vez; ele permitiu que se reduzisse gradualmente. Eu o olhei através dos meus cílios. Um enorme sorriso ainda se afirmava sobre suas feições e ele me olhava com uma expressão soturna e despreocupada. Ele parecia feliz. Meu coração tremeu; sim, tremeu incontrolavelmente. A tremedeira se transformou em uma monção agitada enquanto eu observava seu sorriso desaparecer de largo para leve, e seu olhar escurecer, intensificar e queimar. — Você é tão linda. — Foi dito em um suspiro, como se ele tivesse dito e pensado o sentimento ao mesmo tempo, e não tivesse percebido que as palavras foram ditas em voz alta. Senti profundamente o elogio, mas de uma forma um pouco assustadora e emocionante. Levantei minha cabeça e pisquei para ele, minha boca ligeiramente aberta. Seus olhos percorreram meus lábios, cabelos, pescoço e depois abaixaram. Notei que ele estava segurando o guardanapo como se alguém estivesse disposto a roubá-lo. Ele também parecia ser ganancioso por detalhes. Enfiei meu cabelo atrás das orelhas e esfreguei meu pescoço. Em todos os lugares em que seus olhos passavam, eu formigava. Limpei minha garganta. — Você também. Ele encontrou meu olhar e me estudou. Seu sorriso ainda era leve. — É diferente com você, não é só sua aparência. Em uma reviravolta surpreendente de eventos, o comentário sobre a minha beleza interior me fez contorcer em um grau muito maior do que o elogio


destinado a minhas características físicas. Eu não tinha tanta certeza de que Janie interior fosse uma pessoa bonita. As palavras de Jem da noite passada sobre o aparente desinteresse insensível com que eu considerava o fim de meu relacionamento com Jon, e minha relutância em ajudar minha irmã em seu momento de necessidade, me fez duvidar se eu era outra coisa senão uma réplica egoísta e insípida de minha mãe. — Você está admitindo que sua beleza é apenas superficial? — inclinei minha cabeça para o lado, querendo provocá-lo, em vez de me concentrar em quão alto, em uma escala de um a dez, eu ficaria no medidor de interesse. Quinn respirou pelo nariz, as sobrancelhas erguidas e sua atenção mudou para suas mãos. Ele afrouxou o aperto no guardanapo e começou a girá-lo entre o polegar e o indicador. Ele não respondeu. Tomei seu silêncio como confirmação. — Acho que você está errado. Ele continuou a torcer o guardanapo, mudo, até que se parecesse com um pequeno pedaço de corda. Eu o observei por um longo período. Ainda havia muito que eu não sabia sobre Quinn e, portanto, eu deliberava sobre a possibilidade dele estar certo. Ele poderia ser uma concha virtualmente vazia de uma pessoa com uma fachada impressionante, um intelecto impressionante e uma inteligência brilhante. Fiz uma careta, porque a perspectiva parecia discordar com a realidade. — Não, você é um cara legal — inclinei a cabeça para o lado e permiti que meu olhar se movesse sobre os lábios, cabelos, pescoço, depois abaixasse até onde seu coração estava batendo. — Vemos as forças e falhas nos outros, que não reconhecemos ou não conseguimos reconhecer em nós mesmos. — Janie. — Seu pequeno sorriso, quase uma careta, me pareceu frágil quando nossos olhos finalmente se encontraram. — Você está tentando me espantar? Ele acenou com a cabeça, mas com um suspiro, respondeu: — Não. — Você tem algum plano nefasto no momento? Você está me dando carne bovina italiana como parte de um plano maligno? — fiz um sinal entre nós e perguntei: — Isso é uma mentira elaborada? Você está planejando me atrair para uma falsa sensação de segurança, fazer o que quizer comigo, me acender e depois me descarta como um fósforo, ou uma árvore de Natal? Seu rosto estava sério. — Não. — Então por que você acredita que lhe falta beleza interior? — Porque só faço coisas por razões egoístas.


— Como namorar comigo? — Namorar você é completamente egoísta. O comentário me deixou muda, mas me recuperei. — Se... se você estivesse sendo egoísta, então você ainda seria um Wendell e eu seria uma estepe. Ele balançou sua cabeça. — Se você fosse uma estepe, então não seríamos exclusivos e você poderia estar com outras pessoas. — E isso faz de você egoísta? — Isso me torna egoísta. — Seus olhos me perfuraram e sua voz era baixa e áspera. Aproveitei a oportunidade para morder uma batata frita, agora fria, e ponderar suas palavras. — Vou dizer uma coisa — Quinn manteve os olhos em mim, sua expressão ficando mais severa, como se estivesse pairando no precipício de uma confissão significativa. — Você me faz querer ser menos idiota. Meus olhos piscaram para ele. — Mesmo? Uau — engoli em seco. Foi uma espécie de confissão, mas foi o tipo de confissão que encorajou o meu sarcasmo em vez da minha apreciação. A afirmação me pareceu o resumo da autodepreciação descomprometida, pseudossutil. Fiquei espantada com seu torpor definitivo. — Isso é tão poético. Deveria escrever cartões: Querido papai, obrigado por me ajudar a não ser tão idiota quanto você. Eu ainda sou um idiota, apenas não um grande idiota como você. Quinn riu novamente, mas desta vez com total abandono; era uma risada profunda e estrondosa que, sendo que eu estava ao alcance da voz no raio da explosão, era extremamente contagiante, e senti isso como um toque ao invés de um som. Ele segurou a mão sobre o peito e minha atenção vagou no local. Mesmo enquanto ria, senti uma reviravolta de desconforto emanando de uma localização espelhada no meu próprio peito. Sofri. Queria estar perto dele. Queria saber tudo a seu respeito. A repentina dor me pegou de surpresa e fechei meus olhos contra ela, expirando lentamente, me recompondo para não ceder ao meu desejo de subir na mesa e pular para onde ele estava sentado com o sanduíche de carne italiana em seu colo e guardanapo na mão. — Janie — ele chamou. Meus olhos permaneceram fechados, mas dei a ele um leve e evasivo sorriso de boca fechada. — O que você está pensando? Engoli, mas não respondi. Meu coração estava acelerado. Eu queria dizer a ele


que estava pensando sobre o conteúdo de fibra no carpete resistente a manchas, mas isso teria sido mentira. Mesmo que eu quisesse, e eu queria, não conseguia me distrair da realidade de estar com ele, e de todo o terror, e da fome, irresistíveis que o acompanhavam. — Por que você está com tanto medo? — Porque eu não estou pensando sobre o conteúdo de fibra nos carpetes resistentes a manchas. — Meus olhos permaneceram teimosamente fechados. — O que isso significa? — Isso significa... — levantei minhas pálpebras e o encontrei me examinando com simples curiosidade. Engoli bastante coisa na minha garganta, sabendo que eu precisava dizer a verdade. — Significa que meu cérebro acha você mais interessante do que todos os fatos triviais realmente interessantes que eu pudesse pensar ou pesquisar no momento. Seu sorriso de resposta foi vagaroso e medido. — Eu acho que é a coisa mais legal que alguém já me disse. Devolvi o sorriso dele embora eu me sentisse sóbria de repente; meus olhos estavam inexplicavelmente cheios de água. — Quinn... — fiz uma respiração profunda e firme. — Quinn, você precisa ser um cara legal. Eu preciso que você seja um cara legal. Ele assentiu com a cabeça, sua expressão reagindo e ecoando a minha súbita seriedade. — Eu sei. Eu quero ser — Quinn molhou os lábios enquanto seus olhos se moviam para a minha boca. — Eu serei por você.


Capítulo 26 Saímos do trabalho juntos, pouco depois das 16h. Quinn estendeu a mão e pegou a minha. Ele me deu um sorriso e gentilmente o manteve enquanto caminhávamos pelo corredor, passando por Keira e entrando no elevador, à vista do balcão de segurança e de quem estava lá, em seguida direto para o saguão. Enquanto caminhávamos, dedos juntos, Quinn acariciou as rugas dos meus dedos com a ponta do polegar e falou sobre o dilema com o cliente corporativo de Las Vegas. No começo eu estava bastante preocupada com a nossa demonstração pública de afeto e conseguia apenas dar respostas monossilábicas. No entanto, uma vez que nos instalamos em uma grande limusine preta, tentei me concentrar em suas palavras, em vez dos olhares previsivelmente espantados de meus colegas de trabalho. Nos sentamos juntos no banco. Ele levantou minhas pernas de modo que elas cruzassem as suas, e brincou distraidamente com o meu colarinho, seus olhos nos botões da minha camisa social. Eu observava seus lábios enquanto ele falava. Tentei encontrar o meu lugar na conversa, mas a maneira como ele olhava para mim, a proximidade dele, a sensação de suas mãos — uma na minha coxa e uma roçando no meu pescoço — me fez sentir confusa e sem foco. — Janie? Pisquei Vi sua boca formar o meu nome antes de ouvir a palavra. Meus olhos se arregalaram e depois encontraram os dele. — Desculpa, o que? — Você... você ouviu o que eu disse? — Não — respondi com sinceridade, minha atenção se movendo para sua boca novamente, o que, no momento, era uma atração importante. Quinn apertou minha perna. — Estou te entediando? — Não. — Suspirei. Permiti que minha cabeça descansasse contra seu braço atrás de mim, ainda focada na metade inferior de seu rosto. — Eu estava apenas pensando em sua boca. Ele lambeu os lábios e, para minha surpresa, seu pescoço e suas bochechas estavam ligeiramente quentes. — O que você estava pensando sobre minha boca? — Eu gosto dela. — O que você gosta nela? Sem hesitar, respondi:


— Tudo. A forma, o tamanho dos seus lábios, o seu tubérculo, a curva do seu filtro labial... você sabia que na medicina tradicional chinesa, a forma e a cor do filtro labial, também chamada de fenda medial, devem ter uma correlação direta com a saúde do sistema reprodutivo de uma pessoa? Notei que seus olhos piscaram para o espaço entre meu nariz e a boca, aparentemente sem o seu consentimento evidente, e depois voltaram rapidamente para os meus olhos. — Tipo isso. Assenti. — Há muitos estudos fascinantes e incomuns, que ligam a forma da boca de uma pessoa a outras partes da anatomia humana e suas habilidades ou tendências. Notei que sua respiração havia mudado. Ele engoliu em seco. — Como o quê? Tracei meu dedo sobre o topo de seu lábio, apreciando o fato de que eu estava realmente usando meu conhecimento de fatos aleatórios como uma espécie de preliminares acadêmicas e inteligentes, e que Quinn parecia gostar e responder a isso. — Como o arco do cupido, a curva dupla do lábio superior. Um estudo na Escócia concluiu que as mulheres com arco de cupido proeminente, têm mais probabilidade de ter orgasmo durante o sexo. A atenção de Quinn mais uma vez fixou nos meus lábios e, então, prontamente gemeu. — Você não deveria dizer coisas assim quando não posso fazer nada a respeito. Gostei do som torturado que ele fez e mais uma vez encontrou seu olhar, que tinha escurecido consideravelmente. Tentei manter meu rosto reto. — Depois, há a distinção entre a musculatura extrínseca e intrínseca da língua. — Você precisa parar de falar. — Quinn agarrou um punhado do meu cabelo e puxou minha cabeça para trás, reivindicando minha boca com a dele e acabando com a minha bolha involuntária de riso. Quando ele levantou a boca, sussurrei: — A maior parte do suprimento de sangue da língua, vem da artéria lingual. Ele me beijou de novo, e de novo. Se eu estivesse ouvindo a nossa conversa desleixada como observadora em vez de participante, poderia ter revirado os olhos em demonstração de iritação. Evidentemente, era improvável que citações de pesquisas médicas revisadas por grupos e estudos correlatos de anatomia humana, pudessem fazer com que uma,


