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Palavra do Editor

A Revista ARCA chegou à sua oitava edição. Ao findar de mais uma ano, a Academia de Letras entrega aos sanjoanenses uma edição primorosa com uma mostra do que foi a excelente gestão de Lucelena Maia. Celebramos o final de 2016, ofertando à população sanjoanense mais um exemplar da revista. Nesta edição, na sessão “Letras em Retrato”, numa saborosa entrevista do acadêmico Antônio Carlos Lorette, apresentamos a biografia de uma mulher excepcional: Ana Eugênia Zuany Barroso Pereira Biazzo. Dá destaque a uma vida rica em dedicação, hoje à frente da APAE. Pa r a esta edição, a ARCA traz excelentes textos nas páginas “Arcadianas”. Nesta sessão, os acadêmicos escrevem textos livres em forma de prosa ou poesia. Na sessão “Academia em Revista”, a Presidente Lucelena Maia relata como foi ficar à frente da entidade em duas gestões seguidas. Quantos eventos importantes! Grandes acontecimentos, como o retorno das cinzas da poeta Orides Fontela para São João da Boa Vista, sua cidade natal. Na sessão “São João à Vista”, o acadêmicos e reitor da UniFae, Francisco Arten, conta como foi a visita de D. Pedro II à cidade no século XIX. Um belo resgate histórico de momentos importantes vividos pelos sanjoanenses. Assim, como acontece desde a primeira edição, oportuniza ao sanjoanense conhecer um pouco mais de sua cidade e a este Sodalício. Em “LuzGrafia”, a revista mostra através de belíssimas imagens do nascer e o pôr do sol sanjoanense, textos de acadêmicos do passado.

EDIÇÃO 08 | ANO 04| DEZEMBRO 2016

01 Palavra do Editor 02 Bastidores 04 Letras em Retrato 10 Por onde andei... 12 Crítica Literária 14 São João à Vista 18 Academia em Revista 22 Luz Grafia 24 Arcadianas 48 Luz Grafia 50 Aqui Aconteço... 64 Sopa de Letras 66 Afiando a Língua 68 Livros ARCA | 3


Bastidores

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Comemoramos com a 8ª edição da Arca os 45 anos da Academia de Letras, completados no dia 15 de novembro, com grande festa no Theatro Municipal, quando apresentamos documentário deste longo trajeto literário, acompanhado do lançamento do “Álbum de Figurinhas Carimbadas”. Foi um marco na história da Academia de Letras este projeto, através do ProAC-ICMs, Lei de Incentivo Cultural do Estado de São Paulo. As ARCAS registram, além de textos dos acadêmicos, os trabalhos desenvolvidos pela instituição. Período rico de eventos, os últimos quatro, com Chás Literários, Palestras, eventos Lítero-Musicais, Concursos: Literário e Redação na Escola, entre outros acontecimentos. Desta forma, penso ter respeitado a vontade inicial dos fundadores de manter viva e atuante, na sociedade sanjoanense, a Academia de Letras de São João da Boa Vista. Despeço-me da presidência da Arcádia com esperança de ter galgado degraus de crescimento, só assim terá valido a pena para mim, mas especialmente para esta Casa de Letras, minha passagem pela direção. Para finalizar, e porque a revista me possibilita deixar registrado, agradeço companheiros de diretoria e os acadêmicos, por terem acreditado em mim e em tudo que poderíamos desenvolver juntos, e a você, leitor, a companhia, em todas as edições da ARCA! Desejo sucesso e profícuo trabalho ao novo presidente Lorette, à frente da Academia de Letras a partir de janeiro!

Lucelena Maia Presidente Biênio 2015|2016

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Letras em Retrato Ana Eugenia Zuany Barros Pereira Biazzo

Resgate da Escrita

jornal O Município nos anos 90, algumas parcerias e muita admiração. Aprendi com ela postura

Continua a mesma: vejo em seu Facebook,

e ética de jornalista. Trocamos mimos: um prato

um texto aqui, outro acolá. E o pessoal elogia. Ana

azul pombinho, que ainda enfeita sua sala de visi-

Eugênia tem um talento especial de contar e es-

tas, e um pequeno Menino Jesus, mascado pelos

crever coisas da vida.

caninos, comprado em Ouro Preto no tempo de

meu nascimento.

Tivemos aqueles encontros relâmpagos no

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Sua mesa de jantar está cheia de volumes de jornal, recuperando entrevistas e reconstruindo lembranças de São João: “Tenho um sonho de transformar tudo isto num livro. É uma forma de agradecimento à cidade que me acolheu!” “Vi seus artigos de casas antigas, de fazendas, são levantamentos originais, deveria reunir e publicar.” Não sei não, Ana Eugênia... E ela retruca, sabiamente: “É não deixar morrer. Resgatar é uma questão de amor!”

Com 12 anos, retornou ao Rio de Janeiro,

Trajetória: Norte, Sul, Leste, Oeste

ser jornalista e foi fazer um curso no Jornal do

Ana Eugenia Zuany Barroso Pereira Biazzo nasceu em Manaus AM, no dia 29 de abril de 1948, filha dos amazonenses Ana Zuany e Raymundo Barroso Pereira. Seu pai trabalhava no Banco do Brasil e sua mãe, no Judiciário. Ela era professora de educação especial e ensinava braile; ele, bancário, escritor citado por Thiago de Mello, que relatou em livro a vida “livre” de um seringueiro. Quando Ana Eugênia fez um ano e pouco, eles se mudaram para Natal RN, depois com dois anos e meio, foram para o Rio de Janeiro RJ. Quando tinha cinco anos de idade, nasceu seu irmão Paulo, já falecido. Teve mais dois irmãos: Carlos, que mora há anos no Peru, e Marcos, o mais novo, que mora no Rio de Janeiro. Ana começou seus estudos no Colégio Santa Rosa de Lima, de freiras dominicanas peruanas, misto e de linha liberal. Aos nove anos, sua família voltou para Natal, e ela foi para um colégio religioso conservador, Imaculada Conceição, “onde as meninas internas tomavam banho

ca. E chamaram-na para estagiar, sem nenhuma

de roupão”.

Boa Vista”.

estudando em outro Colégio da Imaculada Conceição, das Irmãs da Medalha Milagrosa, fundado no bairro Botafogo em 1854. Nesta última cidade, Ana se formou, herdando e ainda mantendo um leve sotaque carioca.

Quando terminou o Clássico e iria prestar

vestibular, começou a trabalhar no Banco Rio de Janeiro e depois na T. Janner, empresa dinamarquesa de exportação. Por dicas de colegas, queria Brasil. Teve grandes mestres da imprensa da époremuneração. Fazia trabalho de pesquisa de redação e enfrentava entrevistas complicadas: “estava pronta para a parte chata, como a entrevista que fiz com um físico quântico. Na época, Fernando Collor de Melo também era estagiário, sempre metido e arrogante”.

Logo soube que o Itamaraty iria abrir con-

curso, e conseguiu entrar em 1968, como Oficial de Administração, lotada na Divisão de Orçamento. “Na época, eu era uma menina de 19 anos, usava minissaia... o ambiente era formal, mas tinha o Vinicius de Moraes, que só tocava violão, atravessando a Ditadura.”

Em 1970, no governo Médici, o Itamaraty

teria que mudar para sua nova sede construída em Brasília, e Ana foi junto. Ela tinha uma tia morando lá, Beliza Vidal Zuany, a qual acompanhou Juscelino na construção da Capital e salvou muitas pessoas durante a Ditadura. “Tia Beliza era minha madrinha e está sepultada em São João da

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Da esquerda para direita André Barroso Pereira Biazzo, filho, Luana Ferné Biazzo, nora, Fernando Rosseti, genro, Manoela Biazzo Rosseti, filha, Miguel José Coimbra Biazzo, marido, Ana Eugênia, eu, Mariana Cintra, noiva de Lúcio Barroso Pereira Biazzo, filho. O casamento foi realizado em 22 de dezembro de 2015

Quem fosse para Brasília teria direito a

para o Consulado Geral em Los Angeles, Estados

um apartamento, mas Ana foi morar com a tia, na

Unidos. Porém, conheceu Miguel José Coimbra

Quadra 112. “Foi um momento difícil, Brasília fi-

Biazzo, plantonista pediatra, de família de Aguaí.

cava muito distante do Rio de Janeiro. A viagem de

Começaram a namorar. Pediu que indeferissem o

ônibus durava 19 horas. Inscrevíamo-nos para ar-

pedido de transferência, para que pudesse pen-

rumar uma vaga da FAB e pegava carona em avião

sar melhor. No governo Geisel, Ana foi chamada

militar de paraquedista, bastante desconfortável,

para trabalhar no Gabinete do Ministro de Esta-

uma loucura! Minha mãe só rezava.”

do, Azeredo da Silveira, revogando a sua remoção

para Los Angeles.

Em 1973, Ana saiu do apartamento da tia e

foi morar com as colegas. Prestou vestibular e en-

trou em Comunicações na CEUB, hoje UNICEUB.

tembro de 1974, Ana casou-se com Miguel, na gó-

Por essa época, quando estava lotada a Secretaria

tica Basílica da Imaculada Conceição do Rio de

Geral do Itamaraty, Ana pediu sua transferência

Janeiro, ao lado do colégio em que estudou.

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Após sete meses de namoro, em 21 de se-


O casal viveu um ano e meio em Brasília,

entre eles, Francisco Arten (na época, radialista

planejando mudar-se para Londres, Inglaterra.

da Piratininga), Telma Sales, Alfredo Nagib Filho

Porém, o sogro não se conformou ter um filho

(Fritz), Marcos Zanqueta (já falecido) e Armando

morando longe e pediu a Oscar Pirajá Filho que

Gonçalves (diretor de redação).

criasse uma vaga de pediatria em São João da Boa

Vista. Em meados de 1975, Ana e Miguel muda-

do com Telma Sales numa entrevista com Bady

ram-se para São João. Em junho de 1976, tiveram

Assad, iniciando sua meteórica carreira artística,

o primeiro filho, André, e 12 dias depois faleceu

publicada em 27 de agosto de 1988.

sua mãe. “Foi um período difícil, sofri muito com

a morte dela.”

escrita originalmente por Alfredo Nagib Filho.

Seus olhos marejam; um pequeno interva-

lo para continuarmos a entrevista...

Ana entrou logo em seguida, colaboran-

A coluna se chamava “Personagem” e era Trocaram o nome para “Gente”, ficando

sob o comando de Ana Eugênia, de 1988 a 1995, com poucas interrupções. Eram entrevistas sema-

Jornal O Município

nais, sugeridas pelo diretor ou lembradas por ocasião ou importância dos entrevistados.

Depois de André, vieram os filhos Manoela

e Lúcio. Para abrigar a família, Ana e Miguel adquiriram um grande terreno de esquina no Jardim Santo André. O projeto da casa foi feito pelo arquiteto Joaquim Mello, mas Ana Eugênia começou a reinventá-la, utilizando madeira de demolição (da chácara Loyola), tijolos da Padaria Maximina (presente do Rosário Mazzi), fragmentos de “móveis usados” e o resgate da técnica da esteira de taquara para o forro das salas. Foram seis anos de construção.

No início dos anos 90, um político local

queria montar uma “fábrica de batata” no barracão atrás do Seminário. “Foi uma briga feia, envolvendo alguns moradores do Santo André, inclusive o Dr. Joaquim Cândido. Conseguimos evitar!” Nessa ocasião, Dr. Joaquim Cândido de Oliveira Neto comprou o centenário jornal O Município de Paulo Orru e convidou uma equipe de redatores, ARCA | 9


Atualmente, Ana está levantando as várias

Em 1990, Ana se afastou do O Município

entrevistas que produziu. De texto envolvente,

para fundar o jornal cultural Almanaque, junto a

fragmentos de longas conversas, ela lamenta a

Paulinho Michelazzo e Marta Oliveira. “Bancamos

perda das gravações originais: “utilizava a mesma

do próprio bolso, mas não conseguimos avançar,

fita, salvando-se uma ou outra quando a família

teve poucas edições.”

pedia cópia, como a entrevista de Matildes Lopes

Salomão”. A maioria de seus entrevistados já fale-

como voluntária, retomando as entrevistas e tra-

ceu, ficando apenas a síntese publicada no jornal.

balhando em parceria com outros redatores. Foi

Vasculhando as páginas, em sequência,

quando a conheci, ajudando-me nas entrevistas

temos Peres Castelhano (a pedido de Walter Lüh-

da Fazenda Mamonal e da casa de Dona Lucinda

mann), Gastão Michelazzo (candidato a prefeito), Aldo Milan (esporte), Oscar Pirajá Martins Filho (candidato a prefeito), Josué Pitta (fundou o PT em São João), Aparecidinha Mangeon (da Cultura), Ronaldo Noronha (pintor muito amigo), Maestro Mourão, Lúcia Lambert, Sebastião Galli (marceneiro de sua casa), Isaura Teixeira de Vasconcellos, Gavino Quessa, Anita Souza Lima, Jose de Paula Silva, Ernestina Oliveira Westin, Lindalva Mattos Tavares, Ernestina Tonizza, Osvaldo Cruz de Paiva Oliveira, Esther Braga, Licínio Vita da Silva, Fábio Noronha, Cláudio Richerme, Yola Oliveira, Anselmo Quinzani, Tabajara Arrigucci, Leilah Assumpção, Pedro Ligabue, Luiz Teófilo de Andrade Sarmento, Nenê Farnetani, José Quintino de Souza, Alice Brondi Negri, Victória Padovan Splettstoser, Rosário Mazzi, Francisco Dearo

Voltou ao O Município em 1991, sempre

Vasconcellos (atual Banco do Brasil).

