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Imóveis 1

O ESTADO DE S. PAULO

DOMINGO, 28 DE NOVEMBRO DE 2010

CLASSIFICADOS

Reportagem da capa

De onde vem a planta da casa em que moramos

NA CONTRAMÃO DO TRADICIONAL DIVULGAÇÃO

Para arquitetos, a vida moderna já não ‘cabe’ nos imóveis oferecidos pelo mercado atual Lilian Primi

Por que as plantas são como são? Quem foi que dividiu nossas casas em área social, íntima e de serviço? Dedicados ao estudo da habitação contemporânea, os pesquisadores do Núcleo de Estudos de Habitares Interativos (Nomads.usp), da Faculdade de Arquitetura da Universidade de São Paulo em São Carlos, afirmam que essa divisão é a mesma usada nas casas dos nobres e da alta burguesia do século 17. “A família nuclear com pai, mãeefilhosjáeramenosdametade em 2005”, afirma o arquiteto Fábio Queiroz, do Nomads. A Síntese dos Indicadores Sociais do Instituto Brasileiro de Geografia eEstatística (IBGE)revela que, entre 1995 e 2005, na Região Sudeste, o porcentual de famílias com essa formação caiu de 56,6% para 48,5%. “Tivemos aindaumarevoluçãonasrelaçõesfamiliaresenoscostumes,enquanto as plantas continuam obedecendoaomodelo consolidadona Belle Époque (fim do século 19 até a 1ª Guerra Mundial)”, conta. Esse modelo segue os padrões de comportamento da época: de negaçãodarua,emqueafamíliae as mulheres viviam isoladas do convívio com estranhos e os empregados deveriam cumprir suas tarefas sem incomodar. “A origem da copa vem desse costume. Em francês, se chama ‘office’ e era o cômodo de ligação entre a áreadafamíliaeadeserviços,chamada de área de rejeição”, explica Queiróz. Apenas a dona da casa se dirigia ao local, para dar ordens ao empregado mais graduado, e jamais entrava na área de rejeição – a dos trabalhadores. A posição da copa entre a área deserviçoeasaladeestarsemantém até os nossos dias. “Hoje, já não é mais comum separar a sala de jantar da de estar, mas o desenho continua o mesmo. A cozinhaouestánosfundosdoapartamentoou emum corredore sempreterminanaáreadeserviço.Só que hoje, cozinhar não é mais uma atividade cotidiana”, diz. Com a entrada da mulher no mercado de trabalho, o almoço cotidiano acontece cada vez mais na rua e se deixa para cozinhar nos finais de semana, como uma forma de convívio com a família e amigos. “A moda gourmet surge dessa mudança, assim comoas cozinhas integradas e as

varandas gourmets. Mas essa é uma solução mercadológica, pois a sua localização na planta não muda”, diz. A cozinha integrada, ou de Frankfurt,éresultado deumarevisão da cozinha ocorrida na Europa com o movimento moderno. “É compacta, prática e fica no centro da casa. Inclui quem está cozinhando, que pode controlar o movimento da casa.”

Holanda. Edifícios do arquiteto Neutelings Riedijk sobre a linha d’água do lago de Huizen: grandes aberturas para a luz DIVULGAÇÃO

DIVULGAÇÃO

Copenhagen. Todos os apartamentos deste prédio têm altura dupla ao norte, e ampla vista panorâmica para o sul. Projeto da VM Houses

