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Palavra do Editor

A Revista Arca chegou à sexta edição. Celebramos o final de 2015, ofertando à população sanjoanense mais um exemplar da revista. Nesta edição, na sessão “Letras em Retrato”, numa saborosa entrevista da acadêmica Vânia Noronha, apresentamos o trabalho primoroso da artista plástica e professora Fafá Noronha à frente da AMITE - Associação dos Amigos do Theatro e do CLAC Centro Livre de Arte e Cultura, Para esta edição, a Arca traz excelentes textos nas páginas “Arcadianas”. Nesta sessão, a acadêmica Silvia Ferrante presta homenagem à grande dama do balé clássico sanjoanense, Joellen Moreno, recentemente falecida. A revista oferece ao leitor importante resgate da história nas páginas da sessão “Academia em Revista”, quando o professor João Baptista Scanapieco relembra o início da Academia de Letras, lá pelos idos de 1971. A sessão ““São João à Vista” também traz um resgate histórico de momentos importantes vividos pelos sanjoanenses. Assim, como acontece desde a primeira edição, oportuniza ao sanjoanense conhecer um pouco mais de sua cidade e a este Sodalício. Em “LuzGrafia”, o acadêmico Antonio Carlos Lorete ilumina o espaço com textos poéticos e desenhos de nossa serra. Esperamos que esta sexta edição chegue ao maior número possível de pessoas apaixonadas por literatura e artes em geral.

EDIÇÃO 06 | ANO 03| DEZEMBRO 2015

01 Palavra do Editor 02 Bastidores 04 Letras em Retrato 10 Por onde andei... 12 Crítica Literária 14 São João à Vista 18 Academia em Revista 22 Luz Grafia 24 Arcadianas 56 Luz Grafia 58 Aqui Aconteço... 66 Sopa de Letras 68 Afiando a Língua 70 Livros ARCA | 3


Bastidores

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Tem sido prazeroso trabalhar cada nova edição da ARCA. As dúvidas iniciais cederam lugar a experimentos claros e caminhos certos, ainda que a equipe não tenha aumentado nem se modificado. Amadurecemos. Talvez, grande parte deste sentimento de regozijo seja de responsabilidade sua, leitor, que a enaltece e já a coleciona. A grande aprovação das edições anteriores nos fez preparar esta com especial cuidado, para agradarlhe ainda mais. Os textos dos acadêmicos continuam em altíssimo nível. As imagens, pensadas e repensadas, mantêm as páginas leves para leitura, e, como um presente “novo”, inseriram-se ilustrações. Criação artística, por mãos inspiradas a agraciar esta 6ª edição. Sabe-se que para dar vida à ARCA, desde o início, os acadêmicos Antonio Carlos Lorette, Silvia Ferrante, Neusa Menezes, Antônio “Nino” Barbin e Vedionil do Império, além de mim, claro, trabalhamos focados - nos bastidores - buscando a perfeição da revista, até que ela esteja pronta para impressão. Sabe-se também que tomadas de decisões são imperativas já que a ARCA é referência literária e foi idealizada para receber só textos de acadêmicos. Ainda assim, desta vez, por reconhecimento à produção literária, e, por pedidos de vários acadêmicos, incluímos nesta edição texto do escritor Nege Além, membro correspondente da Arcádia. Finalizo, agradecendo sua leitura, ilustre leitor, e desejando-lhe: Boas Festas! Próspero 2016.

Lucelena Maia Presidente

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Letras em Retrato

FLÁVIA DE ALMEIDA NORONHA CARIOCA, conhecida como Fafá Noronha, nasceu em São João da Boa Vista, em 24 de dezembro de 1961. Descende de uma família onde a genética tem força nas artes: seu tio, Fábio de Carvalho Noronha, é autor do Hino de São João da Boa Vista, escritor, poeta e radialista; seu pai, Ronaldo de Carvalho Noronha, também foi radialista quando jovem e pintor por toda a vida; tios e tias com grande facilidade para a escrita, desenho e teatro. Uma família diferente para os padrões da época, em uma cidade do interior. Conta que seu pai abandonou a carreira de radialista por amor à dona Rita de Cássia Almeida. Para ter um futuro garantido, prestou concurso no Banco do Brasil. Daí, dedicava-se à arte do desenho e pintura nos finais de semana até aposentarse. Aí sim, viver de pintar. Desde pequena foi incentivada a desenhar e pintar, facilidade pertencente à família, não uma exclusividade dela.... Ronaldo produzia placas grandes de madeira e pintava com tinta preta. Virava uma lousa, um painel para desenho. Comprava caixas enormes de giz e Fafá passava as tardes desenhando e desenhando, no quintal da casa. Desenhava em tudo o que era papel. Até para prestar atenção em aula, desenhava. Era sua maneira de concentrar-se. Os professores não enARCA | 6

Fafá Noronha e Vânia Noronha

tendiam, mas era só tirar o desenho que aí queria conversar na aula e não prestava atenção em mais nada. Sempre gostou de música. A mãe, dona Rita, foi professora de piano na juventude e Fafá adquiriu o gosto por Chopin e Bach, porque a mãe gostava muito. Do pai, aprendeu a gostar de chorinhos, samba-canção e samba de gafieira. E tango! Ama tango e bolero como todo bom Noronha!


Também aventurou-se pela dança e fez balé clássico por anos, até entrar na faculdade. Resolveu estudar Comunicação Social por ter muita afinidade com fotografia e com a área de Publicidade e Propaganda. Mas a vontade de estar junto com o namorado era maior. Decidiram se casar e mudou-se pra São Paulo, onde terminou a graduação, formando-se em Produção e Direção de Rádio e TV. Em São Paulo, nasceu Cecília e por esse motivo, depois de um ano, decidiram voltar para o interior, um lugar mais tranquilo para criar sua filha. Carioca não conseguiu transferência tão cedo... A família, durante alguns anos, conviveu apenas durante os fins de semana. Depois de cinco anos, nasceu Pedro. Nesses primeiros anos em São João, Fafá trabalhou com comércio e descobriu que essa não era a sua praia. Foi buscando um caminho para trilhar, em termos profissionais. Foi convidada a escrever artigos para o Jornal A Gazeta de São João, depois O Município e, mais tarde, para a Revista Interior In. Além disso, já produzia muitos quadros, retratos de crianças, mulheres, senhores. Na dúvida, corria a pedir orientação ao pai. Dedicava-se à pintura à noite, no silêncio da casa, quando os filhos dormiam. As mulheres que trabalhavam na revista Interior In possuíam muita sintonia e resolveram criar uma Cooperativa de Artes: Marcia de Andrade Só, Valéria Gonçalves, Maria Cecília Braz Noronha e, depois, a irmã caçula Lucinda Noronha. Foi um período de muito aprendizado, principalmente com produção de eventos e de muitas telas que eram comercializadas em seguida. Convidada a dar aulas de Artes no Colégio Experimental Integrado, é professora lá até hoje.

Convidada por Zaida Brianezi a também ser professora de artes na Pré Escola Acalanto, atuou lá por três anos. Foi um período de muito aprendizado e muitos eventos, com exposições e curadorias. Fafá tinha um sonho: ter uma escola de artes. Surgiu, em 1997, a Escola Arte e Fato. Além do marido e do pai que sempre a apoiaram, duas pessoas foram importantes nesse período: Flávia Cassine Medeiros e Zaida Brianezi. Foram as maiores incentivadoras da criação desse novo espaço. As atividades profissionais se ampliaram e decidiu parar com as aulas na Pré Escola Acalanto, em 1999. Mas Fafá era a única a dar aulas no novo espaço (Escola Arte e Fato), em uma pequena casa no bairro do Perpétuo Socorro. Queria ampliar, ter outros cursos. Um dia nos encontramos em frente à Prefeitura Municipal. Sempre tivemos muita afinidade no campo das artes, além dos laços de família, e acabávamos nos encontrando em eventos, trabalhando juntas. Eu também tinha uma escola, só que específica de música, já com dezessete anos de existência na época. Eu tinha assumido o Departamento de Cultura e Turismo Municipal em 1977 e disse a ela que estava pensando em fechar a escola. Difícil conciliar as duas funções. Fafá sugeriu que uníssemos as duas escolas e que enquanto eu estivesse no comando do Departamento de Cultura, ela administraria esse novo empreendimento. E assim, foi feito. A Escola Arte e Fato, agora na rua Getúlio Vargas, cresceu, ampliou cursos e número de alunos e professores, firmou ARCA | 7


Fafá e família: irmã Heloísa, pai Ronaldo, mãe Rita e irmãs Cristiane e Lucinda

parcerias importantes. Incontável a quantidade de eventos que realizamos nesse novo espaço! Nessa época, Fafá decidiu aprimorar os estudos com cursos de especialização em Artes Visuais, na UNICAMP e foi convidada a coordenar uma oficina: “As fachadas de Volpi” para alunos do Instituto de Educação da UNICAMP, em 1999. Atraída pela educação, fez uma nova faculdade, a de Pedagogia, para melhor compreender os caminhos da sala de aula. Além da Escola Arte e Fato, Fafá continuou ministrando aulas no Colégio Experimental Integrado e também no Colégio Carlos Drummond de Andrade, Sistema COC, onde descobriu uma nova paixão: o Ensino Médio! Nesse período, surgiu a Fundação Oliveira ARCA | 8

Neto, entidade com o objetivo de levantar fundos para o restauro do Theatro Municipal. O marido, José Márcio Carioca, foi um dos mais envolvidos em todo esse processo juntamente com José Rubens Carvalho Rosas, Vera Adib Peres e Helinho Fonseca. Foi convidada a fazer parte da Fundação Oliveira Neto como Membro Consultivo. Começou aí sua paixão pelo Theatro. O restauro teve seu início e foi maravilhoso acompanhar todo o processo. A união das escolas fez com que crescêssemos, e no ano de 2000 nos mudamos para um espaço maior, na Avenida Dona Gertrudes, com aulas de música, artes, inglês e informática e


com novo nome: CLAC – Centro Livre de Arte e Cultura. Nesse mesmo ano Fafá foi convidada pelo Departamento de Cultura a ser a Curadora da III Semana Fernando Furlanetto. Seria a primeira Semana no novo espaço: a Estação Ferroviária que abrigava o Espaço Fernando Arrigucci. O tema foi a Arte Contemporânea, da Geração 80. No mesmo ano, conquistou o 4º lugar mundial do Concurso Internacional Le geste en liberté da UNESCO, com o trabalho coletivo dos alunos do Ensino Fundamental do Colégio Experimental Integrado. O CLAC mudou mais uma vez de endereço, agora para a Praça Coronel Joaquim Cândido, 40, no centro da cidade, onde está até hoje. Uma nova fase, novos projetos e novas parcerias. E as aulas de artes também continuaram: em São João da Boa Vista, em Espírito Santo do Pinhal e oficinas na Oficina Cultural Guiomar Novaes. Período de intensa atividade! A participação em produções artísticas e culturais vão aumentando a cada dia. Fafá foi artista convidada pela curadora Juliana Monachesi (jornalista do Caderno ‘Mais’ da Folha de São Paulo) a participar da VII Semana Fernando Furlanetto – A Casa Onírica, em 2004. Em 2003, o restauro do Theatro foi praticamente finalizado e se fez necessário criar uma Associação de voluntários para administrar o Theatro. Desde o início, Fafá teve algumas funções dentro da AMITE: Conselho de Eventos, 2ª Secretária, Diretora Técnica e atualmente é Presidente da instituição. Com a estreita ligação com a AMITE, percebemos que existia uma carência de produtores

musicais locais e decidimos produzir eventos: para Fafá era a sua formação acadêmica e, para mim, a familiaridade com a música. Surgiram: - Projetos “Concertos Matinais”, de música erudita e “Projeto Seis da Tarde”, de Música popular, desde 2005; - Shows: Mulheres I, II e III, Carolina Cachola, Homens, Tributo a Chico Buarque , Saideira, Concerto de Samba entre outros, entre 2004/2005/2006; -Produções local e regional dos shows: Noite Flamenca, com Grupo Raies Dança Teatro (28/05/2005), Orquestra austríaca Arpeggione (07/08/2005), Ulisses Rocha (20/05/2006), Zim-

Fafá com seus filhos Pedro e Cecília

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bo Trio (24/03/2007), Raul de Souza e Claire Marie Group (29/09/2007), Trovadores Urbanos (11/11/2207), Badi Assad (03/06/2006), Jorge Vercilo (30/10/2007), Pedro Mariano (14/12/2007), Írio Jr. (15/03/2008), entre outros, todos no Theatro Municipal de São João da Boa Vista.