Muitas entrevistas foram marcantes para

Ana, mas ela cita a história de fundação de Santo Antonio do Jardim, que se mistura à busca de um boi fugido e ao pagamento da promessa (origem da farra do “Boi Laranja”); de dois pracinhas que relataram sobre a Segunda Guerra Mundial, entrevista que recebeu menção do Senado, através de Romeu Tuma; a entrevista com Lygia Fagundes Telles, sem sua presença, mas elogiada pela escritora com dedicatória em seu livro; e a matéria investigativa do cachorro Amigo, talvez a mais emocionante de toda sua produção, revelando sua eterna paixão pelas plantas e animais domésticos.

“As entrevistas eram verdadeira tera-

pia: nunca perguntava, as pessoas queriam fa-

Amaral, Rodolfo Padovan Splettstoser, José Mar-

lar. A maioria tinha vivido muito e queria lem-

condes, Teresa Lídia de Souza Ferreira, Noêmia

brar. Entrevistados, familiares e amigos, sempre

Soares Neves, Virgínia Valin Buzon, Eunice Costa

retornavam agradecendo.”

do Vale, Noêmia Jahnel Rehder, Anibal Braga Jor-

ge, Lucas Vallim Orrú, José Trafane, Marisia An-

Poucas foram publicadas, outras perderam-se nas

drade Oliveira Nora, e assim vai...

edições da fita, ficando apenas na memória de

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Mas também houve histórias chocantes.


bre a APAE de São João da Boa Vista, Associação de Pais e Amigos dos Excepcionais, onde Ana ocupava o cargo de Vice-Presidente, em substituição ao Dr. Edgar Alonso, decidiu assumir a presidência em junho de 1996: “não tinha coragem de deixar fechar, foi uma decisão moral”.

Desta data até hoje, “Dona Ana”, como lá

é conhecida carinhosamente, conseguiu reverter a situação horrível em que a instituição se encontrava, envolvendo funcionários, pais e alunos, empresários e governo do Estado, recuperando a credibilidade e expondo as maravilhas produzidas pela associação: “são 20 anos na gerência. Atualmente a imagem da APAE é inabalável! ”

Agora dá para entender sua fala de

otimismo e coragem:

“Não é uma questão de vaidade, é uma

questão de amor! ” Ana: “histórias terríveis, desabafos, muitas histórias não entraram simplesmente por ética, pois as pessoas estavam confiantes em mim”. Dedicação APAE

Ana Eugenia cursou Faculdade de Direito

da FEOB, formando-se em 1994, depois fez especialização na área pela PUC Campinas de 1994 e 1996. Afastou-se do jornal O Município em meados de 1995, não concordando com a linha editorial naquele momento.

Diante da crise profunda que se abateu so-

Antonio Carlos Rodrigues Lorette Cadeira 32 Patrona Orides Fontela

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Por onde andei... Habaneras Los Coches O táxi em Havana, ou melhor, os táxis. Os carros mais novos de cor amarela que fazem ponto nas cercanias dos hotéis podem ser os mais seguros, mas além das corridas caras certamente são os mais sem graça. Ladas russos e outras bugigangas motorizadas dos anos 1970/80 vindas do leste europeu também buscam turistas nas ruas. A maioria destes está em condições precárias. Circulam, ainda, graças às gambiarras. Num deles, assustadoramente desintegrando-se, o taxista bota mais emoção na viagem dirigindo com apenas uma mão no volante. A outra, funcionando como um prendedor, supre a ausência de fechadura e mantém a porta fechada. Bacanas mesmo são os lindos veículos americanos da década de 1950. Chevys, Pontiacs, Buicks, Plymouths, Oldsmobiles, Bel-Airs… Vários e vários, conservados/restaurados, são pura poesia rodando às margens do Malecón e entre os prédios antigos de Habana Vieja. Numa noite de calor infernal, tomei um Bel-Air em Vedado. A delícia foi descobrir que o chofer adaptou no seu automóvel o ar-condicionado mais poderoso do planeta. Pela temperatura, um norueguês se sentiria em casa e, pela potência, o vento gelado alcança fácil o sul da Flórida. Outra nota: gostem ou não os clientes, a música alta está em 100% dos táxis em Havana. Ouvi de hip-hop local até pop-rock norte-americano. No talo!

Lauro Augusto Bittencourt Borges Cadeira 20 Patrono Castro Alves

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Crítica Literária “A Noite do Meu Bem” A História e as Histórias do Samba Canção Companhia das Letras – 2015 – 510 páginas Autor: Ruy Castro

Com o mesmo título da obra prima de Dolores Duran de 1.959, o jornalista e escritor Ruy Castro nos apresenta uma obra contando a história do samba canção, fruto de uma exaustiva pesquisa sobre o assunto, embasada em publicações, discos, filmes e depoimentos de pessoas que vivenciaram essa fase mágica da música brasileira. Trata-se da recomposição de um período áureo e profícuo da produção musical brasileira, compreendida entre 1.946, quando surgiu esse novo gênero musical, um samba mais suavizado denominado samba canção, até o embrião da bossa nova no início dos anos sessenta. O livro revela que entre dados e informações recolhidas, havia algo a mais que o simples resgate das canções. Existia também um rico e ARCA | 14


amplo acervo de personagens, episódios, locais e

emoções composto de cenas sucessivas que me-

nado apenas aos apaixonados pela música. “A noi-

reciam ser descritas, sem prejuízo da nitidez do

te do meu bem” é leve, agradável, um remanso

objetivo original.

para quem deseja usufruir do prazer da leitura

após um dia fatigante de trabalho.

Músicos, cantores, compositores, artis-

Debalde pensar tratar-se de livro direcio-

tas, play boys, políticos, empresários, notívagos,

boêmios, profissionais da noite, além de outros

za e harmonia das letras das músicas, verdadeiros

espécimes exóticos da fauna humana de hábitos

tesouros lapidados que expressam com retidão o

noturnos; tudo junto e misturado transformam-se

sentimento e a emoção nelas contido.

em personagens da história: tendo o Rio de Ja-

Como bom roteirista, Ruy Castro conseguiu mis-

neiro, cidade maravilhosa como cenário, até então

turar com rara destreza os ingredientes disponí-

capital da república, berço do samba e de lindas

veis de sua pesquisa, resultando numa obra com a

canções.

necessária densidade, capaz de tornar a sua leitu-

ra concomitantemente prazerosa e fluída.

Embora seja uma obra memorialista, o au-

Há de se ressaltar também no livro a bele-

tor mescla com grande habilidade na estruturação do texto, aspectos da vida boêmia, cultural e política desse período. A situação política focalizada é relatada para sinalizar a época dos acontecimentos narrados e a sua contextualização histórica.

O universo musical da noite carioca é re-

tratado com muita correção e fidelidade e nos induz a imaginar que também participamos daquele ambiente, tal o talento e a perfeição com que são mencionados. A ternura, a elegância, o vigor da boêmia carioca com suas boates de ciclos efêmeros e seus frequentadores assíduos, protagonistas do glamour, da intriga e do poder, também são descritos com primorosa exatidão; daí a sedução constante do texto.

Raul de Oliveira Andrade Filho Cadeira 44 Patrona Cecília Meirelles

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São João à Vista A Visita do Imperador D. Pedro II a São João da Boa Vista

FOI UM DOS acontecimentos mais emocionantes que a cidade viveu em sua história. Não bastasse a festa organizada pelo povo, a emoção diante da figura de Sua Majestade, um fato surpreendente marcou aquele dia. Fato inusitado, rico em simbologia. Para melhor entendê-lo é necessário saber como estava o clima político e social na cidade, nos dias que antecederam a visita do Imperador.

A cidade vivia dias tensos Os últimos e tradicionais monarquistas, poucos porém orgulhosos e mandões, se animaram diante da notícia da vinda de Sua Majestade. Talvez fosse a hora de recuperar o espaço perdido aos republicanos, que dominavam a cidade. Liderados pelos coronéis do Café, os republicanos assumiram a liderança de São João havia algum tempo. Na Câmara Municipal eles ocuparam todas as cadeiras. Não havia nem um só vereador monarquista. Mas agora, pensavam eles, com a presença do próprio Imperador e sua comitiva, poderia ser a desforra, o retorno aos velhos tempos quando ninguém discutia a autoridade do Rei. Os republicanos, por sua vez, estavam divididos. Os mais radicais eram contrários a qualARCA | 16

quer manifestação respeitosa ao Imperador. Por eles a Comitiva passaria por São João sem nenhuma saudação. A maioria, porém, defendia uma postura mais diplomática, de respeito à autoridade. Entre esses estavam as principais lideranças da cidade, comandados pelo Cel. Joaquim José e pelo Padre José Valeriano. Haviam fechado questão; a despeito de serem republicanos de primeira hora, iriam saudar D. Pedro com todas as pompas possíveis. Eles próprios organizaram a grande festa que a cidade preparou para a ocasião. Mobilizaram a alta sociedade e empolgaram o povo. De tal ordem, que, bastou amanhecer o dia 22 de outubro de 1886, uma grande multidão se aglomera pelas redondezas da Estação Ferroviária e até na linha férrea, por onde passaria o Comboio do Imperador rumo a Poços de Caldas, última estação da velha ferrovia. Mas havia outra tensão no ar. Esta ainda mais dramática e perigosa. Dividia e misturava os dois grupos políticos formando outros dois: a favor e contra a escravidão. Corriam rumores, cada vez mais intensos, que a própria Corte estava dividida. A começar pela família Imperial. D. Pedro II e sua filha Izabel seriam pelo fim da escravidão. Haviam viajado mundo, conhecido outros povos, sabiam que era


possível libertar os escravos sem maiores prejuízos para a economia do país. Havia grande pressão no Exterior. O Brasil era um dos últimos países a libertar seus escravos, o que envergonhava os brasileiros mais conscientes. Havia ainda a pressão da Inglaterra. Já algum tempo a escravidão não interessava mais aos ingleses que passaram a combatê-la. Faltava apenas coragem e apoio político a D.Pedro II para acabar com a escravidão. O Parlamento estava dividido e a Monarquia vinha perdendo apoio político. Defensores do velho regime só mesmo os velhos fazendeiros, que elegiam um número considerável de deputados. D. Pedro não contava com os coronéis do café, principalmente os de São Paulo. A maioria deles havia se tornado republicano. As leis da Mo-

narquia e a pressão do Exterior eram um problema para os negócios desses cafeicultores. Daí São João da Boa Vista, dominada por estes coronéis do café, ter-se tornado também uma cidade republicana. Mas a abolição dos escravos não era unanimidade nem entre eles. Muitos achavam que seria catastrófica para a economia. Não viam o país em condições de libertar seus negros. O conflito entre os abolicionistas e seus opositores vinha se agravando em São João. Uma notícia publicada num jornal de Campinas dá uma ideia do quanto havia de tensão. O jornal fala de um massacre ocorrido na Fazenda São Pedro. Espancados frequentemente por um administrador violento, os negros da fazenda se rebelaram. Mataram o administrador e ARCA | 17


seus homens, mantendo preso Antonio José do Carmo, o proprietário da fazenda. A notícia no jornal de Campinas alerta as autoridades para o conflito em São João às quais dão uma resposta rápida e dura. Uma rebelião de escravos era o que de mais aterrorizante poderia acontecer na mentalidade dos escravocratas. Afinal, se a rebelião se propagasse, se os negros dessem conta da força que tinham, se se unissem, poriam o poder em risco em todo país. A elite tinha pavor ao imaginar o que poderia ocorrer. Era, portanto, necessário abafar qualquer tentativa e punir exemplarmente. Em menos de três dias, uma leva de soldados chega à cidade e cerca a fazenda rebelada. ARCA | 18

