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ZERO HORA

Esportes

esportes@zerohora.com.br Editor Executivo: David Coimbra > 3218-4350. Editor: Sérgio Villar > 3218-4361 Coordenador de Produção: Leonardo Oliveira > 3218-4362

JÚLIO CORDEIRO

DOMINGO, 25 DE JULHO DE 2010

Sobis

Quarteto colorado: Micheli e o caçula Nicholas; e Rafael com Rafinha

um pai de família FERNANDA ZAFFARI

D

omingo, 7 da manhã. Rafael Sobis acorda e vai para a academia. Corre na esteira. Corre para entrar em forma. Só depois, ele e a mulher, Micheli, correm para outro programa: almoçar na churrascaria Na Brasa na companhia do amigo Ico Thomaz, apresentador do programa Patrola. Este foi o roteiro de um domingo de férias, há um mês, quando Rafael ainda não tinha acertado com o Inter. – Tenho que ir para academia porque é minha profissão. Acordo cedo.

também. Hoje é um clube Sou meio inquieto, preciso top, dos melhores. Que só fazer isso. entra para ganhar. Parece uma observação Esqueça o jogador que óbvia a de que um atleta lançou moda. Quando pintem que estar constantetou o cabelo, a gurizada mente em atenção máxima copiou. Quando cortou o ao seu físico. No caso de cabelo moicano, uma trupe muitos jogadores de futebol de torcedores apareceu no nem sempre o é. No caso de estádio igualzinha. E agora, Sobis, 25 anos, demonstra o qual será o corte, Rafael? grau de seriedade e maturi– Muita gente tá falando dade que encara a profissão: isso, mas é outra história. – Sofri muito, não é fácil Eu era meninão. Hoje sou ser jogador de futebol. pai de família, mudou muiEsta é a primeira mudanA pedido da coluna, Rafael Sobis escreveu to. Não passa na minha caça que o torcedor vai notar uma mensagem para o torcedor colorado beça fazer isso. no Rafael, guri que deixou os Lá em 2005, 2006, as fãs pais e sete irmãos em Erese tornou um ídolo adolescente, numa suspiravam pelo rapaz loiro, chim, aos 14 anos, jogou no Cruzeiro, de Porto Alegre, foi levado sequência de revelações de craques da olhos azuis, 1m74cm e 75 quilos, que para o Corinthians, e de lá fugiu um casa, encabeçada por Daniel Carvalho, contabiliza sete tatuagens: como as ano depois direto para o Beira-Rio. Ele Nilmar, o próprio Sobis e Pato, o traz iniciais do casal, a data de nascimento não é mais o jovem talento despon- de volta numa data especial: a semifi- do primeiro filho, o nome em chinês. tando. É um jogador experiente, pai nal da Libertadores da América. Na sexta-feira, Rafael vestia “calça Dolde família. O Inter que o lançou, onde – É um outro momento para o Inter ce (Dolce&Gabbana), tênis Louis Vuit-

ton, camisa Gucci”. As referências de moda, credita à temporada europeia. Na escolha das grifes, foge do óbvio e mostra informação: – Gosto de Hermés, de Billionaire (grife de luxo de Flavio Briatore). O jogador que deixou o Inter depois da conquista da Libertadores em 2006 (negociado por 10 milhões de euros para o Bétis da Espanha) volta a campo no domingo com uma bagagem de respeito: quatro anos no Exterior, uma lesão de joelho, duas cirurgias e dois filhos para criar. – Ir para o Exterior tem a questão financeira, mas sabíamos que era uma oportunidade para os nossos filhos crescerem. Sobis conta isso enquanto divide as atenções entre Rafinha, um ano e oito meses, e Nicholas, seis meses. Os mimos com os dois não deixam dúvida: o craque é um paizão.

SEGUE >

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ZERO HORA

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JEFFERSON BOTEGA

SEXTA-FEIRA, 13 DE AGOSTO DE 2010

Na estreia do técnico, Grêmio perde por 2 a 0 para o Goiás e é eliminado da Copa Sul-Americana. O treinador terá de agir rápido a fim de ajeitar o time e remotivar jogadores para o Brasileirão LUÍS HENRIQUE BENFICA

Com uma frase curta, pronunciada à beira do campo, segundos após o encerramento de seu jogo de estreia, Renato Portaluppi sintetizou a tarefa que o aguarda no Grêmio, agora investido da condição de treinador. – Tem muita coisa para melhorar – avaliou o heroi de Tóquio em 83, o único poupado das vaias dos torcedores depois da derrota por 2 a 0 para o Goiás que, ainda na primeira fase, eliminou o time da Sul-Americana. Na entrevista coletiva, sua análise foi mais demorada. Disse que os problemas “não são poucos” e o tempo para resolvê-los é escasso. Renato chegou a comemorar o fato de o time ter sido

eliminado na Sul-Americana, o que lhe dará mais tempo para trabalhar. Evitou apontar os defeitos da equipe, “para não expor ainda mais os jogadores”. Apesar de dizer que alguns erros infantis haviam sido cometidos, preferiu não especificá-los. Mesmo dizendo que blindaria o grupo, admitiu que reforços “serão bem vindos”. – O momento não é dos melhores e isso faz com que o psicológico caia bastante. Não vou chegar com uma varinha mágica para resolver tudo em um jogo. Essas coisas não mudam da noite para o dia. Reafirmo que o grupo é de qualidade. Uma vitória dará moral. E ele pode acontecer já no próximo domingo – afirmou Renato, acrescentando que sua primeira missão é tirar a equipe da zona de rebaixamento. A concentração para o jogo de domingo já terá início após o treinamento da tarde de hoje.

FERNANDO GOMES

“Os problemas não são poucos” Centenas de torcedores foram ao aeroporto Salgado Filho receber o treinador

Não se trata de castigo, segundo Renato, e, sim, de uma fórmula para que os jogadores descansem mais e se alimentem melhor. O novo treinador também anunciou que manterá uma conversa em separado com Douglas e mais dois ou três jogadores. – Douglas é diferenciado. Não pode ter desaprendido da noite para o dia. Quero saber o que está havendo com ele para resgatar seu futebol – disse. Os primeiros aplausos e gritos de apoio a Renato foram ouvidos quando o serviço de som concluiu a escalação e pronunciou seu nome. Em seguida, enquanto os jogadores entravam em campo, Renato virou-se para a Social e bateu no peito, provocando novos aplausos. Com o mau desempenho do time dentro de campo, surgiram as primeiras reações nervosas

do treinador. Aos 37 minutos, quando Marcelo Grohe saiu do gol e Neuton quase marcou contra, Renato levou a mão à boca e gritou, na direção do goleiro: – Tem que gritar! Três minutos mais tarde, no instante em que Grohe voltou a se confundir, desta vez com Rafael Marques, Renato passou as duas mãos pela cabeça, num gesto de pavor. O segundo tempo foi melhor, consequência do duro recado dado pelo treinador. As chances, aos poucos, passaram a surgir, sobretudo com Maylson. Da reação surgiu o gol de empate, marcado por André Lima, mal anulado pela arbitragem. Para irritação de Renato, que viu seu sonho de treinar o clube do coração começar com uma derrota.

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Esporte / INTER

ZERO HORA DOMINGO, 15 DE AGOSTO DE 2010

JEFFERSON BOTEGA

A fórmula colorada Como o clube quase rebaixado em 2002 virou modelo para o Brasil, ganhou o Mundial e se prepara para disputar a segunda final de Libertadores em quatro anos

CARLOS GUILHERME FERREIRA e LEONARDO OLIVEIRA

Passa longe do acaso a presença do Inter na final da Libertadores. Porque planejamento resume o segredo de um clube que soube sair de um buraco que parecia sem fundo e assumir papel de protagonista no futebol brasileiro. Em um período de sete anos, ganhou até um título mundial, mas já mira o bi.

A

transformação começou em 2003, no segundo ano da gestão do presidente Fernando Carvalho, hoje vice de futebol. Ele assumiu em 2002, enfrentou dificuldades e só escapou do re-

baixamento na última rodada, com vitória sobre o Paysandu, em Belém. Voltou do Pará disposto a aprender com os erros daquele ano e conseguiu. Estas foram algumas das lições, segundo o próprio Carvalho:  Evitar contratos de um ano, porque o jogador perde o foco a partir de setembro  Mesclar jovens da base com jogadores rodados e contratados por dois ou três anos  Criar uma memória de vestiário, mantendo auxiliares e equipe de apoio por longos períodos  Fazer contratos longos com aumentos por produtividade Carvalho também tirou da gaveta o “Plano de Metas” elaborado na campanha para a eleição, em 2001. Veja algumas delas:  Ganhar um título internacional até 2009, ano do centenário  Reaprender a jogar competições continentais a partir da Sul-

Americana, que o clube jogou em 2003, 2004 e 2005 antes de ganhar a América  Formar jogadores, principalmente atacantes de movimentação, cobiçados pelos europeus  Chegar a 20 mil sócios, depois a 40 mil, a 50 mil, em progressão até os 100 mil Essa ambição moveu o Inter e o fez crescer em progressão geométrica. Mas o clube só ganhou dinheiro para montar um bom time porque usou exemplos. Todos os clubes serviram de inspiração, principalmente o São Paulo. O grande trunfo do clube, porém, foi entender a Lei Pelé, que entrava em vigor, antes dos demais. – O Inter inovou ao interpretar a Lei Pelé – lembra Carvalho. Com a nova lei, o passe virou direito federativo, e clube nenhum era dono de jogador. Eles estavam livres, presos apenas por contratos. Assim, um ex-júnior de contrato longo trará

mais lucro do que um veterano. Na visão do professor de MBA em Gestão e Marketing esportivo da Trevisan Escola de Negócios, do Rio, João Henrique Areias, o Inter trabalhou bem a pirâmide formada por time, estádio e CT. –Você analisa e vê que tem isso: boa formação, bom centro, visão de longo prazo, que só dá resultados depois de cinco anos – afirma Areias, que participou da formação da Copa União, em 1987. A fábrica de talentos do Inter funciona a pleno. Saíram de lá para a Europa Pato, Nilmar, duas vezes, Daniel Carvalho, Walter, Sidnei, Sandro, Sobis e Renan, só para lembrar dos principais. Perceba que cinco deles são ofensivos e de movimentação. O que rendeu ao Inter na Europa e no Brasil a fama de “formador de atacantes”. Foi por ela que os empresários do meia-atacante Oscar o colocaram no Inter depois de vencer batalha judicial com o São Paulo. – O negócio futebol é estrutura-

do para conquistar o torcedor, que é cliente. É preciso ganhar títulos e formar ídolos para deixá-lo satisfeito – finaliza o professor Areias.


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Esporte / ENTREVISTA

ZERO HORA DOMINGO, 12 DE SETEMBRO DE 2010

Sitiado no hotel

Renato usa disfarce para sair na rua

JÚLIO CORDEIRO

LUÍS HENRIQUE BENFICA e JONES LOPES DA SILVA

Há muito ZH vinha propondo uma conversa longa com Renato Portaluppi, que hoje completa um mês de Grêmio. As tribulações do time, porém, puseram o técnico numa zona de cautela. Após o empate arrancado do Botafogo, no Rio, Renato emitiu um sinal: concederia entrevista se ganhasse do Atlético-GO, na quarta-feira. Queria paz, depois falaria. Na quinta, apareceu na sala de conferência do Olímpico. Eram 15h10min. Às 15h30min começaria o treino, portanto, teríamos 20 minutos. A primeira: pensou em desistir do emprego nos dois primeiros dias. Chovia fino, fazia frio de 9ºC e ele se enrolava dentro de um abrigo sobre outro, luvas, gorros e tudo mais. Vinha de Salvador, de 32ºC com sol e, mesmo guri de Guaporé, afinal, dos 48 anos completos dia 9, metade tem sido fora do Rio Grande. Partiu para o Rio em 1987, voltou ao Grêmio no segundo semestre de 91, mas viveu o restante à beira do mar. Outra: diz que largou a vida de mulherengo. E quando o assunto é mulher ele aperta os lábios, disfarça o sorriso, como se dissesse “não me levem a sério”. Mas não se enganem, previne: “Eu não virei santo”. Mais: mal coloca os pés fora da suíte do hotel e se arma tumulto. Está há um mês assim, ilhado. A torcida não lhe dá trégua. Se fosse candidato, seria eleito só com os votos das mulheres: – Vocês têm dúvida disso?

Zero Hora – Você está com dificuldade de procurar moradia? Renato Portaluppi – Não consigo. Onde eu vou há um monte de pessoas querendo foto, autógrafo, querendo falar. Tentei ver três apartamentos; quando chegava ao prédio, juntava gente, quando descia, havia tumulto, uma multidão de gente me esperando. Então, desisti. Vou ficando no hotel. ZH – Como sabiam da visita? Renato – Sei lá, o corretor ou a corretora avisavam, o porteiro do prédio... ZH – E como é a vida no hotel? Renato – Não tenho vida. Não consigo sair, não consigo descer, é difícil aparecer no restaurante do hotel. No almoço, na janta, ligo para o refeitório: só desço quando está vazio. Se preciso de algo, uso o pessoal do Grêmio, mando buscar. Antes, pedia ao Alexandre, o meu auxiliar, mas agora ele saiu do hotel... Se aparecer no saguão, ficar dois, três minutos no balcão, chega gente de fora, não sei de onde. Minha privacidade é zero. ZH – Você está ilhado no quarto? Renato – Não tenho como sair. É uma


ZERO HORA DOMINGO, 12 DE SETEMBRO DE 2010

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Esporte

O ídolo em cinco momentos ANTONIO VARGAS, BD, 31/7/198

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riso contido com a boca apertada)?

