Issuu on Google+

JORNAL DA ASSOCIAÇÃO PACHAMAMA – ANO V / NÚMERO 13 / outono 2011

editorial Melusina Iriarte/ Rosângela Maria da Silva

Kuichi Dédalos/Ivone de Almeida Lopes

O

momento planetário convida a um senso de pertinência mais simples e real. Os recursos naturais do planeta, resultantes da interdependência dos seres de todos os reinos em profunda conexão com os grandes arquitetos e orquestradores dévicos, não são nossos. A humanidade não detém o planeta, os 80 ou 800 metros quadrados do terreno onde moro, onde está a minha casa e jardim não são meus. Nem a casa, nem o jardim, nem os móveis, eletrônicos e plantinhas que comprei e cultivo. Meu. Teu. Posse. Eu tenho. Nada disso. Vivemos o tempo de aprofundar a percepção da realidade para compreender quem somos e o que estamos fazendo aqui. É fazer isso, ou aguentar e ranger os dentes presos nas gaiolas do racional limitado e limitante. O planeta e seus seres, aos quais ignorantemente chamamos “recursos”, não estão para serem extraídos, usados e abusados pelos humanos. E sim, os humanos é que pertencem ao planeta, a esse ser imenso que chamamos Mãe Terra, Pachamama. A humanidade é uma ínfima parte deste ser, que deveria estar em harmonia dentro da grande teia de relações de interdependência que mantém a vida neste plano de consciência e existência. A casa me tem. O jardim me possui. O carro e o celular são meus donos. A quem me entrego? À consciência viva do grande ser que me abriga e sustenta, respeitando seus ritmos e ciclos? Ou, aos brinquedinhos eletrônicos, jogos sociais de status, poder e brilho efêmeros do dito sucesso? “Mano ocupada, mano perdida”, canta Facundo Cabral. Mente iludida, mente gaiola. Mesmo que seja de ouro é uma prisão para a essência natural do nosso ser que faz parte dos sagrados ritmos de Pachamama, pois filha dela, parte dela. Que possamos voar baixo como pequenos pardais, simples e reais. Simplicidade na vida material, simplicidade em nossas escolhas a respeito de onde passar nosso tempo, cultivando relações de amizade e carinho mútuos baseados na profunda compreensão da Vida Una.

Nos ritmos da Mãe Terra JARDINEIROS DE PACHAMAMA – O alerta das colmeias - Página 6


2 - Peregrino - Outono 2011

ações em andamento

Aqui acreditamos nos sonhos

Caridad Romero Mendizabal/ Ana Luiza Patella

Caridad Romero Mendizabal/ Ana Luiza Patella No domingo, dia 20 de fevereiro, a Associação Pachamama inaugurou em Pelotas/RS, o Centro Cultural Pachamama, localizado à rua XV de novembro, 1026. Este sonho começou faz algum tempo, quando sentimos a necessidade de termos um local onde pudéssemos realizar palestras, reuniões, meditações diárias, yoga andino, oficinas de artesanato, exibições de filmes com debates a respeito dos mesmos, exposições e recitais. Por muito tempo sentíamos que precisávamos concretizar o sonho de ter este espaço grupal, nosso “Ashram urbano”, como o chamamos. Assim, um de nossos associados Arthur Dédalos/Renato Goulart, um guerreiro querido, teve a iniciativa de agir e não ficar só sonhando e saiu atrás de uma casa que pudesse abrigar nossos sonhos. Quando esta casa surgiu, ele foi nos chamar para que fosse um sim grupal. O espaço era muito mais especial do que havíamos sonhado: tem um lindo jardim com estátuas de anões, vários quartos para abrigar os “hermanitos” peregrinos de nossa senda, uma cozinha que nos chama a fazer jantares de confraternização e as janelas da casa, tem corações em seus postigos. E assim, no espaço de uma semana, a casa foi alugada e iniciamos as reformas necessárias, para torná-la acolhedora. Naquele domingo, quando cheguei lá, só estava a presidente da Associação Pachamama – Aradia Iriarte/ Ana Rita Bretanha Souza –, que desde cedo arrumava nosso Centro Cultural, para que estivesse impecável quando chegassem nossos convidados. Aos poucos as cadeiras foram sendo ocupadas, as almofadas do chão e o tapete também... E quando as primeiras notas musicais do som do violão de Dom Victor Mendizabal/Maurício Mendonça soaram, havia gente em pé até na rua, casa lotada! Fomos conduzidos às montanhas andinas, ao som de El Condor Pasa e após ouvimos uma música intitulada Pachamama, linda demais.