Não deixaram caminho para fugas. Dá-se início a um sangrento combate e em poucos dias os negros são praticamente dizimados. O fim da rebelião na fazenda São Pedro, porém, não finda o conflito entre os abolicionistas e os escravocratas de São João. O conflito se acentua quando se muda para a cidade um tal de Nicolau Rehder e seu irmão Guilherme. Eles chegam à região como construtores da ferrovia de Moji Mirim a Casa Branca. Em 1877 ficam sabendo de um leilão da fazenda Barreiro. Com o dinheiro ganho na construção da estrada de ferro, compram a propriedade e ficam ricos, retirando dali a madeira peroba, para os dormentes utilizados nas linhas férreas


Os Rehderes eram alemães e luteranos. E esta religião abominava a escravidão. Instalando-se em São João da Boa Vista, se tornam os líderes dos abolicionistas. Suspeita-se que, por trás de várias fugas de escravos e cobertura aos fugitivos, estavam os Rehders que atraíram para si a ira dos escravocratas. Eram diferentes em tudo dos fazendeiros locais, principalmente pela formação cultural. Viajavam constantemente à Europa e de lá traziam muitas novidades. Entre elas uma das mais revolucionárias foi a “golpion”, uma serra elétrica capaz de derrubar árvores em velocidade nunca antes imaginada com os velhos machados. Mas, voltemos à passagem do Imperador por São João da Boa Vista. A tensão estava no ar. A começar pelos próprios assessores de D.Pedro. Haviam recomendado que o comboio não parasse na Estação de São João, cidade dominada pelos republicanos. A decisão de parar foi tomada pelo próprio Imperador impressionado com a multidão que se aglomerava em torno da ferrovia. E de todas as emoções vividas pelos sanjoanenses naquele dia de outubro, a mais marcante foi provocada pelos irmãos Rehder. A despeito da ira dos monarquistas e dos escravocratas eles estavam lá, na Estação, na expectativa de poderem falar com D. Pedro II. E não estavam sós; trouxeram com eles duas negras. Ninguém poderia imaginar o que se passava na cabeça dos irmãos. E tentaram de todas as formas evitar que falassem com o Imperador, porém não tiveram como. Assim que D. Pedro e esposa desceram na plataforma da velha estação, foram abordados por Nicolau Rehder que após as reverências, lhe explicou:

− Os moradores de São João da Boa Vista, abolicionistas, se uniram. Cada qual colaborou com um pouco de dinheiro e com o arrecadado conseguimos libertar estas duas escravas. Não foram as primeiras que libertamos, mas para estas nós trouxemos aqui as cartas de alforria a fim de que Sua Majestade entregue às libertas pessoalmente. Gesto ousado, simbólico e provocador. Nicolau Rehder fazia assim apologia à abolição diante do próprio Imperador e de sua família. Mais que isso, testava D. Pedro, diante daquela situação inusitada, sem saber qual seria a reação. Silêncio total na Estação; expectativa, qual seria a reação do Imperador? Dom Pedro deve ter entendido. Consta que sorriu, pediu que as negras se aproximassem e com as mãos em seus ombros teria dito: − Nada me é mais agradável que o cumprimento desta missão! As duas mulheres choraram copiosamente, emocionadas. Recebiam, do próprio Imperador, a liberdade.

Francisco de Assis Carvalho Arten Cadeira 10 Patrono Darcy Ribeiro

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Academia em Revista 45 Anos se Passaram...

Mas, há muitas outras realizações a serem

comemoradas, dentro dos 45 anos desta tão importante Instituição Cultural.

HÁ EXATOS QUATRO ANOS, fui eleita Presidente da Academia de Letras, gestão 2013/2014, depois, reeleita para a gestão 2015/2016, períodos que considero de grande produção cultural na Arcádia, consagrando dessa forma seus ininterruptos 45 anos de trabalhos culturais. Esta Diretoria, formada por: Lucelena, Lorette, Lauro, Silvia, Vânia, Can e, em segunda gestão, também por Carmen Lia, começou o mandato definindo pela criação da Revista ARCA que seria editada semestralmente e traria em suas seções textos exclusivamente de acadêmicos, porque somos 45. E, assim ela tem sido editada, com a qualidade de linguagem de uma Academia de Letras, através da rubrica de confrades escritores e poetas, agasalhadores dos trabalhos deste Sodalício. Como resultado, os sanjoanenses a colecionam, depois de deleitarem-se com a leitura de cada edição. Razão que nos faz celebrar tê-la um dia idealizado. ARCA | 20

Através de saborosos e aconchegantes

“Chás Literários”, as obras de poetas e escritores, como: Orides Fontela, Mario de Andrade, Dom Tomás Vaquero, Érico Veríssimo, Gilberto Freyre, foram revisitadas. O poeta Fernando Pessoa esteve conosco, trazido pela Profª Salete de Almeida Cara, que discorreu sobre “Pessoa através de pessoas”. Trouxemos Cordelistas e Repentistas para apresentarem às escolas a Literatura de Cordel e Xilogravuras. “Cordel na Academia” foi o nome dado ao evento que contou com oficina a professores e acadêmicos. Ouvimos a Prof. Dra. Ângela Olinto, sobre “Os Mistérios Cósmicos”. Comemoramos


no Theatro Municipal o “Centenário de Vinicius

sobre “Orides Fontela”, uma das três maiores po-

de Moraes” e de “Dorival Caymmi”, em eventos

etas contemporâneas, segundo críticos literários.

Líteros-Musicais, aos quais envolvemos o Coral da

A poeta, que é sanjoanense, teve os restos mortais

E.E. Pe. Josué Silveira de Mattos e do SESI 156.

cremados e trazidos para a cidade em 03 de se-

Convidamos Dr. Almino Affonso a dar palestra so-

tembro de 2016, em uma iniciativa do Reitor Fran-

bre “1964 e o Golpe de Estado”. O Professor da

cisco Arten, UNIFAE; da Presidente da Academia

UFSCar, Dr. Renato Miguel Basso falou sobre os

de Letras, Lucelena Maia e da Prefeitura de São

“8 séculos de Língua Portuguesa”. O Professor Dr.

João. “A Volta de Orides” tornou-se um importante

Gustavo de Castro concedeu-nos palestra sobre seu

acontecimento cultural, em que a poeta ganhou

livro “O Enigma Orides” e, meses depois, retornou

Memorial, na UNIFAE, onde repousam suas cin-

à cidade para ministrar oficinas aos professores

zas, suas obras e os prêmios ganhos pela geniali-

das escolas de São João, acontecidas na UNIFAE,

dade de sua poesia. O Jornalista Luís Nassif abriu ARCA | 21


os trabalhos de 2016, da Arcádia, falando sobre os

Especial do Departamento de Cultura e Turismo,

“100 Anos de Samba”. O Professor João Scanna-

pelo Projeto Redação na Escola. E, finalmente,

pieco com suas “Aulas Magnas”, durante três dias,

para comemorar os 45 anos da Instituição, em 15

em outubro de 2015, revisitou a História do Brasil

de novembro de 2016, no Theatro Municipal, com

do período Colonial e Império, lotando a sala da

apresentação de “Documentário” e show musical,

Academia de Letras. Luiza Nagib Eluf, agora aca-

idealizado por uma equipe editorial competente e

dêmica, em comemoração ao dia internacional da

guerreira, lançou-se o “Álbum de Figurinhas Ca-

mulher, falou sobre: “As mulheres querem eman-

rimbadas”, composto por micro biografias e fotos

cipação. Como ficam os homens”. Mantivemos e

de personagens sanjoanenses, resultado de longa

impulsionamos os Concursos: “Literário de Poesia

pesquisa produzida pela Academia de Letras com

e Prosa” e o “Redação na Escola”. Participamos da

especial olhar sobre a trajetória histórica, socio-

homenagem à Praça da Paz, que recebeu o nome

econômica e cultural da cidade, dos últimos 45

de Sérgio Vieira de Mello, através do Sr. Orlan-

anos. Muitas “figuras carimbadas” ficaram fora do

do Reis, Projeto Andorinhas. Fomos parceiros do

álbum, mas foi preciso desvestir a visão afetiva,

7º Núcleo de Correspondência dos Veteranos de

focar no objeto e regras do projeto para concluí-lo

1932 – MMDC, da presidente e acadêmica Neusa

de forma profissional. A equipe editorial não tem

Menezes, na entrega da “Outorga da Medalha

dúvida, personagens da extensa lista ganharão as

Constitucionalista”. A Academia recebeu Prêmio

páginas de outro álbum. E, assim, encerra-se esta

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gestão e as homenagens pelos 45 anos da Aca-

Alarm, à Prefeitura Municipal, ao Departamento

demia, mas não sem antes fazer agradecimentos

Municipal de Cultura e Turismo, à Faça Festa, ao

reverenciados aos apoiadores e patrocinadores

Sempre Vale Supermercados, à S.E.S - Sociedade

que respeitaram e apostaram no trabalho desta

Esportiva Sanjoanense, à Diretoria de Ensino Es-

Diretoria. Instituímos diploma “Amigo das Letras”

tadual, ao Departamento de Educação Municipal,

e especial troféu, entregues no final da primeira

à TV União e a todos que nos ajudaram a chegar

gestão. Em dezembro de 2016, não será diferen-

até aqui, incluindo você que lê este texto.

te, mais uma vez entregaremos diploma e troféu àqueles que apoiaram os ousados projetos desta Arcádia. Registramos agradecimentos ao Governo do Estado de São Paulo, a Secretaria do Estado de Cultura – ProAC-ICMS, ao patrocinador ASA Alumínio, à Imprensa Oficial do Estado, à Sequóia Loteamentos, à UNIFAE, à LAMESA, à UNIFEOB, à Cimentolândia, à BVCi, à Gráfica Sanjoanense, ao 1º Tabelionato Ceschin, à Leader

Lucelena Maia Cadeira 13 Patrono Humberto de Campos

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LuzGrafia

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...Ah! teu céu azul, tuas manhãs radiosas. Tua serra azulando na distância como agora, ou mudando de tons constantemente, conforme a luz do céu, conforme a hora.. Em teus campos verdes os ipês floridos, áureas flamas vivas ao fremir da aragem, são raios de teu sol aurifulgente, que ficaram encantados, esquecidos, brancando na paisagem... (trecho do poema TERRA DE LUZ do acadêmico Francisco Roberto de Almeida Júnior (In Memoriam) Cadeira 03 - Patrono Alphonsus de Guimarães)

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Arcadianas AOS MESTRES COM CARINHO VOLTEI AO TEMPO do jardim de infância e à minha primeira mestra: Irmã Regina. Era um doce de criatura e tinha um carinho enorme comigo e com meus amiguinhos tão pequenos (podem acreditar, eu já fui pequena um dia), tinha cinco anos e meu amor por ela ficou eterno. Nunca mais a vi. Sei que abandonou o hábito, se casou e que tem uma filha chamada Silvia. Depois transitei por algumas escolas; passei por outro colégio de freiras, este em Cornélio Procópio PR, super-rígido em todos os aspectos, minha professora lá se chamava Dulce. Quando voltei para São João, o Externato Santo Agostinho, de onde me lembro da Dona Zezé Lopes, da Dona Vilma e lógico, da Dona Sarah Salomão (quem não se lembra dela?). Fui para o Joaquim José no terceiro ano primário. Que época boa, de professores incríveis: Dona Terezinha Antoniazzi, Dona Valderez, e na quinta série, lá mesmo no JJ, o professor Jorge Farah, que dava aulas de Comunicação e Expressão. Ele era fantástico, nunca mais o vi. Havia o professor Henrique (de ciências), a Dona Arlete (de história), a Dona Rosa (de inglês, ela tinha olhos ARCA | 26

impressionantes, lindos), Dona Gercy (foi quem me deu o único 2 que tirei na vida. Francês não era mesmo meu forte), um professor com o incrível nome de Astrogildo, meu Deus, que saudade! Nossa relação com eles era de profundo respeito e carinho. Sei que não éramos santos, mas as coisas andavam dentro de limites que parecem perdidos hoje. Depois o Ginasinho (E.E. Domingos Teodoro)! A gente se sentindo o máximo naquela escola que nós ajudamos a inaugurar. Éramos mocinhos e mocinhas começando uma nova etapa. Outras lições de vida, passadas para nós com mãos habilidosas dos nossos mestres: Dona Newres Patrão, Dona Lúcia Andrade, Dona Diô Giordano, Dona Vanda, “Seu Jóia”, Sr. Rezende, Dona Vera Araújo (de quem tínhamos muito medo por causa da braveza dela), Sr. José Roberto Ciacco, Sr. Astrogildo e a Dona Carmen, que era a diretora e que regia a escola como se fosse uma grande orquestra. Eram pessoas envolvidas com educação, cultura e conosco. Mais uma etapa muito rica vencida e vamos para o colegial.