‘‘

Não me preocupo com os comentários sobre a fama de mulherengo. Até porque não serve mais o chapéu. Agora, não pensem que virei santo. suíte grande, tudo bem, mas não posso colocar o pé para fora. Nem jogo consigo ver no bar do hotel. Não consigo trocar três frases com o pessoal do hotel. E eu gosto de privacidade. Queria poder sair, comer algo diferente e não tem jeito. Estou há um mês em Porto Alegre (neste domingo faz um mês) e ando do hotel ao Olímpico, do Olímpico ao hotel. ZH – A Maristela veio a Porto Alegre? Renato – Sim. Ficou uma semana presa comigo no hotel. Não fomos nem na casa da zona Sul, a minha mãe (Dona Maria, morta este ano, aos 86 anos) morava lá. Só o Mauro e o Flávio ficaram na casa. Meus irmãos, não falei com eles ainda. Deixo os convites para os jogos aqui, e eles pegam.

Agora, não esqueçam que eu havia passado seis, sete meses em Salvador, com ZH – Um dia você calculou ter tido 5 32ºC todos os dias (treinando o Bahia, mil mulheres. Já houve recontagem? morava em um condomínio fechado com Renato – Vocês é que estão dizendo. Es- fundos para uma prainha particular). tou família, larguei essa vida. Em Salvador já era assim: não saí um só dia. Mes- ZH – Só o frio o incomodou até agomo no Rio, ultimamente já andava mais ra? Como estava o time? caseiro. Renato – No intervalo do primeiro jogo (contra o Goiás), comentei com ZH – Você se incomoda com a fama duas ou três pessoas no vestiário: ‘o de mulherengo? que fizeram com o meu Grêmio?’ Renato – Não me preocupam os comentários. Até porque não serve mais o ZH – E o que fizeram com o seu chapéu. Agora, não pensem que virei san- Grêmio? Problemas técnicos ou de to. Ser querido é uma coisa maravilhosa. disciplina? E podem falar, é gostoso para o ego. Renato – Vi muita coisa, mas não vou entrar em detalhes. É assunto interno. ZH – E a Maristela se incomoda? Renato – Não há do que se incomodar. ZH – E a situação hoje? Você já conQuando está comigo, ela mesma vê o as- trolou 50%? sédio que sofro. Então ela tem uma ideia Renato – (Ele faz uma pausa, como se do que acontece. calculasse um índice, reluta pensando se vale a pena responder e fala) 60%. ZH – E a filha (Carolina, 16 anos) ? Dizem que você é pai do tipo que marca ZH – Foi grande a pressão no início? de cima os movimentos. Renato – Eu até brinquei com o Alberto Renato – Vai ser freira. Marco de cima, Guerra (diretor de futebol): ‘Você não me mesmo! Não vou dar mole pra vagabun- passou tudo que havia de problemas’. A do. Muito joguei no ataque, agora sou o nossa reunião de acerto foi no Porcão, de zagueiro da minha filha. Ipanema, e falamos sobre a situação geral. E naquele momento eu disse: ‘Joguem ZH – E se ela encontrar um Renato tudo em mim que eu mato no peito’. Mas pela frente? o problema era bem maior. Foi duro no Renato – Vai ser difícil. início. E não havia como relaxar.

ZH – Vocês se reuniam com frequência? Renato – Há uns sete, oito anos não nos reunimos. Não deu mais. A última vez, ZH – Você consegue dar boa atenção a ela? por infelicidade, foi no enterro da mãe. Renato – Eu curto muito minha filha, é única. Mesmo se fosse homem já cuidaZH – Você não usa disfarce? Renato – Uso. Ponho o casaco por cima, ria, imagina uma mulher. Ela não veio a tapo o rosto com o bonezinho. Dirijo Porto Alegre por causa do frio. uma caminhonete alugada, com vidro ZH – Você estranhou o frio de início? escuro, ninguém me vê. Renato – Vou contar: nos dois primeiZH – Quem o assedia? Já era assim em ros dias tive vontade de ir embora. Pensei: não vou aguentar isso, não! Por azar, Salvador e Rio? Renato – Mulheres, homens, jovens, foram os dois dias mais frios até agora, senhoras, senhores, de tudo um pouco. com chuvisco e tudo. Não fosse o Grêmio, Já não saía em Salvador por causa dis- teria partido. Meus amigos viam as imaso. Mas era bem menos do que aqui. No gens no Rio e ligavam me sacaneando. Rio, não. O pessoal está acostumado com gente famosa. ZH – Não imaginava que seria assim? Renato – Eu sabia: vai terminar a minha paz, mas não imaginava tanto assim. Depois do jogo (quarta-feira, 2 a 0 sobre o Atlético-GO), quando entrei no carro, tinha umas 10 pessoas me esperando para tirar foto. Quando vi, já eram 30. ZH – E as mulheres? Renato – O que vocês querem saber (o

‘‘

No intervalo do primeiro jogo (contra o Goiás), comentei com duas ou três pessoas no vestiário: ‘o que fizeram com o meu Grêmio?’

ZH – Como assim? Como você queria relaxar? Renato – No Rio eu costumava ir à praia, esquecia os problemas no futevôlei. Mas aqui não tem jeito: a única forma de relaxar é ganhando os jogos.

Após a Libertadores,

na casa de Bento Gonç

alves 2/1983

LUIS ÁVILA, BD, 14/1

rro ndial e a chave do ca Em Tóquio, com o Mu

Na casa da mãe, dona Maria, na Zona Sul FOTOS RUBENS GOIANO, BD,

30/12/1983

ZH – O que você fez depois da vitória sobre o Atlético-GO? Renato – Fui para o hotel e, antes de subir para o apartamento, vi que o restaurante estava vazio. Pedi um carreteiro e salada. Consegui jantar calmamente. Depois fui assistir a um jogo no apartamento. ZH – Você assiste muito a jogos pela TV? Renato – Assisto ao que me interessa, é da profissão. Mas agora, isolado no hotel, vejo muito mais. Até os jogos da Série B.

cina após o Mundial Com Maristela na pis MAURO MATTOS, BD, 6/1/

1984

ZH – Como você decidiu ser técnico? Renato – Eu amadureci a ideia aos poucos. Tinha de aprender um pouco em mais de 20 anos de carreira. Mas eu soube parar com o futebol. Tem muita gente que não sabe. Isso é um problema.

Antes do futevôlei do

Rio, o vôlei de Trama ndaí


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ZERO HORA DOMINGO, 21 DE NOVEMBRO DE 2010

Reportagem Especial OS SETE ERROS DAS LICITAÇÕES Os Principais desvios e fraudes cometidos em concorrências públicas no Brasil:

Subfaturamento Valores excessivamente abaixo da média do mercado podem indicar despesas futuras, que exigirão suplementação orçamentária, eventualmente negociada com parlamentares sobre os quais as empresas têm influência.

3 Direcionamento Editais muito detalhados podem representar escolha dirigida do vencedor. A exigência de determinadas características – porte e experiência anterior das empresas ou até a especificação de produtos – é uma forma de assegurar o resultado.

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Superfaturamento Há várias formas de induzir ao superfaturamento de obras públicas, que vão do exagero na previsão de quantidade ou de preço de materiais, até a superestimativa do custo do serviço envolvido.

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INDÚSTRIA DAS LICITAÇÕES

Por onde entra MARTA SFREDO

N Nunca antes... Os volumes potenciais para licitações de 2011 a 2014: PAC 2

R$ 958,9 bilhões (investimento público e privado) Copa

R$ 23,2 bilhões (só investimento público) Pré-sal

R$ 56 bilhões (só investimento da Petrobras) Olimpíada 2016

R$ 11,88 bilhões (só investimento público) ... houve volume tão grande de recursos públicos expostos a desvios. Fontes: Portal Transparência, Casa Civil e Petrobras

a última década, licitações frequentaram como nunca o repertório nacional de escândalos de corrupção. Diante de um momento que promete uma lufada inédita de investimento público, soprada pelos PAC 1 e 2, obras da Copa de 2014 e da Olimpíada de 2016, não há contribuinte imune a calafrios frente ao risco de que pela porta aberta para grandes projetos se infiltrem novos desvios. – Existe uma indústria ilícita de licitações, formada por agentes privados e pessoas infiltradas na administração pública – diagnostica o promotor de Justiça,Affonso Ghizzo Neto, de Santa Catarina. Especialistas expõem as causas dessa cena constrangedora com quadros que vão da formação histórico-cultural do país até a inadequada formação dos servidores responsáveis pelo controle de compras e obras no poder público. Apontam ainda brechas na lei, má aplicação das regras e deficiências nos projetos. Antônio Carlos Cintra do Amaral, especialista em Direito Administrativo e Econômico, participou da elaboração das primeiras regras para estatais, nos anos 70. Do alto de sua experiência, recomenda modernização: – É necessária uma revisão da Lei das Licitações. A realidade muda e a lei está ficando velha. Mas de nada adianta alterar as regras sem aperfeiçoar a elaboração de projetos de engenharia, os termos de referência de serviços e de especificações do material ou equipamento a adquirir. É o que se tenta fazer no Congresso nos últimos quatro anos. Uma proposta do Executivo deu origem ao projeto de lei 32/2006. Foi aprovado na Câmara e na Comissão de Assuntos Econômicos do Senado, mas ainda precisa passar pelo plenário. Retomar a tramitação é tarefa “prioritária”,

conforme a secretária de Logística e Tecnologia da Informação do Ministério do Planejamento, Glória Guimarães: – A lei precisa ser aprimorada para atender às demandas dos novos tempos e acompanhar os processos tecnológicos. No limiar de uma nova administração, por mais continuidade que represente, as mudanças que preveem a extensão da modalidade de pregão para licitar obras – não apenas compras de produtos e serviços básicos – acendem uma polêmica difícil de administrar.

Critério do preço é questionado Autor do livro Questões Relevantes nas Licitações Públicas, o advogado Airton Rocha Nóbrega considera o problema ainda mais relevante no Brasil devido à estrutura dos gastos públicos: – Quase todo o orçamento que não é usado com pessoal é gasto com licitações. É uma grande quantidade de recursos para entregar a servidores que, apesar de esforçados, não têm acesso à ferramenta necessária, o conhecimento. Dentre as regras da Lei das Licitações, a que mais incendeia a discussão é a que prevê o critério de menor preço para definição do vencedor. Eduardo Lafraia, expresidente do Instituto de Engenharia de São Paulo, é um combativo adversário: – O que deveria interessar é o menor preço no fim da obra, não na licitação. Não adianta oferecer um preço teoricamente baixo e depois acrescentar o custo da obra parada, o custo financeiro do prazo que em vez de ser 12 meses vira 36 meses. É um sistema usado pelas empresas piores. Comem o filé mignon e deixam o osso para o governo resolver. marta.sfredo@zerohora.com.br

As regras gerais As licitações podem ser feitas por meio de diferentes modalidades – sistema de consulta aos participantes – e tipos – critérios que definem quem será o vencedor. Confira as normas básicas: MODALIDADES 1. Carta-convite Para compras e serviços de R$ 8 mil até R$ 80 mil e para obras e serviços de engenharia de R$ 15 mil até R$ 150 mil. 2. Tomada de Preço Para compras e serviços acima de R$ 80 mil até R$ 650 mil e para obras e serviços de engenharia acima de R$ 150 mil até R$ 1,5 milhão. 3. Concorrência Para compras e serviços acima de R$ 650 mil e para obras e serviços de engenharia acima de R$ 1,5 milhão. 4. Pregão Sem limite de valores, só se destina à contratação de bens e serviços comuns – nas regras atuais, não se aplica à contratação de obras de engenharia, por exemplo. A disputa é feita em sessão pública, que pode ser presencial ou eletrônica.

TIPOS 1. Menor preço: vence o competidor que apresentar valor mais baixo. Em alguns casos, é definido um piso, chamado de “menor preço exequível”, abaixo do qual seria impossível cumprir o prometido. 2. Melhor técnica: em alguns casos, pode-se exigir parâmetros técnicos para determinar o vencedor. 3. Menor preço e melhor técnica: quando as duas variáveis são consideradas.


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ZERO HORA DOMINGO, 21 DE NOVEMBRO DE 2010

Ação entre amigos Empresas de um determinado setor podem constituir um cartel para fatiar contratos. Em combinação prévia, supostas concorrentes definem qual vencerá determinada etapa ou parte da concorrência.

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Fraude na fiscalização Já na fase de execução do contrato, uma oportunidade de desvio de dinheiro público ocorre no não cumprimento de exigências, tanto de especificação de produtos quanto de obras. Isso pode ser efetivado mediante fraude ou suborno durante a fiscalização.

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Arranjo de contratos Empresas com influência sobre determinados órgãos podem terminar abocanhando partes de contratos mesmo tendo perdido a concorrência. Isso ocorre com o desdobramento do objeto original da licitação.

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Triangulação de empresas Uma variação da divisão entre concorrentes, uma mesma empresa pode se apresentar de formas diferentes em uma mesma licitação. Pode ou não envolver laranjas ou fantasmas – pessoas que emprestam seus nomes para servir de fachada a negócios de terceiros.

