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Palavra do Editor A REVISTA ARCA chegou à sétima edição. Neste ano de 2016, a Academia de Letras celebra 45 anos de existência e ofertamos aos sanjoanenses um pouco de sua história. Resgatamos um pouco de sua história em textos e fotos desta entidade cultural, ligada à arte da literatura. Nessa edição, na sessão “Letras em Retrato”, a revista mostra num texto muito saboroso da acadêmica Carmem Lia Batista Botelho Romano, sobre os grandes responsáveis pela arte teatral da cidade: a família Marin. O grupo Cena IV Shakespeare Cia., dirigido por eles, celebra 40 anos de existência. A sessão “Arcadianas” traz excelentes contos, crônicas e poesias. Em “São João à Vista” resgatamos um texto do primeiro Presidente da Arcádia: Dom Tomás Vaquero. Foi presidente da entidade por três mandatos seguidos e bispo da diocese por 27 anos. Deixou-nos um legado de amor e boa convivência. Ainda temos um belíssimo texto do acadêmico e ex-presidente da Arcádia Francisco de Assis Carvalho Arten, sobre a recepção oferecida a D. Pedro II em nossa estação ferroviária. Na sessão “Academia em Revista”, a acadêmica e presidente por dois mandatos Maria Célia de Campos Marcondes e o acadêmico João Baptista Scannapieco trazem pinceladas de um resgate histórico de momentos importantes vividos pela Academia de Letras. Assim, como acontece desde a primeira edição, oportuniza ao sanjoanense conhecer um pouco mais de sua cidade e deste Sodalício. Nas páginas de “LuzGrafia”, a revista traz um trecho do livro “Enigma Orides”, do escritor Gustavo de Castro e outro trecho de um texto - in memoriam - do acadêmico Eurico Azevedo Andrade, que nos contam sobre a lenda do pôr-do-sol sanjoanense e a Serra da Mantiqueira. Esperamos que esta sétima edição chegue ao maior número possível de pessoas apaixonadas pela literatura e a história da cidade.

EDIÇÃO 07 | ANO 04 | JUNHO 2016

01 Palavra do Editor 02 Bastidores 04 Letras em retrato 11 Por onde andei... 12 Crítica Literária 16 São João à Vista 20 Academia em Revista 24 LuzGrafia 26 Arcadianas 50 LuzGrafia 52 Aqui Aconteço... 62 Sopa de Letras 64 Afiando a Língua 66 Livros ARCA | 1


Bastidores Academia de Letras de São João da Boa Vista

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45 anos A ACADEMIA de Letras de São João da Boa Vista comemora quarenta e cinco anos de sua instalação, neste ano de 2016, razão que nos move oferecer ao leitor uma “ARCA especial”. Revisitamos a trajetória de trabalhos deste Sodalício e extraímos acontecimentos relevantes na vida cultural de São João, como podem ser vistos ao lado, nas imagens. Desta forma, os bastidores, desta edição, trazem registrados alguns dos muitos momentos importantes dos trabalhos desta casa através dos presidentes, suas diretorias e de acadêmicos, dos últimos quarenta e cinco anos. Na sessão “São João à Vista” e em “Academia em Revista”, textos acadêmicos e históricos complementam a edição especial, que traz, ainda, em seu conteúdo, prosa e poesia no melhor atributo literário. Espero que você, leitor(a), goste do que preparamos nesta edição. Para nós, foi extremamente prazeroso reproduzir a memória de nossa Arcádia, porque ela é a memória do sanjoanense. Muito obrigada pela leitura.

Lucelena Maia Presidente

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Letras em Retrato

O elenco da Cena IV - Shakespeare Cia.

Cena IV - 40 anos CENA IV, esta secção é dedicada a você, grupo teatral, que mais do que tudo traz-nos um pouco mais de conhecimento, enriquece a nossa cultura, ensina jovens, amplia nossos horizontes. Para falar com você, Cena IV, fui ao encontro de seus membros e durante toda uma tarde, até quase à noitinha, mantive uma agradável conversa com Ronaldo Marin. Enquanto eu ouvia histórias, Ronaldo relembrava, com carinho e muita emoção, os fatos acontecidos nestes 40 anos, que são mais ARCA | 4

do que parte de sua história pessoal, são sua história. Com a palavra Ronaldo Marin - “a criação do grupo foi ideia minha, arroubos da juventude, chamei três amigos: Clóvis Vieira, Suia Legaspe e a Zeza Freitas para a empreitada. Começamos na garagem da casa do Clóvis. Precisávamos de um nome, sugestão do Clóvis, somos quatro, estão os quatro em cena - Cena IV. Era o ano de 1976. Reuniões, reuniões de adolescentes engajados no


momento que vivíamos, mas acima de tudo arrebatados pela emoção dos jovens. Começamos a convidar outros amigos, vieram vários. Teve início a montagem da primeira peça, batalhamos, mas não deu certo, não era aquilo que queríamos; nessa hora, o Clóvis escreveu uma peça “Ontem, hoje, primavera”. A montagem nos agradou e “caímos na estrada” com ela, claro, na estrada de nossa região somente. A primeira apresentação, em grande estilo, foi na Semana Euclidiana em São José do Rio Pardo, isso em 1976. Ainda em 1976, uma grande emoção – abrimos a 1ª Semana Guiomar Novaes a convite do então prefeito Nelson Nicolau. Foi um sucesso! No ano seguinte, abrimos a 2ª Semana Guiomar Novaes. A Semana Guiomar Novaes consolidou-se e os organizadores resolveram trazer grupos de fora (São Paulo), com a programação e as apresentações prontas de São Paulo, neste momento o Cena IV foi posto de lado (assim como os outros artistas sanjoanenses). Ficamos revoltados, indignados...... Estávamos nos anos 80. Nosso sentimento de revolta concretizou-se em um movimento, O Movimento Marginal, que remetia à idéia de termos sido colocados à margem do maior evento cultural sanjoanense naquele momento. Não era apenas o Cena IV, eram os artistas sanjoanenses, falávamos em nome de todos. O Movimento Marginal, nome escolhido por nós,

manifestava-se com apresentações simultâneas às que aconteciam no teatro. Vários artistas sanjoanenses reunidos na praça, tocando, declamando poemas, encenando. A repercussão foi sensível, o então prefeito Beraldo responde a ela criando a Semana do Artista Sanjoanense. Outro movimento importante foi a mobilização contra a venda do prédio do teatro. O proprietário acenava que venderia o prédio para a melhor oferta, independente da destinação que seria dada ao prédio/ espaço - um supermercado, um estacionamento. Entramos em contato com o prefeito Beraldo, que nos informou que somente poderia fazer algo se houvesse uma manifestação popular. Demos início a um abaixo-assinado, em uma semana e meia conseguimos mais de duas mil assiZeza Freitas e Ronaldo Marin naturas. Nossa estratégia foi nos colocarmos em frente ao teatro e, com apresentações musicais, chamávamos a atenção de quem passava por ali. Em pouquíssimo tempo “viramos notícia” e as assinaturas de adesão à causa vieram de forma natural. Com o abaixo-assinado foi possível uma ação da municipalidade, a Câmara aprova; depois de muitas negociações a Prefeitura adquire o prédio do Theatro e tem início o processo de tombamento. Neste momento, Ronaldo traz uma pasta com fotos e documentos da história do CENA IV, ARCA | 5


(começa a folheá-la, apontando fotos, documentos.... seus olhos têm o brilho da memória, algumas vezes percebe-se que se perdem nas sensações que só aqueles que viveram podem ter....). Folheando a pasta e apontando imagens e documentos , passa a recordar outra mobilização de que o Cena IV foi figura central – o movimento para o tombamento do prédio do Theatro. Para que o tombamento acontecesse era necessário comprovar o uso do prédio como teatro e palco de manifestações culturais - todo o dossiê foi montado com base no material do Cena IV. O Cena IV faz parte da história de São João. Temos também um filme (1978), o “Gente Boa”, um curta-metragem, foi exibido na fundação do Partido dos Trabalhadores, em são Paulo. Trata da questão do boia fria. Ganhou prêmios na Espanha. Produção totalmente nossa, a música foi composta pelo Pistelli, Zeza fez o argumento, Valter Castelli, o roteiro, e a direção foi do Dilo Gianelli. Ficamos felizes com o resultado. Cena IV tomava mais fôlego. Neste período, o Brasil vivia a Ditadura Militar, o Cena IV, como qualquer outro grupo teatral, tinha que ter suas peças, antes de levadas ao público, passadas pelo crivo da censura. Vinham censores de São Paulo, não éramos um grupo qualquer... ( sorrisos.... o olhar de Ronaldo, por um instante, se perde no tempo, nas memórias, um momento que não pode ser traduzido em palavras). Então, toda esta história e muito mais embasou o tombamento do prédio do Theatro Municipal. Até o fechamento total do prédio para o início das reformas, o Cena IV o ocupou, mesmo nas condições mais precárias. Nosso repertório teatral era diversificado, as peças eram um retrato de nossa época, ainda não encenávamos Shakespeare. Em 1978, fui para a Europa, o Cena IV continuou. Quando retorno da Europa, eu e Zeza abrimos uma ARCA | 6

academia de balé dentro do Cena IV. Chegamos a ter 250 alunos. Eu passo a escrever os espetáculos, a primeira peça foi “ Os Deuses da Terra”, peça baseada em Nietzche, a segunda foi “Mon Fauste” baseada em Fausto, depois outra baseada em Dom Quixote, Cervantes, e por aí vai, foram várias.... Os balés tinham esta base, pela primeira vez em São João o balé contava uma história completa, o sonho era sermos como os grandes balés. Tudo influência dos “ares europeus” que respirei por uns tempos.... Um dado interessante: por essa época, São João não tinha palco para apresentações, o teatro fechado para reformas, a solução foi alugarmos o espaço do Cine Ouro Branco, mas lá também não havia palco. Solução: pedimos ajuda à prefeitura e com os palanques que eram usados em eventos políticos, erguíamos um circo dentro do cinema com as madeiras, colocávamos um pano preto no fundo e montávamos o nosso palco. Entretanto, o aluguel era somente de um dia para outro, ou seja, era um trabalho colossal, montávamos e desmontávamos em um ritmo frenético, passávamos a madrugada montando um cenário.... Éramos um grupo idealista, sonhador dos mesmos sonhos, um grupo que deu certo. Até aquele momento não encenávamos Shakespeare, mas o meu tempo passado na Inglaterra, Reino Unido, Escócia, frequentei a Universidade Glasgow, permitiu que eu conhecesse e entendesse Shakespeare. No Brasil, este autor era visto como algo da elite, naquele momento o que se fazia era mais um teatro político, entretanto, era, pensava, sonhava em fazer Shakespeare. Montamos então a peça “Liberdade, Liberdade” do Flávio Rangel, que trata da liberdade nos vários momentos da história desde a Antiguidade até os dias atuais, o musical original era com quatro atores. No nosso caso fizemos uma adaptação para seis, sete, até nove atores por termos dividido os personagens.


O fato interessante é que no contexto da peça há o Mostra para as pessoas o que é o ser humano, no discurso de Marco Antônio, que na verdade é uma teatro shakespeariano é o homem quem traça o seu parte da peça de Shakespeare “Júlio César”, quando destino, aquele que pensa e escolhe. Shakespeare chegava a esta parte a peça crescia, o público vibraretrata o ser humano por inteiro, por isso é imporva, acendia uma “chama”. Detalhe: não era apenas tante mostrá-lo para as pessoas. eu quem tinha esta percepção. A partir deste fato eu Existe no Brasil um preconceito em relação disse: vamos fazer Shakespeare. a Shakespeare, fala-se que é um autor para a acadeComeçamos com partes das peças, pois era muimia somente, isso não é verdade. Na verdade é um to complicado montar as peças inteiras, uma vez autor que escreve para as massas e para um público que são muitos persomais culto. Foi um nagens. Acredito que escritor que viveu conseguimos porque do teatro, e, detavim com a formação lhe, ficou rico com sobre Shakespeare, eu sua arte. Era um tinha entendido. Asempresário, queria sim, consegui colocar teatro cheio, lotado. a “pegada” exata no Temos desde a piamomento certo, conseda mais chula (para gui passar para nossos agradar ao povo) atores o entendimento até a poesia mais do texto, a partir daí sublime (para os foi um aprendizado ouvidos mais sensícoletivo. veis). Até hoje grandes atoAs pessoas não res brasileiros temem conhecem Shakesencenar Shakespeare, peare, quando pasisso acontece porque sam a conhecê-lo, não entendem, não ficam perplexas. E Em família - Ronaldo Marin, Zeza Freitas, Marcella Marin e Gabriel Marin basta decorar o texto. esse conhecimento Sem uma real compreensão do texto, entendimento não tem fim. Quanto mais se lê, mais se descobre. histórico, filosófico e emocional é impossível uma Shakespeare é cada vez mais atual, discute uma boa interpretação. questão que hoje perpassa pelas nossas grandes anTeatro é estudo, em todas as áreas. As peças de gústias, é o mistério da consciência do ser enquanto Shakespeare são o retrato do humano, as pessoas humano, pessoa individual. A peça considerada funidentificam-se com os personagens, as situações. damental de seu repertório, “Hamlet”, começa com Por mais que você possa conhecer Shakespeare, este questionamento – “Quem está aí? É um granele nos conhece mais profundamente. Ele oferede questionamento, quem é o ser que fala, que se ce um espelho onde as pessoas se reconhecem. expressa?

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Alunos do Cena IV - Shakespeare Cia.