OS ASSAD

Um dia, em 2009, durante uma visita de Badi Assad a uma exposição no CLAC, propusemos a ela um sonho: uma Semana de Cordas, nos moldes da Semana Guiomar Novaes: uma homenagem à família Assad, com shows e oficinas. Badi topou na hora! As primeiras reuniões aconteceram para definir o que fazer. E a troca de e-mails entre Sérgio, Badi, Fafá e eu, perdura até os dias de hoje. Tudo é feito em conjunto. E aí começou todo o processo de entender como se faz um projeto. O maior incentivador foi o marido José Márcio Carioca que já havia inscrito projeto do restauro do Theatro, na Lei Rouanet. Fafá começou a pesquisar, ler, ler e ler sobre o assunto. Recebemos dicas importantes de produtores culturais que atuavam através de leis. Por puro despreparo, perdemos prazos, diligências. Parecia ser um sonho impossível! E, quando conseguimos inscrever o projeto Semana Assad, tivemos muitas dificuldades com captação de recursos. Quem iria apostar nessa nova ideia? Anos de pura teimosia, conseguimos realizar, em 2012, a I Semana Assad. Uma realização única! Difícil descrever! O projeto ficou tão bom que foi aceito em duas leis de incentivo: Rouanet (Incentivo FedeARCA | 10

ral) e PROAC (Incentivo estadual). E a captação de recursos foi de 100%! Com uma equipe extremamente competente, formada por Solange Barroso, Pedro Okabayashi, Helyda Gomes, Thais Araújo, Leonardo Beraldo, Nina Forlin, Willian Rickeim, recepcionistas e ajudantes, além da CSB Produções e Aldeia Criativa e com o imprescindível apoio da Prefeitura Municipal e das empresas patrocinadoras, realizamos a I, II e III Semanas Assad. Dentro de cada função, todos dedicam-se de maneira única a esse projeto, agora na quarta edição transformada em Festival Assad.

A PRESIDENTE DA AMITE

Em 2013, foi indicada à Presidência da AMITE. Fafá chegou com novas ideias, reuniu grupos de artistas de todas as áreas, ouviu o que eles tinham para dizer e implantou novos projetos: Som de Sábado e Teatro de Quinta, além dos já existentes que foram mantidos: Semana do Theatro, Cine Clube Beloca, Projeto Seis da Tar-

Adolfo Mazarini, Suia Legaspe, Fafá Noronha e Zezzo Fonseca


Fafá com Vânia Noronha e Solange Barroso

funções, cada um à sua maneira, com seu perfil. Fafá veio coroar de êxito o que já era bom, com seu dinamismo, seu amor pela cultura, seu jeito aberto, democrático e sem preconceitos a quaisquer manifestações artísticas. Isso faz do Theatro um espaço cada vez mais Vivo e Pulsante.

Fafá com seu marido José Márcio Carioca

de, Ensaio Aberto, Concertos Matinais. O Theatro possui uma média de 200 espetáculos/ano, incluindo Festivais de Teatro, Semana Guiomar Novaes e Festival Assad. Possui uma vida extremamente ativa com produtores culturais trazendo os mais diversos eventos. Isso é mérito de todo um trabalho de equipe, de vários presidentes que exerceram maravilhosamente as suas

A criação “Saber o momento de avançar, o momento de parar. Ir e vir. Buscar, retroceder, transgredir. Expor-se, enclausurar-se. Momento de tensão, angústia ou puro êxtase. Ponto de partida ou de chegada? O artista, enquanto ser pensante, vai elaborando e buscando em seus arquivos de memória e sentimentos a bagagem para criação de sua obra. A partir daí, segue a sua viagem. Como condutor ou como simples e humilde passageiro deixa-se conduzir.” Fafá Noronha.

Vânia Gonçalves Noronha Cadeira 24 Patrono Vinícius de Moraes

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Por onde andei... Considerada pela UNESCO como cidade Patrimônio da Humanidade, desde 1987, está localizada na região do Vêneto, no nordeste da Itália. O conjunto de ilhas fez parte do Império Bizantino e teve sua origem quando os habitantes da região ali se refugiaram, temendo as hordas de bárbaros, que, a partir do século V, tomaram conta da Europa. Como tem uma localização privilegiada – no meio da rota entre Oriente e Ocidente – a cidade se tornou um próspero centro mercantil e naval a partir do século XI. Veneza crescia e na busca de uma alternativa para seu desenvolvimento, avançou sobre as águas que separavam as ilhas por meio de um sistema que aterrava as áreas alagadas anexas às porções de terra estreitando as distâncias, delineando canais. A partir do século XVIII, os portugueses descobriram uma rota alternativa para o Oriente, causando o declínio econômico e poder. Neste período é conquistada por Napoleão e passa a integrar o território austríaco. Só após a segunda metade do século XIX foi incorporada à Itália. O centro histórico de Veneza ocupa, hoje, uma área de aproximadamente 7,6 km² e é formado por 117 ilhas muito próximas, recortadas por 150 canais. Tem 409 pontes. A do Rialto, inaugurada em 1591, foi a primeira a transpor o canal grande, que cruza a cidade inteira, e atinge até 106 metros entre uma margem e outra. Seus edifícios ainda ostentam estilos que vão do bizantino ao renascentista. Pode ser considerada um museu a céu aberto: seu fabuloso centro está repleto de monumentos, edifícios e paisagens de grande valor cultural e artístico, mas seu grande tesouro é a cidade em si, por sua beleza natural e riqueza arquitetônica e artística “Città più bela” Ah! Veneza… cidade de grandes personagens de Shakespeare, como Otelo, O mercador de Veneza; cidade dos amantes, dos namorados... uma cidade que há séculos ocupa o imaginário de muitos e que na minha realidade ficará para sempre... Maria Cândida de Oliveira Costa Cadeira 04 Patrona Jaçanã Altair

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Os Tambores de São Luís Josué Montello

Leio Josué Montello há muitos anos. Esse notável romancista, nascido no dia 21 de agosto de 1917, em São Luís do Maranhão, consagrou-se no Rio de Janeiro, onde ocupou a Cadeira nº 29 da Academia Brasileira de Letras, Patrono Martins Pena, e onde faleceu em 15 de março de 2006. Publicou cerca de 15 romances, a maioria dos quais tendo por cenário a capital maranhense. De “Janelas Fechadas” (1941) a “Perto da Meia Noite” (1985), li a maior parte deles, totalmente envolvido por sua extraordinária técnica, que prende a atenção e o interesse do leitor por todo o desenrolar da trama. O romance “Os Tambores de São Luís”, publicado em 1965, é considerado pela crítica especializada o ponto culminante de toda a vasta obra de Josué Montello. Embora se passe numa única noite, esse romance abarca todo um largo período de vida brasileira, entre 1838 e 1915, com seus clérigos, seus políticos, seus escritores, seus tipos populares. E toda a história se desenrola com o fundo sonoro dos tambores rituais tocados pela nostalgia, a fé, a revolta e o júbilo dos antigos escravos. Várias vezes premiado como mestre do ARCA | 14

moderno romance brasileiro, Montello é também um clássico da língua portuguesa, ressaltando-se que ele foi, ainda, crítico, ensaísta e cronista. Dele nos disse o consagrado bardo Carlos Drummond de Andrade: “Ele encarna o homem


Crítica Literária de letras na sua devoção a uma coisa abstrata, que foi marcando os degraus de sua carreira no século, e essa coisa é a literatura”. Sintetizando o enredo da obra ora comentada, podemos expor que, numa noite de 2015, o negro Damião vai à casa de sua bisneta, do outro lado da cidade, para conhecer seu trineto, que acabara de nascer. Entra num botequim, e ali encontra, à luz do candeeiro, dois homens mortos, um negro e um branco. Sai de manso para não servir de testemunha e recompõe sua vida, a princípio como escravo, depois como homem livre, na luta em favor dos outros pretos. A narrativa se desenvolve como uma saga do negro maranhense. Mais de 400 personagens dão movimento ao romance, numa linha de interesse crescente, até seu imprevisto desfecho (que evidentemente não irei relatar). A obra tem exatas 483 páginas e foi produzida entre novembro de 1972 a dezembro de 1974. Varei algumas madrugadas enleado em grandes emoções, “devorando” todo o romance. Tomei muitas notas, aprendi muito sobre a cultura maranhense, encontrando sérias dificuldades em interromper sua leitura, tal a concatenação aliciante da excepcional narrativa!

Antônio “Nino” Barbin Cadeira 27 Patrono Érico Veríssimo

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São João à Vista Duas Mulheres Gertrudes e Olaia A Avenida Dona Gertrudes nem tinha este nome ainda. Era, a Avenida, chamada de Francisco Glicério, em homenagem a um dos primeiros ministros do governo republicano. Também não era extensa como hoje. Parava logo depois da Praça Cel. Joaquim José. O nome Dona Gertrudes foi dado em homenagem a Gertrudes da Silva Franco, esposa de Conrado Marcondes de Albuquerque. Conrado foi pioneiro dos loteadores de terras em São João da Boa Vista. Um homem progressista, de acentuado espírito público. Chegou a ser eleito vereador de São João da Boa Vista entre 1896 e 1898 e por dois anos exerceu a Intendência do Município, o que corresponderia hoje a ser Prefeito. Ao promover o loteamento da Vila Conrado, cujo nome, obviamente, é homenagem a ele, Conrado Marcondes de Albuquerque pensou em dar a esse novo bairro acesso mais rápido ao centro. Daí doou os terrenos que eram de sua propriedade abrindo a avenida e pedindo à Câmara, como retribuição, que fosse feita homenagem a sua esposa, a Dona Gertrudes. Embora tenha sido tão importante em São João, Conrado mudou-se com a família para outra cidade. Faleceu em 1919 em Taquaritinga e sua história e de Dona Gertrudes caíram no esARCA | 16

quecimento. Na década de 20, como ninguém sabia quem havia sido Dona Gertrudes, chegou-se a aventar a mudança do nome da principal avenida da cidade. Foi sugerido que se chamasse Dr. Theophilo Ribeiro de Andrade, em homenagem ao famoso político sanjoanense, várias vezes eleito deputado. A ideia não prosperou e a Avenida continuou sendo Dona Gertrudes. Segundo o Professor João Baptista Scannapiecco, a curva acentuada logo após a Praça Cel. Joaquim José, foi proposital, para que a nova avenida passasse em frente à residência de seu doador, hoje sede do Palmeiras F.C., e seguisse em frente. E a Avenida parou aí, não dando acesso a nenhuma saída da cidade. Naquela época, só havia dois caminhos para se entrar em São João. Pela estrada de ferro ou pela Rua General Osório. Da Praça Joaquim José, seguindo pela Praça Roque Fiori, descia a Rua General Osório, passando pelo bairro Cubatão, onde hoje está o prédio Central da Unifeob e em seguida subia aquele imenso morro até chegar à estrada. O morro era conhecido por todos, até a década de 70, aproximadamente, por Morro da Canjica. Vez por outra ainda encontramos alguém, de mais idade, que assim se refere ao falar do final da Rua General Osório. A subida era tão íngreme e na época de chuva tão difícil de transitar, que era preciso comer muita canjica para ganhar força. Ampliada a avenida central da cidade, dando-se-lhe o nome de Dona Gertrudes, quiseram os moradores que a cidade tivesse outra op-


ção de acesso até a estrada. Um meio de cortar caminho, sem ter que atravessar o famoso Morro da Canjica. Procuravam uma solução, quando um espanhol, proprietário de uma chácara localizada no final da Avenida, se propôs a doar parte de sua propriedade, deixar que o acesso atravessasse sua propriedade, ligando a Dona Gertrudes até o caminho em direção à estrada. Talvez inspirado no gesto de Conrado Albuquerque, fez a doação com a condição de que a nova rua homenageasse sua esposa: Olaia. Daí o nome da rua, que cruza a Dona Gertrudes. A Rua Victor Dias, do lado do Palmeiras F.C., seria aberta anos depois. Era uma imensa chácara, propriedade do cafeicultor Victor Dias,

cuja residência era a atual sede do Palmeiras. Com dificuldades financeiras devido à crise de 29, e tendo de vender parte de sua propriedade para levantar recursos, ele loteou o fundo de sua chácara em vários terrenos. E, como era uma propriedade particular, abriu uma estreita rua para dar acesso aos compradores dos seus lotes.

Francisco de Assis Carvalho Arten Cadeira 10 Patrono Darcy Ribeiro

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AMIGO

o cachorro que acompanhava enterros

Esse cachorro representou muita coisa para a população sanjoanense na década de 1950 e até hoje não foi esquecido pelo povo. AMIGO reconhecia a morte através das badaladas do sino da Igreja Matriz (hoje Catedral), que com seu toque diferenciado anunciava mais um velório. Era comum o defunto ser velado na própria casa e o féretro passar pela Igreja para a recomendação do corpo. O cão passava seus dias em frente ao Theatro Municipal, deitado na calçada em frente ao Bar Theatro. Ali, ele passava o dia alimentado pelos restos de salgados e doces atirados pelos frequentadores do bar. Era tranquilo, olhar doce; ARCA | 18

conquistou a simpatia de todos. Ganhou até uma casinha para dormir sossegado e abrigado do frio e da chuva. Passava o tempo esperando as badaladas do sino, que anunciavam mais uma morte. Ao ouvir as badaladas, atravessava a rua e ficava em frente da Igreja, à espera. Assim que o cortejo entrava, ele seguia junto e ficava deitado sob o caixão, esperando tranquilamente a cerimônia exequial. Seguia o féretro pelas ruas da cidade, ao lado do caixão, até o cemitério municipal. Respeitava o momento solene e era respeitado por todos. Foi retrado pelo pintor Octávio Gião. Assim recorda Riolando, filho do pintor:“Lembro


que um senhor, que penso ter sido o Antenor Martins de Paula, conhecido como Aguiar, procurou meu pai, encomendando um quadro tendo o AMIGO como tema. Meu pai pintou a tela, baseado em uma foto, reproduzida num jornal”. A percepção do AMIGO para a morte acabou causando medo entre as pessoas. Sua presença na porta da casa significava morte iminente. A jornalista Ana Eugênia Biazzo, numa matéria publicada pelo Jornal “O Município” em 09 de setembro de 1993, nos conta o relato de Heleninha, viúva de Ion Pirajá, que recordou um fato ocorrido, um pouco antes do falecimento da avó de seu marido, dona Lucina Raposo de Vasconcellos: “Quando dona Lucina faleceu, eu não compareci ao enterro, contudo, quando cheguei, ouvi minha sogra, dona Chiquinha Pirajá, contar uma história sobre o AMIGO que ocorreu um pouco antes de sua mãe ficar gravemente enferma. Dona Lucina estava fazendo linguiça, em uma cozinha, localizada na parte baixa da casa e que tinha uma grade de proteção que dava para um dos corredores laterais. Quando ouviu um barulho e viu o AMIGO, de pé junto à grade, olhando para ela. Como conhecia a fama do cachorro, dona Lucina exclamou: Vai embora, AMIGO! Ainda não chegou a minha hora.

