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Para o meu maravilhoso marido, Daniel. Pelo canto do olho entrevejo qualquer coisa que começa por AMO-TE. Obrigada por me fazeres sentir possível, mesmo quando digo que sou impossível.


Primeiro acto


Capítulo 1 Vícios

Dixon – Não… consigo… deixar… de comer – diz Shamu, a Baleia, a ingerir o seu terceiro Twinkie numa dentada repugnante. Devia sentir-me horrorizado com o que a rapariga escandalosamente obesa faz à minha frente com a guloseima, é curioso mas não sinto. Só me consigo concentrar na maneira como a boca gorda e flácida devora o bolo dourado e esponjoso, e imaginar que é o meu membro que ela devora com sofreguidão, e não o maldito Twinkie. Agito-me na cadeira de couro e explico à minha pila que não é o momento de erguer a cabeça pecaminosa; estou aqui para ajudar Shamu, ou melhor, Sharon, a dominar o seu vício. Recorrendo à definição da sempre disponível Wikipédia, um vício é: «a repetição continuada de um comportamento apesar das suas consequências perniciosas, ou uma disfunção neurológica conducente a esse comportamento». Sendo assim, o que provoca um vício? O que faz que pessoas como Sharon se entreguem de maneira tão completa e absoluta a qualquer coisa a ponto de não conseguirem viver sem ela? Quero dizer que é ridículo que não nos seja possível parar com certos comportamentos, pois somos nós, e mais ninguém, que controlamos os nossos actos. Pode ser que se trate de um hábito. Mas os hábitos são opções, portanto devíamos poder acabar com eles se quiséssemos. Nesse caso, talvez se trate de recordações reprimidas que nos atormentam e que usamos como desculpa para nos drogarmos, embebedarmos, contrairmos doenças venéreas ou engordarmos, como no caso de Sharon. De uma maneira ou de outra, todos temos vícios, sejam grandes ou pequenos, e os seres humanos são entidades complexas que tanto os enfrentam como os varrem para debaixo do tapete e evitam falar neles. As pessoas que querem conversar sobre o assunto, seja qual for o seu vício, vêm falar comigo. Chamo-me Dixon Mathews, doutor Dixon Mathews, e por 500 dólares à hora qualquer um pode vir descarregar os seus segredos mais negros e profundos e sair do meu gabinete curado e renascido. A maioria só quer ouvir a confirmação de que não há nada de errado consigo e que as suas tendências anormais não constituem, afinal, nenhuma anormalidade. Os meus pacientes recebem-na de mim, um dos mais reputados psiquiatras de Nova Iorque, que a sua necessidade de comerem pêlo de gato ou de se masturbarem em público é normal. Asseguro-lhes que o meu tratamento lhes há-de curar os comportamentos neuróticos em poucas sessões e que podem voltar a integrar-se numa sociedade cujos membros em nada são mais sensatos


do que eles, e caminhar à vontade entre tarados de todas as espécies. A razão pela qual posso garantir isto é porque a maioria dos que me entram pela porta só quer choramingar e lamentar-se, e assim que se libertam do peso que trazem no peito conseguem ver a luz e acabam com as doidices. À minoria que sofre de problemas sérios, receito as sempre seguras benzodiazepinas para lhes tratar as loucuras, e o mundo agradece-me por ter criado mais um zombie associal devorador de pílulas. Podem dizer que sou um filho-da-puta, mas aos trinta e dois anos sinto–me um tanto cansado e indiferente às escórias da sociedade. E vocês também estariam, se fossem obrigados a ouvir as mesmas histórias, dia sim, dia não, dos ricos mimados que nunca tiveram de trabalhar duramente para ganhar a vida. E, no entanto, vêm até mim com histórias patéticas de agravos e injustiças, sem fazerem a mais pequena ideia da sorte que têm. Enquanto Sharon vai desfiando o rosário das desgraças da sua vida, volto a reflectir na minha pergunta original. Qual é a origem do vício? Muitos profissionais experientes afirmam que as causas do vício são as mais variadas, mas que em geral resultam de uma combinação de factores físicos, mentais, emocionais e circunstanciais. Mas eu sei que o vício tem a sua origem num único conceito, primitivo e simples. O desejo. Quer o desejo seja de êxito, de beleza, de comida, de álcool, de drogas, de nicotina ou de sexo pornográfico, o resultado final é sempre o mesmo: todos queremos experimentar a euforia que decorre desses factores, e é nisso que nos viciamos. O que desencadeia o vício varia de pessoa para pessoa, mas, no fim, todos queremos ser… felizes. E, na maioria dos casos, a satisfação do desejo conduz à felicidade. As pessoas cuja personalidade tende para o vício são capazes de o elevar a níveis arrepiantes, mas a maioria de nós apenas se entrega ao vício para alcançar essa euforia, a felicidade, porque somos humanos e ansiamos pelo proverbial «felizes para sempre». Já vos disse que sou bom. – Doutor Mathews – pergunta Sharon muito baixinho. – Não devia tomar apontamentos? Aceno com a cabeça e volto a pousar nela um olhar distante. – Pode contar-me mais alguma coisa acerca do seu pai? – pergunto, a arvorar um sorriso simpático. E 5, 4, 3, 2… e 1. Em cheio no alvo. O lábio gordo de Sharon começa a tremer e os seus olhos inundam-se de lágrimas. – Não há nada para dizer – afirma, a cruzar os braços sobre o peito avantajado, enquanto morde os lábios para sufocar as lágrimas. – Como descreve a sua relação com ele? – insisto, a cruzar a perna num gesto casual para disfarçar a erecção incipiente que as mamas dela me provocam. – É boa. Funga e fecha-se como uma ostra. Os cabelos ruivos e brilhantes encobrem-lhe as lágrimas.


Todos temos o nosso detonador, e já aprendi que nas mulheres com excesso de peso esse detonador é um pai ausente. Não consigo perceber a razão de recorrerem à comida como meio de conforto, mas é possível que a mania de comer preencha um vazio, e digo-o em sentido literal. Como já disse, podem chamar-me filho-da-puta, pois uma carga de merdas associada ao pai significa uma coisa: tentar encontrar a figura paternal perfeita para preencher esse espaço vazio e desprovido de amor. Estas mulheres procuram inconscientemente um companheiro e usam para isso a ideia que formam sobre o idiota do pai. Ou, em certas circunstâncias, o que procuram é… uma foda. De súbito, o meu membro fica muito, muito interessado em Sharon Witherstone. Sim, é verdade que deve ter uns vinte e cinco quilos a mais, mas na circunstância raciocino com a cabeça que tenho entre as pernas, pois como já disse todos temos o nosso detonador e, à semelhança de qualquer pessoa, também quero encontrar a minha felicidade. Neste momento, o cúmulo da minha satisfação reside em dobrar Sharon em cima da secretária e fodê-la até mais não poder. Posso ter um certificado que me habilita a resolver os problemas dos outros, mas não os meus, e sei que sou um caso perdido. Sou um idiota que todos os dias perde de vista quem é, e quem já fui. Contudo, não sou uma criatura desprezível e faço que mulheres como Sharon Witherstone se sintam bem, pois o sexo sem envolvimentos emocionais é mais fácil do que… sentir. Pouso o bloco sobre o braço do sofá, levanto-me, olho para Sharon, e dirijo-lhe um sorriso que sei que lhe desintegrará as cuecas em poucos segundos. Ergue os olhos, e apreendo um lampejo de confusão nos globos cor de esmeralda. No entanto, quando o seu olhar desce pelo meu corpo até ao membro intumescido, a confusão converte-se em… desejo. A sua pose altera-se e a garotinha do papá revela-se quando se agita na cadeira, a fazer avançar o peito num gesto audacioso. É demasiado fácil, mas prefiro a facilidade ao trabalho árduo de me entregar de alma e coração para mais tarde descobrir que a mulher que amo anda a dormir com o meu melhor amigo. Portanto, isto é fácil, muito mais fácil. – Ama o seu pai? – Não, odeio-o – confessa num murmúrio sedutor, enquanto morde o lábio. – Oh? Não se importa de me dizer porquê? Sento-me ao pé dela no sofá de couro, de modo a que os nossos joelhos fiquem separados por poucos centímetros. – Porque gosta mais da minha madrasta que de mim – responde, o olhar eivado de desejo focado no meu colo, onde a erecção é visível sob as calças largas. – Lamento ouvir isso – conforto-a ternamente, sem a mínima sinceridade. – Deve ser muito duro para si. – É sim. Muito duro mesmo. Diz que sim com a cabeça, e sinto um dedinho avançar-me sub-repticiamente pela coxa em direcção à virilha. Afasto as pernas num gesto de boas-vindas e pergunto: – Acha que é isso que lhe provoca o vício?


– Que posso eu dizer, doutor Mathews? Quando vejo uma coisa deliciosa à minha frente, não sou capaz de dizer que não – ronrona em voz rouca, a aflorar com os dedos a braguilha esticada. – Bem, por vezes é bom ceder à tentação. Já sei, vou parar ao inferno. A menina Whiterstone não precisa de mais nenhum incentivo para baixar a cabeça, enquanto os seus dedos se atarefam a correr o fecho da braguilha. Quando a boca quente e faminta me envolve o membro escaldante, fecho os olhos, enojado. Enojado comigo mesmo por me servir de alguém que faço tenção de voltar a ver. Mas nunca disse que era o herói desta história, nem que era um tipo decente. Quem quer ser bom se ser mau sabe tão bem?


Capítulo 2 A beleza interior

Dixon Ao estender a mão para o casaco pendurado nas costas altas da cadeira de cabedal preto, por pouco não dou um salto ao ver os papéis ligeiramente desalinhados na secretária. Vem-me à memória o rosto da menina Witherstone, empurrado contra o tampo enquanto a fodia por detrás, e corro para a porta antes que me dê vontade de vomitar. Ao fechar a porta, verifico que Susanna, a recepcionista, ainda não se foi embora. – Senhora Vale, já devia ter saído há horas – digo em tom de reprimenda, pois já são 7 h e 30 m. – Não faz mal. Leroy está fora, foi pescar com os amigos, não me importo de trabalhar até mais tarde – responde com um aceno de cabeça que lhe agita os cabelos grisalhos. Susanna Vale já se devia ter reformado há alguns anos, mas continua a dizer que não se sente preparada para arrumar as botas. Uma boa auxiliar não é fácil de encontrar, portanto não a contrario. – Por favor, não se esqueça de anotar as horas extraordinárias, para que Nancy lhas pague. – Oh, doutor Mathews – protesta com um gesto da mão enrugada –, não seja parvo. Que outra pessoa cuidaria de se certificar que o senhor sai a horas decentes? Dirijo-lhe um sorriso, porque é verdade. Por mais de uma vez Susanna me enxotou para casa a uma hora tardia, mas ir para casa fazer o quê? Regressei ao meu apartamento vazio de Manhattan, que me faz constantemente recordar dela. Mesmo decorridos doze meses, a sua presença, a sua essência, continua impregnada nas paredes. Sacudo as recordações pungentes e finjo-me descontraído, para não denunciar a nostalgia. – Se fosse dez anos mais nova… Termino a frase provocadora com uma piscadela de olho cúmplice. – É um animal. – Enxota-me porta fora. – Veja se come qualquer coisa… hoje não almoçou. Empalideço ao ouvir o comentário. No intervalo para almoço comi, e não foram só alimentos. Com esse pensamento abominável, despeço-me da minha assistente com um rápido «Boa noite» e apanho o elevador para o rés-do-chão. Tenho um encontro combinado com os meus dois melhores amigos, Finch e Hunter, num bar ao virar da esquina. Dantes éramos quatro, mas isso foi há uma eternidade, quando ainda acreditava na lealdade e no amor. – Ora cá está ele, o doutor Pinga-Amor acaba de entrar no edifício – grita Hunter do outro lado da sala quando me vê chegar. A voz sonora e irritante indica onde se encontra, mas não preciso, sei muito bem onde encontrálo, já que nunca sai do bar.


– Diabos me levem! – pragueja em voz alta, a semicerrar os olhos numa fresta. – Já hoje deste uma foda. Ergue o copo de Budweiser numa saudação, enquanto Finch ri à socapa. – E se berrasses um bocadinho mais alto? Os nossos vizinhos de Nova Jérsia não te devem ter ouvido. Aplico-lhe um «caldo» afectuoso na nuca. Sento-me ao lado de Finch e levanto a mão para chamar a atenção da loura bonitinha do outro lado do balcão. Pisca-me o olho enquanto prepara um cocktail. – Então, quem foi hoje a felizarda? – pergunta Finch, ao mesmo tempo que me desfere uma ligeira cotovelada nas costelas. – Já não me lembro. – Tiro-lhe a bebida e bebo um gole, que não me satisfaz. – Onde raio está o rum? Tusso, engasgado com a Coca-Cola aguada. Finch larga uma gargalhada enquanto faz rodar no dedo a aliança de casamento. – De manhã tenho de cuidar da Gabriella. Heidi tem uma porcaria qualquer no clube das mamãs, de maneira que estou de serviço à criança. Aceno. É o que fazem os pais responsáveis. Não saem para beber com o amigo solteiro e mulherengo que se quer embebedar para afogar as mágoas numa garrafa de Jack Daniel’s entalada entre as tetas de uma putéfia de bar. É isso que considero uma típica noite de sexta-feira, mas para Finch, que está casado há dois anos com Heidi, o amor da sua vida, a sexta-feira à noite é para tomar uma bebida sem álcool na companhia dos amigos antes de ir para casa para uma formidável noite de sexo. Estico o braço pela frente dele e saco a cerveja de Hunter. – Parece que estás feito em merda – observa Hunter, e embora lhe aprecie a sinceridade não estou com disposição para lhe dar troco. Hunter insiste, apesar do meu silêncio – Já lá vai um ano, meu. Levanta um dedo, para o caso de não o ter ouvido, mas ouvi-o muito bem. – Não me apetece falar nisso – respondo com uma sacudidela da cabeça, enquanto emborco o resto da cerveja roubada. – Só estamos preocupados contigo – diz Finch, a juntar-se à conversa, mas os seus olhos cinzentos adquirem uma expressão terna ao perceber que me fecho nas minhas emoções. – Estou bem – replico, a sentir que preciso de outra bebida. Procuro chamar a atenção da empregada do bar, mas o estabelecimento encheu-se de repente e ela tem de dar atenção a mais trinta clientes sequiosos. – Estás à espera que o caralho te caia de podre? – pergunta Hunter sem rodeios. – Desculpa? – pergunto, incapaz de evitar um sorriso provocado pelo tom melodramático. – Ouviste muito bem. Inclina-se para diante, e o corpo enorme invade o espaço do pequeno Finch.


– Não, Hunter, não quero que o caralho me caia de podre. Diz lá o que tens a dizer – respondo com um revirar de olhos. – Pois é o que te vai acontecer se continuares a fornicar todas as gajas que te aparecem. – Duvido – respondo em tom trocista, mas Finch acena com a cabeça, de acordo com Hunter. – As miúdas despem as cuecas assim que lhes fazes esses olhinhos azuis de bebé. É demasiado fácil, e estás a tornar-te o maior putanheiro de Nova Iorque – declara Hunter. De súbito, a sinceridade das suas palavras deixa-me irritado. – Desde quando resolveste armar em cona mole? – atiro-lhe, a semicerrar os olhos. – Dele, ainda podia esperar… – Faço um gesto com a cabeça na direcção de Finch. – Sem ofensa – acrescento, e Finch encolhe os ombros, indiferente. «Mas tu, meu – continuo, a dirigir-me a Hunter. – Da última vez que te vi não tinhas problema em foder qualquer gaja que te aparecesse. Portanto é melhor deixares-te dessas merdas de “sou mais santinho do que tu”. Estou a irritar-me depressa, mas ouvir conselhos de Hunter, que devia ser a última pessoa a repreender-me por causa dos meus engates, consegue tirar-me do sério. Conheço estes tipos quase desde sempre. Fizemos juntos tudo e mais alguma coisa. Lembro-me muito bem das merdas que fizemos, especialmente Hunter. Quanto a Finch, tem sido a nossa voz da razão. Salvou-nos de muitas situações que se podiam ter tornado desagradáveis se não fosse a sua sensatez. Mas Hunter sempre foi um aventureiro desregrado. Adoro estes dois idiotas como se fossem meus irmãos. Já viram o meu lado pior e nunca me censuraram, até hoje. – Qual é a razão para este interrogatório? – pergunto, um pouco mais calmo. Finch baixa os olhos, nervoso, e continuo sem perceber que raio se está a passar. Ao aperceber-se da minha confusão, Hunter esclarece: – Estamos preocupados, meu. Na próxima semana… sabes, não sabes? – Não, não sei. Chutaste para a veia? Desaperto o nó da gravata azul-marinho, que de repente me sufoca. Finch comprime os lábios finos numa linha estreita, o que nunca é bom sinal. – Deita cá para fora, Finch. – Daqui por duas semanas é dia 13 – diz por fim, a olhar-me nos olhos. – Ah, sim? E depois? – pergunto com um encolher de ombros espantado. – Oh, companheiro. – Suspira e percebo-lhe o tom piedoso. – Seria o dia do teu anivers… Cala-se de repente, sem vontade de acabar. Um ano? Que raio de merda. Há um ano estaria a casar-me com a mulher da minha vida, Lilian Davis. Só de me lembrar do nome dela apetece-me arrancar o cérebro com uma colher de gelado. Se acreditasse em almas gémeas, Lily era a minha. Conhecemo-nos há três anos, numa fila do Starbucks, e foi amor ao primeiro macchiato. Propus-lhe casamento algum tempo depois porque


éramos felizes e estávamos dispostos a dar o passo. Bem, pelo menos eu estava. E pensava que ela também, até ter conhecido o meu amigo Leo. Leo também cresceu comigo, Hunter e Finch em Nova Jérsia, e também se mudou para a grande cidade. Mas tornou-se evidente que Leo não atribuía à nossa amizade o mesmo valor que eu lhe dava, pois durante meses andou a foder com Lily nas minhas costas. Lily rompeu comigo seis semanas antes da data marcada para o casamento porque estava apaixonada por Leo. Não fui capaz de aceitar as palavras que lhe saíam dos lábios, mas quando me explicou a razão que estava na origem do seu recente aumento de peso, as suas palavras tornaramse tão claras como água. Não só estava apaixonada pelo meu melhor amigo como estava à espera de um filho dele. Sabia que não podia ser meu porque não tínhamos relações há mais de três meses. Já sei, já sei, devia ter detectado os sinais de aviso, mas o amor é cego, e essas tretas todas. Acusou-me de ser o causador da sua infidelidade, que nunca me via, que eu punha o trabalho em primeiro lugar. De facto, tinha posto o trabalho em primeiro lugar, mas só para pagar o diamante de três quilates que trazia no dedo e o luxuoso apartamento em Manhattan que insistira para eu comprar. Fiz tudo isso por ela. E agradeceu-me fodendo com o meu melhor amigo e carregando a sua semente. E assim, depois de ela me deixar, entreguei-me ao desregramento. Contudo, este estilo de vida deixou de ser apenas uma fase, e define aquilo que realmente sou. Viciei-me em relações sexuais desavergonhadas e indiferentes com esta e aquela, ciente de que, a um determinado nível, procuro substituir o rosto da mulher que me despedaçou o coração e deixou para trás os restos ensanguentados do homem que fui. No entanto, estes engates começam a tornar-se menos sedutores e receio que um dia possa acordar e não reconhecer a pessoa que vejo no espelho. E aqui têm a minha vida condensada em poucas linhas. Como, durmo, trabalho e fodo porque é o que tenho de fazer para sobreviver. Uma existência triste e miserável, mas sempre é melhor do que ser um cachorrinho a morrer de amores e a ganir atrás de uma mulher que se está borrifando para mim. Saltando para o presente, ergo os meus escudos e procuro mostrar-me indiferente. – Grande coisa. Deitei isso para trás das costas. Já não quero saber dela. Cava-se uma ruga na testa de Finch e Hunter tenta rebater as minhas palavras. – Não é verdade, meu. Se assim fosse, não teria problema em dizer-te que o sacana do Leo e a puta da Lily se casam para o mês que vem. – Por Deus, Hunter! – repreende-o Finch, a abanar a cabeça. – Porquê? Se já não quer saber dela, não faz mal que lhe diga – afirma Hunter com um encolher de ombros. A falta de tacto de Hunter não me incomoda nem um pouco, mas a informação, sim. – Ela vai casar com aquele imbecil? – pergunto enojado, e magoado, tenho de admitir. O que tem ele que eu não tivesse? Engulo o sentimento de derrota e repulsa. Preciso de espairecer para não explodir.


– Dixon… Na voz de Finch transparece a pena que sente, mas não quero compaixão de ninguém. Limpo a boca com as costas da mão depois de acabar a cerveja morna roubada e levanto-me, na esperança de que os meus amigos percebam que preciso de um minuto a sós. – Vou lá fora fumar um cigarro. Apalpo os bolsos, à procura do maço. Felizmente, os rapazes compreendem e não armam alarido enquanto abro caminho por entre a multidão de clientes. Quando chego ao passeio acendo um Marlboro e inalo o fumo de que tanto preciso, encostado à parede de tijolos. Mentiria com todos os dentes que tenho na boca se dissesse que nunca penso em Lily, pois tal acontece mais vezes do que estou disposto a reconhecer. Há muito tempo que desisti da ideia de uma reconciliação, mas no fundo desejava que a sua relação com Leo desse para o torto. A minha vida é uma desgraça e a única pessoa com quem podia falar disto já morreu. A minha mãe morreu há seis meses, vítima de um cancro na mama, e a sua perda deixou o meu pai de rastos. Sofreu uma depressão e está internado no Sunnyfields Hospital. Irónico, não é? Dixon Mathews, o melhor psiquiatra de Nova Iorque, nem consegue ajudar o pai. A fumar o cigarro, deixo-me arrastar para o passado, um lugar onde preferia não estar. De modo que, quando ouço à minha esquerda as vozes animadas de um casal, agradeço a distracção. Quando me viro para perceber a causa da agitação, vejo uma morena baixinha a ser maltratada por um tipo com ar de atleta que a puxa desabridamente por um braço. A miúda é mesmo pequena e as patorras do tipo ameaçam partir-lhe o braço. – Larga-me – grita, a tentar libertar-se. Merece uns pontos por tentar, e parece disposta a não se deixar levar sem luta. Mas o idiota pesa pelo menos mais cinquenta quilos do que ela. Atiro a beata para valeta e resolvo intervir, uma vez que é evidente que a miúda se quer ver livre dele. Os seus olhos verdes fitam-me ansiosos quando me aproximo, num pedido silencioso de auxílio. – E se deixasse a miúda ir embora? – pergunto em voz firme. O animal vira-se para mim com um sorriso arrogante. – E se metesses o nariz na tua vida, velhote? – responde com uma acentuada pronúncia sulista. Velhote? Olha-me o imbecil do adolescente! – Talvez seja melhor ver como fala. Largue o braço da senhora. – Se não…? – pergunta em tom de desafio, mas abranda o aperto no braço. – Senão chamo a polícia, já que aquelas marcas nos braços – e aponto para o bíceps dela, que ele acaba de largar – são um indício claro de que você é uma criatura desprezível que gosta de bater em mulheres para se sentir homem. Qual é o problema? – prossigo com desprezo. – A armar em duro para compensar o que lhe falta? Levanto o dedo mínimo.


A miúda solta uma risada, que de imediato abafa com a mão aberta quando o parvalhão se volta para ela. – Ouça, lá, pode tomar uns comprimidos para se acalmar e para remediar o seu pequeno problema – digo em tom sarcástico, a apontar-lhe para as virilhas. O sangue sobe-lhe à cara e não consigo evitar uma gargalhada, pois pôr em causa a masculinidade de um tipo resulta sempre. Percebo que me avalia e percebe que comigo não tem hipótese. O tipo é grande, mas está encharcado em esteróides e aqueles músculos cheios de ar não aguentam um murro bem aplicado. – Por que não faz um favor ao mundo e desanda daqui? Vá dar vazão a essa fúria a bater uma com uma pinça enquanto olha para uma foto da mãezinha. Desta vez a rapariga não consegue conter o riso e o som produz um efeito mágico. – Vá-se foder – rosna o imbecil, que se afasta em passo apressado quando percebe que não pode levar a melhor contra mim. Ficamos a olhá-lo até virar a esquina, e quando tenho a certeza de que não volta, viro-me para olhar a mulher que tenho à minha frente. Durante a minha tirada, não reparei que tem estilo de raposa. Jovem, não deve ter mais de vinte e três, mas linda, caraças! Os grandes olhos verdes complementam uma cabeça de longos cabelos castanhos que lhe descem até um pouco abaixo dos ombros. Os lábios cheios são do mais belo corde-rosa que já vi, e quando a boca esboça um sorriso tímido percebo que a estou a fitar como um velho tarado. Recomponho-me depressa e pergunto: – Sente-se bem? – e faço menção de lhe examinar o braço. Leva os dedos pequenos ao bíceps esquerdo, como se tentasse esconder os vergões vermelhos. – Est… estou bem – gagueja, pouco convincente, mas recupera depressa. – Estou bem. Obrigada por me ter socorrido. – Não há problema. Sinto-me hipnotizado pelos dentes muito regulares com que repuxa o lábio inferior, pois não lhe é possível fazer aquilo de propósito. Não se está a bater a mim, nem a tentar ver o que tenho dentro das calças e, honestamente, é uma lufada de ar puro. É uma rapariga sensual e inocente sem segundas intenções e sem expectativas quanto até onde nos pode levar o nosso encontro fortuito mas electrizante. Já me tinha esquecido do aspecto da inocência, é mesmo triste, não é? – Chamo-me Madison – apresenta-se, a estender-me a mão, que desaparece dentro da manápula que a agarra. – Dixon – respondo com um sorriso sincero. – Costuma salvar donzelas em perigo? – Que quer que lhe diga, é um hábito meu – respondo com um encolher de ombros, e Madison solta uma gargalhada. – Bem, Dixon, uma vez mais obrigada por ter vindo em meu auxílio. Aceno com a cabeça e permito que retire a mão, que continuava a sacudir como um idiota.


– Sempre que precisar. Tem a certeza de que está bem? – pergunto ao reparar que um ligeiro arrepio lhe sacode o corpo. – Estou bem. A sério. Ele ladra mais do que morde. Noto que não se alonga em explicações sobre a identidade do agressor. Apetece-me continuar a conversar, mas pela primeira vez o psiquiatra de falinhas doces ficou sem palavras. Porque receio que Madison veja quem de facto sou e que perceba que não passo de uma fraude. – Maddy, onde estás? – pergunta atrás de nós uma voz preocupada. Viramo-nos e sinto a necessidade repentina de proteger os tomates com a mão ao ver uma cabeça ruiva interpor-se bruscamente no nosso caminho. Lança-me um olhar de poucos amigos antes de se fixar em Madison. – Estás bem? Responde que sim com um movimento da cabeça. – Estou bem – repete, e dirige-me um sorriso ao estender a mão para me apresentar. – É o Dixon. A amiga olha para mim sem disfarçar que me está a avaliar. – Onde se meteu aquele palhaço de merda? – pergunta, a ignorar-me, e eu sorrio, pois agrada-me o seu sentido de humor. Madison puxa uma madeixa de cabelos para trás das orelhas e franze a testa. – Foi-se embora. Dixon salvou o dia – esclarece, e dirige-me um sorriso tímido. A amiga volta a olhar para mim, mas já não como quem me quer esfolar vivo. – Sendo assim, prazer em conhecê-lo, Dixon – e acena-me com a mão. – Igualmente. Não foi nada. Só estava no lugar certo à hora certa. Ou à hora errada. Quanto mais olho para Madison mais intrigado fico. O que se está a passar comigo? – Seja como for, obrigada por ter protegido a minha amiga. Respondo-lhe com uma ligeira inclinação de cabeça, e o seu instinto protector em relação a Madison faz-me lembrar Hunter e Finch. Sem dúvida que Madison é alguém que merece ser protegido. Quero dizer, ter alguém que cuide ela. Não consigo evitar olhá-la, e é com surpresa que vejo que me retribui os olhares furtivos. A amiga deve ter percebido a nossa troca de olhares, pois pigarreia para aclarar a garganta e declara numa oitava acima do necessário: – Bem, é melhor voltarmos para dentro. Os nossos amigos devem estar à nossa espera – explica, a arrancar-me àquela espécie de transe. Não sejas parvo, Dixon, fala com ela. Mas digo o quê? Há muito tempo que não tenho uma conversa decente com uma rapariga, especialmente com uma com quem tenha vontade de falar. Já não sei como comunicar com o sexo oposto; «mais depressa» e «fode-me com força» não contam. Portanto, fico calado como um cobarde e sorrio. – Bem, foi agradável conhecê-lo – diz Madison, a morder o lábio e sem se mexer. – Também gostei. Tenha cuidado. Abafo um grunhido. Que raio, quem diz «tem cuidado», além dos pais? Abro a boca, pronto para uma reacção menos convencional, mas já Madison é arrastada para a entrada pela amiga.


De repente, volta-se e grita por cima do ombro. – Trabalho no Pony Bar. Se passar por perto, vá fazer-me uma visita. E desaparece, sem me dar tempo a responder. Mas que diabo foi aquilo? Madison deixou-me especado no passeio, a questionar-me sobre a minha masculinidade. Como um pateta, deixo escapar a única rapariga de quem de facto gostei. Preciso de voltar lá para dentro e falar com ela. Preciso que ela entenda a que ponto sou um tipo fantástico. Mas é aí que reside o problema: não sou um tipo fantástico. Esta semana fodi quatro gajas diferentes, e na maioria dos casos nem me lembro do nome delas. Nem da cara. São imagens confusas. Amalgamadas e revoltantes que gostaria de erradicar do meu espírito, mas que não consigo afastar. Miúdas como Madison são boas de mais para tipos como eu, e ao manter-me à distância estou a fazer-lhe um favor. No entanto, experimentem dizer isso ao meu membro atento, que se interessou por Madison assim que ela abriu a boca. A tipa é linda de morrer, mas o que me atrai nela é o facto de não a ver como uma conquista. Não me sentia assim desde… Lily. Fui de novo invadido pelas recordações de Lily e pela razão que me tinha levado a vir cá fora. – Olá, jeitoso – ronrona uma voz, a transportar-me de regresso ao presente. Levanto os olhos e vejo a poucos centímetros a empregada loura do bar. – Olá – respondo precipitadamente quando percebo que espera uma reacção da minha parte. – Vi-o lá dentro. Faz um gesto com a cabeça na direcção do bar enquanto me examina. Sei que não sou feio, e que se fosse uma gaja também havia de querer foder-me. Sempre fui alto, mas deixei de crescer quando atingi um metro e noventa. O cabelo escuro é revolto e penteado à «foda-se», como lhe chamou uma gaja que estava a foder comigo; quanto aos meus olhos azuis, são o complemento da minha característica mancha da barba por fazer, devido à preguiça. – Ah, sim? – pergunto, sem querer acreditar em tanta facilidade. – Pois foi – confirma com um aceno de cabeça e a morder o lábio brilhante de batom. – Posso cravar-lhe um cigarro? – Com certeza. Levo a mão ao bolso e estendo-lhe um. Entala o Marlboro nos lábios e fica à espera que lhe dê lume. Procuro não me retrair quando se inclina para a frente, a esticar os beiços como um peixe enquanto lhe acendo o cigarro. A minha líbido excitada diz ao meu cérebro estúpido que esta louraça de cabeça oca é o que preciso para esquecer o meu encontro com a beldade de cabelos castanhos. São duas figuras opostas, e é isso que me faz falta. É o que sei fazer melhor. – Então, querida? Quanto tempo tens de intervalo? Bate as pestanas falsas e sorri. – Quinze minutos. Inclino-me sobre ela e sussurro: – Posso fazer com que sejam os melhores quinze minutos da tua vida.


E ĂŠ tudo o que tenho de dizer para ela atirar o cigarro para o chĂŁo com um sorriso astuto. Pegame pela dobra do colarinho, faz-me dobrar a esquina e eu cumpro a promessa. Podem ser os melhores quinze minutos da vida dela, mas sĂŁo os piores quinze minutos da minha.


Capítulo 3 O anjo do pecado

Dixon Ninguém gosta da segunda-feira, em especial após um fim-de-semana miserável. Depois de me masturbar por duas vezes debaixo do chuveiro, seria de esperar que o meu estado de espírito melhorasse. O meu fim-de-semana foi invulgar. Depois de «fazer» a loura na sexta-feira à noite, fui para casa sozinho, o que não é uma novidade, e o mais estranho é que me senti desapontado. A minha regra de ouro é nunca levar ninguém para casa. A minha casa é o meu refúgio, o único lugar onde posso ser quem sou e recuso-me a conspurcar essa pureza com as putéfias que engato. Além disso, continuo a vê-la como nossa. A memória de Lily continua entranhada em todas as fendas da casa e não me atrevo a macular as recordações felizes que outrora partilhámos. Contudo, na sexta-feira à noite dei por mim a pensar como seria se trouxesse uma miúda para casa e a comesse na minha cama, em alternativa a fodê-la contra uma parede de tijolo. Sou psiquiatra, portanto sei como funciona a mente humana, pelo menos na maioria dos casos. A minha necessidade de conforto foi desencadeada pela adorável Madison. A sua inocência tocou-me uma corda sensível, e há muito tempo que não me sentia assim. Por breve que tenha sido o nosso encontro, houve ali qualquer coisa. É pena que me tenha faltado a coragem para descobrir o que era. Senti-me enojado depois do servicinho com a loura, e o mesmo durante todo o fim-de-semana. Conservei o nariz longe das virilhas das miúdas. Foi uma monotonia sob todos os aspectos, mas sinto-me despoluído depois de uma abstinência sexual de dois dias. É muito tempo para alguém que usa o sexo como um escudo protector. – Doutor Mathews, a cliente do meio-dia e meia já chegou – anuncia a senhora Vale através do intercomunicador. A voz cantarolada arranca-me aos meus devaneios e limpo a garganta antes de responder. – Mande-a entrar. Pego na folha que contém as informações sobre a nova cliente e começo a introduzir no computador os dados da senhora Juliet Harte. Idade: 26 Sexo: feminino Morada: 18 Union Square West, Nova Iorque Problema: viciada em sexo


Eh, pá! – Doutor Mathews? – pergunta uma voz macia como veludo que me faz erguer o membro numa saudação respeitosa. Ergo os olhos do ecrã e percebo que a senhora Juliet Harte é a perfeição acabada envolta em puro pecado. Os longos cabelos louros estão apanhados ao alto, e as madeixas rebeldes que pendem em redor do rosto clamam por atenção aos olhos azuis que gritam «fode-me». Tem os lábios mais sexy que já vi, cobertos de batom brilhante e transparente, e as imagens do que esses lábios me podem fazer obrigam-me a ajeitar discretamente a posição na cadeira. O meu celibato recém-conquistado acaba de me enfiar o nariz entre os seios perfeitos de Juliet. No entanto, arvoro uma expressão impenetrável, e com um sorriso convido-a a sentar-se à frente da secretária. – Sente-se, se faz favor. Aceita o convite e saltita até à cadeira, onde se senta elegantemente, não sem antes alisar o vestido liso de cor creme. – Boa tarde, senhora Harte – cumprimento-a com uma ligeira inclinação da cabeça, a deixar de lado os formalismos. – Boa tarde, doutor Mathews – responde, a fixar-me insistente. Não detecto medo nem apreensão no olhar firme e decidido, e a sua autoconfiança parece indiscutível. Mas tenho um trabalho a fazer. – Hoje, vamos sobretudo ouvir o que tem para me dizer. Pense nisto como uma sessão de apresentação. Para que a possa avaliar, preciso que confie em mim. Não estou aqui para julgar ou censurar os seus pensamentos. Por muito perversos ou impróprios que sejam, impõe-se que seja sincera comigo. Acha que consegue fazer isso? – pergunto com um sorriso. Juliet acena com a cabeça, a dizer que sim. – Sim, quero melhorar. Farei tudo o que for necessário. – Muito bem – concordo. – E que tal sentarmo-nos no sofá, onde estaremos ambos mais confortáveis? A boca de Juliet contrai-se num sorriso reprimido, mas ignoro-a, agarro no bloco e dirijo-me para o sofá reclinado de cabedal. Olho de relance para o relógio pousado sobre a lareira, e pergunto-me como irei aguentar uma hora de terapia com aquela raposa a falar de vício sexual sem lhe arrancar a roupa do corpo. Tusso para aclarar a garganta e desvio o olhar quando se senta no sofá de couro preto. Ao cruzar devagar as pernas compridas, assaltam-me ao cérebro imagens dos saltos altos de agulha a espetarem-se-me no traseiro enquanto a fodo contra a parede do escritório e mal consigo disfarçar um gemido perante a visão erótica. – Então, o que a traz por cá, senhora Harte? Juliet muda de posição no sofá, e o cabedal range sob o traseiro pecaminoso ao responder: – Tenho um problema. Aceno com a cabeça, a encorajá-la a falar. – Creio que se lhe pode chamar um vício.


Faz uma pausa e baixa os olhos. Aguardo que continue e faço o melhor que posso para me manter profissional. Quando os seus olhos se cruzam com os meus, sussurra em voz rouca: – Sou viciada… em sexo. Aquelas palavras esplendorosas saídas da boca dela são aquilo que qualquer macho americano de sangue quente anseia por ouvir, mas é com uma expressão indiferente que pergunto: – Desde quando se sente assim? – Já há algum tempo. – Quanto, mais ou menos? – insisto, a pousar a caneta sobre o bloco. – Vai para dois anos. Não perde a compostura enquanto vou anotando os seus segredos. – Gostaria de falar sobre a sua vida privada, senhora Harte. Importa-se? Acena com a cabeça, a concordar. – Aconteceu alguma coisa por essa altura? Qualquer coisa que possa ter desencadeado essa alteração de comportamento? Vejo que reflecte sobre a pergunta. – Bem, houve uma coisa – e permaneço impassível, a permitir-lhe que prossiga. – Foi a primeira vez que tive uma relação sexual com uma rapariga. Quer dizer que sou bissexual? Ou lésbica? – pergunta, curiosa. – Não gosto de categorizar sexualmente as pessoas, senhora Harte – respondo, a pressionar o bloco contra a erecção em curso. – Qual foi a sua sensação ao estar com outra mulher? – Gostei. Imenso – confessa. – Há coisas que os homens não conseguem fazer no quarto. – Por exemplo? – Estar com outra mulher, é meigo e familiar. Proporciona uma suavidade e um conforto que em geral os homens não conseguem oferecer. A maneira como uma mulher toca o corpo de outra, a explorar a doçura das curvas e a macieza dos planos, é de facto muito bela. O contacto de um homem é áspero e violento. Um homem come-nos de uma maneira diferente de uma mulher. Anseia por devorar, enquanto nós, mulheres, saboreamos devagar, sem pressas – explica, a humedecer os lábios com a língua cor-de-rosa. Se a minha erecção endurecer mais, sou capaz de pregar pregos na parede. Tenho de orientar a conversa noutro sentido antes de me ver obrigado a mostrar-lhe que nem todos os homens são bárbaros e que também gostamos de saborear calmamente as nossas refeições. – Além desse episódio, aconteceu mais alguma coisa? Como é a sua vida em família? No trabalho? Vida social? A compostura de Juliet não se altera, e apressa-se a responder: – Tudo bem. Vivo sozinha num apartamento que o papá me comprou. O meu pai faz investimentos bancários, e estamos bem na vida. A minha mãe morreu quando eu tinha sete anos, pouco ou nada me recordo dela. O papá voltou a casar, com a Rachel, que cuidou de mim como se fosse sua filha. Tem dois filhos, que são excelentes pessoas. – Mais velhos? Mais novos? Como é o seu relacionamento com eles?


– Um é mais velho, a outra é mais nova e gosto… gosto muito dos dois. Não me escapa uma ligeira apreensão na voz dela. – Trabalha? – pergunto, enquanto anoto a existência de irmãos adoptivos como uma causa possível para o vício. – Trabalho para uma firma de advogados. Sou apenas empregada de escritório, tenho a meu cargo a manutenção dos ficheiros, mas na verdade nem preciso de trabalhar, o papá sustenta-me. Aceno, um tanto perturbado por ouvir uma mulher de vinte e seis anos referir-se ao pai como papá. Escrevo que uma causa possível para os seus problemas pode ser o facto de ter sido abusada sexualmente em criança. A maioria dos viciados em sexo refere-se aos pais como rígidos, distantes e pouco afectuosos. No caso de Juliet, o caso parece ser o oposto. Tomo nota para voltar mais tarde a este aspecto. – E quanto a vida social? Fuma? Bebe? Toma drogas? Juliet sorri e endireita-se no assento. – A resposta é sim para tudo. Juliet Harte mostra-se mais complexa a cada minuto que passa. – Que espécie de drogas toma? Receitadas ou ilícitas? – Sobretudo ilícitas – declara em tom calmo. – Gosto de ácido, ecstasy e cocaína. Mas que porra, esta mulher é um poço de problemas. Quanto mais se alonga na confissão dos seus pecados maior é o desejo que sinto por ela. – Isso é uma mistura dos diabos. Quando começou? Ignora a minha pergunta e descruza as pernas com uma lentidão estudada. Entrevejo o quase inexistente triângulo de tecido que mal lhe cobre a rata, mas mantenho a compostura profissional para não estragar tudo. Se me deixar arrastar pelo desejo crescente, sei que nunca mais voltarei a ver Juliet Harte, e depois desta introdução, quero mais. – Já experimentou foder com ácido no bucho, doutor Mathews? Fita-me com atenção, a avaliar a minha reacção à pergunta descarada. – Não estamos a falar de mim, senhora Harte. Estamos a falar de si e dos seus sentimentos. Quer contar-me como se sentiu ao ter uma relação sexual enquanto estava drogada? – pergunto com frieza, a erguer uma sobrancelha arrogante. Já ando nisto há muito, muito tempo, e é preciso mais do que um rabinho excitante e uma boca desbragada para me levar. A dama está a pôr-me à prova e parece muito mais esperta do que eu julgava. Tenho de me pôr à tabela com esta femme fatale. – Não foi igual a nada que já tivesse experimentado. A pele ardia-me como fogo e os meus sentidos estavam tão apurados que conseguia prever os movimentos dos meus parceiros. Cada toque dos dedos, cada palmada, cada lambidela, impulso, cócega, tudo se amplificava, multiplicado por dez, e nunca senti prazer tão intenso – diz ela, de pupilas dilatadas, sem dúvida a recordar os pormenores do seu ménage à trois, pois não me escapou a alusão intencional a «parceiros». – Portanto, gosta de sexo? O meu cérebro, estimulado ao extremo, implora-me que acabe com aquela tortura. Diz que sim com a cabeça e os seus olhos cravam-se nas minhas virilhas.


– Adoro. – O que aprecia no sexo? Além do prazer físico, quero dizer? Sorri antes de responder: – Aprecio o poder. Perpassa-me pela cabeça a minha imagem, algemado a uma cama, a tratar Juliet Harte por «minha senhora», e concluo que aquela mulher é capaz de fazer mal à saúde de qualquer homem. Juliet Harte é uma taradinha do sexo, e mal posso esperar para ver o que a faz chegar aos píncaros. Uma hora mais tarde, estou sentado na minha cadeira, teso e quase a vir-me nas cuecas. Juliet Harte está na casa de banho, a refrescar-se, pois a nossa sessão foi bastante intensa e quase a levei às lágrimas. Não consegui perceber se eram verdadeiras ou fingidas, o que me irrita bastante. A mulher é uma anomalia, uma variedade estranha, quase estimulante, já que a maioria das mulheres não me dá que pensar. Esta, sim. – Então, para a semana, à mesma hora? – pergunta ao sair da casa de banho, a arrancar-me aos meus devaneios. Levanto os olhos e vejo que aplicou um tipo de batom vermelho-brilhante, que contrasta com os cabelos claros. Aceno com a cabeça num gesto casual e finjo escrever no computador, reclinado na cadeira, numa atitude informal. – Sim, pode ser. Por favor marque a sessão com a senhora Vale. A resposta seca é uma despedida silenciosa, que ela não tem dificuldade em compreender. – Muito obrigada por hoje, doutor Mathews. Sinto-me… melhor. Desconfio que «melhor» não era a palavra que queria utilizar. – Até para a semana, senhora Harte – respondo com um sorriso. – Então até lá. Acena com a cabeça e enquanto sai do gabinete fico a olhar-lhe para o traseiro pequeno e bemfeito. No momento em que a porta se fecha, deixo escapar um suspiro de alívio e abandono a compostura profissional. Aquilo foi muitíssimo intenso e a prova disso está no meu pau erecto. Se fosse um tipo esperto, mandaria Susanna cancelar as consultas posteriores com a senhora Harte e encaminhá-la-ia para outro médico. Mas nunca disse que era esperto. Na escola, sim. Mas no que respeita a sexo, porra, não sou mesmo. Nunca tinha encontrado uma mulher tão agressiva sexualmente, e sou homem para dizer que Juliet Harte mexe comigo a ponto de me assustar. Não faço a menor ideia de como abordar este assunto, pois parece existir entre nós uma faísca sexual invisível. Sei que parece um disparate, considerando que ela admite ser viciada em sexo. Contudo, há nela mais qualquer coisa que me intriga e me incita à descoberta. Baixo os olhos e suspiro. Aquela erecção não vai a lado nenhum. Resolvido a masturbar-me antes da próxima consulta, fecho a porta e dirijo-me à minha casa de banho privativa. Assim que acendo


a luz, o seu perfume assalta-me as narinas e deixo-me ficar um momento a inebriar-me com ele. A fragrância floral nada faz para mitigar a minha provação e desaperto rapidamente o botão das calças para dar início ao serviço. No entanto, a minha mão imobiliza-se quando olho para o espelho pendurado sobre o lavatório. Escrito em batom vermelho-brilhante está um número de telefone, e não é difícil adivinhar de quem seja. Por baixo do número, as marcas inconfundíveis de uns lábios, a tentarem-me num expressivo convite sexual. A maneira encontrada pela senhora Harte para me convidar a telefonarlhe, uma vez que o número já fazia parte da sua ficha de cliente. Porra, estou fodido. Rendo-me. Corro o fecho, meto a mão dentro das cuecas e em poucos minutos encontro alívio. Quem diria que uma inocente marca de batom era capaz de desencadear um orgasmo tão violento? Mas quando se trata de Juliet Harte, não há nada que seja inocente.


Capítulo 4 Um nó cego

Dixon Esta semana tem sido um verdadeiro desastre. Assim, quando chegam as seis da tarde de sextafeira já estou à porta a dizer sayonnara àquela semana infernal. Vou encontrar-me com Hunter e os pais dele, Marie e Ralph, que vieram à cidade passar o fimde-semana. Entro no popular restaurante de grelhados e vejo-os num reservado, ao canto da sala. Hunter fazme um aceno rápido e dirijo-me para eles, esquivando-me de uma empregada que me dirige um sorriso de derreter as pedras da calçada. Depois de uma semana a masturbar-me sem satisfação, resolvi ficar longe das mulheres; neste momento duas já são de mais para mim. Nem devia pensar em Juliet Harte, já que é incorrecto sob todos os aspectos, incorrecto ao ponto de me mandar para o inferno. É verdade que já forniquei algumas clientes, o que sei que é ética, moral e profissionalmente errado. Mas não eram clientes a sério; nunca tinham precisado da minha ajuda. No entanto, Juliet tem problemas, e o médico que há em mim quer ajudá-la. Todavia, o macho entesoado que também há em mim só está interessado em fodê-la seis dias por semana. Expulso estes pensamentos pouco próprios e quando chego ao reservado cumprimento Marie com dois beijos e um abraço caloroso. – Olá, Dixon. Adoro o teu cabelo – diz em tom de brincadeira, a enfiar os dedos entre as minhas madeixas desgrenhadas. Neste momento, os meus cabelos assemelham-se a um ninho de pássaros, depois de ter passado uma semana inteira a puxá-los, de frustração. – Prazer em vê-lo, Ralph – digo, de mão estendida. – A ti também, rapaz – responde, a corresponder ao aperto. Sentamo-nos e arranco a lista das mãos de Hunter, que me empurra com o ombro num gesto de camaradagem. – Então, como estava o trânsito? – pergunto enquanto examino a lista sem entusiasmo. A fome que sinto não se satisfaz com comida. – Horrível, como é costume. Do nosso lado do rio é muito melhor. Endereço um sorriso a Marie. Será sempre leal a Nova Jérsia. – Pareces cansado, Dixon. Sentes-te bem? Estica-se por cima da mesa para me apalpar a testa.


Por norma, rejeito sempre essas carícias maternais, mas trata-se de Marie e estou habituado a que me trate como a um filho. – Pois é, Dixon. Tens falta de cor. Está tudo bem contigo? – pergunta Hunter no gozo, a olhar-me para o colo. – Continua tudo no seu lugar? Reviro os olhos e não dou troco à idiotice. – Estou bem, Marie. Neste momento, o trabalho é uma loucura. – Há muitos malucos por aí, é o que é – comenta inocentemente Ralph, a beber um gole de chá gelado. – Ralph! – diz Marie, que lhe lança um olhar de reprimenda. – O que foi? – pergunta, a encolher os ombros. Marie olha para mim e percebo que tenta um jogo de charadas faciais, já que um dos doidos é o meu pai. – Não faz mal, Marie – digo, e desvalorizo o assunto com um gesto. Não vejo o meu pai desde o dia em que o internei, já lá vão perto de quatro meses. Não tolero a visão de um homem saudável e pujante transformado numa simples concha do que já foi. Podem dizer que sou um estupor, mas prefiro recordar-me do meu pai feliz e de boa saúde, não do zombie clínico em que se tornou. Marie deve ter-me lido o pensamento, pois diz em tom carinhoso: – Vi o teu pai na semana passada. Pareceu-me bastante melhor. Melhor? Melhor do que quê? Melhor do que a criatura inerte que se babava quando o internei? Detesto dizê-lo a Marie, mas no caso dele a única coisa «melhor» é a morte. Aceno com a cabeça e procuro ocultar a emoção, pois não quero magoá-la. – Ainda bem. Tenho pensado em ir vê-lo… mas ando cheio de trabalho – concluo em tom pouco convincente. – Compreendo – diz ela, e sorri. Limpo a garganta e proponho: – Pode dizer-lhe o que eu disse, está bem? Da próxima vez que o vir? – Com certeza. Claro que digo. Podias ao menos fazer um telefonema, não? Acho que ele havia de gostar – sugere com delicadeza. A empregada interrompe a conversa embaraçosa e não tenho mais de me justificar por ser um mau filho. A noite ainda é uma criança, de modo que resolvemos passear em Central Park. Ralph e Marie chegam-se à banca de um vendedor ambulante para comprar biscoitos salgados e Hunter aproveita para me puxar para o lado. – O que se passa contigo? – Podes ser um pouco mais concreto? – respondo, enquanto passo em revista os e-mails no telemóvel.


– Não andas a comer miúdas. A atrevida da empregada ofereceu-te as mamas de bandeja e mal deste por isso. O que se passa, companheiro? Estou preocupado. Não deixaste La Vida Loca, pois não? – pergunta muito sério. Disfarço uma gargalhada. Hunter nunca foi subtil com as palavras. – Da primeira vez – respondo com um dedo levantado – chamaste-me mulherengo. Agora – levanto outro dedo – pões em causa a minha sexualidade. Hunter, a tua imaginação fértil não deixa de me espantar. Talvez tenhas errado a profissão. Ouvi dizer que a Walt Disney está a contratar – concluo com um sorriso. – Podes gozar à vontade, mas sei que anda qualquer coisa no ar. Portanto, deita cá para fora. Suspiro, passo a mão pelos cabelos desgrenhados e reconheço que a única maneira de o calar é contar-lhe a verdade. – Conheci uma miúda no trabalho. De facto, foram duas – corrijo. – Sabes que o teu gabinete de trabalho não é um bordel, não sabes? – Engraçadinho! A miúda número um, Madison, conheci-a na sexta-feira à noite – explico-lhe, incapaz de disfarçar uma certa ternura na voz. – Pensei que fosse uma tipa que andava ao engate. Arvoro uma expressão nauseada quando percebo que está a falar da loura. – Não é essa. Só a fodi para não pensar mais em Madison. – Mas não resultou, pois não? – pergunta com um sorriso canalha. – Adivinhaste. A miúda é incrivelmente… doce. – E a número dois? – pergunta, de braços cruzados sobre o peito. – A número dois é o oposto absoluto de Madison. Para já, conheci-a em trabalho – suspiro. – Oh, oh – insiste Hunter, mas mando-o calar com um gesto. Felizmente, obedece. – É uma cliente, e antes que comeces o interrogatório esclareço já que não lhe fiz nada. De lábios cerrados, Hunter acena com a cabeça. – É um sarilho dos diabos, meu, sei que é, mas não consigo parar de pensar nela. Escreveu o número de telefone com batom no espelho da minha casa de banho – digo por fim. – Ela o quê? – pergunta Hunter, incrédulo. – Não pode ser! – Pode, sim – insisto, pois é verdade. – Então consulta-te para quê? – pergunta, sem respeito pela confidencialidade da relação médico/doente. – Não te posso dizer. É entre mim e ela. – Uma ova! Se estás a pensar em dar-lhe uma queca, a regra não se aplica. Tem razão, de modo que respondo com timidez. – É viciada em sexo. Hunter escancara a boca de espanto. Sacode a cabeça e espeta-me um dedo no peito. – Tens de ficar longe dessa ninfomaníaca, Dix. Com a tua tendência para fornicar mulheres e a líbido descontrolada dela, acabam por se foder até à morte. Isto para não te lembrar que é tua doente, doutor Mathews.


– Eu sei, eu sei. Tens razão. Mas a mulher intriga-me, Hunt. – O que te intriga é o facto de ela querer foder tudo o que vê – responde com um sorriso matreiro. – Não é isso. Não tem nada a ver com sexo. Ergue a sobrancelha, incrédulo. – Pronto, também tem um pouco a ver com sexo. Mas há nela qualquer coisa mais. Para mim e para ela, aliás. Não me interesso por nenhuma miúda desde… Não completo a frase, pois além de não querer não é preciso. Hunter passa a mão pela cara e expira. – Escuta, mano, essa ninfomaníaca cheira-me a sarilho. Se fosse eu, indicava-lhe outro médico e esquecia-me da gaja. Cheira-me a coisa pegajosa. Em todos os sentidos, meu. Vencido e também desapontado, digo que sim com a cabeça. Não quero acreditar que haja qualquer verdade no que diz, mas há. Tenho de parar com isto antes que fique fora de controlo. – Tens razão, é isso que vou fazer – confirmo. – Tratá-la não é bom para nenhum dos dois. – Lindo menino – responde, a socar-me ao de leve num braço. – Não tardas a esquecer-te dessa tarada sexual. – Doutor Mathews – diz uma voz atrás de nós. Viramo-nos e damos de caras com Juliet Harte. A recordação que tinha dela não lhe fazia justiça, e com aquele fato de treino muito justo, reelaboro as minhas memórias, que tenciono revisitar logo à noite. – Senhora Harte – respondo, a tentar mostrar-me calmo enquanto lhe observo os contornos sedutores sob a camisola branca muito justa. Hunter pigarreia ruidosamente, a perturbar-me a contemplação, e eu suspiro. – Hunter, apresento-te a senhora Harte. Senhora Harte, Hunter – digo a gesticular na direcção de um e do outro. – Por favor, trate-me por Juliet – diz ela com um sorriso. – Com certeza. Depois, o silêncio. – Muito prazer em conhecê-la, Juliet – diz Hunter, a salvar-me o couro, pois fiquei sem saber o que dizer. – Oh, Romeu, Romeu, onde estás, Romeu? – prossegue ele em tom cómico e a levar a mão ao coração num gesto dramático. Juliet ri e eu abano a cabeça perante tamanha estupidez. Por sorte, o chihuahua de Juliet começa a ganir e quebra o silêncio. Juliet suspira. – Tenho de ir andando. Marcia fica doida quando o passeio é interrompido. – O chihuahua volta a ganir para mostrar que concorda. – Encontramo-nos na segunda-feira? – pergunta Juliet, mas é mais uma afirmação do que uma pergunta. – Sim. Segunda-feira – respondo em tom rígido. Juliet parece deliciada com a resposta. – Muito bem. Prazer em conhecê-lo, Hunter. Tem um nome imponente – conclui com uma piscadela de olho cúmplice antes de recolocar os auscultadores e arrancar numa corrida pausada.


Ficamos a ver, hipnotizados pela perfeição das nádegas em movimento sob as calças de tecido elástico. Quando desaparece de vista, Hunter resmunga: – A ninfomaníaca é esta? – Em carne e osso – respondo com um suspiro. – Mudança de planos. Esquece essa merda de lhe arranjares outro médico. Manda-a ter comigo. Inventa uma desculpa, diz-lhe que precisa de comprar umas acções. Não respondo e apenas abano a cabeça. Quando a segunda-feira chegar ao fim estarei irremediavelmente perdido. Enquanto esperamos em silêncio que Marie e Ralph se despachem a comprar os pretzels, Hunter murmura em tom displicente: – Tem tudo a ver com sexo, meu sacana mentiroso.


Capítulo 5 O bem contra o mal

Dixon Mais um fim-de-semana monótono que passei sem sair de casa, longe de qualquer mulher. O encontro casual com Juliet na sexta-feira à noite deixou-me arrasado, não consigo deixar de pensar nela. O que disse a Hunter era verdade. Sinto-me ridiculamente atraído por ela, mas não se trata apenas de uma atracção física. Aquela mulher intriga-me. Apesar de enlevado pelos encantos de Juliet, não me esqueci da outra mulher que me intrigou tanto como ela. Madison. É inquietante ter conhecido as duas no espaço de uma semana. Digo inquietante porque, depois de Lily, não tinha encontrado uma que me despertasse interesse, e agora aparecem-me duas. São dois pólos opostos, e contudo, sinto-me atraído por ambas. Nos brevíssimos minutos em que estive com ela, fiquei com a certeza de que Madison era doce, inocente e pura. Em Juliet nada há de doce nem de inocente. Ambas representam os estereótipos do demoníaco e do angelical. – Doutor Mathews, está aqui a senhora Harte. Chegou um pouco antes da hora. Posso mandá-la entrar? Susanna fala pelo intercomunicador, a arrancar-me aos meus pensamentos. Inspiro fundo e primo o botão. – Muito obrigado, senhora Vale. Mande-a entrar, se faz favor. Olho para o relógio do computador e vejo que Juliet chegou quinze minutos antes da hora marcada. Conhecendo a bicha, não foi por acaso. Quando a porta se abre deixo-me ficar sentado, e o demónio avança em passos descontraídos. O aspecto tentador de Juliet não é coisa deste mundo e, por coincidência irónica com as minhas emoções, enverga um vestido vermelho que não podia ser mais adequado ao seu papel demoníaco. – Senhora Harte – cumprimento-a, a limpar a garganta. Sabe que a estou a observar, mas não dá sinais de acanhamento. Roda ligeiramente o tronco flexível e tranca a porta. Quando se vira para ver o meu olhar de espanto, sorri com os lábios brilhantes e apetitosos. – Senhora Harte? – repito, a tentar imprimir à voz um tom soturno, mas não consigo disfarçar a excitação. – Posso tratá-lo por Dixon? – pergunta calma, a dar um pequeno passo na minha direcção. – Não me parece sensato. Sou o seu médico – respondo, a resvalar os olhos pelo decote. – A noite passada lembrei-me de si – confessa com um sorriso. Aceno, sem ceder à minha líbido crescente.


– Não é invulgar que as pessoas pensem no médico quando dão início a um tratamento. A terapia desperta novos sentimentos em todos nós. Sem uma pausa, sacode a cabeça e declara em tom factual: – Não, pensei em si enquanto acariciava a minha rata. Oh… merda. Por pouco não caio da cadeira ao ouvir a confissão. Estou, além do espanto, muitíssimo excitado por aquela agressão sexual. – Imaginei que era a sua mão que me acariciava, a excitar-me para me vir. Penso que é capaz de me fazer vir com um simples toque dos seus dedos – declara, ao mesmo tempo que humedece o lábio com a língua e avança mais um passo. Sei que devia fugir dela e exigir-lhe que saísse do consultório, pois isto é antiético. Mas se me pusesse de pé o membro entesoado acabaria por tornar inútil o meu gesto de Bom Samaritano. – Senhora Harte. – Já lhe pedi que me tratasse por Juliet – insiste num ronronar sedutor. – Bem, aqui no consultório é melhor respeitarmos um certo formalismo. Agora, por favor, importa-se de destrancar a porta? Agarro-me, desesperado, a um resquício de sensatez que ainda me resta. – Pode ser o seu consultório, doutor Mathews, mas estamos fora do nosso horário. Quero dizer, a minha sessão só começa dentro de quinze minutos. Durante um quarto de hora não podemos ser apenas Dixon e Juliet? Sem médico nem paciente? Não, não podemos ser apenas Dixon e Juliet porque a vontade de Dixon é atirar para o chão tudo quanto está sobre a secretária para lá deitar Juliet e fodê-la até mais não poder. Mas a minha força de vontade está a desvanecer-se e Juliet apercebe-se disso. Desejo mais esta mulher do que o ar que respiro, mas tenho o pressentimento de que, se a deixo entrar na minha vida, ela me há-de destruir. Há-de consumir cada pedaço do meu ser e nunca mais me quero entregar assim. – Dixon – geme, enquanto faz deslizar uma mão ao longo do corpo. Engulo em seco. Os meus olhos não querem acreditar no que vêem quando ela começa a erguer a bainha do vestido até meio das coxas. Toda aquela pele cremosa e macia em exibição… O membro ameaça abrir um buraco nas calças, mas faço um esforço para me refrear. – Quer que lhe mostre a que ponto o desejo? – pergunta, a mirar-me com os grandes olhos azuis escancarados de desejo. Recuso-me a responder porque, grande porra, estou decidido a ver tudo quanto ela tem para oferecer. Portanto, fico calado; o espectáculo pertence a Juliet. Saltita em volta da minha secretária e eu empurro a cadeira para trás, para lhe dar espaço entre mim e a mesa. O movimento revelou a minha tentadora erecção e os olhos de Juliet fumegam de excitação. – Já calculava que fosse grande. Olhe para mim. Não é problema, pois mesmo que quisesse não conseguiria desviar os olhos. Juliet comprime o traseiro contra o tampo da secretária e levanta o vestido até o enrolar à cintura. Sou de imediato agredido pelo seu odor de desejo e quase me venho nas calças por causa daquele


cheiro de fazer crescer água na boca. As cuecas pretas minúsculas mal lhe tapam a rata, e ela enfialhe os dedos por baixo. Dou valor à expressão «menos é mais». Os lábios entreabertos deixam escapar alguns gemidos fracos enquanto se refugia dentro do corpo e não consigo afastar os olhos dos movimentos sacudidos dos dedos famintos quando começa a dar-se prazer. – Hmmm… é tão bom – arqueja, e engulo em seco. – Deixe que lhe mostre. Sem me dar tempo a objectar, Juliet retira os dedos e aflora-me o lábio inferior com o indicador. Os seus lábios estendem-se num sorriso entendido ao ver como luto para conservar o autodomínio. A língua salta-me da boca para lamber a generosa oferta de Juliet, e bastou-me provar para salivar de necessidade. Recorro às poucas forças que me restam para não enterrar a cara entre as pernas dela e assumir a função. Por muito que o deseje, a imagem dela a masturbar-se é muito mais apelativa. A respiração ofegante diz-me que está prestes, e inclina-se para trás para chegar mais fundo no interior da caverna do corpo. Faço a única coisa que se pode esperar de um cavalheiro. Envolvo-lhe a cintura com mão firme e amparo-a para que possa alcançar o clímax sem restrições. No momento em que estabeleço contacto, deixa escapar um grunhido proveniente do fundo da garganta e atira a cabeça para trás, de olhos fechados. Recua um braço para se apoiar melhor no tampo da secretária, enquanto o outro não abranda o movimento frenético no interior das cuecas. As ancas movem-se furiosamente para a frente quando está prestes a atingir o orgasmo. Começa a ser demasiado, e quase me venho nas calças como um adolescente. No entanto, recusome a parecer um miúdo sem experiência, a alijar a carga apenas por vê-la masturbar-se. Aperto-lhe a cintura com mais força, a permitir que os meus dedos denunciem a que ponto me excita aquela visão pecaminosa, e a pressão dos meus dedos enlouquece Juliet. Quando o ritmo dela se torna indomável e selvático, cai de costas porque a mão em que se apoia escorrega. Agora, está deitada de costas em cima da secretária, com as pernas penduradas enquanto os dedos prosseguem o movimento enlouquecido para atingir o clímax. Arqueia as costas, deixa escapar um gemido rouco e explode sob o meu olhar enquanto o corpo se agita num movimento ondulante. Preciso de todo o meu autodomínio para não lhe saltar para cima e possuí-la. Não sei quanto tempo permanece deitada na secretária, sem fôlego e parece esgotada, já que observar esta criatura misteriosa é como descobrir um tesouro escondido. Olho o corpo ágil e gracioso que recupera da excitação esfuziante, e percebo que estou lixado. Sinto-me encantado por Juliet Harte, e ainda nem fodemos. Juliet vira a cabeça para olhar o relógio que está por cima do fogão de sala. Com um sorriso saciado, deixa escorregar o vestido. Procuro não chorar, pois prefiro vê-la com menos roupa. Erguese em movimentos vagarosos, mas continua sentada na secretária. Coloca o pé calçado com saltos agulha entre as minhas pernas abertas e puxa a cadeira. Não ofereço resistência e deixo que o meu corpo se aproxime dela, cheio de curiosidade sobre o que virá a seguir. Tenho o peito encostado às pernas dela e os olhos ao nível das suas virilhas. O meu poder de contenção é impressionante. – Muito obrigada, doutor Mathews – diz, ao mesmo tempo que se inclina para a frente e me deposita um beijo no canto da boca.


Sem me dar tempo a reagir, salta para o chão, alisa o vestido e senta-se no sofá. Fico a vê-la, atónito, e preciso de um segundo para perceber o que aconteceu. Acabou de me tratar por doutor Mathews. Estará à espera que eu dê início à sessão como se nada se tivesse passado? Quando estende a mão para a carteira e retira um espelho para se olhar, percebo que é isso que pensa. Acabo de ver a mulher mais excitante que jamais conheci a vir-se em cima da minha secretária, e agora quer que desempenhe o meu papel de terapeuta, ignorando o facto de o meu membro teso ameaçar arrancar os olhos a quem quer que entre no gabinete? Isto é uma loucura muito séria, e de repente pergunto-me se não serei eu que preciso de tratamento. Nunca bebemos à segunda-feira. Com Finch entregue aos seus deveres de papá e Hunter na sessão de shiatsu, em geral as segundas-feiras estão fora de questão. Mas quando Hunter me telefonou e percebeu a minha incredulidade com o acontecido durante a consulta da senhora Harte, convocou uma reunião de emergência, e cá estamos neste momento. Como se o meu dia não fosse já complicado o suficiente, sugeri que nos encontrássemos no Pony Bar, onde Madison trabalha. Sim, é verdade, sou um masoquista. – Então como foi? – pergunta Hunter, a estender a mão para a cerveja e à espera de novidades. – Bem… – começo a dizer, mas faltam-me as palavras. – Finch, não queres tapar os ouvidos? Finch ergue as mãos e sacode a cabeça numa atitude corajosa. – Não, conta lá. Não pode ser assim tão mau. Se ele soubesse. Baixo a voz, inclino-me para a frente, e os meus amigos fazem o mesmo. – Veio-se… em cima da minha secretária… no consultório. E comigo a ver. Jesus, dito assim parecia uma coisa sórdida. Não me senti nada sórdido enquanto a observava, mas dizê-lo de viva voz assemelha-se a um voyeurismo de tarado. Reina o silêncio. Olho para os meus amigos, preciso que digam alguma coisa, seja o que for, aquele silêncio está a matar-me. – Eh, malta? – incito-os, à espera que um deles me diga que não sou tão pervertido como me sinto. A Hunter, parece que lhe caíram os queixos, com um meio sorriso a bailar no rosto embevecido, sem dúvida a imaginar em todos os seus pormenores a cena que acabo de relatar. – Finch? – insisto, a olhar para o meu amigo, mais pálido do que um cadáver. – Ela mmm… masturbou-se… na tua secretária? – guincha, a romper o silêncio um pouco mais alto do que eu queria. – Chhh! – ordeno num sussurro e a fazer um gesto com a mão para que baixe a voz. – Desculpa – diz, de testa franzida. – Dix, oh, meu Deus, quem é essa mulher? Quem se vai masturbar na secretária do psiquiatra? – Ao que parece, Juliet Harte – responde Hunter com uma risada.