Centro Cultural Pachamama foi inaugurado em fevereiro em Pelotas

Após o recital, ouviu-se a palestra do Mestre Lucidor Flores. Este grande inspirador do Movimento da Mística Andina falou sobre a sabedoria sagrada dos Andes, sua simplicidade, suas raízes e também sobre as nossas raízes as quais jamais devemos esquecer. Falou do bom que é em morarmos em cidades como Pelotas, ainda uma pequena cidade, onde conhecemos os vizinhos, as árvores de nosso quarteirão, o dono da fruteira. Falou sobre as escolhas que fazemos a cada dia e falou sobre nossa senda. Uma senda que respeita e segue a voz do nosso coração, a voz do Mestre Interno, uma voz que só conseguimos escutar quando nosso instrumento está afinado e que é para afinar nosso instrumento que fazemos em março e setembro, uma prática que dura 21 dias, onde purificamos nosso corpo físico, emocional e espiritual e convidou aos presentes a se juntarem a todos nós que já fazemos essa prática há vários anos. Ao final, falou sobre nosso Centro Cultural Pachamama, e concluiu dizendo que onde há cultura, há luz. Foi servido um coquetel e todos

nós entre sanduíches gostosos, preparados por várias mãos de fadas integrantes do Movimento da Mística Andina, pudemos apreciar as belíssimas fotografias de João Luiz Zani e Emmanuel Cruz/Rafael Grigoletti (de São Lourenço do Sul/RS). O tempo foi passando, as pessoas conversando, as estrelas surgiram no céu e o violão de Maurício voltou a tocar e encantar a todos, desta vez no

alpendre de nosso centro Cultural Pachamama e assim encerramos a noite, enquanto as notas musicais soavam e se perdiam no céu escuro. Iniciamos uma nova etapa para a Associação Pachamama, esta ONG que nasceu em 2006, na intenção de servir e tratar carinhosamente à mãe terra, este planeta tão especial, no qual moramos e que nos abriga amorosamente.


Peregrino - Outono 2011 - 3

trabalho na luz

O alegre perfume da entrega

O que dirias se te perguntassem: o que é se entregar? E, mais: o que é amar? Tais questões caminham juntas, pois amar e se entregar é, antes de tudo, ACEITAR. Aceitar o outro e a vida com o coração vazio de julgamentos e de críticas. Pois só podemos dizer “eu te amo” se puramente somos capazes de aceitar o outro como ele é. Assim, só AMO se aceito. Mas, aceitar o quê? Aceitar no outro a presença da luz e de Pachamama. Portanto, o amor é entregar-se e entregar-se é aceitar... Por exemplo, viver o movimento da Mística Andina tem nos convidado a olhar o feminino sagrado com devoção e gratidão. Hoje vejo em minha amada mãe a ação do tempo, mas também a beleza de quem um dia abriu mão de muitas coisas para cuidar de mim e de meus irmãos e ainda nos aceita e se entrega ao nosso modo de ser. Assim, as mães são o maior exemplo de aceitação. Elas amam os filhotes como são: com suas feiúras e suas belezas, elas amam, porque aceitam. No mar, a fêmea polvo coloca os ovos em lugar seguro, uma “caverna”, e fica sem se locomover do local, cuidando dos ovos para que não cresça algas e estes não virem alimentos. Ali ela fica até que o primeiro “polvinho” se entregue à vastidão do mar. Neste momento, a fêmea morre, após passar seis meses sem se alimentar e se entregando ao amor de oferecer a vida. Com o exemplo da fêmea polvo vamos nos propor algo? Dizer “eu te amo” de coração e alma àqueles que conseguimos olhar nos olhos e verbalizar: EU TE ACEITO E ME ENTREGO. Fácil? Talvez não! Mas, é um lindo desafio, pois o cabeção criticador oferecerá vários palpites. Ele dirá: como aceitas se ele/ela faz isso ou te fez aquilo? Não importa o que passou, só o hoje existe. Assim, iremos ao encontro da aceitação e da entrega. E quando chegarmos lá! Ah, que festa! Pois neste lugar habita um deva cheiroso e luminoso que nos envolve com sua dança. E se nos entregamos, desfrutaremos do deleite de uma dança perfumada, exalando alegria, entrega e clareza, portanto, amor. * Annabella Aguilar é o nome espiritual de Adriana Angelita da Conceição, discípula da Mística Andina, residente em São Paulo/SP, onde faz doutorado em História.