Pouco tempo depois, adoeceu gravemente e, segundo o testemunho de muitas netas e parentes. O AMIGO esteve presente ao enterro”. De tanto comer doces e frituras AMIGO ficou diabético. Depois de um rápido período de enfermidade, assistido pelos veterinários da Prefeitura Municipal e Secretaria da Agricultura e ainda pelo farmacêutico Juarez Loyola, morreu dia 3 de setembro de 1961, na sede do PTB. Em caixão próprio, foi o cão AMIGO enterrado em um terreno localizado na rua Eduardo Balestero Braido, Jardim Leonor, próximo à Escola SENAI. Momentos antes do enterro, grande era o número de pessoas que observavam o animal morto, entre as quais a vereadora Beloca de Oliveira Costa, o Delegado de Polícia e ainda representante de jornais locais e da Rádio Difusora. Desaparece assim o conhecido cachorro que acompanhava enterro em nossa cidade e que ganhou a simpatia de todos os sanjoanenses.

Neusa Maria Soares de Menezes Cadeira 30 Patrono Euclydes da Cunha

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Academia em Revista Academia de Letras de São João da Boa Vista: Um Pouco de História A certa altura da vida, vai ficando possível dar balanço no passado, sem cair em autocomplacência, pois o nosso testemunho se torna registro da experiência de muitos, de todos que, pertencendo ao que se denomina uma geração, julgamse, a princípio, diferentes uns dos outros e vão, aos poucos, ficando tão iguais, que acabam desaparecendo como indivíduos, para se dissolverem nas características gerais da sua época. Então, registrar o passado não é falar de si; é falar dos que participaram de uma certa ordem de visão do mundo, no momento particular do tempo que se deseja evocar. Os fatos históricos não são diretamente observáveis. Sua grande maioria dista do observador quanto ao tempo e ao espaço, desde que o momento presente é passageiro e o lugar que habitamos, limitado. Em história, é difícil a observação direta e, para atingirmos o fato, precisamos ir através de lembranças ou vestígios, por processos indiretos. Se o que separa o passado do presente é ARCA | 20

o “esquecimento”, será a história uma espécie de tomada de consciência do passado, dirigida através de sucessivas aproximações do fato. Sem dúvida, a Academia de Letras de São João da Boa Vista é um destes elos e, assim, faz parte da historiografia de São João da Boa Vista e região. Assim nasceu nossa Academia: a ideia – a semente – foi lançada por Milton Duarte Segurado, em uma conversa informal com Octávio da Silva Bastos. Este último era, na época, Prefeito Municipal de São João da Boa Vista e Presidente da Associação Sanjoanense de Ensino, depois Fundação de Ensino Octávio Bastos e, atualmente, UNIFEOB. Milton Segurado, homem culto, professor de nossas faculdades e membro da Academia Campineira de Letras; mostrou que o momento era propício à fundação de uma academia aqui, em São João, acompanhando o surgimento das faculdades. Anos mais tarde, Octávio Bastos procurou dois companheiros, também ligados à cultura e sobejamente conhecidos como intelectuais: Octávio Pereira Leite e Francisco Roberto Almeida Júnior. Assim, esta comissão trinitária reformulou o projeto inicial, com base nos Estatutos da Academia Paulista de Letras. O passo seguinte foi o de procurar uma pessoa para ser o presidente da nova sociedade


Salão Diocesano - Primeira sede da Academia de Letras de São João da Boa Vista

cultural. A comissão não teve dificuldades e o convidado foi S. Exº. Revmº. Dom Tomás Vaquero, Bispo Diocesano. Além dos dezenove fundadores – Octávio da Silva Bastos, Dom Tomás Vaquero, Octávio Pereira Leite, Francisco Roberto Almeida Júnior, Abelardo Moreira da Silva, Palmyro Ferranti, Reverendo José Rodrigues Cordeiro, Joaquim José de Oliveira Neto, Emílio Lansac Toha, Licínio Vita da Silva, Ademaro Prezia, Cônego Luiz Gonzaga Bergonzini, Helio Corrêa Fonseca, José Osório

Oliveira Azevedo, Odila de Oliveira Godoy, Jordano Paulo da Silveira, Fábio de Carvalho Noronha, Milton Duarte Segurado, Maria Leonor Alvarez e Silva; outros seriam convidados a se inscrever para as vagas restantes e as escolhas seriam por eleição. A euforia era geral, segundo acadêmicos que presenciaram este acontecimento e que, com alegria, estão ativos nesta sociedade, sendo para nós os nossos alicerces. A lista de filiação foi assinada e cada acadêmico escolheu o respectivo patrono. ARCA | 21


Membros da Academia de Letras no dia da posse, 15 de novembro de 1971, na sede da Sociedade Esportiva Sanjoanense

A segunda reunião da Academia aconteceu em 11 de outubro do mesmo ano da fundação – 1971. O local foi novamente a residência episcopal. O importante desta reunião é que novos membros foram propostos, votados e eleitos para integrarem a nova academia. Foram quinze personalidades as admitidas, não só da terra como de outras cidades. Muitos chamados “de fora” estavam ligados a São João da Boa Vista, por laços familiares, de amizade ou já eram acadêmicos de outras sociedades semelhantes. Os novos acadêmicos eram: José Benedito Barreto Fonseca, Monsenhor Antonio David, Almir Paula Lima, Hercílio Ângelo, Antonio Ferraz Monteiro, Eunice Veiga, Plínio Silva, Geraldo Majela Furlani, João Cabete, Nise Martins Laurindo, Oscar Burgos Passolo, Juversino Garcia de Oliveira, Fábio Rodrigues Mendes, Júlio Andrade Ferreira, Jurandir Ferreira. ARCA | 22

A Academia crescia e o entusiasmo também. Seria possível uma cidade do interior paulista ter uma Academia de Letras? Lembro aqui o fato de, na época, apenas existir no Estado de São Paulo a Academia Paulista de Letras, na capital, e mais três ou quatro congêneres, em cidades privilegiadas. A terceira reunião foi em 27 de outubro e nela o quadro social da Academia foi completado com mais 6 (seis) membros. Nomes de destaque e militantes de outras academias. São eles: Leão Machado, José Magalhães Navarro, José Assis Canoas, Acácio Ribeiro Valim, Nelson Palma Travassos, Hélio Carvalho Teixeira. A nossa Academia estava completa para a sua instalação solene e pública. A data escolhida para este evento foi o 15 de novembro, dia da Proclamação da República. Foi idealizado o brasão acadêmico: - um


Dom Tomás diploma Eunice Veiga

quarenta membros, foram ocupadas as cadeiras iniciais da nova Arcádia. A imprensa local registrou o histórico evento com pormenores. Pesquisando com cuidado e gosto os jornais da época, afirmo que consegui coletar detalhes do nascimento desta Academia, graças aos relatos de Odila de Oliveira Godoy, através de suas crônicas noticiosas dos tempos iniciais deste Sodalício.

Dom Tomás diploma Aberlardo Moreira da Silva

livro aberto. Seu significado: lembrar a todos que “somente um livro é capaz de fazer a eternidade de um povo”. Sobre o escudo foi escrita a seguinte legenda: “Os livros governam o Mundo”. Os medalhões – para distinguir os acadêmicos, em suas reuniões públicas - foram providenciados para todos. O desenho foi executado por Augusto Procesi, italiano, natural de Roma, que aqui residia. A instalação solene foi em 15 de novembro de 1971, em uma memorável reunião, na Sociedade Esportiva Sanjoanense. Com a presença dos

João Baptista Scannapieco Cadeira 17 Patrono Francisco Paschoal

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LuzGrafia

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Serra... Serra... Serradô Chuva e sol, muito sol, e nada dela aparecer. Dobro a rua, viro a esquina, só trechos esmaecidos entre fios aéreos e árvores torturadas pelas podas. Irritante procura, sabendo de sua existência do lado de lá. Errei de mão? Como assim, se a cidade deve a seus encantos, idolatram suas virtudes, defendem sua beleza como testemunho divino? Queria desenhá-la em sua plenitude memorial... Mas não é a mesma história: levantam-se prédios, concorrem janelas, rasgam loteamentos, entopem de entulhos, sempre de cá pra lá. Uma onda de progresso sem futuro de acabar!

Antonio Carlos Rodrigues Lorette Cadeira 32 Patrona Orides Fontela

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Arcadianas O Elefante na Árvore

Faz tempo que guardo o propósito de escrever um texto intitulado “O Elefante na Árvore”. Alguns, por certo, acharão estranho o título, uma vez que sugere o pesado animal equilibrando-se em galhos, quando se sabe que elefantes não escalam árvores. Elefantes não sobem em árvores, mas, nada impede que eles se apoiem com as patas dianteiras nos troncos das árvores para alcançar as folhas mais altas. O sentido do título, portanto, visa a retratar um majestoso elefante selvagem, na savana africana, com as patas dianteiras sobre o tronco de uma árvore, colhendo despreocupadamente algumas folhas para se alimentar. É possível dizer que em tais condições o elefante “está na árvore” – e certamente alheio a qualquer perigo e sem representar perigo a quem quer que seja. A poucos metros desse “nosso” elefante, um rei (no minúsculo), movendo-se nas sombras e empunhando uma arma de enorme potencial destrutivo, por algum sentimento asqueroso, pois, sem outra razão senão a de obter uma foto como “troféu de caça”, alveja o animal com um tiro fatal. Em segundos, o que fora um majestoso animal se torna um corpo morto na árvore. Literalmente na árvore, pois morre o elefante apoiado na árvore. Na sequência, uma foto do sorridente e “valente” ARCA | 26

caçador ao lado do animal morto. E assim fica o animal morto na árvore e sob a árvore. Não se trata de ficção a situação ora descrita. Basta puxar pela memória ou, então, digitar no Google a frase “elefante na árvore rei juan carlos”, para surgir a foto de um elefante morto, apoiado em uma árvore, e uma dupla sorridente com o “trofeu”, como se tivera alcançado um feito de relevante valor. O autor da proeza? O então Rei Juan Carlos, da Espanha! Nas últimas duas décadas, a comunicação mundial tornou-se instantânea. No meu discurso de posse na Academia, fiz questão de mencionar o surgimento do Ipad, como forma de marcar uma época. Cinco


anos depois, a tecnologia do Ipad está popularizada nos smartphones. Mas, afinal, o que há de comum entre o elefante, o Rei e o Ipad? A rigor, absolutamente nada! Exceto, talvez, que nas duas últimas décadas os meios de comunicação se expandiram absurdamente rápido, levando junto a revisão de conceitos ao redor do Globo. Dentre os conceitos em modificação, honestidade é um deles. Há uma frase, atribuída a Caio Júlio César, muito repetida ainda hoje: “A mulher de César não basta ser honesta, tem de parecer honesta”. A expressão foi cunhada um século antes de Cristo, mas se mantém atual e serve para pontuar a desonestidade aos olhos da população, embora sendo honesto o autor do fato. A conduta de um Rei, de tirar a vida de um elefante por puro prazer, ou a de um dentista, de tirar a vida de um leão a golpes de flecha (leão Cecil), também por prazer, não gera apenas asco na atualidade, mas, sobretudo, ares de desonestidade. Afinal, matar um animal assim é algo honesto? O abate de um animal, pelo simples prazer da morte, ainda que honesto o autor do ato, traz,

junto com a repugnância das pessoas socialmente mais evoluídas, a sensação de desonestidade daquela pessoa. Analisando situações cotidianas, sou levado a pensar que grande parte da população ainda não percebeu-as das mudanças sociais que andam afetando o conceito de honestidade. Por exemplo, nas “pequenas” transgressões sociais, como usar a vaga de pessoas idosas ou com necessidades especiais, parar em fila dupla nas portas das escolas, consumir bebidas alcoólicas na presença de crianças, etc, são situações que estão sendo retratadas e reproduzidas nas redes sociais, devidamente acompanhadas de comentários diversos, a gerar a sensação de desonestidade daquelas pessoas, mesmo sendo honestas - em outros sentidos. O Reio Juan Carlos, certamente por outros motivos que não apenas o elefante que matou, foi levado a abdicar; também deixou anotado em sua história a morte de um elefante, de forma a macular a sua honestidade aos olhos da humanidade. Que o ato do Rei sirva para que todas as pessoas, principalmente aquelas que exercem certas funções, não sejam apenas honestas, mas também que pareçam honestas. Afinal, a perda da imagem de honesto, por uma foto feita por celular e reproduzida das redes sociais, ou um comportamento indevido submetido a julgamento popular, devasta tanto a imagem de honesto quanto matar um elefante.