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Os ganhos que vêm do pregão

a corrupção Lançado no início deste ano, o Movimento Anticorrupção já reúne 39 entidades de profissionais e empresas envolvidas em obras públicas. Coordenador da iniciativa, Marcos Túlio de Melo, presidente do Conselho Federal de Engenharia, Arquitetura e Agronomia (Confea), afirma que o objetivo é firmar pactos de integridade, em que os envolvidos se comprometem a não oferecer nem aceitar suborno: – Vamos partir de um acordo setorial com o governo que resgate a cultura técnica, de que a licitação só pode ser feita a partir do projeto executivo completo e evoluir para que a articulação dê efetividade e seja percebida pela sociedade. Inspirado em movimentos internacionais, o dirigente aponta experiências como a da Colômbia, pioneira na adoção de pactos de integridade na América Latina, como exemplo a ser seguido. – Estamos passando por um processo que pode ser lento, doloroso, mas a aprovação da Lei da Ficha Limpa, mesmo com seus limites, mostra que sociedade brasileira está mais exigente – diz Melo. Observatórios do destino de recursos públicos, como a ONG Contas Abertas, também dirigem o radar para a movimentação de recursos nos contratos bilionários da retomada de portentosas obras públicas, grandes eventos esportivos e até a exploração do pré-sal. – É bom lembrar que as obras dos Jogos Panamericanos eram estimadas em R$ 300 milhões, e acabaram custando quase 10 vezes mais – avalia Gil Castello Branco, economista da ONG Contas Abertas.

JEAN SCHWARZ

Pactos para evitar ofertas de suborno

Acostumado a analisar problemas em obras públicas, Lopes sugere criação de lei

O difícil esforço de punir Alan de Oliveira Lopes é engenheiro civil de formação e trabalha na Polícia Federal fazendo uma espécie de autópsia da corrupção. Quando o crime já foi cometido, ele é um dos especialistas chamados a fazer o laudo para encaminhar aos delegados da PF, que vão enquadrar os envolvidos. Lopes se deu conta de que, no Brasil, não há uma legislação específica para definir crimes relacionados ao desvio de dinheiro público. Nas outras delegacias especializadas da PF – entorpecentes, crimes ambientais e financeiros –, havia legislação específica para cada tipo de delito. Além disso, o servidor constatou que as penas previstas para os ilícitos em obras públicas são pequenas e, além disso, o prazo para assegurar punição é curto. – A polícia tem um gasto enorme e, quando

chega ao fim, o crime prescreve. Lopes resolveu propor um anteprojeto de lei. Depois de muita mobilização, conseguiu com que o deputado Carlos Mota (PSB-MG) apresentasse a proposta, que virou o projeto de lei 6.732/2006. – Foram feitos dois substitutivos, porque o texto não agradava a todo mundo. Isso foi abrandando um pouco o texto. Mas aí veio a tragédia. Nem o deputado que havia apresentado o projeto nem o relator conseguiram se reeleger – relata Lopes. O que consola Lopes é que o projeto não morreu, ainda está lá, só esperando um empurrão: – Eu queria que fosse um projeto puro, mas é melhor ter uma lei mais ou menos boa do que nenhuma.

Foi pelas mãos de Rubens Portugal Bacellar, paranaense de Curitiba radicado em Brasília há mais de duas décadas, que estreou o sistema de pregão no Brasil. Hoje, ele preside a Ordem dos Pregoeiros do Brasil e calcula que as disputas presenciais ou eletrônicas permitiram economia de bilhões de reais. – No primeiro pregão presencial que fizemos, de serviços de vigilância na Anatel, já pagamos 20% menos. Depois, no Ministério do Planejamento, para serviços de limpeza, economizamos R$ 1 milhão no primeiro contrato – relata. Uma das primeiras iniciativas no pregão presencial, lembra Bacellar, foi o que se chama de inversão das fases do processo. Nas concorrências, o habitual é apresentar primeiro a habilitação, depois seguir para a disputa de preço. Além disso, na ordem original não há possibilidade de negociação com o vencedor para reduzir o preço. – Com a inversão, a gente faz como a pessoa que pesquisa compras para sua casa.Vai às lojas, compara preços, depois volta na que gostou mais e diz ‘na loja tal, me ofereceram mais barato’. O ideal é comprar pelo melhor preço, não pelo menor. Pagar menos, dependendo da qualidade, não quer dizer que comprou bem – pondera. Depois da experiência com os pregões presenciais – em que os concorrentes são reunidos no local –, Bacellar evoluiu para o eletrônico, o que permitiu abrir a disputa para todo o país. Os participantes acessam uma rede fechada, sem saber quem mais participa. – É um sistema que dificulta muito os cartéis – afirma Bacellar. Ele reconhece que a modalidade não é imune a fraudes. Os pregoeiros estão às voltas com programas-robôs criados para dar lances. – É um privilégio iniciar algo que dá certo no Brasil. Por mais que ainda tenhamos problemas, nesses quase 12 anos já rendeu bilhões em economia.

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ZERO HORA

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> SEGUNDA | 18 | OUTUBRO | 2010

G-3 à vista

Grêmio avança, irresistível Um gol por dois ângulos

P

Mestre dos artilheiros

Nos acréscimos do primeiro tempo, o atacante Júnior Viçosa (no chão) pega um rebote do forte chute de Jonas e empurra a bola para dentro das redes. É o lance de empate da partida que seria vencida pelo Grêmio. O resultado deixou o time com a melhor campanha do segundo turno e consolidou a recuperação no campeonato

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GRÊMIO Oferta válida no cartão Paquetá Esportes até 31/10/2010.

POR:

vencer e vencer”. Por fim, usou uma figura de linguagem: – Aquela luzinha no final do túnel brilha cada vez mais, e estamos de olho nela. O presidente Duda Kroeff foi bem mais direto: – Ganhamos do Cruzeiro.Podemos ganhar de qualquer um. carlos.ferreira@zerohora.com.br

Brasileirão, 17/10/2010 – 30ª rodada

1

CRUZEIRO

Victor; Gabriel Paulão Rafael Marques Fábio S. (Gilson, intervalo); Vilson Rochemback Douglas Lúcio; Jonas (Diego, 38’2º) Jr. Viçosa (Ferdinando, 45’/2º).

Fábio; Jonathan Léo Edcarlos Pablo (Gilberto, 14’/2º) Fabrício Henrique M. Paraná (Roger, 40’/2º) Montillo; Wellington Paulista Thiago Ribeiro (Farías, 32’/2º).

Técnico: Renato.

Técnico: Cuca.

Gols: Montillo (C), aos 27min, e Viçosa (G), aos 48min, no primeiro tempo; Jonas (G), aos 29min, no segundo. Cartões amarelos: Fábio Santos, Ferdinando e Douglas (G); Montillo, M. Paraná, Fabrício e Léo (C). Arbitragem: Paulo César Oliveira (Fifa/SP), auxiliado por Roberto Braatz (Fifa/PR) e Fabrício Vilarinho da Silva (GO). Público: 41.435 (37.194 pagantes). Renda: R$ 914.890,50. Local: Estádio Olímpico, em Porto Alegre.

PRÓXIMO JOGO – BRASILEIRÃO DOMINGO, 24/10/2010 – 18H30MIN GRÊMIO X INTER

O gol da vitória sobre o Cruzeiro transformou o mestre Jonas no maior goleador do Grêmio numa só edição do Campeonato Brasileiro.Com 20 gols no Brasileirão 2010,superou Rodrigo Fabri e Cláudio Pitbull,até então, os jogadores gremistas que mais tinham marcado em uma só edição de Brasileiro. Jonas tem 20 gols em 26 jogos.Fabri dividiu a artilharia do Brasileiro de 2002 com Luís Fabiano,então no São Paulo, com 19 gols.Porém,naquele ano, disputou 27 jogos.E Cláudio Pitbull atingiu os mesmos 19 atuando em 36 jogos,mas não foi o goleador da competição em 2004. Washington,do Atlético-PR,fez 34.

Pé-quente, Viçosa marca logo no jogo de estreia Quarenta e oito minutos bastaram para o Grêmio ganhar novo xodó: Júnior Viçosa. Substituto do lesionado André Lima, o alagoano de 21 anos trazido do ASA, da Série B, marcou o gol que abriu caminho para o 2 a 1 sobre o Cruzeiro, ontem, no Olímpico. Aproveitou o último lance do primeiro tempo e, uma hora depois, viu-se cercado de microfones para falar sobre a estreia iluminada. – Estava ansioso para estrear.Graças a Deus fiz o gol – afirmou, na boca do túnel,ao sair. Tanto assédio se explica porque o Grêmio havia chegado ao segundo gol, em pênalti cobrado por Jonas, e virado uma partida dificílima. Façanha valorizada, pois o Cruzeiro mostrou credenciais de candidato ao título graças à boa organização

tática e a jogadores qualificados. Equilibrou-se no argentino Montillo, autor do 1 a 0, pegando o próprio rebote, aos 27 minutos da etapa inicial,e no volante Fabrício,incansável na marcação e na articulação. O fator Júnior Viçosa cresce em importância porque o Grêmio vinha mal no fim do primeiro tempo.Com o empate, recobrou o ânimo no vestiário e voltou mais eficiente – inclusive pela troca de Fábio Santos por Gilson. Travou um jogo aberto contra um adversário que tentou ganhar, e levou a melhor devido ao pênalti cometido por Thiago Ribeiro, ao empurrar Gilson. Jonas cobrou duas vezes, porque houve invasão, e definiu o jogo aos 28 minutos. EViçosa? Estava feliz porque jogou bem. Rápido e movediço, respondeu bem aos encontrões da marcação.

PELO OLÍMPICO

Antes do clássico

Rochemback

O volante entrou na linha de considerar o Gre-Nal como um jogo a mais,mas exaltou a arrancada do Grêmio rumo à Libertadores: – Nossa subida é boa.

Em ascensão, com oito jogos sem perder. ●

Jonas teve de cobrar duas vezes pênalti contra o goleiro Fábio, do Cruzeiro Só não estreou antes,revelou Renato, por cumprir um período de adaptação. Afinal, há um abismo entre o Grêmio e o ASA, de Arapiraca (AL). Mas nada que não possa ser vencido por um telefone, como contou o

atacante. O primeiro compromisso após deixar o estádio seria pegar o celular e fazer um DDD até Viçosa , na sua Alagoas. – Esse gol é para o pessoal da minha cidade – garantiu.

Quem volta - Adilson, mas o

83

3 técnico Renato não confirmou se volta ao time como titular no lugar de Vílson.

Renato

A área técnica ficou pequena para a tensão de final de jogo: o treinador assistiu à pressão do Cruzeiro quase de dentro do campo,fora do perímetro marcado no chão. De jeans e camiseta preta do Grêmio,chegou a orientar dois, Ferdinando e Neuton,quando só restava uma troca – era porque Paulão havia sentido lesão.Ferdinando entrou já aos 45,e conseguiu levar o terceiro amarelo por puxão em Roger.

Ranking tricolor 20 gols: Jonas (2010) 19 gols: Rodrigo Fabri (2002) (abaixo,E) e Cláudio Pitbull (2004) (abaixo,D) 16 gols: Paulo Nunes (1996) 14 gols: André Catimba(1978), Baltazar(1980),Lima (1986), Ronaldinho Gaúcho(2000) e Jonas (2009) 12 gols: Neca (1975), Baltazar(1982) e Tita (1983) 11 gols: Rômulo (2006) 10 gols: Tarciso (1974 e 1984), Baltazar (1979 e 1981),Volnei Caio (1990),Jardel (1995) ,Luiz Mário (2001) e Christian (2003)

PAULO FRANKEN, BD

artiu do presidente Duda Kroeff uma definição simples porém eficiente do momento do Grêmio, um time cada vez mais candidato a uma vaga na Libertadores,seja com G4 ou G-3.Funciona como música para o ouvido do torcedor, especialmente quando há um Gre-Nal pela frente: – O Grêmio joga com cara de Grêmio, total – afirmou, espremido por cumprimentos no corredor de acesso à sala de imprensa do Olímpico, após o 2 a 1 de ontem,sobre o Cruzeiro. Era referência clara à postura do time, capaz de virar contra o líder do campeonato e, com isso, posicionarse a quatro pontos do terceiro colocado. Restam oito rodadas para reduzir essa diferença e conquistar a vaga na Libertadores. Era algo fora dos planos quando Renato assumiu, em agosto, fugindo do rebaixamento – e isso jogadores como Lúcio e Jonas admitiram ontem. O novo objetivo, porém, passa todo pelo Gre-Nal.Daí a importância maior deste clássico,apesar das tentativas de jogadores, comissão técnica e direção de minimizá-lo. Aliás, o discurso do vestiário é de cautela total, não interessa o assunto,Gre-Nal,Libertadores. Trata-se de um Grêmio pés no chão, calculado.As manifestações de euforia partiram todas das arquibancadas abarrotadas por 41 mil gremistas. Aos microfones, nada provocativo. Duda foi ao ponto de dizer que nada muda para o Gre-Nal. Renato pregou respeito ao Inter: – O grupo é muito bom. Não é por nada que foi campeão da Libertadores. De semblante tranquilo e braços apoiados sobre a bancada, o técnico anunciou que só divulga time 45 minutos antes do clássico. Manterá os treinos abertos e até convidou a torcida a assisti-los. Só se esquivou de todas as perguntas sobre escalação e estratégia. Insinuou, brincando, que os repórteres presentes à coletiva seriam auxiliares do técnico adversário, Celso Roth. A única concessão passou por admitir frio na barriga no clássico. O que Renato falou, e bastante, foi a respeito da entrega dos jogadores. De como alguns – não disse quais – acordaram e recuperaram a confiança, mesmo com a obrigação de “vencer,

O destaque do Plantão

JEFFERSON BOTEGA

VALDIR FRIOLIN

FOTOS MAURO VIEIRA

CARLOS GUILHERME FERREIRA

Quem segue machucado - O centroavcante Borges. Mário Fernandes e Souza já treinam, e seria surpresa se aparecessem.