– Dixon, a Gabriela já foi ao teu consultório. Oh, meu Deus!, levei a minha filhinha a um bordel! – grita Finch. Solto um suspiro impaciente. Parece que hoje o tipo não tem controlo no volume da voz. Hunter ignora a tirada melodramática e pergunta com um piscar de olho: – E tu fizeste o mesmo, está visto? – Não, não fiz – respondo, a levar à boca o copo de uísque sem lhe dizer que ela nem se ofereceu. – Então, o que aconteceu? – Nada. Fizemos a nossa sessão… – Espera aí – interrompe Hunter, a sacudir os cabelos da poupa que lhe caíram para a cara. – Mesmo assim continuaste a sessão? Num gesto patético, aceno com a cabeça, pois a situação é tão ridícula quanto parece. – Ou és o mais esperto ou o mais estúpido dos sacanas que conheço. Larga uma gargalhada e bate com a mão aberta no tampo da mesa. – É com certeza o mais esperto. Ainda bem para ti, Dixon – diz Finch, a encorajar-me com um aceno da cabeça. – Obrigado, meu. Pelo menos, tu és um bom amigo – e lanço a Hunter um olhar cheio de intencionalidade. – Não atires as culpas para cima de mim. Bem te disse que a encaminhasses para outro médico. Só tens de te culpar a ti mesmo. Suspiro. Sei que ele tem razão. Foi um disparate tentar agir profissionalmente. A sessão foi um desastre total e devia sentir vergonha por ter deixado a situação chegar àquele ponto. – Não a voltas a ver para a semana, pois não? – pergunta Hunter em tom incrédulo. – Bem… – respondo em tom culpado, enquanto sorvo o uísque. – Estás doido? – grita Finch, que se endireita no assento. – Dixon, essa gaja é a puta mais nojenta do planeta. «Sou tão puta que me masturbo em consultórios onde entram crianças!» Nunca mais a podes ver, e tens de comprar outra secretária! Não consigo evitar a gargalhada que me sai do peito. Quando se enfurece, Finch é de partir o caco. Hunter faz-me companhia e Finch passa a mão pela barba que lhe cobre toda a cara. – Vocês são dois cabrões doentios. De um momento para o outro, sinto-me melhor. – Vou sair para fumar um cigarro – anuncio, a empurrar a cadeira para trás. – Vê lá se não dás de caras com nenhuma ninfomaníaca a masturbar-se – troça Hunter quando passo por ele. Atravesso o restaurante apinhado de gente, a pensar em Juliet e no sarilho em que estou metido. A atitude correcta e inteligente seria dizer à senhora Harte que não posso continuar a tratá-la, mas basta-me pensar nisso para sentir um gosto amargo na boca, nem eu sei porquê. A minha mãe era uma católica devota e nos momentos de crise dizia-me que rezasse ao Senhor, que, ao que parece, me devia dar uma resposta mágica. Neste momento, não me faziam mal algumas respostas, portanto, se me estás a ouvir, Senhor, que tal dares-me um sinal que me faça sentir mais aliviado? Por favor?


– Merda! – grita uma voz por baixo de mim (sim, por baixo de mim). Dou um salto para trás, a um tempo surpreendido e horrorizado por ter pisado cegamente uma pessoa. Que está estendida no chão, de barriga para baixo. – Sente-se bem? Peço imensa desculpa, não a vi – justifico-me ao mesmo tempo que me agacho. – Não faz mal – diz ela, com uma gargalhada silenciosa. Quando se vira para mim, as palavras ficam-me presas na garganta. – M… Madison? Sabia que trabalhava ali, em parte era por isso que lá estava, mas não estava à espera de ir de encontro a ela. – Dixon? – pergunta, ofegante. – O que está aqui a fazer? – Estou com uns amigos. A beber uns copos. E você disse que se alguma vez passasse aqui perto… – respondo, hipnotizado por aqueles espantosos olhos verdes. – Oh… Parece surpreendida por eu ter aparecido. Dou-me de súbito conta de que continua estendida no chão e que nem me ofereci para a ajudar a levantar-se. – Fui eu que tive a culpa. Deixe-me ajudá-la a levantar-se. Estendo-lhe a mão, que aceita com um gesto gracioso. Quando se senta, vejo que a T-shirt branca está estragada pelas bebidas que trazia num tabuleiro e que entornou ao cair. Os líquidos espalharam-se pelo chão e sinto-me um idiota chapado, pois com certeza terá de ser ela a pagar aquelas bebidas. – Deixe-me pagar isto – prontifico-me apressado, a levar a mão ao bolso e a tirar a carteira. Madison recusa com um gesto da mão. – Não tem importância. A sério. – Não, faço questão – insisto, ao mesmo tempo que calculo qual será o preço das bebidas. – Não tem importância, Dixon – repete com delicadeza, e pousa a mão no meu pulso para deter o gesto. No momento em que os seus dedos me tocam na pele, uma descarga de qualquer coisa percorre-me o corpo e ambos recuamos, surpreendidos pela reacção imprevisível. Sem querer, os meus olhos atentam-lhe no peito molhado e distingo uma ponta do soutien cor-de-rosa sob o tecido repuxado. Pode ser pequena, mas, caramba, foi abençoada no que diz respeito a mamas. Tossico para aclarar a garganta e levanto os olhos, pois percebo que me interceptou os olhares. – É melhor voltar ao trabalho – diz numa voz tímida e faz menção de se levantar. Desvio-me do seu caminho e também me levanto desajeitado, sem saber o que dizer. Já me tinha esquecido de que como é pequenina. Com as botas pretas de ténis e os calções também pretos, fica adorável. Os cabelos castanhos compridos que se escaparam do rabo-de-cavalo e a T-shirt manchada dão-lhe um ar desarranjado, mas que não lhe fica mal. Um belo desastre. Continuo sem fala e ela despede-se com um aceno. – Bem, até à próxima. – Sim, até à próxima. Sinto vontade de lhe perguntar a que hora larga o serviço, mas não pergunto.


Fico a vĂŞ-la enquanto se dirige Ă cozinha, a interrogar-me sobre que raio fora aquilo.


Capítulo 6 Como um animal

Dixon É sexta-feira e desde segunda que a minha semana não conheceu problemas. Tenciono conservála assim. A exibição de Juliet a consolar-se com os dedos foi uma visão inspiradora para as minhas masturbações; curiosamente, o mesmo sucedeu com a visão fugaz e inocente do soutien de Madison. Sinto-me atraído pelas duas mulheres, mas por razões diferentes. Não é tão simples como isto, mas o que me atrai em Madison é a sua inocência e o que me excita em Juliet é a sua depravação. Ainda não compreendi uma nem outra, mas agora que sei que Madison trabalha à segunda-feira tenciono fazer-lhe uma visita para a conhecer melhor. Quanto a Juliet, confesso que tenho algum receio de a conhecer melhor; sinto que a verdadeira Juliet Harte é capaz de me comer vivo ao pequeno-almoço. A campainha do telefone vem interromper as minhas elucubrações, e atendo ao terceiro toque. – Está lá, fala o doutor Mathews. – Dixon, caro amigo, como estás? – diz do outro lado Chad Turner, que integra a Comissão de Ciências Psiquiátricas e Comportamentais. – Olá, Chad. Estou fino, obrigado. A que devo este prazer? Vou direito ao assunto, pois não se trata de um telefonema social. Chad solta uma curta risada, sem dúvida de apreço pela minha abordagem sem rodeios, já que nenhum dos nós gosta de conversa fiada. – Dixon, estou a telefonar porque te quero convidar formalmente para a festa do Gerald Harriet’s Fellowship Award, que terá lugar mais para o fim do ano. Paro para reflectir nas palavras dele. Isto é coisa de monta. Há anos que tento sem êxito conseguir um convite para esta prestigiosa cerimónia. Sem mais delongas, respondo: – Chad, é uma grande honra. Obrigado. Todas as minhas palavras são sinceras. Mas não consigo evitar de me interrogar o porquê de este ano ser diferente. Chad deve ter percebido a minha confusão e apressa-se a esclarecer. – Embora não sejas candidato ao prémio deste ano, as tuas pesquisas em neurobiologia e viciação não passaram desapercebidas à comissão. Continua assim, e para o ano pode ser que sejas um sério candidato ao prémio.


Ser convidado para este evento é o sonho de qualquer médico, e a hipótese de poder vir a ser nomeado para o ano que vem é fenomenal. Sem perder a calma, respondo: – Bem, tenho de me assegurar de que faço um bom trabalho. Por favor, manda toda a informação para o meu consultório e tratarei de responder em devido tempo. – Excelente. Espero ter o prazer de te encontrar lá – diz Chad em tom alegre. – Continua o bom trabalho, Dixon. Estamos de olho em ti. Desliga sem me dar tempo a dizer mais nada. Caramba, isto é mais do que espantoso. Nem nos meus sonhos mais arrojados alguma vez imaginei que eu, Dixon Mathews, filho único de uma família de imigrantes italianos, viesse a ter semelhante oportunidade. Isto merece ser festejado. Estendo a mão para o telefone e nesse momento ocorre-me um pensamento inesperado. Chad diz que andam de olho em mim. É certo que não meti o nariz em nada sujo, mas esta situação com a senhora Harte pode manchar-me e prejudicar a minha carreira se alguém vier a saber. Os acontecimentos do princípio da semana bastariam para que me revogassem a licença por conduta antiética. Trabalhei muito para alcançar a posição de relevo que ocupo e não posso nem devo permitir que o meu caralho acabe por estragar uma coisa que tanto me custou a conseguir. Com um suspiro de resignação, levanto o telefone e ligo para Susanna. – Doutor Mathews? – Olá, senhora Vale. Preciso que entre em contacto com uma doente. – Com certeza. De quem se trata? Expiro sem som e digo. – A senhora Juliet Harte. – E o que pretende que lhe diga? – pergunta inocente Susanna. Suspiro, a disfarçar o desagrado. – Por favor, diga-lhe que não posso continuar a tratá-la e dê-lhe o contacto do doutor Geo. – Não há problema, doutor Mathews. Quer que diga mais alguma coisa? Há um milhar de coisas que gostaria de dizer. Mas esta é a decisão certa. – Não, senhora Vale. É só isso. São os copos de sexta-feira à noite que me aguentam o resto da semana, e depois da novidade que acabo de receber mal posso esperar para emborcar algumas cervejas na companhia dos rapazes para festejar a minha boa sorte. – Se me é permitido, gostaria de propor um brinde ao meu bom amigo, o doutor Dixon Mathews, que por vezes pode ser um idiota mulherengo – reviro os olhos, mas presto atenção ao discurso sincero de Hunter –, mas que acaba de demonstrar uma enorme contenção ao dizer não à raposa ninfomaníaca, a fim de preservar a sua carreira. Podem dizer que enlouqueceu ou que amoleceu um bocado, mas tenho orgulho nele por ter metido os tomates na gaveta e dado importância ao que é importante.


– Ámen! – remata Finch, a levantar o copo de Coca-Cola. – Agradecido. Penso que sim. Fazemos tinir os copos e deito abaixo uma golada bem merecida. Contei-lhes a minha decisão de não voltar a ver Juliet e ambos concordaram que tinha feito muito bem. – Portanto, agora que essa cadela com cio está fora da tua vida, vais começar a bater-te à morena da outra noite? – pergunta Hunter, a erguer as sobrancelhas. – Cadela com cio? Essa é bastante ordinária. Hunter encolhe os ombros. – Dou-lhes o nome que me parece adequado. – Bem, se toda a gente vivesse de acordo com as tuas regras, o que achas que te haviam de chamar? – pergunto a sorrir. – Haviam de chamar Hunter… o Deus da foda. Largo uma gargalhada e Finch revira os olhos. – Não mudes de assunto, meu sacana. Então e a morena? Quais são os teus planos? Esfrega as mãos num gesto malicioso. Depois de no outro dia ter chocado com Madison, os rapazes não param de insistir comigo para que lhe faça uma visita. Teceram comentários sobre uns estranhos «olhares amorosos» que lhe lancei, mas para ser franco não faço ideia onde foram buscar essa merda. Mas é verdade que tenho pensado nela e que tenciono fazer-lhe uma visita em breve, mas não já. Não quero parecer desesperado nem ansioso, de modo que por agora guardo os meus trunfos só para mim. Farto de ser a cobaia da noite, pergunto com uma piscadela de olho: – Então e tu, Hunter? Isso de passares por irmão do Chris Hemsworth deve ajudar-te com as miúdas. Hunter bebe um gole de cerveja e abana a cabeça. – O tipo já tem um irmão, e se as gajas que se embeiçam por ele são um sinal do que me espera, prefiro voar sozinho. Sei que pretende fazer graça, mas a tensão em redor dos seus olhos denuncia que algo vai mal. Resolvo não insistir por agora, mas tomo nota para mais tarde lhe perguntar, quando estiver com os copos e na disposição de se abrir. – Quer dizer que a tipa pequenina e escanzelada é a única que vai ser fodida. Triste, não é? Engasga-se, e aproveito para dar uma palmada nas costas de Finch. – A propósito, Finch. Tu e Heidi continuam a praticar para o bebé número dois? – pergunto, ao mesmo tempo que lhe dou uma ligeira cotovelada nas costelas. Finch cora e não consigo evitar de rir. É fácil provocá-lo. – Como vai a Heidi? – pergunta Hunter com um sorriso pervertido, a pôr as duas mãos em concha diante do peito. Finch empalidece.


– Ficaria muito agradecido se não falassem dessa maneira da minha mulher e dos seus seios – murmura. – De que maneira? – pergunta Hunter, a esboçar um sorriso ingénuo. – Podia ter perguntado como vão as tetas, os cocos, os melões ou sei lá o quê da Heidi, mas não o fiz. Como podia ter falado na última camisola de malha com que a vi na semana passada. Com franqueza, tu és um sacana doentio e pervertido, só pensas em sexo e mais nada. Com a testa franzida numa expressão de desagrado, Finch abana a cabeça enquanto eu deixo escapar uma gargalhada estrondosa, a abençoar o dia em que conheci estes dois palhaços. Depois de emborcar vários uísques, Finch implora-nos que não nos tornemos domadores de leões, mas a ideia parece-me fantástica, e nem quero acreditar que não me tenha ocorrido há mais tempo. – Tu és um chato convencional – declara Hunter em voz pastosa, escarranchado na estátua do leão que se ergue majestosamente à porta da biblioteca. – Tens de descontrair. Afaga com o rosto a juba de pedra e solta um suspiro de satisfação. Tudo se torna muito mais divertido quando se está um pouco ébrio, e tanto eu como Hunter estamos a chegar ao ponto em que tudo tem piada. – Malta, saiam de cima do raio do leão – implora Finch, a ver-nos cavalgar orgulhosos o bicho. – Deixa-me montar a gaja em paz – replica Hunter em tom jocoso. Perco o equilíbrio e caio de cu, perdido de riso. – Dixon? – pergunta em tom chocado uma voz conhecida. Quando a ouço deixo de súbito de rir, a hilaridade presa na garganta ao ouvir a voz que tanto tenho feito por esquecer. – Dixon, sentes-te bem? Fecho os olhos e conto até três antes de os reabrir, na tentativa de não desmaiar ao ver o belo rosto da minha ex-namorada. O coração agita-se freneticamente no meu peito, alvoroçado até mais não por voltar a vê-la. No entanto, o meu cérebro incute um pouco de bom senso na fantasia e domino a excitação. Levanto-me, e sem prestar atenção ao facto de estar embriagado, de ter a camisa fora das calças e a gravata torta, respondo com desembaraço: – Olá, Lily. Baixo os olhos para os sapatos e suspiro. Acabei de pisar pastilha elástica cor-de-rosa. O meu aspecto não podia ser mais desleixado, mas Lily apresenta-se imaculada, como de costume. Traz um vestido preto justo, que lhe desce até meio das coxas. O meu cérebro é assaltado por recordações daquelas pernas longas e bronzeadas enroscadas à volta do meu pescoço enquanto a como durante horas. Contudo, quando lhe olho para a cara, vejo uma tiara de prata entre os cabelos compridos e ondulados. Que coisa mais pirosa, não condiz nada com ela. Só nesse momento o meu cérebro entorpecido repara numa faixa cor-de-rosa e com a palavra «noiva» estampada em letras gritantes.


Aquilo devia bastar para me pôr na alheta, ciente de que não passava de um idiota falhado. De súbito, recordo-me da data, e que neste fim-de-semana devíamos ter completado um ano de casados. No entanto, em vez de chorar ou de se mostrar pesarosa, Lily festeja a despedida de solteira com um ar feliz e uma figura estonteante. Não parece nada incomodada pelo facto de há um ano estar prestes a ser a minha noiva. Como não parece dar importância por ser a primeira vez que me vê em tantos meses. Não quer saber se me destroçou o coração e me deixou como uma concha vazia do homem que antes era. Dei-lhe o melhor que havia em mim, mas nem isso lhe bastou. Eu não era bom. Mas o meu melhor amigo, sim. Levanto a cabeça num assomo de orgulho, solto uma gargalhada escarninha e olho ostensivamente para a faixa. – Parabéns. Espero que ele te dê tudo quanto eu não fui capaz. – Espera, Dixon! – Espero o quê? – replico com desdém, e a abrir os braços. – Que me digas a que ponto és feliz? – Eu lam… Não a deixo acabar. Se ouço a palavra «lamento» a sair-lhe dos lábios mentirosos ainda vomito. – Guarda as desculpas para o teu marido. – Dixon! – exclama em tom implorativo e a estender a mão para me agarrar. Desço a escadaria a passos largos, sem prestar atenção aos chamamentos dos meus amigos nem à expressão pesarosa do rosto da minha ex-amante. Por mim, bem pode ir para o inferno, já que foi com essa mesma expressão que fiquei desde que resolveu deixar-me. Ignoro tudo o que se passa à minha volta e concentro-me na única coisa que parece fazer um pouco de sentido. Não devia estar aqui, mas foi o único lugar para onde me ocorreu fugir. Não sei como lidar com os meus sentimentos reprimidos. Nunca soube. Sei resolver os problemas dos outros, mas quando se trata dos meus, a única coisa que quero é esquecer. Nem que seja por um momento fugaz, só desejo esquecer como é doloroso amar alguém que não nos ama. O ritmo do meu punho a bater na porta está em sintonia com as pancadas do meu coração, e no momento em que ela a abre o animal primitivo que existe em mim ruge e ataca. – Doutor Mathews? Sente-se bem? – pergunta Juliet, espantada e a recuar um passo, os olhos arregalados de surpresa. – Dixon – rosno. Irrompo pelo apartamento e fecho a porta com um pontapé. Olhamo-nos, e o ar vibra com uma poderosa corrente eléctrica resultante do supremo confronto. Juliet parece confusa, mas guarda silêncio, na expectativa da minha próxima jogada. Sem lhe dar tempo a protestar, salto-lhe para cima e esmago a boca faminta contra a dela. Hesita uma fracção de segundo, mas depois entra no jogo.


Encetamos uma luta, ambos desejosos de dominar o outro, mas submeto-me de boa vontade quando ela me desaperta a fivela do cinto e me enfia a mão nas calças para apalpar o membro erecto. Não trago cuecas, de modo que ela entra a matar em carícias famintas. A mão pequena mal consegue envolver o pau tenso. Agito os quadris em movimentos frenéticos para que a fricção seja mais rápida e intensa, e Juliet corresponde, a manejar com vigor os dedos sabedores. Estou a cinco segundos de me vir na sua mão mas afasto-me; quando explodir, quero que seja dentro dela. Empurro-a para trás e olha-me, ofegante, a antecipar os movimentos seguintes. Procuro a orla das cuecas pretas de renda e puxo-a num sacão violento que as rasga e faz escorregar pelo corpo pequeno e escaldante. Detenho-me um momento a apreciar a visão perfeita que se me oferece ao olhar e quando já pensava que o meu membro não se podia entesar mais ele estremece e implora dolorosamente a libertação. Os mamilos, túrgidos e cor-de-rosa, sublinham a forma arredondada e perfeita dos seios inchados. Não me cabem na mão e mal posso esperar por enterrar a cabeça entre aquelas almofadas de perfeição para sentir se são macias como parecem. – Espectacular – murmuro em voz entrecortada. Quando leva as mãos às mamas para acariciar os mamilos, não resisto nem mais um segundo. Agarro-a por um braço, obrigo-a a virar e empurro-a contra a parede. Sei que estou a ser dominador, mas o desejo sufoca-me os derradeiros resquícios de racionalidade e preciso de possuir esta mulher antes de explodir. Enlaço-lhe a cintura fina com o braço, faço descer a mão, enfio um dedo na cavidade quente e húmida, e ambos gememos em reacção à súbita intrusão. Faz recuar as ancas, sobrepõe a mão dela à minha e introduz também um dedo longo e fino. É uma masturbação a dois, mas o espectáculo é meu, de modo que lhe afasto o dedo e insiro um segundo dos meus, a alargá-la. Grita, deixa-se penetrar mais fundo e solta um gemido. Os músculos internos contraem-se em volta dos meus dedos e penetro-a com furor e sem piedade até se vir com um grito agudo e repentino. Aquele som é música para os meus ouvidos sequiosos de sexo e corro o fecho das calças antes que o seu corpo saciado seja sacudido por um derradeiro espasmo. No momento em que as calças e o cinto caem no chão já a estou a puxar para mim, a apontar-lhe o caralho palpitante à cona húmida. Mas antes tenho de a avisar de que a coisa pode ser violenta. – Eu não faço amor, eu fodo. Fodo até ao fundo. E com força. Não estou aqui para fazer romance nem para me apaixonar – aviso, enquanto lhe esfrego a cabeça na abertura. – Não faço promessas vãs. Estou aqui só para me vir. Está bem para ti? Juliet deixa escapar um grunhido rouco; é óbvio que a minha proposta de prazer sem restrições vai ao encontro das suas tendências aberrantes. – Mostra-me do que és capaz. Todavia, o que me resta de razão alerta-me para o facto de nunca foder sem protecção. Sobretudo alguém tão promíscuo como Juliet. Percebe a minha hesitação e murmura. – Estou limpa – ao mesmo tempo que agita o traseiro, a pedir que lhe dê o que ambos desejamos.


Esfuma-se o que me resta de sensatez e sucumbo à libidinosa Juliet Harte. Com um movimento brusco e fluido, empurro para a frente e empalo-a, a esmagá-la contra a parede. Solta um grito, mas não é de dor. – Aguenta – aviso, ofegante, pois tenciono deixar que isto descambe para fora de controlo. Espalma as mãos contra a parede e levanta-se em bicos de pés, a inclinar o corpo para que vá mais fundo, e com mais força. Agarro-lhe a cintura com uma das mãos e envolvo a outra nos longos cabelos louros. Começo a movimentar ferozmente os quadris, a fodê-la com tanta força que o corpo dela bate na parede a cada impulso. Não consigo parar. Estou a foder a minha dor, e quanto mais violência aplico mais ela parece esmorecer. Quero fodê-la por completo, até nada restar além do prazer que entorpece a mente. Enrolo o punho no cabelo dela e puxo-lhe a cabeça para o lado, a expor-lhe o pescoço comprido, onde a veia palpita sob a carne escaldante. Mordo-a com avidez, a sugar a pele aromatizada de flores e a arrancar-lhe gritos de prazer. Os seus gemidos eivados de paixão excitam-me ainda mais e gemo contra o pescoço dela, a morder e a chupar ao ritmo dos impulsos. O meu orgasmo está próximo, borbulha perto da superfície. Estendo a mão para lhe apalpar o clítoris inchado, e os meus dedos hábeis só param quando ela se vem com um grito sonoro e rouco. Um… dois… três, já estou fodido. No momento em que me retiro, a espalhar o sémen contra as costas dela, Juliet escorrega pela parede, incapaz de se aguentar sobre as pernas trémulas, pois acabo de a foder como um animal. Sinto-me avassalado por uma sensação de vergonha e repugnância e abro a boca para me desculpar por ter sido tão bruto. Sim, é verdade que a avisei, mas acabei por perder o autodomínio. Nesse momento, ela surpreende-me ao voltar a cabeça e ao dizer, enquanto me fita com os olhos velados: – Vamos fazer isto outra vez.


Capítulo 7 Nada mais do que um homem

Dixon Acordo na manhã seguinte com o corpo a gritar por me ter deixado adormecer numa posição estranha. Metade esparramado sobre o sofá, a outra metade no chão. E, acabo agora de perceber, não tenho calças. Na camisa branca, faltam-me os três botões de cima, vítimas dos dedos inquisitoriais de Juliet. As recordações da noite anterior assaltam-me o cérebro, agora sóbrio, e baixo os olhos para as virilhas pegajosas que confirmam a que ponto sou um idiota. Quando estava prestes a desabar de exaustão, após a terceira ronda, Juliet cavalgou-me para me fornicar até me esquecer do nome. Depois disso, tenho a certeza de que perdi a consciência, esgotado e peganhento, e foi aqui que fiquei. Entreabro um olho e vejo que ainda são só sete da manhã. Olho em redor, a conjecturar onde poderá estar Juliet. A pequena sala de estar foi decorada com gosto, e por um momento entrego-me à contemplação do mobiliário de estilo, já que ontem à noite a única coisa que apreciei foi o traseiro de Juliet. Vejo as calças do outro lado da sala, onde o cãozinho felpudo de Juliet se serve delas como colchão. Levanto-me com dificuldade e a gemer, doem-me os músculos como se tivessem sido arrancados dos ossos. Afasto com o pé Marcia ou Macy, não sei ao certo como se chama, e enfio a fralda amarrotada da camisa dentro das calças. Por fim, resolvo procurar Juliet, para não ficar ali à espera dela. Como não quero vaguear sem destino pelo apartamento, meto pelo corredor, na esperança de que o primeiro quarto me revele a presença da dona da casa. Espreito lá para dentro, não quero parecer intrometido, o que é ridículo, uma vez que na noite anterior não hesitei em violar-lhe a privacidade. Como não a vejo, resolvo procurar na casa de banho, mas a busca é infrutífera. Tento alisar os cabelos revoltos, sem resultado, e uso o lavatório para molhar a cara e gargarejar, na esperança de conseguir um ar e um odor mais consentâneos com a minha condição de ser humano. Há outra porta ao fundo do corredor, mas resolvo esperar na cozinha, pois Juliet com certeza me ouviu a andar de um lado para o outro, a chamar-lhe a atenção para o facto de já ter acordado. Contudo, passados trinta minutos dou por mim agarrado às paredes, desesperado por duas cápsulas de Advil e uma chávena de café. No entanto, seria muito má educação ir-me embora sem ao menos ver Juliet. Depois da noite de ontem, o mínimo que posso fazer é esperar, mas nesse momento ocorre-me um pensamento. E se ela não quiser que espere? Se quisesse, teria deixado um bilhete, a dizer onde tinha ido. Examino o balcão da cozinha, mas nem sinal de um bilhete.


A sentir-me um idiota chapado, agarro na gravata atirada para as costas do sofá, digo adeus ao cão estúpido, e saio, a atirar com a porta. Um idiota completo, à espera de uma mulher que não quer ser encontrada. Enquanto primo o botão de chamada do elevador, faço por não dar atenção ao facto de Juliet me ter fodido… como um homem. Na circunstância, sou o raio da mulher abandonada, à espera que o homem apareça por magia depois de uma única noite espalhafatosa e inconsequente. Isto é extremamente embaraçoso, devia sentir-me aliviado, mas a verdade é que não estou. Saio disparado do elevador assim que as portas se abrem. Conservo a cabeça baixa, em parte para esconder o meu estado de desmazelo, mas sobretudo porque sinto vergonha. É o meu primeiro acesso de vergonha, e estou decidido a que seja o último. Sem olhar para onde vou, esbarro contra uma figura frágil, mas estendo os braços para a segurar sem lhe dar tempo a cair. Olho para baixo e não sei se devo bendizer ou amaldiçoar a ironia da vida quando me deparo com os enormes olhos verdes e brilhantes de Madison, que me fitam com uma expressão divertida. – Temos de nos deixar destes encontrões. Sorri, e puxa um caracol suado para trás da orelha. Está encharcada, afogueada e perfeita. Os calções curtos e o top revelam demasiada pele de um branco-leitoso, e uma vez mais dou por mim a olhá-la como um velho pervertido e nojento. O que haverá nesta rapariga que me deixa sem palavras? – O que anda por aqui a fazer? – pergunta quando fico em silêncio. A pergunta inocente ainda me faz sentir mais repugnante, mas replico com frieza: – Vim visitar um amigo. Olha para o meu aspecto descuidado, sem acreditar na mentira patética. Mas acena com a cabeça, sem a pôr em causa. – Oh, formidável. Acabo de fazer uma corrida, mas nem é preciso dizer. Sorri, e agita os pés calçados com sapatilhas. Solto uma curta risada e percebo que tem a língua tão presa como a minha. – E agora, o que vai fazer? – pergunta, a morder o lábio inferior. – Hmm, nada. Porquê? – Vou só lá acima tomar um duche rápido e depois saio para comer qualquer coisa. Não quer vir comigo? Sem prestar atenção ao convite para o pequeno-almoço, pergunto: – Você vive aqui? – e aponto para cima. Madison sorri e acena nervosa com a cabeça para dizer que sim. – Sim. O meu padrasto é proprietário do edifício, e com os apartamentos de Nova Iorque a custarem uma fortuna, faz sentido viver cá. Deixo escapar um assobio de espanto. – Do prédio todo? Uau! Estou impressionado.


Mas por muito impressionado que esteja nem me passa pela cabeça voltar lá acima. No entanto, apetece-me aceitar o convite de Madison. Deve ter percebido o meu dilema, pois acrescenta depressa: – Não se preocupe com isso. Não posso cheirar pior do que você. Dá-me um encontrão trocista e ri da minha expressão. Percebo que está a brincar e reajo com outro encontrão. – Bem, Sporty Spice, com esse comentário convenceu-me. – Sporty Spice? Hmm, Dixon, aquilo revelou a idade que tem – diz Madison em tom de provocação enquanto molha a bolacha no líquido xaroposo. Estamos sentados no mais pequeno restaurante à face da Terra e, para ser franco, nem sabia da sua existência. Mas Madison garantiu-me que a comida era de chorar por mais e para não o julgar pela aparência. Tento não interpretar mal o comentário e concentro-me no facto de aquela miúda de cinquenta e tal quilos ter diante de si comida suficiente para matar a fome de um pequeno estado. Não faço ideia onde mete tudo aquilo, e duvido que seja daquelas que vão vomitar depois. Percebe que estou a olhar para ela e dirige-me um olhar curioso. – O que foi? – Nada – respondo, a desviar a atenção para o café que vou bebericando. – É por isto que corro todas as manhãs – explica, a deitar mais sal nos ovos mexidos. – Todas as manhãs? Caramba, é mesmo a sério. – As aulas começam às nove, todos os dias me levanto cedo – explica com um encolher de ombros. – Bem posso começar o dia de uma maneira saudável, Deus sabe como é depois. Ri e agarra no garfo e na faca, pronta para atacar as waffles. A alusão às aulas excita-me a curiosidade. – Está a estudar o quê? – pergunto, a estender a mão para o queijo cremoso. – Estudo enfermagem em Columbia. Bem, acabo de começar um curso duplo. No fim gostaria de me especializar como parteira – responde, e dá uma dentada no doce. Fico um tanto surpreendido, pois nem tinha imaginado qual seria a sua ocupação. Agora que sei, ainda me sinto mais atraído, pois percebo que além da beleza também tem miolos. – Um curso duplo? Quer dizer, uma licenciatura e um mestrado em ciências? – É isso – responde com um aceno acanhado. – Mas é incrível! Um curso duplo é muito trabalhoso. Você ou é um génio ou é louca – respondo com um sorriso. Madison ri, e o som da gargalhada não pode ser mais maravilhoso. – Um pouco das duas coisas. Como sabe que é muito trabalhoso? Em geral, detesto dizer às pessoas qual é o meu trabalho porque me fazem sempre a pergunta sacramental: «Qual foi o tipo mais maluco que tratou?» e «Pode receitar-me uns Valiums?» Mas com Madison penso que ela achará interessante, já que os nossos campos de interesse apresentam algumas afinidades.


– Sou psiquiatra – confesso, esperançado em não parecer muito antiquado. – Sou especializado em vícios. Madison arregala os olhos, interrompe uma dentada a meio e abana a cabeça. – É mesmo? – pergunta em tom incrédulo. Não sei se me devo sentir insultado ou não, e a dúvida deve transparecer no meu rosto, pois ela arrepia caminho de imediato. – Oh, meu Deus, peço imensa desculpa. Fui muito mal-educada. Não estava a duvidar de si. Quero dizer, isso é mesmo bestial! – conclui, de olhos muito abertos. – Neste momento estou a fazer um curso intensivo de psicologia. Pode vir a ser útil, se entretanto resolver enveredar por um ramo diferente da enfermagem. Mas para já é isso que quero. Deve ser uma pessoa muito inteligente. Suspiro de alívio. – Muito obrigado. Nem toda a gente acha que ser psiquiatra é bestial. Nem que sou inteligente. Portanto, aceito-o como um elogio – respondo a sorrir. Madison acena com a cabeça. – Pois claro que é um elogio, doutor Dixon. – Dixon está bem. – Não parece nada um médico – observa em tom casual. – Devo agradecer? – pergunto, sem saber onde quer chegar. Percebe a minha confusão e mais uma vez se apressa a esclarecer. – Só queria dizer… – A língua endiabrada interrompe a frase para lamber o molho doce que lhe escorre pelos dedos e aproveita para ponderar a observação. – Só queria dizer… que é muito novo. No entanto, a ligeira pausa deixou-me a pensar no que quereria dizer. Gostaria de imaginar que a palavra que esteve quase a dizer era «excitante», mas sonhar não faz mal a ninguém. Assumo um tom sério, passo o dedo pela borda da chávena e sorrio. – Não se deixe enganar pela minha aparência elegante – digo, a troçar do meu desalinho. Madison solta uma gargalhada, e noto que me fita mais intensamente do que o habitual. Será que a pequenina Madison se sente tão interessada em mim como eu nela? Isto pode vir a tornar-se muito, muito interessante, ou então muito desagradável. Tudo depende da forma como eu agir. – Se me permite a pergunta, que idade tem? – pergunto em tom inocente, a dar uma dentada no meu bolo. Madison parece absorta nos seus pensamentos, mas sacode a cabeça, como se os quisesse afastar. – Tenho vinte e três. Eu bem sabia. A sua juventude só vem confirmar a que ponto sou um velho depravado ao imaginar-lhe o traseiro redondo e firme e as maminhas perfeitas. Baixo os olhos para o peito dela, ao mesmo tempo que me repreendo por ser tão óbvio, já que até agora me tenho portado como um cavalheiro. Por triste que seja, a verdade é que já me esqueci do que é desfrutar uma companhia do sexo oposto sem a imaginar nua ou de que cor são as cuecas que usa. Mas com Madison foi o que


aconteceu. Estamos aqui sentados – meu Deus, já nem sei há quanto tempo – e nem por uma vez pensei em sexo ou a imaginei nua, o que para mim constitui uma espécie de recorde. A companhia dela basta-me como estímulo, e não voltei a sentir isto desde Lily. Mas só de pensar nessa gaja sinto a manhã estragada e afasto apressado o bolo meio comido. – Sente-se bem? – pergunta, e levanto os olhos para encarar a sua preocupação delicada. – Sim, sim, estou bem – minto. Sinto-me um imbecil por deixar que a minha antiga namorada volte a perturbar-me. Para mudar de assunto, pergunto: – Peço que não me leve a mal a pergunta, mas quem era o parvalhão com quem estava na outra noite? Espero sinceramente que a pergunta não a faça irritar, mas preciso de saber. – Oh, era o Tim. – O seu namorado? – pergunto a aparentar indiferença, atento à sua expressão facial. Surpreende-me com uma gargalhada. – Nada disso. Saímos juntos duas vezes e parece que sou o amor da vida dele. – Bem, da maneira como lhe punha as patas em cima, parece que não sabe como tratar o amor da sua vida – comento, a disfarçar a irritação que sinto. Madison acena e baixa os olhos. Percebo que toquei numa corda sensível. Mas deixo passar e continuo a beber o café enquanto ela devora em silêncio o resto da refeição. Quando acaba de comer, apoia a mão no ventre liso e suspira. – Devia ter-me parado à terceira dentada – justifica-se com um sorriso. Mas parece ter perdido o embaraço. – E fazer-me perder a sua proclamação de amor pelas tostas francesas? Não me parece – respondo, a esquivar-me de um boião de natas voador. Quando me preparo para agarrar a conta, Madison bate-me nas costas da mão. Esforço-me por ignorar as faíscas instantâneas e ergo as sobrancelhas, intrigado com o assomo de violência. – Sou eu que pago – declara. Oh, meu Jesus, por pouco não caio da cadeira quando a vejo meter a mão dentro do top. – Com quê? Com os seios? – pergunto, meio engasgado e a conter a baba. Madison ri a bandeiras despregadas e retira uma nota de vinte. – Não, com isto – e atira o dinheiro para cima do balcão. É claro, guarda algumas notas dentro do top e usa os seios como bolsa. Santo Deus, e lanço à nota um olhar de inveja carregado de lascívia. Recomponho-me e consigo elaborar uma frase de protesto: – Não, por favor, deixe-me pagar. Julga que sou algum miserável? Meto a mão no bolso das calças, à procura da carteira, mas não está lá. Procuro outra vez, com movimentos frenéticos, mas a mão volta vazia. Não trago casaco, de modo que o único sítio onde pode estar… é em casa de Juliet. Parece que vou ter de engolir o orgulho a deixar que seja Madison a pagar.


– Da próxima vez, é por minha conta – declaro estupidamente, pois quem diz que haverá uma próxima vez… Fecho a boca e tento parecer descontraído quando nos levantamos e saímos em silêncio. – Gostaria que sim – diz Madison quando chegamos cá fora. – Gostaria de quê? – pergunto, a tapar os olhos para os proteger do sol ofuscante. – Que houvesse… uma próxima vez. O meu coração acelera com força e não evito o ligeiro sorriso que me aflora aos lábios. Cá fora, na imensidade da selva de betão que é Nova Iorque, parece tão pequenina, tão frágil, e tenho de me dominar para não a agarrar e proteger dos ruído e da agitação da cidade que nunca dorme. Não sei de onde me vem este instinto protector e expulso os pensamentos loucos, já que deles nada pode vir de bom, nem para um nem para o outro. Apercebo-me de que Madison está a olhar para mim, à espera que comente a sua confissão, e apresso-me a acabar-lhe com a angústia: – Eu também. – Verdade? – pergunta, a voz a transparecer surpresa. – Verdade – respondo com um aceno da cabeça, encantado com a vermelhidão que lhe sobe ao rosto. Páro, a olhar para ela, e ela para mim. O momento é perfeito, mas de súbito percebo que olha para mim porque espera que deixe de ser parvo e lhe peça o número do telefone. Apalpo as algibeiras e concluo que devo ter deixado o telemóvel no sofá de Juliet. – Não trago o telemóvel. Inclino-me e finjo que espreito para dentro do top. – Não tem mais nada escondido aí dentro? Madison surpreende-me com uma réplica atrevida. – Não quer descobrir? Pisca-me o olho e engasgo-me com a língua. – Então, o que sugere? Madison sorri e a visão é soberba. – Bem, sabe onde trabalho. Se aparecesse por lá esta noite? O meu turno começa às sete – acrescenta em tom descontraído. – Está bem, acho que pode ser. Madison acena alegremente com a cabeça, e é então que surge a situação embaraçosa. Sabem como é, quando duas pessoas se sentem atraídas e não fazem ideia de como se devem despedir, se com um abraço, um beijo, um aperto de mão ou um simples aceno de adeus. Pela maneira como morde o lábio, percebo que hesita quanto ao protocolo a seguir e que espera que seja eu a tomar a iniciativa. Mas o facto de continuar a sentir em mim o cheiro de Juliet impede-me de a abraçar. Não a posso beijar por razões óbvias e um aperto de mão ou um aceno parecem-me demasiado indiferentes, como se fôssemos desconhecidos. Portanto, levanto o punho direito como um perfeito idiota e Madison olha-o, confusa.


Olho-o também, a amaldiçoar a minha estupidez, mas agora que o levantei tenho de levar a cena até ao fim, para não parecer parvo. Madison surpreende-me de novo ao evitar tocar o meu punho, ergue-se em bicos de pés e beijame na cara áspera da barba. No instante em que invade o meu espaço, todo o meu corpo canta, deliciado no seu aroma a baunilha. – Falamos mais tarde, Dixon. Afasta-se e eu sigo-a com olhos e deixo cair o punho. – Adeus, Madison – articulo, enquanto a mais espantosa das miúdas se vai distanciando, a acalentar a esperança de que não seja a última vez que a vejo. Graças a Deus, não sei como, mas arranjei maneira de não perder a chave, e assim que entro em casa tomo um duche prolongado e deixo-me cair de borco em cima da cama, sem me dar ao trabalho de me vestir. A única coisa que me desperta é uma sucessão de pancadas violentas na porta. A resmungar e a esforçar-me por dissipar a névoa que me tolda o cérebro, viro-me para a direita e vejo que o relógio marca 6 h e 27 m da tarde. Uma vez que o intrometido não dá mostras de desistir e as pancadas na porta recrudescem, desisto e enfio umas calças largas. Não me dou ao trabalho de vestir uma T-shirt, pois seja lá quem for não vai ficar muito tempo. – O que é? – pergunto em tom desabrido ao abrir a porta, mas caem-me os tomates aos pés quando dou de caras com Juliet. Levo alguns segundos a recompor-me, mas assim que consigo pergunto friamente: – O que estás aqui a fazer? Juliet sorri e estende-me a carteira e o telefone. Não precisa de dizer mais nada. O facto de me ter vasculhado a carteira para descobrir onde moro afigura-se-me uma invasão da minha privacidade, quando na realidade lhe devia estar grato por se ter dado ao incómodo de vir até cá. No entanto, isto é a minha casa e o gesto torna-se demasiado pessoal, muitíssimo pessoal. Depois de Lily, nenhuma mulher pôs os pés cá em casa, mas pela maneira como olha para mim, Juliet parece resolvida a pôr termo a isso. – Então, não me convidas a entrar? Ou tenho de te fazer um broche aqui mesmo no corredor? Se não tivesse um ouvido tão apurado diria que tinha ouvido mal, mas percebo que não me enganei quanto às intenções dela quando os seus olhos me percorrem de alto a baixo, e se detêm nas minhas costelas e na tatuagem. – Nunca estamos tão indefesos contra o sofrimento como quando amamos – diz ela, a ler a tatuagem inspirada em Freud e Lily. – Ora muito bem, doutor Mathews. Nunca teria imaginado. Esqueci-me de que Juliet nunca me tinha visto despido, já que a nossa fornicação animalesca apenas exigira que descobríssemos as partes essenciais. A recordação fez-me sentir um filho-da-puta estuporado, de modo que abri mais a porta para que ela pudesse entrar. Contudo, no momento em que põe o pé no meu refúgio, todos os poros do meu corpo me exigem que a ponha na rua, pois tudo isto está errado. Como não tenho alternativa, fecho a porta atrás de


mim com o sentimento de alguém que se tranca na prisão. Recuo um passo para deixar Juliet apreciar o meu apartamento. – Portanto… – começa ela a dizer quando se vira para mim, ao cabo de um minuto de escrutínio. – Portanto… – repito como um papagaio, com as mãos enfiadas nos bolsos. Não tenho nada para lhe dizer, depois daquela manhã. Sinto-me um tanto chocado com a sua presença ali. Estava em paz comigo mesmo, a pensar que nunca mais a veria. Mas ali está ela, de pé à minha frente, deliciosa de fazer crescer água na boca. – Desculpa-me por esta manhã, Dixon. Tinha onde estar. Aceno com a cabeça, a tentar parecer indiferente. – Obrigado por teres trazido as minhas coisas. Podes deixá-las aí. Com um movimento do queixo, indico o balcão da cozinha. – Estás doido? – profere Juliet, parte espanto, parte pergunta, a tentar disfarçar a surpresa. Estarei? Honestamente, não sei o que sinto. Nunca me tinha acontecido, de modo que chego à conclusão de que o meu ego se sente melindrado. – Estar doido significaria que me importo, senhora Harte, o que, para ser sincero, não é o caso. Não quero saber. A noite passada foi divertida, mas é tudo. Portanto, a resposta à tua pergunta é não, não estou doido – respondo em tom desabrido. Apanhada de surpresa pela minha resposta seca, Juliet leva um segundo a recompor-se. – Foi mais do que apenas divertido. É nisso que tenho andado a pensar o dia inteiro. Afasta os cabelos do pescoço, a revelar o grande vergão escarlate que lhe infligi com os dentes. Continuo impassível, embora me sinta um animal. – Ainda bem que te deixei marcas para poderes recordar, pois foi a primeira e a última vez. A noite passada foi um erro – declaro convicto. – Não podes estar a falar a sério – replica com um sorriso confiante. – Estou, sim. E a culpa foi minha. Peço desculpa pelo meu comportamento irresponsável. Assumo toda a responsabilidade – declaro em tom profissional. Mas Juliet não se dá por vencida. – Oh, deixa-te dessas merdas. Eu estava lá, sei que gostaste. Sei que adoraste foder-me sem restrições. Não tens nenhum motivo para pedir desculpa. Desejava-o tanto como tu. Desejo-te desde que te vi – confessa, e pela primeira vez apercebo-me de uma centelha de vulnerabilidade na inflexível Juliet. – Continuo a desejar-te. E sei que também me desejas – afirma, a levantar para mim os olhos sob as pestanas maquilhadas. O que está em causa não é desejá-la. É o facto de que não a devia desejar, esse é problema. Juliet é uma mulher perigosa e quando estou com ela vejo o perigo subir a alturas impensáveis. O cérebro ordena-me que a ponha na rua, mas o corpo traiçoeiro segreda-me que, se já não é minha paciente, onde está o mal em dois adultos se satisfazerem? Juliet avança um passo na minha direcção. Não há dúvida de que sentiu a incerteza em que me debato. Não fujo, embora saiba que o devia fazer. Com um gesto casual, desaperta a faixa que lhe


rodeia a cintura e despe a gabardina castanha. A gabardina cai-lhe aos pés calçados com sapatos agulha. Juliet avança mais um passo. – Não estejas zangado comigo. Deixa-me recordar-te como foi excitante estarmos juntos. Percorre-me o peito com a ponta da unha pintada de encarnado. – Juliet – protesto sem convicção, mas no momento em que me deita a mão ao membro em erecção percebo que fui vencido. – Podes dizer que não, Dixon, mas o teu corpo diz que sim. Esfrega-me com força, e o corpo traidor sucumbe. Não tarda a ajoelhar-se diante de mim e a puxar-me as calças para baixo. O membro intumescido denuncia a minha excitação. – Fazes ideia de como isto dentro de mim me soube bem a noite passada? – pergunta, a deslizar a mão a todo o comprimento dele. – Diz-me – exijo, incapaz de afastar os olhos enquanto ela me masturba. – Não é melhor se te mostrar? – sugere, e no momento em que o envolve com os lábios cor de rubi, todas as hesitações são atiradas pela janela e entrego-me ao capricho da raposa matreira. A boca experiente desliza pelo membro em movimentos precisos e não consigo evitar um gemido, já que nunca me fizeram um broche tão bom. Movo os quadris para a frente e atiro a cabeça para trás quando lhe atinjo o fundo da garganta. Engole-me sem a menor dificuldade. – É isto, foda-se. Porra, és tão boa – arquejo, a tentar refrear uma ejaculação prematura. – Mais fundo, mete mais fundo. Esta mulher é uma rainha do broche e não me sinto repugnado por isso, embora digam que é a prática que gera a perfeição. Nada mais conta quando me agarra a cintura, a sincronizar o aperto dos dedos com os movimentos da boca deliciosa. Quanto mais força põe no chupão, mais depressa agito os quadris, e não tarde que lhe foda a boca a uma velocidade desesperada. Quando procuro afastar-me, com receio de a magoar, agarra-se com mais força e pega-me no membro. A fricção da mão, conjugada com a velocidade da boca, é de mais para mim, e estou a segundos de me vir. Apercebe-se da minha necessidade premente e segura-me com mais firmeza, a criar com a boca uma intensa sucção, e após mais dois chupões profundos deixo-me vergonhosamente vencer. Tento recuar, mas ela continua a lamber e a acariciar e depois de mais uma entrada profunda não tenho alternativa senão explodir dentro da boca dela ao mesmo tempo que amaldiçoo a minha fraqueza. Espreme-me até não deixar nada e só me larga quando um último espasmo me sacode o corpo. Acabo de gozar o melhor broche de toda a minha vida e no apartamento que partilhei com a mulher que amava. O mesmo apartamento onde tinha jurado que nunca mais deixaria entrar uma mulher. Se experimento algum sentimento de culpa? Não, porra.


Capítulo 8 Como um furacão

Madison – Maddy, detesto dizer-te isto, mas parece-me que ele não vai aparecer – diz Mary Mitts, a minha melhor amiga, enquanto vai limpando a mesa nove. – Não podes saber – contesto, mas o comentário realista arranca-me da contemplação da porta de entrada. – Nem combinámos a hora. Pode ser que tenha surgido algum contratempo e venha a caminho, ele só disse que vinha esta noite – declaro, a inventar desculpas para a ausência de Dixon. – Bem, já é amanhã – observa Mary, a olhar para o relógio. – Não estás a ajudar, Cordeirinha – respondo, a usar a alcunha que lhe conhecia desde que éramos miúdas. – Desculpa, mas que raio de amiga seria eu se não tomasse conta de ti? Só não quero ver-te sofrer – diz, e sei que se refere a Tim, que não deixa de me perseguir, o mesmo de quem Dixon me livrou na noite em que nos conhecemos. – Eu sei, mas Dixon é… – Não te atrevas a dizer que é diferente – avisa Mary, a admoestar-me com um dedo, enquanto reprimo um sorriso. – Mas é – insisto, e baixo a cabeça para não levar com uma base para copos. – Não é, não. É um homem, portanto tem uma coisa entre as pernas – declara Mary, mas não a levo a sério. Aquele azedume é passageiro, acaba de romper uma relação e foi bastante desagradável. – Cordeirinha, nem todos os homens são porcos. Ele não tinha de se intrometer quando Tim me estava a incomodar, mas fê-lo. Nem pensou duas vezes. Se isso não é a prova acabada de que não é nenhum porco, então não sei o que possa ser. – Deixa-te disso, são as tuas hormonas a falar. Aquele homem tem escrito «sarilhos» na testa com um S maiúsculo. Isto para não dizer que deves ter metade da idade dele – conclui, a prender os cabelos cor de fogo num rabo-de-cavalo mais apertado. Não posso evitar uma gargalhada, pois não tenho metade da idade dele. Aposto que anda pelos trinta e poucos, mas não é por causa da idade que passo os dias a pensar nele. Contudo, os olhos azul-cintilantes e o cabelo revolto, de um castanho cor de chocolate têm que se lhe diga. – Concedo-lhe mais trinta minutos. Se não aparecer, esqueço que alguma vez conheci o doutor Dixon – declaro sem convicção. – Ah, ah – replica Mary, que não acredita na promessa. – Mais uma vez, são as tuas hormonas a falar.


Respondo-lhe com um gesto obsceno e ela deita-me a língua de fora antes de se virar para servir a mesa doze. Continuo a limpar a mesa imaculada, de olhos postos na porta, pois sei que pode aparecer a qualquer momento. Tem de aparecer. Passam-se mais vinte minutos, e nem sinal de Dixon. Já são duas da manhã e estou a fechar a porta, desejosa por ir para casa e esquecer o dia de hoje. Nem quero acreditar que me deixou pendurada. É verdade que não tínhamos combinado uma data específica, mas estava mais ou menos implícito. Tinha realmente pensado que ele era diferente, pois é notório que entre nós existe qualquer coisa. Sei que sentiu o mesmo, e pelos seus olhares mal disfarçados tenho a certeza de que se sente atraído por mim. Por outro lado, pareceu-me que naquela manhã se escapava do apartamento de alguém e depois queria despedir-se de mim com um toque de punhos fechados. Se calhar ando a ver coisas, Deus sabe como é limitada a minha experiência nestas situações. Nunca tive um namorado a sério. Tim não conta. Encontrávamo-nos uma vez por mês e ao fim de dois encontros já tinha percebido que aquilo não dava nada. Mas Tim tinha outra opinião e era por isso que estava tão irritado naquela noite em que conheci Dixon. Exigia que lhe desse outra oportunidade. Quando o mandei às urtigas, insistiu para que «lho desse» como se a nossa relação não funcionasse por falta disso. Respondi-lhe que não, ele assumiu uma atitude um tanto agressiva e foi então que Dixon apareceu para salvar o dia. Além de não me sentir de modo algum atraída por Tim, não sei se alguma vez estarei pronta para «o dar». Sou boa a ocultar as minhas emoções e sentimentos, sempre fui. Mas quando Dixon me disse que era psiquiatra dei por terminado o estratagema. Estive para me levantar e sair, mas fugir do primeiro homem que me despertava algum interesse pareceu-me um disparate. Além disso, tinha prometido a mim mesma que nunca mais deixaria que o passado me tolhesse. Ainda bem que fiquei, já que pela primeira vez na vida gostei da companhia e não passei o tempo a olhar para o relógio nem a espreitar por cima do ombro. Com Dixon, senti-me viva e em segurança. Apago as luzes e tranco a porta. Quando vivemos em Nova Iorque habituamo-nos a um milhão de trancas, e preciso de dois minutos para descobrir qual é a chave que fecha o quê. Ainda vou a meio quando alguém me bate no ombro. Assusto-me e solto um grito, aterrorizada. – Sou eu, Madison. Que merda, desculpe, não a queria assustar – diz uma voz conhecida. Viro-me tão depressa que quase caio de cu. – Dixon? – pergunto num guincho abafado, a levar a mão ao coração aflito. – Que está aqui a fazer? Os belos olhos azuis evitam-me, e responde, envergonhado. – Disse que passava por cá. Desculpe ter vindo tão tarde.


– Veio a correr? – pergunto estupidamente. – Bem, vim a andar depressa – confessa com um sorriso enviesado, enquanto faz rolar uma pedra debaixo da sapatilha. O cabelo húmido nas têmporas revela que foi mais do que um passo acelerado, mas procuro não me alegrar com o facto de ter feito o percurso a correr só para vir ter comigo. Dirijo a Mary um «Bem te tinha dito», viro-me e acabo de fechar a porta, mas preciso de um minuto para dominar os nervos em brasa. Não consigo deixar de pensar por onde terá andado, pois não me parece vestido para o trabalho e tem ar de quem veio a correr de casa para aqui. O que terá andado a fazer até às duas da manhã? E, ainda mais importante, com quem terá estado? O pensamento obriga-me a imaginar cenários e posições desagradáveis, mas obrigo o meu espírito desconfiado a deixar-se de teorias de conspiração, ao menos por esta noite. – Espero que não tenha ficado com dor de flato – observo, a provocá-lo, para animar a conversa. Dixon solta uma gargalhada trocista. – Fui atleta de corta-mato durante o secundário. – Aí, a palavra que conta é «fui» – replico a virar-me para ele. – E para si o secundário já lá vai há muuuito tempo. – Quer apostar? Sorri, e Deus meu, como é belo. – Com certeza. Cruzo os braços sobre o peito, na esperança de que os batimentos desordenados do meu coração não o façam explodir no peito. – Disse que corria todas as manhãs. Pois bem, desafio-a para uma corrida – propõe, a erguer uma sobrancelha num gesto altaneiro. – Marque o lugar e a hora, doutor Dixon – replico audaciosa. – Amanhã, às seis horas, no Central Park. Quem correr uma milha mais depressa é o vencedor. – Ponha duas milhas – corrijo, arrogante, mas depressa me arrependo do excesso de confiança. Dixon parece impressionado. – Muito bem, duas milhas. Encontramo-nos em North Meadow? – Está bem. Qual é o prémio do vencedor? – pergunto, a dar livre curso à minha veia competitiva. Dixon bate no queixo, imerso em pensamentos. – O vencedor tem direito a um pequeno-almoço de luxo, pago pelo vencido. – Já me deve um pequeno-almoço, Doc. Não consigo comer dois no mesmo dia. A minha confiança suscita-lhe uma curta risada. – Muito bem. Passa a ser um jantar. – Um jantar está bem. Espero que tenha poupado uns cobres, pois tenciono encomendar lagosta – digo em tom provocante e a esfregar as mãos. – Isso ainda está para ver. Ri, e fico satisfeita por ele apreciar o meu humor de mau gosto. – Bem, dito isto, o melhor é ir para casa fazer o meu sono de beleza. Boa noite, Dixon.


Meto a mão na carteira, à procura das chaves. – Onde estacionou? Acompanho-a até lá – prontifica-se de imediato. – Não é preciso. Está mesmo aqui, ao virar da esquina. – Por favor, faço questão – e começa a andar sem me dar tempo a protestar. Sigo-o com um sorriso nos lábios, estranhamente feliz por aquele homem tão sedutor me acompanhar ao automóvel, um automóvel de que não preciso, mas que possuo por causa dos meus temores. Caminhamos em silêncio, imersos nos nossos pensamentos, e sinto uma vontade desesperada de lhe perguntar onde esteve esta noite, embora não tenha nada com isso. Mal nos conhecemos. Nem somos amigos, mas a verdade é que quero saber. Senti qualquer coisa logo da primeira vez que o vi, mas tenho a certeza de que a um homem como Dixon o que não falta são atenções femininas para lhe satisfazer as necessidades, e estou a pensar em mulheres, não em virgens inexperientes e traumatizadas. – Está tudo bem por aí? – pergunta, a interromper as minhas cogitações. – Sim, porquê? De repente, fiquei com medo de que fossem transparentes. – Porque está muito calada, o que não é bom sinal. – Só estava a pensar onde gostaria de ir jantar – respondo em tom trocista, na esperança de disfarçar a insegurança e a fazer disparar o alarme do meu Fiesta. – Eu sou assim. Então, até daqui por algumas horas. Retorço entre os dedos a correia da carteira, sem saber o que fazer a seguir. É a segunda vez que se desencadeia entre nós uma estranha corrente eléctrica, e percebo que ele também a sente porque me olha insistentemente para as mamas. Mas eu não sou assim. Não sou do género de me sentir à vontade com o sexo oposto, nem de me importar se gostam ou não gostam de mim. No entanto, com Dixon é o que sinto. Sem saber porquê. – Bem – diz ele, a limpar a garganta. – Voltamos a ver-nos esta manhã. Retraio-me, à espera de que não queira outra vez despedir-se com um toque do punho cerrado, mas surpreende-me quando se adianta para me afastar uma madeixa da cara. Em condições normais teria recuado, mas o que me apetece é encostar a mão à cara dele. Contudo, não o faço. – Boa noite, Dixon – despeço-me num murmúrio. – Boa noite, Madison. Vira-me as costas e só nesse momento volto a respirar.


Capítulo 9 Sobremesa

Madison São cinco e meia da manhã e estou feita em merda. Não sei por que raio concordei em correr de manhã cedo, e para mais a um domingo. Tenho a sensação de que diria que sim a quase tudo o que Dixon me pedisse. Vesti-me para estar confortável, sem cuidar da elegância, pois tenciono correr como o vento até à meta. Fui abençoada no que diz respeito a mamas, e tenho uma prateleira razoável para um corpo tão magro. No entanto, enquanto a maioria das raparigas ficaria encantada por ter um par de tetas assim, para mim é uma maldição. Estendo a mão para agarrar a garrafa da água e as chaves, fecho a porta e desço a escada. Quando chego à rua ando em passo rápido, pois tenho medo de circular àquela hora, quando ainda não se vê ninguém. Mas já fiz vinte e três anos e decidi que a partir deste ano os esqueletos que tenho no armário vão deixar de me perseguir. Durante mais de metade da minha vida vivi com um segredo que nunca revelei a ninguém, nem à minha mãe, a quem amo mais do que à vida. Embora sejam segredos impossíveis de desvendar, tenho a sensação de que, de uma maneira ínvia e retorcida, foram eles que me moldaram na mulher que estou determinada a ser. Atravesso a rua, deixo para trás a nostalgia e concentro-me em encontrar Dixon. Procuro na entrada principal, mas não o vejo em lado nenhum. Deve estar atrasado. Dou início ao aquecimento. Viro a cabeça para a esquerda, para distender os músculos do pescoço. Pelo canto do olho, apercebo-me da presença de Dixon. Quem se prepara para uma corrida de duas milhas não devia ter tão boa aparência, mas é o caso dele. Traz uns calções largos, de corrida, e uma T-shirt branca, que embora banais, o fazem parecer um modelo que vai desfilar na passadeira. O corpo musculoso é agora mais evidente, pois não traz calças nem casaco e – meu Deus – quando estica os braços acima da cabeça a T-shirt sobe-lhe pelo corpo, a deixar ver os abdominais duros e esculturais. Os olhos podem ter-me enganado, pois ainda está a alguns passos, mas tenho a certeza de que entrevi uma tatuagem no flanco. A ideia faz-me encarquilhar os dedos dos pés, pois a imagem torna o doutor Dixon muitíssimo mais sexy. Deixo de me babar e dirijo-me a ele, determinada a acalmar as pulsações aceleradas, pois ainda não comecei a correr. – Ainda não é tarde para desistir, sabe? – interpelo-o a alguns metros de distância.


– Isso só nos seus sonhos – replica com um sorriso enviesado. Quando me olha, os seus olhos adquirem um fulgor de apreço. O meu aspecto é o mesmo de sempre, quando corro. Nada de maquilhagem, o cabelo comprido apanhado num rabo-de-cavalo e roupa da mais simples, mas é impossível negar que me avalia descaradamente. Talvez goste de mim. A ideia aquece-me as entranhas, mas deixo de parte as minhas fantasias imaturas e apresso-me a dizer: – Então, está pronto para levar uma ensaboadela? Dixon sorri, e graças a Deus os seus olhos readquirem a bela tonalidade azul normal. – Dê o seu melhor, menina. A arrogância dele empolga-me. – Então, quais são as regras? – pergunto, ao mesmo tempo que vou flectindo os joelhos. Dixon programa o relógio caro. – O zoo fica mais ou menos a duas milhas daqui. Movo a cabeça, a concordar. – Pois bem, o primeiro a chegar ao zoo é o vencedor. Ah, e temos de fazer o mesmo percurso – acrescenta com um sorriso, para o caso de me sentir tentada a tomar um atalho. – Só isso? – pergunto, desconfiada, a erguer uma sobrancelha. – Só isso – confirma, e volta a sorrir. Coloca-se ao meu lado e fita-me com um sorriso irónico. – Devo avisar que não gosto de perder – confessa, a mirar-me da cabeça aos pés. – Que engraçado, eu também não. Encontramo-nos do outro lado…vencido. Arranco em velocidade e Dixon fica para trás, sobre a nossa linha de partida improvisada. Ouço-o a perseguir-me e acelero mais o ritmo. Para mim, os primeiros metros são sempre os mais difíceis, mas assim que encontro o meu ritmo sou capaz de correr milhas. Pode dizer-se que comecei a correr para fugir aos meus demónios, mas por muito rápida que seja sinto-os sempre a morder-me os calcanhares. – Para que saiba – diz Dixon a chegar-se a mim – deixei-a tomar avanço. Mantemos uma passada certa, o único som que se ouve é o da nossa respiração e ainda bem, pois se falássemos era capaz de me perder na sua voz profunda e rouca. Concentro-me na maneira como o meu corpo se sente vivo, com o sangue a bombear-me nas veias e a estimular todos os meus movimentos. Corremos lado a lado e em silêncio durante alguns minutos, até que Dixon acelera e toma a dianteira. Deixo-me ficar para trás, a poupar energias para a última meia milha. Além disso, lá atrás consigo apreciar-lhe as pernas musculosas e o traseiro firme. O homem é uma obra de arte e não consigo evitar imaginar qual seria a sensação de lho apalpar. – Já está cansada? – pergunta, trocista. Vira-se, corre para trás e fica a ver-me passar por ele. – Estou só a ser generosa. Não quero ultrapassá-lo demasiado cedo – digo num sopro.


Dixon ri e retoma a corrida, com o cuidado de não me abalroar. Resolvo apanhá-lo, pois começa a ganhar-me um avanço significativo, comigo lá atrás, distraída na contemplação do traseiro excitante. – Portanto – ofega, sem deixar de olhar em frente – há quanto tempo corre? – Há perto de nove anos – admito, mas não digo porquê. – É bastante boa – reconhece. Olho para ele e dirijo-lhe um sorriso satisfeito. – Está surpreendido? Sacode a cabeça. – Absolutamente nada. A minha mãe ensinou-me a não presumir nada quando se trata de mulheres. Não consigo evitar uma gargalhada soprada do peito. – A sua mãe deve ser uma senhora esperta. – Era – diz Dixon, e não me escapa o uso do pretérito. – Já faleceu – explica. – Há seis meses, de cancro da mama. – Oh, Dixon, lamento imenso. – E cava-se-me uma ruga na testa, pois a ideia de perder a minha mãe rasga-me um buraco no peito. – Obrigado – responde com um sorriso triste. – Então, é só você e o seu pai? – Humm, sim – responde, após uma pausa intrigante, mas deixo passar. Percebo quando um assunto é desagradável. – Então e você? – pergunta inocente, sem imaginar que aquela pergunta é o meu pior pesadelo. – E eu o quê? – pergunto em tom casual. – Tem irmãos? – Tenho um irmão mais velho. Mas somos só eu e a minha mãe. – Então e o seu pai? – Foi-se embora quando eu tinha cinco anos. Nem me lembro dele – respondo sem levantar os olhos do caminho. –Deve ter sido difícil. – Não teve importância, a minha mãe não podia ser melhor. Foi minha mãe e meu pai. Tenho sorte em ter uma mãe assim. Somos muito chegadas. Sinto-me bem ao partilhar com ele informações sobre o meu passado. – Parece ser uma senhora extraordinária – observa Dixon, e eu confirmo com um aceno de cabeça. – É mesmo – respondo com sinceridade, pois antes de a minha mãe voltar a casar vivemos momentos bastante difíceis. – Então o mano mais velho não tomou conta da maninha? – pergunta Dixon. Sei que a pergunta é inocente, mas a simples alusão ao meu irmão faz-me tropeçar, caio, amparome com as mãos mas bato com a testa. – Merda! Sente-se bem? – pergunta.


O som da voz dele mescla-se com o zumbido nos meus ouvidos. Não estou bem, tenho a certeza disso, mas aceno. Sinto o cérebro às voltas dentro da cabeça, como se a tivesse cheia de berlindes. Caí para a frente, sinto-me embaraçada e envergonhada por estar esparramada no chão, e procuro levantar-me, mas Dixon avisa-me. – Não, não se levante demasiado depressa, você bateu com a cabeça. – Estou bem. Afasto-o com o gesto, mais preocupada com o facto de ter de olhar para ele do que com a cabeça magoada. Meio sentada, percebo que Dixon se acocora a meu lado. Abre os olhos e abafa um «Ah» de espanto. – Porra, você está a sangrar. Sem me dar tempo a protestar, despe a T-shirt e comprime a peça deliciosamente perfumada contra a minha testa. Solto um pequeno grito no momento em que me toca no sobrolho ferido, e ele estremece e alivia a pressão. – Desculpe – diz, e examina-me a têmpora com um olhar intenso. – Está tudo bem – murmuro, deliciada por senti-lo tão perto, e de tronco nu. Esforço-me para não olhar, mas é difícil, pois ele é espantoso. Um peito sem pêlos, musculoso e bem delineado, está a poucos centímetros da minha cara. Quando baixo os olhos, verifico que os únicos pêlos visíveis são os da leve penugem em volta do umbigo, que desce para o cós dos calções. Aqueles músculos deviam ser proibidos, e nem me atrevo a tocar naquele V bem desenhado que me faz esbugalhar os olhos. – De certeza que se sente bem? – pergunta atencioso Dixon, a arrancar-me ao transe. – Estou sim – gaguejo, a levantar os olhos para ele. O rosto anguloso e forte exprime inquietação, e no momento em que julgo não poder obcecar-me mais por este homem, sinto-me ainda mais atraída por ele. Dixon retira a T-shirt suja de sangue e examina-me a ferida com atenção. – Não creio que sejam precisos pontos, mas vai ter uma dor de cabeça dos diabos durante um ou dois dias. – Nada que um pouco de Advil não resolva – respondo com um sorriso, e a sentar-me numa posição mais confortável. Dixon agarra-me pelas axilas para me amparar, e agradeço o apoio, pois ainda sinto a cabeça às voltas. – Parece que sou eu a pagar – digo. Procuro ignorar as reacções do meu corpo ao contacto das mãos de Dixon. – Bem, do meu ponto de vista, a vencedora foi você. – Como assim? – pergunto, sem perceber o raciocínio dele. – Pouco antes de você mergulhar graciosamente contra o asfalto… – estico o braço para lhe dar um soco afectuoso, mas ele esquiva-se – … estava quase a desistir.