Marketing. Sobre as varandas

gourmets, Queiróz afirma: “Ter um espaço aberto e amplo, equipado para receber os amigos, é um dos mais caros desejos da grande maioria dos compradores. Nos apartamentos-modelo, essasvarandassãodecoradas para seduzir o cliente, mas dificilmente irão cumprir esse papel”, garante o pesquisador. Segundo Queiróz, a decoraçãoemgeralusamateriaisdeacabamento e equipamentos de altíssimo padrão em unidades voltadas para um público, no máximo, de classe média, que não terá condições de montá-la daquela maneira. “Além disso, em São Paulo há o problema da fuligem e do barulho e também da vista, que na maioria das vezes não é agradável”, afirma. O resultado équeocomprador acabafechandoavaranda, o quealém deilegal pode criar problemas de ventilação, reduzindo a qualidade da moradia. “E aquele desejo permanece um sonho.” O arquiteto diz que a varanda é uma jogada de marketing porque a verdadeira razão da sua existência nos projetos modernos é uma questão de mercado. “O código de obras de São Paulo não considera a metragem da varanda como área útil para os cálculos de aproveitamento do terreno. Assim, se ela tem 25 m², a cada dez unidades ganham-se 250 metros quadrados de área possível”, explica. Em prédios com apartamentos de 50 metros quadrados, isso significa quatro unidades a mais. Éprecisoressaltarqueofechamento desse espaço é ilegal e pode gerar multas e uma ordem de abri-la novamente, caso o imóvelsejaalvodevistoriados técnicos da Prefeitura. “Só que raramente isso acontece e muitos corretoresusamessapossibilidade, de aumentar os espaços fechando a varanda, como argumento de venda”, conta.

No Japão. Na cidade de Osaka, Osaka Gas - NexT 21 Project propõe um conjunto com diferentes tipos de unidades DIVULGAÇÃO

Amsterdan. Projeto do escritório MVRDV, com sede em Rotterdam e formado pelos arquitetos Winy Maas, Jacob van Rijs e Nathalie de Vries Encontrar um desenho que atenda às necessidades atuais da família e se enquadre nas condições do mercado, com restrições de custo e de espaço, é o maior desafio da arquitetura, na opinião de Fábio Queiróz, pesquisador do Nomads.usp. Mudança. “A estrutura oitocen-

tista não funciona numa área tão pequena. O quarto hoje tem que abrigar TV, computador, mesa de estudo, além da cama e isso é inviável em seis metros quadrados, que é a metragem média dos projetos”, afirma. Omesmoocorrecomobanheiro, hoje confinado em 1,5 metro quadrado, insuficiente até mesmo para a sua função básica. “E as pessoas gostam de se trocar e searrumar nobanheiro, quepara isso deve guardar uma série de

equipamentos e materiais.” Queiróz propõe a criação de espaços com vários usos, o que pode ser facilitado com a adoção de modernos sistemas de automação. “É possível criar um projeto que proponha o uso de painéis móveis, por exemplo, e testar a posição da cozinha. O problemaéqueomercadotemresistência, pois teme ter dificuldades na venda”, diz. Segundo o arquiteto, essas experiênciassãomaiscomunsnoexterior(algumasdelas ilustramessa página), inclusive para habitações populares. “No Brasil, temosapenas experiências de flexibilização de plantas, que não mudamuitacoisa,poisoespaçoépequeno. Não dá para fugir do padrão em 70, 50 metros quadrados”,diz. A casados sonhos ainda permanece um sonho./L.P.

Construtores rebatem críticas ao mercado ● O diretor de economia e presi-

dente do conselho consultivo do Sindicato da Indústria da Construção de São Paulo (SindusconSP), Eduardo Zaidan, rebate as críticas dos pesquisadores do Nomads à produção do mercado imobiliário paulistano. “A academia é importante e deve ser considerada, porém não obedecida. Ela está muito à frente.” Para Zaidan, essa não é uma questão trivial. “Envolve questões demográficas, econômicas, de comportamento, mercadológi-

cas e legais. A resposta de US$ 5 milhões é qual é o produto dos sonhos do cidadão”, diz. Um desejo que segundo Zaidan, varia às vezes entre uma rua e outra. “O brasileiro é conservador. Existem famílias que querem a planta convencional, e ao mesmo tempo, há demandas para arranjos diferentes. A saída é a flexibilização das plantas”, diz. Com relação às varandas, Zaindan não vê problemas. No caso das cozinhas, Zaidan diz que há limitações legais. “O código de obras determina regras de iluminação e ventilação diferentes entre os cômodos e a planta precisa acomodar tudo isso em uma área cada vez menor, por conta dos limites da Lei de Zoneamento.” /L.P.