Quem está fora - Ferdinando

recebeu o terceiro cartão amarelo e fica impedido de enfrentar o Inter.

Momento do time - A confiança

aumentou ainda mais depois de ganhar do líder do campeonato e vir de oito jogos sem perder no segundo turno do Brasileirão.

Este espaço é do Plantão Cleber Grabauska da Rádio Gaúcha cleber.grabauska@rdgaucha.com.br


|6|

ZERO HORA

|7|

> SEGUNDA | 18 | OUTUBRO | 2010

G-3 à vista

Grêmio avança, irresistível Um gol por dois ângulos

P

Mestre dos artilheiros

Nos acréscimos do primeiro tempo, o atacante Júnior Viçosa (no chão) pega um rebote do forte chute de Jonas e empurra a bola para dentro das redes. É o lance de empate da partida que seria vencida pelo Grêmio. O resultado deixou o time com a melhor campanha do segundo turno e consolidou a recuperação no campeonato

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GRÊMIO Oferta válida no cartão Paquetá Esportes até 31/10/2010.

POR:

vencer e vencer”. Por fim, usou uma figura de linguagem: – Aquela luzinha no final do túnel brilha cada vez mais, e estamos de olho nela. O presidente Duda Kroeff foi bem mais direto: – Ganhamos do Cruzeiro.Podemos ganhar de qualquer um. carlos.ferreira@zerohora.com.br

Brasileirão, 17/10/2010 – 30ª rodada

1

CRUZEIRO

Victor; Gabriel Paulão Rafael Marques Fábio S. (Gilson, intervalo); Vilson Rochemback Douglas Lúcio; Jonas (Diego, 38’2º) Jr. Viçosa (Ferdinando, 45’/2º).

Fábio; Jonathan Léo Edcarlos Pablo (Gilberto, 14’/2º) Fabrício Henrique M. Paraná (Roger, 40’/2º) Montillo; Wellington Paulista Thiago Ribeiro (Farías, 32’/2º).

Técnico: Renato.

Técnico: Cuca.

Gols: Montillo (C), aos 27min, e Viçosa (G), aos 48min, no primeiro tempo; Jonas (G), aos 29min, no segundo. Cartões amarelos: Fábio Santos, Ferdinando e Douglas (G); Montillo, M. Paraná, Fabrício e Léo (C). Arbitragem: Paulo César Oliveira (Fifa/SP), auxiliado por Roberto Braatz (Fifa/PR) e Fabrício Vilarinho da Silva (GO). Público: 41.435 (37.194 pagantes). Renda: R$ 914.890,50. Local: Estádio Olímpico, em Porto Alegre.

PRÓXIMO JOGO – BRASILEIRÃO DOMINGO, 24/10/2010 – 18H30MIN GRÊMIO X INTER

O gol da vitória sobre o Cruzeiro transformou o mestre Jonas no maior goleador do Grêmio numa só edição do Campeonato Brasileiro.Com 20 gols no Brasileirão 2010,superou Rodrigo Fabri e Cláudio Pitbull,até então, os jogadores gremistas que mais tinham marcado em uma só edição de Brasileiro. Jonas tem 20 gols em 26 jogos.Fabri dividiu a artilharia do Brasileiro de 2002 com Luís Fabiano,então no São Paulo, com 19 gols.Porém,naquele ano, disputou 27 jogos.E Cláudio Pitbull atingiu os mesmos 19 atuando em 36 jogos,mas não foi o goleador da competição em 2004. Washington,do Atlético-PR,fez 34.

Pé-quente, Viçosa marca logo no jogo de estreia Quarenta e oito minutos bastaram para o Grêmio ganhar novo xodó: Júnior Viçosa. Substituto do lesionado André Lima, o alagoano de 21 anos trazido do ASA, da Série B, marcou o gol que abriu caminho para o 2 a 1 sobre o Cruzeiro, ontem, no Olímpico. Aproveitou o último lance do primeiro tempo e, uma hora depois, viu-se cercado de microfones para falar sobre a estreia iluminada. – Estava ansioso para estrear.Graças a Deus fiz o gol – afirmou, na boca do túnel,ao sair. Tanto assédio se explica porque o Grêmio havia chegado ao segundo gol, em pênalti cobrado por Jonas, e virado uma partida dificílima. Façanha valorizada, pois o Cruzeiro mostrou credenciais de candidato ao título graças à boa organização

tática e a jogadores qualificados. Equilibrou-se no argentino Montillo, autor do 1 a 0, pegando o próprio rebote, aos 27 minutos da etapa inicial,e no volante Fabrício,incansável na marcação e na articulação. O fator Júnior Viçosa cresce em importância porque o Grêmio vinha mal no fim do primeiro tempo.Com o empate, recobrou o ânimo no vestiário e voltou mais eficiente – inclusive pela troca de Fábio Santos por Gilson. Travou um jogo aberto contra um adversário que tentou ganhar, e levou a melhor devido ao pênalti cometido por Thiago Ribeiro, ao empurrar Gilson. Jonas cobrou duas vezes, porque houve invasão, e definiu o jogo aos 28 minutos. EViçosa? Estava feliz porque jogou bem. Rápido e movediço, respondeu bem aos encontrões da marcação.

PELO OLÍMPICO

Antes do clássico

Rochemback

O volante entrou na linha de considerar o Gre-Nal como um jogo a mais,mas exaltou a arrancada do Grêmio rumo à Libertadores: – Nossa subida é boa.

Em ascensão, com oito jogos sem perder. ●

Jonas teve de cobrar duas vezes pênalti contra o goleiro Fábio, do Cruzeiro Só não estreou antes,revelou Renato, por cumprir um período de adaptação. Afinal, há um abismo entre o Grêmio e o ASA, de Arapiraca (AL). Mas nada que não possa ser vencido por um telefone, como contou o

atacante. O primeiro compromisso após deixar o estádio seria pegar o celular e fazer um DDD até Viçosa , na sua Alagoas. – Esse gol é para o pessoal da minha cidade – garantiu.

Quem volta - Adilson, mas o

83

3 técnico Renato não confirmou se volta ao time como titular no lugar de Vílson.

Renato

A área técnica ficou pequena para a tensão de final de jogo: o treinador assistiu à pressão do Cruzeiro quase de dentro do campo,fora do perímetro marcado no chão. De jeans e camiseta preta do Grêmio,chegou a orientar dois, Ferdinando e Neuton,quando só restava uma troca – era porque Paulão havia sentido lesão.Ferdinando entrou já aos 45,e conseguiu levar o terceiro amarelo por puxão em Roger.

Ranking tricolor 20 gols: Jonas (2010) 19 gols: Rodrigo Fabri (2002) (abaixo,E) e Cláudio Pitbull (2004) (abaixo,D) 16 gols: Paulo Nunes (1996) 14 gols: André Catimba(1978), Baltazar(1980),Lima (1986), Ronaldinho Gaúcho(2000) e Jonas (2009) 12 gols: Neca (1975), Baltazar(1982) e Tita (1983) 11 gols: Rômulo (2006) 10 gols: Tarciso (1974 e 1984), Baltazar (1979 e 1981),Volnei Caio (1990),Jardel (1995) ,Luiz Mário (2001) e Christian (2003)

PAULO FRANKEN, BD

artiu do presidente Duda Kroeff uma definição simples porém eficiente do momento do Grêmio, um time cada vez mais candidato a uma vaga na Libertadores,seja com G4 ou G-3.Funciona como música para o ouvido do torcedor, especialmente quando há um Gre-Nal pela frente: – O Grêmio joga com cara de Grêmio, total – afirmou, espremido por cumprimentos no corredor de acesso à sala de imprensa do Olímpico, após o 2 a 1 de ontem,sobre o Cruzeiro. Era referência clara à postura do time, capaz de virar contra o líder do campeonato e, com isso, posicionarse a quatro pontos do terceiro colocado. Restam oito rodadas para reduzir essa diferença e conquistar a vaga na Libertadores. Era algo fora dos planos quando Renato assumiu, em agosto, fugindo do rebaixamento – e isso jogadores como Lúcio e Jonas admitiram ontem. O novo objetivo, porém, passa todo pelo Gre-Nal.Daí a importância maior deste clássico,apesar das tentativas de jogadores, comissão técnica e direção de minimizá-lo. Aliás, o discurso do vestiário é de cautela total, não interessa o assunto,Gre-Nal,Libertadores. Trata-se de um Grêmio pés no chão, calculado.As manifestações de euforia partiram todas das arquibancadas abarrotadas por 41 mil gremistas. Aos microfones, nada provocativo. Duda foi ao ponto de dizer que nada muda para o Gre-Nal. Renato pregou respeito ao Inter: – O grupo é muito bom. Não é por nada que foi campeão da Libertadores. De semblante tranquilo e braços apoiados sobre a bancada, o técnico anunciou que só divulga time 45 minutos antes do clássico. Manterá os treinos abertos e até convidou a torcida a assisti-los. Só se esquivou de todas as perguntas sobre escalação e estratégia. Insinuou, brincando, que os repórteres presentes à coletiva seriam auxiliares do técnico adversário, Celso Roth. A única concessão passou por admitir frio na barriga no clássico. O que Renato falou, e bastante, foi a respeito da entrega dos jogadores. De como alguns – não disse quais – acordaram e recuperaram a confiança, mesmo com a obrigação de “vencer,

O destaque do Plantão

JEFFERSON BOTEGA

VALDIR FRIOLIN

FOTOS MAURO VIEIRA

CARLOS GUILHERME FERREIRA

Quem segue machucado - O centroavcante Borges. Mário Fernandes e Souza já treinam, e seria surpresa se aparecessem.

Quem está fora - Ferdinando

recebeu o terceiro cartão amarelo e fica impedido de enfrentar o Inter.

Momento do time - A confiança

aumentou ainda mais depois de ganhar do líder do campeonato e vir de oito jogos sem perder no segundo turno do Brasileirão.

Este espaço é do Plantão Cleber Grabauska da Rádio Gaúcha cleber.grabauska@rdgaucha.com.br


32

ZERO HORA DOMINGO,13 DE MARÇO DE 2011

Esporte/INTER

O Beira-Rio em 1

Nesta segundafeira,o Conselho Deliberativo se reúne para discutir a proposta de reforma do BeiraRio com a parceria da Andrade Gutierrez.A reunião começa às 20h. A votação está prevista para ocorrer na terçafeira,em nova sessão do Conselho.Mas há possibilidade de que conselheiros ligados a Vitorio Piffero peçam mais prazo.A Fifa, porém,pressiona para que o Inter apresente logo as garantias.Uma demora poderá fazer com que o Beira-Rio deixe de sediar a Copa.

3

Quem são os apoiadores

4

Como pagar a reforma

5

As garantias da obra

COM PARCERIA

A

decisão no Conselho

2

O custo da reforma

A Andrade Gutierrez arca com as despesas do projeto,a preço fechado.O risco do Inter é zero.Em troca,cede a exploração de lojas,edifício-garagem (3 mil vagas),suítes,sky box (suítes menores) e cadeiras VIPs por 20 anos.

Custa R$ 290 milhões.O preço é fechado.Se a obra ficar mais cara,o Inter nada tem a ver com isso.Itens de acréscimo no projeto exigidos pela Fifa já fizeram o total pular para mais de R$ 200 milhões.

Giovanni Luigi,presidente, Aod Cunha,executivo-chefe, Luís Anápio Gomes,1º vice, Dannie Dubin,2º vice, Roberto Siegmann,vice de futebol.

A maior parte dos R$ 290 milhões,a Andrade Gutierrez captará junto ao BNDES (67%).Enquanto obtém o empréstimo,toca as obras com seu dinheiro. O Inter entraria com R$ 26 milhões (dos Eucaliptos e das suítes já vendidas).

A Andrade Gutierrez captará dinheiro no BNDES.

Banca a reforma com dinheiro do clube e lucra 100% com o novo estádio. O projeto se restringe à reforma do Beira-Rio, incluindo a sequência da construção das novas suítes e camarotes que sustentariam a verba para a reforma.

Segundo os defensores do autofinanciamento, o Inter gastaria R$ 158 milhões,sendo que R$ 53 milhões já estariam em caixa,oriundos da comercialização de 26 suítes e da venda dos Eucaliptos.

Vitorio Piffero,ex-presidente, Ibsen Pinheiro,ex-dirigente, Mário Sérgio Martins,ex-vice presidente,Pedro Affatato,exvice de finanças,Emídio Marques,ex-vice de patrimônio e José Asmuz,ex-presidente.

Há,em caixa ou a receber, R$ 53 milhões da venda dos Eucaliptos e de 26 suítes,realizada entre julho e dezembro de 2010.O restante virá do mercado e da venda de cadeiras VIPs, suítes e sky boxes (espécie de camarotes suspensos)

O Inter procurou 11 instituições financeiras para atender às exigências da Fifa,mas nenhuma aceitou,por enquanto.

11

12

13

14

15

São 26,entre julho e dezembro do ano passado,mas a venda é insuficiente para bancar as obras.

Há riscos,sim.Se o Inter não oferecer garantias financeiras,a Fifa tira a Copa do Inter.