Nossas aulas, na Escola de formação de atores, começam sempre com este questionamento, é um momento de reflexão para todos nós, a grande questão – quem somos individualmente? Nossa escola de formação de atores tem início com o Cena IV, portanto há 40 anos. Desde sempre na formação das equipes demos prioridade ao estudo, à formação intelectual, juntamente com a arte da representação. Na década de 80 , quando eu e Zeza criamos a escola de balé, tornou-se efetivamente a concretização do sonho. Hoje, a Escola de Teatro Cena IV e Cia, com 40 anos de existência, tem este perfil concretizado. Nosso objetivo é a formação do ser humano por inteiro, nas suas esferas social, filosófica, intelectual, física. O objetivo é instrumentalizar os alunos para que possam pensar por si, alguém que sabe fazer as suas escolhas. A função do teatro é maior que a formaARCA | 8

ção artística, é a formação do ser humano, é a descoberta do “Quem esta aí?”. Frase de abertura da peça Hamlet. Queremos que nosso aluno possa responder esta questão olhando para dentro de si mesmo e encontrando a resposta. Queremos que cada um se descubra, não vamos dizer quem você é. Você é quem vai se expressar, dominar a fala, ter o controle de suas emoções. Para tanto, o Cena IV desenvolveu um método de trabalho na formação dos alunos que tem como seu fundamento a semiótica, baseado em Charles Pearson. Para Pearson tudo que está fora de você é percebido e transformado em signos dentro de sua mente. Percebemos através de três categorias: a primeridade (relacionada com a parte física, forma mais primitiva); a secundidade (parte emocional, onde o objeto é representado) e a terceridade (parte racional , onde as relações são estabelecidas). Baseado nesta teoria, afirma Ronaldo: “construí


minha tese de doutorado que relaciona as três categorias com o desenvolvimento do cérebro, a primeridade com o tronco encefálico, a secundidade com a parte límbica e a terceridade com o neocórtex”. Como trazer esta teoria para a formação do ator? Tronco encefálico coordena a sua atividade física; parte límbica, o ator tem que transmitir ao outro as emoções; neo córtex com a parte do raciocínio, necessidade de refletir, estudar e não apenas decorar um texto. Decorar um texto não basta, todo bom ator deve ter conhecimento, formação cultural avançada, não existe bom ator ignorante. Ser ator não é um ato mecânico, a interpretação é formada pelo conhecimento acumulado em cada um de nós. Ainda dentro desta metodologia desenvolvida por nós, temos o trabalho com a voz, a entonação são elementos essenciais para o ator. Não basta decorar um texto, temos que senti-lo. Para que possamos senti-lo temos que entendê-lo, perceber seus significados. A fala tem um ritmo. A voz está ligada à emoção. Nossos alunos vão entender como as emoções são construídas, como podem controlá-las e transmiti-las. Neste momento, Ronaldo declama um poema para ilustrar sua argumentação e fala mais alto com minha alma! Continua explicando: para a construção desta emoção sentida/transmitida, trabalhamos com as nossas emoções já vividas, vamos buscar nossas memórias afetivas. Como meu corpo reagiu, trago de volta esta sensação/percepção, agora de forma consciente e assim passo a controlá-la. Neste momento o ator empodera-se do seu eu, tornando-se um ser que pensa, que sente, que age. É o conhecimento completo. Esta é a fundamentação do curso de teatro do Cena IV. Além do Cena IV este material vem sendo utilizado na UNICAMP, por alunos de Ronaldo e por algumas escolas de teatro em São Paulo, em razão das

várias palestras proferidas na FUNARTE e em várias Universidades desde 2008. Para 2017 deve ser pulicado um livro que trata especificamente do método de trabalho do Cena IV. Além disso, tivemos a publicação do livro “Shakespeare 450 Anos”, escrito por Ronaldo. O livro foi publicado para as comemorações do aniversário de 450 anos de nascimento de Shakespeare e a publicação só foi possível em razão de uma parceria entre o Cena IV, a Biblioteca Mário de Andrade e o Instituto Shakespeare Brasil. Essa publicação tem abrangência mundial porque conta com a participação de pesquisadores do Brasil e do Shakespeare Institute de Stratford Upon Avon, a cidade de Shakespeare. Dessa forma, o Cena IV conseguiu realizar uma ponte direta entre São João e a cidade do maior dramaturgo do mundo, conseguindo projetar nossa cidade no cenário mundial de comemorações em torno de Shakespeare. Para encerrar, pedi que falasse um pouco sobre os três palhacinhos Piro, Liz e Plin, presença constante nos espetáculos, tanto infantis quando juvenis e adultos. Este grupo é resultado do trabalho do Centro de Pesquisa Cena IV. Nasceu em 2008, e é uma forma de trabalhar dentro do conceito de semiótica de Pearson, os três arquétipos. Piro é a parte física (sempre agitado fisicamente), Plin é o emocional e Liz é a razão (a investigadora). Atende a todas as faixas etárias porque no fundo fala acerca da essência do ser humano. Quando percebemos já era noitinha, foram horas e horas de um papo gostoso, descontraído e infelizmente falta espaço para escrevê-lo na íntegra.

Carmen Lia Batista Botelho Romano Cadeira 36 Patrono Patrícia Rheder Galvão

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Por onde andei... MILÃO deve ser aproveitada como se estivéssemos numa passarela, a caminhar com elegância por suas glamorosas ruas. Tudo nela é lindo, exuberante e inesquecível, especialmente o quadrilátero da moda, bairro dos grandes nomes da moda italiana e internacional. Pode-se visitar a cidade de transporte público, sem receio, utilizando-se do simpático e clássico bonde ou do metrô. Quer perder o fôlego? Desça na plataforma Duomo, com saída para a praça. Esqueça as fotos que você já viu e as igrejas que já visitou, o Duomo de Milão, de arquitetura gótica, é simplesmente fascinante, uma espécie de escultura a céu aberto. Ainda, na Piazza del Duomo, caminhe ao encontro da Galeria Vittorio Emanuele II, considerada a sala de visitas de Milano, de beleza estonteante. Mergulhe os olhos no teto do magnifico edifício em forma de cruz com sua belíssima cúpula de ferro e vidro. Extasiante! Assim como são as admiráveis lojas, a enfeitiçar o turista, também os bons restaurantes, prontos a servirem tradicionais pratos. A Galeria leva à Piazza della Scala, onde está o teatro lírico, alla Scala, uma das mais famosas casas de ópera do mundo. A Estátua de Leonardo Da Vinci, ao centro desta praça, retrata um italiano que não era milanês, mas viveu vinte anos na cidade e nesse período pintou a reconhecida obra: A Santa Ceia. Imperdível visitar o Castelo Sforzesco, símbolo dos momentos históricos de Milão e, recentemente, local onde foi velado o corpo do escritor italiano Umberto Eco. E, como não mencionar, os bares que servem “aperitivos”! Navigli, cortado por um canal, é um desses endereços de ritual onde se paga a bebida e se tem acesso a um farto Buffet de comidas. E, assim, eu continuaria a apresentar Milão por muitas e muitas folhas, mas não há espaço, por isso imprimo a dica... visite a elegante e bela città, Capital da Lombardia e da Moda, você ficará encantado por Milão, como eu ainda estou...

Lucelena Maia Cadeira 13 Patrono Humberto de Campos

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Crítica Literária Sabedoria incomum Fritjof Capra FRITJOF CAPRA, doutor em física pela Universidade de Viena, em 1966, pesquisador da física teórica sobre física de alta energia, em diversas universidades do mundo, já havia me rondado antes. Mantive, no entanto, distância reticente e respeitosa em nosso flerte, consciente de que esse contato iniciado em O Tao da Física (1975), em algum momento – quando o Universo assim conspirasse... – haveria de evoluir para um contato mais próximo, talvez íntimo. Em O Tao da Física, o autor, de modo inusitado, traça um paralelo entre a física moderna e o misticismo oriental, demonstrando as semelhanças notadas entre esses dois universos, desafiando a sabedoria convencioARCA | 12

nal do que denominamos ciência e alguns de seus postulados mais tradicionais. O texto exige que o leitor tenha certo preparo ou esteja desperto para que possa entregar-se a ele. Não era o meu caso, à época. Dado o volume e profundidade de conhecimentos implícitos no desenvolvimento das ideias contextualizadoras de Capra, tanto oriundas das tradições místicas como na apresentação do caminho da física moderna, em confronto com a física clássica, quando entraram em cena fórmulas, esquemas, desenhos, tabelas, termos matemáticos complexos, teorias da física atômica e


subatômica, relatividade, astrofísica – ai de mim, simples advogada... – , desisti. Mas, como previsto, a presença de Capra permaneceu como espectro a me sondar da estante, por longo tempo. Nascido em Viena, na Áustria, em 1º de fevereiro do ano em que se inicia a Segunda Guerra Mundial, 1939, Fritjof Capra viveu intensamente o movimento hippie e toda a contracultura que representou, com a abertura de espaço para formas, digamos, alternativas de ver a vida, o mundo, as pessoas, a sociedade, o planeta. Nessa época da vida, teve contato com os milenares conhecimentos budistas, taoístas, hinduístas, do Zen e do I Ching, o que, como está claro, influencia profundamente a sua forma singular de pensar e praticar ciência e a física. Bem demonstra a sua revigorante proposta: “O místico e o físico chegam à mesma conclusão; um partindo do domínio interno, o outro, do mundo exterior. A harmonia entre as cisões confirma a antiga sabedoria da Índia em que há perfeita identidade entre brahman, a derradeira realidade exterior, e atmã, a realidade interior.” Dedica boa parte de sua vida envidando enorme esforço de pesquisa para a construção de um novo arcabouço conceitual da ciência, partindo da física moderna para outras áreas, como a medicina, a biologia, a psicologia e a economia, mostrando as armadilhas do pensamento cartesiano

dominante. Em O Ponto de Mutação (1982), apresenta detalhes dessa nova visão de mundo, baseada em novos – ou antiquíssimos – valores, envolvendo novos conceitos de espaço, tempo e matéria, alicerçado em sólida pesquisa, ideias que aprofunda e detalha em A Teia da Vida (1996), no qual propõe uma nova compreensão dos sistemas vivos e, posteriormente, em As Conexões Ocultas (2002), onde mostra a grande tarefa a ser empreendida pela humanidade na mudança do sistema de valores por trás da economia global, para que passe a considerar a dignidade humana e a sustentabilidade ecológica. Foi, contudo, com Sabedoria Incomum (1988) que Capra arrebatou meu intelecto e meu coração... Nesse livro genial e alentador, ele apresenta toda a sua trajetória, com progressos e fracassos, idas e vindas, dilemas a serem vencidos, inquietações e, em especial, influências que buscou para debater, com franqueza e humildade, os diversos aspectos que formariam o seu novo arcabouço conceitual da ciência. É um relato de parte de sua vida como pesquisador, mas, também, como pessoa buscando sua realização ontológica – para ele, desejavelmente, indissociáveis. Sabedoria incomum, como o próprio nome faz intuir, expõe o caminho percorrido por Fritjof Capra, ao longo de quase duas décadas, na comprovação de suas proposições, através de leituras e discussões, que demonstram a existência de várias outras perspectivas e abordagens de ciência, incomuns tanto aos leigos como aos próprios cientistas, formados em modeARCA | 13


los exclusivamente cartesianos, que talvez não nos sirvam mais. Relata seu intercâmbio com algumas das mentes mais brilhantes e influentes do século XX: Heisenberg, Laing, Bateson, Geoffrey Che, Henderson, Alan Watts, Carl Simonton, Germanie Greer, Indira Gandhi, entre tantos outros. Tudo isso resulta em uma perspectiva multidisciplinar fascinante, culminando com a realização de um simpósio reunindo vários especialistas, de áreas diversas, para discutir e buscar nova estrutura para a saúde e a cura dos males em geral, com especial atenção a um novo enfoque terapêutico do câncer e a questão da cura social, delineando os contornos de um sistema holístico de ciência, em que a meta é que, antes de qualquer outro interesse, a tecnologia sirva às pessoas. Cabe uma advertência: é preciso estar desperto e aberto para, apenas, considerar a proposta de Fritjof Capra. Aceitá-la pode exigir algum esforço de nossas mentes deformadas ou enformadas por verdades absolutas que não existem. Esse relato evidencia como e por que Capra chegou a essa nova forma de ver a ciência, de modo sistêmico e não estanque, e o futuro que antevê para isso, no desenrolar da experiência humana no planeta; dá sentido e revela a lógica de suas importantes obras seminais O Tao da Física e O Ponto de Mutação, abrindo nova trilha no conhecimento humano. O estilo do autor o aproxima do leitor, num relato

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Fritjof Capra

vivo e entusiasmado. Suas verdades, como todas as verdades, levarão tempo para frutificar no ocidente. Elas abalam aquilo que nos traz a maior sensação de segurança em nossas sociedades racionalistas: a lógica linear das ciências. O fato é que Fritjof Capra não as inventou. Seu


extenso, denso, profundo e exaustivo trabalho foi compilar verdades milenares, refletindo sobre como elas acabam sendo evidenciadas, até pelos métodos científicos racionais, para propor que essa sabedoria incomum - para nós - pode ser também um guia seguro para nossas decisões individuais e coletivas, agregando valor aos nossos métodos, considerando que nada é isolado de nada, que tudo está conectado em sua capacidade de se auto-organizar. Ao final do livro, antes de ter a sensação de que dominamos o assunto tratado – como esperamos depois de ler sobre qualquer tema -, fica a certeza de que ele apenas destrancou a porta, deixando a vontade de abri-la. Ele inaugura uma nova perspectiva, desafiadora, empurrando o leitor para suas próprias pesquisas e descobertas pessoais. Como bem assentou Arthur Schopenhauer: “toda verdade passa por três estágios. No primeiro, ela é ridicularizada. No segundo, é rejeitada com violência. No terceiro, é aceita como evidente por si própria.” Talvez estejamos, ainda, diante do primeiro estágio das verdades expostas por Capra. Quem viver, verá!