– Não estava nada, seu mentiroso. Dixon ri e leva a mão ao coração, a fingir sinceridade. – Estava, sim. Este corpo velho não está à altura de competir com a sua juventude. Ganhou com toda a justiça, Madison. Não engulo aquela patranha nem por um segundo, mas ele é tão adorável que não quero contrariá-lo. – Não me quero sentir mal, parece que estou a fazer batota. E que tal se você pagar o jantar e eu a sobremesa? – sugiro, à espera que ele diga que sim, ansioso por prolongar o tempo que passo com ele. Dixon simula reflectir sobre a minha proposta e responde com um sorriso enviesado: – Não é fácil negociar consigo, mas penso que é justo. Abstenho-me de manifestar a minha satisfação, já que todos os movimentos me aumentam a dor de cabeça. – Fica então combinado. Escolha o dia. Não quero parecer apressada sugerindo que pode ser já esta noite. O coração sobe-me à garganta quando Dixon propõe: – Pode ser amanhã à noite? Aceno com a cabeça para não lhe mostrar o meu sorriso ridiculamente excitado. – Para mim está bem. Dixon sorri e ergue-se a toda a sua altura dominadora e desnudada. Estende-me a mão, que aceito, agradecida, e levanto-me devagar, pois ainda me sinto bastante tonta. De pé, frente a frente, o meu espírito hiperactivo invoca imagens de aconchego e abandono contra aquela pele bronzeada e macia. Afasto esses pensamentos, um pouco envergonhada por Dixon estar seminu por minha causa. Uma mulher passa por nós a correr sem disfarçar a admiração pelo deus seminu que lhe surge diante dos olhos. Sou assaltada por uma inesperada sensação de ciúme e faço o possível para não a olhar provocadora, pois não tenho esse direito. Dixon parece não dar por nada. Mete a mão no bolso e retira um cartão profissional enrugado. – Já não tenho pretexto para correr à noite – observa com ar desgostoso, e percebo que alude à noite anterior. Aceito o cartão, mas como não tenho outro sítio seguro para o guardar, enfio-o no soutien, um hábito que adquiri ao correr sem bolsos. Nada tem de especial, mas quando olho para cima apercebo-me do olhar guloso de Dixon, que não parece da mesma opinião. Afasta o olhar com um trejeito de culpa e fixa-se nos meus olhos. – Lembre-me para nunca pedir que procure o que me pertence – diz, meio a sério, meio a brincar. – Porquê? – pergunto, com um sorriso. – Porque sou capaz de deixar escapar a mão – responde em tom atrevido, e por pouco não me engasgo com a língua. Mal sabe ele como as suas mãos são sempre bem-vindas.


Capítulo 10 A desconhecida

Dixon Em conclusão: ou sou o mais esperto ou o mais imbecil dos sacanas que andam por este mundo. Aposto na última hipótese. Consegui meter-me num sarilho danado que envolve o meu interesse por duas mulheres. Ainda há duas semanas, o facto de me interessar por uma dava-me vontade de rir, mas aqui estou eu, passadas algumas semanas, sentado à secretária e a bater na cabeça com os punhos fechados sem saber que raio hei-de fazer. Depois de ser cavalgado por Juliet até vir a mulher da fava-rica, fiquei exausto e dormi como um cepo. A única coisa que me acordou foi um carro de bombeiros a passar a toda a velocidade, pouco depois da uma da manhã. Quando o meu cérebro entorpecido pelo pós-coito e pelo sono resolveu pôr-se a funcionar, percebi que tinha falhado o compromisso com Madison, com quem tinha combinado encontrar-me para trocarmos números de telefone e conversar um pouco. Fui assaltado por uma sensação de arrependimento, e antes de saber o que fazia dei por mim a correr como um louco para o bar onde trabalha. A pergunta que me faço é: porquê? Porquê este sentimento de culpa? Seis horas antes dormi com outra mulher. Se tivesse de me sentir culpado de qualquer coisa seria por ainda ter o cheiro de Juliet agarrado ao corpo quando me encontrei com Madison. Mas com Juliet era apenas uma questão de sexo; com Madison, bem, era mais do que isso. A solução óbvia para o caso seria dizer à senhora Harte que se pusesse a milhas e ver o que acontecia com Madison. No entanto, não consigo. O sexo sem complicações é muito mais fácil do que uma relação. Além de que tenho a sensação de que uma relação com Madison não seria fácil. Pode ser instinto de médico, mas tenho a intuição de que há muitas coisas por detrás daquele sorriso doce. Afinal, o que quero? Sexo? Uma possível relação? Neste momento oferecem-se-me as duas hipóteses, mas não sei qual delas me atrai mais. Sei que tudo isto é consequência da dolorosa ruptura com Lily, aquela cabra. Todavia, sou tão culpado como ela. É verdade que nunca a obriguei a foder com o meu melhor amigo, mas não cuidei das feridas emocionais em devido tempo e vejam agora aquilo em que me tornei: um tipo avesso a compromissos. Massajo as têmporas. Hoje não me sinto em condições para dar conselhos a quem quer que seja. O mais sensato seria tirar uma tarde de folga. Quando estou quase a ligar para a senhora Vale para


lhe pedir que cancele o resto das consultas do dia, entra ela em contacto comigo pelo intercomunicador. – Doutor Mathews! A voz dela soa frenética, o que não é nada habitual. – Sim, senhora Vale? Passa-se alguma coisa? – apresso-me a perguntar. – Doutor Mathews, está aqui uma paciente que não tem consulta marcada mas que insiste em falar consigo. Percebo que Susanna tapa o microfone e se dirige à pessoa em causa para lhe dizer com toda a clareza que se quer falar comigo tem de marcar uma consulta. – Não faça isso, minha senhora! Não pode entrar! – grita Susanna, e antes de perceber o que está a acontecer a porta escancara-se e uma Juliet histérica irrompe pelo gabinete. Susana vem atrás dela, com uma expressão a um tempo preocupada e de irritação, mas acalmo-a com um gesto. Juliet está fora de si. – Peço imensa desculpa, doutor Mathews. Ela entrou por aqui dentro – justifica-se Susanna a lançar sobre a chorosa Juliet um olhar de censura. – Não há problema, senhora Vale. Por favor, feche a porta quando sair. Olha-me, um tanto confusa, mas faz o que lhe peço, pois sabe que não uso meias palavras. Assim que a porta se fecha, fico de pé atrás da secretária, a observar Juliet, que chora sem parar. Não me movo, pois não sei o que fazer. Profissionalmente, não a abraço nem a tento acalmar, pois não sou amigo dela. Mas enquanto amante é isso que devia fazer. É por estas coisas que nunca nos devemos envolver com as nossas doentes. – Juliet, o que se passa? – pergunto sem sair de trás da secretária, a servir-me dela com uma barreira. – O que te parece? Hoje tudo me corre mal como a merda! – replica a fitar-me com os olhos manchados de lágrimas. Tossico para limpar a garganta, ajeito o nó da gravata, rodeio a secretária e aponto para o sofá. – Senta-te, por favor. – Não vim cá para uma consulta, Dixon. Mas deixa-se cair no sofá e começa a fungar menos. Sento-me perto dela e ponho-lhe a mão no joelho nu. – Que aconteceu? Por que estás tão transtornada? – Por muito que tente, nunca sou suficientemente boa – murmura, e baixa o rosto, com o lábio a tremer. – Suficientemente boa para quem? – pergunto sem elevar a voz. – Para… para toda a gente. A ligeira pausa faz-me pensar no que quereria dizer. – Não é verdade – contesto. – Tens de acreditar em ti, Juliet. Percebo que na circunstância pareça um disparate. Mas qualquer homem se consideraria um sortudo por merecer o teu afecto. – Achas?


Levanta a cabeça, ainda a fungar. – Eu sei – confirmo. – Todos os prémios que vês na parede provam que sei o que estou a dizer – acrescento com um sorriso, na esperança de lhe levantar o ânimo. Mas ri e leva a mão à carteira para tirar um lencinho. Enquanto limpa os olhos, pergunto-me o que estará na origem daquilo. O médico que há em mim desapareceu e falo com ela como seu amante. – Posso fazer alguma coisa? – pergunto, enquanto lhe afasto da cara uma madeixa de cabelos louros. – Talvez pudéssemos conversar, não? É a primeira vez que a vejo vulnerável e tenho de admitir que lhe fica bem. – Sim, pode ser – respondo, e dou-me conta de que nada sei a respeito dela. Sei como fazê-la vir em cinco segundos com a minha boca. Sei como gosta de ser fodida, mas na verdade não sei quem ela é e desconheço as suas preferências não relacionadas com o sexo. Pensei que fosse feliz apenas por foder este e aquele, mas esse foi um erro meu, nunca devia ter presumido nada. Uma vez mais, parece que a minha mãe tinha razão. – Podemos tomar um café depois do trabalho? Neste momento, a Juliet Harte que julgava conhecer faz-me meter no cu as minhas convicções e a pessoa que tenho diante de mim é-me desconhecida. E é esta desconhecida que estou interessado em conhecer melhor. – Com certeza – respondo, a acenar com a cabeça. Devo-lhe isto. Juliet inspira fundo e passa as mãos pelo cabelo e pelo rosto. – Peço imensa desculpa por ter entrado de rompante como uma louca. Devia ter telefonado antes. – Não faz mal, está sempre a acontecer. Faço um sorriso irónico e ela solta uma gargalhada, o belo rosto já limpo de lágrimas. – Bem, vou-te deixar trabalhar. – Levanta-se e alisa o vestido. – Encontramo-nos por volta das sete? – Parece-me bem – respondo, também a levantar-me, e com as mãos enfiadas nos bolsos. – Bem, então até logo. Apanha-me desprevenido, dá um passo em frente e abraça-me. É a primeira vez que nos abraçamos, o que é ridículo e uma vergonha, já que por mais de uma vez lhe abracei as entranhas. Retiro as mãos dos bolsos e quando correspondo ao abraço sou surpreendido pela sua estrutura frágil e vulnerável. Não é esta Juliet a que estou habituado, e tenho a sensação que levarei algum tempo a consegui-lo. Afasta-se e despede-se de mim com um beijo casto na cara. Embaraçado, fico a vê-la sair do consultório, pois aquela mulher tem a aparência de Juliet, mas não é a Juliet que conheço. Sento-me à secretária, ainda estupefacto com o que acabo de presenciar. No momento em que conheci Juliet, percebi que aquela mulher era um furacão. Mas agora, em que situação fico perante Madison?


O telemóvel emite um sinal de mensagem e acolho com agrado a distracção. Leio a mensagem e solto um gemido, a bater na testa com a mão aberta. Volto a ler e sinto-me o idiota mais chapado à face da Terra perante as palavras meigas e provocadoras. Ainda hoje não comi. Até logo. Mal posso esperar. Maddy x


Capítulo 11 Últimas palavras famosas

Madison – O que queres dizer com isso de «ele não poder»? – pergunta Mary aos pés da minha cama. Encolho os ombros e atiro-lhe o telefone para que ela veja a prova com os seus olhos. Lê a mensagem e solta uma imprecação. – O que quer dizer com isto de «surgiu uma coisa»? O que foi? Num caso destes, a única desculpa aceitável é ter-lhe morrido a mãe – rosna, a torcer a cara de desagrado ao pedido de Dixon para marcar outro encontro. – A mãe dele já morreu – respondo, enquanto atiro para o lado o belo vestido azul que tencionava usar esta noite. – Seja o que for! Isto cheira-me a treta! – grita, a bater com o dedo no ecrã do telefone. – Eu sei, Cordeirinha. Suspiro, pois também me cheira a aldrabice. Passaram-se três horas desde que Dixon me enviou uma mensagem a justificar-se com um impedimento de última hora para não comparecer ao nosso encontro. Pediu várias vezes desculpa e solicitou um adiamento. Além disso, não me deu nenhuma razão para não comparecer, nem sugeriu quando poderia ter lugar o novo encontro. Sinto-me tão estúpida. Nem quero acreditar que alguma vez pensei que um homem como ele se pudesse interessar por uma miúda como eu. – Sou mesmo idiota. É possível que Dixon nem pense em mim dessa maneira. Quero dizer, olha para ele e olha para mim – digo, a relancear os olhos pelo meu corpo. – Não, o idiota é ele. Vamos sair – declara Mary, furibunda. Salta da minha cama, dirige-se ao meu guarda-fatos começa a revolver as minhas roupas. – Não me apetece sair. A ideia de confraternizar com alguém é horrível. – Não tens voto na matéria – rosna Mary, com a cabeça enfiada no roupeiro. – Cordeirinha – digo em tom de aviso, mas quando ela tira a cabeça cá para fora a sua expressão é irredutível. – Está bem – suspiro e ergo os dois braços. Não vale a pena discutir com ela. – Não te vais arrepender – replica com um sorriso malicioso. Últimas palavras famosas.


Quando Mary disse que íamos sair, julguei que íamos comer uma piza ou ao cinema. Não percebi que queria dizer mesmo sair. Estou sentada a uma mesa sobranceira a um grande salão de dança, deslocada, arrancada à minha zona de conforto. Observo Mary que choca e se roça com a maior descontracção do mundo por um qualquer deus do rock cheio de piercings. Acabou há pouco tempo com Corey, o namorado dos tempos do liceu, e sei que está a sofrer, mal-grado a aparente indiferença. O homem em quem confiava e a quem entregou a sua virgindade demonstrou ser um canalha mentiroso, de modo que não levo a mal a sua rispidez. Mas gosto de imaginar que nem todos os homens pensam com aquilo que têm entre as pernas. É verdade que Dixon se portou mal ao deixar-me pendurada, mas na sua presença nunca me senti reduzida à condição de um objecto, nem que ele falasse comigo apenas com a intenção de me saltar para cima. Sentia que há qualquer coisa a unir-nos e nesse aspecto era diferente de todos os tipos que conheci. Parece que estava enganada. Estendo a mão para a tequilla e resolvo afogar as tristezas até ao nascer do Sol, uma vez que só tenho aulas amanhã ao fim da tarde. Quando já começava a sentir um zumbido na cabeça, o banco do bar ao meu lado é arrastado, e olho para quem está a roubar o assento de Mary. – Este banco está ocupado? – pergunta a meu lado um atraente desconhecido de olhos verdes. Sorrio e aceno. – De facto, está. Está a ver aquela ruiva espalhafatosa a dançar lá em baixo? – e aponto a minha amiga, neste momento assediada por um grupo de tipos interessados. O bonitão a meu lado semicerra os olhos numa frincha, a olhar para Mary. – Esse lugar é dela – concluo com um sorriso. O estranho obsequia-me com um sorriso que lhe revela uma covinha no rosto e inclina-se para me falar ao ouvido, já que a música que berra pelos altifalantes é de ensurdecer. – Não me parece que vá voltar tão depressa – diz ele, e rio porque acho que tem razão. Não sei se são os efeitos do álcool ou o facto de me sentir rejeitada pelo «adiamento» de Dixon, mas, seja lá pelo que for, estendo-lhe a mão e sorrio: – Olá, sou a Madison. – Olá, sou o David – responde o desconhecido, e tento não me arrepiar por causa de outro nome que também começa por D. – Prazer em conhecê-lo, David – digo, a recuperar da depressão causada pela recordação de Dixon. – Igualmente. Posso pagar-lhe uma bebida? – pergunta David, com as madeixas compridas a caírem-lhe para os olhos. Sorvo o que resta da tequilla. – Com certeza. David ri e sinto-me logo à vontade com ele. – Já volto – e observo-o a abrir caminho entre a multidão, bem impressionada com o que vejo.


Pode ser que ainda tenha direito a alguma esperança. Quero dizer, todas as coisas acontecem por uma razão. Pode ser que não tenha percebido qual foi a minha razão para conhecer Dixon.


Segundo acto Dois meses e meio depois…


Capítulo 12 A tarte de maçã

Dixon – O alho é cortado aos bocados ou em fatias finas? – murmuro para mim mesmo enquanto folheio a porcaria do livro de cozinha, à procura da receita de salmão confitado com pasta de caranguejo salpicado com funcho. Como pode a vida de uma pessoa mudar num abrir e fechar de olhos? Num momento, Juliet era a minha companheira de fodas, no momento seguinte é… o meu aconchego? Não sei como devo classificar Juliet, pois não é a minha namorada, mas também não é apenas um engate. Há dois meses que só durmo com ela, e a razão para tal é o facto de Juliet ser fácil. Com ela, posso prescindir de rodeios, e satisfaz todas as minhas necessidades. Diz-me que também não tem dormido com mais ninguém, o que é muito para uma ex-viciada em sexo. No entanto, concordámos que seria melhor prosseguir a terapia para o vício, pois, uma vez viciado, viciado para sempre. Também concordámos em que eu não seria a pessoa mais indicada para a função porque tudo se misturava e não me agradava ouvir-lhe dizer como ansiava por fazer um broche ao instrutor de aeróbica. Então, o que somos um para o outro? Para ser franco, não sei. Sou demasiado velho para usar a palavra «namorada», e companheira faz-me sentir gay, portanto não me refiro a Juliet senão como Juliet – a mulher com quem «ando», mas não se trata de um romance. A noite em que fomos tomar um café alterou a nossa «situação». Juliet e eu fizemos algo impensável: estivemos mesmo a conversar. É certo que pelo meio se meteu um broche, mas quando chegámos ao fim acabei a conhecer a verdadeira Juliet Harte. Devo confessar que tinha receio de desvendar o enigma por detrás daquela rata loura, mas assim que lhe arranquei a casca gostei do que vi. Também ajudou o facto de ela foder como um coelho e de me satisfazer além do que é possível imaginar. Esse momento de fraqueza foi o último que lhe vi. Juliet tornou-se recatada e confiante e, para falar com sinceridade, não sei qual das duas prefiro. As nossas conversas são por vezes insípidas e os silêncios prolongados são cada vez mais frequentes, mas quem precisa de conversar quando os corpos preenchem o vazio? O meu maior desgosto é sentir que optei por Juliet em detrimento de Madison, com quem não voltei a falar depois de ter faltado ao nosso encontro. Se nos tivéssemos conhecido em circunstâncias diferentes, as coisas poderiam ter evoluído de outro modo. Mas conhecemo-nos no


momento e no local errados, e como não sou um estupor desprovido de moral, nunca pensei em manter as duas ao mesmo tempo. Além do que nunca seria capaz de fazer com Madison as coisas que faço com Juliet. Não podia permitir que a minha depravação maculasse a sua inocência, já que o meu caralho acaba sempre por prevalecer sobre o meu bom senso. Portanto, gosto de pensar que tudo se resolveu pelo melhor e só desejo que Madison encontre alguém mais adequado para ela. Onde quer que esteja, espero que seja feliz e a dar bom uso à bolsa do soutien. A recordação continua a provocar-me frémitos na gaita já que, embora a prateleira de Juliet seja um espectáculo, a de Madison é épica. O cheiro a queimado arranca-me aos devaneios sobre as mamas lúbricas de Madison e faz-me regressar ao presente. – Merda! – praguejo, quando olho para o salmão que parece um batente de porta. O facto de estar a uma sexta-feira à noite a cozinhar para a minha não-namorada é de facto espantoso e se Hunter estivesse cá faria estalar o chicote invisível, porque é verdade: estou um verdadeiro gatinho doméstico. Mas foi por causa daquela rata que me transformei num idiota amestrado. No entanto, Hunter não está cá, já que a sexta-feira à noite passou a ser propriedade exclusiva de mim e de Juliet. A sexta-feira à noite estava reservada para os rapazes, mas Juliet adquiriu direito de precedência sobre os velhos camaradas e já me esquivei a mais saídas do que estou pronto a admitir. A minha regra alterou-se e quase desapareceu, pois Juliet já cá dormiu algumas noites. A parte melhor de ter Juliet comigo é que as recordações de Lily, às quais dantes me agarrava tão desesperadamente, se começaram a desvanecer, a ponto de já mal me lembrar dela. Sinto que a vida segue o seu curso e que está prestes a fechar-se um capítulo da minha existência. Um capítulo que já devia ter encerrado há muito tempo. Portanto, ainda que pouco convencionais, as coisas com Juliet funcionam. Nenhum de nós alimenta expectativas quanto ao futuro, o que me convém na perfeição. Mas será que me sinto feliz com a situação? E por me comportar como um sacana civilizado, monógamo e amorfo? O telefone tilinta sobre o balcão de mármore, a indicar que recebi uma mensagem. Estendo a mão para lhe pegar enquanto olho para o salmão, indeciso quanto à possibilidade de ainda o salvar. Distraído pela comida queimada, só compreendo a mensagem de Juliet depois de ler duas vezes o texto. A mensagem é directa, nenhum de nós gosta de rodeios verbais. Retida no trabalho. Encontramo-nos durante o fim-de-semana.

Porra para isto. Já é a terceira vez que está ocupada à sexta-feira, e embora não me devesse importar, a verdade é que fico um tanto incomodado. Contava jantar e beber um copo de tinto, e depois comer Juliet como sobremesa.


Agora que sei que ela não vem, sinto-me um idiota, sentado na sala com uma refeição que cozinhei para a minha ex-companheira de fodas. Se Hunter cá estivesse, havia de pôr em causa a minha virilidade e afirmar alto e bom som que não mereço ter uma picha. Este pensamento faz-me surgir uma ideia e envio uma mensagem escrita. Olho para o salmão triste e encarquilhado, pego na frigideira e despejo o conteúdo para o caixote do lixo, com o resto dos ingredientes que tinha preparado. A assobiar a caminho da casa de banho para me aprontar para a noite, percebo que é agora que me sinto feliz. – És um coirãozinho domesticado, Dixon, e tens sorte por te dirigir a palavra. Estás a ouvir-me? – declara Hunter pela milionésima vez, a puxar-me pelo colarinho para encostar a cara à minha. – Sim, homem das cavernas, ouvi-te. Agora, ou me dás um beijo ou me deixas acabar a porra da bebida – respondo enquanto me liberto das garras dele. Finch solta uma gargalhada, sem caber em si de contente por estarmos de novo juntos. – Senti a tua falta, Dix – diz, a bebericar a cerveja. Finch bebe álcool porque Heidi foi passar o fim-de-semana fora. O que só pode significar uma coisa: sarilho. – Também senti a tua falta, meu – respondo com uma palmada nas costas dele. – Já basta dessas merdas sentimentais – rosna Hunter, que bate com uma nota de vinte sobre o balcão para pagar as nossas bebidas. – Vamos lá ver umas tetas! Finch empalidece e abana nervosamente a cabeça. – Para mim, nada de tetas, obrigado. Além disso, não me parece que Juliet goste que Dixon vá a um clube de strip. – Que se foda a ninfomaníaca! – grita Hunter, a passar-nos outra rodada. – Da última vez que o inspeccionei, o Dixon ainda tinha tomates, o que não é o teu caso, Finch. Rio alto, embora não tenha a certeza a que ponto a afirmação é verdadeira. Sair com os rapazes incute-me a consciência de estar implicado numa «espécie de relação» sem saber. Não sei como nem quando aconteceu; aconteceu, e pronto. Embora a relação não seja normal, Juliet é a coisa mais próxima de uma namorada que tenho desde Lily. E não sei o que pensar. – Hunter, quando encontrares a rapariga certa, mudas de cantiga. Finch desfere-me uma cotovelada nas costelas para me incitar a defender o seu ponto de vista. – Meu, sou um parceiro mais compatível para Dixon do que Juliet – afirma Hunter em tom de chacota. – Deixa passar a novidade da rata faminta e vais ver como ele percebe que há por aí muita tarte para ser comida. – Que raio de merdas estás para aí a dizer? – pergunto, quase receoso do que Hunter possa apresentar como analogia de tarte. Nesta ocasião devia sair à liça em defesa da honra de Juliet, mas não o faço, nem sei bem porquê. Talvez por haver alguma veracidade nas palavras rudes de Hunter?


– O que acontece quando um gajo come a mesma tarte de maçã todos os dias? – pergunta ele, a erguer uma sobrancelha. – Fica diabético? – pergunta Finch, muito sério. – Não, idiota – replica desdenhosamente Hunter, de olhos postos no tecto. – Ao fim de algum tempo, a tarte deixa de ter sabor e não tarda que comeces a detestar tarte de maçã e só te apetece enroscares-te no sofá a ver episódios antigos de Friends, a pensar quando ta deram de bandeja. A analogia não podia ser mais ridícula, mas por um processo ínvio e distorcido percebo o que ele quer dizer. – Portanto, quando te fartas da tarte de maçã, na posição de missionário, é bom esclarecer – prossegue Hunter enquanto coça a cara –, começas a pensar em tarte de cereja, e como lhe tens sentido a falta. E de repente estás a imaginar as cerejas gordas e repletas de açúcar e como são saborosas, comparadas com as maçãs esmagadas que foste obrigado a comer durante os últimos dois meses. Não tarda que comeces a detestar tarte de maçã e vás à procura da tarte de cereja, esquecendo que a outra alguma vez existiu. Emborca uma golada de cerveja, concluída a analogia inspirada nas tartes. Finch parece reflectir sobre as palavras de Hunter, a tentar desvendar-lhes o significado, e quase me engasgo com a cerveja de tanto rir. – És mesmo um idiota. – Não, sou um génio. E esta noite vamos procurar uma tarte de cereja para ti – acrescenta Hunter com um sorriso malicioso. Não sei como devo reagir à ideia, quero dizer, devia sentir-me mal por fornicar uma gaja qualquer só porque Juliet não pôde vir ter comigo esta noite. Mas não temos nenhum pacto de exclusividade. Esta «coisa» com Juliet tem vindo a insinuar-se no meu espírito e a gritar-me «coirãozinho domesticado», e de repente não gosto. Embora não esteja interessado em comer «tarte de cereja», não penso que venha mal ao mundo em observar o que há aí para ver. Hunter emborca de um trago o resto da cerveja e solta um grito de satisfação quando percebe que me decidi. Quanto a Finch, parece ter percebido a analogia. – Porra, Hunter! És mesmo um filho-da-puta desgraçado – diz em tom enojado. A gargalhada de Hunter esmorece e ergue uma sobrancelha trocista. – Achas que sou mesmo uma desgraça? Nem queiras saber o que acontece quando se come tarte de noz-pecã todos os dias. Finch morde o isco, e mordo o lábio para não rir. – O que acontece? – pergunta, a cair na esparrela. – Ficas viciado em nozes – explica Hunter com um sorriso irónico. – E dentro de pouco tempo só pensas em nozes. Tens nozes na boca. Nozes na cara. Nozes na língua. Nozes no fundo da garganta. Não aguento, e rio até às lágrimas. Finch fica branco como a cal. Por fim percebeu. Deita-lhe um olhar furibundo e eu dou um soco amigável no meu amigo. Somos mesmo uma cambada de doidos.


Capítulo 13 A Tarte de Cereja

Dixon Não tinha percebido quanto me faziam falta aqueles idiotas, mas agora, quando deambulamos juntos pela cidade, sei que as sextas-feiras estão de regresso para a rapaziada. Desliguei o telefone. Sou homem o suficiente para dizer que me senti tentado a olhá-lo uma ou duas vezes, mas a ridícula analogia de Hunter com a tarte de maçã forçou-me a não ceder, portanto somos apenas nós os três – além de mais um milhar de pessoas a apinhar o clube. Por ironia, o nome do clube é Cherry Pop. É um clube novo que abriu há pouco tempo em Manhattan, e a bodega musical que está na moda e berra pelos altifalantes faz-me sentir saudades de umas boas baladas de rock dos anos de 1980. Olho para as mulheres escassamente vestidas e para os machos metrossexuais e sinto necessidade de outra bebida. – Importas-te de me dizer onde estamos? – protesto em tom petulante para Hunter, que se delicia com o festim de carnes jovens que tem diante dos olhos. – És cego? – replica, desdenhoso, a agitar a mão à frente da cara para indicar as raparigas de idade pouco superior à legal que se agitam ao ritmo daquela música nojenta. – Não sou cego ao ponto de pôr a mão numa dessas miúdas. – Engulo a bebida de um trago e contorço-me numa careta. – Porra, que até o uísque é atroz. – Anima-te, não sejas bota-de-elástico. Ainda não há muito tempo me lembro de não teres pruridos em pôr as manápulas em cima de uma certa miúda – diz Hunter, a referir-se a Madison. – Isso é diferente. Em primeiro lugar, não era menor, e em segundo lugar tinha muito mais classe do qualquer dessas gajas que andam por aí. – Hmmm, Dixon – diz Finch e viro-me para olhar para ele, sentado no banco alto e a semicerrar os olhos na direcção da pista de dança. – O que é? Não sei o que o possa ter intrigado tanto. – Aquela não é a tua miúda? – pergunta, a apontar com o dedo. – O quê? – Ofegante, exploro com o olhar a zona da sala que indicou. – Não pode ser. A gargalhada de Hunter à minha esquerda diz-me que sim, que é possível. – Porra! A Tartinha de Cereja parece ter crescido. Dou-lhe uma palmada no peito sem afastar os olhos da pista, pois neste momento Madison está mesmo à minha frente. O corpo, que me pareceu incrível, está agora ainda melhor. O seu estilo era


bastante magro, mas já não é. Só se passaram dois meses mas, meu Deus, é como se tivesse frequentado um curso acelerado para esculpir o corpo, toda ela curvas suaves, firmes e carnudas. – E pensar que trocaste uma coisa daquelas por tarte de maçã – murmura-me Hunter ao ouvido. Noutras circunstâncias, a minha resposta seria um comentário grosseiro, mas a minha surpresa é tal que nem do meu nome me lembro. A música acelera e Madison lança-se excitadamente nos braços da amiga ruiva. Começam a dançar juntas e riem ao tentar acompanhar a batida áspera. O vestido vermelho é liso e curto e a cada movimento que faz desce ou sobe um pouco. Levantome do assento para ver melhor o que traz por baixo. As minhas hormonas em brasa recebem um balde de água gelada «mas que porra!» quando um gajo do tipo Adónis a enlaça pela cintura, a apertá-la com força contra o membro intumescido. O animal alfa que há em mim uiva num protesto e aperto na mão o copo vazio a imaginar que é a cabeça dele. Mas pela maneira como Madison sorri e corresponde aos seus avanços, aquele idiota insosso é o novo namorado dela. Quem o pode censurar? Quero dizer, olhem para ela: é linda. Os movimentos loucos da dança fazem-lhe voar os longos cabelos em ondulações selváticas – um cabelo perfeito, acabado de ser fodido. Basta a ideia para me fazer ranger os dentes, recuso-me a imaginá-la mesmo à minha frente a fornicar com aquele palhaço – ou com qualquer outro, aliás. Porra. Preciso de uma bebida. – Onde vais, eu… – Cala o bico, Hunter. Levanto-me e encaminho-me para o bar, sem dar atenção ao comentário trocista. Há muita gente à minha frente, mas dado o meu estado de espírito não me apetece esperar. Se fico aqui mais um minuto que seja tenho de me embebedar para esquecer que a vi. Não me escapa o paradoxo da situação. É o caso clássico de desejar aquilo que se não pode ter. Podia ter ficado com a doce e inocente Madison, mas em vez disso optei por Juliet, fácil, incontida e sexualmente endiabrada, com quem já andava enrolado antes de me dar conta do meu «fraquinho» por Madison. Depois desta noite fico sem saber se fiz a escolha certa e não é por ver como Madison se transformou numa deusa – sempre soube que o era. Debaixo da maquilhagem elegante e do vestido vermelho-fugidio, continua a ser a miúda desajeitada que me pagou o pequeno-almoço e me fez sorrir. Creio que ponho em causa a opção que tomei porque há uma dúvida que não me sai da cabeça: eu e Juliet somos assim tão parecidos? O sexo é espantoso, mas, quando isso acabar, continuarei interessado nela? É o que acontece quando se enceta uma «relação» com uma paciente viciada em sexo que se masturbou à nossa frente em cima da secretária e depois se fodeu como um animal selvagem para esquecer a ex-noiva traidora e mentirosa. Estava condenada ao fracasso desde o primeiro momento. Como pude imaginar outra coisa? – Dixon?


Resmungo para dentro e amaldiçoo os deuses que me olham lá do alto, a troçar do meu infortúnio. – Madison! – exclamo, a imitar-lhe o tom de surpresa, embora o meu seja encenado. Viro-me para a olhar e o coração sobe-me à goela. Recomponho-me e arvoro uma expressão impenetrável. – O que fazes aqui? – pergunta, com o peito a arfar depois da dança empolgante. – Oh, os meus amigos quiseram ver como isto era – respondo, a passar a mão pelos cabelos. Acena com a cabeça, e não me passa despercebida a forma como me inspecciona cada pormenor do rosto enquanto falamos. – Que giro. Eu também. Foram os meus amigos que quiseram vir – explica, com um movimento dos lábios brilhantes que me deixa louco. – É terrível – pigarreio, tal e qual como da primeira vez que nos encontrámos. A atracção continua lá, mas algo está diferente em Madison. Parece mais… segura de si, mais consciente da sua beleza, mas sem presunção. Surpreendo-me a imaginar qual será o motivo da mudança. Mas a razão chapa-se-me nas trombas quando o querido dela lhe envolve a cintura com as mãos carnudas, num inequívoco gesto de posse. Ao pé dela, o tipo é um gigante, e Madison ergue a cabeça para lhe fitar os olhos semicerrados. Parece ter-se esquecido do lugar onde estava, mas abana a cabeça e sorri. – Dixon, este é o David. O David gigante estende a manápula, que aperto sem entusiasmo. – Muito prazer – cumprimento numa voz carregada de sarcasmo. Corresponde ao meu gesto enfadado, retiro a mão e tenho de me dominar para não a limpar às calças de ganga. David mede-me de alto a baixo, e na sua cabeça devem retinir campainhas de alarme, pois passa um braço protector por cima dos ombros de Madison. – Então, como conhece Maddy? – pergunta em tom seco, a tentar intimidar-me. Este rapaz tem muito que aprender se julga que as suas partidinhas de recreio me conseguem irritar. – Bem, Madison estava a cair quando eu ia a passar. Não foi, Maddy? – respondo sarcasticamente, sem afastar os olhos dos dele. Quando o vejo cerrar os dentes, felicito-me pela minha subtileza. – Como está a tua cabeça? – pergunto, a afastar-lhe os cabelos macios que caem sobre a têmpora, em busca de uma cicatriz resultante da queda. Maldito seja eu. Ela inclina-se sobre a minha mão. A sua rendição espontânea desencadeia o bárbaro que existe em mim e que bate com os punhos no peito, a clamar vitória. Aguenta-te com esta, meu grandalhão de merda. Sou o próximo a ser servido e termino abruptamente o agradável encontro. – Prazer em conhecê-lo, Damon – digo, a trocar-lhe de propósito o nome. – David – corrige, a apertar com os dedos a pele macia de Madison.


– É isso – replico em tom indiferente. – Madison – aceno-lhe com a cabeça e lanço-lhe um olhar atrevido, mas ela mostra-se chateada. Não sei o que terá provocado aquela hostilidade e é tarde para descobrir, pois o tipo que está à minha frente acaba de pagar as bebidas. – Foi muito bom voltar a ver-te. Inclino-me e deposito-lhe no rosto um beijo respeitoso. No momento em que a minha pituitária é assaltada pelo odor a baunilha, mal me contenho para não lhe enfiar o nariz na cova do pescoço. Afasto-me com calma, a dar o meu melhor para me mostrar impassível, mas caio de cu quando ela se chega para me segredar ao ouvido: – Deves-me um jantar. A compostura desfaz-se, mas Madison esboça um sorriso irónico e roda nos calcanhares, com o babuíno no seu encalço. Fico especado, hipnotizado pelo traseiro duro e curvilíneo, perco o lugar na fila mas não me ralo. Acabo de ser derrotado no meu jogo. – Touché, Tarte de Cereja, touché.


Capítulo 14 Meu, sinto-me como uma mulher

Dixon Acordo de um sonho realista, com Madison a chupar-me a pila. Não sei como, mas sabia os meus gostos, e de repente dou-me conta de que acordei porque alguém me está mesmo a chupar a pila. No entanto, a boca na extremidade do meu caralho não é de Madison, mas sim de Juliet. Olho para baixo, vejo uma massa de cabelos louros que sobe e desce entre as minhas pernas, e resolvo ignorar que preferia uma morena. Juliet interrompe o acto e fita-me sedutoramente com os olhos lúbricos. – Bom dia, babe – ronrona. Retraio-me porque detesto aquele tratamento de animal de estimação, mas ela não parece importar-se. – Olá – respondo numa voz rouca, resultado de demasiados uísques. – Como entraste? – pergunto, visto que não lhe dei nenhuma chave. – Tenho os meus meios – responde em tom abafado, e não me dou ao trabalho de perguntar quais são, pois ela baixa a cabeça e retoma a função interrompida. Um broche de Juliet é uma das coisas que mais aprecio no mundo. A boca, a língua, as mãos e a garganta operam em perfeita sintonia, e em geral venho-me em menos de dois minutos. Mas hoje não está a fazê-lo só por mim. Tem a boca demasiado húmida, a língua demasiado agitada, agarrame com desespero e a garganta parece mais funda do que nunca. Percebe que não estou com disposição e afasta-se, os lábios húmidos e inchados de sugar como um aspirador. – O que foi? – pergunta num sopro, enquanto afasta os cabelos que lhe caem para a cara. Olho para baixo, para os olhos azuis intrigados e sinto-me uma criatura desprezível por não corresponder aos seus esforços. Talvez só me apeteça foder. – Despe-te – ordeno, e sento-me para tirar um preservativo da mesa-de-cabeceira. Parece confusa, já que por hábito não uso protecção, mas isso é porque em geral estou de cabeça perdida e a tesão leva a melhor sobre a racionalidade. Mesmo assim, levanta-se e liberta-se da camisola de caxemira e da saia curta com gestos bruscos. Deixa ficar apenas o soutien preto sem alças, as cuecas a condizer e os sapatos de salto incrivelmente alto, e não posso negar que é bela de morrer. – Tira tudo – repito a ordem, encostado a cabeceira da cama, a observá-la.


Sorri, sem dúvida excitada pela brusquidão da ordem, e leva as mãos às costas para desapertar o soutien, que cai no chão, a revelar aos meus olhos a beleza dos seios pesados e fartos. Os mamilos cor-de-rosa estão erectos e logo me cresce água na boca, com vontade de os sugar. – Isso também – digo, a apontar as cuecas. Lambe os lábios brilhantes antes de se voltar de costas e se curvar, a proporcionar-me a visão do traseiro firme. Entala os dedos sob a fita do cós e despe as cuecas em movimentos cadenciados, até lhe caírem aos pés. Ergue-se devagar, olha-me por cima do ombro, o rosto temerário meio escondido por detrás das madeixas loiras. – E agora, doutor Mathews? – pergunta, a passar a língua pelo lábio inferior. – Agora vou foder-te até implorares que te faça vir – respondo, a rasgar a embalagem do preservativo e a colocá-lo. Juliet faz menção de se virar, mas não a deixo. – Não te mexas – repreendo-a, e ela obedece, o corpo percorrido por um arrepio de excitação. Levanto-me, rodeio-lhe a cintura com mão firme, enquanto com a outra lhe procuro a rata húmida. Arranco-lhe um gemido cavo, e aquele som, que costumo adorar, não me causa a mínima impressão. Mas continuo, a enterrar-lhe um dedo na cona voraz e a juntar-lhe logo outro, pois nada chega para satisfazer a insaciável Juliet. Pega-me na mão para a orientar, e o seu corpo sacode-se em espasmos quando lhe acaricio o clítoris molhado com o polegar. – Fode-me, Dixon – grita, a esfregar o traseiro apetitoso contra as minhas virilhas. – És uma menina gulosa, muito gulosa. Retiro à pressa os dedos e ela apoia-se com as duas mãos na cómoda que tem à frente e escancara as pernas. Curva as costas e ergue o traseiro, a colocá-lo à disposição do meu prazer perverso. Dobro os joelhos e, agarro-lhe a cintura com as duas mãos e enterro-me nela por detrás. No momento em que lhe penetro a carne quente, o meu corpo adquire vida própria e começo a bombeá-la com uma precisão exacta. Sei que não vai tardar muito, pois quanto mais força aplico no impulso mais alto ela geme, o que não me podia agradar mais, pois estamos aqui com o mesmo objectivo. Pela maneira com agita o traseiro percebo o que pretende, mas hoje não estou com disposição para esse género de brincadeiras. Com uma das mãos na anca dela e a outra no pescoço, empurro-lhe a cabeça para baixo de modo a erguer mais as ancas e me oferecer um ângulo de mais funda penetração. Ainda não encontrei o meu ritmo. Percebo que está perto do orgasmo, mas eu não estou, e não sei porquê. É uma das minha posições preferidas, mas não está a resultar, Empurro para cima com força e retorço-lhe o mamilo inchado, o que em geral me faz vir. Mas hoje, nada. – Estou quase – geme, com a cara comprimida contra o tampo da cómoda, onde os objectos estremecem e tilintam a cada investida contra o corpo macio. No momento em que os seus músculos internos me apertam o caralho, percebo que está prestes, e ela vem-se com um grito sonoro, ao mesmo tempo que o seu corpo se contorce em espasmos contra o meu. Continuo a fodê-la mas sem resultado, não há maneira de ejacular. Juliet está preparada para uma segunda volta, mas eu estou longe do objectivo.


– Babe – geme, cada vez mais chegada à frente pela violência dos meus impulsos que a tornam uma só com a cómoda. Por que razão não me consigo vir? O meu orgasmo ameaça explodir, mas não atinjo o clímax. De súbito, as madeixas louras de Juliet dão lugar a mechas de cabelos castanhos, e o traseiro pequeno assume uma forma mais perfeita e arredondada. Imagino o caralho a penetrar numa morena cujo nome desconheço, de grandes olhos verdes, lábios carnudos brilhantes e rosto corado. As mamas esplêndidas sacodem-se a um ritmo incontrolável enquanto lhe penetro o corpo quente e inocente. É uma imagem que me arranca do torpor cadenciado, empurro sem chegar a tirar, e a onda de puro êxtase avassala-me até aos dedos dos pés. Sem saber porquê, o rosto ganha expressão quando se vira para mim me deparo com os grandes olhos verdes de Madison. Deixo-me penetrar pela recordação da sua imagem enquanto dançava e a forma como se movia ao ritmo da música, e imagino a sua voz sedutora junto ao meu ouvido. Expludo com tal violência que por pouco não caio. O corpo expele o orgasmo até que me deixo ficar, ofegante, prestes a sofrer um ataque cardíaco, pois nunca me tinha vindo com tanta intensidade. Preciso de um minuto para serenar, e quando o faço enfrento uns olhos azuis satisfeitos em vez dos verdes cintilantes que tinha imaginado. – Isso foi… uau – diz Juliet, a arquejar e com a cara marcada pelos entalhes da cómoda. Respondo-lhe com um sorriso cansado e saio de dentro do corpo dela, repentinamente frio e desprovido de interesse. Retiro o preservativo e deixo-me cair de borco sobre a cama, a pedir aos céus que o sono me invada para esconder a vergonha que sinto. Mas, é o que acontece. Quando acordo, estou sozinho. Juliet já deve ter saído há muito tempo, quando percebeu que eu não estava disposto a trocar carinhos. Mas que raio tinha sido aquilo? Nunca antes tinha sido obrigado a recorrer à imaginação para atingir o orgasmo. Mesmo com Sharon Whiterstone, aliás Shamu, a Baleia, em cima da secretária, o meu orgasmo fora provocado pela sucção desesperada do seu corpo. Atiro com os lençóis, pego no telemóvel e ligo para as duas únicas pessoas capazes de me explicar o que está a acontecer. – Andas a foder como uma mulher. – Desculpa? – Sinto-me ofendido quando olho para Hunter por cima da chávena do café. – Andas… a… foder… – Já ouvi – interrompo-o. – Mas qual é o significado disso? – Significa – explica Hunter, a gesticular com o garfo na minha direcção – que fodes com a cabeça e não com a picha.


Termina a frase com o garfo apontado aos meus genitais. – Vai-te lixar – respondo, mas caramba, o gajo tem razão. Em mais de uma ocasião, referi a Hunter e a Finch que Juliet fode como um homem. Em qualquer circunstância, em qualquer lugar, como um homem. E em geral estou cem por cento com ela, mas esta manhã só consegui cortar a linha da meta quando imaginei o rosto e o corpo de Madison. – Ora aí tens – exclama Hunter, a erguer as mãos acima da cabeça num gesto de vitória. – Não é possível – replico com desdém, mas é muito possível. É um facto conhecido que a maioria das mulheres faz amor com o cérebro, enquanto a maior parte dos homens age com a cabeça que tem entre as pernas. É mais um desafio para estimular a mente da mulher do que para alcançar o seu ponto G. Quem consiga as duas coisas ao mesmo tempo, isto é, quando consegue foder-lhes o corpo e a mente, é um super-homem. Meu Deus, estou a transformar-me numa mulher. – É impossível, nunca tive este problema, e tenho dormido com algumas verdadeiras… – contorço o rosto, faltam-me as palavras. – Mas tu conheces a Juliet. Ela é linda. – Mas é evidente que não é ela que queres foder – declara Hunter sem parar de mastigar. Bebo água, de súbito maldisposto. – Como te faz sentir Juliet? – pergunta Finch, às voltas com a salada de frutas. – Em geral consegue fazer-me vir em cinco segundos. – Não foi isso que perguntei – insiste, muito pálido. – Depois. Conversam? Têm momentos de ternura? – Meu! – exclama Hunter, enojado. – A seguir vais dizer que tens o mesmo ciclo menstrual que a Heidi! Finch não lhe dá atenção e prossegue: – Depois do acto, o que sentes? Penso um pouco antes de responder honestamente. – Nada. – Exacto – diz Finch.– É apenas sexo, Dixon. O profissional aqui não sou eu… – Olha-me com um sorriso irónico. – Não te parece que Juliet apenas preenche… um espaço vazio? Hunter funga e olho-o com apreensão, a imaginar o que poderá sair dali, sobre ser eu a preencher um vazio. – Pode ser que essas relações mecânicas tenham começado a perder interesse – continua Finch. – E Juliet é a primeira mulher num longo período onde só fizeste engates. Aceno, pois ele tem razão. Assim que a vi, percebi que havia de me trazer sarilhos. Será possível que, no meu subconsciente, eu tivesse tentado preencher esse vácuo? Conseguir alguma coisa a partir do zero? Mas isso não explica Madison. – Podia ter preenchido esse «vazio» com Madison – argumento, a fazer aspas com os dedos na palavra vazio –, mas em vez dela optei por Juliet. Estou interessado em ouvir os raciocínios de Finch.


– O sexo é fácil, Dix; a parte difícil é o resto da relação. Com Madison, torna-se evidente que existe qualquer coisa mais. – Mal a conheço! – protesto em tom patético. – Mas aquilo que conheces faz-te sentir atraído por ela a outro nível. Deves ter qualquer espécie de… interesse nela – conclui com um aceno de cabeça. Finch tem razão. Nas poucas ocasiões em que estivemos juntos, apreciei a companhia dela sem imaginar qual será a sua posição sexual preferida. – E isto é o resultado de elevares a tua parceira de fodas à categoria de tua namorada, Dix – conclui Hunter em tom crítico, enquanto vai pondo sal nas batatas fritas. – Não é minha namorada – reafirmo pela décima vez. – É como se fosse. Não dormes com mais nenhuma, e por causa dela até te esqueces dos amigos. Portanto, é tua namorada. – Não é minha namorada – insisto, a resistir à tentação de lhe responder com um gesto obsceno. – É sim, é – troça infantilmente entredentes. Opto por não lhe ligar e restringir a conversa ao adulto do grupo. – Como é contigo e a Heidi? Continua a satisfazer-te? – pergunto a Finch, que sorri à simples menção do nome da mulher. – É a mulher mais sexy que existe à face da Terra, e nunca tenho problema em fazer amor – responde em tom orgulhoso, a fazer Hunter engasgar-se. – Ehh. Importas-te de não usar essa palavra? – O quê? Amor? – pergunta Finch, que franze a testa, intrigado. – Sim, e por favor evita também usar o termo «fazer» antes dela. É muito… muito gay – responde Hunter, a denotar repulsa. Não consigo evitar uma gargalhada. – Fazer amor com a nossa linda mulher nada tem de gay, deixa-me que te diga – replica Finch, a erguer as sobrancelhas. – Satisfazemo-nos um ao outro. É para isso que servem as relações. Fazer o outro feliz, e a nós também. – É por isso que Hunter continua solteiro – digo, a provocá-lo. Mostra-me os dedos num gesto obsceno, mas detecto alguma mágoa nos olhos maliciosos. O que andará a esconder? – Desculpa falar no assunto – diz Finch em tom reservado. – Mas tu estiveste noivo, Dix. Quando tu e Lily estavam juntos, experimentavam uma espécie de ligação, não é? A alusão a Lily costumava perturbar-me, mas hoje não acontece, e levo a sério a pergunta de Finch. O meu «qualquer coisa» com Juliet não se compara ao que sentia com Lily. Quero dizer, amava Lily mais do que a vida. E quando fazíamos… quando fodíamos, nunca imaginei outra mulher além dela. Com Juliet, sinto-me uma espécie de caralho às ordens, o que não é mau, dado que é a minha rata de serviço. Finch e Hunter têm razão. Fui parvo em pensar que isto podia ser mais qualquer coisa além de sexo.


– Tens razão – suspiro. Hunter pigarreia. – Ambos têm razão – acrescento, com um sorriso sarcástico na direcção do meu amigo. Decido ser honesto. – Com Juliet, fodo como um caralho às ordens. Infelizmente, Hunter parece não apreciar a minha honestidade e desata às gargalhadas. – Doutor Dixon, Caralho de Serviço a qualquer hora – diz ele, a desenhar com gestos uma tabuleta. – Não continues a encontrar-te com ela – diz Finch, a dar a entender que a solução não é complicada. – Tu és o psiquiatra. Não devias ser tu a oferecer conselhos? – Não é assim tão simples, Finch – respondo, a passar a mão pelo cabelo. – Tudo o que aprendi e tenho usado nos outros não se aplica quando é o próprio a precisar de aconselhamento. Além do mais, o meu forte são os vícios, não as relações. Sou um psiquiatra, e não o raio de um guru das relações. – É compreensível – concorda Finch. – Não, és burro como uma porta – deita cá para fora Hunter, ao mesmo tempo que empurra o prato vazio. – Já te tinha dito para ficares longe daquela harpia. – Acaba com as recriminações. Não te vejo casado e feliz com a tua alma gémea. – Porque não sou idiota – responde, mas acrescenta rapidamente. – Sem ofensa, Finch. Finch abana a cabeça sem se ofender. Já ouviu aquilo inúmeras vezes. – As mulheres são um sarilho, e tenciono viver como o Hugh Hefner. – Velho, sozinho e viciado em Viagra? – pergunto irónico. Atira-me um pedaço de pão. Esquivo-me e passa ao lado. – Não. Rico, rodeado de Coelhinhas e feliz. Olhamos para ele e rimos. Todos têm direito a sonhar. – Chamem-me Hunter Hefner – diz com ar trocista enquanto olha uma empregada loura e imita umas orelhas de coelho. – E se em vez disso te chamar Hunter Meio Tonto? – sugiro a rir. Hunter cruza os braços sobre o peito largo e inclina-se para trás na cadeira. – Muito bem, Dixon Mathews, Caralho às Ordens. Oh, desculpa. – Tosse, a tapar a boca com o punho fechado. – Queria dizer Doutor às Ordens. Não consigo evitar a gargalhada que me sobe pelo peito e acabamos todos a rir. Nem quero acreditar que abordámos este assunto durante o almoço.


Capítulo 15 Data de validade

Dixon Depois do almoço vou para casa, resolvido a tratar de alguma papelada. Mas não me consigo concentrar, as palavras de Finch não me saem da cabeça. Sinto alguma coisa por Madison? Não é possível. Se assim fosse, por que razão a teria preterido em favor de Juliet? Sei que as coisas não são assim tão simples e lineares, mas podia ter dito que não a Juliet no dia em que estava para me encontrar com Madison. Antes desta manhã, era um prazer imenso dormir com Juliet, mas agora já não me atrai da mesma maneira. Decido enterrar a cabeça na areia e concentrar-me no trabalho de investigação. Estou a mergulhar em padrões comportamentais inatos quando o telefone tilinta. Procuro e vejo uma mensagem de Juliet. Maravilhosamente dorida desta manhã. Obrigada. X

Em circunstâncias normais, responderia com uma sugestão grosseira e não disfarçada sobre como a deixar ainda mais dorida, mas não o faço. Nem respondo. É sábado, são nove da noite e estou em casa. Sozinho. Não me lembro quando foi a última vez que isto aconteceu, pois antes de Juliet passava o tempo atrás das gajas para molhar o pincel. Mas Juliet ocupa-me grande parte das noites de sábado, e só agora me apercebo disso. Olho para o telemóvel, mas ela não enviou nenhuma mensagem. Como não lhe respondi à anterior, o silêncio justifica-se. Mas que porra, quando adquiriu isto contornos de uma relação? Suspiro e fixo o olhar na caixa das imbecilidades, à espera que algum programa de televisão me ajude a distrair. Depois de dois filmes do Tubarão e de uma dúzia de cervejas, estou ansioso por uísque e pornografia. Ainda pensei em masturbar-me, mas a ideia fez-me pensar que corpo e que rosto me serviriam de inspiração.


Nada mais desanimador, portanto estendo a mão para o telemóvel e resolvo verificar os e-mails. No entanto, por qualquer razão inexplicável, vou parar à lista de contactos e detenho-me na letra M. Nem me devia passar pela cabeça aquilo em que estou a pensar, pois a noite de sábado já vai adiantada, de facto já é domingo. Além disso, estou meio embriagado e insuportavelmente excitado. Não devia enviar um texto a Madison… de facto não devia. Antes de dar por isso estou a escrever uma mensagem curta e a carregar no botão de «envio» sem dar tempo ao cérebro impulsivo de adquirir um pouco de razão. A mensagem era inocente, e assim a deixei, pois já é quase uma da manhã e não quero que Madison pense que estou bêbado e a ligarlhe para ter sexo. Fico uma eternidade a olhar para o ecrã, mas nada. No momento em que me começo a censurar pelo atrevimento, o ecrã ilumina-se com a resposta de Madison. O que diz?, escreve em resposta à piada que lhe mandei: «Um homem entra no consultório do psiquiatra sem nada vestido além de um pedaço de juta artificial enrolado à cintura. O que diz o psiquiatra?» Sei que é um bocado parvo, mas é melhor do que a alternativa: «O que tens vestido?» Estou a ver-lhe os tomates, respondo. Arrependo-me da minha estupidez, mas é uma maneira de quebrar o gelo. Admito que é uma piada de adolescente, mas pelo menos chamei-lhe a atenção com aquela parvoíce. A espera provoca-me dores de cabeça, e atiro o telefone para o sofá. No momento em que volta a tilintar, mergulho para o apanhar, ansioso pela resposta. LOL. É a minha vez… Que diz uma enfermeira que aguarda um telefonema de alguém?

Leio a mensagem duas vezes para ter a certeza de que não me enganei e embora me pareça que já não trocamos piadas, resolvo alinhar. O quê?

A espera entre as mensagens está a dar cabo de mim, mas não tenho de esperar muito tempo. Sinto-me confusa. Por que razão não telefonaste?

Bem, como piada, esta é mais cáustica do que a minha. De facto, tenho de ser um idiota insensível para julgar que a posso contactar ao fim de tantas semanas e esperar que ela ria e se derreta com as minhas graçolas. Devo-lhe a verdade, bem como um pedido de desculpa. Desculpa. Sou um idiota.

Responde ao cabo de poucos segundos.


Pois és.

A simplicidade da resposta deixa a bola do meu lado. Pondero o que devo dizer, pois sei que é o meu momento de glória. Estava a foder uma gaja, mas depresso apago e substituo por Estava com outra pessoa. O dedo hesita sobre o botão de «enviar», mas acaba por premi-lo, e sustenho a respiração. Os minutos escoam-se devagar, e estou quase a enviar outra mensagem quando ela responde. Estavas?

Deixo escapar um suspiro de alívio, satisfeito por não me ter mandado dar uma volta. Sim.

É difícil explicar através de um texto sem parecer um louco, um maníaco do sexo. Na circunstância, sim tem de chegar. Eu também. Oh?

– respondo rapidamente.

Quero dizer, estava com ele, tal como estive esta noite.

Dá para adivinhar quem era. Ah, tu e o Damon?

Não consigo escrever o nome do tipo sem que me dê ganas de lhe espetar facas nos olhos. responde, a obrigar-me a mostrar o jogo. E sim, era ele, acrescenta passado um segundo. Sabes que o nome dele é David,

Parabéns.

Mas o que me apetece dizer é «espero que o tipo contraia febre-amarela e vá desta para melhor». Obrigada. Na verdade é o meu personal trainer.

Os meus dedos apertam o telefone com força, a imaginar David a entesar-se enquanto ela se exercita com o fato de treino justo. Mas resolvo não me dar por achado.


Isso explica muitas coisas. Foi um elogio ou um insulto?

– responde, e dou uma pequena gargalhada.

Um elogio.

Já percebi, ela tem uma relação, mas um namorico inocente não faz mal a ninguém. Queres explicar-te melhor?

Imagino-a a dar voltas à cabeça para perceber a verdadeira intenção do meu comentário. Mas já devia saber que comigo nunca poderá levar a melhor nesse jogo. Não consegues enfrentar a verdade!

– respondo, a recorrer à célebre frase de Jack Nicholson.

De repente lembro-me que é muito jovem e provavelmente não conhece o filme e apresso-me a escrever outra mensagem, pois não quero que me julgue mal-educado, agressivo ou maluco. Mas o telefone tilinta sem me dar tempo a responder. Também gosto desse filme. Jack Nicholson é uma brasa.

Releio a mensagem três vezes, a sentir o membro entesar-se por ela achar «uma brasa» alguém com o dobro da minha idade. Será que gosta de homens mais velhos? A minha líbido entra em ebulição, mas sufoco-a antes que me dê ideias estúpidas, ou ainda mais estúpidas. Resolvido a orientar a conversa numa direcção diferente, respondo: Qual é o teu filme preferido?

Sei que é uma patetice, mas dou por mim interessado em saber. Quero saber tudo sobre as preferências de Madison. ET. E o teu?

Uau! Conhece Jack Nicholson e o ET. Afinal de contas, a minha pergunta pateta não foi assim tão descabida. Três horas e uma garrafa de uísque depois já descobri todas as preferências de Madison. Trocámos mensagens até de madrugada e nunca me senti enfadado nem com vontade de terminar a conversa. Queria saber tudo o que havia para saber acerca dela, e considerando as suas perguntas inquisitivas, ela sentia o mesmo em relação a mim.


Não abordou a questão do meu pai assim que deixei claro que era um tópico sobre o qual não me sentia à vontade para falar. Mas também houve aspectos do passado e do presente de Madison (como é o caso do palerma do David) que percebo estarem fora dos limites e que respeito, como ela faz comigo. Mas tudo o mais ficou aberto à discussão e estou em crer que nunca fiquei a saber tanto acerca de outro ser humano. Nem de Lily. Se ainda me restasse alguma dúvida sobre o que tinha a fazer em relação a Juliet e à nossa «situação», esta noite dissipou-a, pois com ela nunca tive uma conversa que durasse mais do que cinco minutos. Conheço todos os elementos essenciais que nos distinguem de dois estranhos que se limitam a fornicar, mas na realidade não a conheço do modo como agora conheço Madison. Mas não sei o que lhe dizer, nem como. Se acabo com tudo, não é para ir atrás de Madison, que namora com o Gigantão. Portanto, tenho de procurar a companhia de outra amiga, só que a fornicação por si só perdeu subitamente interesse. Tenho Juliet, que é mais do que capaz de satisfazer todas as minhas necessidades, mas será possível? Depois de ontem, será que a nossa paixão se esgotou? A nossa «coisa» estaria marcada com uma data de validade? Só há uma maneira de saber. Mas para já vou dormir e tenciono ter sonhos agradáveis com Madison e o seu Duplo D. É verdade, sim senhor. Perguntei-lhe. Como poderia não o ter feito?


Capítulo 16 O amor é apenas uma loucura

Dixon Já fui ao ginásio, saí para uma corrida e ainda são apenas nove da manhã de domingo. Há uma coisa que tenho andado a adiar, mas hoje é o primeiro dia depois do enterro da minha mãe em que me sinto com coragem para a visitar. Estaciono o meu BMW azul, inspiro fundo e olho para o portão gradeado do Cemitério de Hillcrest. Não voltei a casa desde o dia em que internei o meu pai. Volto a inspirar fundo, olho para a imagem pálida que me surge no retrovisor e digo para comigo que tenho de me comportar como um homem. Atravesso os jardins meticulosamente tratados, onde os primeiros dias de Junho fazem brotar algumas belas flores e plantas. Mas apesar da sua exuberância, o mundo vegetal não consegue esconder as pedras tumulares que se estendem a perder de vista. Não consigo evitar um sentimento de tristeza por todas aquelas almas que deixaram de viver. Cada lápide representa a vida de alguém cuja história foi gravada na pedra para que todo o mundo reconheça a sua grandeza humana. Imagino o que poderá constar do meu epitáfio. Mas, mais importante do que isso, quem se dará ao trabalho de escrever a minha história. Afasto estes pensamentos lúgubres e saúdo com um sorriso delicado uma mulher vestida de negro que com certeza chora a perda do seu amado. É um lugar eivado de tristeza e propício à reflexão. Os vivos precisam de chorar os mortos e este é o local apropriado. Quando chego perto da campa da minha mãe, detenho-me a alguns passos de distância, a disfarçar as lágrimas que ameaçam irromper por detrás dos óculos escuros. Não consigo chegar mais perto, e por agora basta. Acocorado, contemplo a pedra tumular de mármore, a recordar o cuidado que pus na sua escolha. Tinha de ser perfeita, porque ela em vida era perfeita, e queria assegurarme que a perfeição a acompanharia na morte. – Ciao, mamma – digo, a dirigir-me a ela como se estivesse viva. Os meus pais emigraram para os Estados Unidos quando ainda eram adolescentes, vindos de uma pequena aldeia piscatória da Sicília, em Itália. Pouco depois de atingirem a idade adulta, conheceram-se numa fábrica e casaram um ano mais tarde. Dois anos depois, nasci eu. Os meus pais pouco tinham quando chegaram à América, mas tudo fizeram para progredir. Trabalharam arduamente e integraram-se o melhor que puderam, já que nenhum deles falava uma palavra de inglês à chegada. Se a geração actual fosse obrigada a lutar como eles fizeram, não teria sobrevivido meio dia sem os seus iPods e telemóveis.


De certo modo, naqueles tempos as coisas eram mais simples. As pessoas casavam-se novas, tinham filhos e cuidavam da família da melhor maneira possível. Era uma vida dura, mas a família vinha em primeiro lugar e fazia-se o que fosse preciso para assegurar o bem-estar de quem se amava. Se o meu pai e a minha mãe não se tivessem esfalfado a trabalhar, nunca teria a posição que hoje ocupo. Todos os dias lhes agradeço os sacrifícios que fizeram por mim. – Tenho saudades de ti – murmuro, a olhar para a campa. – Perdoa-me por ter deixado passar tanto tempo sem cá vir. Mas todos os dias penso em ti, e não há um momento em que não deseje que ainda estivesses connosco. Hesito antes de confessar com tristeza: – Tenho muita pena pelo que fiz ao papá. E curvo a cabeça, subjugado pela vergonha. Se a minha mãe fosse viva, sofreria um tremendo desgosto com o que fiz ao meu pai, assim como pela maneira como vivo. Havia de me recomendar que casasse com uma boa rapariga e lhe desse muitos netos. Quando penso em Juliet como mãe dos meus filhos, percebo que nem em imaginação lá consigo chegar. – Sinto-me perdido – confesso, a passar a mão pelo cabelo. – Só queria ter tido mais tempo contigo. Retenho as lágrimas e fungo. A vida é estuporada. Quando somos novos não apreciamos os nossos pais, nem tudo quanto fazem por nós. Amar os pais não é fixe, e tudo quanto conta são os amigos, os copos, as raparigas e mais raparigas. Mas quando vivemos um pouco mais, percebemos que os nossos pais estão sempre lá quando precisamos, enquanto os amigos e as namoradas já se foram há muito. As amizades vêem e vão, mas a família é para sempre. Por hoje, já chega. É mais do que tinha esperado aguentar. – Sogni d’oro – digo, a desejar-lhe sonhos felizes. – Volto em breve, prometo. Ergo-me e sinto que uma pequena parte do velho Dixon regressou. De regresso ao automóvel, imerso nos meus pensamentos, recordo todos os momentos passados na companhia de Juliet que não implicaram sexo. Infelizmente, bastam os dedos de uma das mãos para os contar. Segundo Shakespeare, «o amor é apenas uma loucura». Num canto, tenho Juliet, que é fantástica na cama, mas chata como a potassa fora dela. No outro canto, tenho Madison que, sou capaz de apostar, deve ser tão empolgante na cama como Juliet, mas que neste momento se interessa por outra pessoa. Sexualmente, conhecia uma das mulheres: a outra só no plano intelectual e, à boa maneira machista, a perspectiva da rata acabou por levar a melhor. E agora vê-se no que deu. Abro o carro, faço um gesto obsceno para o céu e o karma que se lixe.


O percurso de regresso a Manhattan é longo e maçador, e para cúmulo fico preso num engarrafamento. Graças ao tempo perdido na hora de ponta, dou por mim a pensar no meu pai. Marie disse que está melhor. Duvido, mas resolvo verificar. Procuro entre os meus contactos e localizo o número que me aflige de cada vez que tropeço nele. Digo para mim que preciso de ter tomates, primo a tecla de marcar e espero que a ligação se estabeleça através do Bluetooth. Quando ouço a campainha, tamborilo com os dedos no volante, tomado por uma sensação de temor. É por isto que não gosto de o visitar. É por isto que não lhe telefono. Falar com o meu pai traz a lume o meu fracasso como pessoa e confirma que os desiludi, tanto a ele como à minha mãe. Estou prestes a desligar quando uma voz simpática se faz ouvir, a perguntar para onde quer que reencaminhe a chamada. – Pode ligar-me ao quarto de Pino Di Matteo, por favor? – peço depois de uma ligeira hesitação. – Com certeza. Vou transferi-lo imediatamente. Dou graças a Deus por estar parado, pois não me consigo concentrar noutra coisa além da música de fraca qualidade que me separa do meu pai. Estará ele disposto a falar comigo depois do que lhe fiz? – Está? – pergunta uma voz de mulher. – Estou, sim – respondo, confuso. – Devem ter-me ligado para o quarto errado. Queria falar com Pino Di Matteo. – É o quarto dele. Fala Júlia, a enfermeira. Hoje estou a tratar dele – diz em tom alegre. – Ah, muito bem. Daqui é Dixon… o filho. Se calhar nem sabe que ele tem um filho. Segue-se uma pausa breve antes da resposta. – Mas que surpresa agradável! Dê-me só um segundo. Ouço-a pousar o auscultador e o ranger dos sapatos sobre no linóleo quando atravessa o quarto. – Pino – diz ela, e o coração sobe-me à garganta quando ela se lhe dirige. – Pino, o seu filho está ao telefone. Não quer falar com ele? Silêncio. – Pino? – insiste ela. Sorrio. O meu pai sempre foi um tipo teimoso. Parece que há coisas que nunca mudam. – Está lá? – diz ela, a voltar ao telefone. – Está lá? – Estou, sim – respondo, ciente de que foi um erro. – Vou pô-lo em alta voz, está bem? Para ser mais fácil – explica, mas sei que o meu pai não quer falar comigo. – Pronto, já pode falar. Vou deixá-los à vontade. Ouço o ruído da porta a fechar-se. O único som que quebra o silêncio é a respiração arrastada do meu pai, à espera que seja eu a começar. – Ciao, papà. Come stai? – pergunto. Uma pergunta estúpida, uma vez que está encafuado num hospital. Mas insisto.