Sim,há risco.A Arena já está credenciada como estádio de treinos e,com o Beira-Rio fora,pode ser indicada.É difícil fazer Copa no Brasil sem Porto Alegre,capital do Mercosul. E o Grêmio estaria trabalhando por isso.

Está previsto no projeto com a Andrade Gutierrez a construção de um edifíciogaragem com 3 mil vagas,a ser explorado pela empresa durante 20 anos.O custo do prédio é estimado entre R$ 40 e 45 milhões.

Será finalizada em 2013, em condições de abrigar a Copa das Confederações.

São 26,entre julho e dezembro do ano passado,quando foram paralisadas pela atual gestão.

Existe risco,mas independentemente da parceria.Reformar o estádio com dinheiro próprio é mais importante do que sediar jogos da Copa.O ritmo das obras do Beira-Rio está à frente de muitos outros estádios brasileiros escolhidos.

A Fifa já disse que não tem plano B ao Beira-Rio.

As vagas para estacionamento estão contempladas no projeto, mas seriam as já existentes hoje (no pátio do estádio, no espaço alugado à EPTC e no Parque Gigante).

Se conseguir as garantias financeiras exigidas pela Fifa,a tempo de sediar jogos da Copa.

Suítes e camarotes vendidos

RECURSO PRÓPRIO COM PARCERIA

A forma como será conduzida a reforma do Beira-Rio dividiu o Inter. O grupo liderado pelo presidente Giovanni Luigi defende a parceria com a construtora Andrade Gutierrez. Quer evitar que o Inter perca a Copa. O ex-presidente Vitorio Piffero e seus apoiadores garantem que é possível fazer a reforma com recursos próprios, mesmo que isso represente risco de perder a condição de estádio-sede de 2014. Em silêncio, Fernando Carvalho se afasta da discussão e reprova o racha no clube. O Conselho se reúne nesta segunda-feira para discutir a parceria. No dia seguinte, deve votar o acordo. Confira ao lado as opiniões dos dois grupos sobre cada ponto que envolve a reforma do beira-Rio e tire suas conclusões.

As propostas para a reforma

RECURSO PRÓPRIO

DIOGO OLIVIER e LEANDRO BEHS

Risco de perder a Copa

Risco da Arena ser sede

Edifíciogaragem

Final da reforma


ZERO HORA DOMINGO,13 DE MARÇO DE 2011

Esporte/INTER

15 questões 9

10

Se não for aprovada a parceria,a única forma de terminar a reforma será tirando recursos de outras áreas,sobretudo o futebol.

A atual direção defende que,com um estádio remodelado,reforçará a marca e aumentará o lucro. As receitas do futebol ficam com o clube,como é hoje. E parte do entorno ficará a cargo da empreiteira.

Caso a parceria não seja aprovada,o clube,sem dinheiro em caixa para bancar a reforma,terá que tomar novos empréstimos em bancos.

O dinheiro das obras e do futebol não se comunicam. A reforma virá toda da venda de suítes e cadeiras e dos recursos obtidos com a negociação dos Eucaliptos.

O grupo de Piffero calcula que o Inter perderá,em 20 anos,R$ 1 bilhão,somando o que poderia arrecadar com a exploração de áreas comercias do entorno do estádio.

Não haverá dívidas caso o clube toque a obra sozinho.Um terço do orçamento apontado como suficiente já está em caixa. O resto pode ser obtido no mercado e com a venda das suítes e camarotes.

6

7

8

Seria de R$ 20 milhões.A atual gestão entende que o dinheiro da venda dos Eucaliptos (R$ 15 milhões recebidos até agora), por ser exclusivo para as obras do Beira-Rio,não pode entrar como receita do clube em 2010.

Não perde autonomia no futebol.Fica tudo como é hoje: sócios,preço de ingresso,bilheteria,cotas de TV,venda de jogadores. Só muda a exploração do entorno do estádio,que nunca foi feita desde a fundação.

O déficit é de R$ 2 milhões.A gestão de Piffero contabiliza a quantia recebida pela venda dos Eucaliptos como receita.

Caso seja fechada a parceria,perde autonomia, pois a exploração comercial de parte do entorno será entregue para a construtora por 20 anos.

Autonomia do clube no estádio

FERNANDO CARVALHO

Símbolo das grandes conquistas,o ex-presidente silencia sobre a reforma do Beira-Rio. A amigos,diz que reprova a discussão por sempre ter sido contra a decisão de o estádio sediar jogos da Copa.Sua postura também é motivada pela amizade com os dois expoentes do debate,Giovanni Luigi e Vitorio Piffero. CONVERGÊNCIA COLORADA

O movimento é dono de 90 cadeiras no Conselho e pode decidir a votação.Neste domingo,faz assembléia para discutir sua posição.Mas Sandro Farias, o líder,diz que seus conselheiros serão liberados para votar.

Dívidas com as obras

Lucros com a parceria

O caso Engevix A

s vantagens e desvantagens

Q

uem é a empresa

É uma organização de São Paulo (com escritórios também em SC,DF,PR,MG,RJ,além de Peru,Angola e México), que atua no setor de engenharia consultiva. Tem presença também na implantação de projetos de engenharia,de compras, construção e montagem de empreendimentos. Iniciou as conversas ainda na gestão Piffero e contatou com a gestão Luigi,mas foi descartada.

O

papel de fiadora

A empresa seria a“repassadora” do financiamento do BNDES ao Inter,no valor de pelo menos R$ 100 milhões.Como os clubes não podem tomar empréstimos à entidade, necessitam de uma empresa (ou banco) que ofereça as garantias,algo parecido com um fiador.

COM PARCERIA

Q

uem são os indecisos

Dinheiro do futebol na obra

A Engevix seria“repassadora” do financiamento do BNDES ao Inter,o que agradaria a Fifa,que teria garantia das obras.O clube teria de vender suítes e camarotes para pagá-la e manteria o risco de endividamento.

RECURSO PRÓPRIO

O déficit atual do Inter?

Com o empréstimo do BNDES, a Engevix serviria para dar à Fifa as garantias exigidas e, assim,permitir ao Inter seguir explorando o seu patrimônio sem cedê-lo a terceiros por um determinado período.

33

Caxias, antes de embarcar para a Bolívia Após a boa largada na Taça Farroupilha,goleando o Ypiranga por 4 a 0,o Inter enfrentará neste domingo o Caxias,às 16h,no Centenário, sem Kleber e Guiñazu, poupados,mas com Oscar e Leandro Damião no time. O jogo na Serra será uma espécie de prévia para Celso Roth projetar a equipe que enfrentará o Jorge Wilstermann,na quarta-feira, em Cochabamba,pela terceira rodada da Libertadores.Como Bolívar e D’Alessandro,ambos se recuperando de lesões, seguirão fora,há disputas abertas na defesa,entre Índio e Rodrigo,e no meio-campo, entre Wilson Matias (um desejo de Roth para os jogos longe de casa),Oscar e Tinga. Os dois últimos foram destaques na quinta-feira. – Contra o Ypiranga,o Inter fez uma partida muito compenetrada.É um time com muito toque de bola. Mantivemos a parte técnica em nível muito alto.O que me preocupa ainda é a falta de objetividade – analisou Roth, sobre a goleada de 4 a 0. O Caxias,após a grande partida diante do Grêmio na decisão da Taça Piratini,só coleciona problemas.Além de perder o técnico Lisca,que pediu demissão,a equipe não contará com cinco jogadores neste domingo.O lateral-direito Alisson,os zagueiros Edson Rocha e Marcelo Ramos e o meia Edenilson,todos suspensos,estão fora.O volante Dê,lesionado, também é desfalque.O Caxias contratou o técnico Luiz Carlos Ferreira,que estava no União São João,de Araras,da Série A-2 paulista.Mas a equipe ainda deverá ser comandada pelo interino Ricardo Cobalchini contra o Inter.

Gauchão – Taça Farroupilha – 2ª rodada – 13/3/2011

INTER

CAXIAS André Sangalli; Patrício Vanderlei Neto Gerley; Marcos Rogério Dê (Waldison) Itaqui Zé Carlos; Éverton Lima

Lauro; Daniel Rodrigo Sorondo Massari; Wilson Matias Bolatti Tinga Oscar Zé Roberto; Leandro Damião

Técnico: Técnico: Ricardo Cobalchini (interino) Celso Roth

16h

Arbitragem: Fabrício Neves Corrêa, auxiliado por Alduino Mocelim e Rafael da Silva Alves. Local: Estádio Centenário, em Caxias do Sul. O jogo no ar: a Rádio Gaúcha abre a jornada às 15h15min. O canal PFC 8 transmite ao vivo.


40

Esporte/SELEÇÃO

ZERO HORA DOMINGO,27 DE MARÇO DE 2011

ENTREVISTA

Mano Menezes

técnico da Seleção Brasileira

“Gosto de quem briga por espaço” MOWA PRESS, DIVULGAÇÃO

DAVID COIMBRA

Mano Menezes atendeu à ligação de Zero Hora um dia antes de embarcar para a Grã-Bretanha (na quarta-feira), por volta das 20h30min: – Estou no trânsito. Posso ligar daqui a pouco? – Claro. Dali a pouco, Mano ligou. Mano não é de se esconder atrás de subterfúgios. – Chegou em casa? – Sim, estou na minha sala, olhando para o mar. – Onde é que você está morando? – Num apartamento na Barra da Tijuca.A vista é muito inspiradora. – Você vai à praia? – Não. Mas acordar de manhã e ver o mar é maravilhoso. Confira a entrevista com o técnico que, neste domingo, comanda a Seleção no amistoso contra a Escócia, em Londres.

Zero Hora – Como é que é essa vida nova, de não ter que ir a um clube todos os dias, de não ter três jogos por semana? Mano Menezes – É muito diferente. O trabalho do clube puxa você. Como treinador da Seleção, você tem que puxar o trabalho. Tem que estabelecer algumas normas. ZH – Como é o seu dia a dia? Mano– De manhã eu me informo, leio, avalio os informes que recebo todos os dias, analiso os relatórios dos jogadores e dos jogos. À tarde, normalmente vou para a CBF.

Mano – Por incrível que pareça, estamos tendo pouca oferta do meio para frente. Faltam jogadores que sejam protagonistas. ZH – Tipo Ronaldo Nazário, Romário... Mano – É, Ronaldo, Romário, Bebeto, Rivaldo, Careca. Jogadores indiscutíveis em seus clubes. De uns tempos para cá não temos mais. ZH – Por quê? Mano – É cíclico.É uma fase. ZH – Os europeus, inclusive, estão contratando goleiros,zagueiros e volantes brasileiros,não é? Mano – Isso tem a ver com a nossa evolução tática. Nossos defensores não eram requisitados porque os europeus tinham melhores zagueiros do que os nossos.Agora os nossos evoluíram e se adaptam melhor às táticas europeias. Temos laterais que sabem jogar numa linha de quatro zagueiros, por exemplo.Antes não tínhamos.

ZH – Não existe o perigo de você se descolar da realidade do futebol, tão apartado da rotina dos clubes? Mano – É por isso que vou a jogos e converso com técnicos. Faço isso sem a intenção direta de convocação, só para ver o que está acontecendo. Dia desses fui ao jogo do Inter e muitos me criticaram. Disseram que quem devia assistir ao jogo do Inter era o técnico da Argentina, para conZH – Nenhum dos novos atacanvocar para a seleção da Argentina. Mas não vou a jogos só para convocar. tes pode se transformar em um protagonista? Mano – Claro que sim. De repente ZH – O que essa experiência tem surge alguém, como surgiu o Neymar. acrescentado para você? Mano – Meu trabalho vai além de O próprio Neymar precisa se afirmar. ser técnico da Seleção. O presidente O Pato também tem de assumir mais me pediu para coordenar as outras o jogo,ser mais importante no clube. categorias também. Então é um traZH – O Damião foi chamado pabalho que me proporciona experiênra se preparar para a Olimpíada? cias mais amplas. Mano – Venho observando o DaZH – Existe pressão para convo- mião desde o ano passado. É um jogador com características interessancar esse ou aquele jogador? Mano – De jeito nenhum. Não tes. Gosto de quem briga por espaço, existe nenhuma pressão para convo- que quer vencer na vida. Esse tipo de car ou deixar de convocar.A convoca- espírito é importante num grupo. ção é fruto de observação. ZH – O Douglas ficou queimado ZH – Quais são as maiores defi- na Seleção por causa daquele erro ciências hoje,no futebol brasileiro? contra a Argentina?

Mano sobre o seu atacante: “Venho observando o Damião desde o ano passado”

Mano – Não sou um empolgado para considerar imprescindível um jogador por uma grande atuação, assim como não seria cruel em queimar um jogador por causa de uma bola mal dominada. Conheço o Douglas há tempo, desde que trabalhei no Corinthians.Sei o que ele pode render. Então, não preciso observá-lo tanto quanto preciso observar outros.

está com problemas. O que está mais adiantado na Seleção? Mano – A primeira linha está adiantada, com exceção da lateralesquerda. Na direita temos grandes jogadores, o Daniel e o Maicon, temos o Rafael. Na zaga tem o David Luiz, o Thiago Silva, o Lúcio, o Luisão, o Réver, que eu tenho usado. No meio, o Sandro, que já está se adaptando ao futebol inglês, que é sempre difícil. É jogador importante para a função, com estatura, que sabe sair jogando. Tem também o Hernanes, o Ramires... Precisamos evoluir nas meias, não podemos depender só do Ronaldinho e do Kaká. Não sabemos se eles vão voltar a jogar o que jogavam Temos que experimentar mais.