Donisete Tavares Moraes Oliveira Cadeira 38 Patrono Gonçalves Dias

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Falando de Estrelas Agora quero falar de estrelas. Não daquelas que a gente observa nas noites, e que inundam o veludo preto do céu de minúsculos pontinhos de luz. Não daquelas que nos dicionários são descritas como: “denominação comum aos astros luminosos que mantêm praticamente as mesmas posições relativas na esfera celeste, e que, observados à vista desarmada, apresentam cintilação, o que os distingue dos planetas... Qualquer astro”. Hoje a estrela é uma pessoa que, aliás, também tem definição no dicionário: “pessoa eminente, insigne; pessoa a quem se quer muito”. Minhas palavras irão para Joana D’Arc Moreno, tia Joelen, pessoa queridíssima, que passou por nós como uma rara estrela, mas que continua a brilhar lá onde está agora. Joelen nasceu em Mirassol e, ainda pequena, foi com sua família para Ribeirão Preto. Seu fascínio pela música sempre foi tanto, que começou ainda criança a estudar essa arte (tocava violão clássico, piano e acordeão). O Ballet veio a seguir e foi aí que sua estrela mais brilhou. Neste caso a “estrela” seria descrita como: “destino, sorte, fado, fadário”. Brilhava nos palcos e chamava a atenção por sua disARCA | 28

ciplina, leveza e competência. Na dança viveu inúmeros papeis que lhe deram, com certeza, a força necessária para tocar a sua vida. Em Ribeirão Preto, atuou como primeira bailarina em espetáculos do Teatro Pedro II. Tinha seus sonhos e os foi realizando. Casou-se ainda jovem, foi para o Rio de Janeiro e lá, como ainda não era tão conhecida, dançou em vários espetáculos como freelance, e nunca se vinculou a nenhum grupo daquela cidade. Teve seu primeiro filho, que infelizmente foi morto num acidente, ainda criança, o que lhe causou enorme so frimento. Deprimida, separou-se do marido e voltou para Ribeirão Preto. A partir de então, foi mestra, e começou a ensinar juntamente com uma amiga, depois formou sua própria escola. Sua luta não terminaria aí. Ela também sofreu um acidente, que resultou em fraturas no pé. Não poderia mais dançar. Foi nes-


te momento que, sabendo que precisava continuar, seguiu em frente, como estrela que sempre foi. Fundou mais uma escola e começou a passar, com muita competência, seus ensinamentos a quem a procurasse. Conheceu nessa época seu segundo marido e, aos poucos, foi-se recuperando de suas dores. Nunca se esqueceu da perda de seu menino, e, talvez por isso, não conseguiu mais engravidar. Então, num gesto de imenso amor, adotou. Foram três os seus filhos de coração. Ela os educou carinhosamente, com o amor de uma mãe generosa e dedicada. Dois deles resolveram seguir os passos da mãe, literalmente, e se dedicaram ao balé. Com a violência aumentando em Ribeirão Preto e a deixando atemorizada, Joelen e o marido decidem, depois de sofrerem mais um assalto, deixar tudo para trás e vir refazer a vida aqui, em São João da Boa Vista. Foram tempos difíceis, onde um dos filhos, não conseguindo suportar a mudança drástica de vida, renunciou a essa mãe e foi embora. Mais uma dor cortava o coração de nossa estrela. Ela ergueu a cabeça e, como a pessoa vitoriosa que sempre foi, continuou a fazer seu destino, sempre com o apoio de seu marido e de seus outros dois filhos. Cuidou de suas alunas como filhas. Além das aulas de Ballet, lhes dava carinho, conselhos, coisas de mãe...

Sua escola sempre foi referência em qualidade. Recebeu inúmeros prêmios pela vida afora, e muitas citações em revistas especializadas. Joelen nunca foi uma “estrela fugaz”, foi sim uma “estrela fundamental”, deixando por isso tanta dor e saudade. Suas alunas formavam com ela e com André, seu filho, uma “estrela múltipla”, ligados entre si pelo amor à dança. Como todos nós temos um tempo de vida aqui, neste pequeno pedaço de tempo, o tempo de Joelen se foi. Ela partiu rumo a um lugar maior, de onde, com certeza, estará olhando por todos aqueles que a amam. No dia de sua despedida, suas alunas usaram seus mais belos figurinos e levaram rosas, símbolo que os admiradores usam para homenagear suas bailarinas. Foi assim, com a reverência de suas meninas, que nossa estrela subiu aos céus. Agora ela é uma “estrela nova”, numa outra dimensão, e se olharmos bem dentro de nossos corações, a veremos lá no céu de nosso amor.

Silvia Tereza Ferrante Marcos de Lima Cadeira 09 Patrono Raul de Leoni

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Imersão Meu Deus, onde está meu eu? Quero voltar a escrever de forma alegre, serena, feliz, sentindo prazer ao trazer as palavras para o papel... O que aconteceu comigo? A inspiração ter-me-ia abandonado? Mas nestes últimos três anos eu escrevi tanto... produzi textos, artigos, resenhas, comentários, análises... mas eles não eram felizes, eram técnicos. Vi-me engolida por dados, números, tabelas, gráficos. Interpretei cada um deles, fiz as relações, correlações e posso dizer o “diabo a quatro” com eles. Fui engolida pela tese! Meus colegas diziam: agora sim você está pronta. Agora você vive a tese! Eram números, muitos números ... e eu engolida por eles. Estranhamente nestes últimos três anos, passei a ver beleza nestes números, na coleta de dados, nos gráficos e tabelas. ARCA | 30

Teria eu me apaixonado por eles?

Teria sido uma paixão louca, insana?

Daquelas avassaladoras, que te engolem e

que respiras aquele momento insano?

Não sei!

É, talvez tenha sido isso.

E agora, que momento estarei vivendo?

O fim desta paixão?

Seria este o sentido deste vazio?

Seria a sensação do fim que me leva a bus-

car novamente a insanidade daquela paixão?

A sensação voraz e arrebatadora daquela

ansiedade, por estar perdida dentro daquele universo de dados, tabelas, gráficos, números... especialmente números.

A busca para trazer uma interpretação

para aqueles números, torná-los humanos. Sentir neles o aconchego do amante...

Mas eles continuavam frios, distantes e in-

sensíveis.

Tentei dar a eles um sentido maior, mas

não. Eles continuam lá a olhar-me de forma dis-


tante e desapegada. Afinal, são apenas números.

Não sei... tenho medo!

Agora quero libertar-me.

As cicatrizes são profundas, as marcas são

Preciso libertar-me.

fortes.

Mas vez por outra, insidiosamente, eles

Entretanto, novamente submergi.

aparecem no meu pensamento, tomando conta de tudo, dirigindo meu devaneio, minhas emoções.

Neste momento busco libertar-me destas

lembranças, mas elas são fortes e conseguem direcionar novamente meu pensamento.

Alguns amigos disseram que, se eu deixar-

me engolir novamente por eles, eu conseguirei libertar-me, sairei fortalecida do embate.

Carmen Lia Batista Botelho Romano Cadeira 36 Patrona Patrícia Rehder Galvão “Pagu”

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Lágrimas de Alegria O sangue tropical desvenda os vasos do corpo e o calor das células físicas enfrenta o frio do vento. Lufada noturna toca as encostas do perfil humano. O dia tombou de cansaço frente à agitação das horas. O céu toma ares viris, e desnuda o pudor das estrelas. E estas, como que feminis, confessam segredos. São mistérios sobre algo que está por surgir, são letras sutis, vida nova sobre o velho cotidiano. Um rosto silencioso tudo observa, a tez está sensualizada. Um sorriso de menino brinca na face masculina amadurecida. Divide o coração alguém que quer filosofar, enquanto outro insiste em construir poesias. Estranha dualidade que lhe faz sentir com as asas quebradas. Quais asas, se é o chão que o tem? Porém, crê poder voar. A realidade desmente a ilusão, sente o duro chão do solo, mas tem a impressão de conhecer o ar rarefeito do céu. Não tem asas, mas tem imaginação para divagar, e por divagar,vai longe, mergulha em abstrações, vê algumas lágrimas de alegria a visitar o infinito, vê que seu coração comunga com o horizonte, e está feliz.

Gilberto Brandão Marcon Cadeira 06 Patrono Mário Quintana

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Enfeite Não fosse a flor do meu cabelo E o riso na minha boca Tu passarias distante E nem por um instante Ter-me-ias percebido Mas foi tão grande o espanto Foi surpresa e deleite Por minha figura de enfeite Fez-se o acontecido. Fui andando ao teu lado Meu coração disparado Batendo tão insistente Que o vento enciumado Encheu-se de intenso desgosto Jogou nossa flor para o lado Desfez meu sorriso inocente Encheu de rugas meu rosto.

Maria Cecília Azevedo Malheiro Cadeira 40 Patrono Monteiro Lobato

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Nas Colônias Até meados do século XIX, nossa cidade era habitada apenas por mineiros, negros e descendentes. Devia ser muito sem graça, pois os moradores dividiam-se em apenas duas classes: os fazendeiros e os escravos. Os poucos comerciantes eram tão poucos que nem faziam volume. Com a imigração europeia, tudo mudou: a região ficou mais cheia de cores, de festas, de emoções e de sensualidade. Os campesinos europeus vieram para substituir a mão de obra escrava. Povoaram nossa querida Serra da Paulista e encheram as colônias das fazendas de alegria. Ainda peguei um pedaço disso na minha infância, antes do êxodo rural e da monocultura da cana de açúcar que tomou conta de nossos campos. Dava gosto visitar as colônias das fazendas: Os imigrantes e descendentes trabalhavam muito, mas havia muita alegria e solidariedade. As casas, dezenas delas, eram todas iguais e quase encostadas umas às outras, de tijolos à vista, sem forro e com o piso de tijolos enormes ou de “vermelhão”. Pelo meio do dia, os pisos eram varridos e regados com água do poço, o que deixava as residências fresquinhas pelo resto da tarde. Toda família tinha um forno a lenha e um chiqueiro no quintal. As galinhas viviam soltas, em perfeita harmonia. Interessante é que cada dona de casa conhecia suas aves, mesmo que misturadas com as demais. Às vezes, costumavam cortar ARCA | 34

a ponta do dedo “indicador” das penosas, quando ainda pintinhos, para que não houvesse enganos sobre a propriedade. Pelo sotaque, ainda carregado, dos descendentes europeus dava pra ser identificada a origem da família: se o proseado apresentava um som alto e meio que cantado, eram filhos de italianos; se falavam num tom estridente e corrido, eram espanhóis. Aqueles que conversavam num tom mastigado, com chiados, eram portugueses. As mulheres mais velhas tinham muita coisa em comum, a começar pelos nomes, quase sempre Rosas, Marias, Anas, Amélias e Angelinas e também pelos aventais compridos, lenços nas cabeças e os papos no pescoço (acho que de tanto beberem água de poço, grande parte das mulheres desenvolviam o tal de bócio ou papo). Certa vez, ao sair de uma dessas colônias, com meu pai, perguntei a ele qual a razão de as mulheres terem aqueles papos enormes e ele cantou uma musiqueta para mim que jamais esqueci: “Gente que tem papo, maninha, não pode andar de trem. No balanço que o trem dá, maninha, balança o papo também...” Aos sábados, dia de fazer as compras, vinham para a cidade em suas carroças, troles, ou de carona no caminhão do leiteiro. Normalmente vinham apenas os chefes de família, pois os itens das compras eram sempre os mesmos: Feijão, arroz, querosene, mortadela, aguardente, fumo de corda, enxadas, facão, farinha e açúcar. Quando havia a necessidade de comprar roupas ou calçados, vinha a família toda, pois esses itens eram comprados somente uma vez por ano, pelo Natal. Os empórios e armarinhos da Rua


Saldanha ou do Bairro Pratinha ficavam lotados de carroças e dava dó ver os coitados dos burros e mulas ficarem parados por horas sob o sol escaldante, batendo, nervosamente, as patas ferradas nos paralelepípedos da rua (parece-me que ainda ouço aquele som). Acontecia muito de alguns dos colonos ficarem tão bêbados nos balcões dos empórios, a ponto de serem colocados, quase inconscientes em suas carroças, ficando por conta do burro, já acostumado com o trajeto, seguir o caminho para casa. As festas de santos e de casamentos eram uma anarquia tremenda: os noivos e convidados vinham na carroceria de caminhões para as igrejas da cidade (normalmente Rosário ou Matriz). Na volta, havia o lauto almoço, somente para padrinhos e familiares, onde eram servidas dezenas de frangos, leitoas, cabritos assados e a invariável macarronada. Mais à noite, vinham os demais convidados para o bailão, sob as imensas barracas de lona e bambu. Para essa turma eram servidos apenas batatas no vinagrete e sanduíches de pão com carne moída. Aprendi a dançar, ainda moleque, nesses bailes de roça, ao som de uma sanfona, pandeiro e triângulo. Até hoje ainda sinto o cheiro que exalava dos lampiões de iluminação, a base de carbureto... Cheiro horrível! Enfim: era uma vida de muito trabalho, sem vaidade alguma, entretanto nunca conheci nenhuma pessoa naquelas colônias com sintomas de depressão ou pânico. Vou parar por aqui, senão a prosa vai longe e, como receita, vou ensiná-los como temperar e assar um belo pernil de cabrito ou de cordeiro:

PERNIL DE CORDEIRO ASSADO Fure todo o pernil com uma faca de ponta afiada. Esfregue por toda a peça um socado de alho, alecrim, sal e pimenta. Pelos furos, enfie pedaços de bacon gordo e pequenas fatias de cenoura. Bata no liquidificador: 1 copo de vinagre (ou suco de limão), 1 copo de água, meio copo de azeite, folhas de manjericão ou Mangerona, salsa, cebolinha, 3 cebolas grandes e uns 10 dentes de alho. Esfregue essa mistura batida por todo o pernil e cubra-o com o restante. Leve à geladeira por 12 horas. Jogue 1 copo de vinho branco seco sobre a peça. Cubra com papel alumínio e asse, em forno forte por umas 2 horas (se o pernil for grande). Descubra e asse por mais uma hora. Sirva com farofa.