quanto mais duas pessoas, ficasse irritada e incomodada. Mas lá estávamos nós, nos agarrando com crescente urgência, enquanto eu contava teorias ligando a quantidade de pelos nos lóbulos das orelhas a estímulo genital. No momento em que a limusine parou, estávamos meio vestidos e os botões da minha camisa estavam espalhados por todo o chão. Naturalmente Quinn rasgou a camisa com um grunhido, quando mencionei as glândulas mamárias. Freneticamente me afastei e agarrei as bordas inúteis da minha camisa. — Ah, droga! Quinn ainda estava um pouco perdido em uma névoa de luxúria, e moveu a mão ainda mais na parte interna da minha coxa, sua boca procurando a minha novamente. Eu o afastei apesar do fato de todos os lugares em que ele me tocou, protestarem em uma deliciosa agonia. Sem sentido, tentei alisar meu cabelo, quando minha camisa se abriu novamente. — O que vou fazer? Quinn finalmente se afastou de mim e puxou um suéter sobre o peito nu, sem nenhum traço de pressa. Ele ergueu uma sobrancelha enquanto ajustava as calças e fechava o zipper. O som fez minhas costas endurecerem e percebi o quão próximo nós estávamos de copular na parte de trás de um carro. — Eu acho que você fica bem assim. Olhei para ele por dois segundos, antes de bater com fúria em seu ombro bem musculoso. — Minha camisa está rasgada e... — freneticamente girei no banco e talvez tenha gritado. — Onde está minha calcinha? Não havia diversão em sua voz quando respondeu: — Em um lugar seguro. Meus olhos se arregalaram ainda mais e eu sabia que minha boca estava aberta, estupefata. Eu estava prestes a perder a cabeça. — Devolva. — Você não precisa dela. — Me devolva agora. — Você deveria tentar coisas novas. — Não vou sair da limusine sem calcinha! A porta do passageiro no lado de Quinn se abriu e puxei a saia que eu estava usando até o meio da panturrilha. Não senti falta do seu sorriso sombrio quando ficou claro que, provavelmente, eu não iria levantar a questão da calcinha, ainda mais até que ficassemos sozinhos. Até lá, provavelmente não importaria. Quinn pegou sua jaqueta de couro e colocou em volta dos meus ombros, fechando a frente até o meu pescoço. Nadei na grandeza dela, mas pelo menos eu não estaria andando por aí com a minha camisa aberta. Ele saiu da limusine,


depois estendeu a mão para mim da ponta do banco. Me movi e permaneci o mais recatada possível. Quando ele limpou a garganta, eu encontrei seu olhar e ele piscou para mim, disfarçada mas sugestivamente, lambendo os lábios. Segui para onde ele me levou. Algum tempo depois, perto da meia-noite, Quinn devolveria minha calcinha se eu prometesse que usaria apenas roupas íntimas até o amanhecer. A única outra opção era ficar como vim ao mundo, quando ele confiscou todas as minhas outras roupas e as escondeu em algum lugar dentro da enorme cobertura, que ele chamava de lar. Claro, ele morava na cobertura. Era o mesmo prédio onde o chefe havia comprado cinco andares para a equipe da Cypher Systems. Primeiro, quando chegamos, achei que estávamos indo para o apartamento que ele havia me mostrado antes. Minha imaginação se encheu de imagens de nós juntos na banheira gigante. A banheira de Quinn, como se viu, era muito superior, assim como a vista e a cozinha, e os quartos eram mais espaçosos. O apartamento estava quase tão escassamente decorado quanto o apartamento sem mobília e inacabado no térreo, que visitamos semanas atrás. Não havia sofá nem cadeiras na sala de estar, nem mesa na sala de jantar, e apenas uma cômoda e uma cama no quarto. O box e o colchão estavam no chão; não havia nenhum estrado. Não havia fotos também. Eu estava enrolada com um lençol e, me afastando dele, olhei para minha calcinha. Era branca de algodão e, como eu pensei, não era nada sexy. A maioria das minhas roupas intima foram escolhidas por conforto, custo e praticidade. Olhei para ele enquanto eu pegava a calcinha da vovó, mantendo o lençol no lugar para preservar minha modéstia sem sentido. — Por que você sequestrou minha calcinha? Quinn estava deitado de costas, sua longa forma esticada na cama desarrumada, as mãos atrás da cabeça, me observando. Ele estava completamente nu. Nenhuma folha de Adão para ele. Não. Sem modéstia para Quinn. Ele parecia estar completamente, sem pensar, à vontade em sua própria pele. Eu invejei sua habilidade desinibida apenas de estar nu. Também gostei daquilo. — Odeio ela. — Seu olhar varreu, de onde o lençol cobria meu traseiro, para o meu ombro nu, em seguida, de volta para minhas coxas escondidas. A maneira como ele examinou meu corpo, me fez tremer. Bati o elástico na minha cintura, sob o lençol.


— É porque não tem renda? Ele balançou a cabeça, preguiçosamente. — Não. Não me importo com a aparência dela. Eu odeio todas as suas roupas de baixo. Fiz uma careta. — Então você é uma pessoa que odeia roupa intima sem distinção? — Roupa intima serve um propósito perigoso. — Não quero saber. Ele se sentou, balançou as pernas sobre a borda da cama e estendeu a mão para mim, afastando as bordas do lençol e colocando um dedo na faixa das calcinhas muito discutidas. Ele me colocou em seu colo, me encorajou a ajoelhar por cima dele, e então tirou o lençol de debaixo dos meus braços. Ele manteve os olhos nos meus enquanto extraía o material, amassava e jogava para longe de nós. Eu estremeci. Ele passou os braços em volta de mim, de modo que se cruzaram nas minhas costas, e suas mãos aqueceram a pele da lateral do meu corpo e estômago e me puxou contra a ele. — Você vai ficar comigo esta noite. Sem escapatória. Abri minhas palmas sobre seus bíceps nus. — Você não me deu muita escolha; até pegou minha folha de Eva. Não posso ir para casa vestida apenas essa calçola. Vai fazer frio esta noite. Ele acariciou meu pescoço e me apertou ainda mais, pressionando nosso peitoral. Embora eu estivesse completamente bagunçada e aplacada em nossa noite de maratona de amor, meu coração pulou com o contato. — Deve fazer frio amanhã também. Por que você deixou o seu casaco no trabalho? — ele perguntou com a boca contra a minha pele, beijando um caminho através da minha clavícula, em seguida, mordendo meu ombro. Eu estava realmente desfrutando de contato físico a ponto de desejá-lo, mas não me permiti imaginar essa transformação inexplicável. Minha resposta falada foi um suspiro automático, impensado e ofegante. — Não deixei. Jem o pegou. Quinn imediatamente endureceu e seus movimentos pararam. Abruptamente suas mãos se moveram até meus antebraços e ele se afastou enquanto me mantinha no lugar. — Você viu Jem? Encontrei seu olhar atônito, e minha boca se esforçou para fazer som. Eu guinchei uma ou duas vezes antes de conseguir responder: — Sim. Seus olhos endureceram e queimaram, e fixaram em mim de maneira acusadora.


— Quando? Onde? — Eu-eu-eu a vi ontem à noite. Ela estava no meu… ela estava esperando por mim no meu apartamento. — Droga — Quinn cerrou os dentes, sua mandíbula acentuou e me puxou abruptamente contra ele em um abraço feroz. — Droga, Janie. Você deveria ter me ligado. — Ela não ficou muito tempo. — Eu o segurei com força, embora não precisamente compreendendo a ferocidade de sua reação. Nos abraçamos por um longo momento. Meu encontro com Jem estava pesando sobre mim, como um lutador de sumô agachado, por toda a noite anterior e pela manhã; mas eu não pensava nela desde que Quinn apareceu na minha sala com sua oferta de almoço gorduroso. Movi minha mão em um círculo lento sobre suas costas nuas, um movimento que esperava acalmar sua inesperada mudança de humor. Beijei sua têmpora e sussurrei: — Não entendo porque você está tão chateado. — Porque Jem é perigosa. — Senti seu peito se expandir. Ele respirou fundo, como se tivesse ganância por ar. — Não quero ela de jeito algum perto de você. Me inclinei para trás e o forcei a encontrar o meu olhar. — Ela nunca me machucaria. Seus olhos apenas se estreitaram. — Você está errada. Ela faria. — Sua voz era como aço. — Eu realmente acho que você deveria se mudar para esse prédio. Pressionei meus lábios, mas não respondi. Suas mãos se moveram para o meu rosto, palmas gigantes cobrindo minhas bochechas, os dedos longos empurrando meu cabelo atrás das orelhas e nas minhas têmporas. — Por favor. Você não precisa ficar aqui para sempre. Por favor, mostre à Elizabeth o apartamento e pense a respeito. Pense em ficar aqui até que esse negócio da Jem seja resolvido. — Quinn, eu... — minhas mãos subiram seus bíceps e encostaram levemente em seus antebraços. — Você é meu chefe. Você também é o cara que eu estou namorando, e agora você quer ser meu senhorio? Ele estremeceu e rangeu os dentes. — Não é bem assim. — Apenas uma dessas coisas - relacionamentos - podem complicar, complicam as interações entre duas pessoas. Você não pode ser tudo para mim. Tenho que me virar sozinha. Ele me estudou, seu olhar se tornando de falcão.


— Você poderia vir morar comigo. Eu sorri mesmo que meu coração estivesse pesado. — Estamos namorando há menos de um mês e, além disso, não posso pagar nem um décimo do aluguel dessa cobertura. — Este lugar é meu. Não há aluguel. — Quinn... Ele me cortou com um beijo e nos virou em um movimento fluido, para que eu ficasse deitada debaixo dele na cama. — Só não diga não. — Ele me beijou novamente. — Ainda não. — Ele beijou meu pescoço, e suas palavras e respiração estavam quentes e urgentes. — Vou te dar a chave e o código para o prédio. Me prometa que você mostrará o apartamento a Elizabeth. — Ele mordiscou minha orelha e sussurrou: — E prometa que vai pensar em morar comigo. Balancei a cabeça, mas não com intenção. Eu queria acalmá-lo para que pudéssemos chegar às coisas boas. Ele se afastou e seus olhos me examinaram. — Promete. Balancei a cabeça novamente e levantei minha mão para despentear seu cabelo. — Prometo. Em algum momento nas últimas quarenta e oito horas, Quinn trouxe minha mala da viagem de Vegas para seu apartamento. Portanto, felizmente pude vestir roupas novas, com botões, antes de ir para o trabalho. Aprendi um pouco mais sobre Quinn como consequência de passar a noite em sua casa; ele realmente não dorme, se exercita toda manhã, come doces no café da manhã. Quinn levantou às cinco, e voltou de uma longa corrida às seis e meia. Depois do banho, ele me acordou da maneira mais agradável que se possa imaginar. Sim. Dessa maneira. Eu estava no balcão da cozinha, tomando um delicioso café com leite de uma daquelas maravilhas da mecânica moderna — máquinas de café expresso de um toque — e comendo uma cereja e queijo dinamarquês às 7h20. Às 7h40 da manhã, estávamos caminhando para o trabalho, passeio curto de seis blocos, de mãos dadas e falando sobre o dia. Como eu tinha tutoria as quintas-feiras, combinamos de sair novamente na sexta à noite. Ele me deu um beijo de despedida na entrada do prédio, me


deixando cambaleante e de joelhos às 7h58. Eu estava no elevador às 8:00h em ponto. Que diferença um dia faz. Eu ainda estava sorrindo, aturdida, enquanto caminhava pelo corredor até a minha sala, sem realmente notar alguém ou alguma coisa. Sentei-me atrás da minha mesa e, sem pensar, embaralhei as pastas. Eu ainda não queria me perder nas planilhas, então optei por ler a pilha de memorandos que ameaçavam cair da minha mesa. Isso permitiria que eu continuasse a me deleitar com todos os sentimentos quentes e sedosos da noite anterior e da manhã. Os primeiros dez ou mais, foram realmente sobre o meu novo software de faturamento. O último memorando implicou em mudar a conversa para o email. Aquilo era típico. A maioria das conversas foi iniciada por meio de um memorando impresso. Depois que foram determinados a serem benignos à natureza, eles foram movidos para o e-mail. Todos os memorandos deviam ser triturados depois de lidos. Como Steven era responsável pelos clientes confidenciais, a maior parte da correspondência interna dele era cópia impressa. Como eu era responsável pelos clientes corporativos, a maioria dos meus era eletrônica. Peneirei a correspondência rapidamente, mas então minha atenção foi abruptamente envolvida, quando vi meu nome e o de Quinn listados em uma cópia impressa de um e-mail. Nunca recebi uma cópia impressa de um e-mail antes e meu olhar foi para o endereço de e-mail do remetente. Eu o reconheci como um dos advogados franceses do Tweedle Dee que eu conheci no meu segundo dia. No começo, eu passei o e-mail, mas depois da segunda frase, me forcei a começar do começo e realmente o li:

Olá Betty, De acordo com o pedido do Sr. Sullivan e como discutido durante nossa conversa por telefone, Jean e eu deliberamos sobre a questão da Srta. Morris. É nossa opinião que o melhor plano de ação para o Sr. Sullivan, seria o desligamento da Srta. Morris assim que for viável (sem interromper as operações). Em casos como esses, não é incomum ou injustificado oferecer uma grande indenização e liberá-la do acordo de não concorrência que ela assinou ao iniciar o cargo. O motivo da rescisão não deve ser declarado explicitamente à Srta. Morris, nem inferida/mencionada em qualquer documentação, à fim de reduzir o risco de indenização futura. Além disso, aconselhamos que o Sr. Sullivan não seja encarregado de conduzir a entrevista de


demissão. Tomei a liberdade de incluir o Sr. Davies e seu administrador neste e-mail, pois é nossa recomendação que ele lide com o assunto como o representante do Sr. Sullivan. A outra opção é a Srta. Morris renunciar ao cargo. Em ambos os casos, elaboramos um formulário de liberação que Morris deve assinar, e que, independentemente dos resultados futuros, deve, tanto quanto viável ou possível e na medida permitida por lei, absolver a Cypher Systems de qualquer futuro relacionado a litígio. Eu recomendo que ela assine a liberação como condição para receber a indenização. Por favor, nos avise se o Sr. Sullivan decide prosseguir para que possamos passar a anular o acordo de não concorrência. Provavelmente, Morris terá grande dificuldade em encontrar novos empregos até que seja dispensada. Henry LeDuc, JD


Capítulo 27 — Você mostrou isso a ele? Você perguntou a ele sobre isso? Balancei a cabeça e mordi minha unha do polegar, olhando por cima do ombro de Elizabeth para nada em particular. Estávamos no Starbucks, a quatro quarteirões do meu prédio. Assim que encontrei o email, usei o maldito celular para ligar à ela e implorar para me encontrar no almoço. Acontece que eu à acordei e ela saiu imediatamente para me encontrar e tomar café. Assim, ela usava pijama e botas. — Tenho que ser honesta, Janie. Eu não falo em linguagem de advogado, então não tenho certeza do que isso quer dizer. Mas — Elizabeth estendeu a mão e segurou a minha, chamando minha atenção para ela. — Eu acho que você deveria perguntar a ele sobre isso antes de chegar a conclusões precipitadas. Engoli. — Eu sei. Eu vou. A carranca de Elizabeth se aprofundou. — Como você conseguiu uma cópia disso? Eles enviaram acidentalmente a você? — Não, estava nos memorandos na minha mesa. Alguém deve ter... — Pisquei, meus olhos perdendo o foco novamente e então fechei minhas pálpebras. Claro. — O que? O que foi? — Olivia. — Sangue escorreu do meu rosto, mesmo quando o calor se espalhou pelo meu pescoço. — Encontrei Olivia, assistente de Carlos, na minha sala ontem de manhã. Ela deve ter deixado lá. — Aquela que te olha torto no trabalho? Alguma chance de ser falso, então? — Acho que não — deliberei a teoria por um momento, mas descartei a possibilidade. — É real. Ela queria que eu encontrasse. Elizabeth virou os lábios na boca e entre os dentes, me examinando. Finalmente, ela disse: — Depois de tudo que você me contou sobre ele, sobre Quinn, duvido seriamente que ele queira demitir você. Balancei a cabeça e fiquei surpresa ao descobrir que eu concordava com a avaliação de Elizabeth. — Também não acredito. Ela deu um sorriso irônico e esperançoso.


— Então isso significa que, apesar desse e-mail estranho e seu conteúdo indecifrável, mas condenatório, você confia em Quinn? Balancei a cabeça novamente, sem pensar, e falei meus pensamentos em voz alta. — Sim, confio — . Encontrei seus olhos azuis claros. — Confio nele. Acho que deve haver uma explicação perfeitamente razoável. — Yey! — O sorriso de Elizabeth estava cheio e imediato. Ela apertou minha mão. — Embora eu não defenda o amor como uma regra, posso dizer honestamente Yey para você e Quinn! Minha cabeça inclinou para o lado em um gesto muito parecido com Quinn antes que eu pudesse parar o movimento. — Do que você está falando? — Você e Quinn. — Elizabeth tomou um gole de café preto. — Você está apaixonada, Janie. — Não estou apaixonada! Eu estou com luxúria, estou com um desejo profundo, estou com — com — com muita vontade de Quinn, mas não estou... Eu estava apaixonada? Embora eu odiasse admitir, essa era uma possibilidade distinta. Eu adorava estar perto de Quinn. Adorava conversar com ele. Amava sua risada e, às vezes, seu jeito mandão. Amava sua insegurança e amava sua determinação. Eu amava que ele parecia estar mudando, queria mudar, mesmo quando eu estava mudando. Eu adorava que estávamos crescendo em algo novo e juntos. Adorava confiar nele. Eu adorava fazer amor com ele. Eu realmente amava fazer amor com ele! Se anda como um pato, e grita como um pato, e ama como um pato... Bem, Thor! Meus ouvidos estavam, de repente, tocando. Elizabeth se mexeu em seu assento e abanou as sobrancelhas. — Você o a-a-a-a-a-a-a-ma. — Você nem mesmo acredita no amor. — Me nivelei a ela com um olhar severo, na esperança de acalmar o surgimento inesperado da percepção. Se eu pudesse pensar um pouco mais, sem as sobrancelhas de Elizabeth balançando, poderia analisar a situação com o pragmatismo que merecia. Ela balançou a cabeça e desviou o olhar do meu. — Você sabe que isso não é verdade. Eu acredito em apenas um amor, o primeiro. Eu não sabia pressioná-la nesse ponto, ou dissuadi-la dessa crença, especialmente em relação a ela mesma. Eu conhecia a história de Elizabeth e não


queria magoá-la através de um tópico que era tão doloroso para ela. Tentei tornar meu argumento relevante, apenas para a situação atual. — E o Jon? Eu amava o Jon. — Não, você não amava. Você tolerou Jon, da mesma maneira que a tolerância é ensinada no local de trabalho ou na escola — sua boca se curvou para baixo, como se ela sentisse algo desagradável. — Eu acho que você o amava como um ser humano, mas nunca sentiu mais do que tolerância por ele. — Mas Quinn quer... ele é meu chefe e agora ele é meu namorado. E depois, há aquele apartamento em seu prédio. Prometi a ele que te levaria para ver. Ela encolheu os ombros. — Nós vamos amanhã à tarde, antes do seu encontro com Quinn. — Ela novamente balançava as sobrancelhas. Segurei a respiração por um momento e depois suspirei. Apoiei minha testa na mão e dirigi minha pergunta para a mesa. — O que eu vou fazer? Elizabeth limpou a garganta, em seguida, passou as pontas dos dedos contra o meu pulso. — Bem, você vai voltar ao trabalho e não deixar a Srta. Olivia Von Maléfica pensar que causou algum impacto no seu relacionamento com Quinn. Esta noite, você tem tutoria no South Side. Amanhã veremos o apartamento chique. Então, depois, quando você for ao encontro com o homem que você ama, também conhecido como Quinn Sullivan, também conhecido como Senhor CalçasQuentes, você vai perguntar a ele sobre o e-mail. Ela fez soar tão simples, tão razoável e tão possível. Eu só consegui assentir, concordar e esperar que ela estivesse certa. Tudo correu conforme o planejado, até que não mais. Voltei a trabalhar. Ignorei Olivia, embora ela parecesse excessivamente ansiosa para se jogar no meu caminho e falar comigo pelo resto do dia. Fui para aulas particulares naquela noite e evitei pensar em estar apaixonada por Quinn, até que ele me mandou uma mensagem noturna, o que se tornou um pouco maçante recentemente: Se eu fosse uma função, você seria minha assíntota. Eu sempre tenderia para você. Ele continuou com: saudades de você. Me permiti desfrutar e me perguntar se eu caí no abismo do amor com esse homem. Pois era, verdadeiramente, um buraco. Estava escuro e desconhecido. Foi assustador e eu estava cercada por todos os lados.


Portanto, em um esforço para evitar buracos escuros e definitivamente assustadores, decidi pensar sobre a questão de amar somente quando o visse da próxima vez. Na manhã seguinte, estava me sentindo melhor com o e-mail do advogado. Estava me sentindo mais calma e mais certa. No meio da tarde, eu estava realmente ansiosa para levar Elizabeth para ver o apartamento, e quando a encontrei no prédio, eu estava tentando conter minha excitação pré-Quinn. Deu tudo errado quando coloquei a chave na porta do apartamento. Antes que eu pudesse girar, a porta anexa a ela se abriu e Quinn saiu correndo dela, sua expressão atordoada, e seu peito nu. Está certo. Ele não estava vestindo uma camisa. Elizabeth e eu, surpresas, demos um passo para trás quando ele, também surpreso, balançou para trás em um pé, sua expressão refletindo instantaneamente a nossa. — Janie. — Ele disse meu nome em um suspiro ofegante, quando sua mão alcançou e segurou a porta que ele tinha acabado de sair, atrás dele. Meus olhos se moveram para seu peito nu, depois abaixaram para seus jeans. Levantei meu olhar para o dele novamente e pude sentir Elizabeth se movendo para o lado, atrás de mim, enquanto ela tentava perscrutar o apartamento atrás dele. — O que você está fazendo aqui? — Quinn fez a pergunta sem malícia ou acusação. Ele parecia genuinamente surpreso. — Estou... você me fez prometer mostrar o apartamento à Elizabeth. Sua atenção se desviou de mim e se direcionou para onde Elizabeth estava parada. Ele piscou para ela. — Então, Quinn... — a voz de Elizabeth soou no meu ombro, e não faltou maldade ou acusação. — Quem está lá com você, por que diabos você está sem camisa, e que diabos é isso no seu pescoço? Quinn visivelmente se encolheu, surpreso pelas palavras de Elizabeth, ou por seu tom severo. Antes que ele pudesse responder, Elizabeth se adiantou e apontou para uma marca em seu pescoço. — Isso é uma marca de mordida? Automaticamente ele levantou a mão para o pescoço. Elizabeth se virou para mim, sua voz subindo. — Você fez isso? Balancei a cabeça. Tudo estava acontecendo tão rápido; havia muitos pontos de dados e eu não conseguia absorver nenhum deles. Eles estavam espalhados no chão e fugindo de mim, como dentes sem pernas. Eu só podia olhar, em silêncio,


entre Quinn e Elizabeth, e a porta que ele estava tentando fechar. Elizabeth se voltou para ele e apontou para outra marca no meio do peito. — E isso é uma queimadura de cigarro. Que merda é essa? — ela estava gritando. — Eu sei que Janie não fez isso. Seus olhos encontraram os meus e eu vi medo. — Ouça. Ouça por um minuto, vocês duas precisam sair. Você nem deveria estar aqui. Onde, diabos, estão seus seguranças? — Quinn parecia estar tentando se recompor e sua voz estava atada com uma firme urgência, mas em pânico. A porta atrás dele abriu toda e, naquele momento, meu cérebro e meu coração pararam. Jem estava atrás dele, vestindo seu sutiã e jeans, fumando um cigarro, um sorriso forçado curvando seus lábios. — Ei, irmã mais velha. Quinn olhou por cima do ombro distraidamente, em seguida, quase pulou no corredor. — Que porra? Minha boca se abriu e ouvi algo quebrar, um pequeno estalo no fundo da minha mente, seguido por uma intensa onda de dor física começando por trás dos meus olhos e no meu peito. Eu não consegui respirar. Quinn, Elizabeth e Jem estavam todos falando ao mesmo tempo, mas eu não ouvia nada. Não ouvia nada. Em retrospecto, quando me concentrei nos próximos minutos em uma análise momentânea, tudo de que me lembrava era a falta de nitidez. De alguma forma, Elizabeth me puxou para fora do corredor e saiu do prédio. Ela me empurrou em um táxi. Em algum momento, reconheci que meu rosto estava molhado e achei que devia estar chorando. Nós chegamos ao apartamento e eu segui atrás dela; ela segurou minha mão. Uma vez lá dentro, ela me levou até o sofá e me deixou lá por um momento, voltando quase imediatamente com a última dose de tequila. Depois de colocá-la na mesa, Elizabeth sacudiu meus ombros. — Janie! Janie, me escute. — Sua voz soou muito distante. Me virei para ela, encontrando seus olhos. Eles eram grandes e percebi preocupação. Ela me puxou para um abraço de corpo inteiro e me segurou com força. Eu a ouvi murmurar: — Aquele filho da puta. Eu vou matá-lo... todo mundo vai querer... todas vamos nos revezar dando-lhe queimaduras de cigarro... elas estão vindo... Pisquei, me afastando. — Quem está vindo?