ZH – Você tem um plano elaborado para a Seleção? Tipo: em 2011 meus objetivos são tais e tais, em 2012 esses outros...Existe isso? Mano – Futebol não é tão matemático assim. A gente pode ter ideia de onde gostaria de estar, mas às vezes o processo não é tão rápido. Em outras vezes, torna-se rápido demais. De repente, você perde o Nilmar e o Pato. ZH – O Ronaldinho pode voltar Aí perde tempo. O Ganso, por exem- a ser o que era antes de 2006? plo, sofreu um atraso.Agora terá que Mano – O futebol me ensinou a recomeçar. Mas como ele vai se com- não excluir ninguém por antecipação. portar? Ele sofreu lesão de ligamento, Isso vai depender dele. é complicado... ZH – Todos os técnicos se queiZH – O ataque você já disse que xam de pressão na Seleção...Você


ZERO HORA DOMINGO,27 DE MARÇO DE 2011

Esporte/SELEÇÃO

MANO MENEZES

Cinco vezes em Londres Palco do amistoso deste domingo, o Estádio Emirates, em Londres, recebeu cinco vezes a Seleção desde 2006. É porque a CBF negociou os amistosos com a empresa suíça Kentaro, responsável por organizá-los. E isso inclui definir o local. Em favor da Inglaterra, conta o fato da localização – já que a maioria dos convocados atua em equipes europeias e, desta forma, escapam de longas viagens. No Emirates, o Brasil já pegou Itália, Argentina, Suécia, Portugual e Irlanda. Na Inglaterra, também enfrentou a seleção local, além de País de Gales e Ucrânia. Firmado antes da Copa de 2006, o contrato da CBF com a Kentaro previa cota de US$ 1,5 milhão por amistoso (cerca de R$ 2,4 milhões).

ZH – Mas você sabe que pode sofrer pressão dependendo dos resultados? Mano – É claro. O trabalho do técnico só se afirma com resultados. Se afirma com os jogadores e com os críticos.Por isso,temos que entrar nas competições para vencer, embora saibamos que o importante é a preparação para a Copa de 2014. ZH – Você se preocupa com as questões da Copa, tipo estádios, estrutura,essas coisas? Mano – Não. Minha preocupação é fazer um time que jogue bem essa Copa.Já é trabalho suficiente.

A ascensão meteórica de Leandro Damião pode ter novo capítulo às 10h deste domingo (horário de Brasília),quando a Seleção Brasileira pisar no gramado do Estádio Emirates,em Londres.Tudo indica que o centroavante do Inter será um dos titulares do técnico Mano Menezes no amistoso contra a Escócia,em partida preparatória para a Copa América,em julho. Damião está em Londres por força de seus gols,claro,mas também contou com duas baixas por lesões.Com Pato e Nilmar indisponíveis,Mano se viu obrigado a chamar um substituto para o ataque.E o jogador do Inter chega com bom cartaz diante do técnico, já que a tendência é que Jonas,exGrêmio e hoje no Valencia,seja seu reserva.O atacante estava na lista original de convocados. É possível,porém,que Mano mexa em outra posição além do ataque – caso haja surpresa e Damião não atue.No treino de sexta,o treinador promoveu a entrada de Jadson na vaga de Renato Augusto,hoje o articulador titular. O lateral-esquerdo Marcelo,que sofreu pancada no trabalho de sexta,faria teste neste sábado.Pode dar lugar a André Santos. Depois de hoje,a Seleção jogará em 4 de junho,contra o Holanda,no Serra Dourada,em Goiânia-GO.

Amistoso, 27/3/2011

ESCÓCIA

BRASIL Julio César; Daniel Alves Lúcio Thiago Silva Marcelo (André Santos); Lucas Leiva Ramires Elano Jadson; Neymar Leandro Damião

McGregor; Hutton Danny Wilson Whittaker Mark Wilson; Adam Brown Bannan Commons; Millar Mackail-Smith

Técnico: Mano Menezes

Técnico: Craig Levein

10h

Arbitragem: não-divulgada. O jogo no ar: a RBS TV transmite ao vivo. A Rádio Gaúcha abre a jornada às 9h30min. Local: Estádio Emirates, em Londres (Inglaterra)

DOMING0 Brasil X Escócia

10h

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Não podemos depender só do Ronaldinho e do Kaká

LEFTERIS PITARAKIS, AP

sofre muita pressão? Mano – Não.Tem a pressão normal, vinda de fora.Muita cobrança externa, muita gente falando muita coisa,gente com informação desencontrada. Mas internamente a tranquilidade é total. Outros técnicos me disseram isso, e é verdade: o técnico da Seleção tem todas as condições e toda a independência para fazer o seu trabalho.

Damião com Neymar

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ZERO HORA DOMINGO,17 DE OUTUBRO DE 2010

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JONES LOPES DA SILVA

JULIO CAVALHEIRO

A uma semana dos 70 anos do maior ídolo de todos os tempos do futebol, alguns dos exjogadores ligados à dupla Gre-Nal que conviveram com o Rei no lendário time do Santos e na Seleção Brasileira revelam as histórias mais bizarras dentro e fora de campo

O gaúcho Mengálvio (D) na Seleção, com Vavá (sentado): dois dos melhores amigos de Pelé

OBERDAN

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Pelé pedia desculpas quando passava a bola errada no treino. Nunca reclamou de comida e nem das viagens. Nem quando o avião balançava.

No final da gravação do documentário sobre Pelé, os entrevistados foram convidados a conceder depoimento derradeiro sobre o personagem principal. O ex-zagueiro Oberdan resumiu o sentimento numa frase curta: – Para mim,Pelé é eterno. Gravou isso e foi para casa. Durante a exibição de pré-estreia, um dos produtores o procurou a um canto no cinema e agradeceu: – Obrigado pela ideia do nome do filme. Assim nasceu o título Pelé Eterno. Oberdan acertou em cheio na definição do seu antigo companheiro porque passara seus primeiros 10 anos de vida profissional em convivência com o Santos de Pelé. Tornara-se o quarto jogador que mais atuara como zagueiro na história do clube – ou seja, dividia tanto a rotina de conquistas do time mais badalado do mundo quanto suas horas mais bizarras. Por exemplo. Oberdan era um dos 22 mortais em campo quando o Santos enfrentou a seleção olímpica da Colômbia, em Bogotá. O presidente da República, o ministério, o clero, o judiciário em peso tomaram as tribunas. Excedentes de autoridades alojaram-se em cadeiras improvisadas à beira do gramado e formaram um cerco ao gramado. Todos que-

riam ver Pelé.Seria uma noite memorável não fosse a desmesura do árbitro Guillermo “Chato”Velázquez. O juiz anulou um gol em lance legítimo do atacante Lima, que foi protestar. O problema é que Chato, um irritadiço lutador de boxe, não aceitou a queixa do brasileiro e o esmurrou de leve, e o bolo de jogadores se formou. Do nada,Chato virou-se para um dos tantos negros com a camiseta branca do Santos e expulsou um. Não se deu conta de que o punido tinha o 10 às costas.Ao ver Pelé sair de campo, a turma comportada e bem asseada da borda do campo perdeu a compostura.Atirou cadeiras e almofadas.A polícia aos magotes tentou cercar o árbitro e controlar o alambrado que a torcida ameaçava colocar abaixo,aos gritos: – Pelé,Pelé,Pelé... Quem o juiz queria expulsar era o volante Mengálvio, outro gaúcho revelado no Aimoré, de São Leopoldo,antes de ir para o Santos: – O Pelé era assim: nos fazia passar pelas situações mais curiosas. Uma ordem desceu das tribunas,seguiu pelo túnel e chegou ao ouvido de Chato. – Que saia Velázquez e volte Pelé. Colocaram um auxiliar a apitar. No vestiário, de banho tomado, Pelé estranhou quando Oberdan entrou esbaforido,correndo: – Eles estão chamando.Você tem de voltar! Pelé retornou ao jogo, e Chato foi embora. Mas deu o troco. Fez queixa dos brasileiros e Oberdan e Pepe passaram a madrugada explicando supostas agressões ao juiz.

Pelé jogou e a guerra parou Gilmar, Pelé, Edu, Coutinho, Zito, Oberdan, ninguém acreditou no que viu assim que deixou o aeroporto de Brazzaville, no antigo Congo Belga. Havia mais tanques do que carros nas ruas. Só o empresário da excursão à África se mostrava confiante.Até Pelé, sempre cordato, irritou-se com os jogos em meio a uma guerra. Assim o Santos jogou quatro amistosos no Congo quando surgiu o convite para uma quinta apresentação. O problema era viajar a uma zona ainda mais conflagrada. O agente apressou-se a justificar o amistoso seguinte: – Fiquem calmos, eles param a guerra: vão querer ver Pelé. JONES LOPES

O juiz expulsa e a torcida manda o Rei voltar

Todos se surpreenderam com a reação de Pelé, que chamou o empresário de louco. E Oberdan pensou: o negrão está nervoso e ainda assim marcou cinco gols em quatro jogos. E a delegação partiu para Lagos, na Nigéria. A leste do país, corria a guerra civil de Biafra, havia temor de atentados. O governo nigeriano garantiu a proteção da polícia ao Santos e mandou o exército cercar a cidade. Cartazes brancos espalhados pela capital ao mesmo tempo sugeriam trégua e convidavam para a grande exibição de Pelé. Nem um tiro foi disparado, nem um incidente de rua registrado. Pelé fez dois gols no empate em 2 a 2, e Oberdan entrou no lugar de Rildo no segundo tempo e voltou a pensar: o negrão queria acabar logo com isso,por isso marcou dois gols. Assim que o Santos levantou voo, a guerra foi retomada. Oberdan jogou oito anos com Pelé. Depois,esteve no Grêmio em 77 e 78.

MENGÁLVIO

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Conviver com Pelé era sempre uma surpresa: em torno dele aconteciam coisas que jamais acontecerão com outros mortais


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ZERO HORA DOMINGO,17 DE OUTUBRO DE 2010

BANCO DE DADOS

BANCO DE DADOS

O zagueiro Vicente (D) foi capitão do Santos de Pelé nos últimos anos de carreira do astro, até o jogo da despedida ARQUIVO PESSOAL

Era para ser apenas uma viagem rapidinha ao Caribe.O destino,a paradisíaca Trinidad e Tobago,o mar verde de ondas calmas e coqueirais de coquinhos amarelos.Uma pausa à rotina de jogos do Campeonato Brasileiro, apesar do bate e volta no meio da semana.De novo a delegação perdeu o encanto ao deixar o aeroporto.O exército estava nas ruas em combate numa guerra civil que só então souberam já havia derrubado centenas de pessoas. – Não acredito que nos trouxeram para um lugar desses – exclamou o zagueiro Vicente. A tensão diante de tantos milicianos armados perdurou até a hora do jogo.Enquanto o time se fardava,alguém jogou uma bomba de gás lacrimogêneo no vestiário.Bateu o pavor e alguns militares cercaram a delegação para protegê-los de novos atentados.Pelé,Vicente, Pepe,Edu,Oberdan foram a campo com uma toalha molhada ao rosto. Pelé marcou o único gol da vitória sobre a seleção do país – o que reforça a tese de Oberdan sobre o interesse dele em liquidar o jogo e voltar a salvo para casa o mais rápido possível.Mas desta vez não foi tão fácil.Feito o gol aos 43 minutos do primeiro tempo,a torcida invadiu o gramado.Colocaram Pelé sobre os ombros,e o jogo se encerrou.Bastava-lhes ver um gol de Pelé.O resto seria festa.E o sequestraram para fora do estádio em um cortejo alegre em direção ao centro da cidade comemorando a glória de presenciar um gol do brasileiro mágico – tudo acompanhado de perto pelo exército. Carregado sem ação nos ombros da horda, Pelé gesticulava e agradecia,mas seu rosto era de puro medo.Só foi resgatado minutos depois. A delegação antecipou o voo de volta.Aquele dia de folga no mar do Caribe ficou para uma outra excursão.