– Mi dispiace per non visitare. Lavoro è stato occupato – digo, a usar a mesma desculpa que já dera a Marie para não o ter ido ver. Sei que me está a ouvir, pois o ritmo da respiração é agora mais rápido. Resolvo falar-lhe em inglês, para ver se lhe arranco uma resposta. – Tem feito alguma jardinagem? Recordo-me de ter visto um belo jardim nas traseiras. O silêncio continua a ser a única resposta. Conheço o meu pai, e sei que não está interessado no meu trabalho nem em jardinagem; o que ele quer são respostas. Quer que me desculpe pelo facto de o ter abandonado quando mais precisava de mim. Quer que lhe explique por que razão o deixei. Aperto o volante com força, inspiro fundo e deito cá para fora tudo quanto me vai na cabeça desde o dia em que o deixei lá. – Tenho muita pena, papà. Tenho mesmo. Não… não sabia o que fazer. Quando perdemos a mamma, penso que levou com ela um pedaço de nós. Especialmente de ti. Sei que agi mal contigo, mas peço que me perdoes. Por que razão não me fala? Consigo ouvi-lo e sei que também me consegue ouvir. De súbito, ouço o ruído dos chinelos a arrastarem-se pelo soalho. Os passos são curtos e calculados e percebo que são os passos de um homem abatido. – Papà? – imploro, a endireitar-me no assento. É um apelo para que fale comigo. A respiração rala ressoa-lhe no peito, a expiração torna-se mais alta e irregular. Aquele som aperta-me a garganta, e digo a única coisa que exprime o que sinto. – Ti amo. A manifestação do meu amor é acolhida com silêncio, mas desta vez porque o meu pai desligou o telefone. Fecho os olhos, vencido, desligo a chamada e descanso a cabeça no volante. Não sei o que esperava. No lugar dele, faria a mesma coisa. Só levanto a cabeça quando ouço a buzina de um carro atrás de mim e vejo que o trânsito começou por fim a fluir. Engreno a caixa de velocidades e arranco, a fugir dos demónios que um dia terei de enfrentar. Mas esse dia não é hoje. E não vejo que venha a acontecer nos tempos mais próximos. Convidei Finch e Hunter para comermos piza e bebermos umas cervejas enquanto transmitem o jogo de basquetebol. Não me lembrei de mais nada para me distrair das atribulações da minha nãorelação. Uma pancada na porta interrompe-me quando estou a encher o frigorífico de cerveja. Olho para o relógio. Pela primeira vez na vida, os rapazes estão adiantados. – Trazem fogo no cu? – pergunto ao abrir a porta. Mas quem tenho à minha frente é Juliet. – É isso, mal posso esperar – ronrona, a olhar-me com uns olhos grandes e inocentes.


– O que estás aqui a fazer? – pergunto em tom desabrido. A minha rudeza apanha-a desprevenida, mas depois deste fim-de-semana é última pessoa que tenho vontade de ver. Recupera do choque da minha insolência. – Estou aqui para te foder até te saltarem os miolos – responde atrevidamente, sem dar parte de fraca. Antes, a imagem vívida que acaba de invocar seria suficiente para lhe arrancar a roupa do corpo, mas agora só me obriga a retrair. Percebe a minha hesitação, avança um passo e envolve-me o pescoço com os braços. – O que se passa? Não estás feliz por me ver? – pergunta, a fazer beicinho. – Não esperava por ti – respondo, a libertar-me das mãos que me agarram o pescoço. – Então é uma surpresa – replica em tom sedutor, os olhos azuis a cintilarem de desejos lúbricos. É mesmo. Ficamos alguns momentos em silêncio e a linguagem corporal de Juliet não deixa dúvida: quer que a convide a entrar. Mas o problema é que eu não quero. Está um espanto de sedução, com os jeans muito justos e a camisola cor de pêssego, e sei que acabará por espatifar a resolução que já tomei. – Estou à espera de visitas – declaro, com um certo sentimento de culpa por deixar claro que não foi convidada para se juntar a nós. – Oh? – pergunta, a erguer uma sobrancelha loura. – São só dois amigos que vêm assistir ao jogo – explico com um aceno resoluto da cabeça. – Oh! – repete, a alisar o cabelo com as mãos. – Sendo assim, vou-me embora. Percebeu. Percebeu que não a quero a conviver com os meus amigos, e não se sente afectada por isso. A maioria dos homens julgaria ter encontrado uma mina de ouro, mas eu não sou como a maioria dos homens e sei que Juliet não se importa porque não quer saber de mim para nada. Durante algum tempo, o sexo sem complicações foi divertido, mas agora é uma tristeza. Esta mudança será provocada por Madison, por quem nutro um interesse genuíno, tanto física como emocionalmente? Ou apenas porque me fartei da pessoa que vejo à minha frente todos os dias? Seja qual for o motivo, sei que nunca devia ter começado o que quer que exista entre mim e Juliet. – Vejo-te durante a semana? – pergunta, a arrancar-me às minhas divagações. – Com certeza. Não quero revelar as conclusões a que cheguei quando os meus amigos me podem bater à porta a qualquer momento. Acaricia-me com o dedo o queixo áspero da barba e diz: – Esta semana vou comprar umas roupas perfeitas. Ergo a sobrancelha numa interrogação muda, e ela sorri. – Para a noite dos prémios, meu pateta. Para ser a acompanhante perfeita. – Pisca-me o olho. – Por falar em acompanhantes… o que acontece em Boston, fica em Boston.


Humedece com a língua os lábios cheios. – Estaria disposta a isso, se também quisesses. Conservo uma expressão impenetrável e aceno. – Vou pensar no caso – respondo sem mostrar interesse pela sugestão de um ménage à trois. – Bem, o melhor é não pensares muito. Imagina-me a cavalgar a tua cara enquanto fodes outra rapariga – declara, e por pouco não me engasgo. Inclina-se para a frente e dá-me um beijo arrebatador. A minha boca, cabra traiçoeira, devolve-lhe o beijo, e a língua experiente dela desperta a atenção do meu membro. Liberto-me antes de perder o autodomínio. – Telefono-te em breve, Juliet – explico em voz trémula. – Bye, babe. Rodopia sobre as botas de salto e afasta-se, a oferecer-me visão espectacular do traseiro firme. Atiro com a porta e deixo-me ficar encostado a ela. Tinha-me esquecido de que convidara Juliet para me acompanhar à cerimónia do mês seguinte. Tinha sido apanhado num momento em que me encontrava vulnerável, a fodê-la em cima da secretária, e o convite dourado chamara-lhe a atenção. Perguntou-me quem tencionava levar comigo, e o facto de estar enterrado nela até aos tomates induziu-me a perguntar se não queria vir. Momentos depois veio-se mesmo e aceitou o convite para me acompanhar na gala da distribuição dos prémios. Estava a pensar ir sozinho, já que não é socialmente aceitável fazer-se acompanhar pela amante a um evento prestigioso relacionado com a profissão. Mas não me sentia capaz de lho dizer. Agora, não tenho alternativa senão lidar com a merda que arranjei e passar o fim-de-semana com Juliet, a minha eventual acompanhante, se ela conseguir levar a sua por diante. Podia voltar atrás com o convite, mas, conhecendo Juliet, ela iria aparecer na mesma. Irritado, afasto-me da porta e dirijo-me para a cozinha para beber uma cerveja, de que bem preciso. Enquanto vou emborcando a Budweiser estendo a mão para outra, pois sei que vou precisar dela para aturar Hunter, que há-de farejar qualquer coisa assim que entrar no apartamento. O telemóvel toca em cima do balcão de mármore e deito-lhe a mão. Só espero que não sejam os rapazes a cancelar, pois tenho absoluta necessidade de ouvir os seus conselhos. Mas é uma mensagem de texto, enviada por Madison. Sabias que o cheesecake de Nova Iorque é o mais famoso do mundo?

Sorrio e respondo. Não, não sabia. Vejo que tens feito os trabalhos de casa. Por falar nisso, como vai a dupla licenciatura? Terrível. Terrível porquê?


Não consigo imaginar Madison terrível seja no que for. Porque não me entendo com a farmacologia. Vou ser uma enfermeira desgraçada :(

Rio com o humor dela e respondo. Não vais. Por acaso sou bastante entendido em drogas. Quero dizer, a receitá-las, não a tomá-las :P Não me digas. Estás disposto a ajudar-me com os teus conhecimentos? Se disseres que sim, tens direito a uma fatia do famoso cheesecake de Nova Iorque.

Sem me dar tempo a responder, acrescenta. Muito lindo, com creme batido e uma cereja no topo.

Bastava ser ela a pedir para eu dizer que sim, mas o pormenor do creme batido e da cereja no topo pôs fim à questão. Negociar contigo é difícil… mas está bem. Obrigada! Obrigada! Pode ser amanhã? Amanhã está perfeito,

apresso-me a responder.

Bestial! Ainda te lembras da minha morada?

Como poderia ter esquecido? Talvez fosse melhor sugerir-lhe que aparecesse por cá, mas não fazia sentido, tem os livros todos em casa. Tenho mesmo de lá ir e não se trata de um encontro amoroso. Estou a ajudá-la no estudo. Um encontro de trabalho. Só lhe estou a oferecer os meus conhecimentos, nada mais. Com tudo isto em mente, respondo. Manda-me os pormenores. Apareço por lá.

Uma pancada forte na porta interrompe o meu devaneio ao telefone. Pela violência, só pode ser Hunter. Abro a porta e estendo-lhe uma cerveja enquanto verifico o telefone. No entanto, assim que dá um passo dentro de casa, Hunter ergue um sobrolho. Relanceia os olhos para um lado e para o outro, fareja o ar e faz rodar um dedo num movimento circular, a apontar a sala. – Cheira-me à ninfomaníaca. Deixo escapar uma curta gargalhada. Olha-me com atenção e acrescenta. – Mas também me cheira a… – volta a farejar o ambiente – … a tarte de cereja.


A perspicácia dele não me surpreende. É o que acontece quando se conheceu alguém a vida inteira. Fecho a porta e digo: – Bebe isso. Vais precisar, para ouvires o que tenho para te contar.


Capítulo 17 Uma coisa doce

Madison – Maddy, por que razão te envolves outra vez com esse estupor? – pergunta Mary, a observar-me com desagrado enquanto experimento um equipamento número cinco. – Em primeiro lugar, não ando envolvida com ele. Está a ajudar-me nos estudos, nada mais. E em segundo lugar, não é nenhum estupor – replico, a sair em defesa da honra de Dixon. – Ah isso é que é – contrapõe, a erguer os olhos da revista que está a folhear. – Já não te lembras que te deixou pendurada e depois desapareceu da face da Terra durante três meses? – Para reaparecer como um maldito anjo do pecado – acrescento, a recordar-me do magnífico aspecto de Dixon com os jeans desbotados e o tronco bem desenhado sob a T-shirt branca em V. – Pára com isso! – diz Mary, que me atira uma almofada. – São as tuas hormonas a falar. A Maddy sensata que conheço nunca permitiria que esse homem voltasse a entrar-lhe em casa e no coração. O comentário acertado faz-me saltar em minha defesa. – Cordeirinha, vê se deixas de ser melodramática. Ele está a ajudar-me nos estudos porque é médico. E para que fique registado, não me chegou nem perto do coração. Não lhe digo que começa a abrir caminho para lá. – E além disso há o David – acrescento, enquanto dispo a camisola, que faz faíscas. – Nunca lhe faria uma coisa dessas. Gosto mesmo dele. Simpatizámos um com o outro logo na primeira noite, e passadas algumas semanas estávamos a encontrar-nos com alguma regularidade. A princípio tive consciência de que usava David para preencher o vazio deixado por Dixon, mas acabei por apreciar a sua companhia. David é um perfeito cavalheiro e um namorado do melhor que há. Mas talvez o problema seja mesmo esse – é demasiado perfeito, embora saiba que parece um disparate. Se quisesse mesmo avaliar o que está em causa, a razão que me leva a não me envolver com David a cem por cento é por ele não ser Dixon. Conheci David tão pouco tempo depois de Dixon me dar com os pés, que ainda me sentia magoada por ele não ter honrado o compromisso. Agora sei que desapareceu porque andava com outra pessoa. No entanto, é curioso que nunca a tenha mencionado, nem dado a entender que tinha uma relação. Agora que voltou a fazer parte da minha vida, não sei o que pensar nem sentir. Talvez Mary tenha razão e sejam apenas as hormonas a levar a melhor sobre o bom senso.


– Maddy, sabes como gosto de ti. És a minha melhor amiga, mas vives em negação. Quando se trata desse homem perdes toda a sensatez, o que não faz nenhum sentido. Falaste cinco vezes com ele. – Eu sei – respondo, a virar-me para ela. – Mas as vezes que falámos foram… não sei… – e encolho os ombros. – Bastante interessantes. – E com David, não são? – pergunta, a rebentar a bolha da pastilha elástica. – Claro que são. Mas com Dixon é diferente. – Diferente como? – pergunta, a cruzar as pernas, sentada na beira da minha cama. – É… sabes que tenho problemas no meu passado – confesso, a morder o lábio. – Sei, e gostaria que me falasses deles. Conheço-te desde que andávamos de fraldas. Noto-lhe na voz um toque de despeito. Mary e eu temos sido inseparáveis desde os meus cinco anos, quando vivíamos porta com porta. Mesmo depois de a minha mãe voltar a casar e de nos termos mudado, continuámos a ser as melhores amigas do mundo e prometemos uma à outra que nada havia de nos separar. Até agora, temos mantido a promessa. Só que o meu segredo não é uma «coisinha qualquer», é algo que pode mudar uma vida, e tudo farei para poupar Mary a isso. – Eu sei, Cordeirinha – suspiro e baixo os olhos. – Mas é uma coisa que faço o possível por esquecer. – Seria bom que falasses com alguém. Talvez o doutor Dixon te possa ajudar – adianta em tom de troça, e por pouco não engulo a língua. – Não! – grito, a sacudir a cabeça e a fitá-la nos olhos calorosos. – É uma coisa que nunca lhe poderei dizer. Detesto-me pela vulnerabilidade que as minhas palavras denunciam. – Seja lá o que for, tenho a certeza de que não tens culpa – diz para me confortar. – Mas sei que o estupor da tua irmã adoptiva está por detrás disso. Engulo o sentimento de repulsa e pego na T-shirt de malha. – Vê lá se não me estragas o dia a falar dela, está bem? Há dois meses que não lhe ponho a vista em cima e espero chegar aos seis. – Não sei como pode ser filha do Sebastian. Quero dizer, ele é tão simpático, e ela… – É uma cabra – murmuro, a preencher o silêncio. – E ainda é um elogio – acrescento, a estender a mão para agarrar um elástico, já irritada com o cabelo comprido. Mary concorda com um movimento de cabeça e assume uma expressão de repulsa. – Nem quero acreditar que vai casar com o teu irmão. O elástico do cabelo solta-se e voa através do quarto. Engulo em seco. – Pois é, eu também não – minto, pois para mim não é estranho. – Isso não é incesto, ou qualquer coisa parecida? – pergunta Mary, e eu respondo a abanar a cabeça. – Não, não têm nenhum parentesco de sangue. A minha mãe casou com o Sebastian; o nosso parentesco é por afinidade – explico, esperançada em que acabe com a conversa.


– Portanto, é mais ou menos como se Greg casasse com a Marcia. Deus sabe que é tudo por causa dela, portanto a analogia com Marcia serve-lhe. – Sim, é mais ou menos isso – a fazer o possível por conservar a calma enquanto procuro entre as roupas caídas no chão. – Não deixa de ser nojento. Quero dizer, Dylan é uma brasa, mas é teu irmão – diz Mary, a torcer o nariz. Aquela conversa está a irritar-me, mas digo que sim com a cabeça. – É mesmo. – Para quando é o casamento? – pergunta, a estender a mão para a garrafa de água. – Não tenho a certeza. A festa de noivado é daqui a dois meses. Acabaram de se comprometer, portanto penso que não se vão casar já de seguida. Mas sabe-se lá, estamos a falar de Beth. Sabes que é capaz de tudo pelos seus cinco minutos de fama – concluo com desdém e a olhar para a parede com uma expressão carrancuda, demasiado irritada para olhá-la no rosto, para o caso de as emoções me traírem. – É isso, e vai ser o desgraçado do Sebastian a pagar a conta – diz ela, e eu concordo. – Achas que… Levanto um dedo para pôr fim às perguntas. Não me apetece falar mais sobre o assunto. – Então e isto? – pergunto, a segurar à minha frente um vestido azul justo que me dá pelo joelho, numa sugestão subtil para que acabe com a conversa. Mary examina-me, com a cara apoiada na palma da mão. – Só lhe falta gritar «salta-me para cima». É giro, mas qual é o problema com o que tens vestido? Olho para as calças de ganga gastas e para a T-shirt preta, torço o nariz e puxo a bainha do top. – Isto? Estás a falar a sério? Talvez seja demasiado informal, não? – Qual é o problema? Não é um encontro de namorados, pois não? E ergue uma sobrancelha inquisitiva. – Tens razão – confirmo com um aceno desalentado. – Tens toda a razão. No entanto, quando me volto para ver a minha imagem no espelho fico arrepiada com o desalinho em que tenho o rosto e o cabelo. – Precisas de refazer a maquilhagem e pentear o cabelo – diz ela ao ver como reajo ao meu aspecto de sem-abrigo. Olho por cima do ombro e solto uma risada. – Disseste que não tinha importância a maneira como fosse vestida. – Pois disse, mas também não queres espantar o homem, pois não? Pode ser que te dê jeito tê-lo à mão – explica. Ergo um sobrolho, sem perceber aonde quer chegar. – Pode ter amigos jeitosos – conclui com um piscar de olho cúmplice. Depois de lavar, esticar e secar o cabelo e ter detestado todas as outras opções levanto-o num rolo mais ou menos trapalhão, que ainda é o que menos me desagrada. A maquilhagem é mínima, e a


única coisa que dá nas vistas é o batom brilhante de baunilha, que me torna os lábios mais carnudos. Mary tinha razão. Isto não é um encontro de namorados. Por amor de Deus, eu ando a sair com o David. Mas incomoda-me o facto de às vezes ser obrigada a fazer um esforço para me lembrar disso. Quando a campainha da porta toca, às sete horas, parece que tenho a barriga cheia de borboletas, mas domino-me, pois isto não é um encontro. Limpo as palmas das mãos suadas às calças de ganga, inspiro fundo, abro a porta e deparo com o homem mais escaldante à face da Terra. A primeira inspiração não resultou para me acalmar os nervos, de modo que volto a inspirar, antes que desmaie por falta de oxigénio no cérebro. – Madison – cumprimenta-me Dixon numa voz profunda e rouca que me faz adorar o meu nome. – Olá – gaguejo, e puxo uma madeixa de cabelos para trás da orelha. – Entra, por favor – acrescento, a abrir mais a porta e a recuar para lhe dar passagem. Dixon acena com a cabeça e estica os lábios num sorriso malicioso ao dar o primeiro passo dentro da minha casa. Vestido com roupas informais, parece muito mais novo. Traz umas calças de ganga desbotadas e uma T-shirt preta dos Yankees, muito justa. Embora informal, continua a ser um espanto. Fecho a porta, ele vira-se para me olhar por cima do ombro e aponta com um sorriso para um poster emoldurado de Aberto até à Madrugada. – Gosto imenso de Quentin Tarantino. – A sério? – pergunto, pois esqueceu-se de o mencionar durante a nossa maratona de troca de mensagens. – Gosto de tudo o que nos obriga a pensar – diz, a bater com o dedo na têmpora. Claro que gosta. – Ainda bem, pois neste momento não me sinto muito esperta – digo com um falso suspiro. – Comigo, o teu segredo está seguro – responde em tom conspirativo, e a descontracção dele fazme rir. – Então, queres a sobremesa antes ou depois? – pergunto, ainda encostada à porta, demasiado nervosa para me mexer, imobilizada pelo seu aspecto sedutor. Roda nos calcanhares e cruza os braços sobre o peito largo; nos lábios, baila-lhe a sugestão de um sorriso. – E que tal estudarmos primeiro qualquer coisa, para depois podermos cair numa orgia de açúcar. – Boa ideia – respondo, a afastar-me da porta. – Não tenho uma secretária a sério – confesso com algum acanhamento e a olhar para a mesa de café, escondida debaixo de um espalhafato de livros, cadernos, marcadores e uma ou outra embalagem de chocolate. – Está muito bem assim. Uma espécie de antro de estudo. Gosto. Devias ver o meu quarto quando andava a estudar. Perdi lá dois gatos – troça. – Sendo assim já me sinto melhor. Pelo menos sei onde está o meu. Dixon solta uma gargalhada e reparo que nunca o tinha visto tão à vontade. A sua atitude descontraída ajuda-me a dominar os nervos.


– Vamos? – pergunta, a apontar para o sofá. – Pois claro – respondo a dar-me uma bofetada mental. Rodeamos o sofá e sentamo-nos nos extremos opostos, encostados aos apoios para os braços. O espaço entre nós é grande, considerando que no meu sofá se sentam cinco pessoas sem dificuldade. Bem, não tem nada de embaraçoso. Mas é a constatação factual de que precisava, já que o devo ter deixado pouco à vontade com os meus olhares insistentes. Descalço propositadamente as sapatilhas com um sacão e pego no livro de estudo. Dobro uma perna debaixo do corpo, olho para Dixon e quase me esqueço de respirar quando o vejo colocar um par de óculos elegantes, de aros grossos. Os olhos azuis surgem-me agora ampliados, e a armação requintada confere-lhe um ar professoral muito sexy. – Ora bem, vamos lá ver isso – declara e aproveito para fechar a boca. – Bem, tenho um problema com a Farmacologia do sistema nervoso autónomo. Os meus dedos não param de tremer enquanto folheio o livro à procura do Capítulo IV. Dixon acerca-se mais para olhar o livro aberto que lhe estendo. – Isto é um bocado trabalhoso. Qual é a parte que não percebes? – Tudo – confesso a sorrir. Dixon larga uma risada e procuro disfarçar o efeito que me desencadeia em todo o corpo. – Bem, vamos começar pelo princípio. Existem quatro classes de tratamentos. Há tratamentos que fazem funcionar o sistema nervoso simpático e há tratamentos que suspendem o funcionamento do sistema nervoso simpático – explica, a esticar a mão esquerda. Levanta a mão direita e prossegue. – Há medicamentos que fazem funcionar o sistema nervoso parassimpático. E há medicamentos que suspendem o funcionamento do sistema nervoso parassimpático. – Está bem, mas como nos recordamos do que faz o quê? Estendo o braço para a caneta. – Sabes que o sistema nervoso autónomo é responsável pela reacção de «lutar» ou «fugir». Bem como por «descansar» e «digerir», está certo? Concordo porque o meu sistema nervoso simpático está neste momento em roda livre. – É fácil. O sistema nervoso simpático não é afinal muito simpático. Imagina um belo dia de sol, estás a passear no bosque e de repente aparece-te um urso… Quarenta e cinco minutos mais tarde, Dixon já me fez perceber o que o meu orientador não conseguiu em todo o semestre. – Porra, isso faz todo o sentido! – exclamo, a escrever vertiginosamente os aspectos mais relevantes do que me vai explicando. – É claro que faz – replica em tom convencido. – Duvidavas das minhas capacidades didácticas? – troça, a levar a mão ao coração. – Bem… – respondo no mesmo tom e a olhá-lo de viés.


– Por essa descrença, agora ficas a dever-me duas fatias de cheesecake – declara em tom enfatuado, a tirar os óculos e a esfregar os olhos cansados. – Isso creio que consigo – replico. Levanto-me e dirijo-me à cozinha, mas páro a meio do caminho para lhe perguntar por cima do ombro. – O que sabes a respeito de fármacos adrenérgicos? Decorridas mais três horas, sei coisas de cuja existência nem suspeitava. Quando me alheei do facto de Dixon se encontrar em minha casa, sentado a poucos centímetros de mim, comecei a aprender. Mostrou-se um professor incrível e não faz mal nenhum que também seja incrível de olhar. A maneira entusiástica com que abordou tópicos que evidentemente o fascinam veio demonstrar como é intrigante sob todos os aspectos, o que me causa algum embaraço. Dou por mim a deixarme arrastar e a esquecer a minha relação com David. – Vais comer isso? – pergunta Dixon. – Uh? – pergunto atabalhoada, perturbada nos meus devaneios quando atento no seu olhar divertido. – Isso. Vais comer isso? – repete, a apontar com o garfo para o meu cheesecake. – Não, podes ficar com ele – respondo, a estender-lhe o prato. Aceita, agradecido, e repreendo-me por lhe fitar com tanta intensidade os lábios enquanto come. Sem resultado, pois Dixon olha-me com um sorriso irónico. – Adoro doces. – Eu também. Felizmente não se referia ao meu olhar obcecado. – A culpa disto foi ter uma mãe italiana – continua, enquanto vai lambendo o garfo. – É verdade, disseste que os teus pais eram italianos. Recordo a nossa troca de mensagens, onde fugi do tema da minha família como o Diabo foge da Cruz. – Mas Mathews não é um nome italiano, pois não? – pergunto, a sentir a minha falta de cultura. – E Dixon também não. Sacode a cabeça e inclina-se para a frente para pousar o prato em cima de um livro. – Não, de facto é Di Matteo. Mas mudei-o assim que cheguei à faculdade, para o tornar um pouco mais americano. Pela maneira como as sílabas do nome lhe rolam na língua, percebo que deve falar italiano, pois a pronúncia soa-me genuína. Grande porra, tenho o homem mais sedutor do mundo sentado em casa a comer guloseimas e descubro que é fluente na língua do amor. – E Dixon, de onde vem? Pigarreia antes de responder. – Era o nome do barco de pesca do meu pai.


Disfarço um sorriso. – Oh! Ao ver a minha reacção, explica melhor. – Na verdade, o nome do barco era Dixieland. A América foi a sua liberdade. Passou a viver melhor. Por isso, quando nasci, os meus pais mesclaram um pouco das raízes do passado com o presente. – Gosto. É pleno de significado. Confirma com um aceno de cabeça. – Também me parece. Mas para falar com franqueza, ainda bem que não resolveram chamar-me Dixie. Tapo a boca para abafar uma gargalhada. Enquanto interiorizo algo que estamos a partilhar, ocorre-me um pensamento. Madison, não lhe peças para dizer qualquer coisa em italiano, repreendo-me em silêncio. – Conheces mais algumas palavras em italiano? – pergunto, sem dar atenção à minha voz interior. Dixon solta uma gargalhada e flecte os músculos do pescoço grosso. – Por que será que é sempre a primeira pergunta que me fazem? Ergo os ombros num gesto infantil. – Não sei, diz-me tu, que és o psiquiatra. Dixon diz que sim com a cabeça e move a boca de um lado para o outro, aparentemente a imaginar o que vai dizer. – Contido ou sem barreiras? – Diz lá. – Vaffanculo. Não faço ideia do que acabou de dizer e é mais do que provável que me tenha insultado, mas não quero saber, aquele som virou-me do avesso. – Mais – exijo, perdida a vergonha. Os lábios de Dixon estremecem. – Nem perguntaste o que eu disse. Atiro-lhe um sorriso atrevido, para que saiba que fiquei impressionada. – Não tem importância. Acredito em ti. E é verdade. Dixon fica pensativo, mas não comenta o meu excesso de confiança. Tira os óculos, e vejo que está a pensar no que dizer a seguir. – Sei una bella ragazza con gli occhi belli. – Oh… uau. Estou sentada na borda do assento, fascinada com a serenata de Dixon na sua língua nativa. Sei que não pode ter sido uma injúria, pois não sou desprovida de informação e sei que a palavra bella significa linda. Então o que Dixon disse foi que eu era… linda? O coração bate-me mais depressa no peito em vista da possibilidade e sussurro: – Que disseste?


Paira no ar uma carga invisível de electricidade estática. Sei que não devia continuar a falar, mas não posso parar. – Disseste que não tinha importância – responde no mesmo tom, a inclinar-se para mim, tal como eu para ele. – Mudei de opinião – respondo, e baixo involuntariamente os olhos para a boca dele. – Disse que és muito bela – confessa em voz rouca. – E que mais? – insisto, pois sei que há mais. – E que tinhas uns olhos lindos. Aproxima-se mais alguns centímetros. – Achas-me bela? – pergunto, arquejante, sem reparar que os nossos joelhos se tocam, até que sinto a perna a escaldar. – Sim – responde sem hesitar. – És deslumbrante. – Ob… obrigada – gaguejo, a inclinar-me para a frente para sentir o corpo mais perto do dele. Que raio estou a fazer? Tenho de acabar com isto, não é correcto. Então por que razão parece tão certo? Estar com Dixon não requer esforço, e com ele não sinto receio nem me esquivo ao contacto, como faço com os outros. – Também te acho deslumbrante. Sai-me sem dar por isso. Dixon arregala os olhos e repreendo-me por não ter posto cobro ao atrevimento do meu cérebro. Mas não parece perturbado pela minha confissão, talvez só um pouco impressionado com a frontalidade. Baixo os olhos, embaraçada, mas levanta-me o queixo com dois dedos para que olhe para ele. Cedo sem esforço e quando encontro o seu olhar escaldante deixo escapar uma espécie de soluço, pois parece prestes a saltar-me para cima. Contudo, conserva uma imobilidade absoluta e sustenho a respiração à espera do seu próximo movimento. O polegar, que ainda me segura o queixo, inicia uma viagem tortuosa pelo meu maxilar, e enquanto vai vagueando pela pele entreabro a boca e humedeço o lábio inferior. Dixon acompanha o movimento com um olhar faminto e estremeço quando sou brindada por um sorriso enviesado. Era capaz de dar fosse o que fosse para saber o que lhe vai na cabeça. – Sei un angelo – murmura, e o fulgor caloroso dos seus olhos denuncia a ternura contida nas palavras. – O que quer dizer isso? – pergunto, ofegante, mas limita-se a abanar a cabeça e não responde. Estou perdida numa bolha de Dixon, e de repente nada mais existe. Sei que ele também o sente, quando se inclina para mim com uma lentidão angustiante, a humedecer os lábios macios e pecaminosos, e só se detém quando os nossos rostos estão separados por escassos centímetros. A minha respiração é apressada e ofegante e Dixon esboça um sorriso confiante, ciente dos efeitos daquela intimidade sobre mim. A electricidade que passa entre nós põe-me os nervos à flor da pele, que parece zumbir de prazer quando Dixon, sempre muito gentil, passa o nó do dedo pela minha cara e pelos lábios


entreabertos. Pede silenciosamente autorização para entrar, e diabos me levem, quero-o dentro de mim. Abro mais a boca e Dixon, atento ao movimento, faz deslizar o dedo pela periferia antes de introduzir a ponta. Envolvo a boca em torno do indicador e ele emite um silvo de prazer que me revolve as entranhas. De olhos cintilantes, fica a ver-me lambê-lo devagar, mas não empurra. O espectáculo é tanto meu como dele, e neste momento sinto uma vontade desesperada de o beijar. Sei que não está certo, que me devia afastar, mas não consigo. É uma coisa que sinto desde que o vi pela primeira vez. Dixon retira o dedo, que faz escorregar pelo centro do meu lábio inferior, ciente da minha necessidade. Numa atitude de homem verdadeiro que é, inclina-se para a frente, pronto para reclamar a minha boca. No entanto, o assobio mortal de Kill Bill faz-se ouvir, a interromper o momento, e recuo, como se acabasse de me infligir uma chicotada. Sinto a cara a arder de atrapalhação, mas também de desejo e estendo desajeitadamente a mão para o telefone, que está sobre a mesinha de café. – Merda – praguejo quando vejo quem é o autor da chamada. Dixon expira e deixa-se cair para trás no sofá, a passar a mão pelo cabelo. Continuo sem saber se o telefonema de David chegou no pior ou no melhor momento, mas atendo o telefone ao quinto toque. – Ei – interpelo-o numa voz esganiçada que nem parece minha. – Olá, amor, tenho saudades de ti. Desculpa se te interrompi o estudo – responde numa voz cálida que me instila no estômago uma sensação de culpa. – Não há problema – respondo acalorada, pois sei que Dixon escuta cada palavra. Não posso fazer isto com ele sentado à minha frente porque me parece mal e sujo. David tagarela e eu levanto-me devagar e olho para Dixon, que dá sinais de meio chateado, meio excitado – o que, aliás, lhe fica muito bem. Levanto o indicador para lhe dizer que é só um minuto, e ele faz um gesto de assentimento. Enfio-me no quarto e inspiro pela primeira vez desde que atendi o telefone. – Então, o que achas? – pergunta David quando fecho a porta atrás de mim. – De quê? – pergunto, pois não ouvi uma palavra do que tem estado a dizer. – De conheceres os meus pais este fim-de-semana. Estão ansiosos por te conhecer. E gostaria imenso que os conhecesses. … merda. Não podia ser em pior altura. Dixon está na sala contígua, para não dizer que estava a segundos de o beijar. E agora o meu mais ou menos namorado insiste para que conheça os pais dele. Oh, Deus, isto é de mais. Sinto uma ponta de ansiedade a crescer dentro de mim e sento-me na beira da cama. – Humm… David, não sei. – Porquê, Maddy? Sabes que sou louco por ti e que não quero mais ninguém – afirma com ternura. – Eu sei. Eu também gosto muito de ti.


– Mas… – Mas é um passo muito importante. – Eu sei, mas estou pronto a dá-lo contigo. O tom não podia ser mais solícito. Expiro em curtos arquejos, incapaz de aguentar a pressão. Basta-te dizer que não, Madison, grita uma voz cá de dentro. Aprende a dizer que não. David é querido e amável, e tenho-me encontrado com ele. Só porque o homem por quem estou obcecada se encontra sentado na minha sala de estar não significa que tenha de ser desagradável. – Pronto, está bem. Mas temos de jantar cedo – concordo por fim. – Tenho uma tonelada de trabalhos de casa para fazer e preciso de estudar todo o fim-de-semana. – Será como quiseres, querida – responde David, muito excitado, e não consigo evitar um sorriso perante tanto entusiasmo. – Eu trato de tudo. A minha mãe até vai dar saltos. Está ansiosa por te conhecer. – Também gostaria muito de a conhecer – respondo, a massajar a têmpora. Tenho mesmo de ir, Dixon está na outra sala e estou a ser muito indelicada. – Maddy? – O que é? Não gosto do tom da pergunta. – Depois de acabarmos, podíamos, não sei, talvez passar a noite juntos? Percebo-lhe a apreensão na voz. Faço uma pausa, pois preciso de um momento para digerir a proposta. Temo-nos beijado e brincado um pouco, mas tudo muito controlado. Nunca insistiu comigo em matéria de sexo, e embora nunca lhe tenha a falado no meu passado, percebeu que existe algo de desagradável nas minhas recordações. Contudo, respeita a minha necessidade de espaço e não insiste. Conhecer os pais e depois passar a noite com ele, é de mais para mim. Não… não posso. O silêncio fala por mim, e David responde. – Não faz mal. Compreendo. Desculpa ter perguntado. O desapontamento dele é uma facada no meu peito e estupidamente apresso-me a responder. – Vou pensar. Mas não prometo nada. – Oh, Maddy – responde, de repente entusiasmado. – És a melhor. Tenho muita sorte. A gentileza dele espanta-me e faz-me sentir ainda mais uma cabra insensível. – Eu também tenho sorte. Bem, preciso de ir. Tenho uma montanha de trabalhos para fazer. – Está bem, está bem. Amanhã falamos. – Parece-me bem – respondo, a puxar uma ponta do cachecol de lã. – Adeus, amor. Podes crer que me sinto um homem de sorte por te ter conhecido. Sinto-me mal, isto está ir demasiado longe. – Obrigada. Adeus. Suspiro, massajo as têmporas e dedico uns instantes a recuperar antes de voltar à saleta. Que diabo acabei de aceitar? Sinto-me bastante confusa, e tenho de admitir que a razão para isso está


neste momento sentada na minha sala de estar. Antes do reaparecimento de Dixon, começava a abrir-me e a experimentar progressos no meu relacionamento com David. Mas agora que voltou e esteve a ponto de me beijar, não sei o que fazer. Talvez tenha sido má ideia convencer-me de que podíamos ser apenas amigos. Não sei o que há nele, mas é o primeiro tipo por quem sinto isto. O primeiro pelo qual me sinto fisicamente atraída sem me assustar. A única coisa que desejo é ser normal e Dixon ajuda-me nesse aspecto. Enxugo uma lágrima furtiva, atiro o telemóvel para cima da cómoda e olho para o meu reflexo no espelho. Estou uma verdadeira desgraça, com o cabelo mal apanhado num rabo-de-cavalo às três pancadas e uma nódoa de cheesecake na T-shirt. E, no entanto, o homem sofisticado que está do outro lado da porta tentou beijar-me. Porquê? Inspiro fundo, abro a porta e espero não ser traída pelo rosto ruborizado. Quando entro na saleta vejo que o sofá está vazio e Dixon desapareceu. Não o ouvi ir à casa de banho, mas dou uma volta rápida pela casa, para a eventualidade de lhe ter apetecido desentorpecer as pernas. Depois de a ter examinado duas vezes, não encontro ninguém. Foi-se embora, a menos que se tenha escondido no guarda-roupa. Olho para o relógio de madeira trabalhada que herdei do meu avô e verifico que estive vinte minutos ao telefone. Devia sentir-me irritada por ele se ter ido embora, mas ainda estou mais por não ter resolvido mais cedo o assunto com David. Sem disposição para continuar a estudar, resolvo arrumar a papelada, tomar um duche e enfiarme na cama, na esperança de sonhar com os acontecimentos do dia. Um pedaço de papel solto sobre a mesinha de café desperta-me a atenção. Baixo-me para o apanhar. Numa letra elegante leio: Quer dizer que és um anjo. Mordo o lábio e encosto o papel ao peito, incapaz de continuar a fitar a doçura daquelas palavras.


Capítulo 18 Matéria para pensar

Dixon – Bom dia, doutor Mathews – saúda-me Susanna quanto irrompo pela porta. O casaco encharcado deixa uma marca na alcatifa creme. – Senhora Vale – respondo, a passar a mão pelos cabelos molhados. – Devia ter telefonado, que tinha ido lá abaixo buscá-lo com um chapéu-de-chuva. Levanta-se pressurosamente e estende-me uma caixa de lenços. – Por amor de Deus, estamos em Junho. Por que raio está a chover? – barafusto, a pegar na caixa e a tirar alguns para limpar a cara. A pasta está encharcada, e como chapéu-de-chuva improvisado foi um desastre. – Quando acabará esta porcaria desta construção? – pergunto, enquanto limpo as lapelas do casaco do fato cinzento. – Estamos em Nova Iorque. Quando esta acabar, vai começar outra – responde. – Tem toda a razão. Só queria que se despachassem para poder arrumar o automóvel na garagem pela qual pago milhares – replico. Susanna acena e sorri. – Começou mal a semana? Se fosse outra pessoa qualquer, respondia-lhe que não metesse o nariz onde não era chamada, mas Susanna é quase da família. – Nem sabe da missa a metade. – Vá lá. Eu preparo-lhe um café – diz, a encaminhar-me para a porta do consultório. A manhã não ajuda a melhorar o meu estado de espírito, e quando chega o meio-dia convençome de que sou capaz de matar a doente seguinte. Estou a conter-me para não bater com a cabeça no tampo da secretária quando ouço uma ligeira pancada na porta. – Entre – berro, e desisto de ler os apontamentos relacionados com a consulta seguinte. – Doutor Mathews, desculpe incomodá-lo – diz Susanna, a meter a cabeça pela abertura da porta. – Não faz mal. Entre – e acompanho as palavras com um movimento da mão. – Isto acabou de chegar – informa, a segurar uma pequena caixa branca. – O que é? Quem a enviou? – pergunto a erguer uma sobrancelha. – Não sei. O transportador disse que não havia indicação do remetente. – Que estranho – observo, espicaçado pela curiosidade. – Foi o que pensei. Aproxima-se da secretária e estende-me a caixa.


Examino-a por todos os lados e continuo sem fazer ideia do que poderá conter. – Se for uma orelha cortada vou ficar mesmo chateado. Susanna solta uma gargalhada. Levanto a tampa e espreito apreensivamente para o interior, enquanto Susanna se inclina para ver também o conteúdo. No momento em que vejo a fatia de cheesecake identifico de imediato o remetente. Mas porquê? – Há um sobrescrito – diz Susanna, excitada com a situação insólita. Pego nele e abro-o. Lá dentro encontro o mesmo pedaço de papel que deixei a Madison. Por baixo do que tinha escrito estão as palavras Guardei um pedaço para ti – de um anjo para outro. – Doutor Mathews! Sente-se bem? Não abro a boca. O pedaço de papel que seguro entre os dedos absorve toda a minha atenção. Por que razão me mandou isto? As paredes do apartamento de Madison são finas como papel e ouvi a maior parte da conversa dela com David. Não há dúvida de que gosta dele, ela disse-o. Só tenho de esquecer o facto de quase me ter beijado, pois é evidente que os seus actos não condizem com as palavras. Não aguentei nem mais um segundo a ouvi-la mimar aquele parvalhão apaixonado e pus-me a andar. Só lhe deixei um bilhete porque não a quis deixar outra vez pendurada. Não alimentava expectativas, mas podia ter escrito qualquer outra coisa. No entanto, achei melhor que a alternativa «O teu namorado é um parasita que não vale nada». Olho para o bolo e para o bilhete e, com franqueza, não sei o que fazer. Estou envolvido com duas mulheres que me fazem mal à saúde, por razões diferentes, é certo, mas ambas são tóxicas. Fecho a tampa da caixa, empurro-a para o lado e meto no bolso o bilhete dobrado. Puxo o cesto dos papéis com o pé e estou prestes a deitar a caixa lá para dentro quando Susanna me impede. – Não o vai comer? – pergunta, intrigada com o meu desagrado perante uma inofensiva fatia de bolo. Abano a cabeça. – Não. Quere-o para si? – e estendo-lhe a caixa. – Tem a certeza? – Que lhe faça bom proveito. Susanna aceita o bolo da minha mão estendida. – Tem a certeza de que não o quer? – volta a perguntar, e não consigo evitar uma risada seca. – O problema é esse, senhora Vale – replico em tom vago, mas já sem me referir ao bolo. Susanna parece intrigada pela ambiguidade da minha reacção, mas não insiste. Pega na caixa e encaminha-se para a porta. No entanto, vira-se e, com a mão no puxador, ergue a caixa acima da cabeça e diz: – Matéria para pensar, doutor Mathews. Fecha a porta devagar e deixo escapar um suspiro, pois está cheia de razão.


O resto da semana não é melhor do que o princípio, e quando chega a tarde de sábado estou morto por S&S – scotch & sex. Juliet tem estado ausente toda a semana e depois da desanda que lhe dei no último fim-desemana outra coisa não seria de esperar. Mas o facto de ter sexo excitante e à disposição durante três meses acaba por estragar um homem com mimos, e as minhas hormonas andam num tumulto. Podia telefonar a Juliet, mas creio que pensamos o mesmo, não somos mais do que parceiros numas fodas que se deixaram arrastar para uma aventura. Não sei o que faça. Saio à procura de alguém com quem queimar esta energia sexual recalcada? Telefono a Juliet? Satisfaz todos os meus caprichos sexuais, é conhecida e não complicada, mas por qualquer razão não me decido a fazer-lhe um telefonema. Quando passo por uma tipa que anda a correr, percebo que é por causa de Madison. Não consigo tirar da cabeça aquela imagem de nós os dois, quase a beijarmo-nos, e quanto mais a tento esquecer mais vívida ela se torna. Não deu sinal de vida depois de ter enviado o cheesecake, e mantive-me propositadamente à distância. Preciso de tirar estas duas mulheres da minha cabeça, mas para o conseguir tenho de dar uma queca. Levo a mão ao bolso do casaco para tirar o telemóvel. Ligo a Hunter, que atende ao segundo toque. – S & S? – pergunta. Concordo com um grunhido. – Vamos a isso. Finch não pôde vir, portanto somos só nós dois, Hunter e eu, o que nunca é uma combinação feliz quando estamos ambos grossos e entesoados. Sou nomeado motorista; não bebi muito, só o bastante para ver tudo a dobrar. Hunter arrastou-me até ao Cherry Pop, o clube onde encontrei Madison a dançar na pista como uma deusa. Preferia que ele tivesse escolhido um sítio mais tranquilo, mas percebo a razão da escolha. As miúdas estão pouco menos do que nuas e a roçar a idade legal, e com a quantidade de álcool barato que me corre nas veias a noite parece ir de vento em popa. Hunter também anda à caça e a nossa dupla solidão deve funcionar como um magneto, pois já tenho no bolso cinco números de telefone diferentes e não faço ideia de como lá apareceram. – Então, o que te apetece? Morena? Loura? Ruiva? – pergunta Hunter, dobrado sobre o varão para olhar as presas que se agitam lá em baixo. – Não sei – digo, a espreitar também para o mar de corpos que se roçam. – Para mim, estou a pensar numa ruiva – diz Hunter, a esfregar as mãos com ar sinistro. Rio, olho para ele e penso que é o momento ideal para lhe perguntar o que o anda a chatear, pois quando está embriagado abre-se todo. – Tu andas bem, meu? Acho-te estranho. Quero dizer, mais estranho do que o costume – corrijo com um sorriso provocante. – Detecto alguma hostilidade da tua parte quando se trata do sexo


oposto. Hunter bebe um trago de cerveja e percebo que acertei em cheio. Mas encolhe os ombros, sem vontade de partilhar os seus sentimentos. Resolvo insistir. – Não queres falar sobre o assunto? – Companheiro, vim aqui para foder, não para conversar. Portanto, a menos que me queiras chatear, acaba lá com essa psicotreta. E além do mais – acrescenta – andas afogado em ratas, não eras capaz de compreender. – Compreender o quê? – De compreender que és um sacana cheio de sorte. – Sorte? Por favor, explica-te – respondo a coçar a cabeça, já que na minha opinião estou muito longe de ser um tipo com sorte. Estou obcecado por uma rapariga que está fora do meu alcance, ao mesmo tempo que tento desabituar-me de outra. Hunter lê-me os pensamentos. – Ao menos as gajas vêm ter contigo a pedir mais. E eu, o que tenho? Já me sinto um gajo com sorte se consigo que me digam o nome. Sou assim tão feio? Importas-te de me dizer? – pergunta, enquanto bebe mais um gole. Então é isto que o anda a moer. Será que o meu amigo, um gajo muito mais mulherengo do que eu, anda à procura de uma namorada a tempo inteiro? Tem de ser. O problema dele é escolher as mulheres erradas. Disso sei eu. – Companheiro, tu não és feio. Se me desse para saltar para o outro lado, atirava-me a ti – digolhe na brincadeira, ao mesmo tempo que lhe bato no ombro. – Então queres assentar, é? – pergunto, já sério, para confirmar a minha teoria. Encolhe os ombros, o que em linguagem de Hunter significa sim. – Hunt? – insisto, para o obrigar a falar. – Não sei, pode ser que sim! – responde secamente, irritado com a minha insistência. – Só que… são todas tão falsas. As mulheres são todas assim? Se são, merda para isto tudo. Continuo a preferir as gajas de passagem – conclui, a passar a mão pelo rosto. – Talvez o problema seja que as mulheres com quem te metes não sejam do género de te apresentar à mamã – digo de maneira a que não pense que o estou a julgar. – Além disso, a maneira como falas, como andas, como te vestes… Jesus, não há nada em ti que indique que tencionas assentar. – A minha tendência para as putas não será um grito por socorro? – sugere apressado, mas não percebo se está a falar a sério ou não. Quando me preparo para lhe dar réplica, manda-me calar. – Vamos dar uma foda. Afasta-se do varão e olha para mim. Percebo quando alguém quer pôr termo a uma conversa, mas não me dou por achado. Já não fala mais, mas pelo menos fiquei a saber o que o anda a chatear.


A conversa tem de ficar em suspenso, pois vejo um par de gémeas que vem ao nosso encontro. E estou a falar de miúdas, não de mamas. Iguaizinhas, sem tirar nem pôr. – Dá-me um soco – rosna Hunter pelo canto da boca. – Estás pedrado? – respondo num murmúrio, intrigado com a volubilidade dele. – Vou ficar, depois de foder a gémea número um, ou a dois. Não me interessa qual é, sou incapaz de as distinguir, são mesmo gémeas, porra – declara, com um sorriso imbecil que mostra como se sente entusiasmado. – Isto não é um sonho, pois não? Aquelas duas bombas louras vêm na nossa direcção. Reviro os olhos e bebo um gole de cerveja. – Não, palhaço, são verdadeiras e vêm para cá – respondo, a reparar nas mamas postiças que mal saltitam ao ritmo da passada. – Seja como for, dá-me um soco – replica, mas não correspondo ao pedido de violência, pois as duas miúdas param à minha frente. – Olá, eu sou a Mandy, esta é a Marisa – diz Mandy, a mostrar os dentes perfeitos que cintilam sob a luz fluorescente. Sem me dar tempo a responder, Hunter dá um passo em frente e assume o comando. – Olá, Mandy e Marisa. Eu sou o Hunter, e este tipo feio é o Dixon. E faz um gesto com o polegar na minha direcção. Sorrio sarcasticamente ao seu carisma e estendo a mão. – Encantado por conhecê-las, minhas senhoras. Pela maneira como Marisa me olha nos olhos e para a minha mão, percebo que prefere que a pouse noutro lado. É atraente – quero dizer, é loura, tem uma belo par de mamas e parece-me acessível –, mas de repente dou por mim a desejar uma morena. Grito ao meu subconsciente para fechar a boca, esqueço a existência de uma certa morena e concentro-me na queca que quero dar. – Então, podemos oferecer-vos uma bebida? – pergunto e ambas acenam que sim. – Gostaríamos muito – declaram em uníssono e a soltar pequenas gargalhadas. Hunter tem ar de quem acaba de morrer e chega ao céu; quanto a mim, parece-me mais o inferno. Quarenta e cinco minutos mais tarde já me arrependo de me ter prontificado a conduzir. Contudo, não há uísque que compense, nem de longe, o que as gémeas mamalhudas prometem. É a terceira vez que Hunter me dá um pontapé na canela por baixo da mesa, e se volta a fazê-lo levo a sério o que me pediu antes e enfio-lhe um murro nas trombas. Mandy, a gémea número um, mais velha por dois minutos, sugeriu não muito discretamente uma sessão de sexo em grupo, à boa maneira antiga. Sem surpresa, Hunter alinhou logo, mas a ideia não me agrada muito, e daí a violência que se desenrola debaixo da mesa. Não sou um modelo de virtude e no meu tempo alinhei em farras a três ou a quatro, mas nunca com o meu melhor amigo, e não estou nada interessado em ver Hunter concretizar os seus sonhos


de Hugh Hefner com aquelas candidatas a coelhinhas incestuosas. – Desculpem, cavalheiros – diz Mandy, que estende a mão à irmã. – Vamos fazer uma visita à casinha das meninas. Riem-se muito e sopram-nos beijos antes de saírem. Assim que desaparecem de vista, Hunter inclina-se sobre a mesa baixa e dá-me uma palmada nos tomates. – Au! Que merda é essa? – protesto, a levar a mão às partes baixas. – Para que foi isso? – Não sei, era só para ver se ainda tinhas os tomates no sítio e se não te cresceu uma vagina de um dia para o outro – explica num só fôlego. – Tem calma, porra – respondo a rir, mas sem largar as jóias da coroa. – As gajas acabam de se referir aos lavabos como a casa das meninas. Não achas nada de errado? – pergunto com um estremecimento. Mas Hunter não aprecia a minha tirada humorística e responde: – A única coisa que está errada aqui é seres um chato de merda. Não vou deixar que me estragues isto – declara, a espetar-me um dedo no peito. Afasto-lhe a mão com um sopapo. – Isto é o meu sonho desde que descobri o que as mamas e as ratas são capazes de fazer – declara muito sério. Não evito uma gargalhada perante a atitude melodramática. – O teu sonho é apanhares um esquentamento? – pergunto em tom jocoso, e Hunter prepara-se para outra palmada nos meus tomates, sem achar piada à sugestão de uma doença venérea. – Pára de me bater nos tomates, está bem? A este ritmo não tardo em ter mesmo uma vagina. – O que se passa contigo, Dix? Dantes atiravas-te a uma oportunidade destas como gato a bofe. E agora até parece que estas duas gajas boas te pediram que lhes doasses um rim. Não vais à bola com elas? Os olhos verdes traem a confusão que lhe vai na alma. Tem toda a razão em se sentir confuso. Pois se até eu estou confuso. Isto não me parece bem. Não gostei quando Juliet sugeriu um ménage à trois, e não me agrada o grupinho de quatro sugerido pelas manas mamalhudas. Parece-me porco e deprimente. Dois homens de trinta e dois anos a considerar a possibilidade de fazer sexo a quatro com um par de manas entesoadas é nojento. – Foi para isto que viemos cá, não foi? – pergunta Hunter, e eu concordo com um aceno de cabeça. Foi de facto por isto que andámos a rondar os cantos esconsos, em busca de uma vítima disposta a mitigar-nos a solidão por uma noite. Todavia, foram as nossas «vítimas» a encontrar-nos e a prestarem-se voluntariamente ao sacrifício, oferecendo mais do que esperávamos. Mas não me sinto entusiasmado. A cada momento que passa, as duas raparigas vão-se tornando menos atractivas e tenho a certeza de que, se entrar no jogo, farei parte de fraco. – Escuta, não te impeço de dares livre curso às tuas fantasias de Hugh Hefner, mas eu estou fora – declaro.


Hunter deixa escapar uma gargalhada escarninha. – Sim, podias tirar para fora… da Marisa, mas estás armado em esquisito. Não mereces o que tens entre as pernas – responde em tom enfatuado, mas percebo que respeita a minha decisão. – Se não queres, mais fica – conclui com um encolher de ombros desinteressado. A conversa acerca de assentar foi relegada para segundo plano. Antes de ter tempo para responder, as raparigas voltam e Marisa senta-se quase ao meu colo. – Estivemos a pensar – começa Mandy a dizer, a cegar-me com o brilho dos lábios acabados de retocar – que vocês não parecem muito entusiasmados com a ideia de brincarmos os quatro. Mete-me nojo o uso inadequado da expressão. Hunter olha para mim e gesticula com a boca, mas sem som, «Maricas», mas não lhe ligo e espero para ouvir o que Mandy tem a dizer. – Mas nós gostamos mesmo de vocês e continuamos a querer… brincar – conclui com um sorriso descarado. Não faço ideia do que seja «brincar», mas Marisa esclarece-me ao meter-me a mão entre as pernas para me apalpar. Surpreendido, dou um salto brusco e tenho de me agarrar à mesa para não cair. Marisa fita-me com uns olhos falsamente tímidos, agora agarrada ao meu membro. Hunter ergue uma sobrancelha, e viro a cabeça para baixo, de olhos esbugalhados. Hunter entende o enigma e sorri. – E tu, queres brincar comigo? – pergunta-lhe Mandy em voz rouca, enquanto a outra me masturba discretamente por baixo da mesa. – Podes crer, querida. Levanta-se e arranca Mandy do assento. – Diverte-te, Dix – despede-se com uma piscadela de olho. – Amanhã falamos. Sem me dar tempo a responder, desanda escada abaixo, a arrastar Mandy consigo. Fico sozinho com Marisa e com uma erecção que se começa a fazer sentir. Ainda tenho a bandeira a meia haste, mas mais algumas festinhas e flutuará no topo do mastro. Mexe os dedos devagar e com sabedoria, e é o que eu preciso. Como um duo, Marisa e Mandy são nojentas com os hábitos de terminarem as frases uma da outra e de quererem foder com os mesmos homens. Mas nesta actuação a solo, Marisa dedica-se a mim. Fecho os olhos e inclino a cabeça para trás, apoiada nas costas do assento. Entrego-lhe o comando das operações; corre o fecho dos meus jeans e faz deslizar a mão lá para dentro. Não costumo usar cuecas, e hoje não é excepção, de modo que assim que mete a mão entra em contacto com a carne quente. A maneira como os seus dedos famintos me acariciam e a sua respiração alterada mostram que está tão excitada como eu. Aperta-me com mais força, acelera o ritmo e o meu corpo faminto de sexo canta de alívio, à espera do momento certo para me vir. Contudo, tomo de repente consciência do lugar onde me encontro e abro os olhos. Já me vim em lugares piores do que este, mas por muito agradável que seja não quero ser apanhado a ejacular num lugar público onde um milhar de pessoas se prestaria de bom grado a relatar a minha depravação ao New York Times.


Afasto os quadris e observo a reacção de Marisa, que me olha com a confusão estampada nos olhos azuis. – O que foi? – pergunta, e a boca de lábios cheios curva-se numa expressão de desagrado. Inclino-me para a frente e segredo-lhe ao ouvido: – Vamos sair daqui. Quando me vier, vai ser dentro de ti e não neste bar nojento. Chego-me para trás para avaliar a reacção dela, e pelas pupilas dilatadas e respiração ofegante percebo que concorda com a ideia. Aconchego-me discretamente, puxo o fecho das calças, deslizo para fora do compartimento e estendo-lhe a mão para a ajudar a levantar-se. Sigo à frente, mas não vou longe, pois a fila para descer mal se mexe. Olho por cima do ombro para ver o motivo do congestionamento e reparo em dois tipos que apontam para baixo, para qualquer coisa que se passa na pista de dança. Sem grande interesse espreito também, e avanço para me certificar de que é verdade o que os meus olhos vêem. Como o braço de Marisa está enganchado no meu, arrasto-a comigo, mas não presto atenção aos seus protestos, pois estou a cinco segundos de sofrer um ataque cardíaco. – O que é, Dixon? – ouço-a perguntar, mas nem consigo responder-lhe, concentrado em Madison que está na pista de dança, brutalmente sacudida por Tim. Os meus pés reagem antes do cérebro e abro caminho à força, a empurrar tudo e todos. A turba afasta-se quando me vê carregar na sua direcção, mas quando Marisa me deita a mão ao braço para me deter, rodo nos calcanhares, prestes a explodir. Levo a mão ao bolso, saco uma nota de vinte solta e meto-lha na mão. – Toma, chama um táxi. – Dixon! – grita, mas não fico à espera de ouvir o que tem para dizer. Desço desenfreadamente a escada em espiral e por pouco não caio ao saltar os degraus de dois em dois; os meus pés movem-se a uma velocidade ímpar, não quero saber de mais nada, tenho de chegar perto de Madison. Abro caminho à cotovelada e ao empurrão, sem querer saber de quem está no meu caminho, e a violência resulta, pois consigo atravessar a horda num tempo recorde. No entanto, no lugar onde vi Madison está agora outro par, e deixo escapar uma praga por tê-la perdido. Dou graças à minha altura quando olho por cima das cabeças e topo Madison a encaminhar-se para a saída com o macaco no encalço. Estou em piloto automático, levanto alguém que me aparece à frente e ao cabo de muitas pragas, injúrias e bofetões consigo alcançar a saída. Olho frenético para a esquerda e para a direita e vejo Madison a afastar-se de Tim com movimentos desabridos, ao mesmo tempo que lhe grita para a deixar em paz. Arranco em passo rápido. Antes de os alcançar, ouço Madison dizer: – Tens de deixar de me seguir. Já te disse que não estou interessada em ti. – Como sabes que não estás interessada em mim? Não me dás uma oportunidade! – replica ele em tom irado, ao mesmo tempo que se estica para a agarrar. Vejo o terror que contorce o rosto dela e não preciso de mais nada para explodir. Os olhos de Madison arregalam-se quando me vê e o babuíno deve ter-se apercebido disso porque se volta para avaliar o perigo, mas sou mais rápido e aplico-lhe um soco no queixo.


Madison grita, Tim cambaleia para trás mas nada me detém e volto à carga, pronto para outro soco. Acerto-lhe na cara e aplico-lhe um gancho no queixo numa sucessão rápida de golpes que lhe projecta a cabeça para trás com um som de arrepiar. Sacode a cabeça, a cambalear, é evidente que a força dos meus socos lhe sacudiu o cérebro minúsculo, mas não paro. Mais um murro na cara e o tipo recua aos tropeções, a limpar com as costas da mão o sangue que lhe escorre do lábio. – Não, Dixon! – grita Madison, mas não quero saber. – Tu, outra vez! – consegue Tim articular quando me vê, e os seus olhos estreitam-se numa fresta raivosa. – Voltei para te ensinar a teres maneiras – rosno e ataco de novo, resolvido a deitar abaixo o filho-da-puta. Esquiva-se à minha investida e tem a sorte de me acertar no lábio com um gancho. O sabor metálico informa-me que me rebentou o lábio e ajuda a incrementar a minha fúria. Começamos a rodar em círculos, cada um atento aos movimentos do outro como dois predadores, mas Tim não se aguenta bem nas pernas e vejo que lhe desponta um inchaço no olho. – Não sei por que razão lutas por ela. Nem te dá troco – e cospe sangue para o passeio. – Ou se calhar já desistiu dos joguinhos de sedução e abriu as pernas. A rudeza das palavras reacende-me a raiva, mas quando me preparo para atacar, Madison interpõe-se entre nós e antecipa-se-me com um soco nas trombas do imbecil. Tim cambaleia para trás, surpreendido pelo ataque, e cai de cu. Madison grita, a agarrar a mão apertada contra o peito e a gemer de dor. A preocupação com a segurança dela sobrepõe-se à vontade de dar um pontapé no gajo. – Madison, estás bem? – pergunto a arfar e a estender a mão para lhe agarrar o ombro. Apanha-me de surpresa quando se encolhe para se esquivar ao meu contacto, parecendo furiosa comigo. Quando os seus olhos se cruzam com os meus, vejo que estão marejados de lágrimas, mas tenho a sensação de que não se devem às dores na mão. – Deixa-me ver – peço com carinho. – Estou bem – responde corajosamente, sem deixar de apertar a mão contra o peito. – Por favor? – imploro, a envolver-lhe o pulso com os dedos para que me deixe ver. Resolve ceder e baixa a mão com uma expressão de dor. – Consegues fechar o punho? – pergunto, a pousar a mão ao de leve sobre a dela em busca de fracturas. Obedece mas geme de dor e tenta retirar a mão. No entanto, estou a agarrá-la com firmeza e não deixo. Acabo o exame e digo: – Não há nada partido, mas sofreste uma luxação. Vamos para casa para pormos gelo nisso. – Estás a sangrar – exclama. Estende a mão e toca-me no lábio com o dedo. O gesto alegra-me o coração, mas afasto-lhe a mão, pois quero pôr-lhe gelo antes que comece a inchar.


– Estou bem, é só um arranhão. Vamos para tua casa, está bem? Acena com a cabeça. Por cima do ombro dela, olho para Tim, que continua estatelado no chão, demasiado tonto para se levantar. – Um belo gancho de direita – comento enquanto lhe passo um braço pelos ombros para a levar para o automóvel. – Obrigada. Tenta parecer calma, mas as tremuras que a sacodem mostram como ficou abalada. Aperto-a mais contra mim, e quando não resiste todo o meu corpo canta de felicidade à ideia de que precisa de mim. Quando sinto na cara as primeiras gotas de chuva, amaldiçoo o raio do tempo. Sem aviso prévio, abrem-se as torneiras do céu e em poucos segundos desaba uma verdadeira tromba-d’água. Madison solta um grito quando a agarro com mais força e acelero o passo para não morrermos afogados. – Ainda falta muito? – grita a levantar os olhos para mim, para se fazer ouvir acima do ruído da chuva. – Três quarteirões. As minhas botas esguicham água a cada passo. De repente, Madison agarra-me o braço e aperta com força. Páro abruptamente, para ver o que ela quer. Baixa-se e com movimentos desajeitados descalça os sapatos de salto. Perde quinze centímetros de altura. Levanta a cabeça e olha-me com ar de um rato prestes a afogar-se, mas sorri e acena com a cabeça para darmos início a uma corrida até ao automóvel. Quando chegamos junto do BMW estamos ensopados, mas só penso em meter Madison lá dentro para a tirar da chuva. Atiro-a para o assento do passageiro, corro como um louco para o outro lado e atiro com a porta depois de entrar. Assim que o motor começa a roncar, estico o braço para ligar o aquecimento, pois ouço-lhe os dentes a baterem de frio. Olho-a de relance e noto que tem as roupas encharcadas coladas ao corpo. – Maldito tempo – praguejo e puxo para trás os cabelos molhados, na tentativa de ver a rua congestionada. Quando vou a arrancar, Madison solta um impropério: – Merda! – O que foi? Volta a praguejar e procura à sua volta, ao ponto de se levantar do assento para ver debaixo do traseiro. – Porra para isto, perdi a carteira. Deixa escapar um soluço e só agora me apercebo com alguma clareza de que tem os olhos um pouco vidrados. – Lembras-te de quando foi a última vez que lhe mexeste? – pergunto, e ela abana a cabeça para dizer que não, com os cabelos molhados a colarem-se-lhe ao pescoço comprido.


Olho através do pára-brisas e constato que a chuva atingiu proporções bíblicas, mas mesmo assim desaperto o cinto, pronto para arrostar com a carga de água. Madison agarra-me o braço e impedeme de sair. – Não podes ir lá para fora. Além de estar a chover a potes, isto é Nova Iorque. É muito possível que já tenha outro dono – justifica-se, a olhar pela janela. – Então e as tuas coisas? – Não faz mal. Trazia poucas. Só as chaves, algum dinheiro, creme para os lábios e pastilhas elásticas – informa, e de repente sai-lhe novo soluço. Envergonhada, leva a mão à boca. – Estás bêbeda? – pergunto a sorrir, e Madison baixa os olhos, atrapalhada. – Não muito. Pelo menos penso que não. O ar quente do ventilador sopra-lhe os cabelos pegados à cara. – Pensas que não? – pergunto, intrigado, enquanto volto a apertar o cinto de segurança. Madison abana a cabeça e responde em voz tímida: – Não sou grande bebedora, de maneira que quando bebo basta um ou dois copos para ficar arrumada. Acciono o pisca e mergulho no tráfego, ciente de que chegar a casa vai ser um pesadelo. – Fácil de embebedar. O tipo de encontro sonhado por qualquer homem – digo para a provocar, mas calo-me assim que percebo o que acabo de dizer. – Pois, o problema é esse – replica secamente Madison. – Que problema? – Foi esse encontro de sonho que me levou a beber. – Não estou a perceber – respondo sem afastar os olhos do caminho. O cabedal range quando Madison se mexe e pergunto-me se não estará arrependida da sua franqueza acidental. Mas surpreende-me ao dizer: – Esta noite conheci os pais do David. – Ah, sim? Sei muito bem que foi conhecer os pais dele, ouvi a conversa ao telefone. – Pois foi. A lassidão perpassa-lhe na voz. – E como correu? – pergunto, a fingir-me pouco interessado. – Bestial – e solta um suspiro. – Então isso é bom, não é? – insisto, a apertar o volante com força. – Penso que sim. Quero dizer, são pessoas simpáticas e acolhedoras. – Mas…? – Não sei. Demasiado simpáticas e acolhedoras. Oh, meu Deus, o que se passa comigo? – grita, a levar as mãos à cara. Estendo o braço para lhe destapar o rosto. – Ei, não há nada de errado contigo. E olha que percebo dessas coisas. Continuo a usar um tom casual.