A HABITAÇÃO NO BRASIL ●

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DE ABRIGO A ÁREA COM UMA LISTA DE 20 FUNÇÕES, O LAR EVOLUIU NO TEMPO

Século 17 O alpendre, com capela e quarto de hóspedes, isola a área onde fica a família da rua

Século 19 Ramos de Azevedo introduz a planta com três zonas: social, íntima e de serviços

Século 20 Com a chegada do modernismo, plantas voltam a ter cômodos com uso múltiplo

A residência brasileira guarda o índio e o europeu Configuração nasceu de hábitos dos nativos submetidos ao código de conduta dos conquistadores Umahabitaçãotemumprograma de necessidades, de onde surge uma lista de cômodos, hoje com no mínimo 20 itens. “É essa lista

que define a planta”, ensina o arquiteto Carlos Lemos, professor da pós-graduação da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP e conselheiro do Museu da Casa Brasileira. Na casa do índio, as primeiras no Brasil, existem dezenas de superposições de funções em um mesmo espaço. “Esse programa foi a base da casa dos bandeirantes,que erammamelucos”,conta.

Acrescida de elementos da planta europeia, determinada por regras da Igreja Católica e do Código Civileuropeu.“Porexemplo,osbreves papais impediam que se exercesse qualquer procedimento católico no âmbito familiar. Os oratóriosecapelasdeveriamserseparados e com acesso independente”,explica.Alémdisso,usosecostumes de origem árabe segregavamamulher,determinandoaseparação do quarto de hóspedes, para hospedagem dos viajantes, hábito comum. Por isso, surgiu o alpendre central, com a capela à direita e o quarto de hóspedes à esquerda.“Aalcovaéresultadoda

moral cristã”, diz o professor. Agrossomodo,essetipodemoradiapersistiunoBrasilruralatéo Império. No século 19, com a entrada do dinheiro vindo da venda de borracha, cana-de-açúcar e sobretudo do café, houve uma modernização desse programa. Divisão. “Veio a moda do mo-

rar à francesa, introduzido por Ramos de Azevedo, que obedecia ao programa com três zonas de funções definidas: repouso, social e de serviços, que tem como coração a cozinha.” A planta deveria satisfazer esse programa e prever uma circu-

lação em que se pudesse ir de uma zona a outra sem passar na terceira. Para facilitar, surgiu o vestíbulo (ou hall), um cômodo de passagem com saída para as três zonas. “Esse esquema durou até a chegada da arquitetura moderna, que não gosta muito disso.Entãoatécerto ponto, voltou a satisfazer o programa antigo, de áreas superpostas”, conta. A existência de plantas à moda francesa, hoje, segundo o professor, é determinada pelo comodismo. “Primeiro tinha os escravos e, depois,asempregadasdomésticas, quefaziamas tarefaschatas.” No que diz respeito aos hábi-

tos, hoje tudo ficou diferente. “A família não se reúne, nem nas refeições. Os filhos ficam confinados nos quartos, onde cada um tem o seu inferninho particular”, diz Lemos. Para evitar conflitos, tem-se de separar o ambiente de cada um, gerando uma dispersão na família. Oprofessordiz quehátolerânciaàsuperposiçãodefunções,diferente entre as classes sociais. “As casas autoconstruídas pelas famílias de operários sobrepõe estar e serviço, enquanto a classe média alta, aceita a sobreposição do ambiente de repouso com o social.”/L.P.

De onde vem a planta da casa onde moramos?  

histórico das modificações de distribução dos ambientes ao longo do tempo

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