VICENTE

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MAURO VIEIRA

O mar e o gás de Trinidad

Dorval saiu do Força e Luz, de Porto Alegre, para o Santos de Pelé: tornou-se um dos maiores pontas da Vila Belmiro

Nós tínhamos uma família na Vila Belmiro. A gente se reunia na barbearia, na padaria e depois viajava pelo mundo inteiro

Acompanhe a série em vídeo no clicEsportes, a partir desta segundafeira, com os personagens gaúchos que jogaram com Pelé. Acesse clicesportes.com.br

O capitão Vicente chora de saudade Aproximava-se o dia 2 de outubro de 1974, a quarta-feira da despedida de Pelé no Santos. O país inteiro comentava a respeito, campanhas clamavam pelo “fica” e uma grande excitação descia sobre a cidade de Santos, à espera da exibição derradeira, na Vila Belmiro,contra a Ponte Preta. Entre os jogadores, porém, poucos comentavam o assunto. Uma tensão os inibiu e se arrastou assim até a hora do jogo no vestiário. A preleção do técnico Elba de Pádua Lima, o Tim, foi sem delonga, lembrou da solenidade de despedida, agradeceu pela existência de Pelé entre eles e colocou a palavra ao grupo. Ninguém falou. O zagueiro Vicente, capitão do time, em respeito ao clima do ambiente, também recolheu-se ao silêncio.Pelé estava concentrado. Um pigarro aqui e ali cortava a dureza do momento e os jogadores subiram os primeiros três degraus do corredor de acesso e depois mais cinco lances e já não se ouvia o barulho das travas das chuteiras porque o som externo do estádio se infiltrava. Vicente foi o primeiro a aparecer. Tinha um cabelão de roqueiro inglês e um bigode da espessura de um dedo. Bem atrás Pelé foi

parado pelas rádios e quase não conseguiu avançar ao campo. Havia 250 jornalistas no estádio, mais cinegrafistas, fotógrafos e grande parte disso dentro do gramado. Jogo iniciado, Pelé revelou-se cansado.Vinha de lesão e, ainda assim, acertou uma cabeçada que o goleiro Carlos, aos 18 anos, defendeu com dificuldade. Minutos depois, passaram-lhe a bola no centro do círculo do gramado e ele a pegou com a mão. Ninguém entendeu aquilo.Vicente perguntou a alguém: – O que ele vai fazer? Não havia combinação de quando iria parar o jogo. Não falavam sobre isso. E Pelé ajoelhou-se sobre a marca do centro do gramado,ergueu os braços e exclamou: – Obrigado,Deus. Ainda de joelho,fez uma volta sobre si contemplando todo o estádio onde jogou desde o início. O árbitro Emídio Marques Mesquita entrou no clima.Vicente e os colegas tentaram abraçá-lo, mas o gramado foi tomado pela imprensa e curiosos e Pelé fez a volta olímpica acenando a própria camiseta com listras em preto e branco. Gilson substituiu Pelé, que seguiu em car-

ro dos Bombeiros pela cidade em cortejo de milhares de fãs aos gritos de Pelé, Pelé, Pelé – quase igual ao episódio de Trinidad e Tobago, com mais segurança, é claro. Em 18 anos de Santos, marcou 1.088 gols em 1.114 partidas, média de 0,97, praticamente um gol por jogo.Conquistou 10 Paulistas,quatro torneios Rio/São Paulo, cinco Taças Brasil, um Robertão, uma Recopa Mundial, duas Libertadores e dois Mundiais Interclubes. Coube a um gaúcho de Bagé ser o capitão do Santos neste momento derradeiro. O zagueiro Vicente imperava no Estádio da Estrela D’Alva, do Guarany, até ser recomendado à Vila por Calvet, considerado um dos melhores zagueiros de todos os tempos da história do Santos e do Grêmio. Vicente hoje mora na zona sul de Porto Alegre. Mantém numa caixa de papelão fotos de quando chegou à Vila em 1971 e saiu em 1976.A maioria é dele com Pelé. – Vocês sentiram um vazio no vestiário no jogo seguinte ao da despedida? – Ficou, sim – disse, a voz embargada pelo choro,o cabelo grisalho pelos 65 anos.

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ZERO HORA DOMINGO,17 DE OUTUBRO DE 2010 BANCO DE DADOS

O Rei que comia com as mãos

MAURO VIEIRA

O centroavante Alcindo esteve com Pelé na Copa de 66. Mais tarde, depois do Grêmio,entre 1971 e 1973, reecontraram-se na Vila. Frequentaram a barbearia do Didi, na frente do estádio.Alcindo viu Pelé imortalizar o corte de cabelo estilo“bibico”, como um gorro de soldado. Em dias de folga, Pelé buscava Alcindo em casa e o levava para pescar em seu sítio em SãoVicente.Ia pegálo de Mercedes, às vezes com motorista. Sempre havia um Mercedes na vida de Pelé. O dono da revendedora de São Paulo prometeu provê-lo com um carro por anos a fio. Mas no sítio pescavam carpas num açude e, durante as refeições, aconteciam as cenas mais curiosas. Pelé servia-se de montinhos de arroz, feijão, peixe, salada e comia um por um com as mãos.

– Desculpe, gaúcho, estamos à vontade,não é? – justificava-se. A história do sítio é mais uma prova da sorte de Pelé. A área pertencia ao massagista Macedinho, do Santos. Mal de dinheiro, o funcionário tentou vender a terra e não encontrou comprador. Sensibilizado com o problema do amigo, Pelé foi conferir o local e gostou particularmente de uma cascata que dava num açude. – Este sítio é meu – disse ele a Alcindo,que estava junto. Pagou à vista e, tempos depois, estranhou a pureza da água da cascata e mandou analisar. Era fonte de água mineral. Macedinho não sabia disso e perdeu dinheiro ao vender o sítio. Pelé mandou engarrafar a água e ficou mais rico. ALCINDO

Alcindo (D) e Pelé (E) durante a Copa do Mundo de 1966, na Inglaterra: amizade perdurou quando o gaúcho se transferiu para o Santos no início dos anos 70.

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Sempre que podia, Pelé me pegava em casa com o seu Mercedes e íamos para o seu sítio. A gente pescava e andava a cavalo

O centroavante Lairton, ex-Esportivo, Caxias e Grêmio, fez 10 gols com Pelé

O centroavante Lairton Giovanella,gaúcho de Lajeado,exCaxias,Esportivo e Grêmio,chegou ao Santos no início dos anos 70.Do convívio na Vila,recorda-se de uma das canções que Pelé costumava cantar nas concentrações.A letra: A meu pai eu agradeço O começo da minha vida Metade já está cumprida Meio tempo da partida

O goleiro Manga não esquece as vezes em que saiu atrás de seu sapato e não o encontrou. Se alguém o havia escondido, só podia ser uma pessoa, o mais astuto brincalhão do grupo. Foi assim na Copa da Inglaterra. – Ele (Pelé) mantinha todos em alerta, colocava apelidos e jogava o astral para cima – depõe Manga. Senão pelas brincadeiras,pelas manias. Oberdan reconstitui uma cena: – Vi Pelé no vestiário colocando o fardamento. Esticava-se num banco de madeira, pegava uma toalha branca e fazia de travesseiro. Fechava os olhos, concentrava-se e adormecia. Oberdan pedia silêncio, e nem precisava. Todos respeitavam. O homem se preparava para ser Pelé. Vinha a preleção e o melhor jogador do mundo ouvia o técnico com atenção. Só opinava quando solicitado. O estado era de relaxamento total. Mas nem sempre era assim. Mengálvio levou um susto dormindo no quarto com Pelé. No meio da madrugada, foi acordado com gritos

do companheiro, que chutava a coberta sobre a cama: – Solta a bola,solta a bola... Ex-ponteiro-direito do antigo Força e Luz, Dorval também foi surpreendido pelo sonambulismo do craque: certa noite acordou assustado com Pelé se debatendo. Fazia polichinelos na cama. Nas viagens aéreas, porém, nada o abalava. Dorval conviveu com o período de explosão do Rei, de 1957 até meados dos anos 60. Numa viagem à Europa, a turbulência revirava o avião e os jogadores do Santos começaram a rezar. Num canto, Pelé dormia.Nada o abalava. – Se o negrão está dormindo, não vai acontecer nada – dizia Dorval. Era isso que o zagueirão Airton Ferreira da Silva temia quando recebeu o convite para jogar no Santos em 1960. Odiava aviões e, por isso, aceitou o empréstimo apenas por três meses. Disputaria apenas o torneio Rio-São Paulo. Incomodava-se com o fato de que todas as atenções do mundo voltavam-se para só uma pessoa. Os demais se liberavam. Para quem havia sido astro do Grêmio,Airton sentia-se diminuído. Melindrou-se mais numa partida.Airton foi à área adversária cabecear, e Pelé o conteve: – Gaúcho, deixa que aqui a gente resolve.Cuida da zaga,sim.

JONES LOPES DA SILVA

A canção

Dormindo, Pelé fazia polichinelos

Sozinho não sou ninguém Agradeço a você também Você que me incentivou Você que me criticou

Missão estará cumprida Tudo pronto para a partida Partindo só vou levar O que de bom aqui deixar

ARQUIVO PESSOAL

Agora a vida mudou Outro jogo vou começar Meu pai tem que me ajudar Meus filhos quero criar

Mengálvio (E) jogou com Airton (D) no time de Pelé em curto período de 60


UM ANO DEPOIS

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ZERO HORA DOMINGO,3 DE JULHO DE 2011

ÁFRICA Bastidores da derrota JONES LOPES DA SILVA

Um ano após a derrota da Seleção de Dunga para a Holanda e a chocante eliminação da Copa da África, detalhes da campanha de 42 dias em um ambiente recluso tentam jogar luz sobre as razões do fracasso

O

computador do auxiliar técnico Jorginho Campos, o homem de confiança do técnico Dunga, chega à Copa da África carregado de conquistas: a Copa América, a Copa das Confederações e o folgado primeiro lugar nas Eliminatórias.São 53 jogos desde 2006, com 37 vitórias, 11 empates e cinco derrotas.Excelente. É no superlaptop que Jorginho armazena as ideias de Dunga e o planejamento da Seleção até o derradeiro dia da conquista do hexa. De quebra, seus programas Powerpoint e Keynote recolhem frases de incentivo usadas na preleção dos jogos. “Felicidade é saber aproveitar todos os momentos como se fossem os últimos” – dita antes de amistoso contra a Argentina. É esse o espírito da Seleção de Dunga, cujos discursos martelam as palavras disciplina,comprometimento e patriotismo.

Muitas outras frases de autoajuda tornam a encastelada concentração de Joanesburgo e seus dias frios quase um ambiente religioso. Há tensões ainda assim, como nas coletivas de Dunga e suas brigas com a imprensa, a quem acusa de torcer contra. Em parte tem razão. Dunga cultiva tanto o confronto que se torna natural o batalhão de desafetos. No dia a dia é trabalho duro e, nos turnos de folga, a comissão técnica se encontra na academia de ginástica ou corre em trilhas de paralepípedo regular entre os bosques e campos do Randpark Golf Club, ao lado do Fairway Hotel,a casa da Seleção. E é lá, numa sala nos fundos do hotel, que os evangélicos se reúnem para cultos de uma hora. O pastor Jorginho não costuma aparecer. Evita misturar os assuntos, quer preservar a autoridade. Na única vez em que os jogadores se rebelam com o computador é porque os reservas reclamam da recomendação de trabalhos leves. O capitão Lúcio vai até o preparador físico Paulo Paixão: – Paixão, o pessoal está pedindo um trabalho mais pesado, eles querem se puxar. O que acontece no castelo, porém, morre lá dentro. Nem o tetracampeão Cláudio Taffarel, um dos olheiros da Seleção, convive no ambiente dos jogadores. Mas é de sua autoria e do cozinheiro gaúcho Jaime Maciel o churrasco assado em meio latões estilizados. Nesse dia, Taffarel consagra uma

bruschetta italiana, com pão torrado, tomate cereja, manjericão-cheiroso, alho e oliva. O pãozinho pega. Desde então,Maciel a inclui no cardápio,sob pena de voltar mais cedo ao Brasil. Também os amigos de Dunga não conseguem acesso. O presidente da Federação Gaúcha de Futebol, Francisco Novelletto, manda recado, telefona e não fala com o técnico. O então secretário extraordinário da Copa Eduardo Antonini precisa entregarlhe uma carta da governadora Yeda Crusius, fã incondicional de Dunga. Nem recebe resposta. Então Antonini invade a concentração.

“A carta de Yeda foi extraviada” EDUARDO ANTONINI ex-secretário extraordiário da Copa

“Eu consegui carrinhos elétricos com os funcionários do hotel e andei com eles pela concentração. Já que não podia entregar em mãos, deixei lá um material de propaganda da Copa no Brasil. A carta da governadora também ficou.

No dia da vitória sobre Costa do Marfim e a passagem às oitavas, o jornalista Alex Escobar, da TV Globo, é designado a cobrir entrevistas especiais no Estádio Soccer City.A Globo e uma televisão francesa mantêm um contrato com a Fifa que lhes dão o direito de produzir um programa, o TV Studio, com base em três entrevistas pós-jogo.É espaço da Fifa. Drogba, o craque da Costa do Marfim, aparece. Os brasileiros, não. Dunga não autoriza. Escobar comunica seu chefe, o diretor-executivo da Central Globo de Esportes,João Pedro Paes Leme, que o orienta: não force a barra. Escobar vai então para a sala de entrevistas coletivas. Do seu posto, Escobar vê o repórter Tadeu Schmidt e lhe manda um sinal de negativo. Não fora possível a entrevista da Fifa. Dunga responde a uma pergunta sobre Luis Fabiano, vê o gesto de Escobar e o inquiri: – Algum problema ou não? Escobar responde e Dunga sussurra impropérios com os lábios cerrados e o riso irônico. – Besta...burro... O jornalista Marcelo Barreto está no estúdio envidraçado do Sportv, diante do mosaico de cores do Estádio Soccer City. Seu monitor recebe o som límpido da sala de conferência,a metros dali.O que é sussurrado diante do microfone chega como uma bomba no aquário. – ...cagão... Barreto não acredita no que ouve. Perplexo, descobre que a afetação é endereçada a Escobar.