João Batista Gregório Cadeira 37 Patrono Menotti Del Picchia

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CAPA

Trans

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Perplexidade É a sensação que muitos sentiram, assistindo ao noticiário na TV sobre o drama da imigração em massa do Oriente Médio rumo à Europa. Cenas chocantes de desespero e violência contra famílias inteiras atemorizadas pela guerra. Sabemos que o problema é complexo, que os países estão densamente povoados com índices preocupantes econômicos e de desemprego, mas a ajuda humanitária nesses casos é necessária e urgente para preservar a dignidade humana. Apesar da existência de tratados mundiais sobre o assunto, as lideranças não se entendem, os organismos mundiais não exercem a governança desejada. É um debate sem consenso. O mundo vacila e hesita, nem acolhe os refugiados, nem interfere mediando a paz nos países de origem. Isto tudo nos revela que, apesar do grande avanço tecnológico e progresso científico, a humanidade está regredindo nas relações interpessoais, nos valores, costumes e atitudes. O clima de insegurança e ameaça é de tal magnitude que o estrangeiro passa a ser estigmatizado e discriminado como transgressor, embora o seu único intuito momentâneo é o da sobrevivência pacífica. Para os cristãos sempre é bom lembrar que o próprio Cristo veio ao mundo como um forasteiro nascido numa manjedoura, depois de ter sido rejeitado em muitas estalagens da época. Essa situação é polêmica, não só para os gestores como para a população, porque é desafiadora, levanta questões, incomoda, gera desconforto, desperta preconceitos e julgamentos precipitados. Prevenidos como estamos, acostumamos a ver o estranho como um “outro ameaçador” e o nosso instinto básico é o afastamento, a repulsa e

a impessoalidade. Esse espírito de intolerância é um dos fatores que alimenta a violência que permeia o cotidiano atual. Para entender melhor o drama dos refugiados de guerra é só imaginar se fôssemos submetidos às mesmas condições, às mesmas noites sem esperança. Como gostaríamos que “os outros” nos recebessem? Com relação a mudanças de costumes através dos tempos, consta que na Grécia por ocasião do Natal era costume reservar um espaço à mesa para o forasteiro ou o passante que porventura aparecesse, normalmente trazido por um amigo ou parente, o convidado seria recebido como membro da família e tratado com muita cordialidade. Aqui no Brasil, onde a imigração estrangeira exerceu papel relevante no desenvolvimento do país, em especial na Economia e nos valores culturais do nosso povo também, havia o costume na zona rural de abrigar os transeuntes. Muitas construções rurais antigas de séculos passados dispunham de um cômodo ou anexo, para pouso de forasteiros, estrangeiros, viajantes. Apesar das mudanças comportamentais, esperamos que essa situação seja equacionada com compaixão, respeito aos direitos humanos e solidariedade, sentimentos que até o fechamento deste texto ainda não prevaleceram.

Raul de Oliveira Andrade Filho Cadeira 44 Patrona Cecília Meirelles

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Uma Noite no Hotel Para o Luciano, Marília, Gizela e Lizandro, meus amores.

Parece nome de filme, mas não é; foram momentos inesquecíveis em minha vida de nova septuagenária, cercada dos amigos mais queridos, numa surpresa realmente ímpar e genuína. Já que meus leitores me conhecem de tão longa data, tenho que compartilhar esses momentos de pura alegria com todos vocês. Minha filha Marília mora nos Estados Unidos. De tão longe e há muito tempo engendrou uma festa-surpresa para mim, dando mais de 250 telefonemas para as pessoas que me são caras e mais chegadas. Lembrou-se de minhas amigas, colegas da Academia de Letras, parentes, ajudantes... Ela e minha outra filha daqui, a Gizela, foram arranjando tudo. Marília primeiro e muito antes falou com meu grande amigo, o maestro Agenor que se encarregou da música, pois sabe do quanto gosto das sete notinhas mágicas e o que elas representam em minha vida. Meu aniversário é dia 3 de fevereiro quase sempre chuvoso desde que eu me lembro por gente. Mas, nesse dia, o maestro não podia vir; Marília então telefonou para todo mundo desmarcando e passando tudo para o dia seguinte, uma quarta-feira. Nesse dia da semana fico com minha netinha na Prata para que minha filha trabalhe. Pois não é ARCA | 40

que arranjaram uma tal de dedetização para eu não ir e nem passar em frente à casa mal cheirosa! Há dias as duas iam dormir mais de 3h da manhã fazendo coisas! Pensando em tudo! Inventaram também um horário na dentista, na dermatologista... enfim, eu tinha que ficar na fazenda, (coisa que não aconteceu, pois tive que ir ao banco na Prata). E elas no hotel morrendo de medo que eu as visse e desconfiasse de algo. Tudo isso porque estavam numa azáfama danada fazendo patês, carnes, comprando pães, alugando toalhas, talheres, flores, fazendo arranjos mil no Hotel Prata gentilmente cedido pelo Dr. Demétrius e sua fiel gerente Marta. Os convidados deveriam chegar às 7 horas da noite, pois eu apareceria logo depois. Mas o pior-melhor ainda estaria por vir: minha filha tem uma cunhada em São João; então inventou também que ela já tinha nos convidado para uma audição musical de um sobrinho que tocaria na Prata junto a três professores; violino, acho. Xereta como sempre fui, olhei no jornal, fiquei atenta às noticias e nada! E me alertaram que o evento era pra lá de chique! Eu pensava: - Nada é tão chique assim que eu tenha que usar meu traje de festa preto, de paetês! Mas elas falaram tanto,


mas tanto na minha cabeça que resolvi obedecerlhes, mais para me livrar da falação! Resumindo: cheguei ao Hotel, entrando pelos corredores para não molhar meu cabelo e entro no salão: Todos lá! Que audição que nada! A festa era para mim! Vocês não imaginam a minha cara! Via um; outro; mais outro; gente de perto, de longe... e um conjunto de cordas tocando Vivaldi; depois mais músicas lindas... O maestro me dizendo do quanto ele sabia de meu gosto pela boa música, do quanto eu o incentivo, ajudo e apoio; e eu andando sem parar vendo mais uns e outros! Elizeu, Célia, Marli, Edgard, Loide, Vedionil, Sílvias, Lucelena, Pádua, Nice, Bielas, Clineu, Zezé, Marina.... Um buffet de frios e as pessoas se servindo tomando nossa excelente água Platina, também gentilmente cedida pelo amigo Walter. E vinho gostoso! No meio disso tudo quem eu vejo chegar? Luciano, meu outro filho dos States com minha nora e três netos! Surpresa maior do que a minha, pois ninguém sabia que eles viriam. Foi demais! Não teve no salão quem não se emocionasse! Depois ainda veio o Zé Alexandre cantar minhas mú-

sicas prediletas, um filme de minha vida no telão, feito pelo Fernando Dezena, o bolo e uma dançadinha com meus filhos; um já foi professor de dança de salão, mas o outro! Esse é mais que sério! Pois bateu no ombro do irmão e disse que iria dançar comigo também! Quase desmontei! Joguei meus sapatos longe e também emocionamos os presentes. À saída todos receberam um CD com minhas músicas mais significativas! Sabem que eu até me achei importante! E querida! Enfim, meus filhos maravilhosos não se esqueceram de nada para fazerem essa mãe que nunca foi super e sim mini-mãe, feliz! Muito feliz! Foi o acontecimento mais emocionante de minha vida! Surpresa, surpresa, surpresas!

Clineida Andrade Junqueira Jacomini Cadeira 43 Patrono Rubem Braga

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O que é o Amigo

Desnecessário dizer que recebi uma quan-

tidade de porquês femininos e resolvi decliná-los mais ou menos um a um para satisfazer à curiosidade da Leninha.

Iniciei fazendo-a crer ser amigo aquele

que por mais que lhe “pegue no pé” nunca ofende, ainda mais a mim que qualquer um pretenso a me ofender tem de caprichar muito.

A falta de amizade é como a falta da água

que dá o toque de nobreza para a flor, pois sem ela lhe acaba o viço e se desfaz como a maquiagem na face da mulher que chora.

Amigo é aquele bom sujeito igual a político

falso, que dá a palavra, mas por ser dele, tira-a quando bem entende nem assim nos impingindo sentimento de havermos sido molestados.

Plagiando meu primo-carona (viúvo de

minha prima-irmã Elisiete) Aguinaldo Loyo Be-

Hoje tem jogo do São Paulo e minha amiga Leninha cobrou-me companhia para assistir a ele, havendo-me negado visto que os amigos já haviam decidido assistir ao jogo, como de hábito, devidamente aboletados no salão de TV do Barzinho e saboreando suculentos nacos de frango assado regados à indefectível cervejinha bem gelada. ARCA | 42

chelli, fi-la ver que a amizade é transcendental, tanto que existe o “maior e melhor amigo: Jesus Cristo. Afinal, quem é capaz de fazer mais de dois mil anos e continuar amigo?” Amigo é

assim!

Consegui fazê-la meditar que para viver e

sobreviver basta termos um amigo, para o qual até nosso silêncio vira recado e mais, se não consegui-


mos ganhar um amigo, é infelicidade; mas, perder

quando adormece e não “enche o saco” dando

um amigo é desgraça.

conselhos; simplesmente, lhe pergunta onde dói,

você mostra onde e a dor já não dói tanto.

Ela não sabia que quando dois amigos se

abraçam, cada um fica com dois corações.

Descortinei-lhe que a maior invenção do

com o amigo é desfrutar de insignificâncias, frivo-

homem foi a amizade, que não tem jeito de ser

lidades, delícias da mediocridade, ficando, assim,

aproveitada por um só, cada um aproveita uma

mais fácil readquirir o

beiradinha.

ânimo ou curtir o desânimo. É o grande e bom

malandro para nos arranjar desculpas.

Li, para ela, o comentário daquele meu

Não me esqueci de dizer-lhe que estar

primo-carona, colhida de seu livreto “Amigo, pelo

Afirmei-lhe que minha maior coleção não

menos um amigo!” a mim remetido com dedica-

é de livros, de trofeus, de presentes, de quadros,

tória em 18 de março do fluente ano: “Marido e

de lembrancinhas, mas de instantes com amigos.

mulher é enlace de amor, mas de superior im-

portância é a amizade gratuita. Interdependência

lhe que durante a conversa não usei qualificativos

sem dependência. Firma-se a existência através

para engordar a explicação. Não disse “grande”

do amigo. Chama-se “alteridade”. Há incomen-

amigo, “verdadeiro” amigo, “bom” amigo, amigo

surável prazer nos encontros. Cultivam-se valores

“certo”, amigo “camarada”, amigo “companhei-

espirituais. E há felicidade quando se é solidário.

ro”, porque amigo não necessita de adjetivos.

Às vezes, basta ser bom ouvinte, incorporado na

Enfim, dentre outros “porquês”, entreguei-

É amigo, e só!

angústia ou alegria do outro.”.

Adiantei-lhe que amigo é aquele que pres-

ta atenção no que você não diz e que compartilha tanto do inteiro quanto auxilia você juntar os cacos. É aquele que pede silêncio se você está doente, ajeita-lhe o cobertor, põe a mão em sua testa

Wildes Antônio Bruscato Cadeira 02 Patrono Ruy Barbosa

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Buenos Aires, Voltei!