Ela empurrou meu cabelo para longe do meu rosto de uma forma que, dolorosamente, me lembrava de Quinn. — Enquanto você estava sentada no táxi, em choque, mandei mensagem para todas as mulheres. Vamos ter uma reunião de emergência hoje à noite. Balancei a cabeça e fiquei surpresa quando um soluço saiu do meu peito. — Não. Eu não quero ver ninguém. — Sim, elas estão vindo pra cá. Sim, você verá pessoas hoje à noite, pessoas que amam você e querem apoiá-la. Você pode se afundar no fim de semana. Esta noite você vai ficar bêbada e comer muito sorvete. Eu só a ouvi parcialmente e mal compreendi as palavras. Eu estava chorando de novo e tudo ficou embaçado. Ela empurrou a garrafa de tequila na minha mão e me incentivou a beber. Queimou na minha boca e no meu esôfago, e eu mantive o desconforto perto de mim. Foi um alívio sentir dor de alguma fonte além do meu coração. Elizabeth puxou a garrafa da minha mão e tomou um longo gole em resposta, antes de bater na mesa e fazer um ruído alto. — Sinto muito, Janie. — Ela colocou um braço em volta dos meus ombros e trouxe minha cabeça para o peito. — Eu sinto muitíssimo. A porta zumbiu e Elizabeth se levantou para verificar o interfone. Eu ouvi a voz de Marie no alto-falante. Alcancei mecanicamente a garrafa de tequila, me sentindo um pouco decepcionada por ela queimar com menos intensidade no meu segundo gole. No entanto, quando tomei o terceiro trago da garrafa, aplaudi a dormência. Momentos depois, os braços de Marie me cercaram e enterraram minha cabeça em seu ombro. Observei vagamente que o cabelo pronto para comercial de xampu, cheirava a limão e lavanda. Em seguida, os braços de Kat me cercaram por trás. Ouvi a voz de Sandra algum tempo depois e ela tomou o lugar de Marie no sofá. — Venha com a mamãe, menina. — Sandra beijou minha testa e me segurou em um abraço apertado. Sem esquecer sua profissão de psiquiatra, ela me acalmou com uma voz persuasiva. — Você não precisa falar sobre isso até que esteja pronta. Estamos aqui para apoiá-la e amá-la — respirou fundo e então, para que eu não esquecesse que ela era Sandra, a texana, continuou. — E quando você estiver pronta para cortar as bolas dele, vou fornecer a faca. Vagamente, eu estava ciente de que alguém estava rindo. Levantei a cabeça e, com uma pequena surpresa, percebi que eu estava, de fato, rindo. Encontrei os olhos verdes de Sandra, brilhantes, mas com uma expressão preocupada, e consegui dar um sorriso encharcado. Olhei ao redor da sala. Elizabeth estava surgindo perto da porta com as mãos


juntas contra a bochecha; Marie estava sentada em uma cadeira ao lado do sofá, me dando um sorriso simpático; Kat estava atrás de mim esfregando pequenos círculos nas minhas costas; Sandra estava segurando meus ombros. Seus olhares arregalados espelhavam minha vulnerabilidade para mim e uma para outra, como se quisessem, e até esperassem, que eu suportasse e compartilhasse meu fardo. Eu realmente as amava. Kat alisou meu cabelo para o lado e colocou a cabeça no meu ombro. — Oh, Janie, todas nós vamos ficar muito bêbadas. Meus olhos se embaçaram com novas lágrimas, mesmo quando uma pequena e involuntária risada passou entre meus lábios. A campainha da porta do prédio soou novamente e Elizabeth apertou o botão de abrir o portão, sem verificar quem estava tocando. — Deve ser Fiona; ela disse que estava arrumando uma babá até que Greg pudesse chegar em casa. Ashley tem que terminar seu turno, mas disse que vai estar aqui às 19:00h. — Elizabeth foi até a porta do apartamento e a deixou entreaberta para nossa amiga. Sandra pegou a garrafa de tequila da minha mão e entregou para Marie. — Nós precisamos pegar alguns copos. Amo vocês, garotas, mas eu não quero beber da boca de vocês a noite toda. — Vamos pedir comida. — Kat me abraçou por trás, levantando a cabeça do meu ombro. Coloquei uma das minhas mãos em seu braço e retornei o aperto. — Comida chinesa ou pizza? — Marie se levantou e foi até a cozinha, pegou os panfletos na geladeira, ainda segurando a garrafa de tequila na mão. Limpei os olhos, cheirando, sentindo a dormência morna associada a bons amigos e três doses rápidas de tequila. O amor realmente era um poço e eu estava no fundo dele. Eu não sabia como, mas sabia que essas mulheres iriam me ajudar a sair do lugar escuro que eu havia mergulhado de cabeça. Mas primeiro eu precisava ordenar meus pensamentos e organizar os dados. Eu precisava processar a última meia hora e descobrir o que, exatamente, eu vi, senti e acreditei. No entanto, antes que eu pudesse começar a pegar os pedaços da realidade, muito menos estudá-los com a atenção cuidadosa que eles exigiam, o som da voz de Quinn dizendo meu nome, era uma serra elétrica proverbial para os frágeis remanescentes do meu coração. — Janie! Olhei para cima, confusa e de olhos arregalados, e vi Quinn correndo em minha direção. Ele empurrou a mesa para fora do caminho e se ajoelhou na minha frente, estendendo a mão e deslizando seus braços ao redor da minha


cintura. Levei um momento para registrar que ele estava examinando meu corpo, procurando por algo, como se esperasse que parte de mim estivesse ausente ou danificada. Levei mais alguns segundos para entender que ele estava lá, que ele estava me tocando e que ele estava falando. — Você está bem? Alguém abordou você? E por que diabos a sua porta estava aberta? Assim que superei meu choque, me afastei dele e levantei minhas mãos entre nós. Minha boca abriu e fechou, enquanto meu cérebro lutava para entender sua presença abrupta, a raiva por trás de suas palavras e o alívio em seus olhos. Eu estava claramente atrasada em relação à compreensão de eventos em tempo real. Quebrei o silêncio, atordoada. — Quinn, o que... o que você está fazendo aqui? Como se todas as outras estivessem igualmente perplexas com sua presença e minhas palavras fossem a cura para o silêncio atordoado, a sala explodiu em uma ofensa feminina barulhenta. — Que inferno! — registrei o rosnado irritado de Elizabeth em algum lugar, por cima do ombro. — Ouça, Senhor. — Sandra tentou se inserir entre nós. — Acho que você deveria ir embora. — Marie entrou na sala vinda da cozinha, segurando a garrafa de tequila como se fosse uma arma viável. Kat apertou minha mão. Quinn tentou falar comigo através do insistente bando das minhas amigas e a barricada de corpo irritado de Sandra. — Janie, por favor, ouça: você não está segura. Seus seguranças deveriam estar com você hoje, precisamos sair daqui. Eles nunca teriam deixado você chegar ao prédio. A campainha soou novamente e, em meio a todo o caos, percebi a voz de Fiona sobre o alto-falante. Elizabeth apertou o botão enquanto continuava atirando adagas em Quinn. — Por que você estava lá, “passando o salame” na irmã dela? — acusou Elizabeth, puxando seu celular. — Vou chamar a polícia, Quinn. Você precisa sair. Agora! Quinn não se moveu de sua posição, na minha frente, e encontrou sua censura com toda a flexibilidade de granito. — Eu não estava com Jem. — Nós vimos você! — Não, você não entende. — Ele se virou para mim, mas Sandra antecipou seus movimentos e me impediu de ver. — Janie, eu não estava com ela, não


estávamos “passando o salame”. Eu estava tentando ajudar. — Então por que tirou sua camisa, Quinn, se é que esse seja o seu nome real? — Elizabeth perguntou parecendo um Sherlock desconfiado, quando digitou três números em seu celular. — Porque Jem é louca de pedra e me queimou com um cigarro, em seguida, mordeu meu... — Ele bufou. — Não temos tempo para isso! — Sério grandão, você só precisa fazer como um pastor e tirar o rebanho daqui. — Sandra cruzou os braços sobre o peito, sua voz baixa com o aviso. Quinn gaguejou por um momento, levantando a sobrancelha para a despedida grosseira de Sandra. — Eu não posso sair até que saiba que ela está segura. Marie cruzou os braços sobre o peito. — Segura contra quem? Elizabeth falou ao telefone, dando ao operador do 911 nosso endereço antes de acrescentar que precisava da polícia. Elizabeth não terminou a frase, porque o telefone foi arrancado de sua mão e ela foi jogada no chão. Um suspiro coletivo e chocado se espalhou pela sala. Todos os olhos voltados para três grandes skinheads, muito sinistros, com tatuagens no pescoço, que invadiram o pequeno apartamento, significativamente menor pelo seu tamanho iminente. Um dos homens segurava Fiona pela cintura. Ele tinha uma arma na mão apontada para Quinn, mas a atenção coletiva deles estava rigidamente fixada em mim. — Bem, que inferno, Jem. Já faz muito tempo. O mais alto dos três dirigiu seu comentário para mim e eu o reconheci como o estranho assustador do parque. — O que diabos você está fazendo, Sam? Seamus sabe que você está aqui? — Quinn entrou na frente de Sandra, Kat e eu, nos escondendo de dois dos capangas e de Sam. Eu ouvi, ao invés de ver a resposta dura de Sam. — Cala a boca, Quinn. Você disse que não sabia onde ela estava. — Você está cometendo um terrível engano. — A voz de Quinn me fez tremer. Mesmo que eles estivessem segurando uma arma, seu tom deixou perfeitamente claro que ele não se incomodava com coisas triviais, como balas. — Como eu disse a Seamus, essa não é a Jem. Notei Marie mudando de pé. Sua mão ainda segurava a garrafa de tequila, e seus olhos estavam arregalados enquanto eles se moviam entre Quinn e o skinhead chamado Sam. Ouvi o estalo de alguma coisa, que imaginei ser a guarda de uma arma, porque