‘‘ As frases de autoajuda ouvidas na na Seleção

“Quanto maiores somos em humildade, tanto mais perto estamos da grandeza”

De antes de jogo contra os Estados Unidos, na Copa das Confederações, em 2009

“Felicidade é saber aproveitar todos os momentos como se fossem os últimos” De antes de amistoso contra a Argentina

“Há dois dias na vida em que nada pode ser feito: um se chama ontem, o outro se chama amanhã” De antes de um jogo das Eliminatórias

“Você tem um grande sonho? Então coloque todo o seu coração, seu talento e todas as suas forças em busca desse sonho para que um dia ele se torne realidade” Do início da Copa da África do Sul

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Esporte/UM ANO DEPOIS

ZERO HORA DOMINGO,3 DE JULHO DE 2011

Felipe sairia segundos antes Jorginho chegou a sugerir a substituição do volante ao técnico Dunga, que já cogitava a troca, mas naquele instante aconteceu a falta sobre Robben e a expulsão

O

“Havia grande otimismo na volta” PAULO PAIXÃO, preparador físico

“O vestiário do intervalo passou um grande sentimento de segurança. Estava tudo amarradinho. Quem cuida de quem, quem faz o quê. A gente tinha a quase certeza da vitória, eu via essa convicção no rosto dos jogadores, o primeiro tempo dizia isso.”

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Logo a 50 segundos da etapa final, Felipe Melo aventura-se com um toquinho de calcanhar na frente da área. Cinco minutos depois, Michel Bastos comete um carrinho sobre Robben, que pula, encena um dramalhão e avoca o segundo cartão ao brasileiro. O carrinho não pega, mas se arma um bolinho e surge a sombra da expulsão. Quando o árbitro japonês Yuichi Nishimura corre até o lance, o país inteiro já lamenta o vermelho. Nishimura releva. Talvez devido ao exagero de Robben. Em seguida Sneijder cruza para a área, Julio César salta com Felipe, não alcança a bola e seu braço direito faz carga sobre o volante. Nenhum deles toca na bola, nenhum holandês salta. O cruzamento morre nas redes como uma fatalidade sem graça. Há perplexidade. Lúcio leva as mãos à cabeça, e Dunga dá as costas ao gramado. São 8 minutos. Cai por terra o choque de atenção nos 15 minutos iniciais. Robben, De Jong, Sneijder e Kuyt enrolam o jogo. Gilberto toma o lugar de Michel Bastos. Seis minutos depois, Robben cobra escanteio na altura do 1m84cm de Kuyt, que dá uma casquinha para dentro da área e Sneijder completa de cabeça o segundo gol, a 22 minutos.É o segundo acidente em 14 minutos. Três minutos depois, Felipe Melo, o homem do trabalho sujo no time,

atropela Sneijder. O lance, à beira do gramado, é descabido. O holandês reclama ao árbitro, que ignora. Sai barato à Seleção. Neste momento, o auxiliar Jorginho conversa com o preparador físico Paulo Paixão, a seu lado no banco de reservas. Estão preocupados com as reações de Felipe. Jorginho toma a iniciativa: levanta-se do banco e sugere a substituição do volante a Dunga – que já cogita a mudança. De volta da cozinha no hotel Protea, Maciel liga a tv do quarto e tem um sobressalto: a Seleção perde de 2 a 1. Olha o jogo mais uns minutos e, estarrecido, repensa sua programação. Está difícil a viagem à Cidade do Cabo e talvez tenha de preparar o retorno a Joanesburgo. A 27min23seg, Felipe sofre falta de Kuyt e soqueia o ar, nervoso, alterado. Dunga e Jorginho pensam sobre a troca, quem entraria? Josué, Júlio Baptista ou Kleberson? Se Ramires não estivesse suspenso, talvez a mudança fosse mais natural. O jogo corre, o técnico se divide entre o campo e a decisão. Mas a 27min38seg, Robben adianta a bola, Felipe dá-lhe o bote e o derruba. Caído, Robben prende a bola e Felipe pisa com o pé direito sobre a coxa esquerda do holandês. Cria-se a confusão, e o árbitro japonês corre decidido com o cartão vermelho na mão. A substituição é atropelada pelo destempero de Felipe.

Restam apenas 17 minutos de Copa. Gilberto Silva, Daniel Alves e Kaká tentam manter a compostura do time. Nada dá certo. Robinho grita com Robben como se quisesse esganá-lo, Kaká revida uma entrada de Ooijer com um tapa, que passa ao lado da orelha do holandês.A tensão eletriza atrás do barulho da vuvuzela. Nilmar entra no lugar de Luis Fabiano. São 32 minutos, e o pânico ferve no rosto crispado dos jogadores. Sneijder quase marca o terceiro. Dunga agora não se esvai em gestos contorcidos como quando vencia. Observa o jogo com expressão de dor, mas economiza os gestos. O banco parece mais aflito. Aquilo, a derrota, não iria acontecer.

“Tentei recuperar a respiração” GILBERTO SILVA volante da Seleção em 2010

“A gente não conseguia pensar no final. Ficamos sem controle, a gente não tomava aqueles gols. Faltou força, faltou ar, a gente ofegava, havia desespero, e o tempo corria... A gente foi ao limite. Tentei recuperar a atenção, a respiração, tinha de conseguir, não teve jeito.

’’ FRAGA, ARTE ZH

lance é de gênio. Felipe Melo,da linha de meio-campo, vislumbra um vácuo na zaga holandesa e coloca ali 40 metros de lançamento. Em um segundo e meio a bola encontra Robinho deslocando-se para a frente do goleiro Stekenleburg, e o atacante conclui de primeira. Robben abre os braços e dá uma bronca na zaga. Aí Michel Bastos sofre cartão. Da beira do gramado, Dunga, irritado, volta-se para o banco e desfere um tapa na haste metálica do toldo do reservado. São 36 minutos. Dois minutos depois, Maicon comete falta de ataque, a 50 metros do técnico. Dunga não se conforma.Agacha-se ao lado do reservado,leva as mãos à cabeça baixa e faz expressão de dor. Mais adiante, ele se retorce, bate no chão, faz careta,a imagem da aflição. E o time está vencendo. No intervalo, o técnico é um dos primeiros a chegar ao vestiário. Das tribunas de imprensa, o jornalista Juca Kfouri,ferrenho crítico de Dunga e sua Seleção, levanta-se e, solenemente, aplaude a saída dos jogadores. Outros jornalistas em volta, surpresos, o provocam: “Você está vendo o que o Dunga é capaz?”. Do gramado o time leva regozijo e insatisfação. Mas Dunga tem só um sentimento: a Seleção devia ter matado o jogo com o segundo gol. Dunga insiste nisso no intervalo.Talvez insista até demais.A advertência corrente pede olho em Robben, olho em Sneijder, cuidado com o ardil holandês, que chama falta ao menor contato. Gilberto Silva e Lúcio pedem atenção aos primeiros 15 minutos – e isso é repetido como jogral. É alto o grau de confiança na volta a campo. Talvez uma confiança exagerada. O cozinheiro Jaime Maciel assistira ao primeiro tempo na televisão de seu quarto no hotel Protea Marine, de Port Elizabeth. Prepara bagagens com facas prediletas e condimentos como paio, charque, farinha e calabresa. Seu sentimento é de que a Seleção viaja para a Cidade do Cabo, a próxima parada da semifinal. Maciel sai para a cozinha do hotel. Tem de preparar as refeições dos jogadores para a noite que se prenuncia de festa. Seu plano é recepcioná-los com a pizza de calabresa, uma das fortes paixões da casa.

“Não deu tempo para substituir” JORGINHO, auxiliar técnico de Dunga

“A gente estava conversando, o Paulo falou: Pô, Jorge, o jogo está pegando do outro lado. Devia haver aquela troca do Felipe, os holandeses estavam caindo por aquele lado, e havia uma boa resposta nossa. Mas era preciso cautela, por ali estavam o Robben e o Sneijder. O Michel saiu por isso. Era preciso pensar em tudo, mas não deu tempo de providenciar a substituição. Quando vimos o Felipe estava envolvido no lance com o Robben.

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Kaká


ZERO HORA DOMINGO,3 DE JULHO DE 2011

Esporte

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Até as pizzas de calabresa sobraram

Durou uma hora e meia a convulsão de choro no vestiário da Seleção após a eliminação na Copa da África: Maicon pediu perdão aos pais e Gilberto Silva evitou falar com a família

D

unga é o primeiro a entrar no vestiário após a derrota. Jorginho o conforta com a mão sobre o ombro. Chegam Maicon, Juan, Luis Fabiano, todos choram. Quem vem atrás vê Gilberto Silva e Lúcio em lágrimas e se comove. Há uma convulsão no ambiente. Só Dunga não chora. Está compungido, resiste à aflição geral e pede a palavra. Agradece pelo trabalho e pela ajuda na renovação da imagem da Seleção. Não fala muito, e se cala. Ninguém fala do jogo, ninguém comenta sobre aqueles gols a que a Seleção não costuma tomar. Neste momento, o presidente da CBF, Ricardo Teixeira, já se encontra no vestiário, abraça Dunga e chora. Permanecem fechados durante uma hora e meia em estado de transe. Do vestiário, Maicon liga para os pais, em Florianópolis. Tranca o choro por momento, quer evitar que Manoel e Alívia se preocupem com seu desespero daquela hora. Mas precisa falar com eles. – Pai, qual a situação aí? Estou ligando para pedir desculpas, pela derrota... Seu Manoel ouve o filho e o acalma. Mas Maicon pouco resiste e trata logo de desligar o celular. E não retoma coragem de falar com as duas filhas. O celular de Gilberto Silva toca com insistência. Ele não atende, sabe que é a mulher. Falta-lhe coragem para atender ao chamado de Janaina, que a essa altura recebe em Belo Horizonte uma rede de ligações de amigos e parantes preocupados com a situação de Gilberto Silva na África do Sul. Quando, três horas depois, Gilberto se sente encorajado e liga para o Brasil, a filha Isabela, de sete anos,o arrasa: – Como,pai? O Brasil não perde. A mesma incerteza toma conta de Lúcio. Só muito tempo depois, o capitão liga para a filha Victória, em Brasília, e assim, além dos soluços e choros, o som de celulares tocando também eleva o constrangimento do ambiente. O mais desesperado é

Julio César. Em entrevista ao vivo ao repórter Tino Marcos, da TV Globo, ainda arfando e sem dominar a respiração, quase chorando, parmanece 17 segundos sem condições de falar. Cláudio Taffarel, o espião, está perplexo após assistir ao jogo no bar do hotel da Seleção em Joannesburgo. Ele vira dois jogos da Holanda, e o time se comportara exatamente como dissera a Dunga e Jorginho em relato especial: defesa bem armada, meio marcador, com Sneijder na criação e Van Pierce na movimentação.A única diferença daquela Holanda da primeira fase da Copa é fatal: a entrada de Sneijder na área. Taffarel se mantém estarrecido no saguão do Fairway. Quer ligar para Dunga, em Port Elizabeth, mas deixa o tempo passar.

Sneijder

“Eles choraram na mesa do jantar” JAIME MACIEL, cozinheiro da Seleção

“Eu fiquei estarrecido com o que vi. Aquele pessoal que vivia em brincadeiras na hora das refeições, depois da derrota para Holanda estava chorando na mesa do jantar. Comeram muito pouco. Aquilo não era normal.

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Dunga

À

noite o cozinheiro Jaime Maciel apronta o típico jantar de pós-jogo. Há carne, frango, bastante macarrão, farofa e salada à vontade. E, é claro, pizzas de calabresa. São seis delas em tamanho extragrande, o suficiente para o manjar dos 40 da delegação. Em outros dias, os jogadores o chamam de “capitão” e tratam Lúcio de “chefe”. Em outros dias, pouco sobra do que é servido, e a conversa animada prende a maioria em torno da mesa. No jantar, porém, ninguém brinca com o “capitão”, ninguém fala, e a maior prova da desolação é a falta de apetite para as pizzas. Sobra a metade. Dunga e a comissão técnica estão juntos, e rapidamente o pessoal deixa a mesa. A Seleção volta na madrugada ao Fairway Hotel, de Joannesburgo. Às 6h, o bunker da Seleção está desguarnecido, um tanto pelo horário, mas principalmente pelo ambiente de desmanche do circo. Correspondente do Grupo Estado na Suíça, o repórter Jamil Jade chega ao local e, sem o policiamento costumeiro, instala-se no saguão à espera do inusitado. Ele vê quando, minutos depois, Julio César desce do apartamento. Tem a cara de choro recente. Por certo não dormira. Senta-se num sofá entre o refeitório e o lounge e ali permanece calado, olhando fixa-

mente para o chão. Em seguida, Juan e Elano chegam. Os dois sentam no mesmo sofá.Não se falam. Os hospédes do hotel aparecem para o café. Crianças de uma família indiana reconhecem os jogadores brasileiros e os abordam com uma alegria infantil. Pedem autógrafos e são atendidos. Mas a mãe dos meninos compreende a situação e tenta contemporizar: – A gente gosta de vocês... Isso não é nada...Parabéns. Julio, Juan e Elano, sem ser desrespeitosos, mal levantam os olhos à senhora. O goleiro então comenta sussurrando com Juan: – Que noite, hein! Passei o tempo todo acordado. Juan não responde – e os três permanecem no sofá,sem ação. Só eles descem dos apartamentos – os demais jogadores não aparecem. Mas Andrés Sánchez, o chefe da delegação, surge em companhia de funcionários da Seleção. Desavisadamente, tomam lugar próximo a um aparelho de tv. Um programa de esportes começa a passar naquele momento a reprise de Brasil e Holanda. No aeroporto de Joanesburgo, Taffarel finalmente se encontra com a delegação. Logo que o vê, Julio César o procura. É o encontro do goleiro do tetra com o goleiro da Copa da África do Sul. Os dois se abraçam longamente, e Julio chora. O voo de volta ao Brasil ainda ouviria soluços na primeira classe.

Esporte Zero Hora  

Publicações diárias da seção de esportes do Jornal Zero Hora.