Lívia sentia-se plena. Rodopiava pela Plaza de Mayo como se resgatasse acontecimentos indispensáveis de serem recordados. – Faz tanto tempo... – Disse para si, enquanto inquietos olhos buscavam, em meio a tantas pessoas, uma em especial. Entregava-se a nostálgico passado, na mais leve sensação de prazer. Como quem desperta para a realidade, recompôs-se, ajeitando os cabelos com as mãos. Atravessou a praça a observar a Casa Rosada, palácio presidencial. Em nada o prédio havia sofrido modificação, senão, por uma pichação na grade, ela observou. Chegara a Buenos Aires para documentar a gastronomia da capital argentina, tão rica e saborosa, no entanto, o veterano e disponível coraARCA | 44

ção parecia não se importar com este fato. Pulsava pelos dias pretéritos, em que vivera unicamente para o romântico aroma portenho. - Aquiete-se, coração! – ela balbuciou, espremendo os lábios. Com uma das mãos sobre o peito arriscou segurar a impulsividade. -Primeiro, o Cabaña Las Lilas em el corazón de Puerto Madero, restaurante que combina a tradição das carnes argentinas com a hospitalidade brasileira, pela associação de um dos sócios, brasileiro. Degustarei e documentarei sobre o chorizo bombón e seus acompanhamentos. Depois, irei a San Telmo, degustar o sorvete Dulce de Leche, no Freddo. Lívia tentava organizar-se, sem espaço para ilusões ou sonhos descabidos, mas parecia em vão, depois de alguns segundos, perdia-se em abstrações. − Eu sei – dizia ela ao coração - os cafés notables esperam-me. Paciência, antes, a obrigação! Era julho, ela vestia sobretudo preto, de lã, acompanhado por um scarf em tom carmim. Nos lábios, gloss, para umedecê-los contra o vento. Os cabelos castanhos, longos e ondulados, moviam-se a cada passo que ela dava em direção ao Café Tortoni. Definitivamente, Lívia sucumbia aos desejos da alma. De longe, avistou a fachada


do edifício, de ferro e vidro, com suas varandas em estilo francês. Convencia-se de que um bom café e a companhia das lembranças de “Borges”, que ali, no Tortoni, muitas vezes se sentara a rascunhar seus escritos, lhe fariam bem naquele final de tarde gélido. “...Eu caminho por Buenos Aires e me detenho, talvez, já, mecanicamente, para olhar o arco de um saguão e uma porta envidraçada; de Borges tenho notícias pelo correio e vejo seu nome numa lista de professores ou num dicionário biográfico...”. Lívia recordava estas palavras por “Borges”, em “Borges e Eu”, sentindo-se igual ao escritor. A jornalista se resumia ao documentário, mas a mulher que a dominava naquele instante se fazia pura poesia, observada por Carlos Gardel, a convidá-la para o subsolo onde concertos de tango e jazz aconteciam. − Está bem! Eu admito! Carlos Gardel é invenção minha – Justificava tamanha ousadia de pensamento. − Eu só quero sentir-me importante, mais uma vez... Mas Carlos Gardel já esteve neste local, há menção ao seu nome numa mesa próxima à janela onde estou sentada - Retinia sua voz, quase em sussurro. Não havia mesa vazia àquela hora, tampouco barulho que a incomodasse, apesar da saudável conversa entre as pessoas. Muitos se detinham a ler, reclusos a um mundo literário exclusivo. Lívia viajava em pensamento, numa mesa para dois. Discreta, ela procurou pelo olhar de Juan, mas era impossível vê-lo, como era impossível reconstituir a história deles, finalizada quando ela embarcara de volta ao Brasil, em sua última visita a Buenos Aires. Que pena! Pen-

sou, com certo pouco caso. O relógio, na parede que sustentava inúmeros quadros e gravuras, apontava mil motivos para ela retornar ao hotel. A manhã seguinte seria de árduo trabalho, acumulado aos que deixara de fazer nesse dia. Pediu a conta, e enquanto aguardava a volta do garçon, prometia-se em pensamento dançar um tango com Carlos Gardel que, naquela tarde lhe piscara, num convite irrecusável e confidente. Esse aforismo lhe surgia enquanto apreciava o ambienteacolhedor e repleto de pessoas elegantes. Quanta criatividade! Ria de si mesma e para o garçon, agradecendo a rapidez do serviço. Pagou a conta e saiu. Assim era sua vida; improvisava o que a realidade lhe dificultava oferecer. Borges sabia porque afirmara, um dia, como ela o copiava agora: “...Chego a meu centro, à minha álgebra, ao meu espelho. Em breve, saberei quem sou...”. A brisa da noite beijava-lhe o rosto sugerindo abraçá-la, qual ela assim o desejava ser, por Juan, novamente... Suspirou, entregue às investidas.

Lucelena Maia Cadeira 13 Patrono Humberto de Campos

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Histórias do Nicolino Neno, o Surdo

Cidade do Óleo, três mil habitantes, quatrocentos quilômetros de São João da Boa Vista. Seis horas da tarde e todos se preparam para mais uma noite de merecido descanso. O Giusepe tratava dos porcos no fundo do quintal. Margarida gritava da janela: - Giusepe, vai me ocupá questa note? - Nô. - Então só vô lavá os pé! Embora quase todas as pessoas andassem descalças, havia, naquele recanto esquecido do mundo, uma sapataria onde se fabricavam, em sua totalidade, rústicas botinas. Todas as tardes, ali se reunia a elite da cidade, o Raimundo pedreiro, o Luís leiteiro, o Isaú padeiro, o Rubens da farmácia, o Ranulfo e o Theófilo alfaiates, o Titi e Nenem sapateiros e o Neno Siciliano, agricultor. Os mais variados assuntos eram trazidos à baila naquele exíguo recinto, verbi gratia, Política, Economia, Lavoura, Futebol e alguns comentários corriqueiros. - O governo, além de incompetente, está ARCA | 46

pleno de corrupção, abandono da educação, da saúde, da infraestrutura. O que você diz, Neno? - Não “iscuito”. - Finalmente o Brasil ganhou um jogo da eliminatória, e atuou bem. Você gostou, Neno? - Não “iscuito”. - A Lurdinha do Nino está de namorico com o Rodolfo do correio. O que você acha disso, Neno? - Não “iscuito”. - O Banco do Brasil vai abrir crédito para a lavoura.


O Neno arregala os olhos e pergunta: Quando começa? Nisto, um jovem de vinte e poucos anos, poliglota, doutor em Direito pelo Largo São Francisco, o Dr.Gê, intervém na conversa e profere significativo discurso. - Distintos conterrâneos, estamos perdendo tempo em discutir assuntos nada pertinentes aos interesses desta cidade. Pouco nos importa o que pensou Sócrates, Aristóteles, Platão, Darwin, e outros gênios da História se deixarmos nossos problemas do dia a dia sem solução. Aos sábados, domingos e feriados, nossa cidade é tomada literalmente por marginais que a transformam em palco para o sexo, a droga e a violência. As famílias decentes estão proibidas de ali transitarem com seus filhos. Sodoma e Gomorra sentir-se-iam puras, comparadas com esta vergonha. Inútil apelarmos para o governo Federal, totalmente ausente; para o Estadual, desinteressado; para o Municipal, despreparado. O problema é nosso, nós devemos resolvê-lo. Pensei! Por que não somarmos esforços e viabilizarmos soluções para tão hediondo problema? Alguém interveio e disse: - É caso de polícia...

- Não, respondeu Dr. Gê, é caso de Política! Se empresas, Educadores, o povo honesto desta urbe se cotizarem e construírem nos quatro cantos da cidade grêmios juvenis para o exercício de atividades múltiplas, tais como: esporte (futebol de salão, basquete, vôlei, natação, pingue pongue, xadrez e outros mais), aulas de línguas, matemática, culinária, música, marcenaria e outras mais. Os professores trabalhariam gratuitamente, porque aposentados, e seriam valorizados pela sociedade. Ademais, seus cérebros em permanente atividade mens sana in corpore sano (mente sã em corpo são), a função faz o órgão, a disfunção o atrofia. Oferecer aos jovens aquilo que a vida lhes negou! Nada de Polícia! (Apenas amor!). Aristóteles e outros filósofos defendiam a ideia segundo a qual a virtude se situa no meio termo. De nada adiantam as grandes riquezas; dividamo-las com os mais carentes. In medio virtus. (A virtude é o meio termo). Nesse instante, entra na sapataria uma jovem de 27 anos, esbelta, olhos verdes, sorriso lindo, e diz: - Vamos, amor, o jantar está pronto, e você sempre fazendo discurso. É a bela noiva do Dr. Gê, a doce Gertrudes.

Vedionil do Império Cadeira 41 Patrono: Lima Barreto

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E o Petróleo Jorrou A José Rezende Lopes, que viveu estes fatos e os narrou a mim.

Nas décadas de 1940/50, havia no Brasil duas correntes opostas: uma que dizia ter petróleo em nosso país, outra que afirmava a inexistência dessa riqueza em solo brasileiro. Esta afirmação e a narrativa dos acontecimentos, após terem passados mais de 60 anos, correm o risco de parecerem apenas letras mortas, mas o embate, os confrontos foram sérios; as ideologias vivenciadas com paixão e a neutralidade algo difícil. Além do mais, estava em jogo, não só a tomada de posição frente à política nacional, mas também à internacional. Os que defendiam a existência de petróleo eram considerados “alinhados” à União Soviética, ou seja, comunistas, com toda a peja, todo ranço, todos os “perigos” que esta palavra trazia consigo. Os defensores da inexistência do petróleo liam na cartilha dos Estados Unidos. É fácil imaginar as contendas que aconteciam, havendo até a ocorrência de violência e, muitas vezes, prisões aos que defendiam a tese nacionalista. Inúmeros, incontáveis brasileiros estavam entre os defensores da presença do petróleo no Brasil, entre eles Monteiro Lobato, assim como o ARCA | 48

Partido Trabalhista Brasileiro -PTB, liderado por Getúlio Vargas e o Partido Comunista Brasileiro – PCB. São João da Boa Vista, a essa época, era uma cidade muito politizada e a população tomou, pois, partido: a favor ou contra ao “O Petróleo é Nosso”. A favor estavam os filiados ou simpatizantes do PTB e PCB para quem “entregar o petróleo significava entregar a nação”, frase, segundo José Lopes, muito repetida pelo general reformado e deputado federal Leônidas Cardoso. Mas, o que interessa nesta narrativa é que surgiu, aqui, em São João da Boa Vista, por parte dos militantes do PTB e PCB, a ideia de se construir réplica de uma Torre de Petróleo, tornando visível, assim, o que defendiam. Seria, pois, um símbolo presente, dia e noite, a dizer, ao sanjoanense: “O Petróleo é Nosso”, o que, de certa maneira, não deixava de ser uma afronta aos oponentes. Firmes na decisão e deveres que assumiam, iniciaram a campanha para a construção desse símbolo. Saíram, assim, à luta, com listas para angariar donativos, sendo que o “povo cola-


borou de maneira risonha”. Em pouco tempo a campanha conseguiu o necessário para comprar o ferro e erguer a Torre de Petróleo. Enquanto isso, os Vereadores ligados ao PTB conseguiam junto ao Prefeito a autorização para colocá-la na Praça Joaquim José, ao lado da fonte, lugar nobre e estratégico, para a educação e conscientização, não só dos alunos do Grupo Escolar, à sua frente, mas também de toda população. A Torre, símbolo da existência de petróleo no Brasil, foi projetada e executada com vergalhões de ferro pelo funileiro, vereador do PTB e presidente local da Liga de Emancipação Nacional, Hélio Lombardi Aguiar, em sua oficina, situada na Rua Saldanha Marinho.

A população sanjoanense compareceu em massa à Praça Joaquim José, na noite de 22 de fevereiro de 1952, quando a Torre foi inaugurada. Estavam presentes muitas personalidades não só de São João da Boa Vista, como de São Paulo e Rio de Janeiro. Foi um evento com inúmeras mensagens patrióticas porque acreditavam que esta riqueza significava, para o povo brasileiro, a sua redenção econômica. Esta inauguração chegou a ser comunicada ao DOPS. Segundo ainda José Lopes, possuía a Torre dez metros de altura, tendo uma escada lateral que levava a um patamar colocado a um metro e meio de altura, onde os oradores falavam ao povo. Mais ao alto, a uns cinco metros do chão, havia espaço para serem colocadas as placas, de ARCA | 49


folhas de flandres, onde eram escritas mensagens sobre o petróleo brasileiro e, posteriormente, sobre as conquistas da Petrobrás. A Torre tinha uma iluminação privilegiada e até a noite dava-se para ler as mensagens ali colocadas e trocadas periodicamente. Já, no alto, havia uma placa fixa com os dizeres: “O PETRÓLEO É NOSSO” e depois substituída com o nome da PETROBRÁS. Neste local, oradores passaram a se apresentar e mensagens começaram a ser colocadas: uma informava a compra do primeiro navio petroleiro pela Petrobrás para trazer óleo da Bahia para Santos/SP; outra anunciava a quantidade de barris de petróleo que a Petrobrás vinha extraindo; uma outra dizia sobre a lei 2004/53 que criou a estatal; outra informava que a “Petrobrás ia muito bem, sim senhor”! Dessa maneira, os militantes do PTB e do PCB iam informando os sanjoanenses, os quais, via de regra, tomavam partido a favor ou contra. Em 10 de novembro de 1959, sete anos após sua inauguração, o vice-prefeito de nossa cidade Anor Araújo de Aguiar, deu ordem para que a demolisse. Estava ele no exercício de prefeito, porque o alcaide Miguel Jorge Nicolau havia se licenciado para assumir o cargo de Deputado Estadual, na Assembleia Legislativa, de São Paulo. José Lopes, ao saber da notícia e vendo toda aquela movimentação na Praça, com a finalidade de tentar anular a ordem, dirige-se sozinho até à Prefeitura, pois não havia tempo para convocar os amigos. No entanto, o Prefeito estava em São Paulo e ele foi recebido pelo Chefe de Gabinete que, dando atenção ao pedinte, ordenou que a equipe da Prefeitura suspendesse a demolição, enquanto ARCA | 50

se fazia ligação telefônica para São Paulo a fim de que José Lopes apresentasse ao Prefeito os seus argumentos. A ligação foi “completada”, os argumentos apresentados, mas o pedido foi negado, e a equipe da Prefeitura, que continuava na Praça Joaquim José, deu sequência ao trabalho, que durou cerca de três horas. A Torre desmontada foi levada para o depósito da Prefeitura. Nesse momento, existia uma verdadeira multidão acompanhando o ato, algumas pessoas pasmadas, atônitas, revoltadas, outras comemorando com fogos de artifício e até com banda de música. A polícia, que foi chamada a tudo fiscalizava para evitar que houvesse conflitos, o que não aconteceu. Nesse momento, os adeptos do “O Petróleo é Nosso” sentiram-se derrotados. No entanto, “O Petróleo jorrou!!!”