Agora o cenário era o Instituto, lugar por onde transitavam Dona Vera Gomes, Ditão, Pedro Russo, seu Hélio Borges, Dona Carmem Vilela, Dona Yvonne Marun, Dona Maria José e Sr. João Scanapiecco, Reverendo Cordeiro, Dona Maria José Pirajá, Dona Glórinha Aguiar, Dona Ana Olga (com textos do Hermann Hesse), Dona Clélia (juro que ela e a Dona Vera Araújo tentaram fazer de mim uma atleta, porém esporte nunca foi minha vocação). Depois, lá mesmo no Instituto, o curso de Técnico em Enfermagem e com ele mais pessoas que entrariam para sempre em minha vida e em meu coração: a Fátima Botura, a Ana Lúcia Batista, o Dr. José Simoni, Dona Helga e o Zé Luis Avanzi, pessoas que foram fundamentais na minha formação como Técnica em Enfermagem, almas generosas que conseguiram transmitir com competência, o carinho, o respeito e a responsabilidade que essa profissão exige. Peço perdão aos que eu não citei. São muitos e a nossa memória prega peças. Cada um deles que passou por minha vida, com certeza deixou nela um pouco de si. De maneiras diferentes, graças a Deus, pois só assim crescemos, mas sempre com importância infinita na formação do nosso caráter e educação. Muitos deles eu nunca mais vi, nem sei por onde andam. Sei que alguns já partiram deste mundo. Eles eram nossos ídolos, e nós os respeitamos até hoje! Um dia encontrei a Dona Clélia na rua e a cumprimentei chamando-a por Dona Clélia. Ela me falou sobre a diferença em relação aos alunos de hoje, que não têm mais respeito pe-

los professores, nem sabem como tratá-los. Isso não deveria ter-se perdido. Essa relação professoraluno é muito sagrada. O respeito não poderia ter sido descartado dessa maneira. Eu não segui essa carreira numa família onde minha mãe sempre teve essa profissão, levantando de madrugada por muitos anos, pegando dois ônibus para chegar ao seu destino, ou mesmo antes, se aventurando por estradas de terra enlameadas, quando ainda dava aulas nos sítios e fazendas da região; minha tia Lúcia que, quando ligou dizendo que havia “escolhido cadeira”, eu, ARCA | 27


pequena que era, perguntei a cor da cadeira. (Ela teve um “calo nas cordas vocais” por tantas aulas que deu); tia Vera Botta Ferrante, professora universitária incrível e apaixonada; minha irmã, a querida “Tia Lília” de todas as crianças que passaram e passam por suas aulas e agora com minhas duas filhas: a Sylvia, que dá aulas em pré-escola e a Lyvia, professora de matemática que, encantadas com a arte de ensinar, abraçaram também essa profissão, meu genro Marcus Alvarenga, Mestre nas matemáticas da vida. E minhas tantas amigas que foram ou ainda são professoras por amor: Sônia Quintaneiro, Célia Bertoldo, Marlene Simões, Maria Célia Marcondes, Maria José Moreira, Célia Ranzani, Cris Caslini, Rô Mourão, Geisa, Jucenei, Angela Paz e tantas outras... Que Deus abençoe a cada um desses mestres e mestras todos os dias! Que lhes dê coragem, sabedoria e paciência, pois os tempos são outros e ser mestre hoje em dia é tarefa mais que árdua. Que Deus abençoe os meus mestres onde quer que estejam e lhes dê a paz e o reconhecimento de quem cumpriu seu dever com dignidade e amor. Que os alunos reconheçam que estão na condição de alunos, porque ainda têm muito que aprender. Que respeitem seus mestres, que aprendam com eles. Se os professores estão ali, numa sala de aula, é porque têm algo a ensinar. Abram seus corações e aprendam, esse tempo é valioso. Pena que muita coisa a gente só percebe tarde demais. E, no entanto, é muita doação para passar despercebida! Minha mãe é meu maior exemplo de vida! Apesar de sempre ter trabalhado fora, já dava aulas antes mesmo de eu nascer, sempre foi nossa ARCA | 28

mestra. Sempre esteve presente. Passou pelo magistério com vários contratempos, desde o aluno que fora picado por cobra e que, ela sozinha na roça, teve que se virar para socorrê-lo, até aquele metido à besta que chegou e jogou na mesa dela um facão para tentar intimidá-la no primeiro dia de aula. Ela nunca se deu por vencida! E todos os alunos que passaram por ela, com certeza, guardam uma boa recordação da mestra Scila Tereza Ferrante Marcos a quem eu dedico esta crônica com muito carinho. Ela como minha primeira mestra estará aqui representando todos os que vieram a seguir. A bênção, minha mãe! A bênção, meus mestres! Ao mestre com carinho!

“Chegou a hora de fechar os livros. E enquanto eu me vou, sei que estou deixando meu melhor amigo. Um amigo que me ensinou o correto e muitas lições de vida. Isso é muito! O que posso lhe dar em troca? Se quisesse a lua, eu tentaria lhe dar, Mas preferia que deixasse oferecer meu coração! ” (Autor: desconhecido)

Silvia Ferrante Cadeira 09 Patrono Raul de Leoni


Gostaria de ser pescador de palavras De idéias De verdades... Mas Não estou numa das margens e como todo pau de enchente Segui o fluxo das águas. Dando conta de mim Frente à dureza das pedras À resistência de outros galhos Entrelaçados no tempo das águas turvas....

Luiz Antonio Spada Cadeira 28 Patrono Guilherme de Almeida

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Eu Gosto das Florezinhas Amarelas Eu gosto das florezinhas amarelas Que ninguém semeia Que nascem entre as pedras aproveitando um pouco de terra.

Eu gosto das florezinhas amarelas Que se curvam ao vento Que resistem ao frio e à falta de chuva

Que trazem a luz À vida Sem pedir cuidados Sem cobrar desvelos

Eu gosto das florezinhas amarelas.

Carmen Lia Batista Botelho Romano Cadeira 39 Patrona Patrícia Rehder Galvão

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A Barca de Pedro

Singra as águas do oceano

As velas se movem no impulso do vento

Encapelam-se as ondas por onde resvalas

Que impede teu barco por onde os aflitos

E o pescador atento em seu plano

Procuram teu bojo sem outro argumento

Dirige seu barco conforme as escalas.

Que a Paz do Senhor dê fim nestes gritos.

(Barca de Pedro, barca de Pedro

(Barca de Pedro, barca de Pedro

Forte de proa, pleno poder

Atenta somente no homem afogado

Barca de Pedro, Barca de Pedro

Eu te acenava, ó Barca de Pedro

Passaste por mim, sem mesmo me ver)

Me viste cantando, largaste-me de lado.)

Os rumos que rasgam a pele das águas

(Pensaste por certo que eu fosse sereia

São gumes nas folhas de espuma bem calmas

Meu canto magia continua segredo

Sempre no prumo por certo deságuas

Passaste tão perto, ó barca de Pedro

No rumo celeste no porto das Almas.

Eu que morria num banco de areia)

(Barca de Pedro, barca de Pedro

E ali me deixaste, barco de Pedro

Lançaste tua rede ao fundo do mar

Morta de frio, morta de medo.

Eu te acenava, ó Barca de Pedro Não viste meu lenço de estrelas no mar?)

Maria Cecília Azevedo Malheiro Cadeira 40 Patrono Monteiro Lobato

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Marly Evangeline, o Talento Precoce

EGRESSO DAS PLAGAS tambauenses, por aqui aportei em princípios dos anos oitenta, via Banespa, e nunca mais me afastei desta cidade, que me agasalha e encanta... Mas pago um certo tributo por não ser sanjoanense de nascimento: não convivi com pessoas e fatos anteriores à minha chegada, e os que mais lamento são os ligados à cultura e à arte, tão prodigiosos por aqui! ARCA | 32

Nesse contexto, tento homenagear alguém que já não está entre nós há mais de sessenta anos. Refiro-me a Marly Evangeline Estevam Camargo, a genial e doce garotinha, que não chegou a completar 12 anos, o talento musical precoce aqui surgido qual um meteoro de luz, entre os anos de 1937 a 1949. Filha do Sr. Antônio Oliveira Camargo e da Professora Benedita Estevam Camargo (D. Ditinha), já falecidos, a virtuose mirim aqui nasceu em 17 de novembro de 1937. São seus irmãos o Sr. Antônio Claret Estevam de Camargo (falecido) e a Professora Marly Terezinha Estevam Camargo Fadiga, querida amiga. O extraordinário dom musical de nossa homenageada brotou muito cedo. Aos 2 anos e 3 meses de idade, aproximou-se do piano da mãe, professora de música, e já acariciava com seus dedinhos mágicos as teclas do instrumento, combinando as notas em prematuras melodias... Não demorou muito, os sons de “Carnaval em Veneza”, de Niccolo Paganini (1782/1840) começaram a surgir, surpreendendo a própria mãe, a Professora Ditinha. Curioso é que, apenas aos 4 anos de idade, a pequena Marly passou, realmente, a receber aulas de sua mãe, logo revelando também sua precocidade como compositora. Nasceu assim sua primeira obra, a canção “Caixinha de Música”. Não demorou, a partir daí, a ficar conheci-


da na cidade e região, participando de serões em casas de famílias e clubes. Eram famosas as reuniões musicais na residência da Sra. Palmira de Oliveira Azevedo, onde a pequena Marly Evangeline encantava a todos em suas audições de piano. Em 11 de junho de 1943, antes de completar 6 anos, participou no Theatro de nossa cidade do espetáculo “Noite de Brasilidade”, Festival Artístico de Música Brasileira, executando “Valsa para Piano”, de sua autoria, acompanhada da orquestra regida pelo Maestro Armando Lameira (ex-aluno de Carlos Gomes), que se tornou seu grande incentivador. A professora de Música e pianista Dinorah de Carvalho, da Capital paulista, em visita à nossa cidade, ao ouvir Marly, encantou-se com sua genialidade, e, com o consentimento de D. Ditinha, passou a ministrar-lhe aulas, aqui em São João e na capital paulista. A precoce virtuose dedicou-lhe uma composição: “Dinorah”, deixando a mestra profundamente emocionada! E novas composições foram surgindo: “Marly”, “Segunda Valsa”, “Passo do Besouro”, “Maria Rosa”, “Marcha do Expedicionário Brasileiro”, entre várias outras, num total de cerca de 20 composições! Em São Paulo, sempre apoiada pela Professora Dinorah, apresentou-se em vários clubes, com destaque e admiração geral. O dia de sua consagração nacional estava próximo. Aficionados importantes de música conseguiram agendar uma apresentação de Marly Evangeline no Teatro Municipal de São Paulo. Toda São João da Boa Vista ficou exultante com a auspiciosa notícia! A célebre pianista clássica sanjoanense,

Guiomar Novais, consagrada mundialmente, chegou a ouvir a nossa pequena genial, declarando: “os dois gênios de música que mais me impressionaram foram uma russa e a menina Marly Evangeline de São João da Boa Vista!” Infelizmente, a grande apresentação da nossa talentosa menina no Teatro Municipal paulistano não aconteceu... Ela adoeceu gravemente, vindo a falecer em 13 de fevereiro de 1949. Foi uma consternação inenarrável! Por ironia do destino, a morte lhe sobreveio precocemente, tal qual sua genialidade musical... Marly Evangeline entrou para a história da arte em nossa cidade como um dos mais relevantes fenômenos musicais de todos os tempos, pelo seu notável talento, pela precocidade de seu gênio artístico! Entre a Rua Ademar de Barros e a Avenida Brasília, existe uma pequenina praça com seu nome, salvo engano meu, a única honraria que sua cidade natal lhe prestou... Ela mereceria ser mais lembrada, mais cultuada... Afinal, no mundo todo são raríssimos os exemplos que possam ser comparados à nossa iluminada garota prodígio! Rendo-lhe aqui, menininha genial, minha singela homenagem!...