Esmeralda Molina/Mariana Franco

Annabella Aguilar/ Adriana Angelita da Conceição

O serviço irradiatório exala alegria devota e só aparece na entrega sincera


4 - Peregrino - Outono 2011

liberdade financeira

relato Divulgação Liberdade Financeira

O que é o real? O que você vê, toca, mensura?

Disciplina para concretizar sonhos Celina Iriarte/Anelise De Carli

mais uma vez está na natureza que vive dentro e fora, que transforma o simples, que tudo vive com amor e A vida é um movimento cíclico, e o mundo físico felicidade: gratidão. é uma consequência - e não a causa - de nossas emoEm quéchua, uma importante língua falada nos ções, de nosso estado mental e de Andes, a palavra ayni descreve a ajunossa espiritualidade. Através desda mútua praticada pelas comunidases sentidos entramos em contato des. Quando uma pessoa necessita Mais informações com o viver. Reprogramar a vida a de ajuda, alguém doa o que pode e, sobre o curso partir do sentir: essa é a proposta do por sua vez, em reciprocidade, é auLiberdade curso Liberdade Financeira, uma inixiliado quando precisar. Esse é um ciativa de Aaron Molina, um projeto Financeira em www. conceito-chave do curso e do nosso da ONG Pachamama. Através desse a Mística Andina. Assim ongpachamama.org movimento, pequeno curso-vivência, pretendecomo o tempo e o esforço, o dinheiro mos mostrar que mudando nosso é uma energia e nos ajuda a concrecomportamento podemos mudar o significado dos tizar sonhos, conquistas, faz parte da nossa vida nesse acontecimentos em nossas vidas. tempo. E, portanto, não deve ser tratado impensadaQuais são suas habilidades? E quais os seus so- mente, seu poder deve ser utilizado para a promoção nhos? No curso, percebe-se que, para fazer a roda do bem e pertence a essa lei do universo, o ayni, que girar, é somente necessário organizar certos aspectos movimenta a energia e é um símbolo de gratidão. da vida, que nos é presenteada como uma oportuniSomos convidados a pensar em nossa situação dade de aprendizado, uma oferta de carinho, um mar atual, nossas capacidades e planejar a prosperidade infinito de possibilidades. Muitas vezes, por medo e nesse aspecto através de simplificação do consumo, falta de confiança, restringimos nossos potenciais e, noções de economia e contabilidade e bons hábitos assim, impedimos a concretização de sonhos. de administração. E, é claro, celebrarmos cada conEm época de industrialização febril em que os quista! produtos comercializados têm obsolescência programada, enfrentamos o desejo do consumo constante. * Celina Iriarte é o nome espiritual de Anelise De Criamos frustrações pelos impedimentos materiais e Carli, discípula da Mística Andina residente em perdemos o valor da simplicidade na vida. A resposta Porto Alegre/RS, onde cursa Jornalismo.