– Há, sim – contrapõe tristemente e a fungar. Olho-a de relance e vejo lágrimas a bailar nos lindos olhos verdes. A tristeza dela faz-me doer o coração, de modo que resolvo pôr as coisas a limpo, pois aquela falta de confiança é dolorosa de contemplar. – Visto daqui, só encontro perfeição. Sai-me sem me dar conta; só espero que não se passe dos carretos com a minha honestidade. Concentro-me na estrada, à espera da resposta. – Obrigada, Dixon – murmura ao cabo de um minuto de silêncio. – Se ao menos fosse verdade. Que andará ela a esconder? Todos temos um passado, mas Madison é uma mulher que olha para o futuro. O médico que há em mim está em pulgas para descobrir o que se passa, para a dissecar. Mas o homem que também há em mim só quer apertá-la contra o peito e dizer-lhe que está tudo bem. Não sei por que razão me sinto assim, mas há qualquer coisa nela que me faz desejar ser um homem melhor. – Para onde vamos? – pergunta. Sacudo a cabeça para clarear as ideias. Merda, sigo na direcção oposta à da casa de Madison. Sem intenção, tomei o caminho da minha casa. A chuva continua a cair com violência e as escovas do limpa-pára-brisas trabalham na velocidade máxima para enfrentar as bátegas. – Para minha casa – digo, e apresso-me a explicar, antes que ela se assuste. – Não te posso deixar na rua à chuva, sem chave para entrares no prédio. Acho que podias usar o meu telefone, deixei o telemóvel no apartamento, para telefonares a alguém que tenha outra chave. Ou então posso deixar-te em qualquer outro sítio – sugiro, angustiado com a possibilidade de ela sugerir o apartamento de David. Deixa escoar uns segundos antes de anuir e suspiro de alívio – Telefono à Mary. No entanto… – olha para o relógio. – A esta hora não deve estar em casa. Tinha combinado encontrar-me com ela, mas… – Cala-se, a mordiscar o lábio e a puxar o cinto de segurança com gestos nervosos. Gostaria de saber o que ia a dizer, mas não insisto. Da maneira como os seus olhos se estreitam, acho que afinal era capaz de não gostar. – Obrigada por teres vindo em meu auxílio. Outra vez. Deves julgar-me uma criatura patética. – O quê?! – exclamo, já a virar para o meu parque subterrâneo. – Por que raio havia de pensar uma coisa dessas? – Porque quando me vês ou estou a cair e a ferir-me na cara ou aos socos com o meu exnamorado que me persegue. Ou a mandar-te um pedaço de cheesecake em sinal de paz e a ficar uma semana inteira sem te ouvir – acrescenta num sussurro. Estaciono no lugar que me está reservado, desligo o motor e viro-me para ela enquanto desaperto o cinto. Retorce nervosa as mãos no colo e evita olhar-me nos olhos. – Não penso que sejas patética – declaro peremptoriamente. – Então por que motivo não me disseste nada? – pergunta, a levantar os olhos para os meus. – Queria pedir-te desculpa pela minha falta de atenção, foi por isso que enviei o cheesecake. Como


não respondeste, julguei que não gostasses de cheesecake. Ou de mim. Volta a baixar os olhos. Esta miúda dá cabo de mim com a sua honestidade, e percebo que devem ser os efeitos do álcool, pois nunca a tinha visto assim. Em geral, é bastante mais recatada com os seus sentimentos, de modo que não tenho remédio senão perguntar. – Para que fique registado, gosto de cheesecake… e de ti. Mas, como mera hipótese, se não gostasse do bolo nem de ti, isso tinha alguma importância? Madison ergue a cabeça e morde o lábio. – Diria que és doido por não gostares de cheesecake. Isto é uma conversa disparatada – remata com uma tremura na voz. – E se eu dissesse, por mera hipótese, é claro, que não gostava de ti? – pergunto em voz rouca, a inclinar-me para ouvir a resposta. Engole em seco e os meus olhos pousam no peito arfante, quase transparente através da T-shirt de seda branca ainda encharcada. A marca das rendas do soutien de cor creme é visível e cresce-me água na boca perante aquela visão perfeita. – Fi… ficaria… – gagueja, a mover os dedos. – Ficaria perturbada se não gostasses de mim, Dixon – murmura. Inclina-se para a frente e os nossos hálitos misturam-se. – Porquê? – insisto no mesmo tom e a chegar-me mais para ela, olhos nos olhos. Suprimo um gemido quando humedece o lábio inferior. Aquela língua cor-de-rosa provoca-me arrepios na líbido. – Porque… porque gosto de ser tua amiga – termina, a deitar um balde de água gelada sobre as minhas hormonas em ebulição. Não perco a compostura e sorrio. – Bem, eu também gosto de ser teu amigo. Madison esboça um sorriso acanhado e não resisto a inclinar-me para lhe roçar os nós dos dedos pela face, a deixar um rasto de faíscas invisíveis. – Vamos para dentro. Estás a tremer de frio. – Não tenho frio – diz precipitadamente. – Estás a tremer – insisto, a olhar-lhe a pele-de-galinha na parte superior do corpo. – Estou? – pergunta, de olhos postos na minha boca. O calor intenso dentro do automóvel cria uma neblina que tapa os vidros e me tolda o cérebro também, a isolar-nos do resto do mundo. Cego para o resto do universo, só nós os dois existimos e não resisto a inclinar-me para a frente, encurtando a distância que nos separa. Uma atracção magnética controla os meus actos e não tenho forças para lhe resistir. Quem sou eu para lutar contra a natureza? A respiração de Madison enrola-se-lhe na garganta, e quando me inclino mais, a deixar apenas alguns centímetros entre os nossos lábios, abana a cabeça e recua, de olhos muito abertos e assustados. – P… pronto, vai à frente – gagueja, a deitar-me abaixo.


Inspiro fundo, aceno mas hesito, pois de repente não tenho a certeza de que subir para o meu apartamento seja a melhor ideia. E nada tem a ver com a minha regra estúpida. É porque não sei qual será a minha reacção ao ter Madison dentro de casa, pois só consigo pensar no sabor dos seus lábios macios enquanto a comprimo de encontro à parede do quarto. Devia ter pensado neste plano engenhoso antes de me encontrar sentado na garagem subterrânea do prédio. Recomponho-me e sorrio. – Vem comigo. Apeio-me, receoso do que pode vir a acontecer.


Capítulo 19 Só amigos, nada mais

Madison – Queres uma toalha? – pergunta Dixon, a atirar as chaves para o balcão de mármore da cozinha. Baixo os olhos para o top encharcado e transparente e digo que sim. – Se fazes favor. E cruzo os braços sobre o peito, numa atitude de recato. Dixon sorri. – Não demoro um minuto. Por favor, põe-te à vontade. E some-se pelo corredor. Assim que desaparece da vista deixo escapar o ar retido nos pulmões e dobro-me para a frente, com as mãos apoiadas nos joelhos, a inspirar fundo cinco vezes. Quando me sinto um pouco mais calma, endireito-me e procuro reflectir sobre tudo o que aconteceu. Foi uma das noites mais loucas da minha vida e tive de aturar uma data de merdas. Tudo começou com o encontro com os pais de David. Estava bastante nervosa, mas assim que conheci Dean e Rhonda senti-me mais tranquila. A conversa não foi forçada, e mal me dei conta já nos estávamos a despedir com a promessa de um novo encontro para breve. Nem por um momento os meus pensamentos fugiram para Dixon, mas os olhares aduladores de David durante todo o jantar fizeram-me perceber que não estava a ser justa com ele. Ele continuava a tentar, e eu mal fazia um esforço, e quando me perguntou se queria passar a noite em casa dele, respondi que sim. O seu entusiasmo foi tal que me contagiou e sem dar por isso encontrei-me no meu apartamento, a caminho do quarto. A minha ideia era passar por casa apenas para trazer alguma roupa, mas fui apanhada na armadilha do olhar fascinante de David e da covinha do seu sorriso. Além de me sentir rejeitada por Dixon, que não me tinha dito nada ao longo de toda a semana. Gosto do David, gosto mesmo. É directo e não arma confusões na minha cabeça. Além de ser um perfeito cavalheiro e de ter pais perfeitos. Então por que motivo entrei em pânico quando nos começámos a excitar? Talvez por ser fácil estar com David e nada na minha vida tem sido fácil. E se ele for demasiado bom para ser verdadeiro, se me envolvo profundamente e acabo magoada? O que acontecerá se perceber a verdadeira razão por detrás da minha indiferença e não for capaz de suportar a verdade? Estes pensamentos assolavam-me o espírito, e mal tinha dado por isso já ele me corria o fecho dos jeans e mergulhava o rosto num sítio onde nunca quis a presença de ninguém? Percebeu a minha


perturbação e perguntou qual era o problema. Não estava preparada para lhe dizer. Não estou preparada para reviver a pior noite da minha vida. Foi então que fiz uma coisa estúpida. Mandei-o sair. Pu-lo na rua sem uma explicação sobre o motivo da minha perturbação. E, como verdadeiro cavalheiro que é, ele saiu. Esta reacção afável fez-me sentir ainda pior comigo mesma, e telefonei à única pessoa que me podia ajudar a sentir melhor. Mary. Mary estava no Cherry Pop, de modo que apanhei um táxi e fui ter com ela. Embora não o quisesse admitir, tinha a secreta esperança de dar outra vez de caras com Dixon. No entanto, o raio da noite estava destinada a ir de mal a pior. O clube era enorme, e não ajudava nada o facto de lá se encontrar metade de Manhattan. Como não tínhamos combinado um local de encontro, subi ao piso superior, na esperança de a encontrar lá, mas quem vi foi Dixon, muito à vontade, com uma louraça que se lhe roçava pelo colo. Não consegui sair com a rapidez pretendida, e ao descer a escada acabei por esbarrar em Tim. Era a última pessoa que me apetecia encontrar, de maneira que lhe pespeguei uma descompostura de alto a baixo. Estava a aguentar-me bem quando Dixon surgiu, vindo não sei de onde, como se fosse o Exterminador. Vieram-me à memória as imagens da loura de dedos ágeis e fiquei furiosa com a presença dele, a salvar uma vez mais o dia, já que era mais do que evidente que cinco minutos antes nem pensava em mim. Mas quase sem dar por isso, a fragrância e o cavalheirismo de Dixon acabaram por se impor quando me agarrou e correu comigo debaixo da chuva. Dentro do automóvel, Dixon voltou a fazer-se a mim e eu perdi o sentido da razão e disse-lhe coisas que não deveria ter dito. Quando me perguntou onde queria que me levasse, não pude indicar a morada de David, por razões óbvias. Quanto a Mary, devia estar embriagada e no engate, pois parecia ter deixado de odiar os homens. Portanto, fazia sentido ir para casa dele e telefonar-lhe de lá, em vez de lhe aparecer à porta sem avisar, além de que, para ser sincera, me apetecia estar mais algum tempo com ele, para lhe perguntar a razão do seu silêncio ao longo da semana. Sei que não tenho o direito de estar zangada com ele, mas na segunda-feira à noite estivemos quase a beijar-nos, e depois disso ignorou-me durante o resto da semana. Não percebo. Não o percebo. Não percebo a minha reacção para com ele, em especial quando namoro com o David. Preciso de me conservar à distância, mas não consigo. – Ora aqui está – declara Dixon, a arrancar-me aos meus pensamentos e a estender-me uma toalha cor de vinho e o seu telefone. – Obrigada. Solto o cabelo emaranhado e esfrego-o com a toalha, a prestar atenção às pontas encharcadas. – Posso trazer-te qualquer coisa para beber? Café? Chá? Água? – pergunta, a massajar a parte de trás do pescoço. – Só água, se fazes favor.


É o que me pede a ligeira embriaguez. – Com certeza – e volta a desaparecer. Não sei se é imaginação minha, mas parece-me nervoso; não quero saber, e marco o número de Mary. Como já esperava, não atende o telefone. Podia telefonar a Sebastian, mas às duas da madrugada não o quero incomodar, nem à minha mãe. Passados alguns segundos, Dixon regressa com um copo de água e uma embalagem de ervilhas congeladas. – Conseguiste encontrá-la? – pergunta, e reparo que agora tem vestida uma T-shirt azul-marinho em V. Abano a cabeça. – Não, não responde. Vou tentar outra vez. Desisto, ao fim de dez tentativas infrutíferas e de uma série de mensagens sem resposta. – Chamo um táxi – concluo com um suspiro, e nesse preciso momento rebenta um trovão tão forte que me arranca um grito de terror e deixo cair no chão a embalagem das ervilhas. – Odeio tempestades – explico, com a mão sobre o peito alvoroçado. – Sendo assim, não podes voltar lá para fora – conclui Dixon que apanha as ervilhas e as volta a colocar sobre a minha mão magoada. – Qual é a sugestão? – pergunto, a erguer os olhos ao encontro dos dele, comovida pelo seu cuidado. – Bem… podes cá ficar – sugere com um encolher de ombros, e a comprimir as ervilhas com mais força. – Aqui? – pergunto, com o coração aos saltos. – Com certeza. Eu fico no sofá. Não há problema. – Não, não posso fazer isso – replico apressada, pois não seria correcto. – O quê? Ficar aqui? Larga-me a mão e ergue as sobrancelhas numa interrogação silenciosa. Sim, não devia ficar aqui. Mas está a fazer-se tarde e não me restam mais opções. Encontro-me numa encruzilhada. Resolvi que quero que Dixon faça parte da minha vida, e embora namore com David isso não significa que não possa ser amiga de Dixon. Tudo isto faz parte do percurso da minha vida. Com esta ideia em mente, esclareço: – Não posso permitir que durmas no sofá. Expulsá-lo da cama seria horrível. – Não me importo – diz a sorrir e a cruzar os braços sobre o peito largo. – Mas importo-me eu – insisto com teimosia. – Durmo eu no sofá. – Não sejas ridícula. Não vais dormir no sofá. De repente, ocorre-me uma ideia audaciosa. – Somos ambos adultos. Quero dizer, podemos dormir os dois na tua cama. Se não te importas, é claro – acrescento para não me dar ares de presumida.


Um sorriso encurva-lhe os cantos da boca. – Desde que não ressones, tudo bem. Não me importo de partilhar a cama contigo. Solto uma gargalhada, contente por ver que achou piada. – Não, tenho a certeza que não. Dixon acena com a cabeça e quando me examina da cabeça aos pés sinto o sangue afluir-me ao rosto. – Não queres tomar um duche e mudar de roupa? – pergunta, depois de pigarrear. Levo a mão à blusa encharcada e aceno que sim. – Sim, se fazes favor. Desculpa o incómodo. Dixon abana a cabeça, e os cabelos molhados esvoaçam em deliciosas madeixas rebeldes. – Não é incómodo nenhum. Enquanto ele segue pelo corredor, percebo que me apetece perguntar-lhe quem era a louraça. Mas com que direito? Pode andar com quem lhe apetecer. Quero dizer, somos só amigos, não é?


Capítulo 20 A primeira vez

Dixon Sob todos os aspectos, isto é má ideia, mas não consigo desviar os olhos quando Madison apaga a luz da casa de banho e entra no quarto. A minha T-shirt Einstein cai-lhe como um vestido e as calças do pijama arrastam pelo chão, embora as tenha enrolado várias vezes. Agarra o colarinho largo, mas este insiste em escorregar-lhe para o ombro, e ela desiste com um suspiro. – Obrigada pelas roupas – agradece com um ligeiro sorriso. – Não tem importância. Não há maneira de a ter comigo na cama só com a roupa interior, não seria capaz de me dominar. Madison acerca-se da cama, puxa para trás o edredão preto e deixa-se escorregar para o interior. Estou sentado contra a cabeceira, a fazer o que posso para me conservar impassível ao vê-la entrar na minha cama e às voltas com o iPad, à procura Deus sabe de quê. Madison suspira de satisfação ao instalar-se, com os lençóis puxados até ao queixo. É uma tentação, vê-la aconchegada na minha cama como se o lugar lhe pertencesse. Baixo os olhos para ela e compreendo que a minha estúpida regra está mais do que obsoleta, pois adoro tê-la ali comigo em casa, e para mais na minha cama. Tossico para limpar a garganta, desligo o iPad e apago a luz. O quarto imerge numa escuridão quase total. Quando me enfio por debaixo das roupas, a temperatura do meu corpo sobe em flecha, pois não costumo vestir nada quando me deito. Contudo, considerei que seria pouco adequado e vesti umas calças largas e uma T-shirt. Mas não vai ser fácil manter-me vestido, pois o corpo já encalmado não precisa de mais nada para o aquecer. – Dixon? – interpela-me Madison, e a sua voz é como um raio de luz a cortar as trevas. – Sim? – Obrigada por me teres deixado ficar. Gosto de estar aqui. Sinto-me… segura – conclui num murmúrio. Se não foi a coisa mais maravilhosa que já ouvi, então não sei qual foi. – Também gosto que estejas aqui – declaro. – Sinto… O que sentes, Dixon? Procuro a expressão mais apropriada, mas sei que uma palavra basta. – … feliz – concluo, e não me senti um idiota chapado por expressar em voz alta o meu pensamento. – E antes, não eras feliz? A pergunta, tão simples, faz-me vibrar uma corda sensível e respondo com honestidade.


– Há muito tempo que não. E é verdade. Posso andar sexualmente satisfeito, mas sempre soube que não passava de um idiota egoísta, a dormir com uma infinidade de mulheres sem rosto e sem dar nada de mim. – Ainda bem que te faço feliz, pois tu também me fazes feliz – confessa, e a tensão na sua voz revela como lhe foi difícil admiti-lo. O seu corpo pequenino enroscado na minha cama enorme faz-me coisas à cabeça que já não sentia há muito tempo. E não estou a falar na cabeça que tenho entre as pernas. Desconfio que começo a estar apaixonado por Madison, seriamente apaixonado. A sua inocência, a sua pureza mas, acima de tudo, a sua honestidade são uma lufada de ar fresco e só agora percebo a que ponto tenho estado privado de oxigénio. Quando se aconchega mais para mim, o aroma a baunilha envolve-me numa bolha apertada e não evito aproximar-me mais uma polegada, para me saciar da sua fragrância. – Se eu ressonar, acorda-me, está bem? A sua sinceridade arranca-me uma pequena gargalhada. – Tenho a certeza de que não ressonas. Mas se por acaso acontecer, dou-te com a almofada. Ri, a sacudir a cama. – Combinado. – Segue-se uma pausa carregada de significado antes de confessar. – Nunca partilhei a cama com outra pessoa. – Nunca? – pergunto, apanhado de surpresa. Estará esta bela mulher a dizer-me que é virgem, já que não a consigo imaginar envolvida em aventuras ocasionais? Responde à minha pergunta com uma única palavra. – Nunca. Aquela palavra é a minha desgraça. Inclino-me um pouco e beijo-a na testa. Prolongo o beijo um pouco mais do que o necessário, mas não resisto. – Bem, vou dar o meu melhor para que seja uma primeira vez memorável – digo, e afasto-me devagar. Espero que o meu comentário não a assuste, pois pode ser mal interpretado. Mas de certo modo quero que ela fique com essa ideia. Ficamos uns momentos em silêncio, a olhar um para o outro no escuro, mas sinto os seus olhos inquisitivos pousados sobre mim, a absorver o que acabo de dizer. – Boa noite, Madison – despeço-me com voz sonolenta e a fechar os olhos, embalado pela brisa ligeira da sua respiração. – Dixon? – sussurra. – Sim. – Já o fizeste – esclarece. Não respondo, pois a única resposta seria esmagar os meus lábios contra os dela. Não o posso fazer por muitas razões, a mais importante das quais é saber que, depois de começar, não serei capaz de parar. E isso assusta-me de morte.


Acordo em sobressalto, com o corpo coberto por uma fina película de suor. E não é só por estar a grelhar por debaixo dos lençóis. Tenho a estranha sensação de ter ouvido alguém do outro lado da porta do apartamento. Ao meu lado, Madison respira em haustos profundos e descontraídos, e é evidente que não ouviu nada. Resolvo ir verificar. Percorro em bicos de pés o quarto onde apenas a luz da Lua quebra o negrume. Conheço o meu apartamento tão bem como a palma da minha mão e não tenho problema em me orientar. No entanto, estou habituado a que tudo esteja no seu devido lugar, o que não é o caso do sapato que Madison descalçou. Tropeço e caio de joelhos, amparado à cama para amortecer o trambolhão. Olho para cima, aterrado à ideia de ter despertado Madison do seu sono reparador. Mas quando ela resmunga qualquer coisa e se vira para o outro lado, percebo que continua a dormir profundamente. A minha reacção protectora foi instintiva. Há muito tempo que não me sentia assim, e é bom preocupar-me com mais alguém, além de mim. Levanto-me devagar e concentro-me no soalho, para me assegurar de que a costa está livre. Consigo alcançar a sala de estar sem mais percalços. Detenho-me no centro do compartimento e apuro o ouvido, virado para a porta. Silêncio. Era capaz de jurar que tinha ouvido um ruído, mas se lá estava alguém parece já se ter ido embora. Volto-me, resolvido a regressar ao quarto, mas de súbito ouço rebuscar qualquer coisa no interior de uma carteira. Já sabia. Corro para a porta tão silenciosamente quanto possível, abro-a num repelão e deparo com Juliet a revolver a carteira. Pára de procurar e dá um passo atrás, surpreendida por me ver de calças e Tshirt. – Mas que lindo pijama – comenta em tom trocista, a olhar para a T-shirt dos Yankees. Sabe que não tenho o hábito de dormir vestido, e considerando os meus cabelos desgrenhados, não me posso justificar e dizer que estava a ver televisão. – O que estás aqui a fazer? – pergunto, sem levantar a voz. Juliet sorri. – Vim aconchegar-te a roupa. Dá um passo em frente, a mostrar que quer entrar. O que não vai acontecer. Abro os braços, e apoio-me nas ombreiras, a vedar-lhe a entrada. Olha para mim e ergue uma sobrancelha. – Quem estás a esconder? – pergunta, e estica-se em bicos de pés para olhar por cima do meu ombro. Desvio-me para a esquerda para lhe tapar o ângulo de visão. – Não há ninguém escondido – respondo, a tentar não perder a calma. – Então deixa-me entrar.


Empurra-me, para que me desvie. Contudo, não arredo um milímetro. A tipa não vai pôr um pé dentro do apartamento. – Estou cansado, Juliet. Não podemos fazer isso noutra ocasião? – pergunto, na tentativa de ganhar tempo. – Fazer o quê, Dixon? Não te vi durante toda a semana. Da última vez puseste-me a andar, o que não foi muito simpático. Estás em dívida para comigo – afirma em tom de desafio e a erguer um sobrolho. Tenho medo de perguntar, mas mesmo assim faço-o: – Devo-te o quê? – Sabes muito bem o quê – replica, a comprimir os lábios num gesto sedutor. – Deves-me pelo menos uma… – e espeta um dedo no ar. – Duas… – faz o mesmo com outro dedo. – Dez orgasmos de perder a cabeça – conclui, a levantar as duas mãos abertas. – Está na altura de pagares. – Agora? Mantenho uma postura rígida, a impedir-lhe a passagem. – Sim. Agora mesmo. Avança mais um passo, o peito quase a tocar o meu. – Neste momento não me convém – respondo, a fingir um bocejo. – Estou estoirado. Não me parece que seja capaz de um orgasmo, quanto mais de dez. Espero que seja o bastante para a fazer desistir; negar-lhe o prazer significa que não tem motivo para ali estar. Mas é evidente que ela tem outras ideias. – Bem… – endireita os ombros. – Se não estás em condições de me foder, ao menos podes ver. – Ver o quê? – pergunto, a engolir em seco. – Foder-me a mim mesma. Sem me dar tempo a protestar, enfia a mão por baixo da saia e começa a acariciar-se. – Juliet – digo entredentes e a espreitar para o corredor, com medo de que algum vizinho veja uma mulher a masturbar-se à minha porta. – Chhh. Não demora nada – diz, ofegante, a fechar os olhos e a morder o lábio inferior. Não quero saber quanto tempo ela pensa que vai durar, a exibição já foi longe de mais. Mas quando vejo a maneira como os seus dedos se movem freneticamente debaixo da saia e ouço os gemidos que lhe brotam dos lábios entreabertos, percebo que não falta muito tempo. Como também sei que se lhe der uma mãozinha será ainda mais rápido e vai-me deixar em sossego. A ideia revolta-me quando me lembro de que tenho Madison a dormir na minha cama, mas é só por ela que estendo a mão para acariciar por detrás da orelha de Juliet, a acompanhar o seu ritmo exigente. O movimento deixa-a louca, pois percebe que haverá mais alguma coisa. Deslizo a minha mão pelo pescoço dela, enrolo os cabelos nos dedos e puxo-lhe com força a cabeça para trás. Geme sob o efeito do movimento forçado e equilibra-se com uma mão sobre o meu ombro. Sinto-me enojado, mas quando mais puxo mais altos são os gemidos e mais depressa este pesadelo terá fim. – Oh, babe – arqueja, ao mesmo tempo que me enterra os dedos no ombro e agita as ancas em movimentos febris.


A cena que tenho diante de mim é muito erótica, mas não me excita sob nenhum aspecto. Só consigo pensar em Madison, inocentemente deitada na minha cama, alheia ao facto de estar ali a ajudar a minha parceira de fodas a ter um orgasmo. Está a levar mais tempo do que o habitual, e se conheço Juliet tão bem quanto julgo conhecer, está a retardar de propósito porque quer que eu ainda faça outra coisa. Inclino-me para a frente e mordo-lhe a veia do pescoço, a sugar-lhe a carne quente para dentro da minha boca. É o que ela quer e em poucos instantes vem-se com um gemido sonoro e ofegante. Largo-a e limpo a boca, revoltado ao ver a marca vermelha que lhe deixei na pele. Se ela tentasse continuar agarrada a mim, batia-lhe com a porta na cara. Mas o pior já passou e isto vai acabar dentro de momentos, pelo menos assim espero. Levanta as pálpebras, a mostrar-me os olhos saciados. – Vês como não foi assim tão mau? – observa, a retirar a mão de debaixo da saia. Não me dá hipótese de responder, pois passa-me pelos lábios os dedos que há pouco tinha dentro de si, a deixar um rasto odoroso da sua excitação. Não posso negar que o cheiro é espantoso, mas percebo que fez aquilo para me deixar uma marca, ciente de que tenho alguém dentro de casa. – Bem, quando chegar a minha vez de passar cá a noite, telefona-me. Sorri, e a minha suspeita confirma-se. – Ou se me convidares a entrar, podemos dar uma agora. – Isso não vai acontecer. Nunca. Quando vê a firmeza da minha resolução, encolhe os ombros, indiferente ao facto de haver alguém a dormir na minha cama. – Boa noite, doutor Mathews. Voltarei em breve para cobrar o que me é devido. Por Deus, esta mulher é insaciável. Uma qualidade que em tempos apreciei. – Boa noite, senhora Harte – replico secamente, aliviado quando roda nos calcanhares e me sopra um beijo. Fico a vê-la entrar no elevador, não para ser delicado mas para ter a certeza de que se vai embora. Espero uns segundos antes de fechar a porta e correr o ferrolho. De costas apoiadas na porta, inspiro fundo e sinto o cheiro dela nos meus lábios. Limpo a prova com as costas da mão e domino-me para não tomar um duche, porque acordaria Madison e levaria a perguntas às quais não estou interessado em responder. Tenho de lavar a cara no lava-louças da cozinha. Mas amanhã vou esfregar cada centímetro de pele. À cautela, pego no líquido para as mãos e espalho um monte de espuma na cara. Não quero deixar rasto dela. Quando me sinto satisfeito por estar livre de Juliet, regresso ao quarto e entro pé ante pé. Madison continua a dormir. Levanto devagar os cobertores e deslizo para dentro da cama. Quando a sua fragrância ímpar me chega ao nariz, sou assaltado por um sério sentimento de culpa. O que acabei de fazer foi horrível, mas tendo em conta as opções sempre foi melhor do que foder Juliet no hall de entrada. Juliet é uma criatura venenosa e esse veneno, que já foi a minha droga preferida, agora deixa-me indiferente. Não quero mais.


Capítulo 21 O que ficou por dizer

Dixon Sinto-me grato por acordar numa cama vazia, e digo grato porque a minha erecção da manhã é uma coisa séria. Levanto os lençóis e deixo escapar um gemido; aquela coisa ossuda não vai passar sem uma mãozinha auxiliadora, e as minhas são pobres substitutas para as que gostaria de ver a envolvê-la. – B’dia – chilreia Madison da porta. Baixo logo o lençol. – B’dia – respondo, a sacudir o pigarro. – Dormiste bem? Sento-me na cama e ajeito os lençóis entre as pernas. Espero que tenha dormido melhor do que eu. – Muito bem – responde, entrando no quarto, enqunto aliso com a mão os cabelos revoltos. – Há muito tempo que não dormia assim – acrescenta, sem tirar os olhos dos dedos com que procuro endireitar a juba. – Ainda bem. Fogem-me os olhos para a tira de pele leitosa que espreita entre a T-shirt e as minhas calças de pijama que amarrou com um nó ao estilo de Daisy Duke. Afasto os olhos. A carne macia não me ajuda a resolver o problema que subsiste debaixo dos lençóis. – Pois é. Mas temos um problema – diz ela, a sentar-se na cama, do lado dela. Há merda com certeza, penso, mas mesmo assim pergunto: – Temos? Madison acena, num gesto animado. – Já não há café. Não posso evitar rir perante a gravidade do problema e a seriedade com que o encara. O facto de ter andado a rebuscar nos meus armários não me incomoda nem um bocadinho. Só me incomoda o facto de não haver café. – E que tal deixares que te pague um café para te agradecer a invasão? – pergunta a sorrir. Concordo com um gesto de cabeça, pois quero estar com Madison todo o tempo que me for possível. – E se for eu a pagar, já que estás sem um tostão? Madison sorri. – Tenho os meus processos de obter o que desejo.


Arregalo os olhos antes de os pousar no peito dela. Percebe o meu olhar de apreço e larga uma gargalhada. – Não é nada disso, seu pervertido. Levanto a mão, a proclamar a minha inocência. – Sou apenas um ser humano – e fico a ver-lhe o rosto, cobrir-se de um delicioso rubor. Resolvido a abordar o que é importante, pergunto: – Telefonaste a Mary? Abana a cabeça. – Não quis ser mal-educada e usar o teu telefone sem pedir. – E em vez disso resolveste andar a meter o nariz nos meus armários? – pergunto em tom brincalhão, e ela confirma. – Era um caso de vida ou morte – declara em tom óbvio. – E levar-te a casa não é? – pergunto, interessado. Baixa timidamente os olhos para os pés e encolhe os ombros. – Que queres que te diga, a tua cama é muito mais confortável do que a minha e a almofada é de espuma, não é? – remata, a levantar os olhos. Rio e aceno. É adorável. – Podes vir sempre que quiseres – declaro, para logo me calar ao perceber que posso ser mal interpretado. – Doutor Mathews, olhe que posso aproveitar a oferta. Quero dizer, já li que há estudos que demonstram que a espuma ajuda a pôr as ideias em ordem durante o sono. Sou capaz de voltar, por razões científicas – conclui a sorrir. Tento disfarçar o entusiasmo. – Claro. Somos ambos profissionais de saúde e se não cuidarmos dos nossos corpos como podemos cuidar dos corpos dos outros? Madison move a cabeça a concordar. – Então está decidido, tens de passar cá outra noite para confirmarmos se esses estudos estão de facto correctos – declaro em tom profissional. Madison ri. – É um preço a pagar pelo bem-estar da minha coluna vertebral. Como raio aconteceu esta merda? Estamos para aqui a enumerar falsas razões para que Madison fique outra noite na minha cama, e nada têm que ver com a minha almofada nem com a coluna dela. A ideia de ela passar cá outra noite não me ajuda neste momento, mas é um pequeno preço a pagar para a ter na minha cama. Desde que Juliet não decida fazer-me nova visita sem avisar. – E se telefonasses à Mary para ela saber que estás viva? Devo confessar, não quero mentir, que ela me assusta um bocadinho… bastante, aliás. Madison escangalha-se a rir. – É mesmo assim. Ela assusta toda a gente. Levanta-se e eu sorrio. – Vou só tomar um duche. Dás-me vinte minutos?


– Tudo bem. Então até daqui por vinte minutos – diz ela, e despede-se com um aceno. Espero alguns segundos e quando a costa está livre atiro a roupa da cama para trás, desesperado por assumir o controlo daquela erecção irritante. Quando estou quase a saltar da cama, Madison espreita pela abertura da porta e pergunta: – Qual é o comando da TV? Devem estar para ali alguns cinco. Estendo atabalhoadamente a mão para os cobertores para me tapar e respondo num tom indiferente: – É o que tem o painel de plástico no fundo. – Obrigada – e desaparece tão depressa como tinha aparecido. Inspiro fundo e faço nova tentativa, mas assim que afasto a roupa com os pés e me levanto, o rosto de Madison volta a surgir na porta. – Posso usar o telefone fixo? Sento-me, cruzo as pernas sobre a erecção e procuro mostrar-me descontraído, com o cotovelo apoiado na perna e o queixo na palma da mão. – Claro que sim – respondo, a sorrir e a tamborilar com os dedos na cara. Madison lança-me um olhar estranho, mas não faz comentários e acena com a cabeça. – Está bem, obrigada. E volta a desaparecer. Espero durante um minuto, para o caso de ela ter mais alguma pergunta, e assim que me sinto liberto salto da cama, corro para a casa de banho e fecho a porta. Deixo escapar um suspiro de alívio, olho para o meu reflexo no espelho e a erecção teimosa fita-me do outro lado, numa imploração muda para pôr cobro ao seu sofrimento. Sinto-me enojado por fazer isto com Madison na sala contígua, mas ou resolvo já o assunto ou ainda acabo por me esfregar na perna dela durante o almoço. Abro a água, dispo-me e enfio-me sob o líquido escaldante, ao contrário da água fria do costume. Quem disse que a água fria é remédio santo para acalmar a líbido é um idiota. A água quente, sabão, a minha mão e imagens do corpo ágil de Madison estendido a meu lado são melhor do que a hipotermia. Cubro-me de espuma, deito a mão ao membro intumescido e duro como pedra e dou início a uma dança que já pratiquei vezes sem conta. Só que desta vez a minha parceira de dança parece ter dois pés esquerdos. Não sei porquê, mas apoio uma mão contra a parede azulejos e experimento um novo ângulo, mas sem êxito. Quero vir-me, mas não consigo. Acelero o ritmo. Parece impossível, mas assim que ouço uma gargalhada de Madison percebo por que razão não consigo cortar a linha da meta. É por causa dela, o que não deixa de ser irónico, visto que foi ela quem me provocou a erecção. Sinto-me um porco, a masturbar-me ali, a poucos metros dela. O que diria Madison se soubesse que estava muito satisfeito a bater uma à conta dela? – O que me anda esta mulher a fazer? – suspiro, a encostar a cabeça à parede do chuveiro e a largar os genitais. Desisto, passo a mão exausta pela cara e com a outra mudo a água de quente para fria. A bater os dentes e a tremer, baixo os olhos para o membro frouxo e rosno:


– Espero que tenhas ficado satisfeito, meu sacana. Andamos à procura de um café, e sigo às cegas atrás de Madison, que diz ter tudo tratado. Não sei o que quer dizer com aquilo, mas acredito nela. Se fosse Juliet, era natural que «café» fosse uma palavra de código para uma loja de brinquedos sexuais, mas sei que Madison não é desse género. Ao olhar para o pequeno angelo ao meu lado sem mais do que segui-la, dou-me conta de que me sinto à vontade na companhia dela. Sei que tem um passado, mas não temos todos? Infelizmente, o meu está prestes a provocar-me suores e fazer-me espumar pela boca. Paramos em frente de um Starbucks e Madison abre os braços e exclama… – Tá dá! Levanto uma sobrancelha. – Não estou a perceber. Madison ri e torce o nariz. – Companheiro, o café está na mesa. Conheço o dono, é por minha conta. Percebo agora o que quer dizer com «ter os seus processos». Embora tivesse preferido os meus. Fricciono a parte traseira do pescoço e pergunto, para ver se percebo. – Queres entrar aí? Madison diz que sim, e olha-me como se eu fosse doido. – Quero. Vendem café, não vendem? Estás à espera de quê? Puxa-me pelo braço, mas não arredo do passeio. Madison dá um sacão para a frente e por pouco não tropeça nos pés quando não me movo nem um centímetro. Vira-se para me olhar por cima do ombro e ergue as sobrancelhas. – Sentes-te bem? Parece que estás quase… a chorar – diz em tom trocista, mas percebo-lhe a inquietação na voz. – Chorar? – respondo com um desdém contido. – Apenas não gosto do Starbucks. Demasiado na moda, para não falar nos nomes estrambólicos e ridículos que inventam para os cafés, Por que não vamos a um cafezinho que fica mais adiante, onde servem biscoitos e café a sério? Aceno com a cabeça, na esperança de que aceite a sugestão de boa vontade e sem barafustar. É evidente que não faz uma coisa nem outra. – E se me dissesses o que tens contra o Starbucks? – pergunta, a cruzar teimosamente os braços sobre o peito. – Em si mesmo, nada tenho contra, – Então por que não entramos? – insiste, a inclinar a cabeça para o lado, à espera da minha resposta. Diabos a levem, tem tanto de bela como de teimosa. Mais uma qualidade de que gosto. Olho para ela e percebo que não vai ceder sem que lhe diga a verdade. – É que… conheci a minha ex-noiva num Starbucks e associo todas as lojas com ela. Já deves ter percebido como a história acabou – concluo, a sentir-me ridículo.


Madison arregala os olhos ao ouvir a minha história patética e triste, mas não mostra ter pena de mim. – Bem, é uma razão tão boa como qualquer outra. Aceno com a cabeça, e Madison surpreende-me ao dizer: – Tens razão, o Starbucks anda muito na moda. E além disso convenceste-me com essa dos biscoitos. Siga à frente, doutor Mathews. Sorri e espera que eu dê o primeiro passo. Fico sem fala, a olhar esta criatura mística que tenho diante de mim. É demasiado boa para ser verdade, pois sei que a tirada sobre o Starbucks foi só por minha causa. Estendo-lhe a mão, que ela olha por um instante antes de entrelaçar os dedos nos meus. – Então, quais são os sabores dos biscoitos que têm por lá? Não evito uma gargalhada perante a brusca mudança de assunto. Entro em pormenores sobre a lista de bolos que vendem no café Dolci’s, e Madison escuta-me com atenção, a mordiscar o lábio inferior, hesitante em face do vasto leque de ofertas. É domingo de manhã, caminhamos pela rua de mãos dadas e acho a coisa mais natural do mundo. Infelizmente, tenho de me lembrar de que por enquanto Madison é namorada do imbecil do David e que isto não tem hipótese de ir além de uma boa amizade, pelo menos enquanto ele andar por perto. Não gosto da ideia, mas Madison é uma menina crescida, e se prefere namorar com primatas tenho de respeitar a sua decisão. Quando chegamos ao Dolci’s, abro a porta a Madison num gesto automático, que é uma coisa que não faço há muito tempo. – Dixon! – grita Concetta do outro lado do balcão. – Bom dia, Concetta. Sorrio, e a idosa move-se penosamente para fora para me beijar nas duas faces. – Dove sei stato? – pergunta, a repreender-me pela ausência. – Tenho tido muito trabalho – respondo em inglês, já que Madison parece perdida. – Trabalhas de mais – observa Concetta, com uma carregada pronúncia italiana. – Olha para ti. Estás pele e osso. Senta-te, senta-te. Vou preparar-te fritelle di ricotta e trazer-te o pane. Rio enquanto nos conduz para um reservado. – Obrigado, mas só quero café e aqueles biscoitos – digo, a apontar para a vasta gama de bolos. – A propósito, é a Madison – acrescento, e Madison sorri. – Prazer em conhecê-la – diz ela, e volta a surpreender-me quando se inclina para frente para depositar dois beijos nas faces de Concetta antes de se sentar. Quando a idosa me olha com ar aprovador, imagino o que está a pensar. – És uma principessa – diz, e Madison ri. – Penso que lhe devo agradecer. Concetta solta uma risada e bate-me no braço. – Mi piace il suo – declara, a mostrar o seu apreço por Madison antes de se dirigir para a máquina do café. Sento-me e olho para Madison, que relanceia apreciativamente os olhos pela loja.


– Uau! – exclama, de olhos arregalados perante a variedade dos bolos em exposição. Como cresci entre todos aqueles produtos tradicionais italianos, já me esqueci de como o choque cultural pode ser avassalador. Mas quando Madison pula na cadeira e bate as palmas, vejo que não se sente avassalada, mas plena de satisfação. – Isso é para nós? – pergunta, dirigindo-se a Concetta, que surge a segurar um tabuleiro de bolos nas mãos de dedos engelhados. – Si, principessa – responde, a pousar o tabuleiro na nossa mesa. – Obrigado. Ergo os olhos para Concetta, que conheço desde que vim para Manhattan. – É tudo para ti – diz ela, e eu aperto-lhe o braço. Um suspiro de satisfação obriga-me a olhar para Madison, reclinada na cadeira e deliciada a mastigar um cannoli. – Esta merda é mesmo boa – comenta em tom ausente, a dar mais uma dentada. Quando a língua cor-de-rosa emerge para lamber um resto de ricotta que lhe ficou nos lábios, mal me consigo controlar. – Já percebi que gostas de doces – observo a mudar de assunto, pois preciso de algo que me distraia. Madison pára de mastigar e ri, com uma expressão de culpa. Engole rápido. – Apanhaste-me. É raro comer doces, de maneira que quando posso trato de compensar. Desculpa – conclui, algo embaraçada. – Não tens nada que pedir desculpa – afianço-lhe, a empurrar a bandeja na direcção dela. – Quero que te sintas à vontade para comeres o que te der na gana. Madison sorri e estende a mão para um biscoito. – Não comes doces porquê? – pergunto, a pegar numa minitarte de frutos. – Não precisas de te preocupar com o peso. Madison deixa de mastigar e fica sem pinga de sangue. – Era um elogio – explico, a perguntar-me se teria dito algum disparate. Acena, mas empurra a bandeja para longe. Ergo uma sobrancelha, intrigado. – Sentes-te bem? Disse alguma coisa que não devia ter dito? Só queria… Corta-me a palavra. – Sei muito bem o que querias dizer – e baixa os olhos. – Obrigada, eu só… – Cala-se e inspira fundo antes de continuar. – Em miúda era gorducha e depois… Fecha-se como uma ostra, a retorcer um guardanapo entre os dedos. – Ei, ei, não faz mal. – Estendo a mão por cima da mesa e pouso-a sobre a dela, antes que desfaça o guardanapo. Sinto-lhe a mão a tremer debaixo da minha, e aperto-a ligeiramente. – Se alguma vez quiseres falar, não como psiquiatra e paciente, mas apenas Dixon e Madison, eu estou aqui, está bem? Quero que saiba que não tenciono analisá-la nem fazê-la sentir-se como um caso clínico. – Obrigada, Dixon.


Funga um pouco, enxuga uma lágrima. Quando Concetta aparece com os nossos cafés, largo relutante a mão de Madison. – Grazie – digo, e levo a mão à carteira para pagar, mas ela detém-me com um gesto. – No insultarmi, bambino – declara em tom firme, e eu limito-me a sorrir, pois sei como é inútil discutir com uma siciliana. – Obrigado. Se precisar de mim para qualquer coisa, sabe onde me encontrar. Concetta acena com a cabeça. – Vê se nos vens visitar mais vezes, e traz a principessa. Olha para Madison, que cora até às orelhas. – Combinado. Inclina-se e beija-me na cara Quando se afasta para atender um cliente, Madison pergunta: – De onde a conheces? Parece que se conhecem há muito tempo. – Conheço Concetta desde que me mudei para Manhattan. Durante o tempo da faculdade, este café foi a minha salvação, bem como a de Hunter e de Finch. Sem estes expressos duplos, o mais natural era que dormisse durante metade dos exames. Madison ri e despeja açúcar no café. – Hunter e Finch, quem são? – São meus amigos. Conheço-os desde sempre, e viemos juntos estudar para Nova Iorque. Finch casou com Heidi, a namorada do liceu, e é feliz. Acabaram de ter uma menina. – E Hunter? – pergunta, interessada. – Hunter é um tipo de quem é preciso aprender a gostar – respondo, provocador, enquanto mexo o café. – Parecem ser formidáveis. – E são – respondo, a pensar em como são de facto formidáveis. – Então e tu? – Eu o quê? – apressa-se a perguntar, e reparo que a mão lhe treme ao mexer o café. – Já sei da Mary – explico. – Mas a tua família? Disseste que tu e a tua mãe eram muito chegadas. – E somos – responde a sorrir. À semelhança da minha, a família dela parece ser um tema melindroso, mas mesmo assim pergunto: – Não disseste que tinhas um irmão? Lembro-me de ela ter perdido o equilíbrio ao falar nele. Madison acena, mas o desagrado é visível no seu rosto tenso. Gostava de saber o motivo que a leva a fechar-se, mas não quero estragar o dia. – Sempre desejei ter um irmão. Os ombros de Madison abatem-se num gesto de alívio. – Ah, sim? Confirmo com um aceno de cabeça. – Porquê? – Para o poder acusar de ter partido a jarra de cristal da minha mãe.


Solta uma gargalhada. Considerando a delicadeza da minha situação actual, não resisto a confessar: – Seria muito mais fácil lidar com as circunstâncias. – Que circunstâncias? – pergunta inocentemente. – A situação do meu pai. No outro dia ele deixou as coisas bem claras, de modo que desisti de uma reunião nos tempos mais próximos. – Que queres dizer? Observa-me com atenção, à espera de uma explicação. Suspiro e resolvo partilhar com ela a embrulhada em que estou metido. – Se tivesse um irmão, talvez ele fosse o filho que o meu pai merece. Os olhos de Madison assumem uma expressão de pena e mal abre a boca receio o que vai dizer. Mas no último instante parece mudar de ideias. – Acho que neste mundo só há espaço para um Dixon Mathews. E além disso, tenho a certeza de que Hunter e Finch eram como teus irmãos, ou não? Sorrio, grato pela mudança de tema. – Sim, e continuam a ser. Fomos vizinhos durante todo o tempo de escola. Pobres professores – concluo, a abanar a cabeça. Madison ri baixinho e parece mais descontraída, agora que o tópico da conversa não é a sua família. – Como eu e Mary – exclama alegre. – Ah, sim? – prossigo, feliz por ela partilhar aquilo comigo – É isso – confirma com um sorriso de quem recorda qualquer coisa. – Antes de a minha mãe casar com o Sebastian éramos muitíssimo pobres. Vivíamos num apartamento minúsculo, com um só quarto, mesmo ao lado de Mary. As nossas mães eram solteiras, e tinham dois empregos para fazer face às despesas. Éramos inseparáveis, e continuamos a ser. – Então ela conhece todos os teus segredos, mesmo os mais recônditos? – pergunto em voz trocista. Madison franze a testa e faz deslizar o dedo pelo rebordo da chávena. – Nem todos. Dirijo-lhe um pequeno sorriso e não insisto. Há-de contar-me quando estiver preparada para isso. O meu telefone toca a assinalar uma mensagem e a estragar o momento. Peço desculpa a Madison e retiro-o do bolso. O remetente não é quem esperava, considerando que na noite passada já teve o que pretendia. Tenho uma comichão que só tu podes coçar. Estás livre esta noite?

Madison deve ter visto a minha expressão de desagrado ao ler a mensagem de Juliet, pois pergunta: – Está tudo bem? Aceno que sim com a cabeça, tossico e volto a enfiar o telefone no bolso.


– Sim, está tudo bem. Tal como eu, também não insiste; limita-se a bebericar o café e lançar-me um sorriso reconfortante. À semelhança de Madison também tenho os meus segredos, e por vezes é melhor que os segredos não sejam revelados.


Capítulo 22 Uma só direcção

Dixon Depois de largar Madison em casa, resolvo ir ao ginásio queimar alguma da minha energia sexual reprimida, além dos doces com que me empanturrei. Enviei uma mensagem a Hunter, que se mostrou disposto a fazer algum exercício e desejoso de se gabar das proezas da noite anterior. Quando acaba de me massacrar com imagens que preferia afastar do meu hipocampo, decide fazer-me perguntas acerca da minha noite. – Então como foi a tua noite? – pergunta, a correr ao meu lado na passadeira. – Foi boa – respondo, por entre o estrondo dos pés sobre a tela. – Ah sim? Que tal é a Marisa? Podia contar-lhe uma aldrabice, mas não há razão para isso. – Não sei – digo, a arquejar por causa do esforço. – Como não sabes? Que raio de merda estás para aí a pintar? Vê-se que está confuso. Como não respondo e me concentro na corrida, resmunga: – Foste-te abaixo, não foste? – Chama-lhe o que quiseres. – Encolho os ombros. – Não andei a apanhar chatos. – Houve tempos em que apanhar chatos era uma coisa bestial, Dix – contrapõe Hunter, e sinto que me foge o sangue da cara. – Uma doença venérea nunca é bestial – digo, a limpar o suor que me escorre da testa. – Bem, é o que diz o chatarrão do novo Dixon. Mas o velho Dixon que gostava da paródia e prevenia-se contra os chatos. – Meu caro, tu metes nojo – digo a rir. – Seja como for, não me fui abaixo. Subi de escalão. – Eh, pá, espera aí. Que queres dizer com isso? Espicacei-lhe a curiosidade. – Porque não usas a tua imaginação criativa? – pergunto em tom presumido, concentrado em acabar a minha corrida de duas milhas. No entanto, tropeço e por pouco não bato com as ventas no chão. – Que raio foi isto? – protesto, enquanto Hunter prime o botão de paragem. – Começa a deitar cá para fora, Mathews – exige quando desço do aparelho, ainda ofegante. – Não há muito que contar. – Ando de um lado para o outro, devagar, para acalmar a respiração. – Fui para casa com Madison, não fiquei com a loura oxigenada.


– Madison! – grita Hunter, incrédulo, ao mesmo tempo que prime o botão da sua passadeira. – A Madison Tarte de Cereja? – Sim. A alcunha que lhe arranjou ajusta-se na perfeição. – Ah, meu sacana. Ela não tem namorado? – Tem. Estico os braços acima da cabeça. – Grande sacana! – volta a gritar, excitado, ao mesmo tempo que me dá uma palmada nas costas. – Não é nada do que estás a pensar. – É o que estou a pensar. Então foi desta, hem? Sei que a tipa há muito te anda a excitar. Mostrou-se à altura? – pergunta, a esfregar as mãos. – Já te disse que não é nada disso – e dirijo-me para o bebedouro. – Então, a festa foi a dormir, ou quê? – insiste Hunter, que me vem no encalço. – Foi mais ou menos isso – respondo com um encolher de ombros. A expressão dele dá-me vontade de rir. – Oh, meu Menino Jesus! Então estiveram entretidos a afagar os cabelos um do outro e a discutir qual é o nome mais bonito, se Niall, se Harry? – Quem é esse Niall? – pergunto, a levantar a cabeça do fontanário e a arquear uma sobrancelha. Fito-o atentamente, receoso da sua sanidade mental, mas ele desvaloriza o caso. – Deixa lá. Vê se não foges ao assunto. – Não estou a fugir a assunto nenhum – replico, a endireitar-me e a limpar com as costas da mão a água que me escorre dos lábios. – E só é um assunto porque insistes em não falar de outra coisa. Eu e Madison somos amigos. É verdade que me sinto atraído por ela, mas tem namorado e nunca lhe iria estragar a vida porque há muito tempo que não me interesso assim por uma miúda – desabafo numa tirada. – Então estiveram a fazer trancinhas um ao outro. Dou-lhe um soco no braço. Seguimos para o vestiário. Hunter continua calado, o que nunca é bom sinal. – Vá lá, diz-me o que estás a pensar – suspiro. Vai explodir se não deitar cá para fora o que lhe está a chagar o juízo. – Estava só… – cala-se, como se lhe faltassem as palavras. – Estás a dizer que levaste para o apartamento uma miúda que é uma brasa, que a tiveste na cama contigo e que não fizeste mais nada? – É o que te estou a dizer – respondo, sentado no banco a desapertar os atacadores. – Nem uma mamada? – Não. – Punheta? – Não. – Umas brincadeiras? – Não.


– Uns beijos? – Não. – Umas roçadelas? – Não. – Uns apalpões por cima da roupa? – Não. – Uma massagem sensual, contacto corporal, ligeira penetração? – Não. – Conversas porcas? – Não. – Uns toques de pés? – Não. – Umas espreitadelas enquanto ela dormia? – Não. – Uma insónia sexual fingida? – Porra, que és mesmo tarado! Assumo uma expressão irritada e estendo a mão para o saco. – Até parece que és uma pura donzela – declara, e o comentário traz-me à memória a confissão de Madison. – Por falar em virgens… Falo em tom arrogante e Hunter quase se engasga com a língua. – Não me digas! – exclama, a sacudir a cabeça e sem me acreditar. – É verdade – confirmo, e aceno com a cabeça. – Ela mesma mo disse. – Agora fiquei sem fala. Não há palavras que exprimam o que sinto neste momento. Deixa-se cair no banco, aparentemente siderado. – Ainda bem, deixa-te estar assim. – Corro o fecho do carapuço e penduro o saco no ombro. – Depois falamos. – Espera aí? Onde é o fogo? – Além do que tens nas cuecas? – respondo em tom divertido, a aludir à noite sórdida que passou com Mandy e às possíveis doenças que pode ter apanhado. – Engraçadinho, o menino. – Soca-me no braço. – A sério, qual é a pressa? Não lhe disse que Madison se comprometeu a participar noutra «festa de sono» e também não mencionei o pormenor de Juliet me poder aparecer à porta sem se fazer anunciar, e nua. Não respondi à mensagem dela porque não sabia o que dizer. – Meu, és mesmo masoquista – observa Hunter, a sacudir a cabeça e a ler-me a expressão facial. – Vais deixar que uma miúda que não podes montar porque é virgem e tem namorado durma na tua cama… outra vez. Tu é que precisas de consultar um psiquiatra. Não contesto o seu ponto de vista. – Então e a outra cabra? Resolvo não lhe contar sobre a masturbação à minha porta.


– Assunto arrumado. Acabei. Não me afecta e é verdade. – E agora? Voltas a ser virgem? – Ainda não pensei em ir tão longe – respondo, a olhar para o relógio. – Tenho de ir. – Dix? – interpela-me quando me volto para sair. – O que é? – Deixo-te uma citação que para mim é um padrão de vida – afirma solenemente e sinto receio de ouvir o que tem para dizer, pois sei que não segue nenhum princípio basilar. – Vamos lá a isso – digo, a fazer-lhe um gesto com os dedos para que me recite o seu evangelho. – Por que motivo hás-de comprar a vaca… se podes beber o leite de graça? Com dificuldade em conter o riso, viro-lhe as costas e despeço-me. – Essa foi boa, Confúcio. Madison ficou de aparecer às sete horas, e embora tenha dito que jantava em casa passei pelo supermercado e comprei algumas coisas, sobretudo doces. Tomei um duche, sequei-me, trabalhei um pouco, e quando me preparava para ver o noticiário ouço uma ligeira pancada na porta. Olho para o relógio e vejo que são só seis e trinta. É um pouco cedo para Madison, e pergunto-me quem poderá ser. Desligo o som da televisão e encaminho-me para a porta. No momento em que a abro, o meu cérebro ordena-me que a feche de imediato. Juliet está especada à minha frente, provocante num vestido de seda cor-de-rosa que bem podia passar por uma peça de roupa interior. – Juliet? Estou a meio de uma coisa – digo, e uso o braço para lhe barrar o caminho, com a mão apoiada na ombreira da porta. Começa a tornar-se um hábito. – Isso é maneira de cumprimentar alguém? Os seus lábios distendem-se num sorriso tentador. – Olá – replico em tom sarcástico e só então Juliet se apercebe da minha irritação por ter aparecido inesperadamente. Os seus olhos estreitam-se numa fenda e pergunta: – Não estás contente por me ver? É verdade que não estou e deve transparecer-me no rosto. – O que fiz de mal, Dixon? Esfrego a parte de trás do pescoço. Neste momento, aquela conversa é a última coisa que desejo. Mas ela está ali e o melhor será esclarecer tudo. – Entra, se fazes favor – e afasto-me para lhe dar passagem. Lança-me um olhar desconfiado, depois acena e saltita para dentro de casa. Fecho a porta atrás dela e vou directo ao assunto, pois não estou com disposição para arrastar a conversa. – Ouve, Juliet, as coisas entre nós foram… interessantes, mas creio que o melhor é deixarmos de nos ver.


Encostado à porta, com os braços cruzados sobre o peito, a minha linguagem corporal atesta a veracidade do que acabo de dizer. Concedo-lhe alguns instantes para se compenetrar das minhas palavras. – Estás a falar a sério?– responde com desdém, apanhada de surpresa. A arrogância com que duvida da minha rejeição é desconcertante e pergunto-me como pude alguma vez sentir-me atraído pela sua autoconfiança. – Estou – respondo sem hesitar. Para Juliet, a secura da resposta é como uma bofetada. – Não sei o que diga – responde, espantada. – Não há nada para dizer. Tu e eu sabemos o que isto era. Não vamos arranjar uma confusão por uma coisa que não existe. Por muito duro que seja, é a verdade, a verdade a que me tenho vindo a esquivar há algum tempo – Eu… Hesita e leva a mão ao colar de ouro. – Eu gosto de ti, Dixon. E sei que gostas de mim. Ao dizer isto, dá um passo em frente num movimento sedutor. Não tenho por onde escapar, mas mantenho-me firme. – Juliet, gostei do sexo. Gostei de poder descontrolar-me contigo e de ser o homem que julgava ser. Mas estar contigo demonstrou-me que esse homem era um imbecil. – Não estás a falar a sério – responde e sacode a cabeça numa negativa terminante. – Estou, sim. Lamento não te ter dito mais cedo, mas, para ser sincero, nunca pensei que te importasses com isso. – Claro que me importo – grita. – Como podes pensar que não me importo? Ando a foder contigo há três meses! Suspiro. Tudo se resume a isto: sexo. – Sabias que já estive para me casar? – pergunto, a observar-lhe a expressão de surpresa. – Não, não sabia – confessa, a perder um pouco a compostura. – Sabias que adoro os Yankees desde a primeira vez que o meu pai me levou a ver um jogo, tinha então oito anos? Baixa os olhos e abana a cabeça. – Isto responde à tua pergunta? É verdade que também há coisas a teu respeito que eu devia saber e não sei. Porque nunca perguntei. E nunca perguntei… – … porque não queres saber – remata por mim, a mostrar que me percebeu. – Juliet… Corta-me a palavra. – Esquece, Dixon. Já percebi. Não preciso que me confortes, nem de conversa fiada. Estou bem. Foi divertido, mas acabou-se. Já percebi – deita cá para fora. Endireita os ombros e olha-me nos olhos. – Adeus. Gostei de te conhecer.


Avança com determinação e faz um gesto com a cabeça para que me afaste da porta. Podia tentar suavizar a situação, mas para quê? Não tenho intenção de a voltar a ver e nunca senti nada por ela. Com isso em mente, dou um passo para o lado, Juliet abre a porta e atira com ela depois de sair. Foi bastante dramático, mas dela não esperava menos. Deixo escapar um longo suspiro e encaminho-me para a cozinha, ansioso por um uísque depois do furação Juliet. Não lamento o que aconteceu; para ser sincero, até me sinto aliviado. Pode ser que isto faça de mim um filho-da-puta sem coração. Emborco o conteúdo do copo e, mal acabo de me servir outra dose, ouço uma pancada na porta. Solto uma imprecação silenciosa e bebo-a de um trago, ciente de que talvez precise de mais. Quando voltam a bater na porta, solto um murmúrio contrariado; se for Juliet que está do outro lado, sou capaz de lhe dar com a porta na cara. Madison pode chegar a qualquer momento e quando isso acontecer não quero que encontre Juliet seminua dentro do meu apartamento. – O que foi agora? – rosno ao abrir a porta. – Vai-te lixar também – diz Hunter, encostado à ombreira com um ar chateado e a olhar para o relógio. – Por que levaste tanto tempo? Estás a preparar a droga e a ouvir Michael Bolton enquanto esperas mais uma festa de sono? Empurra-me e passa por mim. – Ei, Hunter, não queres entrar? – observo em tom sarcástico atrás dele, depois de fechar a porta. – O que estás aqui a fazer? Sigo-o até à cozinha, onde se serve de uma cerveja. – Estava chateado – responde com um encolher de ombros. – Todos os meus amigos estão ocupados e então pensei: que se lixe, vou chatear o meu melhor amigo. – É uma história deliciosa, mas Madison deve estar a chegar a qualquer momento. E se fosses chatear o Finch? – O Finch? Nem pensar. – Bebe um gole de cerveja. – Sou capaz de apostar que aqui vai ser mais divertido do que em casa dos Miller. Além disso, quero conhecer a Tarte de Cereja. Reviro os olhos e Hunter tossica, falsamente embaraçado. – Porquê? Tens vergonha de mim? Morde os nós dos dedos, a fingir que chora. Troço da exibição melodramática e insisto: – Hunter, estou a falar a sério. Tens de te ir embora. – Porquê? – Porque tens razão. Sinto vergonha de ti. Hunter finge rir com o meu comentário, mas não se ofende e aproveita para se sentar num banco da cozinha, a bebericar a cerveja. Sei que não se irá embora sem alguma espécie de suborno e dou voltas à cabeça para me lembrar de alguma coisa que sirva de isco. – Debbie Does Dallas – deito cá para fora, na esperança de que resulte.


É o mesmo que pendurar uma cenoura em frente de um burro e Hunter interrompe uma golada e baixa a garrafa com um sorriso satisfeito. – Quero a edição especial Blu-Ray e uma pilha de Jennas da velha escola. E muito agradecido – diz, a acenar com a cerveja na minha direcção. Compreendeu a minha oferta. – Muito bem. E assim que tiveres tudo isso pões-te a andar, entendido? – Palavra de escuteiro – diz e acompanha com a correspondente saudação. Para mim basta, e corro para o quarto na esperança de encontrar aquelas porcarias o mais depressa possível, pois há muito tempo que não as vejo – um pequeno preço a pagar por ter Juliet à disposição, mas a pornografia é preferível. Revolvo o roupeiro e encontro uma pilha de Jennas antigos, mas não Debbie Does Dallas. Agarro numa pilha de discos, olho para o relógio e vejo que já são seis e cinquenta. Madison pode chegar a qualquer momento, o que significa que Hunter tem de se pôr a mexer dentro de segundos. Os CDs terão de servir. Afinal é pornografia e qualquer pornografia serve. – Não consigo encontrar Debbie, mas tenho aqui Riding Mass Daisy e Legally Boned. Serve? – pergunto, a entrar na cozinha sem olhar enquanto leio os títulos. – Hunt? – chamo quando ele não responde. Absorto na contemplação da imagem da loura de peitos avantajados que ilustra a capa, só levanto os olhos para ver o que se passa quando ouço alguém pigarrear para limpar a garganta. Quando vejo quem tenho à minha frente, os discos voam para a sala de estar por cima do meu ombro, pois quem ali está é Madison, profundamente embaraçada, e a seu lado Hunter, muito divertido. – Madison… Olá – saúdo em voz tensa, de olhos postos em Hunter, que sorri de orelha a orelha. – Vieste mais cedo. Madison acena, muito vermelha. – É… sim… desculpa se interrompi – responde, a retorcer entre os dedos a alça da mochila. Hunter tosse para disfarçar o riso e continuo a fitá-lo com ar colérico. – Não faz mal, não interrompeste nada. Hunter veio só buscar umas coisas que lhe pertencem e que ficaram à minha guarda enquanto teve obras em casa. Não são minhas, nem nunca as vi – explico como um idiota e Hunter sofre novo ataque de tosse, desta vez mais alto. Madison acena com a cabeça, não questiona a minha mentira nem corre para a porta com medo de passar a noite em casa de um adepto de pornografia. – Deixa-me ajudar-te com a mochila – digo e estendo a mão para lhe tirar o saco do ombro. – Obrigada. Quando os meus dedos lhe afloram a pele todo o meu corpo vibra de excitação e felicidade à ideia de que vai passar a noite comigo. – A propósito, este é o Hunter – digo, a indicar com o queixo o meu amigo que não pára de sorrir. – Oh, o Hunter? – responde com uma piscadela de olho que só eu vejo. – Esse mesmo, o único, cara linda – confirma Hunter com um requebro confiante enquanto lhe aperta a mão.


Madison ri e eu suspiro. – Isso não foi um elogio, meu palhaço – digo a sorrir. Hunter olha para Madison, que acena com a cabeça, a entrar no meu jogo. Hunter perde o aprumo e retracta-se. – Não sei o que ele lhe terá dito, mas é tudo mentira. Madison olha-o, divertida, ergue uma sobrancelha e responde: – Não creio. Até me parece que foi muito brando. – Ah, sim? – Pode crer – confirma ela com um sorriso malicioso. Hunter parece fascinado. Abano a cabeça e deixo-os, pois sei que Madison é capaz de lhe dar a volta. Entro no corredor, apanho as provas pornográficas comprometedoras, atiro-as para dentro de uma gaveta e sigo para o quarto. Coloco a mochila de Madison em cima da cama e aproveito para acalmar a respiração, já que os últimos vinte minutos me deixaram bastante agitado. A noite não corre de acordo com o planeado, primeiro com a visita inesperada de Juliet e depois com Madison a pensar que sou um tarado coleccionador de pornografia. Espero que daqui por diante corra melhor. Quando a ouço rir na cozinha, recomponho-me e regresso à pressa, pois deixei-a sozinha com Hunter e só Deus sabe o que pode dizer se não tiver ninguém a vigiá-lo. – Perdi alguma coisa? – pergunto em tom indiferente. Hunter parece muito orgulhoso de si mesmo e Madison continua a rir. – Madison e eu temos uma coisa em comum – declara em tom satisfeito e olho para Madison em busca de confirmação. Acena, a cobrir a boca com a mão para conter o riso. – Tenho de ouvir isso. Abro o frigorífico e tiro três cervejas. Entrego uma a Madison, que a aceita com um sorriso, e Hunter estende a mão para a outra. Mas afasto-lhe a mão com uma palmada e sacudo a cabeça. – Tenho a impressão de que vou precisar disto – esclareço. Hunter pondera o meu comentário durante um segundo antes de concordar. – Então que raio podes tu… – aponto a garrafa na direcção de Hunter – ter em comum com Madison? Quero dizer… Madison corta-me a palavra para que eu não continue intrigado. – Ambos temos uma alcunha para o outro – diz, enquanto bebe um gole de cerveja. – Ah, sim? Isto não pode ser bom. – É verdade. Descaiu-se e chamou-me Tarte de Cereja. Assim que as palavras lhe brotam dos lábios fico branco como a cal e imagino-me a arrancar os braços de Hunter e a espancá-lo com eles até à morte. Mas mantenho a compostura e arqueio uma sobrancelha. – Mas porquê?


Lanço um olhar furibundo a Hunter, que ri às gargalhadas. – Disse que o meu top lhe fazia lembrar tartes de cereja. Olho para T-shirt vermelha e muito justa e para as espantosas protuberâncias e constato que a cor faz lembrar uma tarte de cereja. – É muito observador, não é? – respondo em tom sarcástico, mas grato por ele não ter revelado a verdadeira origem da alcunha. – Sim, mas eu também tenho… uma mania, acho que lhe posso chamar assim, de pôr alcunhas estúpidas às pessoas. É uma coisa que faço desde criança, quando pus à Mary a alcunha de Cordeirinha. Aceno com a cabeça. Recordo-me vagamente de ela o ter mencionado durante a nossa maratona de mensagens. Todos temos as nossas pequenas excentricidades, e esta é a de Madison. Receio perguntar qual foi a alcunha que deu a Hunter, mas arrisco. – Deixa-me adivinhar. Chamaste-lhe «CDM»? Madison ergue uma sobrancelha, intrigada. – «Chato de Merda» – esclareço e ela desata a rir. – Não – responde sem parar de rir. – «Debbie». Engasgo-me com a cerveja. Hunter ri alto e encolhe os ombros. – Não me importo, até gosto de ser Debbie. – Parece que sim – respondemos ao mesmo tempo, o que o deixa desconcertado. – Dix, adoro esta miúda. Podemos ficar com ela? Ri e entrelaça os dedos como que em oração e Madison acompanha-o com uma gargalhada maliciosa. Não quero acreditar que estamos na minha cozinha a falar de pornografia em código com Madison. Mas já devia saber, não se deve subestimar este pequeno… diavolo.