Maria Célia de Campos Marcondes Cadeira nº 11 Patrono Machado de Assis


Antes de Você Me Deixar

Deixe que eu enxugue com o lenço as suas e as minhas lágrimas. Deixe que eu me lembre da emoção que senti quando nos conhecemos. Deixe assim que eu me recorde, do meu jeito, tudo o que passamos juntos. Deixe o tempo passar mais um pouco... (Quem sabe você até acabe por esquecer de me deixar?). E se, depois de tudo isto, você ainda quiser me deixar, deixe-me, então, fazer-lhe um último pedido: - Me deixe ir junto?

Wiliam Lázaro Rodrigues de Oliveira Cadeira 35 Patrono Casimiro de Abreu

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Um Luar no Ganges Alahabadh, a 350 km ao sul de Delhi, sede do Kumbamela em 2013, cidade com dois milhões de habitantes. Era lá que estava, havia seis dias, nosso grupo de onze praticantes de ioga vendo de perto muito do que lêramos sobre tal evento. Os números na Índia são exorbitantes e soam, aos ouvidos de quem nunca a visitou, exagerados, quando não, fantasiosos. Duzentos milhões de pessoas visitaram o festival nos quarenta dias da duração do evento. Crentes nativos e estrangeiros, familiares de iogues que se retiraram do mundo para as montanhas ou florestas e aproveitavam o festival para revê-los, membros das muitas escolas e vertentes do Ioga milenar, participantes das centenas de cerimônias, cientistas, jornalistas e fotógrafos de todas as nacionalidades, turistas de todas as regiões do planeta como nós, brasileiros. Um encontro espetacular, inimaginável e surpreendente, belo, multicolorido e, pasmem, pacífico e organizadíssimo. Kumbamela é um festival trianual que acontece em quatro locais predeterminados, sempre no encontro entre o Ganges e outro rio considerado também sagrado pelos indianos. Os seguidores do hinduísmo acreditam que, ao banharem-se no rio sagrado, são libertados de suas dívidas cármicas, daí o imenso prestígio do Kumbamela. Naquele ano foi em Alahabadh, onde o ARCA | 52

Yamuna, rio que passa em frente ao Taj Mahal, em Agra, 200km ao norte, encontra o Ganges em sua descida dos Himalaias. Em 2016, acontecerá em outra cidade mais ao sul. O monumental acampamento é montado sobre o leito do Ganges então a descoberto pela estação da seca. Nosso acampamento ficava às margens do Yamuna, no lado oposto ao acampamento e abrigava seiscentos participantes de várias nacionalidades. A língua possível era o inglês. Para chegar ao Kumba precisávamos de atravessar o rio de barco. Partíamos pela manhã e voltávamos antes de a noite descer. Lá fazíamos as refeições, ouvíamos gurus que falavam inglês, conversávamos com pessoas simpáticas a nós, fotografávamos e andávamos quilômetros pelo acampamento. Assistimos a cerimônias religiosas cheias de devoções com cantos, palmas, oferendas de flores, preces, incensos e palestras, muitas delas com tradução simultânea em inglês por repórteres do mundo todo. O clima geral sempre era de alegria, fraternidade, exortações à paz mundial e à gratidão pela vida. Inesquecíveis aqueles momentos. Simplesmente observar o movimento das pessoas, suas roupas multicoloridas, os sáris das mulheres, os lenços, os adornos dos braços, pernas, mãos, a maquiagem caprichada, os turbantes dos sikhis já era uma festa para os olhos. Chama-


vam também nossa atenção as vestes estendidas na areia para secarem após o banho no rio, já que mulheres banhavam-se vestidas, apenas os homens trajavam calção de banho. Metros e metros de sáris um ao lado do outro estendidos enquanto as donas, cercadas pelas parentes aguardavam protegidas dos olhares alheios que a roupa secasse, o que acontecia com incrível rapidez, o sol quente e a brisa com os treze graus de umidade relativa do ar faziam o serviço em minutos. Último dia no Kumbamela, saímos de lá mais tarde que o costume. O sol se escondera atrás da cidade, o céu tornara-se cor de opala, nosso grupo todo num mesmo barco, o barulho dos remos na água. Estávamos comovidos, cada

um envolvido nos próprios pensamentos. De repente, uma lua gigante aponta à nossa frente, amarela, soberana no céu sem nuvens e ainda desacompanhada das estrelas, no meio do Ganges. Ninguém conteve a alegria e todos tiveram a mesma ideia, batemos palmas e gritamos como crianças que houvessem ganho um presente dos céus. E ganhamos mesmo.

Sônia Maria Silva Quintaneiro Cadeira 08 Patrono José Lins do Rego

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Poema de Amor à Minha Neta Janaína (À Cecília Meirelles)

Esta minha meNINA Tão pequeNINA Quer ser bailarina! Já conhece dó e ré E apesar da pouca idade Já sabe ficar na ponta do pé! Já conhece Mi e Fá As tias queridas Que a embalam de lá pra cá! Já conhece o sol Do belo Maranhão E o guarda em seu coração Já conhece lá e si E ao ver a mãe Logo sorri.

Gira, gira, gira, com os bracinhos no ar querendo as estrelas alcançar. Só não pode esquecer Que o nome JANAÍNA Lembra as estrelas do mar Filha das águas Rainha do mar não pode deixar de sonhar Embalada pelas ondas põe no cabelo uma estrela e um véu e diz que caiu do céu Esta meNINA Já não tão pequeNINA Ainda pensa em ser bailarina Mas depois esquece todas as danças Deita na rede e dorme como as outras crianças!

Maria José Gargantini Moreira Cadeira 39 Patrona Clarice Lispector

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Ela Partiu

lembrando a querida esposa Edith Lara Além

No mar de incertezas de nossa vida terre-

sempre eu a podia acompanhar. Esperava-a im-

na, a Lara e eu, sempre unidos, procuramos nave-

paciente e saudoso, mas sabia que ela voltava.

gar como as demais famílias modestas. Com mui-

ta alegria e risos, nosso barco iniciou a viagem em

de um mês em Campinas. Morávamos em Indaia-

1946 apenas com dois tripulantes, ela e eu. Pouco

tuba, cidade próxima. Eu a visitava todos os dias.

tempo depois, acolhemos o primeiro passageiro.

A última vez que conversei com ela foi por telefo-

Mais tarde o segundo, depois o terceiro e o quar-

ne, atendendo a uma chamada. Mal pude ouvir

to e o último. Assim completo, o barco continuou

sua voz enfraquecida pela moléstia agravada pela

singrando, ora em águas serenas e claras, ora em

idade sussurrar-me aos ouvidos palavras apaixo-

revoltas e turvas, resistindo à fúria das procelas

nadas, ditas com dificuldade e tristeza:

para não soçobrar. Dois dos passageiros, coitados!

-- Eu te amo! Eu te amo! Eu te amo!

ainda jovens e sempre chorados, não suportaram

Talvez a Lara tivesse sentido o seu tempo

as intempéries e desembarcaram antes da tra-

de vida prestes a esvair-se e a chegada do momen-

vessia.

to da última separação. Com a declaração, ela de-

A Lara adoeceu e ficou hospitalizada mais

Muitas vezes, a Lara e eu nos separamos

monstrou mais uma vez todo o seu afeto e agra-

por alguns dias, quando ela ia visitar parentes,

decimento pela nossa longa viagem de sessenta e

ou consultar médicos, em outras cidades. Nem

oito anos com muito amor e tolerância.

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Serena e bela como no dia em que a co-

no oratório da Lara, com o crucifixo e os santos de

nheci em São João del-Rei, a Lara – a Colegial da

sua devoção, tenho orado e pedido a Deus paz à

Rua Paulo Freitas – em meio a tristezas e choros,

sua alma e, também, perdão pelos meus pecados

desceu do barco e sozinha partiu noutro em nova

por algum mal que talvez lhe possa ter causado

viagem sem destino certo. Esperei. Esperei o seu

e pelo bem que não lhe pude fazer, ou deixei de

regresso. Daquela viagem a Lara não voltou, nem

fazer.

voltará.

-- Adeus, Lara! Adeus!

A oração persistente e o passar dos anos

Muita saudade.

consolam-nos e curam as fundas lesões que o vi-

Nege

ver nos vai abrindo no coração. Diante do peque-

Indaiatuba, 10 de julho de 2015. ARCA | 57


LuzGrafia ARCA | 58


Serra o Papo do Vovô Esta vista é de ninguém, no centro do burburinho. Experimente subindo elevadores, onde as cortinas de tempos modernos se desfaçam. Lá em cima, venta muito e a vertigem engole a paisagem. O que fizemos deste paraíso, entre antenas e faróis de alerta? Saudades de quando era pirralho, a atravessar linhas vermelhas da periferia, em busca de aventuras e respostas naturais. Por que ainda lutamos por ela? Talvez este talismã verde, com tonalidades azuis, rege nossa vida sem darmos conta, nem recado. Suas cicatrizes abrigam um restinho de esperança!

Antonio Carlos Rodrigues Lorette Cadeira 32 Patrona Orides Fontela

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Aqui Aconteço... ARCA 5ª Edição Aconteceu na Academia de Letras, no dia 20 de junho, durante a 257ª Reunião Ordinária da Academia de Letras, o lançamento da 5ª edição da ARCA, com a presença do Diretor do GLOC – Espaço Global de Cultura, Sr. Gil Sibin; do Curador da X Semana Fernando Furlaneto, Sr. Eduardo Menezes; da Presidente da Amite, Sra. Fafá Noronha; de amigos da Arcádia, acadêmicos e parentes de Walther Castelli Jr, sanjoanense estimado e homenageado nesta edição pelos acadêmicos Silvia Ferrante e Lauro Borges.

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Chá Literário Casa-Grande & Senzala

O tradicional Chá das Cinco aconteceu no dia 22 de agosto, às 17h, na Academia de Letras e, desta vez, o tema proposto foi “Casa-Grande & Senzala” de Gilberto Freyre, apresentado pela confreira Maria Ignêz D'Ávila Ribeiro. A Casa de Letras recebeu amigos, pessoas envolvidas com o tema e acadêmicos, além de familiares da palestrante.

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Academia de Letras recebe PrĂŞmio Especial do Departamento de Cultura e Turismo

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Em julho deste ano de 2015, a Academia de Letras foi condecorada com o Prêmio Especial do Departamento de Cultura e Turismo, pelos feitos na área cultural de nossa cidade em especial pelo Projeto Redação na Escola, projeto esse que há anos envolve os alunos de nossa cidade. Na impossibilidade do comparecimento da Presidente Lucelena Maia ao evento, quem a representou foi a 1ª Secretária da Academia, a Acadêmica Silvia Ferrante, que, após receber o prêmio das mãos do nosso Diretor de Cultura e Turismo Beto Simões, proferiu algumas palavras em agradecimento a tão honrosa homenagem. No Chá Literário do mês de agosto, Silvia Ferrante passou o troféu às mãos da Presidente Lucelena Maia e da Acadêmica Neusa Menezes, responsáveis pelo Projeto Redação na Escola.

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Premiação do XXIII Concurso Literário de Poesia e Prosa

No dia 26 de setembro, a Casa de Letras teve a honra de premiar os classificados do XXIII Concurso Literário de Poesia e Prosa, com antologia dos trabalhos premiados e com certificado. Foi patrono deste concurso o acadêmico Pe. José Benedito de Almeida David e a coordenação do concurso foi da acadêmica Carmen Lia Batista Botelho Romano. O grupo teatral Cena IV Shakespeare Cia. abrilhantou o evento com os alunos do curso de formação profissional apresentando dentro do “Recital Poético” cenas das peças: Romeu e Julieta, Sonho de uma Noite de Verão e Hamlet.