Valores vivos Dom Felipe Obelar/ Fábio Luiz de Mello Martins Recebi uma mensagem de uma ex-aluna dizendo que eu a havia ensinado a confiar em si, a aprender sobre si mesma para depois conhecer o mundo, dizendo que mais do que um professor de sala, era um professor da vida. O que faz um adolescente acreditar em si, a partir da troca de experiências com um professor? Não sei. Não há receita, não há livros que ensinem isso, eu vivi a situação e não sei dar uma fórmula. Valores não são conceitos. Devem ser vivenciados e apreendidos. Devemos, já, despertar o viver de outra maneira. Fala-se muito em uma nova geração, em crianças índigo, cristal, mas mal florescem e as matamos com a energia do consumo! Só mudaremos com muito trabalho e esforço. Trabalhar com valores é um desafio, pois significa mexer em gavetas há muito arrumadas, determinadas e procurar acordar pessoas há muito dormidas. Sei que é possível, acredito! Vamos unir nossas forças e crenças, ver o que nos une e não o que nos separa! Pachamama é abundante, não nos dá escassez, nós que introduzimos a escassez nos sistemas e precisamos orientar nossas crianças, adolescentes e adultos a sair dessa rotina, através de valores e sentimentos, não conceitos. Sentir não é conceituar. Saber a definição de solidariedade e respeito de nada serve se não os praticamos. Acredito que a Escola de Valores da Mística Andina deve ter como princípio o experienciar, pois não se conceitua confiança, amor e felicidade, mas se confia, se ama, se é feliz. Sou apaixonado pela educação em valores. Há dez anos tive uma vivência com Kaká Werá Jecupé, um índio sábio, que me ensinou a arte de lembrar dos sonhos e de dançar com o coração, mas ele não me ensinou conceituando, nem com palavras, mas com o coração... E é com o coração que venho aprendendo com Lucidor Flores a vivenciar valores, ensinando e aprendendo a partir da consciência da Vida Una. Dentro e fora do Movimento da Mística Andina, vamos vivenciar valores, refletindo sobre como estamos e assim nos transformarmos para transformarmos o mundo, com as bênçãos de Pachamama em parceria com devas e mestres. * Fábio Luiz de Mello Martins é o nome civil de Dom Felipe "Pipe" Obelar, educador-aprendiz, poeta e sonhador.


Carnes, laticínios, ovos, frituras, açúcar refinado, arroz branco, refrigerantes, bebidas alcoólicas, enlatados, conservantes e corantes. Peregrino - Outono 2011 - 5 Estimulantes como café e chimarrão devem ser consumidos com moderação, sob risco de viciar e desgastar a mucosa estomacal.

pelas sendas da pachamama

Como um puma alerta... vou pelo caminho! Lucidor Flores/ Gerardo Bastos

Isolda Molina/Marissol Iglesias Bastos

A vida nos presenteou com uma luz consciente, que chamamos atenção. Andamos pelos caminhos da vida, com ela apagada. Passamos muito tempo sem saber conscientemente onde estamos, o que fizemos e esquecidos de nós mesmos. Quando encontrares o teu Mestre no plano físico, ele te dirá muitas vezes, mas muitas mesmo: ACORDA! Pois te asseguro que dormes fascinado pela identificação: com as coisas, com as conversas, com as pessoas. E reagindo mecanicamente, desde o inconsciente, onde tudo está pré-programado, emoções já prontas, respostas intelectuais já recebidas e armazenadas na memória. Observa o que te ensina este mestre. Para acercar-te da sabedoria mais alta, que se guarda em teu cardíaco,

tens que estar acordado, sensível, aberto, humilde, pequeno, como um índio americano. Assim, sentirás os fluxos do coração e serás novamente um índio sagrado. Mas, para isso, não adianta vestir-te como... ou cantar como... Tens que assumir teu puma interior, e viver felinamente alerta. Já viste os gatinhos, eles não dormem, não põem os pés em lugar errado, e ainda quando estão super relaxados, seu estado de alerta é total... como os velhos xamãs andinos, estão super acordados, e relaxados ao mesmo tempo. Índios todos! Não abandonem o estar conscientes. Não abandonem a vida, morando na inconsciência! É tão precioso o presente do agora... que a Alma se retrai quando tu segues e segues identificado com os objetos e seres de fora, ou com os pensamentos e as emoções de dentro. Acorda, e assume que erguido és um índio