Capítulo 23 Não és tu, sou eu

Dixon Quando Madison pede desculpa para ir à casa de banho, Hunter inclina-se para mim e espeta-me o dedo no peito. – Se não fizeres sexo com esta miúda, faço eu. Afasto-lhe a mão com uma palmada e esquivo-me ao indicador agressivo antes que lhe dê outra maluqueira. – Como quiseres, Debbie – respondo, a revirar os olhos. – Ei, só a Madison me pode chamar isso. Está apanhada por mim – conclui com um sorriso provocador. Não posso evitar rir. Hunter é que está apanhado por ela. Depois de vários episódios de Dexter e de algumas dúzias de cervejas, Hunter olhava para Madison com estrelinhas nos olhos. Mas devo confessar que eu também. A cerveja pareceu descontraí-la e à medida que a noite foi avançando, foi baixando a guarda e ficando cada vez mais à vontade. Chegou mesmo a rir das piadas sem graça de Hunter, o que dá para perceber a que ponto estava descontraída. É meia-noite e a julgar pelos bocejos sonolentos e pelos olhos cansados de Madison percebo que está um bocadinho embriagada e cansada, o que é uma bênção, pois espero que no momento em que deite a bela cabeça se apague como uma vela. Não tenho confiança em mim com ela a meu lado, e depois de a ter visto tão à vontade a trocar piadas com Hunter começo a gostar ainda mais dela, o que é um perigo para ambos. – Dix, vou dizer-te isto só uma vez. És doido se deixares esta miúda escapar. Sinto ciúmes porque queria ter uma Madison só para mim – declara muito sério. Recuo, espantado. Hunter a falar a sério é uma raridade. – Muito obrigado, doutor Phil. Mas como não me pertence, não a posso deixar escapar. Ela tem namorado, recordas-te? – murmuro, pois não quero que Madison nos ouça. – Isso é treta! Um bluff. Nem uma só vez mencionou esse Dário. – David – corrijo a sorrir. – Seja lá o que for. Basta-me ver como olha para ti. Está caidinha por ti, meu amigo. – Não está. Rejeito esta afirmação dele, mas acalento a esperança de que haja alguma verdade. À medida que a noite foi avançando, Madison foi-se chegando cada vez mais a mim, a ponto de ficar encostada quando cruzou as pernas e se sentou sobre os pés descalços.


– Não te armes em atrasado mental – repreende-me com um aceno de cabeça. – És um homem inteligente. Sabes que esta é diferente. Não continues a negar. – Muito bem – suspiro, a levantar as duas mãos para o calar. – Então o que faço? Não a posso obrigar a largar o primata. Há tanto tempo que não faço romance a uma miúda que nem sei por onde começar – confesso. Hunter dá-me uma palmada repentina na nuca e gemo com a força da pancada. – Que raio de merda foi essa? – pergunto, a levar a mão à nuca. – Fazer romance com uma miúda? Com franqueza, em que tempo vives? Dizes-lhe uma coisa dessas e a única pessoa com quem vais fazer romance é com a minha avó – afirma Hunter, a arvorar uma expressão de repulsa. – Se tens alguma coisa para dizer, diz – incito-o, ainda a esfregar a nuca. – Madison não é uma miúda qualquer. Coloca-te um verdadeiro desafio porque é verdadeira. O que quer que estejas a fazer, está a resultar. Está aqui agora, não está? Aguarda a minha resposta. Aceno, a dar-lhe razão. – Não dês cabo disto, meu, ela é especial. Parece que estou um bocadinho apaixonado por ela – confessa, a mover as sobrancelhas, e sinto-me invadido por uma inesperada onda de ciúme. – Eh, pá! Há muito tempo que não te via esse ar. Fica-te bem. – Estás a falar de quê? Que ar? – pergunto, para saber se foi assim tão evidente. – O ar de quem se está nas tintas. Não és um prostituto, Dixon. Lá no fundo, és um ursinho carinhoso magoado por uma cabra. Mas a pouco e pouco estás a voltar ao que eras e só estás à espera da rapariga certa que te acarinhe e volte a fazer de ti um homem inteiro. E não estou a falar apenas dos bons momentos. Move-se com brusquidão para me dar um toque no estômago. – Quem é um ursinho matulão, quem é? És tu. És tu – diz num arrulho, e dou-lhe um soco nos tomates. Deixa escapar um silvo e fica muito vermelho. Solto uma gargalhada. – É a vingança, idiota. A propósito, foi a pior analogia que já ouvi. Por favor, vê se não me voltas a pregar um sermão. – Vais pagá-las – geme, agarrado aos tomates. – És um ursinho homicida. – Perdi alguma coisa? – pergunta Madison, que ergue um sobrolho ao ver Hunter dobrado em dois e ainda agarrado aos tomates. – Nada – respondo, a assumir uma atitude indiferente e a esboçar um gesto com a mão. Madison ri e senta-se a meu lado. Quando se estica para apanhar a cerveja, vejo que Hunter arregala os olhos, deliciado. Acaba de ser brindado com um relance fugaz do que se esconde por detrás do top justo, e é evidente que gosta do que viu. Morde sub-repticiamente os nós dos dedos e acena com a cabeça, a transmitir uma aprovação silenciosa, enquanto eu levanto os olhos para o tecto. – Tenho de ir andando – diz, a levantar-se e com um bocejo falso para fingir o cansaço. – Oh?! – exclama Madison, que endireita as costas e perde por um instante a compostura.


Não sei qual é a causa, mas desperta-me a atenção para o facto de Hunter não estar em condições de conduzir. – Podes ficar aqui. Não estás em condições de guiar. Dou uma olhadela às garrafas de cerveja vazias que cobrem a mesa. – Por muito que goste de ti, não vou dormir contigo, Dix – responde ele a sacudir a cabeça. Levanto-me, a rir com o comentário idiota. – Não, palerma, podes ficar aqui no sofá, ou no escritório. – Obrigado pela oferta, mas não quero impor a minha presença – replica a sorrir e a fazer um gesto com a mão. – Não tens de agradecer – replico em tom de troça. – Faz-me um broche. – Querias – replico, e Madison ri com a troca de impropérios. – Tarte de Cereja, foi um prazer conhecer-te – diz Hunter, a depositar-lhe um beijo lascivo nas costas da mão. – Igualmente – responde, muito corada. – Amanhã falamos, doc – e dá-me um soco no braço em jeito de brincadeira. – Acompanho-te à porta – digo, e sigo atrás dele. – Não desapareças, Madison. Até breve – diz Hunter por cima do ombro enquanto o empurro pela porta. – Boa noite, Hunter. – Não estragues tudo – diz a meia voz, e sai sem me dar tempo a responder. Inspiro fundo antes de fechar a porta e quando me volto vejo Madison a arrumar a mesa. – Deixa isso. Eu limpo de manhã. Mas ela insiste e com um sorriso transporta uma mão-cheia de garrafas vazias para a cozinha. – Não tem importância. É um minuto. De repente parece incrivelmente nervosa e tenho a sensação de que é por estarmos sozinhos. Reúno as restantes garrafas vazias e junto-me a ela na cozinha, onde limpa o balcão com movimentos enérgicos. Passo por ela, meto as garrafas no recipiente da reciclagem e espero que acabe antes de falar, pois parece perdida nos seus pensamentos. No entanto, quando começa a lavar as taças vazias das batatas fritas, percebo que durante algum tempo não vamos a lado nenhum. Resolvo deixá-la ocupada, pois reconheço quando uma mulher está a pensar e mantém as mãos ocupadas como uma forma de escapatória, como acontecia com a minha mãe. Saio em silêncio e dou início aos preparativos para me deitar. Depois de lavar e limpar os dentes com o fio dental, visto as calças de um fato de treino e aplico um pouco de Aramis porque Madison disse que gosta do odor. No momento em que apago a luz e entro no quarto ouço um arfar de espanto e vejo Madison de costas. – Madison? Passa-se alguma coisa? – pergunto. Demora um segundo a responder. – Sim… estou a ser parva.


Vira-se, e à luz do candeeiro da cabeceira vejo-lhe o rosto muito corado. Os seus olhos percorrem-me o peito nu e compreendo a sua atitude embaraçada. Estava preocupado a imaginar o que poderia ter alterado de súbito o seu estado de espírito e esqueci-me por completo de vestir uma T-shirt. Como tenho o hábito de dormir nu, foi uma sorte ter-me lembrado das calças. – Bela tatuagem – observa, de olhos postos nas minhas costelas. – Obrigado – agradeço, a passar os dedos pela pintura. – «Nunca estamos tão indefesos perante o sofrimento como quando amamos» – diz, a inclinar a cabeça para o lado para ler o texto. – É de facto linda. – Queres dizer patética – corrijo, e Madison ergue uma sobrancelha, intrigada pela minha resposta. Abre a boca passado um segundo. Percebe o que quero dizer. – Fizeste-a por causa da tua ex-noiva? Confirmo com um aceno de cabeça. – Patético, como vês. Abro a gaveta da cómoda com a ideia de tirar uma T-shirt, mas Madison avança de um salto e atraca-se ao meu braço. Baixo os olhos para a mão dela, à espera que a retire, mas não o faz. Deixa de apertar, mas não larga. Avança um passo e eu recuo outro. – Conta-me o que aconteceu – pede, mas sacudo o braço para me libertar. – Não – respondo em tom seco, e de imediato me arrependo quando a vejo baixar os olhos, magoada pela rudeza da resposta. – Não te quero maçar com os tristes pormenores da minha relação estragada, pois não há muito para contar. Apaixonei-me por uma pessoa que julguei sentir o mesmo por mim, propus-lhe casamento e comprei-lhe este apartamento – digo, a abrir os braços. – Em paga foi foder com o meu melhor amigo, engravidou, casou-se e viveu feliz para sempre. Caramba, de onde raio veio tudo isto? Julguei que estava curado de Lily, mas é óbvio que não estou. Não me parece que alguma vez consiga aceitar a sua traição. Baixo os olhos para Madison, que comprime a boca com uma das mãos, os olhos sinceros velados de lágrimas, e percebo que é por causa do meu desabafo. Com Madison de pé à minha frente, absolutamente em paz na minha casa e na companhia dos meus amigos, compreendo que anseio por mais. Há muito que não me sentia assim e, imaginem, a rapariga pela qual me sinto atraído, tanto por fora como por dentro, é-me inacessível por causa de uma coisinha chamada namorado. Não deixo de pensar no que Hunter disse. Ele tem razão, ela não falou nele nem uma única vez e está aqui comigo, a preparar-se para dormir na minha cama, não na cama dele. Acodem-me ao espírito as palavras de Madison na noite de ontem: está aqui porque é aqui que quer estar. Infundo-lhe uma sensação de segurança, e para quem parece receosa a maior parte do tempo faz sentido que se sinta atraída para um lugar onde se sente segura. Não sei qual a razão desses medos, mas faço tudo o que posso para que nunca mais os venha a experimentar. Seja apenas na qualidade de amigo, seja algo mais, aceito tudo o que ela quiser dar, sinto-me reduzido à condição de seu escravo.


– Vou lá fora fumar um cigarro. Estendo a mão para a cómoda e abro as portas da varanda. Entalo um Marlboro entre os dentes, acendo-o e delicio-me com o fumo de que estou tão necessitado. Apoio os cotovelos no parapeito e olho para o mundo que se estende lá em baixo, a odiar a facilidade com que a vida decorre para os outros enquanto navego num rio de merda e nem tenho um remo. Houve sempre qualquer coisa mais e fui um idiota em ter preferido o sexo em detrimento dela, pois foi isso que fiz. Podia ter ficado com Madison, mas optei pelo caminho mais fácil porque o sexo é menos complicado do que… o sentimento. Agora dou por mim sem saber o que fazer sempre que estou perto desta mulher admirável. – Dixon? – A voz suave de Madison faz-se ouvir atrás de mim. Inspiro uma derradeira golfada de tabaco, apago a beata e agito a mão no ar para dissipar o cheiro da nicotina. – Olá – respondo sem me voltar, o olhar preso no mundo que se agita lá em baixo. – Peço desculpa se te perturbei. Não devia ter perguntado. Sei como é difícil falar num acontecimento passado que mudou radicalmente a nossa vida – confessa, e eu aceno com a cabeça, mas sem me virar. Ouço-lhe os passos com os pés descalços, e quando se coloca ao meu lado sinto a tristeza que irradia do seu corpo. – Não faz mal – digo, a virar-me para ela. Cá fora, sob a luz da Lua, a sua imagem é etérea e pura. Os longos cabelos escuros ondulam com suavidade sob o efeito da brisa ligeira, e a fragrância única que dela se desprende faz-me salivar de desejo. Os grandes olhos verdes parecem assustados e apreensivos, e percebo que se sente triste por eu estar zangado com ela. – Não faz mal, a sério. Não estou zangado contigo – confirmo, e dirijo-lhe um sorriso. – De certeza? – pergunta em tom ansioso, a morder o lábio inferior. – De certeza. Lily é para mim… um assunto melindroso. É alguém que quero esquecer, mas sei que é impossível. O que em certa medida até é bom, para me recordar o que devo evitar da próxima vez. Madison parece imersa nos seus pensamentos, mas não espero que me responda. Que poderia ela dizer, além de «tens de ultrapassar isso»? No momento em que sugiro que devemos voltar para dentro, Madison surpreende-me ao dizer: – É uma estúpida de merda. Estaco, pois Madison raramente profere uma palavra imprópria, mas sorrio, agradado pela veemência da expressão. – Deixa lá. Estamos sempre a aprender. É uma frase batida, mas contém alguma verdade. No entanto, Madison não concorda com o ditado. – Isso é um disparate – replica em tom depreciativo e a desferir um pequeno soco no parapeito. Fico admirado, e espero que se explique.


– Qual foi a lição que aprendeste quando a pessoa que amavas e em quem mais confiavas te destroçou o coração? Percebo que não se trata de uma pergunta, mas de uma constatação. Guardo silêncio. Há mais para vir. – Que lição aprendeste quando te traiu de maneira impensável? O ar parece enrolar-se-lhe na garganta e quando um soluço abafado luta para se libertar leva a mão à boca para não trair a sua vulnerabilidade. – A única coisa que aprendeste foi que a vida é uma cabra estuporada e sádica. Corre-lhe uma lágrima pelo rosto, a denunciar o facto de já não estarmos a falar de mim, mas dela. A necessidade de a confortar apodera-se de mim, avassaladora. – Pronto, deixa lá – acaricio-lhe meigamente o braço, a provocar mais lágrimas. Agora que começaram, não parecem dispostas a parar. Mas não faz mal. Pode chorar um rio de lágrimas, pois não tenho intenção de me mover uma polegada. – Deixa sair – digo, e sem pensar avanço um passo e envolvo-a nos braços. Abandona-se sem um protesto, a cara encostada a mim e o corpo frágil sacudido pelos soluços. Enterra-me nos ombros os dedos pequeninos e chora encostada ao meu peito. Não sei quando tempo ficamos assim, com ela a agarrar-me como se fosse uma tábua de salvação, mas não me importo. Pode agarrar-se o tempo que quiser, pois a cada acesso de choro a sua dor parece abrandar. Ao cabo de alguns momentos, os soluços tornam-se menos frequentes até se transformarem aos poucos em fungadelas e depois em respiração pesada. Não sei o que desencadeou isto, mas pode explicar o seu comportamento pouco habitual de há pouco. – Des… desculpa – gagueja, numa voz baixa e entaramelada pelas lágrimas. – Estás a pedir desculpa de quê? – pergunto, sempre a envolvê-la com os braços. – Por me comportar como uma das tuas doentes – responde, na tentativa de se mostrar desprendida. – Não faz mal. Tens direito a tratamento VIP. Afasta-se e olha para mim, intrigada. – Não tenho o costume de abraçar as minhas clientes – explico, mas não menciono que não tenho pruridos em dormir com elas. – Oh! – exclama em tom de culpa e a libertar-se do amplexo. Mas seguro-a com firmeza e não lhe permito que se mova nem uma polegada. – Felizmente para nós, não és uma das minhas pacientes – digo, enquanto lhe limpo as lágrimas com o polegar. – Obrigada, Dixon. É a primeira vez que choro desde há muito tempo. – Qual foi a sensação? – Boa – responde com um sorriso triste. – Bem, sempre que precisares disto – bato no ombro direito – é teu.


A ideia era fazer uma piada, mas Madison arregala os olhos e parece que só neste momento se apercebe de que está encostada ao meu peito nu, pois liberta-se dos meus braços e cora ao olhar o meu corpo. Os seus olhos detêm-se no meu estômago e descem por um instante para as minhas virilhas, a causar-me vibrações abaixo da cintura. Bastou um olhar para ele ficar semi-rígido. Não me sinto acanhado, quero que perceba que é uma reacção à sua presença. Madison aproxima-se e os seus dedos afloram-me a cova entre as clavículas. No momento em que os dedos trémulos entram em contacto com a minha pele, deixo escapar um silvo de prazer, pois os seus movimentos são vagarosos e comedidos. Faz deslizar as pontas pelo meu torso e detém-se por cima do coração. Não tiro os olhos dela. Nunca vivi uma experiência tão erótica, pois calculo que a sua exploração do meu corpo disponível é decerto a sua primeira vez. Desloca os dedos trémulos para um peitoral, a circundar ao de leve o mamilo, e mal contenho o gemido que me aflora à boca. Cada vez mais excitado, vejo que morde o lábio, com os dentes pequenos a fazer rolar para trás e para diante a carne cor-de-rosa. Imóvel, não digo uma palavra. Segue agora para o outro mamilo, que acaricia com o polegar, e o meu membro ergue-se numa erecção. Baixa os olhos para a tentação das minhas calças, e neles não leio medo, apenas desejo. Quase me venho nas calças. É uma visão digna disso. Por muito que deseje estender a mão e tocar-lhe, não o faço. Conservo uma imobilidade total e deixo que assuma o comando. Com cautela, faz deslizar os dedos pelas minhas costelas, a seguir os contornos da tatuagem. Um simples toque nunca foi tão íntimo, e gemo baixinho, prestes a explodir. – Não me parece que seja patético. Mostra o que fizeste no intuito de sobreviveres. Afasta os cabelos compridos para um lado, inclina-se e deposita um beijo no meu flanco. Os seus lábios são como uma injecção de adrenalina para o meu corpo faminto e estremeço ao leve contacto. Repete o beijo, e mais outro, e mais outro, ao longo da tatuagem, até os seus lábios me chegarem à cintura. Agarra-me os quadris com as duas mãos e inclina-se para aceder aos músculos oblíquos. A visão sensual evoca imagens dos seus lábios a envolverem-me o membro retesado e a levar isto até ao fim. Mas não a quero de joelhos no chão duro e frio a dar-me prazer, pois a única coisa em que penso é em vê-la explodir sob a acção da minha mão. – Chega aqui – peço em voz rouca eivada de desejo. Madison ergue-se devagar. Fitamo-nos a centímetros de distância, ambos ofegantes, ambos ansiosos pelo que virá a seguir. Contudo, Madison surpreende-me ao tomar a iniciativa. Chega-se à frente, pousa a mão sobre o meu coração sobressaltado e ergue a boca para a minha, a misturar os nossos hálitos. Antes de isto acontecer tenho de me certificar de que é o que pretende e que não se trata de um devaneio momentâneo. – Se me beijares – esclareço sem afastar os meus olhos dos seus –, não podes voltar atrás. – Não quero voltar atrás – murmura. O seu hálito quente acaricia-me o rosto e vejo-lhe nos olhos o desejo premente. – Ainda bem – rouquejo antes de me debruçar para lhe devorar a boca com sofreguidão.


É um beijo frenético, que não começa devagar. É uma corrida para ver qual de nós mais depressa esgota o outro. Envolvo a cintura de Madison com uma das mãos e com a outra agarro-lhe os cabelos compridos para lhe dominar melhor a boca. Arqueja e geme, o corpo grácil contorce-se encostado ao meu em movimentos sacudidos e deliciosos. Abraça-me o pescoço com os dois braços, puxa a minha boca para a dela, e a fome que me domina controla os meus actos enquanto a vou levando para o quarto sem que os meus lábios jamais se despeguem dos seus. Obedece sem resistir e quando a parte de trás dos joelhos encontram o colchão, deixa-se cair de costas, a arrastar-me consigo. O meu corpo grande abate-se sobre a sua figura pequenina, e procuro minimizar o peso apoiando-me nos cotovelos. Enlaça-me com as pernas fortes e puxa-me para cima de si. Não me canso de a beijar e cada beijo meu é devolvido por outro duplamente mais sôfrego. A língua dela esgrime com a minha e o seu desejo é como um afrodisíaco que traz dentro de si. Não tardo em arrancar-lhe a T-shirt, ansioso por sentir a sua pele encostada à minha. Consigo tirá-la sem despegarmos os lábios por mais de dois segundos e estou de novo sobre ela, a beijá-la como se disso dependesse a minha vida. As suas pernas abrem-se em tesoura debaixo de mim e percebo que precisa de se libertar. Tenciono fazer com que se liberte, e de maneira memorável. Embora me custe, afasto a boca e ela inspira o ar, o peito a ofegar com tanta violência que os seus deliciosos seios quase se libertam do soutien preto de renda. O meu membro dá um salto e Madison arqueja, de olhos muito abertos, subjugada pelo peso do meu corpo. – Estás bem? – pergunto num fugaz momento de consciência entre os arroubos do desejo. – Sim – arqueja, a morder o lábio. – Não pares. É tudo o que preciso ouvir e beijo-lhe o canto da boca antes de lhe percorrer o pescoço longo. Projecta a cabeça para trás, a oferecer-me o delicioso perfume da sua pele. Beijo-lhe a veia palpitante e não resisto a chupá-la para lhe deixar um sinal, pois quero que o mundo saiba que sou o responsável por aquela marca vermelha de paixão. Geme e arqueja e o meu membro parece querer furar as calças, a exigir que o liberte para tomar parte na festa. Os meus lábios vão descendo até chegarem à junção dos peitos túrgidos. Afasto-me por um momento para os apreciar em toda a sua beleza, pois são as mamas mais apetitosas que já vi em toda a minha vida. – São boas como tudo – digo, a envolver com a mão, primeiro uma, depois a outra. Madison geme e arqueia-se ao contacto e a minha mão mal cobre as almofadas perfeitas. Quando os mamilos cor-de-rosa e duros espreitam por entre as rendas do soutien preto sinto crescer água na boca. Quando o puxo para baixo, as mamas libertam-se como uma mola a arrancarme um gemido do fundo da garganta perante uma visão como nunca me foi dado contemplar. – Porra – suspiro, enlevado. – Já calculava que fossem incríveis. Puxo-lhe o mamilo e ela é percorrida por um arrepio. – Mamas tão perfeitas como estas deviam ser proibidas. Inclino-me e prendo-lhe o mamilo entre os lábios.


Grita e estrebucha debaixo de mim e encoraja-me a continuar quando me mete os dedos entre os cabelos para puxar com força. – Oh, meu Deus! – geme, a virar a cabeça para um lado e para o outro. – Gostas, angelo? – pergunto sem largar o mamilo, e ouço gemer em resposta. Não consigo resistir, é como um buffet de mamas. Coloco a mão sob o seio pesado e chupo-o para dentro da boca. Bardamerda para quem diz que uma mão-cheia é mais do que suficiente; estou a nadar em tetas e ainda quero mais. Puxo para baixo o resto do soutien e roço o polegar pelo mamilo enquanto vou lambendo perversamente o outro. – Foda-se! – exclama num grito abafado, os dedos a puxarem-me os cabelos e as ancas a levantarem-se ao encontro do membro duro num movimento que me põe louco. Chupo e lambo-lhe as mamas e faço descer a mão entre nós para lhe sentir os músculos a fechar sobre os meus dedos quando a fizer vir a gritar o meu nome. Sinto o seu corpo inteiriçar-se, mas o meu cérebro e o meu corpo são duas entidades diferentes e prossigo, ansioso por mergulhar dentro dela. Corro-lhe o fecho das calças, numa busca ansiosa para encontrar um refúgio, mas as suas palavras obrigam-me a que me refreie. Retiro a mão como se acabasse de me queimar. – Não, não não – repete Madison sem parar em voz baixa e gutural, os olhos cerrados com força e a mover a cabeça de um lado para o outro. – Madison? – interpelo-a, ao mesmo tempo que me afasto, alarmado pela aflição que patenteia. Parece estar em transe. Largo-a e sacudo-lhe o ombro, inquieto com a possibilidade de estar refém de uma terrível recordação que acabo de fazer reviver com as minhas mãos ávidas. – Madison – repito, desta vez mais alto e a sacudir-lhe o ombro com um pouco mais de força, receoso de que entre em estado de choque. – Não me toques! – grita, o rosto coberto por uma palidez de morte. Afasto as mãos e sento-me nos calcanhares. O facto de não lhe tocar parece acalmá-la, mas os soluços angustiados denunciam que ainda se encontra perdida no passado. – Madison, é o Dixon. Estás em segurança, angelo. Ninguém te vai fazer mal. Estou aqui… chhh… estou aqui. As minhas palavras produzem o efeito esperado e o choro reduz-se a pequenos acessos de pouca intensidade. Fico à espera que se arraste para fora do pesadelo, pois são os seus demónios e tem de estar preparada para os enfrentar. Abre lentamente os olhos, vermelhos e húmidos de choro, olha de relance para todo o compartimento, a tentar perceber onde se encontra. Acalma-se quando percebe onde está, que não é onde supunha estar. – Madison? – pergunto, de mãos erguidas no ar, para mostrar que não pretendo fazer-lhe mal. – Sentes-te bem? O que aconteceu? Quando ouve a minha voz, os olhos aterrorizados procuram os meus antes de se baixarem para o peito desnudado. O rosto passa da lividez a um vermelho-vivo, e cobre a nudez com as mãos. – Oh, meu Deus, que fiz? – sussurra, e os olhos voltam a encher-se de lágrimas.


Ergue-se de um salto para se vestir com movimentos bruscos e desordenados e os seus olhos percorrem o quarto, em busca da mochila. – Desculpa, tenho de me ir embora – justifica-se, ofegante, a evitar olhar-me nos olhos. – Madison, fala comigo – exijo. Salto da cama e agarro-lhe um braço. Assim que lhe toco, esquiva-se tão depressa que bate com o cotovelo na cómoda e solta uma imprecação, mas não se detém na corrida tresloucada em direcção à porta. – Deixa-me em paz. Por favor – implora, a irromper pela sala de estar. Mas não lhe faço a vontade. Preciso de saber o que aconteceu, pois há ali alguma coisa grave e tenho de saber o que é. – E se conversasses comigo? Conta-me o que aconteceu. Conta-me o que te aconteceu – acrescento, e Madison olha-me como se acabasse de a esbofetear. – Não! Não posso! – exclama a correr pela casa comigo no encalço. Está a poucos passos da porta e a segundos de fugir da minha vida. – Por favor! – imploro. – Não te vou julgar. Podes falar comigo. Precisas de falar com alguém sobre o que aconteceu. Rodopia nos calcanhares tão depressa que o cabelo quase me fustiga o rosto. – Para me poderes psicanalisar? Ou tentar curar-me? Não, obrigada. Estou destroçada e não há conversa que me possa curar. – Não sabes isso. Confia em mim, é só – insisto, a dar um passo para ela. – Não – grita, a baixar os olhos. – Nunca mais te posso ver, Dixon. Desculpa. Nunca devia ter permitido que as coisas chegassem a este ponto. As suas palavras cortam-me a respiração, mas faço o que posso para manter a cabeça fria e mostrar compreensão. – Ei, eu estava ali contigo – lembro-lhe, pois as suas palavras não fazem sentido. – Quando me beijaste não estavas contrariada, pois não? – Foi um erro – replica secamente, e vacilo. Sei que está assustada e confusa, mas diabos me levem se vou permitir que desvalorize o que acabou de acontecer no quarto. – Ambos sabemos que não é verdade – respondo. – Eu… eu tenho namorado – afirma em tom patético, como um náufrago a agarrar-se a uma palha e faz-me ver tudo vermelho. Como se atreve a trazê-lo para aqui? Usá-lo como desculpa não passa de cobardia. – Bem, há cinco minutos não eram as mãos do teu namorado que te apalpavam o corpo todo, pois não? – pergunto, sarcástico. – És um sacana – vocifera, a semicerrar os olhos. – Isto nunca devia ter acontecido. – Lamento, mas aconteceu, agora tens de arcar com as consequências. – Não, para mim não aconteceu – insiste teimosa, e a negação disparatada ainda me enfurece mais. – Eu disse-te. – Avanço, abro os braços e encurralo-a entre mim e porta. – Não podes voltar atrás.


– Foi… foi um erro – gagueja. Com as costas comprimidas contra a porta, os seus olhos verdes exprimem o medo que sente. – Então achas que o que fizemos não passou de um erro? Acena com a cabeça, mas sem convicção. – Tu e eu, nunca havia de resultar. Foi divertido, mas somos pessoas muito diferentes. Queremos coisas diferentes. As suas palavras ferem-me. Parece o discurso de despedida de Lily. – Divertido? Foi muito mais do que divertido, e tu sabes isso. Cresce e fala comigo como uma mulher adulta. Estou a ser rude, mas preciso que seja sincera e me diga o que se passa. Mas é teimosa como um burro. – Então achas que sou uma criança? – replica, magoada. – Neste momento, sim, estás a agir como uma criança. Não percebo a atitude dela. Não é a Madison que conheço. Mas talvez não conheça a verdadeira Madison. – Pois bem, esta criança quer sair daqui. – As suas palavras desconcertam-me. – Já te disse que foi um erro. Abro a boca para protestar, mas fecho-a quando ela acrescenta cruelmente: – Tu és um erro. Preciso de uns instantes para digerir o que acaba de dizer, e embora saiba que está a mentir recuso-me a continuar a conversa se ela não está disposta a vir ao meu encontro. – É um disparate, sabes isso muito bem. O único erro aqui é deixar que te vás embora. Ofegante de irritação, dou um passo atrás, a afastar-me da porta. Se ela quer ir embora não a vou obrigar a ficar, mas quando sair é de vez. Não dou segundas oportunidades, sobretudo a quem acha que sou um erro. – Adeus, Madison – digo e volto-lhe as costas, porque não suporto a ideia de vê-la fazer-me o mesmo. – Dixon – diz num suspiro, mas não me volto. Percorro o apartamento com o olhar, a imaginar como foi possível que tudo desse para o torto. – O problema não és tu, sou eu. – Vai-te embora – insisto, pouco interessado em escutar as desculpas dela. Não estou interessado em lutar por uma mulher que não quer que lute por ela. – Desculpa se te magoei. E com estas palavras fecha a porta sobre o que poderia ter sido, mas nunca virá a ser.


Terceiro acto Um mês depois…


Capítulo 24 De regresso à estaca zero

Dixon Broche. Broche. Respira. Broche. Broche. Engasga. Aprecio tanto um broche como outro tipo qualquer, mas ao fim da quarta mamada numa semana já nem sei quem os fez, tudo se mistura. Olho para o reflexo no espelho da casa de banho e não gosto do que vejo. Há cerca de um mês, deixei que a única miúda de quem gostei em muito tempo se fosse embora por me ter ferido os sentimentos. Que fraqueza de carácter… O problema é esse. O meu membro, que não é mole, começou por me arranjar sarilhos e agora estou de regresso a um número interminável de mulheres por quem não me interesso nem quero saber quem são. O espasmo desinteressado esguicha do membro indiferente e a morena de acaso que tenho aos pés engole tudo sem perder uma gota. O orgasmo é semelhante ao desta manhã, inútil e desprovido de sentido. Mas um homem tem de fazer o que é preciso e sinto-me obrigado a foder todas as gajas de Manhattan, já que não tenho aquela que desejo. A tipa, cujo nome já esqueci, limpa os lábios vermelhos e ergue para mim os olhos sob as pestanas falsas. – É a minha vez – ronrona a levantar-se para se escarranchar no lavatório e abrir as pernas. A saia curta sobe-lhe até à cintura, a revelar a ausência de roupa interior. A entrada macia é escorregadia e brilhante, mas numa situação em que a maioria dos homens se poria de joelhos para dar prazer a esta candidata a modelo, limito-me a arrumar o meu material e a correr o fecho das calças. – Fica para a próxima, amor – minto com todos os dentes que tenho na boca. – O quê? – pergunta espantada, sem querer acreditar que a vou deixar a secar. – Não retribuis o meu favor? Encolho os ombros, irritado pelo dramatismo da pergunta, e ela grita: – És um porco! – Bem, é o que acontece quando fazes broche a um desconhecido numa casa de banho pública – respondo a ajeitar os botões de punho.


– Disseste que eu era linda! – grita, e os seus olhos marejam-se de lágrimas. – E és. – Estendo o braço para lhe puxar o vestido para baixo, pois a rata dela suscita-me olhares gulosos. – É uma pena que a beleza não te leve mais longe neste mundo. – Quê? – pergunta, a limpar o sémen que lhe escorre do nariz. – Quando fores mais velha, vais perceber que a beleza não vai além da flor da pele. Mas isto – com um gesto da mão indico o vestuário e a maquilhagem – só leva a que sacanas como eu te fodam, e não da melhor maneira. Destranco a porta do lavabo e evito os olhares furibundos das mulheres que esperam para usar a casa de banho. Quando regresso à mesa, Finch e Hunter olham para mim e reviram os olhos. – Outra vez? – pergunta Finch, a erguer as sobrancelhas. Encolho os ombros com indiferença e roubo a cerveja de Hunter. – O que queres que diga? – Podes dizer que és um putanheiro de merda – adianta Hunter com ar enojado. – Podes ficar com isso – acrescenta, a apontar para a cerveja. – Não sei por onde terá andado a tua boca. – Nem te ouço – e faço-lhe um gesto com os dedos. – Dix, estamos preocupados – diz Finch, e não posso deixar de comparar o comentário ao que fez há vários meses. O mesmo bar. A mesma noite. O mesmo assunto. Só que desta vez parece um milhão de vezes pior. – Não têm razão para se preocuparem. Estou bem. A vida é bela. Amanhã parto para Boston e tenciono fazer uma surpresa a todos aqueles gajos empertigados para me tornar conhecido. – Bem, aqui pelo menos já és. Não é preciso dizer que Hunter está mais do que chateado comigo por eu não agir como um homem e telefonar a Madison. Gostou mesmo dela, e embora já lhe tenha dito inúmeras vezes que aquilo acabou ainda antes de começar, continua a viver em negação. – Telefona-lhe – insiste pela vigésima vez na última hora. – Por que não lhe telefonas tu? – sugiro, mas arrependo-me logo assim que lhe vejo a alegria no rosto. – Era uma piada. Não vais telefonar-lhe, nem fazer-lhe nenhuma visita no trabalho. Todas as formas de comunicação te estão vedadas. Entendido? Hunter ignora-me, pelo que repito: – Entendido? – Sim, entendi – responde com desagrado. – Só quero… Corto-lhe a palavra com o dedo levantado. Bufa de irritação e cruza os braços sobre o peito, mas não cedo. Nos dias que se seguiram à saída de Madison da minha casa, ainda pensei em contactá-la, mas depois desses dias sem nada saber dela percebi que o silêncio em que se resguardava era ensurdecedor e que tudo estava acabado entre nós. Estou farto de mulheres e dos joguinhos mentais. Já ouvi o suficiente para uma vida inteira. Portanto, resolvi voltar ao que sei fazer bem. Trabalhar, dormir e ter sexo.


O trabalho é fácil. Dormir é fácil. O sexo é fácil. Difícil é tudo quanto está no meio. – Então sempre vais a Boston? – diz Finch para mudar de assunto, e confirmo com um gesto da cabeça. – Vai ser bom estar uns dias longe – digo, pois conto tirar algum tempo de férias. Felizmente vou sozinho, pois nunca mais tive notícias de Juliet desde que lhe disse que estava tudo acabado – se excluirmos umas cuecas de renda que mandou entregar no meu escritório. Foi a única coisa boa que resultou daquela noite. Sair de Nova Iorque vai-me fazer bem, pois se a cidade nunca dorme, o mesmo tem acontecido comigo.


Capítulo 25 Um pontapé no hábito

Dixon Chego a Boston de manhã cedo. Assim que entro no quarto luxuoso corro os cortinados, desligo todas as formas de tecnologia e bebo até esquecer graças às duas garrafas de uísque que comprei pelo caminho. Tenciono continuar assim até perder a consciência, pois sinto-me demasiado cansado para enfrentar a luz crua do dia. A natureza chama-me passado algum tempo e sacudo o torpor da bebedeira sem saber nem o dia nem a hora. Quero lá saber! Não tenho planos e a cerimónia da entrega dos prémios é só no sábado à noite, ou seja, daqui por seis dias… julgo eu. É a hora de encarar a realidade, creio que já hibernei o tempo suficiente. Tomo um duche, mas não me dou ao trabalho de fazer a barba. Enfio um par de jeans e uma Tshirt velha e estou pronto para encarar o mundo. Ligo o portátil e rosno quando vejo os mais de trezentos e-mails que tenho para ler. Podem esperar. Susanna ficou de atender tudo quanto fosse importante. Conferida a cotação das minhas acções e os resultados dos Yankees, desligo o computador. Por hoje, já chega. Ligo o telemóvel e, quando vejo que é segunda-feira à noite, nem quero acreditar que dormi durante todo o fim-de-semana. Mas ficar acordado para quê? O telefone tilinta, a indicar que tenho uma mensagem. Quando vejo quem é o remetente por pouco não caio da cadeira. Saudades minhas? ;)

A mensagem provoca-me com o emoticon a piscar. Não sei o que pensar. Por que raio Juliet me envia uma mensagem? Para ser sincero, julgava que já se tinha esquecido de mim e transitado para o tipo seguinte. Mas uma vez que me mandou uma mensagem, devo ter-me enganado. Senti a tua falta. De tudo.

Não tenho de pensar muito para adivinhar qual a parte de que sentiu mais falta.


Resolvo responder-lhe, com receio de que se o não fizer me continuará a enviar mensagens como se nada tivesse acontecido. Olá, Juliet. O que queres?

Não é a forma mais simpática de cumprimentar alguém com quem se partilhou a cama, mas não estou com disposição para formalidades. Estava só a pensar a que horas devo chegar para a cerimónia.

Tenho de ler duas vezes a mensagem. Não pode ser o que estou a ver. Mas é. Estará doida? Quando chega a mensagem seguinte tenho a certeza de que sim. Mal posso esperar para te mostrar o meu vestido… e o que está por baixo.

Fui transportado para a Quinta Dimensão sem dar por isso? O que lhe passou pela cabeça para julgar que pode vir? Pensei que o meu discurso «foi interessante, mas penso que o melhor é deixarmos de nos ver» tinha deixado bem claras as minhas intenções, mas pelos vistos não passou de um preâmbulo. Chegou o momento de esclarecer tudo em termos definitivos. Peço desculpa se houve algum mal-entendido, mas julgo que fui muito claro. Tu e eu estamos acabados. Portanto, a tua aparição num evento que para mim é importante está fora de causa. Peço desculpa por qualquer confusão.

É a maneira mais delicada que encontro para a mandar passear. Não tenho tempo nem paciência para lidar com isto, e para ser franco sinto-me insultado por ela pensar que basta enviar-me uma mensagem para eu ir a correr atrás dela com a gaita na mão. Quando ao fim de alguns minutos não recebo resposta, não sei se devo festejar ou esconder-me. O estômago ronca para que deixe de me armar em parvo e vá comer alguma coisa. Envio uma mensagem curta a Hunter, Finch e Susanna, a informá-los de que estou vivo. Agarro na carteira e na chave do quarto e vou à procura de comida, mas tenho o cuidado de deixar ficar o telemóvel. No momento em que o sol-poente agride as minhas córneas sensíveis à luz, resolvo jantar no restaurante do hotel, pois não me sinto assim tão preparado para enfrentar o mundo. Além de que ainda posso estar um pouco intoxicado – é o efeito de duas garrafas de uísque durante o fim-desemana. Olho para a lista e opto por um banquete para compensar o tempo perdido e porque estou esfomeado. Depois de encomendar dou uma vista de olhos no iPad e decido tomar alguns apontamentos sobre a dissertação que estou a escrever. Tenho por fim tempo para me dedicar às


minhas pesquisas e tenciono utilizar todos os segundos, uma vez que vou estar entre colegas de profissão que vão avaliar o meu trabalho. Imerso na leitura do último exemplar do Medical Journal, não me apercebo da presença de uma pessoa ao meu lado até ouvir uma tosse discreta. Levanto a cabeça e vejo a empregada de olhos azuis que recebeu o meu pedido. – Posso trazer-lhe outra cerveja? – pergunta, a olhar para a minha Budweiser intacta. – Por agora, está bem assim – respondo, e noto que olha para o iPad. – Veio para o congresso dos médicos? – pergunta, a indicar com um gesto da cabeça o salão de baile onde o evento terá lugar. – Vim, sim. – Formidável. – Afasta uma madeixa loura para trás da orelha. – É médico? – Psiquiatra. Retiro os óculos e estendo a mão para a cerveja. – Oh, então lê a mente das pessoas, e coisas desse género? Não sei se fala a sério ou não, mas solto uma pequena gargalhada, sem intenção de a ofender. – É um dos meus muitos talentos. – Acredito – responde em voz baixa, a examinar-me com o olhar. – Quais são os seus outros talentos, senhor doutor? Meu Deus, isto está a ser demasiado fácil. Considerando o que me tinha acontecido, tinha pensado em pôr as mulheres de parte. Mas não ponho. Dobro o dedo para que se aproxime. Obedece e inclina-se para a frente quando lhe dou a entender que se trata de um segredo. – Talvez fosse melhor mostrar-lhe – digo numa voz carregada de promessas vãs. Ri e recua, mas consigo ver-lhe as pupilas a dilatarem-se de prazer. – Talvez me possa mostrar quando acabar o turno, não? Saio às dez. – Então sais às dez, meu amor – digo com um aceno confiante. – Não me esqueço. Cora e entreabre os lábios. É verdade, sinto-me um velho porco, ela não parece ter mais do que vinte e um, mas já que estou em Roma, neste caso Boston… Mete a mão no bolso do avental, saca um pequeno bloco e escreve qualquer coisa. – Está aqui, meu lindo. Empurra o papel com o número por cima da mesa. – Não te esqueças de telefonar. Fico à espera. Estendo a mão para o agarrar, mas ela trava-me com a mão por cima da minha. – A propósito – diz em tom atrevido –, saio às dez e cinco. Lança-me uma piscadela de olho cúmplice antes de se afastar, a oferecer-me o espectáculo do traseiro firme. Fico a olhar até desaparecer de vista, dobro o papel com o número de telefone e meto-o no bolso. Devia mesmo ficar longe das mulheres, pois ainda há cinco minutos estava disposto a dedicar todo o meu tempo à investigação. Mas trabalho sem divertimento faz de mim um tipo monótono.


Mal me recordo da frase sinto um arrepio e Madison vem-me à memória. Mas há muitas coisas que me fazem lembrar Madison. O último mês foi difícil e não tenho medo de dizer que me lembro dela de vez em quando. Imagino como estará, o que andará a fazer e, muito mais importante, se pensará tanto em mim como penso nela. Deixo escapar um suspiro de frustração e prometo a mim mesmo que é a última vez que me permito divagar sobre ela, já que a falta de contacto é uma prova segura de que se esqueceu de mim, tal como eu a devia esquecer. – Dixon? – pergunta uma voz, e quando levanto os olhos depara-se-me o rosto envelhecido e afável do meu antigo professor, o doutor Wellington. – Doutor Wellington?! – pergunto sem esconder a surpresa. – O que está aqui a fazer? Levanto-me e aperto-lhe a mão. – Sou o orador convidado da cerimónia de entrega de prémios, o que é um disparate. Nem quero imaginar no que eles pensam que um cota como eu pode ter a dizer que interesse aos jovens – observa modestamente, e eu rio. – Não seja ridículo, ensinou-me tudo o que sei. Atrevo-me a dizer que sem si teria desistido no fim do primeiro semestre. O doutor Wellington solta uma risada que lhe fica presa na garganta, bate no peito e tosse. – Obrigado. Vou aceitar isso como um elogio, pois já sei que ganhou bastante fama, doutor Mathews. – Graças a si. Por favor, não quer sentar-se? Indico o banco com um gesto. – É melhor não. Estou aqui com outra pessoa. – Ah, Casanova – comento, trocista, a piscar-lhe o olho. O doutor Wellington volta a rir e abana a cabeça, a fazer esvoaçar os cabelos grisalhos. – Nada disso. Tenho idade para ser avô dela. É uma das minhas alunas. – Não sabia que continuava a ensinar – observo, e ele confirma. – Só a tempo parcial. Apenas psicologia elementar. É uma aluna que revela grande potencial e a organização pediu-me que a trouxesse comigo, com outra, pois vêem potencial em ambas. Acho que só querem que me exiba perante os tipos importantes. Sabe como Columbia gosta de se gabar dos seus alunos quando se tornam famosos. Aceno, pois ele tem razão. As universidades gostam de se vangloriar de terem formado as novas elites, o que lhes permite cobrar propinas astronómicas. – Em certa medida, ela faz-me lembrar de si – diz com um brilho divertido nos olhos. – O quê? Não me diga que também é rebelde. O doutor Wellington sorri. – Isso também, é verdade. Bem, tenho de ir andando. Nunca se deve deixar uma mulher bonita à espera. – É o que dizem – respondo, pois está a pregar aos peixes. – Gostei de o voltar a ver, doutor Wellington. – Max, se faz favor. As formalidades são para as aulas, e mesmo aí são desnecessárias.


Sorrio, satisfeito por ver que a sua humildade continua intacta. – Fico à espera de o ouvir durante a cerimónia. – Obrigado, Dixon. Se o chatear de morte, sinta-se à vontade para me atirar com um pão. – Não vai acontecer, mas prometo. – Fica cá toda a semana? – Fico, sim. Preciso de me afastar da poluição – admito. – E estou a trabalhar numa comunicação sobre as relações entre a neurobiologia e o vício, centrada no princípio da cultura versus natura. Precisei de uma folga para a terminar. – Ah! Isso é interessante. Fico ansioso por ouvir as suas conclusões – declara Max, a deixar vir à superfície a sua vertente de cientista. – Podemos encontrar-nos amanhã de manhã? Para o pequeno-almoço, por volta das oito e meia? – Com certeza. Para mim está perfeito. A opinião de Max só me pode beneficiar. Falar com alguém com o seu conhecimento e experiência pode abrir-me possibilidades que ainda não tenha explorado. A hipótese de vir a ser candidato a um prémio na cerimónia do próximo ano não me parece tão remota como antes. – Esplêndido. Vou pedir a Alex e a Madison que venham também. Não se importa, pois não? Tenho a certeza de que vão achar as suas pesquisas fascinantes. Assim que o nome lhe brota dos lábios peço a todos os santinhos que seja outra Madison, não a minha Madison, porque se for ela de certeza que me viu a trocar segredinhos com a empregada dez minutos antes. – Não se importa? – insiste quando vê que fico calado. – Com certeza que não, está muito bem. Passo os olhos pela sala. – Formidável. Então até amanhã às oito e meia – diz ele, a dar-me uma palmada no ombro. – Tenha uma boa noite. Pisca-me o olho quando a empregada espampanante chega com o meu jantar. Assim que vira costas perscruto a sala, e quando o meu olhar se cruza com um espantoso par de olhos meu conhecido não sei se chore de alívio ou simplesmente chore. Isto raia as fronteiras do ridículo. Podem dizer que este encontro acidental é o destino que subrepticiamente junta duas pessoas. Para mim é uma maldição, pois de cada vez que a vejo acode-me à memória o que perdi. O aspecto dela é tal e qual me recordo, mas um bilião de vezes melhor. Está espantosa, com um vestido comprido e decotado que lhe acentua as formas do corpo. Não me importo de ser apanhado a olhar, pois mesmo que quisesse desviar os olhos não seria capaz. Continuo fascinado por ela, embora os seus gritos e a fuga revelem que não sente o mesmo por mim. – Doutor? – interpela-me a empregada, a arrancar-me da minha abstracção. Madison arqueia uma sobrancelha atrevida que me deixa de rastos. Topou-me a namoriscar com a loura e de repente desejo ter respeitado a minha intenção de me dedicar ao trabalho em vez de andar ao engate. – Obrigado – respondo com um sorriso contrafeito e a sentar-me no reservado.


Coloca a minha refeição sobre a mesa, inclinada para a frente para que a T-shirt larga revele a parte superior de uns seios formidáveis. Mas não são os seios dela que cobiço. Os que me interessam estão sentados a alguns metros daqui, a fitar-me com uma expressão reprovadora. – Estou ansiosa por logo à noite – diz ela, ao colocar a conta em cima da mesa. Embora Madison não possa ouvir a nossa troca de palavras, agito-me no assento, a sentir-me um sacana de primeira ordem por encorajar aquela situação. – A propósito – respondo com um suspiro –, não vai poder ser. – O quê? – exclama, surpreendida com a franqueza da resposta. Podia mentir, mas para quê? – Lamento, mas é isso mesmo. Para começar, nem devia ter aceitado. Levo a mão ao bolso e retiro o pedaço de papel com o número de telefone dela. – Tome – digo, a estender a mão. Pensa que é uma espécie de jogo. – Fique com ele. Pode ser que mude de ideias. Abano a cabeça. – Não mudo. Como prova da minha determinação, rasgo o papel em tiras, que coloco sobre a mesa. Sei que estou a ser indelicado, mas é melhor agir com alguma rudeza, e pela boca aberta de espanto da empregada vejo que os meus propósitos foram entendidos. – Muito bem, quem fica a perder é você – reage em tom defensivo enquanto se afasta a bufar de desapontamento. Suspiro, baixo os olhos para a comida e afasto o prato. De repente perdi o apetite. A única coisa que me interessa está sentada a poucos metros de mim, e não sei o que fazer. Levanto os olhos e apercebo-me de que Madison já não está sentada à mesa. Só Deus sabe por que razão recusei sexo gratuito e fácil, nunca o fiz ao longo deste último mês. Mas o facto de ver Madison trouxe a lume a necessidade de dar um pontapé num hábito adquirido – ela.


Capítulo 26 Um estranho nas roupas dele

Madison Ver Dixon ao fim de tanto tempo resultou naquilo que tinha previsto – um desastre. O meu coração já tinha começado a bater mais depressa assim que o vi entrar no restaurante, descontraído e a dominar a sala com a sua pose. No entanto desatou num galope frenético por uma razão diferente, e essa razão foi a empregada loura que o fisgou logo que o viu entrar. Fui mordida por um ciúme que nunca tinha sentido, tão violento que tive de pedir desculpa para me refrescar na casa de banho antes de fazer qualquer coisa de que depois me arrependesse, como arrancar-lhe os olhos com as unhas. Quando voltei, encontrei-o num flirt descarado com ela, como um porco a rebolar-se na merda quando ela lhe deu o número do telefone. Mas o que tenho eu a ver com isso? Fui eu que fugi dele como uma doida quando ele não tinha feito nada de mal. Fui eu que disse que não o queria voltar a ver e que não lhe dei uma explicação para a minha brusca mudança de atitude. Fui eu que disse que ele era um erro, o que é mentira. Para ser franca, não fui capaz de lhe dizer o que me levou a passar-me dos carretos. Não é coisa que esteja disposta a partilhar com ninguém, mas uma pequena parte de mim quer fazê-lo com Dixon, e é isso que me assusta. O carinho e a ternura do seu contacto mostraram-me que talvez, apenas talvez, me seja possível uma segunda hipótese de uma vida normal. Só que depois estraguei tudo. Naquela noite, quando deixei Dixon, compreendi que havia uma coisa que tinha de fazer: falar com David e acabar tudo. Era injusto mantê-lo preso a mim; era natural que ficasse a odiar-me, mas preferia isso a magoá-lo por mais um segundo que fosse. E assim, durante o último mês dediquei-me por completo à escola e procurei não pensar que tinha arruinado a minha relação com Dixon. Sei que nunca me dará outra oportunidade, mas a questão é que precisava de lidar com os meus demónios antes de voltar a estar intimamente com alguém. Todavia, depois de ter sido adorada por Dixon, não quero ter essa experiência com mais ninguém. A maneira como me tocou foi diferente do que alguma vez senti. Encontrei um novo sentido de liberdade no contacto físico com Dixon, mas tudo isso foi para o diabo quando me deixei ir abaixo. Tenho medo, é só isso. E preferi ceder ao medo e afastar Dixon do que ser magoada, pois com Dixon de certeza que acabaria em lágrimas, dor e sofrimento. Manter-me longe é melhor para todos.


O receio de falar coloca-me diante do espelho do quarto do hotel, a procurar sentir-me entusiasmada com a ideia de tomar o pequeno-almoço com Dixon, mas o resultado é o que já esperava – terrível. Quando o doutor Wellington propôs o pequeno-almoço com ele fui incapaz de recusar. Senti-me lisonjeada quando me convidou para o acompanhar no evento, cujo prestígio é conhecido. Fui obrigada a engolir em seco, que é o melhor que tenho a fazer. Posso adoptar uma atitude profissional e fingir que Dixon nunca abrasou o meu corpo com a suavidade da sua boca e a urgência das suas mãos. Graças àquele flirt dele com a Barbie, sinto-me em condições de afogar a nostalgia, pois é óbvio que seguiu em frente e agora é a minha vez de fazer o mesmo. – Está tudo bem? – pergunta o doutor Wellington quando não páro de ajeitar o guardanapo no colo. – Sim, está tudo bem – respondo, a olhá-lo, embaraçada. – Só estou um bocadinho indisposta. – Oh, minha querida, já podia ter dito. Quer voltar lá para cima? – sugere amavelmente, e eu abano a cabeça, determinada a levar o pequeno-almoço por diante para provar a Dixon e a mim mesma que consigo seguir em frente. Contudo, essa determinação esfuma-se num ápice mal sinto pairar na sala o mais delicioso odor que existe no mundo. Sei quem está a usar aquele aroma inebriante. É o dono da voz profunda e rouca que me faz pele-de-galinha por todo o corpo assim que abre a boca. – Bom dia – diz Dixon, a dirigir-se a todos os que se encontram à mesa. Falta-me o ar. Tusso e espero que a asfixia me passe antes de encarar o homem mais sedutor do planeta. Felizmente acontece, e levanto os olhos para os dele, mas assim que o faço volto a engasgar-me. – Bom dia, Dixon – diz o doutor Wellington, sem se dar conta da minha repentina dificuldade em respirar. – Max – corresponde Dixon com um ligeiro aceno de cabeça, mas sem afastar os olhos dos meus. – São a Madison e a Alex – apresenta-nos o doutor Wellington, que não faz ideia da minha relação com Dixon. A ideia traz-me à memória outra pessoa que talvez também conheça o doutor Mathews, a galdéria da noite passada. Com isso em mente, endireito as costas e estendo a mão. – Encantada por conhecê-lo, doutor Mathews. Dixon aceita a mão, e vejo-me obrigada a repreender o meu corpo para não se agitar em sobressaltos quando as nossas mãos se tocam. – Prazer – responde com um sorriso, e procuro não atentar na musculatura oculta sob a camisa de xadrez. Olha agora para Alex, a beldade russa à minha esquerda. – Olá, Alex. Aceita a mão que ela lhe estende e deposita-lhe um beijo rápido nos dedos. Tenho a certeza de que todos os que estão à mesa ouvem os meus dentes a bater quando vejo aquilo, mas estendo calmamente a mão para a água e compenetro-me de que é apenas um


pequeno-almoço e depois se irá embora. Quando Dixon se senta a meu lado, evito olhar para os dedos longos enquanto segura a lista, mas as imagens daqueles dedos a envolver-me os seios e a brincar com os meus mamilos assaltam-me de repente o cérebro e, desajeitada, largo o copo, a entornar água pela frente do vestido branco. – Merda! – praguejo em silêncio, a pegar no guardanapo sujo para me secar. – Madison, sente-se bem? – pergunta o doutor Wellington, preocupado. – Deixe que chamo um empregado. Sinto a cara a arder de atrapalhação e preciso de me livrar dos olhos de águia de Dixon, que sinto pousados sobre mim. – Não faz mal, doutor Wellington. Vou só limpar isto. Afasto a cadeira com um movimento brusco e baixo-me para apanhar o copo. Não precisava de o fazer, mas dá-me oportunidade para me recompor antes de voltar a enfrentar o rosto presumido de Dixon. – Vai ficar aí o resto da manhã? – pergunta Dixon, irónico, e quando ergo a cabeça vejo-o inclinado sobre a minha cadeira, a seguir todos os meus movimentos com os seus olhos de um azulinocente. Contenho-me para não dizer um palavrão, irritada com a sua expressão arrogante, e retomo o meu lugar à mesa sem lhe atirar com o copo à cara. Estou ofegante e com a cara a escaldar, mas tirando isso creio ter dominado o nervosismo. – Peço desculpa – digo, dirigindo-me ao doutor Wellington, que desvaloriza o incidente com um gesto da mão. O empregado aproxima-se para tomar nota das encomendas, e sem pensar mando vir waffles e uma dose de rabanadas. – Aprecia coisas doces logo de manhã, Madison? A pergunta de Dixon é carregada de segundo sentido. Aceno, a fitá-lo nos olhos altivos. – É verdade. O jantar deixou-me um sabor amargo na boca, preciso de uma coisa doce para compensar. Dixon empalidece, pois percebe que aludo ao seu rendez-vous e sinto-me mais confiante quando o vejo passar a mão pelo cabelo, embaraçado. O doutor Wellington apercebe-se da hostilidade e tenta mudar de assunto. – Então, Dixon, fale-nos sobre as suas investigações. Dixon olha-me uma última vez antes de se virar para o doutor Wellington, parecendo calmo e inalterado. – Como sabe, o vício é uma coisa bastante complexa. Sinto de novo a cara a arder. – Sem dúvida – confirma o doutor Wellington, a corroborar as palavras com um aceno de cabeça. – As pessoas perdem a noção de quem são e de quem foram por causa de alguns vícios poderosos. Mas a questão que se coloca é: por que razão algumas pessoas se tornam viciadas e outras se conservam simples apreciadoras? Quero dizer, gosto de algodão-doce, mas não sinto a compulsão


de o comer todos os dias nem perco o controlo das quantidades que como. O que desencadeia o vício? – O desejo – responde com frieza Dixon, e eu agito-me na cadeira. – E o que nos tem a dizer sobre o desejo? – pergunta o doutor Wellington, e eu gemo por dentro porque tenho o pressentimento de que não vou gostar da conversa. – Bem, a maioria das pessoas torna-se viciada porque deseja inebriar-se, seja por um processo natural ou artificial. Será um caso clássico de natura versus cultura? Ou será mais do que isso? Em determinadas circunstâncias elementares, creio que é algo muito mais simples. Todos desejamos o prazer, queremos sentir-nos bem, e isso desencadeia uma reacção neurobiológica que alerta o nosso cérebro para o facto de que comer, fumar, ingerir drogas ou ter sexo com desconhecidos é bom – explica Dixon, a baixar a voz quando chega à última parte. Acho os seus pensamentos fascinantes, e por momentos esqueço-me de que estou de cabeça perdida pelo tipo e escuto com atenção os seus raciocínios inteligentes. – Portanto, tornamo-nos viciados nesse «prazer» – explica, a indicar aspas com os dedos. – E na satisfação que proporciona. – Tem toda a razão – afirma o doutor Wellington, os olhos arregalados de excitação. – Pretendo demonstrá-lo com as minhas pesquisas. O abuso de drogas, por exemplo, é uma doença, contudo há «vícios» mais simples que são desencadeados por emoções humanas básicas. Aquilo em que nos viciamos é na recompensa. Deixo-me arrastar pela lógica inteligente de Dixon, a estudar como usa os seus argumentos explicativos e ele de repente vira-se para mim com um sorriso velhaco. – Por exemplo, Madison, você parece-me uma rapariga nada complicada – observa, malicioso. Semicerro os olhos para o fulminar. Aquilo foi dirigido a mim. Mantenho-me calma, à espera que termine. – Há alguma coisa em que esteja intrinsecamente viciada? – pergunta, a erguer uma sobrancelha. Não sei qual é a intenção dele ao pôr-me sob a luz dos holofotes, mas raios me partam se vou dar parte de fraca. Quando me limito a encolher os ombros, o meu gesto reservado parece incitar Dixon, que insiste: – Vá lá, deve haver pelo menos uma coisa que faz e que sabe que lhe faz mal, mas a recompensa e o estímulo que recebe por essa má acção supera as implicações e repete o gesto em busca de mais. O silêncio instala-se na mesa, à espera da minha resposta. Mas quando Dixon diz em tom arrogante: «Bem, talvez você seja bastante mais complicada do que pensei», perco a calma e doulhe a conhecer qual a única coisa em que sou viciada. – Tenho tendência a interessar-me pelos homens errados – digo a cuspir as palavras, ao mesmo tempo que me levanto de um salto. – Mas quer saber uma coisa, doutor Mathews? A recompensa não justifica o sofrimento. A sua expressão suaviza-se por uma fracção de segundo, logo substituída pela máscara dura e insensível de um homem que não conheço. – Peço desculpa – digo, à beira das lágrimas. Dirijo-me para a saída, incapaz de o encarar nem por mais um instante.


Assim que entro de rompante no elevador vazio deixo escapar um soluço e tapo a boca para conter as lágrimas. Como pôde ser tão mesquinho? É certo que não nos separámos nos melhores termos, mas a sua atitude foi muitíssimo cruel. Nunca me teria atrevido a embaraçá-lo na presença de outras pessoas, em especial de alguém como o doutor Wellington, além de flirtar com a minha colega. A sua atitude de hoje deixou bem claro que não se interessa por mim. Talvez nunca se tenha interessado. Enxugo os olhos, saio desabridamente do elevador e dirijo-me, abatida, para o quarto. Descalço os sapatos, dispo o vestido molhado, penduro na porta o sinal de não incomodar e arrasto-me para a cama. Espero não sonhar, pois agora os meus sonhos com o doutor Mathews já não são bemvindos.


Capítulo 27 A vingança

Dixon Sou um filho-da-puta. É isso mesmo. Aquilo que fiz hoje ao pequeno-almoço foi muito incorrecto, mas um pontapé no hábito significa um pontapé no hábito. Não estive com meias-tintas para expulsar Madison da minha vida, e pela maneira como olhou para mim sei que sentiu o mesmo. Aquela corrente eléctrica invisível estava outra vez a fluir entre nós, e para a fazer sair da minha vida tem de ser ela a afastar-se, já que me sinto incapaz de cortar os laços. Deixou claras as suas intenções quando saiu do meu apartamento e me disse que a deixasse em paz. No entanto, não consigo deixar de pensar no que disse antes. Que se apaixonava pelos homens errados. Portanto, sem querer admitiu que se tinha apaixonado por mim. Mas se assim é, por que razão se passou dos carretos no meu apartamento? E depois, por que se manteve à distância? Não faço a mais pequena ideia se continua ou não a namorar com o idiota, quero dizer, seria uma boa razão, mas isso não a impediu de corresponder aos meus beijos. É por isso que estou convencido que é o passado maculado de Madison que não a deixa seguir em frente. Infelizmente, só a Madison pode combater esses fantasmas. Não a posso obrigar a revelar-me os seus segredos, não a posso obrigar a estar comigo. Se insisto, ela foge de certeza. Então que devo fazer? Detesto sentir-me assim, e em tempos de crise procuraria um corpo escaldante onde queimar as minhas inquietações e perder-me no conforto que só outro corpo pode oferecer. Mas não é isso que quero. A resmungar, desligo o computador portátil e resolvo dar um salto ao ginásio. São dez e meia da noite e a única hipótese de conciliar o sono é correr até cair de exaustão. Mas, por muito que corra, Madison estará sempre dois passos à frente. É a noite de sexta-feira, e a maioria dos hóspedes está cá para a cerimónia de entrega dos prémios, que terá lugar amanhã à noite. Mantive-me isolado durante toda a semana, quase barricado no quarto, e devo confessar que foi uma mudança agradável, concentrar-me em leituras e não em mamas. O meu estatuto de eremita tem de ser suspenso, pois todos os participantes são convidados para um jantar que antecede a entrega dos prémios, e seria insensato da minha parte não comparecer. É um evento formal, pelo que enverguei um elegante fato às riscas, mas esquivei-me ao colete, pois o calor é atroz e não me apetece suar para dentro do champanhe. A caminho do elevador


esbarro com Chad Turner, o meu amigo do Comité de Ciências Psiquiátricas e Comportamentais, acompanhado por uma mulher que presumo ser a sua nova namorada e cujo monumental anel de diamante me cega com um faiscar de coisa nova. Deve ter menos uns quarenta anos do que ele. – Dixon – saúda-me alegre Chad, a estender-me a mão. – Que bom ver-te por cá. Acabaste de chegar? – Não, já cá estou há alguns dias – explico enquanto primo o botão de chamada do elevador, sem prestar atenção aos olhares predatórios da morena. – Precisava de sair da cidade. – Ah, sim, Nova Iorque pode ser esgotante. Tens apreciado a estada? – pergunta no momento em que a cabina do elevador se detém no nosso piso. Quando entramos, a morena faz questão de se encostar a mim, e eu de me afastar. – Sim, tem sido maravilhoso, embora não tenha tido ocasião para visitar a cidade. Tenho estado a trabalhar na minha comunicação. – Ah! Mais investigações em neurobiologia e vício? – pergunta, e eu aceno. – Gostei imenso do que tens escrito até agora, as tuas conclusões são geniais. Então, só livros? Nenhumas experiências pessoais? – pergunta com um sorriso cúmplice, a olhar para o mostrador que indica os pisos que vamos descendo. – Um pouco de cada – respondo, a recuar alguns centímetros para escapar à morena atrevida que se voltou a aproximar. – Gostaria de ouvir as tuas teorias. Estás livre amanhã para uma partida de golfe? – Com certeza, também gostaria muito – respondo, a sair disparado do elevador assim que as portas se abrem. – Encontramo-nos no átrio por volta das nove e meia? Passa o braço pela cintura fina do coirão e diz em tom orgulhoso. – Para mim está perfeito. Rebecca adora golfe, não adoras, amor? – Claro que sim. Mal posso esperar pelo nosso encontro no green. Não pode estar a falar a sério. – Agora tens de me desculpar – continua Chad –, tenho de apresentar esta beldade aos meus colegas invejosos. A beldade ri e pisca-me sedutoramente o olho por cima do ombro no momento em que entramos no salão de baile. Dirijo-me para o bar. Depois daquela temível aparição necessito de um uísque para acalmar. O empregado do bar sorri ao servir-me uma dose dupla. Pego no copo e resolvo dar uma volta pela sala, onde já entrevi meia dúzia de pessoas com quem gostaria de falar. É para isso que estas coisas servem. Para dar nas vistas, para ouvir tipos a gabaremse dos milhões de dólares que ganham e para pessoas como eu que querem chegar ao topo, recorrendo mais ao cérebro do que à carteira para ser bem-sucedido. Já fiz nome na profissão e orgulho-me disso, mas, ao contrário da maioria dos fósseis que andam por aqui, cheguei lá através do trabalho e mantendo-me ao corrente das teorias e dos estudos mais recentes. Sim, posso ter perdido o comboio, mas já cá estou outra vez, decidido a conquistar o prémio do próximo ano.