Antônio “Nino” Barbin Cadeira 27 Patrono Érico Verissimo

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O Samba... ...É A PRINCIPAL forma de música de raízes africanas surgida no Brasil. O nome samba é,provavelmente,originário do nome angolano “semba”, um ritmo religioso, cujo nome significa “umbigada’, devido à forma como era dançado. O primeiro registro da palavra “samba” aparece na revista O Carapuceiro, de Pernambuco, em 3 de fevereiro de 1838, quando Frei Miguel do Sacramento Lopes Gama escreve contra o que chamou de “samba d’almocreve”. Em meados do século 19, a palavra samba definia diferentes tipos de música introduzida pelos escravos africanos,desde o Maranhão até São Paulo. O samba carioca provavelmente recebeu muita influência de ritmos da Bahia, com a transferência de grande quantidade de escravos para as plantações de café no Estado do Rio, onde ganhou novos contornos, instrumentos e histórico próprio, de tal forma que o samba moderno, como gênero musical,surgiu no início do século 20 na cidade do Rio de Janeiro (a capital brasileira de então). Muitos pesquisadores apontam para os ritmos do maxixe,do lundu e da modinha como fontes que,quando sintetizadas,deram origem ao samba moderno. Apesar de registros de sambas como “A viola está magoada’ (1903) de Ernesto Nazareth e “Em casa de Baiana” (1913) de Alfredo Carlos Brício, foi a composição registrada por Donga que levou o gênero para além dos morros. o samba amaxixado “Pelo Telefone”(1917),de domínio público, mas registrado por Donga e Mauro Almeida, é considerado o primeiro samba gravado. ARCA | 34

Nos anos trinta, um grupo de músicos liderados por Ismael Silva, fundou no bairro de Estácio de Sá, no Rio de Janeiro, a primeira escola de samba:”Deixa Falar’. Eles transformaram o gênero, dando-lhe os contornos atuais e incluindo novos instrumentos como surdo e cuíca. Nessa mesma época, um personagem também foi muito importante para a popularização do samba: Noel Rosa. Noel é responsável pela união do samba do morro com o do asfalto. Com o suporte do presidente Getúlio Vargas, o samba ganhou status de música oficial do Brasil.


Nos anos seguintes, o samba se desenvolveu em várias direções, do samba canção às baterias de escolas de samba.Vários instrumentos eram usados: cavaquinho, violão, pandeiro, surdo, tamborim, tantã, bandolim e banjo. Um dos novos estilos foi a Bossa Nova, criado por membros da classe média, dentre eles João Gilberto, Tom Jobim e Vinícius de Moraes. Nos anos sessenta,os músicos da Bossa Nova iniciaram um movimento de resgate dos grandes mestres do samba. Muitos artistas, como Cartola, Nelson Cavaquinho, Zé Keti e Clementina de Jesus foram então descobertos pelo grande público.

Nos anos setenta, o samba era muito tocado nas rádios. Compositores e cantores como Paulinho da Viola, Martinho da Vila, Bezerra da Silva, Alcione, Clara Nunes e Beth Carvalho dominavam as paradas de sucesso. No início dos anos oitenta, depois de um período de esquecimento, o samba reapareceu no cenário brasileiro com um novo movimento chamado de pagode. Nascido nos subúrbios cariocas, o pagode, com uma linguagem mais popular, tem como representantes famosos, Zeca Pagodinho, Almir Guineto, Fundo de Quintal, Jorge Aragão e Jovelina Pérola Negra. A partir do ano 2000, o samba ganhou nova força e novamente caiu no gosto popular. Teresa Cristina e o Grupo Semente despontaram na Lapa e trouxeram com eles uma nova geração de músicos talentosos. Atualmente, o samba ainda é um dos gêneros musicais mais populares no Brasil e sem dúvida é o ritmo que melhor representa a imagem do povo brasileiro. Apesar de o berço do samba ser carioca, vale ressaltar a importância do samba paulista,que tem como principais representantes Adoniran Barbosa, Germano Matias, Osvaldinho da Cuíca e o sanjoanense Geraldo Filme. No dia 2 de dezembro, comemora-se o dia Nacional do Samba.

Vânia Gonçalves Noronha Cadeira 24 Patrono Vinícius de Moraes

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Lembranรงas Primeiras

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“Não foram os anos, não, que me envelheceram. Longos, lentos, sem frutos, foram alguns minutos.” Cassiano Ricardo.

ERA UMA FRIA MANHÃ de inverno, a neblina cobria a cidade e aos poucos o sol começava a mostrar uma tênue luz. Era abril, talvez maio. A madrugada fora muito fria e geara, como acostumava acontecer nos idos da década de 50. Tinha a menina sete, oito anos de idade. Morava em Espírito Santo do Pinhal. Seu pai segurou-a pelas mãos e disse: - Francisca, vamos ‘esquentar o sol’? E lá foram os dois andando pela Rua Vicente Gonçalves, até chegarem ao largo do Grupo Escolar Dr Almeida Vergueiro. Continuaram o caminho e foram à praça existente atrás da escola. Para a menina, essa praça tinha um aspecto antigo, estranho, misterioso, meio imaterial. Em seu centro havia um coreto alto trabalhado com cimento formando desenhos de galhos de árvore, o que o tornava mais fantasmagórico. Havia também muitos coqueiros que, além de emprestarem um ar lúgubre e estranho ao local, davam uns coquinhos que os moleques chamavam de ‘Maria Ardida’, pois fazia a pele arder, quando nela esfregados. Passeavam pai e filha de mãos dadas, porém o aspecto assombroso do jardim e da manhã

acinzentada e fria não chegavam a ser absorvidos pela menina. A segurança das mãos paternas conseguia transformar o mistério e o ar lúgubre do local numa agradável sensação de magia e bem estar. Conversavam. De quando em quando um tico-tico cantava. Então, o pai olhava para a menina e falava: - Escute, filha, eles ao cantar dizem “menininha, óia tio-tio atí.” Caminhavam e uma doce e agradável sensação dominava a menina. Sentia-se leve, a flutuar, era um corpo sem matéria. Era puro espírito. Não sabia ela nomear estas sensações, não sabia dizê-las, apertou mais forte a mão de seu pai. Sentia-se segura e muito feliz. Foi a primeira, quem sabe a única vez, em que plenitude, segurança, completude e êxtase se entrelaçaram numa comunhão perfeita. A partir de então, as manhãs cinzentas, frias, o cantar do tico-tico passaram a lhe trazer uma inefável e inequívoca paz. Resquícios daquela longínqua manhã.

Maria Célia de Campos Marcondes Cadeira nº 11 Patrono Machado de Assis,

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A Dádiva de Marina − É SÓ UMA MANCHA e até ela crescer certamente já haverá uma cirurgia plástica para corrigir. Foi assim que reagi quando trouxeram meu bebê para o quarto para o primeiro contato após o parto. As manchas cobriam-lhe grande parte do tórax, o braço direito e costas. Lembro a expressão do rosto de minha mãe, um misto de susto, pena e do esforço para não me contradizer. O mundo estava começando a desmoronar. O pediatra, muito nosso amigo, chegou e nos pôs a par das possibilidades nada promissoras a respeito da tal mancha que, segundo suas observações e conhecimento, nunca vinha sozinha, mas que também conforme verificara, a criança parecia forte, todas as funções observáveis pareciam em bom estado, contudo seria bom que nos preparássemos para futuras complicações. E elas vieram, e tantas, que o pediatra nos recomendou que procurássemos ajuda fora. Deu-nos uma carta para seu antigo professor na faculdade em São Paulo para onde fomos buscar socorro. Em janeiro, já morando em São Paulo para poder tratá-la no Hospital do Servidor Público, iniciamos a jornada que dura até hoje. Um ano e meio depois de exames minuciosos, vários prognósticos, finalmente o diagnóstico: uma síndrome de nome complexo que se resumia no ARCA | 38

fato incontestável de que tínhamos uma filhinha excepcional.

Hoje já não se deve falar assim, o politi-

camente correto manda dizer criança com necessidades especiais¨. Para mim, minha filha é excepcional. Em todos os sentidos da palavra. Disseram-me que poderia não falar, ela fala , e muito; que não nadaria, ela aprendeu; que jamais correria, corre, pouco, mas corre. Dança, canta e rebola. Que talvez enxergasse muito mal, no entanto, é sensível às cores e formas. Músicas,

animais

e pessoas lhe interessam. Como todos os testes apontaram idade mental de seis anos e ausência da função simbólica, não aprenderia

ler. Nisso,

os médicos e psicólogos acertaram em cheio. Nos primeiros anos, a privação do letramento incomodava-me muito. Com o passar do tempo , compreendi que os portadores de necessidades especiais privados dessa competência não nasceram para aprender e sim para nos ensinar.

Por e com ela frequentei a AACD por qua-

tro anos onde convivi com pessoas incríveis lutando para superar as mais inimagináveis limitações com garra e bom humor, autoestima nas alturas, enfrentando a rotina dos exercícios. Muito aprendi lá sobre resiliência, comportamento assertivo e aceitação da realidade sem

pieguice. Lá apren-

di a diferença entre aceitação e resignação. Sem


essa vivência jamais teria aprendido o verdadeiro

professores e técnicos. Assisto a todos para aplau-

sentido da aceitação. Certamente continuaria me

dir minha Marina e seus colegas. Nunca pensei

sentindo injustiçada pelo destino.

que ela me proporcionaria momentos de tanto

Por causa de Marina, aprendi a lidar com

encantamento.

a rejeição das pessoas menos esclarecidas, com o

terrível preconceito contra as pessoas especiais.

Mãe, hoje tenho de ir de camiseta verde, que é dia

Aprendi ser mais paciente, perseverante e a nun-

das Pessoas Especiais que nem eu.

ca duvidar da Providência Divina .

Graças à APAE, minha filha tem um ni-

cho social acolhedor onde aprende o que suas

No último dia 02 disse-me ela ao acordar:

Inventariando minha vida, percebo que

ganhei muito mais que doei. Todos os ganhos foram dádivas de Marina.

limitações lhe permitem. As professoras de lá são maravilhosas, amorosas e, muitas vezes, surpreendentes quando apresentam, no espetáculo anual de encerramento, números artísticos de dança, canto e cada grupo com fantasias confeccionadas pela escola em colaboração com alunos,

Sonia Maria Silva Quintaneiro Cadeira número 8 Patrono José Lins do Rego

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BRASILÍNDIO fazia jus ao nome. Patriota doentio e consumado idiota. Não se conformava com os rumos por que seu país seguia. Era defensor ardoroso dos costumes e dos valores da pátria. Não usava nenhuma palavra estrangeira. Bebidas, só as nacionais. Exceto uísque, que deveria ser escocês, seu predileto. Brasilíndio era idiota, mas tinha bom gosto. Entretanto, Brasilíndio estava sozinho em sua empreitada. Pregava a xenofobia, panaceia para todos os males do país. Sua loucura tomou vulto numa noite de 31 de outubro. Era o Halloween. O filho único, assessorado pela mãe, fora à escola caracterizado de Drácula. Foi a gota d’água. Brasilíndio enfeitou-se de cocar, flecha, tanga, pintou o rosto com urucu, dirigiu-se ao Viaduto do Chá e pôs-se a discursar em altos brados. ARCA | 40

- Diletos ouvintes, ouvi minhas palavras. Não façais ouvidos moucos. Nossa pátria se desmorona pouco a pouco. Os vendilhões do Brasil escudam-se na modernidade e na globalização para justificar o entreguismo. Já se foram a Vale do Rio Doce, a Telefonia e tantas outras empresas nacionais a preço de nada. Brevemente a Petrobrás, o Banco do Brasil, até que tudo seja entregue. Anauê! - O neoliberalismo engole nosso solo, nossas riquezas naturais, nossa soberania e nossa dignidade. Anauê! - Se tudo isso já não bastasse, agora os alienígenas querem usurpar nossos costumes, nossos valores morais, nossa honra. Anauê! - Indigna-me ver nosso idioma relegado. Vede com os próprios olhos os cartazes nas avenidas, nas lojas, nos cinemas; os anúncios na televisão, nos jornais. Tudo é estrangeiro, é estranho, é ignóbil. Os alienígenas roubam-nos o maior patrimônio, a língua, marca da nacionalidade. - Donos de escolas, Português todos os dias letivos. Com professores capazes, conhecedores do idioma, e bem pagos. Desfraldai a bandeira brasileira toda semana. Cantai o Ouviram Do Ipiranga. Nacionalismo no povo. Anauê! Os transeuntes se aglomeravam, atônitos, ao redor do orador paranoico. E ele continuava o discurso com entusiasmo. - Preclaros amigos, onde estão nossas lendas, nossos folclores, nossos costumes, nossa cultura? - Urge ressuscitar Monteiro Lobato, Cornélio Pires, Martins Pena, Mário de Andrade,


BRASILÍNDIO, O IDIOTA (Escrita em 2.000)

Professores (com P maiúsculo), Diretores de Escolas (com D maiúsculo), Donos de Escolas (com E maiúsculo), porque renasçam as histórias de onças-pintadas, sacis-pererês, mulas-sem-cabeça, lobisomens, caiporas e quejandos. Implantem-se nas comunidades e escolas as manifestações artísticas aborígenes, como o catira, a capoeira, e outras mais. Abaixo o Halloween! Anauê! - Senhores líderes religiosos, em vez de desrespeitardes a lei do silêncio com alto-falantes ensurdecedores na madrugada, pregai o patriotismo. Lede a bíblia: a César o que é de César! Anauê! - Ó consumidores imbecis, para que não aumente o desemprego e a miséria, não compreis quinquilharias dos países asiáticos em prejuízo dos produtos nacionais. Anauê! (Aí os aplausos foram estrondosos, porque o povo gosta de ser chamado de imbecil). E a verborreia do Brasilíndio não tinha fim. Falava que falava. Sobre tudo e sobre todos. Nem os turistas escaparam. - E vós, turistas tolos, por que sentis prazer em viajar para o exterior? Apenas para levardes dólares aos mais ricos e contardes aos amigos: estive nos States, na Europa, na -; ou é vergonha do Brasil? Imposto em vós, esnobes! Anauê! Subitamente um fulgor surge no céu, e um raio em forma de flecha cintila no ar e atinge o lunático orador no peito. O corpo desfalecido tomba mortalmente no asfalto ardente e, pouco a pouco, desaparece. Todavia, uma figura diáfana aparece em seu lugar. Rosto disforme, barbas esquálidas, cabelos longos e brancos, formidável estatura, en-

volta em uma nuvem prateada, brilhante e transparente, a estranha criatura subia lentamente aos céus. Os circunstantes, aparvalhados, perplexos, assistiam a tudo estáticos, boquiabertos. Passado o impacto inicial, gritavam: - É um profeta!; - É João Batista pregando no deserto!; - É o Conselheiro querendo derrubar a República!; - É o cavaleiro da Esperança com sua mania de comunismo! Nos ares, ainda ecoavam as palavras da enigmática figura: - Malditos, entregastes tudo, mas nossa alma não vendereis. Abaixo o Halloween! Anauê! Inesperadamente, ouviu-se um BIG-PUM, e tudo se desfez. No mesmo instante, destaca-se dentre os espectadores um jovem tipicamente brasileiro: alto, bem nutrido, faces rosadas, cabelos cortados à moda militar. Após um momento de reflexão, sentencia: - Eu conhecer ele. Ele ser o idiota do Brasilíndio.