destes pampas ameríndios, um puma sagrado, viajando pelas sendas da Pachamama, acordado, gentil, alerta, alegre, sábio e compassivo. Não é possível elevar a frequência vibratória estando dormido, se esgota o ser com tanta inconsciência, te esvazias de poder luminoso, perde-o todo na fascinação do sono... Amados peregrinitos! Façam neste tempo de batalha, contra a ignorância e o sono da consciência, um esforço de puma andino, para não perder a consciência, para não falecer todos os dias na inconsciência e hipnose. Fazemos tanto dano a Pachamama, por inconsciência, pelos mandatos do mundo mecânico, dominado pelos senhores do sono e consumo. Acorda terno peregrino! Sente o chamado da selva, dos jaguaretês, dos condores, das lhamas, dos peixes todos, o pranto de Pachamama é agudo... Não sentes?!

Acordar o puma interno é adentrar o campo da maestria: acordado, consciente, atento, alerta, relaxado e sutil

Nestes tempos preciosos, como um puma luta contra as correntes mecânicas do sono da consciência, a cada hora, a cada quinze minutos, pergunta-te, estou acordado? Estou consciente, aberto, relaxado e alerta como um puma? Faz-te um homem, faz-te uma mulher consciente, com a atenção acordada ao que estás fazendo, e a ti mesma, não te esqueças de teu Mestre do Coração que está ali, em cada agora... Sente e consagra-te como um puma acordado! Índios amados! Tudo é nosso, e tudo o que é nosso é de Pachamama. Cuidar do todo é nosso dharma, nosso dever sagrado, para isso acorda tua atenção. Une-te aos velhos caciques, aos antigos amautas, aos ancestrais kurakas, aos velhos pajés... Une-te aos acordados filhos da Pachamama e não abandones teus filhos vivos, as árvores, os gatinhos, os cachorros, os mares, os morros, os rios, pois tudo é teu. Tudo é de todos! Ay ay ay ayiaieeee... canta nossa Pachamama, indianidade sagrada. Acordem! Chega de sonhar dormidos. Vamos sonhar acordados, conscientes. Não abandones ao seres vivos da pacha, da amada terra. São todos bons; são pobres de voz, mas são nobres... Todos os rios, todos os animais, todos os ecossistemas te precisam, para isso acorda tua consciência, sê corajoso. És um puma, um jaguaretê, um índio bravo e indomável. Une-te a tribo dos irmãos da vida e vamos cuidar e fazer novamente um jardim desta vida. *Lucidor Flores é o nome espiritual de Gerardo Bastos, guia do movimento da Mística Andina e autor do livro Andanças de um puma desperto. Para adquirir o livro ou saber mais acesse: www. misticaandina.com.br


6 - Peregrino - Outono 2011 arte de Cristiano Aguilar/ Paulo Victor Bezerra de Lima

concurso de poesias

Um grito de liberdade Melusina Iriarte/ Rosângela Maria da Silva Em junho, teremos mais um Inti Raymi, onde os que se reconhecem como filhos sagrados do amor de Tayta Inti, o Pai Sol, e Pachamama, a Mãe Terra, se encontram para celebrar solarmente os aprendizados da caminhada e se unir aos ritmos sábios e amorosos do pulsar da Vida reconhecendo cada vez mais nossa missão de humanizar a divindade. O tema do próximo Inti Raymi será o grito de chamamento ao retorno às raízes sagradas: Taki Ongoy. Também denominação de um movimento dos povos andinos em revolta ao jugo dos

invasores espanhóis por volta de 1560, o qual buscava além da libertação, a criação das condições que possibilitariam essa resistência aos colonizadores pelo estabelecimento da solidariedade dentro do mundo andino. Taki Ongoy convocava a uma consciência de unidade panandina que significava uma revolução no pensamento e identificação tradicionais. A poesia abaixo foi selecionada em concurso promovido pela ONG Pachamama em março passado a respeito dessa temática. Sagrou-se vencedora a poesia América Latina, de autoria de Dom Arthur Molina (Edmar Ximenes). Nossos agradecimentos a todos os participantes e parabéns ao vencedor!