Wilges Ariana Bruscato Cadeira 26 Patrono Gregório de Mattos

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São João àVista O Imperador em São João 22 DE OUTUBRO DE 1886. Um dia para São João da Boa Vista recordar para sempre. Quando o trem, trazendo o Imperador D. Pedro II, apitou na última curva antes da Estação Ferroviária, bem embaixo do pontilhão da Sociedade Esportiva Sanjoanense de hoje, a cena que se viu foi indescritível. O apito incessante provocava arrepios e contagiava ainda mais a multidão que ocupava o largo e as ruas aos arredores da Estação. Outros, mais ousados, atravessaram a linha e ficaram bem próximo de onde o trem iria passar, ignorando os avisos de perigo. A banda de Mogi-Mirim, especialmente contratada para ocasião, ao avistar o trem, por instrução do seu maestro passou a tocar o mais alto possível, aumentando ainda mais a agitação de todos. A presença daquela banda era uma grande frustração para os músicos locais. A decisão de contratá-los partiu do Coronel Joaquim José e o assunto nunca foi devidamente esclarecido. Durante anos circulou a versão de que a banda local, por ser republicana, havia recusado tocar para o imperador. Mas o Coronel também era republicano e talvez por isso a outra versão seja mais factível: houve um desentendimento entre o Coronel e a banda local em relação ao cachê a ser cobrado. Não só a banda mas toda a cidade era afamada como republicana. Não havia um único vereador ARCA | 16

Monarquista. E, anunciada a visita do Imperador, houve polêmica. Radicais eram contra a recepção e só concordaram por imposição do Coronel Joaquim José e do Padre Valeriano, por ironia, os dois principais líderes dos Republicanos. Embora suas convicções politicas, os dois concordavam que o Imperador não poderia receber uma desfeita como essa. Um acontecimento o mais glamouroso possível para o Brasil de então, e São João da Boa Vista soube se preparar com muita pompa, sendo liberada uma verba considerável dos cofres públicos para a ocasião. Com o dinheiro compraram flores, que decoraram a estação e os arredores e fogos. E também prepararam um banquete como nunca houve outro igual. Os ‘comes e bebes’ foram servidos nas dependências da própria estação. Uma comissão de moradores escolheu “ as mais graciosas senhoras da sociedade” para servir ao Imperador e seus familiares. Outra comissão foi formada para escolher as cozinheiras. Dessa vez as negras não cozinhariam, não desta feita. E que dificuldade para escolher as privilegiadas. Quantas brigas e divergências: todos queriam ter um papel importante na visita do Imperador. Várias damas da sociedade se achavam as mais graciosas e não abriam mão de servir a comitiva imperial. As mais velhas, que sabiam não poder disputar com as mais ‘graciosas”, se contentavam em cozinhar. Qual-


Estação Ferroviária de São João da Boa Vista

quer função que fosse, desde que pudessem participar de perto da festa. E todas elas, mulheres ricas, esposas dos coroneis do café, tinham uma receita especial, os pratos mais exóticos, as aves mais raras vindas diretamente de suas fazendas, e peixes frescos, pegos no Jaguari. Também serviram muitas frutas. No dia que antecedeu a visita começaram a chegar as encomendas para o banquete do Imperador. E também as doações. Não houve um só coronel, por mais republicano que fosse, que não tivesse descido a serra, deixando suas fazendas, trazendo encomendas e presentes para a Comitiva Imperial. Tanta comida que os organizadores tiveram dificuldades em se desfazer da maior parte do arrecadado. Muitos e muitos anos depois, se ouviam os orgulhosos coroneis ou seus descendentes dizendo com muita pose: “O Imperador comeu a carne da minha boiada e disse que nunca antes havia experimentado carne tão saborosa.” A costela de porco servida no banquete veio da minha fazenda e a Imperatriz

Dona Tereza Cristina até falou em levar um bocado de tão gostosa que estava. Por isso, por tanta expectativa, foi que quando a locomotiva virou aquela curva, no pontilhão da Esportiva Sanjoanense, fez-se um barulho ensurdecedor: o maquinista apitando com insistência, assustado pela presença de tantos populares, fogos, milhares de fogos disparados naquele instante, a banda... mas nada comparável com os gritos da multidão: - Viva Dom Pedro!!! Viva o Brasil!!! Mas a emoção maior aconteceria na estação ferroviária, no exato momento em que Sua Majestade chegou até a plataforma. Houve inicio de tumulto e um final surpreendente. Mas esse assunto fica para a próxima crônica.

Francisco de Assis Carvalho Arten Cadeira 10 Patrono Darcy Ribeiro

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Academia de Letras de São João da Boa Vista

45 anos São João Batista, Modelo de Virtude TODOS OS ANOS no dia 24 de junho, a Cidade, a Caventre” (Lucas, 14144), seu nascimento, por totedral e a Diocese de S. João da Boa Vista, em união das as circunstâncias que o envolveram, foi dos com a Igreja universal, celemais notáveis, de modo bram a festa de S. João Baque todos diziam: “Quem tista, Precursor do Messias julgas que virá a ser este e nosso glorioso Padroeiro. menino? Porque a mão do Ao comemorar os Santos Senhor estava com ele”. a Igreja tem, entre outras (Luc. 1,66) . finalidades, a de apresentáHomem de grande pe-los aos fieis, como modenitência: “Ora, João usava los e exemplos das virtudes veste de pelo de camelo, cristãs, para que imitandoe cinta de couro em vol-os se santifiquem na vida ta dos rins; e o seu alipresente e possam ser, no mento eram gafanhotos e futuro, seus companheiros mel silvestre” (I,;at. 3.4), na glória. na descrição do próprio Assim a vida admirável Cristo era, pela sua firmede S. João Batista. Livre da za, pureza e santidade de mancha original antes de vida, o maior de todos os nascer, no sentir comum profetas, o anjo de Deus dos teólogos fundamentae o mais glorioso entre dos no Evangelho de S. Luos homens: “Que saístes a cas: “apenas Isabel ouvira a D. Tomás entrega medalha a Abelardo Moreira da Silva ver no deserto? Um canisaudação de Maria, a criança ço agitado pelo vento? Mas saltou no seu ventre e Isabel ficou cheia do Espírique saíste a ver? Um homem vestido com roupas to Santo”. “Pois mal chegou a voz da tua saudação delicadas? Vede, os que vestem roupas delicaaos meus ouvidos a criança saltou de alegria no meu das, estão nos palácios dos reis. Mas que saístes a

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Dom Tomás e Dom Luiz Bergonzini

ver? Um profeta? Sim, digo-vos, é mais que profeta. Porque este é de quem está escrito: Eis que envio ante vossa face o meu anjo que vos preparará o caminho diante de vós. Em verdade, em verdade vos digo, dentre os nascidos de mulher, não surgiu outro maior que João Batista”. (Mat. ll.7_ll). Pregador intrépido e corajoso, anunciou o batismo de penitência ao povo, preparando a vinda do Senhor; não perdoou a fariseus e saduceus hipócritas, dizendo-lhes: “Raça de víboras! Quem vos ensinou a fugir da ira iminente? Daí, pois, frutos dignos de penitência...” (Luc. 3.7) e sem temor, o que lhe custou a prisão e a própria vida, decapitado, denunciou publicamente a vida luxuriosa do rei Herodes, que vivia com Hirodiades, mulher de seu irmão: “Não te é licito que a tenhas” (Mat. 14,4), mas ao mesmo tempo homem simples e humilde que reconhece ser apenas instrumento nas mãos do Senhor. À

interrogação dos sacerdotes e levitas: “Quem és tu?” ele confessou e não negou: “Eu não sou o Cristo” “não sou Elias”, “não sou profeta”, mas apenas: “Eu sou a voz do que clama no deserto: Endireitai o caminho do Senhor” (João, 1,19-23), e quando seus discípulos, movidos de certo ciúme, se queixaram junto dele que os seus o abandonam e seguem a Cristo, responde com uma frase digna dele, de sua humildade e que o canoniza: ‘Importa que Ele cresça e que eu diminua” (João, 3.30). Poderíamos continuar a analisar sua vida à luz das Escrituras. Estas considerações bastam. Reflitamos... À celebração de nosso Padroeiro, não seja apenas festiva, externa ou piedosa, seja sobretudo imitativa. “Copiemos suas virtudes. Congratulações à Cidade, à Igreja Catedral e à Diocese de S. João da Boa Vista, pela festa litúrgica de S. João Batista.

Dom Tomás Vaquero (in memoriam) Primeiro Presidente Cadeira 01 Patrono Beato José de Anchieta

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Academia em Revista Academia de Letras, uma Realidade NESTA EDIÇÃO da ARCA, coube-me a missão de escrever sobre a história da Academia de Letras de São João da Boa Vista, história que acompanho há décadas e, consequentemente, conheci muitos dos seus, hoje, cento e quarenta e um membros. Há, portanto, muito a narrar, mas o que primeiro ocorreu-me foi um artigo do confrade fundador Ademaro Prézia em que, desejando vida longa à Academia, afirmou: “as sociedades de homens de letras no Brasil sempre tiveram vida precária. Quantas surgiram e desapareceram sem deixar vestígios.” Estando pois, nós, a comemorar, neste ano, 45 anos de vida ativa e ininterrupta, além de declarada de Utilidade Publica Municipal e Estadual, podemos afirmar que a semente plantada, naquele longínquo 1971, frutificou com belos e “dourados pomos”. No entanto, o que direcionou minha escrita foi o discurso de D. Tomás Vaquero, que, por ocasião da instalação da nossa Academia, indagou sobre a “imortalidade”, característica de todas Arcádias. Achei, pois, oportuno, com fragmentos de escritos e pequenos dados biográficos, saudar alguns dos “imortais fundadores”, que são em número de dezenove. Lembrei-me, pois, de D. Tomás Vaquero ocupante da cadeira nº1, que foi o segundo Bispo DiocesaARCA | 20

no de nossa cidade, e o primeiro Presidente deste Sodalício. Sua personalidade, conforme dizeres do também confrade D. Dadeus Grings, tinha como “característica básica a simplicidade e a dedicação, além de ser uma pessoa possuidora de imensa cordialidade e um pastor atento ao seu rebanho”. Em seu discurso, já citado acima, D. Tomás indagou: -Para que uma Academia de Letras? Quais suas finalidades? -Tornar homens mortais, por natureza (...) em “imortais”? Como o poderá fazer? - Acredito que de quatro maneiras principais: pelas Ideias, pela Vida, pelas Produções Literárias e pela Fé.” E, de maneira brilhante, explanou como conseguir esta façanha. Octávio da Silva Bastos foi ocupante da cadeira nº 2, era Advogado, Promotor, Professor Universitário e Prefeito Municipal de nossa cidade. Foi não só um dos idealizadores e criadores da Academia de Letras, como também da Fundação de Ensino Octávio Bastos – UNIFEOB e das Faculdades Associadas de Ensino – UNIFAE. Segundo o confrade Prézia “o Dr. Bastos possui uma varinha mágica. Tudo quanto ele toca, floresce e prospera”. Lembremo-nos de fragmento de seu poema:


“Um Salmo de Octávio” “Gerei três filhas de minha carne e sangue; Três outras gerei por minha mente e trabalho Porque sendo eu romano, e Octávio, Dei a norma cultural Para que a cidade a seguisse. Julga-me, Senhor, pelas minhas obras Falarão elas de mim e por mim ao futuro.” Francisco Roberto de Almeida Júnior, Poeta e Professor, foi uma personalidade muito ativa nas lides culturais, artísticas e educacionais de São João da Boa Vista. Ocupou a cadeira nº 3. Recordemo-noss deste confrade através de sua poesia: “Estrela Apagada” Não és mais que uma estrela apagada e distante, há milênios rolando, rolando (...) Não és mais que uma estrela apagada e distante... E, no entanto, é ainda a tua luz que ilumina, que guia e conduz o cansado viandante entre os ínvios roteiros de sua jornada. Já Octávio Pereira Leite ocupou a cadeira nº 4. Oficial Maior do Cartório de Notas e Anexos teve também participação ativa na cidade, tanto nas lides políticas, culturais, como nas sociais. Foi presidente desta Arcádia por três mandatos. Vejamos um pedacinho de sua crônica “Vendaval” (...) “Para agravar o impressionante quadro do vendaval juntava o trovão a sua voz. Na atmosfera saturada de eletricidade, coriscos, à amiúde, ziguezagueavam como ígneas cobras suspensas. Raios, inúmeros, estalavam em descargas sinistras. A trovoada prosseguia, furiosa, como demônios à solta. A cidade parou. Ninguém quisera afrontar a tormenta. Os pássaros, nas ramas, emudeceram, os cães acoitaram-se num canto qualquer.” (...) Em nosso Sodalício há também pioneirismo. Reportemo-nos, novamente ao confrade Ademaro Prézia, que afirmou: “as mulheres não têm acesso à Academia Brasileira. Ignoro o motivo. Talvez por imitação,

porquanto a Academia Francesa também o nega. Já a Academia de Letras de São João não faz nenhuma restrição ao belo sexo. Que o digam as confreiras fundadoras Odila Godoy e Maria Leonor Alvarez. Ambas conosco partilham as ‘glória da imortalidade’”. Em homenagem ao pioneirismo cito a ocupante da cadeira nº 19, a historiadora, jornalista, professora e escritora Maria Leonor Alvarez Silva, autora do romance “Mãe Solteira” e responsável pelo texto do livro “História de São João da Boa Vista”, cuja pesquisa deve-se a Matildes Salomão. Maria Leonor, no aniversário de 152 anos de nossa urbe, escreveu: (...) “A terra natal constitui o primeiro e o mais forte motivo de inspiração para um espírito artístico. (...) Quando saio à porta da belíssima Igreja do Seminário de Nossa Senhora do Perpétuo Socorro e, dentro da noite que acaba de cair, olho da escadaria do templo para o rosário de luzes que cintila lá embaixo, em todas as direções à minha frente, surpreendo-me a pensar nos dias gloriosos do futuro e retrocedo, em imaginação, ao sertão invicto, que o português, José Antônio Dias de Oliveira, veio violar com a sua”presença” e que foi (...) a gênese desta cidade tão linda, que sabe o que quer e para onde vai, na estrada da economia, da cultura e da Fé, que é o fulcro das grandes realizações!” Foi muito difícil fazer este breve recorte dentro de uma história muito longa, em que confrades e confreiras tornaram real o ideal proposto por Octávio Bastos, “promover a cultura e aproveitar os talentos jovens para literatura e a poesia. Esse é o sonho, dias melhores com um pouco de romantismo, de ficção, de poesia e de amor.” Mais longevidade à nossa Academia!