Quinn, de repente, ficou rígido e o tom ameaçador de suas palavras cuidadosamente pronunciadas era quase tangível. — O que você pensa que está fazendo? — Vou levar essa vaca. Vou levá-la de volta para Seamus e ele que vai decidir se ela é Jem ou não, já estou cansado de andar por Chicago. Inesperadamente, foi Marie quem falou em seguida. — Nem a pau. — Algumas coisas aconteceram ao mesmo tempo. Eu realmente não vi tudo, já estava atrás de Sandra, que estava atrás de Quinn, e Kat estava à minha direita, bloqueando parcialmente minha visão. Mas o que eu vi, foi o resultado e, portanto, consegui juntar as peças. Marie deve ter jogado a garrafa de tequila em um dos skinheads, aquele que segurava Fiona, porque sua arma disparou e a bala atingiu a parede em algum lugar acima da janela. Ele cambaleou para trás segurando a cabeça. Fiona devia estar se preparando para esse momento, porque retirou duas longas agulhas de tricô Susan Bates de sua bolsa de tricô, as longas e espessas que os iniciantes normalmente aprendem com os brancos no final, e ela o esfaqueou no ombro. Imediatamente a arma caiu de sua mão. Elizabeth, que estivera no chão o tempo todo, pegou a arma quando o capanga 2 tropeçou em suas pernas e caiu pesadamente contra a estante. Kat gritou quando a arma disparou, e ela segurou minha mão. Para minha surpresa, ela nos lançou para atrás do sofá. Eu aterrissei no chão desajeitadamente, recebendo o peso da minha queda com o lado esquerdo do meu corpo. Quinn virou a mesa de café de lado, presumivelmente para oferecer um pouco de cobertura contra a chuva iminente de balas, e ele pegou uma Glock escondida na parte de trás de suas calças, mirando nos skinheads assim que Sam sacou sua arma. No entanto, antes que Quinn ou Sam, o Skinhead, pudessem disparar, a diminuta e pequena Fiona gritou e empurrou Sam para frente. Ela era pequena e ele era grande, portanto, além de uma incapacidade momentânea de se equilibrar, Sam rapidamente se recuperou e voltou sua raiva e arma para Fiona. Neste ponto, Elizabeth foi capaz de disparar. Atingiu em Sam no estômago, e ele prontamente se dobrou amaldiçoando gorgolejante, antes que o capanga 2 chegasse até Elizabeth e tirasse a arma de sua mão, acotovelando rudemente seu rosto. — Ah Merda! Ai! Doeu! — Elizabeth gritou. Antes que o capanga 2 pudesse levantar a arma, no entanto, Marie e Sandra se lançaram pela sala, Sandra gritando como Tarzan. — Droga! — Quinn exclamou antes de pular sobre a mesa de café, um segundo depois.


Surpreendentemente, Marie e Sandra fizeram um trabalho muito eficiente de atacar o grande homem no chão. Evidentemente ele ainda estava de joelhos, tentando se levantar quando alcançaram ele, e sim, Marie o chutou na virilha com botas pontiagudas imediatamente ao entrar em seu circulo pessoal de espaço. Sandra agarrou a 9mm dele enquanto ele estava distraído, e para minha grande surpresa, depois de prontamente travar a guarda, ela o espancou com a coronha da arma. — Eu (pancada) vou (pancada) te (pancada) foder. (pancada) Vaca! Levei um momento para perceber que Sandra estava segurando uma bola de lã na outra mão, a que não segurava a arma. Ela enfiou na boca do capanga 2, enquanto baixava a arma para outro golpe de esmagar os ossos. Fiona correu até Elizabeth e segurou seu rosto, tentando protegê-la de mais violência, e Quinn golpeou Sam com a pistola, derrubando a ameaça tatuada com um único golpe. Marie pegou a garrafa de tequila e a balançou descontroladamente para o capanga 1 que, aparentemente, acabara de se recuperar do choque de ser esfaqueado com uma agulha de tricô Susan Bates. O capanga 1 levantou a mão do seu braço bom sobre o rosto, mas era um pouco tarde; Marie baixou a garrafa com um estrondo retumbante e o monte de um homem caiu para trás, inconsciente. Kat e eu estávamos espiando debaixo do sofá. O único som no pequeno apartamento era o de respiração com dificuldade. Até que alguém, imaginei ser Marie, disse: — Oh, merda! Sandra! É o fio tingido limitado, da Madelintosh Aran, que você acabou de enfiar na boca daquele idiota? Você sabe que não dá para substituir aquilo!


Capítulo 28 Menos de dez segundos depois, a polícia chegou. Foi uma coisa boa também. Marie estava segurando uma garrafa quebrada de tequila, cacos de vidro em todas as direções, e Sandra segurava uma arma. Elas estavam discutindo sobre o, aparentemente muito caro e difícil de encontrar, novelo de lã que Sandra havia colocado na boca de um dos skinheads. Quinn se virou para mim, assim que a polícia entrou. Seus olhos encontraram os meus e o que vi foi uma potente mistura de tensão e alívio. No entanto, ele não veio até mim. Em vez disso, colocou a arma no chão e depois moveu as mãos para a parte de trás da cabeça, esperando pela polícia de Chicago. A sala parecia insuportavelmente grande, e a distância entre nós parecia impossível de percorrer. Apenas horas mais tarde — depois de declarações, questionamentos e um exame pseudofísico administrado por um paramédico — que todos nós fomos libertados. Na verdade, todas nós, já que Quinn não foi. Logo depois que a polícia chegou, eles o algemaram e o levaram para a delegacia, apesar dos protestos de Kat, Elizabeth, Sandra, Marie, Fiona e, é claro, eu. Ashley chegou exatamente quando disse que chegaria, e foi rapidamente atualizada dos detalhes por Sandra. Enquanto ela ouvia a história, observei um espectro de emoções cintilando em suas feições. Finalmente ela expressou sua irritação. — Por que tudo de bom acontece quando não estou? Eu juro, da próxima vez que o namorado gostoso da Janie salvar vocês de skinheads com tatuagens no pescoço, é melhor esperar até eu terminar meu turno, ou então vou ficar chateada. — Ele não nos salvou, você não ouviu? — Elizabeth segurava um saco de gelo no queixo onde foi atingida por um cotovelo carnudo. — Fiona perfurou um deles com uma agulha Susan Bates, Marie empunhava uma garrafa de tequila, Sandra agitava a pistola com a outra, e eu atirei no terceiro. — Onde estavam Janie e Kat? — Ashley olhou de mim para Kat. — Escondidas atrás do sofá, como pessoas sensatas! — Kat disse antes que alguém pudesse falar. Ashley nos deu um súbito sorriso com lagrimas. — Droga, se algo tivesse acontecido com alguma de vocês, eu ficaria muito chateada. O que vocês estavam pensando? Ela iniciou um abraço em grupo, que durou muito além do que seria considerado típico, já que nenhuma de nós queria soltar as outras.


Depois que todas as meninas saíram e Elizabeth saiu com Marie, mas antes que o último carro da polícia fosse embora, me aproximei de um segurança baixo e corpulento, que imediatamente reconheci e que estava me observando desde que a polícia nos escoltou até a ambulância, para o nosso exames com o paramedico. Era Dan, o segurança do Edifício Fairbanks. Caminhamos em direção um ao outro, nos encontrando no meio do caminho. Seus olhos castanhos eram grandes e gentis, e ele me deu um pequeno sorriso; quase parecia arrependido. — Senhorita Morris. — Ele acenou para mim. — Dan, o segurança — balancei a cabeça para ele. Ele suspirou. — Você está bem? Continuei a acenar. Eu não queria dizer sim, porque não tinha certeza de como estava. No entanto, eu não queria parecer uma incapacitada quando precisei da ajuda dele. — Escute, Dan, eu estava esperando que você pudesse me levar até o Quinn. Hum, até o Sr. Sullivan. — Está bem. Eu também o chamo de Quinn. — Dan apontou com o polegar para um carro atrás dele, um Mercedes cupê preto. — É por isso que estou aqui. Eu sorri e soltei um pequeno suspiro. — Claro. — Vamos. — Ele fez um gesto com a cabeça para eu seguir. Quando entramos no carro e ele acelerou, percebi que estava me dando longos olhares de lado, como se quisesse dizer alguma coisa, perguntar alguma coisa, mas não tinha certeza de como começar. Fiquei com pena dele, eu perguntei: — Tem algo que você queira dizer? — Sim — a palavra saiu de sua boca. — Queria te dizer o quanto eu sinto muito. Pisquei para ele, me perguntando como eu não tinha notado seu sotaque distintivo de Boston, durante todas as vezes em que falei com ele. — Como? Por que você sente muito? — Porque Seamus é meu irmão, e ele é um completo fudi..., ele é um cara muito ruim. Mudei um pouco e pressionei minhas costas para a porta do passageiro, para que eu pudesse estudá-lo mais completamente.


— Sim. Bom, nesse caso, suponho que devo pedir desculpas pela minha irmã. Ela também é uma... “um cara muito ruim”. Ele riu. — Sim. Sim, ela é. Eu olhei para ele. — Você conheceu Jem? Ele assentiu. — Ela ainda é tão louca quanto eu a conheci. — Ah, você a viu recentemente? Ele assentiu. — Hoje à tarde, quando você foi para o novo prédio com sua amiga, eu estava no apartamento com Quinn e Jem. — Ele olhou para mim quando girou o volante para a direita e se fundiu na avenida Michigan. Eu endureci. — Então, você estava lá? — Sim, aquela vaca, quer dizer, sua irmã, é louca, mas você sabe disso. Quinn estava tentando ajudá-la. Ele ofereceu dinheiro para ela desaparecer, mas ela começou a reclamar e, merda, a tirar a roupa. Eu juro, se eu não a conhecesse, se não soubesse o quão louca ela é, teria pensado que ela estava com alguma coisa. Então ela o mordeu e o queimou com cigarro através da camisa dele. Foi louco, saiu sangue do pescoço dele. Eu estremeci, pensando em Jem mordendo Quinn com tanta força, que tirou sangue. — Por que ela estava tirando a roupa? Ele encolheu os ombros. — Não sei. Ela é louca. Quando você chegou lá, ele estava limpando a marca da mordida e todo o sangue. Ele estava saindo para pegar algumas roupas novas. Eu teria tomado um banho de álcool e água oxigenada, se ela tivesse me mordido. Mordi meu lábio enquanto eu absorvia tudo. Me senti aliviada, estúpida e ansiosa. Dan estacionou o carro no porão do prédio e me acompanhou até a cobertura de Quinn. Ele abriu a porta para mim, mas não entrou. Eu estava quieta desde o carro, querendo me organizar através da minha bagunça emaranhada de emoções e os eventos da noite. Mas eu estava ansiosa para ver Quinn e não estava realmente capaz de pensar em nada, até que passasse meus braços ao redor dele e sentisse, ao invés de ver, que ele estava seguro. — Então... — Dan me entregou as chaves da cobertura. — Quinn deve vir para casa hoje à noite. Quando ele me ligou, disse que eles não prestaram queixa


de nada, e nem deveriam, porque ele tem uma licença para carregar aquela arma. Eu o parei quando ele se virou. — Dan, posso te perguntar uma coisa? Suas sobrancelhas levantaram quando ele assentiu com a cabeça. — Claro. Mudei as chaves de uma mão para a outra e coloquei meu cabelo atrás das orelhas. — Há quanto tempo você conhece Quinn? Ele encolheu os ombros. — Desde que éramos crianças. — Você sabe por que Quinn deixou Boston? Ele hesitou. Seus olhos se estreitaram quando seus lábios se moveram para o lado. — Sim. Não pude deixar de sorrir para a resposta de uma só palavra, o próprio quadro de lealdade cautelosa. — Eu também... eu acho. Ele ficou muito quieto, me observando, seus olhos se movendo sobre minhas feições com uma intensidade concentrada. Finalmente, ele disse: — Você sabe, ele é muito louco por você. Não louco como sua irmã Jem, mas louco tentando tornar-se uma pessoa melhor. Pressionei meus lábios e meu coração. Agora, tudo de novo, saltou descontroladamente no meu peito antes que eu respondesse: — O sentimento é mútuo. No começo nem pensei em dormir. Dei voltas no apartamento vazio de Quinn, desejando ter trazido uma revista em quadrinhos comigo, percebendo que eu nem tinha meu celular estúpido. Em um ataque de irritação petulante, me joguei na cama e adormeci prontamente. Quando acordei, fiquei confusa. O panorama do parque, do lago e da cidade me dizia que ainda estava no meio da noite, mas não fazia ideia de quanto tempo eu estava dormindo. Me estiquei, planejando levantar e verificar a hora no meu relógio pela luz do banheiro, mas percebi que não estava sozinha. Havia um corpo ao meu lado. Na verdade, eu estava enrolada em torno desse corpo. E o corpo não estava dormindo. Minha respiração engatou. — Quinn?


