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Especial

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BeloHorizonte,quinta-feira,5.6.2014 HOJEEMDIA

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História, cultura e desenvolvimento sustentável Patrimônio e habilidades tradicionais como pilares da construção de cidades mais humanas, públicas e cidadãs WESLEY RODRIGUES

Arquiteto e urbanista, o professor da UFMG, Leonardo Barci Castriota salientou a necessidade de se ter em mente uma perspectiva histórica para a construção de cidades que tenham a qualidade de vida do cidadão como ponto norteador de suas atividades. Castriota, que participou da mesa “Cidades Humanas, Públicas e Cidadãs”, defendeu que a história e as habilidades tradicionais locais são um caminho para o resgate da cidade como espaço para o exercício da liberdade, assim como era vista à época de sua criação. “A cidade era o encontro das diferenças, uma espécie de utopia, para onde os homens se dirigiam para serem livres das amarras feudais. Uma projeção positiva que contrasta com o que temos hoje. Uma distopia, uma visão do caos, como a passada no filme Blade Runner”, afirmou o arquiteto, ao observar que essa experiência do caos foi gerada, en-

tre outros fatores, pelos problemas de transporte, trânsito e mobilidade dos grandes centros urbanos. “O que eu quero mostrar é o que podemos fazer para transformar essa realidade tendo como referência a história”, acrescentou. Como exemplo, ele citou o Projeto Lagoinha, idealizado durante a administração Patrus Ananias, entre 1993 e 1996. O projeto, que pretendia revitalizar a Lagoinha, um dos bairros mais tradicionais da cidade, mas que, em razão de mudança de governo, foi abandonado antes de ser concluído, pode ser retomado num esforço conjunto da UFMG, da associação de moradores e do Instituto de Estudos do Desenvolvimento Sustentável (Ieds). Antes caracterizada por uma pulsante vida cultural e boêmia, com grande concentração de ofícios considerados tradicionais, a Lagoinha foi se deteriorando gradativamente, ao longo da segunda metade do século XX, com a descaracterização de suas edificações his-

LEONARDO CASTRIOTA

tóricas e falta de incentivos ao desenvolvimento de suas habilidades locais. Nos últimos anos, com as políticas públicas voltadas para o desenvolvimento do Vetor Norte, a região sofreu ainda mais, por estar localizada no caminho entre o centro e a Pampulha, com um processo de descaracterização ainda maior provocado por grandes obras rodoviárias, como a construção de viadutos e o alargamento da Antônio Carlos, deixando à margem do

desenvolvimento da cidade os seus moradores. Segundo Castriota, quando foi idealizado, o projeto buscava a revitalização do bairro, por meio da requalificação ambiental, social, econômica e cultural. A ideia era incentivar os ofícios tradicionais, como os antiquários estabelecidos ali, inclusive com a criação de um centro de artes e ofícios, que serviria de celeiro para a divulgação dessas habilidades, requalificar os espaços públicos e ainda a

restauração de edificações históricas, públicas e privadas. A participação dos moradores no planejamento e execução das ações, de acordo com ele, era outra característica do projeto. Para a retomada da região como polo de geração de cultura também foram idealizadas várias iniciativas, como a valorização das manifestações religiosas locais, centralizadas pela Igreja de Nossa Senhora da Conceição, onde surgiu a primeira banda de música da cidade. Mas com a mudança de governo, em 1996, somente foram concluídas a recuperação das calçadas da rua Itapecerica e de 26 edificações históricas. “Hoje estamos retomando o projeto. Alguns estudos estão sendo refeitos e novos projetos estão sendo formulados para tratar, por exemplo, das cicatrizes deixadas pelo alargamento da Antônio Carlos. Vamos também voltar com a proposta da instalação do centro de artes e ofícios. A ideia é tratar a questão num modelo não baseado nas funções, mas nas pessoas”, disse.

Castriota explicou que o Projeto Lagoinha se baseia em uma visão de reabilitação urbana, difundida no mundo a partir da década de 1980, que parte da compreensão da realidade sobre a qual se quer atuar. Nessa perspectiva, as políticas de patrimônio não se limitam a apenas formular estratégias de controle para as áreas a serem conservadas, mas passam a traçar linhas de atuação mais amplas para o seu desenvolvimento, que partem exatamente das características próprias da região que se quer conservar. Entre as iniciativas executadas dentro dessa linha de pensamento, o arquiteto citou o Projeto Estratégico de Reabilitação Integrada de Barcelona. Um plano e múltiplo, que reuniu projetos urbanísticos, culturais, socioeconômicos e de desenvolvimento, realizado no final da década de 1980 e início dos anos de 1990 na cidade espanhola que seria sede dos Jogos Olímpicos em 1992.


Diarios especiais pag 13 20140605