Maria Célia de Campos Marcondes Cadeira 11 Patrono Machado de Assis

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Academia de Letras de São João da Boa Vista

45 anos AOS COLEGAS ACADÊMICOS

Posse dos acadêmicos na Sociedade Esportiva Sanjoanense no dia 15 de novembro de 1971

Temos hoje a sessão inaugural da nossa boa e nobre Academia, marcando pra São João um grande dia, que atesta bem seu nível cultural. Não significa arrojo ou ousadia - um passo simples, certo, natural, mostrando sermos gente bem normal, amante, enfim, da grã filosofia. Vamos, pois, de mãos dadas, para a frente, buscando um rastro aurifulgente, sem ter em mira os louros da vitória.

Odila de Oliveira Godoy é diplomada por D. Tomás Vaquero na solenidade de fundação da Academia

Havemos — todos — sim, de os conseguir. Por si, um dia, eles hão de vir — por vindouros nos tendo na memória! (Na Sessão inaugural da Academia de Letras de São João da Boa Vista, em 15 de novembro de 1971)

Abelardo Moreira da Silva, Octávio Pereira Leite e Mário Ferreira Balbão

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Jordano Silveira (in memoriam) Cadeira 16 Patrono Olavo Bilac


Tópicos Históricos 01. Em 10 de setembro de 1971, um grande acontecimento na vida cultural da cidade. Fundada a Academia de Letras de São João da Boa Vista. 02. Em 15 de novembro de 1971, o primeiro presidente da Academia faz sua primeira Oração como ponto inaugural do sodalício. (Dom Tomás Vaquero) 03. 15 de novembro de 1971 - Na sessão inaugural da Academia de Letras, Dr. Jordano Silveira apresenta uma poesia sobre a Academia. 04. 04 de dezembro de 1971 - Cônego Luiz Gonzaga Bergonzini escreveu a primeira “Página Literária” publicada em jornal da cidade. 05. O Diário Oficial do Estado de São Paulo publica requerimento nº834 do Legislativo Paulista, fazendo votos de congratulações com a Academia de Letras de São João da Boa Vista. Consta data do Legislativo Paulista. Data 01 de dezembro de 1971. 06. Em 02 de dezembro de 1971, o jornal Folha de São Paulo publicou foto e texto sobre a fundação da Academia de Letras com o nome dos 40 membros do sodalício.

08. Memória Referenciada: Dia 03 de março de 1973 - o Sodalício comemorou o transcurso do centenário de nascimento do Dr. Teófilo Ribeiro de Andrade. Os alunos do Grupo Escolar do qual é patrono estiveram presentes lotando o Salão Diocesano. 09. Reunião festiva em 30 de novembro de 1974 para comemorar o aniversário da Academia. 10. Monsenhor David fez a saudação ao novo acadêmico Munir Moukarzel com o tema: “Líbano, o país dos cedros”. 11. Em 01 de março de 1975, o Cardeal-Arcebispo de São Paulo, Dom Paulo Evaristo Arns, esteve presente em sessão da Academia. 12. Em 24 de maio de 1975. Palestrante Odila Oliveira Godoy. A saudação foi feita por Octávio Pereira Leite. Ressaltou o valor da Mulher na Academia. 13. Noite de Natal na Academia. 10 de dezembro de 1977. Vários membros apresentaram contos e poesia sobre o Natal. 14. Em 29 de agosto de 1981, é aprovado o primeiro estatuto da Academia de Letras.

07. Primeiros membros honorários da Academia de Letras: Antônio Ferraz Monteiro, Edwina Noronha de Andrade, Fábio Carvalho Noronha e Lavínia de Abreu Moreira da Silva. João Baptista Scannapieco Cadeira 17 Patrono Francisco Paschoal

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LuzGrafia

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Luz Luz Luz Grafi

Lenda Tupi sobre a Criação dos Crepúsculos Maravilhosos e a Serra da Mantiqueira “...UMA ÍNDIA havia se apaixonado pelo sol. Ela via-o como um guerreiro alto de cocar de fogo, e todas as vezes que o sol passava em sua viagem diária, a índia se postava para admirar a beleza do sol. Com o tempo, o sol passou a também notar a beleza da índia. E eles se apaixonaram. O sol passou a desejá-la, queria ficar com ela todo tempo, esquecendo-se de sua viagem. Sua proximidade fez com que as plantações queimassem, o dia não escurecesse; a noite e a lua desapareceram. A aldeia não conseguiu mais dormir. A lua, com ciúme, vendo que não brilhava mais, foi se queixar com Tupã, deus supremo, que ficou indignado com a ousadia do sol. Como podia se apaixonar por uma mortal a ponto de parar o tempo? A lua exigiu punição para a índia e para o sol. Tupã então criou uma barreira, um imenso paredão de pedra em forma de montanha, que chamou de Amantigir. O sol já não podia mais vislumbrar a beleza da índia em sua plenitude. Tupã puniu também a índia, que foi aprisionada dentro da montanha. A história conta que o sol se desesperou e passou a sangrar poentes, fazendo o crepúsculo do lugar excessivamente vermelho. E tentou todos os dias se afogar no mar. A lua, vendo a dor do sol, também sangrou, em forma de lágrimas, lágrimas que viraram estrelas. A índia, cujo nome foi esquecido pela tribo, nunca mais pôde ver o dia novamente. Encarcerada na montanha, enlouqueceu de amor e chorou a ponto de suas lágrimas brotarem formando grotas, minas, fontes, rios e cachoeiras. Amantigir tornou-se Mantiqueira, que em tupi-guarani significa “serra que chora”....” Trecho do livro “O Enigma Orides” de Gustavo de Castro – páginas 69/70

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Arcadianas Reflexões sobre Paris Deserta ESTAMOS EM PARIS, dezembro de 2015, mais uma vez Paris... mas, desta vez, tudo parece diferente, as ruas estão desertas, abandonadas, o ruído das rodinhas das malas não é ouvido, o vozerio dos turistas em vários idiomas que se mesclam não é ouvido.... Vamos à Notre Dame. Hoje é dia de Natal! Não sou uma pessoa religiosa, mas o silêncio respeitoso em Notre Dame leva-me sempre a uma profunda reflexão. Alguns chamariam de prece, eu também.... Mas, hoje Notre Dame está fechada, as portas cerradas. Na praça, onde sempre está a árvore de Natal imensa, brilhante, hoje só policiais fortemente armados andam por todo a praça como se executassem um trajeto pré determinado, talvez em volta da Árvore de Natal que hoje não está lá. Alambrados impedem os turistas de se aproximarem.... Paramos a uma longa distância, o mais próximo possível de chegar.

Vejo as portas cerradas, sem luz, sem brilho. Apenas chamando para uma reflexão.... Os poucos turistas que se arriscaram como nós a se aproximar do local olham desolados. Notre Dame, suas praças estão, estão desertas.... Apenas soldados, fortemente armados.... Paro e por um momento penso no presépio dentro da catedral. Estaria montado? A manjedoura, com os braços abertos esperando a imagem da esperança? Não sei. Acho que não. Alguns poucos turistas formam um amontoado em frente à barreira, um policial se aproxima, jovem ainda, e em tom firme avisa: “Fermed! Closed!” Alguém pergunta: “Why? “O policial olha firme, sorri ironicamente e responde: “I don’t speak english”. O pequeno grupo se entreolha, muitos meneiam tristemente a cabeça, todos se retiram dali. Notre Dame fica abandonada.

Carmen Lia Batista Botelho Romano Cadeira 36 Patrono Patrícia Rheder Galvão

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Lições de Vida POR TRÊS VEZES assisti ao final do filme “A Noite de Ano Novo” e nunca tinha visto seu início. Nomes famosos como Robert de Niro, Michelle Pfeiffer, Ashton Kutcher, Sarah J. Parker, Halle Berry, Bon Jovi..... Juntos, num enredo até simples: casais se entrelaçam na última noite do ano de 2002 nos arredores de Times Square para assistirem à famosa descida da bola, marcando o início de um novo ano. Acontecem coisas inusitadas, diferentes, cômicas, trágicas, mas todas nos trazendo conceitos novos de vida. E quais são eles? O que vale é a simplicidade, o amor, a família. Grande lição para todos nós! Um casal fica preso no elevador; outro quase não consegue chegar à festa de sua mãe para fazer seu esperado discurso depois da morte de seu pai famoso; depois ele mesmo se desencontra de uma desconhecida com a qual tinha marcado um encontro um ano atrás. Uma “teen age” se revolta com os cuidados de sua mãe e sai sozinha para encontrar seus amigos, um dos quais quer beijar; uma solteirona, (mas linda!) se acha desprestigiada no emprego, faz uma lista de 10 coisas que ainda quer fazer na vida antes de morrer, pede demissão, chama um mototaxista e sai Manhattan afora cumprindo suas vontades. Interessante nesse caso é que tudo se acha ali mesmo e não na realidade imaginada por ela. Por exemplo: ela quer visitar Bali; o jovem a leva a um restaurante que tem esse nome e as tradicionais comidas e hábitos daquele lugar no Pacífico. Ela quer andar por Nova Iorque sem trânsito: ele a leva a um museu e ela anda na miniatura da cidade calmamente, a pé. E assim por diante, ela vai fazendo tudo o que almejou e nunca teve a coragem de fazer.

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Quantos de nós também sofremos desse mal? Às vezes temos tudo para realizar nossos sonhos, mas não os concretizamos por medo, insegurança, solidão... Dois casais estão apostando quem terá seu bebê primeiro, logo no início do novo ano para ganhar um prêmio vultoso. As grávidas tomam um chá especial, comem enchovas e se esforçam para ganhar a todo custo o tal prêmio. Isso também não acontece em nossas vidas? Robert de Niro está moribundo num leito do hospital e seu desejo é ver mais uma vez a bola descer. Foi ruim, abandonou a família, nunca foi um bom pai, está sozinho, mas, no fim, sua filha, encarregada da subida e descida da malfadada bola que teima em não funcionar, vai até ele e o leva ao terraço onde ele morre feliz. Você, leitor, nunca viu casos assim, mesmo sem ter o desejo de ver uma bola colorida descer? Quantos pais e mães não foram “aquela coisa” de bom exemplo e no fim de suas vidas sofrem da malvada solidão e ao final de suas vidas querem... E muitas vezes conseguem, o amor dos seus? Cinéfila que sou, sedentária em excesso por causa disso, só me resta extrair boas lições dos meus filmes... e aplicá-las! E ainda mais: compartilhar essas experiências aos outros. Aí me sinto aliviada, útil e continuo com meus filmes, mas sem tanto remorso.