O braço em volta dos meus ombros apertou suavemente antes de se retirar, em seguida, se mexeu na cama e se apoiou em um cotovelo de modo que ele estava de frente para mim. — Ei. — Sua outra mão imediatamente se enredou no meu cabelo, e ele estava puxando minha cabeça para trás, para que pudesse cobrir minha boca com a dele. Me apoiei em seu beijo, pressionando meu corpo contra o dele e sentindo uma mistura esmagadora de alegria indescritível, alívio e gratidão. Nos beijamos. Apenas nos beijamos por um longo tempo. Às vezes eu estava em cima dele, às vezes ele estava sobre mim, às vezes estávamos sentados, às vezes estávamos deitados. Continuou e continuou, e se não fosse pela necessidade de ar, poderíamos ter nos beijado pelo resto de nossas vidas. Eu não reclamaria. Eu estava sentada em seu colo e estávamos no meio da cama quando ele tirou o cabelo do meu rosto e encostou sua testa na minha. — Ah, Quinn, eu sinto muito. — O abracei. Meus braços em volta do seu pescoço. — Janie, não há nada para se desculpar. — Mas eu presumi o pior. Eu te vi com Jem e presumi que você... que você e ela... Seus braços se apertaram em volta de mim. — Você presumiu que estávamos jogando “passa o salame”, como Elizabeth chamou. — Apesar dos eventos da noite, isso nos fez rir. Quando a curta gargalhada terminou, encostei a cabeça na curva do pescoço dele, com cuidado para evitar sua lesão. — Dan me trouxe aqui e me contou o que aconteceu com Jem. Lamento que ela tenha te mordido. Sua mão esfregou círculos nas minhas costas e com cada passagem, sua mão se movia mais para baixo, até que ele estava acariciando a base da minha espinha logo acima da curva do meu traseiro. — Está tudo bem. Eu não me importo com a Jem. Me afastei apenas o suficiente para ver seu rosto. Ele parecia cansado e com sono. — Eu também não — disse, e então suspirei com a lembrança de todos os problemas que minha irmã causou. — Você deveria saber que eu realmente confio em você. Ele me deu um pequeno sorriso que não chegou aos seus olhos. — Podemos conversar sobre isso de manhã. — Não... não, escute — me movi para trás e, a princípio, ele não deixou, mas então ele finalmente me permitiu ir até a beira da cama e ficar em pé. Enfiei a


mão no bolso da calça e tirei o e-mail dobrado, minha voz ainda estava cheia de sono. — Olivia, pelo menos acho que foi Olivia, deixou isso na minha mesa ontem. Eu ia mostrar para você hoje. — Entreguei o papel para ele. Ele olhou de mim para o papel e, em seguida, com clara hesitação, pegou da minha mão. Fui até o banheiro e acendi a luz, que lhe deu iluminação suficiente para ler o conteúdo. Ele se arrastou para a beirada da cama e ficou de pé, sua longa forma se desdobrando, endireitando, depois enrijecendo enquanto lia. Um sopro de ar escapou de seus pulmões e seus olhos se voltaram para mim. — Eu não vi isso, mas Janie, eu posso te dizer... Cobri sua mão segurando o papel, com a minha. — Não. Não importa. O que eu queria dizer era... o que eu quero dizer é que vi isso ontem, e sim, admito, tive um surto momentâneo, mas depois pensei sobre isso e percebi que confio em você. Eu sabia que tinha que haver uma explicação razoável e eu ia mostrar a você hoje, esta noite, antes que tudo fosse de inofensivo Judd Apatow para horripilante Quentin Tarantino. Quinn deu um passo em minha direção, balançando a cabeça. — Eu pedi a eles. — Você não precisa explicar. Eu confio em você agora e confiei em você quando a li. Eu só queria que você soubesse que eu não estava preocupada. Tenho fé em você. Desta vez, seu pequeno sorriso alcançou seus olhos e ele parecia quase orgulhoso de si mesmo, e um pouco malicioso. Seu olhar percorreu meu rosto em uma varredura lenta, enquanto lambia seus lábios. — Deixe-me dizer o que é isso, ok? Eu assenti. — Você não precisa. — Eu quero. — Quinn afundou o queixo e nivelou seu olhar medido, com o meu. Ele olhou brevemente para o e-mail e me devolveu. — Depois que você e eu conversamos na terça-feira, quando você me disse que não queria pegar o avião com os outros, eu sabia que você se sentia desconfortável em deixar as coisas indefinidas no trabalho. Liguei para Betty e a encarreguei de pedir aos advogados que juntassem uma proposta para definir nossas expectativas de trabalho de tal forma que nos permitisse continuar nosso relacionamento fora do trabalho. Minha atenção voltou para o e-mail. Como ele explicou, eu li novamente com essa informação em mente. — Obviamente eles interpretaram mal o pedido. Eu queria que eles criassem algo tangível, algo legal sobre o qual você pudesse se sentir bem, algo que iria protegê-la caso nosso relacionamento acabasse... — uma das mãos dele foi para


a parte de trás do seu pescoço. — Parece que eles interpretaram seu pedido, seu principal objetivo, como proteger a empresa. Eles querem que eu me demita, para que você e eu possamos namorar sem colocar a empresa em risco. — Vou esclarecer isso. — Ele se aproximou, passando a parte de trás de seus dedos contra a pele onde a minha camiseta, de gola em U, encontrava meu peito. Inspecionei o e-mail mais uma vez antes de me afastar de Quinn para colocálo na cômoda. — Eu sei que vai. — Eu não conseguia encontrar seus olhos. Parte de mim se perguntou se seria melhor para todos se eu desistisse. Então eu poderia namorar Quinn, sem deixar os outros desconfortáveis com a possibilidade de colocar sua empresa em risco. — Ei. — Ele inclinou meu queixo para trás até que eu encontrei seu olhar. — Sobre o que você está pensando? E não me diga que são robôs. Apesar de tudo, dei-lhe um sorriso frágil. — Talvez eu deva desistir. Ele balançou a cabeça. — Não. Isso não é aceitável. — Quinn. — Isso seria ruim para a minha empresa. — Mas pelo menos… — Do que você tem tanto medo? — Tenho medo de que, se você me conhecer, vai achar que sou esquisita. — As palavras, palavras que eu nem sabia que ia dizer, se soltaram como um soluço desobediente. Seu olhar se focou e encontrou o meu diretamente. — Eu conheço você e, você está certa, você é estranha. — Receio que você esteja rindo de mim, em vez de rir comigo. Ele encolheu os ombros. — Não há nada que eu possa fazer sobre isso. Você é engraçada. — Temo que seu dinheiro e a minha falta de dinheiro, cheguem entre nós e atrapalhe. Ele colocou as mãos nos quadris. — Não vai. Não vou deixar. — Tenho medo de sentir mais por você do que você sente por mim. Ele balançou a cabeça lentamente. — Isso não é possível. — Receio que estamos nos movendo muito rápido, e que isso é apenas paixão. — Eu não sei o que é isso. — Ele respirou como se fosse continuar, mas


depois fez uma pausa. Quinn me estudou, manteve o olhar. Ele parecia estar escolhendo suas próximas palavras com cuidado. Eu sabia o que queria que ele me dissesse. Eu queria que ele dissesse que isso não era uma paixão, que ele tinha certeza de que estaríamos juntos na eternidade, que eu era bonita e me perguntasse se fiz algo diferente com meu cabelo, que eu era a mulher mais bonita do mundo para ele. Era o que eu queria ouvir, porque estava me apaixonando por ele. Eu não estava me apaixonando. Eu já estava apaixonada por ele. Finalmente, com palavras deliberadas e cuidadosamente elaboradas, Quinn disse: — Eu penso em você o tempo todo — seu olhar estreitou e sua mandíbula assinalou, como se a confissão tivesse custado a ele. — E eu não posso garantir que isso não é paixão, porque às vezes eu acho que tem que ser. Mas... — Seu olhar subiu para a esquerda e por cima do meu ombro. — Eu não penso em você como perfeita. Fiz uma careta para ele. Eu não penso em você como perfeita. — Ah ... ok. — Meus cílios piscaram em rápida sucessão e meu cérebro começou a compilar a lista de todas as minhas imperfeições. — É por causa da minha altura? Minha introdução de fatos triviais? Minha calçola? — Não, escute — sua atenção rapidamente voltou para mim. — Não é... — ele balançou a cabeça e engoliu em seco. — Se isso fosse apenas paixão, eu ficaria desiludido em algum momento, certo? Balancei a cabeça e tive certeza de que não era convincente. Ele continuou. — Eu não tenho equívocos de que você é impecável. E você não tem ilusões sobre mim. Você é muito prática e, se tivesse, não teria me lembrado, na quartafeira, de que eu preciso ser um cara bom. Balancei a cabeça novamente, desta vez de forma mais convincente, embora mais cautelosa. — Eu não acho isso — ele fez um gesto entre nós — Eu não acho que isso é paixão. — Ele se aproximou e eu pensei que ele ia me tocar, mas, em vez disso, ele cruzou os braços e sua voz se tornou mais suave e gentil. — Eu sei que a vida, em geral, te apavora. Sei que você, frequentemente, é alheia ao óbvio, e sei que você é completamente irracional, às vezes. Abri minha boca automaticamente, porque meu cérebro estava me dizendo para objetar, mas, surpreendentemente, eu realmente não senti qualquer indignação por ser chamada de apavorada, alheia e irracional. Sua avaliação


estava, mais ou menos, no alvo. O fato de ele saber essas coisas sobre mim, e ele parecia aceitá-las independentemente, fez com que eu me sentisse melhor e pior. — E tudo isso me deixa louco. Você me deixa louco. — Sua voz se aprofundou, e ele nivelou o olhar estreito com o meu, enquanto continuava. — Mas, apesar de você ser totalmente doida, eu não mudaria nada em você. Pressionei meus lábios e comecei a morder o interior da minha bochecha. Corajosamente encontrei seu olhar aguçado. — Você me acha totalmente louca? Ele assentiu e suspirou. — Sim. E eu... — seus olhos se moveram sobre minha testa, sobrancelhas, nariz, bochechas, lábios e queixo. — Eu não consigo parar de pensar em você. Inalei profundamente, tentando respirá-lo, tentando entender esse desejo de levá-lo dentro de mim e carregá-lo sempre comigo. Ele abaixou a cabeça e meus olhos se fecharam. — Janie... Suspirei. — Sim? — O que você está pensando? — sua voz era um sussurro, sua respiração contra a minha bochecha. Meus olhos se abriram e eu molhei meus lábios, querendo sua boca na minha, levada a uma louca honestidade. — Eu te amo. Senti, em vez de ver, seu sorriso satisfeito. — Bom. Ele suavemente roçou seus lábios contra os meus. Meu pânico imediato, induzido pela confissão, dissolveu-se quando sua proximidade me cobriu em um santuário assustador que eu nunca soube que queria, mas agora reconheci que era necessário para minha existência continuada. Eu me perdi para ele e para mim mesma; confiar e ter fé; e, naquele momento, eu era destemida.