América Latina Sou filha exuberante e nobre de Pachamama, mãe terra Sou rica, com meu berço verde, dourado e prata, Sou filha do amor que o coração encerra Sou água, vento, fogo, terra e mata Sou chão adolescente cheio de riquezas Sou torrão que acolhe um povo puro e forte Sou nascente de luz, de vida cheia de belezas Sou filha amada terra verde, céu azul por sorte Sou mãe de filhos guerreiros que em minhas tetas comem Sou fonte de amor, ninho que aconchega, fui abrigo de terror, Sou semente que pariu filhos que pela mãe nada temem Sou útero fértil da vida, sangue e leite para o filho lutador Sou guardiã do coração de Pachamama Sou flor que desabrocha em aroma que não termina Sou mãe que cuida, nutre, alimenta e ama Sou terra firme solo fértil sou América Latina

Arthur Molina é o nome espiritual de Edmar Ximenes, discípulo, amauta e kuraca dentro do Ayllu Mística Andina; atua como Geólogo em Fortaleza/CE.

Associação Pachamama a serviço da vida ong_pachamama@yahoo.com.br

Seja você também um jardineiro da Mãe Terra Para anunciar e colaborar: jornalperegrino@yahoo.com.br

Para cantar e compreender Evita Sandoval O Taki Ongoy virou canção, afirmando pela força do canto o sagrado para o povo ameríndio. Conheça a versão de Mercedes Sosa, uma união de duas músicas do também argentino Victor Heredia: Taki Ongoy II e Encuentro en Cajamarca. É possível admirar ainda mais a música conhecendo o significado de algumas das palavras em quéchua que aparecem na letra da canção. Confira abaixo.

Taki Ongoy Creo en mis dioses, creo en mis huacas creo en la vida y en la bondad de Viracocha creo en Inti y Pachacamac. Como mi charqui tomo mi chicha tengo mi Coya, mi cumbi. lloro mis mallquis hago mi chuño y en esta pacha quiero vivir * Evita Sandoval é o nome espiritual de Isadora Motoyama, discípula e estudante em Pelotas/RS.

glossário Huacas (waqa): “sagrado”, pode ser tanto uma divindade como o lugar onde uma divindade é cultuada. Pachacámac (do quéchua Pacha Kamaq) “Que dá Vida ao Mundo”, foi o nome dado pelos incas à divindade suprema da cultura Ichma ou Ichimay, que ocupou os vales de Rímac e Lurín na costa central peruana. Charqui: (do quéchua chárki) o mesmo charque dos gaúchos; os antigos incas faziam a o charque com carne de guanaco. Chicha: é a bebida feita a partir da fermentação do milho. Coya: era o título nobre utilizado para distinguir as mulheres membros da família imperial, como a esposa do Imperador, a senhora soberana ou as princesas. Cumbi: é um tipo de tecido especial feito de lã de “alpaca baby”. Mallquis: são os antepassados, as múmias ou suas representações. Chuño: é uma batata desidratada tradicionalmente feita pelos povos Quechua e Aymara, do Peru, Bolívia, Argentina e Chile.


Peregrino - Outono 2011 - 7

jardineiros de pachamama

Preservação das abelhas Jazmin Luz Obelar/ Carolina Ally Raffaelli

Kriss Szkurlatowski - SXC

“Se as abelhas desaparecerem da face da Terra, a humanidade terá apenas mais quatro anos de existência. Sem abelhas não há polinização, não há reprodução da flora, sem flora não há animais, sem animais, não haverá raça humana.” A frase é divulgada como sendo de Albert Einstein. Tal como a preservação das baleias, das tartarugas, a preservação das abelhas é algo urgente e alarmante, pois elas estão desaparecendo de forma enigmática. O sumiço das abelhas vem acontecendo de quatro anos para cá e é um fenômeno mundial (há relatos na Europa, Canadá e nos Estados Unidos, onde é conhecido como Colony Collapse Disorder). As abelhas melíferas (Apis Mellifera) estão desaparecendo das colmeias, deixando tudo para trás: comida, filhos e a própria rainha. E, curiosamente, ao redor das colmeias não foi encontrada nenhuma abelha morta. O fenômeno também está ocorrendo no Brasil. Em Santa Catarina, a Federação das Associações de Apicul-