Dedico essa historinha à ínclita confreira Clineida Andrade Junqueira Jacomini, Rainha das cronistas.

Vedionil do Império Cadeira 41 Patrono Lima Barreto

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Na Trilha dos Incas

VIAJAR PARA O PERU e conhecer a cultura inca foi um sonho que ela acalentou por muitos anos. O Peru ainda não estava na moda e faltava companhia para a viagem. Até que, certo dia, em conversa numa roda de amigos, um deles concordou com ela que seria o máximo conhecer aquelas terras andinas. Marcaram a viagem. O roteiro escolhido fugia um pouco do tradicional, que ia direto para Lima e depois Machu Pichu. Eles iriam para La Paz na Bolívia e de lá seguiriam de ônibus pelos Andes até o Peru. Já que era para ser uma aventura, melhor escolher o roteiro mais imprevisível. Na véspera da viagem, a guia telefonou-lhes e pediu que levassem bastantes frutas e outras comidas, pois passariam o dia no deserto boliviano. Ela ficou meio assustada, mas, foram. Embarcaram para Santa Cruz de La Sierra e, de lá, tomaram uma conexão para La Paz. Ao desembarcarem em La Paz, uma surpresa... Um guia os esperava ainda na pista e aconselhava a todos que caminhassem devagar. Achou estranho, mas não demorou muito tempo para ela perceber que o ar rarefeito daquela altitude impossibilitava o andar apressado. Chegando à sala de desembarque do aeroporto, notou várias cabinas com cilindros de oxigênio e lá dentro alguns companheiros de viagem que precisaram ser socorridos. Ela e seu amigo, como estavam bem, ARCA | 42

foram direto para o ônibus que os aguardava. Chegando ao hotel, outra surpresa... um garçom esperava por eles na recepção com um bule de chá de coca. Logo explicaram que a coca em forma de infusão é o melhor medicamento para o mal estar causado pela altitude. Acima de 3.500 metros, com o ar rarefeito, torna-se necessário um tempo para que o organismo humano se adapte às condições desfavoráveis pela ausência de oxigênio. Na manhã seguinte, depois de uma noite estranha, pois a altitude causa desorientação, embarcaram em um ônibus – melhor dizer “jardineira” – e seguiram por estrada de terra batida, rumo ao deserto boliviano onde ficam as ruínas de Tiahuanaco, lugar muito interessante, pois trata-se de ruínas antiquíssimas, com mais de 20 mil anos, segundo os pesquisadores. No trajeto de La Paz até Tiahuanaco, podiam observar, ainda, as comunidades locais com seus distintos costumes e seus antigos trajes típicos, as tradicionais cholas (mulheres com traje típico) e o belíssimo artesanato da região, suas habitações, as áreas de cultivo e seus animais de criação, a cidade de El Alto, uma das mais altas do mundo. Está situada a 4.090 metros acima do nível do mar. Tiahuanaco está localizado a 70 km de La Paz, a uma altura de 3.845 metros de altitude.


Visitaram a Porta do Sol, as pirâmides semi-enterradas e partiram rumo a Puno no Peru. A jardineira só podia ir até a fronteira. Lá chegando, desembarcaram e atravessaram a fronteira a pé. Aproveitaram para fotografar o local e só depois ficaram sabendo que são proibidas fotos em fronteiras. Antes de embarcarem, ainda no Brasil, o agente de viagem tinha advertido que não comessem nada fora de restaurantes previamente indicados. Mas, logo depois da travessia, avistaram uma chola com um tacho enorme, cheio de milho cozido. A fome era tanta, que nem pestaneja-

ram. Comeram o milho, que estava uma delícia. Rumaram para o ônibus que estava à espera dos viajantes. Que delícia! Um ônibus de verdade!!! Construído no Brasil! Andaram uns 10 km e... O ônibus quebrou e não teve conserto. Tiveram que seguir em vans providenciadas às pressas, todo mundo apertado, as malas em cima, parecia um circo a caminho da cidade às margens do Lago Titicaca - Puno – que era o berço da civilização incaica. Conta a lenda que das águas do Titicaca o lago navegável mais alto do mundo para 3.815 metros acima do nível do mar e o segundo maior ARCA | 43


na América do Sul com 8.400 quilômetros quadrados de superfície - Manco Capac, o primeiro inca, emergiu dele para fundar um império como havia sido ordenado pelo Deus Sol. Dormiram às margens do Titicaca e logo pela manhã saíram para conhecer as Ilhas Flutuantes dos Uros. Embarcaram curiosos para chegar à ilha. Viajaram cerca de 30 minutos. Chegando à ilha foram fazer um pequeno passeio para conhecer os habitantes, seus costumes e sua forma de vida. Diz a história que os Uros habitam estas ilhas há centenas de anos e lá chegaram para se proteger da tribo Collas e dos incas que faziam ameaças às pessoas da região. Os homens da tribo de Uros souberam aproveitar a abundante cana de totora que existia na ilha, conseguiram grandes quantidades da cana e juntaram para formar as pequenas ilhas com plataformas. Também utilizaram este mesmo material para construir suas cabanas e embarcações, criando desta maneira seu próprio mundo. No dia seguinte, embarcaram rumo a Cuzco, num avião do “tempo da zagaia” de fabricação russa. Só tinha porta nos fundos. Tudo era velho no tal avião. Parecia ter saído direto da segunda guerra para o aeroporto de Puno. Sem alternativa, decolaram sobre os Andes e, nessa nave estranha, viajaram por três longas horas. À tardinha, chegaram a Cuzco, cidade localizada na parte sul do Peru, a 3.300 metros acima do nível do mar. Na bela cidade de Cuzco, vislumbram a cultura arqueológica deixadas pelos Incas. A cidade possui uma das Catedrais mais belas de toda América do Sul e um grande número de mosteiros e conventos desde a época colonial. Até hoje conserva a arte e toda beleza de sua época. É a porARCA | 44

ta de entrada para um dos lugares arqueológicos mais espetaculares existentes em todo continente, Machu Picchu. Aproveitaram para visitar todos os lugares sagrados da cidade. Ficaram encantados com tudo o que viram. Tiveram que se adaptar rapidamente a alguns costumes locais. Acostumarse, por exemplo, com o cheiro de querosene, pois eles não usam gás para cozinha e sim o querosene. Por causa da altitude, a comida demora a ficar pronta, pois pela falta de oxigênio a chama é muito fraca. Aprenderam a gostar de comer quinua, cereal típico andino. A gastronomia peruana é rica em batata, milho, feijão e carne. O refrigerante Inca Kola é a bebida nacional. E experimentaram Pisco Sauer (drink nacional feito de uva, batido com gelo, açúcar e clara de ovo). Viajaram de trem para conhecer Machu Pichu, pois esse é o único meio de transporte mecânico para aquela região de vales profundos e montanhas altíssimas. Outro meio é a caminhada através das trilhas incas. Na saída de Cuzco, a inacreditável subida do trem pela serra, fazendo muitas manobras para superar o morro. Desfrutaram de uma bonita viagem, atravessando o belo Vale Sagrado dos Incas. A viagem durou cerca de 4 horas seguindo o curso do rio Urubamba. O trem subiu até 2.100m de altitude acima do nível do mar. Sem dúvida alguma este foi um dos passeios mais espetaculares que eles fizeram nessa viagem ao Peru. Chegando ao vale embarcaram num ônibus, num trajeto que durou mais ou menos 20 minutos e vislumbrando uma paisagem fantástica, subindo em zigue-zague e com visão plena das gigantescas montanhas que rodeiam Machu Picchu. Finalmente, chegaram ao místico local


que fica no topo de uma montanha, entre outros picos com florestas. A cidade mística parecia que flutuava entre as nuvens. Tem apenas 200 casas, sugerindo que teve uma população de aproximadamente mil pessoas. Machu Pichu foi construída a 2.400 metros de altitude e está localizada bem no meio dos Andes, no centro-sul do Peru. Descoberta em 1911 pelo historiador americano Hiram Bingham, é considerada “Patrimônio Cultural da Humanidade”. É uma cidade inteiramente construída de pedras, sem a utilização de cimento ou qualquer tipo de argamassa. Ficaram hospedados em um hotel encravado na mata amazônica, na base da montanha, num povoado chamado Águas Callientes. À noite, aproveitaram para conhecer o banho termal. Foi uma experiência e tanto. A água nascia a mais ou menos 40 graus. Depois de algum tempo naquela temperatura, todos saíam da piscina e tomavam uma ducha quase a zero grau, com água do degelo dos Andes. E voltavam para a piscina com água aquecida. Sentiram um incrível bem-estar. Retornaram a Cuzco e embarcaram de volta a Puno, para conhecerem a Ilha Taquille, bem no meio do Lago Titicaca. A viagem foi bem mais longa do que imaginavam. O barco era pequeno sem nenhum conforto. Ao desembarcarem, começou uma série de problemas. O sol estava no ocaso e logo escureceria. De onde desembarcaram até o alto da ilha, havia uma escada de pedras muito íngreme e perigosa. Começaram a subir. Logo depois, com o ar rarefeito, um grupo ficou para trás. Aqueles que tinham maiores problemas de locomoção, os moradores do lugar colocaram nos ombros e sumiam naquelas alturas. Estavam num grupo de trinta pessoas. Dez delas não con-

seguiam subir e algumas se sentiram muito mal. Onde estava o guia? Tinha desaparecido montanha acima. Olhavam para baixo e o barco já tinha ido embora. Começaram a sentir frio e acharam que jamais conseguiriam subir. Ela e seu amigo voltaram para socorrer os aflitos e acalmando-os foram subindo lentamente... Quando chegaram à pousada, já era noite. Fazia muito frio. No local não havia luz elétrica. Não havia nenhum conforto. Tudo era extremamente simples e rústico. Ali passaram a noite. Dormiram num alojamento no fundo do quintal, num local próximo ao galinheiro. Pela manhã, conheceram o lugar mas estavam tão aflitos com a experiência da noite anterior que nem tiveram prazer em ouvir um xamã contar a história da ilha. Ficaram sem banho e viajaram dois dias com a roupa do corpo. Quando embarcaram com destino a La Paz, para a viagem de retorno, nem acreditavam que tinham vivido tantas aventuras em tão pouco tempo. Foi uma viagem inesquecível para eles. Conheceram e vivenciaram a cultura inca.