Epílogo Quinn, quatro meses depois. Quando entrei na loja de artigos de encanamento de luxo, na West Lake Street, fiquei imediatamente impressionado com o fato de que eles tinham fileiras de sanitários pendurados nas paredes. O chão era de cimento queimado e as paredes eram de tijolos vermelhos comuns. Cobrindo o chão e as paredes, havia uma série de pias, banheiras, torneiras e vasos sanitários. O espaço era grande, mas parecia pequeno devido à grande variedade de acessórios de banheiro. Automaticamente fiz uma varredura da loja. Localizei as saídas, avaliei os outros clientes e assim por diante. Hábitos vêm naturalmente. Uma vez confortável, fui até Elizabeth. Ela estava a cerca de doze metros de distância, estudando uma fileira de torneiras na parede. Ela não olhou para cima quando me aproximei, mas apenas inclinou a cabeça em minha direção como uma saudação. — Calças-Quentes. — Elizabeth. — Esfreguei a parte de trás do meu pescoço. Eu não me importava com o apelido, quando era Janie quem usava. Mas isso não parecia certo para as amigas dela, particularmente Elizabeth. Eu esperava que o encontro de hoje melhorasse nossas interações tensas. — Obrigado por me encontrar. Elizabeth encolheu os ombros. — Sem problemas. Qualquer coisa por Janie. Ela disse que nos encontraria aqui às 18:00h. — Estendeu a mão e torceu a valvúla de uma torneira. Se Janie chegaria às 18:00h, então significava que eu só tinha meia hora para resolver quaisquer questões que Elizabeth obviamente tinha comigo sobre namorar a Janie. Esperei que Elizabeth olhasse para cima, mas em vez disso, ela franziu o cenho para a torneira de metal e caminhou mais para dentro da loja. Fiz uma careta para ela, tentando não ranger meus dentes. — Por que você quis se encontrar aqui? — Quero uma nova torneira. — O que há de errado com a torneira do apartamento? — Não gosto dela. Com muito esforço, consegui evitar revirar os olhos. — Ok. Ela brincou com outra série de alavancas. — Ok? Então tudo bem se eu mudar a pia? Olhei ao redor da loja novamente, contando mais três pessoas que eu perdi na minha primeira varredura do espaço.


— Elizabeth, você pode reformar o banheiro se quiser. Eu não me importo. — E você vai pagar? — Claro, qualquer coisa. O que você quiser. Ela olhou para mim então. Seus pálidos olhos azuis se estreitaram e ela me inspecionou, como se eu fosse uma doença. Desde a primeira vez em que nos encontramos, há quatro meses, eu me sentia contraditório com a Elizabeth. Ela ficava irritada toda vez que eu estava sozinho com ela, em algum espaço. Na semana passada, que foi a última vez que Janie e eu passamos a noite em sua casa, Elizabeth fez comentários passivos e agressivos sobre minha incapacidade de fazer uma boa xícara de café. Eu sei fazer café. Eu faço um café muito bom. Ela simplesmente não gosta de mim. Normalmente eu não me importo, mas a melhor amiga dela, é a mulher com quem eu quero passar o resto da minha vida. É necessário fazer um esforço. Encontrei seu olhar com o meu. Finalmente, ela falou. — Então, Senhor Cara de Granito, do que se trata? — ela fez um sinal entre nós dois. — Por que você quis me encontrar antes da Janie chegar? Cruzei os braços, me preparando para negociar. — Precisamos descobrir alguma maneira de nos darmos bem. — Você está certo. — Ela não pareceu surpresa com a minha declaração. — O que você não gosta em mim? Ela levantou as sobrancelhas loiras. — Não tenho nada contra você. Eu não queria chamá-la de mentirosa, então não respondi. Depois de um longo momento, ela continuou. — Não é que eu não goste de você. Eu só não confio em você. — Por que não? — Porque não entendo suas motivações, e ainda acho que você está escondendo alguma coisa. — Ela imitou minha postura, cruzando os braços. Ela era pequena e parecia boba quando tentava parecer durona. — Não estou escondendo nada. — Oh, sério? — Elizabeth começou a esfregar o queixo com o polegar e o indicador. — O que você fez com a Jem? O que aconteceu com todos esses bandidos de Boston? Por que eles não prestaram queixa? — Janie e eu discutimos tudo isso. Ela sabe que eu cuidei disso. Elizabeth não escondeu sua raiva muito bem. — Bem, Janie não vai me dizer. — Isso é, provavelmente, para o seu próprio bem. — Eu quero saber o que aconteceu. Eu não apanhei na cabeça para ficar tudo por isso mesmo! E se eles voltarem? E quanto a Janie?


— Janie é mais forte do que você pensa, e vou protegê-la. — Eu preciso saber, para poder cuidar dela. Você não pode protegê-la para sempre! — Elizabeth balançou com os braços descontroladamente. Ela estava começando a chamar atenção para si mesma. Eu não me importava particularmente, mas era irritante. E porque eu estava aborrecido, respondi sem pensar. — Sim eu posso. Quando nos casarmos, ela vai... — Vocês vão se casar? — a pergunta de Elizabeth ecoou nas banheiras de porcelana e atraiu todos os olhos restantes para onde estávamos. Olhei ao redor da loja. Não ofereci nada além de um olhar hostil em desculpas por sua explosão, em seguida, peguei Elizabeth pelo braço e escoltei-a para os fundos da loja. Quando fiquei satisfeito por ninguém estar escutando ou assistindo, respondi em voz baixa. — Eu não a pedi ainda. Elizabeth piscou para mim, sua boca abriu e fechou. Eu desisti e revirei os olhos. Quando ela finalmente falou, sua voz era um sussurro apertado. — Não acredito que você vai pedir para ela se casar com você! Para minha surpresa, ela parecia animada e feliz. Pisquei para ela; minha boca abriu e fechou. — Oh meu Deus, você tem que me deixar ajudar! Eu quero ajudar! Isso é tão excitante! — ela pulou para frente e para trás, batendo palmas. Eu respondi com os dentes cerrados. — Não. Eu não preciso da sua ajuda. Eu posso fazer isso sozinho. Ela parou de pular e abruptamente franziu a testa. Sua voz ainda era um sussurro, embora um pouco mais alta. — Veja, é por isso que eu não gosto de você! — Eu pensei que você gostasse de mim. — Não, eu gosto de você, gosto de você por Janie, mas não gosto que você esconda as coisas! Por que você faz isso? Eu a estudei. As mãos de Elizabeth estavam plantadas na cintura e, pelo menos, ela não parecia zangada. Ela parecia magoada. O que eu sabia sobre Elizabeth, aprendi com Janie. Era óbvio que Elizabeth estava cuidando de Janie de uma forma ou de outra desde a faculdade. Me ocorreu que talvez eu precisasse modificar minha abordagem. Molhei meus lábios e olhei para a porta, o que eu estava prestes a admitir seria mais fácil se eu não tivesse que olhar para ela. — Eu não estou acostumado a compartilhar informações, recursos e, definitivamente, pessoas.


Eu a ouvi suspirar antes de falar. — Bem, eu também. Mas eu amo Janie, e o que importa é a felicidade dela. Eu quero que ela seja feliz. — Você sabe que eu a amo — rosnei. O tom tenebroso de suas palavras me irritava, e minha resposta e o olhar resultante eram superficiais. — Eu sei... eu sei que você a ama — ela ergueu as mãos, os olhos arregalados e pacíficos, e seu tom suavizou. — Mas temos que encontrar uma maneira de nos darmos bem, você mesmo disse — ela adicionou em um suspiro. — Temos que aprender a compartilhar. Soltei uma respiração lenta e relutantemente. Admiti para mim mesmo que Elizabeth estava certa; nós teremos que compartilhar Janie. Esse era o problema. Eu não sabia como compartilhá-la. Eu nem tinha certeza se queria. Parte de mim queria ficar na cama com ela, a cada segundo, de cada dia, e explorar seu corpo perfeito. Havia uma ferocidade por trás do sentimento que ainda me surpreendia e me pegou desprevenido. Mas eu amava Janie e isso significava que eu precisava fazer certas coisas só porque eram boas para ela e a fazia feliz. — Além disso, você pode achar que eu sou muito útil para manter por perto. — A boca de Elizabeth se curvou em um sorriso suplicante. — Eu sou uma aliada valiosa. Por exemplo, sou excepcionalmente boa com o tratamento de feridas. Me permiti um pequeno sorriso, mas sabia que não chegava a meus olhos. Eu compreendi que ser amigo de Elizabeth era uma estratégia muito melhor do que apenas tolerá-la. Esfreguei minha mão no rosto. Antes de mudar de idéia, rapidamente consenti com sua interferência. — Ok, tudo bem. — Está bem? Ok? Voltei minha atenção para a loira baixinha e a encontrei me observando, as mãos entrelaçadas esperançosamente. — Ok, tudo bem, você pode me ajudar. Um som estridente de chiado atingiu meus ouvidos e eu estremeci; então ela me abraçou. Dei um tapinha nas costas dela, na esperança de acalmar esse pouco de efervescência excessivamente zelosa. — Você não vai se arrepender! Oh meu Deus, estou tão animada! Você escolheu um anel? Eu já estava me arrependendo, mas decidi guardar isso para mim mesmo. — Não. Eu ainda não fiz nada. — Cruzando os braços sobre o peito, olhei para o relógio e depois para a porta da frente. Janie chegaria a qualquer momento e eu não queria falar sobre anéis de noivado com Elizabeth quando ela


aparecesse. — Tudo bem, eu sei o que ela gosta. Eu posso ajudar com isso, mas não pegue um diamante, a menos que seja sintético, porque... — Eu sei, eu sei, as atrocidades do comércio de diamantes na África. Eu estava pensando em dar alguma antiguidade para ela. Elizabeth olhou para cima, pensativa, depois assentiu. — Sim, é uma boa ideia. Você sabia que ela realmente ama rubis? A pergunta prontamente me chamou a atenção. Esta foi uma informação realmente valiosa. — Não, não sabia disso. Talvez Elizabeth pudesse ser útil apesar de tudo. — É alguma coisa sobre o fato de que qualquer outra cor faça da gema uma safira, mas se ela é vermelha, é considerada um rubi. Eu senti meus lábios se curvarem em um sorriso. Um rubi seria perfeito para Janie. Nossa atenção foi atraída para a frente da loja, pelo tilintar de um sino anunciando a entrada de um novo cliente. Eu sabia que era Janie antes de a ver. Foi a coisa mais ridícula, mas meu coração apertou e expandiu quando ela entrou em uma ala. Eu esperava a resposta descontrolada, mas ainda não me acostumei com isso. Meus pés estavam me levando para ela antes que minha mente entendesse sua intenção. Eu estava muito ocupado percebendo que ela estava usando uma saia, o que provavelmente significava que ela estava usando meia calça com renda no topo. Ela sabia que me deixava louco. Eu já estava tramando encontrá-la sozinha para que eu pudesse confirmar minha suspeita. Além disso, ela estava usando o cabelo em um coque, e eu imediatamente comecei a formular planos para esconder todos os seus laços de cabelo o mais rápido possível. Chamei sua atenção quando me aproximei e, novamente, meu coração deu um pulo quando ela sorriu. Calor irradiava do meu peito para fora e automaticamente devolvi o sorriso dela, porque era inevitável. Eu simplesmente não tive escolha. — Ei. — Nós nos alcançamos, e sua palma macia encostou na minha bochecha brevemente quando ela me deu um pequeno beijo. Não foi o suficiente. Nunca era o suficiente. Lutei contra o desejo de aprofundar o contato superficial e enfiei as mãos nos bolsos. Eu nunca fui de demonstrações públicas de afeto. Agora, no entanto, eu tinha dificuldade em manter minhas mãos longe do corpo de Janie, independentemente de onde estivéssemos. Também tinha dificuldade em me concentrar em qualquer coisa ou alguém além dela.