Duas horas mais tarde, já explorei a sala e conversei com todas as pessoas com quem queria falar. As minhas teorias foram debatidas por quase toda a gente, e quando expliquei os meus pontos de vista todos pareceram compreender a minha abordagem. A maioria das caras era-me conhecida, mas não todas, e era com essas que fazia questão de travar conhecimento. Fiz alguns aliados novos e os que já tinha teceram-me elogios. Posso ser um fracasso na minha vida pessoal, mas sou bom a construir uma carreira. Quando abro caminho para o bar o mesmo empregado de antes nota a minha presença e com um sorriso nos lábios estende a mão para me servir outro uísque. – Tire mais um – diz uma voz ao meu lado esquerdo. Viro-me e vejo a mulher ou a amante de Chad, ou que raio ela é, de pé a meu lado, a arvorar um sorriso sinistro que condiz com os lábios de um vermelho-rubi-vivo. – Não fomos formalmente apresentados – começa a dizer ao estender-me a mão e a fazer tilintar as pulseiras. – Sou a Rebecca. Aceito a mão, que aperto. – Encantado por conhecê-la, Rebecca. Sou o Dixon. Largo-lhe a mão antes que ela ma enfie pelo decote do vestido cor de púrpura. – Então, Dixon, sabe como as pessoas se divertem por estas bandas, não sabe? – pergunta, a fazer deslizar o dedo pela borda do copo que o empregado acaba de colocar sobre o balcão. Procuro manter-me calmo e sorrio. – Já deu uma vista de olhos por aí, não deu? – pergunto, a virar-me para a sala. – Não há nada de divertido numa sala repleta de médicos. Sorri, a revelar os dentes brancos alinhados. –Então e que tal divertirmo-nos os dois? – sugere, a molhar a ponta do dedo no uísque e a humedecer o lábio. Jesus Cristo, esta devoradora de homens não perde tempo com rodeios. Entrou a matar em menos de sessenta segundos. Estou impressionado. Que pena estar fora do meu alcance. – Muito obrigado pela oferta tentadora. – Estendo a mão para o copo. – Mas vou ter de declinar. – Como?! – pergunta, incrédula. – Para o caso de não ter sido clara, é uma proposta de foder até ficar de rastos. De borla. De borla. A tipa anda ao engate? Não acredito que Chad tenha trazido uma prostituta para a cerimónia. Aceno com a cabeça, sem perder a calma. – Estamos entendidos. Mas não creio que o seu marido gostasse de saber que lhe andava a foder a mulher. Solta uma risada escarninha e inclina-se para mim, a ronronar-me ao ouvido. – Não é meu marido… ainda. E além disso, o velhadas às onze horas já está a dormir. Preciso de um homem a sério para satisfazer as minhas necessidades, não de um avozinho que trabalha a Viagra. Bem, Rebecca é das que não se ensaiam a dizer seja o que for. É evidente que está com Chad pelo dinheiro, que ele tem em quantidades absurdas. É também um homem bem-educado e muito


inteligente, mas até os homens mais inteligentes se perdem nos jardins proibidos de uma rata. Já não me sinto tão mal. – E se eu lhe fizesse um broche? – sugere com a naturalidade de quem fala de uma coisa trivial. – Mais uma vez obrigado, mas não quero – respondo a afastar-me. – Não me diga que é gay? – pergunta, com a mão na anca, sem querer acreditar que um homem heterossexual lhe possa dar uma nega. Abano a cabeça e esboço um sorriso enfatuado. – Não, borracho, não sou. Só não te quero foder. Estou farto de gajas da tua laia e ando numa de desintoxicação. – Não posso acreditar. Disseram-me que eras garantido – responde sem disfarçar a irritação. O comentário faz-me aproximar dela, pois não quero que mais ninguém ouça aquilo. – Desculpa? Quem te disse isso? – pergunto, horrorizado. Rebecca relanceia os olhos pela sala, em busca do culpado. – Foi ela – diz por fim, a apontar por cima do meu ombro. Volto-me num ápice, sem me preocupar em parecer desesperado. No momento em que a vejo, amaldiçoo-me por não ter adivinhado mais cedo de quem se tratava. – Disse que gostas de foder, e com violência – prossegue Rebecca junto ao meu ouvido, e eu encolho-me ao ouvir as palavras que regressam para me atormentar. – Vais desculpar-me – digo, a cruzar o olhar com Juliet, que me acena do outro lado da sala com um gesto enfatuado enquanto beberica uma taça de champanhe. – Eu sou a primeira – diz Rebecca, que se agarra ao meu braço quando procuro escapar. Afasto-lhe os dedos, pois quero evitar uma cena. – Não há nenhuma fila de espera – rosno, já a perder a paciência. – Não sei o que Juliet te disse, mas posso garantir-te que é tudo mentira. – Juliet? Disse-me que se chamava Sarah – e semicerra os olhos para fitar a outra. É evidente que Juliet lhe deu um nome falso, na esperança de não ser identificada como responsável por me ter estragado a noite. – Estás a ver? Se mentiu a respeito do nome, que outras mentiras terá dito? Não fico para ouvir a resposta, liberto-me com delicadeza e abro caminho entre a multidão para ir ao encontro de Juliet. – Doutor Mathews – ronrona, a retorcer os lábios num sorriso cínico. – Posso dar-te uma palavrinha? – rosno entredentes, a agarrá-la por um braço. Não protesta e acompanha-me quando a puxo pelo braço para a varanda. Estão lá algumas pessoas a fumar, mas a maioria está demasiado alcoolizada ou embrenhada em conversa para reparar como lhe rosno, com vontade de a atirar por cima do parapeito. – O que estás aqui a fazer? – interrogo-a em tom hostil e a largar-lhe o braço num gesto desabrido. – Estou cá porque me convidaste – responde a alisar o vestido dourado. – Esse convite foi revogado. Agora, desaparece – ordeno entredentes.


– Qual é o problema, querido? – tem a desfaçatez de perguntar, a passar-me a mão pela nuca e a puxar-me para si. Não cedo um milímetro e até me afasto. É evidente que a mulher perdeu o juízo. – Juliet, não faço ideia de qual é o teu jogo, mas tens de sair daqui já. São os meus colegas de trabalho. Não podes aqui estar, sobretudo a espalhar boatos abjectos. – Boatos? – pergunta, a desafiar-me e a puxar o cabelo para trás. – Em geral os boatos são falsos. Mas ambos sabemos o que tens andado a fazer. O que contei à tua nova admiradora foram factos. Conto até cinco e esboço um sorriso de desprezo. – O que queres? Juliet solta uma gargalhada e o som que antes me fazia sorrir agora dá-me vontade de lhe atirar qualquer coisa. – Quero que as coisas voltem à situação em que se encontravam. Não te estou a pedir um compromisso, Dixon, só quero que me satisfaças como antigamente – afirma, a dar um passo em frente e a agarrar-me os tomates. – Sinto falta de ti. Ninguém é capaz de me fazer vir como tu. – Cala-te – repreendo-a. Liberto-me da mão dela e olho para um lado e para o outro para me certificar de que ninguém notou. Juliet sorri, e sei que tem poder para me quebrar. Mas prefiro ser denunciado como o pervertido que sou do que ficar preso na armadilha que me armou. – Não – respondo sem vacilar. – Por que não? Ficaste noivo ou qualquer coisa parecida enquanto eu estive longe? O comentário dela incita-me a responder com verdade. – De facto conheci uma pessoa. Juliet empalidece. – Quem é? A tua companheirinha de cama? – Alguém que nunca virás a conhecer – respondo, a sentir prazer na fúria dela. – Já sabia. Os lábios vermelhos comprimem-se num ricto apertado. – Como se chama? Quero saber o nome da mulher que me venceu. – Madison – respondo impulsivamente, incapaz de me calar. Como gostava que fosse verdade. Quando os olhos de Juliet se cerram em duas fendas estreitas quase levo a mão aos tomates, com medo que ela se vingue neles. – Boa sorte. Todas as Madisons que conheço são chatas como a merda – declara em tom corrosivo. – Pode ser que marque uma consulta para te ver. Para podermos recordar os velhos tempos. – Não – respondo, desejoso de a ver dali para fora, pois a sua presença é um perigo. E se Madison tenciona participar com Max nas cerimónias desta noite? Se me vir na companhia de Juliet, perceberá que alguma coisa se passa. Não quero voltar a ser visto na companhia desta mulher.


– Devia estar doido para ter ido para cama com alguém como tu – invectivo-a e avanço para ela. Juliet recua, ofendida. – Estava disposto a que tudo se resolvesse num plano amistoso, ou pelo menos civilizado, mas a tua vinda aqui é inaceitável. É a segunda vez que distingo em Juliet um laivo de humanidade, e resolvo tirar partido disso. – Não foste mais do que algumas fodas, Juliet, das quais me arrependo e muito. Se te resta algum vestígio de dignidade, vai-te embora de cabeça erguida e deixa-me em paz. Não me telefones, não me mandes mensagens, não apareças inesperadamente. Percebeste? Estamos acabados. Abalada na autoconfiança, perde a pose arrogante, substituída pela fúria. – Hás-de voltar um dia, e quando o fizeres vais implorar por uma segunda oportunidade. – Não, não vou – declaro, e sacudo a cabeça numa negativa. – Adeus, Juliet. Espero que os nossos caminhos não se voltem a cruzar. Por uma vez, Juliet Harte fica sem fala, uma visão que nunca hei-de esquecer.


Capítulo 28 Talvez numa outra vida

Dixon Golfe ao sábado de manhã é tão pretensioso como parece, mas é a única oportunidade que tenho de confraternizar com Chad enquanto tento enfiar uma bolinha num buraco. Contudo, depois da noite passada, não me apetece pensar em bolas nem em buracos de qualquer espécie. Com isto em mente, decido conservar-me longe de Rebecca, a devoradora de homens, e aplicarme na mais rápida partida de sempre. Mas os meus projectos de uma partida rápida vão por água abaixo quando ela resolve aprender a jogar. Os dezoito buracos nunca me pareceram tão assustadores. Por sorte, abandona o jogo para se vestir para o almoço, e talvez para foder o caddy. Seja como for, a sua promiscuidade deixou-me a sós com Chad. Não tivemos oportunidade para falar de política, mas agora que a piranha nos deixou temos tempo para conversar. Estamos sentados no restaurante do clube, cercados por ricaços snobes a quem não falta tempo nem dinheiro. Se não fosse a minha curiosidade e o uísque, estaria no quarto a ver o canal ESPN. – Dixon, tenho pensado nas tuas pesquisas. Aceno com a cabeça enquanto mordo a club sandwich. – Quando estiverem concluídas gostaria de as apresentar ao Comité em teu nome, e talvez convencê-los a financiarem as investigações. Se obtiveres o apoio deles, isso abre-te muitas portas. Não se tratará apenas de exerceres, poderás também ensinar, e ser reconhecido pelo Comité fica muito bem no teu currículo – diz com uma piscadela de olho. – Sei que te esforçaste imenso para chegar onde chegaste, mas uma coisa destas faz-te passar de amador a profissional em poucos meses. Para o ano – inclina-se para mim e cobre a boca com a mão – será o teu nome a ser proclamado vencedor do prémio. Chad é o diabo, e estou ansioso por participar. – Obrigado, Chad. A tua confiança em mim é uma coisa que levo a sério. Penso que a oferta é excessiva, mas só se fosse parvo é que não aceitaria. Mais uma vez obrigado – digo, a tentar manter a compostura. Chad faz um gesto a desvalorizar a questão. – Só tens de agradecer a ti mesmo, doutor Mathews. Subiste a pulso até aqui. Deves ter orgulho na tua pessoa. Sorrio, o comentário dele significa muito. – Seja como for, agradeço o teu apoio. Se puder fazer alguma coisa para retribuir o favor, só tens de me dizer.


– Olha que posso pegar-te na palavra – responde com uma gargalhada enquanto bebe um gole de água. Infelizmente, a conversa agradável é interrompida pela chegada de Rebecca. – Então, meninos, sentiram a minha falta? Aceno, muito sério. – Sempre – responde Chad entusiástico. – Docinho, enquanto estive lá em cima o teu telefone não parou de tocar. Não o trouxe para baixo porque pensei que estivessem a pôr a conversa em dia. – Ah, sim? – pergunta Chad, a coçar o queixo. – Quem poderá ser? Quase todos os colegas estão aqui, e os que não estão sabem que não estou disponível este fim-de-semana. – Talvez seja a tua ex-mulher – adianta Rebecca em tom de escárnio, a erguer a sobrancelha. – Com franqueza, querida – contrapõe ele, mas Rebecca deixa de lhe prestar atenção, ocupada a retocar os lábios com o batom. Chad suspira e olha-me como quem pede ajuda, mas limito-me a encolher os ombros e deixo-o entregue a si mesmo. – Bom, o melhor é ir ver quem era – diz após uns segundos em silêncio. – Volto daqui a uns minutos. E levanta-se sem me dar tempo de gritar «Leva-me contigo», e fico sozinho na companhia da caça-fortunas. Assim que ele desaparece, a tipa chega-se para mim e faz deslizar a unha pelo meu antebraço. – Então… – Então… – repito como um papagaio, a desviar discretamente o braço, pois estou rodeado de colegas. – Pensaste na minha proposta? – pergunta sem se deixar intimidar pela minha recusa. – Não há nada para pensar. A resposta é, e será sempre, não. Quando procura pousar a mão na minha perna sob a mesa, agarro-lhe o pulso e afasto-a. – Acaba com isso, Rebecca. Não estou interessado. Estás comprometida com o meu amigo, que me merece todo o respeito, e o teu comportamento é inaceitável. – Se não me foderes, vou dizer ao Chad que te bateste a mim – afirma de repente, e recuo, estupefacto. – Não podes estar a falar a sério. Abano a cabeça, incrédulo, mas no fundo sabia que mais tarde ou mais cedo recorreria a este truque. – Falo muito a sério – declara, a arregalar os olhos cinzentos. – Só quero uma noite, e depois deixo-te em sossego. Caso contrário, pode ser que Chad não continue tão interessado em ajudar-te. – Isso é chantagem – murmuro entredentes, furioso. – Não, isto é uma rapariga a conseguir o que quer. E eu quero-te a ti. Agarra-me os tomates com a mão aberta para não deixar dúvidas quanto às suas pretensões. – Sarah contou-me tudo a teu respeito, e também quero provar.


Não posso fazer isto. Não está certo. É verdade que tive o meu quinhão de coisas horríveis, e «Sarah» foi a pior de todas, mas isto seria o cúmulo dos actos desprezíveis e repugnantes. Afasto-lhe a mão com um sopapo e atiro-lhe como quem cospe: – Não podes ser um pouco mais discreta? Sorrio quando reparo na expressão intrigada de um casal próximo. – Consigo sempre o que quero, e quero foder contigo. – O quê? O caddy não foi homem para ti? – rosno agressivamente, já a perder a paciência. Rebecca parece espantada por lhe ter topado o flirt, mas há muito tempo que conheço as tipas da laia dela. Caramba, afinal faço, ou fazia, o mesmo. Estou encurralado entre um penedo e uma mulher que arde em desejo, mas não me vou deixar chantagear. – A resposta continua a ser não – insisto, e Rebecca franze a testa. – Não tens saída possível. Ou me fodes ou és expulso. É fácil – responde a olhar para as unhas com ar entediado. – Não percebes que se te foder sou expulso na mesma? Este mundo é pequeno e terei de responder pelos meus actos. Procuro apelar ao seu lado racional, se o tem. – De qualquer maneira, estou sempre fodido. E prefiro que me tramem por consenso do que ser obrigado a fazê-lo contra a minha vontade. – Afinal quem és tu? Um padre? – reage em tom de desprezo perante o meu apelo. – Estou a pedir que me fodas sem qualquer compromisso, e a tua resposta é «não». Estás a poupar-te para alguém? A pergunta é irónica, e detesto pensar que não se enganou. Antes de ter tempo para responder, uns braços rodeiam-me o pescoço e alguém me deposita um beijo na cara. – Querido, tenho sentido tanto a tua falta! Viro-me tão depressa que por pouco não bato com a cabeça na da pessoa que está a meu lado, que se antecipa e recua a tempo. – Madison? – pergunto, meio engasgado, a fitá-la com ar de espanto. – Hum…? – acrescento em tom de pergunta, sem perceber o que se passa. Percebe a minha confusão e sorri. – Desculpa ter chegado tarde, o trânsito está uma merda. Puxa uma cadeira e senta-se a meu lado. – Não tem importância – respondo, a entrar no jogo, mas ainda intrigado com o desenrolar dos acontecimentos. – Fico satisfeito por cá estares. – Eu também. Inclina-se para a frente, puxa-me pelo colarinho do pólo e esmaga os lábios de encontro aos meus. Fico estático, sem saber como devo reagir, mas a língua de Madison roça-me os lábios, a pedir entrada, e rendo-me feliz e sem condições. Beijamo-nos apaixonadamente e não tarda que seja eu a


agarrar-lhe a nuca para pressionar a sua boca contra a minha. Sentia imensas saudades do seu paladar, e beijá-la era como um regresso a casa. O gemido abafado que solta quando lhe mordisco o lábio inferior obriga-me a largá-la com relutância, pois mais um minuto desta loucura e estou a atirar para o chão tudo quanto está em cima da mesa para a deitar lá em cima. – Estás lindíssima – exclamo, com todos os sentidos em brasa. Madison baixa os olhos para os calções de ganga curtos, a blusa vermelha e os ténis Chucks e sorri. – Obrigada. Tu também estás – replica alegremente, a torcer o nariz para o pólo grosso e as calças bege largas. Tinha de vestir-me de forma apresentável para o green, mas ali pareço um idiota. Esqueço-me por completo da presença de Rebecca até que esta tossica para se fazer notar. – Então é a tua namorada? – observa com desdém, e eu levanto a sobrancelha o olho para Madison, sem saber se se sentirá à vontade com a mentira. Madison responde por mim, a inclinar-se para a frente para olhar a bruxa nos olhos. – Com certeza que sou – declara, a aconchegar-se contra mim. – Pois claro que é – confirmo, a depositar-lhe no rosto um beijo de gratidão. Não sei o que a levou a representar esta farsa, mas estou-lhe grato por isso. – Bem, isso explica muitas coisas – diz Rebecca em tom condescendente, satisfeita por constatar que a minha recusa tinha a ver com outra pessoa e não com o facto de não a achar atraente. Entretanto, ocorre-me um pensamento terrível. E se Rebecca resolver mencionar Juliet? Isto pode ficar feio de um momento para o outro. Felizmente, Madison quebra o silêncio: – Obrigada por lhe ter feito companhia. – O prazer foi todo meu – responde, sarcástica, a tamborilar com os dedos no tampo da mesa. – Adoro a cor do seu cabelo, fica-lhe muito bem – observa Madison, e não tenho a certeza se fala a sério ou não, pois o cabelo de duas cores de Rebecca faz-me lembrar uma doninha-fedorenta. Aceno e não abro a boca, pois não compreendo a linguagem das mulheres. – Obrigada – diz Rebecca, que ajeita a juba. – Mandei fazer este penteado para o fim-de-semana. Precisava de qualquer coisa para me ajudar a passar o tempo aqui. Madison deixa escapar uma risadinha e tapa a boca com a mão. – Percebo muito bem o que quer dizer. Estou boquiaberto, sem perceber nada do que se passa. Mas só o facto de Rebecca não ter pronunciado as palavras «fode-me» ou «broche» já é bom sinal, portanto não questiono a atitude de Madison. – Desculpem ter demorado tanto – desculpa-se Chad, que regressa à mesa e se senta numa cadeira. Olha para Madison, ainda agarrada a mim, e sorri. – Oh, não sabia que tinhas trazido companhia, Dixon. Fiquei com a ideia de que tinha desistido à última hora.


Fico gelado, não sei como Madison irá reagir ao saber que tencionava trazer comigo a pessoa por quem a tinha trocado para o mesmo evento em que acaba de me salvar o coiro. Olho para Rebecca, que sorri, satisfeita. Para já, o meu segredo parece estar seguro. Mas Madison não deixa escapar nada. – Sabe como são as mulheres. Gostamos de deixar os homens na expectativa. Com ar cúmplice, pisca um olho a Rebecca, que acena e sorri. – Percebeu bem. E olha com um sorriso matreiro para Chad que se derrete todo enquanto beijo o pescoço de Madison e lhe segredo: – Obrigado. Acena e surpreende-me ao inclinar-se para aceitar a carícia. – Sou o Chad, e esta beldade é a minha noiva, Rebecca. – Encantada por conhecê-los. Oh, caramba, olha-me só aquele anel. Deixe-me ver melhor – acrescenta a estender as mãos, e Rebecca sorri enquanto exibe orgulhosamente a mão. – Isto é um anel a sério. É mesmo lindo, Rebecca. Vai ser uma noiva espectacular. Os rostos de Chad e Rebecca iluminam-se ao ouvir o comentário de Madison. Sigo com atenção a troca de palavras, espantado com o desanuviar da tensão e já sem necessidade de proteger os tomates. Graças a Madison, a minha carreira por agora está salva, e o meu membro também. – Vai com certeza – confirma Chad. – Agora, se nos desculpam… – acrescenta, e Rebecca fita-o com um sorriso enjoado. – Até mais tarde – despede-se ao levantar, e tento não vomitar porque vai lá para cima alisar-lhe as peles engelhadas. – Encontramo-nos logo à noite – despede-se Chad, a envolver com uma das mãos a cintura de Rebecca. – Logo à noite? – pergunto, distraído pelo aroma a baunilha de Madison. – Sim, para a cerimónia. – Ah, claro – respondo, a sacudir a cabeça para pôr os pensamentos em ordem. – Podemos encontrar-nos no átrio. Por volta das sete, está bem? – sugere. Madison já fez muito ao salvar-me das garras de Rebecca. Não lhe posso pedir que prossiga com a farsa durante a noite, pois não? Chad e Rebecca olham, à espera da resposta, e quando estou prestes a apresentar uma desculpa para a ausência de Madison, esta adianta-se: – Formidável. Mal podemos esperar. Lanço-lhe um olhar rápido e ela acena, com um sorriso a iluminar-lhe os lábios de querubim. – Às sete, está perfeito – digo, sem deixar de olhar para Madison. – Óptimo, então até lá. Afastam-se a trocar pequenas gargalhadas. Assim que desaparecem de vista deixo escapar o suspiro que há muito retinha. Agora que estamos sós, Madison parece arrependida de ter vindo em meu socorro. Não a posso censurar, pois agi com ela como um canalha.


Sinto que está prestes a haver uma explicação. – Peço desculpa, Madison – e quando ela abre a boca para falar coloco-lhe um dedo sobre os lábios para a calar. Acena com a cabeça e os seus olhos adquirem uma expressão menos dura quando retiro o dedo. – No outro dia estava fora de mim. Agi como um imbecil – interrompo-me para massajar o pescoço. – Peço perdão. Mas não é só pelo outro dia que tenho de pedir perdão. – Peço perdão por tudo – acrescento com sinceridade. – Devia ter telefonado para saber se estavas bem, mas achei que tinhas deixado bem clara a vontade de nunca mais me voltares a ver. Baixa os olhos, é evidente que toquei numa corda sensível, mas continua calada. – Lamento imenso ter-te magoado. Nunca foi minha intenção que te sentisses mal ou assustada. Se pudesse fazer desaparecer essa noite, podes crer que o faria. As minhas palavras calam-lhe fundo, e quando levanta a cabeça tem os olhos húmidos. – Lamentas aquela noite? – pergunta à beira das lágrimas e com o lábio a tremer. – Não – apresso-me a responder, pois não quero que se vá embora. – Não me arrependo de um único momento passado contigo. Em especial dessa noite – acrescento, a acariciar-lhe o pescoço com os nós dos dedos. Não sei de onde me veio tanta honestidade, mas é sincera. Encosta o pescoço à minha mão, e o seu abandono faz que o macho alfa que tenho em mim bata no peito, orgulhoso. – Sei que tens os teus segredos, todos temos, mas até te livrares deles, creio que, passado este fimde-semana, será melhor que não nos voltemos a encontrar. Madison franze a testa. – Obrigada por teres pedido desculpa. Tens razão, foste um idiota. De facto vinha para cá com a intenção de te dar uma descompostura. Foste horrível comigo, Dixon – reafirma, a deixar-me pior do que já estava. – Mas eu também fui horrível contigo. Também te devo uma desculpa. – Não me deves nada – e sacudo a cabeça com firmeza. Mas Madison insiste. – Devo, sim. Tu não és um erro, nunca foste. Lamento ter dito uma coisa tão cruel. Mas tens razão. Tenho um passado terrível, que estou a tentar vencer. É pena que o não tenha conseguido antes de te conhecer. Talvez possamos continuar a ser amigos, não? Quero dizer… durante este mês senti imenso a tua falta. Por muito agradáveis que sejam as suas palavras, vê-la, tocá-la e estar perto dela mostram-me que me é impossível ser apenas seu amigo. Nunca fomos apenas amigos. Depois de lhe ter provado o sabor quero muito mais, e ser só amigo é capaz de me enlouquecer. Lê-o nos meus olhos, no meu rosto, e faz um gesto de assentimento. – Pronto, já percebi. Não vai acontecer nada. – Lamento, mas nunca fomos apenas amigos. Houve sempre qualquer coisa mais. Continuo a desejar mais, mas é tudo ou nada. Estou farto de joguinhos – declaro, e uma lágrima solitária corre-


lhe pela face. – Devia ter dito isto mais cedo, mas para ser sincero não sabia que desejava mais antes de te afastares de mim. Estou tão confuso como tu – admito com uma fungadela sarcástica. – Duvido muito – responde, também a fungar. – O que disse é verdade. Não se trata de ti, mas de mim. Incapaz de me dominar passo-lhe a mão pela nuca e encosto a testa dela à minha. – Neste caso, é verdade para os dois. Talvez noutra vida, angelo? Madison arqueja e o seu hálito quente aflora-me o rosto. – Talvez – responde sem entusiasmo. – Muito obrigado por me teres safado o coiro hoje. Estou em dívida para contigo. Afasto-me e procuro aligeirar o ambiente. Madison funga e esboça um sorriso triste. – Considera que é a paga das minhas dívidas. Já me salvaste o coiro em mais do que uma ocasião, era tempo de retribuir. Aquilo responde à minha pergunta. Veio em meu auxílio porque se sente culpada do que aconteceu entre nós. Mas não se compenetra de que quem está triste sou eu, por tudo. – Não me deves nada – repito. – Eu sei, mas queria fazer isto por ti. Vi como estavas atrapalhado e não podia afastar-me sem te ajudar. Quero dizer, apesar de teres sido um sacana para mim no outro dia, não sou capaz de te odiar. E bem tentei – admite timidamente. – É o mínimo que posso fazer. Lamento, Dixon, não devia ter correspondido ao teu beijo, e não queria, mas… – Eu compreendo – concluo a frase por ela. – Talvez numa outra vida – acrescento, pois pareceme enquadrar-se na nossa situação. – Talvez numa outra vida – repete com tristeza com um aceno da cabeça. – Portanto, aguentamos esta noite juntos, comigo a teu lado a desempenhar o papel da namorada perfeita. Prometo. E quando a noite acabar, é… adeus? – pergunta com um tremor na voz. – Enfrentemos primeiro a noite – respondo, a esquivar-me à pergunta. – Está bem. – Acena com a cabeça e limpa os olhos. – Tenho de ir à procura de qualquer coisa para vestir. Não trouxe muitas roupas elegantes, preciso de tempo para me pôr apresentável para a noite. Quando faz menção de se levantar, retenho-a pelo braço. Baixa os olhos, e percebo que sente a ligação entre nós. Ignoro as faíscas incessantes e digo: – Deixa isso comigo. Olha-me de sobrancelha erguida, e eu sorrio. – Deixa-me tratar do assunto. Percebe o que quero dizer e concorda com um aceno. – Está bem. Fico à espera no quarto. É o 235. – Perfeito. Encontramo-nos no átrio, às sete? – pergunto, ainda incrédulo que tenha aceitado ser minha namorada por uma noite. – Às sete – responde, a pôr-se de pé. – Até breve.


– Até breve – repito, e fico a vê-la enquanto se afasta.


Capítulo 29 A minha miúda

Madison Depois de me ter esforçado durante os últimos dias e fracassado no meu ódio a Dixon, percebi que tinha de o confrontar porque este sentimento na boca do estômago está a dar cabo de mim. Estou farta de o desancar mentalmente e a única maneira de ultrapassar isto é falar-lhe cara a cara. Foi fácil alinhar na farsa de ser a namorada dele porque se não estivesse tão perturbada não teria de fingir. Assim que voltar a Nova Iorque vou enfrentar os meus demónios, em vez de fugir deles. Não sei se esta força me advém de ter encontrado Dixon, mas seja qual for a razão, sinto-me contente por ter arranjado coragem para fazer o que tem de ser feito. O meu medo serve de protecção a quem me molestou, e estou farta de os ver brilhar à luz do dia enquanto sou obrigada a esconder-me na sombra. Assim que encontrar a minha luz, e se Dixon me quiser, chegará o nosso momento, mas até lá tenho de me exercitar para ser a pessoa forte que sempre quis ser. Ou, como ele disse, talvez o nosso tempo seja apenas numa outra vida. Mas comecemos pelo mais urgente: tenho de superar esta noite. Dixon foi bastante vago ao dizer «Deixa isso comigo». Não quis discutir com ele porque me parece que ambos queremos corrigir o que houve de mal entre nós, e fazer pequenas coisas um pelo outro parece um primeiro passo nesse sentido. Pelas quatro horas, quando ouço uma pancada na porta, sou assaltada por uma vaga de excitação e dirijo-me para a entrada em passo saltitante. Quando abro a porta deparo-me com um concierge que transporta um saco preto para vestuário. – Com os cumprimentos do doutor Mathews – diz o concierge, a estender-me o saco. – Muito obrigada – e levo a mão ao bolso para lhe dar uma gorjeta. Recusa com um gesto. – Não, menina, está bem assim. O doutor Mathews encarregou-se de tudo. Espero que se divirta esta noite. Aceno com a cabeça e fecho a porta, ansiosa por abrir o saco e ver o que tem dentro. No momento em que corro o fecho deixo escapar um murmúrio de espanto, pois tenho à minha frente o vestido mais magnífico que já vi em toda a minha vida. É um vestido de cocktail, de seda azul-escura, e quando o retiro de dentro do saco com o máximo cuidado, vejo que a parte central é uma simples rede decorada com lantejoulas para que o meu


tronco não fique desnudado. O vestido de lantejoulas é comprido, serve-me na perfeição e terá um cair muito elegante. O decote é baixo e recortado em forma de coração. Tenho a certeza de que foi por isso que Dixon o escolheu. Ao dobrar o vestido com cuidado aos pés da cama, verifico o tamanho. Dixon presta tanta atenção aos pormenores que não me surpreende que o vestido me assente tão bem. Tenho de encontrar uns sapatos adequados. Revolvo a bagagem e lembro-me de que só trouxe um par de sapatos com salto agulha que tencionava calçar com o vestido que previra vestir esta noite. Vão ter de servir, pois não tenho outros. Quando ouço uma pancada na porta imagino quem poderá ser, pois informei o doutor Wellington que esta noite acompanharia Dixon. Depois de ter assistido à nossa querela, percebeu que havia algo entre nós e entendeu que seria uma boa ocasião para conversarmos sobre os nossos desentendimentos. Quando abro depara-se-me o mesmo empregado do hotel. – Olá, menina. Mais uma vez com os cumprimentos do doutor Mathews. E estende-me um saco de papel. Aceito, surpreendida, pois não estava à espera de outro presente. Sobretudo de outro presente luxuoso, já que o nome escrito no saco é o mesmo do estilista que concebeu o vestido. Quando me recomponho, repito o gesto de levar a mão ao bolso para tirar uma moeda, mas o empregado recusa. – O doutor Mathews é um cavalheiro muito generoso – esclarece com um sorriso antes de levar a mão ao boné e desaparecer. Fico sem fala, mas fecho a porta atrás de mim. Pouso o saco sobre a mesa e abro-o; lá dentro encontro uma caixa de sapatos e outra caixa mais pequena de formato rectangular. Agarro na caixa de sapatos, levanto a tampa, afasto o papel de embalagem branco e vejo um par de sapatos altos de tiras. São maravilhosos, e embora os saltos sejam bastante altos sei que condizem com o vestido. Quase me esqueço da outra caixa, o vestido e os sapatos já são de mais, mas quando a abro vejome obrigada a concordar com o concierge. O doutor Mathews é de facto um homem muito generoso. A pequena bolsa de prata condiz com os sapatos e os acessórios formam um lindíssimo conjunto com o vestido. Olho para o relógio e resolvo tomar um duche e arranjar-me. Contudo, outra pancada na porta vem interromper os meus planos e volto a abri-la, mais uma vez sem fazer ideia de quem poderá estar do outro lado. – Olá, menina – diz o concierge, a sorrir. – Isto é para si – diz a estender-me um saco pequeno. – Cumprimentos… – … do doutor Mathews – concluo por ele, que acena. – Isto é de mais – declaro, a espreitar cheia de curiosidade para dentro do saco. – Ele previu que havia de dizer isso. Mas para o caso de estar a pensar em devolvê-los, o doutor Mathews faz questão de que saiba que não são reembolsáveis – acrescenta o concierge com uma


pequena gargalhada. Não evito rir também, e pergunto: – É o último? Na verdade, não posso aceitar mais nada. É demasiado. O empregado sorri. – Também disse que a menina havia de dizer isso – e leva os dedos ao boné antes de se ir embora. – Não respondeu à minha pergunta – digo nas costas dele, mas o homem continua a andar, sem dúvida porque o doutor Mathews também a deve ter previsto. Fecho a porta e, tal como fiz com os sapatos, pouso o saco em cima da mesa e tiro lá de dentro um estojo de veludo azul. Passo os dedos pelo tecido macio antes de o abrir com movimentos nervosos. As dobradiças gemem em protesto. No momento em que vejo o que está lá dentro sinto que me falta o ar e cubro a boca com a mão trémula, pois aquilo que estou a ver é de mais. Uma dupla cadeia de diamantes capta a luz ambiente, e, pendente da corrente delicada, um diamante-safira, cercado por diamantes muito pequenos. Por cima do colar vejo um par de brincos a condizer, também cintilantes sob a luz do Sol, como só os diamantes verdadeiros cintilam. É a mais bela peça de joalharia que já vi, e deito a mão ao telemóvel para enviar uma mensagem à única pessoa a quem tinha jurado a mim mesma nunca mais enviar mensagens. Isto é um exagero, mas obrigada. Adoro.

A resposta chega dentro de segundos. Para a minha miúda, só o melhor.

Como gostaria que fosse verdade.


Capítulo 30 Dançando à chuva

Madison São sete horas e dois minutos e ando pelo quarto numa correria, a meter o indispensável dentro da pequena bolsa. Assim que guardar o batom, o perfume, o cartão de identidade, dinheiro e a chave do quarto, estou pronta para sair. Dirijo-me para o elevador em passadas cautelosas, pois estes saltos são muito mais altos do que aqueles a que estou habituada. Mas vale bem a pena, pois sinto-me uma Cinderela nos seus sapatos de cristal. Primo o botão do átrio e perco um minuto a contemplar-me ao espelho para ter a certeza de que tudo está bem. Enrolei o cabelo e puxei-o para um lado, preso por um alfinete de joalheiro, e as pontas soltas caem-me por cima do ombro. A maquilhagem é simples, pois as roupas combinadas com as jóias já são suficientemente formais. De uma maneira geral gosto do que vejo, mas as pupilas dilatadas e a respiração ofegante traem o meu nervosismo. Mal se ouve o toque do elevador, dou um primeiro passo cauteloso – não posso dizer como serão os seguintes. Aliso nervosa o vestido e obrigo o coração a refrear os batimentos. Congrego toda a minha coragem, rodeio a esquina e deparo-me com o meu Príncipe Encantado. No momento em que os nossos olhares se encontram, sinto deflagrar aquela descarga eléctrica entre nós. Mas tento ignorá-la e esforço-me por não cair quando vou ao encontro dele. Está espantoso, com um casaco de cerimónia elegantíssimo, talhado para realçar o corpo musculoso e alto. O cabelo, uma desordem organizada, complementa a barba curta e rija, e os olhos azuis parecem carregados de electricidade ao observar o meu corpo. – Tenho a certeza de que quando escolhi isso tinha muito mais tecido – comenta quando chego junto dele, enquanto me fita com um olhar malicioso. – Tens muito bom gosto – replico com uma risada e a tentar ignorar a fragrância deliciosa quando lhe beijo o rosto. Dixon envolve-me a cintura com um braço e puxa-me para si. – Posso propor-te que vistas o meu casaco? – Para quê? – pergunto a arfar no momento em que ele me aflora o pescoço com o nariz até me descer ao pescoço. – Para não ter de arrancar os olhos de todos os machos que andam por aí – responde em tom de provocação, e o seu hálito morno provoca-me arrepios na pele. – Fora de brincadeiras, estás linda. Tudo o que vestes te assenta muito bem.


Coro ao ouvir o comentário, viro-me para ele e aconchego-me no seu braço. O gesto inocente arranca-lhe um gemido rouco e aperta-me a cintura com mais força. – Ora cá estão eles – diz uma voz que me faz recuar, embaraçada por ser apanhada numa pose tão íntima. No entanto, quando o fito nos olhos escaldantes, Dixon parece tudo menos embaraçado. Olhame de relance antes de se dirigir a Chad. – Pois estamos. – Você está espantosa, Madison – observa Chad, que não afasta os olhos das minhas mamas. O sangue sobe-me ao rosto e olho para Dixon, que encolhe os ombros com um olhar de «Já te tinha dito» estampado no rosto. – Muito obrigada, Chad – agradeço, envergonhada e a cruzar os braços sobre o peito. – Estás… linda, Rebecca – comenta Dixon após uma pausa, e imagino o que estará a pensar das roupas dela, que mais parecem lingerie. – Muito obrigada, também estás muito bem – ronrona em resposta, a rodar uma anca e sem disfarçar o apreço por ele. Sou invadida por uma onda de ciúme, mas sorrio e contenho os ímpetos homicidas. – Vamos? – sugere Chad, sem se aperceber de que a noiva come com os olhos o meu «namorado». A fingir ou não, vejo Dixon como meu, e percebo que a noite vai ser mais difícil do que pensava. – Vamos – respondo a Chad, e enlaço o meu braço no de Dixon. A caminho do salão de baile, só consigo pensar no olhar que Rebecca lhe lançou. Fui simpática para com ela porque sei como as raparigas gostam de armar. Quando se lhes acaricia o enorme ego sem parecer uma ameaça, na maioria dos casos sentem-se satisfeitas por se julgarem na mó de cima. Mas esta noite, vestida a rigor e pendurada no braço de Dixon, o homem que ela tanto deseja, só me vê como uma competidora. Pois bem, aceitemos o jogo. Pouco antes de entrarmos, Dixon inclina-se para me beijar a orelha. – Muito obrigado por te teres lembrado de vestir qualquer coisa. Irrompo numa gargalhada, que é do que preciso para acalmar os nervos. – Graças a ti – respondo, e falta-me a respiração quando me beija a cova do pescoço. – Se não fosse este vestido não estaria nada de especial. Dixon faz menção de se afastar com uma expressão horrorizada. – Não é verdade. – Pousa-me a mão no rosto e sorri. – Nem fazes ideia de como és especial. As palavras carinhosas fazem que me chegue mais a ele e pressione o rosto contra a sua mão. – Obrigada – agradeço num murmúrio, a erguer os olhos para os seus. Isto não devia ser tão natural, mas a verdade é que é, e a ideia de que será a nossa última noite juntos faz-me sofrer. Mas Dixon disse que era tudo ou nada, e o meu espírito frágil não permite que lhe entregue tudo antes de regressar a Nova Iorque e confrontar o meu passado. Deve ter-me lido os pensamentos, pois diz:


– Embora sejas minha apenas por uma noite, vou fazer com que seja a melhor noite das nossas vidas. Deposita-me um beijo leve nos lábios antes de se afastar. Avançamos com à-vontade no salão luxuosamente decorado, e todos os outros pensamentos são varridos da minha cabeça quando contemplo a beleza que se me oferece. A sala foi transformada num espaço requintado, e os empregados afadigam-se de um lado para o outro, uns a garantir que todos os convidados sentados têm o copo cheio e outros a conduzir os clientes às respectivas mesas. Um dos empregados saúda-nos e procura no iPad qual o nosso lugar. Dixon corrigiu a informação e sou a sua acompanhante. Não posso evitar interrogar-me quem seria a original que Chad mencionou ter sido retirada no último minuto. Seria a rapariga com quem andava quando nos conhecemos? A ideia provocou-me uma agitação desconfortável, e Dixon faz deslizar a mão pelas minhas costas, detendo-se um pouco acima do meu traseiro. – Sentes-te bem? – sussurra a caminho da mesa. – Muito bem – respondo, mas não é verdade, pois apercebo-me de que as cabeças de todas as mulheres presentes no salão se voltam à passagem de Dixon. Mulheres de todas as idades observam-no com interesse, umas mais discretas do que outras, mas parece-me que tenho uma sala repleta de Rebeccas para combater. O empregado detém-se junto a uma mesa próxima da frente e Dixon puxa uma cadeira para mim. Sei que sou a inveja da sala. Ignoro os olhares carregados, sento-me e estendo a mão trémula para o copo de água quando Rebecca se instala ao lado de Dixon. Olho para as garrafas de vinho que estão sobre a mesa e pergunto-me se não será má educação atirar-me já a elas e começar a beber. Mas quando relanceio os olhos pela sala e vejo os olhares invejosos de todas as belas mulheres presentes, ignoro a etiqueta e agarro numa garrafa de tinto. – Deixa que eu faço isso – oferece-se Dixon com os dedos por cima dos meus, a ganhar-me em rapidez. Retiro a mão como se a queimasse, mas disfarço e sorrio. Despejo o copo inteiro. Percebo que Dixon me observa, mas não lhe presto atenção, atenta ao que se passa no salão. Os presentes são pessoas poderosas e importantes, e pergunto-me o que terão feito para alcançar esse estatuto. De certeza que alguns trabalharam com afinco, mas em relação a outros imagino com quem terão dormido ou esfaqueado pelas costas para se tornarem as personagens influentes que são. Dois outros casais sentam-se à nossa mesa, e felizmente as senhoras têm idade para serem avós de Dixon e sorriem quando são feitas as apresentações. Pelo que percebo, são pessoas bem colocadas e todos os homens, com excepção de Dixon, fazem parte do painel de directores. Mas é possível que tal venha rapidamente a alterar-se, considerando o interesse que mostram por Dixon e em ouvir o que tem para dizer. – Então, Dixon, Chad disse-me que tens algum material interessante para lermos – diz Fletcher, o mais velho dos cavalheiros, de cabelos grisalhos. Dixon reage com um sorriso frio e a estender a mão para o copo de vinho.


– Bem, Chad está a ser muito simpático. Mas ficaria muito honrado se vos pudesse ler o meu trabalho e ouvir a vossa opinião. – Vão ficar espantados – confirma Chad. – As conclusões dele são brilhantes, embora pouco ortodoxas, e o raciocínio justifica-se. Dixon não parece embaraçado com os elogios que a mesa lhe tece. Pousa-me a mão sobre o joelho e aperta-o um pouco, e percebo que todo ele vibra de excitação. Olho para ele com um sorriso, a que corresponde com outro de orelha a orelha. A meio do prato principal, tenho a certeza de que me vou engasgar com o cordeiro, irritada com as centenas de mulheres que se vão apresentando para trocar umas palavras com Dixon. Estamos nisto há hora e meia e até agora tenho-me esforçado por manter a calma, mas estou a atingir os limites. Dixon ou é cego ou finge que não percebe o flirting deliberado, mas comigo não pega. A presença constante e os toques desnecessários não me passam despercebidos. Ao pé destes abutres, Rebecca parece um cãozinho amestrado. Dixon apresentou-me a toda a gente, mas sem nunca me referir como sua «namorada», a dar liberdade a todas as interpretações. Rebecca apercebeu-se disso e resolve abordar o assunto. – Madison, há quanto tempo Dixon e você estão juntos? – pergunta em tom inocente, mas sei que a pergunta nada tem de inocente. Agito-me na cadeira e olho de relance para Dixon, que interrompe a conversa com a loura saltitante que está ao seu lado. Mordo o lábio e percebo que devíamos ter cozinhado uma história credível antes de fingir que éramos amantes. – Um… – respondo, a evadir a questão, como se estivesse a calcular o tempo decorrido. Dixon agarra-me as mãos, que me tremem no colo. – Seis meses – diz ele, voltado para Rebecca. – Como se conheceram? Dixon respira devagar, e um sorriso ilumina-lhe as feições. – Estava um parvalhão a meter-se com ela, e eu pu-lo a andar. – Queres dizer que lhe pregaste um susto dos diabos – acrescento, a recordar-me do medo que transparecera no rosto de Tim quando Dixon o abordara com rispidez. Toda a mesa ri, excepto Rebecca, e Dixon sorri para os outros comensais. – Que querem? O tipo tinha as manápulas em cima da mulher que eu queria. Assim que a vi, percebi que havia nela algo de especial. Era capaz de quase tudo para travar conhecimento com ela, e desde então sinto-me cada vez mais atraído pelo seu encanto. Falta-me o ar, mas tento manter a compostura enquanto Dixon continua. – No entanto, não foi fácil. Quero dizer, como qualquer macho idiota, estraguei tudo e fiz aneira. – Aperta-me a mão e toda a mesa ri em uníssono. – Sei que ela tem os seus demónios, mas no entanto está aqui – prossegue, virado para mim com os olhos cintilantes de orgulho. – Sentada ao meu lado, a apoiar-me como nunca ninguém antes tinha feito. É o meu anjo; cada minuto passado


com ela é uma bênção que não quero ver acabar. Tive imensa sorte ao conhecer-te, Madison. Dásme forças para ser um homem melhor – conclui, já não virado para a mesa, mas para mim. Sinto os olhos húmidos, mas mordo a boca para reter as lágrimas. – Quem tem sorte sou eu, Dixon – deixo escapar num sussurro. – E tu já és um homem melhor. O único homem que quero – acrescento com sinceridade, e toda a mesa vibra em aplausos. Dixon sorri e inclina-se para diante, a enxugar-me uma lágrima rebelde. – Ainda bem, pois és a única mulher que desejo, angelo. Já não estamos numa sala a abarrotar de gente, somos só nós, Dixon e eu, e quando me devolve o olhar percebo algo que tenho andado a evitar há muito tempo. Estou caída pelo doutor Mathews. Não pronuncio a palavra «amor» casualmente, mas quando se trata de Dixon é disso que se trata. A conexão que se estabeleceu entre nós foi instantânea, e por muito que a tente combater, parece tornar-se mais forte a cada momento. – Senhoras e senhores, esta noite temos algo de muito especial para vós – anuncia o mestre-decerimónias. – Em breve sobre o palco teremos o brilhante e muito apreciado génio, o doutor Maxwell Wellington. A alusão ao nome do doutor Wellington arranca-nos à abstracção em que tínhamos mergulhado e instila-nos a consciência e que estamos numa sala cheia de gente, e não sozinhos. – Muito agradecido pela amável apresentação – diz Wellington, a dirigir-se ao apresentador. – Tentarei não me esquecer de lhe pagar mais logo. Na sala irrompe uma gargalhada estrondosa. Quando as risadas esmorecem, o doutor Wellington assume um ar sério e põe os óculos. – Foi-me pedido que falasse sobre as minhas experiências e que partilhasse com as vossas adoráveis pessoas os meus pensamentos a respeito da psiquiatria dos nossos dias. Preparei um discurso, e após muitos ensaios senti-me pronto para transmitir a minha «sabedoria» e esperar fazer-vos ver o meu ponto de vista sem recorrer a um palavreado incoerente. Na sala perpassou nova gargalhada. O doutor Wellington tem a audiência na mão. – No entanto, há alguns dias ocorreu um acontecimento que veio suscitar uma série de problemas. Engulo em seco quando ele olha para mim com um sorriso largo. – Se se ofendem facilmente, sugiro que virem a cara para o lado, já que o meu tópico pode ser considerado um pouco tabu. A audiência agita-se num burburinho de sussurros quando as pessoas se deitaram a adivinhar o que poderá ser. O doutor Wellington pede silêncio com um gesto das mãos enrugadas e sorri. – Vou falar de… mulheres. Vinte minutos mais tarde, o doutor Wellington tem a audiência rendida, à espera do corolário da comunicação. A intervenção centrou-se no tópico dos homens e das mulheres e na razão pela qual,


ao cabo de tantos anos de civilização, continuamos a não compreender como funciona a outra metade da nossa espécie. – Não é segredo que os homens e as mulheres são muito diferentes. Nós, cientistas, estudamos quatro áreas principais de diferença entre os cérebros masculinos e femininos. Podia continuar a maçar-vos sobre os pormenores de cada componente. Mas se me permitem, gostaria de vos pedir que olhassem para a pessoa que têm ao vosso lado. A audiência satisfaz o pedido. – Estão a ver? – pergunta quando a agitação se desvanece. – Sejamos homens ou mulheres, afinal somos todos seres humanos. Quando olha na nossa direcção, apercebo-me sem a mais pequena dúvida de que eu e Dixon servimos de inspiração para o brilhante discurso. E Dixon também percebe, pois olha-me com um sorriso malicioso no belo rosto. – Portanto, qual é a solução para esse enigma a que chamamos «uma relação»? – pergunta o doutor Wellington, a cofiar a barba numa atitude pensativa. Imersa em silêncio, a audiência aguarda a conclusão. O orador sorri e ergue o velho rosto engelhado. – Quem sabe? – pergunta em tom ligeiro. – Ao fim de cinquenta anos de casamento, houve uma coisa que fiquei a saber. – Faz uma pausa para alimentar a expectativa. – A vida e o amor não são um tempo de espera de que a tempestade passe… é aprender a dançar à chuva. Muito obrigado. A audiência irrompe num ruidoso aplauso e toda a gente se põe de pé a bater palmas com entusiasmo enquanto o doutor Wellington desce do palco. Detém-se junto da nossa mesa e bateme carinhosamente no ombro. – Pressinto uma tempestade que se avizinha – comenta em tom alegre e a piscar o olho a Dixon, que sorri de satisfação. A orquestra começa a tocar e todos aproveitam o intervalo para ir à casa de banho ou para conversar. – Vou sair para fumar um cigarro – confessa-me Dixon ao ouvido. – Mas não digas a ninguém. Metade destes tipos sofreria um ataque cardíaco se soubesse. Ri e aceno, a adorar o facto de, por baixo do fato elegante e das maneiras sofisticadas, o doutor Mathews continuar a ser um rebelde. – Não demoro – promete ao levantar-se, e pespega-me um beijo na cara. Assim que se afasta, Rebecca ocupa o lugar dele. – Vocês fazem um par lindíssimo – comenta em tom sarcástico, sem uma ponta de sinceridade. Resolvo entrar no jogo. – Obrigada. Segue-se um silêncio embaraçoso, mas preferível aos comentários cáusticos de Rebecca. – Sou capaz de apostar que na cama é um verdadeiro garanhão. Sinto o sangue afluir-me ao rosto. Nada de bom pode resultar daquela conversa. – Claro que é – respondo sem convicção, a retorcer com dedos nervosos o pingente do colar.


– Com um aspecto daqueles arranja as mulheres que quiser. Tiveste muita sorte em seres a escolhida. Quero dizer, na cama deves ser dinamite – prossegue em tom informal e a erguer as sobrancelhas. – Não é bem assim – replico em tom patético. – É verdade que a química sexual é intensa, mas há algo mais. Mais profundo. – Ah, sim, tenho a certeza de que é mais profundo – observa em tom provocador, e volto a cara à grosseria dela. Fica uns instantes a olhar para mim e seja o que for que vê revela-lhe a verdade. – Porra, não andas a fodê-lo, pois não? Oh, meu Deus! E tapa a boca para encobrir uma gargalhada. A sua atitude ridícula num tópico que me é sensível faz-me corar ainda mais e baixo o rosto, envergonhada. Por que razão terá tudo a ver com o sexo? – Minha querida, de uma rapariga para outra, um homem como aquele não te vai aturar muito tempo se não foderes com ele – afirma em tom cruel. – Um homem como Dixon quer foder, não quer falar, e se não lhe deres o que deseja irá encontrá-lo noutro lado. Minha querida, creio que já percebeste que há por aí muitas tipas dispostas a pôr os cornos ao marido para lhe satisfazer as necessidades. Incluindo eu. Como queres segurar um homem assim? Acho que o melhor é desistires. – De que estás para aí a falar? – pergunto, na defensiva, a sentir que as paredes da sala se estreitam à minha volta. – Estou a dizer que tens que lhe dar um abanão antes que alguém o faça por ti. Esse arranjinho inocente e virginal não vai durar muito. Abro a boca, espantada com a facilidade com que ela me lê. – Porra, não faças essa cara. A maioria das mulheres era capaz de matar para estar no teu lugar. Sexo é poder, e é melhor para ti que esteja nas tuas mãos, e não nas dele. Se o queres conservar, faz o que quer que seja que tenhas de fazer – conclui, mas já não a ouço. Começo a sentir-me agoniada, as palavras dela agitam recordações desagradáveis com as quais prometi lidar depois do regresso a Nova Iorque. Mas ao ouvir Rebecca dizer palavras que sei serem verdadeiras sinto-me projectada para o passado e tenho vontade de vomitar. – Desculpa – digo, e levanto-me apressadamente para correr para a casa de banho. Assim que entro agacho-me sobre uma sanita e vomito tudo quanto tinha no estômago. Vomito até nada restar, mas continuo sacudida pelos vómitos até me engasgar em lágrimas de arrependimento. Os meus soluços ecoam dentro do recipiente e bato com os pés nos azulejos frios do chão, a desejar não me sentir tão ferida e vulnerável ao passado. Sofro uma tontura, cubro os ouvidos, mas as palavras dele repetem-se sem cessar, palavras que tenho vindo a tentar silenciar vai para treze anos. – Vais fazer isto, Sunny. Se me amas, vais fazer isto.


Capítulo 31 Os esqueletos no armário

Dixon Não faço ideia onde ela estará. Procurei Madison por todo o hotel, mas ela desapareceu sem deixar rasto. O porteiro verificou no quarto, mas não está lá, e quando tentei ligar-lhe para o telemóvel foi directo para a caixa de mensagens. Quando regressei à mesa e vi que ela tinha desaparecido, Rebecca informou-me de que fora à casa de banho e voltaria em breve. Contudo, passados vinte minutos sem ela aparecer, percebi que havia ali algo de errado. Ao correr pelo corredor, vi um ajuntamento de pessoas em volta de um quarto. Os seus rostos denunciavam confusão e inquietação, e corri para lá, com o coração a saltar-me no peito. – O que se passa? – inquiri bruscamente uma velhota que vestia um fato cor de limão. – Está alguém lá dentro – respondeu, a apontar para o compartimento da roupa interior. – Parece que uma rapariga correu para lá e trancou a porta. Já tentámos contactar o pessoal, mas estão todos muito ocupados para se preocuparem com as pessoas normais – acrescenta com ar ofendido. É claro que estão – bastante ocupados com os meus colegas embriagados. – Importa-se de me deixar passar? – pergunto, a abrir caminho entre os basbaques. Quando chego à porta, agacho-me e encosto o ouvido à madeira, pois quase não ouço devido ao burburinho da multidão. Consigo ouvir uma fungadela e algumas palavras abafadas e percebo que é Madison que está lá dentro. – Madison? És tu? – pergunto, a esforçar-me por falar numa voz calma. Como não responde, volto a perguntar. – Madison, é o Dixon. Consegues ouvir-me? Nada. – Devo chamar a segurança? – pergunta um dos basbaques. Ergo a mão e abano a cabeça. – Não, eu trato disto. Por favor, podem dar-me um minuto? A maioria corresponde, alguns só recuam um passo, mas se tem de ser, paciência. – Angelo, sou eu. Se me consegues ouvir, por favor faz-me um sinal para saber que estás bem. Não tens de sair, estou aqui contigo. Só preciso de saber se estás bem. A turba cala-se, a ouvir-me falar para uma porta. Encosto a orelha à madeira para ouvir melhor, mas não ouço nada. Tenho de continuar a tentar, pois se ela não responder não tarda rebento a porta. Podia chamar o porteiro, mas quero poupá-la ao embaraço de todo o hotel ficar a saber que se trancou no interior do armário da roupa interior.


Dou voltas à cabeça, a pensar no que a terá levado a fechar-se num espaço tão acanhado, e só encontro um motivo. Está assustada. Alguma coisa aconteceu durante os poucos minutos em que estive ausente, e odeio-me por não ter lá estado para a proteger. Mas agora estou aqui e farei tudo o que for preciso para que ela se sinta de novo em segurança. Vêm-me à memória os meus tempos de criança assustada e recorro ao único truque que sempre tinha afugentado os meus monstros. Começo a cantar. Farfallina Bella e bianca Vola vola Mai si stanca

Gira qua E gira la Poi si resta sopra un fiore E poi si resta spora un fiore. Era a canção de embalar que a minha mãe me cantava e que sempre resultava para afastar os pesadelos. Espero poder fazer o mesmo com Madison. Quando me preparo para cantar a segunda estrofe, ouço o clique do fecho da porta e a multidão que me rodeia queda-se de boca aberta, na expectativa. – Por favor, afastem-se da porta. A pessoa que está lá dentro é muito importante para mim, e quando lá entrar não quero que sinta que está a dar espectáculo – peço, na esperança de que percebam e se vão embora. Não fico muito tempo à espera da reacção deles, abro a porta devagar e espreito para o interior do compartimento escuro. Os meus olhos precisam de alguns segundos para se habituarem à falta de luz, mas assim que conseguem parte-se-me o coração ao ver Madison encostada à parede do fundo, os joelhos puxados contra o peito e descalça. Balança-se para trás e para a frente, o rosto comprimido contra os joelhos e a cantarolar baixinho. – Madison? – sussurro, ao mesmo tempo que abro um pouco mais a porta. Mas ela prossegue a cantilena, o rosto voltado para longe de mim. A única maneira de a arrancar àquele estado quase catatónico é estabelecer contacto com ela, de maneira que rastejo para o interior e fecho a porta atrás de mim. Não vejo absolutamente nada, de modo que só me posso orientar pela cantilena. – Madison, é o Dixon. Não te vou fazer mal. Estou aqui para ajudar. Vou aproximar-me um pouco, está bem? Não responde, mas o zumbido cessa. Arrasto-me na direcção dela sem nunca deixar de lhe falar. – Vai ficar tudo bem. Estou aqui e não deixo que ninguém te faça mal.


Estendo a mão, que pouso sobre uma perna dela. Está gelada, e no momento em que estabeleço contacto tenta recuar mas não tem para onde ir, pois está encostada à parede. Recuo de imediato, a erguer a mão num pedido de desculpa. – Madison, estás em segurança. Não precisas de fugir. Fico aqui contigo até estares preparada para sair. Não importa quanto tempo, vou ficar aqui contigo, prometo. Resolvo assumir uma posição mais confortável e sento-me, com as pernas abertas esticadas para a frente. A nesga de luz que se filtra por debaixo da porta é a única claridade de que disponho, mas embora débil é o suficiente para distinguir o corpo amarfanhado de Madison enroscada sobre si mesma e resolvida a não encarar o mundo real. É evidente que alguma coisa aconteceu a esta bela criatura, e tenho a impressão de que foi algo odioso, uma traição indizível ao mais alto grau. Os meus dentes rangem só de pensar nisso, pois há apenas meia dúzia de coisas capazes de provocar uma reacção daquelas. – Oh, angelo, que te fizeram?– murmuro, e passo a mão pelo rosto, tomado por uma sensação de derrota. – D-Dixon? – gagueja Madison em voz baixa e rouca. – Estou aqui – replico ao mesmo tempo que endireito o corpo. – Peço desculpa – diz a chorar. – Não sei como vim aqui parar. A última coisa de que me recordo é de estar na casa de banho, e depois, mais nada. Peço muita desculpa. – Chhh, não tens nada que pedir desculpa. Vou aproximar-me, está bem? – Está bem. Arrasto-me um pouco e estendo a mão até ao joelho de Madison. Deixo escapar um suspiro de alívio quando verifico que está um pouco mais quente. – Vou passar a mão por baixo dos teus joelhos e pelas tuas costas – aviso, pois não a quero assustar com qualquer movimento inesperado. – Eu consigo andar – murmura, mas tenho as minhas dúvidas. – Muito bem. Deixa que esta noite seja o teu cavaleiro de armadura reluzente – respondo, grato pela quase coerência das suas palavras. – Já és. Surpreende-me ao estender a mão para me acariciar a face. Os seus gestos inflamam-me o coração, mas tratarei disso mais tarde, depois de sairmos daqui. Com o antebraço sob os joelhos dela, faço-a levantar. Cede voluntariamente e deixa-se cair de encontro ao meu corpo, a cabeça encostada ao meu peito e as mãos a envolverem-me o pescoço. Ergo-me, agarro-a com firmeza e arrisco o primeiro passo em direcção à liberdade. Tacteio à procura do puxador da porta, sem nunca largar Madison. Abro a porta, a piscar os olhos por causa da luz crua que me agride as pupilas sensíveis. Adaptam-se ao cabo de alguns segundos, e quando tal acontece noto a presença de alguns espectadores de pé do lado de fora, a olharem de boca aberta. Têm o bom senso de se afastar do meu caminho. Madison aconchega-se mais de encontro a mim, a esconder o rosto no meu pescoço, com certeza embaraçada por ser o alvo de todos os olhares.


Abro caminho sem me preocupar com as pessoas que abalroo e dirijo-me para o elevador. Assim que entro primo o botão do meu piso e começa a subir; os únicos ruídos audíveis são a música monótona do elevador e a respiração de Madison. Ao ver os nossos reflexos no espelho, a aparência frágil de Madison parte-me o coração. Saio assim que o elevador se detém no meu piso, a segurar o corpo de Madison como se de um saco de ouro se tratasse. Aperta mais as mãos à volta do meu pescoço e deixa escapar um som satisfeito. Caminho em passos abafados sobre o chão alcatifado e, no momento em que entro no apartamento, dirijo-me para o quarto e acendo a luz da cabeceira. Após algumas manobras consigo puxar os lençóis para trás e deito-a na cama com suavidade. Logo que sente o contacto dos lençóis macios suspira, larga-me o pescoço e esconde a cara na almofada. Continua com o vestido, mas depois do episódio desta noite nem penso em despi-la, de modo que a cubro com o lençol e o edredão. Adormece passados alguns segundos. Endireito-me e fico a vê-la dormir, triste com a aparência dela. Aquela mulher ainda há pouco tão segura de si parece uma criança desamparada. Quando tenho a certeza de que está a dormir profundamente, desaperto a gravata, dispo o casaco e descalço os sapatos. Cansado, sento-me no chão ao lado da cama, apoiado à mesa-de-cabeceira. E lá me deixo ficar, no cumprimento da minha promessa de a proteger até ela se sentir de novo segura.


Capítulo 32 Para mim és perfeita

Dixon Acordei com o corpo a gritar-me por ter dormido no chão. Não me recordo de ter adormecido, mas lembro-me de que Madison descansava quando me deixei levar pelo sono. Olho para o relógio, vejo que pouco passa das seis da manhã e que Madison desapareceu. Levanto-me de um salto, ainda com o cérebro entorpecido, e procuro-a por todo o quarto. Quanto estou prestes a correr para a porta, ouço a descarga do autoclismo. Madison apaga a luz ao sair da casa de banho e dirige-me um pequeno sorriso quando me vê com ar de doido de pé no meio do compartimento. – Tive de ir à casa de banho – explica. – Puxa a bainha da minha T-shirt dos Yankees e conclui: – Espero que não te importes. – De maneira nenhuma. Sorri, dirige-se para a cama com ar acanhado, enfia-se debaixo dos lençóis e deixa-me ficar especado como um idiota. – Já volto – respondo, a dirigir-me para a casa de banho e a fechar a porta. Apoio as mãos no lavatório e abro a torneira para fingir que tenho de facto uma razão para ali estar; só preciso de um minuto para me recompor. Passo em revista os acontecimentos da noite e percebo que, embora Madison não se sinta à vontade para falar no assunto, tenho de fazer um esforço para a levar a falar. Pela reacção dela ao episódio é seguro presumir que nunca fez terapia para tratar dos seus monstros – em especial quando se esconde em armários para fugir deles. Escovo os dentes, lavo a cara, considero que já fiquei o tempo suficiente, saio e fecho a porta. Madison está sentada, encostada à cabeceira, à minha espera. Quando os nossos olhares se cruzam, desvia o seu, morde o lábio, e concedo-lhe algum tempo para ordenar as ideias enquanto procuro uma T-shirt e um par de calças largas. Dispo a camisa, enfio uma T-shirt e faço o que posso para vestir as calças sem me expor. Uma vez vestido, encaminho-me para a cama e deixo-me ficar aos pés. Guardo silêncio, à espera que seja Madison a falar. – Peço imensa desculpa, Dixon – diz ao cabo de um minuto. – Lamento imenso ter-te causado embaraços… Faço um gesto com a mão a recomendar-lhe que se cale. – Não tens nada para lamentar. E não me causaste nenhum embaraço – prossigo, enquanto ela baixa os olhos. – O que aconteceu? – pergunto, sempre sem sair do mesmo sítio. Madison encolhe os ombros e retorce uma ponta do edredão.


– Fiz alguma coisa que não devia ter feito? – pergunto, resolvido a formular vinte perguntas para que ao menos uma obtenha resposta. – Não! – grita, e os seus olhos cintilam ao cruzarem-se com os meus. – Não, não fizeste nada errado. – Então o que aconteceu? – imploro. Madison suspira antes de começar. – Estava a falar com a Rebecca e ela disse uma coisa… que me perturbou. Percebo que a conversa com Rebecca apenas fez desencadear um problema muito mais fundo. – Sabes que da boca daquela mulher não sai nada que valha a pena ouvir, não sabes? – pergunto, a cruzar os braços sobre o peito. Sustenho a respiração, na esperança de que a outra não tenha falado sobre Juliet. – Eu sei – replica com um aceno de cabeça. – Mas despertou-me algumas recordações antigas – admite por fim. – É evidente que não as enfrentei como pensei que tinha feito – diz, os olhos focados nos meus. – A depressão, as lágrimas, o estado quase catatónico… Coisas que não me aconteciam há muito, muito tempo. – Quer dizer que já antes tinha acontecido? – insisto com cuidado, sem fazer menção de me mexer. A aflição que demonstrou no meu quarto foi muito diferente disto. – Sim – e descaem-lhe os cantos da boca. – Queres falar sobre o assunto? Madison sacode a cabeça. Sabia que a resposta seria aquela, mas agora que aflorei o assunto não o posso deixar morrer. – Prometo que não te vou psicanalisar. Só quero ajudar. Precisas de falar sobre o que quer que seja que te aconteceu, Madison. Está a minar a tua existência e não tarda que te venha a dominar por completo. – Não posso – grita, a puxar os joelhos para o peito, como que a formar uma barreira entre nós. – Podes, sim. Sei que podes. A Madison que conheço é uma sobrevivente, uma lutadora, e chegou o momento de expulsares os teus medos. Treme-lhe o lábio e funga para sufocar as lágrimas. – Não te posso contar… tudo. Não me sinto preparada. Mas quero pelo menos tentar. Quero ser honesta contigo porque penso que tens razão. O passado está a dominar o meu futuro. – Está bem. Diz-me o que puderes. O primeiro passo é sempre o mais difícil – concordo com um breve sorriso. Madison inspira fundo e acena. – O meu pai deixou-nos quando eu tinha cinco anos. Ficámos só eu, a minha mãe e o meu irmão, Dylan. Como quem sustentava a casa era o meu pai, a minha mãe viu-se obrigada a arranjar um segundo emprego para nos manter. Nunca estava em casa, mas não tinha culpa disso. Estava a fazer o melhor que podia. O meu irmão tinha nove anos e sentiu-se o homem da casa. Quando a mamã estava a trabalhar, era Dylon quem tomava conta de mim. Dependia dele, era o meu herói. O uso do pretérito denuncia um leque de sentimentos que já não existem. Mas continuo calado, à espera que continue.


– Comecei a desenvolver-me mais cedo, bastante mais cedo do que as minhas amigas. Quando cheguei aos dez anos, tinha mamas como as raparigas que frequentavam o nono ano. Devo ter-me esquecido de que o meu irmão era um adolescente com catorze anos com as hormonas em ebulição, como também esqueci que tinha amigos da mesma idade e nas mesmas condições – acrescenta. – Nunca me recatei na presença de Dylan e nunca pensei duas vezes antes de andar de um lado para o outro depois do banho só com uma toalha à cintura. Por que razão me devia recatar? Fazia aquilo desde criança. Era tão ingénua… – Certa noite, Dylan levou os amigos lá para casa e estavam a fazer uma algazarra no quarto dele. Espreitei e vi que se babavam diante da fotografia de uma loura numa revista porca. Não percebi ao certo o que tanto os excitava, mas sabia que se Dylan me apanhasse a espreitar ficaria furioso. Corri para o meu quarto e preparava-me para me deitar quando Dylan apareceu e me agarrou. Cala-se e fecha os olhos, e percebo que o que está prestes a dizer me vai destroçar o coração. – Tinha vestida a minha camisa de noite preferida, da Disney Princess, que já me estava pequena, mas não me importava. Adorava aquela camisa de noite porque me fazia sentir como uma princesa, e tecia fantasias sobre o meu Príncipe Encantado que um dia me viria arrebatar. Dylan derruboume e recordo-me de um olhar de… excitação – sussurra – quando acidentalmente se roçou pelo meu peito. Não dei grande importância ao caso, mas quando voltou a acontecer na noite seguinte e na outra, percebi que qualquer coisa estava mal no facto de ele me tocar. Cerro os punhos com força e conto até cinco para não explodir. Madison prossegue, perdida nas recordações do passado, a relatar a violência da experiência. – Aquilo… continuou durante mais uns três anos… e eu detestava. Começava sempre da mesma maneira. Apagava a luz, como se a escuridão lhe ocultasse o pecado. Mas nunca ocultou. Devia ter contado à minha mãe, mas… oh, meu Deus – e começa a chorar, cobrindo o rosto com as mãos. Não me aguento imóvel nem mais um segundo e aconchego-a contra mim. Aceita sem resistir e chora convulsivamente contra o meu pescoço, o corpo frio sacudido pelos tremores. Não a quero tranquilizar e dizer-lhe que está tudo bem, pois percebo que a história ainda mal começou. Deixo-a chorar e não insisto para que continue, pois sei que a confissão desta noite foi difícil. Mas Madison liberta-se do meu amplexo a limpar os olhos manchados. – Mas ainda há mais – articula com uma tremura no lábio. – Não tens de me contar o que não quiseres contar – respondo, a afastar-lhe do rosto os cabelos empastados. – Eu sei, mas quero falar – declara em tom triste, e esboço um aceno com compreensão. Inspira fundo e continua. – Detestava o meu corpo e culpava o seu desenvolvimento pelo comportamento de Dylan. Na escola, as raparigas mais velhas eram alvo de troça e ridicularizadas e os rapazes não gostavam delas, portanto pensei que se fosse como elas talvez Dylan deixasse de gostar de mim também. Engordei uns sete quilos, comia todas as gorduras e sobremesas que conseguia aguentar no estômago.