Clineida Andrade Junqueira Jacomini Cadeira 43 Patrono Rubem Braga


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Estamos nos Tornando Brontosaurus? A GRANDE EVOLUÇÃO dos meios eletrônicos está determinando, a passos largos, o fim do livro impresso no papel.? Os jornais e revistas já estão com seus dias contados, perdendo rapidamente com a inclusão dos leitores através dos blogs e sites na internet. Com a massiva popularização dos equipamentos reprodutores de textos, os tablets, iPad, kindle, que facilitam a leitura com conforto, além de poderem carregar milhares de livros que estarão disponíveis mesmo numa noite escura em pleno apagão elétrico, esses equipamentos possibilitarão, num futuro próximo uma união de mídias que abalarão até a utilidade da escrita como forma de expressão das ideias e criações humanas. O uso dos signos matemáticos sobreviverão mais tempo que os signos das palavras e expressões escritas ? Os novos recursos das mídias digitalizadas estão tornando a literatura de entretenimento escrita numa expressão obsoleta ? Creio, entretanto, que somente os poetas e os filósofos resistirão às “intempéries”, como criadores individuais que são. Tenho observado o comportamento da grande massa, migrando paulatinamente para as TVs pagas e posteriormente para o consumo das reproduzidas através da internet. As grandes produções coletivas (vários profissionais de diversas áreas, unidos para nos entreterem)

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entregam aos consumidores o “produto” sem grandes exigências paralelas. Basta sentar e desfrutar. Mas, enquanto isso não ocorre plenamente, devido ao nosso profundo atraso tecnológico, contento-me a regozijar com as palavras abaixo: No livro “Submissão” de Michel Houellebecq (Editora Alfaguara) logo nas suas páginas iniciais ele faz um belo comentário: “A especificidade da literatura, arte maior de um Ocidente que se conclui diante dos nossos olhos, não é, porém, muito difícil de definir. Tanto quanto a literatura, a música pode determinar uma reviravolta, um transtorno emotivo, uma tristeza ou um êxtase absolutos; tanto quanto a literatura, a pintura pode gerar um deslumbramento, um olhar novo depositado sobre o mundo. Mas, só a literatura pode dar essa sensação de contato com outro espírito humano, com integralidade desse espírito, suas fraquezas e grandezas, suas limitações, suas mesquinharias, suas ideias fixas, suas crenças; contudo, o que comove, o interessa, o excita ou o repugna. Só a literatura permite entrar em contato com espírito de um morto, da maneira mais direta, mais completa e até mais profunda do que a conversa com um amigo- por mais profunda e duradoura que seja uma amizade. Numa conversa nunca nos entregamos tão completamente como fazemos diante de uma página em branco, dirigindo-nos a um destinatário desconhecido. Então, é claro, quando se trata de literatura, a beleza do estilo, a musicalidade das frases


têm sua importância; a profundidade da reflexão do autor, a originalidade de seus pensamentos não são de desprezar; mas, um autor é antes de tudo um ser humano, presente em seus livros; que escreva muito bem ou muito mal, em última análise, importa pouco, o essencial é que escreva e esteja, de fato, presente em seus livros (é estranho que uma condição tão simples, na aparência tão pouco discriminatória, na realidade o seja tanto, e que esse fato evidente, facilmente observável, tenha sido tão pouco explorado pelos filósofos de diversas vertentes: como os seres humanos possuem em princípio, à falta de outra qualidade, uma idêntica quantidade de ser, todos estão em princípio mais ou menos igualmente presentes; porém, não é esta a impressão que dão, com alguns séculos de distância, e é frequente vermos se esfiapar, páginas a fio, que sentimos ditadas mais pelo espírito do tempo do que por uma individualidade própria, um ser incerto, cada vez mais fantasmático e anônimo). Da mesma maneira, um livro que amamos é antes de tudo um livro cujo autor amamos, a quem temos vontade de encontrar, com quem desejamos passar nossos dias”.

Luiz Antônio Spada Cadeira 23 Patrono Guilherme de Almeida

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Tabus e Alicates CHARLES DARWIN, se vivo fosse, teria na figura deste roliço escriba uma prova cabal do acerto de suas conclusões evolucionistas. Nenhuma vanglória, zero de autolouvações, tampouco jactâncias, caríssimos leitores. A constatação de um notável progresso pessoal não exclui o mea-culpa do quão retardado foi esse avanço. Um darwinismo terceiro-mundista, digamos. Um saltinho demorado, convenhamos. Faz parte da cartilha de conquistas do homo medius alguns itens essenciais: diploma, família, casa, carro, emprego estável, conta no banco, cachorro, pijama de bolinhas, perfil no Facebook e uma caixa de ferramentas. Me atenho a essa última e importante menção: a fundamentalíssima caixa de ferramentas. Inatacável é o provedor do lar que tem na garagem um providencial estojo de apetrechos reparadores. Cumpridor dos deveres de cidadão, temente a Deus, pagador de impostos, zeloso com a prole e marido fiel, são todos atributos desejáveis no homem de bem. Mas, de nada adianta esse cesto de virtudes se o varão não for o legítimo possuidor de uma conveniente caixa de ferramentas.

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Florear o verbo, repetir conceitos, abusar de sinônimos e arabescos do idioma, carecer de objetividade. São pedaladas marotas —vide parágrafos acima— que o cronista lança mão para encher linguiça, mas são também recursos retóricos para sublinhar momentos ímpares. E este descarado escrevinhador foi protagonista de uma vitória singular no comecinho da semana. Conto-lhes... Cuidadoso com a integridade física da minha atlética esposa, arvorei-me naqueles magazines xinglings que invadiram a Adhemar de Barros para adquirir equipamentos de proteção para ciclistas. Num daqueles corredores da Pequim de bugigangas, fui tomado por um devastador sentimento de omissão ao deparar com objetos que deveriam fazer parte da minha vida há mais de vinte e cinco anos —a maioridade dos dezoito seria uma idade razoável para esse batismo de civilidade e prudência. Alicates, martelos, chaves de fenda, aquele arsenal metálico pendurado imputava graves acusações ao paroquiano autor destas linhas: ele nunca teve colhões para ter a própria caixa de ferramentas. Inimigo de trabalhos que exijam um mínimo de destreza manual, fui arrastado por mais de quarto

de século através da generosidade da vizinhança que sempre me acudiu nas horas críticas. O sopro de ar vinha na forma de uma salvadora chave Philips. Ali, naquela alameda de comércio popular, sitiado por conflitos internos e dramas de consciência, acabei com um tabu existencial, libertei-me de um opressor paradigma de comportamento e, aliviado, comprei a minha primeira e redentora caixa de ferramentas. Preparado estou ante a imprevisibilidade traiçoeira dos acidentes domésticos. Ainda sem motivos para o uso inaugural —confesso até um certo receio pela chegada do instante crucial—, ela, a bem fornida caixa, numa prontidão diligente, repousa entre os meus guardados proporcionando uma sensação de segurança jamais sentida nos meus combalidos quinhentos e quarenta meses neste mundo. Alcancei, orgulhoso do feito, o patamar da dignidade entre os meus.

Lauro Augusto Bittencourt Borges Cadeira 20 Patrono Castro Alves

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Mulher O APARECIMENTO de temas dedicados à denúncia de opressão das mulheres, resultante da superioridade e a dominação pelos homens, segundo alguns estudiosos, datam do iluminismo. No séc. XIX, o movimento feminista reapareceu num contexto social diferente: o da sociedade liberal europeia. Surgiu na Inglaterra e baseava-se na defesa da igualdade jurídica entre homens e mulheres: o direito de voto, de instrução e de exercer uma profissão. Procurava formalizar juridicamente as diferenças entre os sexos masculino e feminino. Nos Estados Unidos, na segunda metade da década de 60, surgiu o movimento feminista contemporâneo e se alastrou por diversos países industrializados. Está baseado na denúncia da existência de uma opressão característica, com raízes profundas que atingem todas as mulheres pertencentes a diversas culturas, classes sociais, sistemas econômicos e políticos. Apesar das conquistas dos direitos de igualdade jurídica, política e econômica, essa opressão persiste. A mulher ainda apanha, ganha menos que o homem, é minoria em diversas áreas de atuação na sociedade e fechou um contrato social impossível de ser cumprido, já que cabe a ela não só cuidar dos filhos, do lar, manter-se jovem e desejada, como também trabalhar para contribuir para o sustento da casa. Sobra pouco tempo para investir em si mesma, para dormir e sonhar com alguma realização que vai além dos deveres cotidianos. O homem, apesar de pai, seja ele pobre ou rico, preto ou branco, baixo ou alto, feio ou bonito, culto ou sem cultura, dorme

quando está cansado, sai quando deseja e dá prioridade à própria agenda sem nenhuma pressão que não a da própria vontade. O fim do casamento indissolúvel atinge mais as mulheres de camadas sociais menos assistidas, produzindo milhares de lares sem pai, onde a avó e a mãe servem de esteio à estrutura familiar. Na falta de creche, escolas de período integral, ou seja, a presença do Estado para ampará-las, a tarefa de criar meninos que não repitam a violência e o abandono dos pais e meninas que deem um basta na escravidão das mães, é uma missão quase inatingível. Outra característica do feminismo contemporâneo é a participação de intelectuais e líderes do sexo feminino, reflexo das mudanças sociais, políticas e educativas que estiveram ao alcance desta nova geração de mulheres que se projetaram como líderes do movimento. Afirmam que sua luta não tem por objetivo destruir tradições ou a família, mas alterar a concepção de que lugar de mulher é em casa, cuidando dos filhos. Procuram pôr fim à dominação masculina e à estrutura patriarcal. Com isso, acreditam, garantirão a igualdade de direitos. Somente a mulher tem o poder de se livrar das próprias amarras para se tornar mais mulher do que jamais pensou em ser.

Maria Ignez D’Ávila Ribeiro Cadeira 07 Patrono Coelho Neto

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O Persistente Folclore Rural A POPULAÇÃO BRASILEIRA é predominantemente urbana e está concentrada principalmente em grandes metrópoles da região Sudeste. Essa situação é fruto de uma profunda transformação social e econômica ocorrida em meados do século passado, em função da crescente diversificação da Economia, que até então era primária. A sociedade urbanizou-se rapidamente, incorporou valores, costumes e inovações tecnológicas de forma que hoje temos gerações inteiras que não têm nenhum convívio com o mundo rural, entretanto, as manifestações da cultura caipira continuam vivas, atuantes e presentes no cotidiano atual, independentes de esforço para sua preservação. A música sertaneja com suas novas ramificações ocupa lugar de destaque no cenário musical e na preferência popular dos brasileiros. Ídolos do passado são fervorosamente cultuados até com adesivos estampados nos veículos de seus fãs. Cresce o interesse de jovens na aprendizagem de instrumentos característicos do gênero, como a viola caipira e surgem constantemente pelo Brasil afora novas orquestras de violeiros. Na área de eventos, as festas agropecuárias movimentam uma indústria milionária e sofisticada de shows. Programas de rádio e televisão que abordam

o tema obtêm índices de audiência que justificam a sua existência. A religiosidade, um dos traços marcantes dessa cultura, persiste nas festas juninas, terços, novenas e quermesses. A tradicional dança da quadrilha continua sendo atração anual nas escolas, paróquias e nos municípios, em homenagem ao padroeiro da comunidade. Na literatura também, jornalistas consagrados se aventuram em obras de pesquisa sobre a origem da música sertaneja de raiz. E, recentemente, a feliz inserção na teledramaturgia, sucesso de uma novela da faixa de horário, ambientada nos anos quarenta, que tem como personagem principal “Candinho”, o heroi caipira, totalmente diferente dos padrões convencionais. Ingênuo e humilde diante das mazelas urbanas, mas dotado de raras virtudes morais e cristãs que engrandecem o seu caráter e sensibilizam os espectadores. Como folclorista de coração e apaixonado pela beleza e ternura da cultura pura, fico intrigado com o fenômeno e concomitantemente empolgado pela sua preservação natural, dentro dessa imensa diversidade que é a nossa identidade cultural brasileira. Que continue vicejando ativamente...

Raul de Oliveira Andrade Filho Cadeira 44 Patrona Cecília Meirelles

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A Troca COMO FAZIA todos os dias, desde que entrara para a faculdade de biologia, Carlo levantava às cinco horas da manhã para correr. Adorava a sensação de liberdade que a corrida lhe dava. Fazia seu alongamento, comia algo leve, vestia-se adequadamente, colocava seus fones de ouvido e saía feliz. Ver o sol chegando aos poucos e amarelando aquela cidade, que agora era sua também, pelo menos por um período em sua vida, era, para ele, a melhor maneira de começar seu dia. Descobrira atrás do prédio em que morava o local ideal para correr. Era uma linha férrea, onde os trens passavam pontualmente, por isso, de posse dos horários, ele sabia que podia correr ali, sem perigo algum, e com a paz que procurava. Era o seu tempo de silêncio e meditação. A música em seus ouvidos, sempre bem alta, o vento lhe acarinhando o rosto, os cabelos e o corpo, e a sensação única de que, naquele momento, se quisesse, poderia até voar. Era o final da década de 80 e tudo em sua vida ia bem, adorava o que fazia, seus estudos e suas pesquisas eram o que lhe davam razão para continuar. Ele queria muito se especializar em doenças raras para tentar colaborar em pesquisas que pudessem amenizar a dor de outros. Fora criado em uma família tradicional de interior, além de seus pais e avós, sempre havia tios e primos por perto. Sua ligação com seu pai era de extremo afeto. Os dois eram muito companheiros e amigos. A parte mais difícil, quando passou na Faculdade, foi se separar desse que para sempre seria o seu heroi. ARCA | 38

Mas o pai o havia incentivado ao máximo e lhe dizia para pensar que era uma fase passageira e que logo estariam juntos novamente. Neste dia, quando chegou a casa depois da corrida, o telefone estava tocando. Estranhando uma ligação àquela hora do dia, correu para atender. Era sua mãe, com voz preocupada, dizendo-lhe que o pai havia se sentido mal durante a noite e fora internado. Estava submetendo-se a exames naquele momento. Os médicos ainda não haviam dito nada a ela. Ele disse que iria correndo para sua cidade, mas a mãe disse que se fosse necessário, ela ligaria novamente, que era para ele esperar o final de semana que logo chegaria. E assim foi ... Carlo, apesar de muito preocupado, tentou se concentrar nos estudos, pois estavam no final de mais um semestre. Dias depois, a mãe tornou a ligar, pois o diagnóstico não poderia ser pior: o pai estava com leucemia. Carlo terminou as provas e trabalhos que faltavam, e foi embora para sua cidade. Dali foi com o pai para a capital, onde havia hospitais mais bem equipados para tratamentos deste porte. Todos os exames foram refeitos e o diagnóstico se confirmou para tristeza de todos; era mesmo a doença tão temida. O novo ano começou em meio a quimioterapias, internações e transfusões de sangue. Carlo não arredava o pé de perto do pai, e sempre lhe atendia com carinho e total dedicação. O pai apenas olhava o filho com enorme carinho e muito amor. Foram meses de tratamento e o pai ficava cada vez mais preocupa-


do com o filho, pois ele estava perdendo suas aulas. Carlo o acalmava dizendo que ele apenas havia trancado sua matrícula, logo voltaria a estudar. O ano todo foi de tratamento intensivo, com altos e baixos. O pai às vezes apresentava melhoras surpreendentes, outras vezes caía e desanimava de tudo. O filho foi sua maior força; por nenhum instante deixou que ele acreditasse que não iria se recuperar. Em dezembro, veio o resultado que todos esperavam: a leucemia fora derrotada. O pai estava bem novamente, agora precisaria apenas fazer os controles, a princípio, mensais e depois tudo iria se espaçando até a alta. Foi o melhor presente de Natal que poderiam imaginar, e com essa notícia fizeram uma bela festa de final de ano com todos os parentes e amigos. Novo ano, e a volta aos estudos foi inevitável, o pai o incentivou a voltar para terminar sua faculdade. Apesar de contrariado, Carlo se preparou e voltou à cidade onde estudava. Preparou-se novamente para aquela rotina de que tanto gostava. Precisava voltar

a correr, sentia falta de seus exercícios. E foi assim, que no dia seguinte de sua chegada, colocou o despertador para as cinco horas, se levantou e foi para a linha férrea correr. O som que havia escolhido para aquele dia era um rock, muitos instrumentos, muita voz, e sempre na maior altura, Carlo brincava que, quando estava correndo, não queria ouvir nem seus pensamentos, apenas as canções. E assim foi... por estar tão agradecido, com a música tão alta, não ouviu o apito do trem que vinha em sua direção. O choque foi inevitável. Ele ainda teve a sensação de estar voando, antes de se arrebentar sobre os trilhos e ser arrastado pelo trem, que cumpria seu novo horário....