— Oi — ela respondeu, seu foco dividido entre o nosso entorno e eu. Nossos arredores finalmente ganharam a batalha por sua atenção. — Amo este lugar. — Ela respirou as palavras como se estivesse em reverência. Eu a observei girar em círculo, lentamente. Seus olhos brilharam quando eles perceberam a atmosfera esparsa e desordenada. — Por que você ama isso? — eu tinha a sensação de que iria gostar da resposta dela. Eu sabia que seria inesperada e única. Tudo nela era inesperado e único. Ela era minha luz brilhante de excentricidade em um mundo muito previsível e comum. Ela fez tudo novo e interessante ou engraçado. Janie me lançou um olhar cético. Tenho certeza de que ela queria que parecesse desconfiada, mas, ao invés disso, ela parecia adorável e linda. — Você vai tirar sarro de mim. Eu sorri sem querer, algo que estava se tornando muito comum quando estávamos juntos. — Eu não vou tirar sarro de você. Eu realmente quero saber. — Peguei a mão dela, perdendo a guerra contra a restrição, querendo sentir o calor de sua pele contra a minha. — Por que você gosta daqui? Ela inclinou a cabeça, seus grandes olhos castanhos se movendo sobre o meu rosto, depois encontrando os meus. Imaginei que eles estavam procurando a sinceridade da minha declaração. Eu queria beijá-la novamente, mas sabia que ela nunca responderia a pergunta se eu fizesse. — É realmente embaraçoso, e é sobre o meu pior dia de todos, que realmente se transformou em um dos melhores dias de todos os tempos, porque foi a primeira vez que eu falei com você e olhei nos seus olhos. Você sabia que eu tive muita dificuldade em fazer isso? Olhar para você, nos olhos, era difícil para mim e, em minha defesa, há na verdade, várias culturas em que é sinal de respeito não olhar nos olhos de alguém. Por exemplo, no Japão, crianças em idade escolar... — Janie. — Movi minhas mãos atrás de suas costas, puxando-a contra mim. — Por que você ama isso aqui? Ela piscou, sua boca macia se abriu. Ela corou. Foi devastador e fez meu pulso acelerar. Eu costumava fazê-la corar de propósito. Eu gostava de enervá-la e observar o modo como seus olhos se aqueciam, e eu particularmente amava o jeito que ela olhava para mim através de seus cílios. Janie era brilhante e bonita. Eu adorava que parecesse ser um dos poucos que poderia surpreendê-la o suficiente para provocar uma reação involuntária. Não é que Janie fosse fria, é que ela era naturalmente indiferente. Sempre que eu a observava no trabalho ou em grupo, ela parecia se manter distante da ação, mas nunca me pareceu intencional. Ela parecia estar mais confortável assistindo.


Talvez seja por isso que suas reações impulsivas eram tão gratificantes. — São os acessórios do banheiro. — Ela limpou a garganta e levantou o queixo, encontrando meu olhar diretamente, bravamente. — Eu sou fã de banheiros. Eu os acho excepcionalmente bons para meditação. Eu não pude deixar de rir. — Meditação? Você medita no banheiro? Ela assentiu, lutando contra um sorriso. — Bem, é uma espécie de meditação. Eu costumava envolver todos os meus pensamentos e colocá-los dentro de uma caixa em uma prateleira, em um armário na minha cabeça, mas ultimamente, eu apenas sento no banheiro e resolvo as coisas lá. Algo com toda a porcelana e azulejo, eu acho. — Ela se afastou de mim, olhando por cima do meu ombro. — Ei, Elizabeth! Não sabia que você já estava aqui. Honestamente, eu esqueci que Elizabeth estava lá. Soltei Janie e dei um passo para trás quando ela cumprimentou sua amiga. — Sim. Cheguei aqui há pouco tempo. — Elizabeth sorriu calorosamente para Janie e colocou um polegar por cima do ombro. — Estava olhando as torneiras. — Terminou de procurar? A que horas é a nossa reserva? Porque eu não me importaria em dar uma olhada se tivéssemos tempo... — Os olhos esperançosos de Janie se moveram entre Elizabeth e eu. — Temos muito tempo, a reserva é para às 18h30, e estamos a apenas dez minutos de distância — lhe assegurei e ganhei um sorriso imediato. Elizabeth pegou Janie pela mão. — Venha, olhe estas. A liberação da alavanca é realmente suave. Vi quando Janie e Elizabeth se aproximaram da fileira de torneiras de pia e brincavam com os botões, fazendo “ooh” e “aah” em intervalos. Parei e apenas estudei as duas: Janie, alta e perfeitamente com volume em todos os lugares certos, contrastava com a forma mais baixa e esbelta de Elizabeth. Elas eram opostas em muitos aspectos, mas interagiam com a facilidade praticada que só o tempo e a amizade confiável trazem. Quando elas esgotaram o tempo e voltaram para onde eu estava, fingi verificar meu e-mail pelo telefone. Eu não queria admitir, na frente de sua amiga, que eu estivera apenas a olhando pelo último quarto de hora, apreciando suas expressões animadas e o jeito que ela se movia. Além disso, estudar a interação delas me permitiu reconhecer o quão relaxada Janie ficava perto de Elizabeth. Essa amizade significava muito para Janie. Significava muito para as duas. Eu olhei para cima e encontrei o sorriso de Janie com um dos meus. — Estamos prontos? Janie assentiu, mordendo o lábio.


— Estou muito pronta. Estou com tanta fome que eu poderia comer um cavalo, mas não na demonstração de grande riqueza ou no sacrifício aos deuses, mas no modo coloquialista em que estou afirmando que estou com muita fome. Elizabeth riu da explicação sincera de Janie e pegou meu olhar. Ela me deu um pequeno sorriso, em seguida, abruptamente estreitou os olhos para mim. — Uh... — Elizabeth de repente tirou o pager do hospital de sua bolsa. — Bem, olhe para isso, fogo — ela olhou para Janie e sua expressão era de desculpa. — Parece que eu não vou poder sair para jantar hoje à noite. — Elizabeth me olhou brevemente, em seguida, acrescentou: — Acho que serão só vocês dois, crianças, hoje à noite. Uma das minhas sobrancelhas se levantou, como é meu hábito quando suspeito de uma pessoa ou de uma situação. O tempo de seu pager parecia muito notável e eu soube imediatamente o que Elizabeth estava fazendo. Ela teve quinze minutos ininterruptos de Janie em uma loja de utensílios de banheiro. Elizabeth estava me mostrando que ela também podia compartilhar Janie, saindo graciosamente do jantar. Janie franziu a testa. — Isso é muito ruim. — Seu olhar piscou para mim, em seguida, de volta para Elizabeth, e o volume de sua voz estava ligeiramente mais baixo quando ela falou novamente. — Eu estava realmente esperando que você e Quinn pudessem ter uma chance para ... você sabe, conversarem e se conhecerem um pouco melhor. Eu assisti como sua amiga loira lhe deu um sorriso suave. — Vou ter que remarcar. Sinto muito. Eu realmente tenho que ir. — Elizabeth apertou a mão de Janie e então se moveu em direção à porta. — Divirtam-se! Meus lábios se torceram para o lado quando Elizabeth passou por mim e eu lhe dei um sorriso agradecido, que eu tinha certeza que alcançou meus olhos. Ela me lançou um olhar significativo, que me disse inequivocamente: “Você me deve uma.” Balancei a cabeça para confirmar que eu entendi e que pretendia devolver. Na verdade, eu pretendia explorar o conhecimento de Elizabeth sobre os gostos de Janie, ao escolher um anel de noivado e planejar a proposta. Minhas futuras interações com Elizabeth seriam mutuamente benéficas e, surpreendentemente, eu estava realmente ansioso para me tornar amigo dela. Estava ansioso para ver como Janie ficaria feliz. O suspiro de Janie atraiu minha atenção de volta para ela, e eu a envolvi em meus braços enquanto o sino tilintava na porta da frente, anunciando a partida de Elizabeth. — Isso é muito ruim. — Ela se aconchegou contra o meu peito.


— Haverá uma próxima vez. Janie grunhiu sem compromisso, depois se inclinou para trás, chamando minha atenção. — Vocês dois conversaram antes de eu chegar? Eu assenti. — Conversaram sobre o quê? Inclinei a cabeça para o lado e me permiti estudar suas feições. Ela tinha um rosto bonito, lábios perfeitos, sardas leves, olhos grandes. A cor dos olhos dela era de ouro, e isso me fez querer escrever poesias e contratar um escritor. — Quinn? Eu pisquei para seu rosto virado para cima. — Uh... o quê? Ela corou e olhou para mim através de seus cílios. — Sobre o que vocês dois conversaram antes de eu chegar? Limpei minha garganta para parar. Eu não queria mentir, eu não iria mentir, mas eu não poderia lhe dar toda a verdade também. Em vez disso, optei pelo que ela chamava de verdade seletiva. Neste caso, me senti completamente justificado. — Estávamos discutindo um projeto meu. Ela pensou que poderia me ajudar, já que ela tem familiaridade com o assunto. — Dei de ombros e gentilmente comecei a desenrolar seu cabelo. — Ah. — Seus olhos se moveram entre os meus, procurando, e eu segurei seu olhar corajosamente. — Você vai deixá-la ajudar? Eu assenti. — Sim. Ela vai me ajudar. Acho que vai ser bom. — Consegui soltar o cabelo dela e senti meu corpo apertar com a abertura de sua expressão emoldurada pela massa de plumagem selvagem. Seu sorriso foi lento, encantado, e fez minha respiração parar. — Estou tão feliz. Eu a observei por um momento, e pensei seriamente em cair de joelhos e propor ali mesmo, na loja de artigos para banheiro de luxo, na West Lake Street. Eu olhei para essa linda mulher, e tudo que eu conseguia pensar era em Querer. Minha. Precisar. Antes que eu pudesse compensar o impulso de Neanderthal, Janie me deu um beijo rápido e saiu de meus braços. Ela deslizou os dedos entre os meus e me puxou para a porta. — Vamos. Quanto mais cedo formos comer aquele cavalo, mais cedo poderemos voltar para sua casa. — As sobrancelhas de Janie balançaram desajeitadamente e permiti que ela me levasse da loja. Eu estava ocupado


admirando seu traseiro e a forma de suas pernas nos saltos estiletes ridículos que ela usava, quando ela abriu a porta. Nós andamos pela rua em direção ao restaurante e ela segurou minha mão. Fiquei em silêncio porque minha mente ainda estava vagando. O pensamento dela como minha esposa me dominou. Eu era indigno de seu brilho e doçura, mas eu me casaria com ela se ela me quisesse, e eu nunca a deixaria ir. — Ei — ela me cutucou nas costelas. — Por que essa cara? Engoli a espessura na minha garganta. Minha voz soava rouca para os meus próprios ouvidos. — Que cara? — Essa. Séria e determinada. É a aparência que você tem quando está prestes a chover um mundo de dor. — Chover um mundo de dor? De onde você tirou isso? — inclinei a cabeça para o lado, estreitando meus olhos. — De Steven. Nós estávamos falando sobre como você choveu um mundo de dor na Olivia, semana passada. Na verdade, eu a demiti e não fui gentil também. Eu não tolerava a incompetência. Fiz uma careta. — Ela era ruim em seu trabalho. Precisava sair. — Eu concordo, mas não mude de assunto. Por que está com cara de chover um mundo de dor? — Não estou, não. É... balancei minha cabeça e a fiz parar. Meus braços a cercaram. Pressionei seu corpo contra o meu e a beijei suavemente, a pegando desprevenida. Apesar de sua surpresa inicial, ela respondeu lindamente e me permitiu tomar o que eu precisava: seu calor e sua aceitação cega. Exceto que ela não era cega, ela era inteligente. Ela me conhecia e me amava mesmo assim. Me afastei, apenas o suficiente para que seus olhos estivessem em foco. Seus cílios se abriram e ela olhou para mim, confiante e feliz. Minha voz era um grunhido. — Eu te amo. Ela sorriu. — Eu sei. Soltei uma respiração lenta e me perdi em seus olhos dourados de musgo. — Eu não mereço você. Ela lambeu os lábios, baixou o olhar para minha boca e seu sorriso se alargou. — Ah, você me merece. — Ela assentiu com a cabeça, seus olhos se voltando para os meus. — Você me fez destemida.


Foi uma confissão e eu senti como um grande peso no meu peito. Eu queria lhe fazer uma confissão também. Engoli com esforço, em seguida, esfreguei meus lábios nos dela. Minhas palavras foram um sussurro que só ela podia ouvir. — E você me faz um cara legal.

O fim


Table of Contents Dedicatória Capítulo 1 Capítulo 2 Capítulo 3 Capítulo 4 Capítulo 5 Capítulo 6 Capítulo 7 Capítulo 8 Capítulo 9 Capítulo 10 Capítulo 11 Capítulo 12 Capítulo 13 Capítulo 14 Capítulo 15 Capítulo 16 Capítulo 17 Capítulo 18 Capítulo 19 Capítulo 20 Capítulo 21 Capítulo 22 Capítulo 23 Capítulo 24 Capítulo 25 Capítulo 26 Capítulo 27 Capítulo 28 Epílogo

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