tores e Meliponicultores (FAASC) receberam tantas reclamações que criaram uma comissão técnico-científica para pesquisar sobre o assunto. O professor do Departamento de Fitotecnia da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) Afonso Inácio Orth declarou que as queixas maiores foram de apicultores do Litoral Sul e da Grande Florianópolis. A média de perda de colmeias relatada está em torno de 30%, índice muito alto. Ninguém sabe ao certo os motivos, mas algumas causas já foram levantadas: o mal uso de inseticidas, aparição de vírus, falta de alimentos adequados, fungicidas que afetam a alimentação das abelhas e a intensidade no manejo das colmeias, que são transportadas e alugadas para a polinização de lavouras em todo o País. O prejuízo atinge tanto aos que vivem diretamente dos produtos de origem apiária, quanto aos agricultores, que dependem das abelhas na polinização das lavouras. Santa Catarina é o maior produtor de maçãs do Brasil. A polinização desses pomares é feita por milhões de abelhas. Hoje, 100 mil colmeias são usadas nessa tarefa. Noventa por cento da produção de maçã

no Estado depende diretamente da polinização pelas abelhas domésticas, segundo afirma o professor. Conforme reportagem do jornal O Estado de São Paulo de janeiro deste ano, Leodete Rohling Pfleger, apicultor de Santa Catarina, perdeu metade da produção de mel. Ele contou que tinha 65 colmeias e as abelhas abandonaram 33, o que para ele é um mistério. A investigação sobre o mistério das abelhas está só começando. As abelhas têm importante papel no equilíbrio do ecossistema e da biodiversidade de toda vida, tal como alertado pelo físico Albert Einstein.Vamos nos conscientizar utilizando os produtos oriundos das abelhas de forma moderada e medicinal? Vamos pedir a libertação das abelhas dos cativeiros? Façamos nossa parte com a conscientização da Preservação das Abelhas, para o bem de toda Pachamama! * Jazmin Luz Obelar é o nome espiritual de Carolina Ally Raffaelli, discípula e comadre do Clã Obelar do Ayllu Mística Andina. É mãe do Francisco, psicóloga que reside em Florianópolis/SC, onde atua como arte-terapeuta.

saiba mais As abelhas visitam entre 10 e 15 flores por minuto, coletando néctar e pólen. Fazem em torno de quarenta voos diários, tocando em 40 mil flores. 33 dias é o tempo médio de vida de uma abelha operária! A rainha vive em torno de 5 anos! As abelhas põem 3 mil ovos por dia! Uma abelha produz cinco gramas de mel por ano. Para produzir um quilo de mel, elas precisam visitar 5 milhões de flores e consomem cerca de 6 a 7 gramas de mel para produzirem 1 grama de cera. Uma colmeia abriga de 60 a 80 mil abelhas. Uma rainha tem cerca de 400 zangões e milhares de operárias.