Silvia Tereza Ferrante Marcos de Lima Cadeira 09 Patrono Raul de Leoni

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Histórias do Nicolino Amigo (Palestra no Rotary) EXMO. SR. PRESIDENTE, demais componentes da mesa, senhoras e senhores. Sentimo-nos lisonjeado com falar-lhes esta noite. Não poderíamos declinar do convite feito pelo amigo e confrade da Academia de Letras, Dr. Palmyro. Foi-nos proposto o tema AMIGO. Inicialmente nos perguntamos “o que”, “como”, e “a quem” falar? “A quem” elucidou-nos Dr. Palmyro: trata-se de ouvintes cultos; “como” é consequência. Falta-nos “o que” falar. Compulsamos o dicionário: “amigo, que é ligado a outrem por laços de amizade. Amizade, sentimento fiel de afeição, simpatia ou ternura entre pessoas que geralmente não são ligadas por laços de família ou por atração sexual”. Pesquisamos as opiniões de personalidades ilustres e consagradas a respeito do assunto, e lhes oferecemos nesta oportunidade: Frase de Ênio citada por Cícero: Amicus certus in incerta cernitur (O amigo certo se reconhece numa situação incerta). Francis Bacon: Amice fures temporum (Os amigos são ladrões do tempo). Ovídio: Enquanto fores feliz, contarás muitos amigos; se os tempos estiverem nublados, estarás só (Donec eris felix, multos numerabis amicos; tempora si fuerint nubila, solus eris). Fedro: O nome de amigo é comum, mas a sua fidelidade é rara (Vulgar e amici nomen, sed rara est fides). Semelhante ideia encontramos em La Fontaine:

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Chacun se dit ami; mais fou qui s’y repose/ Rien n’est plus commun que ce nom/ rien n’ets plus rare que la chose (Cada um se diz amigo; mas é tolo quem nisso confia/ Nada é mais comum que este nome/ Nada é mais raro que a coisa). Ora, diletos ouvintes, os exemplos que execram o significado da palavra amigo se multiplicam. Nada obstante, permitimo-nos discordar de referidas opiniões, especialmente se considerarmos que elas não condizem com a acepção registrada nos dicionários e com os conceitos e reflexões de ordem filosófica, ética e moral. A palavra amigo deve ser despojada de adjetivação, porquanto é inerente a ela a ideia de bondade, lealdade, fidelidade e outras rimas pobres que caracterizam a riqueza do significado desse vocábulo. Havemos mister, no entanto, não confundir conhecidos e colegas com amigos. Não raras vezes, quando exercemos funções importantes na sociedade, somos rodeados por bajuladores que se insinuam nossos amigos. Extinta nossa atividade, essas pessoas se distanciam pouco a pouco. A propósito, esta passagem de Sêneca: “ O maior infortúnio da pessoa que tem altos cargos e muitas posses é ter como amigos aqueles de quem ela não o é, imaginando que os favores que lhes dispensa


tenham bastante eficácia para granjear-lhe a amizade, quando é certo que existem pessoas que, quanto mais obrigação devem, menos estima nutrem pelo benfeitor”. Hodiernamente, mercê dos meios de comunicação, da competitividade, do materialismo e do consumismo, nosso estilo de vida tem-se transformado sobremaneira. Cada um de nós busca o isolamento para, obstinadamente, lutar por objetivos preestabelecidos. Interessam-nos tão-somente os fins. Caminhamos pela aridez da vida sem gozar as delícias das margens do caminho. O homem moderno é fundamentalmente pragmático. E esse caráter puramente finalístico com que moldamos nossas vidas está matando a essência humana. O homem sociável transforma-se, melancolicamente, no ser individual. E desse caminhar solitário, advém a angústia, a ansiedade, a desesperança, a infelicidade, diante do aterrorizador silêncio do espaço infinito. O homem está só, em sua sala de visita, peça de museu. Urge ressuscitar o amigo. Esse processo de reavivamento do amigo há mister dois ingredientes: A empatia e a idiossincrasia. A empatia, para que nos coloquemos no lugar do outro; a idiossincrasia, para que respeitemos a maneira peculiar de ser, de sentir, de agir do outro, e aceitemos suas imperfeições, porque imperfeitos

também somos nós. Perfeição é apanágio de Deus. Havia oito anos, quando nos mudávamos para esta cidade, sentíamos o vazio causado pela ausência de amigos. Paulatinamente, entretanto, fomos cultivando amizades de pessoas extraordinárias, hajam vista os amigos José Pedro Campana, José Carlos Colabardine, Dr. Palmyro, Peretti, Bernardino, alunos dos Cursos de Português, Francês, Italiano, Direito, Matemática, Éverton, Mariana, Fábio e muitos outros. Turma do Teatro de Tábuas, confrades e confreiras da Academia de Letras, turma do Tékinfin, Isac, Dr. Sérgio Almeida e Dr. Alfredo Almeida, Biro e João (barbeiros), Vinício, Miguel, Joaquim, Zé Mecânico, Renato, Igor, Neno, Ruan, Vitória, Marcelo e três mulheres fantásticas: Aparecidinha, Maria Cecília Malheiro, e a rainha das cronistas, a querida Clineida. Diletos ouvintes, pessoas desse jaez dignificam o ser humano e nos dão a esperança, e a fé e a crença na existência da centelha divina em nós. Eu tenho usado esses amigos, porque amigos devem ser usados para que não enferrujem. Amigo não é enfeite. Eu quero um amigo para dividir com ele as minhas lágrimas e as suas comigo, porque lágrimas partilhadas minoram o sofrimento. Eu quero um amigo para dividir com ele a minha alegria, porque a alegria dividida se multiplica. Eu quero um amigo porque, “ao pé do leito derradeiro”, grite: ADEUS, AMIGO!

Vedionil do Império Cadeira 41 Patrono Lima Barreto

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Chuva na Serra ERA DÉCADA DE 1960 e dia de missa lá na fazenda Santa Inez, lugar de extrema beleza, pois ficava no cume da Mantiqueira, lugar de onde se avistava todo o vale e a cidade de São João da Boa Vista ao fundo. Todos estavam esperando pelo grande dia do encerramento das missões, tempo em que as irmãs missionárias pregavam e catequizavam as pessoas e os padres redentoristas celebravam missas. O dia da missa era dia de grande festa, quando aconteciam os batizados e a tão esperada pelas crianças, o dia da primeira comunhão! As crianças ficavam muito excitadas, pois após a missa havia sorteio de santinhos e medalhas. Era um domingo muito especial, ansiado o ano inteiro pelas crianças da redondeza. O padre chegava ainda na véspera para confessar os fieis e preparar as crianças para a primeira confissão. As mães gostavam muito, pois seus filhinhos levados permaneciam quietinhos após a confissão, até o horário da missa no dia seguinte. Uma menina, chamada Zezé, queria muito ganhar a imagem da Santa Zita – ela achava a imagem linda – e para sua felicidade, foi premiada. No dia tão esperado amanheceu chovendo e na roça quando chove não tem como evitar o barro, mas ninguém se preocupou com isso. Andar a pé era o costume. Todos esperavam pela festa, pegaram seus guarda-chuvas e seguiram morro acima, pois a fazenda ficava bem no alto da serra. De longe já sentiam o perfume do chocolate sendo preparado e que seria servido após a cerimônia. Foi tudo maravilhoso. Os cânticos ensaiados arduamente pelas freiras missionárias estavam lindíssimos.

A chuva não atrapalhou as comemorações. Logo após o término da solenidade a chuva aumentou de intensidade e para os convidados se retirarem do local estava ficando difícil. Tinham agora que descer a serra e foram atolando no barro e perdendo os sapatos, pois estava escuro e não dava para procurá-los no meio da lama. Quando chegaram à baixada, havia na várzea um riacho, com uma pinguela (pequena ponte) para atravessá-lo. As mães ficavam tomando conta dos filhos para a travessia. Foram indo um a um e com muito cuidado, pois o riacho estava bastante cheio pelas águas da chuva. Quando chegou a vez da última menina, a Lúcia, que era ainda muito pequena e medrosa, não deu outra: escorregou e caiu na água com guarda-chuva e tudo. Sua mãe, que não sabia nadar, pulou na água atrás da filha e saíram as duas rolando rio abaixo até encontrarem uma moita de capim onde puderam apoiar-se e escapulir o mais rápido dali. Encharcadas e apavoradas conseguiram chegar a casa, sãs e salvas, com a Santa Zita inteira, para a alegria de todos. A Zezé nunca separou-se da sua santa, que ficou num pequeno altar em sua cozinha, pois é a santa padroeira das cozinheiras. Do guarda-chuva nunca mais se ouviu falar.

Neusa Maria Soares de Menezes Cadeira 30 Patrono Euclides da Cunha

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HÁ CERTAS PESSOAS que se identificam tanto com aquilo que fazem que só mesmo classificá-las através da própria nomenclatura. Pessoas que não gostam de notoriedade. Pessoas que, de tão dignas, não reconhecem o valor que têm. Pessoas que, de tão nobres, não aceitam lisonjas. Muito embora sabendo que talvez chegue a ficar ”brava”, não poderia deixar de fazer minha singela e respeitosa homenagem a ela: d. Vera Gomes!

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Falar de d. Vera ?

E neste designar

Substantiva em tudo que faz

Sabe coordenar

Adjetiva ao qualificar

Sem subordinar.

Pronominal ao nomear

Consegue reger

Verbal ao agir

Sem submeter.

Numeral infinitamente...

E só podemos

Artigo de primeira necessidade

Em uma coisa concordar:

Para se aprender!

A estilística perde

Ao preposicionar

Para essa figura

Nunca deixa de estabelecer

Magnífica: a mestra

Conjunções entre tudo

Das mestras:

E adverbialmente

Dona Vera Gomes.

Só se pode usar ao defini-la De uma interjeição: Ah! Que alegria em conhecê-la!

Maria José Gargantini Moreira da Silva Cadeira 39 Patrona Clarisse Lispector

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Eu, a Partir do “Ato de Escrever”... Por que tenho tamanho impulso pelo ato de escrever? Estranho foi o surgimento deste como uma vontade prioritária, Como se fosse uma necessidade de suprir algo essencial. Difícil encontrar a causa original, porém constato o efeito. E ele surge como uma sensação de realização íntima. E talvez por isso exista um desejo de compartilhar, como que dono de algo precioso, que não tem graça na solidão. Por outro lado, existe um utilitário comodismo. Isto porque, por certa timidez natural ou dificuldade em me expressar, faz-se a escrita o meio pelo qual realizo a comunicação. Uma espécie de boa vingança contra minhas frustrações, sendo a principal esta sensação de estar acuado, de não conseguir me comunicar ou ser aceito pelo mundo externo. Um refúgio às ardentes chamas dos meus pensamentos e emoções. Uma espécie de bênção divina que refrigera minha alma ardente. Eis, talvez, a causa, a inquietação de minha alma em constante ebulição, que faz com que,

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mesmo quando o corpo está em aparente descanso, a mente não tenha um segundo de sossego, numa inquietação que às vezes parece ansiedade ao pensar que haverá falta de tempo. Que tempo é este? Nisto vivo a conflitar-me, entre efemeridade e eternidade. Já me supus meio que insano, mas o passar da vida provou minha sensatez. Sei que amo o silêncio pacífico, assim como me atrai o movimento inquieto. A harmonia me acalma e me faz pacífico, o conflito me arroja em colérica fúria. E para tudo isto o meu profundo autocontrole, a minha vontade obstinada, a tenacidade de minha paciência criada, e atrás de tudo o desejo de vencer. É isto que me coloca em busca, sonho como uma estranha liberdade. É como se houvesse sentido a sua presença e depois a perdido. A busco com toda minha força, com toda minha fraqueza, Vezes pensando-me onipotente, vezes completamente vulnerável. Vendo-me real em meio a supostas ilusões que parecem verdadeiras. Sou resignação,


vezes passiva conformação, porém sempre rebelião, inconformado com a sensação de ser escravo do destino, mesmo entendendo-o como soluções melhores do que as minhas. Mesmo assim, sinto meu orgulho ferido por sentir meu livre arbítrio subjugado a outra vontade. Às vezes rejeito o cotidiano, mas sou obrigado a reconhecer sua eficiência. Uma espécie de catalisador, que quanto mais me fere, mais eu luto, mais eu quero buscar, mais eu quero compreender, e nisto está minha força. Por vezes sereno, outras atingindo a frieza de quem domina os sentimentos, porém, sempre querendo o bem. Não o bem maniqueísta ou moralista, mas o bem verdadeiro da boa convivência apoiada na melhor verdade possível. Difícil isto tudo, já a luta provoca cansaço e minha insistência, a exaustão. E então me pergunto: “ Por que vivo?” . Amargo, por vezes, reconheço

como ato secundário de minha existência. E embora esta frase possa ser simples quando ordenada em letras, ela muito significa; de alguma forma é como se fosse uma sina a me perseguir. Que não se engane, aqui não lamento, apenas constato os dias de uma vida. Reconheço duas vontades poderosas em confronto de corpo e alma. Percebo que o espírito na sua consciência sobrepõe-se ao homem que sou. E isto cria um certo incômodo, é o homem que vive e não o espírito. De forma que suponho a possibilidade desta dualidade de ser. O homem que vive a se restringir, o que para o espírito nunca é suficiente. Talvez esteja nisto o caminho para as chamadas virtudes celestes. Antes haverá uma luta infernal. E esta só pacificará quando a aceitação se der por consciência, e não apenas por servidão que apenas acalma o impulso à rebelião. Serei, então, por todos e não deixarei de ser por mim.