No momento em que menciona as sobremesas, percebo a razão do seu apetite voraz pelos doces. Tinha usado a comida como um mecanismo de defesa contra o irmão incestuoso. Mas tenho o pressentimento de que foi apenas uma solução a curto prazo. – Durante algum tempo resultou. Dylan pareceu perturbado e as suas visitas pararam durante algumas noites. Pensei que tudo se começava a resolver, e entretanto a mamã tinha conhecido um homem maravilhoso e preparava-se para se casar. A mamã já não tinha de trabalhar até tarde porque Sebastian era podre de rico e fazia questão de prover ao nosso sustento. Passados alguns meses mudámo-nos para casa dele e Sebastian amava-nos como se fôssemos seus filhos. Vi-o como meu salvador, pois assim que entrou em cena Dylan deixou-me em paz. – No entanto, na noite em que Dylan fez dezoito anos, a situação alterou-se. Fizemos-lhe uma festa em casa de Sebastian. Foi uma noite formidável, e as coisas começavam a regressar à normalidade. Quando a festa acabou, fui para a cama e deixei a porta do quarto aberta. Tinha adquirido o hábito de fechar a porta, não que fizesse diferença, pois Dylan encontrava sempre uma maneira de entrar. Mas nessa noite senti-me em segurança, e deixei a porta aberta. Fui estúpida. Estamos sentados lado a lado, e estendo a mão para lhe acariciar o rosto. – Continua, mas só se estiveres nessa disposição. Madison encosta a cara à minha mão e acena. – Acabava de adormecer quando fui acordada por uma mão que me tapava a boca. Tentei gritar, mas fui dominada pelo peso do meu irmão… embriagado. Lutei para o afastar, mas ele era demasiado forte, e ao fim de algum tempo desisti – murmura, enquanto uma lágrima lhe desce pelo rosto. – Talvez pudesse ter lutado mais, mas estava muito assustada e cansada. Só queria que ele me deixasse em paz. Mas nessa noite foi diferente, comportou-se com brutalidade e queria… mais. As suas palavras ainda hoje me perseguem – confessa em voz trémula. – Tudo o que me disse foi: «Vais fazer isto, Sunny. Se me amas, vais fazer isto.» Tinha o costume de me chamar Sunny. Dizia que era o seu sol, o que é bastante irónico, dado que na sua presença apenas via trevas. Nem quero imaginar o que ele queria dizer com «isto». Esforço-me para não a calar e deixá-la prosseguir, pois sei que nunca contou aquela história a ninguém. – Eu só… violou-me… doeu-me tanto que devia ter resistido mais – repete, a sacudir a cabeça, incapaz de continuar. – Madison, nem sei o que diga – suspiro, ao mesmo tempo que lhe afago o braço. – A culpa não foi tua. Foi do teu irmão. Cuspo a palavra, incapaz de a articular sem cerrar os dentes. – A culpa é minha. Nunca o devia ter encorajado. Devia ter contado à minha mãe. Devia ter feito muitas coisas – diz a chorar e a limpar os olhos. – Não passavas de uma criança – respondo apenas para a confortar, mas a deixar-lhe o espaço de que precisa. – Não estás a perceber. Devia ter contado à minha mãe porque nessa noite alguém nos viu – prossegue num murmúrio, e recuo instintivamente, espantado pela revelação. – Alguém vos viu a…? – incapaz de pronunciar as palavras adequadas. – Sim – responde, e os seus olhos voltam a encher-se de lágrimas.


– Quem? A minha raiva começa a assomar à superfície. Madison abana a cabeça e fecha os olhos, vencida. – Alguém que me devia ter salvado porque sabia desde sempre o que ele andava a fazer. Assistiu enquanto ele me roubava a inocência. Ouviu-me gritar por socorro. Só que em vez de me ajudar, fechou a porta. E no dia seguinte agiu como se nada tivesse visto. Não posso deixar isto nestes termos. Preciso de saber quem foi para encontrar aqueles dois estupores e acabar com eles. – Diz-me – insisto, a apertar-lhe o braço para a instar a falar. Assim que lhe toco, Madison fica gelada e grita de pavor. – Por favor, deixa-me ir – implora, sufocada pelo medo. Largo-a e só então me apercebo da força com que a agarrava. Afasta-se de mim até bater com as costas na cabeceira da cama. – Peço perdão, Madison – imploro, tomado pelo remorso e com as mãos levantadas. – Nunca te magoaria. É só, é que… – O que sentes? Nojo? Choque? Pensas que estou doente? – replica em tom brusco, muito corada. – O quê? – pergunto, agastado. – Como poderia pensar uma coisa dessas? – Porque é o que penso a meu respeito – responde com irritação. A dor desapareceu, substituída pela raiva. – Não tens culpa de nada disso – repito, mas ela atalha-me, enfurecida. – Cala-te! A culpa é minha. Devia ter gritado. Devia ter dito que não. Devia ter contado à minha mãe. Podia ter-lhe dito quem o filho era – prossegue com uma expressão de repulsa. – Trabalhou tanto, sacrificou-se tanto para nos pôr comida na mesa, e só parou quando conheceu Sebastian. Mas devia ter-lhe dito. Cobre o rosto com as mãos e percebo que está à beira dos limites. – Sou uma pessoa nojenta, Dixon. Suja, impura. Começa a arranhar-se para afugentar a dor. – Não, não és – insisto, a colocar a mão aberta sobre as dela. – Como podes olhar para mim? Sou uma criatura patética. O ódio que sente por si mesma perturba-me e não consigo evitar de o admitir. – Quando olho para ti vejo a mesma Madison que vi no dia em que te conheci: uma miúda simpática e vulnerável que senti que devia conhecer melhor, e agora que te conheço sei que não és vulnerável, que és uma sobrevivente, que és forte. – Eu sou… – tenta interromper, mas não deixo. – És a rapariga em quem nunca mais deixei de pensar desde que nos conhecemos e por quem começo a ficar apaixonado – concluo, incapaz de conter as minhas emoções. A boca dela abre-se, e a minha também, pois não esperava deixar escapar a última parte. Mas afinal estou a enganar quem? Madison está-me debaixo da pele desde que a vi e mais nenhuma mulher conseguiu ocupar esse lugar.


Juliet é uma recordação distante que não estou interessado em reavivar, porque o que tenho à minha frente é a realidade. É áspera, é crua, é dura, mas é tudo o que quero porque quero Madison. – Tu o quê? – pergunta, a incredulidade estampada no rosto. – Ouviste muito bem – respondo, a chegar-me alguns centímetros. – Estou fascinado por ti. – Eu sou material estragado, Dixon – e sacode a cabeça, duvidosa. – Para mim és perfeita – respondo num sussurro, e nunca tive tanta certeza de nada na vida. Uma expressão de espanto entreabre-lhe os lábios, mas não reajo. Estou demasiado acalorado para me mover, pois o próximo movimento pode ser colar os meus lábios aos seus. – Dixon… eu – começa a dizer, os belos olhos verdes focados nos meus. – Eu… – mas não preenche os espaços vazios. Limita-se a inclinar a cabeça na minha direcção, a encurtar a distância que nos separa. O beijo é doce e casto, mas quando sinto os seus lábios quentes nos meus perco o autodomínio e tudo o mais deixa de me interessar além de devorar aquela mulher até ao meu derradeiro suspiro. Beijo-a com desespero e enfio-lhe a língua na boca como um miúdo inexperiente, desejoso de saborear tudo. Corresponde ao beijo enlaçando-me o pescoço com força, a apertar-me contra si para que nem um sopro de ar se escape entre nós. Gosto. Gosto que não manifeste acanhamento, em especial depois desta noite. Todavia, este pensamento faz-me conter, pois acaba de me revelar o seu segredo mais íntimo e estou a apalpá-la como um cão tomado pelo cio. Mas assim que se apercebe Madison puxa-me pelos cabelos e esmaga o rosto contra o meu para me reter. – Faz-me esquecer – arqueja contra os meus lábios, afastada. – Quero lembrar-me só das tuas mãos, da tua boca, do teu corpo, nada que seja dele. Como se pode recusar um pedido daqueles? E até onde posso levar isto sem que ela entre em pânico? Não se irá arrepender assim que acabarmos? Deve ter-se apercebido dos meus receios, pois agarra-me a mão e pousa-a sobre o peito ofegante. – Toca-me, por favor. Cria em mim novas recordações que não tenha medo de reviver. O que resta da minha indecisão desaparece perante a sua frontalidade. Aceno com a cabeça, decidido a aliviar-lhe o sofrimento. Sem perder tempo, baixo a boca para a dela, resolvido a fazer que seja dos meus beijos que se recorde, e de mais ninguém. Devolvo o beijo com tamanha ferocidade que por muito que procure refrear as minhas hormonas o meu membro ergue a cabeça, intrigado. Não a quero assustar, mas a erecção incipiente corre esse risco. Surpreende-me ao entalar a mão entre nós para me acariciar a protuberância das calças em movimentos firmes. Não disfarço o prazer que sinto ao contacto, tento abafar um gemido, mas os dedos exigentes são demasiado bons e foge-me um som por entre os lábios. – É bom, não é? – pergunta com um ligeiro toque de incerteza. – Mais do que bom – respondo, ofegante. – É incrível. Tu és incrível. As minhas palavras têm o condão de a despertar e os seus dedos acariciam-me e envolvem-me através do tecido das calças. Por muito bom que seja, quero ser eu a dar prazer, de modo que lhe


imobilizo a mão com um gesto terno. – Qual é o problema? – pergunta, a esbugalhar os olhos confusos. – Deita-te de costas – ordeno em voz baixa e a beijar-lhe a ponta do nariz. – P… para quê? – Porque quero deitar-me sobre ti – respondo com toda a honestidade, a fazer-lhe subir o sangue ao rosto – e quero que te sintas o melhor possível. Hesita durante um segundo antes de se reclinar sobre a cama, os cabelos escuros a contrastarem com o branco imaculado dos lençóis de seda. Não me quero apressar, mas a visão do seu rosto corado, do cabelo desgrenhado, do peito ofegante e das pernas nuas obrigam-me a apoderar-me da sua boca com a minha. Estar assim com Madison parece-me tão certo e tão perfeito que não tenho recordações que se lhe comparem. O seu corpo sedento sucumbe ao meu contacto, e faço deslizar a mão entre os nossos corpos para lhe sentir o toque da pele nua. Afloro o mamilo nu e erecto, e Madison geme na minha boca. Levo a mão mais abaixo e amaldiçoo a T-shirt por ser tão comprida que preciso de uma eternidade para lhe chegar à pele. Mas assim que lá chego nada mais conta. Os músculos das coxas macias estremecem ao contacto, e por muito que deseje saborear o momento não me contenho até insinuar os dedos sob as cuecas de renda. Deixa fugir um silvo de prazer e, para minha surpresa, abre as pernas, a facultar-me acesso ao tesouro mais recôndito. O tecido húmido entre as pernas dela denuncia que a sua excitação é semelhante à minha, e à medida que a vou acariciando percebo que não está longe de se vir. Quando interrompo o beijo, inspira sofregamente uma golfada de ar. Os olhos inseguros cruzamse com os meus, mas não lhe dou tempo para repensar. Enfio a mão sob as cuecas e agarro-lhe a rata quente e palpitante. Ambos gememos, e Madison soergue as ancas, a implorar-me em silêncio que continue. Sem afastar os olhos, introduzo um dedo devagar, e as paredes internas do seu corpo sugam-me para o interior quente da caverna. É muitíssimo apertada, tão apertada que percebo que ali nunca nenhum homem penetrou. A ideia revolta-me, pois vem confirmar o que já suspeitava. Madison é virgem, mas o irmão violou-a e degradou-a da pior maneira possível. Expulso os pensamentos vis. Não vou permitir que aquele filho-da-puta estrague o nosso momento. – Dixon – geme, a lançar a cabeça para trás e a cerrar os olhos com força. Começo a mover-me ao ritmo dela, calmo e comedido, pois não a quero magoar. Mas quando arqueia as costas e abre mais as pernas percebo que a calma e comedimento já ali não têm lugar. Solta pequenos gemidos incoerentes quando introduzo outro dedo para alargar a abertura. A profundidade da intrusão age como um choque sobre os tecidos sensíveis, mas não me faz parar. Começa a rodar os quadris, em busca de um ritmo adequado enquanto lhe vou fodendo com os dedos o corpo húmido. O clítoris inchado grita, carente, e quando roço o polegar sobre o feixe de nervos tensos, solta um grito e move-se para a frente num sacão brusco. – Gostas? – pergunto em voz rouca, a acelerar o movimento dos dedos, mais fundo, cada vez mais fundo.


– S… sim – consegue articular, a apertar-me com os músculos ávidos para não me deixar sair. – Por favor, não pares. – Nunca, estou aqui contigo. Deixa-te ir – encorajo com gentileza, a enfiar os dedos com mais força ao mesmo tempo que vou aflorando o clítoris com movimentos circulares do polegar. O acto deixa-a louca. Atira a cabeça para trás e move os quadris com frenesim para acompanhar o ritmo dos meus dedos. – Deixa-te ir, angelo, deixa-te ir – repito, pois sinto que o seu clímax está prestes a acontecer. O seu corpo reage à minha ordem e solta um grito, atingida tão violentamente pelo orgasmo que toda ela treme, da cabeça aos dedos dos pés. A visão é do mais excitante que já me foi dado contemplar e, ainda perdido numa bolha de prazer, deixo que Madison se abandone por um mero segundo antes de lhe arrancar as cuecas. Sem lhe dar tempo a protestar, baixo a cabeça para lhe lamber a cona molhada num movimento estrebuchante. Solta um grito, surpreendida, mas mantenho-a presa até que volta a explodir, e desta vez contra a minha língua. Enterro ainda mais a cara entre as suas pernas e delicio-me com a fragrância da sua excitação. Nunca nada me soube nem cheirou tão bem, e quando ela se agita, embaraçada com a exposição, agarro-lhe uma coxa, puxo a outra para cima do meu ombro e colo sofregamente a boca ao seu maravilhoso sexo. Geme de satisfação e descontrai-se, abandonada às minhas chupadelas e lambidelas carinhosas. Puxo-lhe a perna mais para o lado e tenho inteirinha à minha frente a carne rosada a brilhar de humidade e desejo. Lambo a entrada para cima e para baixo e ela grita quando introduzo a língua e a faço rodar dentro do corpo convulsionado. – Oh… meu… Deus – arqueja, a tomar fôlego entre cada palavra. O prazer dela excita-me e mergulho mais fundo, a chupar, a lamber e a mordiscar até ela se roçar pela minha cara, o corpo sacudido por tremuras a cada investida da língua. Está exposta, mas não chega, de modo que volto a introduzir um dedo para aceder ao seu centro de calor e prazer. Os gemidos vão-se tornando mais fortes enquanto a penetro com a língua e o dedo, e quando ergue os quadris, a implorar, envolvo-lhe o clítoris com a boca e sugo com sofreguidão. Agita-se em movimentos incontroláveis, grita, o segundo orgasmo rasga-a como um fogo na floresta e a sua carne queima-me a boca e a língua. Solto um grunhido no momento em que a sinto vir-se, e lambo com sofreguidão quanto consigo dos seus fluidos. Madison geme e contorce-se e quando termino relutante de a lamber desce das alturas do orgasmo com um gemido saciado. Afasto-me um pouco, a fitar a deusa que à minha frente tenta recuperar o fôlego. O seu ar febril provoca-me uma excitação que me faz latejar o membro. Mas trata-se de Madison, não de mim, e o facto de a ver alcançar o orgasmo por meu intermédio sem que isso a faça sofrer significa muito mais do que ter tido sexo com ela. Nunca quis satisfazer ninguém da maneira como aconteceu com ela, e depois de a ter saboreado, sinto-me viciado. Madison abre os olhos, hesitante, a revelar as jóias verdes pesadas de luxúria. – Olá – digo ao aproximar-me dela, incapaz de suprimir um sorriso. – Olá – responde em voz rouca.


Estendo-me ao seu lado, a dar-lhe espaço, pois não sei qual será a sua reacção ao que acaba de acontecer. Surpreende-me ao agarrar-me pelo colarinho e puxar-me para si para esmagar os lábios de encontro aos meus. Correspondo ao beijo com o mesmo entusiasmo, mas quando a penetro com a língua recua e leva a mão à boca. – Qual é o problema? – pergunto, intrigado. O sangue sobe-lhe ao rosto. – Sinto o… o meu gosto na tua boca – articula, corada como um tomate. – É maravilhoso, não é? Não sei como conseguirei sobreviver sem esse gosto. Bastou um gole para me viciar. Madison baixa os olhos, e pergunto-me o que irá dentro daquela cabecinha que a perturba tanto. – O que foi? – Não quero que sobrevivas sem ele – confessa antes de cobrir o rosto com as mãos. Solto uma risada e destapo-lhe a cara. – Pois eu também não. Sem ele, tenho a certeza de que não resisto. Tento aligeirar o ambiente, pois o que acabou de acontecer entre nós foi maravilhoso. – E então? – pergunta em voz nervosa, a virar-se para o lado e a descansar a cabeça na palma da mão. – Só consigo imaginar uma solução. – E que é…? – pergunta, o peito a arfar. – Deixares que volte a fazer o mesmo todos os dias daqui em diante – respondo, pois não vejo motivo para ser ínvio. – Creio que sou capaz de aguentar – responde com um sorriso matreiro. – Ah, sim? – insisto, a afastar-lhe da cara um caracol rebelde. – Sim. Talvez não seja o momento indicado para falar nisso, mas acabei tudo com o David. Morde o lábio, embaraçada. Cerro os dentes. O nome dele é como um pontapé nos tomates. No entanto, o contexto da revelação deixa-me feliz e sorridente. – Ora ainda bem. Se não o tivesses feito teria de fazê-lo por ti. E seria muito mais do que romper com ele, rebentava-lhe com as ventas – acrescento. Madison reage com um sorriso brincalhão. – Portanto, é oficial? Isto foi mesmo a sério? Aceno. Hesita antes de continuar a falar. – Não será melhor irmos mais devagar? Quero dizer, esta noite foi a primeira vez que me abri física e emocionalmente – acrescenta, muito corada. – Vamos tão devagar quanto quiseres. Estou aqui contigo, lado a lado. Prometo. – Sinto-me muito confusa, Dixon. – Eu também – admito. Não posso apagar o meu passado, mas posso corrigir algumas coisas. Acabar com o vício das mulheres e tentar ser um filho melhor.


– Não posso prometer que não te afasto quando a situação for demasiado escaldante ou intensa. Mas vou dar o meu melhor. Quero que isto resulte. – Eu também – respondo, e nunca na vida desejei nada com mais ardor. – Nesse caso, estás autorizado a meter algum juízo na minha cabeça se agir como uma idiota. – Obrigado, mas não me parece que seja preciso. Tenho plena confiança em ti. Em nós – concluo com um aceno da cabeça. – Em nós – repete com um sorriso. – Gosto desse som. – Eu também – respondo, e o membro erecto estremece quando Madison cora discretamente. Revela o motivo ao perguntar: – Então e agora? Rolo por cima dela e sorrio ao sentir que lhe falta o ar. É evidente que a minha erecção é a causa da sua ansiedade. – Agora vou beijar-te – declaro, e ela geme ao contacto da minha língua na orelha. – Mas não te vou dizer onde – acrescento antes de lhe aprisionar a boca sem a mínima intenção de a largar.


Quarto acto Um mês depois…


Capítulo 33 Bem-vindo à família

Dixon – E como a faz sentir-se? – pergunto à senhora Stark enquanto lanço ao relógio um olhar furtivo, satisfeito por verificar que o seu tempo está prestes a terminar. – Sinto-me… – A senhora Stark faz uma pausa, que aproveita para humedecer os lábios vermelhos. – Sinto que tenho o controlo da situação. – Porquê? – insisto, e tomo uma nota no processo dela sob a mirada atenta dos olhos cor de avelã. – Doutor Mathews, quando se tem um marido megalomaníaco, dominar a situação não é uma experiência frequente. Agarro o que posso e neste momento o Pedro, o rapaz que cuida da piscina, sente-se feliz por dar o que tem – responde, e os seus olhos pousam sobre o meu colo. Endireito as costas e aceno com a cabeça, a confirmar. – Já falou com o seu marido sobre essas tendências… para assumir o controlo? – pergunto, desagradado com o olhar predatório que me lança. – Para quê? Ao fim de doze anos de casamento ele não mudou nada. Tenho de aceitar o facto de que o meu marido é um tarado dominador e que por muito que fale com ele nada se vai alterar – admite, a descruzar as pernas e a inclinar-se para a frente. – E o senhor, doutor Mathews? Tem alguém especial na sua vida? Tossico para limpar a garganta, reclino-me na cadeira e esboço um sorriso. – Senhora Stark, estamos aqui para falar de si, não de mim. – Preferia falar a seu respeito – replica. – Tenho vindo consultá-lo há alguns meses e nada sei de si. – Sou o seu terapeuta, é só o que precisa saber – respondo em tom abrupto. – Mas… – começa a dizer, mas corto-lhe a palavra. – O seu tempo de hoje chegou ao fim. Se quiser marcar outra consulta, por favor combine à saída com a senhora Vale. Revelo muita falta de tacto, mas para ser sincero não quero saber. É a terceira mulher que se atira a mim esta semana, mas só a ideia de que antes teria encorajado este comportamento agora revoltame o estômago. Percebe a mensagem e sai nem proferir nem mais uma palavra. – Olá, doutor Mathews – diz Madison, a meter a cabeça pela porta do gabinete. Assim que a vejo, a manhã de merda dissolve-se como um pesadelo distante. Salto da cadeira de cabedal e recebo-a com um beijo enquanto fecho a porta atrás dela. Devoro-a com a boca, a entalála contra a porta e o meu corpo zumbe de prazer quando ela corresponde apaixonadamente.


Madison e eu temos progredido, mas a situação começa a clarificar-se. Depois de Boston, nenhum de nós se encontrou com outra pessoa, o que para mim é perfeito, pois não estou interessado em mais ninguém. Depois de muita persuasão, convenci Madison a consultar um psicólogo, e embora ainda vá no princípio já noto uma diferença significativa no seu comportamento. Estou a falar a sério, deposito nela uma confiança absoluta e estou disposto a ultrapassar qualquer obstáculo que se interponha no nosso caminho. Sem fôlego, Madison empurra-me e solto um gemido de desagrado. Desejo esta mulher com todas as fibras do meu corpo, mas não quero insistir. É verdade que Madison progrediu imenso, mas ainda se encontra presa ao passado – um passado que envolve o imbecil do irmão e a maneira revoltante como a degradou. Cerro os dentes só de pensar no que ele lhe fez, mas contenho-me como é próprio de um namorado gentil e carinhoso. – Passei só para dizer «olá» – diz ela, e a beleza do seu sorriso ilumina a sala. – Pois bem, «olá» – digo, a roçar-lhe o nariz pelo pescoço, excitado pelo seu odor. Ri e liberta-se do meu enlace. – A que horas tens a próxima consulta? – Consulta? Nem sei do que estás a falar – respondo em tom de brincadeira enquanto lhe deposito no pescoço um beijo longo e húmido. Geme e repreende-me: – Dixon! Suspiro e afasto-me, a fazer beicinho. – Muito bem, ganhaste. Para já – acrescento com uma piscadela de olho. Volta a rir e eu sorrio, satisfeito por vê-la tão descontraída. – Estamos combinados para logo à noite? – pergunta com algum nervosismo na voz, e mais uma vez tenho de refrear a vontade de a acarinhar. – Não perderia isso por nada deste mundo. Esta noite é a festa de noivado da irmã adoptiva e do irmão. É também a ocasião para conhecer Rachel, a mãe dela, e Sebastian, o padrasto. Como já disse, tenho feito com que as coisas evoluam devagar, mas para Madison é um passo importante e vou tentar o meu melhor para não fazer uma cena quando travar conhecimento com o irmão. Desde que me convidou que me imagino a espancá-lo até à morte com os seus membros, mas terei de fazer o possível para me manter calmo, pois mal consigo imaginar o que sentirá Madison. Pouco falou sobre a irmã adoptiva, mas pelo pouco que deixou perceber não me parece que derramasse lágrimas se ela contraísse uma doença incurável e caísse morta no chão no dia seguinte. Tenho de ser forte por Madison, pois não sei como irá reagir ao encontrar-se com Dylan. Disse que não via o irmão há mais de um ano, portanto esta noite vai ser um teste às suas forças físicas e mentais. E às minhas também, porra. Sei que tem feito progressos, mas encarar o que aquele filho-da-puta lhe fez é para ela uma luta constante. Tudo quanto posso fazer é proporcionar-lhe o amor e o apoio incondicionais que merece, e sei que nada poderá alterar o que sinto por ela.


– Muito obrigada – diz, a puxar o lábio num gesto nervoso. – Sem ti, não seria capaz de fazer isto. – É claro que eras – afirmo, a acariciar-lhe o rosto com o polegar. – És capaz de fazer tudo o que te decidires a fazer. – Tudo? Aceno. – Tudo. Não me apanhaste na tua armadilha? Solto uma gargalhada quando ela reage com uma palmada de falsa ofensa no meu ombro. – Julguei que o sentimento fosse mútuo – responde com um sorriso que lhe faz covinhas no rosto. – Mais do que mútuo – e baixo a voz ao recordar-me da primeira vez que nos beijámos. – Dixon – repreende-me, muito corada. – Madison – respondo a provocá-la, ao mesmo tempo que a agarro pela cintura e a puxo para mim. – Vou buscar-te às sete? – Parece-me bem – e a sua respiração acelera quando me inclino para lhe beijar o rosto. – Então até lá. Afasto-me com relutância, não me apetece largá-la. – Mal posso esperar – sussurra. – Vou ver-te esta noite. Dá-me um beijo furtivo nos lábios e fico a apreciar-lhe o traseiro perfeito enquanto abandona o gabinete, a perguntar como um estupor como eu acabou por arranjar alguém tão incrível. – Tens a certeza de que não nos podemos esquivar a esta reunião e trocá-la por outra em minha casa? – pergunto, a roçar o nariz pelo pescoço de Madison enquanto subimos no elevador até ao vigésimo segundo piso. – Bem gostava – geme quando lhe afloro a clavícula. – Mas disse à minha mãe que vínhamos e ela – ri quando lhe lambo a orelha – quer conhecer-te. – Suspiro contra o pescoço dela. – Ficamos uma hora, não mais. – Se tem de ser – concedo, a baixar os olhos para os seios espantosos puxados para cima no vestido vermelho elegante e sem alças. – Tem de ser, mas se continuas a olhar-me dessa maneira não sei se chegamos a sair do elevador – replica a apreciar-me o fato Armani com um olhar enevoado. Quando me preparava para aproveitar a oferta ouve-se a campainha do elevador a anunciar que chegámos ao nosso destino. Sinto que a tensão se apodera de Madison e dói-me o coração só de imaginar o que estará a sofrer neste momento. A minha miúda corajosa enceta o primeiro passo em direcção à liberdade, e eu estarei com ela a todo o momento. – Estás pronta? – pergunto, a pegar-lhe na mão e a entrelaçar os dedos nos dela. – Como nunca – responde com um aperto dos dedos e um sorriso nervoso. – Prometo que nunca sairei do teu lado – digo, e tenciono cumprir cada palavra. – Obrigada – e damos o primeiro passo para fora do elevador, rumo ao desconhecido. O átrio do salão de baile onde se desenrola a festa de noivado é espantoso. Sebastian deve ter pago por ele uma pequena fortuna, mas ao recordar-me do que Madison me disse sobre a filha


dele, Beth exige sempre o melhor. Para falar com sinceridade, parece-me um estuporzinho mimado, mas tenho peixe mais graúdo para fritar, como é o caso do sacana do irmão de Madison. – Tudo bem? – pergunta Madison a caminho da entrada. – Não podia estar melhor – minto, de maxilares cerrados. – Quando achas que me podes devolver a mão? Olho para baixo e vejo que quase lhe esmago os dedos entre os meus e imediatamente alivio o aperto. – Peço perdão, angelo – digo, a levar os dedos dela à boca para um beijo terno. – Estou a levar demasiado a sério a promessa de nunca te largar – acrescento, a arrancar-lhe uma gargalhada. – Madison? Rodamos nos calcanhares e depara-se-nos uma mulher espantosa num vestido azul-marinho que se aproxima de nós. Os olhos verdes, o rosto em forma de coração e o sorriso denunciam-na. É sem dúvida a mãe de Madison. – Olá, mamã – diz Madison, que me larga a mão e corre para a mãe. Abraçam-se com ternura, e tenho ocasião de verificar que o entusiasmo de Madison ao ver a mãe é recíproco. – Meu amor, estás linda – diz a mãe, que se liberta do abraço e fica a olhá-la à distância de um braço. – Tenho sentido tanto a tua falta. – Mãe, só se passou um mês – responde Madison, um tanto embaraçada. – Um mês é de mais – responde a mãe, a acariciar-lhe o braço. – Então onde está esse teu amigo médico? – pergunta, a erguer e a baixar as sobrancelhas. – Tenho de conhecer o homem que… Muito corada, Madison atalha-lhe a palavra. – Dixon – profere, a olhar por cima do ombro da mãe. A mãe vira-se num ápice, e no momento em que os seus olhos pousam em mim leio neles aprovação. – Mamã, é o Dixon. Dixon, é a minha mãe, Rachel – apresenta-nos Madison, e dou um passo em frente. – Muito prazer em conhecê-la, Rachel – e beijo-a nas duas faces. – Igualmente – responde, a levar a mão ao coração. – Caramba, esqueceste-te de dizer que é uma brasa – acrescenta, a olhar para Madison. – Mamã! – repreende-a Madison, ainda mais corada, enquanto eu deixo escapar uma risada. – O que foi? – pergunta em tom inocente. – Vamos lá para dentro antes que me envergonhes ainda mais – diz Madison, – É a minha função – diz a mãe, que a beija na bochecha. Madison revira os olhos, divertida, e a mãe dirige-me um pequeno sorriso. – Portem-se bem, meninos. Não façam nada que eu não fizesse. – Muito bem, vamos andando antes que a minha mãe diga alguma coisa embaraçosa. Oh, espera um momento, já é tarde – acrescenta Madison em tom de provocação. Agarra-me o braço e conduz-me para o salão. Rachel fica para trás, a conversar com alguns convidados.


Com uma gargalhada, viro-me para me despedir de Rachel com um aceno, ao qual corresponde com entusiasmo. Uma vez lá dentro, Madison arrasta-me até ao bar. – Pede qualquer coisa que te apeteça. O álcool vai ajudar a esquecer o encontro com a minha mãe. – Caramba, não foi assim tão mau – respondo a sorrir. Quando Madison ergue o sobrolho, solto nova gargalhada. Peço um uísque para mim e água para ela e misturamo-nos com as centenas de convidados. Madison apresenta-me a alguns parentes distantes, a vizinhos, ao seu médico dos tempos de criança, mas os convidados de honra não se vêem em lado nenhum. Não sei se os evita de propósito, mas quando relanceio o olhar em redor percebo que a maioria dos presentes parece aguardar que se dignem aparecer. – Ora cá está ela – exclama alto uma voz masculina, e quando me volto vejo um cavalheiro de meia-idade que se acerca de nós. – Sebastian! – diz Madison, e o seu sorriso ilumina a sala. Madison já me falou sobre Sebastian, como ele foi mais um pai para ela do que o seu pai biológico. Gosto dele à primeira vista. Os seus olhos cinzentos irradiam amor quando olha para Madison. – Olá, Botão – cumprimenta-a, e ela corresponde com um abraço apertado. Deixo-me ficar à distância, a permitir-lhe o contacto com o padrasto, pois a reunião parece-me muito feliz. – Tive saudades de ti – diz Sebastian, a acariciar-lhe as costas. – Desculpa não ter aparecido, muito trabalho – responde para o ombro dele, e odeio saber a razão pela qual não os visita há tanto tempo. – Não faz mal, agora estás aqui. Estás linda – comenta. Recua um passo e os seus olhos pousam em mim. – Ah, é este o médico que deixou a tua mãe maravilhada? – pergunta, e Madison confirma com um aceno de cabeça. – É – responde com um sorriso nervoso. – Sebastian, o doutor Dixon Mathews. Sebastian sorri e estende a mão, que aceito com agrado. – Muito prazer em conhecê-lo, Sebastian – digo, impressionado com a firmeza do aperto de mão. – O prazer é meu, doutor Mathews. – Só Dixon, por favor. – Muito bem, Dixon. Esperamos vê-lo em breve em nossa casa para jantar. Quem quer que faça sorrir desta maneira o meu Botão é bem-vindo. – Muito obrigado. Terei muito gosto nisso – respondo e Madison entrelaça o braço no meu. – Óptimo. Maddy, trata dos pormenores com a tua mãe e eu cuido de informar toda a gente – diz Sebastian, e sinto o corpo de Madison inteiriçar-se contra o meu. – Agora vão desculpar-me – continua ele, a acenar a alguém. – Guarda uma dança para o velhote – e afasta-se para apertar a mão ao vizinho de Madison. Quando se distancia, Madison encosta-se mais a mim e passo-lhe o braço pelos ombros.


– Sentes-te bem? – pergunto, a depositar-lhe um beijo no alto da cabeça. – Não – responde contra o meu peito. – Fui estúpida em pensar que conseguiria portar-me normalmente uma noite. – Chhh… És perfeita e não te podes esquecer disso – digo, e liberto-a do amplexo. Sorri, mas o sorriso não lhe chega aos olhos, o que me deixa inquieto, tal como estou inquieto quanto à sua reacção quando se encontrar com a razão de ser das suas dúvidas. – Queres ir embora? – pergunto, mas Madison sacode a cabeça para dizer que não. – Não podemos. Não quero perturbar a minha mãe nem Sebastian. Eu aguento. – Basta dizeres uma palavra e desaparecemos – respondo-lhe com uma carícia no rosto. – Obrigada por estares presente – e encosta-se a mim. – Não queria estar em qualquer outro sítio. – Ora bem, Mad Madison tem um namorado – ouço alguém dizer à minha esquerda numa voz cantante. Viro-me, a detestar logo a pessoa cuja voz é carregada de sarcasmo. Deparo com uma morena pequenina de vestido preto excessivamente curto que não parece importar-se de revelar a todo o salão as suas partes cor-de-rosa. – Olá, Mona – cumprimenta Madison em voz trémula a imbecil presumida que olho com desdém. – E você, quem é? – pergunta Mona, a tornar mais óbvio o seu interesse por mim. – Sou o namorado da Madison – respondo em tom seco. – E você? – Sou a melhor amiga de Juliet – responde, a estender os lábios pintados. – E quem é essa Juliet? – pergunto com brusquidão, pois o nome Juliet traz-me à memória recordações que preferia esquecer para sempre. Mona solta uma gargalhada e tapa a boca com a mão, horrorizada. – A sua história de ser o «namorado» dela seria muito mais convincente se ao menos conhecesse o nome da futura noiva. Quanto costuma cobrar? – pergunta Mona sem deixar de rir com a graçola inapropriada. Ao meu lado, Madison fica tensa, e se eu pudesse falar mandaria aquela cabra à fava, mas não posso. Um sentimento de horror avassala-me enquanto os últimos cinco segundos da conversa se repetem sem cessar no meu cérebro. Deve haver montes de Juliets a viver em Nova Iorque, digo para comigo. É pura coincidência. – Não disseste que a tua irmã adoptiva se chamava Beth? – pergunto a Madison, sem prestar atenção às risadinhas de Mona. – É assim que lhe costumo chamar – responde nervosa, a dar voltas ao brinco de diamante. – Mais uma estúpida excentricidade das minhas – acrescenta em tom de piada. – Então o nome dela é Juliet? – insisto, sem a menor vontade de rir. – É – responde Madison, intrigada. Isto é só uma coincidência. Só pode ser uma coincidência, repito para comigo, pois não acredito que o meu azar seja tão grande. Quero dizer, quais são as probabilidades? Poucas ou nenhumas,


reafirmo. É pura coincidência que Juliet habite no mesmo complexo de apartamentos que Madison. Tal como é pura coincidência que a irmã adoptiva de Madison, Juliet, seja uma cabra mimada. Para ficar com a certeza, pergunto: – Qual é o apelido de Sebastian? Madison coça o nariz, intrigada. – É… – mas cala-se quando as luzes fenecem e surge um mestre-de-cerimónias que se dirige à sala. – Senhoras e senhores, chegou o momento pelo qual todos esperávamos. Por favor, uma salva de palmas para os futuros noivos. A sala irrompe num pandemónio de aplausos e assobios, que Madison e eu não acompanhamos. Madison não compreende o meu súbito interesse pela irmã adoptiva. Forço um sorriso e olho para o feliz casal que entra em cena com grande pompa. Madison responde à minha pergunta. – É Harte – segreda-me ao ouvido, e é como se o universo se desmoronasse à minha volta.


Capítulo 34 Dormindo com o inimigo

Dixon Quando vejo Juliet Harte entrar na sala conduzida pelo noivo, Dylan Roberts, fico com duas certezas. Primeira: o destino é um filho-da-puta sádico; segunda: andei a dormir com o inimigo. Sou percorrido por uma infinidade de emoções, mas neste momento tudo o que consigo fazer é aplaudir e fingir que não faço a menor ideia de quem é Juliet e de quem é Dylan. Sinto o olhar observador de Madison pousado em mim, a escrutinar-me, mas sendo o estupor que sou arvoro uma expressão de jogador de póquer e mantenho-me impassível, sem nada revelar. – Já a conhecias? – pergunta ela em voz alta para se fazer ouvir acima da turba. É o momento da verdade. Podia dizer a Madison que Juliet é a mulher por quem a troquei. Como também lhe podia dizer que o que havia entre nós era superficial, vazio, baseado no sexo, muito diferente da minha relação com ela. A verdade talvez me absolvesse dos meus pecados, porque é com ela que quero estar. Juliet foi um erro. Um erro pelo qual estou agora a pagar caro. Ou posso mentir. – Não – respondo, a abanar a cabeça. – Nunca a tinha visto. Os olhos de Madison estreitam-se numa fresta, e por um instante fico com a convicção de que fui apanhado. Mas quando ela sorri e diz: – Não, não creio que a tenhas conhecido. O teu julgamento de carácter é melhor do que isso – percebo que me safei. Mas se assim é, por que razão me sinto como um monte de merda? Antes de ter tempo para questionar a minha moralidade, Juliet e Dylan sobem ao palco e Dylan aceita o microfone das mãos do mestre-de-cerimónias. A meu lado, o pequeno corpo de Madison começa a tremer e passo-lhe o braço pela cintura para a puxar para mim. Olho com desagrado enquanto Juliet cobre Dylan de mimos. – Ei, toda a gente – diz Dylan, a dirigir-se à audiência com um sorriso descontraído. – Em nome da minha linda noiva, gostaria de agradecer a todos por estarem presentes nesta ocasião especial. Como sabem, estamos aqui para festejar o nosso noivado. A sala irrompe em ovações e assobios. – Mas esta noite estamos aqui para festejar outra data importante. Madison não pára de tremer e puxo-a mais para mim, para que não me fuja. – Deixo que seja a minha futura noiva a anunciar a boa nova – prossegue Dylan, que passa o microfone a Juliet.


Juliet está radiante e creio que nunca a vi tão feliz. Nunca sorriu para mim como sorri para Dylan, mas isso não me interessa. Só revela que se aproveitava de mim da mesma maneira que eu me aproveitava dela. De repente sinto-me um javardo cuja presença polui a rapariga inocente que está ao meu lado. Juliet aceita o microfone, deliciada com as atenções que lhe concede a ribalta. Os seus olhos perpassam pela multidão, e quando nada podia correr pior, pousam sobre mim. Assumo uma expressão indiferente, para não me trair, pois sei como isto é importante para ela, que não deixará que nada interfira com a sua felicidade. Como a verdadeira actriz que é, leva o microfone aos lábios sem nunca afastar os seus olhos dos meus. – Estou grávida! A assistência solta um suspiro ansioso, mas o meu sobrepõe-se aos restantes quando Juliet desata o xaile para revelar uma barriguinha de pelo menos três meses de gravidez. E há três meses andava enrolado com ela. Juliet observa-me com atenção quando a verdade nua e crua me atinge em cheio, sorri e ergue as sobrancelhas num gesto enfatuado. – Isto é nojento – vocifera Madison, que tenta libertar-se do meu braço. Entro em pânico, com receio de que tenha detectado a minha troca de olhares com Juliet. – Vamos embora – digo, a agarrar-lhe a mão e a abrir caminho entre os presentes para alcançar a saída. Não resiste e parece ter tanta vontade como eu de escapar àquele ambiente sufocante. No momento em que chegamos à porta sou avassalado por uma tremenda sensação de alívio. Abandonar aquela atmosfera é tudo o que importa. Quando a puxo pela mão para o átrio, Madison resiste, a enterrar os saltos na carpete felpuda. – Espera um segundo – diz, a tentar recuperar o fôlego. – Preciso de um minuto. Raios partam isto, não temos um minuto. Se bem a conheço, Juliet estará aqui em poucos segundos, ansiosa por me atirar às ventas a merda que fiz. – Podes descansar no automóvel – insisto, ao mesmo tempo que a vou empurrando para os elevadores. Quanto me olha com uma expressão confusa, explico: – Detesto ver-te assim tão abalada, Madison. Com um gesto do queixo, indico as suas mãos trémulas. Torce as mãos e acena. – Tens razão. Mas tenho de dizer à minha mãe que me vou embora. Quando estou prestes a recusar, um arrepio percorre-me a coluna, e a causadora é a mulher que sabe demasiado. – Vão-se já embora? – ronrona Juliet e eu fecho os olhos, a amaldiçoar o dia em que pela primeira vez entrou no meu consultório. Madison suspira. Abro os olhos, disposto a encarar seja o que for que este coirão tem para me atirar.


– Sim – responde Madison, e sinto orgulho na sua coragem. – Não me vais apresentar ao teu amigo? – pergunta Juliet, com um sorriso perverso a bailar-lhe nos lábios. Madison olha para mim e eu concordo em silêncio, a incutir-lhe a coragem de que necessita. – É o meu namorado, Dixon. Juliet ergue uma sobrancelha. Está com certeza a calcular há quanto tempo andaremos juntos e se Madison terá sido a causa de lhe ter dado com os pés. A questão é: será que lhe vai dizer? Juliet inclina a cabeça para o lado e mede-me de alto a baixo. O meu destino está nas suas mãos. Detesto a ideia de que aquela putefiazinha tenha a última palavra sobre a melhor coisa que já me aconteceu na vida. – Namorado? Imploro-lhe em silêncio por um pouco de compaixão e para que não arruíne a minha hipótese de ser feliz. – Sim – confirma Madison, a entrelaçar o braço no meu. – Ele não é… – Juliet deixa a frase inacabada, e eu retenho a respiração. Madison e eu esperamos que conclua, e quando já esperava que o não fizesse, ela termina: – Demasiado velho para ti? Madison não evita uma risada desdenhosa, e deixo escapar o ar retido nos pulmões. Se é nisso que ela quer pegar, então deixá-la. – É perfeito – contrapõe Madison, a desafiá-la para que a contradiga. Madison está tão longe da verdade que isto nem tem piada. Por muito que me sinta sensibilizado pela sua necessidade de defender a minha honra, sei que a conversa tem de acabar antes que Juliet decida revelar a que ponto sou imperfeito. – Vamos? – pergunto a Madison, desejoso de pôr fim àquele pesadelo. Felizmente responde: – Com certeza – sem nunca deixar de olhar para Juliet. – Hum… Dixon – diz Juliet quando me volto para sair. – Sim? – pergunto de costas para ela, a fazer um esforço para me dominar. – Posso dar-te uma palavra? – pergunta, e Madison gira sobre os calcanhares para a olhar. – Para quê? – pergunta, irritada. – Não tens nada para falar com ele. – Não faz mal, Madison – contraponho, a virar-me para enfrentar o olhar de Satanás. – Em privado – acrescenta Juliet com um sorriso malvado e a cruzar os braços sobre o peito. – De maneira nenhuma! – rosna Madison, que dá um passo furioso em frente, mas agarro-a pelo braço a tempo. – Dixon? O horror está-lhe estampado no rosto quando me olha por cima do ombro. – Está tudo bem. Seja o que for que ela tenha para me dizer em nada altera o que sinto por ti. Espera por mim lá em baixo, está bem? Prometo que não demoro – asseguro-lhe. – Confias em mim?


– Claro que confio – murmura em resposta, e a sua honestidade toca-me de uma maneira que julguei impossível de acontecer. A ideia de perder Madison rasga-me no peito uma chaga dolorosa. Juliet tem na mão o poder de decidir sobre o meu destino, mas espero que mostre alguma compaixão no momento de se decidir. – Espero-te lá em baixo – declara Madison em tom seco e com o lábio a tremer. – Angelo – digo quando ela se vira para sair. Roda nos calcanhares para me encarar e vejo nos seus olhos a esperança de que eu tenha mudado de ideias. Gostaria de o fazer, mas não posso. Tenho as mãos acorrentadas e a chave está na posse de Juliet. Madison espera que eu diga qualquer coisa, mas não consigo. Não há palavras que exprimam a tristeza que me vai na alma. Portanto, deixo que o gesto fale por mim. Alcanço-a em duas passadas, aperto-a num abraço sufocante e faço descer a minha boca sobre a dela. Corresponde ao beijo com um entusiasmo igual ao meu, pois ambos precisamos de marcar pontos em relação a Juliet. Pode encontrar-se na mó de cima, mas o que eu e Madison temos é verdadeiro, e para o destruir será preciso muito mais do que um coirão despeitado. Sou eu que interrompo o beijo e Madison protesta, a fazer beicinho. – É só uma amostra do que aí vem – murmuro, a beijar-lhe a ponta do nariz. – Até já. Madison concorda com um gesto da cabeça e os olhos transmitem inquietação, mas dá meia volta e deixa-me sozinho com o Anticristo de saltos altos. – Qual é a tua ideia? – pergunto quando Madison entra no elevador. – Isso é maneira de falar com a família? – pergunta Juliet sarcástica. – Tu não és da minha família – rosno, já que ela não faz ideia do que é uma família. – Seja como for, não tenho tempo para conversa fiada – responde sem elevar a voz, parecendo indiferente à delicadeza da situação e a acenar para um casal idoso que passa por nós. – Então vai directa ao assunto – atalho, e desaperto o nó da gravata. – Oh, és sempre tão exigente – replica, com um sorriso perverso a perpassar-lhe pelos lábios pecaminosos. – Tenho a certeza de que te recordas. Ou precisas que te refresquem a memória? Faz deslizar a unha pelo meu ombro, mas afasto-lhe a mão com um sopapo, indiferente ao facto de alguém poder ver. – Não me toques. Se queres falar, fala. Estou a ficar sem tempo e paciência. – É melhor que sejas simpático comigo, Dixon. Quero dizer, temos um segredo em comum, e só nós o conhecemos. Leva as mãos ao ventre. – Essa criança não é minha – sussurro, e lanço um olhar enojado à barriga protuberante. – Como sabes? É preciso lembrar-te de todas as maneiras nojentas como me fodeste sem qualquer protecção? – pergunta num murmúrio e a chegar-se para mim. Dou um passo atrás. – Se não tivesses sido tão mau para mim da última vez que nos encontrámos talvez isto não fosse tão embaraçoso. Nem quero acreditar que era ela que estava na tua cama. Que pena, não é? – O que queres? – repito, sem disposição para joguinhos.


– Não conto nada a ninguém sobre nós – responde, para surpresa minha. – Com que intuito? – insisto, sabendo que uma pessoa como Juliet nunca faz nada se daí não lhe vier benefício. – Nenhum, apenas um favor de tempos a tempos. – Que tipo de favor? – pergunto, a cerrar os dentes, sem saber até onde aquela conversa nos levará. – Gostei muito de ti, Dixon. O que tivemos em conjunto foi… bastante divertido. – Nem penses – replico, nauseado. – Nunca mais te tocarei com um dedo. Faz a chantagem que quiseres, mas nunca, nunca, hei-de enganar Madison, estás a ouvir? – Isso é o que veremos – chilreia. A sua autoconfiança, que em tempos me atraiu, agora revolta-me o estômago. – Porquê? – ataco, e dou um passo em frente. – Vais casar com o Peter. Fode com o teu marido e deixa-me em sossego. – Amo Dylan, amo mesmo, mas ele está apaixonado por outra pessoa. Sempre esteve, e quero que deixe de ser assim – confessa. Abro a boca, espantado. Ele está apaixonado por ela? – Metes nojo. Repugna-me a ideia de alguma vez ter fodido com aquela mulher. – Oh, eu sei, doutor Mathews. Recordas-te do sítio onde nos conhecemos? Pedi-te ajuda, e tu ajudaste fodendo-me de toda a maneira possível e imaginária. E eu gostei. Baixo os olhos, enojado comigo mesmo por alguma vez me ter ligado àquela mulher doentia e retorcida. – O que fizemos foi por mútuo consenso. Por que lhe dás mais importância que aquela que merece? Foi sexo, Juliet. Nada mais, nada menos do que sexo. – Tens razão, e gostaria que assim tivesse ficado. Mas o facto de me teres preterido em favor daquela cabra magoa-me. Venho sempre em segundo lugar. Não sou suficientemente boa para ninguém, estou farta de ficar atrás. Em especial de ficar atrás dela – cospe raivosa. Acode-me à memória a conversa que tivemos no consultório, já lá vão alguns meses. Pouco antes de começarmos a fazer todas as loucuras que fizemos ao longo desses dois meses e meio. Juliet lamentara-se de não ser boa para ninguém, e percebo agora que esse alguém era Dylan. A voz enfatuada de Juliet arranca-me aos meus pensamentos. – Faço um pacto contigo. Mantenho o meu noivo longe da tua queridinha, tu garantes-me que fazes o mesmo com ela e ficamos todos felizes. – Estás a falar de quê? – rosno. Madison disse-me que não via Dylan há mais de um ano. – O que foi, não ouviste? Dylan vem viver comigo – explica Juliet, e sinto que vou vomitar. Aquele filho-da-puta parasita a viver no mesmo bloco de apartamentos onde vive Madison vai estragar todos os progressos que ela fez até agora. O simples facto de poder dar de caras com ele a uma esquina vai assustá-la de morte. Para não falar no receio de que lhe possa entrar em casa, tal


como fazia quando eram crianças. Vai ficar louca. Será como reviver a infância a todo o momento, e acabará por matá-la. Juliet percebe a minha hesitação e sorri. – Tudo o que tens de fazer é estares disponível para mim quando precisar de ti, e podemos todos brincar às famílias felizes. – Por que razão estás a fazer isto? – pergunto, embora saiba porquê. É a mesma que a levou a procurar-me. Tem tudo a ver com poder e controlo. Como se apanhasse a deixa, Juliet responde. – Porque posso. Disse-te que havias de voltar, a implorar uma segunda oportunidade. Mas para ser sincera nunca imaginei que rastejasses, em vez de pedires. O meu rosto contorce-se de raiva e ela solta uma gargalhada. – Nunca pensaste que seria fácil veres-te livre de mim, pois não? Agora és tu a minha puta – conclui, a aproximar-se a apalpar-me os tomates. – Isto é chantagem – sibilo entredentes, com os tomates apertados na mão de Juliet. – O karma é uma puta, doutor Mathews. – Vou contar tudo a Madison – ameaço –, pois não me considero a puta de ninguém. Tenho de proteger Madison, custe o que custar. Porra, pode vir viver comigo. – Avança – responde Juliet com um encolher de ombros. – Tenho a certeza de que o conselho deontológico da Ordem adorará ouvir como fodeste uma paciente. O sangue foge-me do rosto e Juliet abre a boca, surpreendida. – Oh? Queres dizer que não fui a primeira? Caramba, és mesmo um rapazinho travesso, doutor Mathews. Tenho a certeza de que Miss Pureza em pessoa há-de adorar ouvir o relato das tuas práticas pouco éticas. Juliet tem-me agarrado pelos tomates e não vejo maneira de me desembaraçar da situação. Mesmo que conte a verdade a Madison isso não evitará que Juliet me denuncie à Ordem se for essa a sua vontade. É uma mulher despeitada em busca de vingança e só tenho de me culpar a mim mesmo. – Muito bem – rosno, e dou um passo atrás, apesar do protesto dos meus tomates. – Ganhaste. Juliet arqueja, espantada com o facto de eu me magoar ainda mais, mas a dor física não é nada em comparação com o que este pacto faz à minha condição de homem. – Mas que fique bem claro. Não sou a puta de ninguém. Acabaste de assinar um pacto com o diabo, minha querida. – Sem cuidar de quem pode estar a ver, aproximo o meu rosto do dela com um esgar malvado. – É melhor apertares o cinto, que a viagem vai ser agitada. Juliet empalidece, e percebo que o ódio que lhe tenho irradia por todos os poros do meu corpo. Mas estou disposto a fazer o que for preciso para defender Madison, nem que seja vender a minha alma em troca da sua liberdade. – Vemo-nos por aí – quase lhe cuspo na cara e ela dá um passo atrás. Sorrio, pois não faz ideia com quem se está a meter. Recompõe-se quando o casal idoso se volta a aproximar, a olhar-nos com ar desconfiado. – Podes sempre contactar-me – murmura.


– Mal posso esperar. – Se te resta algum orgulho, podes afastar-te de cabeça erguida – replica, a repetir as minhas palavras de despedida. – Vai-te foder. – A ideia é essa – responde em tom arrogante. Pisca-me o olho por cima do ombro antes de se afastar como se não me tivesse chantageado e dominado como a um cãozinho de estimação. Tenho de sair dali depressa, pois estou quase a perder as estribeiras, e antes de arranjar uma barafunda preciso de reflectir. Corro para o vão das escadas. Preciso do esforço de descer os vinte e dois pisos para me sentir de novo um ser humano. Com que raio acabei de concordar? Vendi a alma a Lúcifer e agora não sei o que fazer. Nem me passa pela cabeça fazer aquilo que Juliet propõe. Não posso. Não posso tocar-lhe da maneira como ela deseja, já não sou esse homem. Madison fez de mim outra pessoa e nunca me senti tão vivo. Mas qual é a alternativa? Juliet tem poder para destroçar a minha vida pessoal e profissional. Mesmo que as suas acusações caiam em orelhas moucas, uma vez proferidas a minha reputação estará arruinada. Não vivemos num mundo compassivo, em especial quando se circula entre ricaços de carácter desprezível. Quando chego ao décimo quarto andar, dou-me conta de que estou irremediavelmente fodido. O meu passado sórdido voltou para me atormentar e só tenho de culpar-me a mim mesmo. Podia atirar as culpas do meu desregramento para Lily ou para a morte da minha mãe, mas não passaria de uma desculpa. Fiz o que fiz porque gostei de o fazer. Se trocasse de lugar e fosse eu a ocupar a cadeira de juiz, havia de me diagnosticar uma devassidão da pior ordem. Viciado no pecado. Quando empurro a porta com o ombro e procuro Madison com os olhos, escorro suor e tremo de raiva. Quando a vejo, o coração cai-me aos pés de arrependimento, pois está encostada a uma parede, a chorar. Será que Juliet mudou de ideias e se me antecipou para lhe contar a que ponto sou um canalha? – Madison – chamo, e corro para ela. Volta-se e sustenho a respiração, sem saber o que verei nos seus olhos. Para logo soltar um suspiro de alívio quando o seu rosto se ilumina de alegria e felicidade. – Dixon – grita, a vir ao meu encontro. – Vieste pela escada? – pergunta, a fungar e a mirar o meu aspecto desgrenhado. – Vim. O elevador estava a levar muito tempo, e mal podia esperar para te ver. Estás a chorar porquê, angelo? Enxugo-lhe uma lágrima com o dedo. Inclina o rosto para o chão e tenho de lhe erguer o queixo com a ponta dos dedos. – O que aconteceu? – Eu… pensei que tivesses mudado de ideias. – A nosso respeito? – pergunto, horrorizado. – Sim – confessa, com uma lágrima a descer-lhe pelo rosto.


– E por que motivo havias de pensar uma coisa dessas? – tranquilizo-a, a limpar a lágrima. – Por causa de Beth – admite com uma expressão triste. – Aquela mulher é um veneno, Dixon. Tudo em que toca se torna um nojo. – Pois não tens com que te preocupar – declaro, a puxá-la para os meus braços. – Nunca me vai tocar – repito, seguro das minhas palavras. – Queria falar contigo a respeito de quê? – pergunta em tom abafado, encostada ao meu peito. – Não tem importância. A única coisa importante és tu. Foi uma noite cansativa. Vou levar-te a casa. Preciso de estar o mais longe possível de Juliet. – Posso ficar em tua casa? – pergunta nervosa. Em circunstâncias normais rejubilaria ao ouvir aquela prova de confiança, mas neste momento acho que não a mereço. Mas como posso dizer que não? – Pois claro. Não há nada que me dê mais prazer. Sem a largar, não resisto a fazer a pergunta: – Beth porquê? Madison funga e abraça-me a cintura com mais força. – Ao que parece, a mãe deu-lhe o nome por causa de Julieta Capuleto. Segundo a Juliet, foi por ser de uma beleza excepcional e conseguir captar o coração de qualquer homem. Amigo ou inimigo – acrescenta, e não posso deixar de rir perante a prosápia de Juliet. – Seja como for, eu e Mary entendemos que Macbeth era a personagem de Shakespeare que melhor lhe assentava. Quando digo Macbeth estou a falar de Lady Macbeth. Lady Macbeth é má, ambiciosa e manipuladora. E está de conluio com as bruxas. E foi assim que ficou Beth, que sempre lhe fica melhor do que Juliet. – Creio que escolheram bem – concordo em tom desdenhoso. Madison afasta-se e olha para mim, cheia de curiosidade. Não dou qualquer explicação, e em vez disso pergunto: – E a minha alcunha, qual é? Pensa durante um momento e depois sorri. – Dixon, mais nada. – É mesmo? Não tenho direito a um nome especial? – pergunto em pose teatral. Madison estende a mão e pousa-a sobre a minha cara. – O teu nome já é suficientemente especial – admite com sinceridade, e sinto que o meu coração se parte em dois.


Quinto acto


Capítulo 35 Escolher com sensatez

Dixon Na vida, é-nos dada a oportunidade de escolher entre fazer o bem ou fazer o mal. E seja qual for a opção tomada, reflecte-se sobre toda a nossa vida futura. Se então soubesse o que hoje sei, teria escolhido de maneira diferente? Baixo os olhos para o anjo adormecido ao meu lado e sei que a resposta é sim, teria escolhido de maneira diferente. Mas esse é o problema da retrospectiva: ninguém tem uma bola de cristal que preveja se a sua decisão é a certa ou a errada. Temos de viver com as consequências e viver a vida que escolhemos. Portanto, escolham bem, meus amigos, pois uma vez assumida a opção… não há maneira de voltar atrás. Então, qual foi a minha escolha? Só me restava uma opção. Fui obrigado a isso… e agora, fui engolido pelo pecado. Que maior castigo há que a vida quando se perdeu tudo quanto a tornava digna de viver? Romeu e Julieta, WILLIAM SHAKESPEARE


Uma carta de Monica

Obrigada, merci, danke, toda, grazie, salamat po e arigato! Seja qual for a língua, gostaria de agradecer a todos vós por terem lido Viciado no Pecado. Tenho a suprema felicidade de ter leitores como vocês, dispostos a acolher-me no vosso coração e nas vossas casas, bem como às minhas personagens. Há imensos aspectos deliciosos no acto de escrever e um dos meus preferidos consiste em imaginar o que você, caro leitor, pensou. Imagino-o sempre a rir, a gritar, a desfalecer, com a mesma vontade de atirar com o livro e gritar não, ele não fez isso na mesma altura em que o fiz. Se gostou de Dixon e do seu pequeno grupo pecaminoso, gostaria imenso de ouvir a sua opinião. Partilhar demonstra interesse, é importar-se, e ficaria muito grata se pudesse dispensar uns momentos para uma curta crítica. E aqui só entre nós, o doutor Mathews também. ;) Para se manter a par das notícias mais recentes sobre os meus livros sem perder pitada, basta clicar no link abaixo. www.bookouture.com/monica-james Mais uma vez obrigada por ler os meus livros. Esteja atento ao livro 2 Empurrado para o Pecado… que sairá em breve. Se no livro 1 acharam que Dixon Mathews era deliciosamente mau, o melhor é agarrarem-se bem, pois apenas navegaram à superfície, meus amigos. Nas palavras do doutor Mathews: «Quem quer ser bom se ser mau sabe tão bem?» Com todo o meu amor, MONICA JAMES


Agradecimentos

Julguei que, com a prática, esta parte da escrita se viesse a tornar mais fácil. Enganei-me. O meu obrigado a Bookouture pela confiança demonstrada em alguém em quem acreditaram desde o primeiro momento. Claire Bord, obrigada por ser uma das pessoas mais pacientes e profissionais que já conheci. Para a minha espantosa e brilhante agente Madeleine Milburn: Maddy, és uma superstar! Desde o instante em que nos conhecemos percebi que serias tu a divulgar o meu livro. Recordo-me de teres prometido que havias de apregoar Viciado no Pecado até do alto dos telhados! E foi o que fizeste, e muito mais. És única entre um milhão de milhões e espero que venhamos a ter uma longa e bem-sucedida carreira juntas. Mal posso esperar para te dar um grande abraço. Obrigada também aos funcionários excepcionais de Madeleine Milburn Literary, TV & Film Agency, em especial a Cara Lee Simpson. Cara, tenho em grande apreço tudo o que fizeste! Não houve pergunta que ficasse sem resposta, e quero sinceramente agradecer-te por teres sido tão paciente e afectuosa comigo. A segurança que demonstraste quando por diversas vezes me passei dos carretos foi formidável! Sem ti, nada teria conseguido! Uma palavra para a rapariga das palavras, Toni Rakestraw. Toni, não sei quantas vezes já te disse isto, aprecio a tua garra. Obrigada por teres feito de mim a escritora que sou hoje. Sem ti, o meu livro seria apenas um amontoado de palavras. Kim Nash – és espantosa, e não podia gostar mais de ti! Gostaria de poder engarrafar o teu sentido de humor, pois sempre que falamos tenho dificuldade em parar de rir! Obrigada também pelas sugestões de organização do texto! Jay McLean – serás sempre o meu par! Obrigada por todas as nossas conversas. Os teus conselhos, a tua honestidade e, acima de tudo, a tua afabilidade, fazem de ti uma das pessoas mais sinceras e genuínas que conheço. O que mostras é aquilo que és, e gosto muito, mesmo muito, do que me é dado ver. Kendall Ryan – muito grata pelos teus conselhos e pela ajuda que me prestaste. Antes do nascimento do meu filho estiveste sempre presente para ajudar, e por isso sentir-me-ei eternamente grata. Aos meus amigos e colegas autores: Lisa Edward, Tina Gephart, Beverly Preston, Beth Michele, Nina Levine, Steve Genis, Kylie Scott, Carmen Jenner, Kathy-Jo Reinhart, Christina Lauren, Whitney G., Kirsty E. Moseley, Natasha Preston e Jacinta Maree, Heidi McLaughlin, Rachel Brookes, Justine Elvira, Ilsa Madden-Mills, CJ Roberts – os meus agradecimentos pelas conversas inspiradoras e pela amizade.


Um agradecimento especial para Lisa Edward e Melissa Stewart-Allum pelo tempo gasto a ler a primeira versão de Viciado no Pecado. Gostei dos vossos comentários. Adriana McWilliams – se não fosses tu, ainda estaria a repensar a capa de I Surrender! Muito agradecida por tudo, miúda. Sinto-me feliz por nos termos por fim encontrado! Tu e Scott são as pessoas mais simpáticas do mundo, e mal posso esperar para te voltar a ver! Viva a continuação da amizade! E para vocês, magníficos bloggers! Há muitos de entre vós que me ajudaram a difundir Dixon Domination por esse mundo fora. Não sei como vos hei-de agradecer! Vocês são verdadeiras estrelas de rock! Obrigada! Bethany MacNicholl e as miúdas, Mindy, Lynne & Angela, de Talkbooks – tenho uma veneração por cada uma de vocês. Um agradecimento especial à minha gatinha do rock, Lisa Pantano Kane, em Three Chicks and Their Books. Sei que em breve me tencionam visitar em Cat Island. Um abraço especial e aconchegado para Annie Gabor e as miúdas, Lexy, Jamie & Jocelyn de All Is Read – Lexy, podes lançar-me olhares aterradores sempre que te apetecer. Annie, podes raptar-me! Não como muito! À minha maravilhosa família – a mamã, o papá, Fran, Matt, Samantha, Amelia, Gayle, Peter, Luke, Leah e Shirley. Sou a pessoa mais sortuda do mundo por vos ter. Vocês dão luz ao meu mundo de uma maneira que não consigo exprimir. Papá e mamã – vocês são a minha inspiração. Amo-vos muito. Gayle e Peter – muito obrigada pelo apoio constante. Sou muito feliz por vos ter como cunhados. E obrigada pelo merengue de limão! Para o meu maravilhoso marido, Dani. És a minha estrela do rock. Tenho imenso orgulho em ti. Fran – obrigada por te prestares a ser a minha ajudante. Da próxima vez havemos de descobrir como se monta a bandeira. Tragam o bufete! Samantha e Amelia – os vossos sorrisos iluminam o mundo. A vossa tia adora-vos. Louise Mercer – há mais de metade da minha vida que te conheço. És a minha eterna irmã, e gosto muito de ti. Vamos tratar de abrir depressa Cat Island! Gemma Cawley – és o meu amplificador, a minha trepadora arrojada, o meu grito de sereia e Harry Potter. Nicole Smith e Tacey Kingston – sem o vosso toque mágico não passaria de uma velhinha torta com a postura incorrecta e a usar os ombros como brincos. Agradecimentos extra-especiais: Karli Roderick, Yvonne McBroom, Vicki Ballantyne, Jane Ashton, Jaz Menta, Amy, Lauren, Sandy Borrero, Vilma Gonzalez, Natasha Giagnacovo Rochon, Bianca Smith, Lynnette Stallone, Romance Writers of Australia, e os meus primos: Michael, Rob, Elisa, Evan, Alex e Francesca, bem como os meus tios e tias. Para os meus bebés peludos – a mamã gosta muito de vocês! Buckwheat, espero que tu e a Gertrude n.º 5 vivam felizes para sempre. Dacca, hei-de proteger-te sempre do Belli grande e mau.


Mitch, toma para ti o que disse a Dacca. Jag, és um wombat disfarçado. Bellie, és um demónio disfarçado. Ninja, obrigada por tomares conta de mim. A todos os que não referi, peço desculpa! Não foi intencional. Para deixar tudo em pratos limpos, esta foi para ti. Por favor insere o teu nome para um agradecimento personalizado. Monica James agradece calorosamente a _____________________! Fica a dever-te um café e um milhão de abraços. Com amor, Mx Por fim, mas não por último, quero agradecer-te a TI! Muito obrigada por teres lido Viciado no Pecado.


Rua do Loreto, n.º 16 – 1.º Direito 1200-242 Lisboa • Portugal Reservados todos os direitos de acordo com a legislação em vigor © 2015, Monica James © 2015, Planeta Manuscrito Título original: Dirty Dix Tradução: Victor Antunes Imagem da capa: © Shutterstock 1.ª edição em epub: Março de 2017 Conversão para epub: Segundo Capítulo ISBN: 978-989-657-920-3 (epub)

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Viciado No Pecado - Mônica James  
Viciado No Pecado - Mônica James  
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