8 - Peregrino - Outono 2011

Peregrininho VII Edição

Querido Peregrininho, nesta edição queremos chamar a sua atenção para um movimento chamado Taki Ongoy. Os homens nas mais variadas épocas da História fizeram mudanças importantes querendo progredir, às vezes, dominando lugares e povos. Nem todas as transformações foram pacíficas (tranquilas), algumas foram bastante violentas, principalmente as que envolveram os povos indígenas. Os “brancos” chegavam às suas terras e queriam transformar tudo, mudar seus costumes, sua alimentação, sua maneira de rezar, desrespeitando seu jeito de viver e, principalmente a forma como cuidavam e respeitavam PACHAMAMA, a mãe terra. Taki Ongoy foi um movimento de defesa do povo inca contra a domínio dos espanhóis. Os espanhóis queriam suas terras, roubar ouro e prata que eram considerados metais sagrados para os incas (povo que mora no Peru). E sabem de que forma nossos irmãos incas se defenderam e protestaram? Com muita dança e cantos, estas foram suas armas. E por que estamos lembrando disso agora? Porque estamos aprendendo, Peregrininho, a respeitar e defender PACHAMAMA, e também queremos usar como armas nosso canto, dança e muito amor a todos os seres vivos (animais, pessoas, vegetais e minerais).

Já aprendemos muitas formas de cuidar de PACHAMAMA, ache- as no caça-palavras: S E R I L F E F J G D R E C I C L A R E U E A A X O A M I N O D P M O N O O R T R U R A O S O R U I J Z O A K U Y O A L F I V M M M O S E E V R E A T O G I X Z E D I M R C N D S A Q F T A E O O A Z X W S A H D N I D L M T I R C H S K E K J W A E A E C A O H I R E S P E I T O B Y B F R D S E G T U R V H E C O N O M I A V C S W Q T A A S E B N Y R U E L Ç P P

* Amankay Sandoval é o nome espiritual de Michele Berneira da Silva, discípula da senda da Mística Andina, reside em Porto Alegre/RS, onde atua como pedagoga e Practitioner em PNL (Programação Neurolinguística).

EXPEDIENTE

O PEREGRINO é um informativo do Movimento Mística Andina e um projeto de expansão de consciência da ONG Pachamama. Circula onde o vento o levar, sem constituir sociedade, seita, nem instituição. É organizado por voluntários. Os textos assinados são de inteira responsabilidade de seus autores. CONSELHO EDITORIAL: Isolda Molina (Marissol Iglesias Bastos), Lucidor Flores (Gerardo Bastos), Radha Dédalos (Maria Cristina Marques), Susana Sandoval (Sonia Motoyama) e Violeta Molina (Germana de Oliveira Moraes) EDITORA-CHEFE: Melusina Iriarte (Rosângela Maria da Silva) DIRETOR DE PROJETOS DA ONG PACHAMAMA: Israel Mendizabal (Gustavo Almeida) COLABORADORES: Amankay Sandoval (Michele Berneira da Silva), Arthur Molina (Edmar Ximenes), Celina Iriarte (Anelise De Carli), Caridad Romero Mendizabal (Ana Luiza Patella), Evita Sandoval (Isadora Motoyama), Felipe Obelar (Fábio Luiz de Mello Martins), Lucidor Flores (Gerardo Bastos), Jazmin Luz Obelar (Carolina Ally Raffaelli) FOTOGRAFIAS: Caridad Romero Mendizabal (Ana Luiza Patella), Cristiano Aguilar/ Paulo Victor Bezerra de Lima, Esmeralda Molina (Mariana Franco), Leandro Bierhals Bezerra (Hals), Kuichi Dédalos (Ivone de Almeida Lopes), Isolda Molina (Marissol Iglesias Bastos) JORNALISTA RESPONSÁVEL: Caroline da Silva (DRT/RS: 12.752) PROJETO GRÁFICO E DIAGRAMAÇÃO: Aluísio Pinheiro CIRCULAÇÃO: Aletheia Iriarte (Luisa Pilau) - FOTOLITOS E IMPRESSÃO: Gráfica Editora Pallotti - Santa Maria/RS ENDEREÇO ELETRÔNICO: jornaloperegrino@yahoo.com.br TIRAGEM: 3.000 exemplares

REDUZIR - REAPROVEITAR - RECICLAR - CONSUMO CONSCIENTE - LIXO - ECONOMIA - AMOROSIDADE - RESPEITO GENTILEZA - TAKI ONGOY - PACHAMAMA Um abraço e até a próxima edição! COLABORAÇÃO: Amankay Sandoval ILUSTRAÇÕES: Leandro Bierhals Bezerra (Hals)


O Peregrino