Gilberto Brandão Marcon Cadeira 06 Patrono Mário Quintana

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Nós Tu partes. Meus olhos vão contigo, E vão meus lábios, sussurrando: fica. Na porta, o corpo amofinado sofre, Dividido entre seguir-te e jogar co’a sorte. Tu vais. Meus olhos já não te alcançam, Envoltos em lágrimas e desesperança... Lábios serram-se sem dizer adeus. Longe estás. Longe estou eu. Fiquei. Tu me levaste contigo. Tu foste. Sempre estarás comigo, Nas páginas da nossa memória, No calendário e nas cartas escritas, Nos diferentes dias de nossas vidas...

Lucelena Maia Cadeira 13 Patrono Humberto de Campos

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K E o mundo se parte em duas metades: em uma não caibo outra me expulsa e fora do mundo em passos perdidos encontro a ti Olhos tão verdes, quase azuis lábios vermelhos, quase morango tez tão macia, algo de bruma voz que escapa de dentro do peito e o mundo se encontra em duas metades formando a verdade que nunca entendi!

Luiz Fernando Dezena da Silva Cadeira 42 Patrono Pedro Nava

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Serra da Mantiqueira “...Na Mantiqueira, cuja beleza me fascinava desde os tempos de menino, meu avô paterno (Domingos Theodoro) possuía uma fazenda por nome de “Serra”, constituída por terras situadas na própria montanha. Não era apenas a “serra que chora”, conforme a tradição tupi, que assim a denominava por causa das inúmeras cachoeiras. Lá, a Mantiqueira era a serra que nos fazia rir devido às brincadeiras junto aos terreiros de café; ao medo das cobras que por vezes apareciam e, especialmente, da alegria de montar os cavalos e sair pelas trilhas a conhecer outras fazendas. A Mantiqueira é toda beleza: pintada pelo sol outonal que, se pondo mais cedo, a colore de malva, amarelo e dourado. Daqui, da cidade, deparamos com a maravilhosa visão da Serra da Mantiqueira protegendo São João: “ó minha serra, não tenhas receio; hei de guardar tua imagem para sempre, com a graça de Deus.” Trecho do texto do acadêmico Eurico Andrade Azevedo (in memoriam)

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LuzGrafia

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Aqui Aconteço... Confraternização de Final de Ano A 259ª Reunião Ordinária aconteceu no dia 05 de dezembro e tratou do lançamento da 6ª Edição da Revista ARCA e, também, do jantar de Confraternização da Arcádia, momento em que os acadêmicos deleitaram-se na Plataforma da Estação para o bucólico jantar a luz de velas, acompanhado de boa música. A reunião foi denominada Reunião da Gratidão, em reconhecimento aos acadêmicos nas realizações dos eventos do ano todo. Cada um dos acadêmicos teve seu nome citado pelos membros da diretoria, a agradecê-lhes, de pé, por honrosa companhia.

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Palestra de Luís Nassif 100 Anos de Samba

A 260ª Reunião Ordinária marcou a abertura dos trabalhos do ano de 2016, com o apoio do Centro Universitário UNIFAE e Ind. LAMESA. No evento, o jornalista Luís Nassif e o músico Barão do Pandeiro discorreram informalmente sobre os 100 anos do samba. Foram melodicamente acompanhados pelos artistas sanjoanenses Luís Carlos Pistelli e Tonhão Giffoni. Na mesma tarde/noite, a acadêmica Silvia Ferrante lançou seu mais novo livro: “Por Ser Mulher”.

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Palestra com o escritor, Prof. Dr. Gustavo de Castro 08 de abril, em uma feliz parceria com a UNIFAE TEXTO DO ACADÊMICO LAURO BORGES

“Não é pouca coisa!” Gustavo de Castro, estudioso da vida e obra de Orides Fontela, sublinha os feitos da poeta com o arabesco retórico “não é pouca coisa!”. E, de fato, não é pouca, é muuuuita coisa. Mulher, pobre, feia, sem modos, irascível, explosiva, depressiva, irônica, piadista, mas sobretudo POETA. Sanjoanense de 1940. Sanjoanense para sempre. Uma artista que deu luminosidade à palavra, deu vigor ao verbo, que chamou com força para a reflexão. A poeta do não amor. Uma das maiores do Brasil, renunciou à vida para respirar poesia. Poetar é preciso, viver... E isso não é pouca coisa! O docente da UnB palestrou sobre Orides Fontela, num evento da Academia de Letras de São João da Boa Vista no auditório do UniFAE. Orides voltou a São João na exposição apaixonada do professor Gustavo de Castro. E, como em vida, voltou ‘causando’. E isso não é pouca coisa!

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“A Volta de Orides” NO DIA 24 DE MAIO DE 2016, terça-feira, às 11h, na cidade de Jacareí – SP, no Crematório Jardim das Oliveiras, aconteceu a Cerimônia de Cremação dos restos mortais da Poeta sanjoanense Orides de Lourdes Teixeira Fontela. “Ela que surgiu na cena literária brasileira da segunda metade do século XX por meio dos nomes mais influentes das críticas literária e acadêmica (a começar por Antonio Cândido) se revelaria, afinal, a poeta mais importante de sua geração, que reúne autores mais conhecidos, ou menos desconhecidos, como Hilda Hilst, Adélia Prado, Roberto Piva e Paulo Leminski (nascidos nos anos 1930-40)”Luis Dolhnikoff. Na cerimônia de cremação estavam presentes representantes da cidade de São João da Boa Vista, da cidade de Campos do Jordão e os parentes da poeta. O Cerimonial teve início com o representante do crematório lendo breve biografia da poeta e alguns de seus poemas, cuja urna com os restos mortais, sobre a mesa, estava acompanhada da lápide do jazido em Campos do Jordão e de uma foto trazida de São João da Boa Vista, pelo reitor Arten. ARCA | 58

“...Orides havia falecido na madrugada de 02 de novembro de 1998, em Campos do Jordão, e, foi enterrada com o Cortejo composto exclusivamente do carro Santana, em que estavam Rosa, Rosana e Renata, suas amigas. Sete dias depois, na paróquia Imaculada Conceição, na Brigadeiro Luís Antonio, entre os poucos que compareceram à missa, estava David Arrigucci Jr. Depois disso, Gerda e Donizete, seus amigos, foram a Campos do Jordão e providenciaram a lápide de granito. Pediram para inscrever em bronze o nome da poeta, acompanhado dos versos: “Um anjo| é fogo:| consome-se” (trecho do livro: O Enigma Orides de Gustavo de Castro) O Secretário Municipal de Cultura de Campos do Jordão, Benilson Toniolo, em sua fala, ressaltou a importância de Orides Fontela para a poesia brasileira. A Assessora de Imprensa de Campos do Jordão, Maria Izabel Pereira, lembrou a emoção sentida no acompanhamento da exumação dos restos mortais de Orides, a simplicidade de uma vida vista mais uma vez ali, nos restos de tecidos misturados aos seus ossos.


“...Quando Renata e Rosana chegaram à funerária, o vendedor tentava convencer Rosa a adquirir uma mortalha. Como não lhe tinha sido entregue roupa nenhuma e não queriam que a poeta fosse nua para a sepultura, compraram uma mortalha roxa, a cor que Orides mais usava”. (trecho do livro: O Enigma Orides de Gustavo de Castro)

assim: “Conheci Orides Fontela faz muitos anos, em São João da Boa Vista, quando éramos crianças. Depois a reconheci – ou conheci realmente – como poeta, em meados da década de 1960, ao ler, com emoção, no jornal O Município de nossa terra natal, um de seus grandes poemas: ’Elegia (I)’, escrito muito tempo antes de ser publicado em seu livro Helianto, de 1973. Orides era muito enigmática, e sua poesia também, como a poesia tende A vice-reitora Maria Helena Cirne de Toledo foi a ser. O enigma é aqui o de uma lucidez extrema que ilubreve em sua fala e o Reitor Francisco de Assis Carmina e recorta os dramas da existência, da expressão, do valho Arten também desejava ser, sentindo-se emocomportamento, dos objetos, de si mesma, com ímpeto cionado, mas acabou se empolgando na informação ao mesmo tempo lúdico e destrutivo, sem peias diante de que aquele era apenas o começo das homenagens da crueldade, abrindo-se à transcendência para se reenpretendidas para Orides Fontela, reconhecida como contrar de novo com o enigma mais vasto do ser. Poesia uma das três maiores regida pelo agudo senso poetas contemporâneas. de que o pode ser dito deve Ele informou, ainda, que caber na forma breve, no a UNIFAE fora presentelimiar do silêncio, em seu ada recentemente, pela íntegro despojamento. família, com a Comenda Poemas que são momenOrdem do Mérito Cultutos de intensa iluminação ral, categoria Grã-Cruz, lírica, poeta com força de oferecida a poeta, postabstração, mas candente -mortem, no ano de 2007, verdade humana, herança e que a comenda ficaria da melhor tradição da poexposta na sala que vinha esia moderna no Brasil – sendo preparada para ela. de Bandeira, Drummond, O Prefeito Vanderlei BorCabral - , em síntese pessoUrna funerária com os restos mortais e a lápide de Orides Fontela ges de Carvalho, em poual e única: luz de São João cas palavras, ofereceu suas homenagens a poeta, que, transfigurada, se faz total; sangue vivo na memódizendo-se honrado em participar da cerimônia de ria, que dói para sempre; condensação máxima da fala, cremação dos restos mortais de importante sanjoacapaz de dizer no mínimo tudo.” nense. Na sequência, a presidente da Academia de Letras, Lucelena Maia, mencionou seu agradecimenSilvia Ferrante a homenageou, lendo um texto esto a Campos do Jordão, a São João da Boa Vista e aos crito por José Domingos Gifonni Rosa (Zezinho Só). familiares de Orides pela oportunidade de leva-la de Em seguida, declamou com força e expressão o poevolta para casa. ma “Para Orides” (2013) de sua própria autoria. “Davizinho”, seu amigo de infância, disse Lucelena, hoje, crítico literário, Davi Arrigucci Jr. a descreveu

Encerradas as homenagens, os restos mortais seguiram para cremação. ARCA | 59


Elegia (I) Mas para que serve o pássaro? Nós o contemplamos inerte. Nós o tocamos no mágico fulgor das penas. De que serve o pássaro se Desnaturado o possuímos? O que era voo e eis Que é concreção letal e cor Paralisada, íris silente, nítido, O que era infinito e eis Que é peso e forma, verbo fixado, lúdico O que era pássaro e é O objeto: jogo De uma inocência que O contempla e revive - criança que tateia No pássaro um esquema De distâncias – Mas para que serve o pássaro? O pássaro não serve. Arrítmicas Brandas asas repousam. Orides Fontela A24/04/1940 h02/11/1998

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K Em Agosto de 2016

‘O RETORNO DA POETA’ Estamos trazendo a Poeta de volta para casa

Uma parceria:

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Sopa de Letras “La Violetera” NÃO SEI se acontece com todo adolescente de se apaixonar perdidamente por algum ídolo, a ponto de sonhar com essa quimera por longos e longos anos. Comigo aconteceu, desde meus doze anos, quando assisti, em 1964, à película “La Violetera” e apaixonei-me, irremediavelmente, pela atriz espanhola Sara Montiel. No decorrer das décadas, assisti a todos seus outros filmes: Pecado de Amor, Carmen La de Ronda, Vera Cruz, Mi ultimo Tango, Esa Mujer, etc. etc. e, para mim, nunca existiu outra mulher mais bela na face da Terra. Nos devaneios de minha juventude, tivemos muitos encontros fantasiosos, onde ela me recebia em sua casa, cantava para mim, passeava comigo por Madrid (imaginava que ali seria sua linda mansão), mostrando ao mundo seu namorado brasileiro, com maior orgulho. Chegamos até a “filmar” uma película como par amoroso, num enredo onde tudo se misturava: Zorro, Pancho Villa, Violetas, Toureiros e até a cantora Libertad Lamarque. Queria aprender o idioma espanhol, a todo custo, e assim estar preparado para o tão esperado momento em que estivéssemos juntos, trocando sussurros “bajo el brillo plateado de una luna madrileña” Mas que nada; meu pai não quis pagar o curso e o pouco que aprendi do idioma de Cervantes foi através de um livro espanhol de gramática e leitura que a professora Celina Rosa emprestou-me, o qual jamais foi devolvido à dona! Mas o livro didático, afora a gramática, versava ARCA | 62

somente sobre as regiões da Espanha, suas cidades, suas praças. Como eu poderia levar um papo romântico com minha musa se sabia dizer apenas que “La Plaza Mayor tenia uma fuente crystalina...” Ou então: “El clima de Granada Capital es seco, El cielo despejado y son raros lós vientos fuertes, las nieblas y las nieves”!!! Passei, então, a ouvir, por dezenas de vezes, os long plays de Sara Montiel (que também era cantora) para aprender a “hablar las cosas dulces y romanticas, por ella cantadas”, naquela voz grave e sensual que mais pareciam sussurros. Toda vez que era lançado um disco novo, a Darci lá da Loja Anfe ligava para mim: Tista, chegou mais um! Até hoje sei de cor muitas de suas canções. Anos se passaram, eu fiquei adulto, namorei muito, casei-me cedo, a querida Sarita envelhecendo e nada de acontecer o tal encontro que já “estava escrito nas estrelas”. Não é que isso um dia aconteceu! – Dá vontade de parar por aqui e dizer para vocês “Continua na próxima semana...” Mas dá dó, né? Então vou terminar rapidinho. No ano de 1976, eu e minha esposa (que não por acaso tem sangue espanhol) morávamos em São Paulo e um amigo nosso me falou: “Tista, a Sarita Montiel está no Brasil e vai fazer uma apresentação lá no Anhembi, vamos?” Fomos escondidos de minha mulher (aliás, inventei uma mentira, descoberta mais tarde, de que iria até o Bairro Pompeia, visitar uma tia que estava “nas últimas”) e lá fomos nós. Sentei-me na primeira fileira e quando minha musa surgiu no palco num longo vestido azul, super


decotado, quase tive uma síncope! Ela já estava com 44 anos, mas em perfeito estado de conservação e manutenção, com aqueles enormes seios querendo saltar do decote. A primeira canção que ela apresentou chamava-se “El Polichinelo” e ela, enquanto cantava, dava uns pulinhos, imitando o salto do polichinelo. Não é que num desses pulos escapa-lhe do decote um dos seios que ficou inteiramente à mostra!!! Foi um Ohhhh! Geral. Uma verdadeira comoção e fiquei assim, meio encantado e meio enciumado porque todo mundo estava vendo o que eu sempre quis ter o privilégio de ver durante décadas. Com todo seu encanto, ela simplesmente exclamou: “Opa que me escapa una!”, devolvendo para dentro do decote, aquilo que jamais veríamos novamente. Foi um momento sublime! Mas o maior encanto aconteceu na canção final, obviamente “La Violetera”, música chefe de toda sua carreira. Como no filme, ela desfilava pela plateia com um cesto de vime no braço, repleto de violetas azuis. Voltando ao palco, com o cesto já vazio, apenas com um dos ramos na mão, ela olhou para mim, que pedia desesperado a flor, deu um beijo no raminho e jogou na minha direção. A flor caiu a meus pés e não é que um “filho da puta” de um cara que estava ao meu lado jogou-se no chão, ao mesmo tempo que eu e naquele “mucuvuco” de que :”É meu, é meu!” despedaçamos em mil aquele raminho mimoso que seria guardado por mim eternamente. Ano passado, quando soube de sua morte, aos 84 anos, foi como se eu tivesse perdido uma velha conhecida e com ela foi-se uma parte “de mi belo pasado de ayer”! Qué Diós La tenga en Sus brasos! Terminando, passo para vocês a deliciosa receita de frango Andaluz que servi, ontem em nosso jantar espanhol na Pousada do Bosque.

FRANGO ANDALUZ - 4 sobrecoxas de frango - 2 tomates maduros grandes, picados (sem pele nem sementes) - 1 cebola picada finamente - 2 dentes de alho esmagados - gemas de 2 ovos cozidos - 350 ml de caldo de galinha - 350 ml de vinho branco seco - 50 g de amêndoas torradas - 1 boa pitada de fios de açafrão - 1 raminho de salsa - 1 colher (sopa) de concentrado de tomate - 3 colheres (sopa) de azeite - Sal e pimenta moída na altura PREPARAÇÃO Aquecer o azeite numa caçarola (de barro, de preferência). Juntar os alhos esmagados e alourar sem deixar queimar. Eliminar os alhos e adicionar os pedaços de frango. Dourar de todos os lados e retirar da caçarola. Reservar. Na mesma caçarola, refogar a cebola picada até esta se apresentar mole e transparente. Adicionar os tomates picados e cozinhar em fogo brando por 10 minutos. Colocar novamente os pedaços de frango na caçarola. Regar com o vinho branco e o caldo. Levar a ferver. Temperar com sal e pimenta. Baixar o fogo e cobrir com uma tampa. Deixar estufar em fogo brando até o frango ficar bem cozido. Picar as amêndoas, a salsa e as gemas cozidas. Colocar numa tigela pequena e juntar o açafrão, assim como o concentrado de tomate. Adicionar um pouquinho do molho do frango e misturar muito bem. Deixar repousar um pouco e juntar a mistura à caçarola 10 minutos antes do final da cozedura. Retificar os temperos e servir de seguida.

João Batista Gregório Cadeira 37 Patrono Menotti Del Pichhia

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Afiando a Língua Figura de Palavras (Tropos) TROPOS – Que expressão estranha (e para alguns gramáticos até ultrapassada). Mas foi o tema que me ocorreu, quando fui escalado pela nossa Presidente, Confreira Lucelena Maia, para ocupar esta seção de nossa Revista Arca. Na realidade, TROPOS, no capítulo “Figura de Palavras” são o emprego de vocábulos em sentido diferente daquele que propriamente lhes corresponde, mas que têm com este qualquer relação de semelhança. Para ser mais claro, vamos a alguns exemplos: METÁFORA É o fenômeno pelo qual uma palavra é empregada por semelhança real ou imaginária, numa comparação subentendida. Em nossa Música Popular Brasileira, temos construções metafóricas lapidares: “Minha vida era um palco iluminado” (Orestes Barbosa); “Eu sou uma ilha longe de você” (Fernando Brant); “Tire o seu sorriso do caminho, que eu quero passar com minha dor” (Guilherme de Brito). SINÉDOQUE Consiste no emprego de uma palavra em lugar de outra, na qual está compreendida e com a qual tem íntima conexão. Exemplos: pão, por alimento; vela, por navio; lar, por casa etc. METONÍMIA É uma simples variante da sinédoque; são denominações essas de distinção tão sutil que alguns

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autores dão exemplos de metonímia em que outros subordinam à sinédoque. Se na sinédoque se emprega o nome de uma coisa em lugar do nome de outra, na metonímia a palavra é empregada em lugar de outra que a sugere. Exemplos: Terror sequestra navio italiano; Moscou caiu nas mãos dos alemães. ANTONOMÁSIA É uma variedade da metonímia. É a substituição do nome de um objeto, entidade, pessoa etc por outra denominação que seja sugestiva, explicativa, laudatória etc. Exemplos: O Salvador, por Jesus Cristo; Romeu, por um homem apaixonado. Existem também figuras de linguagem por construção ou sintaxe, como ainda as figuras por pensamentos, que ficam para uma próxima exposição, pois não quero cansar os pacientes leitores. Nas figuras de linguagem por construção, por exemplo, temos, entre outras, o Anacoluto, que já me mereceu uma crônica humorística, publicada na edição nº 02 desta Revista, lembram-se? “Os títulos acima seus vencimentos foram prorrogados. “ É a construção interrompida.

Antônio “Nino” Barbin Cadeira nº 27 Patrono Érico Veríssimo


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Livros SÃO JOÃO DA BOA VISTA é merecidamente reconhecida, aqui dentro e Brasil afora, pelos muitos talentos nas diferentes tendências artísticas. O sanjoanense reconhece os artistas desta Urbe que brilham na Música, nas Artes Plásticas, na Dança, Vídeos e Fotografias, mas, hoje, a ARCA enaltecerá com um quê de miscibilidade os escritores da Academia de Letras. Livros ou somente textos são lançados por nossos conterrâneos há longa data, desde o começo dos tempos de nossa cidade, quando vários autores/ autoras se revezavam em crônicas, contos e poesias em jornais e revistas de São João, apesar disso, muito material daquela época se perdeu com o tempo, mesmo havendo quem lutasse pela preservação da literatura. Na atualidade, os autores jogam-se à sorte com as editoras para conseguirem editar suas histórias, em livros de merecida atenção, seja na poesia, romance ou histórico, mas nem sempre são bem-sucedidos, assumindo do próprio bolso a edição da obra. Por isso, nesta sessão de dicas de livros, oferecemos para você que ama leitura a oportunidade de ler um escritor sanjoanense. Fica a dica das obras, com imagens das capas ao lado. Ao falar em país, cidade, região, registramos uma curiosidade importante de cidadania. Nos EUA, a cada cem livros editados, noventa e sete são de autores americanos e apenas três são obras traduzidas. Nesta ARCA, duplamente especial pelos 195 anos de São João e pelos 45 Anos da Academia de Letras, chamamos a atenção para isso: leiam os escritores da sua cidade. ARCA | 66

Temos os já reconhecidos, mas que muitos nunca ouviram falar: Maria Conceição Nogueira S. Almeida, Jaçanã Altair, Jasson de Oliveira Andrade, Armando Gonçalves, Davi Arrigucci Júnior, Divino Costa, Lúcia Azevedo Costa, Edson Paulo Alves, Pierre Farkasfalvy, Orides Fontela, Paulo Alves Franco, Francisca Galvani (Chiquita), Patrícia Redher Galvão (Pagu), Armando Gonçalves, Carlos Kiellander, Antônio Gomes Martins, Maria Nicolau, Fabio Antakli Noronha, Antonio Carlos Nogueira Oliveira (Leivinha), Benedito Fernandes Oliveira (Cajuca), Hélio Paschoal Filho, Antonio Dias Paschoal, Monsenhor Denizar Coelho, Leila S. Biagioni dos Reis, Alexandre Tancredo Pereira Ribeiro, Cláudio Richerme, Ana Maria Santos, Maria José Scannapieco, Matildes Rezende Lopes Salomão, José Marcondes, Jaime Splettstoser, Ronaldo Marin, Thales Milani Gaspari, Maria Nicolau, Jaçanã Altair, Waldemar Martins Vale, entre outros. Obras de acadêmicos que não estão mais entre nós: Dr. Theóphilo Ribeiro de Andrade, Luiza Dezena, Emílio Lansac Thôa, João Batista Sguassábia, Palmiro Ferranti, José Rodrigues Cordeiro, Octavio Pereira Leite, Francisco Roberto de Almeida Jr, Jonathas Mattos Júnior, Munir Moukarzel, Esmeralda Peregrino Moura, Plínio de Arruda Sampaio, Fábio Noronha, Milton Duarte Segurado, Maria Leonor Alvarez Silva, Jordano Paulo Silveira, Acácio Ribeiro Valim, Salomão Vieira.


Obras de acadêmicos que se tornaram correspondentes: Nege Além, Ademir Barbosa de Oliveira, Yola Azevedo, Ana Lúcia Finazzi, José Carlos Sibila, Rodrigo Falconi, Christino Cardoso Pádua e dos acadêmicos em atividade: Lucelena Maia, Silvia Ferrante, Neusa Menezes, Maria Célia de Campos Marcondes, Lincoln Amaral, Maria Cecília Malheiro, Francisco Arten, Luiza Nagib Eluf, Fernando Dezena, Wilges Bruscato, João Batista Gregório, José Ricardo Bittencourt Noronha, Marcos César Parolin, Gilberto Marcon, Beatriz V. C. Castilho, Ronaldo Frigini e de nosso eterno Professor João Batista Scannapieco, que está finalizando seu mais novo trabalho literário. Não podemos nos esquecer do também grande cronista acadêmico Lauro Augusto B. Borges, que arrebata seguidores através de seu Blog - baucrepuscular. blogspot.com, sempre bem-humorado e inteligente. Escrever mantém viva nossa Língua Pátria. Oferecemos ao leitor as capas de alguns livros dos autores citados, quem sabe você se interesse em adquirir os livros em uma das livrarias da cidade e, até mesmo, tomar um café com os escritores na Academia de Letras! O(a) escritor(a) se sentiria honrado(a) com sua visita para discutir a obra. Boa leitura! Equipe Editorial

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Academia de Letras de São João da Boa Vista

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Jornalista Responsável: Francisco de Assis Carvalho Arten Projeto Gráfico: Fernanda Buga Edição: Neusa Menezes Diagramação: Eduardo Menezes Gerência Administrativa e Financeira: Lucelena Maia Distribuição: Academia de Letras de São João da Boa Vista Revisão: Antonio “Nino” Barbin e Vedionil do Império

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Academia de Letras de São João da Boa Vista Presidente: Lucelena Maia Vice Presidente: Antônio Carlos Rodrigues Lorette 1ª Secretária: Silvia Tereza Ferrante Marcos de Lima 2ª Secretária: Carmem Lia Batista Botelho Romano 1º Tesoureiro: Lauro Augusto Bittencourt Borges 2ª Tesoureira: Vânia Gonçalves Noronha Contato Praça Rui Barbosa, 41 - Largo da Estação 13870-269 - São João da Boa Vista-SP

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Fotografia de Capa: Silvia Ferrante

7ª Edição Revista ARCA