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Aulas Magnas

“Revisitando a História do Brasil” O Professor e Acadêmico João Baptista Scannapieco ministrou aulas para amigos e estudantes universitários nos dias 21, 22 e 23 de outubro. Durante duas horas diárias, das 17h às 19h, ele revisitou a História do Brasil oferecendo um passeio por inusitadas curiosidades e ricos detalhes do período Colonial e Império, prendendo a atenção de seus ouvintes e acalorando neles o desejo de que as aulas não chegassem ao fim. Quarenta e duas pessoas, entre acadêmicos, universitários e amigos do professor estiveram presentes. Todos receberam certificado, além do prazer de compartilhar com o mestre momentos agradabilíssimos.

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7º Concurso Redação na Escola “VIII Séculos de Língua Portuguesa”

A premiação do 7º Concurso Redação na Escola aconteceu na noite de 04 de novembro de 2015, na Sociedade Esportiva Sanjoanense -SES, com a presença dos quarenta e oito alunos premiados, seus pais, familiares, professores, diretores e , ainda, com a presença do Prefeito Vanderlei Borges de Carvalho e esposa Solange, do senhor Marcos Ometto e esposa Adriana (Sequóia Loteamentos - patrocinador oficial). Estiveram presentes também a Diretora de Educação Municipal, senhora Maria Helena Angeline Santana, o Vereador Luis Carlos Domiciano (Bira), a Presidente da AMITE, Fafá Noronha e o Presidente do Projeto Andorinhas, Sr. Orlando Reis. Com a palavra, o Senhor Marcos Ometto afirmou a continuidade de patrocínio a este projeto para os próximos anos. A Presidente Lucelena Maia abordou o tema VIII Séculos de Língua Portuguesa, dizendo da responsabilidade da Arcádia, desde sua fundação, em difundir a língua pátria e, há sete anos com o Concurso Redação na Escola. A coordenadora do concurso, Neusa Menezes, leu um trecho da avaliação do revisor “Nino” Barbin em que ele aborda o bom nível, com textos primorosos, principalmente dos alunos do Ensino Médio. A Academia de Letras agradece ao patrocínio da Sequóia Loteamentos e aos apoiadores E.E. Joaquim José, Sociedade Esportiva Sanjoanense, Leader Alarme e Semprevale Supermercados.. ARCA | 66


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Sopa de Letras

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Poético-Coentro - Cachê pra cozinhar? - Sim. - Mas você é “chef ”, cobre pelos pratos, divulgue seu trabalho. - Sou artista. Ninguém janta no meu estúdio, as pessoas interagem com a minha arte. Elas mastigam minhas divagações. Elas engolem minhas texturas. Elas são deleitadas com meu vezo poético-coentro. - Poético-coentro? - Uma gastronomia que versa sobre o lirismo das sobreposições harmônicas de aromas intensos e delicados. - Você tá de brincadeira? - Não, não brinco com isso. - E quanto seria o seu cachê? - Dez mil reais por seis horas. Vocês pagam os ingredientes e dois assistentes. - Só isso? - Não, tem mais. Também quero um fotógrafo exclusivo. Meu Instagram precisa ser alimentado com imagens assinadas e bem editadas. - E a coisa do TNT? - TNT Flavor Experience. É o ato número quatro da minha performance. - Hmmm... - O TNT Flavor Experience consiste em pequenos estampidos no salão enquanto os comensais apreciam mousse de cajá com risoto de cupuaçu e carne de bode. O cheiro de pólvora dos explosivos será anulado com spray de jatobá.

Qual o propósito das bombinhas fedidas? - Respeito, cara, respeito... minha obra traz embutido um conceito de impactar. As minidinamites transmitem a ideia de explosão de sabores. O jatobá com seu característico odor tem a proposta de incomodar. - O cara vai pagar uma baita grana pra se sentir incomodado? - Sim, também. Aí entra um pouco de sexualidade não convencional na experiência do espectador. O incômodo sentido é pra despertar inclinações sadomasoquistas. - O cara sai de casa pra jantar, vai pagar uma puta bufunfa e vai querer descobrir tendências sadomasoquistas pensando num suculento filé com fritas? - Sim, a riqueza da humana diversidade há sempre que ser contemplada em qualquer manifestação cultural. - E o tofu? Vai ter tofu? - Hã? Tofu? - Nada, esquece, tofu rima com vai tomar... tofu, melhor dizendo, rima com coquetel de umbu...

Lauro Augusto Bittencourt Borges Cadeira 20 Patrono Castro Alves

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Afiando a Língua

Por trás do nome: os dias da semana O falante mais atento já deve ter percebido alguma semelhança entre os termos que designam os dias da semana nas várias línguas europeias. A segunda-feira poderá ser denominada Monday ou Montag, lundi ou lunes, conforme se trate do idioma inglês ou alemão, francês ou espanhol – e em todos os casos estará brindando a mesma Lua, designável como moon, mond, lune ou luna. Essa é uma herança da cultura pagã, que homenageava um deus (ou um planeta) a cada dia da semana, elegendo como primeiro dia aquele dedicado ao Sol. O quadro abaixo ilustra os resquícios da cultura pagã sobre as línguas europeias modernas, tomando como exemplo o espanhol, o francês e o inglês: ARCA | 70

Nos três idiomas, os termos mostram cla-

ramente qual o deus homenageado. Sun-day é o dia do Sol. Martes, o dia de Marte. Ven-dredi, o dia de Vênus, deusa do amor, razão pela qual muitos apaixonados escolhem esse dia da semana para se casar. No quadro acima, chama atenção a falta de correspondência com as divindades pagãs, para


Cronos a regular o tempo

o 1° e o 7° dias em francês e em espanhol (samedi/dimanche) (sábado/domingo). E por que esse desvio na forma de se nomeá-los? Mais uma vez, a resposta vem da religião. Na Espanha e França, países de tradição judaico-cristã, o primeiro e o último dia da semana prestam ambos homenagem ao deus católico: Sabbath, o sábado, é o “dia de descanso” dedicado ao Senhor, entre os hebreus; Dies Domini, o domingo, é o dia do “Senhor” em latim. Assim, nesses países de religião católica, diferentemente da Inglaterra, a denominação cristã consagrou-se sobre a tradição pagã. Resta, por fim, perguntar de onde veio a designação “segunda-feira”, “terça-feira”, presente na língua portuguesa, em contraste com as demais línguas neolatinas. Mais uma vez, trata-se

de influência religiosa. Aqueles nomes de origem pagã foram proscritos pelo Papa Silvestre, no ano de 316, ordenando que fossem substituídos pelas fórmulas “prima feria”, “secunda feria”, designando cada dia de trabalho ou “feira”, numa postura de sacralização do trabalho. Conhecer as palavras é mergulhar na história de um povo.

Beatriz Virgínia C.Castilho Pinto Cadeira 31 Patrono Paulo Setúbal

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Livros

Muito difícil esta tarefa de ranquear livros

decidi que elencaria cinco livros que mais me

proposta pela nossa Academia de Letras

marcaram. Assim, a despeito de serem mais ou

Pensei, portanto, em alguns critérios e es-

menos importantes ou mesmo que mais gostei,

tratégias para compor esta lista, com a certeza de

quis homenagear os livros que tanto me ajuda-

ter deixado tantos livros bons fora dela.

ram e me fisgaram pelo gosto da leitura. Procurei

Como meu objetivo é de estimular a lei-

comtemplar diferentes gêneros como ficção, não

tura, nobre missão desta Arcádia, resolvi eliminar

ficção e biografias e tentei ainda seguir, mais ou

da lista os livros ligados a religiões, os técnicos e

menos, uma ordem cronológica.

os de autoajuda por acreditar ser possível alguns preconceitos, justificados ou não, limitantes.

As aventuras de Tom Sawyer de Mark Twain

Aqui me permitam um curto parêntese. A

que foi o meu primeiro livro

experiência internacional diz que os processos de

de “verdade”. Era criança

alfabetização (ou seja, de aprendizagem do código

e acostumado a ler muitos

de registro das palavras) e de letramento (ou seja,

gibis e histórias em quadri-

de compreensão da leitura) se dão de forma se-

nho que, reconheço, tem o

parada, sendo o domínio do primeiro uma condi-

mérito de iniciar crianças à

ção essencial para o segundo. Estudos realizados

leitura, mas de alguma for-

em vários países mostram que, atendidos alguns

ma também privam o leitor

requisitos básicos nas escolas, alguns fatores ex-

de ser o criador de seus per-

tra escola influem diretamente em ambos os pro-

sonagens e dos cenários das histórias.

cessos e, dentre eles, um dos mais relevantes é

o exemplo dos pais, ou seja, quanto mais leitores

ilustrações, me fez tomar gosto pela leitura na ca-

forem os pais e mais livros estiverem à disposição

rona dos dois jovens que faziam suas fantásticas

dos filhos, melhor serão para estes os processos de

travessuras à beira do rio Mississipi nos EUA. Uma

alfabetização e letramento.

aventura inesquecível, mesmo decorridas décadas

desde que a li pela primeira vez.

Louvável e importante, portanto, a in-

Assim, meu primeiro livro, com poucas

ciativa da Academia de Letras ao estimular a

leitura.

vro denso e baseado em fatos reais. Ele se tornou

Voltando aos meus critérios de escolha,

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O segundo livro da lista é Pappilon, um li-

famoso mundialmente em 1969, no qual contava


uma fuga espetacular, ocor-

dourados dos anos 1950 e

rida em 1935, da Ilha do

1960 e do desmoronamento

Diabo, o sinistro complexo

nos 1990, com a queda das

de presídios que a França

instituições que limitavam

mantinha na Guiana Fran-

o sistema financeiro e assim

cesa. O sucesso foi ainda

abrem caminho para um ca-

maior quando a história do

pitalismo sem limites que

prisioneiro Henri Charrière,

liberam o barbarismo eco-

o Papillon, chegou às telas

nômico. Ajudou-me a ver o

dos cinemas em 1971 em uma superprodução de

mundo com olhar mais crítico, mas não com me-

Hollywood, com Steve McQueen no papel princi-

nos ternura.

pal. Lembro-me de que ficava dominado pelo sono, pausava a leitura e ficava ansioso por reiniciá-la e

Fidel Castro, uma biografia consentida de

saber o que iria acontecer. Definitivamente, foi a

Claudia Furiati, fecha mi-

prova de que eu havia sido fisgado pelo gosto da

nha lista. Um livro que traz

leitura.

a fascinante revolução que me encanta até os dias de

O Ponto de Mutação de Fritjof Capra vem

hoje. Uma biografia bem

na sequência. Um livro

escrita de um revolucioná-

instigante e que mexeu

rio idealista que junto com

muito comigo. Capra faz

seu grupo liberta seu país,

uma releitura das ciên-

Cuba, à época um quintal

cias em nossa cultura

e prostíbulo de luxo dos EUA. Os erros que, a meu

contemporânea que me

ver, se seguiram à revolução inicial não a desme-

fez dar novo significado

recem ou tampouco tiram o glamour dessa histó-

a muitas verdades e para-

ria. Fascinante.

digmas. Fez-me repensar muitas “verdades” que trazia comigo. Um livro que mexe com o leitor.

Eric Hobsbawn é autor do Era dos Extre-

mos, meu livro de número quatro nesta lista. Nele o renomado egípcio lança seu aguçado e crítico olhar sobre o século XX dividindo–o em 3 eras, a das catástrofes das grandes guerras, a dos anos

João Otávio Bastos Junqueira Cadeira 19 Patrono Paulo Freire

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Jornalista Responsável: Francisco de Assis Carvalho Arten Projeto Gráfico: Fernanda Buga Edição: Neusa Menezes Gerência Administrativa e Financeira: Lucelena Maia Distribuição: Academia de Letras de São João da Boa Vista Revisão: Antônio “Nino” Barbin e Vedionil do Império

Academia de Letras Presidente Lucelena Maia 1º Vice Presidente Antonio Carlos Rodrigues Lorette 1ª Secretária Silvia Tereza Ferrante Marcos de Lima 2ª Secretária Carmem Lia Batista Botelho Romano 1º Tesoureiro Lauro Augusto Bittencourt Borges 2ª Tesoureira Vânia Gonçalves Noronha

FOTOS: Silvia Ferrante Páginas: 24, 29, 30, 31, 33, 34, 35, 37, 38, 41, 46, 51,53, 59 Clineida Jacomini Página 43 Davis Carvalho: Páginas: 03, 58, 59, 60, 62, 63, 64,65 Maria Cândida Costa: Página 10 Fafá Noronha Páginas:4, 6, 7, 8, 9 Lauro Borges: Páginas: 66 Antônio Carlos R. Lorette Páginas:12, 15, 19, 22, 26, 27, 56, 69 Internet: 13, 68, 70,71 Lucelena Maia: Páginas: 02, 03 44, 45 Maria José Moreira Página 50 Acervo Neusa Menezes Páginas: 16, 17, 49 Acerva da Família Moreno: Página 26 Acervo Academia de Letras Páginas: 20, 21, 55

Contato Praça Rui Barbosa, 41 - Largo da Estação 13870-269 - São João da Boa Vista-SP academiadeletras@alsjbv.com.br www.alsjbv.com.br

Dezembro de 2015 fotografia de capa Silvia Ferrante

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6ª Edição Revista ARCA