Neusa Maria Soares de Menezes Cadeira 30 Patrono Euclides da Cunha

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Minha Querida Amiga

ANTES DE TUDO agradeço a maravilhosa oportunidade que você - me – nos deu oferecendo sua majestosa casa para nos reunirmos em torno da obra incrível de G.R. Já escrevi no Face p a Bete e para quem tem uma página ali, mas para vc tenho q escrever e enviar de outro modo. Tivesse coragem, envelope e selo escreveria até uma carta, epistolar q sempre fui! Rs rs. Foi uma tarde maravilhosa! Tudo bom! Seu requinte ao nos servir, sua casa, móveis, limpeza, perfeição em tudo, tudo! Não poderia deixar de escrever sobre isso! Minha casa, depois q vi a sua, ficou tão velha, antiga, deteriorada, suja.... Mas é lógico, cada um na sua situação, não é? Minha sujeira nunca é sutil: um pozinho aqui, outro lá... Alguma louça para lavar, planta para ser regada, algo a ser guardado, organizado.... Não!! Aqui na fazendo tudo é antigo, mais de 100 anos; qdo mais recente, uns 70. Meu assoalho está manchado, precisando de uma raspagem, de alguma cera mágica que lhe encubra a feiura... Meu filho entra com a botina suja de terra, deixando ene pedacinhos de barro; meus terraços amanhecem com uma enxurrada de folhas trazidas pelo vento da noite e da manhã; as árvores sujam durante todo o ano: qdo não folhas, frutas, flores e cascas... Meus banheiros, até (acho!) por causa da mineralização de nossa ARCA | 46

água são todos manchados; remendos de anos de consertos nas paredes... Ninhos de mamangavas, marimbondos e andorinhas nos telhados e soleiras das portas; pé direito altíssimo sem condições de serem limpos. Aliás, hoje meu filho matou os marimbondos e limpou os citados ninhos... Vamos ver até quando! Minha cozinha tem um forro vazado e o que cai de picumã e sujeira ninguém consegue imaginar. Não tenho exaustor; então fica logo tudo repleto da gordura pegajosa, ainda que eu Nunca faça bifes rs rs. Pouca gente para ajudar, 3 cachorros arteiros, um gato chato, passarinhos, uma arara, galinhas, patos, 3 sapos, inúmeras lagartixas que não conseguem comer as milhares de aranhas e aranhinhas, de plantas, as verdes e da casa, escurinhas.... Brinquedos de netos por todos os lados... Roupas dependuradas: de trabalho, de sair, de passear... Pijamas idem: para as noites quentes, mornas e frias... Papeis de toda sorte em cima de uns 4 móveis ... Plantas, mil plantas para serem aguadas, limpas e reformadas... Objetos para serem consertados (rotulo-me de artesã consertadeira; não jogo nada fora!!) Bem, será que, como todos meus amigos me dizem quanto ao que escrevo: dá para visualizar direitinho o que vc escreve! Será que vc conseguiu ‘enxergar’ minha casa? Compará-la à


perfeição da sua é uma aventura diria dantesca e desproposital! Caso não tenha conseguido, venha-me visitar para constatar a triste veracidade de minha morada (e considerada linda por todos! Pode?). Será um prazer enorme recebê-la (e ao Emerson), já que vc está mais ociosa ultimamente. Apareçam! Só numa coisa estou levando vantagem: meu piano é um pouco mais afinado que o seu! Rsrsrsrs Mas não faria mais bonito do que fez comigo tocando! Mais uma vez muito obrigada por vc ser quem é, gostar de mim, (sinto isso!), me convidar para o seu convívio (pelo menos uma vez por ano,

no seu aniversário sempre festivo!Rsrsrs) e, vivendo numa casa tão linda, abri-la para quem gosta de livros, autores, cultura, música e amigas com tudo isso em comum. Abcs.

Clineida A. Junqueira Jacomini Cadeira nº 43 Patrono Rubem Braga

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ACADEMIA DE LETRAS DE SÃO JOÃO DA BOA VISTA

45 anos Devaneio Quero fruir, contigo, a colorida Imagem da natura: os tons florais da tarde estertorante, enlanguescida; a prima luz da aurora nos rosais; a ânsia do ascenso, a fuga da descida. . . E ao eflúvio dos cálices liriais, ver de ninfa a um bando em divertida ciranda, ao sal as formas virginais; Voar, contigo, o vôo das narcejas; colher estrelas — rúbidas cerejas; dizer tolices e preceitos sábios . . . E, à relva — uma almofada esmeraldina — enlear-te, ao som de doce cavatina, a rimar os meus lábios com. teus lábios. . .

Fábio Carvalho Noronha (In Memoriam) Cadeira nº 17 Patrono Francisco Paschoal

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FURLANETTO

No velho barracão, lá na Avenida, Um gênio trabalhava, lentamente: Era um labor glorioso, diferente, Criador de emoções, poesia e vida. Quem vai ao cemitério se enternece Ante a beleza em túmulos plasmada, Que as mãos de Furlanetto, — a mente eivada De sonhos, — esculpiu, como uma prece. Não mais veremos obras semelhantes, De quem floriu enlevo, em toda parte, — Fagulhas de primores, cintilantes; E no esplendor da inspiração mais pura Vibrando o coração no amor à Arte Cristalizou milagres na escultura.

Emilio Lansac Tôha (In Memoriam) Cadeira 9 Patrono Raul de Leoni

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Gosto da tarde, quando o lindo sol radioso vai tombar, todo vaidoso, e no horizonte se esconder... e as brancas nuvens de doirado vão tingindo, como poeira de ouro, caindo em São João ao entardecer...

(trecho da canção “MEU SÃO JOÃO”, de Edivina Noronha Andrade (In memoriam) Membro Honorária da Academia de Letras de São João da Boa Vista)

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Aqui Aconteço... Revista ARCA Lançamento da Sétima Edição O LANÇAMENTO da 7ª ARCA, edição especial, pelos 45 anos da Academia de Letras, aconteceu em junho, mês de comemoração dos 195 anos de São João. Nesse dia especial, a Academia de Letras recebeu o Grupo Cena IV Shakspeare e Cia., numa belíssima performance. Também aconteceu a declamação de poemas pela Acadêmica Correspondente Lucila Martarelo Astolpho. Nessa edição, textos e fotos recordam a passagem do tempo, mostrando o trabalho da Instituição com esmero no cultivo a língua pátria. A revista também pode ser vista pela internet, em nosso sitio: www.alsjbv.art.br

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Posse de Susana Vasconcellos Dias

EM 09 DE JULHO, feriado constituciona-

lista, tomou posse na Academia de Letras, para ocupar a Cadeira 25, patrono Manuel Bandeira, Susana de Vasconcellos Dias.

O Confrade Francisco Arten fez a apresen-

tação da neoacadêmica. Luis Nassif e Luis Carlos Pistelli, músicos, abrilhantaram o início de noite rememorando com Susana e com os amigos presentes a juventude deles com músicas da época.

Susana fez apresentação de tema livre. Es-

colheu para falar do patrono de sua cadeira, pelos 130 anos de seu nascimento.

Ao final do evento, serviu aos seus convi-

dados coquetel na plataforma da Estação.

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XXIV Concurso Literário de Poesia e Prosa

O CONCURSO Literário de Poesia e Prosa

deste ano, com premiação em 27 de agosto, contou com a coordenação da acadêmica Carmen Lia Batista Botelho Romano e com a coordenação adjunta da acadêmica Maria Ignez D´Ávila Ribeiro. Foram 755 inscritos, sendo que 90% deles com participação nas duas categorias (poesia e prosa). Portanto, um total de 1.359 trabalhos inscritos. As duas coordenadoras contaram, ainda, com a participação da acadêmica Neusa Menezes na elaboração da antologia e certificado. A Patrona do concurso, a acadêmica Maria Célia de Campos Marcondes, em sua fala, enalteceu as mulheres, especialmente as mais antigas acadêmicas da Arcádia. O evento foi abrilhantado com a palestra do cineasta e produtor audiovisual David Ribeiro que falou sobre “A literatura do cinema nos quadrinhos”.

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A Volta de

Orides Fontela

UM SÁBADO histórico!

Exitosa parceria entre o Centro Univer-

sitário UniFAE e a Academia de Letras de São João da Boa Vista. A poeta Orides Fontela está de volta!

O cortejo de suas cinzas saiu da Academia

de Letras, percorreu a cidade e chegou à UNIFAE, sábado, dia 03 de setembro, com inauguração do Memorial Orides Fontela, onde repousam as cinzas da poeta, suas obras e sua história.

Um marco para que a cidade seja cada vez

mais difusora da obra dela e um polo que atraia admiradores da sua poesia de todos os cantos do país. Razão pela qual, as duas instituições trouxeram o Prof. Dr. Gustavo de Castro, da UnB, autor da obra “O Enigma Orides” para ministrar oficinas aos professores da cidade, com objetivo que conheçam mais profundo as obras da poeta e levem para a sala de aula e sala de leitura os conhecimentos adquiridos nos quatro intensos dias de estudos e homenagens prestados a esta que é um dos maiores nomes da poesia brasileira.

A partir da inauguração a sala está à dispo-

sição para visitações e estudos

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8º Concurso Redação na Escola

EM 26 DE OUTUBRO, na S.E.S., às 20h, aconteceu a premiação do 8º Concurso “Redação na Escola” com o tema “Cidadania: Ação e Solidariedade”. A Academia de Letras de São João da Boa Vista premiou 48 alunos, deste projeto que envolve todas as escolas de São João, desde o 1º ano do ensino fundamental ao 3º ano do ensino médio. Os estudantes receberam certificado e 10 antologias, com os textos e desenhos premiados, os quais eles autografaram aos mais de 500 convidados. O patrocínio do “Redação na Escola” é da Sequoia Loteamentos e os apoiadores são: SES; Faça Festa; Sempre Vale Supermercados; TV União; E.E. Cel. Joaquim José. O Juiz de Direito, Osmar Marcello Jr., esteve presente, por convite da presidente Lucelena Maia, e foi convidado a falar sobre Cidadania: Ação e Solidariedade. O Prefeito Vanderlei Borges e a representante da Sequoia, Sra. Diva Barth, também fizeram uso da palavra. A Presidente Lucelena Maia foi homenageada, com um ramalhete de rosas, pelos trabalhos desenvolvidos na Arcádia durante as duas gestões, especialmente pelos oito anos à frente deste projeto. Quem teve a iniciativa da homenagem foi a acadêmica e Coordenadora do Concurso, Neusa Menezes.

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Documentário: “ACADEMIA DE LETRAS - 45 anos” e

Lançamento do “Álbum de Figurinhas Carimbadas” EVENTO memorável! Noite inesquecível! Theatro lotado! Comemoração em grande estilo e com muita pompa foi o resultado do evento acontecido no dia 15 de novembro, às 19h30, exatos 45 anos da fundação da Arcádia, com apresentação do Documentário: “Academia de Letras 45 anos”, seguido da honrosa presença da membro correspondente Lucila Martarello Astolpho que subiu ao palco e declamou emocionando a todos. Na sequência, lançamento do “Álbum de Figurinhas Carimbadas”, composto por micro biografias e fotos de personagens de São João da Boa Vista, resultado de longa pesquisa, produzida pela Academia de Letras com um olhar especial sobre a trajetória histórica, socioeconômica e cultural da cidade. “Figuras carimbadas” moduladas ao perfil do relevante serviço prestado à comunidade ou porque simplesmente a alma sanjoanense e o carisma tornaram-nas pessoas inesquecíveis. Ao final, apresentação musical com o Grupo Canto e Corda. Equipe editorial: Lucelena Maia, Silvia Ferrante, Josiane Borges, Eduardo Menezes Apresentação: Jornalista Fabiana Gimenes e a Presidente Lucelena Maia Documentário produzido por Pixel Love (Eduardo Menezes), com o patrocínio da UNIFEOB Show Musical: Grupo Canto e Corda apresentando “100 Anos de Samba”

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Sopa de Letras Restaurante Escondido

UM JUDEU paulistano capturado pelos

Noite destas, tive a sorte de ser um dos fre-

encantos geográficos do torrão platino-pratense.

quentadores do lugar. Fui, vi, comi e adorei o con-

O cara é Michel Zimberknopf, ou só Michel Zim-

junto da obra: pessoas, receptividade, atmosfera,

ber para economizar consoantes e tornar o nome

natureza, minúcias e, claro, a comida.

de família mais pronunciável.

Ele trabalha com desenvolvimento de sis-

a esposa Valéria Manco, mulher cativante, prova

temas e não foge de ter comprometimentos sociais

que não foram só geográficos os encantos que se-

na comunidade onde vive. Nos bons combates por

guraram Michel no pedaço.

Águas da Prata e pela Fonte Platina, Michel está

sempre nas trincheiras dos aldeões de boa vonta-

homus, couscous marroquino, arroz com macar-

de. Ele fala, mobiliza e faz!

rão rosmarinho, etc.— permeado pelos excepcio-

Restaurante Escondido é um conceito em

nais ovinos do renomado criador sanjoanense Isa-

que chefs e/ou cozinheiros diletantes abrem suas

ías Valim que, diga-se, foi nosso companheiro de

casas para grupos pequenos de comensais. Cardá-

esbórnia no evento.

pios sedutores, cozinhas domésticas e ambientes

informais juntam afins em torno da mesa. Ali, co-

pa desossada, recheada com tâmaras, temperada

mer é tão importante quanto prosear e cambiar

com especiarias e assada em fogo brando por mais

experiências.

de quatro horas. Defumado, o cordeiro também

reinou nos antepastos em suculentas peças de

No refúgio Bom Retiro, a acolhedora pro-

Assessorando full-time o marido anfitrião,

O menu do encontro foi árabe - falafel,

A carne de cordeiro do jantar foi uma garu-

priedade de Michel na região, ele, exímio piloto

pernil e costela.

de fogão, eventualmente recebe convidados no

seu Restaurante Escondido. Entusiasta da ideia,

mesa. A compota - ou kompott - de frutas é receita

Michel também é incentivador para que outros

da mãe Zimberknopf. Damasco, tâmara, ameixa,

façam o mesmo nas suas moradas.

uva-passa, mamão, abacaxi, cravo, canela,gengibre

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Merecedora de menção: ela, linda, a sobre-


e sucos de laranja e de limão, servida harmoniosa-

mente com sorvete de creme.

da não pode ser reproduzido por imagens.

O arremate? Licores artesanais, produção

da casa, de jabuticaba e pitanga.

Sorry!, o sabor maiúsculo do repasto ain-

A foto que ilustra este texto retrata o capri-

cho de Michel e Valéria nos detalhes.

Lauro Augusto Bittencourt Borges Cadeira 20 Patrono Castro Alves

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Afiando a Língua De Juizecos e Chefetes EM TEMPOS turbulentos pelos quais nosso país passa, uma questão linguística me chamou atenção nos noticiários, quando da prisão de policiais legislativos na Operação Métis. Deixando de lado o aspecto político da questão, mesmo porque não me aventuro em águas turvas e que não domino, ative-me aos termos utilizados pelo Sr. Presidente do Senado quando, referindo-se ao juiz que autorizou tal ação, classificou-o de “juizeco de primeira instância”. As imprecações não pararam por aí. Dirigiuse ainda ao Ministro da Justiça como um “chefete de polícia”. Se olharmos sob o aspecto gramatical, sabemos que os substantivos podem apresentar, além das flexões de gênero e número, flexões de grau. É o que ocorre nos exemplos acima com os substantivos “juiz” e “chefe”, usados no diminutivo. Bons tempos eram aqueles em que o diminutivo era utilizado, ou para indicar um ser em sua forma diminuta, ou para indicar afetividade! A ideia de carinho que alguns encerram, remonta ARCA | 68

ao próprio latim. Quanto não usamos destas formas para nos dirigirmos aos entes queridos e coisas de que gostamos! Quanto dizemos: paizinho, Joãozito, cafezinho, amoreco etc.! Porém, devido aos mecanismos da linguagem, outros aspectos linguísticos foram surgindo, dada a necessidade dos sujeitos falantes, criando, assim, diversos significados a um mesmo vocábulo. Carlos Drummond de Andrade tem um belíssimo texto cujo titulo é “Antigamente” (recomendo a quem não o conhece), em que fala sobre o uso e desuso das palavras e sobre os “desgastes“ sofridos por elas, provocados pela própria evolução (será?) humana. É o que acontece, atualmente, com o grau de certas palavras que perderam o sentido de tamanho e passaram a adquirir sentidos diversos. Quem se lembra de que a palavra pastilha é diminutivo de pasta? Que folhetim é de folha? Que nódulo é de nó? Ou que “fascículo” é diminutivo erudito de feixe? E que esse mesmo radical está presente na palavra “fascismo”, assim associada aos feixes


empunhados pelos magistrados romanos, simbolizando a força e, coincidentemente, usada por esse mesmo senhor Presidente do Senado sobre a atuação da PF. Outro aspecto interessante é que nossos enunciados carregam uma carga semântica que revela, não só o significado dicionarizado das palavras, como também valores e intencionalidade. E um dos procedimentos mais comuns para acrescentar esses valores e intenções ao nosso discurso é a utilização de sufixos diminutivos e aumentativos. Assim, alguns sufixos assumiram sentido pejorativo. À ideia de pequenez associou-se a de ridículo. É o que ocorre com estes termos “juizeco” e “chefete” em sua forma diminuta (diminutivo sintético, gramaticalmente falando). A eles foram acrescentados sufixos que, em sua origem seriam para indicar o diminutivo; no entanto, deu-se a

esses vocábulos uma carga valorativa, deixando clara a intenção do falante. Um olhar mais acurado possibilita outras leituras... Quiçá chegue um tempo em que possamos usar todas as palavras em seu devido sentido, em que ao nos referirmos ao nosso país e suas inúmeras capacidades possamos dizer: Esse Brasilzão tem um presidentaço e todos somos representados por uns homenzarrões digníssimos e honestos! Quiçá...

Maria José Gargantini Moreira Cadeira 39 Patrona Clarice Lispector

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Livros

CONVIDADA pela nossa Presidente Lucelena Maia a exercer a difícil tarefa de passar ao leitor indicações de alguns livros que de certa forma me marcaram, aqui vão algumas sugestões: DE AMOR E TREVAS – AMÓS OZ De Amor e Trevas é a história de um menino que cresce numa Jerusalém devastada pela guerra, num pequeno apartamento cheio de livros e de parentes que falam diversas línguas. Obra que fala sobre as origens da família de Amós e também os caminhos percorridos por Israel no sec. XX, da diáspora à fundação de uma nação. Amós é um garoto observador e, sendo criado em uma família que preza o crescimento intelectual, consegue se comunicar em vários idiomas, tem conhecimento de literatura e política muito avançados pela idade que possui. Torna-se o escritor mais influente de seu país, escrevendo com tanta compaixão e clareza sobre as agruras presentes e passadas de Israel. A grandeza da obra – De Amor e Trevas está na simplicidade da narrativa. É um livro denARCA | 70

so que prende a atenção do leitor levando-o a vivenciar juntamente com o autor os caminhos percorridos pelo seu povo até a criação do Estado de Israel. A história transformou-se em filme lançado em Israel em 2015 e, em 2016, no Brasil. Shakespeare 400 anos: um olhar brasileiro O MUNDO É UM PALCO O mundo é um Palco chegou às minhas mãos através do amigo José Ernesto Bologna, um dos autores que me presenteou com a obra que reúne ensaios estudiosos do “pai do teatro ocidental” em homenagem ao aniversário dos 400 anos de sua morte. Escrito por Fernanda Montenegro, Gustavo Franco, Liana Leão, Joaquim Falcão, José Roberto de Castro Neves, José Ernesto Bologna e Theófilo Silva, com o prefácio do jornalista Pedro Bial. Grandes leitores, admiradores e conhecedores da obra de Shakespeare, eles nos levam a pensar o momento atual do Brasil, à luz dos textos desse importante dramaturgo, fazendo um paralelo entre os temas tratados em suas peças de teatro e a nossa realidade política atual. José Ernesto Bologna, no seu texto “Lições morais do amanhecer”, vai analisar o valor da ori-


gem e da tradição na formação de lideranças; procura mostrar através dos temas tratados na obra de Shakespeare que vivemos onde as origens tendem a ser mal vistas, onde se despreza a tradição, se confunde a ignorância com inocente honestidade, lugar onde “não ser” veio a tornar-se uma forma de poder, onde parecem que as heranças são malditas, onde a cultura é desprezada como um bem a ponto de “tanto ver triunfar as nulidades”. O texto nos faz refletir sobre nossa realidade política atual, traçando um paralelo entre os personagens criados por Shakespeare e seus clones de hoje. O AMOR NOS TEMPOS DO CÓLERA O amor nos tempos do cólera de Gabriel Garcia Marques, considerado um dos autores mais importante do séc. XX relata a verdadeira história de paixão de seu pai Gabriel por Luiza sua mãe. O Pai dela reprova a relação e conspira através do distanciamento de ambos. O livro conta a história do amor do telegrafista, violinista e poeta por uma respeitável donzela de família. A paixão é mantida no anonimato por algum tempo, Lorenzo, o pai, descobre e envia sua filha a uma viagem de um ano na tentativa de fazê-la esquecer. Quando retorna, a moça casa-se com outro, considerado um “bom partido”. História sobre o amor, o envelhecimento e a morte, levando-nos a refletir sobre esses temas. Com linguagem bastante simples, prende a atenção do leitor e o coloca dentro do enredo vivenciando juntamente com os personagens o desenrolar dos fatos.

O DIÁRIO DE ANNE FRANK Publicado originalmente em 1947, seis décadas após ter sido escrito, por decisão de seu pai o diário é finalmente publicado na íntegra. Escrito por Annelies Marie Frank entre 12 de junho de 1942 e 1 de agosto de 1944, durante a segunda guerra mundial. Em junho de 1942, Anne escondeu-se com sua família e outros judeus num lugar secreto junto ao escritório de seu pai em Amsterdam durante a ocupação nazista. Com treze anos de idade conta em seu diário sua vida antes do confinamento e depois, narrando momentos vivenciados pelo grupo de pessoas confinadas com sua família. É um dos relatos mais impressionantes das atrocidades e horrores cometidos contra os judeus na segunda guerra mundial. De uma linguagem acessível “escrito por uma adolescente” o livro nos leva a uma maior compreensão da vida e a luta do ser humano contra a opressão e a injustiça.

Maria Ignez D’Ávila Ribeiro Cadeira 07 Patrono Coelho Neto

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Diplomação dos Acadêmicos em 15 de novembro de 1971, na sede social da Sociedade Esportiva Sanjoanense- SES ABERTA A SESSÃO pelo 1º vice-presidente Dr. Octávio Silva Bastos, em breve discurso declarou instalada a Academia de Letras de São João da Boa Vista, passando a seguir a palavra ao 2º vice-presidente prof. Octávio Pereira Leite, que fez o histórico do nascimento da ideia da criação de nossa Academia e de como se haviam desenvolvido os trabalhos primordiais de sua organização, até aquele momento. A seguir, o sr. Dr. Octávio da Silva Bastos chamou e diplomou solenemente o primeiro acadêmico Dom Tomás Vaquero, presidente eleito da nossa Academia de Letras passando-lhe imediatamente a presidência da mesa e dos trabalhos. O Reitor da Universidade Católica de Campinas, Prof. Benedito José Barreto Fonseca, proferiu memorável palestra. Diversas poesias foram declamadas inclusive o “Navio Negreiro”, poema épico de Castro Alves, interpretado pela Professora Lucila Martarello Astolpho.

2º Vice-Presidente Prof. Octávio Pereira Leite lê o histórico da fundação

Fala do Acadêmico Paranhos Siqueira

1º Vice-Presidente Octávio da Silva Bastos declara instalada a ALSJBV

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ACADEMIA DE LETRAS DE SÃO JOÃO DA BOA VISTA

45 anos

Octávio da Silva Bastos entrega o diploma ao Presidente D. Tomás Vaquero

Mesa Diretora

Locução do Prefeito Oscar Pirajá Martins

O Acadêmico Plinio Silva faz seu discurso

O Presidente Dom Tomás Vaquero faz a oração inaugural

Fala memorável do Acadêmico Prof. Benedito José Barreto Fonseca

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Jornalista Responsável: Francisco de Assis Carvalho Arten Projeto Gráfico: Fernanda Buga Edição: Neusa Menezes Gerência Administrativa e Financeira: Lucelena Maia Distribuição: Academia de Letras de São João da Boa Vista Revisão: Antônio “Nino” Barbin e Vedionil do Império

Academia de Letras Presidente Lucelena Maia 1º Vice Presidente Antonio Carlos Rodrigues Lorette 1ª Secretária Silvia Tereza Ferrante Marcos de Lima 2ª Secretária Carmem Lia Batista Botelho Romano 1º Tesoureiro Lauro Augusto Bittencourt Borges 2ª Tesoureira Vânia Gonçalves Noronha

FOTOS: Silvia Ferrante Páginas: 25,27, 28, 32, 37, 38, 45, 67 Davis Carvalho: Páginas:18,19 20, 21, 48, 49, 50, 51, 52, 53, 56, 57, 58, 59, 60, 61, 62, 63 Eduardo Menezes: Páginas: 2, 46 Lauro Borges: Páginas: 10, 65 Josiane Borges: Página 2 Júlio Lima: Página 2 Internet: 12, 34, 41, 68, 69 Acervo Neusa Menezes Páginas: 15, 16, 29 Acervo da Família Biazzo: Páginas: 4, 6, 7, 9 Acervo Academia de Letras Páginas: 70,71 Acervo Unifae: Páginas: 2, 54, 55 Acervo TV União: Página: 2 Acervo Aldeia Criativa Páginas: 22, 48

Contato Praça Rui Barbosa, 41 - Largo da Estação 13870-269 - São João da Boa Vista-SP academiadeletras@alsjbv.com.br www.alsjbv.art.br

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Dezembro de 2016

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fotografia de capa Aldeia Criativa

8ª Edição Revista ARCA